PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

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SERGIO CAVALIERI FILHO Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Professor da Universidade Estácio de Sá.

PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA
11ª edição revista e atualizada

Rio de Janeiro 2007

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.......Fontes do Direito .............................SUMÁRIO Abreviaturas e Siglas Usadas ..Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica ..................... 81 Capítulo X ...................Gênese do Direito..... 31 Capítulo V .Direito e Anomia ........................................... IX Capítulo I .............................................................................................................................................................. 75 Capítulo IX ..............................Eficácia das Normas Jurídicas e seus Efeitos Sociais ...................................................................VII Apresentação ........................................................................................................................................................................................................... 149 Capítulo XIII ...........................................A Autonomia da Sociologia Jurídica como Ciência e suas Relações com Outras Ciências Sociais .............Razões Sociais das Garantias Constitucionais dos Magistrados ............................. 57 Capítulo VII ............................ 163 Capítulo XIV ......................................................... 211 Índice Sistemático ................................................................................................................................................... 195 Bibliografia .........................Importância do Estudo das Ciências Sociais e da Sociologia Jurídica em Especial .... 41 Capítulo VI ......................................... 69 Capítulo VIII ....................................................................................................... 97 Capítulo XI ............................................... 175 Capítulo XV .............................................................................................................................................................................................. 185 Capítulo XVI ................Fatores da Evolução do Direito .................................................................................. 127 Capítulo XII ..............................................................Objeto da Sociologia Jurídica .Função Social do Direito ................Aspectos Sócio-Jurídicos de Algumas Áreas do Sistema Jurídico Brasileiro ............................Sistemas de Escolha dos Magistrados............................................................. 1 Capítulo II ..........O Método da Sociologia Jurídica .................... 209 Índice Alfabético-Remissivo ......................... 23 Capítulo IV ........................... 217 ......A Opinião Pública ..............................................................Conceito Sociológico do Direito ..................................... 11 Capítulo III ........................

Rev. CDC CUT DAS DASP Dec. ONU p. PE Prof. STF STM TRE TRT TSE artigo Código de Defesa do Consumidor Central Única dos Trabalhadores Divisão Anti-Seqüestro Departamento de Administração do Serviço Público Decreto Decreto-Lei edição Editora Escola de Magistratura do Rio de Janeiro Estados Unidos da América “International Center of Economic Penal Studies” Imposto sobre a Circulação de Mercadorias Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social Instituto Nacional de Previdência Social Imposto sobre Produtos Industrializados Instituto sobre Serviços Ordem dos Advogados do Brasil obra citada Organização das Nações Unidas página Pernambuco Professor Revista Supremo Tribunal Federal Superior Tribunal Militar Tribunal Regional Eleitoral Tribunais Regionais do Trabalho Tribunal Superior Eleitoral . EMERJ EUA ICEPS ICM INAMPS INPS IPI ISS OAB ob.ABREVIATURAS E SIGLAS USADAS art. cit.-Lei ed. Ed. Dec.

já que. não estarão aptos a aplicá-lo de forma a realizar a sua função social. inclusive uma nova Constituição que. A idéia de que o direito é norma. perdese muitas vezes o sentido de sua finalidade social. valendo-me da feliz imagem de Antunes Varella. o que procurei fazer agora sob o novo título . o extraordinário Código de Defesa do Consumidor e o novo Código Civil. Era preciso atualizar este trabalho. não obstante despretensiosa. ardorosamente defendida por Kelsen.Programa de Sociologia Jurídica. todavia. por sua vez. De lá para cá. na aplicação da lei. sob o título .no propósito de facilitar o estudo dessa cadeira integrante do currículo do Curso de Direito da Universidade Estácio de Sá. já sofreu várias mudanças. Talvez tenha alcançado a sua finalidade porquanto a obra. nada mais do que a norma.Você Conhece Sociologia Jurídica? . foi várias vezes reeditada. “muita água correu debaixo das pontes do direito e inúmeros diplomas foram produzidos nas oficinas legislativas”. .APRESENTAÇÃO Este trabalho foi escrito no início da década de 1980. entretanto. estará recompensado o esforço da sua revisão. no exame diuturno da norma. O Jurídico se compõe de fato. não mudou: continua sendo uma tentativa de transmitir aos estudantes uma visão sociológica do direito. de sorte que se os operadores do direito não tiverem essa visão tridimensional do direito. estando agora em sua 11ª edição. Se de alguma forma este trabalho continuar contribuindo para a melhor preparação dos nossos operadores do direito. tanto é assim que há norma expressa determinando ao juiz atender. O seu objetivo. norma e valor indissociavelmente. aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum. há muito está ultrapassada.

estabelecer a sua fonte ou origem.Capítulo I GÊNESE DO DIREITO Escola Jusnaturalista ou do Direito Natural: a origem do jusnaturalismo. **** Nossa primeira tarefa consiste em conhecer a gênese do Direito. Antes. o conjunto de regras (leis. à educação. No primeiro caso temos o Direito Objetivo. penais. Escola Teológica: origem da Escola Teológica. costumes) que preside à nossa vida em sociedade. como o direito à vida. à propriedade. 1] exigir uma atuação alheia. porém. Escola Sociológica do Direito: origem e concepção sociológica do direito. à liberdade. Escola Racionalista ou Contratual: a concepção do direito do ponto de vista racionalista. No segundo.) destinado a organizar a sociedade e disciplinar a conduta humana na convivência social. à saúde e assim por diante. Essa faculdade corresponde a espaços de liberdade ou a poderes para atuar ou [p. civis. Escola Marxista: origem e concepção do direito. é preciso dizer de que direito vamos tratar já que a palavra direito pode ser utilizada com significados diferentes. a palavra direito indica o direito subjetivo de cada pessoa (física ou jurídica). por exemplo. regulamentos. Fala-se em direito para indicar o conjunto sistemático de normas (constitucionais. quando alguém diz que tem o direito a isso ou àquilo. Mas também encontramos a palavra direito ligada ao direito de cada pessoa. Escola Histórica do Direito. Essas normas são de direito objetivo porque vivem e sobrevivem fora e independentes das pessoas. de fazer ou não fazer alguma coisa. também chamado de Direito Positivo. É uma situação . Costuma-se dizer que o Direito Objetivo é a norma de agir (norma agendi) e o direito subjetivo é a faculdade de agir (facultas agendi). para que depois possamos compreender a sua razão de ser e a função que desempenha na sociedade. a que conferem faculdades de agir. ou seja. administrativas etc.

quando da criação. Por essas razões entendemos necessário. e base de todas as leis. fazer um sucinto apanhado sobre as várias teorias ou escolas existentes. Aristóteles.Heráclito. . de modo a não permitir um entendimento uniforme até o Juízo Final. o mais entusiasta intérprete da filosofia grega entre os romanos.1. teólogos. sociólogos etc. ao trazer à existência a criatura. das regras que organizam a sociedade e disciplinam o comportamento social. até chegarmos àquela que mais se ajusta ao conteúdo da nossa matéria. a estabilidade e a imutabilidade.e foi adotada em Roma por Cícero. De . que constituiriam o direito natural. a fim de traçar-lhe o caminho a seguir e ditar-lhe a conduta a ser mantida. Sócrates. filósofos. vale dizer. cuja origem estaria na Divindade. que a expôs eloqüentemente em sua obra.jurídica subjetiva de vantagem a que o direito objetivo confere proteção direta. permanentes. Seria como um sopro ético com que a Divindade bafejou a sua criação. o direito é um conjunto de idéias ou princípios superiores. imutáveis. portanto. já que se trata de princípios imanentes ao próprio cosmos. eternos. Em nosso estudo vamos tratar do Direito Objetivo. Origem do Jusnaturalismo A concepção do direito natural surge com os filósofos gregos . uniformes. As principais características do direito natural seriam. eternos e imutáveis. 1. Em suma. 1. antes de apresentarmos o enfoque da sociologia jurídica sobre a origem do Direito. e com minúscula quando indica o direito subjetivo. esquecendo-se que pode ser ele enfocado através de pelo menos três aspectos diferentes. ESCOLA JUSNATURALISTA OU DO DIREITO NATURAL Para os jusnaturalistas. plena e específica. outorgados ao homem pela divindade. ponto de referência para se saber o que é justo ou injusto. A palavra Direito é normalmente escrita com letra maiúscula quando se refere ao Direito Objetivo. A razão principal dessa controvérsia está no fato de cada qual procurar ver e conceituar o Direito pelo ângulo de visão de sua ciência. Platão etc. o criador teria inculcado em sua consciência um conjunto de princípios superiores. bom ou mau. Como nasce o Direito? Em tomo dessa questão existiu e ainda existe a mais acirrada controvérsia entre juristas.. como teremos oportunidade de assinalar.

se não ordena nem proíbe em vão aos bons. conforme a natureza. foi escrito pelo próprio dedo de Jeová. já que as primeiras leis não teriam sido simplesmente inspiradas por Deus. não muda por suas ordens nem por suas proibições os maus. entretanto.. pois também concebe o direito como um conjunto de princípios eternos. Hamurabi. a origem do direito não estaria ligada apenas indiretamente à Divindade. Não é preciso procurar um Élio Sexto para comentar ou interpretar. Sólon etc. a saber: o direito divino. hoje.[p. ontem. por isso que coloca em destaque a origem divina do direito e o seu caráter permanente e imutável. em duas tábuas de pedra. No seu entender. baseado nas Escrituras e nas . mas sim diretamente. Com o aparecimento do Cristianismo. reta razão. eterna. mas sim. amanhã.República: “Existe uma lei verdadei. segundo a narração bíblica. e entregue a Moisés. o estudo do direito voltou a ser abrangido pela religião e continuou a ser considerado manifestação da vontade divina. ordenando-o.. difusa em todos. no entanto. Em quase todos os povos antigos encontramos líderes político-religiosos. “ Esse trecho de Cícero sintetiza com precisão a concepção jusnaturalista. a própria Divindade teria se empenhado em elaborar as primeiras leis. lei única e eterna e imutável. como Moisés. Manu. que. de origem quase legendária. 2. constante. É de instituição divina que não se possa propor ab-rogar essa lei e que não seja permitido derrogá-la. ESCOLA TEOLÓGICA A Escola Teológica em muito se assemelha à Jusnaturalista. que apela para o que devemos fazer. e que desvia do mal. ela será para todas as nações e para todos os tempos. em todas as nações e para todos os tempos.. não é diferente hoje nem será amanhã.. entregando-as ao homem para serem observadas. semideuses. como por exemplo o decálogo que. que foram os intermediários entre a Divindade e o povo no que diz respeito ao recebimento das primeiras leis. permanentes e imutáveis.... sobre o Monte Sinai. mas escritas e outorgadas por Ele.1. 2. 2] ra. que ela proíbe. para o qual existiriam três categorias de direito. Origem da Escola Teológica A Escola Teológica coexistiu com a Jusnaturalista durante toda a antigüidade. A concepção do direito se explana dentro do sistema filosófico de São Tomás de Aquino. Em suma. ela não é diferente em Roma ou em Atenas.

ESCOLA RACIONALISTA OU CONTRATUAL Na Escola Racionalista ou Contratual agrupamos vários filósofos. mas sim a natureza racional do homem . nenhum poder. seguido por Thomas Hobbes (autor de o Leviathan). em todos os tempos.decisões dos Papas e de [p. publicada pela primeira vez em 1625). 3] Concílios. A Concepção do Direito do Ponto de Vista Racionalista Para os racionalistas. só existe no espírito divino. culminando com Jean Jacques Rousseau. O Direito positivo. a começar por H. a mais importante figura do liberalismo dessa época. 3. duas são as categorias de direito. lei natural e lei humana). fundando a sociedade através de um pacto. entretanto. São Tomás de Aquino tratou de explicar que a primeira. autores de obras notáveis.imutável diante de qualquer vontade divina ou humana. é produto dos homens. O caráter permanente e imutável do direito decorreria do fato de ser a natureza racional do homem igual por toda a parte. por provir de Deus. divino ou terreno. em conseqüência. As relações dos homens em sociedade seriam disciplinadas pelas regras do direito positivo. não mais seria a divindade. embora tenha como conteúdo a lei natural. a segunda é existente entre os homens por intuição. o célebre “contrato social” que serve de título a um dos livros mais famosos de Rousseau. ou órbitas jurídicas. como foi ilustrado por Daniel De Föe na conhecida história de Robinson Crusoé. alcançaria mudar. não se distinguindo. Montesquieu (Espírito das Leis). autor da conhecida obra Contrato Social. Grotius (De Iure Belli ac Pacis. Reunindo esses três tipos (lei divina. continuaria sendo um conjunto de princípios permanentes. por cujo intermédio aplicam-se os princípios da lei natural. No início o homem teria sido isolado. Thomasius. a saber: a do direito natural e a do Direito positivo. [p. estáveis e imutáveis. por sua vez. que em quase nada se diferencia do direito natural apregoado pelos gregos e romanos. Quanto ao direito natural. e da qual decorreriam princípios que. A origem desse direito. o direito natural. e a terceira. Puffendorf. os homens tiveram a idéia de viver juntos. e o direito humano. do jusnaturalismo. decorreria do pacto social a que o homem fora levado a celebrar para viver em coletividade. 4] . 3. neste ponto. John Locke. Para sair do isolamento.1.

Em ocorrendo tal afastamento.Entre o direito natural. Embora se tenha pensado que a linguagem fora criada por Deus. mas sim da consciência coletiva dos povos (Volks geist). não da divindade ou da razão. tal como há entre o espírito e o corpo. 5] . deslocou pela primeira vez a sua fonte . impõe-se a imediata reformulação do Direito positivo a fim de ajustá-lo aos imutáveis princípios do direito natural. Inúmeros vocábulos surgem em uma língua à medida que vão se tornando mais complexas as relações sociais. no final do século XVIII e começo do século XIX.de Deus para a própria razão do homem. Em vez de indagar o que deveria ser o direito. Pela primeira vez. e serve de fundamento para o segundo. a filosofia demonstrava que sua gênese. como se vê. Esta escola. A formação do Direito seria tão natural e espontânea como a origem da linguagem. sujeito a transformações progressivas. 4. A escola inicia as suas atividades em pleno apogeu do neo-humanismo. decorrente. tendo como principais protagonistas Gustavo Hugo e Frederico Charles de Savigny. não podendo deles se afastar sem se tomar injusto e iníquo. ao admitir que o direito natural tem origem na natureza racional do homem. por força das necessidades e usos do povo. formado gradativa e paulatinamente pelas tradições e costumes. essa escola rebelou-se contra a existência de um direito natural. e o Direito positivo. aquele conjunto de princípios imutáveis decorrente da razão. Também o Direito se constituíra naturalmente. haveria entretanto uma íntima e estreita relação. a sombra e a realidade. Equivale isso a dizer que o Direito positivo deve respeitar os princípios fundamentais do direito natural por lhe serem superiores. ao passo que em outras o número de palavras é ainda reduzido por causa da estagnação da vida social. passou a pesquisar como se formava nas sociedades. ESCOLA HISTÓRICA DO DIREITO A Escola Histórica do Direito surgiu na Alemanha. Para ela. quando o direito era considerado pura criação da razão humana. como a linguagem. o processo de sua formação foi gradativo e paulatino. o Direito era um produto histórico. decorrente das necessidades e usos do povo. ou era resultado de um acordo entre os homens. permanente e imutável. superior. visto que o primeiro é anterior. [p. este último considerado o seu fundador.

Como assinala Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. foi neles que se inspirou para formar suas idéias sobre o direito. as relações econômicas que predominam em uma sociedade em certo momento histórico.Karl Marx e Friedrich Engels .política.1. o Direito pressupõe o Estado. acima de tudo. aplicando uma regra a uma situação preexistente. que também une intimamente o Direito ao Estado. instrumento ideológico de dominação da burguesia sobre o proletariado. nem pela razão. como se vê. 6] Essa concepção do Direito deve muito a Regel. A grande preocupação da Escola Histórica. com seus dois elementos essenciais: continuidade e transformação. nem estabelecido arbitrariamente pela vontade dos homens. Marx. que incide sobre diferentes pessoas. com a diferença essencial de que o Estado para ele é uma instituição . Seduzido pelos ensinamentos de Hegel. fez seus estudos na Faculdade de Direito de Berlim. nem revelado por Deus. mas sim pela consciência nacional do povo. jurídica e economicamente organizada. em vez de um direito geral e universal. regra essa única. mais economistas do que juristas. Origem e Concepção do Direito Para a teoria marxista. ESCOLA MARXISTA A teoria marxista surgiu em meados do século XIX. 5. enunciada por dois pensadores alemães . 276). expressão natural de sua evolução histórica. [p. sujeito a permanente e natural evolução. p. 5. costumes e tradições de todas as épocas passadas. A escola mostrou que os fundamentos do direito se encontram na vida social. com uma fonte emanadora do preceito jurídico e um órgão capaz de impor o cumprimento de suas prescrições. razão pela qual Marx o considerava a expressão do interesse da classe dominante. Fixa o Direito. de seus usos. Surge somente quando há uma sociedade .Seguindo essa linha de raciocínio. pelo que se esforçou em demonstrar que o direito era um produto histórico. foi afastar a concepção do direito natural. cada povo em cada época teria o seu próprio direito. Isso significa que o Direito apenas sanciona uma relação já existente. “é conquista definitiva da Escola Histórica a noção do caráter social dos fenômenos jurídicos. ainda que sejam em tudo desiguais. entretanto. entendia Savigny que.dois grandes reformadores sociais. sendo igualmente filósofo. Eram esses fundamentos que as teorias precedentes iam buscar na razão”.

já existiam regras disciplinadoras do relacionamento social. Esse direito. Não é esta efetivamente a finalidade do Estado. ao passo que para Marx. Ao lado da manutenção da ordem estabelecida. [p. fazendo-a voltar aos seus reais objetivos.eminentemente respeitável. não em Deus. É falso. a fim de facilitar desde logo a compreensão de questões que oportunamente serão abordadas. por mais homogênea que tenha sido. Embora não seja nosso propósito. entendemos necessárias algumas considerações sobre a teoria marxista. pôde viver sem normas de conduta. Tal posição. manifestando-se essencialmente através dos costumes. quase divina. assume uma infinidade de funções que visam o bem-estar público: a distribuição da justiça. muito antes da sociedade se organizar política e juridicamente. não existindo Direito sem Estado nem Estado sem Direito. o Estado. apresenta caracteres particulares. é explicada pelo espetáculo da miséria que grassava na época. mas. Na síntese da teoria marxista. ESCOLA SOCIOLÓGICA DO DIREITO A Sociologia e o Direito durante muito tempo ignoraram-se mutuamente. nem na razão ou na consciência coletiva. Não menos falsa e truncada é a afirmação de ser o Estado instrumento de pressão da classe dominante sobre a menos favorecida. que tem por missão manter a ordem e a paz na sociedade. ibi jus). afirmar que todo Direito emana do Estado. por exemplo. neste modesto trabalho. Em tempo algum uma sociedade. em grande parte sentimental. e por isso devendo ser combatido e destruído. sobretudo o Estado moderno. hostilizaram-se mesmo. mas sim corrigi-la. é direito. e pelo apoio que a classe dirigente concedia aos capitalistas beneficiários desse regime. nem por isso deve-se eliminar a instituição. mesmo antes de existir o Estado. e que não existe direito nas sociedades chamadas primitivas. mas no Estado. que constitua o cerne essencial e perene do direito. fazer críticas a qualquer das teorias examinadas. Se aqui ou acolá o Estado divorciou-se de suas verdadeiras finalidades. Simplesmente porque existe moeda falsa não se deve acabar com a verdadeira. sendo errônea a idéia de que. sobretudo nas regiões industriais que Marx pôde conhecer. o Direito tem origem. O encontro entre as duas ciências ocorreu paulatinamente a partir de . indiscutivelmente. a divulgação da instrução. Qualquer observador é capaz de constatar que muito antes de existir o Estado. que deve ser combatido por todos os meios e finalmente destruído. Não tem valor igualmente o pressuposto de que haja um substrato eterno. aí fatalmente encontraremos o Direito (ubi societas. 7] 6. o Estado é instrumento de pressão. desde que apareça a sociedade. é verdade. a proteção da saúde e da segurança públicas etc.

Além de Durkheim. mas sim filósofo. O Direito é. A sua causa material está nas relações de vida. A razão disso é bastante simples: sendo o homem um ser social. razão pela qual cada povo tem a sua história e seus fatos sociais. A sociedade humana é. Existindo em função da sociedade. cuja história não passa de utopia. . conforme as suas peculiaridades. Ele existe na sociedade. necessita de uma organização que. Sem ser jurista.Principles of Sociology. é fonte criadora e área de ação do Direito. cuja elaboração é lenta e espontânea da vida social. merecem destaque Léon Duguit e Nordi Greco. culmina nos últimos anos do século XIX com Émile Durkheim. Costumes diferentes implicam fatos sociais diferentes. carecemos de regras de proceder. o Direito deve ser estabelecido à sua imagem. normas de disciplinamento da vida em coletividade. ao mesmo tempo. a quem coube o trabalho de fixar definitivamente as relações entre o direito e a sociologia. entre os fundadores da Escola Sociológica. práticas e condutas que refletem os seus costumes. Obrigados a viver necessariamente ao lado uns dos outros. provindo da consciência das relações entre os indivíduos. como Robinson Crusoé em sua ilha. refletindo os fatos sociais. nos acontecimentos mais importantes para a vida social. entendendo-se como tais os acontecimentos da vida em sociedade. justamente. no entendimento de Émile Durkheim. pois a idéia do direito liga-se à idéia de conduta e de organização. portanto. seu foco de convergência. sentimentos e cultura. onde há um capítulo dedicado às leis. tradições. coube-lhe o mérito de ter reconhecido e evidenciado a natureza eminentemente social do direito. Esta organização pressupõe regras de comportamento que permitam a convivência social. Passando por vários autores. 8] Paulo Nader sintetiza com maestria essa visão sociológica: “Direito e sociedade são entidades congênitas e que se pressupõem. complexo de pessoas e coisas. E o Direito não pode formar-se alheio a esses fatos por ser um fenômeno decorrente do próprio convívio do homem em sociedade. não pode viver isolado. O Direito não tem existência em si próprio. A sociedade. A sociedade.1882. discipline a atividade dos indivíduos. [p. o conjunto de normas que regulam a vida social. orientando a vida coletiva.1. o Direito tem a sua origem nos fatos sociais. Origem e Concepção Sociológica do Direito Para a Escola Sociológica. maneiras de agir. que significam. de pensar e de sentir. quando foi publicada a obra de Herbert Spencer . o meio em que o Direito surge e se desenvolve. 6. Depois da Segunda Guerra Mundial verificou-se uma ligação mais ativa e fecunda entre sociólogos e juristas. valores.

pp. não haveria o direito sem sociedade. pois. Em suma. e não da natureza física ou do mero psiquismo dos seres humanos. segundo a forma exata de Sforza. Direito é realidade da vida social. filósofos e juristas.. Enquanto teve por fundamento a razão. Daí a veracidade de antigo brocado: ubi societas.. 1990. não como tendo origem em Deus. Criado pelo homem. O acesso à Justiça passou a ser a sua . com os fatos que nela ocorrem. portanto. p. nem na consciência do povo. oriunda da sociedade e para a sociedade. enquanto o Direito teve origem divina apenas os nobres. ibi societas . normas ditadas pelas próprias necessidades e conveniências sociais. o que permitiu que se afirmasse: “Não existe o direito e o fato. cit.. a ele tinham acesso os sábios. Saraiva. nem na razão. Com efeito. pp. considerar o Direito. 25/26). a vinculação entre ambas é tal que um não pode existir sem o outro. O Direito tem. como o são os grupos onde se originam. O que caracteriza a Escola Sociológica é. as relações sociais. 2). Dignas de destaque as palavras do insigne Paulo Nader: “A sociedade sem o Direito não resistiria. e nem ainda no Estado mas sim na sociedade.onde está o Direito está a sociedade -. para corrigir a sua imperfeição. ibi jus onde está a sociedade está o Direito. As normas do Direito são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo no grupo. o fato e o direito existem enquanto coexistem” (João Calvão da Silva. 9] grande coluna que sustenta a sociedade. o Direito representa o grande esforço para adaptar o necessidades de vida” (ob.exteriores ao indivíduo. Responsabilidade Civil do Produtor. O Direito é a [p. A democratização do Direito pode ser apontada como uma das mais relevantes conseqüências da Escola Sociológica. uma relação dialética com a realidade social. O Direito é para a Sociologia Jurídica uma ciência essencialmente social. Uma de suas características é asocialidade. Coimbra. pois o mundo do direito é o das relações entre os homens. mais especificamente. 21a ed. a sua qualidade de ser social” (Lições Preliminares de Direito. Não são regras imutáveis e quase sagradas. nas inter-relações sociais. 6/7). Mas a recíproca é também verdadeira: ubi jus. Almedina. pois. teria o seu fim. dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (Introdução ao Estudo do Direito. jamais poderia germinar em sua consciência a idéia do direito. Se o homem não vivesse em sociedade. p. O Direito foi democratizado quando passou a ter origem na sociedade. mas sim variáveis c em constante mudança. 25). sacerdotes e altas castas sociais a ele tinham acesso. Forense. seria anárquica. 12a ed. Assevera o Mestre Miguel Reale: “O Direito não existe senão na sociedade e não pode ser concebido fora dela.

10] . razão pela qual serve-lhe de base doutrinária. as praças e fez-se linguagem de todo o povo. A Escola Sociológica. o povo passou a ter consciência dos seus direitos como aspecto da cidadania. [p.principal finalidade. é aquela que se concilia inteiramente com o conteúdo de nossa matéria. como não poderia deixar de ser. o Direito ganhou as ruas.

abandonando uma coisa sua. pratica. e como tal tem sua origem. realiza um ato de derelicto. Como lembrou Ruggiero (Inst. 11] cigarro ou charuto. embora ignore. tomando o vizinho proprietário da semente lançada e dos seus eventuais frutos. nem na razão. um fato social. I. pois dá origem a uma figura de acessão. Critérios de composição de conflitos: composição voluntária.mas sim na própria sociedade. Função compositiva do direito. . 7. nem na consciência coletiva dos povos. uma peculiaridade da sociedade humana. Função preventiva do direito. o camponês que. A PRESENÇA DO DIREITO NA SOCIEDADE Nem todos têm idéia de quanto o Direito se faz presente no meio social. que deita fora o resto do seu [p. O fumante. conforme vimos no capítulo anterior. semeando o seu campo. 11/12). Atividades de cooperação e de concorrência. É difícil praticarmos um ato que não tenha repercussão no mundo do direito. nas inter-relações sociais. Por conseguinte. critério da composição jurídica e suas características. adquirindo a propriedade duma res nullius. de Direito Civil. O banhista. pp. deixa cair algumas sementes sobre o campo vizinho. Características da atividade de concorrência. de como está entrosado com quase tudo que se passa na sociedade. trata-se de uma ciência essencialmente social. não na Divindade. O conflito de interesse e sua composição. que apanha na praia a concha preciosa trazida pelas ondas. A função social do Direito na atual ordem jurídica brasileira. critério autoritário. um ato jurídico. **** O Direito do ponto de vista sociológico é. a satio. vol. pratica uma ocupatio. participando das mais simples às mais complexas relações sociais. tampouco no Estado .Capítulo II FUNÇÃO SOCIAL DO DIREITO A presença do direito na sociedade.

a dona de casa. coopera na realização dos interesses dos outros.Tenha ou não consciência disso. isto é. quer se trate de relações entre indivíduos. Envolvem fins ou objetivos comuns. Os interesses dos dois convergem para um ponto comum. não precisando usá-la para sua própria moradia ou instalação. o Direito invade e domina a vida social desde as mais humildes às mais solenes manifestações. entretanto. Exemplo de atividade de cooperação é a do vendedor e a do comprador: o vendedor tem mercadorias para vender e o comprador tem interesse [p. temos antes que analisar as atividades que o indivíduo desenvolve na sociedade. podem ser reduzidas a dois tipos: atividades de cooperação e atividades de concorrência. pelo restante de sua sobrevida. o Metrô. através do qual. Atividades de Cooperação e de Concorrência As atividades humanas assumem formas múltiplas. quer entre o indivíduo e o grupo social. As primeiras caracterizam-se pela convergência de interesses. quer se trate ainda de relações entre os próprios grupos. E se por infelicidade ocorrer um acidente do qual resulte lesão ou morte para alguém. será a transportadora obrigada a indenizar os prejuízos. mediante o simples pagamento da passagem. propõe-se a ceder seu uso a outrem. Diariamente. necessita delas. econômicas ou não. tudo aquilo que a vítima efetivamente perder e aquilo que deixar de ganhar em razão do acidente. quando adquire uma simples caixa de fósforo no quiosque ou gêneros alimentícios no supermercado. segundo a magistral lição de San Tiago Dantas. quando milhares de pessoas tomam o trem. até inconscientemente. segundo as regras do direito.1. um contrato de transporte. Por que o Direito se faz assim presente na sociedade? Qual é a sua função social? É o que procuramos responder neste capítulo. 7. envolvendo danos emergentes e lucros cessantes. Graficamente podem ser ilustradas assim: >. e à medida que se empenha na realização dos seus interesses. a transportadora se obriga a levá-los incólumes ao ponto de destino. realizam. ônibus. Como se vê. como a família e o Estado. Um indivíduo desenvolve uma atividade qualquer. mas todas elas. cooperando assim cada qual na realização do interesse do outro. ou outro qualquer transporte público. mediante o pagamento . as suas características e o que podem gerar. 12] em adquiri-las. Para bem compreendermos a função social do Direito. de que o outro diretamente se aproveita. O mesmo se diga do indivíduo que tem um prédio e. realiza um contrato de compra e venda.

à medida que cada qual desenvolve sua atividade. propõe-se a pagar o aluguel pretendido pelo locador. pois não convergem para um interesse comum. O médico. O CONFLITO DE INTERESSE E A SUA COMPOSIÇÃO Tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência podem ocorrer conflitos de interesses. o advogado e outros profissionais liberais desenvolvem este tipo de atividade em relação aos seus clientes. sem a interferência ou colaboração do outro. A interação. A interação se manifesta direta e positiva.2. Nesse momento rompe-se o perfeito equilíbrio que deveria haver na atividade de cooperação. no sentido de que perseguem. paralelas. necessitando de um prédio para morar. em posição de competidor ou concorrente. Graficamente podem ser ilustradas assim: =. sob muitos aspectos. para a consecução de seus objetivos. que os colocam. Na competição há uma disputa. de sorte que. ainda que concorram entre si. São concorrentes. . cit. 23). 7. p. fins semelhantes. Nelas. Características da Atividade de Concorrência Há paralelismo nas atividades de concorrência. Outro exemplo encontramos em dois proprietários de prédios vizinhos: cada um pode usar sua propriedade como quiser. se faz indiretamente e. mas este se recusa a atendê-lo. um em relação ao outro.de aluguel. desenvolvem atividades independentes.. estabelecidos na mesma rua e no mesmo ramo de comércio. dão-nos um exemplo de atividade de concorrência: eles poderão explorar seu comércio indefinidamente sem entrar em choque. coopera na realização do interesse do outro. em que cada pessoa ou grupo procura reunir os melhores trunfos. A lição de Paulo Nader bem sintetiza o que dissemos até aqui: “Na cooperação as pessoas estão movidas por um mesmo objetivo e valor e por isso conjugam o seu esforço. por exemplo. Há reciprocidade de interesses entre o locador e o locatário. positiva (ob. e surge o conflito. por sua vez. independentemente. embora tenham objetivos idênticos. esta forma revela atividades paralelas. já que não o possui. uma visando a exclusão da outra. nunca se encontram. Outro indivíduo. dois indivíduos. em que as partes procuram obter o que almejam. Uma das grandes características da sociedade moderna. uma concorrência. 8. verifica o comprador que há algum defeito que impede ou prejudica seu uso. ou para obter outra mercadoria em perfeito estado. nesta espécie. [p. 13] após pagar o preço e receber a mercadoria. Na atividade de cooperação. Dois comerciantes. Procura então o vendedor para devolver o material e receber de volta o valor pago.

estabelecidos na mesma rua com o mesmo gênero de comércio. continuarão em harmonia. Sobre o tema. prejudica o conforto dos que nele residem. Pode um deles até vender mais barato que o outro. solicita-lhe uma providência. alugá-lo. a partir de então. apesar de concorrentes. e com isso ganhar a clientela do outro. Paulo Nader pondera com propriedade: “O conflito se faz presente a partir do impasse quando os interesses em jogo não logram uma solução pelo diálogo e as partes recorrem à luta. ou oferecer melhores produtos. Entre esses dois estabelecimentos comerciais. muito constante nas grandes cidades. Estará rompida a convergência de interesses existente no momento da celebração do contrato e. moral ou física. surge um conflito. após firmar contrato de locação e alojar-se no imóvel.. por exemplo. por último. Este tipo de conflito. Se o proprietário do imóvel A mantiver em funcionamento sua fábrica. instalar-se comercialmente etc. Lembram-se dos proprietários de prédios vizinhos? Vimos que cada um pode usar seu imóvel como melhor lhe parecer: residir nele. o caso de dois condôminos residentes no mesmo prédio. quando as partes vão além daquilo que lhes é lícito fazer no campo do seu próprio interesse. é característico da atividade de concorrência. enquanto não transpuserem os limites daquilo que lhes é lícito. O condômino prejudicado [p. Suponhamos por exemplo que o proprietário do imóvel A nele instale uma fábrica que solta fumaça e fuligem. um no apartamento 201 e o outro no andar imediatamente superior. a lavanderia do imóvel B não poderá funcionar. na verdade nada faz. No momento porém em que o comerciante A resolver fazer uma concorrência indevida ou desleal ao comerciante B. Um belo dia. Consideremos. Conflitos surgem igualmente nas atividades de concorrência. Podemos defini-lo como . ambos estarão em conflito.Pensemos agora no caso do inquilino que. dizendo. Cada qual poderá também usar seu imóvel como bem lhe convier. ou buscam a mediação da justiça. recusa-se a pagar os aluguéis convencionados. danifica os móveis. coloca-o a par da situação. entretanto. ambos situados num bairro industrial e exercendo atividades lícitas. 14] procura o proprietário do imóvel superior por várias vezes. no apartamento 301. e o proprietário do imóvel B aí se estabeleça com uma lavanderia. mas este. o imóvel do andar superior começa a apresentar vazamento no imóvel inferior: umedece as paredes. onde há uma infinidade de condomínios. a despeito de insistentemente procurado pelo locador. estaremos diante de um conflito de atividades de concorrência. Aqueles dois comerciantes. embora prometa resolver o problema. que a sua honestidade é questionável etc. que seus produtos são de baixa qualidade.

evitará entrar em conflito com outrem na sociedade. segundo valores de convivência que a própria sociedade elege. FUNÇÃO PREVENTIVA DO DIREITO O conflito gera o litígio e este. À medida que cada um respeitar o disciplinamento estabelecido pelo Direito. mais se sujeita a novas formas de conflito e o resultado é o que hoje se verifica. No conflito a interação é direta e negativa. muito mais para evitar que os conflitos ocorram do que para compô-los. estabelecendo as limitações necessárias ao equilíbrio e à justiça nas relações. como alguém afirmou. O Direito só irá disciplinar as formas de cooperação e competição onde houver relação potencialmente conflituosa.oposição de interesses. 15] Esse é também o entendimento de Paulo Nader. O que determina a natureza do conflito é a natureza da atividade. A sua finalidade é a de favorecer o amplo relacionamento entre as pessoas e os grupos sociais. para todos. Quanto mais complexa a sociedade. e conflitos de concorrência. quebra o equilíbrio e a paz social. estabelecendo regras de conduta na sociedade: direitos e deveres para locador e locatário. cit. Todos os conflitos que podem surgir na vida social são redutíveis a um desses tipos: conflitos de cooperação. tanto quanto possível.” Conclui o prestigiado autor: “Os conflitos são fenômenos naturais à sociedade. a colisão de interesses. 23). o ordenamento jurídico toma possíveis os nexos de cooperação. Muita gente acredita que o Direito tem um caráter essencialmente repressivo. O Direito previne conflitos através de um conveniente disciplinamento social. vendedor e comprador. em que o maior desafio não é o de como viver e sim o da convivência” (ob. . Ao separar o lícito do ilícito. os que ocorrem na atividade de cooperação. podendo-se até dizer que lhe são imanentes. que é uma das bases do progresso da sociedade. simplicidade e concisão de suas regras. [p. por sua vez. A sociedade não tolera o estado litigioso porque necessita de ordem. tranqüilidade.. 9. equilíbrio em suas relações. não conciliados pelas normas sociais.” Aduz que a função preventiva é exercida para “evitar desinteligências quanto aos direitos que cada parte julga ser portadora. e aí está a primeira e principal função social do Direito . p. Por isso.. repetidamente citado: “O Direito está em função da vida social. os que se verificam na atividade de concorrência. algumas de suas qualidades” (ob. p. tudo faz para evitar ou prevenir o conflito. cit.prevenir conflitos: evitar. 25). Isto se faz mediante a exata definição do Direito. mas na realidade assim não é. entre pessoas ou grupos. que deve ter na clareza. O Direito existe muito mais para prevenir do que para corrigir. quanto mais se desenvolve. enfim.

é inevitável. 25). Ela se faz por um amplo relacionamento humano. isolado. alegrias e sofrimentos do homem. Vivendo porém em grupo precisa limitar-se.O Direito. mas que promove. Pois bem: surgindo o conflito. possuindo idênticos instintos e necessidades. portanto. é natural o aparecimento de conflitos sociais. quanto mais complexas as relações sociais. visando atender uma necessidade social. de sangue. E como ocorrem! Basta entrar numa Vara de Família para se ter consciência dos conflitos que estão ocorrendo no lar. a colaboração. que vão reclamar soluções. os membros ligados por vínculos de afeição. 16] amor. p. lamentavelmente. Quanto maior o relacionamento. maior será a possibilidade de conflito. comportar-se. o [p. pais. a intolerância. Aqui é um vendedor que recebe o preço mas não quer entregar a coisa. cit. A sociedade reclama que as coisas sejam repostas num ponto de equilíbrio em que possam permanecer. mas o conflito. pondera Paulo Nader. E aí está a segunda grande função social do Direito: compor conflitos. Sem essas normas de conduta. e. todas objetivando prevenir conflitos. . a discórdia. “Cenário de lutas. a sociedade não é simples aglomeração de pessoas. os conflitos seriam tão freqüentes de modo a tomar impossível a vida em coletividade. Se o indivíduo vivesse só. Suas normas são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo na sociedade. acolá. 10.. um locatário que não quer pagar o aluguel e assim por diante. Os litígios surgidos criam para o homem as necessidades de segurança e de justiça” (ob. filhos etc. respeitar direitos e interesses dos outros. Superar um conflito de interesses é aquilo que chamamos composição. que gera a amizade. as desavenças. com inúmeras normas de direito disciplinando as relações dos cônjuges. é uma ciência social. Até mesmo na família. porque nem todos na sociedade submetem-se à disciplina imposta pelo Direito. o menor e mais forte grupo social. vejam só. pois poderia viver e fazer o que bem entendesse. igualmente.. maior também a necessidade de disciplina e organização. não necessitaria de regras de conduta. há que solucioná-lo. Vivendo em ambiente comum. como vemos mais uma vez. estes acabam por ocorrer. FUNÇÃO COMPOSITIVA DO DIREITO A observância das normas previne muitas ocorrências.

porque isso. e determinar qual o que deve prevalecer e qual o que deve ser reprimido.o conciliador ou o árbitro. é impossível. Temos ainda a Lei de Arbitragem (Lei nº 9. cit. antes da causa ser submetida ao julgamento do juiz togado. formas mistas que estimulam e valorizam a participação dos litigantes na composição do conflito. imediatamente. volta à livraria.099/95) prevê expressamente (arts. as partes discutem entre si e o resolvem da melhor maneira possível. Houve um conflito de interesses . a rigor. 277/278) como no ordinário (art. Ao chegar em casa observa que lhe faltam algumas páginas. colocar os dois interesses em antagonismo na balança. Surgindo o conflito. conduzi da via de regra por [p. 3) Critério da composição jurídica. ob. como já vimos. substitui o livro defeituoso por outro perfeito. . 331). O Critério da Composição Voluntária É aquele que se estabelece pelo mútuo acordo das partes. por mais que se procure preveni-lo. 17] conciliadores. formas puras de composição voluntária.1. A mais moderna legislação processual no mundo todo tem estimulado a composição voluntária como forma de aliviar a sobrecarga do Judiciário. Esse é o sentido de toda composição. uma vez que sempre contarão com a interferência de um terceiro . quase sempre atentando para os próprios deveres e obrigações estatuídos pelas normas do direito. A conciliação e a arbitragem não são. CRITÉRIOS DE COMPOSIÇÃO DE CONFLITOS 1) Critério da composição voluntária. No Brasil. da qual poderão valer-se todas as pessoas capazes de contratar para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis. reclama ao vendedor e este. determinar a restauração da situação anterior ou aplicar penalidades de diferentes tipos” (Paulo Nader. O estudante. São. p. seja para definir o titular do direito. O Código de Processo Civil também estabelece uma audiência prévia de conciliação tanto no procedimento sumário (arts.307/96). 11. “O Direito apresenta solução de acordo com a natureza do caso. por exemplo. a Lei dos Juizados Especiais (Lei nº 9.resolvido por meio da composição voluntária. então. A maneira de solucionar o conflito é. entra numa livraria e compra um livro.Em que consiste a composição de um conflito? Não consiste em fazer desaparecer o conflito. todavia.. 11. Não se pode evitar o conflito. 2) Critério autoritário. 21 a 24) uma fase de conciliação. 25).

alguns casos de composição tomaram-se famosos.3. bem solucionou o conflito. Todos por certo já ouvimos falar na justiça salomônica. Deve ter sido elaborado antes para poder ser aplicado ao conflito que ocorrer depois. Na sociedade de hoje o critério autoritário é ainda utilizado no meio familiar.2. do próprio senso de Justiça. são imperfeitos e insuficientes para resolver conflitos de interesses que surgem nas sociedades humanas. lançando mão de soluções que vai buscar em seu foro íntimo. e na célebre fórmula usada pelo Rei para resolver um conflito entre duas mulheres que disputavam a mesma criança. iria cortar a criança ao meio. justamente aquele que mais nos interessa. empregados etc. A anterioridade é o traço característico e fundamental da composição jurídica.Rei. O chefe da família muitas vezes tem de resolver os conflitos de interesses que surgem entre os seus membros. dando uma metade para cada mulher. O Rei Salomão mandou trazer uma espada com a qual. O Critério da Composição Jurídica e suas Características A composição jurídica é sempre feita mediante um critério elaborado e enunciado anteriormente.11. para desempenhar a tarefa de compor conflitos. a publicidade e a universalidade. filhos.a anterioridade.. preferindo que seu filho. saímos do domínio do puro autoritarismo e entramos no domínio do direito. 18] partir de então. 11. Graças à anterioridade. fosse entregue à falsa mãe. É aí que se apresenta o terceiro critério. e implica em dizer que o critério aplicado preexiste ao conflito. quando estas atingem sua forma plenamente evoluída.aquela que imediatamente se opôs à idéia. O Critério Autoritário Por esse critério. o poder de compor os conflitos de interesses que ocorrem entre os indivíduos que se encontram sob sua autoridade. Cacique. disse. São pois características do critério jurídico . menos perfeitas. . Estes dois critérios. Senhor etc. ambas reclamando-a como filho.. Assim pôde constatar qual era a mãe verdadeira . e aplicável a todos os casos que ocorrerem a [p. parentes. daquilo que a consciência lhe inspira. entretanto. cabe ao chefe do grupo . vivo. Muito usado este critério nas sociedades antigas. Foi uma solução tirada por Salomão do seu foro íntimo e que. Normalmente a autoridade lança mão do seu foro íntimo. no caso.

a elevação do nível cultural do povo. o bem comum. cit. Por universalidade entende-se que o critério jurídico nunca pode ser cominado apenas para um determinado caso concreto. destacamos as duas principais funções que o Direito realiza na sociedade. A segunda é a de compor conflitos. é a ordenação daquilo que cada homem pode realizar sem prejuízo do bem alheio. p. da tecnologia. A primeira é a de prevenir conflitos. “O Direito. . Composição jurídica é somente aquela que obedece a um critério anteriormente elaborado e também previamente dado à publicidade. em última instância. a rigor. diz Paulo Nader.. promovendo ainda a formação de uma consciência nacional”(ob. uma posição harmônica do bem de cada um com o bem de todos” (ob.4. na atualidade é um fator decisivo para o avanço social. revelado. para que a composição seja jurídica. é necessário que se dê conhecimento do critério antes de sua aplicação. Além de garantir o homem. mas sim para todos os casos que se apresentarem com a mesma tipologia. na composição jurídica. Em suma. 19] nem a média do bem de todos. o progresso das comunicações. que atenda à universalidade dos casos que se apresentarem dentro do mesmo tipo. Alguns autores preferem falar em generalidade em lugar de universalidade. que podem ocorrer tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência.. declarado pela autoridade que o elaborou. cit.O que se entende por publicidade? Não basta. 11. p. Isto ele faz através do adequado disciplinamento das relações sociais. tomando-o conhecido. que acabam por ocorrer não obstante toda prevenção exercida pelo direito. Modernamente a sua missão é muito mais ampla uma vez que lhe cabe. Concluindo. da produção das riquezas. muito embora este último termo seja mais usado. 27). 59). É preciso também que o critério tenha sido anunciado. A Função Social do Direito na Atual Ordem Jurídica Brasileira Cumpre por último registrar que o Direito não desempenha apenas essas duas funções na sociedade. que o critério tenha sido elaborado antes do conflito. e isto ele faz através do critério jurídico. tem que ser realizada através de um critério anteriormente estabelecido e perfeitamente enunciado para conhecimento de todos. pois isto implica a universalidade. Quer isto dizer que todos os conflitos idênticos que surgirem após a elaboração e divulgação do critério deverão se compor pelo mesmo critério. prover o bem comum. [p. favorece o desenvolvimento da ciência. que na belíssima lição de Miguel Reale “não é a soma dos bens individuais.

A atual ordem jurídica brasileira dá grande ênfase à função social do Direito. ter afirmado que a socialidade é uma das suas principais características. 5°. Valer-se do direito para colimar resultados contrários à sua instituição. mais do que um direito subjetivo. 20] ao bem comum. ser exercido contra a finalidade social que a lei teve em mira quando o reconheceu e protegeu. repita-se. 186).. Temos ali uma cláusula geral a ser observada em todo e qualquer contrato. igualitária e solidária . cuja trilha foi seguida pelo nosso Código de 1916. . 170. No artigo 187 do novo Código Civil a função social do Direito é colocada como limite para o exercício de todo e qualquer direito. pois não poderá. Em outras palavras. A função social do Direito é consagrada no novo Código Civil no seu art. XXII. o que se concede ao indivíduo é uma proteção jurídica. [p.foi a grande motivação do novo Código Civil. A Constituição de 1988. Forense. mas atenua ou reduz o alcance desse princípio. Pode-se afirmar que a passagem do individualismo para o social é a característica essencial da evolução jurídica do nosso tempo. Quem contrata não mais contrata apenas com quem contrata. prestigia esta questão a ponto do seu grande coordenador. verdadeiro cinto de segurança. menos individualista. San Tiago Dantas assinala: “Pode-se dizer que. dos mais simples aos mais complexos. Exige dos contratantes uma postura mais humana. III. O novo Código Civil. III. eis o abuso do direito” (Conflito de Vizinhança e sua Composição. além do qual se toma abusivo. a visão social do Direito .o Direito como instrumento para a construção de uma sociedade mais justa. Na jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal foi proposta a seguinte interpretação para esse dispositivo: “A função social do novo Código Civil não elimina o princípio da autonomia contratual. em caso algum. inaugurando um novo tempo no mundo negocial. XXIII. 182. contrata também com a sociedade. o exercício de todo direito subjetivo está condicionado ao fim que a sociedade se propôs: a paz. ressaltou que terá ela que cumprir a sua função social (arts. § 4°. porque o Direito. 2a ed. hoje. é o instrumento de organização social para atingir essa finalidade. 422 ao dispor que a liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. a ordem. ou pelo menos um direito subjetivo que não tem no arbítrio do titular a sua única medida. ao garantir o direito de propriedade. p. e que altera substancialmente o conteúdo da atividade contratual. enfim. a solidariedade e a harmonia coletiva. quando presentes interesses metaindividuais ou interesse relativo à dignidade da pessoa humana” (enunciado n° 23). Assim como o Código Civil de Napoleão foi fruto do liberalismo do século XVIII. por sua vez. o jurista Miguel Reale.100).

comércio. o § lº do art. em conjunto ou separadamente.. obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante”. como não poderia deixar de ser. com os exemplos citados.moradia. é que a socialidade não se resume a uma disposição abstrata. de considerável número de pessoas.. Ao falar em finalidade social o diploma civil refere-se ao destino social da coisa. Também aqui a finalidade social opõe-se ao individualismo.228 do novo Código Civil submete o exercício do direito de propriedade à sua função social. 1. podendo ser encontrado um eloqüente exemplo disto no parágrafo quarto deste mesmo artigo 1. caso em que será fixada uma justa indenização ao proprietário.e não para a especulação imobiliária. “O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais”. O que se evidencia. indústria . 21] .Em conformidade com a Constituição. O imóvel urbano também tem que ser utilizado em conformidade com a sua potencialidade . seu estado normal de servir ao ser humano.228 do Código Civil: “O proprietário poderá ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área. Um imóvel rural só atende à sua finalidade social quando utilizado na produtividade compatível com sua potencialidade. na posse ininterrupta e de boa-fé. [p. e não quando destinado a latifúndio improdutivo. por mais de cinco anos. mas a um princípio que modernamente alimenta toda a nossa ordem jurídica. e estas nela houverem realizado.

O . finalidade etc. Só assim poderá chegar perto da realidade na formulação do seu conceito. não é tarefa simples. formulando um conceito que se enquadre na visão sociológica do Direito. É o que procuraremos fazer com relação ao Direito. É fenômeno social.. [pg. seus requisitos. Provisoriedade e mutabilidade das normas de direito. **** O Direito. que surge das inter-relações sociais e se destina a satisfazer necessidades sociais. assim como a linguagem. características. como é sabido por todos. Propomo-nos neste capítulo a explicitar a concepção do Direito como fato social.Capítulo III CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Normas de conduta. então deve ser ele entendido como um conjunto de normas de conduta que disciplinam as relações sociais. Conceito sociológico do direito. já no século XVII. e então procurar fazer uma descrição de tudo isso. lançando mão dos vários princípios expostos nos capítulos anteriores. a cultura. tais como prevenir e compor conflitos. Essa tarefa se toma ainda mais arriscada quando se trata do Direito. que os “juristas ainda estão à procura de uma definição para o Direito”. a religião. Conceituar. como já ficou assentado. é fato social que se manifesta como uma das realidades observáveis na sociedade. arriscando-se aquele que se empenha em realizá-la a formular um conceito parcial. como já vimos. 23] 12. Kant teria afirmado. Antes de tentar conceituar qualquer coisa. deve o estudante considerar todos os elementos dessa coisa. Origem das normas de conduta: a escola monista e a escola pluralista. está ligado à idéia de organização e conduta. Características das normas de conduta: a obrigatoriedade e a sanção. NORMAS DE CONDUTA Se o Direito.

cabendo à moral a disciplina de suas relações intrínsecas. pois na conjugação desses dois elementos . é o Direito a única relação inteiramente determinada pela coexistência humana e que se exaure de homem para homem. 13.1. CARACTERÍSTICAS DAS NORMAS DE CONDUTA Trata-se de normas de conduta que se destinam a todos. o Direito não se dirige a pessoas determinadas nem a relações consideradas individualmente. mas também aquelas que se realizam entre o indivíduo versus o grupo.a sociedade e o indivíduo . Assim. quando a norma do art. o Direito da disciplina das relações extrínsecas do homem. E nem poderia ser diferente. o prévio conhecimento do critério a ser aplicado na composição dos conflitos e assegura igualdade de tratamento às partes. com a garantia de que as partes nele envolvidas serão tratadas da mesma maneira. totalmente inócua se tomaria a disciplina por elas imposta. São também abstratas porque não se referem a casos concretos quando de sua elaboração. Como tem sido assinalado por muitos autores. A Obrigatoriedade Em regra são normas obrigatórias. Cuida. 24] 13.mundo do Direito é o mundo das relações entre os homens. aplicáveis a todas as relações abrangíveis pelo seu escopo. Seria um tiro sem bala. se a observância das normas jurídicas fosse facultativa. o grupo versus o indivíduo e o grupo versus outro grupo. pois. por exemplo. isto é. mas sim a casos hipoteticamente considerados. Sabe-se previamente como será resolvido um determinado tipo de conflito se e quando ocorrer. o contrato celebrado entre A e B em determinado momento e em determinado lugar porque a individualidade dos comandos não é própria do Direito. [pg. .encontramos a sua razão de ser. Não regula de forma direta. não objetiva concretamente o caso de A matar B. Claro está que. E isso permite. sob pena de o Direito não atingir os seus objetivos. por exemplo. Portanto. O caráter de generalidade das normas do Direito faz que este tenha em vista apenas o que na sociedade acontece com mais freqüência. Por isso são chamadas normas universais ou genéricas. de observância necessária. 121 do Código Penal incrimina a ação de matar. mas sim qualquer hipótese de homicídio. como já assinalado. Não somente as relações que se travam entre o indivíduo e outro indivíduo são objeto do Direito.

que. para indicar que ela envolve a possibilidade jurídica de coação. e não uma obrigação. Ninguém pode ser bom pela vio. Ocorre também que. Só temos. Não é possível conceber-se o ato moral forçado. é a principal diferença entre a norma jurídica e a regra moral. a tal ponto que não lhe sentimos quase o peso. . visto ser posto por terceiros aquilo que juridicamente somos obrigados a cumprir. É também por isso que se tem afirmado (Kant foi o primeiro) ser a Moral autônoma e o Direito heterônomo. pois na realidade também ali essa autonomia move-se dentro de limites extremamente reduzidos. 13. fruto da força ou da coação. preferem falar em coercibilidade da norma. Até mesmo no campo do direito contratual. por um movimento espiritual espontâneo realiza o ato enunciado pela norma. p. na exata medida em que o Direito nos confere um beneficio. Esquecemonos.A obrigação é. tudo que é oposto à obrigação. Como podem as pessoas inobservá-lo. tomamos logo consciência da sua obrigatoriedade pois temos então que responder pelas conseqüências. moral autêntica quando o indivíduo. a rigor. em geral e por definição. essas normas correspondem à nossa maneira de pensar e sentir. entretanto. vantagem ou poder. regalia. onde muitos autores acreditam reinar a “autonomia da vontade” a coisa não é bem assim. cria uma obrigação ou dever para outrem. 25] lência” (ob. na verdade. da mesma forma que não sentimos certas imposições físicas. portanto. ou seja. e vice-versa. cit. Esta. O ato moral implica a adesão do espírito ao conteúdo da regra. Para o público em geral. A moral é incompatível com a força ou coação mesmo quando estas se manifestam juridicamente organizadas. A Sanção O Direito dirige-se a seres dotados de liberdade. Alguns autores. tomou-se necessário estabelecer uma sanção. Não percebemos que o Direito é sobretudo obrigação porque estamos habituados a obedecer a suas normas. Então. faculdade. a palavra direito dá idéia de privilégio. Pondera o festejado Miguel Reale que “a moral é o mundo da conduta espontânea. em lugar de obrigatoriedade. do comportamento que encontra em si próprio a sua razão de existir. a noção do Direito está intimamente ligada à noção de obrigação. como a gravidade.. elemento fundamental do Direito.[pg. liberdade. que agem comandados pela vontade.2. talo nosso condicionamento social. embora à primeira vista possa parecer paradoxal. 44). Dizemos “eu tenho direito a isso ou àquilo” para indicar algo que nos favoreça. entretanto. No momento em que transgredimos qualquer dessas normas.

Para esses destina-se a coação física ou material. É o remédio extremo usado contra uma minoria que não observa as normas. Sobre o grupo social que deve estabelecer as normas de Direito. entretanto. não há como tergiversar: as normas de Direito emanam do grupo social. faz com que a maioria se conduza dentro dos limites do Direito. e pena é a sanção concretizada. embora na prática os autores e a própria lei não a considerem. ORIGEM DAS NORMAS DE CONDUTA Já vimos. da consciência coletiva ou do Estado. logo no primeiro capítulo. Sanção é a ameaça de punição para o transgressor da norma. que se dirige à vontade. É a chamada prevenção geral. empregando o poder coercitivo de que dispõe para punir o responsável pelo ilícito. . É a chamada prevenção especial. outros. uma pequena diferença entre sanção e pena. Há. e a pena é fixada pelo juiz. consistente em perda ou restrição de determinados bens. ao passo que a pena exerce uma coação física ou material. Tal coação é por Vanni (Lezioni di Filosofia del Diritto) vista como força psíquica do direito. acabando por transgredir as normas. A autoridade pública aplica a pena. para todo aquele que descumprir uma norma de Direito. Para uma minoria não basta a coação psicológica. Para a sociologia jurídica. 26] 14. assim como na obrigação de reparar o dano causado. [pg. Por isso alguns teóricos chegam a definir o Direito como um sistema de sanções. a sanção é cominada pelo legislador. É a possibilidade de coação da qual a norma é acompanhada. Sanção é a ameaça de castigo para o transgressor da norma. havendo aqueles que entendem serem as normas de origem divina. geradora do temor à pena. na esperança de não ser punida. frutos da razão.o meio mais eficaz encontrado pela sociedade para tomar a norma jurídica de observância necessária. sanção é a pena abstratamente considerada. A obrigação não pode existir sem sanção. É o prometimento de um mal. no empenho de levá-la a respeitar o Direito. exercendo constrangimento sobre a consciência. a sanção exerce uma coação psicológica sobre os indivíduos. e pena já é o próprio castigo imposto. Essa coação psicológica. livrando a sociedade de sua conduta perniciosa. através da qual consegue o Direito evitar a ocorrência de inumeráveis conflitos. que esta é uma questão discutida. em nosso entender. as opiniões se dividem em duas escolas.

pode ter sua razão de ser no que se refere à ciência do Direito. em fase adiantada do progresso. mesmo nas sociedades já política e juridicamente organizadas. sem considerar fronteiras entre Estados nem a nacionalidade dos interessados. com freqüência criam Direito. ainda . que se difundiram em inúmeras regiões. muito divulgado na Idade Média e observado tão escrupulosamente quanto qualquer outra lei nacional. que se encontra mais próxima das teorias de Hegel. além de alguns juristas. compreende sociólogos e filósofos. Segundo Henri Levy Brühl. 27] expressão pode outorgar-se normas de funcionamento que. o nosso Governo. e que ainda existem prescrições.1. A mais característica dessas instituições foi o direito mercantil (jus mercatorium). esta escola entende que apenas um tipo de grupo social. sendo igualmente ensinada pelos puristas clássicos.o Estado devidamente organizado -. o direito canônico. está apto a criar normas de direito.2. mas não com relação à sociologia jurídica. Mas. regulamentos. como por exemplo o direito religioso de vários povos. A doutrina monista. orientada no sentido da formação do Direito. bem sintetiza esta questão na lição que segue: “O Direito é necessário. A nossa Assembléia Nacional. o principal adepto da doutrina pluralista é G. que a defendeu em diversos trabalhos. Henri Levy Brühl (Sociologia do Direito. ultrapassando o caráter de simples regulamentos. adquirem o alcance de verdadeiras regras jurídicas. Não é uma criação arbitrária. A Escola Pluralista A escola pluralista que. 14. sem dúvida. Há aí uma atividade racional. Gurvitch. nos termos que aos governantes se afiguram como os melhores para satisfazer as necessidades e exigências da vida. Inocêncio Galvão Telles. existe imprescindivelmente. A Escola Monista Englobando quase todos os juristas. intervêm na sua criação. 29) cita como exemplo de direito supranacional as instituições consuetudinárias profissionais. através de leis. Um simples olhar sobre a vida social nos convence de que existiram prescrições jurídicas antes de a sociedade organizar-se em Estado. decretos-leis. Marx e Kelsen. Os homens. além das que foram impostas pela autoridade política. Houve e ainda há direitos supranacionais e infranacionais que não emanam da competência dos órgãos da sociedade global. considera que todo agrupamento de certa consistência ou [pg.o grupo político .14. catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. muçulmano. p. judaico etc.

com concepções e visões diferentes da vida. costumes. do adulto para o velho. sendo originário do grupo. os jovens tornaram-se adultos. mesmo assim haveríamos de constatar. estáveis e imutáveis. da criança para o adolescente. tudo muda. p. 15. como é sabido. não se ajusta ao ponto de vista sociológico. Mal um fato ocorre aqui. Como pode o Direito. que o grupo social havia sofrido profundas modificações: os adultos envelheceram. pensamentos etc. e vice-versa. Assim é porque o próprio ser humano está em constante mudança: mudam os hábitos. as mudanças nos grupos modernos são bem mais rápidas e constantes do que nos grupos primitivos. 27). do jovem para o adulto. Já os filósofos gregos haviam chamado a atenção para essa permanente mutabilidade das coisas e do próprio homem.que não houvesse esta criação racional e um pouco artificial. 9ª ed. o Direito necessariamente brotaria como floração espontânea da sociedade. que o considera produto social. sofre constantes modificações. Livraria Petrony. Imaginemos agora o que se passa nos grupos modernos. quando esse mesmo grupo se modifica constantemente? . Se pudéssemos isolar um grupo por um período de dez ou vinte anos. Foi assim que aconteceu noutros tempos sob a forma de costumes. e isso mostra o caráter necessário do Direito (Introdução ao Estudo do Direito. permanecer imutável. I. o outro lado do mundo toma conhecimento quase imediatamente. Tal concepção. as crianças tornaram-se jovens. um dos mais destacados. Se o Direito emana do grupo social. E o grupo. 28] queremos que os jovens de hoje se comportem como nós. tudo está em constante transformação. Daí a razão do eterno choque de gerações entre jovens e adultos. embora muitas vezes nem se perceba a mudança. Evidentemente. O mesmo acontece com hábitos. Heráclito. tanto os que o concebiam como tendo origem na Divindade como aqueles que o entendiam fruto da razão. que contestávamos na juventude exatamente aquilo que agora pensamos e fazemos. não pode ter maior estabilidade que o grupo. do adolescente para o jovem. consideravam o direito um conjunto de princípios permanentes.. vol.tudo passa. conforme já assinalamos. Mudamos em nossa maneira de ser e [pg. Lisboa. onde há uma constante troca de influências recíprocas possibilitada em razão dos modernos meios de transporte e comunicação. PROVISORIEDADE E MUTABILIDADE DAS NORMAS DE DIREITO Os defensores do direito natural. no fim desse tempo. moda etc. entretanto. afirmava: “Panta rei” .

abstratas. CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Juntando todas as características até aqui examinadas. já sofreu mais de quatro dezenas de emendas. impostas pelo grupo e não somente pelo Estado.Mudando o grupo. prova de maneira clara que o Direito está sujeito a transformações contínuas. pois o simples confronto com os diferentes sistemas jurídicos do passado ou dos países estrangeiros basta para dar idéia da prodigiosa diversidade das normas de direito aplicadas na superfície do globo. como já ficou demonstrado. razão pela qual. obrigatórias e mutáveis. Destaca-se. A observação. sujeito a constantes modificações. Trata-se de normas universais porque se destinam a todos. coercitiva. em 2002 entrou em vigor um novo Código Civil em relação ao qual já se fala em mudanças. obrigatórias porque são de observância necessária. abstratas porque são elaboradas para casos hipoteticamente considerados. 30] . p. formulamos o seguinte conceito de Direito: conjunto de normas de conduta. impostas pelo grupo social. do ponto de vista sociológico. empenha-se em compô-los. Aqui mesmo em nosso país profundas modificações foram feitas em nossa ordem jurídica para ajustá-la às novas realidades sociais decorrentes das transformações por que passamos nas últimas décadas. que em qualquer tipo de atividade realizada pelo indivíduo na sociedade. 16. quando não consegue impedir que ocorram. mas sim essencialmente provisório. 33). destinadas a disciplinar as relações externas do indivíduo. mutáveis porque sujeitas a constantes transformações. objetivando prevenir e compor conflitos. Tão incontestável é o caráter provisório do direito que alguns adeptos do direito natural conceberam uma noção que denominaram “direito natural de conteúdo variável”. podem surgir conflitos e que o Direito se propõe [pg. não tem o Direito caráter estável ou perpétuo. o Código de Processo Civil sofreu uma série de alterações e outras precisam ser feitas com urgência. universais. espera-se para breve um novo Código de Processo Penal e. mudam-se também as normas de Direito. por derradeiro. assinalou Levy (ob. cit. Tivemos uma nova Constituição em 1988 que. [pg. 29] primeiramente a preveni-los. para não nos alongarmos. seja de cooperação ou de concorrência.. por sua vez.

em nossa opinião. FATORES ECONÔMICOS A estrutura econômica de uma sociedade reflete-se diretamente no seu ordenamento jurídico. da qual falava Siches. **** O Direito. sendo o Direito uma decorrência das relações sociais. porque se originam no grupo social. como vimos no capítulo anterior.Capítulo IV FATORES DA EVOLUÇÃO DO DIREITO Fatores econômicos: influência do fator econômico sobre o Direito Romano e sobre o Direito Moderno. Outros fatores sociais. neste modesto trabalho. Tal como a agulha magnética sob a ação de uma corrente elétrica. . tomando-o um produto de processos sociais (vide capítulo VIII). Observa-se aqui. O sistema de propriedade. com muita nitidez. políticos. Inúmeros são pois os fatores sociais que concorrem para a evolução do Direito. são os principais. Fatores religiosos. a influência condicionante da sociedade sobre o Direito enquanto fato. Fatores culturais: concepção de cultura.e o grupo está em permanente transformação. é um produto de múltiplas influências sociais. examiná-las todos. culturais e religiosos. 31] ção (indústria. sujeitas a constantes modificações.[pg. Não são regras permanentes e inalteráveis. Inicialmente pode-se dizer que. há fatores que agem sobre o Direito. 17. as formas de produ. tudo o que agir sobre a sociedade produzirá reflexo também sobre o Direito. mas sim. fazendo-o oscilar. um produto da sociedade. não sendo possível. Fatores políticos. Vamos apenas destacar aqueles que. a saber: os fatores econômicos. em sua concepção sociológica.

“que dedicou especial atenção às relações entre direito e economia”. a sociedade inicialmente compunha-se de camponeses que viviam da lavoura. 293). exclusivamente. como por exemplo K. o resultado”. Sem dúvida constitui exagero considerar o Direito reflexo exclusivo da constituição econômica. o fato econômico é a causa. afirma que “todo o desenvolvimento jurídico toma-se inexplicável se o isolam das forças econômicas. entre as forças modeladoras do Direito. as relações entre empregados e patrões . 293). sua estrutura econômica se transforma”. como observou Levy Brühl (ob.agricultura etc. citado por Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. embora não se possa negar que. pp. influenciando-a. eram os que mais convinham a agricultores. Engels. os demais fenômenos culturais não passando de simples reflexos superestruturais das forças genéticas armazenadas pelas relações econômicas de produção. que o Direito vai se modificando à medida que vai se alterando a estrutura econômica da sociedade. p. cit. Achille Loria (ob. sem possibilidade de erro. Tão marcante é a influência da economia sobre o Direito que alguns autores chegam a se posicionar no sentido de conceber o Direito como reflexo. tinham que tirar da terra o seu sustento.tudo isso se reflete na ordem jurídica. A organização social tem o seu ponto básico de articulação no modo pelo qual os homens produzem. criadores do materialismo histórico.). Nesse sentido. 17. Caracterizavam-se por forte concentração de poderes nas mãos do pater famílias e rígida disciplina doméstica. com o crescimento da população. o fator econômico é o que exerce uma influência mais decisiva. Assim sendo. o fator econômico era a mola mestra da história. ainda que seguido de muito perto pelo político. Seligman. Ora.. p. Marx e F.1. Para eles. podemos afirmar.. 80 e segs. a situação legal. na medida em que nos são acessíveis.). os costumes desses camponeses. . Influência do Fator Econômico sobre o Direito Romano Em Roma. possuem e comerciam. assinala que “raças e nações as mais diferentes têm de sujeitar-se ao mesmo direito quando são iguais as relações econômicas nelas dominantes e que a nação sofre mutação radical do próprio direito quando. cit. da constituição econômica.

entraram em contato com outros povos. Lançaram-se ao mar. nacionais e multinacionais. enriquecida pela posse de capitais mobiliários. Uniam-se todos em tomo do pater familias para a produção dos bens necessários à sobrevivência do grupo. econômico etc. A burguesia ascendeu ao poder político. nem autonomia. passando a ser submetida ao controle da sociedade global e não mais exclusivamente ao pater familias. p. 244): “A própria instituição da escravidão. e sobre a condição jurídica do homem trabalhador em particular. Encontrou-se um meio para liberar o filho da tirânica autoridade do pai . multiplicaram-se os sistemas de manumissão de escravos. os estrangeiros deixaram de ser tratados como inimigos e passaram a ser amigos. no fim do século XVII. em decorrência do enfraquecimento correlativo dos proprietários de terras.Todos os membros do grupo doméstico estavam submetidos à autoridade do chefe. 32] não tinham qualquer iniciativa.o casamento sine manu. os agricultores romanos tomaram-se comerciantes. não importando idade ou situação social. o único dotado de capacidade jurídica. Aos poucos foram surgindo os grandes organismos econômicos. sua substituição pelo servilismo durante o regime feudal e sua posterior superação pelo assalariado na moderna sociedade burguesa. são transformações econômicas de repercussão imensa sobre o status pessoal em geral. Novos ramos do direito foram brotando no velho tronco do Direito Civil e aos poucos ganhando autonomia. Tal direito estava perfeitamente adequado a uma sociedade de pequenos agricultores. Essa modificação na estrutura econômica imediatamente repercutiu no direito. industrial. dedicaram-se com grande intensidade à compra e venda de mercadorias. acarretando isso tudo um tremendo abalo na ordem jurídica.” [pg. do trabalho. Aí pelo III século antes de Cristo. indispensável no comércio. tais como o direito comercial. o formalismo atenuou-se com a introdução da noção de boa-fé no direito.a emancipação. e operações foram inventadas para as quais o simples consentimento podia gerar obrigações. Surgiu uma nova classe. Lembra Machado Neto (Sociologia Jurídica. outro meio para libertar a mulher casada da autoridade do marido . Influência do Fator Econômico sobre o Direito Moderno Algo idêntico ao ocorrido em Roma desenvolveu-se quando da criação da grande indústria e do maquinismo.2. A organização da família tomou-se menos rígida. 33] . 17. Os demais membros [pg.

a livre iniciativa comercial ou econômica. razão pela qual sua teoria foi tão mal compreendida pelos sociólogos. o direito comercial. aristocrático. como já o fazia Kelsen. abrangendo as relações entre o indivíduo e o Estado. 18. feudal ou democrático. Ed. veremos que é exatamente através da regulamentação jurídica que o Estado as exerce.a sua dinâmica. como sobre o conteúdo do direito. principalmente no que diz respeito aos crimes contra o patrimônio. tanto na função e estrutura jurídicas. 1949. ] . FATORES POLÍTICOS A palavra política. apresentam inegável repercussão econômica: o Direito Civil. contratos.Cumpre ainda assinalar que. Segundo o regime em que se vive. A própria organização da família. que mantém maior distância do econômico. o Direito Constitucional . bem como as funções e atribuições do Estado. na estrutura jurídica atual. não foge à regra. [pg. Por isso já houve quem identificasse Estado e Direito (vide Teoria Marxista. p. dependendo dos fatores políticos vigentes. A aparição do poder político. as relações entre empregados e patrões etc. longe de ser o responsável pela gênese do direito. sucessões. apresentarão peculiaridades. voltamos a enfatizar que do ângulo sociológico em que nos situamos há uma nítida distinção entre o Direito e o Estado. este se realizando socialmente através daquele. direitos reais. primeiro capítulo) e ainda hoje é a perspectiva da maioria dos juristas em face do Estado. modernamente é utilizada para designar a ciência e a arte de governar. na parte que se refere às obrigações. como observou Nordi Greco (Sociologia Jurídica. pelo seu aspecto normativo puro.. falimentares e a ordem econômica. embora ligada etimologicamente a polis (cidade). o regime político de um país exerce influência direta sobre suas regras de Direito Público e até de Direito Privado. assumirão aspectos variantes. de maior ou menor rigidez. É que os juristas enfocam o direito exclusivamente pelo ângulo da ciência jurídica. bem como o Direito Administrativo e o Direito Fiscal . monárquico. 310). O próprio Direito Penal. do trabalho. Sem entrar em polêmica. é apenas um evento que exerce uma reação grave e imediata. embora não se possa negar a proximidade em que se situam.a estática do Estado. as relações dos Estados entre si. Se bem examinarmos o conjunto de atribuições do Estado. Atalaya. tributário etc. a aquisição e o uso da propriedade. Por essa razão.

Imbuído pelo chamado espírito revolucionário. é básica. que significou a superação de uma questão social.a reforma do Judiciário. igualmente de grande repercussão social . 1937. Tão logo chegou ao poder o Partido dos Trabalhadores. a segunda. Se o movimento contraria o sistema de legalidade do Estado. 1934. É com essa mudança efetiva que a revolução se completa. 56). em uma ideologia que se pretende implantar na organização social. pois a luta revolucionária exige um novo instrumental jurídico capaz de dar validade e eficácia às transformações que visa a operar no quadro social” (ob. Esse novo Direito. o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva arregimentou forças políticas para realizar profundas reformas constitucionais. A possibilidade de instauração de um novo Direito. assim no mundo contemporâneo. com a Declaração dos Direitos do Homem e a Legislação Napoleônica. A legitimidade do Direito criado baseiase no apoio popular.O atual momento político brasileiro oferece eloqüente exemplo disto. A primeira resultou da revolução da independência. a Política e a Trabalhista. decorrentes da vitória da revolução francesa. 1967 e 1988. refletindo as novas tendências políticas. o grupo que destituiu os governantes e assume o poder deve iniciar o trabalho de reformulação social. Pressupõe idealismo. 35] do Estado Novo.. político e econômico contra o qual a revolução se lançou. de acordo com a filosofia preconizada. Assim foi na Grécia com a Legislação de Sólon. anota Paulo Nader. pois a revolução implica adesão social. da redemocratização do país . cit. A influência dos fatores políticos sobre o Direito toma-se mais patente no caso de revolução. Mal concluída a tomada do poder pelo grupo revolucionário. que estabeleceu uma nova relação entre patrícios e plebeus. a quinta. como lembrou Machado Neto (ob. 1891. assim no mundo medieval com a Magna Carta (1215). cit. p. Caracteriza-se por dupla ação: intelectual e de força. substituindo aquele que servia de sustentáculo normativo ao sistema social. da república.. no que diz respeito às nossas constituições de 1824. sendo ainda certo que outras estão em andamento. A revolução. a terceira. p. traz no seu bojo a intenção de legitimar e justificar o poder. notadamente o Constitucional. assim foi em Roma com a Lei das XII Tábuas. do advento do fascismo e [pg. 1946. que se funda em novas concepções. surge um Direito novo. como as da Previdência e a Tributária que afetarão muitos milhões de brasileiros. e assim até mesmo no Brasil. com o que se fecha o ciclo revolucionário. “é um acontecimento político motivado pela insatisfação social quanto às instituições e regime vigentes. 161). possui o poder de instituir uma nova ordem jurídica. a quarta. das revoluções de 1930 e 1932.

como é sabido por todos. sua tendência ou dom natural. destacamos as seguintes: 1) “O direito sofre. a moral e as normas do trato vão aparecer como as formas específicas da socialização.após a guerra que derrotou o fascismo no plano internacional.” 19. não apenas nas artes e na literatura romanas. da revolução de 1964. por exemplo. quando esta é realizada diretamente pela sociedade e pelos diversos grupos sociais extra-estatais. lembrado por Machado Neto (ob. [pg. os hebreus pela religião. Pois o direito de cada um desses povos reflete o aspecto cultural em que mais se desenvolveram. que bem ajuda nessa tarefa de conceituar a cultura. Roma pelo direito. O Que é Cultura? Há na mitologia grega um personagem.” 3) “Aparecimento das condições objetivas para o direito separar-se das normas sociais: o direito passa a ser a norma estatal por excelência. sobre o direito. Dentre as principais conseqüências da atuação dos fatores políticos. 19. pela cultura. mencionados por Machado Neto (ob. cit. A conquista da Grécia. há influências recíprocas sobre o direito de cada um. em que o interesse dominante é o dos particulares.. O direito evolui acompanhando a evolução cultural. constataremos imediatamente a necessária harmonia existente entre a ordem jurídica e os fatores de cultura. a última. FATORES CULTURAIS Se compararmos o direito de uma sociedade culturalmente desenvolvida com o de outra inculta. pp. os fenícios pela navegação. A Grécia.. 305-306). necessariamente. e quando a cultura de um é colocada em contato com a de outro. 36] .1. a ponto de podermos afirmar ser ele o aspecto cultural de um povo. e o segundo. 156). p. Cada povo tem sua peculiaridade. da redemocratização do Estado Brasileiro. a sexta. exerceu influência decisiva. o impacto de uma tendência centralizadora. Da norma indiferenciada passa-se à centralização jurisdicional e daí à centralização legislativa. mas também nas suas instituições jurídicas.” 2) “Criam-se condições objetivas para o aparecimento gradativo da distinção entre direito público e privado: o primeiro como a regulamentação da conduta dos indivíduos naqueles pontos que mais de perto dizem respeito ao interesse coletivo ou estatal. cit. notabilizou-se pela arte.

37] emanavam da mesma . Nuclear. Numa definição simplista. transmitindo-se a outras gerações como autêntica herança social. levar ao infinito os seus conhecimentos. amigo dos homens. em armas de defesa e ataque. acorrentando-o ao Cáucaso. Foi então que Prometeu. o direito e a religião [pg. seus protegidos. cascos resistentes. por ele adquiridas em sua condição de membro da sociedade”. destreza invulgar etc. a intercomunicação social é poderoso fator de formação e desenvolvimento cultural. carapaças. a técnica. subtraiu um archote do carro flamejante de Zeus e deu-o de presente à humanidade. São conhecimentos que vão se formando. e de quaisquer outras aptidões do homem. artes. pele de animais em vestuário. Com o seu desenvolvimento cultural conseguiu dominar as forças da natureza. cit. o homem se tomaria um verdadeiro semideus. onde um abutre vinha periodicamente devorar-lhe o fígado. de posse do fogo divino. Cultura é isso. espinhos. de criatura passaria a criador. enfim. pois com base nos conhecimentos que adquiriu e desenvolveu.Quando da criação do mundo. com pena do homem. criar a arte. Nos tempos modernos. Praticamente se confundiam porque o poder. ficando ele nu e desamparado na natureza. chifres pontiagudos. das Telecomunicações etc. tudo aquilo em que colocasse as mãos. pêlos abundantes. 13). Falamos hoje em Direito Espacial. a religião. um fenômeno cultural. citado por Hermes Lima (ob. Para o homem nada restou. p. tudo aquilo que lhes era necessário para a sobrevivência: dentes fortes e agudos. ao passo que o isolamento retarda o progresso da cultura do povo. a autoridade. gerando a estagnação e a imobilidade. a filosofia. Na verdade assim foi. Epimeteu conseguiu para os animais. domesticar os animais. Na definição de Taylor. “cultura é o conjunto de conhecimentos. 20. força descomunal. Indignado com a ousadia de Prometeu. o direito. de regras morais. o rei dos deuses submeteu-o a cruel castigo.. cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza. Assim agira Zeus porque sabia que. disciplinar a lavoura. crenças. o direito não se diferenciava da religião. capaz de transformar em utilidade. como ocorreu nas últimas décadas com a China. A maior evidência de ser o Direito uma manifestação de cultura social. FATORES RELIGIOSOS Nos povos antigos. a ciência. metais encontrados na natureza em máquinas e instrumentos agrícolas. está no fato de surgirem novos ramos do Direito à medida que se expande o mundo cultural do povo. realidade somente possível graças ao progresso científico dos tempos modernos. jurídicas e de costumes. a música.. o homem transformou pedra em machado.

conselheiros). homens talhados para tal ofício pela natureza das ocupações que desempenhavam nas sociedades rudimentares. Influência da Religião sobre o Direito Alguns sistemas jurídicos. lei e tabu. divórcio. este partilhava do poder. de um modo geral que a religião se ocupa com o foro íntimo. no que diz respeito a casamento. repletas de rituais. onde regras jurídicas e religiosas praticamente se confundem. . inacessível ao povo. chefes militares. processo e ritual. Tudo era conservado em segredo na mesma família. o direito disciplina as relações sociais que se travam entre o homem e o homem. exercendo imensa influência sobre o povo. portanto. mesmo os sistemas jurídicos leigos. quando se defrontou com as idéias cristãs nos séculos III e IV de nossa era. Como exemplo lembramos as transformações ocorridas no Direito romano. código e livro sagrado. Na Idade Média. As legislações eram. Em alguns povos. Somente após um lento e prolongado processo de secularização. filiação. tal como entre os povos antigos. o direito foi se separando da religião . sob o impacto de civilizações mais adiantadas. a exemplo do que ocorre no Mundo Islâmico. o que correspondia à posse também da riqueza e dos privilégios. e quase sempre estavam centralizados nas mãos da mesma pessoa. quando da formação do Direito canônico. ou entre o homem e o grupo. 20. e cercavam o direito de um formalismo terrível. Tinham a posse dos postos de comando (legisladores. caldeus.1. ao passo que o direito trata do foro externo. jurista e sacerdote. Os sacerdotes contavam com a crença popular que os considerava inspirados pelos deuses. a religião continuou exercendo largamente a sua influência. ainda hoje estão profundamente impregnados de religião. Os primeiros intérpretes do direito foram os sacerdotes. a religião se preocupa com as relações entre o homem e a divindade. crime e pecado.divindade. hebreus. onde religião e direito não se confundem e a Igreja está separada do Estado. convertendo-o em ciência de iniciados. Quando o chefe político não era também o líder religioso. não deixam de receber a influência constante dos fatores religiosos. Entretanto. estado jurídico da mulher etc.o mundo profano do sagrado. pena e purgação do pecado. como os egípcios. torna-se difícil distinguir legislador e profeta. com a consciência pessoal. pode-se dizer. transmitindo-se de pai para filho o monopólio de conhecer o direito.. Hoje. preceitos e proibições de ordem religiosa.

culminando [pg. 38] com a criação de novas instituições. Nos dias atuais, os países onde predomina o protestantismo são bem mais liberais para com certos assuntos jurídicos do que aqueles onde predomina o catolicismo. O divórcio, por exemplo, foi aprovado no Brasil depois de longa e sistemática campanha contrária que a Igreja Católica lhe moveu. E até hoje não temos leis regulamentando o controle da natalidade em razão da acirrada oposição que setores conservadores religiosos lhe fazem.

20.2. Outros Fatores Sociais

Esses são os principais fatores sociais da evolução do Direito, mas como estes, muitos outros existem a exercer idêntica influência, pois, sendo o direito um fenômeno social, atuam sobre ele todos os fatores que atuam sobre a sociedade. O clima, o território, o número de habitantes, os recursos naturais, os grupos organizados, e a própria opinião pública despertada pela mídia a respeito de algum caso rumoroso, são outros tantos fatores da evolução do Direito. Serve-nos de bom exemplo o recente Estatuto do Desarmamento que, ao promulgá-lo, o Presidente Lula disse que essa nova lei “expressa a vontade unânime da sociedade”. Há, na realidade, a generalizada convicção de que a quantidade de armas em circulação, em poder da população, é causa direta dos altos índices de violência. Pelo menos a maioria dos homicídios não ocorreria se o agressor não estivesse armado, o que já não seria pouco. Em vinte anos (1979/1988) meio milhão de pessoas foram assassinadas no Brasil, segundo levantamento do Ministério da Justiça. Esse número de homicídios representa metade dos mortos nos oito anos de guerra Irã-Iraque, na década de 1980, e a sexta parte dos mortos na Guerra do Vietnã, um dos conflitos mais violentos do final do século XX. Entre os países que não enfrentam guerra civil, o Brasil detém o recorde de mortes por arma de fogo. Em termos absolutos, o estado mais violento é São Paulo, palco de 6.429 assassinatos entre janeiro e junho de 1999. Em seguida vem o Rio de Janeiro com 3.045 homicídios. Segundo o ex-ministro da Justiça Renan Calheiros, o Brasil é o campeão mundial em homicídios. Afirmou ele ainda que mais de 90% desses homicídios, em que criminosos e vítima não se conhecem, não são esclarecidos (O Globo, 18.07.2000). Entretanto, a aprovação da Lei do Desarmamento não foi nada fácil. O Presidente Fernando Henrique não conseguiu fazer andar o seu projeto de lei a respeito da matéria, mesmo depois de fazer do envio da mensagem ao Congresso uma festa pública e um compromisso. O Lobby contra o projeto, [pg. 39] organizado principalmente por fabricantes de armas e munição, foi mais forte. Para vencer essa resistência foi necessária uma grande

mobilização da opinião pública, para o que a mídia e as associações civis muito contribuíram, organizando e divulgando grandes manifestações em passeatas, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. A batalha, entretanto, não está ganha. A lei precisa ser regulamentada, e os lobistas das armas certamente voltarão à luta para tentar influir nessa etapa. E a regulamentação pode decidir a sorte da legislação. Como disse Rubem César Fernandes, diretor do Viva Rio, “é fácil a lei não pegar: basta todo mundo achar que a batalha já está ganha”. Com efeito, daqui a menos de dois anos haverá um referendo popular que decidirá sobre a proibição ao comércio de armas no país. Se a opinião pública não continuar informada e motivada tudo poderá retomar à estaca zero. Concluímos este capítulo com as palavras do saudoso e sábio Oscar Tenório, “a vida das normas jurídicas não é eterna; elaboradas para as relações dos homens em sociedade, têm o seu destino condicionado ao substractum social que elas disciplinam e ordenam” (Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, Borsoi, 1955, p. 64). As mudanças na sociedade mais cedo ou mais tarde refletem em mudanças na legislação em vigor ou em uma nova interpretação dada a normas anteriores. [pg. 40]

Capítulo V

FONTES DO DIREITO
Conceito de fonte e espécies: fontes materiais ou de produção; fontes formais ou de conhecimento. As fontes mais importantes do ponto de vista sociológico. O costume - conceito e elementos. Origem e expansão do costume. O papel do costume. Espécies de costume. A jurisprudência: o papel da jurisprudência em Roma e nas sociedades modernas; o papel da jurisprudência nas sociedades legalistas. Exemplos de jurisprudência transformada em lei. Relação entre a jurisprudência e o costume. A lei. Semelhança e distinção entre a lei e o costume. Sistema preferido - o costume ou a lei?

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O tema relacionado às fontes do Direito é normalmente abordado por todas as obras de Introdução à Ciência do Direito, decorrendo daí a indagação: por que também examiná-lo num compêndio de Sociologia Jurídica? É que a Sociologia Jurídica, como já vimos, enfoca o Direito por aspecto próprio, peculiar - o fato social, e disso decorrem pontos de vista especiais com relação às suas fontes. Teremos oportunidade de ver que as principais fontes do Direito para a Sociologia Jurídica não são as mesmas para a Ciência do Direito, que o enfoca pelo aspecto normativo. Ademais, o exame do tema proposto ajudará o estudante a ver com mais clareza as distinções entre a Sociologia Jurídica e a Ciência Jurídica. 21. CONCEITOS E ESPÉCIES A palavra fonte etimologicamente (fons, fontis) está ligada a fenômenos da natureza, indicando a origem ou nascimento de um curso de água. [pg. 41] Em direito a palavra liga-se também à idéia de origem, nascimento, mas pode ser empregada em duas acepções diferentes: histórica ou documentária e dogmática.

No sentido histórico ou documentário, consideram-se fontes todos os dados ou elementos de qualquer natureza que nos tragam alguma informação sobre o direito e as instituições jurídicas presentes ou passadas. Assim, por exemplo, serão consideradas fontes: manuscritos antigos, papiros, inscrições, monumentos, material arqueológico, desde que forneçam informações sobre o direito. No sentido dogmático, o que nos interessa no momento, a palavra fonte designa a origem, a procedência, o elemento gerador, a causa de algo - neste caso, o direito. Quando falamos em fonte do Direito, portanto, estamos nos referindo a tudo quanto concorra para a sua existência, seu aparecimento e formação. Costuma-se classificar as fontes do Direito em materiais e formais. As fontes materiais são assim chamadas porque, na realidade, materialmente falando, são as responsáveis pela elaboração do Direito. A palavra material vem de matéria, substância, essência, razão pela qual é usada para indicar aquelas fontes que verdadeiramente têm substância de fonte. Se lhe examinarmos o conteúdo, veremos que o Direito é aí elaborado. Por isso as fontes materiais são também chamadas fontes substanciais ou de produção. As fontes formais, por sua vez, são assim chamadas porque de fonte só têm a forma; nada, porém, de conteúdo. Aparentemente o Direito tem origem nas fontes formais, mas na realidade elas apenas o tomam conhecido. Por isso são também chamadas fontes de conhecimento. Se pudéssemos usar uma figura nada ortodoxa, diríamos que o Direito é produzido nas fontes materiais e embalado e distribuído pelas fontes formais. Para o sociólogo, portanto, ao contrário do jurista, as fontes formais não passam de meios de exteriorização, ou de conhecimento do Direito elaborado pelas fontes materiais, as únicas que realmente merecem a designação de fonte.

22. FONTES MATERIAIS OU DE PRODUÇÃO

As fontes materiais podem ser: imediata (que está mais próxima) e mediata (mais distante). Fonte material imediata são os órgãos legiferantes do Estado, ou seja, aqueles que, segundo a ordem constitucional, têm a função de legislar, tanto no Poder Legislativo como no Executivo. Fonte mate- [pg. 42] rial mediata ou remota é a sociedade, pois, conforme ficou demonstrado na primeira parte deste trabalho, o Direito emana do grupo social. De acordo com a lição de Paulo Nader, “o Direito não é um produto arbitrário da vontade do legislador, mas uma criação que se lastreia no querer social. É a sociedade, como centro de relações de vida, como sede de acontecimentos que envolvem o homem, quem fornece ao legislador os

Já para o jurista que. Vamos pois nos ocupar apenas com as fontes formais. objetivo. Como causa produtora do Direito. viva. 138). 43] O elemento externo. sem a qual não haveria que falar em Direito. indicando um comportamento idêntico pelos membros da comunidade. o costume merece a preferência da sociologia jurídica porque constitui a primeira e principal manifestação do Direito criado pela sociedade. O COSTUME .elementos necessários à formação das estruturas jurídicas. os órgãos legislativos. a expressão autêntica da consciência jurídica social. Não vamos tratar neste trabalho das fontes materiais ou de produção. é preciso uniformidade na série de atos. suprema. e a mediata (a sociedade) já foi estudada em Sociologia Geral. o próprio grupo humano. pelos problemas que emergem na sociedade e que são condicionadas pelos chamados fatores do Direito. p. uniformes e constantemente repetidos. a Geografia entre outros” (ob.CONCEITO E ELEMENTOS Há dois elementos constitutivos nas normas do direito consuetudinário: o externo e o interno. Significa isto dizer que. para haver costume. começando por aquela que merece a preferência da sociologia. 24. [pg. é representado por uma série de atos semelhantes. como vimos. Esta é a fonte primeira. tomando-se conhecido. não bastando a repetição de atos diferentes. as fontes materiais são constituídas pelos fatos sociais. sendo a lei a mais importante fonte formal. Entre as fontes formais.. sendo a primeira constituída pela lei e as outras pelos costumes e a jurisprudência. A principal (e única para alguns) fonte material é o Estado. AS FONTES MAIS IMPORTANTES DO PONTO DE VISTA SOCIOLÓGICO Se o Direito é um fato ou produto social do grupo como grupo. 23. enfoca o Direito pelo aspecto normativo. É a maneira pela qual o costume se exterioriza. As fontes formais ou de conhecimento também se dividem em imediata e mediata. a Economia. as coisas não são bem assim. . claro que para o sociólogo a fonte material mais importante é a sociedade. cit. exterioriza-a através do costume. como a Moral. porque a imediata (órgãos legislativos) é matéria do Direito Constitucional. de natureza material. que essa repetição seja constante. Tão logo a sociedade elabora uma determinada forma ou regra de conduta.

ou com uma relação social que ainda não se encontra suficientemente disciplinada. ajustam-se e começam a se expandir. 44] para suprir suas necessidades. é um Direito sem paternidade. não sendo suficiente a repetição eventual. Imagina então um meio de resolvê-la: tem uma idéia e a coloca em prática.. 145). de acordo com as condições sociais do grupo no qual se formou. quase sempre em determinado meio sócio-profissional.ininterrupta. A maioria das idéias morrem no nascimento por não apresentarem qualquer inovação ou utilidade prática. Evolui no tempo e no espaço. e vai sendo transmitido por tradição oral. [pg. de natureza psicológica. mas algumas pegam. no convencimento íntimo de que a prática de tais atos representa uma necessidade coletiva. Para elaborarmos agora o conceito de costume basta juntarmos os seus dois elementos. isto é. . espontânea.1. Com o correr do tempo a maioria do grupo passa a adotar aquela mesma forma de proceder. Trata-se de elemento subjetivo e consiste na consciência da obrigatoriedade da norma. p. e teremos: costume é a repetição constante e uniforme de determinados atos pelos membros de certa comunidade social. 24. cit. gradativa. ou de comportamentos exemplares (Miguel Reale. Está formado o costume. Em outras palavras. necessária. É por isso que se diz que o Direito costumeiro é um Direito anônimo por excelência. O elemento interno. praticada pela generalidade do grupo e não apenas por alguns dos seus membros. por ser de necessidade jurídica. ob. com a consciência de que correspondem a uma necessidade jurídica. Origem e Expansão do Costume Surge o costume de uma necessidade social. Alguém no grupo se depara com um fato. difusa. é a conduta social reiterada de forma constante e uniforme. Vai sendo formado paulatinamente pela própria sociedade. é a convicção jurídica de que a observância dessa prática corresponde a uma necessidade de direito. pois a coletividade só começa a ter um comportamento constante e uniforme quando intimamente convenci da de que esse comportamento é adequado às suas necessidades jurídicas. que vai se consolidando em virtude das forças da imitação do hábito. praticada com regularidade e certa duração. adquirindo um caráter eminentemente histórico. por estar convencida de que é a maneira correta. que atende às conveniências sociais. Verifica-se assim que o costume é de formação livre. que a prática constante e uniforme seja também geral. É principalmente sobre este segundo elemento que se funda a razão da obrigatoriedade do costume.

estando as normas desatualizadas.2. escritores. entretanto. Miguel Reale observa que o Código do Rei Hamurabi. um fato ainda não devidamente disciplinado. em face de uma lacuna no ordenamento jurídico. 24. Continua sendo elemento que condiciona os conceitos de bom e de mau. nos quais o Direito se revela prevalentemente pelos costumes e pelos precedentes. São positivas quando. Segundo o próprio Clóvis Beviláqua. Mesmo depois do surgimento da legislação. é o costume manifestar-se das duas maneiras: à medida que vão caindo em desuso as normas ineficazes. ineficazes. determinando o que deve ser seguido e observado pelo grupo e distinguindo-o daquilo que deve ser evitado e não praticado. ultrapassadas. a sociedade vai elaborando outras normas de comportamento destinadas a substituí-las. mesmo no sistema legalista. temos a tradição dos povos anglo-saxões . e desta forma vai criando o direito. As nações latinas e germânicas adotam o sistema de tradição romana – civil law. é de se reconhecer que nem sempre isso foi assim. como do conhecimento geral. Direito positivo escrito. entretanto. Nas sociedades primitivas. razão pela qual é acolhido pelos tribunais. que reside no fato de ser elaborado pelo próprio [pg. podem ser positivas e negativas ou omissivas. O Papel do Costume Nas sociedades modernas. Ao lado desse sistema. que constituem seu elemento objetivo. fundado no primado da Lei. um procedimento destinado a supri-lo. a sociedade cria uma regra. Embora o papel dos costumes nos países da civil law não tenha a relevância que tem nos países da common law. a primeira regulamentação da vida social foi feita através dos costumes. bem como a Lei das XII Tábuas (apontadas como as primeiras leis escritas) são uma consolidação de usos e costumes dos povos da Babilônia e do Lácio. São negativas ou omissivas quando. a sociedade vai paulatinamente deixando-as em desuso.common law. 45] grupo. toda a vida social estava alicerçada no costume.Já vimos que o costume manifesta-se exteriormente por atos. base legislativa. o costume não perdeu completamente sua força. doutrinadores e tratadistas. que ainda não conheciam a lei. Essas manifestações. O mais comum. não mais atendendo às necessidades sociais. “o costume é uma força produtora do Direito em todas as fases do . desta forma destruindo o direito. existem dois tipos de ordenamento jurídico. Indiscutivelmente.

No entender de alguns juristas (Serpa Lopes). com recomendação à lei para facilitar a sua conversão em casamento. ou faz os preceitos legais vigentes não serem aplicados. praxes forenses etc. 4°. suprindo sua lacuna: está além da lei. verde. podemos distinguir três espécies: secundum legem. bem como o cartão de crédito. . O cheque ouro. 126) determina ao juiz lançar mão dos costumes quando a norma for lacunosa ou omissa. que não abrangeu aquele fato oriundo das interrelações sociais. eram usos e costumes comerciais. Quer isto dizer que o legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes.3. o costume deve ser observado e até exigido. art. quer para completá-lo. Espécies de Costume Tendo em vista as relações do costume com a lei. Neste caso. antes de ser reconhecida pela Constituição. 46] Contra legem é o costume que se opõe à lei. Secundum legem é o costume que serviu de apoio ao ditame legislativo regular. foi um costume durante décadas na sociedade brasileira. desempenhando destacado papel nas relações econômicas. Resulta da contradição existente entre a lei e as fontes reais do Direito. de acordo com a opinião dominante. [pg. que a própria lei (Lei de Introdução ao Código Civil.. antes de serem formalizados pelo legislador. ou surgiu como complemento deste. Assinale-se. por último. praeter legem e contra legem. Praeter legem é o costume que funciona como fonte supletiva. porque encontra respaldo na própria lei. Muitas das leis trabalhistas tiveram nestes costumes sua fonte por excelência.desenvolvimento deste. caindo em desuso. Em nosso próprio Direito positivo há inúmeros institutos que. quer para corrigi-lo. dando-lhe interpretação mais conforme às necessidades sociais”. 24. e Código de Processo Civil. realizam-se de acordo com costumes que servem de complemento à lei. A união estável. Outros costumes. o desuso é espécie do gênero costume contra legem. embora ainda não convertidos em lei. o que demonstra haver sempre lugar para o costume. introduz uma nova norma contrária às disposições legislativas. onde a lei nada dispôs. azul etc. são exemplos apropriados daquilo que afirmamos. modalidades de cheque especial. art. Exemplo dessa espécie de costume é a chamada praxe forense: muitos atos praticados diariamente no foro não são expressamente regulamentados. bancários. são praticados regularmente pela sociedade.

tomando-se letra morta. entretanto. há muito caiu em desuso. sucessivas vezes. entretanto. Tal norma. pelo art. 47] que em todas as oportunidades as decisões foram semelhantes. dando ensejo a que os motéis proliferassem amplamente. deva ser sumariamente repelido. Só para exemplo disto lembramos o caso dos motéis que. 234 e parágrafo único do Código Penal. e com inúmeros filmes exibidos em nossos cinemas. tomando-a letra morta. São socialmente aceitos. sendo certo [pg. tipificam o crime de casa de prostituição. Ninguém desconhece que. do ponto de vista puramente jurídico. mesmo contra a lei. Para o jurista. Os costumes. tanto das comarcas do interior como das capitais. porque não tem sido pacífica a interpretação de que o costume. ainda que um preceito legal caia em desuso. Quer isso dizer que o costume só não revoga a lei no seu aspecto formal. Coisa idêntica ocorre com os livros. Do ponto de vista sociológico. revistas e outros veículos de literatura pornográfica que pululam nas bancas. que se apresenta contra a lei. recebe uma decisão. caracterizam o crime de escrito ou espetáculo obsceno. previsto no art. em todos os sistemas jurídicos. Por não corresponderem às necessidades recentes da sociedade. Quando o legislador vem a revogá-la por outra lei. o costume contra a lei não pode prevalecer simplesmente porque uma lei só pode ser revogada por outra. A JURISPRUDÊNCIA Um caso é levado à apreciação do Judiciário onde. até os tribunais de segunda . fizeram desse artigo letra morta. entretanto. Tempos depois caso idêntico é submetido à decisão do Judiciário e. após regular tramitação do processo. É o fenômeno bem conhecido a que se deu o nome de extinção por desuso. Em lugar delas a sociedade consagrou outras normas de comportamento consuetudinário para atender às novas realidades. Podemos resumir a controvérsia dizendo que. mas a revoga de fato. Essas decisões reiteradas que emanam dos órgãos judiciários constituem a jurisprudência. não pode produzir o efeito de fazer-se substituir por uma norma consuetudinária oposta. Tais fatos. isto é. 229 do Código Penal. sem sombra de dúvida. temos que admitir a prevalência do costume. guardaram o mesmo entendimento. está apenas assinando o atestado de óbito.Essa questão tem gerado sérias controvérsias. No Brasil os órgãos judiciários são numerosos: desde os juízes de primeira instância. assim. caíram em desuso. 25. existem inúmeras normas não mais aplicadas.

aplicava a regra do pretor. absolve. 123). segundo o magistério do Prof. cit. primeiro. se fosse o caso de conceder ação. Era algo mais ou menos assim: “Porque Tício vendeu um escravo a Caio. elaborava uma fórmula escrita. Nessa fórmula. foi se formando uma rica jurisprudência. 4a ed. condene Caio a pagar dez mil sestércios a Tício. por sua vez. p. destacando-se o Supremo Tribunal Federal.” O juiz. que se convencionou chamar direito pretoriano. Ebert Chamoun (Inst. Miguel Reale afirma: “Foi através da atividade dos juízes e dos pretores que os romanos. e assim. já que muitas vezes tinha que elaborar a regra jurídica a ser aplicada ao caso que lhe era apresentado. e o jus gentium. Modernamente a palavra jurisprudência designa o conjunto de decisões anteriores proferidas por juízes ou tribunais sobre casos idênticos. 25. teve início um novo processo que substituiu as Legis Actiones. Os casos se repetiam. 48] Com a sua incontestável autoridade. o pretor elaborava a fórmula ou regra jurídica apenas apreciando o fato em tese. quem tinha uma pretensão ia ao pretor. o que proporcionava ao pretor utilizar uma fórmula anteriormente elaborada para outro caso idêntico.instância (Tribunais de Alçada. sem procurar saber se estava ou não provado.. se não te parecer que deva pagar. Cabia ao juiz apreciar as provas e aplicar a regra jurídica ao caso em concreto. Inúmeros institutos jurídicos. [pg. construíram o jus civile. Conhecido como processo per formulas..1. com o passar do tempo. extremamente fecundo como fonte de direito. foi utilizado durante o período clássico e originou-se da atividade do pretor. aos poucos. Papel da Jurisprudência em Roma Em Roma.. conforme a sua convicção sobre os fatos. espécie de magistrado e também em parte legislador. privativo dos romanos. . tiveram origem nessa jurisprudência pretoriana. 148). de caráter mais amplo” (ob. no meado do século II a. conforme entendesse procedente ou não a pretensão do requerente. Como se vê. concedendo ações em casos não contemplados pelo ius civile ou decidindo ele próprio contra o sistema vigente. encaminhando as partes ao juiz. o pretor. ainda hoje existentes. através da Lex Aebutia. Nesse período. de Direito Romano. além de enumerar os elementos do processo. 1962. o pretor ordenava ao juiz condenar ou absolver. Exposto o problema. p. de Justiça) e os Tribunais Superiores.C. após examinar as provas oferecidas pelas partes.

isto é. 25. sendo relevantíssimo o papel do juiz. já que todo Direito emana da lei. Mesmo nos casos de ter o juiz que lançar mão da analogia. Assim entendem porque não é função do juiz criar o Direito. consagrar uma orientação. a função do juiz é somente aplicar a lei ao caso concreto. entendem os juristas não haver criação do Direito pela jurisprudência. dos costumes ou princípios gerais do Direito. que não vai além de fixar um rumo. 49] verdade. por mais reiterada que seja a jurisprudência. donde a importância dos precedentes. o que. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Legalistas Já vimos que. do ponto de vista puramente jurídico. mas simples meio de interpretação. Tal posição pressupõe. já que a lei é estática e a sociedade é dinâmica. Praticamente. não tem em princípio a força de obrigar o juiz a acatá-la em suas decisões. Nos sistemas codificados. não é [pg.2. que têm força obrigatória.25. que todas as hipóteses estejam nela previstas no momento de sua elaboração. Entre nós. o que é evidente na terminologia anglo-saxônica: diz-se judge made-law e a palavra justiça incorpora-se muitas vezes ao nome civil do juiz: “Mister Justice Smith. mas tão-somente aplicar a lei ao caso concreto. porque a norma que o juiz encontrou já estaria implicitamente contida no Direito positivo vigente e não daria origem a uma norma geral e obrigatória. como se sabe. por não existir uma norma particular na legislação.3. tem valor restrito. a força obrigatória reduzida em sua rigidez. Novas hipóteses vão surgindo em decorrência das . Mesmo admitindo uma perfeita adequação entre a realidade social e a lei. a Common Law é uma coleção de precedentes judiciários. entretanto. que o legislador tenha previsto todas as hipóteses e dado todas as respostas na lei. com o correr do tempo a norma vai se tomando desadequada. O mesmo já não ocorre nas sociedades baseadas no direito consuetudinário. Nesses países a jurisprudência constitui fonte viva do Direito. Constantemente estão os juízes enfrentado hipóteses novas e decidindo casos não contidos no âmbito das normas existentes. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Modernas Nas sociedades legalistas a jurisprudência desempenha papel secundário.” As fontes do Direito inglês são a Statute Law (direito legislado) e a Common Law (direito costumeiro). ainda que já constitua súmula do Supremo Tribunal Federal. a jurisprudência é apenas um roteiro ao lado da lei. Para muitos juristas a jurisprudência nem seria fonte (formal) do Direito. esta é definida nos julgamentos.

a jurisprudência cria Direito mesmo nos sistemas legalistas. tenham se limitado a aplicar as leis existentes. já que o juiz é obrigado a aplicar a norma que estabeleceria se fosse legislador. 50] O papel criador da jurisprudência foi grandemente prestigiado pela Constituição de 1988. O juiz. Inúmeros são os casos em que os tribunais acabaram criando um Direito novo. boa parte dos princípios radicados na sua vida civil. Nesse ponto. apenas na forma. ao passo que a jurisprudência é o direito dinâmico. Os princípios constitucionais provocaram uma nova visão interpretativa. os decompõe. deram novo sentido e alcance à ordem jurídica. passando pelo juiz de 1º grau.constantes transformações sociais. à judge made-law. num determinado momento que amanhã poderá não mais corresponder à realidade. com base no fato concreto. 4°) ordena-lhe formular uma regra jurídica para a hipótese e dar uma decisão. necessário se faz invocar a autoridade do grande Rui Barbosa: “Ninguém ignora o papel da jurisprudência na evolução do Direito escrito. A jurisprudência. embora aparentemente. Isso tudo leva a concluir que. Por outro lado. dando-lhe condições de. pela sua colaboração contínua. art. Em outras palavras. a lei é a concepção estática do direito. passa a autoridade dos arestos. dos costumes e princípios gerais do direito. mutatis mutandis. na realidade social que está em constante mutação. a partir do advogado. em relação à essência do Direito. através de uma interpretação ora extensiva. Os ingleses e americanos devem à essa colaboração legislativa da magistratura. altera sensivelmente o Direito positivo. obra sua. exigindo o pronunciamento judicial. exerce uma função de cooperador e modificador na obra legislativa. fixada nos textos. ora restritiva. pois tomaram-se o filtro pelo qual passamos a reler toda a legislação infraconstitucional. os alui. respeitado o ordenamento jurídico. A técnica das cláusulas gerais adotada pelos Códigos do Consumidor e Civil ampliaram consideravelmente os poderes do juiz. lançando mão da analogia. formular decisões mais justas e efetivas na composição dos conflitos de interesse. a tal ponto que se fala normalmente na função pretoriana da jurisprudência. não pode o juiz deixar de decidir alegando lacuna na lei: a própria lei (CPC. Quer isto dizer que o próprio legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. até chegar às Cortes Superiores. em muito comparável. elaborado por muitas inteligências.” [pg. Sobre a letra. ao papel do pretor em Roma. ajustando o Direito às novas realidades sociais. Inúmeras outras hipóteses de omissões e obscuridade na lei obrigam o juiz a construir. do ponto de vista sociológico. 126 e Lei de Introdução ao Código Civil. Desempenharam nesses casos. que os infiltra. pelo Código do Consumidor e pelo novo Código Civil. art. . um papel positivamente criador.

o Ministro Ruy Rosado de Aguiar Junior. em suma.Cláusulas gerais (das quais são exemplos os artigos 4º. a sentença passará a ser lei entre as partes. Numa compreensão concreta da experiência jurídica. aquilo que se diz ser o seu significado. jurista de escol e um dos maiores juízes que passaram pelo Superior Tribunal de Justiça. não tem sentido continuar a apresentar a Jurisprudência ou o costume como fontes acessórias ou secundárias” (ob. que lhe confere competência para converter em sentença. Como se vê. n° 24. e 51. no fundo. Em função da regra que ele cria para aquela situação. 422. interpreta a norma legal situado numa estrutura de poder. Em aula magna proferida na Escola da Magistratura do Rio de Janeiro . À vista dos elementos do caso concreto. com vistas à produção da solução adequada para o caso a ser resolvido.2003). ela será considerada lícita. 931 do Código Civil). visto como ao juiz é dado armar de obrigatoriedade aquilo que declara ser de direito no caso concreto. p. fins econômicos ou sociais). na realidade. 51] Esta é a lição do Mestre: “Se uma regra é. apenas demarca uma moldura dentro da qual o juiz deverá encontrar a lei do caso concreto. 169). vol. o seu entendimento em lei.EMERJ. assim criada para aquele caso concreto. Na cláusula geral o juiz aplica a lei que encontra no Direito e não o direito que encontra na lei. determinar previamente qual a norma de conduta que deveria ter sido observada naquele caso. assim conceituou a cláusula geral: “A cláusula geral é uma norma que impõe ao juiz o dever de. como já enfatizado. O juiz tem que formular a lei do caso concreto. artigos 113. 927 e parágrafo único. boa-fé) e dos fins a serem realizados (por exemplo. É por isso que Miguel Reale. O relato da norma. a regra jurídica disciplinadora do fato e que. p. “a boca da lei”. isto é. como é a da teoria tridimensional do Direito. com base nos parâmetros estabelecidos na norma. III. é aquele que elabora a lei do caso concreto. reconhece à jurisprudência o papel de fonte do Direito. a sua interpretação. dos princípios a serem preservados (por exemplo. o papel do juiz moderno não é mais apenas o de aplicar a lei ao caso concreto. como ensinava a escola exegética. não há como negar à Jurisprudência a categoria de fonte do Direito. IV do Código do Consumidor. fará então a avaliação da conduta em exame. 421. uma vez transitada em julgado. no momento de fazer a sua aplicação. O magistrado. do alto da sua autoridade. [pg. que é uma norma particular. fria e automaticamente.. . Se essa conduta estiver de acordo com a norma de dever. será então ilícita” (Revista EMERJ. estabelecem apenas uma moldura dentro da qual se desenham diferentes possibilidades interpretativas. cit. 18. o juiz deverá determinar o sentido da norma. 187. se em desacordo. 6.

como querem os defensores do chamado direito alternativo. preconizam a figura o juiz reformador. ela não acompanhará a realidade social. não cega como no passado. Temos aqui uma escola jurídica de corte sociológico. cuja importância como fonte se toma cada vez maior. por mais genial que tenha sido o legislador. acabou sendo encampado pelo legislador e transformado em . como de regra acontece com todas as decisões judiciais. indiscutivelmente. Os precedentes são. muitas vezes indo além da própria disciplina positiva. Revista dos Tribunais. Essa nunca foi e nem será a função do juiz. Se não houver talento criador dos seus intérpretes (juízes e operadores do Direito). para desafiar questão que somente pode ser decidida com critérios de hermenêutica que buscam formas de integração das lacunas. [pg. a excelência da partitura e a genialidade do compositor ficarão prejudicados se não houver talento do intérprete. Muito embora possa e deva o juiz decidir com certa flexibilidade.4. p. por corresponder a uma necessidade. mais do que nunca. ou seja. a pensão alimentícia só era devida após o trânsito em julgado da sentença. Assim também acontece com a lei por mais avançada que ela se apresente. “como um pensador adjunto do legislador. revela-se oportuna a sábia observação de Mário Moacyr Porto: “A lei não esgota o direito assim como a partitura não esgota a música. Isso acarretava uma série de problemas sociais. Ao lado dela se posiciona a jurisprudência. daquele que não se mantém neutro ideologicamente. na feliz imagem de Ana Lúcia Sabadell. mas uma obediência inteligente. incutindo ação política nos atos decisórios. sejam de formulação. por exemplo. Por isso não mais se pode questionar que a lei não é a única fonte do Direito. tem que respeitar a moldura jurídica estabelecida na lei. Tal entendimento tomou-se tão reiterado que. sejam de valoração. mas que se conscientiza do grau de injustiça que atinge economicamente camadas sociais e deve minorar a sorte dos pobres. mas sim do político. esse papel criador do Direito desempenhado pela Jurisprudência não vai ao ponto de uma total independência dos ditames da lei. impondo um regime de fome ao alimentando durante o curso do processo. 52] 25. 33). com o contexto de conflitos de necessidades humanas no qual o direito está inserido” (Manual de Sociologia Jurídica. Deve atuar. A toda evidência. Exemplos de Jurisprudência Transformada em Lei Durante muito tempo.” Com efeito. porque se preocupa com as condições do direito na realidade social. Com a finalidade de se alcançar a justiça social. um manancial que consolida determinada orientação. deve obediência à lei.Hoje. razão pela qual a jurisprudência passou a entender ser a pensão devida a partir da citação inicial. Ed.

que não chamarei de criadora. 53] interesses ou conveniências sociais. não é elidida por culpa de terceiro. Certo. A sentença deverá refletir a opinião coletiva sobre o fato. Podemos afirmar que o direito é a lei aplicada mais o que ela recebeu do órgão Juiz ou Tribunal. que lhe era tão desfavorável. ele tem seus pontos objetivos de referência. pelo acidente com o passageiro. no artigo 735 do novo Código Civil. reconhecidos pela jurisprudência com base na sociedade de fato. ele se conduz em função de certos princípios gerais estabelecidos.5. 205-206). Algo idêntico ocorreu com os direitos da companheira. A ambiência que cerca a espécie sub iudice. ambiência econômica. o de tomar a lei adequada à espécie sobre que vai decidir. que dispunha . 25. pp. A súmula 187 do Supremo Tribunal Federal. Razão assiste ao saudoso mestre Hermes Lima ao afirmar: “Entretanto. Conclui-se daí que a decisão do juiz é baseada nos costumes. fazendo seu papel consistir.lei. Relação entre a Jurisprudência e o Costume Sempre que o juiz é chamado a decidir um caso que não está claramente previsto em lei. conseqüentemente. desde que seu poder de aplicar inclui necessariamente o de interpretar. ipsi verbis. cit. Tal como os . social e política.. o que evidencia que a jurisprudência constitui uma atividade verdadeiramente construtora e pode. Sem dúvida. não em encontrar uma solução nova. Inúmeras outras inovações e progressos jurídicos poderiam ser mencionados. desde que a posição do juiz não é a de um escravo ou de um autômato em face da lei. A lei. serve-lhe de substrato. reflete-se necessariamente na obra do magistrado. Vários dispositivos da atual lei das locações tiveram por fonte o entendimento jurisprudencial. mas exerce sobre ele uma pressão latente e irresistível. porém o ajustamento da lei ao caso em questão está condicionado a uma estimativa de natureza pessoal e a uma apreciação. porém certamente construtora” (ob. contar-se entre as fontes do direito. encontram as normas já existentes no seio da sociedade. Por isso costuma-se dizer que os juízes descobrem o direito. o costume não lhe dita explicitamente a decisão. não resta a menor dúvida que a jurisprudência exerce profunda influência no desenvolvimento do direito positivo. terá que encontrar uma solução compatível com os [pg. foi transformada. contra o qual tem ação regressiva” -. hoje lhe garante inúmeros direitos graças aos avanços introduzidos pela jurisprudência.“A responsabilidade contratual do transportador. mas em procurar a mais adequada às aspirações do meio que o cerca.que a executou.

deve estar atento às mesmas necessidades.diz Ruy Barbosa Nogueira . A função legislativa entre nós é conferida especialmente ao Poder Legislativo. Em suma. o legislador. 10ª ed. sem aplicação prática. 54). Ruggiero. Daí a razão de ser a lei considerada a fonte formal imediata do direito. ao elaborar a norma legal. as normas a serem aplicadas em suas decisões. p. Diferem entretanto em muitos aspectos: . 26. A Lei. Todo e qualquer órgão que dite norma genérica de conduta é legislativo em si. Poderíamos dizer que lei é a regra social obrigatória emanada da autoridade a que. a sua forma escrita. Ambos são. é conferido o poder de ditar regras de direito (ob. devem ter sensibilidade jurídica para encontrar e extrair. por sua vez. 54] mes têm origem nas necessidades sociais. em princípio. o que evidencia não ser possível tomar o termo “legislativo” em sentido restrito.antigos pretores romanos. ao Poder Executivo. diz que lei é toda norma jurídica oriunda dos órgãos da soberania. formas de exteriorização do direito. decorrentes das necessidades sociais.. Saraiva. porque. Se a lei é liame. em certos casos. ligação ou vínculo. cit. portanto. aos quais. obriga a agir. quer dizer. em sentido jurídico. tanto a lei como o costume são regras de conduta. porque este termo significa o poder de fazer lei em sentido formal. assim como os costu. o fato ou relação fática. A LEI A palavra lei vem de ligar. a lei e o costume se assemelham. no Estado. sob pena de fazer uma lei ineficaz. portanto. p. que nos transmite o conhecimento do núcleo jurídico que a anima . do próprio ambiente social.o direito. em fato jurídico (gerador) ou relação jurídica (Curso de Direito Tributário. a lei é a forma. qual o antecedente e o conseqüente? O antecedente .1. transforma para seus fins. expressão da vontade do grupo. Com efeito. se reconhece a função legislativa.. segundo a constituição política do Estado.é o fato social ou relação fática concreta a que a lei se reporta ou descreve e o conseqüente o efeito que a lei atribui à ocorrência fática. Semelhança e Distinção entre a Lei e o Costume Quanto ao conteúdo. Costuma-se dizer que a lei é o tegumento do direito. 83). a lei é continente e o direito é conteúdo. através da qual o direito se exterioriza e se toma conhecido. Nisto. 26.[pg. mas também.

55] da Escola Histórica.C.. também já vimos.C. historicamente.2. 2) Quanto ao processo de elaboração: O costume. dos quais o mais famoso é o Código de Hamurabi. no começo do século XIX. emperrando o seu desenvolvimento e tomando-o desadequado à realidade social. Até então.1) Quanto à origem: O costume. é que se tomou possível a elaboração das primeiras leis. é formal. tende a se incrustar. e a lei de um órgão estatal. o fundador [pg. emana diretamente da sociedade. Por isso o costume. A lei se exterioriza por escrito e através de fórmulas rígidas. passa de pai para filho pela tradição. vai se formando paulatinamente. sanção. iniciando-se com um projeto. sabemos exatamente quando foi elaborada. Para ele o costume. No seu entender. onde teve origem um determinado costume. O Decálogo hebraico (os dez mandamentos) é de alguns séculos mais tarde e as leis indianas de Manu datam do III século a. ardoroso defensor da codificação. Eis aí outra razão pela qual o costume é anterior à lei: somente depois do surgimento da escrita. quando entrou em vigor e quando foi revogada. é anterior à lei. partidário do direito consuetudinário. promulgação.O Costume ou a Lei? Em torno dessa questão travou-se grande controvérsia na Alemanha. entre dois juristas de escol. à medida que determinada conduta vai sendo aceita e reiterada pelo grupo. toda a regulamentação da vida social foi feita através do costume. a codificação dificultaria a evolução natural do Direito. gradativa. longe de ser mais flexível do que a lei. Esta só veio a surgir quando a sociedade chegou ao estágio de organizar-se política e juridicamente. O processo de elaboração da lei. Nunca podemos saber com precisão quem. como já vimos. A lei. criando o Estado. 3) Quanto à forma: O costume se exterioriza através de condutas reiteradas e é transmitido em regra por via oral. numa época relativamente recente da história humana. é de formação livre. Por isso as mais antigas leis conhecidas são os textos mesopotâmicos do segundo milênio a. precisas. espontânea. até chegar à publicação. Já quanto à lei. tomando-se mais difícil sua modificação. votação. passando pela discussão. além de se adaptar mais facilmente . 26. rei da Babilônia. quando. Em oposição se colocava Thibaut. entretanto. Savigny. preestabelecido. Sistema Preferido . sustentava que o costume devia prevalecer sobre a lei por ser a expressão direta e pura das aspirações da coletividade nacional.

Dessa controvérsia resultou que a maioria dos Estados modernos vive sob o regime da codificação. apresenta a grande vantagem de proporcionar um conhecimento mais rápido e oferecer maior segurança do que o costume. A Sociologia Jurídica só se preocupa com a eficácia da lei. como veremos nos próximos capítulos. Já ficou assentado que a lei é.às novas condições sociais (desde que o legislador esteja atento e disposto a isso). objeto de estudo da Ciência do Direito. [pg. 56] . essencialmente. apenas alguns preferindo o direito consuetudinário.

fugindo aos objetivos deste modesto trabalho. a ciência do direito e a filosofia do direito. Relação da Sociologia Jurídica com os demais ramos do direito. 1961. integrante de uma superestrutura social. Entre os que pensam dessa última maneira podemos citar Edmond Jorion. **** 27. pois tem objeto próprio. por isso que se preocupa apenas com o direito como um fato social concreto. pelos instrumentos e métodos das ciências mais antigas. A eficácia. a sociologia do direito se confundiria com a própria ciência do Direito. Não se confunde o objeto da Sociologia Jurídica com o de qualquer outra ciência que também se relacione com o direito. 57] a afirmar que a autonomia da Sociologia Jurídica é hoje reconhecida. Sem nos estendermos sobre a controvérsia. p. limitamo-nos [pg. como acontece com toda ciência nova. aquilo que se pretendia constituir em objetivo da nascente sociologia do direito. Teoria tridimensional do direito: diferença entre a Sociologia Jurídica. foi bastante controvertida. juristas em geral. Na opinião de muitos sociólogos. O ser e o dever ser. a sociologia jurídica seria parte integrante da Sociologia. quando muito constituindo uma de suas especialidades. A finalidade da Sociologia . os prós e contras das várias posições. a vigência e o fundamento.Capítulo VI A AUTONOMIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COMO CIÊNCIA E SUAS RELAÇÕES COM OUTRAS CIÊNCIAS SOCIAIS Autonomia da Sociologia Jurídica. AUTONOMIA CIENTÍFICA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A questão da autonomia da Sociologia Jurídica. para quem a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina (De la Sociologie Juridique. por exemplo. método e leis. A História do Direito. Para outros. e isso gerou controvérsias. Muitos autores procuraram explicar. 222).

porém. cit. Essas visões são parciais e não revelam toda a dimensão do fenômeno jurídico.. principalmente com a Ciência do Direito e Filosofia do Direito. p. geográfico. mas atuam como elos de um processo. 1965. normativa. Fato. demográfico. com as quais tem muito em comum. ob. uma regra ou norma. Tais elementos ou fatores (fato.Jurídica é estabelecer uma relação funcional entre a realidade social e as diferentes manifestações jurídicas. 65). que representa a relação ou medida que integra um daqueles elementos ao outro. fornecendo subsídios para suas transformações. Saraiva. Este congrega aqueles componentes. Lições Preliminares de Direito. como se vê. p. A originalidade desse grande jurista brasileiro está. finalmente. como defendem os normativistas. valorativa. de ordem técnica etc). 4ª ed. esses elementos ou fatores não só se exigem reciprocamente. embora se tratando de uma ciência autônoma. Ed. quando formam uma implicação dinâmica. mas não em uma simples adição. o fato ao valor. Juntos vão formar uma síntese integradora. um fato subjacente (fato econômico. um valor. como proclamam os idealistas. 378). mas coexistem numa unidade concreta. valor ou norma) não existem separados uns dos outros. há. de tal modo que a vida do Direito resulta da integração dinâmica e dialética dos três elementos que a integram (Filosofia do Direito. que assim pode ser resumida: Onde quer que haja um fenômeno jurídico. e. uma verdadeira trilogia. . na maneira como descreve o relacionamento entre os três componentes do fenômeno jurídico. na qual cada fator é explicado pelos demais e pela totalidade do processo” (Paulo Nader. que. mantém a Sociologia Jurídica íntimas relações com todas as ciências sociais. sob forma de regulamentação da vida social. [pg. no tempo e no espaço... como querem os sociólogos. 12ª ed. A TEORIA TRIDIMENSIONAL DO DIREITO Quem elucidou essa questão melhor do que ninguém foi o genial Miguel Reale na sua teoria tridimensional do Direito. 28. Mais ainda. sempre e necessariamente. Cada um desses três fatores se refere aos demais e por isso só alcança sentido em conjunto. inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. com objeto próprio e inconfundível. valor e norma formam uma unidade fático-axiológica-normativa. que confere determinada significação a esse fato. É evidente. Título X. uma espécie de santíssima trindade do Direito. 58] Daí resulta que “o Direito não possui uma estrutura simplesmente factual.

Na correta visão de Reale, o Direito forma-se da seguinte maneira: um valor podendo ser mais de um - incide sobre um prisma (área dos fatos sociais) e se refrata em um leque de normas possíveis, competindo ao poder estatal escolher apenas uma, capaz de alcançar os fins procurados. Um valor pode desdobrar-se em vários dever-ser, cabendo ao Estado a escolha, a decisão; toda lei é uma opção entre vários caminhos; o fato nunca será isolado, mas um conjunto de circunstâncias. Na concepção do autor dessa teoria tridimensional, o Direito é uma realidade fático-axiológico-normativa, que se revela como produto histórico-cultural, dirigido à realização do bem comum. Apesar de sua natureza dinâmica, o Direito possui um núcleo resistente, uma constante axiológica, invariável no curso da história. Pois bem, esses três fatores inseparáveis do Direito - fato, norma e valor - vão constituir o objeto de três ciências distintas, embora afins: a Sociologia Jurídica, a Ciência do Direito e a Filosofia do Direito. A Sociologia Jurídica tem por objeto, como já ficou dito, o direito fato, a Ciência do Direito se preocupa com a norma, e a Filosofia do Direito dedica-se ao direito em seu aspecto valor.

28.1. Diferença entre a Sociologia Jurídica e a Ciência do Direito

O fato é o acontecimento social referido pelo Direito objetivo. São as relações sociais, fatos interindividuais que envolvem interesses básicos para a sociedade e que por isso enquadram-se dentro dos assuntos regulados pela ordem jurídica. Implica isto dizer que a Sociologia Jurídica descreve a realidade social do direito sem levar em conta sua normatividade. Preocupa-se com a existência do direito como produto ou fenômeno social, decorrente das inter-relações sociais, e não como foi concebido ou equacionado pelo legislador. A sociologia deve apenas relatar e registrar o fato sem se envolver com valores, ideologias ou normas. É tarefa do sociólogo descrever os fatos. [pg. 59] A norma consiste no padrão de comportamento social a ser adotado em cada caso. “Ao disciplinar uma conduta, o ordenamento jurídico dá aos fatos da vida social um modelo, uma fórmula de vivência coletiva” (Paulo Nader, ob. cit., p. 378). E esse é o campo da ciência do Direito. Estuda o Direito pelo seu aspecto normativo, isto é, o conjunto de leis e regras escritas e emanadas do Estado. À ciência do Direito interessa o conhecimento das normas jurídicas, que enunciam, não o que sucedeu ou como sucedeu, mas o que deve acontecer, já que o objeto do saber jurídico é o Direito, e o Direito é a norma, nada mais que a norma (Kelsen). A norma pode ser definida como um juízo hipotético destinado a expressar que fazer ou não fazer algo deve acompanhar-se de uma medida de coação por parte do Estado.

28.2. Distinção entre a Sociologia Jurídica e a Filosofia do Direito

À Filosofia do Direito, que objetiva o estudo do direito no seu aspecto valor, cabe determinar sua formação e desenvolvimento em relação aos elementos infra-estruturais da sociedade, ressaltando a dependência de suas modificações. Preocupa-se com correntes filosóficas e ideológicas, que conceberam o direito desta ou daquela forma, e com a escala de valoração jurídica dos bens existentes na sociedade. Valor é o elemento moral do Direito, a sua essência ética. Toda a obra humana é impregnada de sentido ou valor, e assim também ocorre com a sociedade. Tem ela uma escala de valores ligada à idéia de poder, importância, qualidade, estima, utilidade e necessidade material ou moral, acerca de condutas, posições, entendimentos e coisas, escala essa que vai se formando e se modificando de acordo com correntes ideológicas - pensamentos, idéias, opiniões - existentes em determinado momento e em determinada sociedade. Toda norma enuncia algo que deve ser, em virtude de ter sido reconhecido um valor como razão determinante de um comportamento declarado obrigatório. O valor confere determinada significação ao fato, inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. Houve tempo, por exemplo, que a liberdade foi o grande valor social que, por sua vez, deu causa ao liberalismo. O Direito brasileiro atual, principalmente a partir da Constituição de 1988, voltou a dar ênfase aos valores, o que tem conseguido alcançar por meio da consagração de princípios. Princípios são valores éticos, morais e sociais apreendidos pelo legislador e que, consagrados em um preceito, passam a ser instrumentos de interpretação de outros preceitos, enquanto [pg. 60] normas são regras de comportamento que estabelecem como deve ou não deve ser a conduta e as conseqüências que daí decorrem. Regras oferecem soluções enquanto que os princípios oferecem paradigmas, critérios para se encontrar a solução do caso concreto. Entre os superiores princípios (valores) consagrados na Constituição de 1988, merece especial destaque o da dignidade da pessoa humana, colocado como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1°, III). Temos hoje o que pode ser chamado de direito subjetivo constitucional à dignidade. Ao assim fazer, a Constituição colocou o Homem no vértice do ordenamento jurídico da Nação, fez dele a primeira e decisiva realidade, transformando os seus direitos no fio condutor de todos os ramos jurídicos, Isso é valor. E, ao inserir em seu texto normas que tutelam os valores humanos, a Constituição fez também estrutural transformação no conceito e valores dos direitos

individuais e sociais, o suficiente para permitir que a tutela desses direitos seja agora feita por aplicação direta de suas normas. No plano infraconstitucional, a legislação vem seguindo o mesmo caminho. O Código do Consumidor é uma lei principiológica, no qual foram consagrados os valores éticos e morais necessários à defesa do consumidor, entre os quais a boa-fé objetiva, princípio cardeal (arts. 4°, VIII; 51, IV), a transparência, a confiança, a informação, a segurança e outros. O novo Código Civil, como não poderia deixar de ser, pois foi coordenado pelo autor da teoria tridimensional do Direito, está todo comprometido com o resgate dos valores éticos, sociais e morais no Direito. A título de exemplificação, lembramos que a boa-fé é também o princípio cardeal desse novo Código, uma espécie de fio condutor de toda a sua estrutura. Não se trata, porém, da boa-fé meramente subjetiva - posição psicológica, intenção pura e destituída de má-fé, crença ou ignorância de uma pessoa -, porque isso a realidade demonstrou não ser suficiente nas relações sociais regidas pelo Direito, Dizem que o inferno está cheio de pessoas bem intencionadas. A boa-fé consagrada pelo novo Código como valor superior é a boa-fé objetiva ou normativa, assim entendida a conduta adequada, correta, leal, transparente, confiável e honesta que as pessoas devem empregar em todas as relações sociais. Três são as funções da boa-fé objetiva no novo Código Civil: a) fonte de deveres instrumentais dos contratos (art.422): quem contrata não contrata apenas o que contrata, contrata também lealdade, cooperação, transparência, informação etc. (tem-se dito que esse dispositivo é a porta de entrada da ética no nosso Direito); b) regra de interpretação dos negócios [pg. 61] jurídicos (art.113): todo e qualquer negócio jurídico deve ser interpretado pelo juiz de acordo com o princípio da boa-fé; c) limite ao exercício dos direitos subjetivos (art.187): nesta terceira hipótese a boa-fé representa o padrão ético de confiança e lealdade indispensável para a convivência social. As partes devem agir com lealdade e confiança recíprocas. Essa expectativa de um comportamento adequado por parte do outro é um comportamento indispensável na vida da relação. É um limite a ser respeitado no exercício de todo e qualquer direito subjetivo. Podemos afirmar que o Código do Consumidor e o novo Código Civil são uma reação ao liberalismo jurídico que predominou durante todo o século XX, principalmente em sua primeira metade, e que aos poucos afastou o Direito da ética, da moral, da eqüidade, dos valores transcendentais, tornando-o puro tecnicismo. Em suma, a Sociologia procura a existência; a Filosofia preocupa-se com a essência. “A Sociologia do Direito”, como observou Gurvitch, “dá ao jurista uma descrição objetiva da realidade social do direito, válida num dado meio social; a Filosofia do Direito lhe

dá um critério de valores jurídicos, que lhe ajuda em suas manifestações particulares para alcançar fins concretos” (Sociologia do Direito, p. 13). Embora cada uma funcione em seu setor específico, as duas ciências estão, entretanto, interligadas, pois o filósofo social necessita conhecer a realidade social que se faz presente nos trabalhos do sociólogo. “Quando se estuda Filosofia do Direito”, assinala Porto Carreiro (Introdução à Ciência do Direito, p. 78), “parte-se de uma base sociológica inafastável, cujo conhecimento é fornecido por aqueles que se dedicam ao estudo sociológico do Direito”.

29. A EFICÁCIA, A VIGÊNCIA E O FUNDAMENTO

As três dimensões pelas quais o Direito pode ser considerado (fato, norma e valor), segundo o próprio Miguel Reale (O Direito como Experiência, 1961, pp. 61 e 62), dão origem a três planos de problemas diferentes: o da eficácia, o da vigência e o do fundamento. A Sociologia Jurídica se preocupa com o primeiro - a eficácia; a Ciência do Direito, com o segundo - a vigência; e a Filosofia do Direito, com o terceiro - o fundamento.

29.1. A Eficácia

Ao afirmarmos que a Sociologia Jurídica preocupa-se com a eficácia do Direito, queremos enfatizar que constitui também objeto dessa discipli- [pg. 62] na saber se as normas jurídicas estão ou não adequadas às necessidades sociais. Quer dizer, primeiro a Sociologia Jurídica preocupa-se com os fatos sociais que repercutem na ordem jurídica, e com as relações que necessitam receber o disciplinamento do direito; uma vez elaborada a norma disciplinadora, empenha-se em saber se a referida norma atende ou não às necessidades sociais. Isso, como teremos oportunidade de ver, é da maior importância porque a norma, mesmo que no momento de sua elaboração esteja perfeitamente adequada à realidade social, com o correr do tempo pode se tomar ultrapassada, ineficaz, em razão da constante evolução social, tomando-se necessário reformulá-la.

29.2. A Vigência

A Ciência do Direito, por sua vez, preocupa-se não somente com a norma, como já vimos, mas também com a sua vigência. Enquanto a lei estiver em vigor, cabe ao jurista estudá-la, interpretá-la, comentá-la etc., ainda que se trate de lei já completamente

seu conteúdo ético a seu mundo axiológico. como outrora se discutiu o . o objeto da ciência do Direito.desatualizada e em desuso. investigando ainda as ideologias ou correntes de pensamento que acabaram prevalecendo e servindo de fundamento aos principais institutos jurídicos. mas no Brasil continua sendo objeto de acirrados debates. federado. redução à condição análoga à de escravo (art. que [pg. Discute-se a justificação dessa união. Até lá é objeto da Ciência do Direito. -.unitário. sistemas de produção etc. surge a norma e. Recapitulando: primeiro ocorre o fato social. 63] organização social e política vai estabelecer situação da família. teremos esta ou aquela estrutura política e social. decidindo que forma de Estado e de governo vai adotar . a natureza do que é jurídico. Ao estudarmos o Código Penal. Do exposto. ainda que completamente afastada da realidade social. republicano -. finalmente. depois valoriza-se o fato e. a forma de governo é aquela. encontramos várias figuras típicas que ainda hoje são objeto de comentários dos autores (estão no Código). por último. o crime de perigo de contágio venéreo (art. haverá campo apenas para a Sociologia Jurídica e para a Filosofia do Direito. ele é normatizado. que a Filosofia do Direito preocupa-se também com os fundamentos do Direito. Mas a norma legitimando essas situações não foi editada porque ainda está em debate o valor. democrático. 130). Enquanto o grupo social estiver se organizando. porém. sentimental e doméstica como se fossem casais. as suas conseqüências morais. apesar de não mais terem aplicação social: por exemplo. Dependendo das correntes ideológicas ou filosóficas predominantes e dos fatos sociais existentes.3. por via de conseqüência. Serve como exemplo a união estável de homossexuais. queremos dizer que constituem igualmente objeto dessa disciplina os problemas relacionados com o ideal do direito. A norma só deixa de ser vigente depois de expressa ou tacitamente revogada por outra. familiares e sociais.. suas causas e seus princípios últimos. questão que ainda aguarda definição jurídica. partilhando a vida sexual. 240) etc. Muitas já conseguiram a posse e guarda de crianças e até adotá-las como filhos. adultério (art. Em alguns países o casamento de homossexuais já é permitido. 29. 149). éticas. O fato social já existe: milhares de pessoas do mesmo sexo convivem sob o mesmo teto. No momento. em que ficar decidido: a forma de Estado é essa. o casamento será assim etc. religiosas. O Fundamento Ao afirmarmos. parece-nos resultar claro que a Ciência do Direito só tem razão de ser após o surgimento da primeira norma na sociedade.

a conduta humana . a ética e o direito. observou Machado Neto (ob. As ciências sociais pertencem ao mundo do dever ser. No mundo do dever ser as coisas se passam segundo a vontade racional do homem. da consciência e da razão. e assim por diante. Sintetizando tudo o que até aqui ficou dito. até nossos dias. O direito de que aqui se vai tratar . Como ser bioló. 266. No mundo da natureza as coisas se passam mecanicamente. às condutas humanas em sociedade. que decorrem da própria natureza. 30.. a terra fica molhada. de nada vale a vontade do homem na tentativa de modificá-las mediante a formulação de leis racionais. e assumindo a responsabilidade pelos seus atos. O homem é o único ser que participa das duas esferas básicas do mundo . O mundo do ser é o das leis naturais. em sua Teoria Pura do Direito. É este que.[pg. sujeito às leis naturais. reconhecido como união estável pela Constituição de 1988. apenas servindo-se de uma lógica diversa. escrevendo a sua história. O SER E O DEVER SER Desde Kelsen. atua na esfera da liberdade. a dado antecedente. está se referindo. cit. cuja conversão em casamento a lei deve facilitar (art. não às normas (dever ser). § 30). fica obrigado a repará-lo. escolhendo os seus próprios caminhos. Quando o sociólogo do direito se refere ao seu objeto. como ser moral. mas ao próprio direito vivo (ser). liga determinado conseqüente: se alguém causar dano a outrem. isto é. está na realidade das coisas.é o mesmo com que o sociólogo já se habituara a conviver muito antes que os juristas ou os jusfilósofos fizessem a extraordinária descoberta do direito como conduta em interferência intersubjetiva. tal como a moral.concubinato. 133). a Sociologia Jurídica versará o mesmo objeto da ciência jurídica. podemos estabelecer o seguinte quadro: DIREITO Sociologia Jurídica Ciência do Direito Filosofia do Direito Fato Norma Valor Eficácia Vigência Fundamento Ser Dever Ser Poder Ser . 64] gico. Nessa perspectiva. isto é. se chover.a física (o ser) e a moral (o dever ser). muitos autores procuram distinguir a Sociologia Jurídica da Ciência do Direito estabelecendo que a primeira é a ciência do ser e a segunda a do dever ser. p. A um antecedente liga-se indispensavelmente dado conseqüente: um corpo solto no espaço (antecedente) cai inexoravelmente (conseqüente). construindo bombas ou catedrais. entidade familiar.

cada qual. e não os passados. A HISTÓRIA DO DIREITO De todas as ciências jurídicas. filósofos e juristas. que necessitam do disciplinamento jurídico. entretanto. São os fatos presentes. nos influenciam de tal forma. 1970. pp. há muito tempo. a essa altura. cada qual. e os últimos falam do seu aspecto normativo.apesar de ser considerada inócua tal distinção por alguns autores (Nelson Nogueira Saldanha. possibilitando a elaboração de normas ajustadas a essa realidade e aferindo a eficácia das já existentes. 37-38). À História do Direito. eficácia. dever ser. fundamento. os segundos falam do mesmo fenômeno.a vida social: para ambas o direito aparece como um fato social. oriundo da instituição estatal. Correntes filosóficas. envolvimentos sociais etc. aquelas que mantêm mais íntimas relações. a fim de apurar a evolução sofrida pelo Direito. Os fatos presentes são a principal preocupação da Sociologia Jurídica porque cabe-lhes. com um aspecto diferente. 31. interessam os fatos passados simplesmente por não ser possível fazer história de fatos presentes. ser. com o máximo de fidelidade ao acontecido. de vigência. todos têm razão. Cremos que. até inconscientemente. . Não se pode fazer história de fatos presentes. Sociologia do Direito. Entendemos que a principal distinção entre essas duas ciências está em que a Sociologia Jurídica preocupa-se por excelência com os fatos pre. porém. Historiar é narrar fatos notáveis ocorridos na vida dos povos tal como ocorreram. a ponto de. em seu ângulo de visão. e a História do Direito com os fatos passados . fazer a descrição da atual realidade social do direito. oriundo inquestionavelmente da sociedade. Todos estão certos. como já vimos. mas no seu aspecto valor. a Sociologia Jurídica e a História do Direito são. as três ciências ocupam-se do Direito. É que as duas possuem praticamente o mesmo objeto material . inegavelmente. 65] sentes. por sua vez. o direito. como à História em geral. porque o presente inquestionavelmente influencia na visão dos fatos.Como se vê. Os primeiros falam do direito no seu aspecto fato. já podemos compreender melhor os motivos da inconciliável controvérsia existente entre sociólogos.[pg. poder ser. posições políticas. o que lhes confere objeto próprio e autonomia. a realidade atual. Os fatos passados só interessam à Sociologia Jurídica eventualmente para efeito de comparação.

assim [pg. A segunda (História do Direito) detém-se na consideração de cada fenômeno sócio-jurídico individual. completa e abrangente do Direito. ser fiel a eles o máximo possível. pode-se concluir que. isto é. como é sabido. o direito fato. que as duas ciências se relacionam intimamente. por um lado. momentos antes esfaqueado por C. Trabalhista.em vez de nos limitarmos a narrar. fundamento sólido para suas induções. uma coisa é o fato e outra a sua interpretação. pois pode ser que A estivesse socorrendo B. . E o fato social. a Sociologia Jurídica tem autonomia como ciência. por outro está intimamente relacionada com todo o Direito . De todo o exposto. não como ocorreram. passarmos também a interpretar. 129). Este é o fato. RELAÇÃO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COM OS DEMAIS RAMOS DO DIREITO Se. p. como já vimos. pois o historiador do direito se abebera dos ensinamentos da Sociologia Jurídica. O historiador tem que narrar fatos. a narrar os fatos. Sucessões. Fiscal etc. Penal. 66] como o sociólogo do Direito se aproveita do inesgotável manancial da história das instituições jurídicas. . como vai relatá-la? Que viu A esfaqueando B. Via de regra. é o objeto por excelência da nossa disciplina. E. para fazer história. deixar que o tempo dispa os fatos de toda ideologia ou conotação interpretativa. entretanto. Para Machado Neto (ob. por outro lado.pela simples razão de ocorrerem na sociedade todos os fatos que repercutem nos mais variados ramos do Direito. Isso já é interpretação. 32. por um lado. que lhe dá maior força de penetração no sistema global da história jurídica.Família. E dessas inter-relações resultará para o estudante uma visão mais ampla. mas como nos parecem ter ocorrido. Observa o autor. Alguém passa por uma rua e vê uma pessoa tirando uma faca que estava cravada nas costas de outra. procurando enquadrá-la no sistema geral em que a história em si própria consiste. a principal diferença entre Sociologia Jurídica e História do Direito está em que a primeira pretende apanhar do fenômeno social jurídico o que sejam suas características genéricas: as leis gerais e as figuras típicas do comportamento jurídico da sociedade. cit. Por isso é necessário. se a Sociologia Jurídica. mantém constante intercâmbio de sugestões e de subsídios com todas as disciplinas especiais que pesquisam o direito sob outros ângulos. se não quiser correr o risco de generalizar a partir de poucos exemplos empíricos.. e isso só é possível alcançar após o decurso de algum tempo. é um estudo específico e possui ângulo próprio para examinar seu objeto.

permitindo ao homem penetrar no mundo do invisível . os mais poderosos e velozes. [p. As ruas. bem como de submarinos e outros objetos destinados à navegação. Efeitos do progresso científico no mundo social.Capítulo VII IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E DA SOCIOLOGIA JURÍDICA EM ESPECIAL O desenvolvimento científico. Como resultado. de naves espaciais. Disca o telefone e fala com alguém no outro lado do . precisaremos de duas casas . satélites artificiais e até de objetos “nãoidentificados”.uma para a família e outra para os aparelhos. O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO Na primeira metade do século XX as grandes potências mundiais deram grande importância ao estudo das ciências chamadas exatas. pois pode estar em vários lugares quase ao mesmo tempo. Química. investindo-se fabulosas somas no desenvolvimento de arrojados projetos quase impossíveis. em tão grande número e variedade que. A importância das ciências sociais. As casas encheram-se de aparelhos eletrodomésticos. de aviões. outrora calmas e livres. como dos gigantescos corpos celestes distantes milhões de anos luz. houve um progresso científico nunca dantes visto ou esperado! Inúmeros inventos e descobertas ocorreram. Matemática. o ar. Todas as atenções foram voltadas para as pesquisas no campo da Física.tanto das minúsculas bactérias. **** 33. o mar encheu-se de navios das mais variadas procedências. 69] O homem verdadeiramente adquiriu o dom da ubiqüidade. encheram-se de veículos dos mais variados tipos. se formos adquiri-los todos. Importância da Sociologia Jurídica. Astronomia.

no qual viajava do Rio para São Paulo. Mas se um ancestral nosso. 70] mente conseguiam fazer mais de uma por ano. basta que atentemos para o seguinte: qual era o sistema de transporte mais rápido 2. Em conseqüência desse fantástico progresso científico. A prensa de Gutenberg era. põe-se em contato com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. entra na internet e. de grande impacto cultural sobre a sociedade.[p. quando Johann Gutenberg.com carruagens. apesar do transcurso das gerações. O invento mudou a cultura ocidental para sempre.000 anos antes de Cristo? O lombo de animal. naquele instante. por volta de 1700. Os monges. Já houve até um filme que explorou esse motivo. Antes de Gutenberg. roupas compridas etc. literalmente. O único acontecimento isolado. nos dias de Cristo. comanda operações de muitos milhões de dólares. O nosso D. A maioria das . toma café no Rio de Janeiro e janta em Nova Iorque. Até aquela época. tudo se transformou em nossa sociedade. seus descendentes tiveram que remontar em tomo dele o mundo em que viveu . não acreditaria no que veria: pensaria que estava em um outro mundo. Era a história de um indivíduo. e descongelado em 1976 num mundo totalmente diferente. voltasse à nossa sociedade. a vida fora comunitária e praticamente imutável. mas ainda em cima de um cavalo. Passaram a ser naturais. liga a televisão e vê o que está se passando. mas. uma impressora a laser de alta velocidade. uma vez feito isso. e assim por diante. Na Europa e nos demais países civilizados também o transporte era o mesmo. um ourives da cidade de Mainz. Mil e oitocentos anos depois. Isso demonstra que em quase quatro mil anos de história a humanidade nada progrediu no campo científico. em comparação. e fomos a elas nos acostumando gradativamente. que em geral eram encarregados de copiar a Bíblia. nos Estados Unidos. vê o que pretender. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava o mesmo. teve condições de imprimir múltiplos exemplares. que morreu aí pelo ano de 1900. congelado. ou até mesmo na Lua. não em cima de um tanque de guerra. ocorreu por volta de 1450. rara. todos os livros eram copiados à mão. Não percebemos tanto o vulto das transformações porque ocorreram todas em nossos dias.mundo. Para evitar-lhe problemas psíquicos. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava sendo o lombo de animal. acidentalmente. Gutenberg levou dois anos para compor os tipos de sua primeira Bíblia. inventou o tipo móvel e apresentou a primeira prensa na Europa (a China e a Coréia já possuíam prensas). O aparecimento da prensa fez mais pela cultura ocidental do que simplesmente introduzir uma forma mais veloz de reproduzir um livro. Para termos idéia do progresso científico que houve em nossos dias e das transformações ocorridas. compra o que quiser. Pedro I proclamou a independência. em outro continente. Dois mil anos depois. na Alemanha. acessa qualquer informação.

depois da Segunda Grande Guerra Mundial e da desintegração do átomo.agravou-os ainda mais. a ponto de tomar impossível a vida em certos lugares. Desse desequilíbrio resultou que o progresso científico. os homens voam a fantásticas velocidades. em vez de resolver os problemas sociais . perdendo de vista seu objetivo. Enquanto o homem se empenhava em conquistar a Lua. ao vê-lo. O mais impressionante de tudo é que a maioria dos inventos ocorreu de 50 anos para cá. dizendo repetidas vezes: “Essa coisa não vai andar.” E não parou mesmo.sua razão de ser . pôs-se a advertir os passageiros. permitindo a formação de um clima propício a lutas de classes. em geral era quase impossível encontrar o caminho de volta.” E quando o trem andou. gerando novos planos na desigualdade social. a comunidade olhava para dentro. já de muito ultrapassaram a barreira do som. ainda mais desnorteado. fluvial e até do mar. O primeiro trem andava à velocidade de 6 km por hora: era um espanto para a época. sonora. outro a máquina a vapor. trouxe poluição atmosférica. um de meus autores favoritos: “Nesse mundo. porque de 6 km por hora. como se sabe.” Ao chegarmos perto do século XX. choques ideológicos.[p. 71] tremamente privilegiada em detrimento das demais. em parte porque. não acompanharam o desenvolvimento científico e tecnológico. os inventos começaram a surgir: um descobriu a energia elétrica. sem mapas confiáveis. dominando o espaço sideral. relegadas a segundo plano. todas as experiências eram pessoais: os horizontes eram pequenos. e assim as rodas começaram a correr. 120 km etc. o velho se pôs a gritar: “Essa coisa não vai mais parar. As instituições sociais. acarretando acidentes que matam e mutilam mais do que as guerras. O que existia no mundo exterior era uma questão de ouvir dizer. Criou superpotências capazes de dominar e destruir as demais. que é o próprio homem. passou em pouco tempo a 60. por falta de uma ação . EFEITOS DO PROGRESSO CIENTÍFICO NO MUNDO SOCIAL Enquanto as ciências chamadas exatas eram estudadas e pesquisadas. aumento da criminalidade. A explosão demográfica. as ciências sociais ficaram esquecidas.pessoas só conhecia aquilo que fora visto com os próprios olhos ou ouvido em relatos de terceiros. Hoje. perdia terreno em seu próprio grupo. resultando disto um descompasso entre o progresso científico e a evolução social. agravou os problemas de trânsito. deu origem a uma classe ex. Muito poucas aventuravam-se para além das fronteiras da aldeia. Como diz James Burke. 34. outro ainda o motor a explosão. Um velho que se encontrava na estação. porém.

com inúmeros tentáculos ou segmentos. destacamos: Euzébio de Queiroz Lima. destinados a preparar especialistas em planejamento e organização social. 35. A sociedade tem que caminhar para o autoconhecimento. mas a cegonha. segurança. . A. miséria. Tem que conhecer o que se passa em seu seio como temos que nos conhecer a nós mesmos. Concluiu-se também ser necessário planejar o desenvolvimento social. vinculado ao desenvolvimento social. Sociologia e Filosofia do Direito. que editou em 1950 a obra intitulada O Problema de uma Sociologia do Direito. inúmeras e extraordinárias obras foram escritas sobre o assunto. que escreveu o conhecido livro Princípios de Sociologia Jurídica. Evaristo de Moraes Filho. Dentre os juristas e sociólogos que entre nós se têm dedicado ao assunto. A IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Houve o despertar da consciência para a importância das ciências sociais e a necessidade de estudá-las. já reinantes nos grandes centros socialmente mal organizados. sério. confusa e turbulenta. É hoje uma imposição da vida em coletividade. Provam isto os problemas sociais de violência. realizando-lhe os objetivos. L. criaram-se cursos universitários específicos nesse fascinante ramo [p. de algum tempo para cá tomou-se obrigatório o estudo das ciências sociais em quase todos os cursos superiores. editado pela primeira vez em 1922. liberdade. A planificação da sociedade não é mais considerada incompatível com a democracia. de Miranda Rosa lançou a notável Sociologia do Direito. como foi feito com as ciências exatas. abandono infantil. pesquisas e projetos desenvolvidos. 72] do conhecimento humano. sob pena de tomar-se impossível a vida em coletividade.preventiva. desenvolvê-las. e Orlando Gomes. Por isso. progresso. nem apenas um sonho dos marxistas ou fascistas. a ponto de um ex-presidente norte-americano afirmar que a mais perigosa sombra que ameaça a humanidade atualmente não é a bomba atômica. só nesta harmonia traz beneficio à humanidade. sem a qual não haverá organização. Carlos Campos. pesquisá-las. visando o planejamento do próprio desenvolvimento. empolgados pelos problemas decorrentes da aparente necessidade de controlar as massas. tomou-se um fato irreversível. A Crise do Direito (1955). Mais recentemente: F. e A. Compreendeu-se tardiamente que o progresso científico deve ser integrado. Quando a sociedade cresce desordenadamente toma-se um polvo gigantesco.

no estudo do Direito Civil pátrio. é preciso com freqüência ajustar a lei às novas realidades sociais. visto que. necessariamente. ou mesmo através da analogia. Não basta descrever os elementos formais da realidade jurídica composta das normas vigentes em determinado momento histórico. sem conhecer os fatos que estão ocorrendo no grupo. Por outro lado. traduzido por Teruka Minamissawa. E essa interpretação não pode circunscrever-se à qualificação dos fatos jurídicos ou à fixação das condições de validade da conduta do indivíduo no exercício dos direitos deferidos ou no cumprimento das obrigações impostas. obsoleta. 36. mais adiante. O outro é formado de um conjunto de normas.Machado Neto escreveu Sociologia Jurídica. Segundo Pugliatti.nenhum legislador tem condição de elaborar leis eficazes. Dos autores estrangeiros com obras traduzidas para o português. não sendo possível estudálo abstraindo-o da sociedade. sem desrespeitar as leis da hermenêutica. enfatiza: “O direito é um fenômeno social. Ao Juiz. não nos ateremos ao método .[p. ora restritiva. A missão do jurista compreende a interpretação das leis que regem a sociedade. visto que. constituindo-se de fatos sociais. e a Sociologia do Direito de Remi Levy Briihl. em 1964. escoteiro. São inseparáveis.a realidade social. Para interpretá-las. Eis por que. do original Sociologie du Droit. 1946. não podemos deixar de mencionar a Sociology of Law de Gurvitch. enfim . em magistral tradução de Djacir Menezes. sob o título Sociologia Jurídica. bem colocou esta questão quando disse: “A realidade jurídica constitui-se de dois elementos fundamentais: o material e o formal. Esses ajustes só alcançarão seus objetivos se o legislador estiver devidamente informado sobre aquilo que precisa mudar. através de uma interpretação ora extensiva. os conflitos que se travam . caráter abs. pois fornece-lhe os elementos necessários à elaboração das leis.] trato. sendo a lei estática e a sociedade dinâmica. fazer o Direito acompanhar as evoluções sociais. com o passar do tempo aquela acaba se tomando ultrapassada.” E. as relações que necessitam de melhor disciplinamento. o jurista toma contato. Só por abstração se pode separar a forma do conteúdo. a Sociologia Jurídica possibilita aplicar o Direito de modo compatível com as necessidades sociais. o elemento material isolado toma cor neutra e o elemento formal. conhecendo-as. com a realidade social subjacente. Com efeito. numa sociedade determinada. O primeiro é a matéria prima da experiência jurídica. IMPORTÂNCIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A Sociologia Jurídica é da maior importância em primeiro lugar para o Legislador. poderá. Orlando Gomes. um dos nossos grandes juristas.

a realidade social dinâmica em permanente evolução. que devem ser aplicadas independentemente de qualquer finalidade ou objetivo. o profissional do Direito. 3a ed. 1971. Forense.. os governantes e juízes serão capazes de dar aplicação mais precisa às normas de direito que houverem sido editadas. Revela-lhes que o Direito não é somente um conjunto de normas estáticas. . será possível evitar a improvisação em inúmeras questões administrativas e legislativas. frias. Podemos concluir afirmando que. 14 e 16). como para o estudante. Para o advogado. se dermos a devida atenção à Sociologia Jurídica e progredirmos suficientemente em seu estudo. à qual as normas deverão se ajustar sob pena de perderem a finalidade. mas sim ao dos que consideram o direito um fenômeno social e entendem que a ciência jurídica não se esgota na elaboração de uma teoria geral ou na técnica de logicar através de silogismos próprios de uma sentença judicial (Introdução ao Direito Civil.preconizado pelos normativistas. Os legisladores poderão cumprir melhor sua função prevendo as tendências da legislação. alcançando a necessária adequação entre os fins sociais e as normas jurídicas que se destinam a realizá-los. tomando-se ineficazes e obsoletas. pp. a Sociologia Jurídica proporciona uma visão mais ampla e real do fenômeno jurídico. mas também um fato.

75] . razão pela qual procuraremos expor o entendimento dos principais. estabelecer seu método e conhecer suas leis. vimos que o seu objeto é o direito fato. porque disto depende uma boa compreensão quanto à razão prática dessa disciplina. Ao tratarmos da autonomia da Sociologia Jurídica. examinando a sua divisão interna. Leis são aquelas regularidades. O objeto da Sociologia Jurídica segundo Recaséns Siches. Método é o caminho que se deve seguir para alcançar os objetivos de uma ciência. Vamos procurar agora explicitar esse objeto. entretanto. O pensamento de Georges Gurvitch. o processo a ser aplicado para realizar suas finalidades. O objeto da Sociologia Jurídica na concepção de Edmond Jorion. procuraremos precisar o que está contido no estudo do direito como fato. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA No estudo de toda ciência é da maior importância precisar seu objeto. É preciso. [p. para então adotarmos o daquele que nos parece mais completo. o fim a que se propõe. A posição de Renato Treves. Por objeto entende-se o campo específico de atuação de uma ciência. Em suma. Vamos de ora em diante nos dedicar ao exame do objeto da Sociologia Jurídica.Capítulo VIII OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA O entendimento de Émile Durkheim. fenômenos que se repetem com freqüência no campo de uma ciência. o objetivo que visa alcançar. **** 37. desde logo adiantar que em tomo desta questão não há perfeita concordância entre os autores.

89-94). o conhecimento e a psicologia coletiva. O PENSAMENTO DE GEORGES GURVITCH Segundo Gurvitch. seria objeto da Sociologia Jurídica: a) investigar como as regras jurídicas se constituíram real e efetivamente. 76] O último item trata das relações de interinfluência que se estabelecem entre o direito. 1950). 39. por outro. por um lado. a moral. a economia. b) o modo como as normas jurídicas funcionam na sociedade (Leçons de Sociologie.. bem como o estudo dos planos de profundidade do direito.38. citado por Machado Neto. Paris. No segundo item Gurvitch se serve de sua classificação dos grupos para estudar as relações do direito com cada tipo de agrupamento social. No primeiro item teríamos o estudo das relações das formas de sociabilidade por interpenetração (massa. e a base ecológica da sociedade. dando ênfase especial ao estudo da soberania e das relações das diversas ordens jurídicas com o direito estatal. um dos fundadores da escola sociológica do direito. incluindo uma Tipologia Jurídica dos Grupos Particulares e uma Tipologia Jurídica das Sociedades Totais. O ENTENDIMENTO DE ÉMILE DURKHEIM Para esse notável sociólogo francês. No primeiro item estaria incluído o exame das causas que determinam o surgimento das regras jurídicas. dos fatos sociais que as suscitam. c) Sociologia Genética do Direito (ob. comunidade. a Sociologia Jurídica pode ser dividida. bem como das necessidades que visam satisfazer. Somente quando as normas estão ajustadas aos fatos é que poderão atender aos objetivos para os quais foram elaboradas. a religião. se está ou não sendo aplicada. se há ou não estrutura para isso etc. de acordo com as diversas abordagens metódicas de seu objeto. em três itens: a) Sociologia Sistemática do Direito ou Microssociologia do Direito. [p. . e das formas de sociabilidade por interdependência (relações de aproximação. comunhão) com os fenômenos geradores do direito social. PUF. de afastamento ou mistas) com os fenômenos originários do direito interindividual. b) Sociologia Diferencial do Direito. No segundo item procurar-se-ia saber dos resultados decorrentes da existência da norma. pp. cit. isto é.

Seu tratamento tipo lógico (reagrupamento. classificação. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA SEGUNDO RECASÉNS SICHES O destacado professor espanhol. Poderíamos ilustrar o entendimento de Siches mediante o seguinte quadro: [p. um fenômeno condicionado e condicionante da sociedade. e) Definição pela Sociologia do Direito. 77] Sociedade A Direito B . encontra-se superado. data venia. estudos 41. radicado no México. c) Estudo da gênese das regras jurídicas e de sua evolução. no que. ao mesmo tempo. O primeiro item proposto por Siches trata do direito como fenômeno condicionado pela sociedade. 693). a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina. b) Exame dos efeitos que o Direito constituído causa na sociedade. p. tendo por objeto o fenômeno jurídico. como produto resultante de um complexo de fatores sociais. p. propõe o seguinte quadro de tarefas para a Sociologia Jurídica: a) Observação e análise dos fatos. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA NA CONCEPÇÃO DE EDMOND JORION Para Jorion. representa o produto de processos sociais. entretanto. b) comparativos). 1965. como já assinalamos. sejam eles positivos. O autor belga. 211). Em síntese. atribui à Sociologia Jurídica duas séries de temas: a) Estudo de como o direito. Porto Alegre. o direito é. de seus próprios limites (De la Sociologie Juridique. d) Relação do Direito com outros fenômenos sociais (influência do Direito sobre a sociedade e vice-versa). negativos ou de interferência com outros fatores (Tratado de Sociologia. O segundo item cuida da influência conformadora ou condicionante do Direito sobre a sociedade.40. enquanto fato.

não podendo ser esquecidas as figuras da datilógrafa. 78] O gênio não existiria. exclusivamente. terá que aprender a língua falada no meio social para onde vai. escola.” Por outro lado. apesar de receber tanta influência condicionante do meio social. fontes de trabalho e inventos de outrem. a maior dificuldade de quem vai para um país diferente é a língua. mudança cultural etc. Até o livro sair publicado. O próprio Newton afirmou: “Se vi mais longe foi porque estive sustentado em ombros de gigantes. [p. Aí a obra sai publicada com o nome do seu autor na capa. não fosse o social.No primeiro plano (linha A) figura a sociedade como fator condicionante do direito: é a sociedade que dá origem ao direito. Para ilustrar as relações existentes entre a sociedade e o Direito. sem dúvida o mais dominante é o sócio-cultural. para que ele pudesse estar escrevendo numa folha de papel e não em um papiro ou coisa semelhante. Se quiser se comunicar. fazendo-o surgir das inter-relações sociais. revistas. No segundo plano (linha B) figura o Direito constituído exercendo influência condicionadora sobre a sociedade: é inegável que. luz artificial etc. em verdade. Até costuma-se dizer que somos produto do meio porque. resultado de longa evolução histórica. Mas. Para escrever depende o autor de uma série de recursos materiais.. patrimônio da cultura universal assimilado graças a uma pluralidade de inventos sociais. Tomemos o exemplo de quem escreve um livro. se tivessem nascido em uma tribo indígena. papel. o Direito passa acondicionar o comportamento do grupo. Todo progresso. Não teríamos com quem falar. Por isso. do editor. muitas outras pessoas terão que concorrer para a edição. Ficaríamos alarmados se fôssemos pesquisar o que foi necessário. segundo o entendimento de Siches. Newton. pois deve mais à coletividade do que a si mesmo. no correr dos séculos. dele dependemos grandemente para tudo. na realidade. um produto manipulado pela sociedade. o indivíduo exerce influência sobre o grupo. de formação lenta e paulatina. haverá naquele livro? Começa que ele escreve em uma língua que não inventou. é obra exclusiva do autor? Somos tão dependentes do social que nem poderíamos falar a língua que pretendêssemos. uma vez constituído em normas de conduta e disciplinamento. entretanto. como tinta sintética. Em que medida o livro é produzido pelo seu autor? Quanto do autor em si. poderíamos dizer que ocorre algo semelhante ao que se passa entre a sociedade e o indivíduo. De todos os fatores que atuam sobre o indivíduo. dos operários que manipularão as máquinas etc. Escreve sobre um tema que reflete uma soma de conhecimentos adquiridos em livros. portanto. sendo. professores etc. Einstein e outros não passariam de um pajé ou cacique. surge . jornais.

como já se disse. o indivíduo. pois. . ocorre entre o Direito e a sociedade. por mais que condicione o indivíduo. Exercendo influência sobre o grupo. ou melhor .ainda não suficiente ou convenientemente reguladas. operando elas o milagre da inovação. filosofia. fazendo-o evoluir. a máquina a vapor.Os fatores constantes da realidade jurídica. o que é bom.Os dados (variáveis) da matéria social: a) realidade de uma série de relações sociais não reguladas juridicamente. técnica. entretanto. Como fato. pois caso contrário seria a massificação.evolução milenar que durará enquanto existir a sociedade. Não foi a sociedade. Algo semelhante. não consegue a socialização integral de todos os indivíduos. ficou evidenciada essa influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. b) tendências e correntes que ainda não obtiveram expressão normativa. [p. subdividindo-o em uma série de novos temas. Siches dá maior ênfase ao primeiro item da sua proposição temática. que inventou o cálculo infinitesimal. 79] d) mútuas correlações empíricas entre o Direito e outros produtos da cultura (religião. arte. ao mesmo tempo que o Direito é condicionado. a lâmpada elétrica. f) necessidades e fins da vida humana que estejam pressionando em dado momento. No capítulo sobre os Fatores Sociais da Evolução do Direito. também condiciona. Essa reciprocidade de influência produz constantes modificações no direito fato. e por sua vez no Direito norma. Quando erigido em norma de conduta. Certas zonas da personalidade não chegam a ser inteiramente socializadas. o Direito passa a disciplinar as relações sociais. condicionando condutas. II . ao qual nos reportamos.na sociedade graças aos condutos da criação individual. e) fenômenos de organização espontânea. que tem que disciplinar os novos fatos . economia etc. elaborado pela sociedade. É que a sociedade. mas sim o indivíduo. c) representações axiológicas das pessoas que integram o grupo. é o Direito um produto social.dado que a plenitude do ordenamento jurídico não permite tais vazios . O impulso criador da mudança cultural e do progresso social é. todos resumíveis na questão da influência condicionadora da sociedade sobre o Direito.). a saber: I .

e. 23-25). em três tipos de indagações: 1) estudo da eficácia das normas jurídicas e dos efeitos sociais que tais normas produzem. em sua obra La Sociologia del Diritto (pp. Por último. principalmente. De todos os autores mencionados. A POSIÇÃO DE RENATO TREVES O ilustre professor italiano. quando teremos oportunidade de ver que não adianta ter leis e não aplicá-las. que tipos de efeitos as normas podem produzir. funciona como termômetro a indicar ao legislador as mudanças a serem feitas na lei e nas instituições sociais. entendemos ser Renato Treves o que melhor colocou o problema relacionado com o objeto da Sociologia Jurídica. o que são efeitos. sob pena de a lei não atingir os seus objetivos sociais. É preciso uma estrutura adequada de pessoal e material para aplicar a lei. além de mais compatíveis com o campo de atuação da Sociologia Jurídica. Os temas por ele propostos. praticamente. envolvem os temas propostos pelos demais autores. Veremos o que é eficácia. ao analisar os assuntos que têm constituído o objeto da Sociologia Jurídica. o que evidencia a influência condicionadora do Direito sobre a sociedade. [p. razão pela qual vamos adotar essa classificação em nossos estudos daqui para frente. trataremos da opinião pública que. 80] . são também mais abrangentes. Trataremos também dos agentes do Direito na sociedade e sua função. quando a norma é eficaz e por quê.42. sustenta que eles se agrupam. 2) estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições. 3) estudo da opinião do público a respeito do direito e das instituições jurídicas. se atendida.

após examinarmos o pensamento de vários autores sobre o objeto da Sociologia Jurídica. procurando definir a eficácia e os efeitos das normas jurídicas. examinar o primeiro item da classificação por ele sugeri da. pela omissão da autoridade em aplicar a lei. efeito conservador da norma. o qual. destacamos o entendimento do Prof. entendemos necessário lembrar que eficácia não é sinônimo de validade. em nosso entender. Trata-se de conceitos que a todo momento se repetem no estudo do Direito: validade do ato. nos dá a chave para encontrarmos o conceito de validade.Capítulo IX EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS E SEUS EFEITOS SOCIAIS A noção de validade e de eficácia. da lei etc. razão pela qual tomam-se imperativas algumas palavras a respeito. porque lhe falta um dos elementos. .. no qual uma das partes é incapaz. Renato Treves. embora esta seja pressuposto daquela. A NOÇÃO DE VALIDADE O que é necessário para que uma coisa seja válida? Esta pergunta. pois. é válido? Não. 43. Efeitos negativos: pela ineficácia da lei. efeito transformador da norma. estabelecer as causas da ineficácia das leis e os tipos de efeitos que elas podem produzir e por quê. tomaremos como roteiro de ora em diante. Nossa tarefa será. Efeitos da norma. [p. **** No capítulo anterior. pela falta de estrutura adequada à aplicação da lei. efeito educativo da norma. dissemos. Inicialmente. 81] Um contrato. Eficácia da lei. Efeitos positivos da lei: de controle social. eficácia do contrato.

Coimbra. nulo. O ato nulo. de o ato haver sido executado com a satisfação de todas as exigências legais. 44. é aquela falta de idoneidade para produzir. 82] . o negócio é inválido. [p. Para que o ato ou negócio sejam válidos. Lembremos agora que a receita do negócio jurídico está na lei . por força duradoura e irremovíve1. vamos começar pelos efeitos. 1970). revestido de todos os seus elementos essenciais. terão que estar revestidos de todos os seus elementos essenciais. invariavelmente. Só o ato válido. pois. Por elementos essenciais entendem-se aqueles requisitos que constituem a própria essência ou substância da coisa. são partes do todo. manteiga. como sanção à inobservância dos requisitos essenciais impostos pela lei (Teoria Geral do Negócio Jurídico. devemos examinar seus elementos. ovos. Por razões didáticas. para exemplo. ela jamais terá o prato desejado. não tem força para tal.artigo 104 do Código Civil. Pois coisa semelhante ocorre no mundo jurídico. ela será válida. Quando queremos saber se uma coisa é válida ou não. cujos conceitos não divergem do que já ficou assentado. cremos já poder agora tratar especificamente da eficácia da norma jurídica e dos seus efeitos. açúcar e as devidas proporções. não produz efeitos. que nasceu defeituoso.Vemos assim que válido é aquilo que é feito com todos os seus elementos essenciais. para Emílio Betti. Faltando qualquer um desses. não alcançando os seus objetivos. tem força para alcançar os seus objetivos. portanto. o caso de uma dona-de-casa empenhada em fazer um prato especial. Tomemos. Por isso é que se diz que “válido é aquilo que está revestido de todos os seus requisitos legais”.farinha. Pode-se. concluir que a validade decorre. Faltando um deles. os efeitos essenciais do tipo. Que é preciso para ela fazer esse prato especial? Que elementos deve utilizar? Ela vai à receita e lá encontra a discriminação dos elementos . ineficaz. Com essas considerações preliminares. porque faltou um dos seus elementos essenciais. com falta de um de seus elementos. Se todos os seus elementos essenciais estiverem presentes. é ela que estabelece os seus elementos essenciais. inválido. A NOÇÃO DE EFICÁCIA Eficácia é uma conseqüência da validade: é a força do ato para produzir os efeitos desejados. A invalidade. no aspecto sociológico. sem os quais ela não existiria. sendo.

Pelo que ficou dito. A sociedade não espera pelo legislador. Poderão ser muito boas para outro lugar qualquer que tenha servido de inspiração ao legislador. ajustada às necessidades do grupo. moldando-o à sua imagem e semelhança. sob pena de nunca elaborar lei eficaz.elaborar uma norma adequada à realidade social e a primeira tarefa da Sociologia Jurídica . EFICÁCIA DA LEI Se eficácia. Só aí ela penetra no mundo dos fatos e consegue dominá-los. por mais técnicas e eruditas que forem as leis que elaborar. genérico. Toda norma produz efeitos. abrangente. podemos então dizer que lei eficaz é aquela que tem força para realizar os efeitos sociais para os quais foi elaborada. dos reais problemas e conflitos que se travam na sociedade. EFEITOS DA NORMA São todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. Os efeitos podem ser positivos ou negativos. decorrentes até mesmo de sua própria existência. não tem condições de fazer leis. Por conseguinte. Nesse sentido é também a correta lição de Paulo Nader. conclui-se que os efeitos envolvem um conceito amplo. como teremos oportunidade de ver. Deve ser a primeira preocupação do legislador . que não está a par do desenrolar dos fatos. Cabe ao legislador ajustar o Direito Positivo a essa realidade social. Em outras palavras. 46. entretanto. eficácia é a adequação entre a norma e as suas finalidades sociais. é eficaz a norma que atinge os seus objetivos. vazias de propósito. que realiza as suas finalidades. só tem essa força quando está adequada às realidades sociais.fornecer ao legislador os elementos necessários à elaboração dessa norma. porém. “O legislador não pode ser mero espectador do panorama social. Como dizia Siches. não passando de um conjunto de estéreis formalidades. que atinge o alvo por que está ajustada ao fato. para a sociedade à qual se destinam. qualquer conseqüência. Legislador que não tem conhecimento da realidade social. por isso que neles estão incluídos todos os resultados produzidos pela norma. a sociedade condiciona o direito fato. Se os fatos caminham normalmente à frente do . é a força do ato para produzir os seus efeitos.45. Uma lei. pois sua própria existência já é um efeito. modificação ou alteração que a norma produza no mundo social. como já vimos. nunca. serão elas carentes de conteúdo.

[p. O Controle Social Quando tratamos da função social do Direito (no segundo capítulo). um efeito condizente com suas finalidades. a função preventiva é a . Pelo exposto. da qual falava Siches. quando eficaz. o estudo da influência condicionante do Direito constituído sobre a sociedade. igualmente.Direito. são os resultados contrários aos interesses da sociedade. EFEITOS POSITIVOS DA LEI Já vimos que efeitos são todos e quaisquer resultados produzidos pela norma.1. destas. o legislador haverá de considerar os fatores histórico. provoca. verifica-se ser a eficácia um dos efeitos da norma. natural e científico e a sua conduta será a de adotar. conforme os interesses a serem preserva. Quando da elaboração da lei. O Volksgeist deve informar às leis. eficácia é espécie. Se de um lado o Direito recebe grande influxo dos fatos sociais. 2) educativo. A norma eficaz só não produz efeitos positivos se concorrerem outros fatores. conforme mencionado na parte anterior. a contrario sensu. cit. produz normalmente efeitos positivos. com as devidas correções e complementações. Podemos até dizer que a eficácia é o principal efeito positivo da norma. aquele que mais se harmonize com os três fatores” (ob. Ele deve fazer das leis uma cópia dos costumes sociais. 27). É uma certa qualidade do efeito produzido pela norma. A norma. e negativos. o legislador deverá antecipar-se aos fatos. vimos que as suas principais finalidades são prevenir e compor conflitos. importantes modificações na sociedade. p. Efeitos positivos são os resultados compatíveis com os interesses sociais. Entre os efeitos positivos da norma destacaremos apenas quatro: 1) de controle social. seu efeito principal ou real.. 4) transformador 47. 47. 3) conservador. mas o Direito contemporâneo não é simples repetidor de fórmulas sugeridas pela vida social. Efeito é gênero. O estudo dos efeitos da lei é. Esses efeitos podem ser positivos ou negativos. como teremos oportunidade de ver. em outras palavras. 83] dos. É o efeito típico da norma. entre vários modelos possíveis de lei.

vai se perdendo o controle da situação e a vida em sociedade vai se tomando impossível. Por quê? Onde aprendeu? Não foi com o patrão. 13° salário. mediante a ameaça de uma pena para o transgressor da norma. que certos assuntos tomam-se melhor conhecidos do grupo social depois de serem disciplinados pela lei. a sociedade global. É inconcebível uma sociedade na qual o comportamento social seja regulamentado apenas pelas sanções morais do elogio e da culpa. publicada. Efeito Educativo da Norma Está mais que evidenciado. tem que ser divulgada. nem na Escola de Direito. A Constituição de 1988 nos fornece outro exemplo eloqüente desse efeito educativo da lei. vai também educando e esclarecendo a opinião pública. repouso remunerado. a não ser através dos meios constitucionais etc. Qualquer trabalhador dos nossos dias. antes de se tomar obrigatória. não pode apoderar-se da propriedade de quem quiser. com toda a propriedade. indenizatória. sofre o controle do Direito quanto à sua conduta. E ai de nós se assim não fosse! Como o Direito [p. mesmo o ignorante ou analfabeto. através de pesquisas e da própria experiência.2. Dessa forma exerce o Direito sobre todos um condicionamento que resulta num controle do comportamento do indivíduo. de disciplinamento social. Bertrand Russel observou. E ele sabe até mesmo onde e como reclamar os seus direitos. tanto assim que não pode punir sem que alguém tenha praticado um fato típico. conhece os seus direitos. Quando a norma não é aplicada convenientemente. Isto faz com que muitos. para ter. maior estímulo no sentido de ajustar sua conduta às condições existenciais. É que a lei. e assim. Conscientizou o cidadão dos seus . Sabe que tem direito a férias. 84] previne os conflitos? Estabelecendo regras de conduta. Exemplo disso encontramos no Direito Trabalhista. O próprio Estado. que o bom comportamento até do cidadão mais exemplar deve muito à existência da polícia. aquela coação psicológica ou intimidação exerci da sobre todos. 47. mas sim no próprio grupo. da próxima vez que se sentir inclinado a transgredir a norma. O controle social é exercido pelo Direito primeiramente pela prevenção geral. à medida que vai sendo conhecida pelo grupo. o controle é também exercido pela prevenção especial: a segregação do transgressor do meio social. aviso prévio etc. O Direito é muito mais preventivo do que repressivo.mais importante. do grupo e das instituições. mesmo não querendo. ajustem o seu comportamento às prescrições legais para não sofrerem a sanção. fundo de garantia. Em segundo lugar. ou a aplicação de uma pena pecuniária.

Efeito Conservador da Norma As normas jurídicas tutelam determinados bens da vida social. É a função educativa do Direito. perceberam que teriam de atender melhor os seus clientes para não perdê-los. defendeas. no ano de 2002.3. estabelecendo em tomo delas a proteção jurídica.389. 85% do atendimento dos bancos 24 horas são feitos eletronicamente. o infanticídio. Trata-se de instituição basilar da sociedade. Vejam o caso da família. Para muitos. bem ou mal. preservar esta instituição através dos séculos e a despeito de todas as influências perniciosas que conspiram contra ela. mas. conquistar a fidelidade dos clientes e construir uma imagem positiva da empresa. no que foi coadjuvada [p. Há normas no Código Civil (um livro todo que só trata do direito de família). E o que se fez em relação a ela? Procurou-se protegê-la através de uma infinidade de normas. e assim por diante. mais do que isso. Estruturaram-se adequadamente e colocaram em operação o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) por meio do qual conseguiram padronizar procedimentos. 47. 235-249) e na própria Constituição.direitos e do acesso à Justiça. no entender do ilustre .782 reclamações e julgadas 265. que se transformam em jurídicos quando recebem a proteção do Direito. que podiam aprender com eles para melhorar seus produtos e serviços. grandemente procurados. Uma grande fornecedora de serviço de telefonia atende mais de 25 milhões de chamadas por mês. 85] pelo Código do Consumidor. o aborto. protegem o patrimônio. ligase ao caráter estático que ele representa ao garantir a manutenção da ordem social existente. mas também instituições. Hoje. no Código Penal (dos crimes contra a família.348 reclamações. por sua vez. Assim tem conseguido a sociedade. As empresas. Tomemos como exemplo o Direito Penal: todas as normas que incriminam o homicídio. cerca-as. das quais foram julgadas 223. o estelionato. Só no Estado do Rio de Janeiro. que é a instituição maior. o roubo. arts. a começar pela Constituição. essa é a característica essencial das normas jurídicas.729. assinala o insigne André Franco Montoro. as que incriminam o furto. O próprio Estado. necessita da proteção do Direito e por isso existem leis. racionalizar atividades. em face da nova postura dos consumidores. A função conservadora do Direito. foram propostas 252. Quando o legislador entende que certas instituições são valiosas e indispensáveis à vida social. A norma tutela não somente bens. Em 2003 foram ajuizadas 296. Prova disso são os Juizados Especiais. destinadas à proteção da família. destinadas a organizá-lo e conservá-lo. visam a tutela da vida.

foi necessário até a criação de um gigante nacional (INSS) para cuidar da aposentadoria e assistência médica dos trabalhadores. equipar-se. auxílio de doença. em favor do trabalhador. Exemplifiquemos este ponto com a situação do trabalhador antes das vigentes leis trabalhistas. em razão de necessidades sentidas. creche. paulatinamente. aposentadoria. quanto piores as prisões. determina a realização de certas modificações. muitas delas com refeitório. Daí a importância do Direito como instrumento de transformações sociais. estabelecendo. vestiário. o erro dessa posição é patente. .. imundas e nocivas. assistência médico-hospitalar. ambulatório. 23a ed. aparelhar-se para cumprir a lei. dos Tribunais. Qual era a sua situação? A mais lamentável possível. as prisões fétidas. não funciona a contento. melhor. ficava ao desamparo. Como não mais podia trabalhar. fixa novos princípios a serem observados em determinadas questões. bem como as penas mais ter. Isso teve que ser mudado: vieram as leis trabalhistas e previdenciárias. 86] verdade em países plenamente desenvolvidos. Nesse tempo. depois de velho e cansado. indenização. As fábricas e indústrias tiveram que oferecer melhores condições e ambiente de trabalho aos seus empregados.jurista. Rev.4. indenização por acidente de trabalho etc. por ser grande demais. então o réu deveria ser mesmo colocado no pior lugar do mundo. direito a férias. No passado a pena era considerada um castigo ou punição: mal justo contra quem praticou mal injusto. a norma estabelece novas diretrizes a serem seguidas. 595). e assim. os calabouços. Outro exemplo. Vêm daí as masmorras. isso só é [p. era dispensado sem qualquer direito. o efeito condicionante do Direito sobre a sociedade. passando privações e causando problemas sociais graves. estabilizados e organizados. Reduzir o direito a uma força conservadora é perpetuar o subdesenvolvimento e o atraso (Introdução à Ciência do Direito. p. vai operando sensíveis transformações em seu meio. aparelhar-se. mais diretamente. e o resultado foi uma transformação social. Se o fim da pena era punir. Trabalhava a vida toda e. que. para dar cumprimento à lei. Nos países em desenvolvimento e transformações profundas. Eis aí o efeito transformador da lei. Há quem diga que a história da pena é pior que a do crime. Muitas vezes. escola. 87] ríveis que se possa imaginar. 47. E qual foi a conseqüência disso tudo? A sociedade teve que se estruturar. Efeito Transformador da Norma É aqui que percebemos.[p. tem que se estruturar. A sociedade então.

contrários aos interesses sociais. castigando impiedosamente? Não. o bem estar.Essa posição quanto à pena trouxe os piores resultados sociais possíveis. Isso tudo evidencia que o Direito. nem no sentido de prevenir a sociedade contra a futura criminalidade. na Administração Pública. na ordem tributária. revoltado e despreparado para voltar à sociedade. A economia do país estava à deriva. o pensamento moderno a respeito dos fins da pena mudou. maior poder aquisitivo da população. Por todos esses motivos. passou a comer mais e melhor. gerando profundas alterações na realidade brasileira. que esperamos seja duradoura. A estabilização da moeda. e quando. Pior do que tudo. adequados às novas exigências legais. Tomava o réu pior . Não vamos mais punir. o que será preciso? Onde educar? Na prisão? Na masmorra? Como. pode a norma. e a participação eqüitativa de toda a população na renda nacional. trouxe uma melhor distribuição de renda. pode ser o grande instrumento de uma política do desenvolvimento nacional. gerando miséria. como as orçamentárias. mediante normas que promovem a educação. [p. em dadas circunstâncias. todas com amplo apoio da sociedade. Certas leis. A reforma econômica desencadeou outras reformas: na previdência. produzir efeitos negativos. Se.mais perigoso. A prisão passou a ser a melhor escola de crime. que. A pena não é mais uma forma de castigo ou punição. isso acontecer. terá a norma exercido a sua influência transformadora. no monopólio estatal. Para tanto. com uma inflação astronômica corroendo o salário do trabalhador. desequilíbrio social e abusos econômicos de toda ordem. Pelo menos já se fala hoje em reforma penitenciária. EFEITOS NEGATIVOS DA NORMA Elaborada para produzir efeitos positivos. Sem dúvida. fome. em conseqüência. e em alguns estados já começam a surgir as primeiras transformações através de modernos estabelecimentos penais. a cultura. comandam a execução de planos de desenvolvimento social. efetivo controle dos preços. a saúde. mas sim um meio de reeducação e ressocialização do réu. atribuindo-lhe uma função preventiva. Então será preciso transformar nossas prisões em escolas e reformatórios. entretanto. É claro que . pois nada fazia no sentido da recuperação do criminoso. 88] 48. na privatização de estatais. mas corrigir. não dava à sociedade nenhum instrumento de defesa contra esse indivíduo e seus futuros crimes. quando corretamente utilizado. Procura-se hoje fazer da pena um instrumento de defesa social. o melhor exemplo do efeito transformador do Direito vamos encontrar nas leis econômicas que implantaram o Plano Real.

para que se converta em força efetivamente configuradora das condutas. no entanto. 19-20). substituindo-a por outra mais adequada.igualmente como as demais normas sociais . 2) quando houver omissão da autoridade em aplicá-la. em constante conflito com os fatos. através da lei. elaborado por uma Comissão Especial do Congresso Nacional. do conteúdo da mesma. a norma se incorpora à vida do grupo” (Sociologia do Direito. Valem pela força que têm sobre os fatos e como são entendidas nessa aplicação. 2° vol. ou de outros fatores. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. retardam e impedem as reformas. em 1977. Os hábitos. isto é. quer alterar velhos hábitos e dar-lhes nova disciplina.” “As leis. Outras vezes. De outras feitas. 90] de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. para ser lidas ou para ficar na história. e sobrevivem apesar da lei. uma adesão da comunidade. As leis nascem para viver e só valem quando podem entrar no mundo dos fatos e ali governar. exige um reconhecimento. teimam em sobreviver. De um trecho da exposição de motivos do projeto de lei para a reforma do Poder Judiciário. podemos destacar três causas principais.. O trecho é o seguinte: “Não elaboramos leis para ser estampadas nos livros. Graças a esse reconhecimento. estendendo-se o desapreço a toda a legislação.” “O nosso País já é afamado pela distância entre a realidade e a norma jurídica. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. no entanto.quando isso chega a acontecer é tempo de revogar a lei. aceitação ou adesão da sociedade a essa norma.” . pp. Ou.para que seja cumprida. da qual foi Presidente o douto Senador Acyoli Filho. da maior parte dos indivíduos que integram o grupo. ou as tomam mofinas. pode depender da legitimidade da autoridade que a estabeleceu. o legislador. acanhado e despreparado. 3) quando inexistir estrutura adequada à aplicação da lei. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se.1. 48. entretanto. Esse reconhecimento ou recusa. Efeitos Negativos pela Ineficácia da Lei A eficácia da norma depende do reconhecimento. levado pelo idealismo [p. como observa Siches: “A norma jurídica . que gera a eficácia ou ineficácia da norma.” “Às vezes o legislador. Lembramos três hipóteses em que a lei produz efeitos negativos: 1) quando for ineficaz.

Não consegue porque não há suporte social. é aversão sistemática às inovações ou transformações do status quo. A segunda causa é o misoneísmo e vem mencionado no seguinte trecho: “. Misoneísmo. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. Às vezes porque há grandes interesses políticos. Com efeito. não são aplicadas em razão dos interesses econômicos em jogo. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. entretanto. correspondência com a realidade. Velhos hábitos. lembramos que o divórcio custou tanto a ser admitido pela nossa legislação em virtude das pressões da Igreja. pois os fatos são dinâmicos.. costumes emperrados. Acyoli Filho põe isto em destaque no seguinte trecho: “Ou. estendendo-se o desapreço a toda a legislação” (o grifo é nosso). que ele destacou ao dizer: “As leis. 90] tras vezes. razão pela qual a lei cai no vazio. se bem elaborada. ou as tornam mofinas” (o grifo é nosso). entretanto. é a sua desatualização.A primeira causa da ineficácia da lei. o legislador. evoluem constantemente. outras vezes por mero comodismo da autoridade que não levou a sério a aplicação da lei. o que em nosso país constitui na realidade uma forte causa da ineficácia da lei. frontalmente contrária à dissolução do vínculo matrimonial. Cada legislador tem que elaborar a lei com base na realidade de sua sociedade. em constante conflito com os fatos. acanhado e despreparado” (o grifo é nosso). . pode estar em perfeita adequação com a realidade social no momento de sua criação. impedem que a lei seja aplicada ou mesmo elaborada. a lei. Interesses corporativistas emperraram a reforma da Previdência por muitos anos e ainda impedem a reforma Política. lembrada pelo Senador Acyoli Filho. levado pelo idealismo de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. Com o correr do tempo. Assim. vai sendo ultrapassada. econômicos ou religiosos em jogo. o passar do tempo toma a lei ineficaz. como se sabe. retardam e impedem as reformas. Só para ilustrar esse ponto.[p. mas a lei é estática. privilégios de grupos. A maior parte de nossa legislação precisou ser reformulada exatamente por esta razão. costuma-se entre nós dizer que a lei não pegou. O legislador vê algo que funciona muito bem em certo país mais adiantado e quer implantar no nosso.. vai se desatualizando. Por mais estranho que possa parecer. A antecipação da lei à realidade social existente é a terceira causa de sua ineficácia. esses gigantescos organismos econômicos dos nossos dias. Muitas leis que controlam as atividades das multinacionais. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil.

mas não produzirá efeitos positivos por omissão das autoridades. é prevenir conflitos. isto é.qual será o resultado? Vai se enfraquecendo aquela disciplina que a norma impõe a todos. portanto. havia uma grande expectativa de que ele haveria de por ordem em nosso trânsito caótico. Lei ineficaz. produz efeitos negativos porque não tem força para governar os fatos sociais. conseqüentemente. Mas se a lei é transgredi da. 48. Depois de vários anos de vigência quase nada melhorou porque as multas e outras sanções aplicadas não foram executadas. com a pontuação várias vezes estourada. Exemplo eloqüente disso é o Código de Trânsito Brasileiro. Em janeiro de 1997. entre as quais a perda da carteira. A lei só tem força para “penetrar no mundo dos fatos e ali governar” quando é eficaz. e por desídia. quando ajustada à realidade social e inteiramente adequada aos fatos. quando foi editado. É fogo que não queima. se quando surge o comportamento de desvio nenhuma pena é imposta ao transgressor da norma. controlar as relações sociais. Neste caso a lei pode até ser eficaz. dirigindo sem serem molestados. acobertados pelas empresas para as quais trabalham. se é ou não obrigatório informar aos motoristas onde se encontram esses meios eletrônicos. a sanção não é aplicada. desatualizada. a transgressão sem punição vai estimulando novas transgressões. Só agora (O Globo de 26.2003) o DENATRAN anunciou ter decidido criar o Registro Nacional de Infrações de Trânsito que permitirá a cobrança das multas por infrações cometidas fora do Estado onde os veículos estão registrados. que fazer lei é algo diferente de fazer literatura ou história. para acabar com a impunidade dos motoristas profissionais. a autoridade nada faz .2. Quem transgride a lei impunemente sente-se encorajado a transgredir novamente. o que realiza através do disciplinamento do comportamento mediante normas jurídicas armadas de sanção. 91] por pardais. quer por ter se tomado anacrônica. incompetência ou irresponsabilidade da autoridade. tiro sem bala. superada pela realidade social. quer por ser artificial. câmeras eletrônicas valem ou não.Vemos. Há milhares de motoristas infratores. assim. e o seu exemplo serve de estímulo a outrem.12. As autoridades do trânsito ainda discutem se as multas registradas [p. dado a severidade de suas normas e a gravidade das penas. Anunciou também que só a partir de 10 de junho de 2004 (Resolução 151 CONTRAN) começará a ser aplicada em todo o país a chamada multa por não identificação do condutor. já vimos. Efeitos Negativos pela Omissão da Autoridade em Aplicar a Lei A função principal do Direito. principalmente . A conseqüência é que a lei se desmoraliza e estende o desapreço a todo o sistema. vai se diluindo a sua função preventiva e. fruto apenas do pensamento.

admitiu que. o Juiz Camilo Ribeiro Ruliere.[p.3. os mandados de prisão não cumpridos chegavam a 200 mil. por falta de pessoal e estrutura. Por isso é comum dizer-se que. mas que já está se tornando comum na Justiça. sobram 30 mil para uma equipe de 50 policiais. continua sendo o nosso grande problema atual. pior do que não ter leis. 48. a Justiça fica impedida de julgar em decorrência da falta de estrutura do organismo policial e de seus institutos de criminalística. lamentavelmente. e as boas intenções que motivaram a sua aprovação há mais de seis anos. No dia 22 de setembro de 2003. Efeitos Negativos pela Falta de Estrutura Adequada à Aplicação da Lei Nesta terceira hipótese. é tê-las e não aplicá-las. da 9ª Vara Criminal do Rio. então titular da Delegacia de Busca e Capturas (Polinter). Os acusados foram soltos. No Rio. Sequer reduziu a incidência de infrações graves como excesso de velocidade e embriaguez ao volante.07. segundo estimativa do Professor Flávio Gomes. Está ameaçado de cair em desuso se não forem resgatados com urgência a sua letra e o seu espírito. Em julho de 2000 o Ministério da Justiça estimou que havia cerca de 204 mil foragidos da Justiça brasileira e mais de 275 mil mandados de prisão não cumpridos no país. falta tudo enfim. 92] cial.2000). tomou uma decisão extrema. Quais serão as conseqüências dessa falta de estrutura? As mesmas anteriormente mencionadas: transgressão sem punição e estímulo à ilicitude. mas o problema continuou: o ICCE fechou o ano de 2003 com cerca de cem mil laudos atrasados. . Esse.de ônibus urbanos. mas a norma não atingirá seus objetivos sociais por falta de estrutura para uma eficiente aplicação do direito. morte ou decisão judi. poderemos ter leis boas e eficazes. uma média de 600 mandados por policial (O Globo. 23. Em São Paulo. Em resumo. foi forçado a conceder liberdade provisória a quatro traficantes. São cem mil inquéritos parados aguardando provas técnicas. Falta pessoal. o Código de Trânsito perdeu a sua força didática. autoridades competentes e responsáveis. dos 90 mil mandados de prisão expedidos no estado. o Ministério Público e o próprio Judiciário não estão suficientemente aparelhados para aplicar a lei. pelo menos 60 mil já caducaram por prescrição. Ainda assim. Toma-se impossível aplicar a lei sem os recursos humanos e materiais necessários. faltam instalações. A Polícia. o delegado Álvaro Lins. falta material. depois de um começo promissor. equipamentos. principalmente no denominado poder paralelo. Enquanto a criminalidade cresce assustadoramente. Por falta de um laudo do Instituto Carlos Éboli (ICCE).

A Secretaria Nacional de Segurança Pública. disse: “A polícia. mas isso não foi feito. foi liberado no mesmo dia. Especialistas nessa área dizem que a falta de vontade política de governadores é um dos principais entraves para manter em funcionamento o INFOSEG. Mas. o que acaba levando a sociedade a culpar o Judiciário. Assassino confesso de 12 crianças no sul (Paraná. muitas vezes. 21. embora criado em 1988 o INFOSEG pelo Ministério da Justiça. em novembro de 2003. apesar de existir mandado de recaptura contra ele expedido desde abril de 2002. nem manter ninguém preso” (O Globo. desta feita por ter sido reconhecido pelo amigo de uma outra criança assassinada quatro dias antes. Moral da história.2004. “enquanto os estados não se interessarem em alimentar e atualizar periodicamente o INFOSEG.12. ou pelo menos do mandado de recaptura contra ele existente. Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Se no INFOSEG constasse a informação sobre a condenação anterior do criminoso. como pode o juiz condenar alguém? Depois dizem que a polícia prende e o juiz solta. O Presidente do Tribunal de Justiça do Rio. falta ainda responsabilidade funcional por parte do estados . Segundo ele. o coronel José Vicente da Silva condena a falta de iniciativa dos estados para abastecer o sistema nacional. Se o inquérito chega ao juiz sem qualquer prova técnica ou testemunhal. pouco poderá ser feito por órgãos policiais ou judiciais que dependem dessas informações. parte das mortes poderia ter sido evitada. pois o juiz não pode condenar sem provas. Isso não é verdade. depois de condenado a 27 anos de prisão. Apenas no dia 07.[p. diz que em maio de 2003 o Governo do Paraná pediu para retirar seus dados do INFOSEG por. não faz um trabalho de perícia eficiente.2004 foi novamente preso. iniciativa da maior importância e extremamente necessária no combate à criminal idade num país continental como o nosso e super populoso. 93] que a qualidade das informações era ruim e o estado pretendia melhorá-la. ainda hoje não funciona eficientemente por deplorável omissão das autoridades responsáveis pela segurança pública. Ex-secretário nacional de Segurança Pública. foi detido no Rio Grande do Sul sob suspeita de assassinar outra criança. por sua vez. Outro exemplo lamentável dessa falta de estrutura foi noticiado pelo Globo de 08.por carência de aparelhos e de material humano. como nada constava sobre ele no INFOSEG (sistema nacional destinado a integrar todas as informações policiais e judiciais). a Secretaria de Segurança do Paraná alegou que ano passado (2003) decidiu limpar seu banco de dados do INFOSEG porque o sistema nacional apresentava falhas que prejudicariam sua utilização.2003). comentando a decisão do juiz Camilo. no Paraná. Em nota. fugiu da cadeia em União da Vitória.01. Quase dois anos depois.01. Desembargador Miguel Pachá.

com informações de veículos roubados. pior do que não ter leis. 94] pelas investigações. a solução para o problema deveria partir de iniciativas dos próprios administradores públicos estaduais. lamentavelmente. nada é feito no sentido de executá-la.” O Brasil. todavia. Diz ainda que a divisão de tarefas entre a Polícia Militar. porque leis boas há em toda parte. os legisladores se reúnem e aprovam outra lei. 08. Sem essas e outras bases de dados nos estados.2004). toma-se o dito pelo feito. responsável [p. há pessoas que cometem um crime grave num estado e depois respondem como réu primários em outro (estado) simplesmente porque estão usando nome falso ou porque ninguém consegue saber de seus antecedentes” (O Globo. Montesquieu tinha toda razão ao dizer: “Quando vou a determinado país. ex-secretário nacional de Segurança Pública. Edita a lei. repetimos. Luiz Eduardo Soares. Teve que usar uma sala da Polícia Rodoviária Federal” . cria uma esquizofrenia institucional. condutores irregulares. informa que.2004). confunde-se o projeto com a realização. anuncia aos quatro cantos que o problema está resolvido.01. Por isso.01. faz uma grande propaganda. e tudo acaba aí. Por meio de um prodigioso processo mental. armas e ainda sobre foragidos da Justiça. Túlio Khan. o INFOSEG não consegue servir aos próprios estados. “Os Governos estaduais deveriam investir urgentemente na digitalização de informações do Detran e da Polícia Judiciária. 09. E quando a lei é aprovada e nada faz acontecer.” A falta de investimentos. organiza uma imensa demagogia. 09. O Governo deveria tomar a iniciativa de fazer uma reforma nas polícias com o mesmo vigor empregado nas reformas da Previdência e Tributária” (O Globo. . não indago se aí há leis boas. atualmente. Segundo ele. que foi responsável pelo INFOSEG durante os últimos meses do governo de Fernando Henrique Cardoso. em vez de se discutir o que fazer para dar-lhe execução. sem. já que apenas 4% dos casos no Rio de Janeiro e 12% em São Paulo são resolvidos.01. “A equipe do INFOSEG não tinha nem sala no Ministério da Justiça. é campeão em resolver problemas elaborando leis. encarregada de fiscalizar e a Polícia Civil. apenas quatro bancos de dados integram o INFOSEG . mas sim se as executam. é tê-las e não aplicá-las.para atuar na área de segurança pública.2004). diz ainda Khan. executá-las. a intenção de resolver o problema com a solução em si. prejudica a operação de todo o sistema. critica também duramente a atuação das autoridades policiais no combate à criminal idade ao dizer que “as taxas de elucidação de homicídios mostram uma tendência à impunidade.lembrando que nos Estados Unidos o sistema nacional envolve 14 bancos de dados e a sede do órgão ocupa um edifício inteiro (O Globo.

voltando às ruas com mais raiva de tudo e de todos e mais experientes em atos criminosos.Foi exatamente isso que ocorreu quando entrou em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente: os políticos da época anunciaram por toda a imprensa que o problema do menor no Brasil estava resolvido. que teve repercussão mundial. que lhes possibilite uma profissionalização. por que não envolvê-los nessa tarefa? As estatísticas demonstram que o planejamento familiar poderia contribuir decisivamente para a redução da desigualdade. Uma mera fantasia burocrática virou remédio de tal eficácia que até se recomendaria sua exportação. É preciso definir um projeto amplo de aperfeiçoamento do ECA e das instituições que educam ou reeducam os adolescentes que lá chegam. Afinal. o problema seria resolvido com a diminuição da maioridade penal de modo a permitir punição exemplar dos adolescentes criminosos. 95] A questão do ECA é item prioritário em qualquer equacionamento efetivo do problema da segurança pública. Nada aconteceu de positivo em relação ao menor depois da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente dada a distância entre a lei e a sua execução. Por melhor que seja. porém. é outra. Para alguns setores da sociedade. assassinato de um casal de namorados no interior de São Paulo e outros). os menores continuam abandonados na rua. São também necessárias ações sociais preventivas destinadas a preparar os jovens para uma paternidade ou maternidade responsável. Ganha fôlego a antecipação da maioridade para 16 anos. A situação talvez até piorou. com planejamento familiar e assim por diante. de repercussão nacional (morte dos pais.4. instituições adequadas e gente competente. mas não tem cabimento pensar que a simples antecipação da maioridade penal resolverá o problema da criminalidade dos adolescentes. ao ser indagado sobre a questão da criança em nosso País. bem diferente. Por falta de recursos. anunciou a criação do Ministério da Criança e acrescentou: “Gostaria de ver iniciativas como essa se estenderem para outras nações. Famílias sem renda e instrução têm o dobro de filhos da média brasileira de 2. o ECA não é irretocável. sem assistência. A realidade. sendo prova disso a chacina da Candelária. reascende a discussão a respeito da reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente. Sempre que um adolescente pratica um crime bárbaro. sem alimentação e sem educação. em visita a Nova York. o então Presidente da República. eles passam pouco tempo nas instituições de recuperação. [p. Se a família é tão importante para a educação das novas gerações. A mulher de até um ano de escolaridade e renda .” A simples edição de uma lei e a criação de uma entidade governamental foi tomada por uma solução.

porque a facilidade com que os criminosos têm acesso às armas é muito grande. Sem Índices eloqüentes de redução da violência gratuita das armas de fogo. em média. entre as quais o combate ao tráfico de armas no país inteiro. na prática dependerá dos recursos que forem liberados às Polícias Federal e Estadual. o próprio estatuto corre o risco de acabar recolhido ao empoeirado depósito onde se empilham as leis que não pegaram no Brasil” (O Globo.2003). 96] . 1. o combate ao contrabando. Lamentavelmente. é considerado uma boa lei pelos especialistas.baixa. [p. mas elas não param de entrar.12. E concluiu: “É fundamental a polícia de fronteira. ele será um cabo eleitoral eficiente. a mulher tem. O Estatuto do Desarmamento. Só em São Paulo é apreendida uma arma a cada quatro minutos. para realizarem as tarefas que o estatuto lhes reserva. Se quando chegar a hora forem visíveis para a sociedade os efeitos positivos do estatuto. Por enquanto só no papel. tem média de filhos de 4.01. inclusive de pessoal. a que mande cumprir todas as outras. “do que acontecer nessas e em outras frentes de luta dependerá o resultado do referendo que. esse irrealismo ilusório de nossa legislação escrita é bastante antigo e conhecido.48 filho. Só nos falta uma lei. 30. decidirá sobre a proibição do comércio de armas no país. Capistrano de Abreu denunciou-o com ironia dizendo que temos uma legislação quase perfeita. daqui a menos de dois anos.2004).12. afirmou o Governador Geraldo Alkimim em entrevista ao jornal O Globo (04. agora em vigor.” Como bem colocou o jornalista Luiz Garcia. No passado. com onze ou mais anos de instrução.

principalmente nos grandes centros. a situação da companheira e dos filhos após a Constituição de 88. Vamos agora examinar alguns aspectos sócio-jurídicos da nossa legislação. Direito financeiro e tributário. soluções legais paliativas antes do divórcio. Direito do consumidor: a responsabilidade objetiva do fornecedor de produtos e serviços. a introdução do divórcio na legislação brasileira. analisar os efeitos sociais produzidos por certas normas existentes (ou que já existiram) em várias áreas do nosso Direito. sob pena de se tomar ainda mais difícil a vida em coletividade. Considerações gerais. criminalidade de colarinho-branco. Direito de família: divórcio. não previstos em nossa legislação atual. Essa incursão pelos vários ramos do Direito proporcionará. uma demonstração eloqüente da importância da Sociologia Jurídica [p. principalmente para o legislador. a situação da companheira e dos filhos ilegítimos. por isso que lhe fornece os elementos necessários . igualmente. 97] para todo profissional do direito. **** No capítulo anterior estudamos a eficácia e os efeitos das normas jurídicas e pudemos conhecer os principais efeitos positivos e negativos que elas produzem. características da Constituição Brasileira de 1988. Direito do trabalho: interferência das forças sindicais no processo de formação do direito do trabalho.Capítulo X ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DE ALGUMAS ÁREAS DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO O sentido sociológico da Constituição: Constituição e democracia. Veremos também que a ocorrência de novos fatos sociais. estão a exigir uma urgente solução do legislador. a concepção social do contrato. União de pessoas do mesmo sexo. Direito penal: violência urbana e poder paralelo. a macrodelinqüência. quando teremos oportunidade de conhecer a longa e penosa evolução transcorrida até chegarmos a uma razoável disciplina jurídica de certos fatos sociais.

a folha de papel . 49. em sua clássica obra . é a Constituição que cria ou constitui o Estado de Direito. econômicas. Do ponto de vista sociológico. da Constituição escrita. O SENTIDO SOCIOLÓGICO DA CONSTITUIÇÃO Entende-se por Constituição a Lei corporificadora do Estado. a verdadeira Constituição de um país somente tem por base os fatores reais e efetivos do poder que naquele país reagem. como o seu próprio nome diz.Constituição formal . ideológicas etc..“não são problemas de direito. tudo dependendo de representar ela o efetivo poder social (forças políticas. Assim.Que é uma Constituição? Para ele.).houver coincidência. quando tal não ocorrer. autônomo [p. Vamos começar pelo Direito Constitucional. pois a Constituição real e efetiva é o fato social que lhe dá alicerce. de modo a permitir a formulação de um correto diagnóstico e a apresentação de uma solução adequada. o efetivo exercício do poder. é possível distinguir a Constituição formal. mas dos fatores reais de poder. e as constituições escritas não têm valor nem são duráveis a não ser que exprimam fielmente os fatores do poder que imperam na realidade social: eis aí os critérios fundamentais que devemos sempre lembrar” (ob. mas do poder. dessarte. Tais afirmações soam como heresia jurídica para os fetichistas da Constituição. que contém a estrutura jurídica da nossa sociedade. Vista pelo prisma sociológico. como bem colocou Ferdinand Lassalle. prevalecerá sempre a vontade daqueles que titularizam o poder.somente vale até o momento em que entre ela e a Constituição efetiva . cit.aquele somatório de poderes gerador da folha de papel . onde se encontram os princípios fundamentais da sua estrutura organizacional. 117). a Constituição pode ser legítima e eficaz. o mais expressivo representante do sociologismo constitucional. nada mais é que uma folha de papel. Embora se diga que o Poder Constituinte Originário é inicial (porque não há outro antes). mas têm base na realidade. Este não deriva da folha de papel. ou ilegítima. 98] (porque não subordinado a nenhum outro) e .a folha de papel . “Os problemas constitucionais” .sustenta Lassalle . ou distanciar-se dele. quando a Constituição não é o somatório dos fatores reais de poder. É chamada de Carta Magna ou Lei Fundamental porque. p.e a Constituição real. É como um termômetro a indicar a temperatura dos fatos sociais.para bem aplicar o Direito e melhor elaborar as leis.

. [p. A maior prova de que a Constituição tem que se ajustar aos fatores reais de poder está em que periodicamente tem que ser revista ou emendada. éticos. seja do país grande potência. para o exclusivo benefício dos detentores do poder de fato. Existe. A roupa fica por certo tempo guardada no armário e será vestida quando o corpo nacional haja crescido. mas quando se reúne já traz compromissos indeclináveis e emanentes de suas origens sociais.” “Entre a Constituição normativa e a Constituição semântica situa-se a Constituição nominal. numa imagem retórica. políticos. os detentores do poder esperam pelo futuro. p. dissimula ou disfarça. que dispõem do aparato coativo do Estado. 5ª ed. mas conserva um caráter educativo e prospectivo. culturais e morais acabam por determinar a atuação dos constituintes. uma desarmonia entre os pressupostos sociais e econômicos existentes e a aspiração constitucional. profissionais. econômicos. pelo amadurecimento esperado. . do país rico ou do país educado” (Interpretação e Aplicação da Constituição. vivamente integrada na sociedade. diferenciando-as segundo seu caráter normativo. nesse caso. 99] para ajustar os seus preceitos às novas realidades sociais e corrigir os equívocos ou exageros do constituinte de 1988. Saraiva. nominal ou semântico. Em tese uma Assembléia Nacional Constituinte pode tudo. a dinâmica do processo político não se adapta às suas normas. A Constituição normativa é aquela não apenas juridicamente válida. econômicos e sociais”. citado por Luis Roberto Barroso. sem pressa. além disso. Suas normas dominam o processo político ou. como no caso da Constituição normativa. mas que está. Aqui. inversamente. A roupa não veste. políticos. Já houve quem afirmasse que a “a Constituição. Confortavelmente. a ser sanada com o passar do tempo. é o encontro do povo de um certo país em dado momento histórico para reexaminar seus valores morais. Para usar uma expressão de todos os dias: a Constituição é a roupa que assenta bem e que realmente veste. é inegável que os constituintes estão comprometidos e limitados pelas forças sociais que os elegeram (fatores reais do poder). Foi precisamente ao estudar a sintonia entre as normas constitucionais e a realidade do poder que Karl Loewenstein. “No outro extremo está a Constituição semântica. mas esconde.incondicionado (porque não tem limites à sua atividade). Fatores ideológicos. Se não houvesse nenhuma Constituição formal ou escrita. o processo de poder se amolda às normas da Lei Maior. como vem acontecendo com a nossa Constituição em vigor. religiosos. elaborou a sua celebrada classificação ontológica das Constituições. 252). subalterna formalização da situação do poder político existente. submetendo-se a elas. a vida institucional não seria perceptivelmente diferente.

ou que todo o poder dele provém. relegando-se a plano secundário os poderes Legislativo e Judiciário. que mereceu do saudoso Senador Afonso Arinos. de modificação do funcionamento do poder. num melancólico estigma de instabilidade por falta de harmonia entre o instrumento formal e o real. verdadeiro titular do poder. tanto a Constituição de 1967. como aconteceu na América Latina nas últimas décadas do século passado. a oportunidade de influir nas grandes tomadas de decisões. foram editadas no Brasil nada menos do que oito Constituições. Está a indicar que a verdadeira democracia há de ser uma real tentativa de alteração do caráter autoritário e centralizador da sociedade. Tão marcante é ainda o caráter centralizador e autoritário da organização política e social brasileira. continham a expressiva fórmula de democracia indireta ou representativa: “Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. por exemplo. CONSTITUIÇÃO E DEMOCRACIA A visão sociológica da Constituição defendida por Lassalle encontra abundante campo de comprovação em nosso país. cortina de fumaça para esconder regimes autoritários. exige mais que a fria participação do eleitor que comparece às umas apenas para cumprir um dever legal.50. apesar de professar a democracia em todas as suas Constituições. na maioria das vezes tal declaração não passa do papel. ou motivado por falsas promessas . Há de ser um processo [p. numa lastimável sucessão de percalços. um dos pilares do Estado Democrático de Direito. No Brasil. simples princípio nominal ou teórico. sem qualquer participação do povo até mesmo na escolha dos seus governantes. o comentário famoso de que sociologicamente. no entanto. Tomemos para exemplo disso a própria Democracia. no texto de suas respectivas Constituições. quase todos os Estados declaram. mais do que um mero ideal escrito no papel ou de simples texto constitucional sem qualquer correspondência com a consciência e a realidade social de cada povo. executando a decisão e transformando a realidade. No entanto. como a emenda de 1969. solenemente. Isso está a indicar que a verdadeira democracia é muito mais que uma forma nominal de associação política. 100] integrado e evolutivo de constante participação do povo na atividade estatal decidindo.” Nesse período. que a fonte do poder é o povo. um dos nossos maiores constitucionalistas. o Brasil é um Império. Desde o século XIX. tivemos um regime autoritário. Tal integração. Em 180 anos de independência e pouco mais de 100 anos de República. de forma a ensejar ao povo. entretanto. onde a federação foi totalmente desconsiderada e neutralizada pelo poder central.

não é somente o direito. começou assim que se instalou o golpe de 1964 e. A liberdade. nem às minorias em um Estado democrático. porque a democracia é. Essa luta. quando as multidões correram entusiásticas e ordeiras aos comícios em prol da eleição direta para Presidente da República. após o AI-5. embora respaldado por milhões de votos. 50. contudo. essa grande esperança. que se manteve contida por quase vinte anos.eleitoreiras. a maturação sobre os desdobramentos do processo político e o acesso às informações que embasarão a participação lícita no processo decisório. todavia. não garante justiça. um projeto e. especialmente. A liberdade é consenti da ao homem em sociedade para desenvolver suas energias. veiculadas pelos órgãos de informações que condicionam e manipulam a verdade. empolgado pelo fascínio do poder. e não para esmagar a do seu semelhante. por si só. É preciso. tomou as ruas a partir da eleição dos Governadores em 1982 e se intensificou no início de 1984. porquanto só assim será possível impedir que a liberdade produza exatamente a sua negação. entretanto. após prolongado trabalho e acirrados debates. interpretando o sentimento da Nação em busca do reequilíbrio da vida nacional. mas ainda o poder de ser livre. embora valioso.[p. Daí por que a integração democrática impõe a consciência e a responsabilidade na escolha. razoavelmente avançado. simultaneamente. enviou ao Congresso Nacional a tão esperada emenda constitucional convocando a Assembléia Nacional Constituinte. Não pode existir uma democracia por decreto. pois. neutralizar os desequilíbrios. através de um processo realmente democrático. . afasta-se dos seus compromissos democráticos. e esta. fazer cessar as desigualdades. o mais destacado representante das forças democráticas bra. 101] sileiras. perdendo a legitimidade inicial. Características da Constituição Brasileira de 1988 A luta pela normalização democrática no Brasil e pela conquista do Estado de Direito Democrático. Frustrou-se. com relevantes inovações para o constitucionalismo brasileiro e até mundial. que só poderia consubstanciar-se numa nova ordem constitucional que refizesse o pacto-social. não só pela rejeição da emenda constitucional da eleição direta.1. sobretudo. Não é raro que o governante. cumprindo os compromissos democráticos assumidos por Tancredo. liberdade. por sua vez. uma prática. O Presidente José Sarney. na célebre frase de Luis Blanc. realizar a justiça social. O voto. um ideal. e salvaguarda ao indivíduo. aprovou um texto moderno. como também pela morte de Tancredo Neves. que foi o instrumento mais autoritário da história brasileira.

neles incluídos os dos trabalhadores. objeto. existência digna. III e IV). na expressão do saudoso Ulysses Guimarães. educação como direito de todos e dever do Estado. V). efetivamente. colocando em destaque o homem e seus direitos fundamentais. pode-se dizer que a Constituição atual. buscando resgatar o verdadeiro princípio federalista através de um sistema de repartição de competências entre o poder central e os poderes estaduais e municipais. sem numerário para execução de suas tarefas constitucionais. 227. fundamento da atividade estatal. I. primeiramente. pleno emprego. É a “Constituição Cidadã”. 5° e seus setenta e sete incisos. I. A dignidade da pessoa humana passou a ser princípio fundamental da Constituição (art. mas principalmente porque se volta decididamente para o cidadão e o social. § 1°). 153). conferindo maior soma de competências legislativas e administrativas aos Estados e Municípios.[p. tanto assim que praticamente inicia-se a Constituição com a consagração desses direitos . No respeitante à Organização Político-Administrativa e a Divisão dos Poderes. inciso III). justiça social. função social da propriedade. já que não há verdadeira autonomia. sujeito. não só porque teve ampla participação em sua elaboração. não são aplicadas. 6° a 11° -. assistência integral à saúde da criança e do adolescen. diferentemente da anterior que era centralizadora e autoritária. valorização do trabalho (art. . diferentemente da Carta anterior que tratava desses direitos na sua parte final (art. Praticamente. Todas essas normas e muitas outras. 1°. 170 e incisos). dandolhes ainda mais recursos tributários. 208. a Constituição de 88 tem inúmeros dispositivos que ainda não passaram da folha de papel. na ordem social. nem política e nem administrativa. atendimento especializado aos portadores de deficiência. no dia-a-dia da vida do cidadão. 102] te (art. e Direitos Sociais. atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade (art. assumiu uma postura liberal.As inovações se fizeram presentes. 205 e 206. nos arts. Pode-se concluir dizendo que a Constituição de 1988 afastou o federalismo nominal da ordem constitucional anterior. padecem do mesmo mal: não passaram do papel. valorização dos profissionais do ensino etc. Não obstante tantos pontos positivos.Direitos e Deveres Individuais e Coletivos no art. que ressoam precisamente inócuas. não só os individuais como também os coletivos. igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. fundamento e fim de toda a atividade pública. Presidente da Assembléia Nacional Constituinte que a produziu. tais como. o que significa que o homem é o centro. (arts. ensino fundamental obrigatório e gratuito. fez renascer a Federação.

que a . ou pelo menos não reconhecida pela lei. Inicialmente a sociedade tolerava com reservas essas uniões: todo mundo sabia e comentava quando. sem dúvida alguma. inúmeros problemas começaram a surgir no seio da família. da Emenda nº 1/69) que considerava o casamento indissolúvel. somente o desquite. 175. estariam resolvidos todos os problemas que conspiram contra o casamento. produzindo efeitos patrimoniais para os cônjuges. proibindo descasar. levando de roldão a família. [p. objetivava a proteção do casamento e da família legítima. inúmeros diplomas legislativos foram produzidos nas oficinas do direito. o vínculo conjugal. Em razão disso. mormente após a Constituição de 1988. 103] Com o correr do tempo. tantos foram os casais de união de fato. hoje chamado de separação judicial. 51. amor. Depois. compreensão e calor humano.2. em todas as camadas sociais. em outras palavras. que dissolve apenas a sociedade conjugal. “célula mater” da sociedade. formando novo par. num determinado edifício. estável. deixando íntegro. tomava-se uma união sólida. um novo Direito de Família. havia um casal cujos componentes não eram casados. os cônjuges separados ou desquitados se uniam de fato a outra pessoa. com filhos. A Situação da Companheira e dos Filhos Ilegítimos Apesar de a Constituição vedar a dissolução do casamento. em busca da necessária harmonia entre a realidade social e a lei. amizade. mulher para outro. oriundos das mais variadas causas. DIVÓRCIO Havia uma norma em nossa Constituição (art. entretanto.1. DIREITO DE FAMÍLIA Em nenhuma outra área do direito houve tão grande evolução como no Direito de Família. § 1°. ficando entre eles os filhos.51. que. como veremos a seguir. Muitas vezes essa união ilegal. dando origem a novas famílias. Foram tantas as modificações sociais ocorridas nas últimas décadas que não seria demais afirmar que temos hoje. Pensava-se. Marido ia para um lado. Em razão dessa norma não podia haver divórcio no Brasil. geralmente os mais prejudicados. Entendia-se que o divórcio destruiria o casamento. servindo de instrumento de chantagem emocional. Tal norma. dando ensejo ao desfazimento dos lares. 51.

A mulher fica numa situação vexatória. plenamente integradas na sociedade. que devem ser pesquisadas e combatidas se se quiser de fato manter o vínculo matrimonial indissolúvel. mas continuavam a ser repelidas pela lei. [p. Em síntese.sociedade passou a aceitá-los plenamente. Se assim não fosse. ilegais. A nova realidade social em tomo da família e do casamento evidenciou que não era o divórcio. A pretexto de proteger um vínculo matrimonial já de fato inexistente. o responsável pela destruição do casamento. a situação da família no país onde não há divórcio seria muito melhor do que em outro onde há. a concubina. Aqueles eram considerados filhos ilegítimos ou mesmo adulterinos. pois o homem com o qual vive está sempre a dizer: “Sou casado. repetimos. repudiada pela lei. Só prejudicava. dar nome à mulher e aos filhos. como se fossem marido e mulher. bem constituídas do ponto de vista social. estas famílias “ilegais” eram mais úteis e recomendáveis que as primitivas. legítimas mas já destruídas pela separação. Do ponto de vista social. o indivíduo que se casa outra vez. como se fez em nosso País. sem quaisquer reservas. conhecer e combater as verdadeiras causas do fracasso matrimonial. esta. Há outras causas (sociais. eram mantidas à margem da lei. ressentimentos e outros graves problemas sociais. não é verdade. nada posso fazer. após o primeiro casamento. pois. Havendo divórcio. psicológicas. Muita gente queria regularizar a situação. um homem. une-se tantas vezes quantas puder com outras mulheres. afetivas. assume novas . 104] Ficou também evidenciado que a proibição do divórcio só facilitava a irresponsabilidade e estimulava a pilantragem. Não basta. Eram ilegítimas. estendendo-lhes proteção legal. econômicas. É preciso. a lei repudiava famílias bem constituídas. além de não conseguir impedir-lhe a dissolução. Basta fazer uma comparação entre o Brasil. sem assumir qualquer obrigação alimentar ou de outra natureza econômica para com elas. com pais e filhos vivendo em harmonia e felicidade. e isto. se não fosse”. proibir descasar. As novas uniões passaram a ser normalmente admitidas pelos costumes. para impedir a ruína do casamento. mas não podiam. antes do divórcio. não podendo se divorciar. Filhos e companheira não tinham qualquer direito ou amparo legal. entre os quais o desamparo econômico. e os Estados Unidos. Inúmeras famílias. a norma constitucional que visava a proteção do casamento. culturais) profundas. além das obrigações já assumidas com a primeira família. e “deitar em berço esplêndido”. impedia ainda a realização de outros casamentos verdadeiros. para constatarmos que não estávamos em melhor situação. gerando desigualdades. fechando os olhos para a realidade. nada pode exigir. como se sabe. em si. O vínculo matrimonial era indissolúvel. Com efeito.

o que equivale dizer que até então tais filhos não podiam ser registrados em nome de seu verdadeiro pai. . para a qual o casamento é uma instituição divina. Soluções Legais Paliativas antes do Divórcio Houve uma sucessão de leis permitindo o reconhecimento dos filhos ilegítimos em certas circunstâncias. um dogma religioso. é que se tomou possível o reconhecimento de filhos havidos fora do matrimônio após a dissolução da sociedade conjugal por desquite. não ocorreu em virtude da pressão exerci da pela Igreja. não precisa de remédio.obrigações legais também com a segunda. porquanto só possibilitava reconhecimento de filho havido fora do matrimônio depois do desquite do [p. de modo que. Mas o aludido decreto-lei não satisfez. foi promulgado o Dec. entretanto.737. sem solução. Mas como qualquer remédio. não impedia o fracasso do casamento mas impedia a regularização das novas uniões. arruinados. embora extinto o vínculo conjugal. simplesmente porque o casamento deles não está doente. 50 anos e que nunca pensaram em se divorciar.-Lei n° 4. lícito não era promover o reconhecimento do filho havido extramatrimônio. isto é. 51. Não se referia ele às outras causas de terminação da sociedade conjugal. permitindo o reconhecimento dos filhos de desquitados havidos fora do matrimônio. há milhares de casais unidos pelo casamento há 20. panacéia. 30. só por divorciar-se. sagrada e impassível de ser desfeita pelo homem. de 21 de outubro de 1949.3. Tal. Evidenciado igualmente ficou que o divórcio não é causa da ruína do casamento. mas sim remédio. Além de não proteger a família legítima. Primeiramente. precisando ser muito forte economicamente para chegar à terceira família. prejudicava as famílias ilegítimas. há muito teria introduzido o divórcio na legislação. Se o nosso legislador atentasse para a realidade social. de 27 de setembro de 1942. sem qualquer utilidade prática ou social. morte de um dos cônjuges ou anulação do casamento. O fato de existir o divórcio não quer dizer que todos vão se divorciar. 105] genitor. Mesmo nos países divorcistas. solução extrema para casamentos já desfeitos. quem está doente. ou mãe. como a morte de um dos cônjuges. Em face de tudo isso. Somente com a Lei na 883. mesmo que desquitado. dele só faz uso quem precisa. a conclusão lógica era que a indissolubilidade do vínculo matrimonial não passava de mera ficção jurídica.

até que a própria lei passou a atribuir-lhe direito à pensão previdenciária (Dec. nos casos expressos em lei.Lei na 7. bem como quaisquer outras designações discriminatórias relativas à filiação (art.4. bem como à indenização por acidente de trabalho (Dec.” Como se vê. desde que haja prévia separação judicial por mais de três anos. regulou os casos de dissolução da sociedade conjugal. e as peripécias sociais pelas quais passamos até que o dogma ou ficção fosse destruído pela Emenda Constitucional nº 9. § 3°). a Lei na 6. havidos ou não da relação do casamento. os efeitos negativos produzidos pela norma constitucional que considerava indissolúvel o vínculo matrimonial. passou a dispor: “O casamento poderá ser dissolvido.1973) permitiu o uso dos apelidos do amásio pela companheira. de 28 de junho de 1977. Lei na 4.036/44). foi cauteloso o legislador ao permitir o divórcio após prévia separação judicial por mais de três anos. alterando o § 1 ° do art. tempo mais que suficiente para revelar se a separação é ou não definitiva. 51.069/62). 51. a Lei de Registros Públicos (Lei na 6. 175 da Constituição Federal. A Introdução do Divórcio na Legislação Brasileira O divórcio tomou-se permitido através da Emenda Constitucional nº 9. em síntese. reconhecimento) os direitos e qualificações dos filhos.Lei na 7. da companheira e dos filhos ilegítimos. Mais recentemente. ora a título de indenização. 226. 106] coragem para tanto. 226. proibindo a designação de filiação legítima ou ilegítima. a saber: a) reduziu o prazo do divórcio de três anos de prévia separação para apenas um. conhecida por Lei do Divórcio.5.12. b) reconheceu a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar.Nesse ínterim. A Situação da Companheira e dos Filhos após a Constituição de 88 Após mais de meio século de lenta evolução da questão do divórcio. Posteriormente. ou depois de dois anos de comprovada separação de fato (art. alimentos.485/45. que.515. c) igualou para todos os efeitos (herança. de 31. 226. § 6°). a Constituição de 88 encontrou uma base social para fazer as mudanças necessárias e o constituinte teve [p. § 6°). determinando à lei facilitar a sua conversão em casamento (art. .015. de 26 de dezembro de 1977. a jurisprudência fez verdadeiros malabarismos para reconhecer alguns direitos patrimoniais à concubina. Esses. ora com base na sociedade de fato.

vale dizer. ao tratar da união estável nos seus artigos 1. na união estável aplica-se às relações patrimoniais.596.união estável . O novo Código Civil.1996. não mais subsistindo as limitações anteriores. O novo Código Civil. ou por adoção. o regime da comunhão parcial de bens (art. em 29. a nova Lei de Investigação de Paternidade (Lei n° 8. Os bens móveis e imóveis adquiridos por ambos os conviventes. até então designado de filho adulterino. no que andou bem. de um homem e uma mulher.” Salvo contrato escrito entre os companheiros.725).278/96. regulamentou o § 3° do art. assegurando-lhe também o direito real [p.” Em relação à companheira. 7°) o direito a alimentos ao convivente que deles necessitar uma vez dissolvida a união estável.724 praticamente repete o artigo 2° da Lei n° 9. pois aquela lei consolidou um longo trabalho doutrinário e jurisprudencial.1992. voluntária ou coativamente. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. Sobreveio. estabe1ecida com o objetivo de constituição de família (art. enquanto viver e não constituir nova união ou casamento. a Lei nº 8. concedeu-lhe direito a alimentos. O artigo 1. após a Constituição de 88. 107] de habilitação.560/92) que ampliou ainda mais as hipóteses de reconhecimento voluntário e de investigação de paternidade. finalmente. passando a pertencer a ambos. divorciado ou viúvo. de 10.05.1994. que diz: “Os filhos. 1°). 226 da Constituição Federal .12.278. salvo estipulação contrária em contrato escrito (art. pública e contínua. Por último. Mantém a lei (art.reconhecendo como entidade familiar a convivência duradoura. são considerados fruto do trabalho e da colaboração comum. 1. comunhão dos bens adquiridos depois da união. Conferiu-lhe também o direito de participar na sucessão do companheiro (herança) nas condições previstas nos seus arts.727. a Lei nº 9. na constância da união estável e a título oneroso. e prove a necessidade. 5°). havidos ou não da relação de casamento.723 a 1. manteve a mesma disciplina da Lei n° 9. respeito e assistência e de guarda.12.278/96: “As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade. no que couber. separado judicialmente. o filho havido fora do matrimônio.Importa dizer que. sustento e educação dos filhos. terão os mesmos direitos e qualificações. . 2° e 3°. tem o direito subjetivo de ser reconhecido. ou dele tenha prole. conferindo inclusive ao Ministério Público legitimidade para propor a respectiva ação. como não poderia deixar de ser.971. relativamente ao imóvel destinado à residência da família. de 29. em condomínio e em partes iguais. manteve a mesma disciplina no seu artigo 1. desde que conviva há mais de cinco anos com o homem solteiro.

mediante reiterado posicionamento jurisprudencial em seu prol. Tanto o § 3°. como o artigo 1. passando inicialmente pelo reconhecimento como sociedade de fato e. razão pela qual o entendimento majoritário. DIREITO PENAL O Direito Penal é muito sensível às questões sociais. o Superior Tribunal de Justiça decidiu que “os homossexuais constituem sociedade de fato a ensejar partilha do bem comum”.897-MG. Tudo ou quase tudo acaba nele repercutindo: explosão demográfica. são de clareza solar. a Suécia e a Noruega já dispõem de leis que regulamentam a união homossexual. pp. há vozes respeitáveis fulcradas no Estado Democrático de Direito e nos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana. da igualdade e da sociedade com respeito ao pluralismo típico deste Estado de Direito. 52. com individualidade e identidade próprias. Sustentam não ser possível fechar os olhos para a realidade . A Dinamarca. No entender do Professor Luiz Edson Fachin.o grande número de ações que são distribuídas aos Juízos de Família pretendendo reconhecer ou dissolver uniões homossexuais. a relação estável homossexual deverá seguir os caminhos já traçados pela entidade familiar estável. Renovar. mas também os operadores do direito que militam nas Varas de Família. entretanto. favelização. regular posse e guarda de crianças etc. pobreza. de autoria da exDeputada Federal Marta Suplicy.[p. que pretende instituir a parceria civil. 93/1 02).02. 108] sexual é família autônoma e distinta da união estável. No Recurso Especial n° l48.51. não reconhece na união de homossexuais a categoria de união estável. Reconhecem a união estável apenas entre homem e mulher.151/95). primeira iniciativa no sentido de sensibilizar nossos legisladores para o problema que afeta não só os que o vivenciam. União de Pessoas do Mesmo Sexo É indispensável a diversidade de sexo para a configuração da união estável? Essa é a questão que remanesce e que ainda é bastante polêmica. Aduzem que a família homos. tanto na doutrina como na jurisprudência. ausência de . passará a ter reconhecimento jurídico” (Elementos Críticos do Direito de Família. O que a Justiça tem admitido é a sociedade de fato para fins patrimoniais. do qual foi relator o Ministro Ruy Rosado de Aguiar. do artigo 226 da Constituição.723 do novo Código Civil.1998. julgado em 10. Em sentido contrário. crise de moradia. a oxigenar o nosso sistema legislativo. só após.6. No Brasil temos apenas um Projeto de Lei (nº 1. ainda não apreciado pelo Congresso Nacional.

10% geração de empregos.2003 ao raiar do sol. por mais de duas horas sob a mira de revólveres de três jovens drogados. tendo que mudar os seus sonhos e de sua família por motivo de assaltos múltiplos. na realidade atingiu patamares vergonhosos e insuportáveis. moradias. 109] generalizado e sem precedentes. fraude e assim por diante. 12% selecionar melhor os policiais. “Já não é mais possível viver nesta cidade exposta a essa vergonhosa violência. estúdios onde inúmeras montagens seriam ensaiadas e produzidas. gerando sentimento de insegurança [p. 3% investir mais no social (O Globo.01.2000). nem dentro de um filme sem final feliz. por exemplo. Em relato dramático ao Globo (04. Nunca os assaltantes agiram com tanta ousadia e desenvoltura como na última década. 8% investimento em educação. ao ter a sua casa assaltada no dia 29. o renomado diretor diz ter construído uma casa com salas de ensaios. c) 57% têm medo de assalto na rua. 21% aumentar a remuneração dos policiais. hospitais e o comércio em geral. Mas agora era obrigado a dela sair violentado. 9% mudar toda a polícia. que atinge qualquer família ou qualquer cidadão a qualquer momento de sua vida. quem a promove. ao persuadir os bandidos a tomá-lo como escudo.06. em ônibus 35%.” 53. Renomado diretor de TV no Rio de Janeiro.2004). ficou. que atinge cidadãos. 18. Sobre o que precisa ser feito. os resultados foram os seguintes: 38% aumentar o número de policiais. 36% melhorar o treinamento da polícia. . ele se viu dirigindo uma cena da vida real. escolas.. figura em primeiro lugar em todas as pesquisas. camarins. é fato público e notório. Quais são as causas dessa violência. VIOLÊNCIA URBANA E PODER PARALELO A violência urbana. 6% criação de programas sociais.educação. onde não precisaremos continuar fingindo que estamos dormindo. a uma cidade que um dia será maravilhosa. juntamente com a sua família e mais oito amigos. corrupção. Acostumado à ficção. Entrego essa casa a um sonho de futuro. apurou o seguinte: a) 81 % dos moradores afirmaram j á ter sofrido algum assalto ou tiveram alguém da família assaltado.12. b) um em cada três revela se sentir inseguro ou muito inseguro dentro da própria casa.. A falta de segurança. no lugar de uma das amigas de sua filha. ao mesmo tempo em que berrava para a polícia parar de atirar. que efeitos produz? Pesquisa feita pelo IBOPE em junho de 2000 nos municípios do Grande Rio.

adultos e crianças. O Governador de São Paulo. ocuparam os espaços deixados e formaram verdadeiro poder paralelo. 20. 04. mas sim a omissão do Estado (União.2004). a causa dessa violência urbana não é a miséria. Após tão firme pronunciamento. trabalhadores e donas-de-casa. E prioridade é recurso. a falta de moradia ou de investimento na educação. desempregados. Primeiro. No comando dela está o crime organizado. . após ter o Rio de Janeiro passado por queima de ônibus. muito menos pelos favelados. a fome. era de se esperar medidas governamentais fortes e emergenciais. Em junho de 2002. rajadas de metralhadoras em prédios públicos. ledo engano. A falta de prioridade não é apenas do governo atual. o que não está acontecendo com o governo atual. A entrevista do Governador de São Paulo merece apenas um reparo. mas também de vários anteriores e envolve também os governos estaduais e municipais. senão é só boa intenção. uma situação como a atual nas favelas do Rio. “tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes”. atingindo pobres e ricos. na ausência do estado. o então Presidente da República aqui esteve e afirmou na abertura da IV Semana Nacional Antidrogas: [p. O combate à violência urbana não depende de medidas sociais. já é degradação. mas. quando o Estado não existe é preciso repor porque senão não há cidadania. conforme demonstrou a pesquisa do IBOPE.2002). só agora tem sido admitido pelas nossas autoridades.06. Estados e Municípios) na seleção. declarou em entrevista: “A política de combate à violência no Brasil não dá resultados concretos porque falta ao governo federal tratar o assunto como prioridade. Geraldo Alkmin. Há o arbítrio” (O Globo.01. que hoje não funciona” (O Globo. treinamento. anomia (ausência de leis). interdição da Avenida Brasil e Linha Vermelha por bandidos. E a organização é tão forte que a realidade demonstrou que alguns chefões continuam no comando mesmo depois de presos. A grande contribuição que se poderia dar para resolver a insegurança nas cidades é disponibilizar recursos para a melhoria da área de tecnologia da polícia. a ponto de levar um membro do Judiciário a declarar que ali o estado não existe. a crise de insegurança é geral. remuneração dos policiais e aumento dos seus efetivos.Os resultados dessa pesquisa não surpreendem. Isso que o povo sabe e denuncia há muitos anos. a pobreza. apenas confirmam o que todo mundo já sabia. 110] “O Estado tem que recuperar os espaços eventualmente perdidos para o crime organizado. quadrilhas de traficantes de tóxicos e armas que. porque ela não é promovida pelos pobres. Segundo.

Com uma polícia de poucos recursos. mas podia ter a sua nocividade limitada ao território do morro e à pequena parte da sociedade do asfalto que queria consumir drogas (e bem podia ter essa liberdade tolerada). que só passou a se preocupar com a questão quando o cenário foi mudando de figura. conforme relato do Senador Roberto Saturnino Braga em artigo no Globo. Faz pelo menos 25 anos . a polícia obtinha a colaboração do tráfico na preservação da paz no asfalto. era a loteria dos pobres. com o acordo. contribuições para entidades filantrópicas. onde o tráfico era rigoroso na contenção do crime. ligando-o a grupos de seqüestro e de assalto. era uma contravenção que na verdade não fazia [p. que sempre participou dos resultados financeiros de uma atividade extremamente lucrativa. guerras particulares de gangues pelo controle dos pontos de maior lucratividade e investimentos muito maiores em armamentos eficazes para sustentar essa guerra. em termos de resultados práticos. na realidade assustadoras. Essa divisão facilitava muito o cumprimento da cláusula fundamental . Assim. para evitar deslealdades dentro dos grupos. semioficialmente. manchando a imagem do governo e tirando votos do eleitorado que era crescente no morro. pelas autoridades responsáveis e pela média da opinião da cidade. delimitaram-se dois territórios de ação e população distintos: o “morro” do tráfico e do povão e o “asfalto” onde vive a população que merecia ser protegida pela polícia. Além disso. Houve até um governador que chegou a institucionalizar o “bicho”. O acordo evitava também incursões da polícia no morro. obtendo dele. promoveu atos de crueldade que chocavam as populações do . fazer um acordo com o tráfico de drogas e concentrar a atenção e as forças no combate à criminalidade comum. O acordo funcionou durante décadas. O tráfico cresceu e ganhou status de negócio.“nós não subimos lá e vocês não descem cá”. prossegue o Senador em seu relato. Por muitas vezes o tráfico promoveu ações no “asfalto” para arranjar dinheiro em momentos difíceis. com boas razões. exigiu um comando mais severo dos traficantes sobre a comunidade do “morro”. tanto que muita gente. E o resultado foi considerado razoável. O tráfico não era tão inocente quanto o bicho. de baixo efetivo e sem equipamento adequado. E em ambos os casos havia uma racionalidade: o jogo do bicho não chegava a ser crime. especialmente nas imediações do morro. 111] mal a ninguém. que freqüentemente terminavam em abuso e violência. Era um acerto informal semelhante ao que houve também com o jogo do bicho. suscitando disputas armadas. valeria mais.Como surgiu esse poder paralelo e como atua? As suas raízes são sólidas e profundas.um quarto de século . mesmo contra a lei. Isso tudo ainda garantia bons rendimentos para a polícia.que predominou na polícia do Rio o pragmatismo dos “realistas”. recomendava sua legalização.

02. conforme anunciado pelo atual Secretário Nacional de Segurança (O Globo. por descumprir essa regra. que criou suas áreas de exclusão. Esta.06. De acordo com o Instituto Fecomércio.01. Ele . da DERJ. E produziu choques e episódios freqüentes de enfrentamento com a polícia. o envolvimento de líderes comunitários com traficantes passou a ser regra. o Rio perdeu.[p.2004).“morro” e do “asfalto”. no período de outubro de 2000 a setembro de 2002. sem recursos. o tráfico executou cerca de cem líderes comunitários. Mas era tarde: o poderio do tráfico tinha aumentado muito além do imaginado. Surgiu então na cidade o crescente grito de “basta!”. fez constatações alarmantes. Tal é a força desse poder paralelo que os moradores das favelas onde ele atua fazem manifestação contra a ação policial sempre que um traficante é morto. foi torturado e morto. Em 13 de abril de 2003 O Globo publicou a relação das áreas mais afetadas pelo poder paralelo. Para o sociólogo Geraldo Tadeu. acusados de matar dois traficantes (O Globo. onde foi torturado e morto o jornalista Tim Lopes. Conclui o Senador. muito mais que o da polícia. bairros inteiros estão sendo esvaziados com a saída de indústrias e estabelecimentos comerciais por causa da violência e da degradação urbana. outros trezentos diretores de associações tiveram que abandonar as favelas para não serem mortos. 20. Esse mapeamento já é conhecido da população há muitos anos. 20. 4. na Penha. esse poder paralelo é mais forte do que admitem as autoridades policiais. estabelecimentos comerciais e industriais. mais de quatrocentos dirigentes de entidades se associaram a bandidos (O Globo. Entre 1992 e 2001. O jornalista Tim Lopes. 112] bir o morro ou penetrar em certas favelas sem autorização dos chefões do bando.06. perdia uma grande quantidade de homens e se desmoralizava numa guerra que não tinha respaldo efetivo e decidido da cúpula dirigente. e se constituiu um inimigo cujo enfrentamento era cada vez mais difícil e desgastante para a polícia.2002). revoltados com policiais do 16° BPM (Olaria).2002). Seis ônibus foram incendiados pelos moradores da Favela Vila Cruzeiro. até universidades. Ninguém pode su. Até o salvo-conduto para os ônibus circularem é dado pelo tráfico. postos de saúde. já quase completamente envolvida na participação dos lucros e cada vez mais ávida de ganhos naquele negócio que crescia incontrolavelmente. que estuda a relação do tráfico com as comunidades. Levantamento feito pela Comissão Contra a Violência e a Impunidade da Assembléia Legislativa do Estado do Rio. Hoje. não sendo suficiente para enfrentá-lo a mera “criação de um Gabinete de Gestão Integrada do Sudeste e o mapeamento das quadrilhas que atuam nos morros”. Em 32 bairros do Rio os traficantes escolhem dia e hora para fechar escolas. onde os pragmáticos continuavam dando as ordens na linha do acordo que se deteriorava.223 lojas.

É ação direta de um poder paralelo que [p. até mesmo do país. Têm ainda um sistema de segurança complexo. CRIMINALIDADE DE COLARINHO-BRANCO (WHITE COLLAR CRIME) Trata-se de uma categoria não convencional de crimes e criminosos. dão dinheiro. 20. associações e ONGs. que o Estado adote ações estratégicas de médio e longo prazos (O Globo.explica que com o tempo ocorreu um processo de subordinação dessas associações. “vapores” e “soldados”. Estados e Municípios. Não é possível combatê-lo com medidas paleativas e demagógicas como as que estão sendo anunciadas. há igrejas. tão pouco decorre da falta de leis ou da atuação do Judiciário. Entre nós. planejada e duradoura. Combater a violência urbana de forma pontual e isolada é o mesmo que tentar matar a árvore só arrancando as folhas. que povoam nossas prisões horríveis e constituem a clientela do sistema. a partir do crescimento exacerbado do tráfico como poder militar e econômico no âmbito dessas comunidades. muito menos da segurança que todos almejamos. como bem assentou o saudoso Professor Heleno Fragoso (relatório apresentado na Reunião da Comissão Internacional de Juristas da ONU). encontramse acima da lei. estadual e municipal. Têm também um sistema tributário paralelo e cobram impostos dos comerciantes. alegando que o poder público limitou a sua presença nas favelas à repressão. nem por crianças desnutridas e sem escola. Eles têm um sistema previdenciário paralelo. pelo menos omissão. o Direito Penal tem sido um amargo privilégio dos pobres e desfavorecidos. mas o tráfico tem mais estrutura. detentoras de poder político ou econômico. que. É o grande poder paralelo. Ela se distingue da criminalidade convencional pelo fato de ser integrada por pessoas de alta classe e respeitabilidade. cestas básicas. as comunidades não têm como reagir sem uma intervenção do Poder Público.06. do Poder Público. por isso mesmo. com absoluta propriedade. Para Geraldo Tadeu. em todos os . Nas favelas. de sorte que sem uma ação integrada da União. A estrutura geral de nosso direito punitivo. 54. 113] nasceu e cresceu com a tolerância. armas não são fabricadas por favelados. Drogas não nascem nos morros. miséria ou falta de instrução. Tudo vem de fora. Os traficantes ocuparam esses espaços.2002). nem são ali industrializadas. com gerentes. não haverá reconquista dos espaços perdidos. O sociólogo defende. Conclui-se do exposto que a violência urbana não é uma conseqüência da pobreza. O sociólogo justifica ainda a influência do tráfico nas comunidades. É preciso disposição política das três esferas de poder federal.

além de atingirem a coletividade. ou o patrimônio de indeterminado número de pessoas. b) exploração predatória dos recursos naturais. Não sendo possível a enumeração exaustiva das ações anti-sociais que caracterizam os crimes de colarinho-branco. destacar os fatos que acarretam: a) danos contra a vida e a saúde da coletividade. segundo o mesmo Professor Fragoso. segundo o Professor Fragoso. em Maracaibo (Venezuela). tais crimes são muito mais graves do que o furto e o roubo que punimos com tanta severidade. podemos. 114] c) O dano causado pela ação é extenso e considerável. podemos considerar: . tornando puramente ilusória a igualdade proclamada nos documentos políticos. pode-se destacar que os fatos que constituem tal criminalidade apresentam as seguintes características: a) os autores pertencem. c) danos contra o patrimônio estatal da coletividade. às elites dirigentes (econômica. Mas o pior de tudo é que ficam impunes os seus autores. financeira ou política) da formação social. Pela extensão dos resultados. nada lhes acontecendo. que dela se livram com facilidade pela corrupção e pelo tráfico de influências. b) o fato anti-social é praticado no exercício da atividade. deixa inteiramente acima da lei os que têm poder econômico ou político. todavia. O Centro Internacional de Criminologia Comparada da Universidade de Montreal. Os fatos anti-sociais que acarretam danos à vida ou à saúde da coletividade. [p. Em razão dessas pesquisas. visto que. como já se disse. são capazes de abalar a própria estrutura econômica ou política do país. c) produção industrial imprópria ou defeituosa. entre as quais o Instituto de Ciências Penais do Rio de Janeiro. Em relação à força de trabalho. atingindo em regra a coletividade. em conjunto com o Instituto de Criminologia da Universidade del Zulia. realizam extenso projeto de pesquisa sobre a criminalidade de colarinho-branco na América Latina. b) danos contra o patrimônio da coletividade. podem ser aqui colocados: a) abusos praticados em relação à força de trabalho.seus mecanismos de aplicação. e outras instituições de pesquisa do continente americano.

1) a redução do trabalhador à condição subumana pelos salários incapazes de repor as energias consumidas no trabalho. provocando injeções maciças de dinheiros públicos (créditos e financiamentos) ou encampações oficiais. em qualquer de seus aspectos. medicamentos prejudiciais ao organismo. bem como a propaganda fraudulenta que causa dano ao patrimônio de indeterminado número de consumidores. 115] sive com o emprego de produtos químicos. 2) exaurimento físico e mental do trabalhador. A exploração desordenada conduz à destruição do ambiente vital (exaustão e erosão do solo. a exigência da segurança). e não o preço do progresso. contendo elementos químicos altamente nocivos à saúde etc. A poluição. inclu. A produção industrial imprópria ou defeituosa atinge a vida ou a saúde da coletividade. inclusive através da exploração de trabalhadores rurais (bóias-frias) empregados na lavoura na época das colheitas. . produzindo quebras que afetam amplos segmentos da coletividade de investidores (além de outros setores das classes dominantes). ou alternativamente. e desflorestamento sistemático. lesados também freqüentemente no peso e quantidade de mercadorias comercializadas. Temos ainda toda a sorte de fraudes e manipulações no mercado de ações. projetos da indústria automobilística que desatendem. A exploração predatória dos recursos naturais apresenta-se através da destruição do ambiente vital produzido pelo trabalho milenar da natureza. por imposições do mercado. como propõe a ideologia dominante. 3) condições de insegurança ou de fadiga excessiva. não só no que tange aos produtos alimentícios ou medicinais.g. com efeitos negativos idênticos.[p. consoante constantes denúncias feitas ultimamente pela imprensa. como através de outros produtos (e. produtos alimentícios de primeira necessidade. Temos aqui a administração ruinosa de determinadas empresas. criando desertos e provocando secas). Danos ao patrimônio da coletividade apresentam-se através de métodos irregulares e fraudulentos de enriquecimento. em especial as ligadas ao mercado financeiro. como o pão. pela imposição de ritmos excessivos de trabalho e tarefas monótonas e embrutecedoras (produzindo doenças ou lesões ocupacionais). constitui débito social ilegítimo do processo industrial. seja pela poluição.. causando mortes e acidentes. que eliminam insetos e microorganismos necessários ao equilíbrio ecológico e intoxicam o consumidor.. seja pela exploração desordenada. como acontece no Brasil.

A corrupção surge também na celebração de contratos públicos. como. esses delitos são praticados com o emprego da moderna tecnologia e decorrem. Danos ao patrimônio estatal da coletividade podemos identificar na evasão de impostos. que se pratica através de balanços fictícios e subfaturamento. O estouro de vários bancos de alguns anos para cá. mas seus efeitos atingem a coletividade também. a nossa legislação penal ainda é deficiente na configuração e punição dessa criminalidade chamada de colarinho-branco. Poder-se-ia também mencionar aqui a ação predatória da economia nacional praticada através de empresas transnacionais. lavagem de dinheiro obtido ilicitamente. Lamentavelmente. bem ilustra este ponto. 55. do uso abusivo de instrumentos da economia. fraude no mercado acionário e de câmbio. viciando [p. sequer dispomos de recursos técnicos para a sua rápida e eficiente apuração. alguns deles dirigidos por altas personalidades de nosso cenário político e econômico. produzindo lesão incomparavelmente maior do que a representada pela criminalidade contra o patrimônio convencional. as manobras mais variadas que visam proporcionar a alta de preços de gêneros ou bens de consumo essenciais. valendo-se com . causando bilhões de prejuízo aos cofres públicos e particulares. A MACRODELINQÜÊNCIA Essa expressão é modernamente utilizada para indicar o crime organizado. lesivos por vezes aos interesses vitais e estratégicos da coletividade. Igualmente a corrupção administrativa de alto nível. 116] concorrências e superfaturando os preços. envolvendo a prática de ilícitos sofisticados em que a vítima é a coletividade (os danos são difusos). podendo ser identificada pelas seguintes características: a) abuso de poder econômico e político. É certo que algumas práticas são diretamente lesivas a outros grupos dominantes. fraudes com transferências bancárias. por exemplo. que abusam do poder econômico. basicamente. eliminando a concorrência de grupos nacionais e fazendo com que seja entregue a estrangeiros o controle de áreas essenciais da economia da nação. Tem alguns pontos em comum com a criminalidade do colarinho branco. o que faz crescer o sentimento de impunidade para os que não são pobres. De difícil detecção. ou da própria integridade nacional. ligada à concessão de favores ou privilégios especiais. falsificação de moeda e títulos da dívida pública.Finalmente.

c) reveste-se de uma aparência de legalidade absoluta. onde o dinheiro ilícito entra e sai com facilidade. aumentos incontroláveis de preços. condições de vida subumanas. o combate ficará circunscrito aos sintomas. em constante consonância com as mudanças dos mecanismos econômicos e para dificultar a identificação das operações ilícitas. É a macrocriminalidade que provoca desníveis sociais. Quando o legislador vai trabalhar em cima da realidade econômica. da criminalidade comum. ela já não mais se encontra no patamar que se pretendia regulamentar. . Outra dificuldade no combate da macrocriminalidade resulta do fato de conseguirem os criminosos adaptar-se rapidamente às constantes mudanças da economia. de modo que pouco ainda sabemos a seu respeito. inclusive o estudo de casos. Enquanto isso não acontecer. elevação da inflação. de nada adiantará a repressão à criminalidade convencional. até a reformulação da legislação penal. Para elaborar leis eficazes nesta área da criminalidade. A transnacionalização é uma das maiores dificuldades no combate à macrocriminalidade. pois costuma apoiar-se em atividades legais que lhe dão cobertura tática para os negócios ilícitos. com o estabelecimento de uma ordem social mais justa e democrática. o que não acontece com o legislador e as leis. Os criminosos utilizam países de acordo com os seus interesses e as facilidades que neles encontram. Estão entre os países preferidos os chamados paraísos fiscais. deverão abranger desde a completa reforma da estrutura política e econômica do país. causas principais. crises econômicas. f) impunidade dos autores. o legislador teria que ter profundo conhecimento da realidade econômica e estar permanentemente atento para prever as possíveis mutações de seus mecanismos.[p. 117] nia dos Estados. por outro. sem nunca chegar-se às causas. devendo ser utilizadas as técnicas de pesquisa sociológica aperfeiçoadas pela experiência. por um lado em razão da sofisticação dos meios usados aliada a estrutura e.constância do uso indevido de informações privilegiadas a título de consultoria. pois o Direito Penal e a atuação da polícia são limitados pelo princípio da territorialidade e da sobera. onde as ações examinadas deveriam ser tipificadas como crimes sujeitos a graves penas. pela falta de leis penais adequadas. Quanto às medidas a serem adotadas. entretanto. e) mutabilidade na forma de operar-se. A estrutura política e econômica existente está de tal forma montada que oculta e protege essa criminalidade dourada. por sua vez. De uma coisa. Impõese assim a recomendação de ampla pesquisa. b) requer alta especialização profissional e completo domínio operacional dos meios tecnológicos para a sua execução. devemos nos conscientizar: enquanto tivermos crimes e criminosos acima da lei. d) condutas criminosas transnacionais.

pelo fato de serem crimes fora do alcance da polícia. então Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro. o crime de perigo de contágio venéreo. alcançar essa turma. que permitem várias interpretações.137. a casa de prostituição na modalidade de manter lugar . Quando quiserem combater esse tipo de crime não haverá mais condições.Lei n° 7. Ademais. 56. poderiam ser mencionados. por não mais serem aplicados. na hora de entrar nos escritórios refrigerados do 18° andar da Avenida Rio Branco ou num gabinete atapetado na Avenida Paulista. respondeu: “LUZ . a nossa polícia não está aparelhada e nem especializada para investigar tal tipo de criminalidade. viola-se a norma que protege a sociedade como um todo. essas leis não têm alcançado os objetivos desejados. em novembro de 1995. como também pela imprecisão dos seus tipos.12. perseguir um integrante do Comando Vermelho.“A polícia tem um problema de formação. previsto no art. a coisa complica”. também. como já foi assinalado. prender o Miltinho do Dendê são ações que não causam nenhum tipo de problema. Um policial não está suficientemente aparelhado para entrar nos meandros de um crime cometido na especulação na bolsa de valores. por definição. que é a arrecadação do Estado. No caso dos crimes do colarinho-branco. que resguarda o bem comum. É um problema grave por esse ângulo e. de 27. para a sociedade. lamentavelmente.Como assim? LUZ .” VEJA .O crime do colarinho-branco. mas. Estourar um ponto do jogo do bicho. o Delegado Hélio Tavares Luz.1986. Crime. que define os crimes contra a Ordem Tributária Econômica e as Relações de Consumo -. Assim. [p. Mas.1990. Os tipos penais abertos. vários artigos que.06. é o que ofende aquilo que a norma jurídica quer proteger. merecedores de melhor disciplina penal. 130.492. os engravatados não são considerados marginais. CONSIDERAÇÕES GERAIS Inúmeros outros fatos. não só pelas penas extremamente brandas nelas previstas. há o fato de que. deveriam ser dele excluídos. Em entrevista concedida à revista Veja. Além disso. por exemplo. que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e Lei nº 8. portanto. Há no Código Penal.É verdade que já temos uma legislação que pune os crimes econômicos . a sonegação fiscal. a lavagem de dinheiro. 118] indagado sobre qual o crime que dará mais trabalho para a polícia brasileira. Não tem o conhecimento básico para combater os crimes do colarinho-branco. de 16. Não conseguimos. criam confusão e concorrem para a impunidade.

motéis. educação. o adultério. trata-se de uma norma amplamente transgredida. A. ultraje público ao pudor na modalidade prevista no art. deve persistir? Até quando vamos manter os nossos presídios como escolas de marginais e de revoltados? Para fazer da pena um instrumento de reeducação e prevenção social é necessária uma radical reforma penitenciária. vulgarmente chamada de grampo. Por razões que precisam ser estudadas. como a sedução (art. Embora todos estejam de acordo quanto à necessidade de pagar tributos como forma de custear os serviços públicos . há uma resistência permanente por parte dos contribuintes quanto a pagar efetivamente os tributos exigidos pelos órgãos legiferantes. Este último já se encontra legalizado em vários países. art. previsto no art. por seu turno. chegou até o Palácio do Planalto. 119] explicar o seu uso nas praias? A proibição do jogo do bicho.estradas. são algumas das questões a merecer pesquisa acurada da Sociologia Jurídica. Existem ainda outras questões que estão a exigir estudo aprofundado e urgente definição do legislador: a maconha deve ser descriminada? Como [p. DIREITO FINANCEIRO E TRIBUTÁRIO Os efeitos sociais das leis que disciplinam o regime das finanças públicas e privadas. observa F. embora tipificado como crime. Entre nós. 118119). A escuta telefônica. 124). transportes. 217) e o aborto (art.para fins de encontros libidinosos . É inadmissível que alguém fotografe uma pessoa famosa em sua intimidade e venda impunemente essa fotografia à imprensa para obter ganho fácil. há uma grande distância entre a eficácia teórica e a real das leis fiscais em geral. todos sabem disso.escrito. há artigos cuja permanência no Código é discutível por várias razões sociais. bem como das leis tributárias em geral. 57. objeto ou espetáculo obsceno. procurando os mais variados meios para fugir ao seu império. existindo até mesmo clínicas especializadas em aborto. 229. pp. como a violação da intimidade com instrumentos e aparelhos eletrônicos. tal a ousadia dos seus praticantes. nada há mais justo que cada um contribuir para as necessidades públicas proporcionalmente às suas rendas. principalmente as repercussões que provocam na opinião pública. que tantos efeitos negativos produz. 234 . Em tese. escudados na impunidade. No . saúde. 240. Tomemos para exemplo o caso do imposto de renda. Assinale-se por último que novos fatos sociais necessitam ser tipificados como crimes. de Miranda Rosa (Sociologia do Direito. Por outro lado.

em nosso entender por falta de esclarecimento da opinião pública quanto ao que estava sendo feito. Esse descompasso. deixando quase à vontade os profissionais liberais. pagar mais imposto de renda que um comerciante ou industrial bemsucedido. as leis fiscais seriam recebidas de forma mais pacífica pela sociedade e os resultados seriam muito mais satisfatórios. uma das causas da resistência ao pagamento do imposto de renda decorra da injustiça dos critérios utilizados em sua fixação. em todos os países em que foi instituído não há exemplo de aceitação mansa. constitui fato importante a re. é algo perfeitamente tolerável pelos costumes e até enaltecedor. isso seria tremendamente desonroso. como já se disse. o que visam realizar. ou pelo menos habilidade. Provavelmente. Vimos isto no Rio de Janeiro quando do lançamento da taxa do lixo pela Prefeitura Municipal: houve uma grita geral. mas quanto aos tributos.[p. isto é. ajudaria a quebrar a resistência e a angariar confiança. Jamais confessariam que subtraíram um níquel de quem quer que seja. arrecadar-se-ia mais com menos esforço. de rendimento médio. pessoas respeitáveis vangloriam-se de terem conseguido burlar o imposto de renda em vultosas quantias. Neste caso.entanto.obras. se as causas da resistência pudessem ser levantadas e eliminadas. . industriais etc. cujo tributo é descontado em folha de pagamento. De todos é sabido. comerciantes. faz-se . em reuniões sociais. 58. entre a eficácia pretendida com relação às leis tributárias e sua aplicação real. que em nosso País a maior incidência do imposto de renda ocorre sobre os assalariados. sonegar o imposto de renda. dos juristas e das autoridades em geral. assistência etc. Freqüentemente. O esclarecimento da opinião pública a esse respeito. por exemplo. 120] clamar maior atenção dos sociólogos.. ou de aplicação fácil desse tributo. como e por quê. dos economistas. Sem dúvida.. através de publicidade bem elaborada. Pode acontecer também de não estar o público suficientemente esclarecido quanto às finalidades dos tributos. Chega-se por isso ao absurdo de um assalariado. mais do que em qualquer outro.e assim ganhar a confiança pública. esperteza. Chegou-se mesmo a formar a idéia de que constitui virtude. Outra causa pode ser a falta de confiança do público em geral na fiel aplicação dos tributos às finalidades a que se destinam. caberia à autoridade competente esclarecer a opinião pública quanto ao que foi feito com o dinheiro público . DIREITO DO TRABALHO O Direito do Trabalho oferece igualmente campo fértil à investigação sociológica porque trata-se de um novo ramo do direito onde.

sempre na menor medida possível. cit. Em qualquer das hipóteses. Tão notório é o condicionamento social sobre as leis trabalhistas. De acordo com o mesmo autor (ob. procurando obter decisões da justiça favoráveis. ainda que nova. seja pelas características próprias do movimento sindical. simpático às posições assumidas pelos grupos de trabalhadores vinculados a tais organizações sindicais. tendente a criar ambiente social mais amplo. que podemos afirmar com segurança que todas as conquistas dos trabalhadores nesse ramo do direito. p. p. aos impulsos sociais das novas reivindicações de massa. decorreram das pressões feitas pelos órgãos de classe. 116). impressionante e inevitável. Por essa mesma razão a legislação trabalhista. porém. em alguns países essa influência é exercida direta e ostensivamente sobre os órgãos produtores do direito. passo a passo. Interferência das Forças Sindicais no Processo de Formação do Direito do Trabalho Segundo o Prof. visando à edição de normas jurídicas convenientes aos interesses dos seus associados. Miranda Rosa (ob. 58. tem sido alterada com freqüência. Seu desenvolvimento tem sido rápido em virtude das constantes pressões exercidas pelos fatos sociais sobre as forças e grupos detentores do controle da economia. aposentadoria. 121] feitas.. c) ação sobre a opinião pública. acatadas. seja pelas restrições que a organização política lhes impõe. muito a contragosto. pelos patrões. a influência que exercem os órgãos de classe é inegável. 117). b) ação sobre o Judiciário. Em outros. cit. Foram concessões [p. . reajustes salariais. às vezes até mesmo com certo exibicionismo para evidenciar a eficiência das organizações classistas e sindicais na defesa dos interesses de seus associados. como férias de trinta dias. Exemplo disto tivemos na década de 80 na Polônia. capazes de condicionar um entendimento uniforme no sentido desejado. é mais discreta a intervenção dos sindicatos na formulação das normas jurídicas do trabalho. gratificação natalina.1.. a saber: a) ação sobre os órgãos legislativos e executivos.notório o condicionamento direto que a realidade social exerce sobre a ordem jurídica. O líder sindical chegou à Presidência daquele País. a influência sindical no processo de formação do Direito Trabalhista apresenta três facetas distintas. a despeito do regime político duro e austero lá existente.

bem como na legislação ordinária. segurança. é questão a ser examinada através de investigação profunda da realidade social determinante. às profundas transformações introduzidas nas relações de consumo pelo Código de Defesa do Consumidor. ainda que rápida. 122] O que foi dito nesta parte serve para demonstrar o que poderia e deveria ser feito em todos os ramos do Direito. alimentação.O Brasil. no que tange ao segundo ponto.basta que se diga que somos hoje 170 milhões de consumidores no Brasil. conforme foi possível constatar através dos movimentos grevistas no ABC Paulista. com relação a determinadas realidades sociais por ele ainda não adequadamente disciplinadas. o CDC estabeleceu responsabilidade objetiva para o fornecedor de produtos ou serviços. habitação. válida e legítima.1.CDC . Entre as inúmeras inovações traz idas pelo CDC. gerando diariamente outros tantos milhões de relações em todas as áreas do mercado de consumo: saúde. Um líder sindical chegou à Presidência do País e está promovendo reformas constitucionais significativas. A Responsabilidade Objetiva do Fornecedor de Produtos ou Serviços Até o Código do Consumidor os riscos do consumo corriam por conta do consumidor. DIREITO DO CONSUMIDOR Não estaria completo este capítulo sem uma referência. inciso XXXIII da Constituição Federal) -. necessária. [p. o Código adotou a concepção social do contrato. Para termos uma idéia do campo de incidência do Código de Defesa do Consumidor . serviços etc. uma disciplina jurídica única e uniforme para tutelar todos os direitos materiais e morais dos consumidores. depois da abertura política vem se colocando no primeiro. Essa lei.promover a defesa do consumidor (art. Até onde essa influência é útil. 5°. produtos. merecem destaque aquelas que procuram proteger o consumidor nos pontos em que é mais vulnerável: a sua integridade físico-psíquica e a sua integridade econômica. estabeleceu uma política nacional de consumo. transportes. para cumprir a sua vocação constitucional . vestuário. que durante muitos anos esteve entre os países do segundo grupo. 59. Entendia-se que o fornecedor de produtos ou serviços limitava-se a fazer a . Para atingir a sua finalidade no que diz respeito ao primeiro ponto. 59.

no Código do Consumidor. sendo tributados aos riscos do ato de consumir todos os acidentes de consumo. já que não há igualdade real entre os homens na sociedade. de forma expressiva. a vontade cria um vínculo entre os contratantes do qual nascem direitos e obrigações. reconhecendo perfeita igualdade e absoluta liberdade entre as pessoas. Uma vez manifestada. entre as melhores e mais avançadas legislações do mundo. A responsabilidade decorre do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. deu uma guinada de cento e oitenta graus ao transferir os riscos do consumo do consumidor para o fornecedor. o elemento nuclear do contrato é a autonomia da vontade. Nas últimas décadas tomou-se necessário substituir a concepção clássica do contrato por uma concepção social. para definir o conteúdo do contrato e ainda para escolher o parceiro contratual. a autonomia da vontade deixa de ser o elemento nuclear do contrato. A eficácia jurídica do contrato . 59. consoante arts. vale dizer. Funda-se a responsabilidade do fornecedor na teoria do risco do empreendimento (ou empresarial). colocando-se. O indivíduo estaria. Em face do desequilíbrio econômico das partes . responde pelos danos que causar ao consumidor independentemente de culpa. A Concepção Social do Contrato no Código do Consumidor Na sua visão clássica ou tradicional. e o outro fraco. Tão forte é esse vínculo que se costuma dizer que o contrato é lei entre as partes. até.2. estocar. assim. O progresso industrial. nesse e em outros pontos. 123] Hoje a responsabilidade do fornecedor é objetiva. A liberdade de contratar é o reflexo da filosofia do Estado Liberal que exigia uma separação quase absoluta entre o Estado e a sociedade. livre para contratar ou não contratar. que pode ser assim resumida: todo aquele que se disponha a exercer alguma atividade no campo do fornecimento de bens e serviços tem o dever de responder pelos fatos e vícios resultantes do empreendimento.a liberdade de um importava em opressão do outro. independentemente de culpa. científico e tecnológico veio demonstrar que o dogma da liberdade contratual não passava de uma ficção. 12 e 14 do CDC. sem oportunidade de escolha . [p. distribuir e comercializar produtos ou serviços. o que só veio a ocorrer. Falava-se.chamada “oferta inocente”. na aventura do consumo para indicar a situação daquele que se aventurava a consumir produto ou serviço. passando a ser substituída pelo interesse social. poderoso.um forte. Por essa nova concepção. O CDC. atendendo antiga exigência social.

pode-se afirmar que o Código do Consumidor é a mais revolucionária lei do século XX.51-53). mas cogente. Quanto aos efeitos positivos que essa lei vem produzindo. na [p. reportamo-nos ao que ficou dito no item 47. chegando ao ponto de obrigar a contratar em determinados casos. não só controlando preços. 39) e consideram nulas de pleno direito as cláusulas abusivas (arts. Tem sido proclamado que ele representa uma verdadeira mudança na ação protetora do Direito Civil Brasileiro. e principalmente. não tem mais mero papel interpretativo ou supletivo. mas também vedando certas cláusulas. fruto de um consciente e bem sucedido esforço do legislador para adequar a nossa legislação à realidade social no que diz respeito às relações de consumo. mas também. que valoriza as legítimas expectativas das pessoas nas relações de consumo. dos seus efeitos sociais e das condições econômicas e sociais das partes que dele participam. .não mais depende apenas da manifestação de vontade. devem ser lembrados os Capítulos V e VI do CDC que vedam a publicidade enganosa e abusiva (arts. impondo o conteúdo de outras. Como exemplo dessa nova postura da lei em face do contrato de consumo. passamos a uma visão social. Concluindo. A autonomia da vontade só existe nas condições permitidas pela lei que. 30-38). pois de uma visão liberal e individualista. O Estado passa a intervir na formação dos contratos de consumo.2. protege determinados interesses sociais e serve de instrumento limitador da autonomia da vontade. 124] concepção social do contrato. proíbem as práticas comerciais abusivas (art.

nos capítulos anteriores.Capítulo XI INSTRUMENTOS HUMANOS DE REALIZAÇÃO DA ORDEM JURÍDICA O Poder Legislativo: eleição dos legisladores. Fácil é. o homem é insubstituível: entre elas as atividades de elaborar e de aplicar leis.” Pior do que não ter leis. A máquina já substituiu o homem em inúmeras atividades. organização da justiça federal. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. É preciso também gente especializada e em número suficiente para aplicar a lei. aumentando infinitamente as possibilidades de produção. estrutura da justiça especial. Em certas atividades. 127] . mas se as executam. Cabe aqui relembrar o que dizia Montesquieu: “Quando vou a determinado país. Causas da crise do Judiciário brasileiro. entretanto. O papel desempenhado pela Justiça Eleitoral. A crise do Judiciário em nosso país. tão importante quanto ter leis eficazes.eficácia e efeitos -. compreender que. [p. bem como uma estrutura material adequada. caso contrário toda a ordem jurídica de uma sociedade pode ficar seriamente comprometida. não indago se há leis boas. o primeiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica . portanto. porque leis boas há em toda parte. **** Após termos examinado.estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições -. repetimos. vamos agora nos dedicar ao exame do segundo item da classificação . O Poder Judiciário. é tê-las e não aplicá-las. quando teremos oportunidade de ver que não basta existirem leis boas e eficazes. é ter estrutura material e humana para aplicá-las. Estrutura do Judiciário brasileiro: a justiça estadual.

Legislar é editar o direito positivo. a função legislativa liga-se ao fenômeno de criação do direito. é óbvio. a de legislar é sem dúvida a mais importante. porque dela emanarão leis a vigorar para todo o grupo social. por maior razão é preciso que o . administrar é aplicar a lei de oficio. elabora leis para todo o território brasileiro (leis federais). com relação àquelas matérias que não são da competência privativa da União. assegurada. às quais a sociedade confere atribuições para elaborar e aplicar as leis. 2) Estadual . ao passo que as funções administrativa e a judicial se prendem à sua realização. mesmo assim. Desde que passou a prevalecer. Do bom funcionamento dessas instituições e da eficiência do pessoal que nelas atua dependerá a eficácia da ordem jurídica. 1979. Se para o [p.formado pela Assembléia Legislativa de cada Estado. a Câmara Municipal de Vereadores fica restrita aos limites do seu Município e às matérias de sua competência. são integradas por criaturas humanas. 3) Municipal . o pessoal técnico e especializado que nelas atua. Entre as funções públicas. o princípio da separação dos poderes. 60. 128] exercício das mais simples funções é necessário ter a pessoa certa no lugar certo. p. e o Poder Judiciário. 718).composto pela Câmara dos Deputados e Senado Federal (adotamos o sistema bicameral). PODER LEGISLATIVO O Poder Legislativo em nosso País divide-se em três esferas. cuja função principal é aplicar a lei ao caso concreto. O Poder Legislativo Federal. que em conjunto formam o Congresso Nacional. inclusive os efeitos sociais positivos que toda norma tem por finalidade produzir. a saber: 1) Federal . sendo assim responsável pela declaração e modificação da ordem jurídica nacional. que tem por função prevalente elaborar as leis. mantida e modificada. julgar é aplicar a lei contenciosamente (O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário.Por instrumentos humanos de realização da ordem jurídica devem ser entendidos aqueles órgãos ou instituições através dos quais a ordem jurídica de uma sociedade é declarada. De acordo com Seabra Fagundes. O Poder Legislativo Estadual só elabora leis para o âmbito territorial de cada Estado e.Câmara de Vereadores de cada Município. Tais instituições. nas sociedades democráticas. Por sua vez. dois deles estão diretamente ligados à ordem jurídica: o Poder Legislativo. compondo os conflitos sociais. através dos Deputados Federais e Senadores.

de modo a tomar possível a escolha dos melhores. que ainda temos currais eleitorais no interior. É notório. É preciso uma reforma de base. não porque o brasileiro não saiba votar. para a seguir serem elaboradas as reformas necessárias. destinada exclusivamente a assegurar a vitória àqueles que já se encontram no poder. uma reforma parcial. verdadeira. Com efeito. o poder econômico pesando em favor deste ou daquele candidato. algumas . visto estar consagrado em todas as sociedades democráticas o sistema da eleição direta para tal fim. àqueles que foram escolhidos como seus mandatários ou legítimos representantes. mas sim pelas distorções que se verificam na sua execução. Fala-se muito na reforma política e ela é realmente necessária. 129] das à realização dos interesses coletivos. muitas outras circunstâncias existem dificultando ou até mesmo impedindo que o processo seletivo dos legisladores proporcione um eficiente resultado. ninguém mais desconhece que o processo de seleção dos membros do Legislativo está a exigir urgente aprimoramento. a eleição conquistada em troca de facilidades. até distribuição de alimentos. e não simplesmente pessoais. como afirmou há algum tempo determinado político. em áreas de grande pobreza: a máquina eleitoral reelegendo os mesmos parlamentares a cada nova legislatura. já que a função legislativa é exercida por delegação do povo. Para tanto seria indispensável inicialmente uma pesquisa detalhada da realidade atual. Lamentavelmente. a manipulação da opinião pública pelos órgãos de comunicação nas grandes cidades. empreguismo e outros interesses econômicos. financiando sua milionária campanha e comprando adesões.1. por exemplo. as questões mais relevantes sobre este ponto consistem apenas em saber como evitar as distorções que têm ocorrido nas eleições diretas. destinada a realmente aprimorar o sistema existente.[p. Assim sendo. séria. o voto vinculado a pequenas vantagens materiais. como tem sido feito às vésperas de cada nova eleição. entretanto. E nem poderia ser diferente. a despeito de nada terem feito ao longo de muitos anos de vida pública. Não. De tão velhas e conhecidas. levantando-se as suas principais deficiências. profunda. casuística. a eleição direta não tem produzido os efeitos desejados. apresentadas as soluções mais adequa.legislador seja alguém preparado para o exercício dessa função e escolhido mediante criterioso processo seletivo. Eleição dos Legisladores Hoje não mais se admite qualquer discussão sobre as vantagens de qualquer outro processo seletivo dos legisladores que não seja o da votação popular. 60. Como estas.

com as quais estabelecem compromissos localistas. tanto nos Governos anteriores como no atual. cientista político e autor da tese .questões constam da pauta de todas as propostas de reforma política. apenas 28 deputados federais tiveram votação suficiente para se eleger sozinhos. não saíram do papel. Entretanto. vinculando a liberação de verbas e outros recursos de emendas orçamentárias individuais ao grau de fidelidade de cada parlamentar.Quais as Condições para o Sucesso Presidencial na Área Legislativa? A Conexão Eleitoral Brasileira -. o que faz com que o exercício do mandato seja voltado para atendimento destas demandas. em busca de prestígio e favores políticos. ao mesmo tempo. normalmente integrante da base governista. Nas contas das últimas eleições.[p. Assim. assim examina essa questão: “Prefiro interpretar as relações Executivo-Legislativo à luz dos incentivos institucionais das regras do sistema político brasileiro. Carlos Pereira. se aproximam em demasia de suas bases eleitorais. não há a mediação dos partidos políticos. Tomou-se pública e notória. É correto o parlamentar se sentir dono do mandato se para eleger-se precisou de votos da legenda do partido pelo qual concorreu às eleições? E não são poucos os que necessitam do voto de legenda. lamentavelmente. todos os outros estão na Câmara Federal graças à legenda. de um sistema para acompanhar as votações do Governo no Congresso. até confessada. a fidelidade partidária. as regras eleitorais. por exemplo. Até que ponto é justa e ética a troca-troca de partido? O parlamentar se elege por um partido e depois. “Por causa dessas regras eleitorais. Por um lado. é o Governo o responsável pela exe. para serem eleitos. o multipartidarismo e o federalismo agem descentralizando o sistema e incentivando comportamentos particulares. Ele proporciona incentivos para comportamentos individuais e partidários. 130] cução destas demandas. Assim. negociar com o Congresso punindo ou . Ou seja. E a injustificável curiosidade dessa questão está em que o partido de oposição que condenava a troca-troca de partido com veemência. de posição política diametralmente oposta ao daquele pelo qual se elegeu. a existência no Palácio do Planalto. Por outro. bem como é ele que centraliza o processo decisório e a agenda do Congresso. os parlamentares. Ou seja. exerce o mandato por outro. as regras internas do processo de decisão do Congresso e os poderes constitucionais de legislar e de distribuir recursos do presidente agem incentivando a centralização do sistema e o comportamento partidário. mas que. passa a incentivá-Ia e dele se beneficiar tão logo chega ao poder! Outra questão relevante é a cooptação de parlamentares pelo Executivo para garantir a maioria parlamentar no Congresso.

sendo que o eleitor tem a opção de votar no partido ou na pessoa do candidato de sua preferência. em que cada partido apresenta aos eleitores sua lista de candidatos. tem sido a única saída para a sobrevivência política dos parlamentares. 131] dida igualmente entre três tipos de políticos: os do primeiro grupo seriam os distritais puros.2000). pode ser de votação uninominal (cada partido indica seu candidato para escolha do eleitorado). da Editora Revan. sendo que a outra metade (ou fração estipulada em lei) é escolhida pelo sistema proporcional que. é redesenhar as instituições políticas sem cair na vala comum do moralismo” (O Globo. No primeiro caso. então. vinculando o atendimento das demandas dos parlamentares aos seus comportamentos de voto. por sua vez. também chamado de sistema de lista. de forma a ver cumprida a sua agenda de governo. é eleita por votação majoritária. No caso de lista aberta. cientista político e autor da obra E no Início Eram as Bases. ou votação plurinominal. o partido escolhe os candidatos que quer eleger e o eleitor vota no partido. que proporciona incentivos paradoxais simultâneos. de continuar jogando este jogo. . fortalece o partido. o partido não escolhe os candidatos que quer eleger. no qual demonstrou que a nossa Câmara dos Deputados é divi. que dominam a votação em determinada área. Uma das soluções apontadas seria a adoção do voto distrital misto. Pelo voto distrital misto os Estados são divididos em regiões e somente uma parte dos candidatos. 02. na há voto nominal. conhecido tecnicamente como concentrados/dominantes.premiando parlamentares segundo seu desempenho é decisão do governo proveniente dos incentivos institucionais das regras do jogo. mas dá ensejo ao afastamento das minorias e ao engrandecimento da figura dos caciques. As listas podem ser fechadas ou abertas. Qual seria esse redesenho das instituições políticas? Que sistema permitiria eliminar os inconvenientes e distorções inevitáveis no atual sistema político? Essa é a questão. que fragmenta a votação pelo estado inteiro. Entre as vantagens desse sistema estaria também a de evitar distorções da representação popular que hoje ocorrem. a atitude do Executivo.08.[p. geralmente a metade. O desafio. somente voto na legenda. aprovados em convenção.” “Diante de um desenho institucional como este. Nelson de Carvalho. E a atitude do Legislativo. não é nada mais do que o instrumento achado para mitigar as fragilidades de um sistema partidário fraco na arena eleitoral e fortalecê-Io dentro do Congresso. Outro grupo seria o que ele chama de “a nossa variável nordestina do voto distrital”. apresenta um número de candidatos fixado em lei. como aquela do voto de Roraima valer sete vezes mais do que o de São Paulo. fez um profundo estudo do nosso sistema político. sistema utilizado com sucesso em alguns países.

os caciques vão continuar dominando os partidos. Se cada um for maximizar o beneficio para o distrito. o interior do estado passa a atribuir justa representação a áreas que hoje viram colchas de retalho “atacadas por vários políticos que dispersam sua votação e não têm compromisso com nenhuma delas”. Dentro do estado. não acontece o fenômeno da sub-representação de áreas importantes como as metropolitanas. Os países citados por Carvalho usam o sistema de lista. em vez de adotar o voto distrital misto. não pode reivindicar créditos por benefícios. 132] Conclui Nelson de Carvalho: “Mesmo se fizermos voto distrital com lista fechada. e não apenas um. eliminando a possibilidade dessa compra da representação inorgânica. Com o distrital misto podemos ter aqui o pior dos dois mundos: dar à oligarquia partidária o domínio sobre a lista. Já o político do distrital puro prioriza os recursos orçamentários. voltado para temas. e o primeiro recurso político deles é o encaminhamento das demandas das lideranças locais. que vai pegando um votinho aqui outro ali e em várias áreas distintas”. Para Carvalho. Com esse sistema.que. “são os que têm 40 prefeitos espalhados. que concentra sua votação em municípios muito grandes e. “dá-se uma justa medida às diversas áreas. e dá uma visibilidade maior ao representante. seria o político das áreas metropolitanas. como nos Estados Unidos. Nelson Carvalho propõe a adoção do sistema eleitoral utilizado na Espanha. para o candidato da área metropolitana. Os fragmentados/dominantes. o primeiro recurso eleitoral é a atuação legislativa. para priorizar os partidos políticos em detrimento do voto pessoal. mas ele não tem definição sobre se o voto deve ser na lista ou diretamente no candidato. [p. e acabariam com a adoção dos mega-distritos”. O concentrado/não-dominante é o terceiro tipo. que predominam no Nordeste.com motivação paroquial. Os distritos de média magnitude diluiriam a interferência direta do cacique local” . Segundo o estudo. onde os políticos locais não têm responsabilidade sobre as verbas. a maneira como ele vota na Câmara. você projeta os interesses difusos da sociedade e provoca uma espiral de gastos. Esses são fruto de uma distorção do voto distrital à brasileira. adotam os chamados Distritos de Média Magnitude. como não domina essa área.países que passaram por transições democráticas parecidas com a nossa . Após essas ponderáveis reflexões. “o sistema distrital uninominal incentiva o paroquialismo. Ele também vê vantagem nesse tipo de voto proporcional com distritos maiores “porque enxuga o número de partidos”. Portugal e Grécia . e ao mesmo tempo contemplar o paroquialismo que já existe”. que elegem de 5 a 8 deputados.

compareceram ordeiramente às urnas em todo o país. nem como prestar contas dos gastos com a campanha. Promove também debate sobre o financiamento público da campanha eleitoral. Uma vez eleito. os líderes dos maiores partidos se sentarem à mesa e concluírem que todos estão sendo prejudicados. em entrevista ao jornal O Globo (26. mas a longo prazo só dá prejuízo. [p.12. um belo dia. mesmo nos lugares longínquos e de difícil acesso. assumindo compromissos políticos com os mais variados e questionáveis seguimentos sociais. recadastrou os eleitores em 24 municípios nos quais constatou desproporção entre o número de eleitores e de habitantes. 133] O Presidente do Tribunal Regional Eleitoral no Rio de Janeiro. O voto eletrônico. Foi um espetáculo democrático. enfim. Se o candidato é derrotado.2. Horas depois os resultados foram proclamados no Brasil todo. Desembargador Marcus Faver. sem questionamentos. de civismo e cidadania. A reforma política só vai sair quando. sem impugnações. “A legislação é quase risível. cultos ou não. O Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro. votam motivados por favores políticos. por aqueles que eventualmente serão por ela prejudicados. Ele pode ser candidato . o que indicaria a existência de eleitores fantasmas. não deve nada ao partido. Obter novas adesões na base da aritmética pode ser importante momentaneamente. 60. A experiência demonstra que se não há financiamento público. praticam o clientelismo. a prestação não vale nada. não existe fidelidade partidária. não obstante as suas conhecidas deficiências. principalmente o eleitorado. sem fraude. O Papel Desempenhado Pela Justiça Eleitoral Justiça seja feita à Justiça Eleitoral Brasileira. a organização do pleito e outras medidas administrativas adotadas fizeram da nossa última eleição um modelo para o mundo todo.2003) disse que a prestação de contas que o candidato faz dos gastos com a campanha eleitoral é uma palhaçada. A proporção estava acima de 70% da população. jovens e velhos.A grande dificuldade em se aprovar uma reforma política está em que terá ela que ser votada pelos próprios parlamentares que trocam de partidos. Dessa forma a Justiça Eleitoral Brasileira deu sua decisiva contribuição para o aprimoramento do sistema político vigente. Prossegue a Justiça Eleitoral nessa importante tarefa promovendo recadastramento dos eleitores e reivindicando debate mais profundo sobre a legislação eleitoral. e conseguiram depositar o seu voto. E assim sendo. No dia do pleito milhões de brasileiros. por exemplo. o candidato vai à luta buscar quem banque sua campanha. a informatização da apuração das eleições.

Ainda hoje temos exemplos do que ocorre quando o particular resolve fazer justiça com as próprias mãos. de invocar a prestação jurisdicional sempre que dela necessitar. por sua vez. fracos ou poderosos). Cabe ao particular tão-somente o direito de pedir justiça. é necessário salientar. Hoje. . é distribuir justiça na sociedade. pelos meios que bem entendesse. longe de compor os conflitos sociais. A função prevalente do Poder Judiciário. após a separação dos poderes. gerando uma verdadeira reação em cadeia.[p. A partir daí só o Estado passou a ter o poder de fazer justiça. e em face dos inconvenientes da justiça privada. e assim por diante. tornando-a exclusivamente sua . o que faz aplicando a lei ao caso concreto. que se caracterizava mais como uma forma de vingança do que propriamente de justiça. tal forma de justiça.” 61. O credor podia exigir. caracteriza o direito de ação. 345 do Código Penal. onde durante algumas décadas duas famílias se destruíram mutuamente. Era a justiça do olho por olho. sem imparcialidade. a obrigação do devedor. no momento em que se tomar necessária (não alcançará os seus objetivos sociais se a ação da justiça vier tardiamente) e no lugar onde for necessária. constituindo a chamada função jurisdicional. Essa função.novamente mesmo com as contas rejeitadas. foi conferida ao Poder Judiciário. compondo os con. servindo como ilustração o conhecido caso de uma cidade nordestina. PODER JUDICIÁRIO Houve tempo em que a justiça era privada e feita pelas próprias mãos. fazer justiça com as próprias mãos é uma forma de usurpação de função pública. caracterizando o crime previsto no art. A vítima. Um verdadeiro faz-de-conta esse negócio de prestação de contas que não tem sentido objetivo. 134] flitos sociais. resolveu assumir essa função. o que. dente por dente. Se as contas forem julgadas depois da diplomação (e não há tempo para que sejam julgadas antes).monopólio estatal. pois caso contrário ficará a emenda pior do que o soneto. Obviamente. de aplicar a lei ao caso concreto para compor os conflitos sociais. terá que ser exerci da em favor de todos os que dela necessitarem (ricos ou pobres. criava outros maiores. também não tem nenhum efeito. portanto. Essa relevante função pública. ou seu vingador. prestada pelo particular interessado. após organizar-se política e juridicamente. podia infligir ao causador do dano mal idêntico ao produzido no ofendido. Chegou o dia em que a sociedade. cultos ou ignorantes.

O que é preciso para que possa realizar isto? Uma infinidade de hospitais.. o Judiciário precisa de estrutura material e humana para desempenhar a sua tarefa.é indispensável que esteja devidamente estruturado e aparelhado. . Coisa idêntica ocorrerá (e já está ocorrendo) com o Judiciário. As filas aumentando cada vez mais nas portas dos ambulatórios. espalhados por todo o território nacional. pessoal etc. veremos o que estamos cansados de ver. se a Justiça se omitir ou retardar no exercício de sua função.Com efeito. enfermeiros. postos. tomando impossível a vida em coletividade e motivando o retomo à justiça privada. funcionários. a saber: 1) Justiça Eleitoral . serventuários etc. tal como as pessoas nas filas do INSS. mas quem tem o dever de exercê-la não o faz. subdivide-se em quatro áreas específicas. se lhe faltarem os instrumentos materiais e humanos necessários. postos de saúde etc. que se propõe prestar assistência médica e hospitalar a todos os seus associados. espalhados por todo o território nacional.fazer justiça a quem precisar. se assim podemos dizer. tanto nas capitais como no interior. pessoas esperando às vezes meses para poderem ser consultadas. Faltando essa estrutura necessária. já que isto constitui uma função exclusivamente pública. sede. postos de justiça. sob pena de se avolumarem os processos nas prateleiras. 135] 62. o que será da sociedade? Os conflitos sociais continuarão ocorrendo porque existirão enquanto existir a sociedade. e neles uma multidão de médicos. clínicas. Com o correr do tempo os conflitos se agravam e aumentam. tanto nas cidades como no interior.que só trata das questões relacionadas com o direito eleitoral. O Poder Judiciário Federal. Também ele terá que contar com instalações adequadas. Para que o Judiciário possa exercer eficientemente a sua função . empenhada na realização desse objetivo. e neles uma multidão de Juízes. quando e onde for necessário . agências. Tomemos para exemplo do que estamos querendo enfatizar o caso do INAMPS. Tal como uma grande empresa prestadora de serviços. que para realizar os seus objetivos necessita de instalações. gente técnica e especializada. gente técnica e especializada. dedicada à função jurisdicional. Os interessados não poderão resolvê-los por suas próprias mãos. o que toma em completo fracasso o objetivo a que se propõe a entidade. por sua vez. [p. ESTRUTURA DO JUDICIÁRIO BRASILEIRO Em nosso País o Judiciário se divide em duas esferas: federal e estadual..

advogados). À Justiça Estadual compete o restante das questões que podem ser levadas a juízo. Cabe ao Código de Organização Judiciária de cada Estado estabelecer a organização da sua justiça de primeira instância.2) Justiça Trabalhista . tanto nas cidades do interior como na capital. está ela organizada em todo o território do Estado.que cuida dos problemas envolvendo empregador e empregado. Estrutura da Justiça Estadual Há duas instâncias na Justiça Estadual: instância é hierarquia ou grau de jurisdição . sucessões. que a grande sobrecarga de trabalho repousa sobre o Judiciário Estadual. Temos.1.). réu. Isso evidencia. 4) Justiça Federal .que é o poder de fazer justiça.à qual competem todas as causas em que houver interesse da União ou de seus desmembramentos administrativos (autarquias e empresas públicas) como autora. atuando em toda a formação do processo desde a primeira peti. contratos. aplicando a lei ao caso concreto. deverá propor a ação expropriatória perante uma das varas da Justiça Federal. desde logo. é a justiça de primeira instância que toma conhecimento e decide em primeiro lugar as causas que são levadas à apreciação do Judiciário. Todas as demandas envolvendo conflitos de interesse entre particulares (questões de família. As decisões da primeira instância são prolatadas por Juiz singular. para que possa estar ao alcance de todos. 3) Justiça Militar . De regra. 62. Assim. Por isso está em contato direto com as partes (autor. por um só julgador. Municípios e seus desmembramentos administrativos.cuja competência é julgar os crimes previstos no Código Penal Militar. assim. isto é. testemunhas. enfim. 136] ção até a sentença final. Para não ser muito oneroso e difícil às partes o acesso a essa justiça. crimes etc. deverá também apresentar sua postulação perante a mesma justiça. a primeira e a segunda instâncias no Judiciário de cada Estado. de modo a poder ela realizar. se a União resolver desapropriar um determinado imóvel.[p. serão da competência da justiça estadual. se um particular pretender exigir da União indenização por dano material ou moral decorrente de ato praticado pela administração federal. ré ou simples interessada. por exemplo. bem como as demandas em que há interesse dos próprios Estados. da melhor .

Alguns Estados. podemos dizer que todo o território do Estado é dividido em várias áreas denominadas Comarcas. muito embora nem sempre exista correspondência entre suas áreas geográficas. as atividades empresariais etc. aumentando a sua população. o que poderia acarretar um congestionamento de processos e sobrecarga do serviço nos Tribunais de Justiça. De modo geral pode-se . limitando-se à apreciação daquilo que já se encontra no processo.forma possível. serventuários etc. tantas quantas forem necessárias para atender à demanda dos novos conflitos sociais. de uma atividade revisora. Cabe também a cada Estado organizar a sua Justiça de segunda instância. pelo menos. 4) é uma justiça colegiada. toma-se necessária a criação de novos juízos (uma ou mais varas). Em cada Comarca temos uma sede do Judiciário Estadual que vem a ser o Foro. que é o Juízo ou Vara. os Tribunais de Alçada são integrantes da Justiça de segunda instância. demorada.. pois trata-se. cada Estado tem o seu Tribunal de Justiça. Apreciado o recurso. cujos membros são chamados Desembargadores. onde a sentença será executada. três julgadores. visto que as decisões são ali prolatadas por. econômica e socialmente. como a primeira instância. organizam-se à sua imagem e semelhança. congestionada e deficiente a prestação jurisdicional. o escrivão. Em linhas gerais. Em cada Foro temos pelo menos um órgão investido da função jurisdicional. e conseqüentemente aumentando o serviço da justiça. sob pena de tornar-se lenta. dizer que as suas principais características são as seguintes: 1) toma conhecimento das causas em segundo lugar. todavia. possuem também outro Tribunal (ou Tribunais) chamado de Alçada. À medida que a Comarca vai se desenvolvendo política. por isso que realizada através dos Tribunais de Justiça dos Estados. 2) não está em contato direto com as partes. [p. divididos em várias câmaras. 137] O número de desembargadores é muito menor que o de juizes de primeira instância. e em cada Vara um juiz. as suas finalidades. o processo é devolvido à Vara de origem. tendo a competência estabelecida pela lei. para evitar esse inconveniente. Assim. Tal como os Tribunais de Justiça. 3) só existe nas capitais dos Estados. em segundo grau. de regra. tal como ocorre com os Municípios. podendo-se. para onde são encaminhados os processos sempre que houver recurso de qualquer decisão da primeira instância.

não cabe recurso nem para o Tribunal de Alçada. Pernambuco) e em . e nas grandes cidades do interior. é aliviar a carga de recursos daqueles Tribunais. cuja criação foi determinada pela Lei n° 9. Previstos para desafogar a justiça comum. entretanto. deixando-os com mais tempo para apreciar os recursos de maior complexidade. Organização da Justiça Federal Há também na Justiça Federal duas instâncias. Temos ainda nos Estatutos os Juizados Especiais Cíveis e Criminais. esses juizados julgam causas de menor complexidade (causas cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário mínimo etc. as causas de menor relevância. pois necessitarão de estrutura material e humana para isso (instalações. 138] 62.1995. simplicidade e celeridade.dizer que julgam. criados pela Constituição de 1988 em substituição ao antigo Tribunal Federal de Recursos. em exercício no primeiro grau de jurisdição.099.2. O objetivo. todavia. em substituição aos Juizados de Pequenas Causas. nem para o Tribunal de Justiça. de 26. reunidos na sede do juizado. das sentenças proferidas pelos juizados especiais. a segunda é exerci da pelos Tribunais Regionais Federais. Essa lei prevê a participação de conciliadores e Juízes leigos como auxiliares da justiça na fase da conciliação. ficando as demais para o Tribunal de Justiça. Os Juizados Especiais são uma feliz idéia no sentido de dar celeridade às causas de menor complexidade. evitando que elas se misturem e caiam na vala comum das demais causas. como se vê. Outra peculiaridade dos Juizados Especiais é a desnecessidade de advogado nas causas cujo valor não exceda a vinte salários mínimos. exclusivamente ao Juiz Togado a competência para proferir a sentença caso não haja o acordo. orientado pelos critérios da oralidade. O sucesso dessa idéia. Vale dizer que. Rio de Janeiro. com as mesmas características da Justiça Estadual. através de processo sumaríssimo. A primeira instância federal existe de regra nas capitais dos Estados. atribuindo.). Esses Tribunais. só se tomando obrigatória a sua participação se houver recursos. apenas para a turma recursal do próprio juizado.) e infrações penais de menor potencial ofensivo (contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a um ano). Da sentença cabe recurso para uma turma recursal composta por três juizes togados. sediados nos principais Estados (São Paulo. juizes. serventuários etc. [p.09. em segundo grau. depende da capacidade administrativa e econômica dos Estados para darem cumprimento à lei.

Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal A Constituição de 1988. os Tribunais de Justiça e de Alçada dos Estados e os Tribunais Regionais Federais e do Trabalho.3. da Aeronáutica e da Marinha. A segunda instância é constituída pelos Tribunais Regionais do Trabalho . Há nessa justiça uma terceira instância. e a terceira instância é o Tribunal Superior Eleitoral. sobrepõe-se a todo o aparelho judicial. integrado por 15 ministros. tornando mais célere a justiça.Brasília.[p. embora sendo um órgão federal. as causas envolvendo essa matéria são decididas pela Justiça Estadual. Trata-se de uma justiça cujas decisões são prolatadas por um colegiado. com sede na capital da República. 139] derais. o órgão máximo da Justiça. poderá ser reexaminada pelo STJ. 62. para onde vão os processos em hipóteses especiais. Estrutura da Justiça Especial A primeira instância da Justiça Militar só existe nas cidades onde há grupamento militar. é constituída pelo Superior Tribunal Militar . um na capital de cada Estado. Nas cidades onde não há justiça trabalhista.TSE. Qualquer decisão dos Tribunais Estaduais ou Fe. Quanto à Justiça Eleitoral. com o propósito de aliviar a sobrecarga do Supremo Tribunal Federal. A segunda instância. o Tribunal Superior do Trabalho. a segunda instância são os Tribunais Regionais Eleitorais . com sede em Brasília. previstas na Constituição. integrado por 27 ministros. A Justiça Trabalhista tem a sua primeira instância distribuída pelas principais cidades do Brasil. Esse Tribunal tem sede em Brasília. 62.STM. e através . Em hipóteses especiais. abaixo do qual se encontram todos os Tribunais Superiores.TREs. a cúpula do regime. a sua primeira instância é dividida em zonas distribuídas por todo o Território Nacional. julgam os recursos oriundos da primeira instância da respectiva região. geralmente nas capitais. criou o Superior Tribunal de Justiça. com sede em Brasília. através do recurso especial. em que houver violação de lei federal. notadamente aquelas onde há maior concentração de trabalhadores.TRTs. e é integrada pelas Auditorias do Exército. a quem compete zelar pela supremacia das leis federais e promover a uniformização da sua interpretação. O Supremo Tribunal Federal.4. como o próprio nome diz. e os seus membros são chamados de Ministros. É o mais elevado Tribunal do Poder Judiciário no Brasil.

foi puramente teórica. a prestação jurisdicional se toma inócua e causa graves prejuízos aos jurisdicionados. Aquela reforma.5. seria conveniente lembrar que outras reformas do Judiciário já foram feitas sem qualquer resultado prático. no que exerce uma função eminentemente política. Em defesa. há excesso de recursos processuais e falta de recursos financeiros. ineficiente e cara. Tem ainda por função atuar como moderador dos demais poderes. Em que medida cabe ao Judiciário a culpa pela morosidade da justiça? Até que ponto a propalada reforma resolverá o problema do Judiciário? Essa é a questão nodal. Quanto ao segundo item. é o Supremo o guardião da Constituição Federal. mesmo depois de condenada. o pretexto utilizado foi a reforma do Judiciário. os processos se prolongam por anos e anos a fio. quando o Congresso foi fechado pela última vez. . federal ou especial). 140] No que diz respeito à lentidão da justiça. pode o Supremo reexaminar decisões de qualquer justiça (estadual. o fiel da balança. Embora tenha plena consciência dos direitos dos aposentados. Por sua vez. além de grande criador de conflitos. como a criação de senadores biônicos e outras aberrações constitucionais. declarando a inconstitucionalidade das leis sempre que violarem princípios consagrados na Carta Magna. prevalecendo a sua decisão como palavra final e imutável. obrigando os titulares desses direitos a buscá-los na justiça. e em alguns pontos tomou a justiça pior. em todos os seus níveis. recorre abusivamente. feita sob o mais rigoroso sigilo pelos donos da verdade da época. é um mau pagador. Em abril de 1977. A cada novo e mirabolante plano econômico baixado pelo governo. é forçoso reconhecer que não cabe ao Judiciário a culpa exclusiva. 62. [p. O estado brasileiro. quase se eternizam. estão desatualizadas. nunca passou do papel. o Executivo e o Legislativo pregam a urgente necessidade de uma reforma do Judiciário. mutuários e contribuintes. teve objetivos políticos. Integrado por 11 ministros. a Administração não os reconhece. milhares e milhares de ações são detonadas na Justiça. cada nova reforma implantada no país leva outros tantos milhares de pessoas ao Judiciário. demagógica. com controle externo e outras inovações. Isso evidencia que a mera modificação de alguns pontos da Constituição não basta para resolver a crise do Judiciário. emperrada.do recurso extraordinário. pensionistas. os membros do Judiciário culpam o Executivo e o Legislativo: as leis processuais são mal elaboradas. A Crise no Judiciário em Nosso País Há mais de trinta anos ouvimos as mesmas críticas ao Judiciário: a justiça é lenta. burocrática. E. Na realidade.

Como os bens públicos não podem ser penhorados para pagar a condenação. O primeiro devia aos credores judiciais (pensionistas.) cerca de 4.Prova disso são as filas intermináveis de aposentados e pensionistas do INSS pleiteando a revisão dos seus minguados benefícios nos Juizados Especiais Federais (o que poderia e deveria ser resolvido na esfera administrativa). Com efeito. Vale dizer. que nada mais são do que requisições de pagamento em dinheiro de débitos judiciais expedidas pelo Poder Judiciário ao Poder Executivo. depois de esperar dois ou três anos pela sentença que lhe concede a justa devolução. centenas de milhares de recursos repetitivos que abarrotam o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal. Como já salientado. Só que os precatórios também não são pagos. o Congresso Nacional aprovou a emenda constitucional nº 30 autorizando o parcelamento das dívidas judiciais da União.5 bilhões de reais. e o segundo 520 milhões. Em agosto de 2000. milhões de ações em andamento na justiça com idêntica finalidade. . Pior que tudo. humanos e financeiros notoriamente deficientes. ele é também mau pagador. para que a justiça de primeira instância possa funcionar adequadamente. Os precatórios expedidos até 10 de julho de cada ano deverão ser incluídos no orçamento do ano seguinte e pagos na ordem de apresentação. Mas não para aí a contribuição do estado brasileiro à morosidade da justiça. Esse tempo de espera será fatalmente debitado à morosidade da justiça. Causas da Crise do Judiciário Brasileiro Diagnóstico baseado na prática e na observação permite-nos adiantar que três são as principais causas da crise do Judiciário: operacionais. é necessário que em cada Comarca se criem tantas Varas ou Juízos quantos forem necessários para atender ao aumento do número de demandas decorrentes do desenvolvimento econômico. Estados e Municípios em até dez anos. funcionais e estruturais. 141] 63. A quem interessa a lentidão da justiça? [p. a execução do estado tem que ser feita por meio de precatórios. o contribuinte que entre na Justiça para reclamar a devolução de um tributo que lhe foi cobrado indevidamente. servidores. em 13 de setembro de 2000. As causas operacionais estão relacionadas com a infra-estrutura necessária ao bom funcionamento da justiça .recursos materiais. O calote dos precatórios é uma regra em quase todos os estados. São Paulo e Rio de Janeiro não pagavam os precatórios desde 1996. terá ainda que aguardar por mais dez anos o integral cumprimento dessa decisão. vítimas de acidentes etc. principalmente na primeira instância. não cumpre as decisões judiciais. Mesmo depois de vencido em milhares de ações.

não é o que ocorre em nações como a nossa. oficie-se. adotar métodos modernos e eficientes de gerenciamento e administração. É preciso investir em instalações de novos órgãos julgadores. todavia. Enquanto na Alemanha tem-se um juiz para cerca de 4. no sentido de que só acompanha a complexidade. aumentar o número de juízes. . sob pena de o serviço ficar acumulado e os processos paralisados. O processo ficará parado por meses e anos a fio. em cada um determinando uma série de providências ou diligências a serem cumpridas . serventuários. mas uma verdadeira explosão judiciária deflagrada por essas três condições que dão hoje a fisionomia de nosso País e. cada vez maior. com graves prejuízos para as partes. por sua vez. gabinetes etc. Pelo ângulo operacional temos como certo que a maior necessidade do Judiciário não é a propalada reforma. defensores.intime-se. das relações dentro da sociedade. se contarmos os cargos de juiz que estão vagos. Recordo-me de ter. mas sim gestão. prenda-se. de alto índice de crescimento demográfico. na maioria dos Estados. 142] Aqui não há propriamente um crescimento forense.) em número suficiente. a menos que estejamos dispostos a aparelhar o Judiciário para enfrentar essa realidade. secretarias. o que significa que havia mais de mil processos parados. modernizar equipamentos. certa feita. controlar a qualidade e a produtividade dos magistrados.000 habitantes. enfim. oficiais de justiça etc. constatado encontrar-se em poder de um só oficial de justiça mais de mil mandados pendentes de cumprimento. escrivães. em virtude da omissão de um oficial de justiça ou de excesso de serviço. é preciso ter instalações adequadas (cartório. tome-se por termo etc. a distância se tornará cada vez maior entre a justiça e os seus objetivos sociais. no Brasil temos. o crescimento do movimento forense é vegetativo. a solução para a maioria dos problemas que emperraram a máquina judiciária em primeiro e segundo graus nos estados e na esfera federal. aguardando o cumprimento da determinação judicial. O que acontecerá se não houver infra-estrutura para que todos os despachos do juiz sejam cumpridos com eficiência e rapidez? Nada.000 habitantes. Em países como a Itália e a França. Em cada Vara.) e gente para realizar o serviço da justiça (juiz. cite-se. Isso. em pleno desenvolvimento econômico e ingressando na sociedade de consumo. [p. o número de aprovados no concurso fica aquém das vagas em razão da deficiência do ensino jurídico. treinar e avaliar periodicamente os serventuários. salas de audiência. promotores. Diariamente um juiz despacha dezenas e até centenas de processos. informatizar toda a justiça. padronizar métodos e procedimentos. de população estável e de economia já desenvolvida.político e social do lugar. em nosso entender. E não se consegue preencher os cargos vagos porque. um juiz para cerca de 30. Aí está. melhor aproveitar os recursos humanos e materiais disponíveis. só naquela vara.

novo aumento . instalar centenas de novas varas e juizados especiais por todo o Estado.721. 143] rando há quatro ou mais anos distribuição. foram recebidos 83.498. Dos 83. em 2003 o número de 419.389 (95.584. o Tribunal melhorou o seu desempenho. de família etc. 100. o que permitiu. de sorte que o acompanhamento de todo e qualquer processo. no primeiro e no segundo grau.76%). No ano de 2002 entraram (tombados) 252. No ano de 2003 o número de ações distribuídas (tombadas) subiu para 296.163 (89. Não obstante o expressivo aumento de recursos a cada ano. cuja reforma é realmente imprescindível para viabilizar o funcionamento do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça.91 %).415 ações e julgadas 340.285 processos e julgados 83. pode ser feito pela internet de qualquer parte do país.348 ações nos juizados especiais civis. As causas funcionais dizem respeito ao deficiente sistema recursal brasileiro. isto é. mas foram julgadas apenas 313.19%).700. e destas foram julgadas 223.em 2002 foram ajuizadas 346.25%). Temos hoje praticamente quatro instâncias.[p. como mostram os números que seguem. em curso na mais distante comarca ou no tribunal. cíveis.25%. Criou um Fundo Especial destinado a cobrir as despesas operacionais e de investimentos do Judiciário. construir dezenas de novos foros e recuperar outros tantos.A Justiça do Estado do Rio de Janeiro há alguns anos vem seguindo esse caminho e já obteve resultados surpreendentes. e tiram a relevância da sentença ali prolatada.492. . No primeiro grau os resultados da justiça fluminense são também satisfatórios.285 processos autuados no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no ano de 2003 (recursos e processos originários). em 2003.958 (105. em 2001 o número de processos recebidos subiu para 67. foram julgados 83. num tempo médio de 143 dias entre a autuação e o julgamento. no tempo médio de 203 dias. o que toma o tempo dos processos nos tribunais muito superior ao tempo de andamento em primeiro grau.498 (100.715 (97.66%). no tempo médio de 172 dias entre a autuação e a sentença. Em 1999 foram recebidos 51. informatizar toda a justiça. os resultados são também surpreendentes.551 e julgados 78.782 e foram julgadas 265. enquanto na justiça fluminense essa distribuição é em tempo real e não há processos represados.250 e foram julgados 65.501 (87.424 processos e julgados 46. em 2002. Na justiça comum .71 %). No que diz respeito à produtividade. Essa reforma . em 2000 o número de processos aumentou para 57.processos recebidos 74.varas criminais. mediante administração séria e competente dos recursos assim obtidos. como já registrado.914 e foram julgados 50. Estes resultados são ainda mais expressivos quando se tem notícia de que nos Tribunais paulistas existem cerca de 500 mil processos espe.

por sua vez.83%. para impedir que enxurrada de ações banais continuem abarrotando os Tribunais. em 1994. na opinião do Ministro Carlos Mário Velloso. em 1989. extemada quando Presidente do Supremo Tribunal Federal (O Globo 29. Em conferência proferida na abertura do Fórum Nacional de Debates do Poder Judiciário. 88. de outubro a dezembro. enorme resistência à adoção da súmula vinculante ao argumento de que ela atentaria contra a liberdade de julgar do juiz.2000).90%. Há. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. o percentual de acórdãos repetitivos foi de 61. 71. Isso evitaria liminares. 82.processual.49. cumpre aplicar as disposições da Lei Complementar nº 73/93. virtualmente inviabiliza o Supremo Tribunal Federal e . em 1991. como autorizado pela Lei Complementar n° 73/93. Ora. serviria de filtro para evitar que questões irrelevantes cheguem aos tribunais superiores. useiro e vezeiro em postergar o cumprimento de decisões judiciais.32% dos acórdãos proferidos pelo STF foram repetitivos. aos quais ficaria reservado o julgamento de matérias de alta indagação jurídica e de grande interesse social. A súmula vinculante obrigaria a justiça de primeiro grau a aplicar a jurisprudência do tribunal superior sobre determinadas questões. 50. [p. em 1993. em junho de 1997. Pesquisa realizada no final de 1995 revela dados inquietantes: no período de outubro de 1988 a março de 1995. inteiramente aplicáveis à União Federal e às suas autarquias (inclusive ao INSS). pelo menos até o mês em que se limitou a pesquisa.90%. responsáveis.41%. em 1990.15%. ainda na visão do ex-presidente do Supremo. pelo excesso de litigiosidade recursal. desnecessárias. No ano de 1995. em grande parte. portanto. que: em 1988. “Devo observar. repetição interminável de ações em tomo de matérias já julgadas e recursos protelatórios. 68. que. A pesquisa revela.54%. em 1995. muitas vezes agindo como improbus litigator.88%. isso não é racional e não ocorreria se as súmulas tivessem efeito vinculante. se a causa real do congestionamento do aparelho judiciário reside .36.40%. sem prejuízo da adoção de outras soluções processuais.08. hoje. até o mês de março. opondo resistência estatal injustificada e arbitrária a pretensões legítimas deduzidas por cidadãos de boa-fé. o STF praticamente limitou-se a repetir decisões já proferidas. ademais.38. ainda. propõe a edição de súmulas administrativas vinculantes.como efetivamente ocorre . em 1992. o Ministro Celso de Mello. sentenças contraditórias entre juízes.na atuação processual compulsiva do Poder Público. 144] A argüição de relevância. Para por um paradeiro às procrastinações do Poder Público. deve incluir a súmula vinculante para as decisões dos Tribunais Superiores e a argüição de relevância. todavia. que. sua Excelência assim colocou a questão.

permitindo. estaria a requerer a existência de órgão que lhe fosse superior. tributário ou previdenciário.03. O Ministro Sepúlveda Pertence.com sentenças judiciais. de maneira positiva. talvez a curto prazo.09.a União Federal e as suas autarquias não mais insistirão em teses jurídicas rejeitadas pelo STF ou pelo STJ. Esse tipo de controle. admite que o Judiciário tem deficiências. na solução dos problemas gerados pelo congestionamento do aparelho judiciário. defende uma reforma ampla. Sim. obras irregulares e gastos . ao próprio Estado Democrático de Direito. Esse órgão. aproveitaria as experiências bem sucedidas de outros lugares. seria um centro de debates destinado a pensar e repensar continuamente o Judiciário. disfarçadamente. formularia alternativas administrativas.1999). em nada contribuirá para o aprimoramento do Judiciário. O disfarce caiu quando o deputado João Paulo Cunha. porque o que se pretende com tal órgão. A criação de um órgão controlador do Poder Judiciário levaria. como se apregoa com tanta veemência. porque na medida em que o órgão controlador se desviasse de suas finalidades. líder do Movimento dos Sem Terra (MST). ex-presidente do STF. viajando num jatinho da Força Aérea Brasileira (FAB). que pretensões legitimamente manifestadas pela parte privada sejam atendidas. até mesmo na própria instância administrativa. 145] Não estamos falando de um órgão de Controle Externo do Judiciário. mas investigar sentença. não. além de condenável. O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. 13. ao menos enquanto se pretender que vivamos num Estado de Direito Democrático” (O Globo. condenado por formação de quadrilha e invasão de propriedade. traçaria as políticas administrativa e financeira do Judiciário. à criação de um outro órgão para controlar o controlador. e assim por diante. [p. . que também visitou Rainha na prisão.” Entre as causas estruturais podemos apontar a falta de um Conselho Nacional de Administração da Justiça. desde logo. por via de conseqüência. Presidente da Câmara dos Deputados. ad infinitum. deplora iniciativas que pretendem misturar questões de administração . dotado de estrutura leve. pois.o Superior Tribunal de Justiça. visitou na prisão José Rainha. 28. na ocasião criticou duramente o juiz e disse que suas sentenças reforçam a necessidade de controle externo do Judiciário (O Globo. em matéria de caráter administrativo. “Isso é absolutamente inadmissível. desse modo.2003). nas questões objeto da jurisprudência iterativa dos tribunais uma vez editada a súmula administrativa vinculante . a aplicação desse instrumento legal certamente refletir-se-á. controlaria o bom funcionamento da atividade judicial. órgão nacional de planejamento e controle do Judiciário. assessorado por técnicos de várias áreas. enfim. Ora. o que constitui um atentado ao princípio da autonomia dos poderes e. por sentença do Juiz Teodoro Sampaio.nepotismo. é controlar as decisões judiciais. eficiente e com funcionamento permanente.

Como. as deficiências infraestruturais do Judiciário fatalmente continuarão acarretando o retardamento dos julgamentos. as estruturas judiciárias latino-americanas são inadequadas para assumirem as demandas de uma democracia moderna. faz algumas colocações que merecem ser transcritas no encerramento deste capítulo: “Qualquer instituição deve cumprir determinadas funções e sua estrutura otimizada dependerá da clara atribuição prévia dessas funções. a sua descaracterização institucional. e o grau de incapacidade para elas mesmas estará assinalando o cumprimento de funções latentes alijadas daquelas. sobre os conflitos que comprometem direitos e sobre suas soluções e meios de preservá-las. o desprestígio e a perda de confiança no Judiciário por parte da coletividade. Na medida em que se amplia a distância entre a função latente ou real e as demandas sociais. cit. sem ter prerrogativas do Judiciário. Temos elaborado complexas teorias. freqüentemente de alto nível. 22. pp. criar-se um órgão que. um dos maiores nomes do Direito Penal na América Latina. O insigne jurista Eugênio Raul Zaffaroni. 29 e 34). Enquanto não forem feitas as reformas necessárias. dos Tribunais. quer dizer. [p. acertos e desacertos.. a ele se sobreponha? De que natureza seria esse órgão? Ou será mais um poder da República? São pontos a refletir e que evidenciam. mas existe uma notória disparidade entre este nível teórico e aquele que trata das instituições destinadas a efetivar essas soluções. em notável trabalho sobre o Poder Judiciário. senão a desnecessidade do órgão controlador. a estrutura otimizada de uma instituição será sempre a que a capacite para melhor desempenho do que a ela será cometido. crise. a volta à justiça privada. 21. aumenta o perigo para todo o sistema democrático” (ob. a realização tardia dos objetivos da justiça ou até mesmo a sua ineficiência. e a busca de outros meios para se conseguir justiça. se fundam no tripé integrados por sua consagração legislativa. pela previsão dos meios para reclamá-los e pela estruturação do setor estatal que tome efetivas as reclamações. Em síntese. 146] A relação entre a estrutura institucional e as funções (manifestas e latentes) é indissolúvel: a estrutura indicará a sua capacidade de desempenho das funções manifestas. portanto. ainda menos definidos serão seus modelos estruturais. muitas vezes. Ed. na medida em que sua debilidade e dependência não lhes permitem desempenhar eficazmente a função delimitadora que requer a consolidação do espaço democrático. Rev. de qualquer natureza. provocando. feita pelas próprias mãos. 147] . Quando o que lhe é cometido não seja bem definido. Os direitos. [p.

p. 65. fazendo valer o direito aplicável ao caso. Alcino Salazar: “A justiça vale o que valem os juízes. 1959. como tem sido dito. Evidentemente. “Mais vale um juiz bom e prudente do que uma boa lei”. Sistema do concurso público. Nesta parte trataremos dos sistemas de escolha dos magistrados. mais que em outras instituições. tomo I. dar a palavra final nos conflitos de interesse.Capítulo XII SISTEMAS DE ESCOLHA DOS MAGISTRADOS Sistema eletivo. principalmente quando está em jogo a vida ou a liberdade de um ser humano. Milão. deve o juiz ser detentor de um caráter impoluto e de uma personalidade ajustável à função. constante dos anais do Primo Congresso Internazionale [p. é quase uma função divina. Expressa ainda a relevância do tema o pensamento do Magistrado François Gorphe. para o exercício de uma função pública assim tão relevante. citado pelo Prof. é preciso alguém altamente qualificado. uma lei boa de nada serve. Julgar. Sistema da nomeação. Perfil da magistratura brasileira. Aprimoramento do nosso sistema. porque ele a verga e a toma injusta a seu modo”. há ainda duas questões importantes a serem abordadas. Além de conhecedor do direito. diz o Código Geral da Suécia de 1734. até com um pouco de poesia. Acreditamos já ter ficado demonstrada a importância da função desempenhada pelo juiz: decidir as causas que são levadas à sua apreciação. O sistema utilizado no Brasil. 149] dei Magistrati. “Com um juiz mau e injusto. e na próxima examinaremos as razões sociais das garantias constitucionais dos magistrados. o problema do pessoal condiciona os demais.” .Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica -. **** Dentro do tema examinado no capítulo anterior . pois na magistratura. tanto no aspecto técnico como no moral.

não tanto pelo seu conteúdo específico. 150] Nos Estados Unidos. 1970. Pelo sistema eletivo os magistrados são escolhidos através de votação direta. Se até mesmo para o exercício das funções mais simples é indispensável ter certas qualificações profissionais e morais. o da nomeação e o do concurso público. Os países da antiga cortina de ferro. sobretudo da França e Portugal. tal como os seus govemantes e legisladores. a independência e a dignidade da magistratura. que escolhe os seus juízes. p. Surge então a questão: como escolher o magistrado? Qual o critério seletivo mais eficiente? Qualquer empresa de certo porte conhece a importância de se ter a pessoa certa no lugar certo e por isso gasta tempo e dinheiro na seleção e treinamento do seu pessoal. 302). tal como os membros do Legislativo. E não são mais todos os 50 estados da Federação a adotarem o sistema de eleições diretas. Costuma-se apresentar como sua principal vantagem o fato de ser democrático. Democrático porque é o próprio povo. já não o fazem mais e têm-se aproximado dos estados da União Européia. há três que procuraremos destacar: o da eleição. o que seria a função de julgar exerci da por alguém que não conheça o direito ou que não tenha os inerentes requisitos morais? Daí a importância sociológica da questão ora em exame. que o adotavam. no exercício do soberano direito do voto. produtiva ou prejudicial. rápido e pouco oneroso para os cofres públicos. [p. em busca de orientação sobre critérios de seleção e formação de magistrados. Pouco oneroso porque as despesas com uma campanha eleitoral correm normalmente por conta do candidato ou do seu partido. Rápido porque em um mesmo dia podem ser eleitos todos os juízes de um estado ou mesmo do país. Na verdade. SISTEMA ELETIVO Dentre os vários sistemas existentes e adotados por diferentes países para a seleção dos seus magistrados. b) nomeação pelo .Em verdade. O sistema de eleição para a Magistratura está em pleno desuso no mundo inteiro. porém antes e acima de tudo pela própria interpretação que o magistrado lhe imprimir (Rosah Russomano. Lições de Direito Constitucional. já que de uma boa seleção dependerão grandemente a eficiência. recaindo a escolha sobre aqueles que mereceram a preferência popular. elogiável ou iníqua. lá existem quatro tipos de escolhas de juízes estaduais: a) nomeação pelo chefe do Executivo com prévia aprovação no Legislativo. 64. a Justiça Federal não adota o sistema eleitoral para escolha de seus juízes. sob pena de se instituir o absurdo. a norma jurídica tomar-se-á boa ou má.

203). conforme já assinalado quando tratamos da escolha dos membros do Legislativo. Deve dar ganho de causa a quem tiver direito. diz o seguinte: “No século XIX e no começo do XX os partidos americanos tomaram freqüentemente a forma de máquinas manipuladas por políticos desonestos que tratavam de assegurar a impunidade mediante a simultânea eleição do juiz. o que a toma totalmente desaconselhável.chefe do Executivo entre nomes constantes de lista formada por comissão independente de alto nível. Aponta-se como vantagem do sistema de nomeação o fato de ser rápido e . tomando-se impopular. nem sempre se elegem os melhores. sem falar nos compromissos que terá que assumir com pessoas e grupos para conseguir eleger-se. que são os que se conferem por eleições. acreditamos que a eleição dos magistrados apresentaria graves inconvenientes. sempre que tiver que decidir questões relevantes e de repercussão social. estará sujeito a todo tipo de pressões do seu eleitorado ou em nome dele. em razão das graves distorções que ocorrem na execução de uma eleição direta. Não há promoções ou remoções. Em termos de Brasil. é constantemente divulgado pela imprensa. Isso no Judiciário seria o caos. Duverger. c) eleição indireta pelo Legislativo. a lealdade ao partido é uma virtude. ou teriam recursos para custeá-la. os melhores nem sempre estariam dispostos a enfrentar os percalços de uma campanha eleitoral. mas no cargo de juiz. independência. Mas se o juiz necessitar de votos para se eleger ou reeleger-se. d) eleição popular. Max Weber também recorda o baixíssimo nível técnico desses juízes e o maior prestígio dos juízes federais. Exige imparcialidade. O juiz não pode procurar agradar a ninguém com suas decisões. Deve-se ainda levar em conta que a função de julgar é muito diferente da função política. Paris. referindo-se aos juízes eleitos. perdendo a imparcialidade e a segurança necessárias ao julgador. Com efeito. 151] econômico dos parlamentares para financiar suas onerosas campanhas eleitorais. 65. 1980. Como bem argumenta Emílio Rabosa: “Nos postos de caráter político. É preciso lembrar que os juízes estaduais americanos não têm carreira: apontados ou eleitos para uma county (comarca). p. e com isto desagrada muitas vezes os ricos e poderosos. ou encontrariam apoio particular à sua candidatura. ali ficam até o final de seu mandato (que é variável). SISTEMA DA NOMEAÇÃO Em alguns países os magistrados são escolhidos mediante livre nomeação do chefe do Executivo. descomprometimento de toda a sorte.” O comprometimento [p. do chefe de polícia e dos administradores locais” (Institutiones Politiques. podendo ser reconduzidos ou reeleitos para o mesmo posto. é um vício degradante. Além disso.

pouco oneroso, visto que em um só listão podem ser nomeados tantos juízes quantos forem necessários. Há, todavia, tantos inconvenientes nessa forma de seleção que, se adotada em nosso país, geraria o caos. De todos é sabido que, quando vigora o critério da livre escolha pelo Executivo, só conseguem ser nomeados aqueles que possuem pistolão, amizades, conhecimentos etc. Disso resulta ser esse sistema antidemocrático, posto que não dá idênticas oportunidades a todos, beneficiando sempre os mesmos afilhados e apadrinhados. Por essas mesmas razões nunca se consegue escolher os melhores, já que os epistolados são sempre aqueles que menos qualidades possuem, procurando vencer na vida sem fazer força. E ainda que assim não fosse, quer dizer, mesmo que o chefe do Executivo estivesse empenhado sinceramente em escolher os melhores, dificilmente conseguiria porque, não sabendo quem são os melhores, teria que se valer da indicação dos seus assessores. E é evidente que, por mais fraco, incapaz e desqualificado que seja o pretendente, quem o indica sempre o apresenta como o melhor elemento do mundo - o mais honesto, inteligente, capaz, induzindo a erro o nomeante. A tudo isso se sobrepõe o fato de tirar o sistema da nomeação, a independência do juiz com relação àquele que o nomeou ou influenciou para a nomeação. Deixa o magistrado numa situação de subserviência ou pelo menos no dever de reconhecimento, prejudicial à função de julgar. A sua nomeação custar-lhe-á bastante caro e ser-lhe-á cobrada com juros e correção monetária, devidamente lembrada sempre que necessário.

66. SISTEMA DO CONCURSO PÚBLICO

O ingresso na magistratura por este sistema se faz através de concurso público de provas e títulos, preenchendo-se as vagas existentes com aqueles que melhor forem classificados. [p. 152] Tem como desvantagem o fato de ser demorado e bastante oneroso: exige uma comissão de alto nível para realizar o concurso e muito tempo no processo de inscrição, exame da documentação de cada candidato, aplicação e correção das provas escritas e realização das provas orais. Entretanto, oferece vantagens que nenhum outro sistema apresenta, dentre os quais podemos destacar:

1) É um sistema democrático, pois oferece iguais oportunidades a todos. Desde que o candidato preencha os requisitos estabelecidos no regulamento do

concurso, poderá inscrever-se e concorrer a uma vaga, seja ou não conhecido, de família ilustre ou humilde. 2) Enseja a escolha dos melhores, tanto do ponto de vista técnico e intelectual, como do moral. Ao fazer a inscrição, deverá o candidato juntar documentos que provem o preenchimento dos requisitos estabelecidos no regulamento do concurso.

Além do mais, são solicitadas informações sobre o concorrente a pessoas conhecidas no mundo jurídico e aos próprios órgãos oficiais, só sendo deferida a inscrição depois desse exame preliminar. As provas escritas, elaboradas por examinadores de alto nível, especialistas em cada matéria, são corrigi das sem identificação, de modo a evitar qualquer protecionismo. Somente concorrem às provas orais aqueles que não forem eliminados nas escritas; os aprovados nas provas escritas e orais terão computados então os pontos obtidos nos títulos, sendo nomeados os melhores classificados no cômputo geral dos pontos obtidos nas provas e títulos. Como se vê, com esse longo e rigoroso processo seletivo, é mais provável que se consiga escolher os melhores. Em terceiro lugar, destacamos que o sistema do concurso público apresenta ainda a vantagem de assegurar ao magistrado a necessária independência para julgar. Não tendo a sua nomeação dependido do prestígio ou influência de quem quer que seja, mas sim da sua própria capacidade, inteligência e esforço, não deve favores a ninguém, podendo decidir os conflitos de interesse que lhe vierem às mãos com total imparcialidade. Ninguém tem nada a lhe cobrar, mas muito a admirar, respeitar e confiar, em face da cultura que revelou possuir ao ser aprovado em rigoroso concurso seletivo. O concurso público é o sistema utilizado nos principais países da Europa, ora como meio para ingressar na escola da magistratura, ora para ingresso direto na carreira. [p. 153] Em Portugal, a seleção dos magistrados é feita por concurso público no excelente Centro de Estudos Judiciários, onde os aprovados são preparados por 23 meses, antes de assumirem a função judicante. Na França, os candidatos a juiz ingressam por concurso na École Nationale de Ia Magistrature, e ali recebem formação inicial de dois anos e sete meses. Na Itália, os pretendentes à Magistratura fazem provas escritas e orais disputadíssimas e, depois, seguem um curso de tirocínio de no mínimo seis meses, em Frascatti.

Na Espanha, com a sua pioneira Escuela Judicial, os aspirantes a juiz têm de se submeter a um concurso público de dissertação oral, e, em seguida, fazem um curso de dois anos em Barcelona. N a Alemanha, também não há eleição para juiz, nem concurso público. As nomeações levam em conta os graus obtidos nos exames finais das faculdades de Direito. Na Austrália, os juízes são escolhidos e nomeados pelo governador geral (representante da rainha), assessorado na escolha pelo Conselho Federal, entre nomes de pessoas altamente qualificadas. Deixando a Europa e indo para o Oriente, veremos que no Japão os futuros magistrados têm de vencer um vestibular rigorosíssimo no Instituto Jurídico de Treinamento, onde estudam por dois anos, após os quais, se aprovados, serão nomeados. Na verdade, o que se vê pelo mundo afora é uma grande preocupação com a seleção dos juízes e, tendo em vista a peculiaridade da função judicante, não se recomenda o processo eleitoral, mas sim o concurso público, que é tão democrático quanto as eleições.

67. O SISTEMA UTILIZADO NO BRASIL

O ingresso na magistratura de primeira instância, por força de dispositivo constitucional, no Brasil faz-se através de concurso público de provas e títulos, o que revela termos adotado o melhor sistema seletivo. A escolha dos magistrados integrantes dos tribunais superiores, entretanto, isto é, os Ministros do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal Militar, do Tribunal Superior do Trabalho e do Superior Tribunal de Justiça, são nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pelo Senado Federal. Temos assim um sistema misto, integrado por concurso público de provas e títulos para a seleção dos magistrados de primeira instância, e [p. 154] por nomeação pelo Chefe do Executivo para os ministros dos tribunais superiores. Nos Tribunais de Justiça dos Estados, bem como nos de Alçada, um quinto dos membros são também escolhidos por nomeação do Chefe do Executivo Estadual (Governador), mediante lista tríplice organizada pelo respectivo Tribunal de Justiça; metade das vagas decorrentes do quinto são para candidatos oriundos da OAB, isto é, advogados militantes, e a outra metade para membros do Ministério Público, cujos órgãos superiores encaminham ao Tribunal de Justiça uma lista sêxtupla para a elaboração da lista tríplice. O objetivo do quinto é enriquecer os Tribunais de Justiça e de Alçada com elementos de destacada cultura jurídica e elevada envergadura moral, militantes dos quadros

do Ministério Público ou da OAB, trazendo para os referidos tribunais uma mentalidade mais eclética, o que lamentavelmente nem sempre ocorre em face das influências políticas que se verificam no momento do preenchimento das vagas que ocorrem.

68. APRIMORAMENTO DO NOSSO SISTEMA

Embora o sistema do concurso público seja o mais recomendável, conforme já exposto, comporta alguns aprimoramentos para permitir a formação de um quadro de magistrados mais eficiente. O juiz, na pureza desse sistema, tão logo aprovado no concurso e nomeado, assume imediatamente as suas funções e começa a despachar e decidir em centenas de processos, sem nunca dantes ter feito isso, encontrando uma série de dificuldades, perplexidades, dúvidas etc. Todos que já passaram por essa experiência sabem do que falamos. A experiência é ainda mais dolorosa quando o juiz, começando a sua carreira numa comarca lá do interior, fica praticamente sozinho, isolado, sem ter a quem recorrer para uma troca de idéias. Isso evidencia que, para o ingresso na magistratura, não é bastante o concurso de provas e títulos, que apenas apanha a formação cultural do candidato; mas não pode penetrar mais e aferir-lhe o pendor, a vocação, o interesse, a capacidade específica para judicar. A função do juiz, por outro lado, envolve uma série de outras atividades, principalmente no interior, onde é a principal autoridade da comarca, para as quais não foi preparado. O juiz mantém relacionamento com autoridades políticas (prefeito, vereadores), policiais (delegado) e com povo em geral, necessitando em todos esses contatos ser necessariamente hábil para, [p. 155] sem enfraquecer sua autoridade e sem se deixar envolver, portar-se com gentileza, educação, polidez. Nada disso ele aprende em concurso ou nos livros de direito, razão pela qual entendemos que, após o concurso e a nomeação, deveria existir um estágio profissional de pelo menos quatro meses. O novo juiz, além de assistir a palestras sobre matérias ou questões relacionadas com os mais variados aspectos do exercício de sua profissão, começaria a exercer a judicatura como auxiliar, ao lado de outro juiz mais experiente na comarca da capital. Nos meses de estágio o juiz passaria pelas principais varas (cível, criminal, família, juizados especiais), de modo a adquirir uma certa experiência em todas as áreas do direito, para depois enfrentar a atividade sozinho em sua comarca. Melhor do que isso, em nosso entender, seria uma escola judicial instituciona1izada de âmbito nacional que estabeleceria diretrizes, programas, políticas de

ensino e orientações a serem executadas por todas as escolas de magistratura estaduais e federais, com o que se conseguiria uma certa uniformidade na formação inicial dos magistrados do país. Essa escola nacional deveria também programar cursos de aperfeiçoamento para os magistrados mais antigos, como condição para a promoção por merecimento, cursos esses que poderiam ser ministrados nas sedes das escolas locais, de modo a facilitar a freqüência e reduzir os seus custos. A crescente expansão da atividade humana, a par de sua constante sofisticação, muito exige do juiz, a cuja decisão nenhuma parcela do complexo social é subtraída. É imperioso, portanto, que o juiz se especialize, se adestre e se prepare. O aperfeiçoamento ressalta a posição da ciência jurídica moderna pela ampliação dos poderes jurisdicionais, pois a insaciável diversificação do fazer humano e seus requintes tomam inaprisionável por regras fixas e rígidas a atuação jurisdiciona1 necessária à devida composição do litígio. Se o Judiciário se toma essencial à convivência social, se o seu papel será cada vez mais importante neste século XXI, somente com juízes à altura dessa missão teremos o Judiciário que a sociedade espera e exige. Destarte, sobretudo quando os novos juízes são cada vez mais jovens no mundo do civil law, quando os sistemas jurídicos passam por profundas mudanças legis1ativas e uma nova mentalidade se reclama, toma-se imprescindível investir na seleção e no aprimoramento dos magistrados, criando-se boas escolas nos moldes das admiráveis e válidas experiências que o mundo civilizado vem presenciando. O Congresso que reuniu magistrados em Roma, em 1958, concluiu pela recomendação de que se realizem promoções para aperfeiçoar o tirocí- [p. 156] nio judiciário, incentivando a pesquisa e o estudo, selecionando aptidões, estimulando a especialização técnica constantemente. Necessário se faz assinalar que no Brasil, após a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 135, de 14.03.1979), timidamente começamos a dar os primeiros passos nesse sentido. Algumas das disposições (arts. 78, § 1°; 80, § 1°, 11; e 87, § 1°) estabelecem que a lei poderá exigir dos candidatos, para a inscrição no concurso de ingresso à carreira, título de habilitação em curso oficial de preparação para a magistratura, e condicionar a promoção por merecimento à freqüência, com aprovação, em curso ministrado por escola oficial de aperfeiçoamento de magistrados. Timidamente, como se vê, pois a disposição legal não passou de uma simples sugestão para ser aplicada se, quando e onde for possível, já que nenhum recurso material ou dotação orçamentária foi criado para tal fim. A Constituição de 88 contém disposição idêntica no seu art. 93, n, c.

Graças ao esforço pertinaz da Associação Brasileira dos Magistrados, criou-se a Escola Superior da Magistratura, que já tem prestado relevantes serviços à magistratura brasileira com a realização de vários cursos de aprimoramento jurídico, assistidos por juízes de quase todos os estados. Esperamos que a feliz iniciativa continue a receber a simpatia e o apoio de todas as autoridades e instituições relacionadas com o Judiciário, até transformar-se na Escola Nacional da Magistratura Brasileira, com cursos de preparação e de aperfeiçoamento de magistrados, funcionando de forma estável e permanente. Tudo por uma magistratura melhor e mais independente. Registre-se, por derradeiro, que muito se avançou neste ponto no âmbito dos Estados. A maioria já criou a sua Escola da Magistratura, em alguns Estados com organização modelar e folha de serviços relevantes. A Escola da Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ) mantém um curso de preparação para o concurso de ingresso na magistratura de alta qualidade teórica e prática, ministrado em cinco semestres (dois anos e meio), durante os quais o aluno pode também estagiar nos diversos órgão julgadores (vara cível, criminal, família, juizados especiais, câmaras do Tribunal de Justiça), fazendo minutas de despachos, decisões, sentenças e participando de audiências, sempre orientado por um magistrado. Aos novos juízes, tão logo nomeados, a EMERJ ministra um curso de iniciação de quatro meses, com palestras e debates pela manhã, ministrados por magistrados e professores experientes, sobre os mais variados aspectos teóricos e práticos da função judicante; à tarde exercem a judicatura como juízes auxiliares em varas cíveis, criminais, de família e juizados especiais, um mês em cada lugar, sempre orientados pelos juízes titulares das respectivas varas. Desse [p. 157] modo os novos juízes conseguem assimilar boa experiência antes de irem exercer a judicatura nas comarcas do interior. Prossegue a atuação da EMERJ no estágio de vitaliciamento, durante os vinte meses seguintes. Além de acompanhados e orientados por um Conselho de Vitaliciamento, os juízes vitaliciandos assistem na EMERJ pelo menos um seminário por mês, de oito horas, sobre temas variados, jurídicos ou não, escolhidos por uma comissão de magistrados. Por último, a EMERJ ministra cursos de aperfeiçoamento aos magistrados em atendimento a uma resolução do Órgão Especial do Tribunal de Justiça que os instituiu como requisito à promoção ou remoção por merecimento. Dessa forma a EMERJ vem efetivamente participando da formação e aprimoramento dos magistrados fluminenses, desde a preparação para o concurso até chegarem a desembargador.

68.1. Perfil da Magistratura Brasileira

Pesquisa realizada pela Associação do Magistrados Brasileiros (AMB/IUPERJ), intitulada “O Magistrado e o Poder Judiciário - auto-análise para melhor servir” - revela que o sistema de concurso público democratiza a magistratura, permitindo que todos tenham as mesmas oportunidades e a escolha dos melhores. Eis os resultados: 56,4% dos juízes brasileiros (mais da metade) são oriundos de famílias simples, cujos pais só tinham o primeiro grau completo; 63,4% não têm nem mesmo promotores ou defensores na família; 52,2% são filhos de servidores públicos e 12,8% de funcionários de empresas, sendo que 25,8% destes correspondem a funções de baixa remuneração. A participação da mulher vem crescendo. Em 1985 apenas 16,8% dos aprovados nos concursos eram mulheres, dez anos depois o percentual subiu para 28,7%. Atualmente, o número de mulheres já é igual e até superior ao dos homens, o que evidencia que o concurso afasta qualquer tendência discriminatória, oferecendo à mulher reais condições de igualdade com o homem. O Centro de Estudo e Pesquisa da EMERJ levantou o perfil da Magistrada Fluminense, por meio de pesquisa intitulada “Quem Somos”, recentemente concluída. Os resultados discrepam em parte daqueles que foram obtidos na pesquisa AMB/IUPERJ. As questões referentes à origem social demonstram que os magistrados fluminenses, em sua maioria (53%), são filhos de pais com formação de nível superior. Quantos às profissões pater- [p. 158] nas, preponderam os da área jurídica, tais como advogados, membros do Ministério Público, Defensoria, Procuradoria e Magistratura (18,2%). Verificou-se também significativa presença de outros familiares dos magistrados nas áreas jurídicas, principalmente advogados (49,9%). Conclui-se que os magistrados fluminenses são predominantemente originários de famílias de padrão cultural e econômico elevado, em razão do Estado do Rio de Janeiro ser economicamente desenvolvido e, conseqüentemente, com maiores possibilidades de educação e trabalho. Entretanto, não se pode desprezar o número de magistrados oriundos de famílias de pouca escolaridade (23,6%) e atividades profissionais exercidas em setores considerados de baixa renda (17,4%). A participação da mulher na magistratura fluminense é mais expressiva que no âmbito nacional; entre os juízes 46,1%, entre os desembargadores 14,3%, o que evidencia uma crescente feminilização, fato relevante do ponto de vista sócio-cultural e da análise da mudança social.

Uma das mais constantes críticas à magistratura é a juvenilização dos seus quadros. Alega-se que os juízes estão ingressando cada vez mais jovens na magistratura, sem a maturidade e experiência indispensáveis para o exercício do cargo. Há até projeto no sentido de exigir um tempo mínimo de cinco ou mais anos de formado em Direito para se permitir a participação em concurso para juiz. Não se nega que o juiz tem que ter maturidade e experiência para exercer a magistratura; o que se questiona, entretanto, é que essas qualidades sejam necessariamente atributos da idade ou do tempo de formado. Há velhos imaturos e formados há muitos anos sem experiência alguma. A questão da maturidade e da experiência pode ser superada com vantagem pelas Escolas da Magistratura por meio dos cursos de preparação e estágio de vitaliciamento, cursos de aperfeiçoamento e outras providências. Por outro lado, as pesquisas revelam que a tal juvenilização não é assim tão grande. Apenas 11,6% dos magistrados brasileiros têm até 30 anos de idade; 35,5% estão na faixa de 31 a 40 anos; 31,5% entre 41 e 50 anos; 17,1% entre 51 e 60 anos; 4,7% entre 61 e 70 anos (pesquisa AMB/ IUPERJ). No Estado do Rio de Janeiro os números não discrepam neste ponto. Até 30 anos, 13,4%; de 31 a 40 anos, 32,8%; de 41 a 50 anos, 18,8%; de 51 a 60 anos, 20,2%; de 61 a 70anos, 13,5%. Nos últimos 10 anos a média de idade dos juízes fluminenses que ingressaram na carreira foi de 31,6 anos. O ingresso de jovens na magistratura tem como vantagem permitir ao juiz dedicar quarenta ou mais anos de efetivo trabalho à Justiça. A pesquisa realizada pela EMERJ revelou que a magistratura é a classe de servidores [p. 159] públicos que trabalha mais tempo e se aposenta mais tarde. A idade média de aposentadoria dos juízes é de 60 anos (entre os desembargadores 69 anos). O tempo médio de serviço dos juízes na época da aposentadoria é 41 anos (entre os desembargadores 48 anos). Mais de 15% dos juízes têm tempo para se aposentar, mas continuam trabalhando normalmente; entre os desembargadores 89% têm tempo para se aposentar, sendo que dos desembargadores que integram o Órgão Especial (os vinte e cinco mais antigos) 100% já poderiam estar aposentados. Os dados acima sublinham com veemência a integral e longa dedicação da magistratura ao serviço ativo, e que não tem como projeto profissional a aposentadoria. Levando-se ainda em conta o número de juízes que têm curso de pós-graduação (52,7%), sendo 21,0% de mestrado, 5,7% de doutorado e 18,4% de especialização, conclui-se que a magistrada fluminense é também detentora de elevado padrão jurídico. Em pesquisa divulgada pelo O Globo em 19.08.2000, o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil conservador. Em outra pesquisa (O Globo de 17.08.2003),

inclusive a opinião pública. entre os magistrados de São Paulo. consciente ou inconscientemente. é prevalecer o equilíbrio. Crê exprimir o que pensa. culturais.agora realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O indivíduo. 160] Veja-se que na pesquisa do IPEA as áreas em que os juízes defendem prioritariamente a questão social em detrimento dos contratos são. produto do meio.1%. a1ertava Carlos Maximi1iano. nem pode fazer uma revolução social com a caneta. da hereditariedade e da educação. ideológicas. [p. mais do que respeitar contratos.7% consideram que. Para o investidor e os agentes da área econômica em geral. Extremamente complexo é o processo de formação de uma decisão judicial. o juiz brasileiro é liberal porque contraria os seus interesses. à boa-fé e à equidade. uma vez que 78% dos magistrados preferem basear suas decisões em questões ligadas à justiça social do que no respeito aos contratos. seguida pelo Código do Consumidor e agora pelo novo Código Civil. as mais relevantes e necessárias: trabalhistas. a justiça social deve prevalecer numa sentença. Rio de Janeiro. Quem tem razão? Ninguém. O certo.6%. a partir da Constituição de 1988. 54. na formação da decisão judicial. Mas o juiz. a razoabilidade. Está correta a magistratura quando privilegia a justiça social porque essa é a ideologia. a socialidade e a efetividade. A mesma norma recebe tratamento diferenciado de juízes e tribunais porque a decisão judicial . Não é apenas uma decorrência do conhecimento jurídico do magistrado. Cláusulas contratuais abusivas não podem prevalecer. Esse perfil foi considerado pela pesquisa como prejudicial à economia porque deixa os investidores temerosos. sociais. não pode estar avançando a seu tempo. Rio Grande do Sul e Distrito Federal. 42. por mais preocupado que esteja com a justiça social. é condicionado pelas relações sociais e exprime uma comunidade de propósitos”. os valores consagrados pela nova ordem jurídica brasileira: a eticidade. para o sociólogo esse mesmo juiz é conservador porque não adota integralmente os seus pontos de vista sobre a questão social. meio ambiente. 46. influenciam. É por isso que se diz não existir norma jurídica. Sociais e Políticos de São Paulo (IDESC). coordenada pelo Instituto de Estudos Econômicos. realmente. “inclina-se num ou noutro sentido de acordo com o seu temperamento. Circunstâncias pessoais. o índice é de 70%. mas esse próprio pensamento é socializado. O nosso Direito. 83. tudo dependendo do ângulo pelo qual os resultados são analisados.6%. a ponderação. Entre os juízes com menos de 40 anos. o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil liberal. previdência. senão norma jurídica interpretada. entretanto. não mais admite o uso abusivo do direito de forma contrária aos seus fins sociais e econômicos.

o juiz não é livre para fazer prevalecer o seu sentimento particular de justiça a ponto de estrapolar a moldura da lei ou de modificar os seus parâmetros. até que ponto está subju1gado ao ordenamento jurídico em função de suas concepções pessoais? Essa é a grande questão. Ao mesmo tempo em que procura interpretar a consciência social. o perfil do magistrado não deve ser avançado. encastelando-se no formalismo. livre e social” (“A Decisão Judicial”. uma decisão humana. RDR nº 15. 161] Nessa tarefa. Deve consultar o seu sentimento ético com o cuidado de não se afastar demasiadamente dos sentimentos médios da sociedade em geral e da comunidade jurídica em particular. mas sim suficientemente flexível para ajustar a lei às condições concretas da sociedade. mas também voz da sociedade. dignidade da pessoa humana. portanto. uma decisão que está subordinada aos sentimentos. n° 4. na sua capacidade de julgar com esses elementos que participam da sua natureza racional.3 in fine. porque justiça e liberdade estarão limitadas ao juízo de valor de um juiz ou tribunal. uma vez que o próprio legislador reconhece a impossibilidade de tudo ser nela previsto. Se o juiz abandona esse cenário. embora fundado na lei. conceitos jurídicos indeterminados e cláusulas gerais. nem conservador. eqüidade. vu1nerabi1idade.-dez. órgão do Estado.983/91). não é inflexível.é. Em conclusão. E sendo uma decisão humana. O homem existe porque ele é razão e emoções. “ela não está. pondo-se a emitir juízos totalmente desvinculados da ordem jurídica que lhe incumbe preservar. Neste ponto reportamo-nos ao que ficou dito no item 35. sentimentos. E a independência do juiz está. como qualquer ser humano. 1999). a sociedade não terá mais nem justiça nem liberdade. no domínio da ciência ou da técnica. essencialmente. crenças. deve dar eficaz aplicação à lei. por inteiro. Se o juiz. portanto. terá que ser um canal de comunicação entre a sociedade e o mundo jurídico. set. É nesse sentido que se diz ser o juiz um coautor com o legislador. [p. . Por isso utiliza. criando a justa regra jurídica para cada caso. exatamente. pondera o Ministro Carlos Alberto Direito. A decisão judicial é. emoções. como vimos. está sob a influência condicionante de uma série de fatores subjetivos e objetivos que não podem ser evitados. “Não pode a justiça dar respostas mortas a perguntas vivas. Deve o juiz obediência à lei mesmo que ela seja injusta? Já ficou destacado que o nosso sistema jurídico. ignorando a realidade social subjacente. como boa-fé. REsp. para deixar de dizer o direito” (Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. crenças da pessoa humana investida do poder jurisdicional. razoabi1idade. Isso permite ao juiz exercer o seu poder criador do Direito sem se afastar das diretrizes estabe1ecidas pela ordem jurídica. força maior.

O ensino jurídico. começou em 1971. Abandonando a ensolarada cidade mediterrânea de Marselha. o juiz Etienne Ceccaldi verificou. publicou a seguinte reportagem: Ao folhear o Diário Oficial francês do último dia 9 de maio. simplesmente. [p. 163] Mas se Bodourian foi à falência.Capítulo XIII RAZÕES SOCIAIS DAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DOS MAGISTRADOS A vitaliciedade: objetivo. teria sido das grandes companhias petrolíferas. falsificar condições de concorrências públicas e outras falcatruas do gênero. onde se encontrava como juiz substituto. resolveu que não iria. O Ministério Público. sob o título “O caso Ceccaldi”. A revista Veja. a Defensoria Pública e o advogado. E. seus cheques sem fundo assolavam regularmente a praça. na primeira grande greve de juízes da história da França. segundo ele. Todas essas acusações. quando um certo Roger Bodourian.300 membros do Sindicato da Magistratura cruzaram os braços. na semana passada. O juiz. montar manobras de dumping. Irredutibilidade de vencimentos. a culpa. A inamovibilidade. foi à falência em Marselha.000 habitantes perdida nas brumas da Normandia. como constataria mais tarde uma comissão de . no extremo oposto da França. Tão curiosos. em sinal de solidariedade a Ceccaldi. pequeno atacadista de óleo diesel para aquecimento domiciliar. cujos dirigentes se reuniam periodicamente para elevar preços. que publicaram certos detalhes curiosos sobre os processos a cargo de Ceccaldi em Marselha. A transferência de Ceccaldi. vila de 18. e um de seus sócios seria preso mais tarde por tráfico de dólares falsos. como o Ministério da Justiça insistisse. de 16 de junho de 1976. que acabava de ser transferido. consternado. de fato . na verdade. um domingo. o caso acabou chegando aos jornais.e envolvendo petróleo. Bodourian não era nenhum paradigma de honestidade. Ceccaldi deveria assumir as funções de procurador público em Hazebrouck. 1. corrupção e pressões políticas que.

as forças que pressionaram por seu afastamento terão triunfado. Ceccaldi seria efetivamente removido de Marselha. eram absolutamente verídicas. assegurando-se o . Transferido para Lyon. independentemente de quem esteja nos pólos da relação jurídica processual. Mas ficaram por isso mesmo.inquérito do Ministério das Finanças. assinou um protocolo com as companhias petrolíferas. Ceccaldi não tardou a convocar para depor 43 dirigentes das maiores empresas petrolíferas internacionais acusadas de abuso de poder econômico.várias delas misteriosamente fotocopiadas e reproduzidas nos jornais das últimas semanas .inclusive o delegado mais conhecido da cidade. por exemplo. Casado. Ao mesmo tempo. O caso Ceccaldi coloca em destaque vários aspectos da função de julgar que merecem especial atenção. mas impermeável a certas sutilezas da vida política. Jean Lecanuet. graças à intervenção do prefeito socialista de Marselha. porém.para que esquecesse numa gaveta qualquer o processo contra as companhias petrolíferas. apenas em 1973 o presidente Valery Giscard d'Estaing. Em qualquer hipótese. ele já se notabilizara naquela época como competente. Logo no seu primeiro posto. Pior ainda. voltaram às mãos do mesmo Ceccaldi. 164] que bem entendesse em qualquer lugar da França. com o caso Bodourian. com 39 anos. E em 1974. Bodourian tinha iniciado também um processo na Justiça marselhesa. restaria apenas o recurso definitivo de ameaçá-lo com alguma remota possessão francesa de além-mar. chamado a Paris para uma reunião de doze horas no Ministério da Justiça. E o caso foi justamente parar nas mãos de Ceccaldi. foi obrigado a entregar a seus superiores o processo . parecia inclinado a tentar uma solução de compromisso. sua atividade não seria mais tranqüila. Se não aceitasse. A justiça deve ser distribuída de forma imparcial. inclusive Paris. Para começar. porém. com quatro filhos. O problema é que. Em Marselha. em que estas se comprometiam a mudar seus métodos para salvaguarda da livre concorrência.dos juízes. Nessas condições. condenou um influente político governista por fraude fiscal. Para desgraça do Ministério. se extraviou. que acabou mandando prender dezenas de policiais . os autos foram miraculosamente encontrados quatro meses depois. o Ministro da Justiça. mas poderia escolher a promoção [p. Ceccaldi ignorou as inúmeras sugestões diretas e indiretas de seus superiores hierárquicos . examinou com tanta diligência um processo de prostituição.que logo depois. além de suas reclamações inúteis junto ao Ministério das Finanças. obviamente. Obrigado na semana passada a aceitar a inédita humilhação de uma greve inteiramente ilegal. Gaston Deferre. continuando seu trabalho. nada mais natural que um dia se visse transferido de Marselha para um outro lugar. então Ministro das Finanças.

sem aparato material para fazer cumprir suas decisões. Esta independência. consubstanciadas na vitaliciedade. no exercício de suas atribuições. mas sim para tomar efetiva e eficiente a função de julgar. p. privilégios ou regalias da magistratura como muitos pensam. o Judiciário é um poder desarmado. pelo seu conteúdo e pela sua finalidade. Surge então a questão: Como propiciar ao Judiciário as condições necessárias para julgar com imparcialidade e dar às suas decisões a força indispensável para que sejam cumpridas? A força do Judiciário no Brasil. que se ache liberto de qualquer pressão. indispensável é. [p. não se deve subordinar a nenhum poder. não pode perder o cargo a não ser por decisão judicial. que permaneça intocável a qualquer coação. ele não se deve submeter a nenhuma autoridade. a fortalecer a independência funcional do Poder Judiciário. política ou economicamente poderoso. a sua conduta. A VITALICIEDADE O juiz. Lições de Direito Constitucional. ainda que seja o Presidente da República ou o Governador do Estado. entretanto. Visam. a justiça não passará de uma farsa e toda a ordem jurídica ficará comprometida. o juiz possa fazê-lo em sã consciência. Acontece. salvo à força e ao prestígio da própria Lei” (Rosah Russomano. 304). Evidente que. Às vezes. Nenhuma autoridade ou potentado poderá ter meios de intimidá-lo ou de nortear. na inamovibilidade e na irredutibilidade de vencimentos. “essas garantias traduzem a independência de ordem política que o juiz deve auferir. 165] Em sua aplicação na vida cotidiana. 69. muito embora tenham elas que prevalecer sobre a decisão de qualquer outra autoridade. capaz de forçar uma decisão favorável ainda que o direito lhe seja totalmente contrário. a seu turno. não são para favorecer o juiz. acima de tudo. vêm das garantias que a Constituição lhe confere. ou Estadual (Presidente da .pleno exercício de qualquer direito a todo aquele que efetivamente o tiver. consoante a qual. portanto. e sua independência como Poder. Essas garantias. que nem sempre os pratos da balança da justiça têm peso igual. Por outro lado. Isto quer dizer que em hipótese alguma o chefe do Executivo Federal. representa o alicerce sobre o qual se erige a independência jurídica do juiz. de acordo com a ordem jurídica existente. de um lado da demanda está alguém influente. 1970. bem como a integridade do regime democrático. Para que. ao interpretar e aplicar a lei. mesmo de longe e veladamente. Os demais poderes estatais não podem ter sequer a possibilidade de exercer uma atuação indevida na órbita em que o magistrado atua. em princípio. se essa pressão puder ser feita sobre o julgador.

95. letras a e c da referida lei.1979). por julgar com imparcialidade e honestidade. por contraste. submeterem-se a todas as ordens ou decisões dos seus superiores hierárquicos. Ninguém poderá ameaçá-lo por ser correto e fiel no exercício da sua função. ainda assim por decisão de dois terços dos membros. a demissão seja precedida de inquérito administrativo para apurar falta grave. simplesmente para não perderem o chamado “cargo de confiança”. jamais virá a perder o cargo. A Constituição de 88 dispõe no mesmo sentido . De acordo com o art. e a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 35. 26. item II. I e parágrafo único. O Objetivo da Vitaliciedade A razão ou objetivo da vitaliciedade é dar ao magistrado a segurança e tranqüilidade necessárias para que possa julgar sem sofrer qualquer pressão quanto ao seu cargo. 70.República ou Governador) pode demitir um magistrado. poderá decretar a perda do cargo. a qualquer título. e o exercício de atividade político-partidária. de 14. Se isso pudesse ocorrer com o Judiciário. 166] A importância dessa garantia pode ser constatada.arts. por mais absurdas ou arbitrárias que sejam. Seguro está o juiz de que. . 69. A INAMOVIBILIDADE O juiz não pode ser removido compulsoriamente de sua sede de atividade (comarca e vara). integrantes de outros poderes. salvo por motivo de interesse público e pelo voto de dois terços dos membros do seu Tribunal. a vitaliciedade ficou um pouco mais limitada.03. recebimento.1. neste último caso. Tratando-se de juiz. muito embora possa fazer isso com relação a qualquer funcionário público. no fato de certas autoridades dos mais elevados escalões. seja a sua decisão contra quem for. o magistrado pode perder o cargo em virtude do exercício de qualquer outra função. voltaríamos aos tempos medievais e a justiça não funcionaria. 93. ainda que estável. VIII. de abril de 1977. salvo um cargo de magistério superior. [p. desde que. somente o Tribunal a que o mesmo estiver vinculado. Após a Emenda Constitucional n° 7. de percentagens ou custas nos processos de sua competência. visto que passou a ser adquirida somente depois de dois anos de exercício da magistratura (estágio confirmatório) e as hipóteses de perda do cargo tornaram-se mais numerosas.

se os vencimentos dos magistrados não forem corrigidos monetariamente nos mesmos índices inflacionários. Tal como a vitaliciedade. normalmente. diferentemente de qualquer outro funcionário público. ou da capital para o interior. às vezes maior que os próprios vencimentos e que já passou a integrar o seu orçamento. e passa anos e anos até chegar às comarcas de entrância mais elevada ou à capital. A partir da Constituição de 88 os vencimentos do funcionalismo em geral passaram também a ser irredutíveis. com fatais seqüelas para a sociedade. A justiça passaria a ser uma barganha de lugares. só pode ocorrer com o seu assentimento expressamente manifestado. A remoção do juiz. entretanto. Nesse particular. . começa a sua carreira nas pequenas e longínquas comarcas do interior. Num país inflacionário como o nosso até bem pouco tempo. a irredutibilidade tem por objetivo não sujeitá-los a qualquer tipo de pressão econômica. 167] Com relação aos magistrados. como sói acontecer em outros segmentos da administração. muito embora estejam sujeitos aos impostos gerais e extraordinários.Significa dizer que o magistrado. não pode ser transferido do lugar onde exerce as suas funções. significa castigo tão violento quanto uma demissão. bastará que não se corrija adequadamente os vencimentos dos juízes para que em poucos anos estejam com os salários aviltados. ou premiar outro com a remoção para um lugar melhor como meio de obter uma decisão favorável. O juiz. a inamovibilidade destina-se a garantir o exercício da função de julgar. Às vezes a transferência de uma cidade para outra. acabariam a segurança. sempre ocupando os melhores e mais elevados postos os que mais dispostos estivessem a fazer tudo o que o “patrão” ordenar (e não a lei). A IRREDUTIBILIDADE DE VENCIMENTOS Os vencimentos dos magistrados não podem ser reduzidos. a tranqüilidade e a imparcialidade do magistrado. cumpre assinalar que a inflação pode fazer da irredutibilidade uma garantia totalmente irrisória. 71. uma das formas mais eficazes de tirar a segurança e independência de quem quer que seja. Se fosse possível pressioná-lo com uma transferência compulsória para que viesse a julgar dessa ou daquela forma. salvo na hipótese de interesse público. Nem mesmo é obrigado a aceitar uma promoção que implique em sua transferência. numa completa dependência econômica do Executivo. [p. esperamos que não volte a sê-lo. Todos os que exercem “função gratificada” sabem perfeitamente a que um servidor público se sujeita para não perder a gratificação.

sendo esta. a independência da magistratura. uma fachada nobre para ocultar do povo a realidade das discriminações e das injustiças. Com isto. 168] cia de aparelhamento constitucional. A rigor. por sua vez. que precisa de juízes imparciais para harmonização pacífica e justa dos conflitos de direito. mas perderá a autonomia e a proeminência arbitral. uma necessidade da liberdade individual. Ele conservará a peculiaridade. a autoridade do Poder Judiciário na consciência dos cidadãos. entretanto. pois caso contrário nada significará a irredutibilidade. Não se pode perder de vista.2000). a independência da magistratura é necessária para o povo. Resumindo todas as considerações atrás expendidas. tal como hoje. para que o juiz não sofra pressões econômicas. o juiz que se verga a interesses o faz não por falta de garantias. pois tem independência. só reforçou. simplesmente por ser inócuo proibir reduzir o que já nasceu reduzido. 23. com a colaboração reprovável de altos tribunais. No Brasil. como estorvo ao programa de supressão das liberdades individuais. paradoxalmente. ser reduzida a uma farsa. a assegurar a independência do Judiciário. não hesitou em suspendê-la. porém. para representar interesses que essa própria estrutura organizacional lhe infundirá. facilmente. em sua preciosa obra O Poder dos Juízes (Editora Saraiva. O regime militar. poderíamos concluir com as palavras do Ministro Carlos Mário Velloso: “O juiz brasileiro tem tudo para julgar do acordo com sua consciência. o Legislativo e Executivo. pois sem esta a atividade jurisdicional pode. pode-se afirmar que os juízes têm obrigação de defender sua independência. inamovibilidade e irredutibilidade salarial. o Professor Fábio Konder Comparato. da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: “Raramente na vida política brasileira. que as garantias constitucionais dos magistrados destinam-se. em seu pleno sentido axiológico e funcional. tem sido tão necessário e urgente entender.[p. .” A isto acrescentou o jurista Raymundo Faoro quando ainda presidente da OAB: “O maior risco à integridade do Judiciário será convertê-lo em organização burocrática. 1996) acentua: “Longe de ser um privilégio para os juízes. a firme e autorizada posição de um dos mais consagrados juristas da atualidade. em última instância.Necessário se faz também. Agora. ainda que mantida a aparên. que seus vencimentos sejam compatíveis com as elevadas funções que exerce e a pesada responsabilidade que sobre ele pesa. condição indispensável à proteção dos direitos humanos e à integralidade do próprio regime democrático. em seu tempo de fastígio. por isso mesmo. mais deletério: solapam a dignidade dos juízes. mas por falta de caráter” ( O Globo. com o indisfarçado intuito de transformá-los em dóceis instrumentos de proteção às políticas governamentais. agem de modo subreptício e.” Por último.08. O professor Dalmo de Abreu Dalari.

como instituição essencial à função jurisdicional do Estado. A despeito da sua dificuldade orçamentária e da má vontade de alguns governos. quando não atua como simples fiscal da lei. 5° da Constituição assegura o contraditório e a ampla defesa aos litigantes em geral. A Defensoria Pública é outra instituição da maior relevância para a boa aplicação do direito. Por fim. A DEFENSORIA PÚBLICA E O ADVOGADO Além dos magistrados. para que possa atuar também com segurança e independência. na forma do art. cuja existência tem base constitucional. a assistência judiciária está entre esses meios e recursos. o inciso LV. O Estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a organizar a Defensoria Pública. Seria um verdadeiro escárnio se o nosso País. exatamente no cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. no inciso LXXIV desse mesmo artigo. sem os quais não se pode fazer uma boa e regular distribuição da justiça. Sem dúvida. o art. a Constituição impõe ao Estado o dever de prestar assistência jurídica integral e gratuita aos que provarem insuficiência de recursos. O MINISTÉRIO PÚBLICO. eficientes. o defensor dos seus direitos. Com efeito. com a supressão prática de um Judiciário independente. portanto. da [p. 134 da mesma Constituição estipula que à Defensoria Pública. basta lembrar que a sua função é altamente social pois é o advogado da sociedade. merecendo real destaque o Ministério Público. 72. cuja estrutura administrativa tem servido de modelo para outros Estados. O objeto deste singelo trabalho não comporta maiores considerações a respeito. em processo judicial ou administrativo. o triste espetáculo de uma involução institucional na defesa da dignidade humana” (Artigo intitulado “Juízes Independentes ou Funcionários Subordinados?”). desse às novas gerações de brasileiros. com os meios e recursos a ela inerentes. razão pela qual limitamo-nos a dizer que todas as questões levantadas em tomo do Judiciário são também pertinentes aos demais instrumentos humanos que atuam na ordem jurídica e merecem idêntica atenção. outros elementos humanos atuam na ordem jurídica. 169] maior importância social estabelecer as suas prerrogativas ou garantias legais. a Defensoria Pública do Rio . em todos os graus. Com relação ao Ministério Público. incumbem a orientação jurídica e a defesa. para que sejam preparados. Reveste-se.“Ninguém ignora que a independência da magistratura é uma das mais importantes garantias do sistema de proteção aos direitos humanos. 5°. a forma de selecionar os seus membros. a Defensoria Pública e o Advogado. mesmo que contra os poderosos e influentes. razão pela qual. do art. dos necessitados. LXXIV.

14. lamenta o desinteresse do poder público pela Defensoria Pública. O último Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM). é um paradoxo que a União tenha celebrado convenções internacionais com Holanda. sem o que o funcionamento do Judiciário seria impossível em certas áreas e lugares. mas hoje penso diferente.vem prestando extraordinário serviço às comunidades carentes. reprovou o ensino médio no país. elas funcionam precariamente. O ensino do direito em nosso país tem sido duramente criticado nas últimas décadas. 59% dos estudantes brasileiros não conseguem ler mais do que frases simples. pelas quais se compromete a dar assistência jurídica gratuita aos cidadãos desses países por meio da Defensoria Pública. E aí está outra grave causa da morosidade da justiça. população carcerária. ela não tem condições de defender nem os interesses dos cidadãos brasileiros mais necessitados (O Globo. 74% tiveram notas abaixo de 40 numa escala de zero a cem. com raras exceções. a Defensoria Pública não passa de uma ficção em nível federal. 13.3 milhões de estudantes que fizeram o ENEM. vítimas de maus tratos. Cerca de 70% dos processos da área criminal e 50% das varas de família são patrocinados pela Defensoria Pública. A Defensoria Pública não funciona melhor por falta de disposição política do Executivo e entraves burocráticos. 170] Fala-se no momento que a Defensoria Pública é um dos itens prioritários da reforma do Judiciário. é até apontado como o grande responsável pelo rebaixamento do nível profissional das carreiras jurídicas.11. Já fiz parte desse grupo. desde que a reforma não fique no papel. O Ministro Celso de Mello. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. Tem ela ainda importante atuação na defesa dos direitos humanos e dos consumidores. seguem o mesmo exemplo: oito não criaram defensorias e. Para ele. Quando o assunto é . em outros. A defesa dos necessitados é uma tarefa que a União sempre se recusou a cumprir. assistência a crianças e adolescentes. Lamentavelmente. temos como certo que uma das questões de maior relevância diz respeito ao seu preparo profissional. Ao concluir a 4ª série do ensino fundamental.08.2000). Menos de 1% dos alunos das escolas públicas conseguiu tirar mais de 70 (O Globo. Pela deficiência de quadros. cujo resultado foi divulgado em novembro de 2002. O ENSINO JURÍDICO Quanto ao advogado. o que será muito bom. A crise é muito mais profunda. não obstante os dispositivos constitucionais existentes. Bélgica e Argentina. Os estados também. 73. E o problema já vem do ensino fundamental. Dos 1.2002). [p.

atrás do México e da Letônia.04. Esse baixo desempenho do nosso ensino fundamental e médio. Salvador. E assim como não se pode colocar telhado onde não há alicerce nem paredes. 52% deles mal consegue decifrar uma operação simples de somar ou subtrair. No fim do ensino fundamental. Na visão da doutora em educação Magda Soares. O Brasil ficou em último lugar no Pisa2000 .2003) com base em dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico desde 1995. 44% estavam em escolas privadas. “A raiz do problema está na sala de aula.4% dos alunos estão no nível adequado para a série. O Brasil.2003). Esse é o diagnóstico da educação brasileira apresentada pelo próprio Ministério da Educação (22. a formação deficiente dos professores é a principal causa desse vexame. onde as coisas acontecem. como já salientado. 98% dos que tiveram avaliações consideradas muito críticas estudam em escolas públicas. também não se pode ministrar um curso superior de alto nível a quem não tem sólida formação educacional média e fundamental. O ensino superior é o acabamento de um processo educativo que começa no berço. 171] anos é analfabeta funcional: sabe ler as palavras.05.04. Os fatores convergem para esse ponto comum. Entre os que tiveram resultado adequado à sua série.Programa Internacional de Avaliação de Estudantes . além de incentivar esses profissionais com o pagamento de salários dignos e justos” (Entrevista ao jornal A Tarde. a maioria dos jovens brasileiros entre 15 e 16 [p. ficou em último lugar.matemática. promover constantemente cursos de atualização e reciclagem. mas principalmente o magistério e as . Entre os estudantes de 4a série. 25. principalmente nas escolas públicas. Só 4. É lá que os professores têm que desenvolver nos alunos as habilidades para compreender textos e utilizar conhecimentos adquiridos. Deve-se investir na formação dos educadores. Em resumo. considerada uma das maiores autoridades do assunto na América Latina e Professora da Universidade de Minas Gerais. O foco deve ser em cima dos responsáveis pela transmissão do conhecimento: os professores. levou a outro resultado alarmante. que analisou o nível de compreensão leitora (letramento) de alunos secundaristas de 32 países.pesquisa feita entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. 60% dos alunos com avaliação adequada estão em escolas particulares e 98% daqueles com resultados muito críticos estudam em escolas públicas (O Globo. 23. Indagariam os leitores: mas o que o ensino fundamental e médio tem a ver com o ensino jurídico? Tem tudo a ver. O fracasso do ensino médio e fundamental em nosso país prejudica a formação de todas as profissões que exigem nível universitário.2003). mas é incapaz de decodificar seus significados.

carreiras jurídicas (Magistrados. Mais que as outras.” . Com muita propriedade. O verdadeiro. senão único. capacidade de ler. no Direito consagrado. Tanto é assim que. propriamente dito. ao sair da faculdade. Como não há vantagem alguma em se usar um método exclusivamente prático nem outro predominantemente teórico. iniciativa da maior relevância. por melhor que seja o ensino jurídico. Caio Tácito: “Numa sociedade estável é compreensível que os professores de Direito se limitem a preparar os alunos mediante estudos sistemáticos dos institutos e normas existentes. No que diz respeito ao ensino do Direito. a maioria cursou o fundamental e o médio em boas escolas particulares. harmonizar o ensino teórico com o prático. sempre que possível. segundo os técnicos em educação. dotados de um sentido de permanência. de tal forma que se transmita uma cultura jurídica suscetível de ser revogada por uma lei nova. compreender e usar aquilo que se lê. se instaura um processo mais ou menos constante de revisão legislativa. perde sentido o preparo. essas profissões dependem do completo domínio da língua. Para suprir a deficiência muitos cursos de Direito incluíram em seus currículos o estudo do português jurídico (linguagem argumentativa que ensina a organizar o pensamento para. 172] uma ciência teórica quanto ao modo de estudar e saber. ainda que excelente. exprimindo as alternativas de transformação da sociedade que o Direito disciplina. embora seja [p. familiarizando o jurista com os pressupostos da norma jurídica e habilitando-o a solucionar e compor as controvérsias e os conflitos de interesses. de modo a privilegiar mais íntimo entrelaçamento entre a teoria e a prática. cumpre pois. Logo. E a leitura e a escrita. não se pode conseguir ótimos resultados se a formação do estudante no primeiro e segundo graus foi deficiente. acentuou o Prof. dos aprovados em concursos públicos. objetivo válido da preparação científica e profissional do advogado (entendida a expressão em sentido amplo e não apenas forense) é o do relacionamento entre a lei e a realidade social. precisam ter tirocínio e raciocínio. não se sinta perdido e incapaz de dar os primeiros passos na vida forense. pois o direito. entendemos ser necessária uma mudança metodológica. Quando. Ministério Público. Defensores e Advogados). porém. são desenvolvidas entre os 4 e 10 anos. que tem produzido resultados satisfatórios. sendo muito difícil depois disso recuperar essa capacidade. dizer o que as coisas são). é eminentemente prático quanto ao fim. nem o jurista esotérico afastado da realidade: deve ser suficientemente teórico para insuflar no discente o conhecimento geral da ciência jurídica. Procuradores. de forma lógica e coerente. e suficientemente prático para que o bacharel. O curso de Direito não visa preparar o rábula.

Dessa forma poderemos ter advogados competentes. preparar o estudante para resolver problemas. Há um provérbio chinês. É preciso ensinar-lhes a pescar. e a justiça poderá ser distribuída de forma mais eficiente. lembrado pelo Prof. ensina-o a pescar e o alimentarás para o resto da vida. preparados para enfrentar até mesmo o imprevisível em face da rapidez com que as normas jurídicas tendem a se modificar. que vem a propósito de tudo aquilo que até aqui se afirmou: “Dá um peixe a um homem e matarás a sua fome por um dia. mediante informações e conhecimentos. o alvo da educação atual deve ser a conquista do raciocínio jurídico. rápida e equilibrada. mediante um ensino teórico e prático que os capacite efetivamente para o exercício da advocacia. Gabriel Lacerda. como vem fazendo o ensino jurídico tradicional. dando tratamento jurídico aos fenômenos sociais. Não basta fornecer peixes aos alunos ou indicar-lhes o mar. o provérbio dispensa maiores comentários. . fixar princípios através do exame de casos atuais. e não simplesmente o domínio do direito positivo e da doutrina jurídica.” Cremos que.Em suma. por sua clareza.

O sentimento coletivo de justiça. Essas correntes de opinião. como muito bem observou F. [p. 175] Esse pensamento coletivo a que nos referimos não é a soma de todas as opiniões particulares. assinalar que se trata de algo extremamente impreciso e mutável aquilo que se denomina opinião pública. mas sim o resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. compondo um universo de opiniões que se manifestam em determinado momento e lugar. A opinião pública sobre as instituições jurídicas. 1973. . Importância da opinião pública. É o juízo coletivo adotado e exteriorizado por um grupo. apresentam certos traços gerais e algumas tendências uniformes. A opinião pública sobre o direito e sua utilidade social. A. formando afirmações de natureza majoritária ou predominante. **** Chegamos agora ao terceiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica: Estudo da Opinião Pública sobre o Direito e suas Instituições. p. podemos afirmar que opinião pública é o pensamento predominante do grupo sobre uma determinada pessoa ou questão. desde logo..Capítulo XIV A OPINIÃO PÚBLICA Concepção de opinião pública. concorrentes ou divergentes. de Miranda Rosa em sua obra Sociologia do Direito (2ª ed. mas sim diversas correntes de opinião. não existe uma opinião pública. 157). 74. O poder da mídia na formação da opinião pública. Cumpre. CONCEPÇÃO DE OPINIÃO PÚBLICA De forma simples e sintética. A rigor. coexistentes sem conflito ou contraditórias em graus diversos. nem sua síntese. entretanto.

no comum das circunstâncias. imediatamente ocorrerá um tumulto tão grande e desesperado que acabará ferindo e matando mais gente atropelada e pisoteada do que queimada pelo próprio fogo. Os indivíduos formadores da sociedade não desaparecem. resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. Embora a idéia de síntese não deixe de ser verdadeira. como . pois.Ocorre com a opinião pública algo semelhante ao que ocorre entre a sociedade e o indivíduo. a realização da síntese anula e faz desaparecerem os elementos componentes. o que restará? Ele próprio responde: nada. apenas formam uma realidade nova . Em razão de determinados processos sociais. do revolucionário etc. quando em grupo. como os elementos de que se compõe.o Social. a sua síntese. mas o seu conjunto. Salvo hipóteses excepcionais de massificação coletiva. um modo de ser adjetivo derivado da vida individual. portanto.o Coletivo. normalmente se empenhará em apagá-lo buscando auxílio de outras pessoas. que em muitos casos se conserva tão independente que pode assumir figuras variadas do anti-social. já que só se pode somar quantidades homogêneas. A multidão em tumulto é capaz de cometer os mais hediondos crimes. uma nova realidade. A sociedade seria. não anula a vida individual. toma-se falha quando levada a exageros. o comportamento do indivíduo. Na química. da formulação de G. Isso evidencia. Exemplo: na formação da água (H20). daria um composto novo e diferente . tomada de empréstimo à terminologia química. para darem lugar à água. por Síntese. Se alguém estiver sozinho em casa e observar que algo está pegando fogo. Se tirarmos os indivíduos da sociedade. do gênio. Ora. 176] “fogo”. indagava. levando-o a fazer coisas de que jamais se imaginou capaz. Tudo que atrás ficou exposto pode ser claramente constatado mediante simples comparação entre o comportamento individual e o coletivo. como soma. ao propor a substituição da palavra Soma. as parcelas e o resultado têm de ser da mesma natureza. e. Os elementos componentes seriam de natureza psicológica. À essa tese psicológica e nominalista se opunha Durkheim. Mas se estiver em um teatro ou cinema e escutar alguém gritar [p. Tarde. o oxigênio e o hidrogênio deixam de existir como substâncias isoladas a partir do momento da síntese. Para Tarde. que o coletivo não é a soma dos indivíduos nem é a síntese de todos: é um novo produto. uma natureza de ordem psicológica. como no caso do delinqüente. pode mudar profundamente. como o de amarrar um mendigo ao poste e matá-lo a pauladas. isso não ocorre na síntese social. o coletivo. a sociedade não passa de mera soma de consciências individuais.

Idéias. Legislativo e Judiciário. Conforme já assinalado. transformam-se em conversação quase que diária. 74. até então. E Willems (Dicionário de Sociologia. é um processo lento de sedimentação da vontade popular. e os poderes de natureza econômica e sociológica. p. não só porque o . ao determinar respostas também recíprocas. implica que o comportamento de cada indivíduo que dele participa não está inteiramente sob controle individual. Globo. vai se formando a opinião pública. implica que cada um dos indivíduos em apreço responde. 223-224). coisa semelhante ocorre com a opinião pública: não é a soma nem a síntese da opinião de todos: é um novo produto. comunicando-lhe e intensificando o processo de estimulação que se repete. às influências dos demais. de qualquer tipo. que vão se sedimentando e. que se sensibiliza por algum motivo.aconteceu anos atrás em um subúrbio do Grande Rio. exerceu e recebeu dos demais. Representa a tendência geral. escola etc. Tal é a sua força que até é chamada de quarto poder. um modo de ser decorrente da opinião de cada indivíduo e das influências que cada um. começam os comentários no círculo primário (família. uma nova realidade. é o grande formador da opinião pública. A mídia é. consciente ou inconscientemente. O Poder da Mídia na Formação da Opinião Pública Como se forma a opinião pública? Quais os instrumentos eficazes para esse fim? A formação da opinião pública. nas palavras de Donald Pierson (Teoria e Pesquisa em Sociologia. sem dúvida. mas não é necessariamente a opinião de todos os membros nem a opinião de qualquer pessoa em particular. via de regra. a imprensa escrita e falada. trabalho. irrepreensível.). 13ª ed. 286) explica o mesmo fenômeno falando em reação circular. muito embora fossem todos os componentes do grupo pessoas pacatas e de comportamento. que se exercem pelo Executivo. O Poder tem várias formas: os poderes constitucionalmente instalados. Porto Alegre. [p. assim. que é uma forma de estimulação recíproca pela qual a reação de um indivíduo reproduz o estímulo que recebeu de outro indivíduo.. Trata-se em última instância de uma reciprocidade de estimulação que.1. pp. condutas e informações são lançadas na coletividade. É que o comportamento coletivo. provoca uma espiral ascendente e de dimensões crescentes. um poder em sua concepção sociológica. consciente ou inconscientemente. a mídia como um todo. 177] No que diz respeito aos instrumentos.

Pois esse é o poder da mídia. dos Tribunais. que é a tarefa própria do Poder Judiciário. No mínimo vem embalada da maneira que melhor atinja os interesses dos detentores do poder. o que contribui para a formação de uma opinião estereotipada e sensacionalista (Manual de Sociologia Jurídica. cultos e ignorantes. por meio de uma linguagem emocional. no que se refere à Justiça e seu funcionamento. 175). Há até quem fale em liberdade de empresa e não em liberdade de imprensa. E ainda convencidos de estarem pensando por si próprios. A mídia sempre esteve próxima do poder estatal e econômico. contribuindo decisivamente para que ela se torne cada vez mais transparente. tornando-se mercadoria. Costuma-se dizer que existem três formas de poder efetivo: o poder de punir. escreve com propriedade Carneiro Leão (Fundamentos da Sociologia. ao desejo inato de conquistar aprovação e simpatia. até os mais longínquos pontos do país. Dessa maneira a notícia acaba. p. mas também que eles pensem como pensamos. cativante. pode-se fazer com que alguém faça o que deve ser feito. Ed. podemos não somente fazer que os outros façam o que queremos. colorida. o poder de premiar e o poder de condicionar. Punindo. sem contestação. “é a um tempo criadora e modificadora poderosa do comportamento social”. que alcança palacetes e favelas. [p. Observa Ana Lúcia Sabadell que a mídia. 178] 75. Poder que penetra nas casas. e isso faz com que a informação nem sempre seja fidedigna e confiável. nos países de livre manifestação de . é tratada de tal forma que já vem comentada. p. 181). explícita ou implicitamente. Baseada na importância que dão todos à crítica. Entretanto. além daquele estritamente jornalístico. condicionando. muitas vezes. porque tem o poder de condicionar. ricos e pobres. IMPORTÂNCIA DA OPINIÃO PÚBLICA “A opinião pública”. “dá particular destaque aos problemas e escândalos (exemplo: corrupção de juízes) e nunca noticia o cotidiano normal do sistema jurídico”. Rev. A grande problemática é que a imprensa brasileira tem muitos outros interesses. a opinião pública. 5ª ed. pode-se dizer que o jornalismo brasileiro evoluiu nos últimos dez anos e muito contribuiu para a fiscalização da gestão pública. premiando..poderoso sistema de comunicação de massa possa eventualmente derrubar um mandatário político. persuasiva. mas também e principalmente. também podemos levar as pessoas a fazer o que queremos. A forma implícita é a mais grave porque o comentário acaba virando notícia. no seio das famílias.

produtos ou empreendimentos. vivem de olho nas pesquisas feitas sobre a preferência do eleitorado. como muito oportunamente lembrou K.pensamento. fruto de condicionamentos sociais. pode derrubar do poder quem lá se encontra e colocar outro. Daí a grande força que possui a imprensa escrita e falada. pode dar início à guerra ou levar à revolução. 85). porque sabem que para chegar ou manter-se no poder precisam ter o apoio da opinião pública. tem a opinião pública especial importância para a Sociologia Jurídica porque age como um verdadeiro termômetro. Davis (A Sociedade Humana. a primeira verificação da opinião pública que se impõe realizar é no que concerne ao sentimento coletivo de justiça. Por isso. Os programas de televisão vivem fazendo pesquisa de opinião pública para saberem como agradar o público e merecer a preferência de audiência. porque no Brasil. tanto quanto possível aproximado da realidade e com previsões a respeito de suas tendências e da evolução provável. 76. Dúvidas não temos em dizer que nossa legislação é hoje tão ineficaz. para serem lembradas na hora em que se vai às compras. 179] No campo do Direito. Os políticos. ou pelo menos não tê-Ia contra. lamentavelmente. [p. É em razão disso que. As empresas vivem oferecendo seus produtos através das propagandas mais atraentes e sofisticadas possíveis. é indispensável ao estudo de qualquer ciência social. p. tanto as empresas como os políticos mantêm grupos cuja missão consiste em pesquisar e despertar a simpatia do povo para suas atividades. A mudança de gosto público pode arruinar uma indústria ou enriquecer outra. um sentimento acerca do certo e do errado. pode atingir enormes proporções. mesmo . Isto tudo evidencia que o conhecimento da opinião pública. revelando ao legislador e demais autoridades que atuam na ordem jurídica a temperatura social em tomo de questões sociais relevantes e indicando as mudanças que precisam ser feitas nas leis e nas instituições jurídicas. não se dá atenção à opinião pública no que diz respeito a tais questões. do justo e do injusto. O efeito maciço de uma tomada de posição feita por milhares ou milhões de pessoas. O SENTIMENTO COLETIVO DE JUSTIÇA Há em todo indivíduo. pode fazer de um anônimo um herói ou do herói um vilão. agindo em caráter particular. como órgão de informação e formação de opinião pública. De forma específica. e nossas instituições tão mal estruturadas e aparelhadas. constitui elemento decisivo de interação social. quando as eleições se aproximam. do bom e do mau.

prisão perpétua e outras penas mais severas. as pessoas afirmam com veemência: isto é uma injustiça. Também abarca a maneira como a opinião do público se manifesta sobre o comportamento ilícito. Assim como há um sentimento individual de justiça. Ao legislador especialmente importa conhecer o sentimento coletivo de justiça. produtoras de efeitos negativos. garantidoras da validez e eficácia das normas. bem como o afastamento de outras no futuro. Fala-se até em pena de morte. imediata. ficando ineficazes. há também um sentimento coletivo. Leis injustas existem. .sem nunca ter estudado direito ou tocado a mão em um compêndio de leis. Um crime grave. A. uma vez que nem tudo que é legal é justo. sobretudo na Europa. é possível afirmar que o sentimento de justiça varia em suas manifestações. exatamente porque foram elaboradas ao arrepio dos interesses sociais. muito embora não estejam ainda suficientemente explicadas as relações motivadoras das diversas gradações ou formas em que esse sentimento se apresenta. Baseado nos resultados de diversas pesquisas feitas. é certo etc. muda-se a opinião. de tempo para tempo e de lugar para lugar. Tal conhecimento proporcionaria também ao legislador as condições adequadas para fazer as modificações necessárias na legislação vigente. adequadas aos interesses e conveniências sociais. para que possa elaborar leis justas. frente a determinadas circunstâncias. de Miranda Rosa. muitas normas existentes tomaram-se vazias de conteúdo social. porque afastadas do sentimento coletivo de justiça. com as variações do sentimento coletivo de justiça de tempo para tempo. sua adequação ou não ao que é tido como justo. cuja aplicação vem causando profundo desequilíbrio social.É aquilo que se tem chamado de consciência jurídica da população. no qual se baseia a sociedade para estabelecer seus padrões de comportamento . repressiva. mas. escreve F. ou a distância entre a desaprovação da norma jurídica acerca da con[p. faz com que a opinião pública se incline no sentido de exigir uma justiça mais severa. sem prévia consulta à opinião pública a respeito da matéria legislada. conforme já demonstrado quando falamos dos efeitos negativos da lei. um escândalo financeiro ou político. passado o impacto. 180] duta e a desaprovação que o consenso ético-social impõe à mesma forma de comportamento. isto é justo. a aprovação social das sanções que o Direito estabelece. Freqüentemente fala-se em leis injustas. O exame do sentimento de justiça. abrange necessariamente o das normas existentes. A correção dessas distorções. principalmente no mundo econômico. Nem sempre fazer justiça consiste na simples aplicação da lei. já que. poderiam ser conseguidas mediante o prévio conhecimento do sentimento coletivo de justiça. perderam a razão de ser.

Crêem os grupos que a justiça é fenômeno dependente. pois O Estado normalmente não gera recursos. embora normalmente honestas a ponto de não tirarem um centavo de ninguém. IPI.[p. ver-se-á que a maioria do grupo entende necessário o pagamento dos impostos para a consecução de objetivos sociais. Todos compreendem que não é possível atender às despesas da administração pública com educação. Neste ponto. A sociedade global acredita no jurídico como algo indispensável à coesão e à sobrevivência grupal. conforme constatado através de pesquisas realizadas em vários países. relativo às condições de classe social. existem posições conflitantes. saúde. uma pesquisa profunda da opinião pública em tomo do assunto por parte do fisco. mas em nível interindividual há descrédito subjacente na justiça. e que isso ocorre com grande freqüência. embora seja o Direito considerado e aceito como forma mais eficaz de controle social em sua organização e aplicação. para as normas que estabelecem a obrigação tributária. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE O DIREITO E SUA UTILIDADE SOCIAL Outro aspecto da opinião pública de interesse sócio-jurídico é aquele que diz respeito à conveniência ou utilidade social do Direito. por exemplo. gaboleiam-se de terem conseguido escamotear milhões de imposto. apenas os administra em prol da coletividade. Outros entendem que ele se presta a manobras que o desvirtuam completamente. 181] butos. não seria possível eliminar algumas dessas causas e reconquistar a opinião pública? O que acima ficou dito é de fácil demonstração quando atentamos. diga-se de passagem. e um estudo minucioso das causas. a fim de se procurar modificar . Por que essa aversão generalizada ao pagamento dos tributos? Por que essa idéia já arraigada no sentido de não se considerar desonesto fraudar o fisco? Por que essa oposição ou resistência às normas tributárias? Caberia. ao nosso ver. entretanto. ninguém gosta e procura esquivar-se. Na hora de pagar o tributo. Em matéria de Imposto de Renda. Para muitos o Direito não passa de simples meio de se valerem os mais fortes da máquina estatal. sem a arrecadação dos tri. ISS. contra os oprimidos de todos os tipos. já é comum encontrarmos pessoas que.. Por que tem o Direito uma imagem tão distorcida da realidade? Conhecendo as causas que levaram a opinião pública a se formar de modo tão averso ao verdadeiro objetivo do Direito. segurança.77. ou ainda sua correta aplicação como instrumento de ordem social. estradas etc. sofre questionamento da opinião pública quanto à sua eqüidade. Se for feita uma pesquisa sobre a importância dos tributos e a necessidade de sua arrecadação. Com efeito. O mesmo ocorre com o ICMS. por exemplo.

as coisas para o futuro. não acredite que o dinheiro público esteja sendo honestamente empregado. Talvez as leis tributárias sejam mesmo extorsivas. o que sem dúvida facilitaria o trabalho de arrecadação e fiscalização. [p. houve uma tremenda reação do público. o que poderia ser evitado mediante um esforço de reconquista da confiança pública. Em nossa maneira de ver. aliviando a sobrecarga dos assalariados. pois com base em tal . antes do lançamento da taxa do lixo. sob pena de se tomar impossível a vida. ensejando milhares de ações judiciais. isso tudo poderia ser evitado se. necessidade. Do ponto de vista social. gente e material. o que poderia ser evitado mediante a reformulação do sistema tributário. 182] Contudo. forçando-o a fraudar. 78. o que seria evitado mediante amplo esclarecimento das obras realizadas. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE AS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS Aquilo que o público em geral pensa a respeito das instituições jurídicas é outro aspecto da opinião pública de interesse para a Sociologia Jurídica. objetivos. podendo-se arrecadar mais com menos esforço. Talvez o povo não esteja suficientemente esclarecido sobre o destino dado pela Administração Pública ao dinheiro arrecadado através dos tributos. O fisco deveria engendrar meios de alcançar com suas malhas os de maior capacidade econômica. de pescar também o peixe grande do comércio e da indústria. a opinião pública fosse esclarecida a respeito de suas causas. exigindo do contribuinte excessivo encargo tributário. É evidente que para a coleta desse lixo é necessária uma estrutura empresarial. Os inconvenientes de se deixar de contatar e esclarecer a opinião pública acerca de questões tributárias podem ser demonstrados com a chamada taxa do lixo. sendo a taxa exatamente para tal fim. Talvez o povo não tenha confiança na Administração. muito além de sua capacidade. acredito que ninguém conteste a necessidade de tal taxa. bem como a realização de um serviço organizado e sistemático. critérios de fixação. como no caso do Imposto de Renda que sabidamente recai mais direta e pesadamente sobre os assalariados por sofrerem o desconto na fonte. quando anos atrás a taxa começou a ser cobrada. o que em muito prejudicou a arrecadação. em que se procurasse dividir de forma mais equânime as obrigações tributárias de modo a não incidirem sempre sobre os mesmos. dos serviços executados etc. facilitando a arrecadação. eis que o lixo de uma grande cidade tem que ser recolhido diariamente e com eficiência.

A população não possui bom conhecimento do sistema jurídico. do seu grau de incidência. de modo a alcançar seus objetivos sociais. parciais. Urge igualmente um estudo das causas. tem uma imagem negativa de seus operadores. então será necessário fazer-lhe as reformas necessárias.opinião é possível saber se as instituições estão ou não funcionando satisfatoriamente. [p. ineficaz. não confia na justiça. sem credibilidade. Há uma boa parcela da opinião pública que entende serem os tribunais ou os juizes influenciáveis pelos poderosos. e. sob pena de uma desmoralização cada vez maior da instituição. o Ministério Público. assunto este da maior gravidade e a merecer uma especial atenção. a Defensoria Pública. não em segredo de justiça como se pretendeu fazer em 77/78. Se realmente estivermos empenhados em recuperar o Judiciário. tudo é justiça: a polícia. O resultado das pesquisas realizadas sobre o funcionamento do sistema judiciário não é nada animador. sua docilidade diante do poder. o sistema carcerário etc. 183] . sob pena de se tomar a instituição totalmente irrecuperável. Quando a opinião pública se forma no sentido de considerar uma determinada instituição deficiente. ou passíveis de corrupção. mas sim com base em ampla pesquisa da opinião pública e mediante ampla contribuição de todos os segmentos sociais relacionados com o mundo jurídico. ou confia muito pouco. das repercussões sociais que produz a opinião que predomina no que tange à imparcialidade dos órgãos judiciais. então é alto tempo de se procurar saber onde estão as causas dessas deficiências e de se realizarem as mudanças necessárias. ou sua vulnerabilidade às influências dos mais bem atendidos na divisão da riqueza social. acredita que só pobre vai para a cadeia. portanto.

nas sociedades contemporâneas do tipo primitivo e nas sociedades desaparecidas. dos processos e técnicas de trabalho empregados pela Sociologia Jurídica na investigação e realização do seu objeto. no estudo de qualquer ciência é indispensável estabelecer o seu objeto e definir o seu método. mas sim. 185] dos meios ou processos dispostos convenientemente para . desde logo. que não vamos tratar aqui dos métodos que são adotados desde as formações doutrinárias e teóricas da Sociologia. É o caminho utilizado para a realização de um objetivo. vamos agora dedicar este capítulo ao exame do seu método. É o conjunto [p. toma-se necessário estabelecer. para não fugirmos aos objetivos deste singelo trabalho. O método utilizado pela Sociologia Jurídica. nem do chamado “método sociológico”. CONCEITO DE MÉTODO Método é o meio mais racional e eficiente para se atingir um fim desejado. instrumentos e atividades. pois. São os meios. genérico. cujas regras foram enunciadas por Durkheim em celebrado estudo. A comparação. recursos. **** Após termos tratado do objeto da Sociologia Jurídica. de que dispõe uma ciência para realizar seu objeto. um conceito de método. Para tanto. como já afirmamos. Convém esclarecer. A observação: nas sociedades contemporâneas do tipo moderno. devidamente organizados e coordenados. ainda que de forma sucinta. 79.Capítulo XV O MÉTODO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA Conceito de método. A interpretação. abrangente.

desde a mais simples à mais complexa. Trocando isso tudo em miúdos. As empresas industriais e comerciais dos nossos dias. tomado o termo em seu sentido mais amplo. para conseguirem realizar os seus objetivos. nas mesmas 24 horas do dia. se não forem executados com método. pois. como têm feito alguns. acabam se revelando deficientes. que já fazem parte das matérias estudadas no curso de Administração. ou para comunicá-lo. mas não para aprender. está justamente no fato de as primeiras serem pessoas metódicas. basta que se diga ser ele indispensável no desempenho de qualquer atividade que se propõe a alcançar algum objetivo. propondo em lugar de “método” a palavra “processo”. Estuda para passar de ano. Hoje. podemos dizer que método é maneira eficiente de fazer as coisas. pode-se afirmar com segurança. interpretação e comparação. pp. e outras quase nada conseguem. suscitando debates por entenderem não ser próprio o vocábulo para descrever as operações intelectuais realizadas pelo investigador ainda na fase da observação propriamente dita. conseguem fazer tanta coisa. Os simples serviços domésticos realizados pela donade-casa. O estudante que não tem método nos estudos (deixa para estudar somente na hora das provas) nunca será um bom estudante. é modo racional de proceder. levam muito a sério a questão relacionada com organização e métodos. e especialmente para chegar a um conhecimento científico. pode até tirar boas notas. 80. não é muito diferente do utilizado nas ciências sociais em geral e pode ser resumido em três operações principais: observação. o método jurídico. O MÉTODO UTILIZADO PELA SOCIOLOGIA JURÍDICA Segundo Levy Brühl (Sociologia do Direito. 97-114). o método utilizado pelo jurista. mas pouco aproveitamento tirará dos estudos. que não teria a Sociologia Jurídica condições de realizar os seus objetivos sem desenvolver as suas atividades de forma metódica. Por isso torna-se desnecessária qualquer discussão em torno do uso do termo “método”. A razão pela qual algumas pessoas. Quanto à importância da utilização de um método. já está generalizado o uso do termo “método” para indicar os processos e as técnicas empregados na investigação social. 186] . [p.alcançar um fim. reunião dos meios que se empregam nas ciências para achar a verdade. Vê-se.

[p. coleta os dados. por exemplo. como os processos. Há survey para todos os fins: publicidade. pode o investigador lançar mão de vários métodos (tomada aqui a palavra em sentido estrito). ou processo de investigação feito muitas vezes por meio de questionário. por meio das quais sabemos como as leis estão sendo aplicadas. leis etc. onde os estudiosos do problema criaram uma verdadeira Sociologia Experimental baseada no survey (inquérito). conjectura uma solução provável. esporte. pois as fontes de informações são abundantes. literatura. As mais importantes fontes nessas sociedades são as escritas. a saber: a) sociedades contemporâneas de tipo moderno. adotar uma postura de observador.1. separações judiciais. Deve. como por exemplo o inquérito. divórcios etc. política etc. a fim de conhecer a realidade social através de suas manifestações concretas. 187] feiçoada nos Estados Unidos. b) as coleções de jurisprudência. e que posteriormente deverão ser examinados. entretanto. Com base nesses documentos é possível. Quem se propõe a realizar uma pesquisa. Entendê-se por inquérito a pesquisa. isenta de qualquer juízo de valor. c) sociedades desaparecidas. c) os documentos de caráter técnico. Na tarefa de coletar dados importantes para o estudo que se pretende fazer. sujeitando-se a posteriori verificação.. ocorreram no Rio de Janeiro no ano passado. define o seu objeto. o estatístico etc. A Observação Consiste a observação na coleta de dados ou fatos sociais importantes para o estudo que se está realizando. pois todos esses atos ficaram devidamente registrados. Pode a observação ser realizada em diferentes tipos de sociedades.80. saber quantos casamentos. classificados e interpretados. a ponto de não se conseguir dominá-las completamente. Quem primeiro usou esse método cientificamente na Sociologia foi o francês Le Play. como os códigos. ciência.. Nas sociedades contemporâneas de tipo moderno a observação é bastante fácil. b) sociedades contemporâneas de tipo primitivo. fundador da Escola de Ciência Social e do método monográfico. cinema. registros cartorários etc. cuja finalidade é lançar permanentes . Foi criado o Instituto da Opinião Pública. dentre as quais podemos destacar: a) os textos legislativos ou regulamentares. Em nosso século a técnica do inquérito social foi altamente aper. superabundantes mesmo. Consiste em ouvir pessoalmente os indivíduos componentes de determinado grupo que se deseja estudar.

A importância da utilização da estatística em questões sociológicas foi muito bem assinalada por Levy Brühl (Sociologia do Direito. O inquérito é geralmente realizado por uma equipe mais ou menos numerosa de pesquisadores e dirigido por um especialista mais experimentado. A estatística. é necessário estabelecer com clareza e precisão o seu objetivo (o que perguntar). aperfeiçoada nesta última década. afastando perguntas capazes de induzir a resposta ou condicionar . enumera a freqüência dos fenômenos sociais. para dela extrair as conclusões necessárias ao seu estudo. principalmente por falta de confiança nos dados fornecidos pelos órgãos oficiais. pois caso contrário as conclusões finais serão um logro. devendo-se. Na formulação dos quesitos é preciso saber perguntar (como perguntar). p. é indispensável uma formulação preliminar das hipóteses a investigar. e levantados periodicamente. conclui-se que um dos principais instrumentos de trabalho a ser utilizado para conhecê-las é a estatística.o raciocínio do entrevistado. realizadas por vários institutos e entidades respeitáveis. Há mesmo quem afirme ser a estatística o meio oficial de se afirmar inverdades. dar muita atenção à carga semântica variável de certos vocábulos ou de expressões idiomáticas. Em outras palavras. com a formação. que lhe permite chegar aos fatos. por seu turno. tão exatos quanto possíveis. pois é o agrupamento metódico dos fatos sociais suscetíveis de avaliação quantitativa. para que os dados coletados sejam realmente representativos de toda a sociedade ou da fração dela que se está investigando. 188] instituição e medi-Ia no tempo e no espaço. é preciso dispor de elementos numéricos exatos.inquéritos no seio da comunidade a fim de conhecer-lhe a opinião a respeito dos principais problemas do mundo atual e avaliar a evolução dessa opinião. à realidade social. e outros detalhes. pois há uma técnica minuciosa a ser aplicada. o que evidencia a importância da pesquisa para a Sociologia Jurídica. a fim de evitar perguntas confusas e ensejadoras de respostas dispersivas. Assim sendo. para tanto. Antes de iniciar a pesquisa. em face da . À quem perguntar é outra questão que deve merecer particular atenção. Ao longo do nosso estudo fizemos referência a dezenas de pesquisas sobre muitos temas.” O emprego da estatística no campo sócio-jurídico tem sido criticado por alguns autores. definição e delimitação do problema. É o seu método por excelência. Para apreciar o verdadeiro alcance de uma [p. entende-se por método estatístico o conjunto de processos que tem por objeto a observação. 99) ao escrever: “Tendo em vista que as instituições jurídicas são coisas coletivas. classificação formal e análise dos fenômenos coletivos ou de massa. bem como a indução das leis a que tais fenômenos globalmente obedeçam.

ouvir e observar. conforme já exposto na parte em que tratamos dos fatores sociais da evolução do direito. estados ou regiões do país? Ou então. razão pela qual o incremento da estatística jurídica é. onde se verifica a sua maior incidência etc.? Tais dados não permitiriam a adoção de uma série de medidas preventivas e repressivas? Sobre estes assuntos e muitos outros fatos jurídicos a documentação existe. posto que contêm grande número de informações não encontradiças em outros lugares. não seria difícil e de alto custo o emprego da estatística no mundo jurídico.. fica devidamente registrado. testamentos. todavia. no plano científico. esses dados são preciosos. uma medida de grande urgência. a economia. a observação é feita in locu. A Observação nas Sociedades Contemporâneas de Tipo Primitivo Nessas sociedades. sendo mesmo na maioria das vezes bastante acessível. mesmo não tendo absoluta confiança nas cifras publicadas e ainda que se apontem erros voluntários ou involuntários que se deixaram escapar. assistir às suas festas e cerimônias. mediante a presença física do pesquisador. separações judiciais. porque tudo ou quase tudo que nele se passa. reconhecimento de filhos naturais etc. pelo menos de mais relevante. Pode-se. mas do tipo moderno. verificar com grande evidência as profundas diferenças existentes entre o direito de uma e de outra sociedade. 189] de uma sociedade da mesma época. à falta de escrita. divórcios.. a política. então. Mas não foi ainda coligida e muito menos consultada. como a cultura. caso houvesse um trabalho sério e organizado de coleta dos dados. por exemplo. 80. participar de sua vida diária. a situação da família entre os nossos indígenas. ganhar sua confiança. nas diferentes cidades. O conhecimento do direito de uma sociedade do tipo primitivo adquire particular importância no momento em que é comparado com o direito [p. . a religião etc. Entendemos.2. não haverá outro meio de realizar tal pesquisa a não ser deslocando-se o pesquisador para esse meio para ali ver. por força de determinados fatores sociais. pois foram todos registrados. contemporânea. Se o propósito é conhecer. conhecer seus hábitos e costumes. que. Em tese. Quem não reconhece o quanto seria útil saber o número de casamentos. quem não vê a importância de saber o número e o tipo de crimes que ocorrem nos diferentes meios.manipulação muitas vezes feita nos dados que lhe serviram de base. Terá que se misturar com eles. principalmente em questões econômicas.

o direito primitivo apresenta traços particularmente interessantes e originais. já nosso espírito está cheio de noções prévias (prenoções) sobre sua natureza e seu comportamento. 71). Em verdade. como a dos egípcios. do particular para o geral. às sociedades que deixaram de existir. Pode-se ainda lançar mão de informações indiretas. finalmente. A INTERPRETAÇÃO A interpretação que. caldeus. hebreus etc.3. através de suas inúmeras descobertas. Quer isso dizer que os fatos sociais devem ser considerados realidades diversas das idéias. e o indutivo. isto é. que são as fornecidas por terceiros. Nessa tarefa podem-se utilizar vários métodos. pergaminhos porventura existentes. como o dedutivo. Nesse ponto a arqueologia tem contribuído grandemente para um melhor e maior conhecimento do direito de antigas civilizações. Se sobre o social.Além disso. que segue caminho inverso. A Observação nas Sociedades Desaparecidas No que se refere.[p. Possidônio sobre os trácios. que parte do geral para o particular (o que vale para o geral há de valer para o particular). a etnologia jurídica. 81. sobre as coisas nada sabemos antes da pesquisa cuja realização porventura empreendamos realizar. monumentos. muito embora a aplicação de ambos no campo sociológico seja severamente criticada. a observação está naturalmente circunscrita aos vestígios que essas sociedades deixaram. 80. devendo o intérprete livrar-se das prenoções de que a vida social nos encharca o espírito com relação aos temas da socie. Com que espírito deve o pesquisador interpretar os dados postos à sua disposição? A primeira regra e mais fundamental é considerar os fatos sociais como coisas. Não tendo . antes mesmo de iniciarmos a pesquisa. o que toma tremendamente penosa a tarefa do pesquisador.. como as que nos dá Heródoto sobre os persas. 190] dade. Ter-se-á que recorrer aos documentos escritos. consiste no exame e classificação dos fatos sociais coletados. a ponto de constituírem objeto de uma disciplina especial. Tácito sobre os germanos. p. é a segunda operação do método da Sociologia Jurídica. como vimos. Durkheim recomenda aos sociólogos o abandono desse conhecimento espúrio. extraindo-se deles as primeiras conclusões. enfatiza Machado Neto (Sociologia Jurídica.

106. diferença ou relação. libertar o espírito desses prejulgamentos e dessas prenoções. estabelece alguns princípios de interpretação que. Somos levados a dar menor atenção ao aparecimento material de um fato ou idéia. o que merece ser tomado em consideração não é o tempo astronômico. merecem ser aqui destacados: 1) O jurista e sociólogo deve dirigir sua atenção exclusivamente para os fatos jurídicos tais como tentamos defini-los. Do ponto de vista sociológico o termo não . mas sim o tempo social. por sua vez. 191] 82. a produzir seus efeitos sociais. como sói acontecer para o historiador. 3) Tratando-se de documento escrito. pois. pp. Em outros termos. cuja significação e importância continuam ligadas às circunstâncias que envolveram sua origem. 108 e 109). que vulgarmente significa examinar simultaneamente duas ou mais coisas para lhes determinar semelhança. constantemente de sentido. interessam mais ao jurista os efeitos sociais produzidos pelo escrito do que o sentido original do texto. a sua pureza ou o seu teor verídico.a comparação. A COMPARAÇÃO Chegamos finalmente à última operação do método da Sociologia Jurídica . Significa que deixará de lado a priori o que se revelar puramente descritivo.emanado da pesquisa. Um texto jurídico é. como normas de conduta coletivas. 2) Interessa-lhe. mas sim o momento em que exercem sua influência. e que por isso mesmo evolui também incessantemente. como o fato individual ou o anedótico. Levy Brühl. por sua importância. algo diferente de uma peça de arquivo. tal conhecimento somente pode ter sido fruto de prejulgamentos e prenoções. o tempo do calendário. [p. Tratar os fatos sociais como coisas é. aos olhos do jurista sociólogo. É uma espécie de ser vivo destinado a produzir seus efeitos dentro de um ambiente em constante evolução. ou seja. e maior ao momento em que esse fato ou idéia começa a agir. e sua significação inicial tem tão pouca importância para o jurista quanto os diferentes sentidos que adquiriu no decorrer do tempo. a relação cronológica entre um fato e outro da mesma natureza. portanto. A noção de autenticidade chega a suscitar-lhe um interesse muito restrito (Sociologia do Direito. Muda. uma vez que sobre as coisas não podemos ter prejulgamentos ou prenoções. não o momento em que se verificaram materialmente os fatos.

[p. semelhanças e diferenças entre elas existentes e chegar-se a outras conclusões. e jamais conseguirá atingir os seus objetivos sociais. sua eficiência ou ineficiência. leste. Antes disso. para atingir os seus objetivos. Assim. . se estamos estudando os problemas relacionados com a família brasileira. audiência dos órgãos e instituições que atuam na ordem jurídica . ou mesmo entre diferentes países. tinha que ser precedida de ampla coleta de dados mediante pesquisa da opinião pública. ou traços em comum entre elas. Somente através do emprego judicioso do método (ou métodos) que acabamos de delinear. Juízes. Estaduais. mais abrangentes e definitivas. portanto. e os resultados aí estão. e o plano horizontal. e certas instituições antigas. as origens de algumas instituições atuais. a fim de se estabelecerem as relações. é possível ter um conhecimento profundo das instituições jurídicas. suas funções sociais. Fizeram a tal reforma sem ouvir ninguém. Uma reforma de tal magnitude e necessidade. como por exemplo no norte. A comparação pode e deve ser feita em dois planos: o plano vertical. podemos comparar a situação da família na atualidade com a da época da República. praticamente no escuro. motivadas por fatores sociais e atuantes em cada região ou país. o que poderá aumentar a nossa experiência e levar ao aprimoramento das nossas instituições. por exemplo. Foi o que aconteceu com a chamada reforma do Poder Judiciário levada a efeito através da Emenda Constitucional nº 7/77 e da Lei Orgânica da Magistratura. mediante comparação nos planos vertical e horizontal. É ainda possível verificar. é possível notar as diferenças existentes entre as normas do direito dessas sociedades contemporâneas. mas em épocas diferentes. mas todas contemporâneas. Através de tal comparação. qualquer mudança ou reforma será feita empiricamente. O que ela tem de bom não é novo e o que ela tem de novo não é bom. da Colônia. sendo utilizado. para indicar o cotejo ou confronto das conclusões parciais obtidas na fase da interpretação. e investigar as causas que os provocaram. bem como das normas ou institutos jurídicos existentes . do Império. temporal ou histórico. Mudou para pior. No plano horizontal ou espacial a comparação é feita entre os resultados obtidos nas observações efetuadas em diferentes sociedades. bem como o grau de aperfeiçoamento de instituições análogas de outras sociedades.conhecimento indispensável para se fazerem as reformas. No plano vertical ou temporal comparam-se resultados de observações feitas em uma mesma sociedade. espacial ou geográfico. sul do Brasil.foge desse sentido. atuaram apenas dois ou três elementos que se julgavam donos da verdade. mudanças e alterações necessárias. no mais absolu.Tribunais Federais. 192] to sigilo ou segredo de justiça.

Com base nessa realidade poder-se-ia fazer uma reforma eficiente. mediante pesquisa metódica e científica dessa realidade. 193] . nas capitais e no interior. em reforma eleitoral e agrária. atualmente. Ter-se-ia que observar como vem funcionando o Judiciário em cada Estado. quais as deficiências e dificuldades de cada lugar. nada será mudado para melhor. através de técnicos especializados. Fala-se muito. A menos que tais reformas sejam precedidas de um profundo conhecimento das aspirações do povo e da realidade brasileira. Teremos outra reforma casuística. eliminando as causas de suas deficiências. Ordem dos Advogados.Ministério Público. classificados. e só então teríamos uma descrição da realidade social do nosso Poder Judiciário. deveriam ser examinados. motivada por interesses políticos e feita empiricamente. comparados. Esses dados. o público em geral. [p. morosidade e emperramento. interpretados.

Capítulo XVI DIREITO E ANOMIA Noção de anomia. Tipos de comportamento: conformistas. falta. com reduzida vinculação à rigidez da estrutura social ou à natureza de suas normas. O pensamento de Émile Durkheim. ritualistas. privação. portanto. donde a significa ausência. Comportamentos de desvio. Vem de a + nomos. Palavras finais. em seu famoso estudo sobre a divisão do trabalho social. a tecer algumas considerações sobre anomia. por reputá-lo um tema da maior importância na atualidade e que guarda perfeita adequação com tudo aquilo que ficou exposto nas partes anteriores. caso o nosso programa comportasse. Foi com esse entendimento que Durkheim usou a palavra pela primeira vez. a saber: l) desorganização pessoal do tipo que resulta em um indivíduo desorientado ou fora da lei. conforme assinalado por Robert Biers. . O pensamento de Robert K. ao encerrar este trabalho. Etimologicamente. num esforço para explicar certos fenômenos que ocorrem em sociedade. NOÇÃO DE ANOMIA A palavra tem origem grega. anomia significa falta de lei ou ausência de norma de conduta. vamos nos limitar. Depois dele diversos autores têm abordado o conceito com variações quanto ao seu exato entendimento. segundo o qual o termo tem sido empregado com três significados diferentes. Causas do comportamento anômico. inovacionistas. Não sendo possível fazê-lo. Merton. e nomos quer dizer lei.[p. inexistência. de evasão e rebelião. 195] tedt. **** Muitos outros temas de relevância para a Sociologia Jurídica poderiam ser ainda abordados. norma. 83.

pois. entretanto. Por causa entende-se aquilo que determina a existência de uma coisa: a circunstância sem a qual o fenômeno não existe. e se as instituições destinadas a manter a ordem jurídica são eficientes. . mas que por muitos são confundidas. em princípio não deveria ocorrer comportamento anômico. por mais eficientes que sejam as suas normas de conduta e bem estruturadas e aparelhadas as suas instituições jurídicas. Por quê? Se as leis são boas. Eliminada a causa. ou ainda. 84. que sociologicamente a palavra pode ser usada em um quarto sentido. 196] Antes de mais nada. como um verdadeiro fenômeno universal. é necessário distinguir causa de fator. É. todavia. bem elaboradas. ou pelo menos guarda perfeita correlação com os três primeiros. coisas diferentes. o agente causador do fenômeno social. e bem estruturadas. Entendemos. Todos deveriam estar empenhados em manter um comportamento em harmonia com as normas de conduta social. o fenômeno haverá de desaparecer.2) conflito de normas. vamos encontrar em algumas maior incidência de um tipo de desvio mas o fenômeno sempre existirá. desorganização pessoal. de sorte a não existir desvio. em conseqüência. situação social que. Pode variar de intensidade . não contém normas. que pode ocorrer por ausência de lei. [p. ou seja. que é a síntese. Assim sendo. princípio. Muitos sociólogos têm se empenhado em encontrar as causas do comportamento anômico. adequadas aos interesses sociais. conflito de normas. Merton. existindo a respeito várias teorias. o que resulta em situações sociais que acarretam para o indivíduo dificuldades em seus esforços para se conformar às exigências contraditórias. sua origem. motivo ou razão de ser. eis que em qualquer das variações do significado de anomia está presente a idéia da falta ou do abandono das normas sociais de comportamento. em seus casos limítrofes. como anarquia é o contrário de governo. é. 3) ausência de norma. pode-se afirmar que anomia indica desvio de comportamento (ou comportamento desviante).em uma sociedade vamos encontrar maior incidência de comportamento anômico que em outra. o contrário de sociedade. Mas não é o que ocorre. entre as quais vamos examinar a de Émile Durkheim e a de Robert K. CAUSAS DO COMPORTAMENTO ANÔMICO (OU DE DESVIO) Em qualquer sociedade do mundo. vamos encontrar comportamento de desvio.

o comportamento de desvio. Pode-se dizer. a partir de um certo ponto. por exemplo. não mais sentindo a presença dos colaboradores que trabalham a seu lado na mesma obra. um enfraquecimento do espírito de solidariedade do grupo global. porque há milhões de analfabetos no Brasil que não enveredaram pelos caminhos do crime. igualmente. Mas não é causa de criminalidade. perdendo mesmo. 197] Para o eminente sociólogo francês. o indivíduo. para poder atingir os seus fins. É a circunstância que. segundo as estatísticas. preocupa-se o estudo da anomia com as causas. porque. concorre para a sua maior ou menor incidência. por via de conseqüências. que como já assinalamos foi o primeiro a usar a palavra “anomia” numa tentativa de explicação de certos fenômenos sociais. que o analfabetismo.Já o fator. sem cortar-lhe a raiz. por sua vez. c) a divisão de tarefas produz especialização. debruçado sobre suas tarefas.Durkheim. O PENSAMENTO DE DURKHEIM SOBRE A ANOMIA Em seu famoso livro . precisa organizar-se. b) a organização impõe divisão de trabalho ou tarefas. Como já ficou dito. embora não dê causa ao fenômeno. a idéia dessa obra comum.A Divisão do Trabalho Social . a ignorância. a miséria. concorre para o resultado. isola-se em sua atividade especial. porque há um número muito grande de pobres que não delinqüem. que a pobreza. portanto. É tentar secar a árvore daninha arrancando-lhe simplesmente as folhas. desde que a divisão do trabalho social supera um certo grau de desenvolvimento. assim desenvolveu seu pensamento: a) a sociedade moderna. inclusive de produção e sobrevivência. motivando. [p. ao lado de um desenvolvimento favorável do . porquanto na mesma população carcerária encontramos 85% de pessoas analfabetas ou portadoras apenas de instrução primária. de qualquer forma. mesmo porque de quase nada adianta combater os fatores sem eliminar as causas. 90% ou mais da população carcerária é constituída de pessoas provenientes das classes sociais mais humildes. é um fator de criminalidade. 85. Pode-se dizer. é outro fator de criminalidade. d) a especialização ocasiona isolamento dentro do grupo. Durkheim invocou palavras de Comte no sentido de que as separações das funções sociais tendem espontaneamente. e não simplesmente com os fatores que são inúmeros. e) o enfraquecimento desse espírito de solidariedade acarreta uma influência dissolvente e. Mas não é certamente a causa de crime.

às vezes até com interesses antagônicos aos interesses do grupo global. 198] ses da Europa ou mesmo aos Estados Unidos. Hoje o saber humano é dividido em várias áreas ou ciências. profissionalmente falando. Todos se preocupam com todos e estão prontos para se auxiliarem mutuamente. comparando-se a vida do interior com a de uma grande cidade. uma exigência. Já numa grande cidade ninguém sabe de . ao lado das inegáveis vantagens que a divisão do trabalho representa como recurso imposto pela própria complexidade crescente da vida social. a certos paí. A especialização. O pensamento durkheimiano. como uma contingência social. Numa cidadezinha do interior. Isso é facilmente constatado nas sociedades superdesenvolvidas dos nossos dias. para se poder competir no mercado de trabalho. ao afirmar que divisão significa dispersão. embora criticado por alguns. Foi-se o tempo em que era possível saber de tudo. diminui-Ihes a extensão ou amplitude. todo mundo conhece e sabe de todo mundo. Especialista. Pessoas que vão do Brasil. saber muito bem fazer determinada coisa. O indivíduo se isola dentro do grupo. que “toca sete instrumentos” etc. Há calor humano. queixam-se da frieza. Não há mais lugar em nossos dias. Citou também Espinas. É preciso. cada vez mais. para o indivíduo que é “pau para toda obra”. tal divisão transforma-se numa fonte de desintegração ao provocar as especializações dos indivíduos. À medida que o indivíduo aprofunda os seus conhecimentos. e se junta a outros indivíduos de sua especialidade formando grupos menores. Há várias e diferentes profissões e em cada profissão inúmeras especializações. limita a visão social do indivíduo. O mesmo ocorre com a atividade humana. a abafar o espírito de conjunto. ou pelo menos a entravar seriamente o seu desenvolvimento.[p. espírito de solidariedade etc. fazendo-o perder a visão global ou de conjunto da atividade social. como os sábios da Grécia. forçoso é reconhecer.espírito de minúcia. Até mesmo entre nós isso pode ser constatado. ocorre também um enfraquecimento do sentimento de solidariedade grupal. é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos. da falta de solidariedade e calor humano que lá sentiram. e em cada ciência há inúmeras especialidades. como disse alguém. não deixa de possuir certa razão. e isso tomou-se uma necessidade. entretanto. em face da vastidão do saber moderno. Nessas sociedades é visível que. Com essa perda de visão da obra comum e do seu sentido. principalmente no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas e por isso mesmo superorganizadas. em visita ou a trabalho.

O fenômeno não é novo e já foi até explorado por Charles Chaplin como tema do filme “Tempos Modernos”. na escola. não é verdade no que se refere às sociedades subdesenvolvidas. verifica-se justamente entre os menos especializados ou mesmo sem nenhuma especialização. ou pode ser assaltada e massacrada por um marginal aos olhos de uma multidão. Merton. não nos dizem respeito: uma pessoa ferida num acidente pode ficar horas a fio sem receber socorro. assim. que teve o mérito de estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia. Ocorre. meios socialmente prescritos para atingi-los. acarretando. e cada qual corre atrás dos seus próprios interesses. sem que ninguém venha em seu socorro. onde se destacou entre outras coisas. a influência dissolvente da personalidade que sofre o operário que passa o dia todo apertando parafusos numa fábrica de automóveis. Merton sustentou que em toda sociedade existem metas culturais a serem alcançadas. aos quais aderem normas de comportamento. que são os recursos institucionalizados pela sociedade. sociólogo americano. um desequilíbrio entre os meios e as metas. 86. fazemos até questão de não saber quem é.ninguém. Os outros não nos interessam. em face da tese de Robert K. Somos capazes de morar muitos anos em um mesmo prédio sem saber quem é o condômino do lado ou de cima. diária ou semanalmente nos relacionamos com um pequeno grupo. De um lado. Quer isso . metas sócio-culturais. transformando-se em parte da sua obra clássica Teoria e Estrutura Sociais. E o que é pior. e de outro. escreveu um artigo famoso de apenas dez páginas. portanto. muito embora dezenas de pessoas passem ao seu lado em seus veículos sem se incomodarem. no lazer etc. Para atingir essas metas existem os meios. onde se observa que o maior índice de desvio. MERTON SOBRE A ANOMIA Em 1938 Robert K. Se a tese de Durkheim apresenta muitos pontos verdadeiros no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas. principalmente no que tange à criminalidade. por esta razão a tese foi contestada e preterida por muitos. O PENSAMENTO DE ROBERT K. entendendo-se como tais os valores sócio-culturais que norteiam a vida dos indivíduos. que os meios existentes não são suficientes nem estão ao alcance de todos. Embora morando numa cidade de milhões de habitantes. Merton. [p. 199] Partindo de uma análise da sociedade americana. entretanto. O artigo foi posteriormente revisto e aumentado pelo autor. normalmente das nossas relações de atividade no trabalho.

86. buscando realizar as metas através de outros meios. É a conduta seguida pela grande maioria das pessoas na sociedade. o sucesso na vida. Em outras palavras. qual seja. que buscam adquirir cultura etc. e os recursos oferecidos pela sociedade para alcançar aqueles objetivos. muito poucos podem alcançá-la em face da escassez dos meios institucionalizados.dizer que. Esse desequilíbrio entre meios e metas ocasionaria o comportamento de desvio individual (ou em grupo). concentrados nas mãos de pequena parcela da sociedade. mesmo que contrários aos interesses sociais. Mas quantos realmente têm condições para atingir essa meta? Apesar de erigida em objetivo da vida de todos. Merton classificou os comportamentos socialmente relevantes em cinco tipos diferentes. nisto incluindo fortuna. 2) inovacionista. 4) de evasão. 5) de rebelião. Merton ilustra isso tomando como exemplo a meta mais importante da sociedade americana. um descompasso entre os fins sugeridos a todos e insistentemente estimulados. podendo-se dizer a respeito deles que são positivos (+) quanto aos meios e também (+) quanto às metas. através de estudo regular. respeitando assim as normas fixadas pela sociedade. o inovacionista está de acordo . 3) ritualista. Disso resulta um desajustamento. Os adeptos desse comportamento estão de [p. buscaria outros meios. prestígio. eis que o indivíduo. inclusive pelos estudantes em geral. 200] acordo com os meios e as metas sociais. mas. no empenho de alcançar as metas que lhe foram sugeri das e não dispondo de meios para tal. enquanto todos são insistentemente estimulados a alcançar as metas sociais. Tipos de Comportamento Identificados por Merton Examinando o descompasso existente entre as aspirações culturalmente prescritas e o caminho socialmente estruturado para atingi-Ias. poder. Conformista é a conduta que busca atingir as metas sociais através dos meios institucionalizados. popularidade etc. inova. percebendo que os meios são insuficientes e não estão ao seu alcance. a saber: 1) conformista.1. Inovacionista é a conduta que está de acordo com as metas sociais. na realidade apenas alguns poucos conseguem por terem ao seu dispor os meios institucionalizados.

de modo que hoje. os valores sociais. apegando-se aos meios com tal importância que os transforma em fins. É negativo (-) quanto às metas e negativo (-) quanto aos meios. 201] Essa é a perfeita imagem do ritualista. Abandona as metas. arcaicas. mas negativo (-) quanto às metas. os objetivos. Há aqui uma verdadeira inversão de valores. Quando perguntado pela razão dessa sua conduta. perde de vista os fins. Ritualista é aquele que se conduz de forma justamente inversa ao inovacionista. ainda que já estejam totalmente vazias de sentido. Comportamento de evasão é aquele que se caracteriza pelo fato de abandonar as metas e os meios sociais. mas está contra os meios. fazendo delas fins. .. [p. o ritualista abdica das metas. Procuram vencer na vida sem fazer força. embora se encontre esta numa outra era. Percebendo que as metas sociais são mui elevadas e os meios existentes insuficientes para atingi-Ios. E enquanto falava ia acendendo e apagando o lampião. porque encontram nelas uma forma de realização pessoal. quando era dito “bom dia”. E nessa rotina passava ele o tempo todo. Os inovacionistas adotam a filosofia de que os fins justificam os meios. nada mudou por lá nem se registrou nenhum progresso funcional em sua vida. mas continuo a cumprir a minha tarefa. É o caso de certas pessoas que se gabam de terem servido 30 ou mais anos na mesma repartição. pois as metas perdem a sua importância passando os meios para o primeiro plano. E ainda que já estejam elas velhas. voltava a ser apagado. sendo positivo (+) quanto a elas. repetindo sempre “boa noite” e “bom dia”. recorda-se por certo do acendedor de lampião encontrado em um daqueles pequenos mundos que percorreu: causou estranheza ao nosso personagem o fato de que. negativo (-) neste ponto. mal o lampião era aceso. Depois. há mais de duzentos quilômetros por hora.com as metas sociais. acendendo e apagando o lampião e dizendo “boa noite” e “bom dia”.. entretanto. mal eu acendo o lampião ao anoitecer. por outro lado. mas. ele começou a girar mais rápido e cada vez mais rápido. significado ou interesse social. sendo. nunca havendo se atrasado ou faltado ao serviço. tenho que apagá-lo porque amanheceu. continua a aplicá-las ou a observá-las como se nada houvesse mudado na sociedade. destituídas de qualquer valor ou utilidade social. Quem já leu o Pequeno Príncipe. pois. ainda que não sejam socialmente aprovados. momento em que o acendedor dizia “boa noite”. e se apega às normas como se fossem sagradas. Pode-se representar o ritualista como sendo positivo (+) quanto aos meios. As normas de comportamento social são cumpridas pelos ritualistas a todo preço e em qualquer circunstância. de forma que eu acendia o lampião ao anoitecer e o apagava ao amanhecer. imutáveis. ultrapassadas. o acendedor de lampião explicou: antigamente o meu mundo girava bem devagar.

. propõe o estabelecimento de novas metas com a institucionalização de novos meios. podendo ser caracterizado como sendo negativo (-) quanto aos meios e negativo (-) quanto às metas. uma vez que os seus adeptos buscam as metas culturalmente prescritas através dos meios institucionalizados para atingi-los e com respeito habitual às normas para isso fixadas pela sociedade. o conformista. Tal como na evasão. mais abundantes e melhor distribuídos na sociedade. ou dele retiram a adesão antes dada. é a derrubada dos meios e metas existentes.Percebendo que as metas sociais são muito elevadas e os meios escassos. vivem no meio social mas a ele não aderem. porém. Exemplo típico desse comportamento é o dos hippies. mais simples e ao alcance de todos. foge da sociedade. Tipos de comportamento 1) conformista 2) inovacionista 3) ritualista 4) de evasão 5) de rebelião meios (+) (-) (+) (-) (-) (+) [p.2. não é de desvio. O propósito do comportamento de rebelião. que consideram todos os valores sociais irrelevantes ou incapazes de realizar o bemestar humano. É o tipo modal de comportamento. Comportamentos de Desvio O primeiro comportamento. 202] metas (+) (+) (-) (-) (-) (+) 86. uma nova estrutura social. razão pela qual ao mesmo tempo que é negativo (-) quanto aos meios e metas. Como acentuou Merton. é também positivo (+). e o estabelecimento de novas metas. usando os próprios símbolos de positivo (+) e negativo (-) utilizados por Merton. o comportamento de rebelião também está contra as metas e os meios sociais. Ao mesmo tempo que se opõe às metas e aos meios sociais por julgá-las excessivamente elevados e insuficientes. em especial nos grupos familiar e profissional. bem como de novos meios. Objetiva. portanto. o quadro de classificação dos tipos de comportamento atrás descritos. em síntese. renunciando a tudo o que ela oferece ou determina. aí a inconformidade do comportamento de rebelião. os adeptos desse comportamento estão na sociedade mas não são dela. Não pára. Faremos. a seguir. graças ao intenso condicionamento social exercido sobre o indivíduo.

do medo do insucesso. sem indagar da sua adequação àqueles valores e àquelas metas. Como bem observou Miranda Rosa (Sociologia do Direito.Já os outros quatro tipos de comportamentos são não-modais. porque ocorre a rejeição das metas culturais e dos valores que as sustentam. que se recusam a fazer mudanças ou reformas sociais necessárias. então. O ritualismo toma-se grandemente prejudicial à sociedade quando se trata do comportamento adotado pelos homens públicos do país (administradores. quanto às metas culturais. considerados todos irrelevantes ou incapazes de realizar o bem-estar humano. como vimos. 203] sa alguma. quer substituição total de todos os instrumentos e instituições com o fim de realizar uma mudança .[p. pois o cumprimento dos ritos estabelecidos pelos processos institucionalizantes adquire a dimensão e a importância de valor sócio-cultural. legisladores etc. p.). contrários de algum modo aos padrões de metas culturais e de meios institucionalizados para atingi-los: portanto. e quanto aos comportamentos sociais aprovados. O ritualista se caracteriza como comportamento de desvio por apresentar abandono das metas sociais e inversão de valores quanto aos meios que são elevados ao primeiro plano. O comportamento de rebelião é o mais extremado de todos. Prevalece. com a recusa de conformidade aos comportamentos socialmente estabelecidos. por julgá-los inatingíveis. um valor em si mesmo. não merecem observância. substituindo-os por outros de maneira total e revolucionária. Cumprir de qualquer maneira os regulamentos ou as ordens recebidas. Embora na aparência seja esse um comportamento conformista. comportamentos de desvio. do desencanto e desestímulo decorrentes do desajuste entre os processos socialmente aprovados para alcançar as metas culturais. No comportamento de evasão também há desvio. não se limita a aperfeiçoar instrumentos ou instituições. a conduta ritualista passa a ser. ocorre no caso inconformismo quanto à manutenção dos alvos socialmente prescritos. pretende a derrubada de todos os meios e metas sociais. Os adeptos desse tipo de comportamento são um peso-morto na sociedade. porque ajustado aos tipos de conduta socialmente recomendados ou aprovados. Enfim. a atitude de que elas não valem a pena de coi. 105). posto que. despidos daquela motivação. é assim a conduta observada. os fins sociais perdem a sua importância. mantendo velhas e arcaicas instituições ou disposições legislativas já sem nenhuma adequação às novas realidades sociais. O indivíduo abandona e virtualmente rejeita os alvos estabelecidos pela sociedade em razão do fracasso efetivo ou em potencial.

. esgota o tema da anomia. com a mesma generalidade com que estabelece as metas. Nesse desvio de comportamento estão retratadas todas as formas de delinqüência. os instrumentos prescritos ou admitidos para atingi-las. bem como as faltas disciplinares. é sem dúvida a causa remota da anomia que. PALAVRAS FINAIS Nenhuma teoria. condições específicas para estimular o abandono ou a burla das normas socialmente fixadas para se atingir as metas culturalmente estabelecidas. com os movimentos dos sem terra. porque ela tem causas múltiplas. assim. Referimo-nos àqueles casos de inovações que visam criar novos meios. o motor à explosão e milhões de outras invenções que tantos benefícios trouxeram à sociedade e nos permitiram chegar ao estágio atual de desenvolvimento científico. Graças a esse espírito inovador temos hoje a luz elétrica. o inovacionista é o comportamento de desvio de maior freqüência na sociedade. mais eficientes para a realização dos objetivos sociais. núcleo da teoria de Merton. a própria sociedade concorre para isso ao deixar de proporcionar. a inobservância das regras de conduta social etc. As normas são abandonadas ou contornadas. por sua vez. assim. Dessa maneira a conduta divergente quanto aos meios toma-se no pensamento mertoniano uma reação normal a uma situação social definida e determinada. entretanto. De certa forma. um aspecto positivo no comportamento inovacionista. promove uma reação em cadeia. permitindo-nos. fazer distinção entre conduta inovadora-criadora e conduta inovadora anti-social. cria. em menor escala. sem teto e outros. que acaba provocando comportamentos anômicos de diferentes gravidades. Sem dúvida alguma. verdadeira bola de neve social. e assim continua sendo em nossos dias. e atingir os alvos culturalmente estipulados por todo o sistema. quando o desequilíbrio entre os meios e metas se toma muito grande e insustentável. assim foi em Cuba. assim foi na Rússia. Assim foi na França. desde a juvenil até a mais grave criminalidade. O desequilíbrio entre metas e meios sociais. razão pela qual deixamos a sua análise para o final. que deve ser ressaltado. Normalmente se manifesta nos momentos de grandes crises sociais. 204] 87. [p. como bem observou Merton. em nosso entender. num esforço do indivíduo para superar os obstáculos institucionais ou instrumentais. Isso evidencia que nem todo comportamento inovacionista é necessariamente contrário à ética existente no grupo social. Há.completa na sociedade.

6 milhões de fluminenses vivem em favelas. em boa parte (40%) nas capitais e suas periferias. Dos 2. O poder paralelo que assim se instaurou passou a impor as suas próprias regras. principalmente saneamento: 54. E além disso. siglas de facções e armas. não se prepararam para receber tamanha massa humana. armados. na educação e assim por diante. . permitindo o surgimento do crime organizado. segundo dados do Censo 2000 do IBGE (O Globo. Em relação à pesquisa anterior. As cidades. Isto não quer dizer que ele vai virar bandido. agressivos. Sem o diploma do ensino básico. A renda média de chefes de família em favelas é cinco vezes menor que no asfalto.07. como vimos quando tratamos da violência urbana (item 53). cerca de 91% da população brasileira vive em cidades. vivem a ilusão de poder. estima-se que 1.2002).181) e a média de quatro pessoas por habitação. os líderes comunitários foram obrigados a obedecer ao poder paralelo para não serem mortos ou terem que se mudar. forma mais grave de [p. crise de desemprego. porque a oportunidade de ascensão social (meios e metas) está condicionada à educação. o jovem está fora do mercado formal. Esse processo de urbanização aconteceu de forma desordenada e acelerada. gerando dúvidas na população quanto às normas a serem observadas (conflito de normas). praticamente em quatro décadas. E o que isso gera? Crise habitacional. cerca de 700 mil (um quarto) abandonaram a escola antes de concluir o ensino fundamental. Em busca de melhores condições de vida. crise de transporte. Considerando-se o número de domicílios cadastrados em favelas no Estado do Rio (424.1% dos domicílios são semi-adequados ou inadequados. O déficit habitacional no Brasil passa de seis milhões de moradias. seduzidos pelo tráfico. aos poucos inverteram-se os valores. Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE. 205] comportamento anômico. o número de moradias em favelas cresceu 35%. em especial as metrópoles. Os ícones desses adolescentes são marcas famosas.6 milhões de jovens de 15 a 24 anos que vivem no Estado do Rio. mudaram-se os paradigmas. o Estado. 19. como demonstrou o Censo de 2000. não conseguiu se fazer presente nas áreas urbanas favelizadas. São viciados. vivem brincando de polícia e ladrão. 28.01. Essa é a realidade social. cerca de 12% da população do estado (O Globo. há enormes carências de infra-estrutura. feita em 2001 e concluída em novembro de 2003.Vejamos como isso ocorre. crise na saúde. constatou que as favelas estão presentes em 48 dos 92 municípios fluminenses. Pior que tudo. e o resultado foi a favelização de áreas urbanas. de 1999. significa que ele está à margem da sociedade.2004). perderam-se as referências. o que equivale a 52% deles. Os jovens.

enfim. obra pioneira no Brasil.[p. ao alcance da maioria. Para maior profundidade do tema. orientar o planejamento familiar. três mil pessoas. medidas imediatas a serem tomadas. nas instituições. pois o desequilíbrio se torna tão grande que não se depara a socie. estabelecendo novas metas e institucionalizando novos meios. e. de Miranda Rosa. Mas não resolverão o problema. a reconquista dos espaços perdidos pelo Estado. Atuação mais firme e organizada da polícia. KatMartins . aprimorar a educação. e não apenas arrancar as suas folhas. o que fazer para modificá-la? A toda evidência. na distribuição da riqueza. ou seja. eliminar a exclusão social. que têm nas mãos o destino da sociedade. da Delegacia de Homicídios. Quando isso não é feito. A. Se essa é a realidade social. O delegado Carlos Henrique Machado. A inovação deve ser. tornar as metas mais acessíveis e os meios melhor distribuídos. esquartejamento e incineração de corpos fazem parte do terror que esses traficantes impõem nas favelas. na ordem econômica para melhorar a distribuição de rendas. A questão tem que ser enfrentada com medidas a curto.Levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (IBISIS). mais cedo ou mais tarde acaba vindo a rebelião. Numa favela de 30 mil pessoas. constatou que o número de jovens (menores de 18 anos) que trabalham para o tráfico pode chegar a sete mil. dentre outras. não existe solução única e milagrosa. assim. pelo menos 10%. por isso. médio e longo prazo. É preciso cortar o mal pela raiz. nas leis. diminuir o desequilíbrio entre metas e meios sociais. promover ações afirmativas. reduzir as desigualdades. 206] dade com outra solução. reeditada sucessivas vezes pela Editora Zahar. para que os moradores tenham medo de denunciá-los. Devem eles possuir um espírito inovador (e não ritualista) para realizar as reformas sociais necessárias nas leis. a não ser aquela de promover uma total reorganização. vivem do comércio de droga. uma das principais qualidades dos homens públicos. recomendamos a leitura do Capítulo XI da notável Sociologia do Direito do Professor F. É preciso promover as mudanças sociais necessárias nas instituições. afirma que atualmente a prática nos morros é a intimidação: tortura. determinação política das autoridades são. então. Com o tempo revelar-se-ão paliativas.

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