PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

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SERGIO CAVALIERI FILHO Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Professor da Universidade Estácio de Sá.

PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA
11ª edição revista e atualizada

Rio de Janeiro 2007

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......................................................... 185 Capítulo XVI ................ 149 Capítulo XIII ..................................................................................................................................................A Opinião Pública ..............................................Objeto da Sociologia Jurídica ..............Gênese do Direito... 217 ............................................................................................................Razões Sociais das Garantias Constitucionais dos Magistrados ....... 127 Capítulo XII ...... 69 Capítulo VIII .....................A Autonomia da Sociologia Jurídica como Ciência e suas Relações com Outras Ciências Sociais ..................... 81 Capítulo X .......................................................................................................................................Conceito Sociológico do Direito ....... 195 Bibliografia .....................................................................................................................Importância do Estudo das Ciências Sociais e da Sociologia Jurídica em Especial ......... 97 Capítulo XI ......................................................................................Sistemas de Escolha dos Magistrados........ 23 Capítulo IV ......................................Aspectos Sócio-Jurídicos de Algumas Áreas do Sistema Jurídico Brasileiro ........................................................................... IX Capítulo I ........................................................................Função Social do Direito ........Fontes do Direito ............... 11 Capítulo III ........... 31 Capítulo V ..............................................SUMÁRIO Abreviaturas e Siglas Usadas ................ 163 Capítulo XIV .........................O Método da Sociologia Jurídica ...............................Fatores da Evolução do Direito ......................................................... 175 Capítulo XV ...................................................................................................................................................................................................................Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica ............ 1 Capítulo II ............................................................Direito e Anomia .......................................................................... 57 Capítulo VII ........Eficácia das Normas Jurídicas e seus Efeitos Sociais .........................VII Apresentação .......................................................................................... 211 Índice Sistemático ................. 75 Capítulo IX ........................................ 41 Capítulo VI ................... 209 Índice Alfabético-Remissivo ................................

Rev. EMERJ EUA ICEPS ICM INAMPS INPS IPI ISS OAB ob.-Lei ed. Dec. CDC CUT DAS DASP Dec. Ed.ABREVIATURAS E SIGLAS USADAS art. cit. ONU p. PE Prof. STF STM TRE TRT TSE artigo Código de Defesa do Consumidor Central Única dos Trabalhadores Divisão Anti-Seqüestro Departamento de Administração do Serviço Público Decreto Decreto-Lei edição Editora Escola de Magistratura do Rio de Janeiro Estados Unidos da América “International Center of Economic Penal Studies” Imposto sobre a Circulação de Mercadorias Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social Instituto Nacional de Previdência Social Imposto sobre Produtos Industrializados Instituto sobre Serviços Ordem dos Advogados do Brasil obra citada Organização das Nações Unidas página Pernambuco Professor Revista Supremo Tribunal Federal Superior Tribunal Militar Tribunal Regional Eleitoral Tribunais Regionais do Trabalho Tribunal Superior Eleitoral .

não estarão aptos a aplicá-lo de forma a realizar a sua função social. tanto é assim que há norma expressa determinando ao juiz atender.APRESENTAÇÃO Este trabalho foi escrito no início da década de 1980. Se de alguma forma este trabalho continuar contribuindo para a melhor preparação dos nossos operadores do direito. todavia.Programa de Sociologia Jurídica. “muita água correu debaixo das pontes do direito e inúmeros diplomas foram produzidos nas oficinas legislativas”. já sofreu várias mudanças. ardorosamente defendida por Kelsen. . estará recompensado o esforço da sua revisão. Era preciso atualizar este trabalho. há muito está ultrapassada. de sorte que se os operadores do direito não tiverem essa visão tridimensional do direito. no exame diuturno da norma. nada mais do que a norma. foi várias vezes reeditada. perdese muitas vezes o sentido de sua finalidade social. Talvez tenha alcançado a sua finalidade porquanto a obra. aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum. estando agora em sua 11ª edição. inclusive uma nova Constituição que. não obstante despretensiosa. O Jurídico se compõe de fato. O seu objetivo.no propósito de facilitar o estudo dessa cadeira integrante do currículo do Curso de Direito da Universidade Estácio de Sá. entretanto. não mudou: continua sendo uma tentativa de transmitir aos estudantes uma visão sociológica do direito. valendo-me da feliz imagem de Antunes Varella. o que procurei fazer agora sob o novo título . De lá para cá. sob o título . o extraordinário Código de Defesa do Consumidor e o novo Código Civil. já que. norma e valor indissociavelmente. A idéia de que o direito é norma. por sua vez.Você Conhece Sociologia Jurídica? . na aplicação da lei.

estabelecer a sua fonte ou origem. Escola Sociológica do Direito: origem e concepção sociológica do direito. à liberdade. à propriedade. Costuma-se dizer que o Direito Objetivo é a norma de agir (norma agendi) e o direito subjetivo é a faculdade de agir (facultas agendi). Escola Teológica: origem da Escola Teológica. Mas também encontramos a palavra direito ligada ao direito de cada pessoa. é preciso dizer de que direito vamos tratar já que a palavra direito pode ser utilizada com significados diferentes. regulamentos.) destinado a organizar a sociedade e disciplinar a conduta humana na convivência social. civis. penais. costumes) que preside à nossa vida em sociedade.Capítulo I GÊNESE DO DIREITO Escola Jusnaturalista ou do Direito Natural: a origem do jusnaturalismo. Escola Marxista: origem e concepção do direito. por exemplo. para que depois possamos compreender a sua razão de ser e a função que desempenha na sociedade. 1] exigir uma atuação alheia. Essas normas são de direito objetivo porque vivem e sobrevivem fora e independentes das pessoas. Essa faculdade corresponde a espaços de liberdade ou a poderes para atuar ou [p. a que conferem faculdades de agir. administrativas etc. Antes. também chamado de Direito Positivo. o conjunto de regras (leis. No primeiro caso temos o Direito Objetivo. Fala-se em direito para indicar o conjunto sistemático de normas (constitucionais. de fazer ou não fazer alguma coisa. Escola Racionalista ou Contratual: a concepção do direito do ponto de vista racionalista. quando alguém diz que tem o direito a isso ou àquilo. **** Nossa primeira tarefa consiste em conhecer a gênese do Direito. No segundo. Escola Histórica do Direito. ou seja. à saúde e assim por diante. à educação. porém. como o direito à vida. a palavra direito indica o direito subjetivo de cada pessoa (física ou jurídica). É uma situação .

portanto. As principais características do direito natural seriam.Heráclito. imutáveis. A palavra Direito é normalmente escrita com letra maiúscula quando se refere ao Direito Objetivo.e foi adotada em Roma por Cícero. Por essas razões entendemos necessário.1. o mais entusiasta intérprete da filosofia grega entre os romanos. como teremos oportunidade de assinalar. a fim de traçar-lhe o caminho a seguir e ditar-lhe a conduta a ser mantida. filósofos. 1. a estabilidade e a imutabilidade. bom ou mau. esquecendo-se que pode ser ele enfocado através de pelo menos três aspectos diferentes. De . o direito é um conjunto de idéias ou princípios superiores. cuja origem estaria na Divindade. 1. permanentes. Em nosso estudo vamos tratar do Direito Objetivo. até chegarmos àquela que mais se ajusta ao conteúdo da nossa matéria. quando da criação.jurídica subjetiva de vantagem a que o direito objetivo confere proteção direta. ao trazer à existência a criatura. e base de todas as leis. ponto de referência para se saber o que é justo ou injusto. Em suma. que a expôs eloqüentemente em sua obra. já que se trata de princípios imanentes ao próprio cosmos. Platão etc. A razão principal dessa controvérsia está no fato de cada qual procurar ver e conceituar o Direito pelo ângulo de visão de sua ciência. ESCOLA JUSNATURALISTA OU DO DIREITO NATURAL Para os jusnaturalistas. Sócrates. das regras que organizam a sociedade e disciplinam o comportamento social. teólogos. eternos e imutáveis. Aristóteles. de modo a não permitir um entendimento uniforme até o Juízo Final. plena e específica. Como nasce o Direito? Em tomo dessa questão existiu e ainda existe a mais acirrada controvérsia entre juristas. antes de apresentarmos o enfoque da sociologia jurídica sobre a origem do Direito. e com minúscula quando indica o direito subjetivo. sociólogos etc. uniformes. Origem do Jusnaturalismo A concepção do direito natural surge com os filósofos gregos . outorgados ao homem pela divindade. .. o criador teria inculcado em sua consciência um conjunto de princípios superiores. Seria como um sopro ético com que a Divindade bafejou a sua criação. eternos. vale dizer. fazer um sucinto apanhado sobre as várias teorias ou escolas existentes. que constituiriam o direito natural.

[p. segundo a narração bíblica. difusa em todos. reta razão. por isso que coloca em destaque a origem divina do direito e o seu caráter permanente e imutável. constante. ordenando-o. se não ordena nem proíbe em vão aos bons.1. para o qual existiriam três categorias de direito. Em quase todos os povos antigos encontramos líderes político-religiosos. mas sim diretamente.. permanentes e imutáveis. Manu.. conforme a natureza. “ Esse trecho de Cícero sintetiza com precisão a concepção jusnaturalista. pois também concebe o direito como um conjunto de princípios eternos. lei única e eterna e imutável. que. a origem do direito não estaria ligada apenas indiretamente à Divindade. como Moisés.. 2. foi escrito pelo próprio dedo de Jeová. mas escritas e outorgadas por Ele. que ela proíbe.República: “Existe uma lei verdadei. 2] ra. e que desvia do mal. mas sim. No seu entender.. no entanto. entregando-as ao homem para serem observadas. e entregue a Moisés. amanhã.. eterna. 2. que apela para o que devemos fazer. já que as primeiras leis não teriam sido simplesmente inspiradas por Deus. A concepção do direito se explana dentro do sistema filosófico de São Tomás de Aquino. Origem da Escola Teológica A Escola Teológica coexistiu com a Jusnaturalista durante toda a antigüidade. como por exemplo o decálogo que. a própria Divindade teria se empenhado em elaborar as primeiras leis. sobre o Monte Sinai. Sólon etc. o estudo do direito voltou a ser abrangido pela religião e continuou a ser considerado manifestação da vontade divina. É de instituição divina que não se possa propor ab-rogar essa lei e que não seja permitido derrogá-la. ela será para todas as nações e para todos os tempos.. em duas tábuas de pedra. semideuses.. ontem. baseado nas Escrituras e nas . hoje. Com o aparecimento do Cristianismo. não muda por suas ordens nem por suas proibições os maus. em todas as nações e para todos os tempos. a saber: o direito divino. ela não é diferente em Roma ou em Atenas. entretanto. Hamurabi. Em suma. não é diferente hoje nem será amanhã. que foram os intermediários entre a Divindade e o povo no que diz respeito ao recebimento das primeiras leis. de origem quase legendária. Não é preciso procurar um Élio Sexto para comentar ou interpretar. ESCOLA TEOLÓGICA A Escola Teológica em muito se assemelha à Jusnaturalista.

por sua vez. autor da conhecida obra Contrato Social. culminando com Jean Jacques Rousseau. não se distinguindo. por cujo intermédio aplicam-se os princípios da lei natural. e o direito humano. publicada pela primeira vez em 1625). a mais importante figura do liberalismo dessa época. e a terceira. como foi ilustrado por Daniel De Föe na conhecida história de Robinson Crusoé. em todos os tempos. Quanto ao direito natural. duas são as categorias de direito. John Locke. autores de obras notáveis. continuaria sendo um conjunto de princípios permanentes. neste ponto. a começar por H. alcançaria mudar. decorreria do pacto social a que o homem fora levado a celebrar para viver em coletividade. Montesquieu (Espírito das Leis). do jusnaturalismo. estáveis e imutáveis. ESCOLA RACIONALISTA OU CONTRATUAL Na Escola Racionalista ou Contratual agrupamos vários filósofos. Puffendorf. por provir de Deus. A origem desse direito. o célebre “contrato social” que serve de título a um dos livros mais famosos de Rousseau. Para sair do isolamento. a segunda é existente entre os homens por intuição. só existe no espírito divino.decisões dos Papas e de [p. As relações dos homens em sociedade seriam disciplinadas pelas regras do direito positivo. 3. o direito natural.imutável diante de qualquer vontade divina ou humana. fundando a sociedade através de um pacto. nenhum poder. 4] . que em quase nada se diferencia do direito natural apregoado pelos gregos e romanos. São Tomás de Aquino tratou de explicar que a primeira. não mais seria a divindade. O caráter permanente e imutável do direito decorreria do fato de ser a natureza racional do homem igual por toda a parte. 3. lei natural e lei humana). embora tenha como conteúdo a lei natural. divino ou terreno. Grotius (De Iure Belli ac Pacis. Thomasius. [p. A Concepção do Direito do Ponto de Vista Racionalista Para os racionalistas. Reunindo esses três tipos (lei divina. em conseqüência. e da qual decorreriam princípios que. O Direito positivo.1. entretanto. No início o homem teria sido isolado. ou órbitas jurídicas. é produto dos homens. a saber: a do direito natural e a do Direito positivo. seguido por Thomas Hobbes (autor de o Leviathan). os homens tiveram a idéia de viver juntos. 3] Concílios. mas sim a natureza racional do homem .

Em ocorrendo tal afastamento. formado gradativa e paulatinamente pelas tradições e costumes. como a linguagem. deslocou pela primeira vez a sua fonte . [p. 4. e o Direito positivo. A escola inicia as suas atividades em pleno apogeu do neo-humanismo. essa escola rebelou-se contra a existência de um direito natural. Embora se tenha pensado que a linguagem fora criada por Deus. 5] . o processo de sua formação foi gradativo e paulatino. e serve de fundamento para o segundo. ESCOLA HISTÓRICA DO DIREITO A Escola Histórica do Direito surgiu na Alemanha. visto que o primeiro é anterior. não da divindade ou da razão. A formação do Direito seria tão natural e espontânea como a origem da linguagem. Para ela. superior. aquele conjunto de princípios imutáveis decorrente da razão. o Direito era um produto histórico. quando o direito era considerado pura criação da razão humana. por força das necessidades e usos do povo. Pela primeira vez. ao passo que em outras o número de palavras é ainda reduzido por causa da estagnação da vida social. haveria entretanto uma íntima e estreita relação. Equivale isso a dizer que o Direito positivo deve respeitar os princípios fundamentais do direito natural por lhe serem superiores. tendo como principais protagonistas Gustavo Hugo e Frederico Charles de Savigny. Em vez de indagar o que deveria ser o direito. sujeito a transformações progressivas.de Deus para a própria razão do homem.Entre o direito natural. decorrente. tal como há entre o espírito e o corpo. passou a pesquisar como se formava nas sociedades. este último considerado o seu fundador. a sombra e a realidade. mas sim da consciência coletiva dos povos (Volks geist). Também o Direito se constituíra naturalmente. não podendo deles se afastar sem se tomar injusto e iníquo. no final do século XVIII e começo do século XIX. impõe-se a imediata reformulação do Direito positivo a fim de ajustá-lo aos imutáveis princípios do direito natural. como se vê. Esta escola. ou era resultado de um acordo entre os homens. Inúmeros vocábulos surgem em uma língua à medida que vão se tornando mais complexas as relações sociais. ao admitir que o direito natural tem origem na natureza racional do homem. decorrente das necessidades e usos do povo. a filosofia demonstrava que sua gênese. permanente e imutável.

mais economistas do que juristas. 276). foi neles que se inspirou para formar suas idéias sobre o direito. 5. Marx. Fixa o Direito. com uma fonte emanadora do preceito jurídico e um órgão capaz de impor o cumprimento de suas prescrições. Como assinala Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. nem revelado por Deus. enunciada por dois pensadores alemães .Seguindo essa linha de raciocínio. mas sim pela consciência nacional do povo. jurídica e economicamente organizada. costumes e tradições de todas as épocas passadas. pelo que se esforçou em demonstrar que o direito era um produto histórico. o Direito pressupõe o Estado. 6] Essa concepção do Direito deve muito a Regel. nem estabelecido arbitrariamente pela vontade dos homens. regra essa única. 5. instrumento ideológico de dominação da burguesia sobre o proletariado. nem pela razão. de seus usos.política. que incide sobre diferentes pessoas. entretanto. com a diferença essencial de que o Estado para ele é uma instituição .Karl Marx e Friedrich Engels . acima de tudo. aplicando uma regra a uma situação preexistente. entendia Savigny que. fez seus estudos na Faculdade de Direito de Berlim. Eram esses fundamentos que as teorias precedentes iam buscar na razão”. em vez de um direito geral e universal. cada povo em cada época teria o seu próprio direito. Seduzido pelos ensinamentos de Hegel.1. expressão natural de sua evolução histórica. Surge somente quando há uma sociedade . que também une intimamente o Direito ao Estado. Isso significa que o Direito apenas sanciona uma relação já existente. com seus dois elementos essenciais: continuidade e transformação. A escola mostrou que os fundamentos do direito se encontram na vida social. p. como se vê. sendo igualmente filósofo. Origem e Concepção do Direito Para a teoria marxista. razão pela qual Marx o considerava a expressão do interesse da classe dominante. “é conquista definitiva da Escola Histórica a noção do caráter social dos fenômenos jurídicos. foi afastar a concepção do direito natural. A grande preocupação da Escola Histórica.dois grandes reformadores sociais. [p. ESCOLA MARXISTA A teoria marxista surgiu em meados do século XIX. ainda que sejam em tudo desiguais. as relações econômicas que predominam em uma sociedade em certo momento histórico. sujeito a permanente e natural evolução.

nem por isso deve-se eliminar a instituição. quase divina. ESCOLA SOCIOLÓGICA DO DIREITO A Sociologia e o Direito durante muito tempo ignoraram-se mutuamente. indiscutivelmente. a fim de facilitar desde logo a compreensão de questões que oportunamente serão abordadas. neste modesto trabalho. Esse direito. em grande parte sentimental. já existiam regras disciplinadoras do relacionamento social. desde que apareça a sociedade. por exemplo. Embora não seja nosso propósito. é verdade. entendemos necessárias algumas considerações sobre a teoria marxista. Não tem valor igualmente o pressuposto de que haja um substrato eterno. ibi jus). a divulgação da instrução. Não é esta efetivamente a finalidade do Estado. mas. não existindo Direito sem Estado nem Estado sem Direito. afirmar que todo Direito emana do Estado. Ao lado da manutenção da ordem estabelecida. hostilizaram-se mesmo. assume uma infinidade de funções que visam o bem-estar público: a distribuição da justiça. aí fatalmente encontraremos o Direito (ubi societas. é direito. o Estado. muito antes da sociedade se organizar política e juridicamente. [p. fazer críticas a qualquer das teorias examinadas. É falso. Em tempo algum uma sociedade. Qualquer observador é capaz de constatar que muito antes de existir o Estado. sobretudo o Estado moderno. nem na razão ou na consciência coletiva.eminentemente respeitável. fazendo-a voltar aos seus reais objetivos. mas sim corrigi-la. Se aqui ou acolá o Estado divorciou-se de suas verdadeiras finalidades. o Direito tem origem. 7] 6. manifestando-se essencialmente através dos costumes. mas no Estado. Tal posição. que constitua o cerne essencial e perene do direito. e pelo apoio que a classe dirigente concedia aos capitalistas beneficiários desse regime. Simplesmente porque existe moeda falsa não se deve acabar com a verdadeira. que tem por missão manter a ordem e a paz na sociedade. e que não existe direito nas sociedades chamadas primitivas. Não menos falsa e truncada é a afirmação de ser o Estado instrumento de pressão da classe dominante sobre a menos favorecida. apresenta caracteres particulares. ao passo que para Marx. não em Deus. por mais homogênea que tenha sido. pôde viver sem normas de conduta. é explicada pelo espetáculo da miséria que grassava na época. sobretudo nas regiões industriais que Marx pôde conhecer. O encontro entre as duas ciências ocorreu paulatinamente a partir de . Na síntese da teoria marxista. que deve ser combatido por todos os meios e finalmente destruído. a proteção da saúde e da segurança públicas etc. sendo errônea a idéia de que. o Estado é instrumento de pressão. mesmo antes de existir o Estado. e por isso devendo ser combatido e destruído.

sentimentos e cultura. é fonte criadora e área de ação do Direito. [p. Além de Durkheim. orientando a vida coletiva. Existindo em função da sociedade. conforme as suas peculiaridades. Esta organização pressupõe regras de comportamento que permitam a convivência social. O Direito é. não pode viver isolado. necessita de uma organização que. . Origem e Concepção Sociológica do Direito Para a Escola Sociológica. o conjunto de normas que regulam a vida social. o Direito deve ser estabelecido à sua imagem.1. onde há um capítulo dedicado às leis. maneiras de agir. merecem destaque Léon Duguit e Nordi Greco. cuja história não passa de utopia. o Direito tem a sua origem nos fatos sociais. a quem coube o trabalho de fixar definitivamente as relações entre o direito e a sociologia. E o Direito não pode formar-se alheio a esses fatos por ser um fenômeno decorrente do próprio convívio do homem em sociedade. no entendimento de Émile Durkheim. quando foi publicada a obra de Herbert Spencer . pois a idéia do direito liga-se à idéia de conduta e de organização. A sociedade. O Direito não tem existência em si próprio. mas sim filósofo. ao mesmo tempo. 6. entre os fundadores da Escola Sociológica. de pensar e de sentir. culmina nos últimos anos do século XIX com Émile Durkheim. carecemos de regras de proceder. valores. cuja elaboração é lenta e espontânea da vida social. Depois da Segunda Guerra Mundial verificou-se uma ligação mais ativa e fecunda entre sociólogos e juristas.Principles of Sociology. Sem ser jurista. Passando por vários autores. portanto. provindo da consciência das relações entre os indivíduos. o meio em que o Direito surge e se desenvolve. que significam. 8] Paulo Nader sintetiza com maestria essa visão sociológica: “Direito e sociedade são entidades congênitas e que se pressupõem. razão pela qual cada povo tem a sua história e seus fatos sociais. tradições. Costumes diferentes implicam fatos sociais diferentes. A sua causa material está nas relações de vida. justamente. entendendo-se como tais os acontecimentos da vida em sociedade. A razão disso é bastante simples: sendo o homem um ser social. complexo de pessoas e coisas. A sociedade humana é.1882. discipline a atividade dos indivíduos. práticas e condutas que refletem os seus costumes. Obrigados a viver necessariamente ao lado uns dos outros. nos acontecimentos mais importantes para a vida social. refletindo os fatos sociais. Ele existe na sociedade. normas de disciplinamento da vida em coletividade. A sociedade. como Robinson Crusoé em sua ilha. coube-lhe o mérito de ter reconhecido e evidenciado a natureza eminentemente social do direito. seu foco de convergência.

a vinculação entre ambas é tal que um não pode existir sem o outro. considerar o Direito. pois o mundo do direito é o das relações entre os homens. Saraiva. como o são os grupos onde se originam.. Criado pelo homem. seria anárquica. A democratização do Direito pode ser apontada como uma das mais relevantes conseqüências da Escola Sociológica. pp. 1990. Com efeito. pois. Coimbra. Daí a veracidade de antigo brocado: ubi societas. p. cit. ibi jus onde está a sociedade está o Direito. teria o seu fim. 25/26). Se o homem não vivesse em sociedade. filósofos e juristas. oriunda da sociedade e para a sociedade. mais especificamente. p. Em suma. o fato e o direito existem enquanto coexistem” (João Calvão da Silva. sacerdotes e altas castas sociais a ele tinham acesso. 12a ed. Forense. Mas a recíproca é também verdadeira: ubi jus. portanto. jamais poderia germinar em sua consciência a idéia do direito. o Direito representa o grande esforço para adaptar o necessidades de vida” (ob. 25). Não são regras imutáveis e quase sagradas. O Direito é a [p. 21a ed.. uma relação dialética com a realidade social. O Direito foi democratizado quando passou a ter origem na sociedade. pois. Uma de suas características é asocialidade. Direito é realidade da vida social. não haveria o direito sem sociedade. Responsabilidade Civil do Produtor. O acesso à Justiça passou a ser a sua . dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (Introdução ao Estudo do Direito. nem na consciência do povo. ibi societas . segundo a forma exata de Sforza. pp. nas inter-relações sociais.. normas ditadas pelas próprias necessidades e conveniências sociais. não como tendo origem em Deus. Enquanto teve por fundamento a razão. com os fatos que nela ocorrem. O que caracteriza a Escola Sociológica é. Dignas de destaque as palavras do insigne Paulo Nader: “A sociedade sem o Direito não resistiria.onde está o Direito está a sociedade -. nem na razão. o que permitiu que se afirmasse: “Não existe o direito e o fato. a ele tinham acesso os sábios. O Direito é para a Sociologia Jurídica uma ciência essencialmente social. Assevera o Mestre Miguel Reale: “O Direito não existe senão na sociedade e não pode ser concebido fora dela. e nem ainda no Estado mas sim na sociedade. mas sim variáveis c em constante mudança. 9] grande coluna que sustenta a sociedade. a sua qualidade de ser social” (Lições Preliminares de Direito. O Direito tem. para corrigir a sua imperfeição. As normas do Direito são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo no grupo. e não da natureza física ou do mero psiquismo dos seres humanos. enquanto o Direito teve origem divina apenas os nobres. Almedina.exteriores ao indivíduo. 2). as relações sociais. 6/7).

como não poderia deixar de ser. é aquela que se concilia inteiramente com o conteúdo de nossa matéria. o povo passou a ter consciência dos seus direitos como aspecto da cidadania. [p. as praças e fez-se linguagem de todo o povo. 10] . razão pela qual serve-lhe de base doutrinária.principal finalidade. A Escola Sociológica. o Direito ganhou as ruas.

de Direito Civil. . embora ignore. A função social do Direito na atual ordem jurídica brasileira. A PRESENÇA DO DIREITO NA SOCIEDADE Nem todos têm idéia de quanto o Direito se faz presente no meio social. tomando o vizinho proprietário da semente lançada e dos seus eventuais frutos. Função preventiva do direito. semeando o seu campo. pratica uma ocupatio. nem na razão. nas inter-relações sociais. participando das mais simples às mais complexas relações sociais. **** O Direito do ponto de vista sociológico é. É difícil praticarmos um ato que não tenha repercussão no mundo do direito. que apanha na praia a concha preciosa trazida pelas ondas.mas sim na própria sociedade. 7. pp. I. critério da composição jurídica e suas características. Características da atividade de concorrência. um fato social. critério autoritário. O banhista. Atividades de cooperação e de concorrência. que deita fora o resto do seu [p. Função compositiva do direito. de como está entrosado com quase tudo que se passa na sociedade. e como tal tem sua origem. nem na consciência coletiva dos povos. realiza um ato de derelicto. vol. um ato jurídico. a satio. abandonando uma coisa sua. o camponês que. uma peculiaridade da sociedade humana. 11/12). O conflito de interesse e sua composição. Por conseguinte. Como lembrou Ruggiero (Inst. O fumante. trata-se de uma ciência essencialmente social. pois dá origem a uma figura de acessão. adquirindo a propriedade duma res nullius. 11] cigarro ou charuto. pratica. não na Divindade. deixa cair algumas sementes sobre o campo vizinho. tampouco no Estado .Capítulo II FUNÇÃO SOCIAL DO DIREITO A presença do direito na sociedade. Critérios de composição de conflitos: composição voluntária. conforme vimos no capítulo anterior.

quando milhares de pessoas tomam o trem. coopera na realização dos interesses dos outros. tudo aquilo que a vítima efetivamente perder e aquilo que deixar de ganhar em razão do acidente. entretanto. 12] em adquiri-las. Os interesses dos dois convergem para um ponto comum. quer entre o indivíduo e o grupo social. as suas características e o que podem gerar. Atividades de Cooperação e de Concorrência As atividades humanas assumem formas múltiplas. e à medida que se empenha na realização dos seus interesses. temos antes que analisar as atividades que o indivíduo desenvolve na sociedade. mediante o pagamento . Por que o Direito se faz assim presente na sociedade? Qual é a sua função social? É o que procuramos responder neste capítulo. Como se vê. quer se trate de relações entre indivíduos. Para bem compreendermos a função social do Direito. propõe-se a ceder seu uso a outrem. ônibus. um contrato de transporte. Envolvem fins ou objetivos comuns. quer se trate ainda de relações entre os próprios grupos. E se por infelicidade ocorrer um acidente do qual resulte lesão ou morte para alguém. isto é. mas todas elas. realizam. Um indivíduo desenvolve uma atividade qualquer. Exemplo de atividade de cooperação é a do vendedor e a do comprador: o vendedor tem mercadorias para vender e o comprador tem interesse [p. a transportadora se obriga a levá-los incólumes ao ponto de destino. 7. segundo as regras do direito. podem ser reduzidas a dois tipos: atividades de cooperação e atividades de concorrência. até inconscientemente. econômicas ou não. como a família e o Estado. de que o outro diretamente se aproveita. O mesmo se diga do indivíduo que tem um prédio e. através do qual. As primeiras caracterizam-se pela convergência de interesses.Tenha ou não consciência disso. mediante o simples pagamento da passagem.1. a dona de casa. realiza um contrato de compra e venda. Diariamente. pelo restante de sua sobrevida. não precisando usá-la para sua própria moradia ou instalação. o Metrô. Graficamente podem ser ilustradas assim: >. o Direito invade e domina a vida social desde as mais humildes às mais solenes manifestações. ou outro qualquer transporte público. cooperando assim cada qual na realização do interesse do outro. envolvendo danos emergentes e lucros cessantes. quando adquire uma simples caixa de fósforo no quiosque ou gêneros alimentícios no supermercado. segundo a magistral lição de San Tiago Dantas. necessita delas. será a transportadora obrigada a indenizar os prejuízos.

e surge o conflito. dois indivíduos. positiva (ob. Nesse momento rompe-se o perfeito equilíbrio que deveria haver na atividade de cooperação. um em relação ao outro. para a consecução de seus objetivos. coopera na realização do interesse do outro. que os colocam. de sorte que. em que cada pessoa ou grupo procura reunir os melhores trunfos. . Outro exemplo encontramos em dois proprietários de prédios vizinhos: cada um pode usar sua propriedade como quiser. ainda que concorram entre si. embora tenham objetivos idênticos. [p.de aluguel. verifica o comprador que há algum defeito que impede ou prejudica seu uso. Na competição há uma disputa. à medida que cada qual desenvolve sua atividade. Na atividade de cooperação. 23). fins semelhantes. Há reciprocidade de interesses entre o locador e o locatário. paralelas. Graficamente podem ser ilustradas assim: =. sob muitos aspectos. 13] após pagar o preço e receber a mercadoria.2.. sem a interferência ou colaboração do outro. 8. A lição de Paulo Nader bem sintetiza o que dissemos até aqui: “Na cooperação as pessoas estão movidas por um mesmo objetivo e valor e por isso conjugam o seu esforço. Outro indivíduo. independentemente. nesta espécie. desenvolvem atividades independentes. por exemplo. 7. necessitando de um prédio para morar. O médico. uma visando a exclusão da outra. Dois comerciantes. se faz indiretamente e. propõe-se a pagar o aluguel pretendido pelo locador. esta forma revela atividades paralelas. ou para obter outra mercadoria em perfeito estado. Procura então o vendedor para devolver o material e receber de volta o valor pago. O CONFLITO DE INTERESSE E A SUA COMPOSIÇÃO Tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência podem ocorrer conflitos de interesses. Uma das grandes características da sociedade moderna. A interação se manifesta direta e positiva. cit. estabelecidos na mesma rua e no mesmo ramo de comércio. já que não o possui. p. em posição de competidor ou concorrente. mas este se recusa a atendê-lo. dão-nos um exemplo de atividade de concorrência: eles poderão explorar seu comércio indefinidamente sem entrar em choque. Características da Atividade de Concorrência Há paralelismo nas atividades de concorrência. o advogado e outros profissionais liberais desenvolvem este tipo de atividade em relação aos seus clientes. uma concorrência. A interação. São concorrentes. em que as partes procuram obter o que almejam. Nelas. no sentido de que perseguem. pois não convergem para um interesse comum. nunca se encontram. por sua vez.

onde há uma infinidade de condomínios. a partir de então. Paulo Nader pondera com propriedade: “O conflito se faz presente a partir do impasse quando os interesses em jogo não logram uma solução pelo diálogo e as partes recorrem à luta. no apartamento 301. enquanto não transpuserem os limites daquilo que lhes é lícito. danifica os móveis. por exemplo.Pensemos agora no caso do inquilino que. recusa-se a pagar os aluguéis convencionados. ambos situados num bairro industrial e exercendo atividades lícitas. o imóvel do andar superior começa a apresentar vazamento no imóvel inferior: umedece as paredes. prejudica o conforto dos que nele residem. No momento porém em que o comerciante A resolver fazer uma concorrência indevida ou desleal ao comerciante B. surge um conflito. e o proprietário do imóvel B aí se estabeleça com uma lavanderia. embora prometa resolver o problema. Pode um deles até vender mais barato que o outro. Conflitos surgem igualmente nas atividades de concorrência. instalar-se comercialmente etc. apesar de concorrentes. Suponhamos por exemplo que o proprietário do imóvel A nele instale uma fábrica que solta fumaça e fuligem. dizendo. Se o proprietário do imóvel A mantiver em funcionamento sua fábrica. estaremos diante de um conflito de atividades de concorrência. Lembram-se dos proprietários de prédios vizinhos? Vimos que cada um pode usar seu imóvel como melhor lhe parecer: residir nele. é característico da atividade de concorrência. Sobre o tema. e com isso ganhar a clientela do outro. Este tipo de conflito. continuarão em harmonia. Consideremos. muito constante nas grandes cidades. um no apartamento 201 e o outro no andar imediatamente superior. a despeito de insistentemente procurado pelo locador. Entre esses dois estabelecimentos comerciais. ambos estarão em conflito. na verdade nada faz. alugá-lo. estabelecidos na mesma rua com o mesmo gênero de comércio. entretanto. moral ou física. ou buscam a mediação da justiça. ou oferecer melhores produtos. a lavanderia do imóvel B não poderá funcionar. o caso de dois condôminos residentes no mesmo prédio. 14] procura o proprietário do imóvel superior por várias vezes. por último.. Cada qual poderá também usar seu imóvel como bem lhe convier. mas este. que seus produtos são de baixa qualidade. que a sua honestidade é questionável etc. Um belo dia. Podemos defini-lo como . solicita-lhe uma providência. coloca-o a par da situação. O condômino prejudicado [p. Aqueles dois comerciantes. quando as partes vão além daquilo que lhes é lícito fazer no campo do seu próprio interesse. Estará rompida a convergência de interesses existente no momento da celebração do contrato e. após firmar contrato de locação e alojar-se no imóvel.

tanto quanto possível.prevenir conflitos: evitar.. não conciliados pelas normas sociais. como alguém afirmou. FUNÇÃO PREVENTIVA DO DIREITO O conflito gera o litígio e este. mas na realidade assim não é. 25). No conflito a interação é direta e negativa. enfim. que é uma das bases do progresso da sociedade. p. Muita gente acredita que o Direito tem um caráter essencialmente repressivo. muito mais para evitar que os conflitos ocorram do que para compô-los. por sua vez. e conflitos de concorrência. . os que se verificam na atividade de concorrência.” Conclui o prestigiado autor: “Os conflitos são fenômenos naturais à sociedade. mais se sujeita a novas formas de conflito e o resultado é o que hoje se verifica.oposição de interesses. p. O Direito existe muito mais para prevenir do que para corrigir. tranqüilidade. A sociedade não tolera o estado litigioso porque necessita de ordem. evitará entrar em conflito com outrem na sociedade. podendo-se até dizer que lhe são imanentes. tudo faz para evitar ou prevenir o conflito. algumas de suas qualidades” (ob.. 15] Esse é também o entendimento de Paulo Nader. Ao separar o lícito do ilícito. À medida que cada um respeitar o disciplinamento estabelecido pelo Direito. o ordenamento jurídico toma possíveis os nexos de cooperação. O que determina a natureza do conflito é a natureza da atividade. em que o maior desafio não é o de como viver e sim o da convivência” (ob. vendedor e comprador. e aí está a primeira e principal função social do Direito . que deve ter na clareza. os que ocorrem na atividade de cooperação. simplicidade e concisão de suas regras. estabelecendo regras de conduta na sociedade: direitos e deveres para locador e locatário. cit. quanto mais se desenvolve. quebra o equilíbrio e a paz social. equilíbrio em suas relações. Isto se faz mediante a exata definição do Direito. 9. para todos. entre pessoas ou grupos. a colisão de interesses.” Aduz que a função preventiva é exercida para “evitar desinteligências quanto aos direitos que cada parte julga ser portadora. [p. repetidamente citado: “O Direito está em função da vida social. estabelecendo as limitações necessárias ao equilíbrio e à justiça nas relações. O Direito só irá disciplinar as formas de cooperação e competição onde houver relação potencialmente conflituosa. 23). O Direito previne conflitos através de um conveniente disciplinamento social. segundo valores de convivência que a própria sociedade elege. Por isso. Todos os conflitos que podem surgir na vida social são redutíveis a um desses tipos: conflitos de cooperação. Quanto mais complexa a sociedade. A sua finalidade é a de favorecer o amplo relacionamento entre as pessoas e os grupos sociais. cit.

filhos etc. comportar-se. visando atender uma necessidade social. Vivendo em ambiente comum. um locatário que não quer pagar o aluguel e assim por diante. “Cenário de lutas. de sangue. isolado. que gera a amizade. Superar um conflito de interesses é aquilo que chamamos composição. pais. a discórdia. respeitar direitos e interesses dos outros. possuindo idênticos instintos e necessidades. com inúmeras normas de direito disciplinando as relações dos cônjuges. E aí está a segunda grande função social do Direito: compor conflitos.O Direito. o [p. pois poderia viver e fazer o que bem entendesse. Vivendo porém em grupo precisa limitar-se. portanto. E como ocorrem! Basta entrar numa Vara de Família para se ter consciência dos conflitos que estão ocorrendo no lar. 16] amor.. Até mesmo na família. mas que promove. a intolerância. acolá. vejam só. . a colaboração. como vemos mais uma vez. igualmente. e. a sociedade não é simples aglomeração de pessoas. as desavenças. 10. estes acabam por ocorrer.. não necessitaria de regras de conduta. p. Suas normas são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo na sociedade. pondera Paulo Nader. o menor e mais forte grupo social. 25). que vão reclamar soluções. lamentavelmente. todas objetivando prevenir conflitos. Sem essas normas de conduta. Aqui é um vendedor que recebe o preço mas não quer entregar a coisa. porque nem todos na sociedade submetem-se à disciplina imposta pelo Direito. A sociedade reclama que as coisas sejam repostas num ponto de equilíbrio em que possam permanecer. FUNÇÃO COMPOSITIVA DO DIREITO A observância das normas previne muitas ocorrências. Ela se faz por um amplo relacionamento humano. Quanto maior o relacionamento. Se o indivíduo vivesse só. é uma ciência social. cit. é inevitável. maior será a possibilidade de conflito. Os litígios surgidos criam para o homem as necessidades de segurança e de justiça” (ob. maior também a necessidade de disciplina e organização. há que solucioná-lo. os membros ligados por vínculos de afeição. os conflitos seriam tão freqüentes de modo a tomar impossível a vida em coletividade. alegrias e sofrimentos do homem. é natural o aparecimento de conflitos sociais. quanto mais complexas as relações sociais. Pois bem: surgindo o conflito. mas o conflito.

uma vez que sempre contarão com a interferência de um terceiro . as partes discutem entre si e o resolvem da melhor maneira possível. Ao chegar em casa observa que lhe faltam algumas páginas. Houve um conflito de interesses .1. reclama ao vendedor e este. São. ob. entra numa livraria e compra um livro.Em que consiste a composição de um conflito? Não consiste em fazer desaparecer o conflito. O Critério da Composição Voluntária É aquele que se estabelece pelo mútuo acordo das partes. . antes da causa ser submetida ao julgamento do juiz togado. volta à livraria. Esse é o sentido de toda composição. formas mistas que estimulam e valorizam a participação dos litigantes na composição do conflito. porque isso. conduzi da via de regra por [p. Não se pode evitar o conflito. por mais que se procure preveni-lo. colocar os dois interesses em antagonismo na balança. 3) Critério da composição jurídica. A mais moderna legislação processual no mundo todo tem estimulado a composição voluntária como forma de aliviar a sobrecarga do Judiciário. 21 a 24) uma fase de conciliação.o conciliador ou o árbitro. 11. seja para definir o titular do direito. imediatamente. CRITÉRIOS DE COMPOSIÇÃO DE CONFLITOS 1) Critério da composição voluntária. 11. como já vimos. cit.. formas puras de composição voluntária. Surgindo o conflito. e determinar qual o que deve prevalecer e qual o que deve ser reprimido. por exemplo. então. p.307/96). 2) Critério autoritário. 277/278) como no ordinário (art. é impossível. 331). a Lei dos Juizados Especiais (Lei nº 9. determinar a restauração da situação anterior ou aplicar penalidades de diferentes tipos” (Paulo Nader. todavia. O estudante. a rigor.099/95) prevê expressamente (arts. quase sempre atentando para os próprios deveres e obrigações estatuídos pelas normas do direito. 25). No Brasil. 17] conciliadores.resolvido por meio da composição voluntária. A maneira de solucionar o conflito é. Temos ainda a Lei de Arbitragem (Lei nº 9. O Código de Processo Civil também estabelece uma audiência prévia de conciliação tanto no procedimento sumário (arts. da qual poderão valer-se todas as pessoas capazes de contratar para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis. A conciliação e a arbitragem não são. substitui o livro defeituoso por outro perfeito. “O Direito apresenta solução de acordo com a natureza do caso.

11. e aplicável a todos os casos que ocorrerem a [p. saímos do domínio do puro autoritarismo e entramos no domínio do direito.. O Critério da Composição Jurídica e suas Características A composição jurídica é sempre feita mediante um critério elaborado e enunciado anteriormente. Na sociedade de hoje o critério autoritário é ainda utilizado no meio familiar. O Critério Autoritário Por esse critério. entretanto. Estes dois critérios.2. Assim pôde constatar qual era a mãe verdadeira . são imperfeitos e insuficientes para resolver conflitos de interesses que surgem nas sociedades humanas. menos perfeitas. lançando mão de soluções que vai buscar em seu foro íntimo. cabe ao chefe do grupo . do próprio senso de Justiça. o poder de compor os conflitos de interesses que ocorrem entre os indivíduos que se encontram sob sua autoridade.. fosse entregue à falsa mãe. empregados etc. a publicidade e a universalidade. alguns casos de composição tomaram-se famosos.a anterioridade.aquela que imediatamente se opôs à idéia. Deve ter sido elaborado antes para poder ser aplicado ao conflito que ocorrer depois. quando estas atingem sua forma plenamente evoluída. Graças à anterioridade. Senhor etc. preferindo que seu filho. para desempenhar a tarefa de compor conflitos. daquilo que a consciência lhe inspira. vivo. dando uma metade para cada mulher. e na célebre fórmula usada pelo Rei para resolver um conflito entre duas mulheres que disputavam a mesma criança. justamente aquele que mais nos interessa. filhos. ambas reclamando-a como filho. Todos por certo já ouvimos falar na justiça salomônica. iria cortar a criança ao meio. e implica em dizer que o critério aplicado preexiste ao conflito. O Rei Salomão mandou trazer uma espada com a qual. Foi uma solução tirada por Salomão do seu foro íntimo e que. Muito usado este critério nas sociedades antigas. no caso.Rei. Normalmente a autoridade lança mão do seu foro íntimo. parentes. 11. disse. 18] partir de então. São pois características do critério jurídico .3. O chefe da família muitas vezes tem de resolver os conflitos de interesses que surgem entre os seus membros. A anterioridade é o traço característico e fundamental da composição jurídica. Cacique. bem solucionou o conflito. . É aí que se apresenta o terceiro critério.

que o critério tenha sido elaborado antes do conflito. A Função Social do Direito na Atual Ordem Jurídica Brasileira Cumpre por último registrar que o Direito não desempenha apenas essas duas funções na sociedade. Composição jurídica é somente aquela que obedece a um critério anteriormente elaborado e também previamente dado à publicidade. “O Direito. prover o bem comum. tem que ser realizada através de um critério anteriormente estabelecido e perfeitamente enunciado para conhecimento de todos. é necessário que se dê conhecimento do critério antes de sua aplicação. o bem comum. diz Paulo Nader.4. é a ordenação daquilo que cada homem pode realizar sem prejuízo do bem alheio. Modernamente a sua missão é muito mais ampla uma vez que lhe cabe. 59). Concluindo. p. A primeira é a de prevenir conflitos.. na composição jurídica. p. que podem ocorrer tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência. que atenda à universalidade dos casos que se apresentarem dentro do mesmo tipo. favorece o desenvolvimento da ciência. para que a composição seja jurídica. promovendo ainda a formação de uma consciência nacional”(ob.O que se entende por publicidade? Não basta. que acabam por ocorrer não obstante toda prevenção exercida pelo direito. tomando-o conhecido. [p. pois isto implica a universalidade. destacamos as duas principais funções que o Direito realiza na sociedade. Alguns autores preferem falar em generalidade em lugar de universalidade. Em suma. e isto ele faz através do critério jurídico. a elevação do nível cultural do povo. cit. mas sim para todos os casos que se apresentarem com a mesma tipologia. cit. que na belíssima lição de Miguel Reale “não é a soma dos bens individuais. A segunda é a de compor conflitos. Além de garantir o homem. em última instância. o progresso das comunicações. da produção das riquezas. revelado. Isto ele faz através do adequado disciplinamento das relações sociais. a rigor. Por universalidade entende-se que o critério jurídico nunca pode ser cominado apenas para um determinado caso concreto.. Quer isto dizer que todos os conflitos idênticos que surgirem após a elaboração e divulgação do critério deverão se compor pelo mesmo critério. na atualidade é um fator decisivo para o avanço social. muito embora este último termo seja mais usado. 27). 19] nem a média do bem de todos. declarado pela autoridade que o elaborou. 11. É preciso também que o critério tenha sido anunciado. . da tecnologia. uma posição harmônica do bem de cada um com o bem de todos” (ob.

170. XXIII. além do qual se toma abusivo. o exercício de todo direito subjetivo está condicionado ao fim que a sociedade se propôs: a paz. por sua vez. o que se concede ao indivíduo é uma proteção jurídica. Em outras palavras.o Direito como instrumento para a construção de uma sociedade mais justa. Pode-se afirmar que a passagem do individualismo para o social é a característica essencial da evolução jurídica do nosso tempo.100). dos mais simples aos mais complexos. é o instrumento de organização social para atingir essa finalidade. a solidariedade e a harmonia coletiva. quando presentes interesses metaindividuais ou interesse relativo à dignidade da pessoa humana” (enunciado n° 23). em caso algum. e que altera substancialmente o conteúdo da atividade contratual. Exige dos contratantes uma postura mais humana. 182. O novo Código Civil. ser exercido contra a finalidade social que a lei teve em mira quando o reconheceu e protegeu. 422 ao dispor que a liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. enfim. menos individualista. 5°. repita-se. verdadeiro cinto de segurança.. Valer-se do direito para colimar resultados contrários à sua instituição. ao garantir o direito de propriedade. cuja trilha foi seguida pelo nosso Código de 1916. porque o Direito. III. 2a ed. A função social do Direito é consagrada no novo Código Civil no seu art. Temos ali uma cláusula geral a ser observada em todo e qualquer contrato. Assim como o Código Civil de Napoleão foi fruto do liberalismo do século XVIII. ressaltou que terá ela que cumprir a sua função social (arts. [p. XXII. eis o abuso do direito” (Conflito de Vizinhança e sua Composição. San Tiago Dantas assinala: “Pode-se dizer que. contrata também com a sociedade. pois não poderá.A atual ordem jurídica brasileira dá grande ênfase à função social do Direito. 20] ao bem comum. § 4°. III. inaugurando um novo tempo no mundo negocial. a visão social do Direito . No artigo 187 do novo Código Civil a função social do Direito é colocada como limite para o exercício de todo e qualquer direito. . hoje. Forense. ou pelo menos um direito subjetivo que não tem no arbítrio do titular a sua única medida. o jurista Miguel Reale. a ordem. ter afirmado que a socialidade é uma das suas principais características. igualitária e solidária . mas atenua ou reduz o alcance desse princípio. mais do que um direito subjetivo. prestigia esta questão a ponto do seu grande coordenador.foi a grande motivação do novo Código Civil. A Constituição de 1988. Quem contrata não mais contrata apenas com quem contrata. 186). Na jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal foi proposta a seguinte interpretação para esse dispositivo: “A função social do novo Código Civil não elimina o princípio da autonomia contratual. p.

moradia.228 do novo Código Civil submete o exercício do direito de propriedade à sua função social. 1. e não quando destinado a latifúndio improdutivo. O imóvel urbano também tem que ser utilizado em conformidade com a sua potencialidade . comércio..Em conformidade com a Constituição. com os exemplos citados.228 do Código Civil: “O proprietário poderá ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área. o § lº do art. de considerável número de pessoas. podendo ser encontrado um eloqüente exemplo disto no parágrafo quarto deste mesmo artigo 1. e estas nela houverem realizado. Ao falar em finalidade social o diploma civil refere-se ao destino social da coisa. indústria . Um imóvel rural só atende à sua finalidade social quando utilizado na produtividade compatível com sua potencialidade. como não poderia deixar de ser.e não para a especulação imobiliária. em conjunto ou separadamente.. O que se evidencia. é que a socialidade não se resume a uma disposição abstrata. por mais de cinco anos. “O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais”. [p. mas a um princípio que modernamente alimenta toda a nossa ordem jurídica. caso em que será fixada uma justa indenização ao proprietário. Também aqui a finalidade social opõe-se ao individualismo. 21] . seu estado normal de servir ao ser humano. na posse ininterrupta e de boa-fé. obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante”.

características. Conceituar. É fenômeno social. Conceito sociológico do direito. Propomo-nos neste capítulo a explicitar a concepção do Direito como fato social. [pg. 23] 12. Essa tarefa se toma ainda mais arriscada quando se trata do Direito. não é tarefa simples. que surge das inter-relações sociais e se destina a satisfazer necessidades sociais.. Características das normas de conduta: a obrigatoriedade e a sanção. a religião. então deve ser ele entendido como um conjunto de normas de conduta que disciplinam as relações sociais. como já ficou assentado. Provisoriedade e mutabilidade das normas de direito. arriscando-se aquele que se empenha em realizá-la a formular um conceito parcial. tais como prevenir e compor conflitos. deve o estudante considerar todos os elementos dessa coisa. É o que procuraremos fazer com relação ao Direito. Só assim poderá chegar perto da realidade na formulação do seu conceito. e então procurar fazer uma descrição de tudo isso. já no século XVII.Capítulo III CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Normas de conduta. como já vimos. **** O Direito. a cultura. Antes de tentar conceituar qualquer coisa. que os “juristas ainda estão à procura de uma definição para o Direito”. Origem das normas de conduta: a escola monista e a escola pluralista. formulando um conceito que se enquadre na visão sociológica do Direito. é fato social que se manifesta como uma das realidades observáveis na sociedade. finalidade etc. está ligado à idéia de organização e conduta. seus requisitos. O . Kant teria afirmado. lançando mão dos vários princípios expostos nos capítulos anteriores. assim como a linguagem. NORMAS DE CONDUTA Se o Direito. como é sabido por todos.

a sociedade e o indivíduo . quando a norma do art. E isso permite. o contrato celebrado entre A e B em determinado momento e em determinado lugar porque a individualidade dos comandos não é própria do Direito. CARACTERÍSTICAS DAS NORMAS DE CONDUTA Trata-se de normas de conduta que se destinam a todos. São também abstratas porque não se referem a casos concretos quando de sua elaboração. por exemplo. Seria um tiro sem bala. é o Direito a única relação inteiramente determinada pela coexistência humana e que se exaure de homem para homem. com a garantia de que as partes nele envolvidas serão tratadas da mesma maneira. pois. Por isso são chamadas normas universais ou genéricas. mas também aquelas que se realizam entre o indivíduo versus o grupo. isto é. pois na conjugação desses dois elementos . Assim. 121 do Código Penal incrimina a ação de matar.mundo do Direito é o mundo das relações entre os homens. o Direito da disciplina das relações extrínsecas do homem. 13. [pg. Claro está que. cabendo à moral a disciplina de suas relações intrínsecas. mas sim qualquer hipótese de homicídio. mas sim a casos hipoteticamente considerados. se a observância das normas jurídicas fosse facultativa. Sabe-se previamente como será resolvido um determinado tipo de conflito se e quando ocorrer. o prévio conhecimento do critério a ser aplicado na composição dos conflitos e assegura igualdade de tratamento às partes. A Obrigatoriedade Em regra são normas obrigatórias. Portanto. por exemplo. Não somente as relações que se travam entre o indivíduo e outro indivíduo são objeto do Direito. aplicáveis a todas as relações abrangíveis pelo seu escopo.encontramos a sua razão de ser. 24] 13. totalmente inócua se tomaria a disciplina por elas imposta. Não regula de forma direta. O caráter de generalidade das normas do Direito faz que este tenha em vista apenas o que na sociedade acontece com mais freqüência.1. de observância necessária. Cuida. o Direito não se dirige a pessoas determinadas nem a relações consideradas individualmente. E nem poderia ser diferente. . Como tem sido assinalado por muitos autores. como já assinalado. sob pena de o Direito não atingir os seus objetivos. não objetiva concretamente o caso de A matar B. o grupo versus o indivíduo e o grupo versus outro grupo.

a noção do Direito está intimamente ligada à noção de obrigação. portanto.2. é a principal diferença entre a norma jurídica e a regra moral. que agem comandados pela vontade. . vantagem ou poder. 44). Ocorre também que. essas normas correspondem à nossa maneira de pensar e sentir. cit. O ato moral implica a adesão do espírito ao conteúdo da regra. Só temos. moral autêntica quando o indivíduo. É também por isso que se tem afirmado (Kant foi o primeiro) ser a Moral autônoma e o Direito heterônomo. p. do comportamento que encontra em si próprio a sua razão de existir. a palavra direito dá idéia de privilégio. a tal ponto que não lhe sentimos quase o peso. como a gravidade. Pondera o festejado Miguel Reale que “a moral é o mundo da conduta espontânea. faculdade.[pg. liberdade. entretanto. Dizemos “eu tenho direito a isso ou àquilo” para indicar algo que nos favoreça. na verdade. Até mesmo no campo do direito contratual. pois na realidade também ali essa autonomia move-se dentro de limites extremamente reduzidos. 25] lência” (ob. tomamos logo consciência da sua obrigatoriedade pois temos então que responder pelas conseqüências. ou seja. 13. No momento em que transgredimos qualquer dessas normas.. talo nosso condicionamento social. e não uma obrigação. tudo que é oposto à obrigação. Como podem as pessoas inobservá-lo.A obrigação é. embora à primeira vista possa parecer paradoxal. visto ser posto por terceiros aquilo que juridicamente somos obrigados a cumprir. e vice-versa. A moral é incompatível com a força ou coação mesmo quando estas se manifestam juridicamente organizadas. Esquecemonos. em lugar de obrigatoriedade. preferem falar em coercibilidade da norma. Não percebemos que o Direito é sobretudo obrigação porque estamos habituados a obedecer a suas normas. entretanto. a rigor. Então. na exata medida em que o Direito nos confere um beneficio. tomou-se necessário estabelecer uma sanção. Ninguém pode ser bom pela vio. que. Não é possível conceber-se o ato moral forçado. A Sanção O Direito dirige-se a seres dotados de liberdade. regalia. para indicar que ela envolve a possibilidade jurídica de coação. Esta. elemento fundamental do Direito. em geral e por definição. cria uma obrigação ou dever para outrem. Alguns autores. da mesma forma que não sentimos certas imposições físicas. por um movimento espiritual espontâneo realiza o ato enunciado pela norma. Para o público em geral. onde muitos autores acreditam reinar a “autonomia da vontade” a coisa não é bem assim. fruto da força ou da coação.

ORIGEM DAS NORMAS DE CONDUTA Já vimos. livrando a sociedade de sua conduta perniciosa. Para esses destina-se a coação física ou material. É a chamada prevenção geral. É a possibilidade de coação da qual a norma é acompanhada. entretanto. que esta é uma questão discutida.o meio mais eficaz encontrado pela sociedade para tomar a norma jurídica de observância necessária. da consciência coletiva ou do Estado. Sanção é a ameaça de punição para o transgressor da norma. e pena já é o próprio castigo imposto. [pg. embora na prática os autores e a própria lei não a considerem. as opiniões se dividem em duas escolas. havendo aqueles que entendem serem as normas de origem divina. em nosso entender. para todo aquele que descumprir uma norma de Direito. faz com que a maioria se conduza dentro dos limites do Direito. não há como tergiversar: as normas de Direito emanam do grupo social. Sobre o grupo social que deve estabelecer as normas de Direito. a sanção é cominada pelo legislador. consistente em perda ou restrição de determinados bens. frutos da razão. e pena é a sanção concretizada. 26] 14. . empregando o poder coercitivo de que dispõe para punir o responsável pelo ilícito. Por isso alguns teóricos chegam a definir o Direito como um sistema de sanções. A obrigação não pode existir sem sanção. sanção é a pena abstratamente considerada. ao passo que a pena exerce uma coação física ou material. Sanção é a ameaça de castigo para o transgressor da norma. através da qual consegue o Direito evitar a ocorrência de inumeráveis conflitos. outros. A autoridade pública aplica a pena. Tal coação é por Vanni (Lezioni di Filosofia del Diritto) vista como força psíquica do direito. a sanção exerce uma coação psicológica sobre os indivíduos. Há. É a chamada prevenção especial. na esperança de não ser punida. uma pequena diferença entre sanção e pena. Para uma minoria não basta a coação psicológica. Para a sociologia jurídica. no empenho de levá-la a respeitar o Direito. assim como na obrigação de reparar o dano causado. É o remédio extremo usado contra uma minoria que não observa as normas. Essa coação psicológica. É o prometimento de um mal. exercendo constrangimento sobre a consciência. geradora do temor à pena. que se dirige à vontade. acabando por transgredir as normas. logo no primeiro capítulo. e a pena é fixada pelo juiz.

2. decretos-leis. através de leis. em fase adiantada do progresso. o principal adepto da doutrina pluralista é G. adquirem o alcance de verdadeiras regras jurídicas. Gurvitch. mas não com relação à sociologia jurídica. 14. A nossa Assembléia Nacional. muçulmano.1. nos termos que aos governantes se afiguram como os melhores para satisfazer as necessidades e exigências da vida.14. muito divulgado na Idade Média e observado tão escrupulosamente quanto qualquer outra lei nacional. regulamentos. A mais característica dessas instituições foi o direito mercantil (jus mercatorium). o direito canônico. catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. Henri Levy Brühl (Sociologia do Direito. p. que se encontra mais próxima das teorias de Hegel. Segundo Henri Levy Brühl. compreende sociólogos e filósofos. está apto a criar normas de direito. que se difundiram em inúmeras regiões. além das que foram impostas pela autoridade política. sem considerar fronteiras entre Estados nem a nacionalidade dos interessados. ainda . Houve e ainda há direitos supranacionais e infranacionais que não emanam da competência dos órgãos da sociedade global. A doutrina monista. Marx e Kelsen. judaico etc. pode ter sua razão de ser no que se refere à ciência do Direito. 29) cita como exemplo de direito supranacional as instituições consuetudinárias profissionais. 27] expressão pode outorgar-se normas de funcionamento que. esta escola entende que apenas um tipo de grupo social. como por exemplo o direito religioso de vários povos. Não é uma criação arbitrária. Um simples olhar sobre a vida social nos convence de que existiram prescrições jurídicas antes de a sociedade organizar-se em Estado.o grupo político . o nosso Governo. ultrapassando o caráter de simples regulamentos. mesmo nas sociedades já política e juridicamente organizadas. além de alguns juristas. sem dúvida.o Estado devidamente organizado -. bem sintetiza esta questão na lição que segue: “O Direito é necessário. Há aí uma atividade racional. existe imprescindivelmente. que a defendeu em diversos trabalhos. orientada no sentido da formação do Direito. considera que todo agrupamento de certa consistência ou [pg. A Escola Monista Englobando quase todos os juristas. Os homens. A Escola Pluralista A escola pluralista que. sendo igualmente ensinada pelos puristas clássicos. Inocêncio Galvão Telles. intervêm na sua criação. Mas. e que ainda existem prescrições. com freqüência criam Direito.

15.tudo passa. PROVISORIEDADE E MUTABILIDADE DAS NORMAS DE DIREITO Os defensores do direito natural. afirmava: “Panta rei” . 9ª ed. costumes. vol. as mudanças nos grupos modernos são bem mais rápidas e constantes do que nos grupos primitivos. Daí a razão do eterno choque de gerações entre jovens e adultos. O mesmo acontece com hábitos. os jovens tornaram-se adultos. conforme já assinalamos. Tal concepção. p. o outro lado do mundo toma conhecimento quase imediatamente. Se pudéssemos isolar um grupo por um período de dez ou vinte anos. com concepções e visões diferentes da vida. I. Mudamos em nossa maneira de ser e [pg. moda etc. que contestávamos na juventude exatamente aquilo que agora pensamos e fazemos. quando esse mesmo grupo se modifica constantemente? . não se ajusta ao ponto de vista sociológico. 27). E o grupo. do jovem para o adulto. que o grupo social havia sofrido profundas modificações: os adultos envelheceram. Foi assim que aconteceu noutros tempos sob a forma de costumes. 28] queremos que os jovens de hoje se comportem como nós. Se o Direito emana do grupo social. tanto os que o concebiam como tendo origem na Divindade como aqueles que o entendiam fruto da razão. Como pode o Direito. sofre constantes modificações. e vice-versa. Heráclito. sendo originário do grupo. Livraria Petrony. embora muitas vezes nem se perceba a mudança. Assim é porque o próprio ser humano está em constante mudança: mudam os hábitos.que não houvesse esta criação racional e um pouco artificial. entretanto. Imaginemos agora o que se passa nos grupos modernos.. Mal um fato ocorre aqui. como é sabido. um dos mais destacados. o Direito necessariamente brotaria como floração espontânea da sociedade. onde há uma constante troca de influências recíprocas possibilitada em razão dos modernos meios de transporte e comunicação. as crianças tornaram-se jovens. pensamentos etc. mesmo assim haveríamos de constatar. tudo está em constante transformação. do adulto para o velho. estáveis e imutáveis. tudo muda. que o considera produto social. no fim desse tempo. Lisboa. permanecer imutável. consideravam o direito um conjunto de princípios permanentes. não pode ter maior estabilidade que o grupo. Já os filósofos gregos haviam chamado a atenção para essa permanente mutabilidade das coisas e do próprio homem. Evidentemente. e isso mostra o caráter necessário do Direito (Introdução ao Estudo do Direito. da criança para o adolescente. do adolescente para o jovem.

já sofreu mais de quatro dezenas de emendas. o Código de Processo Civil sofreu uma série de alterações e outras precisam ser feitas com urgência. obrigatórias porque são de observância necessária. Trata-se de normas universais porque se destinam a todos. Tivemos uma nova Constituição em 1988 que. prova de maneira clara que o Direito está sujeito a transformações contínuas. como já ficou demonstrado. podem surgir conflitos e que o Direito se propõe [pg.Mudando o grupo. formulamos o seguinte conceito de Direito: conjunto de normas de conduta. 33). cit. mutáveis porque sujeitas a constantes transformações. pois o simples confronto com os diferentes sistemas jurídicos do passado ou dos países estrangeiros basta para dar idéia da prodigiosa diversidade das normas de direito aplicadas na superfície do globo. impostas pelo grupo social. não tem o Direito caráter estável ou perpétuo. quando não consegue impedir que ocorram. que em qualquer tipo de atividade realizada pelo indivíduo na sociedade. empenha-se em compô-los. Aqui mesmo em nosso país profundas modificações foram feitas em nossa ordem jurídica para ajustá-la às novas realidades sociais decorrentes das transformações por que passamos nas últimas décadas. Destaca-se. do ponto de vista sociológico. 16. universais. [pg. A observação. por derradeiro. 30] . coercitiva. mas sim essencialmente provisório. abstratas porque são elaboradas para casos hipoteticamente considerados. 29] primeiramente a preveni-los. abstratas. por sua vez. Tão incontestável é o caráter provisório do direito que alguns adeptos do direito natural conceberam uma noção que denominaram “direito natural de conteúdo variável”. espera-se para breve um novo Código de Processo Penal e.. obrigatórias e mutáveis. CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Juntando todas as características até aqui examinadas. impostas pelo grupo e não somente pelo Estado. p. seja de cooperação ou de concorrência. mudam-se também as normas de Direito. em 2002 entrou em vigor um novo Código Civil em relação ao qual já se fala em mudanças. razão pela qual. assinalou Levy (ob. objetivando prevenir e compor conflitos. sujeito a constantes modificações. destinadas a disciplinar as relações externas do indivíduo. para não nos alongarmos.

porque se originam no grupo social. em sua concepção sociológica. Fatores religiosos. a saber: os fatores econômicos. Inúmeros são pois os fatores sociais que concorrem para a evolução do Direito. da qual falava Siches. sujeitas a constantes modificações. são os principais.e o grupo está em permanente transformação. Inicialmente pode-se dizer que. sendo o Direito uma decorrência das relações sociais. um produto da sociedade. com muita nitidez. mas sim. O sistema de propriedade. 31] ção (indústria. Não são regras permanentes e inalteráveis. as formas de produ. **** O Direito.Capítulo IV FATORES DA EVOLUÇÃO DO DIREITO Fatores econômicos: influência do fator econômico sobre o Direito Romano e sobre o Direito Moderno. Outros fatores sociais.[pg. Fatores políticos. Fatores culturais: concepção de cultura. em nossa opinião. políticos. Tal como a agulha magnética sob a ação de uma corrente elétrica. examiná-las todos. como vimos no capítulo anterior. fazendo-o oscilar. culturais e religiosos. tomando-o um produto de processos sociais (vide capítulo VIII). Vamos apenas destacar aqueles que. tudo o que agir sobre a sociedade produzirá reflexo também sobre o Direito. FATORES ECONÔMICOS A estrutura econômica de uma sociedade reflete-se diretamente no seu ordenamento jurídico. Observa-se aqui. 17. há fatores que agem sobre o Direito. a influência condicionante da sociedade sobre o Direito enquanto fato. neste modesto trabalho. não sendo possível. é um produto de múltiplas influências sociais. .

Influência do Fator Econômico sobre o Direito Romano Em Roma.. Tão marcante é a influência da economia sobre o Direito que alguns autores chegam a se posicionar no sentido de conceber o Direito como reflexo. Sem dúvida constitui exagero considerar o Direito reflexo exclusivo da constituição econômica. tinham que tirar da terra o seu sustento. cit. cit. criadores do materialismo histórico. “que dedicou especial atenção às relações entre direito e economia”. eram os que mais convinham a agricultores. os costumes desses camponeses. da constituição econômica. 293). Engels. sua estrutura econômica se transforma”. o resultado”. . na medida em que nos são acessíveis.1. p. os demais fenômenos culturais não passando de simples reflexos superestruturais das forças genéticas armazenadas pelas relações econômicas de produção. as relações entre empregados e patrões .). a sociedade inicialmente compunha-se de camponeses que viviam da lavoura. embora não se possa negar que. o fator econômico é o que exerce uma influência mais decisiva. exclusivamente. ainda que seguido de muito perto pelo político. Marx e F. Caracterizavam-se por forte concentração de poderes nas mãos do pater famílias e rígida disciplina doméstica.agricultura etc. pp. influenciando-a. 293).tudo isso se reflete na ordem jurídica. afirma que “todo o desenvolvimento jurídico toma-se inexplicável se o isolam das forças econômicas. possuem e comerciam. como por exemplo K. assinala que “raças e nações as mais diferentes têm de sujeitar-se ao mesmo direito quando são iguais as relações econômicas nelas dominantes e que a nação sofre mutação radical do próprio direito quando. Seligman. que o Direito vai se modificando à medida que vai se alterando a estrutura econômica da sociedade. o fato econômico é a causa. Achille Loria (ob. Assim sendo. citado por Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. o fator econômico era a mola mestra da história. 80 e segs. entre as forças modeladoras do Direito. 17..). como observou Levy Brühl (ob. a situação legal. p. Para eles. Ora. Nesse sentido. com o crescimento da população. podemos afirmar. A organização social tem o seu ponto básico de articulação no modo pelo qual os homens produzem. sem possibilidade de erro.

Uniam-se todos em tomo do pater familias para a produção dos bens necessários à sobrevivência do grupo.” [pg. entraram em contato com outros povos. nem autonomia. do trabalho. acarretando isso tudo um tremendo abalo na ordem jurídica. o único dotado de capacidade jurídica. os estrangeiros deixaram de ser tratados como inimigos e passaram a ser amigos. A organização da família tomou-se menos rígida. no fim do século XVII. Aos poucos foram surgindo os grandes organismos econômicos. dedicaram-se com grande intensidade à compra e venda de mercadorias. Os demais membros [pg. Influência do Fator Econômico sobre o Direito Moderno Algo idêntico ao ocorrido em Roma desenvolveu-se quando da criação da grande indústria e do maquinismo. os agricultores romanos tomaram-se comerciantes. Encontrou-se um meio para liberar o filho da tirânica autoridade do pai .2. indispensável no comércio. passando a ser submetida ao controle da sociedade global e não mais exclusivamente ao pater familias. outro meio para libertar a mulher casada da autoridade do marido . e operações foram inventadas para as quais o simples consentimento podia gerar obrigações.o casamento sine manu. nacionais e multinacionais. o formalismo atenuou-se com a introdução da noção de boa-fé no direito. Aí pelo III século antes de Cristo. 17. Lembra Machado Neto (Sociologia Jurídica. em decorrência do enfraquecimento correlativo dos proprietários de terras.a emancipação. tais como o direito comercial. 33] . Lançaram-se ao mar. Tal direito estava perfeitamente adequado a uma sociedade de pequenos agricultores. sua substituição pelo servilismo durante o regime feudal e sua posterior superação pelo assalariado na moderna sociedade burguesa. A burguesia ascendeu ao poder político. e sobre a condição jurídica do homem trabalhador em particular. são transformações econômicas de repercussão imensa sobre o status pessoal em geral. Surgiu uma nova classe. p. 32] não tinham qualquer iniciativa. Novos ramos do direito foram brotando no velho tronco do Direito Civil e aos poucos ganhando autonomia. 244): “A própria instituição da escravidão. não importando idade ou situação social. industrial. Essa modificação na estrutura econômica imediatamente repercutiu no direito. econômico etc. multiplicaram-se os sistemas de manumissão de escravos.Todos os membros do grupo doméstico estavam submetidos à autoridade do chefe. enriquecida pela posse de capitais mobiliários.

Cumpre ainda assinalar que. de maior ou menor rigidez. embora não se possa negar a proximidade em que se situam. razão pela qual sua teoria foi tão mal compreendida pelos sociólogos. O próprio Direito Penal. como sobre o conteúdo do direito. [pg. apresentam inegável repercussão econômica: o Direito Civil.a estática do Estado. Sem entrar em polêmica. que mantém maior distância do econômico. voltamos a enfatizar que do ângulo sociológico em que nos situamos há uma nítida distinção entre o Direito e o Estado. veremos que é exatamente através da regulamentação jurídica que o Estado as exerce. dependendo dos fatores políticos vigentes. 18. A própria organização da família. modernamente é utilizada para designar a ciência e a arte de governar. 310). na estrutura jurídica atual. longe de ser o responsável pela gênese do direito. tanto na função e estrutura jurídicas.. Ed. Se bem examinarmos o conjunto de atribuições do Estado. FATORES POLÍTICOS A palavra política. o Direito Constitucional . não foge à regra. assumirão aspectos variantes. o regime político de um país exerce influência direta sobre suas regras de Direito Público e até de Direito Privado. 1949. falimentares e a ordem econômica. o direito comercial. monárquico. bem como o Direito Administrativo e o Direito Fiscal . abrangendo as relações entre o indivíduo e o Estado. É que os juristas enfocam o direito exclusivamente pelo ângulo da ciência jurídica. as relações dos Estados entre si. embora ligada etimologicamente a polis (cidade). principalmente no que diz respeito aos crimes contra o patrimônio. p. do trabalho. contratos. A aparição do poder político. sucessões. apresentarão peculiaridades. Atalaya. Segundo o regime em que se vive. direitos reais.a sua dinâmica. aristocrático. Por essa razão. como observou Nordi Greco (Sociologia Jurídica. como já o fazia Kelsen. feudal ou democrático. este se realizando socialmente através daquele. é apenas um evento que exerce uma reação grave e imediata. ] . primeiro capítulo) e ainda hoje é a perspectiva da maioria dos juristas em face do Estado. a aquisição e o uso da propriedade. bem como as funções e atribuições do Estado. na parte que se refere às obrigações. tributário etc. a livre iniciativa comercial ou econômica. as relações entre empregados e patrões etc. Por isso já houve quem identificasse Estado e Direito (vide Teoria Marxista. pelo seu aspecto normativo puro.

que estabeleceu uma nova relação entre patrícios e plebeus. em uma ideologia que se pretende implantar na organização social. a segunda. p. com a Declaração dos Direitos do Homem e a Legislação Napoleônica. notadamente o Constitucional. no que diz respeito às nossas constituições de 1824. com o que se fecha o ciclo revolucionário.. A influência dos fatores políticos sobre o Direito toma-se mais patente no caso de revolução. 1891. Se o movimento contraria o sistema de legalidade do Estado. possui o poder de instituir uma nova ordem jurídica. Pressupõe idealismo.O atual momento político brasileiro oferece eloqüente exemplo disto. político e econômico contra o qual a revolução se lançou. Imbuído pelo chamado espírito revolucionário. Tão logo chegou ao poder o Partido dos Trabalhadores. 1937. 56). assim foi em Roma com a Lei das XII Tábuas.. pois a luta revolucionária exige um novo instrumental jurídico capaz de dar validade e eficácia às transformações que visa a operar no quadro social” (ob. da redemocratização do país . é básica. “é um acontecimento político motivado pela insatisfação social quanto às instituições e regime vigentes. cit. Esse novo Direito. como lembrou Machado Neto (ob. pois a revolução implica adesão social. a quinta. A possibilidade de instauração de um novo Direito. a Política e a Trabalhista.a reforma do Judiciário. anota Paulo Nader. 1946. 35] do Estado Novo. que se funda em novas concepções. A legitimidade do Direito criado baseiase no apoio popular. a quarta. e assim até mesmo no Brasil. 1967 e 1988. É com essa mudança efetiva que a revolução se completa. Caracteriza-se por dupla ação: intelectual e de força. cit. traz no seu bojo a intenção de legitimar e justificar o poder. decorrentes da vitória da revolução francesa. do advento do fascismo e [pg. Assim foi na Grécia com a Legislação de Sólon. a terceira. substituindo aquele que servia de sustentáculo normativo ao sistema social. Mal concluída a tomada do poder pelo grupo revolucionário. refletindo as novas tendências políticas. p. 161). o grupo que destituiu os governantes e assume o poder deve iniciar o trabalho de reformulação social. de acordo com a filosofia preconizada. da república. surge um Direito novo. A revolução. assim no mundo contemporâneo. das revoluções de 1930 e 1932. assim no mundo medieval com a Magna Carta (1215). o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva arregimentou forças políticas para realizar profundas reformas constitucionais. igualmente de grande repercussão social . 1934. como as da Previdência e a Tributária que afetarão muitos milhões de brasileiros. sendo ainda certo que outras estão em andamento. que significou a superação de uma questão social. A primeira resultou da revolução da independência.

sua tendência ou dom natural. a última. Cada povo tem sua peculiaridade. e quando a cultura de um é colocada em contato com a de outro. exerceu influência decisiva. cit. A conquista da Grécia. 305-306). mas também nas suas instituições jurídicas. não apenas nas artes e na literatura romanas. 19.. 156). Pois o direito de cada um desses povos reflete o aspecto cultural em que mais se desenvolveram. da revolução de 1964. os hebreus pela religião. Roma pelo direito.” 19. por exemplo. os fenícios pela navegação. quando esta é realizada diretamente pela sociedade e pelos diversos grupos sociais extra-estatais. pela cultura. 36] . e o segundo. p. destacamos as seguintes: 1) “O direito sofre. há influências recíprocas sobre o direito de cada um. pp.” 2) “Criam-se condições objetivas para o aparecimento gradativo da distinção entre direito público e privado: o primeiro como a regulamentação da conduta dos indivíduos naqueles pontos que mais de perto dizem respeito ao interesse coletivo ou estatal.1. Dentre as principais conseqüências da atuação dos fatores políticos. lembrado por Machado Neto (ob. O direito evolui acompanhando a evolução cultural. que bem ajuda nessa tarefa de conceituar a cultura. como é sabido por todos. mencionados por Machado Neto (ob. necessariamente. a sexta. constataremos imediatamente a necessária harmonia existente entre a ordem jurídica e os fatores de cultura. a ponto de podermos afirmar ser ele o aspecto cultural de um povo. [pg. cit. a moral e as normas do trato vão aparecer como as formas específicas da socialização. FATORES CULTURAIS Se compararmos o direito de uma sociedade culturalmente desenvolvida com o de outra inculta.após a guerra que derrotou o fascismo no plano internacional. em que o interesse dominante é o dos particulares.” 3) “Aparecimento das condições objetivas para o direito separar-se das normas sociais: o direito passa a ser a norma estatal por excelência. sobre o direito. A Grécia.. da redemocratização do Estado Brasileiro. O Que é Cultura? Há na mitologia grega um personagem. Da norma indiferenciada passa-se à centralização jurisdicional e daí à centralização legislativa. o impacto de uma tendência centralizadora. notabilizou-se pela arte.

Cultura é isso. enfim. pois com base nos conhecimentos que adquiriu e desenvolveu. subtraiu um archote do carro flamejante de Zeus e deu-o de presente à humanidade. pêlos abundantes.. Nos tempos modernos. cit. força descomunal. tudo aquilo em que colocasse as mãos. a técnica. amigo dos homens. São conhecimentos que vão se formando. capaz de transformar em utilidade. criar a arte. a religião. jurídicas e de costumes. a música. Na definição de Taylor. espinhos. destreza invulgar etc. um fenômeno cultural. a autoridade. citado por Hermes Lima (ob. de regras morais. Numa definição simplista. Epimeteu conseguiu para os animais. por ele adquiridas em sua condição de membro da sociedade”. Falamos hoje em Direito Espacial. o direito e a religião [pg. FATORES RELIGIOSOS Nos povos antigos. o homem transformou pedra em machado. e de quaisquer outras aptidões do homem. como ocorreu nas últimas décadas com a China. de criatura passaria a criador. Nuclear. das Telecomunicações etc. ficando ele nu e desamparado na natureza. Para o homem nada restou. Praticamente se confundiam porque o poder. o direito. realidade somente possível graças ao progresso científico dos tempos modernos. crenças. cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza. tudo aquilo que lhes era necessário para a sobrevivência: dentes fortes e agudos. levar ao infinito os seus conhecimentos. metais encontrados na natureza em máquinas e instrumentos agrícolas. disciplinar a lavoura. onde um abutre vinha periodicamente devorar-lhe o fígado. o direito não se diferenciava da religião. o rei dos deuses submeteu-o a cruel castigo. seus protegidos. Foi então que Prometeu. a ciência.Quando da criação do mundo. ao passo que o isolamento retarda o progresso da cultura do povo. pele de animais em vestuário. cascos resistentes. gerando a estagnação e a imobilidade. acorrentando-o ao Cáucaso. 20. a intercomunicação social é poderoso fator de formação e desenvolvimento cultural. a filosofia. com pena do homem. p. Com o seu desenvolvimento cultural conseguiu dominar as forças da natureza. artes. Assim agira Zeus porque sabia que. 37] emanavam da mesma . está no fato de surgirem novos ramos do Direito à medida que se expande o mundo cultural do povo. transmitindo-se a outras gerações como autêntica herança social. em armas de defesa e ataque. domesticar os animais. Na verdade assim foi. chifres pontiagudos. A maior evidência de ser o Direito uma manifestação de cultura social. “cultura é o conjunto de conhecimentos. 13). o homem se tomaria um verdadeiro semideus. Indignado com a ousadia de Prometeu. de posse do fogo divino. carapaças..

Tinham a posse dos postos de comando (legisladores. Quando o chefe político não era também o líder religioso. divórcio. chefes militares. Como exemplo lembramos as transformações ocorridas no Direito romano. As legislações eram. no que diz respeito a casamento. quando da formação do Direito canônico. repletas de rituais. de um modo geral que a religião se ocupa com o foro íntimo. e quase sempre estavam centralizados nas mãos da mesma pessoa. onde religião e direito não se confundem e a Igreja está separada do Estado. jurista e sacerdote. convertendo-o em ciência de iniciados. estado jurídico da mulher etc. transmitindo-se de pai para filho o monopólio de conhecer o direito. Tudo era conservado em segredo na mesma família. inacessível ao povo. a religião continuou exercendo largamente a sua influência. torna-se difícil distinguir legislador e profeta. ainda hoje estão profundamente impregnados de religião. Hoje. e cercavam o direito de um formalismo terrível. conselheiros). Na Idade Média. onde regras jurídicas e religiosas praticamente se confundem. o que correspondia à posse também da riqueza e dos privilégios. 20. a exemplo do que ocorre no Mundo Islâmico. portanto. este partilhava do poder. processo e ritual. o direito foi se separando da religião . com a consciência pessoal. o direito disciplina as relações sociais que se travam entre o homem e o homem. Os sacerdotes contavam com a crença popular que os considerava inspirados pelos deuses. a religião se preocupa com as relações entre o homem e a divindade. Influência da Religião sobre o Direito Alguns sistemas jurídicos. Somente após um lento e prolongado processo de secularização. tal como entre os povos antigos. Entretanto. . como os egípcios. lei e tabu. pena e purgação do pecado. homens talhados para tal ofício pela natureza das ocupações que desempenhavam nas sociedades rudimentares.o mundo profano do sagrado. ou entre o homem e o grupo. Em alguns povos. exercendo imensa influência sobre o povo. crime e pecado.divindade. preceitos e proibições de ordem religiosa. Os primeiros intérpretes do direito foram os sacerdotes. quando se defrontou com as idéias cristãs nos séculos III e IV de nossa era. não deixam de receber a influência constante dos fatores religiosos. caldeus. mesmo os sistemas jurídicos leigos.1. código e livro sagrado. hebreus. filiação. ao passo que o direito trata do foro externo.. pode-se dizer. sob o impacto de civilizações mais adiantadas.

culminando [pg. 38] com a criação de novas instituições. Nos dias atuais, os países onde predomina o protestantismo são bem mais liberais para com certos assuntos jurídicos do que aqueles onde predomina o catolicismo. O divórcio, por exemplo, foi aprovado no Brasil depois de longa e sistemática campanha contrária que a Igreja Católica lhe moveu. E até hoje não temos leis regulamentando o controle da natalidade em razão da acirrada oposição que setores conservadores religiosos lhe fazem.

20.2. Outros Fatores Sociais

Esses são os principais fatores sociais da evolução do Direito, mas como estes, muitos outros existem a exercer idêntica influência, pois, sendo o direito um fenômeno social, atuam sobre ele todos os fatores que atuam sobre a sociedade. O clima, o território, o número de habitantes, os recursos naturais, os grupos organizados, e a própria opinião pública despertada pela mídia a respeito de algum caso rumoroso, são outros tantos fatores da evolução do Direito. Serve-nos de bom exemplo o recente Estatuto do Desarmamento que, ao promulgá-lo, o Presidente Lula disse que essa nova lei “expressa a vontade unânime da sociedade”. Há, na realidade, a generalizada convicção de que a quantidade de armas em circulação, em poder da população, é causa direta dos altos índices de violência. Pelo menos a maioria dos homicídios não ocorreria se o agressor não estivesse armado, o que já não seria pouco. Em vinte anos (1979/1988) meio milhão de pessoas foram assassinadas no Brasil, segundo levantamento do Ministério da Justiça. Esse número de homicídios representa metade dos mortos nos oito anos de guerra Irã-Iraque, na década de 1980, e a sexta parte dos mortos na Guerra do Vietnã, um dos conflitos mais violentos do final do século XX. Entre os países que não enfrentam guerra civil, o Brasil detém o recorde de mortes por arma de fogo. Em termos absolutos, o estado mais violento é São Paulo, palco de 6.429 assassinatos entre janeiro e junho de 1999. Em seguida vem o Rio de Janeiro com 3.045 homicídios. Segundo o ex-ministro da Justiça Renan Calheiros, o Brasil é o campeão mundial em homicídios. Afirmou ele ainda que mais de 90% desses homicídios, em que criminosos e vítima não se conhecem, não são esclarecidos (O Globo, 18.07.2000). Entretanto, a aprovação da Lei do Desarmamento não foi nada fácil. O Presidente Fernando Henrique não conseguiu fazer andar o seu projeto de lei a respeito da matéria, mesmo depois de fazer do envio da mensagem ao Congresso uma festa pública e um compromisso. O Lobby contra o projeto, [pg. 39] organizado principalmente por fabricantes de armas e munição, foi mais forte. Para vencer essa resistência foi necessária uma grande

mobilização da opinião pública, para o que a mídia e as associações civis muito contribuíram, organizando e divulgando grandes manifestações em passeatas, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. A batalha, entretanto, não está ganha. A lei precisa ser regulamentada, e os lobistas das armas certamente voltarão à luta para tentar influir nessa etapa. E a regulamentação pode decidir a sorte da legislação. Como disse Rubem César Fernandes, diretor do Viva Rio, “é fácil a lei não pegar: basta todo mundo achar que a batalha já está ganha”. Com efeito, daqui a menos de dois anos haverá um referendo popular que decidirá sobre a proibição ao comércio de armas no país. Se a opinião pública não continuar informada e motivada tudo poderá retomar à estaca zero. Concluímos este capítulo com as palavras do saudoso e sábio Oscar Tenório, “a vida das normas jurídicas não é eterna; elaboradas para as relações dos homens em sociedade, têm o seu destino condicionado ao substractum social que elas disciplinam e ordenam” (Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, Borsoi, 1955, p. 64). As mudanças na sociedade mais cedo ou mais tarde refletem em mudanças na legislação em vigor ou em uma nova interpretação dada a normas anteriores. [pg. 40]

Capítulo V

FONTES DO DIREITO
Conceito de fonte e espécies: fontes materiais ou de produção; fontes formais ou de conhecimento. As fontes mais importantes do ponto de vista sociológico. O costume - conceito e elementos. Origem e expansão do costume. O papel do costume. Espécies de costume. A jurisprudência: o papel da jurisprudência em Roma e nas sociedades modernas; o papel da jurisprudência nas sociedades legalistas. Exemplos de jurisprudência transformada em lei. Relação entre a jurisprudência e o costume. A lei. Semelhança e distinção entre a lei e o costume. Sistema preferido - o costume ou a lei?

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O tema relacionado às fontes do Direito é normalmente abordado por todas as obras de Introdução à Ciência do Direito, decorrendo daí a indagação: por que também examiná-lo num compêndio de Sociologia Jurídica? É que a Sociologia Jurídica, como já vimos, enfoca o Direito por aspecto próprio, peculiar - o fato social, e disso decorrem pontos de vista especiais com relação às suas fontes. Teremos oportunidade de ver que as principais fontes do Direito para a Sociologia Jurídica não são as mesmas para a Ciência do Direito, que o enfoca pelo aspecto normativo. Ademais, o exame do tema proposto ajudará o estudante a ver com mais clareza as distinções entre a Sociologia Jurídica e a Ciência Jurídica. 21. CONCEITOS E ESPÉCIES A palavra fonte etimologicamente (fons, fontis) está ligada a fenômenos da natureza, indicando a origem ou nascimento de um curso de água. [pg. 41] Em direito a palavra liga-se também à idéia de origem, nascimento, mas pode ser empregada em duas acepções diferentes: histórica ou documentária e dogmática.

No sentido histórico ou documentário, consideram-se fontes todos os dados ou elementos de qualquer natureza que nos tragam alguma informação sobre o direito e as instituições jurídicas presentes ou passadas. Assim, por exemplo, serão consideradas fontes: manuscritos antigos, papiros, inscrições, monumentos, material arqueológico, desde que forneçam informações sobre o direito. No sentido dogmático, o que nos interessa no momento, a palavra fonte designa a origem, a procedência, o elemento gerador, a causa de algo - neste caso, o direito. Quando falamos em fonte do Direito, portanto, estamos nos referindo a tudo quanto concorra para a sua existência, seu aparecimento e formação. Costuma-se classificar as fontes do Direito em materiais e formais. As fontes materiais são assim chamadas porque, na realidade, materialmente falando, são as responsáveis pela elaboração do Direito. A palavra material vem de matéria, substância, essência, razão pela qual é usada para indicar aquelas fontes que verdadeiramente têm substância de fonte. Se lhe examinarmos o conteúdo, veremos que o Direito é aí elaborado. Por isso as fontes materiais são também chamadas fontes substanciais ou de produção. As fontes formais, por sua vez, são assim chamadas porque de fonte só têm a forma; nada, porém, de conteúdo. Aparentemente o Direito tem origem nas fontes formais, mas na realidade elas apenas o tomam conhecido. Por isso são também chamadas fontes de conhecimento. Se pudéssemos usar uma figura nada ortodoxa, diríamos que o Direito é produzido nas fontes materiais e embalado e distribuído pelas fontes formais. Para o sociólogo, portanto, ao contrário do jurista, as fontes formais não passam de meios de exteriorização, ou de conhecimento do Direito elaborado pelas fontes materiais, as únicas que realmente merecem a designação de fonte.

22. FONTES MATERIAIS OU DE PRODUÇÃO

As fontes materiais podem ser: imediata (que está mais próxima) e mediata (mais distante). Fonte material imediata são os órgãos legiferantes do Estado, ou seja, aqueles que, segundo a ordem constitucional, têm a função de legislar, tanto no Poder Legislativo como no Executivo. Fonte mate- [pg. 42] rial mediata ou remota é a sociedade, pois, conforme ficou demonstrado na primeira parte deste trabalho, o Direito emana do grupo social. De acordo com a lição de Paulo Nader, “o Direito não é um produto arbitrário da vontade do legislador, mas uma criação que se lastreia no querer social. É a sociedade, como centro de relações de vida, como sede de acontecimentos que envolvem o homem, quem fornece ao legislador os

não bastando a repetição de atos diferentes. para haver costume. começando por aquela que merece a preferência da sociologia. é preciso uniformidade na série de atos. indicando um comportamento idêntico pelos membros da comunidade. Como causa produtora do Direito. 43] O elemento externo. a Geografia entre outros” (ob.elementos necessários à formação das estruturas jurídicas. . A principal (e única para alguns) fonte material é o Estado. Significa isto dizer que. a Economia. É a maneira pela qual o costume se exterioriza. Não vamos tratar neste trabalho das fontes materiais ou de produção. e a mediata (a sociedade) já foi estudada em Sociologia Geral. como vimos. como a Moral. as coisas não são bem assim. o próprio grupo humano. suprema. porque a imediata (órgãos legislativos) é matéria do Direito Constitucional. p. objetivo. [pg.CONCEITO E ELEMENTOS Há dois elementos constitutivos nas normas do direito consuetudinário: o externo e o interno. O COSTUME . uniformes e constantemente repetidos. 138). as fontes materiais são constituídas pelos fatos sociais. As fontes formais ou de conhecimento também se dividem em imediata e mediata. pelos problemas que emergem na sociedade e que são condicionadas pelos chamados fatores do Direito. a expressão autêntica da consciência jurídica social. Vamos pois nos ocupar apenas com as fontes formais. é representado por uma série de atos semelhantes. Esta é a fonte primeira. 23. sendo a primeira constituída pela lei e as outras pelos costumes e a jurisprudência.. AS FONTES MAIS IMPORTANTES DO PONTO DE VISTA SOCIOLÓGICO Se o Direito é um fato ou produto social do grupo como grupo. claro que para o sociólogo a fonte material mais importante é a sociedade. sem a qual não haveria que falar em Direito. enfoca o Direito pelo aspecto normativo. tomando-se conhecido. os órgãos legislativos. sendo a lei a mais importante fonte formal. viva. o costume merece a preferência da sociologia jurídica porque constitui a primeira e principal manifestação do Direito criado pela sociedade. cit. Já para o jurista que. Tão logo a sociedade elabora uma determinada forma ou regra de conduta. Entre as fontes formais. 24. de natureza material. que essa repetição seja constante. exterioriza-a através do costume.

Com o correr do tempo a maioria do grupo passa a adotar aquela mesma forma de proceder. com a consciência de que correspondem a uma necessidade jurídica. e vai sendo transmitido por tradição oral. praticada com regularidade e certa duração. [pg. é a conduta social reiterada de forma constante e uniforme. é a convicção jurídica de que a observância dessa prática corresponde a uma necessidade de direito. ob. pois a coletividade só começa a ter um comportamento constante e uniforme quando intimamente convenci da de que esse comportamento é adequado às suas necessidades jurídicas. é um Direito sem paternidade. mas algumas pegam. no convencimento íntimo de que a prática de tais atos representa uma necessidade coletiva. 24. que atende às conveniências sociais. por ser de necessidade jurídica. espontânea. difusa. Para elaborarmos agora o conceito de costume basta juntarmos os seus dois elementos. de natureza psicológica. ou com uma relação social que ainda não se encontra suficientemente disciplinada. Verifica-se assim que o costume é de formação livre.1. .ininterrupta. Está formado o costume. 44] para suprir suas necessidades. 145). não sendo suficiente a repetição eventual. cit. que vai se consolidando em virtude das forças da imitação do hábito. ajustam-se e começam a se expandir. Imagina então um meio de resolvê-la: tem uma idéia e a coloca em prática. por estar convencida de que é a maneira correta. ou de comportamentos exemplares (Miguel Reale. É por isso que se diz que o Direito costumeiro é um Direito anônimo por excelência. gradativa. praticada pela generalidade do grupo e não apenas por alguns dos seus membros. Alguém no grupo se depara com um fato. Em outras palavras. e teremos: costume é a repetição constante e uniforme de determinados atos pelos membros de certa comunidade social.. Origem e Expansão do Costume Surge o costume de uma necessidade social. isto é. Trata-se de elemento subjetivo e consiste na consciência da obrigatoriedade da norma. quase sempre em determinado meio sócio-profissional. adquirindo um caráter eminentemente histórico. O elemento interno. Vai sendo formado paulatinamente pela própria sociedade. p. de acordo com as condições sociais do grupo no qual se formou. necessária. Evolui no tempo e no espaço. É principalmente sobre este segundo elemento que se funda a razão da obrigatoriedade do costume. A maioria das idéias morrem no nascimento por não apresentarem qualquer inovação ou utilidade prática. que a prática constante e uniforme seja também geral.

Embora o papel dos costumes nos países da civil law não tenha a relevância que tem nos países da common law. a sociedade cria uma regra. como do conhecimento geral. a primeira regulamentação da vida social foi feita através dos costumes. “o costume é uma força produtora do Direito em todas as fases do . Direito positivo escrito. base legislativa. em face de uma lacuna no ordenamento jurídico. e desta forma vai criando o direito. bem como a Lei das XII Tábuas (apontadas como as primeiras leis escritas) são uma consolidação de usos e costumes dos povos da Babilônia e do Lácio. Continua sendo elemento que condiciona os conceitos de bom e de mau. São positivas quando. existem dois tipos de ordenamento jurídico. a sociedade vai paulatinamente deixando-as em desuso. determinando o que deve ser seguido e observado pelo grupo e distinguindo-o daquilo que deve ser evitado e não praticado. O Papel do Costume Nas sociedades modernas. é de se reconhecer que nem sempre isso foi assim. podem ser positivas e negativas ou omissivas. ultrapassadas. que ainda não conheciam a lei. As nações latinas e germânicas adotam o sistema de tradição romana – civil law. Indiscutivelmente. um procedimento destinado a supri-lo. Ao lado desse sistema. 45] grupo.2. Miguel Reale observa que o Código do Rei Hamurabi. doutrinadores e tratadistas.Já vimos que o costume manifesta-se exteriormente por atos. o costume não perdeu completamente sua força. que constituem seu elemento objetivo. desta forma destruindo o direito. razão pela qual é acolhido pelos tribunais. Essas manifestações. nos quais o Direito se revela prevalentemente pelos costumes e pelos precedentes.common law. a sociedade vai elaborando outras normas de comportamento destinadas a substituí-las. mesmo no sistema legalista. Segundo o próprio Clóvis Beviláqua. não mais atendendo às necessidades sociais. ineficazes. é o costume manifestar-se das duas maneiras: à medida que vão caindo em desuso as normas ineficazes. São negativas ou omissivas quando. 24. entretanto. temos a tradição dos povos anglo-saxões . Mesmo depois do surgimento da legislação. estando as normas desatualizadas. Nas sociedades primitivas. escritores. toda a vida social estava alicerçada no costume. um fato ainda não devidamente disciplinado. fundado no primado da Lei. que reside no fato de ser elaborado pelo próprio [pg. O mais comum. entretanto.

e Código de Processo Civil. desempenhando destacado papel nas relações econômicas.3. caindo em desuso. onde a lei nada dispôs. verde. Exemplo dessa espécie de costume é a chamada praxe forense: muitos atos praticados diariamente no foro não são expressamente regulamentados. 4°. o desuso é espécie do gênero costume contra legem. 24. por último. com recomendação à lei para facilitar a sua conversão em casamento. dando-lhe interpretação mais conforme às necessidades sociais”. que a própria lei (Lei de Introdução ao Código Civil. 126) determina ao juiz lançar mão dos costumes quando a norma for lacunosa ou omissa. que não abrangeu aquele fato oriundo das interrelações sociais. porque encontra respaldo na própria lei. Praeter legem é o costume que funciona como fonte supletiva. antes de serem formalizados pelo legislador. Em nosso próprio Direito positivo há inúmeros institutos que. Outros costumes. bancários. bem como o cartão de crédito. foi um costume durante décadas na sociedade brasileira. antes de ser reconhecida pela Constituição. são praticados regularmente pela sociedade. Resulta da contradição existente entre a lei e as fontes reais do Direito. quer para corrigi-lo. são exemplos apropriados daquilo que afirmamos. embora ainda não convertidos em lei. Assinale-se. Neste caso. de acordo com a opinião dominante. art. Espécies de Costume Tendo em vista as relações do costume com a lei. o costume deve ser observado e até exigido. introduz uma nova norma contrária às disposições legislativas. suprindo sua lacuna: está além da lei.desenvolvimento deste. 46] Contra legem é o costume que se opõe à lei. azul etc. Muitas das leis trabalhistas tiveram nestes costumes sua fonte por excelência. .. praeter legem e contra legem. o que demonstra haver sempre lugar para o costume. A união estável. Secundum legem é o costume que serviu de apoio ao ditame legislativo regular. [pg. Quer isto dizer que o legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. quer para completá-lo. No entender de alguns juristas (Serpa Lopes). realizam-se de acordo com costumes que servem de complemento à lei. podemos distinguir três espécies: secundum legem. ou faz os preceitos legais vigentes não serem aplicados. O cheque ouro. art. eram usos e costumes comerciais. ou surgiu como complemento deste. modalidades de cheque especial. praxes forenses etc.

Tempos depois caso idêntico é submetido à decisão do Judiciário e. temos que admitir a prevalência do costume. No Brasil os órgãos judiciários são numerosos: desde os juízes de primeira instância. após regular tramitação do processo. dando ensejo a que os motéis proliferassem amplamente. Coisa idêntica ocorre com os livros. que se apresenta contra a lei. Por não corresponderem às necessidades recentes da sociedade. o costume contra a lei não pode prevalecer simplesmente porque uma lei só pode ser revogada por outra. São socialmente aceitos. sendo certo [pg. 234 e parágrafo único do Código Penal. tomando-se letra morta. deva ser sumariamente repelido. assim. tipificam o crime de casa de prostituição. fizeram desse artigo letra morta. entretanto. previsto no art. caracterizam o crime de escrito ou espetáculo obsceno. Só para exemplo disto lembramos o caso dos motéis que. sem sombra de dúvida. mas a revoga de fato. Ninguém desconhece que. Em lugar delas a sociedade consagrou outras normas de comportamento consuetudinário para atender às novas realidades. pelo art. existem inúmeras normas não mais aplicadas. porque não tem sido pacífica a interpretação de que o costume. entretanto. É o fenômeno bem conhecido a que se deu o nome de extinção por desuso. tomando-a letra morta. ainda que um preceito legal caia em desuso. Quer isso dizer que o costume só não revoga a lei no seu aspecto formal. mesmo contra a lei. Podemos resumir a controvérsia dizendo que. entretanto. Os costumes. 25. Essas decisões reiteradas que emanam dos órgãos judiciários constituem a jurisprudência. até os tribunais de segunda . revistas e outros veículos de literatura pornográfica que pululam nas bancas. em todos os sistemas jurídicos. há muito caiu em desuso. guardaram o mesmo entendimento. está apenas assinando o atestado de óbito. isto é. e com inúmeros filmes exibidos em nossos cinemas. Quando o legislador vem a revogá-la por outra lei. recebe uma decisão. caíram em desuso. Do ponto de vista sociológico. do ponto de vista puramente jurídico. 47] que em todas as oportunidades as decisões foram semelhantes. 229 do Código Penal.Essa questão tem gerado sérias controvérsias. Tal norma. não pode produzir o efeito de fazer-se substituir por uma norma consuetudinária oposta. tanto das comarcas do interior como das capitais. Tais fatos. sucessivas vezes. A JURISPRUDÊNCIA Um caso é levado à apreciação do Judiciário onde. Para o jurista.

com o passar do tempo. Ebert Chamoun (Inst. Nessa fórmula. extremamente fecundo como fonte de direito.. ainda hoje existentes. elaborava uma fórmula escrita. 1962. Conhecido como processo per formulas. destacando-se o Supremo Tribunal Federal. [pg. se fosse o caso de conceder ação. conforme a sua convicção sobre os fatos. encaminhando as partes ao juiz. foi se formando uma rica jurisprudência.. e assim. aplicava a regra do pretor. após examinar as provas oferecidas pelas partes. e o jus gentium. p. Os casos se repetiam. o pretor. 25. que se convencionou chamar direito pretoriano. Nesse período. Modernamente a palavra jurisprudência designa o conjunto de decisões anteriores proferidas por juízes ou tribunais sobre casos idênticos. Papel da Jurisprudência em Roma Em Roma.. Como se vê. espécie de magistrado e também em parte legislador. foi utilizado durante o período clássico e originou-se da atividade do pretor.instância (Tribunais de Alçada. quem tinha uma pretensão ia ao pretor. de Justiça) e os Tribunais Superiores. 148).” O juiz. construíram o jus civile. teve início um novo processo que substituiu as Legis Actiones. o pretor elaborava a fórmula ou regra jurídica apenas apreciando o fato em tese. segundo o magistério do Prof. Inúmeros institutos jurídicos. 48] Com a sua incontestável autoridade. de Direito Romano. sem procurar saber se estava ou não provado. Cabia ao juiz apreciar as provas e aplicar a regra jurídica ao caso em concreto. Exposto o problema.1.C. já que muitas vezes tinha que elaborar a regra jurídica a ser aplicada ao caso que lhe era apresentado. 4a ed. se não te parecer que deva pagar. por sua vez. condene Caio a pagar dez mil sestércios a Tício. o que proporcionava ao pretor utilizar uma fórmula anteriormente elaborada para outro caso idêntico. através da Lex Aebutia. conforme entendesse procedente ou não a pretensão do requerente. Era algo mais ou menos assim: “Porque Tício vendeu um escravo a Caio. primeiro. tiveram origem nessa jurisprudência pretoriana. absolve. Miguel Reale afirma: “Foi através da atividade dos juízes e dos pretores que os romanos. privativo dos romanos. o pretor ordenava ao juiz condenar ou absolver. 123). cit. concedendo ações em casos não contemplados pelo ius civile ou decidindo ele próprio contra o sistema vigente. no meado do século II a. de caráter mais amplo” (ob. além de enumerar os elementos do processo. aos poucos. . p.

esta é definida nos julgamentos.” As fontes do Direito inglês são a Statute Law (direito legislado) e a Common Law (direito costumeiro). Praticamente. que todas as hipóteses estejam nela previstas no momento de sua elaboração. Tal posição pressupõe. que têm força obrigatória. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Modernas Nas sociedades legalistas a jurisprudência desempenha papel secundário. a jurisprudência é apenas um roteiro ao lado da lei. Assim entendem porque não é função do juiz criar o Direito. Mesmo admitindo uma perfeita adequação entre a realidade social e a lei. Nos sistemas codificados. Para muitos juristas a jurisprudência nem seria fonte (formal) do Direito. Nesses países a jurisprudência constitui fonte viva do Direito. já que todo Direito emana da lei. por mais reiterada que seja a jurisprudência. Constantemente estão os juízes enfrentado hipóteses novas e decidindo casos não contidos no âmbito das normas existentes. não tem em princípio a força de obrigar o juiz a acatá-la em suas decisões. o que é evidente na terminologia anglo-saxônica: diz-se judge made-law e a palavra justiça incorpora-se muitas vezes ao nome civil do juiz: “Mister Justice Smith. a força obrigatória reduzida em sua rigidez. do ponto de vista puramente jurídico. Entre nós. consagrar uma orientação. 49] verdade. entretanto.2. dos costumes ou princípios gerais do Direito. porque a norma que o juiz encontrou já estaria implicitamente contida no Direito positivo vigente e não daria origem a uma norma geral e obrigatória. que o legislador tenha previsto todas as hipóteses e dado todas as respostas na lei. não é [pg. Novas hipóteses vão surgindo em decorrência das .25. Mesmo nos casos de ter o juiz que lançar mão da analogia. mas simples meio de interpretação. donde a importância dos precedentes. O mesmo já não ocorre nas sociedades baseadas no direito consuetudinário. o que.3. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Legalistas Já vimos que. mas tão-somente aplicar a lei ao caso concreto. entendem os juristas não haver criação do Direito pela jurisprudência. 25. sendo relevantíssimo o papel do juiz. a Common Law é uma coleção de precedentes judiciários. com o correr do tempo a norma vai se tomando desadequada. já que a lei é estática e a sociedade é dinâmica. a função do juiz é somente aplicar a lei ao caso concreto. como se sabe. isto é. por não existir uma norma particular na legislação. que não vai além de fixar um rumo. tem valor restrito. ainda que já constitua súmula do Supremo Tribunal Federal.

que os infiltra. Por outro lado. fixada nos textos. ao papel do pretor em Roma. a lei é a concepção estática do direito. obra sua. Nesse ponto. pela sua colaboração contínua. necessário se faz invocar a autoridade do grande Rui Barbosa: “Ninguém ignora o papel da jurisprudência na evolução do Direito escrito. na realidade social que está em constante mutação. em muito comparável. através de uma interpretação ora extensiva. boa parte dos princípios radicados na sua vida civil. com base no fato concreto. do ponto de vista sociológico. pois tomaram-se o filtro pelo qual passamos a reler toda a legislação infraconstitucional. exerce uma função de cooperador e modificador na obra legislativa. Em outras palavras. A técnica das cláusulas gerais adotada pelos Códigos do Consumidor e Civil ampliaram consideravelmente os poderes do juiz. a tal ponto que se fala normalmente na função pretoriana da jurisprudência. a partir do advogado. tenham se limitado a aplicar as leis existentes. pelo Código do Consumidor e pelo novo Código Civil. apenas na forma. até chegar às Cortes Superiores. Inúmeros são os casos em que os tribunais acabaram criando um Direito novo. elaborado por muitas inteligências. formular decisões mais justas e efetivas na composição dos conflitos de interesse. dando-lhe condições de.constantes transformações sociais. os alui. os decompõe. ajustando o Direito às novas realidades sociais. altera sensivelmente o Direito positivo. 50] O papel criador da jurisprudência foi grandemente prestigiado pela Constituição de 1988. Inúmeras outras hipóteses de omissões e obscuridade na lei obrigam o juiz a construir. Isso tudo leva a concluir que. Quer isto dizer que o próprio legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. não pode o juiz deixar de decidir alegando lacuna na lei: a própria lei (CPC. 4°) ordena-lhe formular uma regra jurídica para a hipótese e dar uma decisão. O juiz. ao passo que a jurisprudência é o direito dinâmico. mutatis mutandis. exigindo o pronunciamento judicial. . já que o juiz é obrigado a aplicar a norma que estabeleceria se fosse legislador. Os princípios constitucionais provocaram uma nova visão interpretativa. 126 e Lei de Introdução ao Código Civil. Sobre a letra. embora aparentemente. à judge made-law. num determinado momento que amanhã poderá não mais corresponder à realidade. A jurisprudência. art. passando pelo juiz de 1º grau. ora restritiva. art. a jurisprudência cria Direito mesmo nos sistemas legalistas. Os ingleses e americanos devem à essa colaboração legislativa da magistratura. passa a autoridade dos arestos. em relação à essência do Direito. deram novo sentido e alcance à ordem jurídica. um papel positivamente criador. Desempenharam nesses casos. lançando mão da analogia.” [pg. respeitado o ordenamento jurídico. dos costumes e princípios gerais do direito.

na realidade. se em desacordo. o seu entendimento em lei. em suma. 927 e parágrafo único. como ensinava a escola exegética. 421. 422.2003). determinar previamente qual a norma de conduta que deveria ter sido observada naquele caso. aquilo que se diz ser o seu significado. dos princípios a serem preservados (por exemplo. visto como ao juiz é dado armar de obrigatoriedade aquilo que declara ser de direito no caso concreto. . III. no fundo. O magistrado. 18. 187. como já enfatizado. a sentença passará a ser lei entre as partes. 169). interpreta a norma legal situado numa estrutura de poder. Em função da regra que ele cria para aquela situação. e 51. boa-fé) e dos fins a serem realizados (por exemplo.. fará então a avaliação da conduta em exame. “a boca da lei”.EMERJ. n° 24. o papel do juiz moderno não é mais apenas o de aplicar a lei ao caso concreto. 6. O juiz tem que formular a lei do caso concreto. cit. Na cláusula geral o juiz aplica a lei que encontra no Direito e não o direito que encontra na lei. O relato da norma. como é a da teoria tridimensional do Direito. Como se vê. isto é. no momento de fazer a sua aplicação. À vista dos elementos do caso concreto. uma vez transitada em julgado. IV do Código do Consumidor. fins econômicos ou sociais). p. Numa compreensão concreta da experiência jurídica. o juiz deverá determinar o sentido da norma. o Ministro Ruy Rosado de Aguiar Junior. não há como negar à Jurisprudência a categoria de fonte do Direito. Se essa conduta estiver de acordo com a norma de dever. reconhece à jurisprudência o papel de fonte do Direito. ela será considerada lícita. apenas demarca uma moldura dentro da qual o juiz deverá encontrar a lei do caso concreto. com vistas à produção da solução adequada para o caso a ser resolvido. que lhe confere competência para converter em sentença. p. Em aula magna proferida na Escola da Magistratura do Rio de Janeiro . jurista de escol e um dos maiores juízes que passaram pelo Superior Tribunal de Justiça. assim conceituou a cláusula geral: “A cláusula geral é uma norma que impõe ao juiz o dever de. É por isso que Miguel Reale. fria e automaticamente. a sua interpretação. é aquele que elabora a lei do caso concreto. [pg. a regra jurídica disciplinadora do fato e que. vol. artigos 113. 931 do Código Civil). não tem sentido continuar a apresentar a Jurisprudência ou o costume como fontes acessórias ou secundárias” (ob. do alto da sua autoridade. estabelecem apenas uma moldura dentro da qual se desenham diferentes possibilidades interpretativas. que é uma norma particular. será então ilícita” (Revista EMERJ. com base nos parâmetros estabelecidos na norma.Cláusulas gerais (das quais são exemplos os artigos 4º. 51] Esta é a lição do Mestre: “Se uma regra é. assim criada para aquele caso concreto.

na feliz imagem de Ana Lúcia Sabadell. mais do que nunca. como de regra acontece com todas as decisões judiciais. ela não acompanhará a realidade social. revela-se oportuna a sábia observação de Mário Moacyr Porto: “A lei não esgota o direito assim como a partitura não esgota a música. Por isso não mais se pode questionar que a lei não é a única fonte do Direito. A toda evidência. p. Muito embora possa e deva o juiz decidir com certa flexibilidade. incutindo ação política nos atos decisórios.” Com efeito. esse papel criador do Direito desempenhado pela Jurisprudência não vai ao ponto de uma total independência dos ditames da lei. daquele que não se mantém neutro ideologicamente. ou seja. Se não houver talento criador dos seus intérpretes (juízes e operadores do Direito). sejam de formulação. deve obediência à lei. por corresponder a uma necessidade. não cega como no passado. com o contexto de conflitos de necessidades humanas no qual o direito está inserido” (Manual de Sociologia Jurídica. indiscutivelmente. um manancial que consolida determinada orientação. Isso acarretava uma série de problemas sociais. Temos aqui uma escola jurídica de corte sociológico. Revista dos Tribunais. por exemplo. “como um pensador adjunto do legislador. por mais genial que tenha sido o legislador. Exemplos de Jurisprudência Transformada em Lei Durante muito tempo. tem que respeitar a moldura jurídica estabelecida na lei. Assim também acontece com a lei por mais avançada que ela se apresente. Os precedentes são. Essa nunca foi e nem será a função do juiz.4. Tal entendimento tomou-se tão reiterado que. a excelência da partitura e a genialidade do compositor ficarão prejudicados se não houver talento do intérprete. muitas vezes indo além da própria disciplina positiva. porque se preocupa com as condições do direito na realidade social.Hoje. a pensão alimentícia só era devida após o trânsito em julgado da sentença. Ao lado dela se posiciona a jurisprudência. Ed. 52] 25. [pg. Deve atuar. para desafiar questão que somente pode ser decidida com critérios de hermenêutica que buscam formas de integração das lacunas. mas uma obediência inteligente. 33). razão pela qual a jurisprudência passou a entender ser a pensão devida a partir da citação inicial. impondo um regime de fome ao alimentando durante o curso do processo. acabou sendo encampado pelo legislador e transformado em . Com a finalidade de se alcançar a justiça social. mas que se conscientiza do grau de injustiça que atinge economicamente camadas sociais e deve minorar a sorte dos pobres. cuja importância como fonte se toma cada vez maior. preconizam a figura o juiz reformador. como querem os defensores do chamado direito alternativo. sejam de valoração. mas sim do político.

Inúmeras outras inovações e progressos jurídicos poderiam ser mencionados.“A responsabilidade contratual do transportador. pp. A lei. conseqüentemente. Conclui-se daí que a decisão do juiz é baseada nos costumes. A ambiência que cerca a espécie sub iudice. social e política. Vários dispositivos da atual lei das locações tiveram por fonte o entendimento jurisprudencial. não é elidida por culpa de terceiro. Razão assiste ao saudoso mestre Hermes Lima ao afirmar: “Entretanto. mas exerce sobre ele uma pressão latente e irresistível. porém certamente construtora” (ob. pelo acidente com o passageiro. Podemos afirmar que o direito é a lei aplicada mais o que ela recebeu do órgão Juiz ou Tribunal.que a executou. reconhecidos pela jurisprudência com base na sociedade de fato. contra o qual tem ação regressiva” -. ambiência econômica. A sentença deverá refletir a opinião coletiva sobre o fato. Sem dúvida. que lhe era tão desfavorável.5.lei. desde que seu poder de aplicar inclui necessariamente o de interpretar. 25. porém o ajustamento da lei ao caso em questão está condicionado a uma estimativa de natureza pessoal e a uma apreciação. que não chamarei de criadora. ele se conduz em função de certos princípios gerais estabelecidos. terá que encontrar uma solução compatível com os [pg.. encontram as normas já existentes no seio da sociedade. o de tomar a lei adequada à espécie sobre que vai decidir. ele tem seus pontos objetivos de referência. que dispunha . cit. hoje lhe garante inúmeros direitos graças aos avanços introduzidos pela jurisprudência. contar-se entre as fontes do direito. A súmula 187 do Supremo Tribunal Federal. o costume não lhe dita explicitamente a decisão. ipsi verbis. Tal como os . o que evidencia que a jurisprudência constitui uma atividade verdadeiramente construtora e pode. reflete-se necessariamente na obra do magistrado. 205-206). mas em procurar a mais adequada às aspirações do meio que o cerca. desde que a posição do juiz não é a de um escravo ou de um autômato em face da lei. Algo idêntico ocorreu com os direitos da companheira. Relação entre a Jurisprudência e o Costume Sempre que o juiz é chamado a decidir um caso que não está claramente previsto em lei. fazendo seu papel consistir. 53] interesses ou conveniências sociais. Certo. serve-lhe de substrato. no artigo 735 do novo Código Civil. não em encontrar uma solução nova. Por isso costuma-se dizer que os juízes descobrem o direito. foi transformada. não resta a menor dúvida que a jurisprudência exerce profunda influência no desenvolvimento do direito positivo.

Semelhança e Distinção entre a Lei e o Costume Quanto ao conteúdo. Ruggiero. Ambos são. o fato ou relação fática. em fato jurídico (gerador) ou relação jurídica (Curso de Direito Tributário. expressão da vontade do grupo. sem aplicação prática. segundo a constituição política do Estado. através da qual o direito se exterioriza e se toma conhecido. se reconhece a função legislativa. a lei é continente e o direito é conteúdo..diz Ruy Barbosa Nogueira .é o fato social ou relação fática concreta a que a lei se reporta ou descreve e o conseqüente o efeito que a lei atribui à ocorrência fática. portanto. 26.antigos pretores romanos. A LEI A palavra lei vem de ligar.o direito. é conferido o poder de ditar regras de direito (ob. no Estado.[pg. porque. Daí a razão de ser a lei considerada a fonte formal imediata do direito. a sua forma escrita. A Lei.1. Em suma. qual o antecedente e o conseqüente? O antecedente . as normas a serem aplicadas em suas decisões. que nos transmite o conhecimento do núcleo jurídico que a anima . em sentido jurídico. do próprio ambiente social. 10ª ed. 54). ligação ou vínculo. Nisto. portanto. Saraiva. em princípio. devem ter sensibilidade jurídica para encontrar e extrair. Costuma-se dizer que a lei é o tegumento do direito. decorrentes das necessidades sociais. A função legislativa entre nós é conferida especialmente ao Poder Legislativo. transforma para seus fins. em certos casos. Se a lei é liame. deve estar atento às mesmas necessidades. o que evidencia não ser possível tomar o termo “legislativo” em sentido restrito. Poderíamos dizer que lei é a regra social obrigatória emanada da autoridade a que. 83). a lei é a forma. obriga a agir. tanto a lei como o costume são regras de conduta. p. 26. sob pena de fazer uma lei ineficaz. quer dizer. a lei e o costume se assemelham. ao Poder Executivo. Todo e qualquer órgão que dite norma genérica de conduta é legislativo em si. Com efeito. ao elaborar a norma legal.. assim como os costu. 54] mes têm origem nas necessidades sociais. aos quais. Diferem entretanto em muitos aspectos: . porque este termo significa o poder de fazer lei em sentido formal. p. cit. o legislador. diz que lei é toda norma jurídica oriunda dos órgãos da soberania. formas de exteriorização do direito. por sua vez. mas também.

emperrando o seu desenvolvimento e tomando-o desadequado à realidade social. ardoroso defensor da codificação.. à medida que determinada conduta vai sendo aceita e reiterada pelo grupo. preestabelecido. sustentava que o costume devia prevalecer sobre a lei por ser a expressão direta e pura das aspirações da coletividade nacional. onde teve origem um determinado costume. Esta só veio a surgir quando a sociedade chegou ao estágio de organizar-se política e juridicamente. Por isso as mais antigas leis conhecidas são os textos mesopotâmicos do segundo milênio a. Para ele o costume. entre dois juristas de escol. é formal. até chegar à publicação. sanção. 55] da Escola Histórica. Sistema Preferido . tomando-se mais difícil sua modificação. gradativa. Nunca podemos saber com precisão quem. o fundador [pg. é anterior à lei. No seu entender. Eis aí outra razão pela qual o costume é anterior à lei: somente depois do surgimento da escrita. numa época relativamente recente da história humana. a codificação dificultaria a evolução natural do Direito. é de formação livre. precisas. e a lei de um órgão estatal. historicamente. espontânea. O processo de elaboração da lei. partidário do direito consuetudinário. promulgação. Até então. criando o Estado. A lei. rei da Babilônia. é que se tomou possível a elaboração das primeiras leis. passa de pai para filho pela tradição. no começo do século XIX.1) Quanto à origem: O costume. dos quais o mais famoso é o Código de Hamurabi. Por isso o costume. votação. toda a regulamentação da vida social foi feita através do costume. Em oposição se colocava Thibaut. Savigny.C. 3) Quanto à forma: O costume se exterioriza através de condutas reiteradas e é transmitido em regra por via oral. tende a se incrustar. além de se adaptar mais facilmente . iniciando-se com um projeto. O Decálogo hebraico (os dez mandamentos) é de alguns séculos mais tarde e as leis indianas de Manu datam do III século a. Já quanto à lei.C. quando entrou em vigor e quando foi revogada. entretanto. passando pela discussão. sabemos exatamente quando foi elaborada. também já vimos. A lei se exterioriza por escrito e através de fórmulas rígidas.O Costume ou a Lei? Em torno dessa questão travou-se grande controvérsia na Alemanha. emana diretamente da sociedade. 2) Quanto ao processo de elaboração: O costume. longe de ser mais flexível do que a lei. quando. vai se formando paulatinamente. 26.2. como já vimos.

[pg.às novas condições sociais (desde que o legislador esteja atento e disposto a isso). Dessa controvérsia resultou que a maioria dos Estados modernos vive sob o regime da codificação. objeto de estudo da Ciência do Direito. Já ficou assentado que a lei é. apenas alguns preferindo o direito consuetudinário. essencialmente. 56] . A Sociologia Jurídica só se preocupa com a eficácia da lei. apresenta a grande vantagem de proporcionar um conhecimento mais rápido e oferecer maior segurança do que o costume. como veremos nos próximos capítulos.

fugindo aos objetivos deste modesto trabalho. Muitos autores procuraram explicar. a sociologia do direito se confundiria com a própria ciência do Direito. quando muito constituindo uma de suas especialidades. pelos instrumentos e métodos das ciências mais antigas. Teoria tridimensional do direito: diferença entre a Sociologia Jurídica. para quem a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina (De la Sociologie Juridique.Capítulo VI A AUTONOMIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COMO CIÊNCIA E SUAS RELAÇÕES COM OUTRAS CIÊNCIAS SOCIAIS Autonomia da Sociologia Jurídica. **** 27. por exemplo. p. pois tem objeto próprio. a vigência e o fundamento. AUTONOMIA CIENTÍFICA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A questão da autonomia da Sociologia Jurídica. A História do Direito. juristas em geral. A eficácia. Relação da Sociologia Jurídica com os demais ramos do direito. A finalidade da Sociologia . e isso gerou controvérsias. os prós e contras das várias posições. 1961. limitamo-nos [pg. O ser e o dever ser. Na opinião de muitos sociólogos. aquilo que se pretendia constituir em objetivo da nascente sociologia do direito. 222). 57] a afirmar que a autonomia da Sociologia Jurídica é hoje reconhecida. Entre os que pensam dessa última maneira podemos citar Edmond Jorion. Sem nos estendermos sobre a controvérsia. por isso que se preocupa apenas com o direito como um fato social concreto. Não se confunde o objeto da Sociologia Jurídica com o de qualquer outra ciência que também se relacione com o direito. a ciência do direito e a filosofia do direito. método e leis. integrante de uma superestrutura social. como acontece com toda ciência nova. Para outros. a sociologia jurídica seria parte integrante da Sociologia. foi bastante controvertida.

uma regra ou norma. que assim pode ser resumida: Onde quer que haja um fenômeno jurídico. 58] Daí resulta que “o Direito não possui uma estrutura simplesmente factual. sempre e necessariamente. uma verdadeira trilogia. quando formam uma implicação dinâmica.. que. Lições Preliminares de Direito. Ed. 4ª ed. embora se tratando de uma ciência autônoma. como defendem os normativistas. como se vê. Tais elementos ou fatores (fato. . A originalidade desse grande jurista brasileiro está. mas atuam como elos de um processo. sob forma de regulamentação da vida social. na maneira como descreve o relacionamento entre os três componentes do fenômeno jurídico. ob. normativa. uma espécie de santíssima trindade do Direito. que representa a relação ou medida que integra um daqueles elementos ao outro. 28. na qual cada fator é explicado pelos demais e pela totalidade do processo” (Paulo Nader. geográfico. principalmente com a Ciência do Direito e Filosofia do Direito. e. porém.. há. um valor. valor ou norma) não existem separados uns dos outros. 378). esses elementos ou fatores não só se exigem reciprocamente. A TEORIA TRIDIMENSIONAL DO DIREITO Quem elucidou essa questão melhor do que ninguém foi o genial Miguel Reale na sua teoria tridimensional do Direito. de ordem técnica etc). com as quais tem muito em comum. Título X. com objeto próprio e inconfundível. Este congrega aqueles componentes. mantém a Sociologia Jurídica íntimas relações com todas as ciências sociais. inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. o fato ao valor. que confere determinada significação a esse fato. Fato. demográfico. [pg. valorativa. p. fornecendo subsídios para suas transformações. 65). cit. Essas visões são parciais e não revelam toda a dimensão do fenômeno jurídico. Cada um desses três fatores se refere aos demais e por isso só alcança sentido em conjunto. como proclamam os idealistas. um fato subjacente (fato econômico. 1965. mas coexistem numa unidade concreta. finalmente. de tal modo que a vida do Direito resulta da integração dinâmica e dialética dos três elementos que a integram (Filosofia do Direito. p. É evidente. Saraiva. valor e norma formam uma unidade fático-axiológica-normativa.Jurídica é estabelecer uma relação funcional entre a realidade social e as diferentes manifestações jurídicas. 12ª ed.. Mais ainda. como querem os sociólogos. mas não em uma simples adição. no tempo e no espaço. Juntos vão formar uma síntese integradora.

Na correta visão de Reale, o Direito forma-se da seguinte maneira: um valor podendo ser mais de um - incide sobre um prisma (área dos fatos sociais) e se refrata em um leque de normas possíveis, competindo ao poder estatal escolher apenas uma, capaz de alcançar os fins procurados. Um valor pode desdobrar-se em vários dever-ser, cabendo ao Estado a escolha, a decisão; toda lei é uma opção entre vários caminhos; o fato nunca será isolado, mas um conjunto de circunstâncias. Na concepção do autor dessa teoria tridimensional, o Direito é uma realidade fático-axiológico-normativa, que se revela como produto histórico-cultural, dirigido à realização do bem comum. Apesar de sua natureza dinâmica, o Direito possui um núcleo resistente, uma constante axiológica, invariável no curso da história. Pois bem, esses três fatores inseparáveis do Direito - fato, norma e valor - vão constituir o objeto de três ciências distintas, embora afins: a Sociologia Jurídica, a Ciência do Direito e a Filosofia do Direito. A Sociologia Jurídica tem por objeto, como já ficou dito, o direito fato, a Ciência do Direito se preocupa com a norma, e a Filosofia do Direito dedica-se ao direito em seu aspecto valor.

28.1. Diferença entre a Sociologia Jurídica e a Ciência do Direito

O fato é o acontecimento social referido pelo Direito objetivo. São as relações sociais, fatos interindividuais que envolvem interesses básicos para a sociedade e que por isso enquadram-se dentro dos assuntos regulados pela ordem jurídica. Implica isto dizer que a Sociologia Jurídica descreve a realidade social do direito sem levar em conta sua normatividade. Preocupa-se com a existência do direito como produto ou fenômeno social, decorrente das inter-relações sociais, e não como foi concebido ou equacionado pelo legislador. A sociologia deve apenas relatar e registrar o fato sem se envolver com valores, ideologias ou normas. É tarefa do sociólogo descrever os fatos. [pg. 59] A norma consiste no padrão de comportamento social a ser adotado em cada caso. “Ao disciplinar uma conduta, o ordenamento jurídico dá aos fatos da vida social um modelo, uma fórmula de vivência coletiva” (Paulo Nader, ob. cit., p. 378). E esse é o campo da ciência do Direito. Estuda o Direito pelo seu aspecto normativo, isto é, o conjunto de leis e regras escritas e emanadas do Estado. À ciência do Direito interessa o conhecimento das normas jurídicas, que enunciam, não o que sucedeu ou como sucedeu, mas o que deve acontecer, já que o objeto do saber jurídico é o Direito, e o Direito é a norma, nada mais que a norma (Kelsen). A norma pode ser definida como um juízo hipotético destinado a expressar que fazer ou não fazer algo deve acompanhar-se de uma medida de coação por parte do Estado.

28.2. Distinção entre a Sociologia Jurídica e a Filosofia do Direito

À Filosofia do Direito, que objetiva o estudo do direito no seu aspecto valor, cabe determinar sua formação e desenvolvimento em relação aos elementos infra-estruturais da sociedade, ressaltando a dependência de suas modificações. Preocupa-se com correntes filosóficas e ideológicas, que conceberam o direito desta ou daquela forma, e com a escala de valoração jurídica dos bens existentes na sociedade. Valor é o elemento moral do Direito, a sua essência ética. Toda a obra humana é impregnada de sentido ou valor, e assim também ocorre com a sociedade. Tem ela uma escala de valores ligada à idéia de poder, importância, qualidade, estima, utilidade e necessidade material ou moral, acerca de condutas, posições, entendimentos e coisas, escala essa que vai se formando e se modificando de acordo com correntes ideológicas - pensamentos, idéias, opiniões - existentes em determinado momento e em determinada sociedade. Toda norma enuncia algo que deve ser, em virtude de ter sido reconhecido um valor como razão determinante de um comportamento declarado obrigatório. O valor confere determinada significação ao fato, inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. Houve tempo, por exemplo, que a liberdade foi o grande valor social que, por sua vez, deu causa ao liberalismo. O Direito brasileiro atual, principalmente a partir da Constituição de 1988, voltou a dar ênfase aos valores, o que tem conseguido alcançar por meio da consagração de princípios. Princípios são valores éticos, morais e sociais apreendidos pelo legislador e que, consagrados em um preceito, passam a ser instrumentos de interpretação de outros preceitos, enquanto [pg. 60] normas são regras de comportamento que estabelecem como deve ou não deve ser a conduta e as conseqüências que daí decorrem. Regras oferecem soluções enquanto que os princípios oferecem paradigmas, critérios para se encontrar a solução do caso concreto. Entre os superiores princípios (valores) consagrados na Constituição de 1988, merece especial destaque o da dignidade da pessoa humana, colocado como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1°, III). Temos hoje o que pode ser chamado de direito subjetivo constitucional à dignidade. Ao assim fazer, a Constituição colocou o Homem no vértice do ordenamento jurídico da Nação, fez dele a primeira e decisiva realidade, transformando os seus direitos no fio condutor de todos os ramos jurídicos, Isso é valor. E, ao inserir em seu texto normas que tutelam os valores humanos, a Constituição fez também estrutural transformação no conceito e valores dos direitos

individuais e sociais, o suficiente para permitir que a tutela desses direitos seja agora feita por aplicação direta de suas normas. No plano infraconstitucional, a legislação vem seguindo o mesmo caminho. O Código do Consumidor é uma lei principiológica, no qual foram consagrados os valores éticos e morais necessários à defesa do consumidor, entre os quais a boa-fé objetiva, princípio cardeal (arts. 4°, VIII; 51, IV), a transparência, a confiança, a informação, a segurança e outros. O novo Código Civil, como não poderia deixar de ser, pois foi coordenado pelo autor da teoria tridimensional do Direito, está todo comprometido com o resgate dos valores éticos, sociais e morais no Direito. A título de exemplificação, lembramos que a boa-fé é também o princípio cardeal desse novo Código, uma espécie de fio condutor de toda a sua estrutura. Não se trata, porém, da boa-fé meramente subjetiva - posição psicológica, intenção pura e destituída de má-fé, crença ou ignorância de uma pessoa -, porque isso a realidade demonstrou não ser suficiente nas relações sociais regidas pelo Direito, Dizem que o inferno está cheio de pessoas bem intencionadas. A boa-fé consagrada pelo novo Código como valor superior é a boa-fé objetiva ou normativa, assim entendida a conduta adequada, correta, leal, transparente, confiável e honesta que as pessoas devem empregar em todas as relações sociais. Três são as funções da boa-fé objetiva no novo Código Civil: a) fonte de deveres instrumentais dos contratos (art.422): quem contrata não contrata apenas o que contrata, contrata também lealdade, cooperação, transparência, informação etc. (tem-se dito que esse dispositivo é a porta de entrada da ética no nosso Direito); b) regra de interpretação dos negócios [pg. 61] jurídicos (art.113): todo e qualquer negócio jurídico deve ser interpretado pelo juiz de acordo com o princípio da boa-fé; c) limite ao exercício dos direitos subjetivos (art.187): nesta terceira hipótese a boa-fé representa o padrão ético de confiança e lealdade indispensável para a convivência social. As partes devem agir com lealdade e confiança recíprocas. Essa expectativa de um comportamento adequado por parte do outro é um comportamento indispensável na vida da relação. É um limite a ser respeitado no exercício de todo e qualquer direito subjetivo. Podemos afirmar que o Código do Consumidor e o novo Código Civil são uma reação ao liberalismo jurídico que predominou durante todo o século XX, principalmente em sua primeira metade, e que aos poucos afastou o Direito da ética, da moral, da eqüidade, dos valores transcendentais, tornando-o puro tecnicismo. Em suma, a Sociologia procura a existência; a Filosofia preocupa-se com a essência. “A Sociologia do Direito”, como observou Gurvitch, “dá ao jurista uma descrição objetiva da realidade social do direito, válida num dado meio social; a Filosofia do Direito lhe

dá um critério de valores jurídicos, que lhe ajuda em suas manifestações particulares para alcançar fins concretos” (Sociologia do Direito, p. 13). Embora cada uma funcione em seu setor específico, as duas ciências estão, entretanto, interligadas, pois o filósofo social necessita conhecer a realidade social que se faz presente nos trabalhos do sociólogo. “Quando se estuda Filosofia do Direito”, assinala Porto Carreiro (Introdução à Ciência do Direito, p. 78), “parte-se de uma base sociológica inafastável, cujo conhecimento é fornecido por aqueles que se dedicam ao estudo sociológico do Direito”.

29. A EFICÁCIA, A VIGÊNCIA E O FUNDAMENTO

As três dimensões pelas quais o Direito pode ser considerado (fato, norma e valor), segundo o próprio Miguel Reale (O Direito como Experiência, 1961, pp. 61 e 62), dão origem a três planos de problemas diferentes: o da eficácia, o da vigência e o do fundamento. A Sociologia Jurídica se preocupa com o primeiro - a eficácia; a Ciência do Direito, com o segundo - a vigência; e a Filosofia do Direito, com o terceiro - o fundamento.

29.1. A Eficácia

Ao afirmarmos que a Sociologia Jurídica preocupa-se com a eficácia do Direito, queremos enfatizar que constitui também objeto dessa discipli- [pg. 62] na saber se as normas jurídicas estão ou não adequadas às necessidades sociais. Quer dizer, primeiro a Sociologia Jurídica preocupa-se com os fatos sociais que repercutem na ordem jurídica, e com as relações que necessitam receber o disciplinamento do direito; uma vez elaborada a norma disciplinadora, empenha-se em saber se a referida norma atende ou não às necessidades sociais. Isso, como teremos oportunidade de ver, é da maior importância porque a norma, mesmo que no momento de sua elaboração esteja perfeitamente adequada à realidade social, com o correr do tempo pode se tomar ultrapassada, ineficaz, em razão da constante evolução social, tomando-se necessário reformulá-la.

29.2. A Vigência

A Ciência do Direito, por sua vez, preocupa-se não somente com a norma, como já vimos, mas também com a sua vigência. Enquanto a lei estiver em vigor, cabe ao jurista estudá-la, interpretá-la, comentá-la etc., ainda que se trate de lei já completamente

a natureza do que é jurídico. partilhando a vida sexual. éticas. sentimental e doméstica como se fossem casais. depois valoriza-se o fato e. encontramos várias figuras típicas que ainda hoje são objeto de comentários dos autores (estão no Código). O Fundamento Ao afirmarmos. religiosas. 29. -. que a Filosofia do Direito preocupa-se também com os fundamentos do Direito. surge a norma e. queremos dizer que constituem igualmente objeto dessa disciplina os problemas relacionados com o ideal do direito.3. Em alguns países o casamento de homossexuais já é permitido. redução à condição análoga à de escravo (art. parece-nos resultar claro que a Ciência do Direito só tem razão de ser após o surgimento da primeira norma na sociedade. finalmente. seu conteúdo ético a seu mundo axiológico. Até lá é objeto da Ciência do Direito. A norma só deixa de ser vigente depois de expressa ou tacitamente revogada por outra. Discute-se a justificação dessa união. Do exposto. Recapitulando: primeiro ocorre o fato social.unitário. as suas conseqüências morais. suas causas e seus princípios últimos. republicano -. o crime de perigo de contágio venéreo (art. haverá campo apenas para a Sociologia Jurídica e para a Filosofia do Direito. ele é normatizado. 130). O fato social já existe: milhares de pessoas do mesmo sexo convivem sob o mesmo teto. No momento. Dependendo das correntes ideológicas ou filosóficas predominantes e dos fatos sociais existentes. Serve como exemplo a união estável de homossexuais. 240) etc.. Ao estudarmos o Código Penal. democrático. em que ficar decidido: a forma de Estado é essa. investigando ainda as ideologias ou correntes de pensamento que acabaram prevalecendo e servindo de fundamento aos principais institutos jurídicos. Enquanto o grupo social estiver se organizando. mas no Brasil continua sendo objeto de acirrados debates. sistemas de produção etc. o casamento será assim etc. como outrora se discutiu o . 149). federado. Muitas já conseguiram a posse e guarda de crianças e até adotá-las como filhos. 63] organização social e política vai estabelecer situação da família. o objeto da ciência do Direito. Mas a norma legitimando essas situações não foi editada porque ainda está em debate o valor. porém. familiares e sociais. questão que ainda aguarda definição jurídica. que [pg. ainda que completamente afastada da realidade social. a forma de governo é aquela. teremos esta ou aquela estrutura política e social. apesar de não mais terem aplicação social: por exemplo.desatualizada e em desuso. por via de conseqüência. decidindo que forma de Estado e de governo vai adotar . por último. adultério (art.

a Sociologia Jurídica versará o mesmo objeto da ciência jurídica. que decorrem da própria natureza. a dado antecedente. 64] gico. às condutas humanas em sociedade. No mundo do dever ser as coisas se passam segundo a vontade racional do homem. É este que.. O mundo do ser é o das leis naturais. As ciências sociais pertencem ao mundo do dever ser. e assim por diante. não às normas (dever ser). O direito de que aqui se vai tratar . de nada vale a vontade do homem na tentativa de modificá-las mediante a formulação de leis racionais. está na realidade das coisas. da consciência e da razão. 266.a física (o ser) e a moral (o dever ser). No mundo da natureza as coisas se passam mecanicamente. 133). e assumindo a responsabilidade pelos seus atos. cuja conversão em casamento a lei deve facilitar (art. se chover. reconhecido como união estável pela Constituição de 1988. mas ao próprio direito vivo (ser). está se referindo. a terra fica molhada. construindo bombas ou catedrais. podemos estabelecer o seguinte quadro: DIREITO Sociologia Jurídica Ciência do Direito Filosofia do Direito Fato Norma Valor Eficácia Vigência Fundamento Ser Dever Ser Poder Ser . em sua Teoria Pura do Direito. liga determinado conseqüente: se alguém causar dano a outrem. O homem é o único ser que participa das duas esferas básicas do mundo . isto é. sujeito às leis naturais. até nossos dias. tal como a moral. A um antecedente liga-se indispensavelmente dado conseqüente: um corpo solto no espaço (antecedente) cai inexoravelmente (conseqüente). atua na esfera da liberdade. escolhendo os seus próprios caminhos. Nessa perspectiva. Sintetizando tudo o que até aqui ficou dito. § 30). 30.[pg. entidade familiar.concubinato. a ética e o direito. observou Machado Neto (ob. muitos autores procuram distinguir a Sociologia Jurídica da Ciência do Direito estabelecendo que a primeira é a ciência do ser e a segunda a do dever ser. cit.a conduta humana . escrevendo a sua história. Como ser bioló. p. como ser moral. apenas servindo-se de uma lógica diversa. isto é. O SER E O DEVER SER Desde Kelsen.é o mesmo com que o sociólogo já se habituara a conviver muito antes que os juristas ou os jusfilósofos fizessem a extraordinária descoberta do direito como conduta em interferência intersubjetiva. Quando o sociólogo do direito se refere ao seu objeto. fica obrigado a repará-lo.

fazer a descrição da atual realidade social do direito. Cremos que. Historiar é narrar fatos notáveis ocorridos na vida dos povos tal como ocorreram. porque o presente inquestionavelmente influencia na visão dos fatos.Como se vê. porém. Entendemos que a principal distinção entre essas duas ciências está em que a Sociologia Jurídica preocupa-se por excelência com os fatos pre. poder ser. aquelas que mantêm mais íntimas relações. em seu ângulo de visão. filósofos e juristas. que necessitam do disciplinamento jurídico. até inconscientemente. dever ser. a fim de apurar a evolução sofrida pelo Direito. 37-38). Os primeiros falam do direito no seu aspecto fato. a essa altura. todos têm razão. 31. as três ciências ocupam-se do Direito. Sociologia do Direito.apesar de ser considerada inócua tal distinção por alguns autores (Nelson Nogueira Saldanha. o direito. Não se pode fazer história de fatos presentes. Os fatos passados só interessam à Sociologia Jurídica eventualmente para efeito de comparação. a realidade atual. oriundo inquestionavelmente da sociedade. pp. inegavelmente.a vida social: para ambas o direito aparece como um fato social. de vigência. possibilitando a elaboração de normas ajustadas a essa realidade e aferindo a eficácia das já existentes.[pg. ser. eficácia. mas no seu aspecto valor. À História do Direito. o que lhes confere objeto próprio e autonomia. os segundos falam do mesmo fenômeno. Todos estão certos. São os fatos presentes. fundamento. cada qual. Os fatos presentes são a principal preocupação da Sociologia Jurídica porque cabe-lhes. a ponto de. a Sociologia Jurídica e a História do Direito são. 65] sentes. interessam os fatos passados simplesmente por não ser possível fazer história de fatos presentes. e a História do Direito com os fatos passados . . como à História em geral. oriundo da instituição estatal. por sua vez. A HISTÓRIA DO DIREITO De todas as ciências jurídicas. e os últimos falam do seu aspecto normativo. há muito tempo. como já vimos. e não os passados. com um aspecto diferente. envolvimentos sociais etc. nos influenciam de tal forma. 1970. É que as duas possuem praticamente o mesmo objeto material . Correntes filosóficas. com o máximo de fidelidade ao acontecido. entretanto. posições políticas. já podemos compreender melhor os motivos da inconciliável controvérsia existente entre sociólogos. cada qual.

pode-se concluir que. . momentos antes esfaqueado por C. Por isso é necessário. mas como nos parecem ter ocorrido.Família. De todo o exposto. . mantém constante intercâmbio de sugestões e de subsídios com todas as disciplinas especiais que pesquisam o direito sob outros ângulos. A segunda (História do Direito) detém-se na consideração de cada fenômeno sócio-jurídico individual. Penal. E o fato social. ser fiel a eles o máximo possível.pela simples razão de ocorrerem na sociedade todos os fatos que repercutem nos mais variados ramos do Direito. Fiscal etc. se não quiser correr o risco de generalizar a partir de poucos exemplos empíricos. a principal diferença entre Sociologia Jurídica e História do Direito está em que a primeira pretende apanhar do fenômeno social jurídico o que sejam suas características genéricas: as leis gerais e as figuras típicas do comportamento jurídico da sociedade. como já vimos. 32.em vez de nos limitarmos a narrar. assim [pg. passarmos também a interpretar. pois pode ser que A estivesse socorrendo B. deixar que o tempo dispa os fatos de toda ideologia ou conotação interpretativa. é um estudo específico e possui ângulo próprio para examinar seu objeto. completa e abrangente do Direito. é o objeto por excelência da nossa disciplina. 66] como o sociólogo do Direito se aproveita do inesgotável manancial da história das instituições jurídicas. por outro lado. o direito fato. procurando enquadrá-la no sistema geral em que a história em si própria consiste. não como ocorreram. se a Sociologia Jurídica. para fazer história. e isso só é possível alcançar após o decurso de algum tempo. Alguém passa por uma rua e vê uma pessoa tirando uma faca que estava cravada nas costas de outra. como é sabido. Observa o autor. O historiador tem que narrar fatos. por outro está intimamente relacionada com todo o Direito . a narrar os fatos. uma coisa é o fato e outra a sua interpretação. p. Sucessões. pois o historiador do direito se abebera dos ensinamentos da Sociologia Jurídica. Isso já é interpretação. Via de regra. que lhe dá maior força de penetração no sistema global da história jurídica. Para Machado Neto (ob. Trabalhista. Este é o fato. a Sociologia Jurídica tem autonomia como ciência. por um lado. por um lado. 129). E. RELAÇÃO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COM OS DEMAIS RAMOS DO DIREITO Se. isto é. como vai relatá-la? Que viu A esfaqueando B.. cit. E dessas inter-relações resultará para o estudante uma visão mais ampla. entretanto. fundamento sólido para suas induções. que as duas ciências se relacionam intimamente.

como dos gigantescos corpos celestes distantes milhões de anos luz. de naves espaciais. de aviões. Disca o telefone e fala com alguém no outro lado do . Astronomia. 69] O homem verdadeiramente adquiriu o dom da ubiqüidade. [p. bem como de submarinos e outros objetos destinados à navegação. O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO Na primeira metade do século XX as grandes potências mundiais deram grande importância ao estudo das ciências chamadas exatas.uma para a família e outra para os aparelhos. investindo-se fabulosas somas no desenvolvimento de arrojados projetos quase impossíveis. em tão grande número e variedade que. Como resultado. permitindo ao homem penetrar no mundo do invisível . Química. Todas as atenções foram voltadas para as pesquisas no campo da Física. As casas encheram-se de aparelhos eletrodomésticos.Capítulo VII IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E DA SOCIOLOGIA JURÍDICA EM ESPECIAL O desenvolvimento científico. A importância das ciências sociais. o ar. pois pode estar em vários lugares quase ao mesmo tempo. As ruas. precisaremos de duas casas . **** 33. Matemática.tanto das minúsculas bactérias. satélites artificiais e até de objetos “nãoidentificados”. se formos adquiri-los todos. encheram-se de veículos dos mais variados tipos. Importância da Sociologia Jurídica. os mais poderosos e velozes. outrora calmas e livres. Efeitos do progresso científico no mundo social. o mar encheu-se de navios das mais variadas procedências. houve um progresso científico nunca dantes visto ou esperado! Inúmeros inventos e descobertas ocorreram.

O invento mudou a cultura ocidental para sempre. Passaram a ser naturais. seus descendentes tiveram que remontar em tomo dele o mundo em que viveu . e fomos a elas nos acostumando gradativamente. todos os livros eram copiados à mão. inventou o tipo móvel e apresentou a primeira prensa na Europa (a China e a Coréia já possuíam prensas). e assim por diante. Era a história de um indivíduo. no qual viajava do Rio para São Paulo. Gutenberg levou dois anos para compor os tipos de sua primeira Bíblia. compra o que quiser. ocorreu por volta de 1450. acidentalmente. Para termos idéia do progresso científico que houve em nossos dias e das transformações ocorridas. Mil e oitocentos anos depois. mas. congelado. naquele instante. rara. ou até mesmo na Lua. a vida fora comunitária e praticamente imutável. em outro continente. Isso demonstra que em quase quatro mil anos de história a humanidade nada progrediu no campo científico. Já houve até um filme que explorou esse motivo.[p.com carruagens. por volta de 1700. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava o mesmo. toma café no Rio de Janeiro e janta em Nova Iorque. não acreditaria no que veria: pensaria que estava em um outro mundo. uma impressora a laser de alta velocidade. um ourives da cidade de Mainz. Mas se um ancestral nosso. Antes de Gutenberg. O nosso D. O único acontecimento isolado. voltasse à nossa sociedade. que em geral eram encarregados de copiar a Bíblia. Pedro I proclamou a independência. na Alemanha. põe-se em contato com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. mas ainda em cima de um cavalo. nos dias de Cristo. em comparação. tudo se transformou em nossa sociedade. Até aquela época. 70] mente conseguiam fazer mais de uma por ano. uma vez feito isso. Para evitar-lhe problemas psíquicos.000 anos antes de Cristo? O lombo de animal. e descongelado em 1976 num mundo totalmente diferente. Na Europa e nos demais países civilizados também o transporte era o mesmo. Em conseqüência desse fantástico progresso científico. que morreu aí pelo ano de 1900. apesar do transcurso das gerações. quando Johann Gutenberg. entra na internet e. Não percebemos tanto o vulto das transformações porque ocorreram todas em nossos dias. basta que atentemos para o seguinte: qual era o sistema de transporte mais rápido 2.mundo. vê o que pretender. acessa qualquer informação. Dois mil anos depois. Os monges. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava sendo o lombo de animal. A prensa de Gutenberg era. literalmente. O aparecimento da prensa fez mais pela cultura ocidental do que simplesmente introduzir uma forma mais veloz de reproduzir um livro. comanda operações de muitos milhões de dólares. de grande impacto cultural sobre a sociedade. liga a televisão e vê o que está se passando. nos Estados Unidos. A maioria das . roupas compridas etc. não em cima de um tanque de guerra. teve condições de imprimir múltiplos exemplares.

outro a máquina a vapor. Criou superpotências capazes de dominar e destruir as demais. As instituições sociais. relegadas a segundo plano. A explosão demográfica.pessoas só conhecia aquilo que fora visto com os próprios olhos ou ouvido em relatos de terceiros. deu origem a uma classe ex.” Ao chegarmos perto do século XX. choques ideológicos.[p. porque de 6 km por hora. como se sabe. 34.” E não parou mesmo. que é o próprio homem. passou em pouco tempo a 60. 71] tremamente privilegiada em detrimento das demais. os inventos começaram a surgir: um descobriu a energia elétrica. as ciências sociais ficaram esquecidas. trouxe poluição atmosférica. em geral era quase impossível encontrar o caminho de volta. Um velho que se encontrava na estação. outro ainda o motor a explosão. acarretando acidentes que matam e mutilam mais do que as guerras. EFEITOS DO PROGRESSO CIENTÍFICO NO MUNDO SOCIAL Enquanto as ciências chamadas exatas eram estudadas e pesquisadas. permitindo a formação de um clima propício a lutas de classes. Enquanto o homem se empenhava em conquistar a Lua. resultando disto um descompasso entre o progresso científico e a evolução social. os homens voam a fantásticas velocidades. por falta de uma ação . agravou os problemas de trânsito. O mais impressionante de tudo é que a maioria dos inventos ocorreu de 50 anos para cá. Muito poucas aventuravam-se para além das fronteiras da aldeia. em vez de resolver os problemas sociais . dominando o espaço sideral. a ponto de tomar impossível a vida em certos lugares. todas as experiências eram pessoais: os horizontes eram pequenos. perdendo de vista seu objetivo. aumento da criminalidade. fluvial e até do mar. pôs-se a advertir os passageiros. perdia terreno em seu próprio grupo. depois da Segunda Grande Guerra Mundial e da desintegração do átomo. em parte porque. 120 km etc. um de meus autores favoritos: “Nesse mundo. sem mapas confiáveis. Desse desequilíbrio resultou que o progresso científico. ao vê-lo. gerando novos planos na desigualdade social. porém.sua razão de ser . o velho se pôs a gritar: “Essa coisa não vai mais parar. a comunidade olhava para dentro. não acompanharam o desenvolvimento científico e tecnológico. Hoje. dizendo repetidas vezes: “Essa coisa não vai andar. ainda mais desnorteado. e assim as rodas começaram a correr. Como diz James Burke. O que existia no mundo exterior era uma questão de ouvir dizer. sonora. O primeiro trem andava à velocidade de 6 km por hora: era um espanto para a época.” E quando o trem andou. já de muito ultrapassaram a barreira do som.agravou-os ainda mais.

como foi feito com as ciências exatas. miséria. criaram-se cursos universitários específicos nesse fascinante ramo [p. L. sério. A IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Houve o despertar da consciência para a importância das ciências sociais e a necessidade de estudá-las. Carlos Campos. Compreendeu-se tardiamente que o progresso científico deve ser integrado. sem a qual não haverá organização. 35. Sociologia e Filosofia do Direito. Dentre os juristas e sociólogos que entre nós se têm dedicado ao assunto. de Miranda Rosa lançou a notável Sociologia do Direito. A Crise do Direito (1955). desenvolvê-las. vinculado ao desenvolvimento social. realizando-lhe os objetivos. que editou em 1950 a obra intitulada O Problema de uma Sociologia do Direito.preventiva. e Orlando Gomes. progresso. Por isso. . de algum tempo para cá tomou-se obrigatório o estudo das ciências sociais em quase todos os cursos superiores. Tem que conhecer o que se passa em seu seio como temos que nos conhecer a nós mesmos. que escreveu o conhecido livro Princípios de Sociologia Jurídica. empolgados pelos problemas decorrentes da aparente necessidade de controlar as massas. editado pela primeira vez em 1922. abandono infantil. destinados a preparar especialistas em planejamento e organização social. destacamos: Euzébio de Queiroz Lima. É hoje uma imposição da vida em coletividade. Evaristo de Moraes Filho. só nesta harmonia traz beneficio à humanidade. nem apenas um sonho dos marxistas ou fascistas. visando o planejamento do próprio desenvolvimento. liberdade. inúmeras e extraordinárias obras foram escritas sobre o assunto. pesquisas e projetos desenvolvidos. Mais recentemente: F. A sociedade tem que caminhar para o autoconhecimento. já reinantes nos grandes centros socialmente mal organizados. pesquisá-las. A. confusa e turbulenta. A planificação da sociedade não é mais considerada incompatível com a democracia. e A. Quando a sociedade cresce desordenadamente toma-se um polvo gigantesco. com inúmeros tentáculos ou segmentos. mas a cegonha. tomou-se um fato irreversível. sob pena de tomar-se impossível a vida em coletividade. segurança. a ponto de um ex-presidente norte-americano afirmar que a mais perigosa sombra que ameaça a humanidade atualmente não é a bomba atômica. 72] do conhecimento humano. Provam isto os problemas sociais de violência. Concluiu-se também ser necessário planejar o desenvolvimento social.

enfatiza: “O direito é um fenômeno social.] trato. IMPORTÂNCIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A Sociologia Jurídica é da maior importância em primeiro lugar para o Legislador. e a Sociologia do Direito de Remi Levy Briihl. A missão do jurista compreende a interpretação das leis que regem a sociedade.[p. é preciso com freqüência ajustar a lei às novas realidades sociais.Machado Neto escreveu Sociologia Jurídica. ou mesmo através da analogia. visto que.a realidade social. um dos nossos grandes juristas. sem desrespeitar as leis da hermenêutica. Esses ajustes só alcançarão seus objetivos se o legislador estiver devidamente informado sobre aquilo que precisa mudar. 36. obsoleta. Segundo Pugliatti. caráter abs. em 1964. o jurista toma contato. Dos autores estrangeiros com obras traduzidas para o português. através de uma interpretação ora extensiva. Para interpretá-las. do original Sociologie du Droit. sob o título Sociologia Jurídica. conhecendo-as. visto que. bem colocou esta questão quando disse: “A realidade jurídica constitui-se de dois elementos fundamentais: o material e o formal. escoteiro. sem conhecer os fatos que estão ocorrendo no grupo. fazer o Direito acompanhar as evoluções sociais. 1946. E essa interpretação não pode circunscrever-se à qualificação dos fatos jurídicos ou à fixação das condições de validade da conduta do indivíduo no exercício dos direitos deferidos ou no cumprimento das obrigações impostas. em magistral tradução de Djacir Menezes. pois fornece-lhe os elementos necessários à elaboração das leis. Não basta descrever os elementos formais da realidade jurídica composta das normas vigentes em determinado momento histórico. Com efeito. O outro é formado de um conjunto de normas. Só por abstração se pode separar a forma do conteúdo. não nos ateremos ao método . São inseparáveis. no estudo do Direito Civil pátrio. as relações que necessitam de melhor disciplinamento. o elemento material isolado toma cor neutra e o elemento formal. os conflitos que se travam . ora restritiva. enfim . O primeiro é a matéria prima da experiência jurídica. Ao Juiz. traduzido por Teruka Minamissawa. a Sociologia Jurídica possibilita aplicar o Direito de modo compatível com as necessidades sociais. não sendo possível estudálo abstraindo-o da sociedade. constituindo-se de fatos sociais. Eis por que. mais adiante. com a realidade social subjacente. sendo a lei estática e a sociedade dinâmica.nenhum legislador tem condição de elaborar leis eficazes. Orlando Gomes. necessariamente. Por outro lado. poderá. com o passar do tempo aquela acaba se tomando ultrapassada.” E. não podemos deixar de mencionar a Sociology of Law de Gurvitch. numa sociedade determinada.

os governantes e juízes serão capazes de dar aplicação mais precisa às normas de direito que houverem sido editadas. se dermos a devida atenção à Sociologia Jurídica e progredirmos suficientemente em seu estudo. mas sim ao dos que consideram o direito um fenômeno social e entendem que a ciência jurídica não se esgota na elaboração de uma teoria geral ou na técnica de logicar através de silogismos próprios de uma sentença judicial (Introdução ao Direito Civil. 14 e 16). como para o estudante. Podemos concluir afirmando que. a Sociologia Jurídica proporciona uma visão mais ampla e real do fenômeno jurídico. frias. 3a ed. a realidade social dinâmica em permanente evolução. . Forense. 1971. à qual as normas deverão se ajustar sob pena de perderem a finalidade. que devem ser aplicadas independentemente de qualquer finalidade ou objetivo. pp. Para o advogado.. alcançando a necessária adequação entre os fins sociais e as normas jurídicas que se destinam a realizá-los. será possível evitar a improvisação em inúmeras questões administrativas e legislativas. Os legisladores poderão cumprir melhor sua função prevendo as tendências da legislação. tomando-se ineficazes e obsoletas.preconizado pelos normativistas. Revela-lhes que o Direito não é somente um conjunto de normas estáticas. mas também um fato. o profissional do Direito.

procuraremos precisar o que está contido no estudo do direito como fato. **** 37. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA No estudo de toda ciência é da maior importância precisar seu objeto. vimos que o seu objeto é o direito fato. para então adotarmos o daquele que nos parece mais completo. examinando a sua divisão interna. desde logo adiantar que em tomo desta questão não há perfeita concordância entre os autores. Em suma. Método é o caminho que se deve seguir para alcançar os objetivos de uma ciência. razão pela qual procuraremos expor o entendimento dos principais.Capítulo VIII OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA O entendimento de Émile Durkheim. Vamos procurar agora explicitar esse objeto. O pensamento de Georges Gurvitch. Leis são aquelas regularidades. Vamos de ora em diante nos dedicar ao exame do objeto da Sociologia Jurídica. porque disto depende uma boa compreensão quanto à razão prática dessa disciplina. Por objeto entende-se o campo específico de atuação de uma ciência. fenômenos que se repetem com freqüência no campo de uma ciência. É preciso. A posição de Renato Treves. estabelecer seu método e conhecer suas leis. o processo a ser aplicado para realizar suas finalidades. O objeto da Sociologia Jurídica na concepção de Edmond Jorion. [p. O objeto da Sociologia Jurídica segundo Recaséns Siches. o fim a que se propõe. entretanto. Ao tratarmos da autonomia da Sociologia Jurídica. 75] . o objetivo que visa alcançar.

O PENSAMENTO DE GEORGES GURVITCH Segundo Gurvitch. pp. bem como o estudo dos planos de profundidade do direito. um dos fundadores da escola sociológica do direito. . Paris. por outro. Somente quando as normas estão ajustadas aos fatos é que poderão atender aos objetivos para os quais foram elaboradas. por um lado. 39. citado por Machado Neto. b) Sociologia Diferencial do Direito. bem como das necessidades que visam satisfazer. b) o modo como as normas jurídicas funcionam na sociedade (Leçons de Sociologie. PUF. o conhecimento e a psicologia coletiva. isto é. O ENTENDIMENTO DE ÉMILE DURKHEIM Para esse notável sociólogo francês. dos fatos sociais que as suscitam. 1950). e a base ecológica da sociedade. a Sociologia Jurídica pode ser dividida. incluindo uma Tipologia Jurídica dos Grupos Particulares e uma Tipologia Jurídica das Sociedades Totais. em três itens: a) Sociologia Sistemática do Direito ou Microssociologia do Direito. de acordo com as diversas abordagens metódicas de seu objeto. a economia. [p. 89-94). c) Sociologia Genética do Direito (ob. seria objeto da Sociologia Jurídica: a) investigar como as regras jurídicas se constituíram real e efetivamente. se está ou não sendo aplicada. a religião. No segundo item procurar-se-ia saber dos resultados decorrentes da existência da norma.38. dando ênfase especial ao estudo da soberania e das relações das diversas ordens jurídicas com o direito estatal. cit. a moral.. comunhão) com os fenômenos geradores do direito social. e das formas de sociabilidade por interdependência (relações de aproximação. de afastamento ou mistas) com os fenômenos originários do direito interindividual. 76] O último item trata das relações de interinfluência que se estabelecem entre o direito. se há ou não estrutura para isso etc. comunidade. No segundo item Gurvitch se serve de sua classificação dos grupos para estudar as relações do direito com cada tipo de agrupamento social. No primeiro item teríamos o estudo das relações das formas de sociabilidade por interpenetração (massa. No primeiro item estaria incluído o exame das causas que determinam o surgimento das regras jurídicas.

propõe o seguinte quadro de tarefas para a Sociologia Jurídica: a) Observação e análise dos fatos. Porto Alegre. d) Relação do Direito com outros fenômenos sociais (influência do Direito sobre a sociedade e vice-versa). ao mesmo tempo. sejam eles positivos.40. como produto resultante de um complexo de fatores sociais. e) Definição pela Sociologia do Direito. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA SEGUNDO RECASÉNS SICHES O destacado professor espanhol. 693). O autor belga. no que. data venia. entretanto. c) Estudo da gênese das regras jurídicas e de sua evolução. p. atribui à Sociologia Jurídica duas séries de temas: a) Estudo de como o direito. b) Exame dos efeitos que o Direito constituído causa na sociedade. Em síntese. representa o produto de processos sociais. 211). 1965. a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina. Poderíamos ilustrar o entendimento de Siches mediante o seguinte quadro: [p. O primeiro item proposto por Siches trata do direito como fenômeno condicionado pela sociedade. b) comparativos). de seus próprios limites (De la Sociologie Juridique. encontra-se superado. p. negativos ou de interferência com outros fatores (Tratado de Sociologia. estudos 41. tendo por objeto o fenômeno jurídico. enquanto fato. o direito é. como já assinalamos. O segundo item cuida da influência conformadora ou condicionante do Direito sobre a sociedade. classificação. um fenômeno condicionado e condicionante da sociedade. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA NA CONCEPÇÃO DE EDMOND JORION Para Jorion. 77] Sociedade A Direito B . Seu tratamento tipo lógico (reagrupamento. radicado no México.

Newton. a maior dificuldade de quem vai para um país diferente é a língua.” Por outro lado. O próprio Newton afirmou: “Se vi mais longe foi porque estive sustentado em ombros de gigantes. Einstein e outros não passariam de um pajé ou cacique. Até costuma-se dizer que somos produto do meio porque. Se quiser se comunicar. papel. Todo progresso. para que ele pudesse estar escrevendo numa folha de papel e não em um papiro ou coisa semelhante. exclusivamente. jornais. surge . muitas outras pessoas terão que concorrer para a edição. segundo o entendimento de Siches. dele dependemos grandemente para tudo. Tomemos o exemplo de quem escreve um livro. Para escrever depende o autor de uma série de recursos materiais. se tivessem nascido em uma tribo indígena. No segundo plano (linha B) figura o Direito constituído exercendo influência condicionadora sobre a sociedade: é inegável que. sem dúvida o mais dominante é o sócio-cultural. uma vez constituído em normas de conduta e disciplinamento. não podendo ser esquecidas as figuras da datilógrafa. resultado de longa evolução histórica. Aí a obra sai publicada com o nome do seu autor na capa. luz artificial etc. poderíamos dizer que ocorre algo semelhante ao que se passa entre a sociedade e o indivíduo. Ficaríamos alarmados se fôssemos pesquisar o que foi necessário. Mas. Por isso.. não fosse o social. 78] O gênio não existiria. do editor. professores etc. como tinta sintética. [p. fontes de trabalho e inventos de outrem. Até o livro sair publicado. de formação lenta e paulatina. um produto manipulado pela sociedade. Em que medida o livro é produzido pelo seu autor? Quanto do autor em si. o indivíduo exerce influência sobre o grupo. escola. no correr dos séculos. na realidade. De todos os fatores que atuam sobre o indivíduo. Escreve sobre um tema que reflete uma soma de conhecimentos adquiridos em livros.No primeiro plano (linha A) figura a sociedade como fator condicionante do direito: é a sociedade que dá origem ao direito. terá que aprender a língua falada no meio social para onde vai. patrimônio da cultura universal assimilado graças a uma pluralidade de inventos sociais. Não teríamos com quem falar. pois deve mais à coletividade do que a si mesmo. haverá naquele livro? Começa que ele escreve em uma língua que não inventou. fazendo-o surgir das inter-relações sociais. sendo. portanto. dos operários que manipularão as máquinas etc. Para ilustrar as relações existentes entre a sociedade e o Direito. revistas. apesar de receber tanta influência condicionante do meio social. o Direito passa acondicionar o comportamento do grupo. entretanto. mudança cultural etc. em verdade. é obra exclusiva do autor? Somos tão dependentes do social que nem poderíamos falar a língua que pretendêssemos.

o indivíduo. Certas zonas da personalidade não chegam a ser inteiramente socializadas. b) tendências e correntes que ainda não obtiveram expressão normativa. todos resumíveis na questão da influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. também condiciona. pois. Como fato. fazendo-o evoluir. e) fenômenos de organização espontânea.na sociedade graças aos condutos da criação individual. [p.Os fatores constantes da realidade jurídica. ocorre entre o Direito e a sociedade. subdividindo-o em uma série de novos temas. economia etc. Não foi a sociedade. é o Direito um produto social. ou melhor . técnica. entretanto. o Direito passa a disciplinar as relações sociais. condicionando condutas. arte. a lâmpada elétrica. a máquina a vapor. filosofia. como já se disse. Siches dá maior ênfase ao primeiro item da sua proposição temática. a saber: I . f) necessidades e fins da vida humana que estejam pressionando em dado momento. É que a sociedade. por mais que condicione o indivíduo. Exercendo influência sobre o grupo. elaborado pela sociedade. O impulso criador da mudança cultural e do progresso social é. ao qual nos reportamos. ficou evidenciada essa influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. que tem que disciplinar os novos fatos . mas sim o indivíduo.ainda não suficiente ou convenientemente reguladas. e por sua vez no Direito norma. ao mesmo tempo que o Direito é condicionado. o que é bom.evolução milenar que durará enquanto existir a sociedade. No capítulo sobre os Fatores Sociais da Evolução do Direito.Os dados (variáveis) da matéria social: a) realidade de uma série de relações sociais não reguladas juridicamente. c) representações axiológicas das pessoas que integram o grupo. Algo semelhante.dado que a plenitude do ordenamento jurídico não permite tais vazios . não consegue a socialização integral de todos os indivíduos. . pois caso contrário seria a massificação. 79] d) mútuas correlações empíricas entre o Direito e outros produtos da cultura (religião. II . Quando erigido em norma de conduta. Essa reciprocidade de influência produz constantes modificações no direito fato.). que inventou o cálculo infinitesimal. operando elas o milagre da inovação.

2) estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições. ao analisar os assuntos que têm constituído o objeto da Sociologia Jurídica. 23-25). 3) estudo da opinião do público a respeito do direito e das instituições jurídicas. praticamente. que tipos de efeitos as normas podem produzir. Trataremos também dos agentes do Direito na sociedade e sua função. A POSIÇÃO DE RENATO TREVES O ilustre professor italiano. em sua obra La Sociologia del Diritto (pp. quando a norma é eficaz e por quê. Veremos o que é eficácia. o que evidencia a influência condicionadora do Direito sobre a sociedade. trataremos da opinião pública que. envolvem os temas propostos pelos demais autores. e. sustenta que eles se agrupam. sob pena de a lei não atingir os seus objetivos sociais. Os temas por ele propostos. É preciso uma estrutura adequada de pessoal e material para aplicar a lei. 80] . razão pela qual vamos adotar essa classificação em nossos estudos daqui para frente. principalmente. além de mais compatíveis com o campo de atuação da Sociologia Jurídica. são também mais abrangentes. entendemos ser Renato Treves o que melhor colocou o problema relacionado com o objeto da Sociologia Jurídica. De todos os autores mencionados. se atendida. em três tipos de indagações: 1) estudo da eficácia das normas jurídicas e dos efeitos sociais que tais normas produzem. o que são efeitos. quando teremos oportunidade de ver que não adianta ter leis e não aplicá-las.42. funciona como termômetro a indicar ao legislador as mudanças a serem feitas na lei e nas instituições sociais. Por último. [p.

o qual. dissemos. examinar o primeiro item da classificação por ele sugeri da. destacamos o entendimento do Prof. efeito educativo da norma. A NOÇÃO DE VALIDADE O que é necessário para que uma coisa seja válida? Esta pergunta. em nosso entender. pois. Efeitos negativos: pela ineficácia da lei. **** No capítulo anterior. razão pela qual tomam-se imperativas algumas palavras a respeito. após examinarmos o pensamento de vários autores sobre o objeto da Sociologia Jurídica.Capítulo IX EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS E SEUS EFEITOS SOCIAIS A noção de validade e de eficácia. no qual uma das partes é incapaz. Eficácia da lei. nos dá a chave para encontrarmos o conceito de validade. [p. tomaremos como roteiro de ora em diante. Inicialmente. . embora esta seja pressuposto daquela. entendemos necessário lembrar que eficácia não é sinônimo de validade. Renato Treves. pela omissão da autoridade em aplicar a lei. Nossa tarefa será. porque lhe falta um dos elementos. efeito conservador da norma. 81] Um contrato. da lei etc. pela falta de estrutura adequada à aplicação da lei. eficácia do contrato. é válido? Não. Trata-se de conceitos que a todo momento se repetem no estudo do Direito: validade do ato.. estabelecer as causas da ineficácia das leis e os tipos de efeitos que elas podem produzir e por quê. procurando definir a eficácia e os efeitos das normas jurídicas. 43. Efeitos da norma. Efeitos positivos da lei: de controle social. efeito transformador da norma.

Com essas considerações preliminares.farinha. são partes do todo. Por isso é que se diz que “válido é aquilo que está revestido de todos os seus requisitos legais”. 82] . cremos já poder agora tratar especificamente da eficácia da norma jurídica e dos seus efeitos. não tem força para tal. Por elementos essenciais entendem-se aqueles requisitos que constituem a própria essência ou substância da coisa. é aquela falta de idoneidade para produzir. o caso de uma dona-de-casa empenhada em fazer um prato especial. Só o ato válido. O ato nulo. por força duradoura e irremovíve1. Que é preciso para ela fazer esse prato especial? Que elementos deve utilizar? Ela vai à receita e lá encontra a discriminação dos elementos . 44. com falta de um de seus elementos. no aspecto sociológico. ineficaz.Vemos assim que válido é aquilo que é feito com todos os seus elementos essenciais. ela jamais terá o prato desejado. pois. tem força para alcançar os seus objetivos. os efeitos essenciais do tipo. Tomemos. ela será válida. o negócio é inválido. Pois coisa semelhante ocorre no mundo jurídico.artigo 104 do Código Civil. manteiga. para exemplo. nulo. porque faltou um dos seus elementos essenciais. Lembremos agora que a receita do negócio jurídico está na lei . revestido de todos os seus elementos essenciais. Quando queremos saber se uma coisa é válida ou não. açúcar e as devidas proporções. vamos começar pelos efeitos. Faltando qualquer um desses. Se todos os seus elementos essenciais estiverem presentes. não alcançando os seus objetivos. como sanção à inobservância dos requisitos essenciais impostos pela lei (Teoria Geral do Negócio Jurídico. Pode-se. sem os quais ela não existiria. ovos. é ela que estabelece os seus elementos essenciais. não produz efeitos. terão que estar revestidos de todos os seus elementos essenciais. Faltando um deles. inválido. Para que o ato ou negócio sejam válidos. para Emílio Betti. concluir que a validade decorre. [p. A invalidade. Coimbra. cujos conceitos não divergem do que já ficou assentado. 1970). que nasceu defeituoso. invariavelmente. portanto. sendo. Por razões didáticas. A NOÇÃO DE EFICÁCIA Eficácia é uma conseqüência da validade: é a força do ato para produzir os efeitos desejados. devemos examinar seus elementos. de o ato haver sido executado com a satisfação de todas as exigências legais.

Cabe ao legislador ajustar o Direito Positivo a essa realidade social. não tem condições de fazer leis. Toda norma produz efeitos. Legislador que não tem conhecimento da realidade social.elaborar uma norma adequada à realidade social e a primeira tarefa da Sociologia Jurídica . Pelo que ficou dito. como teremos oportunidade de ver. vazias de propósito. por mais técnicas e eruditas que forem as leis que elaborar. ajustada às necessidades do grupo. a sociedade condiciona o direito fato. genérico. 46. eficácia é a adequação entre a norma e as suas finalidades sociais. A sociedade não espera pelo legislador. é eficaz a norma que atinge os seus objetivos. que realiza as suas finalidades. abrangente. qualquer conseqüência. porém. “O legislador não pode ser mero espectador do panorama social. EFICÁCIA DA LEI Se eficácia. Em outras palavras.fornecer ao legislador os elementos necessários à elaboração dessa norma. só tem essa força quando está adequada às realidades sociais. podemos então dizer que lei eficaz é aquela que tem força para realizar os efeitos sociais para os quais foi elaborada. Os efeitos podem ser positivos ou negativos. não passando de um conjunto de estéreis formalidades. decorrentes até mesmo de sua própria existência. é a força do ato para produzir os seus efeitos. Poderão ser muito boas para outro lugar qualquer que tenha servido de inspiração ao legislador. Uma lei. por isso que neles estão incluídos todos os resultados produzidos pela norma. que atinge o alvo por que está ajustada ao fato. entretanto. Se os fatos caminham normalmente à frente do . conclui-se que os efeitos envolvem um conceito amplo. nunca. Como dizia Siches. modificação ou alteração que a norma produza no mundo social. como já vimos. serão elas carentes de conteúdo. Nesse sentido é também a correta lição de Paulo Nader. EFEITOS DA NORMA São todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. sob pena de nunca elaborar lei eficaz. Deve ser a primeira preocupação do legislador . Só aí ela penetra no mundo dos fatos e consegue dominá-los.45. moldando-o à sua imagem e semelhança. Por conseguinte. para a sociedade à qual se destinam. dos reais problemas e conflitos que se travam na sociedade. pois sua própria existência já é um efeito. que não está a par do desenrolar dos fatos.

são os resultados contrários aos interesses da sociedade. 83] dos. o estudo da influência condicionante do Direito constituído sobre a sociedade. como teremos oportunidade de ver. Efeito é gênero. conforme os interesses a serem preserva. 47. igualmente. Pelo exposto. Podemos até dizer que a eficácia é o principal efeito positivo da norma. com as devidas correções e complementações. 3) conservador.1. 27). A norma eficaz só não produz efeitos positivos se concorrerem outros fatores. um efeito condizente com suas finalidades. verifica-se ser a eficácia um dos efeitos da norma. conforme mencionado na parte anterior. O Volksgeist deve informar às leis. Se de um lado o Direito recebe grande influxo dos fatos sociais. em outras palavras. aquele que mais se harmonize com os três fatores” (ob.[p. O estudo dos efeitos da lei é. provoca. destas. quando eficaz. a função preventiva é a . seu efeito principal ou real. É uma certa qualidade do efeito produzido pela norma. entre vários modelos possíveis de lei. produz normalmente efeitos positivos. A norma. importantes modificações na sociedade. o legislador haverá de considerar os fatores histórico. Entre os efeitos positivos da norma destacaremos apenas quatro: 1) de controle social. Quando da elaboração da lei. p. o legislador deverá antecipar-se aos fatos.. É o efeito típico da norma. e negativos. da qual falava Siches. Ele deve fazer das leis uma cópia dos costumes sociais. Esses efeitos podem ser positivos ou negativos. cit. a contrario sensu. Efeitos positivos são os resultados compatíveis com os interesses sociais. 2) educativo.Direito. eficácia é espécie. mas o Direito contemporâneo não é simples repetidor de fórmulas sugeridas pela vida social. natural e científico e a sua conduta será a de adotar. EFEITOS POSITIVOS DA LEI Já vimos que efeitos são todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. O Controle Social Quando tratamos da função social do Direito (no segundo capítulo). vimos que as suas principais finalidades são prevenir e compor conflitos. 4) transformador 47.

a sociedade global. com toda a propriedade.mais importante. 13° salário. maior estímulo no sentido de ajustar sua conduta às condições existenciais. É que a lei. aquela coação psicológica ou intimidação exerci da sobre todos. tanto assim que não pode punir sem que alguém tenha praticado um fato típico. Qualquer trabalhador dos nossos dias. de disciplinamento social. mesmo não querendo. E ai de nós se assim não fosse! Como o Direito [p. conhece os seus direitos. Efeito Educativo da Norma Está mais que evidenciado. do grupo e das instituições. e assim. Exemplo disso encontramos no Direito Trabalhista. tem que ser divulgada. publicada. O Direito é muito mais preventivo do que repressivo. A Constituição de 1988 nos fornece outro exemplo eloqüente desse efeito educativo da lei. para ter. vai se perdendo o controle da situação e a vida em sociedade vai se tomando impossível. através de pesquisas e da própria experiência. O próprio Estado. sofre o controle do Direito quanto à sua conduta. fundo de garantia. a não ser através dos meios constitucionais etc. o controle é também exercido pela prevenção especial: a segregação do transgressor do meio social. Sabe que tem direito a férias. à medida que vai sendo conhecida pelo grupo. 84] previne os conflitos? Estabelecendo regras de conduta. E ele sabe até mesmo onde e como reclamar os seus direitos. Isto faz com que muitos. O controle social é exercido pelo Direito primeiramente pela prevenção geral. Conscientizou o cidadão dos seus .2. ou a aplicação de uma pena pecuniária. mesmo o ignorante ou analfabeto. vai também educando e esclarecendo a opinião pública. Por quê? Onde aprendeu? Não foi com o patrão. Em segundo lugar. É inconcebível uma sociedade na qual o comportamento social seja regulamentado apenas pelas sanções morais do elogio e da culpa. indenizatória. Dessa forma exerce o Direito sobre todos um condicionamento que resulta num controle do comportamento do indivíduo. que o bom comportamento até do cidadão mais exemplar deve muito à existência da polícia. Quando a norma não é aplicada convenientemente. da próxima vez que se sentir inclinado a transgredir a norma. aviso prévio etc. nem na Escola de Direito. repouso remunerado. antes de se tomar obrigatória. Bertrand Russel observou. 47. mediante a ameaça de uma pena para o transgressor da norma. mas sim no próprio grupo. não pode apoderar-se da propriedade de quem quiser. ajustem o seu comportamento às prescrições legais para não sofrerem a sanção. que certos assuntos tomam-se melhor conhecidos do grupo social depois de serem disciplinados pela lei.

que podiam aprender com eles para melhorar seus produtos e serviços. É a função educativa do Direito. defendeas.729. Hoje. 85% do atendimento dos bancos 24 horas são feitos eletronicamente. foram propostas 252. cerca-as. o infanticídio. racionalizar atividades. o estelionato. Prova disso são os Juizados Especiais. Assim tem conseguido a sociedade. no entender do ilustre . perceberam que teriam de atender melhor os seus clientes para não perdê-los.direitos e do acesso à Justiça. o roubo. Só no Estado do Rio de Janeiro. que é a instituição maior. das quais foram julgadas 223. a começar pela Constituição. 85] pelo Código do Consumidor. o aborto. Estruturaram-se adequadamente e colocaram em operação o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) por meio do qual conseguiram padronizar procedimentos. As empresas. no Código Penal (dos crimes contra a família. destinadas a organizá-lo e conservá-lo. Há normas no Código Civil (um livro todo que só trata do direito de família). ligase ao caráter estático que ele representa ao garantir a manutenção da ordem social existente. Em 2003 foram ajuizadas 296. E o que se fez em relação a ela? Procurou-se protegê-la através de uma infinidade de normas. Trata-se de instituição basilar da sociedade. destinadas à proteção da família. em face da nova postura dos consumidores. que se transformam em jurídicos quando recebem a proteção do Direito. conquistar a fidelidade dos clientes e construir uma imagem positiva da empresa. bem ou mal. grandemente procurados.348 reclamações.782 reclamações e julgadas 265. mas. por sua vez. visam a tutela da vida. A norma tutela não somente bens. 47. Vejam o caso da família. no que foi coadjuvada [p. protegem o patrimônio. mais do que isso. assinala o insigne André Franco Montoro. A função conservadora do Direito. O próprio Estado. Efeito Conservador da Norma As normas jurídicas tutelam determinados bens da vida social. no ano de 2002. essa é a característica essencial das normas jurídicas. as que incriminam o furto. arts. Uma grande fornecedora de serviço de telefonia atende mais de 25 milhões de chamadas por mês. Quando o legislador entende que certas instituições são valiosas e indispensáveis à vida social. estabelecendo em tomo delas a proteção jurídica. mas também instituições. Tomemos como exemplo o Direito Penal: todas as normas que incriminam o homicídio. preservar esta instituição através dos séculos e a despeito de todas as influências perniciosas que conspiram contra ela. 235-249) e na própria Constituição. Para muitos.3.389. necessita da proteção do Direito e por isso existem leis. e assim por diante.

Qual era a sua situação? A mais lamentável possível. auxílio de doença. os calabouços. aparelhar-se.[p. aposentadoria. mais diretamente. equipar-se. melhor. Exemplifiquemos este ponto com a situação do trabalhador antes das vigentes leis trabalhistas. Nos países em desenvolvimento e transformações profundas. ficava ao desamparo. 87] ríveis que se possa imaginar.. indenização por acidente de trabalho etc. que. passando privações e causando problemas sociais graves. Vêm daí as masmorras. Daí a importância do Direito como instrumento de transformações sociais. Nesse tempo. imundas e nocivas. quanto piores as prisões. Efeito Transformador da Norma É aqui que percebemos. o erro dessa posição é patente. e assim. ambulatório. para dar cumprimento à lei. em razão de necessidades sentidas. estabilizados e organizados. 47. 86] verdade em países plenamente desenvolvidos. 23a ed. Isso teve que ser mudado: vieram as leis trabalhistas e previdenciárias. tem que se estruturar. em favor do trabalhador. No passado a pena era considerada um castigo ou punição: mal justo contra quem praticou mal injusto. As fábricas e indústrias tiveram que oferecer melhores condições e ambiente de trabalho aos seus empregados. creche. foi necessário até a criação de um gigante nacional (INSS) para cuidar da aposentadoria e assistência médica dos trabalhadores. Trabalhava a vida toda e. A sociedade então. paulatinamente. Rev. Há quem diga que a história da pena é pior que a do crime. Eis aí o efeito transformador da lei. vestiário. 595). determina a realização de certas modificações. dos Tribunais. fixa novos princípios a serem observados em determinadas questões. assistência médico-hospitalar. por ser grande demais. p. Se o fim da pena era punir. isso só é [p. E qual foi a conseqüência disso tudo? A sociedade teve que se estruturar. aparelhar-se para cumprir a lei. não funciona a contento. Outro exemplo. o efeito condicionante do Direito sobre a sociedade. e o resultado foi uma transformação social. indenização. bem como as penas mais ter. direito a férias. depois de velho e cansado. as prisões fétidas. escola.jurista.4. era dispensado sem qualquer direito. a norma estabelece novas diretrizes a serem seguidas. . então o réu deveria ser mesmo colocado no pior lugar do mundo. muitas delas com refeitório. estabelecendo. Reduzir o direito a uma força conservadora é perpetuar o subdesenvolvimento e o atraso (Introdução à Ciência do Direito. vai operando sensíveis transformações em seu meio. Muitas vezes. Como não mais podia trabalhar.

contrários aos interesses sociais. Tomava o réu pior . entretanto. produzir efeitos negativos. no monopólio estatal. A prisão passou a ser a melhor escola de crime. o pensamento moderno a respeito dos fins da pena mudou. Se. Isso tudo evidencia que o Direito. o bem estar. A pena não é mais uma forma de castigo ou punição. o melhor exemplo do efeito transformador do Direito vamos encontrar nas leis econômicas que implantaram o Plano Real. desequilíbrio social e abusos econômicos de toda ordem. atribuindo-lhe uma função preventiva. gerando miséria. com uma inflação astronômica corroendo o salário do trabalhador. terá a norma exercido a sua influência transformadora. pode a norma. e em alguns estados já começam a surgir as primeiras transformações através de modernos estabelecimentos penais. pois nada fazia no sentido da recuperação do criminoso.mais perigoso. maior poder aquisitivo da população. quando corretamente utilizado. EFEITOS NEGATIVOS DA NORMA Elaborada para produzir efeitos positivos. nem no sentido de prevenir a sociedade contra a futura criminalidade. mediante normas que promovem a educação. na ordem tributária. Pelo menos já se fala hoje em reforma penitenciária. em conseqüência. passou a comer mais e melhor. na Administração Pública. na privatização de estatais. a saúde. A economia do país estava à deriva. que esperamos seja duradoura. e a participação eqüitativa de toda a população na renda nacional. 88] 48. e quando. a cultura. [p. Sem dúvida. fome. Por todos esses motivos. Para tanto. gerando profundas alterações na realidade brasileira.Essa posição quanto à pena trouxe os piores resultados sociais possíveis. Certas leis. Pior do que tudo. revoltado e despreparado para voltar à sociedade. Então será preciso transformar nossas prisões em escolas e reformatórios. todas com amplo apoio da sociedade. isso acontecer. Procura-se hoje fazer da pena um instrumento de defesa social. castigando impiedosamente? Não. A reforma econômica desencadeou outras reformas: na previdência. trouxe uma melhor distribuição de renda. não dava à sociedade nenhum instrumento de defesa contra esse indivíduo e seus futuros crimes. que. em dadas circunstâncias. pode ser o grande instrumento de uma política do desenvolvimento nacional. comandam a execução de planos de desenvolvimento social. o que será preciso? Onde educar? Na prisão? Na masmorra? Como. mas corrigir. como as orçamentárias. adequados às novas exigências legais. Não vamos mais punir. É claro que . mas sim um meio de reeducação e ressocialização do réu. A estabilização da moeda. efetivo controle dos preços.

podemos destacar três causas principais. Valem pela força que têm sobre os fatos e como são entendidas nessa aplicação. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. Ou. 48. 2) quando houver omissão da autoridade em aplicá-la. pode depender da legitimidade da autoridade que a estabeleceu. Lembramos três hipóteses em que a lei produz efeitos negativos: 1) quando for ineficaz. do conteúdo da mesma. As leis nascem para viver e só valem quando podem entrar no mundo dos fatos e ali governar.1. em 1977. 2° vol. 19-20). no entanto. para que se converta em força efetivamente configuradora das condutas. ou as tomam mofinas. isto é. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. pp. exige um reconhecimento.igualmente como as demais normas sociais . quer alterar velhos hábitos e dar-lhes nova disciplina. em constante conflito com os fatos. acanhado e despreparado. uma adesão da comunidade. da maior parte dos indivíduos que integram o grupo. para ser lidas ou para ficar na história. levado pelo idealismo [p. e sobrevivem apesar da lei. Outras vezes.” “O nosso País já é afamado pela distância entre a realidade e a norma jurídica. Efeitos Negativos pela Ineficácia da Lei A eficácia da norma depende do reconhecimento. a norma se incorpora à vida do grupo” (Sociologia do Direito. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. aceitação ou adesão da sociedade a essa norma. De outras feitas. da qual foi Presidente o douto Senador Acyoli Filho. Os hábitos. que gera a eficácia ou ineficácia da norma.quando isso chega a acontecer é tempo de revogar a lei. substituindo-a por outra mais adequada. teimam em sobreviver.” “Às vezes o legislador.. através da lei. ou de outros fatores.” . O trecho é o seguinte: “Não elaboramos leis para ser estampadas nos livros. o legislador. elaborado por uma Comissão Especial do Congresso Nacional. Graças a esse reconhecimento.para que seja cumprida. 3) quando inexistir estrutura adequada à aplicação da lei. no entanto. estendendo-se o desapreço a toda a legislação.” “As leis. 90] de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. entretanto. retardam e impedem as reformas. De um trecho da exposição de motivos do projeto de lei para a reforma do Poder Judiciário. como observa Siches: “A norma jurídica . Esse reconhecimento ou recusa.

o legislador. pode estar em perfeita adequação com a realidade social no momento de sua criação. se bem elaborada. lembrada pelo Senador Acyoli Filho. esses gigantescos organismos econômicos dos nossos dias. não são aplicadas em razão dos interesses econômicos em jogo.A primeira causa da ineficácia da lei. razão pela qual a lei cai no vazio. entretanto. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. levado pelo idealismo de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. impedem que a lei seja aplicada ou mesmo elaborada. é a sua desatualização. econômicos ou religiosos em jogo. costuma-se entre nós dizer que a lei não pegou. privilégios de grupos. Cada legislador tem que elaborar a lei com base na realidade de sua sociedade. Não consegue porque não há suporte social. Acyoli Filho põe isto em destaque no seguinte trecho: “Ou. Por mais estranho que possa parecer. é aversão sistemática às inovações ou transformações do status quo. estendendo-se o desapreço a toda a legislação” (o grifo é nosso). em constante conflito com os fatos. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. frontalmente contrária à dissolução do vínculo matrimonial. Assim. Com o correr do tempo. Misoneísmo. Muitas leis que controlam as atividades das multinacionais. O legislador vê algo que funciona muito bem em certo país mais adiantado e quer implantar no nosso. que ele destacou ao dizer: “As leis. 90] tras vezes. vai se desatualizando. Às vezes porque há grandes interesses políticos. o que em nosso país constitui na realidade uma forte causa da ineficácia da lei. lembramos que o divórcio custou tanto a ser admitido pela nossa legislação em virtude das pressões da Igreja. A maior parte de nossa legislação precisou ser reformulada exatamente por esta razão. Com efeito. Velhos hábitos. entretanto. retardam e impedem as reformas. outras vezes por mero comodismo da autoridade que não levou a sério a aplicação da lei. costumes emperrados.. Só para ilustrar esse ponto. acanhado e despreparado” (o grifo é nosso). evoluem constantemente. A antecipação da lei à realidade social existente é a terceira causa de sua ineficácia. vai sendo ultrapassada. mas a lei é estática. Interesses corporativistas emperraram a reforma da Previdência por muitos anos e ainda impedem a reforma Política. pois os fatos são dinâmicos. . correspondência com a realidade.. a lei. A segunda causa é o misoneísmo e vem mencionado no seguinte trecho: “. como se sabe. ou as tornam mofinas” (o grifo é nosso). acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. o passar do tempo toma a lei ineficaz.[p.

se quando surge o comportamento de desvio nenhuma pena é imposta ao transgressor da norma. havia uma grande expectativa de que ele haveria de por ordem em nosso trânsito caótico. mas não produzirá efeitos positivos por omissão das autoridades. Lei ineficaz.2003) o DENATRAN anunciou ter decidido criar o Registro Nacional de Infrações de Trânsito que permitirá a cobrança das multas por infrações cometidas fora do Estado onde os veículos estão registrados. quando foi editado. Em janeiro de 1997. A lei só tem força para “penetrar no mundo dos fatos e ali governar” quando é eficaz. tiro sem bala. controlar as relações sociais. A conseqüência é que a lei se desmoraliza e estende o desapreço a todo o sistema. portanto. isto é. Anunciou também que só a partir de 10 de junho de 2004 (Resolução 151 CONTRAN) começará a ser aplicada em todo o país a chamada multa por não identificação do condutor. vai se diluindo a sua função preventiva e.Vemos. Exemplo eloqüente disso é o Código de Trânsito Brasileiro.qual será o resultado? Vai se enfraquecendo aquela disciplina que a norma impõe a todos. Só agora (O Globo de 26. Efeitos Negativos pela Omissão da Autoridade em Aplicar a Lei A função principal do Direito. incompetência ou irresponsabilidade da autoridade.2. com a pontuação várias vezes estourada. e por desídia. 91] por pardais. superada pela realidade social. desatualizada. Quem transgride a lei impunemente sente-se encorajado a transgredir novamente. câmeras eletrônicas valem ou não. conseqüentemente. Neste caso a lei pode até ser eficaz. fruto apenas do pensamento. para acabar com a impunidade dos motoristas profissionais. Há milhares de motoristas infratores. As autoridades do trânsito ainda discutem se as multas registradas [p. entre as quais a perda da carteira. Mas se a lei é transgredi da. dado a severidade de suas normas e a gravidade das penas. a autoridade nada faz . dirigindo sem serem molestados. o que realiza através do disciplinamento do comportamento mediante normas jurídicas armadas de sanção. a sanção não é aplicada. que fazer lei é algo diferente de fazer literatura ou história. assim. é prevenir conflitos. É fogo que não queima. quer por ser artificial. a transgressão sem punição vai estimulando novas transgressões. quando ajustada à realidade social e inteiramente adequada aos fatos. se é ou não obrigatório informar aos motoristas onde se encontram esses meios eletrônicos. quer por ter se tomado anacrônica. principalmente . produz efeitos negativos porque não tem força para governar os fatos sociais. Depois de vários anos de vigência quase nada melhorou porque as multas e outras sanções aplicadas não foram executadas. já vimos.12. acobertados pelas empresas para as quais trabalham. e o seu exemplo serve de estímulo a outrem. 48.

os mandados de prisão não cumpridos chegavam a 200 mil. mas o problema continuou: o ICCE fechou o ano de 2003 com cerca de cem mil laudos atrasados.07. o Juiz Camilo Ribeiro Ruliere.[p. Efeitos Negativos pela Falta de Estrutura Adequada à Aplicação da Lei Nesta terceira hipótese. morte ou decisão judi. da 9ª Vara Criminal do Rio.2000). equipamentos. falta material. Por isso é comum dizer-se que. mas que já está se tornando comum na Justiça. 92] cial. principalmente no denominado poder paralelo. depois de um começo promissor. o Ministério Público e o próprio Judiciário não estão suficientemente aparelhados para aplicar a lei. tomou uma decisão extrema. uma média de 600 mandados por policial (O Globo. é tê-las e não aplicá-las. pelo menos 60 mil já caducaram por prescrição. segundo estimativa do Professor Flávio Gomes.3. São cem mil inquéritos parados aguardando provas técnicas. autoridades competentes e responsáveis. Quais serão as conseqüências dessa falta de estrutura? As mesmas anteriormente mencionadas: transgressão sem punição e estímulo à ilicitude. Em São Paulo. foi forçado a conceder liberdade provisória a quatro traficantes. Por falta de um laudo do Instituto Carlos Éboli (ICCE). por falta de pessoal e estrutura. o delegado Álvaro Lins. . 48. 23. continua sendo o nosso grande problema atual. poderemos ter leis boas e eficazes. Em julho de 2000 o Ministério da Justiça estimou que havia cerca de 204 mil foragidos da Justiça brasileira e mais de 275 mil mandados de prisão não cumpridos no país. dos 90 mil mandados de prisão expedidos no estado. faltam instalações. sobram 30 mil para uma equipe de 50 policiais. admitiu que. mas a norma não atingirá seus objetivos sociais por falta de estrutura para uma eficiente aplicação do direito. pior do que não ter leis. Os acusados foram soltos. o Código de Trânsito perdeu a sua força didática. No dia 22 de setembro de 2003. e as boas intenções que motivaram a sua aprovação há mais de seis anos. Ainda assim. Esse.de ônibus urbanos. Enquanto a criminalidade cresce assustadoramente. Em resumo. Toma-se impossível aplicar a lei sem os recursos humanos e materiais necessários. falta tudo enfim. Sequer reduziu a incidência de infrações graves como excesso de velocidade e embriaguez ao volante. a Justiça fica impedida de julgar em decorrência da falta de estrutura do organismo policial e de seus institutos de criminalística. A Polícia. Falta pessoal. Está ameaçado de cair em desuso se não forem resgatados com urgência a sua letra e o seu espírito. lamentavelmente. então titular da Delegacia de Busca e Capturas (Polinter). No Rio.

Isso não é verdade. mas isso não foi feito. 21. no Paraná.2004. Apenas no dia 07.01. muitas vezes.2003). A Secretaria Nacional de Segurança Pública. falta ainda responsabilidade funcional por parte do estados . foi detido no Rio Grande do Sul sob suspeita de assassinar outra criança. pois o juiz não pode condenar sem provas.12. desta feita por ter sido reconhecido pelo amigo de uma outra criança assassinada quatro dias antes.por carência de aparelhos e de material humano. pouco poderá ser feito por órgãos policiais ou judiciais que dependem dessas informações. não faz um trabalho de perícia eficiente. foi liberado no mesmo dia. Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Se no INFOSEG constasse a informação sobre a condenação anterior do criminoso. ainda hoje não funciona eficientemente por deplorável omissão das autoridades responsáveis pela segurança pública. Mas. parte das mortes poderia ter sido evitada. apesar de existir mandado de recaptura contra ele expedido desde abril de 2002. ou pelo menos do mandado de recaptura contra ele existente. “enquanto os estados não se interessarem em alimentar e atualizar periodicamente o INFOSEG. Especialistas nessa área dizem que a falta de vontade política de governadores é um dos principais entraves para manter em funcionamento o INFOSEG. o que acaba levando a sociedade a culpar o Judiciário. Moral da história.01. o coronel José Vicente da Silva condena a falta de iniciativa dos estados para abastecer o sistema nacional. como pode o juiz condenar alguém? Depois dizem que a polícia prende e o juiz solta. Assassino confesso de 12 crianças no sul (Paraná. fugiu da cadeia em União da Vitória. O Presidente do Tribunal de Justiça do Rio. embora criado em 1988 o INFOSEG pelo Ministério da Justiça.[p.2004 foi novamente preso. a Secretaria de Segurança do Paraná alegou que ano passado (2003) decidiu limpar seu banco de dados do INFOSEG porque o sistema nacional apresentava falhas que prejudicariam sua utilização. Desembargador Miguel Pachá. diz que em maio de 2003 o Governo do Paraná pediu para retirar seus dados do INFOSEG por. 93] que a qualidade das informações era ruim e o estado pretendia melhorá-la. disse: “A polícia. Em nota. Se o inquérito chega ao juiz sem qualquer prova técnica ou testemunhal. em novembro de 2003. iniciativa da maior importância e extremamente necessária no combate à criminal idade num país continental como o nosso e super populoso. Ex-secretário nacional de Segurança Pública. como nada constava sobre ele no INFOSEG (sistema nacional destinado a integrar todas as informações policiais e judiciais). Quase dois anos depois. por sua vez. Segundo ele. Outro exemplo lamentável dessa falta de estrutura foi noticiado pelo Globo de 08. comentando a decisão do juiz Camilo. depois de condenado a 27 anos de prisão. nem manter ninguém preso” (O Globo.

01. prejudica a operação de todo o sistema. . Por isso. e tudo acaba aí. Por meio de um prodigioso processo mental. responsável [p. armas e ainda sobre foragidos da Justiça. a solução para o problema deveria partir de iniciativas dos próprios administradores públicos estaduais. confunde-se o projeto com a realização. todavia. “A equipe do INFOSEG não tinha nem sala no Ministério da Justiça. faz uma grande propaganda. é tê-las e não aplicá-las. toma-se o dito pelo feito. a intenção de resolver o problema com a solução em si. já que apenas 4% dos casos no Rio de Janeiro e 12% em São Paulo são resolvidos. encarregada de fiscalizar e a Polícia Civil.2004).01. pior do que não ter leis. Luiz Eduardo Soares. “Os Governos estaduais deveriam investir urgentemente na digitalização de informações do Detran e da Polícia Judiciária. sem. nada é feito no sentido de executá-la. repetimos.2004). lamentavelmente. 09.01. critica também duramente a atuação das autoridades policiais no combate à criminal idade ao dizer que “as taxas de elucidação de homicídios mostram uma tendência à impunidade.lembrando que nos Estados Unidos o sistema nacional envolve 14 bancos de dados e a sede do órgão ocupa um edifício inteiro (O Globo. os legisladores se reúnem e aprovam outra lei. Edita a lei. 94] pelas investigações. Teve que usar uma sala da Polícia Rodoviária Federal” . não indago se aí há leis boas. Túlio Khan. Diz ainda que a divisão de tarefas entre a Polícia Militar. Segundo ele. atualmente. apenas quatro bancos de dados integram o INFOSEG . há pessoas que cometem um crime grave num estado e depois respondem como réu primários em outro (estado) simplesmente porque estão usando nome falso ou porque ninguém consegue saber de seus antecedentes” (O Globo. anuncia aos quatro cantos que o problema está resolvido. executá-las. mas sim se as executam. que foi responsável pelo INFOSEG durante os últimos meses do governo de Fernando Henrique Cardoso. ex-secretário nacional de Segurança Pública. diz ainda Khan.2004). E quando a lei é aprovada e nada faz acontecer. cria uma esquizofrenia institucional. informa que. condutores irregulares. O Governo deveria tomar a iniciativa de fazer uma reforma nas polícias com o mesmo vigor empregado nas reformas da Previdência e Tributária” (O Globo.com informações de veículos roubados. 09. Sem essas e outras bases de dados nos estados.para atuar na área de segurança pública.” O Brasil. é campeão em resolver problemas elaborando leis. em vez de se discutir o que fazer para dar-lhe execução. 08. o INFOSEG não consegue servir aos próprios estados. porque leis boas há em toda parte.” A falta de investimentos. Montesquieu tinha toda razão ao dizer: “Quando vou a determinado país. organiza uma imensa demagogia.

reascende a discussão a respeito da reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente. Famílias sem renda e instrução têm o dobro de filhos da média brasileira de 2. que lhes possibilite uma profissionalização. A realidade. sem assistência. [p. Se a família é tão importante para a educação das novas gerações. Nada aconteceu de positivo em relação ao menor depois da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente dada a distância entre a lei e a sua execução. A situação talvez até piorou. voltando às ruas com mais raiva de tudo e de todos e mais experientes em atos criminosos. Sempre que um adolescente pratica um crime bárbaro. em visita a Nova York. A mulher de até um ano de escolaridade e renda . anunciou a criação do Ministério da Criança e acrescentou: “Gostaria de ver iniciativas como essa se estenderem para outras nações. que teve repercussão mundial. É preciso definir um projeto amplo de aperfeiçoamento do ECA e das instituições que educam ou reeducam os adolescentes que lá chegam.” A simples edição de uma lei e a criação de uma entidade governamental foi tomada por uma solução. é outra. Por melhor que seja. mas não tem cabimento pensar que a simples antecipação da maioridade penal resolverá o problema da criminalidade dos adolescentes.4. assassinato de um casal de namorados no interior de São Paulo e outros).Foi exatamente isso que ocorreu quando entrou em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente: os políticos da época anunciaram por toda a imprensa que o problema do menor no Brasil estava resolvido. Ganha fôlego a antecipação da maioridade para 16 anos. o ECA não é irretocável. porém. Afinal. instituições adequadas e gente competente. bem diferente. Uma mera fantasia burocrática virou remédio de tal eficácia que até se recomendaria sua exportação. o então Presidente da República. Para alguns setores da sociedade. por que não envolvê-los nessa tarefa? As estatísticas demonstram que o planejamento familiar poderia contribuir decisivamente para a redução da desigualdade. os menores continuam abandonados na rua. o problema seria resolvido com a diminuição da maioridade penal de modo a permitir punição exemplar dos adolescentes criminosos. 95] A questão do ECA é item prioritário em qualquer equacionamento efetivo do problema da segurança pública. São também necessárias ações sociais preventivas destinadas a preparar os jovens para uma paternidade ou maternidade responsável. eles passam pouco tempo nas instituições de recuperação. com planejamento familiar e assim por diante. de repercussão nacional (morte dos pais. sem alimentação e sem educação. ao ser indagado sobre a questão da criança em nosso País. sendo prova disso a chacina da Candelária. Por falta de recursos.

é considerado uma boa lei pelos especialistas. daqui a menos de dois anos. 1. 30.12.12. Só em São Paulo é apreendida uma arma a cada quatro minutos. mas elas não param de entrar. Capistrano de Abreu denunciou-o com ironia dizendo que temos uma legislação quase perfeita. Sem Índices eloqüentes de redução da violência gratuita das armas de fogo. No passado. esse irrealismo ilusório de nossa legislação escrita é bastante antigo e conhecido. na prática dependerá dos recursos que forem liberados às Polícias Federal e Estadual.2003). Se quando chegar a hora forem visíveis para a sociedade os efeitos positivos do estatuto. decidirá sobre a proibição do comércio de armas no país. tem média de filhos de 4. entre as quais o combate ao tráfico de armas no país inteiro. agora em vigor. o combate ao contrabando. Só nos falta uma lei. “do que acontecer nessas e em outras frentes de luta dependerá o resultado do referendo que. O Estatuto do Desarmamento. inclusive de pessoal. porque a facilidade com que os criminosos têm acesso às armas é muito grande. com onze ou mais anos de instrução. E concluiu: “É fundamental a polícia de fronteira.2004). Por enquanto só no papel.01. Lamentavelmente. para realizarem as tarefas que o estatuto lhes reserva. a que mande cumprir todas as outras. afirmou o Governador Geraldo Alkimim em entrevista ao jornal O Globo (04. [p. em média. ele será um cabo eleitoral eficiente. 96] . o próprio estatuto corre o risco de acabar recolhido ao empoeirado depósito onde se empilham as leis que não pegaram no Brasil” (O Globo.” Como bem colocou o jornalista Luiz Garcia.baixa.48 filho. a mulher tem.

União de pessoas do mesmo sexo. 97] para todo profissional do direito. **** No capítulo anterior estudamos a eficácia e os efeitos das normas jurídicas e pudemos conhecer os principais efeitos positivos e negativos que elas produzem. a macrodelinqüência. Direito de família: divórcio. analisar os efeitos sociais produzidos por certas normas existentes (ou que já existiram) em várias áreas do nosso Direito. características da Constituição Brasileira de 1988. criminalidade de colarinho-branco. por isso que lhe fornece os elementos necessários . uma demonstração eloqüente da importância da Sociologia Jurídica [p. principalmente nos grandes centros. Veremos também que a ocorrência de novos fatos sociais. Direito do consumidor: a responsabilidade objetiva do fornecedor de produtos e serviços. Direito financeiro e tributário. não previstos em nossa legislação atual. Essa incursão pelos vários ramos do Direito proporcionará. quando teremos oportunidade de conhecer a longa e penosa evolução transcorrida até chegarmos a uma razoável disciplina jurídica de certos fatos sociais. igualmente. soluções legais paliativas antes do divórcio. a situação da companheira e dos filhos após a Constituição de 88. estão a exigir uma urgente solução do legislador. Direito penal: violência urbana e poder paralelo. Considerações gerais. a situação da companheira e dos filhos ilegítimos. Vamos agora examinar alguns aspectos sócio-jurídicos da nossa legislação.Capítulo X ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DE ALGUMAS ÁREAS DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO O sentido sociológico da Constituição: Constituição e democracia. a introdução do divórcio na legislação brasileira. a concepção social do contrato. sob pena de se tomar ainda mais difícil a vida em coletividade. principalmente para o legislador. Direito do trabalho: interferência das forças sindicais no processo de formação do direito do trabalho.

da Constituição escrita. É chamada de Carta Magna ou Lei Fundamental porque. Embora se diga que o Poder Constituinte Originário é inicial (porque não há outro antes).e a Constituição real. prevalecerá sempre a vontade daqueles que titularizam o poder. Tais afirmações soam como heresia jurídica para os fetichistas da Constituição. p. o mais expressivo representante do sociologismo constitucional. econômicas. quando a Constituição não é o somatório dos fatores reais de poder.a folha de papel . e as constituições escritas não têm valor nem são duráveis a não ser que exprimam fielmente os fatores do poder que imperam na realidade social: eis aí os critérios fundamentais que devemos sempre lembrar” (ob. tudo dependendo de representar ela o efetivo poder social (forças políticas.para bem aplicar o Direito e melhor elaborar as leis. Assim. 49.houver coincidência. como bem colocou Ferdinand Lassalle. quando tal não ocorrer. mas do poder. é possível distinguir a Constituição formal.aquele somatório de poderes gerador da folha de papel . cit.sustenta Lassalle .. Este não deriva da folha de papel. ou ilegítima. 98] (porque não subordinado a nenhum outro) e . o efetivo exercício do poder. mas dos fatores reais de poder. mas têm base na realidade. autônomo [p. Vamos começar pelo Direito Constitucional. Vista pelo prisma sociológico. a verdadeira Constituição de um país somente tem por base os fatores reais e efetivos do poder que naquele país reagem. ideológicas etc. a folha de papel .). de modo a permitir a formulação de um correto diagnóstico e a apresentação de uma solução adequada.somente vale até o momento em que entre ela e a Constituição efetiva . ou distanciar-se dele. dessarte. 117). O SENTIDO SOCIOLÓGICO DA CONSTITUIÇÃO Entende-se por Constituição a Lei corporificadora do Estado. pois a Constituição real e efetiva é o fato social que lhe dá alicerce. como o seu próprio nome diz.“não são problemas de direito. Do ponto de vista sociológico. que contém a estrutura jurídica da nossa sociedade.Que é uma Constituição? Para ele. onde se encontram os princípios fundamentais da sua estrutura organizacional. nada mais é que uma folha de papel.Constituição formal . em sua clássica obra . é a Constituição que cria ou constitui o Estado de Direito. É como um termômetro a indicar a temperatura dos fatos sociais. a Constituição pode ser legítima e eficaz. “Os problemas constitucionais” .

Se não houvesse nenhuma Constituição formal ou escrita. Existe. mas quando se reúne já traz compromissos indeclináveis e emanentes de suas origens sociais.. nesse caso. dissimula ou disfarça. Para usar uma expressão de todos os dias: a Constituição é a roupa que assenta bem e que realmente veste. a ser sanada com o passar do tempo. mas conserva um caráter educativo e prospectivo. que dispõem do aparato coativo do Estado. numa imagem retórica. como vem acontecendo com a nossa Constituição em vigor.” “Entre a Constituição normativa e a Constituição semântica situa-se a Constituição nominal. Já houve quem afirmasse que a “a Constituição. para o exclusivo benefício dos detentores do poder de fato. 99] para ajustar os seus preceitos às novas realidades sociais e corrigir os equívocos ou exageros do constituinte de 1988. citado por Luis Roberto Barroso. éticos. mas esconde. Em tese uma Assembléia Nacional Constituinte pode tudo. Fatores ideológicos. seja do país grande potência. políticos. mas que está. profissionais. Aqui.incondicionado (porque não tem limites à sua atividade). do país rico ou do país educado” (Interpretação e Aplicação da Constituição. A roupa não veste. A roupa fica por certo tempo guardada no armário e será vestida quando o corpo nacional haja crescido. pelo amadurecimento esperado. é inegável que os constituintes estão comprometidos e limitados pelas forças sociais que os elegeram (fatores reais do poder). uma desarmonia entre os pressupostos sociais e econômicos existentes e a aspiração constitucional. econômicos e sociais”. culturais e morais acabam por determinar a atuação dos constituintes. A maior prova de que a Constituição tem que se ajustar aos fatores reais de poder está em que periodicamente tem que ser revista ou emendada. [p. o processo de poder se amolda às normas da Lei Maior. nominal ou semântico. diferenciando-as segundo seu caráter normativo. políticos. 5ª ed. econômicos. religiosos. “No outro extremo está a Constituição semântica. Suas normas dominam o processo político ou. elaborou a sua celebrada classificação ontológica das Constituições. sem pressa. Foi precisamente ao estudar a sintonia entre as normas constitucionais e a realidade do poder que Karl Loewenstein. como no caso da Constituição normativa. Confortavelmente. Saraiva. além disso. vivamente integrada na sociedade. A Constituição normativa é aquela não apenas juridicamente válida. . a dinâmica do processo político não se adapta às suas normas. os detentores do poder esperam pelo futuro. subalterna formalização da situação do poder político existente. p. inversamente. 252). a vida institucional não seria perceptivelmente diferente. é o encontro do povo de um certo país em dado momento histórico para reexaminar seus valores morais. submetendo-se a elas.

Tomemos para exemplo disso a própria Democracia. ou que todo o poder dele provém. numa lastimável sucessão de percalços. 100] integrado e evolutivo de constante participação do povo na atividade estatal decidindo. ou motivado por falsas promessas . Isso está a indicar que a verdadeira democracia é muito mais que uma forma nominal de associação política. como aconteceu na América Latina nas últimas décadas do século passado. onde a federação foi totalmente desconsiderada e neutralizada pelo poder central. Em 180 anos de independência e pouco mais de 100 anos de República. No entanto. um dos nossos maiores constitucionalistas. a oportunidade de influir nas grandes tomadas de decisões. Está a indicar que a verdadeira democracia há de ser uma real tentativa de alteração do caráter autoritário e centralizador da sociedade. de modificação do funcionamento do poder. CONSTITUIÇÃO E DEMOCRACIA A visão sociológica da Constituição defendida por Lassalle encontra abundante campo de comprovação em nosso país. relegando-se a plano secundário os poderes Legislativo e Judiciário. Há de ser um processo [p. mais do que um mero ideal escrito no papel ou de simples texto constitucional sem qualquer correspondência com a consciência e a realidade social de cada povo. sem qualquer participação do povo até mesmo na escolha dos seus governantes. no texto de suas respectivas Constituições. tivemos um regime autoritário. apesar de professar a democracia em todas as suas Constituições. solenemente.” Nesse período. tanto a Constituição de 1967. quase todos os Estados declaram. como a emenda de 1969. foram editadas no Brasil nada menos do que oito Constituições. verdadeiro titular do poder. executando a decisão e transformando a realidade.50. No Brasil. simples princípio nominal ou teórico. o comentário famoso de que sociologicamente. o Brasil é um Império. num melancólico estigma de instabilidade por falta de harmonia entre o instrumento formal e o real. entretanto. por exemplo. Tal integração. exige mais que a fria participação do eleitor que comparece às umas apenas para cumprir um dever legal. um dos pilares do Estado Democrático de Direito. na maioria das vezes tal declaração não passa do papel. cortina de fumaça para esconder regimes autoritários. continham a expressiva fórmula de democracia indireta ou representativa: “Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. Desde o século XIX. que a fonte do poder é o povo. Tão marcante é ainda o caráter centralizador e autoritário da organização política e social brasileira. no entanto. que mereceu do saudoso Senador Afonso Arinos. de forma a ensejar ao povo.

que foi o instrumento mais autoritário da história brasileira. por si só. e esta. Características da Constituição Brasileira de 1988 A luta pela normalização democrática no Brasil e pela conquista do Estado de Direito Democrático. e salvaguarda ao indivíduo. porque a democracia é. O voto. interpretando o sentimento da Nação em busca do reequilíbrio da vida nacional. uma prática. É preciso. razoavelmente avançado. o mais destacado representante das forças democráticas bra. veiculadas pelos órgãos de informações que condicionam e manipulam a verdade. mas ainda o poder de ser livre. após o AI-5. Frustrou-se. não só pela rejeição da emenda constitucional da eleição direta. Não pode existir uma democracia por decreto. . após prolongado trabalho e acirrados debates. essa grande esperança. fazer cessar as desigualdades. Essa luta. como também pela morte de Tancredo Neves. embora valioso. sobretudo. todavia. através de um processo realmente democrático. nem às minorias em um Estado democrático. Não é raro que o governante. cumprindo os compromissos democráticos assumidos por Tancredo. simultaneamente. começou assim que se instalou o golpe de 1964 e.eleitoreiras. embora respaldado por milhões de votos. na célebre frase de Luis Blanc. que se manteve contida por quase vinte anos. perdendo a legitimidade inicial. não é somente o direito. contudo.1. especialmente. aprovou um texto moderno. liberdade. tomou as ruas a partir da eleição dos Governadores em 1982 e se intensificou no início de 1984. empolgado pelo fascínio do poder. A liberdade. um ideal. 101] sileiras. neutralizar os desequilíbrios. pois. quando as multidões correram entusiásticas e ordeiras aos comícios em prol da eleição direta para Presidente da República. não garante justiça. afasta-se dos seus compromissos democráticos. 50.[p. a maturação sobre os desdobramentos do processo político e o acesso às informações que embasarão a participação lícita no processo decisório. um projeto e. enviou ao Congresso Nacional a tão esperada emenda constitucional convocando a Assembléia Nacional Constituinte. porquanto só assim será possível impedir que a liberdade produza exatamente a sua negação. que só poderia consubstanciar-se numa nova ordem constitucional que refizesse o pacto-social. realizar a justiça social. por sua vez. A liberdade é consenti da ao homem em sociedade para desenvolver suas energias. e não para esmagar a do seu semelhante. com relevantes inovações para o constitucionalismo brasileiro e até mundial. entretanto. O Presidente José Sarney. Daí por que a integração democrática impõe a consciência e a responsabilidade na escolha.

tais como. nem política e nem administrativa. 153). buscando resgatar o verdadeiro princípio federalista através de um sistema de repartição de competências entre o poder central e os poderes estaduais e municipais. assumiu uma postura liberal. pode-se dizer que a Constituição atual. sem numerário para execução de suas tarefas constitucionais. tanto assim que praticamente inicia-se a Constituição com a consagração desses direitos . valorização do trabalho (art. função social da propriedade. mas principalmente porque se volta decididamente para o cidadão e o social. valorização dos profissionais do ensino etc. na expressão do saudoso Ulysses Guimarães. que ressoam precisamente inócuas. fundamento e fim de toda a atividade pública. igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. padecem do mesmo mal: não passaram do papel. nos arts. objeto. fundamento da atividade estatal. A dignidade da pessoa humana passou a ser princípio fundamental da Constituição (art. 205 e 206. primeiramente. a Constituição de 88 tem inúmeros dispositivos que ainda não passaram da folha de papel. Presidente da Assembléia Nacional Constituinte que a produziu. conferindo maior soma de competências legislativas e administrativas aos Estados e Municípios. 227. § 1°). assistência integral à saúde da criança e do adolescen. 208. 170 e incisos). 6° a 11° -. no dia-a-dia da vida do cidadão. na ordem social. Todas essas normas e muitas outras.Direitos e Deveres Individuais e Coletivos no art. diferentemente da anterior que era centralizadora e autoritária. diferentemente da Carta anterior que tratava desses direitos na sua parte final (art. e Direitos Sociais. atendimento especializado aos portadores de deficiência. educação como direito de todos e dever do Estado. efetivamente. pleno emprego. É a “Constituição Cidadã”. não só os individuais como também os coletivos. I. I. fez renascer a Federação. No respeitante à Organização Político-Administrativa e a Divisão dos Poderes. existência digna. (arts. dandolhes ainda mais recursos tributários. não só porque teve ampla participação em sua elaboração. o que significa que o homem é o centro. não são aplicadas.[p. 102] te (art. sujeito. Não obstante tantos pontos positivos. já que não há verdadeira autonomia. neles incluídos os dos trabalhadores. colocando em destaque o homem e seus direitos fundamentais. 5° e seus setenta e sete incisos. inciso III). Pode-se concluir dizendo que a Constituição de 1988 afastou o federalismo nominal da ordem constitucional anterior. V). ensino fundamental obrigatório e gratuito. justiça social. atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade (art. Praticamente.As inovações se fizeram presentes. III e IV). 1°. .

Marido ia para um lado. tantos foram os casais de união de fato. da Emenda nº 1/69) que considerava o casamento indissolúvel. os cônjuges separados ou desquitados se uniam de fato a outra pessoa. mormente após a Constituição de 1988. ou pelo menos não reconhecida pela lei. em todas as camadas sociais. A Situação da Companheira e dos Filhos Ilegítimos Apesar de a Constituição vedar a dissolução do casamento. Entendia-se que o divórcio destruiria o casamento. mulher para outro. que. estável. inúmeros problemas começaram a surgir no seio da família. hoje chamado de separação judicial. que dissolve apenas a sociedade conjugal. 51. dando origem a novas famílias.2. com filhos. um novo Direito de Família. Muitas vezes essa união ilegal. que a . servindo de instrumento de chantagem emocional. Inicialmente a sociedade tolerava com reservas essas uniões: todo mundo sabia e comentava quando. sem dúvida alguma. 103] Com o correr do tempo. levando de roldão a família. estariam resolvidos todos os problemas que conspiram contra o casamento. Depois. ficando entre eles os filhos. deixando íntegro. compreensão e calor humano. amizade. DIREITO DE FAMÍLIA Em nenhuma outra área do direito houve tão grande evolução como no Direito de Família.1. DIVÓRCIO Havia uma norma em nossa Constituição (art.51. em outras palavras. o vínculo conjugal. como veremos a seguir. formando novo par. 175. dando ensejo ao desfazimento dos lares. havia um casal cujos componentes não eram casados. geralmente os mais prejudicados. num determinado edifício. 51. somente o desquite. Pensava-se. “célula mater” da sociedade. [p. em busca da necessária harmonia entre a realidade social e a lei. Em razão dessa norma não podia haver divórcio no Brasil. tomava-se uma união sólida. entretanto. oriundos das mais variadas causas. Em razão disso. produzindo efeitos patrimoniais para os cônjuges. Tal norma. inúmeros diplomas legislativos foram produzidos nas oficinas do direito. amor. Foram tantas as modificações sociais ocorridas nas últimas décadas que não seria demais afirmar que temos hoje. § 1°. proibindo descasar. objetivava a proteção do casamento e da família legítima.

após o primeiro casamento. e os Estados Unidos. O vínculo matrimonial era indissolúvel. bem constituídas do ponto de vista social. sem quaisquer reservas. a norma constitucional que visava a proteção do casamento. proibir descasar. Há outras causas (sociais. e “deitar em berço esplêndido”. plenamente integradas na sociedade. se não fosse”.sociedade passou a aceitá-los plenamente. Se assim não fosse. As novas uniões passaram a ser normalmente admitidas pelos costumes. assume novas . Filhos e companheira não tinham qualquer direito ou amparo legal. impedia ainda a realização de outros casamentos verdadeiros. eram mantidas à margem da lei. nada pode exigir. para impedir a ruína do casamento. que devem ser pesquisadas e combatidas se se quiser de fato manter o vínculo matrimonial indissolúvel. [p. gerando desigualdades. legítimas mas já destruídas pela separação. fechando os olhos para a realidade. entre os quais o desamparo econômico. estas famílias “ilegais” eram mais úteis e recomendáveis que as primitivas. Só prejudicava. Eram ilegítimas. dar nome à mulher e aos filhos. como se fossem marido e mulher. o indivíduo que se casa outra vez. Do ponto de vista social. É preciso. Muita gente queria regularizar a situação. não é verdade. repetimos. antes do divórcio. não podendo se divorciar. como se sabe. pois. psicológicas. esta. em si. 104] Ficou também evidenciado que a proibição do divórcio só facilitava a irresponsabilidade e estimulava a pilantragem. Havendo divórcio. sem assumir qualquer obrigação alimentar ou de outra natureza econômica para com elas. para constatarmos que não estávamos em melhor situação. A pretexto de proteger um vínculo matrimonial já de fato inexistente. mas continuavam a ser repelidas pela lei. A mulher fica numa situação vexatória. além de não conseguir impedir-lhe a dissolução. conhecer e combater as verdadeiras causas do fracasso matrimonial. mas não podiam. a concubina. A nova realidade social em tomo da família e do casamento evidenciou que não era o divórcio. um homem. repudiada pela lei. Basta fazer uma comparação entre o Brasil. econômicas. Com efeito. culturais) profundas. além das obrigações já assumidas com a primeira família. nada posso fazer. com pais e filhos vivendo em harmonia e felicidade. ilegais. afetivas. a situação da família no país onde não há divórcio seria muito melhor do que em outro onde há. e isto. Não basta. Aqueles eram considerados filhos ilegítimos ou mesmo adulterinos. ressentimentos e outros graves problemas sociais. a lei repudiava famílias bem constituídas. estendendo-lhes proteção legal. Em síntese. o responsável pela destruição do casamento. como se fez em nosso País. Inúmeras famílias. pois o homem com o qual vive está sempre a dizer: “Sou casado. une-se tantas vezes quantas puder com outras mulheres.

entretanto. foi promulgado o Dec. isto é. para a qual o casamento é uma instituição divina. permitindo o reconhecimento dos filhos de desquitados havidos fora do matrimônio. há muito teria introduzido o divórcio na legislação. 30. embora extinto o vínculo conjugal. como a morte de um dos cônjuges.-Lei n° 4. não ocorreu em virtude da pressão exerci da pela Igreja. arruinados. Se o nosso legislador atentasse para a realidade social. Além de não proteger a família legítima. há milhares de casais unidos pelo casamento há 20. de 27 de setembro de 1942. . sem solução. sagrada e impassível de ser desfeita pelo homem. mas sim remédio. Somente com a Lei na 883. um dogma religioso. 50 anos e que nunca pensaram em se divorciar. não precisa de remédio. prejudicava as famílias ilegítimas. O fato de existir o divórcio não quer dizer que todos vão se divorciar. Mas o aludido decreto-lei não satisfez. sem qualquer utilidade prática ou social. Primeiramente. Mesmo nos países divorcistas. o que equivale dizer que até então tais filhos não podiam ser registrados em nome de seu verdadeiro pai. dele só faz uso quem precisa.obrigações legais também com a segunda.737. Não se referia ele às outras causas de terminação da sociedade conjugal. 105] genitor.3. não impedia o fracasso do casamento mas impedia a regularização das novas uniões. é que se tomou possível o reconhecimento de filhos havidos fora do matrimônio após a dissolução da sociedade conjugal por desquite. Mas como qualquer remédio. de modo que. lícito não era promover o reconhecimento do filho havido extramatrimônio. Tal. solução extrema para casamentos já desfeitos. de 21 de outubro de 1949. Soluções Legais Paliativas antes do Divórcio Houve uma sucessão de leis permitindo o reconhecimento dos filhos ilegítimos em certas circunstâncias. porquanto só possibilitava reconhecimento de filho havido fora do matrimônio depois do desquite do [p. Evidenciado igualmente ficou que o divórcio não é causa da ruína do casamento. ou mãe. simplesmente porque o casamento deles não está doente. morte de um dos cônjuges ou anulação do casamento. precisando ser muito forte economicamente para chegar à terceira família. panacéia. mesmo que desquitado. a conclusão lógica era que a indissolubilidade do vínculo matrimonial não passava de mera ficção jurídica. 51. Em face de tudo isso. só por divorciar-se. quem está doente.

515. ou depois de dois anos de comprovada separação de fato (art.Lei na 7. 226. . ora a título de indenização.4. a Lei na 6. § 6°). de 28 de junho de 1977. Lei na 4.1973) permitiu o uso dos apelidos do amásio pela companheira.036/44). 106] coragem para tanto.Nesse ínterim. ora com base na sociedade de fato. havidos ou não da relação do casamento.Lei na 7. proibindo a designação de filiação legítima ou ilegítima. desde que haja prévia separação judicial por mais de três anos. Mais recentemente. da companheira e dos filhos ilegítimos.” Como se vê. a Constituição de 88 encontrou uma base social para fazer as mudanças necessárias e o constituinte teve [p. a saber: a) reduziu o prazo do divórcio de três anos de prévia separação para apenas um. bem como à indenização por acidente de trabalho (Dec. Esses.12. passou a dispor: “O casamento poderá ser dissolvido. 51. de 26 de dezembro de 1977. tempo mais que suficiente para revelar se a separação é ou não definitiva. c) igualou para todos os efeitos (herança.5. e as peripécias sociais pelas quais passamos até que o dogma ou ficção fosse destruído pela Emenda Constitucional nº 9. reconhecimento) os direitos e qualificações dos filhos. 51.015. nos casos expressos em lei. conhecida por Lei do Divórcio. determinando à lei facilitar a sua conversão em casamento (art. Posteriormente. de 31. A Situação da Companheira e dos Filhos após a Constituição de 88 Após mais de meio século de lenta evolução da questão do divórcio.069/62). bem como quaisquer outras designações discriminatórias relativas à filiação (art. b) reconheceu a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar. 175 da Constituição Federal. A Introdução do Divórcio na Legislação Brasileira O divórcio tomou-se permitido através da Emenda Constitucional nº 9. os efeitos negativos produzidos pela norma constitucional que considerava indissolúvel o vínculo matrimonial. a Lei de Registros Públicos (Lei na 6. em síntese. regulou os casos de dissolução da sociedade conjugal. alterando o § 1 ° do art. a jurisprudência fez verdadeiros malabarismos para reconhecer alguns direitos patrimoniais à concubina. § 3°). § 6°). alimentos. foi cauteloso o legislador ao permitir o divórcio após prévia separação judicial por mais de três anos. que.485/45. até que a própria lei passou a atribuir-lhe direito à pensão previdenciária (Dec. 226. 226.

sustento e educação dos filhos. respeito e assistência e de guarda. o filho havido fora do matrimônio. estabe1ecida com o objetivo de constituição de família (art.278/96. ao tratar da união estável nos seus artigos 1. que diz: “Os filhos.560/92) que ampliou ainda mais as hipóteses de reconhecimento voluntário e de investigação de paternidade. 2° e 3°.Importa dizer que. até então designado de filho adulterino. de 10. concedeu-lhe direito a alimentos. a nova Lei de Investigação de Paternidade (Lei n° 8. são considerados fruto do trabalho e da colaboração comum. O novo Código Civil.” Em relação à companheira. Por último. ou por adoção. não mais subsistindo as limitações anteriores.278/96: “As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade. a Lei nº 9. e prove a necessidade.278. no que andou bem. na constância da união estável e a título oneroso. finalmente. como não poderia deixar de ser. divorciado ou viúvo.1996.723 a 1.971. enquanto viver e não constituir nova união ou casamento. Mantém a lei (art. manteve a mesma disciplina da Lei n° 9. pública e contínua.12. regulamentou o § 3° do art. de 29. voluntária ou coativamente.727. ou dele tenha prole.05. assegurando-lhe também o direito real [p. 5°).união estável .12.reconhecendo como entidade familiar a convivência duradoura. Conferiu-lhe também o direito de participar na sucessão do companheiro (herança) nas condições previstas nos seus arts. em 29. a Lei nº 8.1994. Sobreveio.1992. . 7°) o direito a alimentos ao convivente que deles necessitar uma vez dissolvida a união estável. pois aquela lei consolidou um longo trabalho doutrinário e jurisprudencial. 1. O artigo 1.725). salvo estipulação contrária em contrato escrito (art. havidos ou não da relação de casamento. 226 da Constituição Federal . comunhão dos bens adquiridos depois da união. conferindo inclusive ao Ministério Público legitimidade para propor a respectiva ação. Os bens móveis e imóveis adquiridos por ambos os conviventes. relativamente ao imóvel destinado à residência da família. desde que conviva há mais de cinco anos com o homem solteiro. de um homem e uma mulher.” Salvo contrato escrito entre os companheiros. o regime da comunhão parcial de bens (art. vale dizer. tem o direito subjetivo de ser reconhecido. separado judicialmente. passando a pertencer a ambos. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. terão os mesmos direitos e qualificações. na união estável aplica-se às relações patrimoniais. 107] de habilitação. após a Constituição de 88. manteve a mesma disciplina no seu artigo 1.596.724 praticamente repete o artigo 2° da Lei n° 9. O novo Código Civil. 1°). no que couber. em condomínio e em partes iguais.

DIREITO PENAL O Direito Penal é muito sensível às questões sociais. 108] sexual é família autônoma e distinta da união estável. A Dinamarca.897-MG. crise de moradia.6. só após. Sustentam não ser possível fechar os olhos para a realidade .151/95). 93/1 02). julgado em 10. há vozes respeitáveis fulcradas no Estado Democrático de Direito e nos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana. No Brasil temos apenas um Projeto de Lei (nº 1. O que a Justiça tem admitido é a sociedade de fato para fins patrimoniais. a relação estável homossexual deverá seguir os caminhos já traçados pela entidade familiar estável. o Superior Tribunal de Justiça decidiu que “os homossexuais constituem sociedade de fato a ensejar partilha do bem comum”. de autoria da exDeputada Federal Marta Suplicy. pobreza. primeira iniciativa no sentido de sensibilizar nossos legisladores para o problema que afeta não só os que o vivenciam. favelização. a Suécia e a Noruega já dispõem de leis que regulamentam a união homossexual. No entender do Professor Luiz Edson Fachin.02. Tanto o § 3°. entretanto.o grande número de ações que são distribuídas aos Juízos de Família pretendendo reconhecer ou dissolver uniões homossexuais.723 do novo Código Civil. como o artigo 1. razão pela qual o entendimento majoritário. não reconhece na união de homossexuais a categoria de união estável. pp. União de Pessoas do Mesmo Sexo É indispensável a diversidade de sexo para a configuração da união estável? Essa é a questão que remanesce e que ainda é bastante polêmica. com individualidade e identidade próprias. do artigo 226 da Constituição. são de clareza solar. Aduzem que a família homos. passará a ter reconhecimento jurídico” (Elementos Críticos do Direito de Família.1998. Tudo ou quase tudo acaba nele repercutindo: explosão demográfica.51. que pretende instituir a parceria civil. a oxigenar o nosso sistema legislativo. da igualdade e da sociedade com respeito ao pluralismo típico deste Estado de Direito. mediante reiterado posicionamento jurisprudencial em seu prol. Reconhecem a união estável apenas entre homem e mulher. do qual foi relator o Ministro Ruy Rosado de Aguiar. No Recurso Especial n° l48. Renovar. Em sentido contrário. regular posse e guarda de crianças etc.[p. tanto na doutrina como na jurisprudência. ainda não apreciado pelo Congresso Nacional. passando inicialmente pelo reconhecimento como sociedade de fato e. 52. mas também os operadores do direito que militam nas Varas de Família. ausência de .

12. ao mesmo tempo em que berrava para a polícia parar de atirar. Em relato dramático ao Globo (04. que atinge qualquer família ou qualquer cidadão a qualquer momento de sua vida. ficou. Renomado diretor de TV no Rio de Janeiro. 18.2004).01.educação. Quais são as causas dessa violência. por mais de duas horas sob a mira de revólveres de três jovens drogados.” 53.2003 ao raiar do sol. 9% mudar toda a polícia. camarins.2000). escolas.. a uma cidade que um dia será maravilhosa. Acostumado à ficção. juntamente com a sua família e mais oito amigos. “Já não é mais possível viver nesta cidade exposta a essa vergonhosa violência. 21% aumentar a remuneração dos policiais. 36% melhorar o treinamento da polícia. A falta de segurança. o renomado diretor diz ter construído uma casa com salas de ensaios. c) 57% têm medo de assalto na rua. onde não precisaremos continuar fingindo que estamos dormindo. por exemplo. fraude e assim por diante. b) um em cada três revela se sentir inseguro ou muito inseguro dentro da própria casa.. ele se viu dirigindo uma cena da vida real. . estúdios onde inúmeras montagens seriam ensaiadas e produzidas. gerando sentimento de insegurança [p. os resultados foram os seguintes: 38% aumentar o número de policiais. Mas agora era obrigado a dela sair violentado. que efeitos produz? Pesquisa feita pelo IBOPE em junho de 2000 nos municípios do Grande Rio. 12% selecionar melhor os policiais. Sobre o que precisa ser feito. 3% investir mais no social (O Globo. ao ter a sua casa assaltada no dia 29. em ônibus 35%.06. hospitais e o comércio em geral. Nunca os assaltantes agiram com tanta ousadia e desenvoltura como na última década. é fato público e notório. apurou o seguinte: a) 81 % dos moradores afirmaram j á ter sofrido algum assalto ou tiveram alguém da família assaltado. na realidade atingiu patamares vergonhosos e insuportáveis. moradias. tendo que mudar os seus sonhos e de sua família por motivo de assaltos múltiplos. figura em primeiro lugar em todas as pesquisas. quem a promove. VIOLÊNCIA URBANA E PODER PARALELO A violência urbana. 109] generalizado e sem precedentes. ao persuadir os bandidos a tomá-lo como escudo. que atinge cidadãos. corrupção. 10% geração de empregos. no lugar de uma das amigas de sua filha. nem dentro de um filme sem final feliz. 6% criação de programas sociais. Entrego essa casa a um sonho de futuro. 8% investimento em educação.

interdição da Avenida Brasil e Linha Vermelha por bandidos. A entrevista do Governador de São Paulo merece apenas um reparo. No comando dela está o crime organizado. O Governador de São Paulo. ledo engano.2002). adultos e crianças. E prioridade é recurso. anomia (ausência de leis). Segundo. já é degradação. porque ela não é promovida pelos pobres. Primeiro. “tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes”. quadrilhas de traficantes de tóxicos e armas que. A falta de prioridade não é apenas do governo atual. muito menos pelos favelados. era de se esperar medidas governamentais fortes e emergenciais. remuneração dos policiais e aumento dos seus efetivos. Isso que o povo sabe e denuncia há muitos anos. após ter o Rio de Janeiro passado por queima de ônibus. uma situação como a atual nas favelas do Rio. na ausência do estado. que hoje não funciona” (O Globo. Há o arbítrio” (O Globo. mas sim a omissão do Estado (União. Em junho de 2002. O combate à violência urbana não depende de medidas sociais. o então Presidente da República aqui esteve e afirmou na abertura da IV Semana Nacional Antidrogas: [p. 04. senão é só boa intenção. o que não está acontecendo com o governo atual. rajadas de metralhadoras em prédios públicos.01. Após tão firme pronunciamento. trabalhadores e donas-de-casa. . Geraldo Alkmin. desempregados.2004). A grande contribuição que se poderia dar para resolver a insegurança nas cidades é disponibilizar recursos para a melhoria da área de tecnologia da polícia. a falta de moradia ou de investimento na educação. quando o Estado não existe é preciso repor porque senão não há cidadania. só agora tem sido admitido pelas nossas autoridades. mas. a crise de insegurança é geral. mas também de vários anteriores e envolve também os governos estaduais e municipais. declarou em entrevista: “A política de combate à violência no Brasil não dá resultados concretos porque falta ao governo federal tratar o assunto como prioridade. atingindo pobres e ricos.06. a fome. Estados e Municípios) na seleção. a pobreza. a causa dessa violência urbana não é a miséria. E a organização é tão forte que a realidade demonstrou que alguns chefões continuam no comando mesmo depois de presos. a ponto de levar um membro do Judiciário a declarar que ali o estado não existe. 110] “O Estado tem que recuperar os espaços eventualmente perdidos para o crime organizado.Os resultados dessa pesquisa não surpreendem. 20. treinamento. apenas confirmam o que todo mundo já sabia. ocuparam os espaços deixados e formaram verdadeiro poder paralelo. conforme demonstrou a pesquisa do IBOPE.

Como surgiu esse poder paralelo e como atua? As suas raízes são sólidas e profundas. E o resultado foi considerado razoável. Isso tudo ainda garantia bons rendimentos para a polícia.que predominou na polícia do Rio o pragmatismo dos “realistas”. Com uma polícia de poucos recursos. O acordo evitava também incursões da polícia no morro. mas podia ter a sua nocividade limitada ao território do morro e à pequena parte da sociedade do asfalto que queria consumir drogas (e bem podia ter essa liberdade tolerada).um quarto de século . O tráfico cresceu e ganhou status de negócio. valeria mais. delimitaram-se dois territórios de ação e população distintos: o “morro” do tráfico e do povão e o “asfalto” onde vive a população que merecia ser protegida pela polícia. obtendo dele. contribuições para entidades filantrópicas. Assim. semioficialmente. a polícia obtinha a colaboração do tráfico na preservação da paz no asfalto. Por muitas vezes o tráfico promoveu ações no “asfalto” para arranjar dinheiro em momentos difíceis. E em ambos os casos havia uma racionalidade: o jogo do bicho não chegava a ser crime. ligando-o a grupos de seqüestro e de assalto. de baixo efetivo e sem equipamento adequado. Houve até um governador que chegou a institucionalizar o “bicho”. Faz pelo menos 25 anos . tanto que muita gente. fazer um acordo com o tráfico de drogas e concentrar a atenção e as forças no combate à criminalidade comum. com o acordo. com boas razões. Era um acerto informal semelhante ao que houve também com o jogo do bicho. conforme relato do Senador Roberto Saturnino Braga em artigo no Globo. manchando a imagem do governo e tirando votos do eleitorado que era crescente no morro. que sempre participou dos resultados financeiros de uma atividade extremamente lucrativa. recomendava sua legalização. pelas autoridades responsáveis e pela média da opinião da cidade. que freqüentemente terminavam em abuso e violência.“nós não subimos lá e vocês não descem cá”. Essa divisão facilitava muito o cumprimento da cláusula fundamental . especialmente nas imediações do morro. na realidade assustadoras. 111] mal a ninguém. era uma contravenção que na verdade não fazia [p. que só passou a se preocupar com a questão quando o cenário foi mudando de figura. O acordo funcionou durante décadas. exigiu um comando mais severo dos traficantes sobre a comunidade do “morro”. para evitar deslealdades dentro dos grupos. O tráfico não era tão inocente quanto o bicho. guerras particulares de gangues pelo controle dos pontos de maior lucratividade e investimentos muito maiores em armamentos eficazes para sustentar essa guerra. promoveu atos de crueldade que chocavam as populações do . prossegue o Senador em seu relato. mesmo contra a lei. suscitando disputas armadas. Além disso. era a loteria dos pobres. onde o tráfico era rigoroso na contenção do crime. em termos de resultados práticos.

112] bir o morro ou penetrar em certas favelas sem autorização dos chefões do bando. o tráfico executou cerca de cem líderes comunitários. 4. outros trezentos diretores de associações tiveram que abandonar as favelas para não serem mortos. E produziu choques e episódios freqüentes de enfrentamento com a polícia. da DERJ. O jornalista Tim Lopes. Ninguém pode su. no período de outubro de 2000 a setembro de 2002. Seis ônibus foram incendiados pelos moradores da Favela Vila Cruzeiro. que estuda a relação do tráfico com as comunidades. o Rio perdeu. Esta. Em 32 bairros do Rio os traficantes escolhem dia e hora para fechar escolas. Esse mapeamento já é conhecido da população há muitos anos. estabelecimentos comerciais e industriais. Ele . e se constituiu um inimigo cujo enfrentamento era cada vez mais difícil e desgastante para a polícia. fez constatações alarmantes. onde foi torturado e morto o jornalista Tim Lopes. na Penha. muito mais que o da polícia. Em 13 de abril de 2003 O Globo publicou a relação das áreas mais afetadas pelo poder paralelo.06. já quase completamente envolvida na participação dos lucros e cada vez mais ávida de ganhos naquele negócio que crescia incontrolavelmente. que criou suas áreas de exclusão.223 lojas. até universidades. Para o sociólogo Geraldo Tadeu. Conclui o Senador. Tal é a força desse poder paralelo que os moradores das favelas onde ele atua fazem manifestação contra a ação policial sempre que um traficante é morto. bairros inteiros estão sendo esvaziados com a saída de indústrias e estabelecimentos comerciais por causa da violência e da degradação urbana. 20. De acordo com o Instituto Fecomércio.[p. sem recursos. 20.01. mais de quatrocentos dirigentes de entidades se associaram a bandidos (O Globo. Levantamento feito pela Comissão Contra a Violência e a Impunidade da Assembléia Legislativa do Estado do Rio. Hoje. revoltados com policiais do 16° BPM (Olaria). Mas era tarde: o poderio do tráfico tinha aumentado muito além do imaginado. não sendo suficiente para enfrentá-lo a mera “criação de um Gabinete de Gestão Integrada do Sudeste e o mapeamento das quadrilhas que atuam nos morros”. por descumprir essa regra. perdia uma grande quantidade de homens e se desmoralizava numa guerra que não tinha respaldo efetivo e decidido da cúpula dirigente.“morro” e do “asfalto”. conforme anunciado pelo atual Secretário Nacional de Segurança (O Globo. o envolvimento de líderes comunitários com traficantes passou a ser regra.2002).06. 02. acusados de matar dois traficantes (O Globo. foi torturado e morto. onde os pragmáticos continuavam dando as ordens na linha do acordo que se deteriorava. postos de saúde.2002). Surgiu então na cidade o crescente grito de “basta!”. Até o salvo-conduto para os ônibus circularem é dado pelo tráfico. Entre 1992 e 2001.2004). esse poder paralelo é mais forte do que admitem as autoridades policiais.

06. que o Estado adote ações estratégicas de médio e longo prazos (O Globo. alegando que o poder público limitou a sua presença nas favelas à repressão. por isso mesmo. A estrutura geral de nosso direito punitivo. Os traficantes ocuparam esses espaços. em todos os . Eles têm um sistema previdenciário paralelo. planejada e duradoura. O sociólogo justifica ainda a influência do tráfico nas comunidades. encontramse acima da lei. Ela se distingue da criminalidade convencional pelo fato de ser integrada por pessoas de alta classe e respeitabilidade. dão dinheiro. É ação direta de um poder paralelo que [p. com gerentes. as comunidades não têm como reagir sem uma intervenção do Poder Público. o Direito Penal tem sido um amargo privilégio dos pobres e desfavorecidos. nem por crianças desnutridas e sem escola. miséria ou falta de instrução. que povoam nossas prisões horríveis e constituem a clientela do sistema. 113] nasceu e cresceu com a tolerância. Têm ainda um sistema de segurança complexo. Não é possível combatê-lo com medidas paleativas e demagógicas como as que estão sendo anunciadas. É o grande poder paralelo. há igrejas. Conclui-se do exposto que a violência urbana não é uma conseqüência da pobreza. associações e ONGs.explica que com o tempo ocorreu um processo de subordinação dessas associações. armas não são fabricadas por favelados. Entre nós. CRIMINALIDADE DE COLARINHO-BRANCO (WHITE COLLAR CRIME) Trata-se de uma categoria não convencional de crimes e criminosos. 54. É preciso disposição política das três esferas de poder federal. de sorte que sem uma ação integrada da União. até mesmo do país. estadual e municipal. Nas favelas. Tudo vem de fora. O sociólogo defende. pelo menos omissão. com absoluta propriedade. Combater a violência urbana de forma pontual e isolada é o mesmo que tentar matar a árvore só arrancando as folhas. Estados e Municípios. Têm também um sistema tributário paralelo e cobram impostos dos comerciantes. como bem assentou o saudoso Professor Heleno Fragoso (relatório apresentado na Reunião da Comissão Internacional de Juristas da ONU). “vapores” e “soldados”. cestas básicas. nem são ali industrializadas. a partir do crescimento exacerbado do tráfico como poder militar e econômico no âmbito dessas comunidades. muito menos da segurança que todos almejamos. do Poder Público. mas o tráfico tem mais estrutura. tão pouco decorre da falta de leis ou da atuação do Judiciário.2002). 20. Para Geraldo Tadeu. não haverá reconquista dos espaços perdidos. Drogas não nascem nos morros. detentoras de poder político ou econômico. que.

visto que. destacar os fatos que acarretam: a) danos contra a vida e a saúde da coletividade. Em relação à força de trabalho. Mas o pior de tudo é que ficam impunes os seus autores. realizam extenso projeto de pesquisa sobre a criminalidade de colarinho-branco na América Latina. entre as quais o Instituto de Ciências Penais do Rio de Janeiro. Os fatos anti-sociais que acarretam danos à vida ou à saúde da coletividade. às elites dirigentes (econômica. [p. segundo o mesmo Professor Fragoso. podem ser aqui colocados: a) abusos praticados em relação à força de trabalho. c) produção industrial imprópria ou defeituosa. b) exploração predatória dos recursos naturais. O Centro Internacional de Criminologia Comparada da Universidade de Montreal. Em razão dessas pesquisas. podemos considerar: . atingindo em regra a coletividade. em conjunto com o Instituto de Criminologia da Universidade del Zulia. 114] c) O dano causado pela ação é extenso e considerável. que dela se livram com facilidade pela corrupção e pelo tráfico de influências. são capazes de abalar a própria estrutura econômica ou política do país. e outras instituições de pesquisa do continente americano. financeira ou política) da formação social. pode-se destacar que os fatos que constituem tal criminalidade apresentam as seguintes características: a) os autores pertencem. além de atingirem a coletividade. Não sendo possível a enumeração exaustiva das ações anti-sociais que caracterizam os crimes de colarinho-branco. podemos. em Maracaibo (Venezuela). b) danos contra o patrimônio da coletividade. todavia. b) o fato anti-social é praticado no exercício da atividade. ou o patrimônio de indeterminado número de pessoas. Pela extensão dos resultados.seus mecanismos de aplicação. segundo o Professor Fragoso. c) danos contra o patrimônio estatal da coletividade. tornando puramente ilusória a igualdade proclamada nos documentos políticos. como já se disse. tais crimes são muito mais graves do que o furto e o roubo que punimos com tanta severidade. deixa inteiramente acima da lei os que têm poder econômico ou político. nada lhes acontecendo.

projetos da indústria automobilística que desatendem. A exploração predatória dos recursos naturais apresenta-se através da destruição do ambiente vital produzido pelo trabalho milenar da natureza. 3) condições de insegurança ou de fadiga excessiva. contendo elementos químicos altamente nocivos à saúde etc. como propõe a ideologia dominante. ou alternativamente. e não o preço do progresso. Temos ainda toda a sorte de fraudes e manipulações no mercado de ações. criando desertos e provocando secas). A exploração desordenada conduz à destruição do ambiente vital (exaustão e erosão do solo. como através de outros produtos (e. produzindo quebras que afetam amplos segmentos da coletividade de investidores (além de outros setores das classes dominantes). em qualquer de seus aspectos. com efeitos negativos idênticos. . pela imposição de ritmos excessivos de trabalho e tarefas monótonas e embrutecedoras (produzindo doenças ou lesões ocupacionais).1) a redução do trabalhador à condição subumana pelos salários incapazes de repor as energias consumidas no trabalho. constitui débito social ilegítimo do processo industrial.g. produtos alimentícios de primeira necessidade. Danos ao patrimônio da coletividade apresentam-se através de métodos irregulares e fraudulentos de enriquecimento.[p. bem como a propaganda fraudulenta que causa dano ao patrimônio de indeterminado número de consumidores. a exigência da segurança). que eliminam insetos e microorganismos necessários ao equilíbrio ecológico e intoxicam o consumidor. seja pela poluição. por imposições do mercado. provocando injeções maciças de dinheiros públicos (créditos e financiamentos) ou encampações oficiais. medicamentos prejudiciais ao organismo. como acontece no Brasil.. A poluição. inclu. 115] sive com o emprego de produtos químicos.. como o pão. Temos aqui a administração ruinosa de determinadas empresas. e desflorestamento sistemático. não só no que tange aos produtos alimentícios ou medicinais. 2) exaurimento físico e mental do trabalhador. em especial as ligadas ao mercado financeiro. inclusive através da exploração de trabalhadores rurais (bóias-frias) empregados na lavoura na época das colheitas. lesados também freqüentemente no peso e quantidade de mercadorias comercializadas. A produção industrial imprópria ou defeituosa atinge a vida ou a saúde da coletividade. consoante constantes denúncias feitas ultimamente pela imprensa. seja pela exploração desordenada. causando mortes e acidentes.

Tem alguns pontos em comum com a criminalidade do colarinho branco. como. eliminando a concorrência de grupos nacionais e fazendo com que seja entregue a estrangeiros o controle de áreas essenciais da economia da nação. basicamente. que se pratica através de balanços fictícios e subfaturamento. envolvendo a prática de ilícitos sofisticados em que a vítima é a coletividade (os danos são difusos). A MACRODELINQÜÊNCIA Essa expressão é modernamente utilizada para indicar o crime organizado. fraudes com transferências bancárias. bem ilustra este ponto. fraude no mercado acionário e de câmbio. falsificação de moeda e títulos da dívida pública. viciando [p. que abusam do poder econômico. esses delitos são praticados com o emprego da moderna tecnologia e decorrem. ligada à concessão de favores ou privilégios especiais. mas seus efeitos atingem a coletividade também. É certo que algumas práticas são diretamente lesivas a outros grupos dominantes. valendo-se com . do uso abusivo de instrumentos da economia. 116] concorrências e superfaturando os preços. o que faz crescer o sentimento de impunidade para os que não são pobres. por exemplo. sequer dispomos de recursos técnicos para a sua rápida e eficiente apuração. Danos ao patrimônio estatal da coletividade podemos identificar na evasão de impostos.Finalmente. lesivos por vezes aos interesses vitais e estratégicos da coletividade. O estouro de vários bancos de alguns anos para cá. A corrupção surge também na celebração de contratos públicos. ou da própria integridade nacional. De difícil detecção. as manobras mais variadas que visam proporcionar a alta de preços de gêneros ou bens de consumo essenciais. causando bilhões de prejuízo aos cofres públicos e particulares. 55. Lamentavelmente. alguns deles dirigidos por altas personalidades de nosso cenário político e econômico. podendo ser identificada pelas seguintes características: a) abuso de poder econômico e político. produzindo lesão incomparavelmente maior do que a representada pela criminalidade contra o patrimônio convencional. Igualmente a corrupção administrativa de alto nível. lavagem de dinheiro obtido ilicitamente. Poder-se-ia também mencionar aqui a ação predatória da economia nacional praticada através de empresas transnacionais. a nossa legislação penal ainda é deficiente na configuração e punição dessa criminalidade chamada de colarinho-branco.

por sua vez. . pois costuma apoiar-se em atividades legais que lhe dão cobertura tática para os negócios ilícitos. o legislador teria que ter profundo conhecimento da realidade econômica e estar permanentemente atento para prever as possíveis mutações de seus mecanismos. ela já não mais se encontra no patamar que se pretendia regulamentar. em constante consonância com as mudanças dos mecanismos econômicos e para dificultar a identificação das operações ilícitas. inclusive o estudo de casos.constância do uso indevido de informações privilegiadas a título de consultoria. Outra dificuldade no combate da macrocriminalidade resulta do fato de conseguirem os criminosos adaptar-se rapidamente às constantes mudanças da economia. Os criminosos utilizam países de acordo com os seus interesses e as facilidades que neles encontram. devemos nos conscientizar: enquanto tivermos crimes e criminosos acima da lei. por outro. A estrutura política e econômica existente está de tal forma montada que oculta e protege essa criminalidade dourada. por um lado em razão da sofisticação dos meios usados aliada a estrutura e. De uma coisa. f) impunidade dos autores. condições de vida subumanas. d) condutas criminosas transnacionais. c) reveste-se de uma aparência de legalidade absoluta. Enquanto isso não acontecer. entretanto.[p. Quanto às medidas a serem adotadas. onde o dinheiro ilícito entra e sai com facilidade. Para elaborar leis eficazes nesta área da criminalidade. A transnacionalização é uma das maiores dificuldades no combate à macrocriminalidade. o que não acontece com o legislador e as leis. pela falta de leis penais adequadas. Quando o legislador vai trabalhar em cima da realidade econômica. crises econômicas. causas principais. Estão entre os países preferidos os chamados paraísos fiscais. de modo que pouco ainda sabemos a seu respeito. e) mutabilidade na forma de operar-se. É a macrocriminalidade que provoca desníveis sociais. sem nunca chegar-se às causas. pois o Direito Penal e a atuação da polícia são limitados pelo princípio da territorialidade e da sobera. com o estabelecimento de uma ordem social mais justa e democrática. aumentos incontroláveis de preços. b) requer alta especialização profissional e completo domínio operacional dos meios tecnológicos para a sua execução. deverão abranger desde a completa reforma da estrutura política e econômica do país. devendo ser utilizadas as técnicas de pesquisa sociológica aperfeiçoadas pela experiência. onde as ações examinadas deveriam ser tipificadas como crimes sujeitos a graves penas. Impõese assim a recomendação de ampla pesquisa. 117] nia dos Estados. elevação da inflação. de nada adiantará a repressão à criminalidade convencional. até a reformulação da legislação penal. o combate ficará circunscrito aos sintomas. da criminalidade comum.

pelo fato de serem crimes fora do alcance da polícia.1990. deveriam ser dele excluídos. é o que ofende aquilo que a norma jurídica quer proteger.O crime do colarinho-branco. 130. que resguarda o bem comum. Um policial não está suficientemente aparelhado para entrar nos meandros de um crime cometido na especulação na bolsa de valores. Quando quiserem combater esse tipo de crime não haverá mais condições. a casa de prostituição na modalidade de manter lugar . portanto.492. Não tem o conhecimento básico para combater os crimes do colarinho-branco. o crime de perigo de contágio venéreo. Os tipos penais abertos. CONSIDERAÇÕES GERAIS Inúmeros outros fatos. previsto no art. No caso dos crimes do colarinho-branco. na hora de entrar nos escritórios refrigerados do 18° andar da Avenida Rio Branco ou num gabinete atapetado na Avenida Paulista. de 16. como também pela imprecisão dos seus tipos. Estourar um ponto do jogo do bicho. mas. Ademais. 118] indagado sobre qual o crime que dará mais trabalho para a polícia brasileira.12. Não conseguimos. por exemplo.137. criam confusão e concorrem para a impunidade. por não mais serem aplicados. viola-se a norma que protege a sociedade como um todo. Assim. então Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro. de 27. não só pelas penas extremamente brandas nelas previstas. É um problema grave por esse ângulo e. que permitem várias interpretações. prender o Miltinho do Dendê são ações que não causam nenhum tipo de problema. a lavagem de dinheiro. que define os crimes contra a Ordem Tributária Econômica e as Relações de Consumo -. em novembro de 1995. para a sociedade.Lei n° 7.1986.Como assim? LUZ . [p. 56. que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e Lei nº 8. a coisa complica”. Além disso.06. essas leis não têm alcançado os objetivos desejados. por definição.” VEJA . os engravatados não são considerados marginais. Mas. Crime. Em entrevista concedida à revista Veja. respondeu: “LUZ . alcançar essa turma. Há no Código Penal. há o fato de que. como já foi assinalado. poderiam ser mencionados. que é a arrecadação do Estado. vários artigos que. merecedores de melhor disciplina penal.É verdade que já temos uma legislação que pune os crimes econômicos . a nossa polícia não está aparelhada e nem especializada para investigar tal tipo de criminalidade. perseguir um integrante do Comando Vermelho. lamentavelmente. o Delegado Hélio Tavares Luz. a sonegação fiscal.“A polícia tem um problema de formação. também.

todos sabem disso. previsto no art. 57. 217) e o aborto (art. o adultério. procurando os mais variados meios para fugir ao seu império. Assinale-se por último que novos fatos sociais necessitam ser tipificados como crimes. 234 . vulgarmente chamada de grampo. por seu turno.motéis. são algumas das questões a merecer pesquisa acurada da Sociologia Jurídica. Por outro lado. deve persistir? Até quando vamos manter os nossos presídios como escolas de marginais e de revoltados? Para fazer da pena um instrumento de reeducação e prevenção social é necessária uma radical reforma penitenciária. embora tipificado como crime. de Miranda Rosa (Sociologia do Direito. principalmente as repercussões que provocam na opinião pública. Embora todos estejam de acordo quanto à necessidade de pagar tributos como forma de custear os serviços públicos . trata-se de uma norma amplamente transgredida. 240. Por razões que precisam ser estudadas. há uma resistência permanente por parte dos contribuintes quanto a pagar efetivamente os tributos exigidos pelos órgãos legiferantes. A. A escuta telefônica. chegou até o Palácio do Planalto. pp. Entre nós. art. observa F. como a violação da intimidade com instrumentos e aparelhos eletrônicos. 124). Este último já se encontra legalizado em vários países. educação. saúde. 118119). Tomemos para exemplo o caso do imposto de renda. há uma grande distância entre a eficácia teórica e a real das leis fiscais em geral. ultraje público ao pudor na modalidade prevista no art. DIREITO FINANCEIRO E TRIBUTÁRIO Os efeitos sociais das leis que disciplinam o regime das finanças públicas e privadas. Existem ainda outras questões que estão a exigir estudo aprofundado e urgente definição do legislador: a maconha deve ser descriminada? Como [p. existindo até mesmo clínicas especializadas em aborto.escrito.estradas. tal a ousadia dos seus praticantes. No . que tantos efeitos negativos produz. nada há mais justo que cada um contribuir para as necessidades públicas proporcionalmente às suas rendas. escudados na impunidade. 119] explicar o seu uso nas praias? A proibição do jogo do bicho. como a sedução (art.para fins de encontros libidinosos . Em tese. há artigos cuja permanência no Código é discutível por várias razões sociais. transportes. É inadmissível que alguém fotografe uma pessoa famosa em sua intimidade e venda impunemente essa fotografia à imprensa para obter ganho fácil. bem como das leis tributárias em geral. 229. objeto ou espetáculo obsceno.

mais do que em qualquer outro. caberia à autoridade competente esclarecer a opinião pública quanto ao que foi feito com o dinheiro público . que em nosso País a maior incidência do imposto de renda ocorre sobre os assalariados. Pode acontecer também de não estar o público suficientemente esclarecido quanto às finalidades dos tributos. entre a eficácia pretendida com relação às leis tributárias e sua aplicação real. o que visam realizar. Sem dúvida. pessoas respeitáveis vangloriam-se de terem conseguido burlar o imposto de renda em vultosas quantias. . Neste caso. industriais etc. por exemplo. Provavelmente. O esclarecimento da opinião pública a esse respeito. Esse descompasso. em todos os países em que foi instituído não há exemplo de aceitação mansa. arrecadar-se-ia mais com menos esforço. Outra causa pode ser a falta de confiança do público em geral na fiel aplicação dos tributos às finalidades a que se destinam.e assim ganhar a confiança pública. uma das causas da resistência ao pagamento do imposto de renda decorra da injustiça dos critérios utilizados em sua fixação. dos juristas e das autoridades em geral. Freqüentemente. como já se disse. isto é. assistência etc. constitui fato importante a re. Chegou-se mesmo a formar a idéia de que constitui virtude.obras. De todos é sabido.entanto.. em reuniões sociais. esperteza. DIREITO DO TRABALHO O Direito do Trabalho oferece igualmente campo fértil à investigação sociológica porque trata-se de um novo ramo do direito onde. 120] clamar maior atenção dos sociólogos. ajudaria a quebrar a resistência e a angariar confiança. isso seria tremendamente desonroso.[p.. pagar mais imposto de renda que um comerciante ou industrial bemsucedido. ou pelo menos habilidade. mas quanto aos tributos. cujo tributo é descontado em folha de pagamento. faz-se . se as causas da resistência pudessem ser levantadas e eliminadas. ou de aplicação fácil desse tributo. Jamais confessariam que subtraíram um níquel de quem quer que seja. é algo perfeitamente tolerável pelos costumes e até enaltecedor. 58. sonegar o imposto de renda. as leis fiscais seriam recebidas de forma mais pacífica pela sociedade e os resultados seriam muito mais satisfatórios. Chega-se por isso ao absurdo de um assalariado. dos economistas. como e por quê. comerciantes. deixando quase à vontade os profissionais liberais. através de publicidade bem elaborada. em nosso entender por falta de esclarecimento da opinião pública quanto ao que estava sendo feito. Vimos isto no Rio de Janeiro quando do lançamento da taxa do lixo pela Prefeitura Municipal: houve uma grita geral. de rendimento médio.

notório o condicionamento direto que a realidade social exerce sobre a ordem jurídica. gratificação natalina. c) ação sobre a opinião pública. cit. sempre na menor medida possível. De acordo com o mesmo autor (ob. a despeito do regime político duro e austero lá existente. 58. acatadas. visando à edição de normas jurídicas convenientes aos interesses dos seus associados. 121] feitas. a influência que exercem os órgãos de classe é inegável. a saber: a) ação sobre os órgãos legislativos e executivos. b) ação sobre o Judiciário. Miranda Rosa (ob. seja pelas restrições que a organização política lhes impõe. seja pelas características próprias do movimento sindical. Em qualquer das hipóteses. ainda que nova. O líder sindical chegou à Presidência daquele País. aos impulsos sociais das novas reivindicações de massa. às vezes até mesmo com certo exibicionismo para evidenciar a eficiência das organizações classistas e sindicais na defesa dos interesses de seus associados. p. 116). p. passo a passo.1. cit. impressionante e inevitável. Exemplo disto tivemos na década de 80 na Polônia. decorreram das pressões feitas pelos órgãos de classe.. que podemos afirmar com segurança que todas as conquistas dos trabalhadores nesse ramo do direito. simpático às posições assumidas pelos grupos de trabalhadores vinculados a tais organizações sindicais. tem sido alterada com freqüência. reajustes salariais. . Seu desenvolvimento tem sido rápido em virtude das constantes pressões exercidas pelos fatos sociais sobre as forças e grupos detentores do controle da economia. Foram concessões [p. Por essa mesma razão a legislação trabalhista. Em outros. aposentadoria. Tão notório é o condicionamento social sobre as leis trabalhistas. Interferência das Forças Sindicais no Processo de Formação do Direito do Trabalho Segundo o Prof. muito a contragosto. como férias de trinta dias. em alguns países essa influência é exercida direta e ostensivamente sobre os órgãos produtores do direito.. porém. procurando obter decisões da justiça favoráveis. capazes de condicionar um entendimento uniforme no sentido desejado. pelos patrões. a influência sindical no processo de formação do Direito Trabalhista apresenta três facetas distintas. tendente a criar ambiente social mais amplo. 117). é mais discreta a intervenção dos sindicatos na formulação das normas jurídicas do trabalho.

A Responsabilidade Objetiva do Fornecedor de Produtos ou Serviços Até o Código do Consumidor os riscos do consumo corriam por conta do consumidor. Entendia-se que o fornecedor de produtos ou serviços limitava-se a fazer a . no que tange ao segundo ponto. uma disciplina jurídica única e uniforme para tutelar todos os direitos materiais e morais dos consumidores. 59. DIREITO DO CONSUMIDOR Não estaria completo este capítulo sem uma referência. inciso XXXIII da Constituição Federal) -. Para atingir a sua finalidade no que diz respeito ao primeiro ponto. produtos. com relação a determinadas realidades sociais por ele ainda não adequadamente disciplinadas. merecem destaque aquelas que procuram proteger o consumidor nos pontos em que é mais vulnerável: a sua integridade físico-psíquica e a sua integridade econômica. conforme foi possível constatar através dos movimentos grevistas no ABC Paulista. [p. alimentação. 122] O que foi dito nesta parte serve para demonstrar o que poderia e deveria ser feito em todos os ramos do Direito. 59. bem como na legislação ordinária. o CDC estabeleceu responsabilidade objetiva para o fornecedor de produtos ou serviços. depois da abertura política vem se colocando no primeiro. necessária. Um líder sindical chegou à Presidência do País e está promovendo reformas constitucionais significativas. vestuário. estabeleceu uma política nacional de consumo. às profundas transformações introduzidas nas relações de consumo pelo Código de Defesa do Consumidor. que durante muitos anos esteve entre os países do segundo grupo.O Brasil. Essa lei. segurança. para cumprir a sua vocação constitucional . transportes.1. habitação. é questão a ser examinada através de investigação profunda da realidade social determinante. 5°.promover a defesa do consumidor (art.basta que se diga que somos hoje 170 milhões de consumidores no Brasil.CDC . o Código adotou a concepção social do contrato. válida e legítima. ainda que rápida. Entre as inúmeras inovações traz idas pelo CDC. Até onde essa influência é útil. gerando diariamente outros tantos milhões de relações em todas as áreas do mercado de consumo: saúde. Para termos uma idéia do campo de incidência do Código de Defesa do Consumidor . serviços etc.

entre as melhores e mais avançadas legislações do mundo.a liberdade de um importava em opressão do outro.2.um forte. colocando-se. até. consoante arts. deu uma guinada de cento e oitenta graus ao transferir os riscos do consumo do consumidor para o fornecedor. Em face do desequilíbrio econômico das partes . assim. vale dizer. que pode ser assim resumida: todo aquele que se disponha a exercer alguma atividade no campo do fornecimento de bens e serviços tem o dever de responder pelos fatos e vícios resultantes do empreendimento. científico e tecnológico veio demonstrar que o dogma da liberdade contratual não passava de uma ficção. distribuir e comercializar produtos ou serviços. para definir o conteúdo do contrato e ainda para escolher o parceiro contratual. A eficácia jurídica do contrato . Tão forte é esse vínculo que se costuma dizer que o contrato é lei entre as partes. e o outro fraco. de forma expressiva. Nas últimas décadas tomou-se necessário substituir a concepção clássica do contrato por uma concepção social. já que não há igualdade real entre os homens na sociedade. na aventura do consumo para indicar a situação daquele que se aventurava a consumir produto ou serviço. a autonomia da vontade deixa de ser o elemento nuclear do contrato. A Concepção Social do Contrato no Código do Consumidor Na sua visão clássica ou tradicional. reconhecendo perfeita igualdade e absoluta liberdade entre as pessoas.chamada “oferta inocente”. poderoso. 59. 123] Hoje a responsabilidade do fornecedor é objetiva. Uma vez manifestada. [p. A liberdade de contratar é o reflexo da filosofia do Estado Liberal que exigia uma separação quase absoluta entre o Estado e a sociedade. responde pelos danos que causar ao consumidor independentemente de culpa. nesse e em outros pontos. sendo tributados aos riscos do ato de consumir todos os acidentes de consumo. Funda-se a responsabilidade do fornecedor na teoria do risco do empreendimento (ou empresarial). O indivíduo estaria. O CDC. A responsabilidade decorre do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. estocar. sem oportunidade de escolha . no Código do Consumidor. independentemente de culpa. a vontade cria um vínculo entre os contratantes do qual nascem direitos e obrigações. passando a ser substituída pelo interesse social. Por essa nova concepção. Falava-se. livre para contratar ou não contratar. atendendo antiga exigência social. o que só veio a ocorrer. o elemento nuclear do contrato é a autonomia da vontade. O progresso industrial. 12 e 14 do CDC.

passamos a uma visão social. dos seus efeitos sociais e das condições econômicas e sociais das partes que dele participam. reportamo-nos ao que ficou dito no item 47. devem ser lembrados os Capítulos V e VI do CDC que vedam a publicidade enganosa e abusiva (arts. 30-38). mas também. Como exemplo dessa nova postura da lei em face do contrato de consumo. . 124] concepção social do contrato. 39) e consideram nulas de pleno direito as cláusulas abusivas (arts. mas cogente. não tem mais mero papel interpretativo ou supletivo. chegando ao ponto de obrigar a contratar em determinados casos. pois de uma visão liberal e individualista. A autonomia da vontade só existe nas condições permitidas pela lei que. Tem sido proclamado que ele representa uma verdadeira mudança na ação protetora do Direito Civil Brasileiro. e principalmente. Concluindo.2. proíbem as práticas comerciais abusivas (art.51-53). na [p. fruto de um consciente e bem sucedido esforço do legislador para adequar a nossa legislação à realidade social no que diz respeito às relações de consumo. pode-se afirmar que o Código do Consumidor é a mais revolucionária lei do século XX. Quanto aos efeitos positivos que essa lei vem produzindo. O Estado passa a intervir na formação dos contratos de consumo. não só controlando preços. mas também vedando certas cláusulas.não mais depende apenas da manifestação de vontade. protege determinados interesses sociais e serve de instrumento limitador da autonomia da vontade. impondo o conteúdo de outras. que valoriza as legítimas expectativas das pessoas nas relações de consumo.

porque leis boas há em toda parte. Estrutura do Judiciário brasileiro: a justiça estadual. Causas da crise do Judiciário brasileiro. O Poder Judiciário. mas se as executam. O papel desempenhado pela Justiça Eleitoral.” Pior do que não ter leis. aumentando infinitamente as possibilidades de produção. caso contrário toda a ordem jurídica de uma sociedade pode ficar seriamente comprometida. organização da justiça federal. bem como uma estrutura material adequada. é tê-las e não aplicá-las. o primeiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica . repetimos. portanto. o homem é insubstituível: entre elas as atividades de elaborar e de aplicar leis. A crise do Judiciário em nosso país. estrutura da justiça especial. nos capítulos anteriores. não indago se há leis boas. [p. 127] .Capítulo XI INSTRUMENTOS HUMANOS DE REALIZAÇÃO DA ORDEM JURÍDICA O Poder Legislativo: eleição dos legisladores. vamos agora nos dedicar ao exame do segundo item da classificação . tão importante quanto ter leis eficazes. A máquina já substituiu o homem em inúmeras atividades. entretanto. **** Após termos examinado. é ter estrutura material e humana para aplicá-las. Fácil é.estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições -. Em certas atividades. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. compreender que. quando teremos oportunidade de ver que não basta existirem leis boas e eficazes. É preciso também gente especializada e em número suficiente para aplicar a lei. Cabe aqui relembrar o que dizia Montesquieu: “Quando vou a determinado país.eficácia e efeitos -.

assegurada. julgar é aplicar a lei contenciosamente (O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário. é óbvio. com relação àquelas matérias que não são da competência privativa da União. p. Do bom funcionamento dessas instituições e da eficiência do pessoal que nelas atua dependerá a eficácia da ordem jurídica. e o Poder Judiciário. às quais a sociedade confere atribuições para elaborar e aplicar as leis. sendo assim responsável pela declaração e modificação da ordem jurídica nacional. cuja função principal é aplicar a lei ao caso concreto. porque dela emanarão leis a vigorar para todo o grupo social. a Câmara Municipal de Vereadores fica restrita aos limites do seu Município e às matérias de sua competência. 1979. que em conjunto formam o Congresso Nacional. 2) Estadual . O Poder Legislativo Federal. a saber: 1) Federal . através dos Deputados Federais e Senadores. Entre as funções públicas. 718).formado pela Assembléia Legislativa de cada Estado. administrar é aplicar a lei de oficio.Por instrumentos humanos de realização da ordem jurídica devem ser entendidos aqueles órgãos ou instituições através dos quais a ordem jurídica de uma sociedade é declarada. o princípio da separação dos poderes. dois deles estão diretamente ligados à ordem jurídica: o Poder Legislativo. Legislar é editar o direito positivo. são integradas por criaturas humanas. que tem por função prevalente elaborar as leis. mantida e modificada. De acordo com Seabra Fagundes. 60. a de legislar é sem dúvida a mais importante. 3) Municipal . ao passo que as funções administrativa e a judicial se prendem à sua realização. compondo os conflitos sociais. O Poder Legislativo Estadual só elabora leis para o âmbito territorial de cada Estado e. mesmo assim. o pessoal técnico e especializado que nelas atua. Por sua vez. nas sociedades democráticas. Se para o [p. PODER LEGISLATIVO O Poder Legislativo em nosso País divide-se em três esferas. 128] exercício das mais simples funções é necessário ter a pessoa certa no lugar certo. Tais instituições.Câmara de Vereadores de cada Município. Desde que passou a prevalecer. por maior razão é preciso que o .composto pela Câmara dos Deputados e Senado Federal (adotamos o sistema bicameral). a função legislativa liga-se ao fenômeno de criação do direito. inclusive os efeitos sociais positivos que toda norma tem por finalidade produzir. elabora leis para todo o território brasileiro (leis federais).

ninguém mais desconhece que o processo de seleção dos membros do Legislativo está a exigir urgente aprimoramento. destinada a realmente aprimorar o sistema existente. e não simplesmente pessoais. algumas . entretanto. Com efeito. o voto vinculado a pequenas vantagens materiais. 129] das à realização dos interesses coletivos. De tão velhas e conhecidas. àqueles que foram escolhidos como seus mandatários ou legítimos representantes. Como estas. uma reforma parcial. a despeito de nada terem feito ao longo de muitos anos de vida pública. mas sim pelas distorções que se verificam na sua execução. como tem sido feito às vésperas de cada nova eleição. Eleição dos Legisladores Hoje não mais se admite qualquer discussão sobre as vantagens de qualquer outro processo seletivo dos legisladores que não seja o da votação popular. profunda. visto estar consagrado em todas as sociedades democráticas o sistema da eleição direta para tal fim. É preciso uma reforma de base. as questões mais relevantes sobre este ponto consistem apenas em saber como evitar as distorções que têm ocorrido nas eleições diretas. a eleição direta não tem produzido os efeitos desejados. o poder econômico pesando em favor deste ou daquele candidato. já que a função legislativa é exercida por delegação do povo. apresentadas as soluções mais adequa. verdadeira. Fala-se muito na reforma política e ela é realmente necessária. E nem poderia ser diferente. Não. em áreas de grande pobreza: a máquina eleitoral reelegendo os mesmos parlamentares a cada nova legislatura. de modo a tomar possível a escolha dos melhores. não porque o brasileiro não saiba votar. Para tanto seria indispensável inicialmente uma pesquisa detalhada da realidade atual. empreguismo e outros interesses econômicos. É notório. casuística. a eleição conquistada em troca de facilidades. 60. levantando-se as suas principais deficiências. que ainda temos currais eleitorais no interior. muitas outras circunstâncias existem dificultando ou até mesmo impedindo que o processo seletivo dos legisladores proporcione um eficiente resultado.[p. até distribuição de alimentos. Lamentavelmente.1. a manipulação da opinião pública pelos órgãos de comunicação nas grandes cidades.legislador seja alguém preparado para o exercício dessa função e escolhido mediante criterioso processo seletivo. para a seguir serem elaboradas as reformas necessárias. como afirmou há algum tempo determinado político. destinada exclusivamente a assegurar a vitória àqueles que já se encontram no poder. por exemplo. Assim sendo. financiando sua milionária campanha e comprando adesões. séria.

Quais as Condições para o Sucesso Presidencial na Área Legislativa? A Conexão Eleitoral Brasileira -. se aproximam em demasia de suas bases eleitorais. todos os outros estão na Câmara Federal graças à legenda. normalmente integrante da base governista. não saíram do papel. exerce o mandato por outro. E a injustificável curiosidade dessa questão está em que o partido de oposição que condenava a troca-troca de partido com veemência. Entretanto. Carlos Pereira. para serem eleitos. É correto o parlamentar se sentir dono do mandato se para eleger-se precisou de votos da legenda do partido pelo qual concorreu às eleições? E não são poucos os que necessitam do voto de legenda. de um sistema para acompanhar as votações do Governo no Congresso.[p. vinculando a liberação de verbas e outros recursos de emendas orçamentárias individuais ao grau de fidelidade de cada parlamentar. “Por causa dessas regras eleitorais. cientista político e autor da tese . Assim. 130] cução destas demandas. os parlamentares. passa a incentivá-Ia e dele se beneficiar tão logo chega ao poder! Outra questão relevante é a cooptação de parlamentares pelo Executivo para garantir a maioria parlamentar no Congresso. a fidelidade partidária. Ele proporciona incentivos para comportamentos individuais e partidários. Tomou-se pública e notória.questões constam da pauta de todas as propostas de reforma política. não há a mediação dos partidos políticos. ao mesmo tempo. negociar com o Congresso punindo ou . lamentavelmente. Ou seja. o que faz com que o exercício do mandato seja voltado para atendimento destas demandas. Por outro. tanto nos Governos anteriores como no atual. Ou seja. a existência no Palácio do Planalto. é o Governo o responsável pela exe. em busca de prestígio e favores políticos. assim examina essa questão: “Prefiro interpretar as relações Executivo-Legislativo à luz dos incentivos institucionais das regras do sistema político brasileiro. as regras internas do processo de decisão do Congresso e os poderes constitucionais de legislar e de distribuir recursos do presidente agem incentivando a centralização do sistema e o comportamento partidário. Por um lado. até confessada. bem como é ele que centraliza o processo decisório e a agenda do Congresso. as regras eleitorais. com as quais estabelecem compromissos localistas. por exemplo. o multipartidarismo e o federalismo agem descentralizando o sistema e incentivando comportamentos particulares. Até que ponto é justa e ética a troca-troca de partido? O parlamentar se elege por um partido e depois. mas que. Assim. de posição política diametralmente oposta ao daquele pelo qual se elegeu. Nas contas das últimas eleições. apenas 28 deputados federais tiveram votação suficiente para se eleger sozinhos.

[p. E a atitude do Legislativo.2000). sendo que o eleitor tem a opção de votar no partido ou na pessoa do candidato de sua preferência. sistema utilizado com sucesso em alguns países. fortalece o partido. pode ser de votação uninominal (cada partido indica seu candidato para escolha do eleitorado). o partido não escolhe os candidatos que quer eleger. aprovados em convenção. somente voto na legenda. . O desafio. Entre as vantagens desse sistema estaria também a de evitar distorções da representação popular que hoje ocorrem. de forma a ver cumprida a sua agenda de governo. fez um profundo estudo do nosso sistema político. que fragmenta a votação pelo estado inteiro.08. também chamado de sistema de lista. Outro grupo seria o que ele chama de “a nossa variável nordestina do voto distrital”. geralmente a metade. não é nada mais do que o instrumento achado para mitigar as fragilidades de um sistema partidário fraco na arena eleitoral e fortalecê-Io dentro do Congresso. ou votação plurinominal. como aquela do voto de Roraima valer sete vezes mais do que o de São Paulo. 131] dida igualmente entre três tipos de políticos: os do primeiro grupo seriam os distritais puros.” “Diante de um desenho institucional como este. então. No caso de lista aberta. 02. o partido escolhe os candidatos que quer eleger e o eleitor vota no partido. é redesenhar as instituições políticas sem cair na vala comum do moralismo” (O Globo. vinculando o atendimento das demandas dos parlamentares aos seus comportamentos de voto. em que cada partido apresenta aos eleitores sua lista de candidatos. conhecido tecnicamente como concentrados/dominantes. é eleita por votação majoritária. na há voto nominal. apresenta um número de candidatos fixado em lei. Nelson de Carvalho. por sua vez. no qual demonstrou que a nossa Câmara dos Deputados é divi. No primeiro caso. a atitude do Executivo. Pelo voto distrital misto os Estados são divididos em regiões e somente uma parte dos candidatos. sendo que a outra metade (ou fração estipulada em lei) é escolhida pelo sistema proporcional que. Qual seria esse redesenho das instituições políticas? Que sistema permitiria eliminar os inconvenientes e distorções inevitáveis no atual sistema político? Essa é a questão. de continuar jogando este jogo. que dominam a votação em determinada área. tem sido a única saída para a sobrevivência política dos parlamentares. mas dá ensejo ao afastamento das minorias e ao engrandecimento da figura dos caciques. As listas podem ser fechadas ou abertas. da Editora Revan. Uma das soluções apontadas seria a adoção do voto distrital misto. que proporciona incentivos paradoxais simultâneos. cientista político e autor da obra E no Início Eram as Bases.premiando parlamentares segundo seu desempenho é decisão do governo proveniente dos incentivos institucionais das regras do jogo.

para priorizar os partidos políticos em detrimento do voto pessoal. a maneira como ele vota na Câmara. em vez de adotar o voto distrital misto. Com esse sistema. e dá uma visibilidade maior ao representante. Os países citados por Carvalho usam o sistema de lista. Nelson Carvalho propõe a adoção do sistema eleitoral utilizado na Espanha. Para Carvalho. Ele também vê vantagem nesse tipo de voto proporcional com distritos maiores “porque enxuga o número de partidos”. O concentrado/não-dominante é o terceiro tipo. Após essas ponderáveis reflexões. Os fragmentados/dominantes. e acabariam com a adoção dos mega-distritos”. que concentra sua votação em municípios muito grandes e. Com o distrital misto podemos ter aqui o pior dos dois mundos: dar à oligarquia partidária o domínio sobre a lista. Se cada um for maximizar o beneficio para o distrito. você projeta os interesses difusos da sociedade e provoca uma espiral de gastos. “são os que têm 40 prefeitos espalhados. que elegem de 5 a 8 deputados. onde os políticos locais não têm responsabilidade sobre as verbas.com motivação paroquial. Dentro do estado. não pode reivindicar créditos por benefícios. para o candidato da área metropolitana. não acontece o fenômeno da sub-representação de áreas importantes como as metropolitanas. mas ele não tem definição sobre se o voto deve ser na lista ou diretamente no candidato.países que passaram por transições democráticas parecidas com a nossa . e ao mesmo tempo contemplar o paroquialismo que já existe”. Os distritos de média magnitude diluiriam a interferência direta do cacique local” .que. voltado para temas. seria o político das áreas metropolitanas. os caciques vão continuar dominando os partidos. o interior do estado passa a atribuir justa representação a áreas que hoje viram colchas de retalho “atacadas por vários políticos que dispersam sua votação e não têm compromisso com nenhuma delas”. Portugal e Grécia . e o primeiro recurso político deles é o encaminhamento das demandas das lideranças locais. que predominam no Nordeste. Esses são fruto de uma distorção do voto distrital à brasileira. Já o político do distrital puro prioriza os recursos orçamentários. que vai pegando um votinho aqui outro ali e em várias áreas distintas”. como não domina essa área. eliminando a possibilidade dessa compra da representação inorgânica. “dá-se uma justa medida às diversas áreas. “o sistema distrital uninominal incentiva o paroquialismo. 132] Conclui Nelson de Carvalho: “Mesmo se fizermos voto distrital com lista fechada. adotam os chamados Distritos de Média Magnitude. como nos Estados Unidos. Segundo o estudo. o primeiro recurso eleitoral é a atuação legislativa. [p. e não apenas um.

“A legislação é quase risível. O Papel Desempenhado Pela Justiça Eleitoral Justiça seja feita à Justiça Eleitoral Brasileira. O Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro. Se o candidato é derrotado. a organização do pleito e outras medidas administrativas adotadas fizeram da nossa última eleição um modelo para o mundo todo. No dia do pleito milhões de brasileiros. jovens e velhos. O voto eletrônico. Dessa forma a Justiça Eleitoral Brasileira deu sua decisiva contribuição para o aprimoramento do sistema político vigente. Promove também debate sobre o financiamento público da campanha eleitoral. o que indicaria a existência de eleitores fantasmas. mesmo nos lugares longínquos e de difícil acesso. cultos ou não. assumindo compromissos políticos com os mais variados e questionáveis seguimentos sociais. Obter novas adesões na base da aritmética pode ser importante momentaneamente.A grande dificuldade em se aprovar uma reforma política está em que terá ela que ser votada pelos próprios parlamentares que trocam de partidos. A experiência demonstra que se não há financiamento público. A proporção estava acima de 70% da população. não obstante as suas conhecidas deficiências. em entrevista ao jornal O Globo (26. nem como prestar contas dos gastos com a campanha. os líderes dos maiores partidos se sentarem à mesa e concluírem que todos estão sendo prejudicados. 133] O Presidente do Tribunal Regional Eleitoral no Rio de Janeiro. a prestação não vale nada. Desembargador Marcus Faver. [p. praticam o clientelismo. compareceram ordeiramente às urnas em todo o país. sem impugnações.2.2003) disse que a prestação de contas que o candidato faz dos gastos com a campanha eleitoral é uma palhaçada. E assim sendo. recadastrou os eleitores em 24 municípios nos quais constatou desproporção entre o número de eleitores e de habitantes. por aqueles que eventualmente serão por ela prejudicados. não existe fidelidade partidária. de civismo e cidadania. e conseguiram depositar o seu voto. o candidato vai à luta buscar quem banque sua campanha. A reforma política só vai sair quando. Uma vez eleito. não deve nada ao partido. um belo dia. 60. sem fraude. a informatização da apuração das eleições. Prossegue a Justiça Eleitoral nessa importante tarefa promovendo recadastramento dos eleitores e reivindicando debate mais profundo sobre a legislação eleitoral. mas a longo prazo só dá prejuízo. Ele pode ser candidato . Horas depois os resultados foram proclamados no Brasil todo. por exemplo. principalmente o eleitorado. sem questionamentos. enfim.12. votam motivados por favores políticos. Foi um espetáculo democrático.

134] flitos sociais. resolveu assumir essa função. por sua vez. de aplicar a lei ao caso concreto para compor os conflitos sociais. podia infligir ao causador do dano mal idêntico ao produzido no ofendido. após a separação dos poderes. que se caracterizava mais como uma forma de vingança do que propriamente de justiça. foi conferida ao Poder Judiciário. . Cabe ao particular tão-somente o direito de pedir justiça. fracos ou poderosos). Essa função. o que. A função prevalente do Poder Judiciário. compondo os con. dente por dente. após organizar-se política e juridicamente. terá que ser exerci da em favor de todos os que dela necessitarem (ricos ou pobres. pelos meios que bem entendesse. no momento em que se tomar necessária (não alcançará os seus objetivos sociais se a ação da justiça vier tardiamente) e no lugar onde for necessária. tornando-a exclusivamente sua . 345 do Código Penal. é distribuir justiça na sociedade. sem imparcialidade. caracteriza o direito de ação. criava outros maiores. caracterizando o crime previsto no art. A vítima.novamente mesmo com as contas rejeitadas. cultos ou ignorantes. constituindo a chamada função jurisdicional. tal forma de justiça. o que faz aplicando a lei ao caso concreto.[p. prestada pelo particular interessado. ou seu vingador. O credor podia exigir. é necessário salientar.monopólio estatal. de invocar a prestação jurisdicional sempre que dela necessitar. fazer justiça com as próprias mãos é uma forma de usurpação de função pública. e assim por diante. A partir daí só o Estado passou a ter o poder de fazer justiça. longe de compor os conflitos sociais. servindo como ilustração o conhecido caso de uma cidade nordestina. Chegou o dia em que a sociedade. onde durante algumas décadas duas famílias se destruíram mutuamente. Obviamente. pois caso contrário ficará a emenda pior do que o soneto. Ainda hoje temos exemplos do que ocorre quando o particular resolve fazer justiça com as próprias mãos.” 61. Essa relevante função pública. a obrigação do devedor. portanto. Se as contas forem julgadas depois da diplomação (e não há tempo para que sejam julgadas antes). Era a justiça do olho por olho. PODER JUDICIÁRIO Houve tempo em que a justiça era privada e feita pelas próprias mãos. e em face dos inconvenientes da justiça privada. gerando uma verdadeira reação em cadeia. Um verdadeiro faz-de-conta esse negócio de prestação de contas que não tem sentido objetivo. também não tem nenhum efeito. Hoje.

é indispensável que esteja devidamente estruturado e aparelhado. pessoas esperando às vezes meses para poderem ser consultadas. espalhados por todo o território nacional. Também ele terá que contar com instalações adequadas. Os interessados não poderão resolvê-los por suas próprias mãos. por sua vez.. tal como as pessoas nas filas do INSS. As filas aumentando cada vez mais nas portas dos ambulatórios. gente técnica e especializada. o Judiciário precisa de estrutura material e humana para desempenhar a sua tarefa.. Tomemos para exemplo do que estamos querendo enfatizar o caso do INAMPS. Com o correr do tempo os conflitos se agravam e aumentam. .Com efeito. clínicas. O Poder Judiciário Federal. subdivide-se em quatro áreas específicas. veremos o que estamos cansados de ver. 135] 62. O que é preciso para que possa realizar isto? Uma infinidade de hospitais. agências. se lhe faltarem os instrumentos materiais e humanos necessários. Coisa idêntica ocorrerá (e já está ocorrendo) com o Judiciário. enfermeiros. sede. gente técnica e especializada. dedicada à função jurisdicional. se a Justiça se omitir ou retardar no exercício de sua função. o que será da sociedade? Os conflitos sociais continuarão ocorrendo porque existirão enquanto existir a sociedade. que se propõe prestar assistência médica e hospitalar a todos os seus associados. a saber: 1) Justiça Eleitoral . já que isto constitui uma função exclusivamente pública. o que toma em completo fracasso o objetivo a que se propõe a entidade. que para realizar os seus objetivos necessita de instalações. postos de justiça. serventuários etc. tanto nas capitais como no interior. ESTRUTURA DO JUDICIÁRIO BRASILEIRO Em nosso País o Judiciário se divide em duas esferas: federal e estadual. quando e onde for necessário . mas quem tem o dever de exercê-la não o faz. pessoal etc. se assim podemos dizer. tanto nas cidades como no interior.que só trata das questões relacionadas com o direito eleitoral.fazer justiça a quem precisar. Faltando essa estrutura necessária. postos de saúde etc. Para que o Judiciário possa exercer eficientemente a sua função . tomando impossível a vida em coletividade e motivando o retomo à justiça privada. empenhada na realização desse objetivo. e neles uma multidão de Juízes. Tal como uma grande empresa prestadora de serviços. funcionários. [p. postos. e neles uma multidão de médicos. sob pena de se avolumarem os processos nas prateleiras. espalhados por todo o território nacional.

136] ção até a sentença final. serão da competência da justiça estadual. isto é.que é o poder de fazer justiça. advogados). À Justiça Estadual compete o restante das questões que podem ser levadas a juízo. crimes etc. a primeira e a segunda instâncias no Judiciário de cada Estado. que a grande sobrecarga de trabalho repousa sobre o Judiciário Estadual.[p. sucessões. tanto nas cidades do interior como na capital. Todas as demandas envolvendo conflitos de interesse entre particulares (questões de família. é a justiça de primeira instância que toma conhecimento e decide em primeiro lugar as causas que são levadas à apreciação do Judiciário. bem como as demandas em que há interesse dos próprios Estados.à qual competem todas as causas em que houver interesse da União ou de seus desmembramentos administrativos (autarquias e empresas públicas) como autora.1. ré ou simples interessada. Isso evidencia. da melhor . 4) Justiça Federal . desde logo. atuando em toda a formação do processo desde a primeira peti. testemunhas. réu. por um só julgador. Municípios e seus desmembramentos administrativos.2) Justiça Trabalhista . deverá propor a ação expropriatória perante uma das varas da Justiça Federal. Temos. As decisões da primeira instância são prolatadas por Juiz singular. por exemplo. Assim. Para não ser muito oneroso e difícil às partes o acesso a essa justiça.cuja competência é julgar os crimes previstos no Código Penal Militar. De regra. enfim. está ela organizada em todo o território do Estado. Cabe ao Código de Organização Judiciária de cada Estado estabelecer a organização da sua justiça de primeira instância. se um particular pretender exigir da União indenização por dano material ou moral decorrente de ato praticado pela administração federal.).que cuida dos problemas envolvendo empregador e empregado. para que possa estar ao alcance de todos. de modo a poder ela realizar. Por isso está em contato direto com as partes (autor. 62. assim. 3) Justiça Militar . Estrutura da Justiça Estadual Há duas instâncias na Justiça Estadual: instância é hierarquia ou grau de jurisdição . contratos. aplicando a lei ao caso concreto. se a União resolver desapropriar um determinado imóvel. deverá também apresentar sua postulação perante a mesma justiça.

de uma atividade revisora.forma possível. três julgadores. tal como ocorre com os Municípios. como a primeira instância. 3) só existe nas capitais dos Estados. aumentando a sua população. Tal como os Tribunais de Justiça. Em cada Comarca temos uma sede do Judiciário Estadual que vem a ser o Foro. pois trata-se. Em cada Foro temos pelo menos um órgão investido da função jurisdicional. os Tribunais de Alçada são integrantes da Justiça de segunda instância. podendo-se.. por isso que realizada através dos Tribunais de Justiça dos Estados. divididos em várias câmaras. sob pena de tornar-se lenta. cujos membros são chamados Desembargadores. pelo menos. o escrivão. as suas finalidades. e em cada Vara um juiz. as atividades empresariais etc. Assim. o processo é devolvido à Vara de origem. [p. De modo geral pode-se . limitando-se à apreciação daquilo que já se encontra no processo. de regra. 137] O número de desembargadores é muito menor que o de juizes de primeira instância. muito embora nem sempre exista correspondência entre suas áreas geográficas. À medida que a Comarca vai se desenvolvendo política. Em linhas gerais. 4) é uma justiça colegiada. tendo a competência estabelecida pela lei. podemos dizer que todo o território do Estado é dividido em várias áreas denominadas Comarcas. possuem também outro Tribunal (ou Tribunais) chamado de Alçada. econômica e socialmente. para onde são encaminhados os processos sempre que houver recurso de qualquer decisão da primeira instância. organizam-se à sua imagem e semelhança. congestionada e deficiente a prestação jurisdicional. tantas quantas forem necessárias para atender à demanda dos novos conflitos sociais. dizer que as suas principais características são as seguintes: 1) toma conhecimento das causas em segundo lugar. visto que as decisões são ali prolatadas por. Apreciado o recurso. o que poderia acarretar um congestionamento de processos e sobrecarga do serviço nos Tribunais de Justiça. toma-se necessária a criação de novos juízos (uma ou mais varas). 2) não está em contato direto com as partes. serventuários etc. Cabe também a cada Estado organizar a sua Justiça de segunda instância. onde a sentença será executada. Alguns Estados. demorada. que é o Juízo ou Vara. em segundo grau. cada Estado tem o seu Tribunal de Justiça. e conseqüentemente aumentando o serviço da justiça. para evitar esse inconveniente. todavia.

serventuários etc. depende da capacidade administrativa e econômica dos Estados para darem cumprimento à lei. Outra peculiaridade dos Juizados Especiais é a desnecessidade de advogado nas causas cujo valor não exceda a vinte salários mínimos. Organização da Justiça Federal Há também na Justiça Federal duas instâncias. Rio de Janeiro.). sediados nos principais Estados (São Paulo. como se vê. pois necessitarão de estrutura material e humana para isso (instalações. Esses Tribunais. Essa lei prevê a participação de conciliadores e Juízes leigos como auxiliares da justiça na fase da conciliação. juizes. [p. reunidos na sede do juizado. Pernambuco) e em . simplicidade e celeridade. em segundo grau. nem para o Tribunal de Justiça. exclusivamente ao Juiz Togado a competência para proferir a sentença caso não haja o acordo. só se tomando obrigatória a sua participação se houver recursos.1995. atribuindo.2. as causas de menor relevância. a segunda é exerci da pelos Tribunais Regionais Federais. Da sentença cabe recurso para uma turma recursal composta por três juizes togados. evitando que elas se misturem e caiam na vala comum das demais causas.dizer que julgam. apenas para a turma recursal do próprio juizado. não cabe recurso nem para o Tribunal de Alçada. esses juizados julgam causas de menor complexidade (causas cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário mínimo etc. O objetivo. é aliviar a carga de recursos daqueles Tribunais. das sentenças proferidas pelos juizados especiais.) e infrações penais de menor potencial ofensivo (contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a um ano). de 26. criados pela Constituição de 1988 em substituição ao antigo Tribunal Federal de Recursos. Temos ainda nos Estatutos os Juizados Especiais Cíveis e Criminais. em exercício no primeiro grau de jurisdição. com as mesmas características da Justiça Estadual. e nas grandes cidades do interior.099. todavia. 138] 62. O sucesso dessa idéia. Vale dizer que. Os Juizados Especiais são uma feliz idéia no sentido de dar celeridade às causas de menor complexidade. deixando-os com mais tempo para apreciar os recursos de maior complexidade. através de processo sumaríssimo. ficando as demais para o Tribunal de Justiça.09. cuja criação foi determinada pela Lei n° 9. em substituição aos Juizados de Pequenas Causas. entretanto. Previstos para desafogar a justiça comum. orientado pelos critérios da oralidade. A primeira instância federal existe de regra nas capitais dos Estados.

62. É o mais elevado Tribunal do Poder Judiciário no Brasil. integrado por 15 ministros. O Supremo Tribunal Federal.TRTs. e através . com sede na capital da República. é constituída pelo Superior Tribunal Militar . A segunda instância é constituída pelos Tribunais Regionais do Trabalho .Brasília. Esse Tribunal tem sede em Brasília. tornando mais célere a justiça.STM. abaixo do qual se encontram todos os Tribunais Superiores. sobrepõe-se a todo o aparelho judicial. em que houver violação de lei federal. notadamente aquelas onde há maior concentração de trabalhadores. e os seus membros são chamados de Ministros. previstas na Constituição. o órgão máximo da Justiça.TSE. 139] derais. poderá ser reexaminada pelo STJ. Quanto à Justiça Eleitoral. Qualquer decisão dos Tribunais Estaduais ou Fe.[p. geralmente nas capitais.3. com sede em Brasília. e é integrada pelas Auditorias do Exército. Estrutura da Justiça Especial A primeira instância da Justiça Militar só existe nas cidades onde há grupamento militar. integrado por 27 ministros. o Tribunal Superior do Trabalho. um na capital de cada Estado. através do recurso especial. Nas cidades onde não há justiça trabalhista. e a terceira instância é o Tribunal Superior Eleitoral. a cúpula do regime. para onde vão os processos em hipóteses especiais. Há nessa justiça uma terceira instância. como o próprio nome diz. Em hipóteses especiais. Trata-se de uma justiça cujas decisões são prolatadas por um colegiado. as causas envolvendo essa matéria são decididas pela Justiça Estadual. A Justiça Trabalhista tem a sua primeira instância distribuída pelas principais cidades do Brasil. a quem compete zelar pela supremacia das leis federais e promover a uniformização da sua interpretação. criou o Superior Tribunal de Justiça. A segunda instância.TREs. com sede em Brasília. 62. com o propósito de aliviar a sobrecarga do Supremo Tribunal Federal. da Aeronáutica e da Marinha. a sua primeira instância é dividida em zonas distribuídas por todo o Território Nacional. a segunda instância são os Tribunais Regionais Eleitorais . Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal A Constituição de 1988. embora sendo um órgão federal. julgam os recursos oriundos da primeira instância da respectiva região. os Tribunais de Justiça e de Alçada dos Estados e os Tribunais Regionais Federais e do Trabalho.4.

prevalecendo a sua decisão como palavra final e imutável. federal ou especial). é um mau pagador. além de grande criador de conflitos. estão desatualizadas. com controle externo e outras inovações. a Administração não os reconhece. cada nova reforma implantada no país leva outros tantos milhares de pessoas ao Judiciário. feita sob o mais rigoroso sigilo pelos donos da verdade da época. demagógica. o pretexto utilizado foi a reforma do Judiciário. declarando a inconstitucionalidade das leis sempre que violarem princípios consagrados na Carta Magna. Na realidade. os membros do Judiciário culpam o Executivo e o Legislativo: as leis processuais são mal elaboradas. [p. . o Executivo e o Legislativo pregam a urgente necessidade de uma reforma do Judiciário. é o Supremo o guardião da Constituição Federal. Aquela reforma. Tem ainda por função atuar como moderador dos demais poderes. quase se eternizam. e em alguns pontos tomou a justiça pior.do recurso extraordinário. seria conveniente lembrar que outras reformas do Judiciário já foram feitas sem qualquer resultado prático. emperrada. como a criação de senadores biônicos e outras aberrações constitucionais. nunca passou do papel. a prestação jurisdicional se toma inócua e causa graves prejuízos aos jurisdicionados. recorre abusivamente. pensionistas. mutuários e contribuintes. há excesso de recursos processuais e falta de recursos financeiros. burocrática. teve objetivos políticos. Por sua vez. A Crise no Judiciário em Nosso País Há mais de trinta anos ouvimos as mesmas críticas ao Judiciário: a justiça é lenta. Integrado por 11 ministros. em todos os seus níveis. 140] No que diz respeito à lentidão da justiça. Embora tenha plena consciência dos direitos dos aposentados. A cada novo e mirabolante plano econômico baixado pelo governo. Em abril de 1977. no que exerce uma função eminentemente política. Em defesa. é forçoso reconhecer que não cabe ao Judiciário a culpa exclusiva. Em que medida cabe ao Judiciário a culpa pela morosidade da justiça? Até que ponto a propalada reforma resolverá o problema do Judiciário? Essa é a questão nodal. milhares e milhares de ações são detonadas na Justiça. o fiel da balança. ineficiente e cara. quando o Congresso foi fechado pela última vez. 62. Isso evidencia que a mera modificação de alguns pontos da Constituição não basta para resolver a crise do Judiciário.5. pode o Supremo reexaminar decisões de qualquer justiça (estadual. obrigando os titulares desses direitos a buscá-los na justiça. E. foi puramente teórica. mesmo depois de condenada. Quanto ao segundo item. O estado brasileiro. os processos se prolongam por anos e anos a fio.

é necessário que em cada Comarca se criem tantas Varas ou Juízos quantos forem necessários para atender ao aumento do número de demandas decorrentes do desenvolvimento econômico. humanos e financeiros notoriamente deficientes. A quem interessa a lentidão da justiça? [p. o contribuinte que entre na Justiça para reclamar a devolução de um tributo que lhe foi cobrado indevidamente. a execução do estado tem que ser feita por meio de precatórios. Como já salientado.Prova disso são as filas intermináveis de aposentados e pensionistas do INSS pleiteando a revisão dos seus minguados benefícios nos Juizados Especiais Federais (o que poderia e deveria ser resolvido na esfera administrativa). funcionais e estruturais. O primeiro devia aos credores judiciais (pensionistas. o Congresso Nacional aprovou a emenda constitucional nº 30 autorizando o parcelamento das dívidas judiciais da União.) cerca de 4. Causas da Crise do Judiciário Brasileiro Diagnóstico baseado na prática e na observação permite-nos adiantar que três são as principais causas da crise do Judiciário: operacionais. vítimas de acidentes etc. 141] 63. Vale dizer. Como os bens públicos não podem ser penhorados para pagar a condenação. depois de esperar dois ou três anos pela sentença que lhe concede a justa devolução. milhões de ações em andamento na justiça com idêntica finalidade. e o segundo 520 milhões. em 13 de setembro de 2000.5 bilhões de reais. Mas não para aí a contribuição do estado brasileiro à morosidade da justiça. Mesmo depois de vencido em milhares de ações. Pior que tudo. ele é também mau pagador. Em agosto de 2000. Estados e Municípios em até dez anos. Os precatórios expedidos até 10 de julho de cada ano deverão ser incluídos no orçamento do ano seguinte e pagos na ordem de apresentação. para que a justiça de primeira instância possa funcionar adequadamente. terá ainda que aguardar por mais dez anos o integral cumprimento dessa decisão. São Paulo e Rio de Janeiro não pagavam os precatórios desde 1996. centenas de milhares de recursos repetitivos que abarrotam o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal.recursos materiais. . Só que os precatórios também não são pagos. As causas operacionais estão relacionadas com a infra-estrutura necessária ao bom funcionamento da justiça . Com efeito. principalmente na primeira instância. O calote dos precatórios é uma regra em quase todos os estados. servidores. Esse tempo de espera será fatalmente debitado à morosidade da justiça. não cumpre as decisões judiciais. que nada mais são do que requisições de pagamento em dinheiro de débitos judiciais expedidas pelo Poder Judiciário ao Poder Executivo.

em pleno desenvolvimento econômico e ingressando na sociedade de consumo. cada vez maior.intime-se. É preciso investir em instalações de novos órgãos julgadores.000 habitantes. oficie-se. sob pena de o serviço ficar acumulado e os processos paralisados. em nosso entender.) em número suficiente. com graves prejuízos para as partes. prenda-se. em cada um determinando uma série de providências ou diligências a serem cumpridas . Pelo ângulo operacional temos como certo que a maior necessidade do Judiciário não é a propalada reforma. [p. controlar a qualidade e a produtividade dos magistrados. mas sim gestão. por sua vez. gabinetes etc. secretarias. melhor aproveitar os recursos humanos e materiais disponíveis. treinar e avaliar periodicamente os serventuários. mas uma verdadeira explosão judiciária deflagrada por essas três condições que dão hoje a fisionomia de nosso País e. enfim. a menos que estejamos dispostos a aparelhar o Judiciário para enfrentar essa realidade. a solução para a maioria dos problemas que emperraram a máquina judiciária em primeiro e segundo graus nos estados e na esfera federal. só naquela vara. promotores. Aí está. de alto índice de crescimento demográfico. certa feita. cite-se. salas de audiência. é preciso ter instalações adequadas (cartório. a distância se tornará cada vez maior entre a justiça e os seus objetivos sociais. E não se consegue preencher os cargos vagos porque. O que acontecerá se não houver infra-estrutura para que todos os despachos do juiz sejam cumpridos com eficiência e rapidez? Nada. um juiz para cerca de 30. na maioria dos Estados. em virtude da omissão de um oficial de justiça ou de excesso de serviço. no sentido de que só acompanha a complexidade. 142] Aqui não há propriamente um crescimento forense. escrivães. o que significa que havia mais de mil processos parados. .político e social do lugar. aguardando o cumprimento da determinação judicial. padronizar métodos e procedimentos. O processo ficará parado por meses e anos a fio. serventuários. modernizar equipamentos. não é o que ocorre em nações como a nossa. constatado encontrar-se em poder de um só oficial de justiça mais de mil mandados pendentes de cumprimento. o número de aprovados no concurso fica aquém das vagas em razão da deficiência do ensino jurídico. tome-se por termo etc. Em cada Vara. Isso. Diariamente um juiz despacha dezenas e até centenas de processos. informatizar toda a justiça. o crescimento do movimento forense é vegetativo. das relações dentro da sociedade. adotar métodos modernos e eficientes de gerenciamento e administração. defensores. aumentar o número de juízes.000 habitantes. se contarmos os cargos de juiz que estão vagos. no Brasil temos. de população estável e de economia já desenvolvida.) e gente para realizar o serviço da justiça (juiz. Em países como a Itália e a França. oficiais de justiça etc. todavia. Enquanto na Alemanha tem-se um juiz para cerca de 4. Recordo-me de ter.

em curso na mais distante comarca ou no tribunal. o que permitiu. de família etc. Criou um Fundo Especial destinado a cobrir as despesas operacionais e de investimentos do Judiciário.66%). Na justiça comum . No primeiro grau os resultados da justiça fluminense são também satisfatórios.498.501 (87. Não obstante o expressivo aumento de recursos a cada ano. Temos hoje praticamente quatro instâncias. 100. e tiram a relevância da sentença ali prolatada.processos recebidos 74.551 e julgados 78.varas criminais.25%. No ano de 2002 entraram (tombados) 252. o Tribunal melhorou o seu desempenho. como mostram os números que seguem. Essa reforma . em 2001 o número de processos recebidos subiu para 67. No ano de 2003 o número de ações distribuídas (tombadas) subiu para 296. em 2002.721. como já registrado.71 %). enquanto na justiça fluminense essa distribuição é em tempo real e não há processos represados. . cíveis. informatizar toda a justiça.715 (97.914 e foram julgados 50. Em 1999 foram recebidos 51. no tempo médio de 172 dias entre a autuação e a sentença. isto é. mas foram julgadas apenas 313.492. foram julgados 83. No que diz respeito à produtividade.250 e foram julgados 65. foram recebidos 83.424 processos e julgados 46.958 (105.[p. pode ser feito pela internet de qualquer parte do país. cuja reforma é realmente imprescindível para viabilizar o funcionamento do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça. novo aumento .91 %). no primeiro e no segundo grau. de sorte que o acompanhamento de todo e qualquer processo.782 e foram julgadas 265. instalar centenas de novas varas e juizados especiais por todo o Estado.348 ações nos juizados especiais civis. os resultados são também surpreendentes.498 (100.285 processos autuados no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no ano de 2003 (recursos e processos originários).25%).700. em 2003. construir dezenas de novos foros e recuperar outros tantos. mediante administração séria e competente dos recursos assim obtidos. 143] rando há quatro ou mais anos distribuição. no tempo médio de 203 dias.76%).584. e destas foram julgadas 223. Dos 83.389 (95.285 processos e julgados 83. Estes resultados são ainda mais expressivos quando se tem notícia de que nos Tribunais paulistas existem cerca de 500 mil processos espe. As causas funcionais dizem respeito ao deficiente sistema recursal brasileiro. em 2003 o número de 419. num tempo médio de 143 dias entre a autuação e o julgamento.163 (89.A Justiça do Estado do Rio de Janeiro há alguns anos vem seguindo esse caminho e já obteve resultados surpreendentes.em 2002 foram ajuizadas 346. em 2000 o número de processos aumentou para 57.19%). o que toma o tempo dos processos nos tribunais muito superior ao tempo de andamento em primeiro grau.415 ações e julgadas 340.

68. deve incluir a súmula vinculante para as decisões dos Tribunais Superiores e a argüição de relevância. hoje. Em conferência proferida na abertura do Fórum Nacional de Debates do Poder Judiciário. Há. A pesquisa revela. 71.49. em 1990. de outubro a dezembro. “Devo observar. Para por um paradeiro às procrastinações do Poder Público. o percentual de acórdãos repetitivos foi de 61.como efetivamente ocorre .88%. sentenças contraditórias entre juízes.2000). No ano de 1995. ademais. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. até o mês de março. extemada quando Presidente do Supremo Tribunal Federal (O Globo 29. Ora. propõe a edição de súmulas administrativas vinculantes. 82. responsáveis. em junho de 1997. o Ministro Celso de Mello. inteiramente aplicáveis à União Federal e às suas autarquias (inclusive ao INSS). 144] A argüição de relevância. cumpre aplicar as disposições da Lei Complementar nº 73/93. que. para impedir que enxurrada de ações banais continuem abarrotando os Tribunais. todavia. sua Excelência assim colocou a questão. em 1994. 88. em 1995. o STF praticamente limitou-se a repetir decisões já proferidas. como autorizado pela Lei Complementar n° 73/93. virtualmente inviabiliza o Supremo Tribunal Federal e . que: em 1988. opondo resistência estatal injustificada e arbitrária a pretensões legítimas deduzidas por cidadãos de boa-fé. que. muitas vezes agindo como improbus litigator.83%. na opinião do Ministro Carlos Mário Velloso. isso não é racional e não ocorreria se as súmulas tivessem efeito vinculante. Isso evitaria liminares. por sua vez. enorme resistência à adoção da súmula vinculante ao argumento de que ela atentaria contra a liberdade de julgar do juiz. ainda. repetição interminável de ações em tomo de matérias já julgadas e recursos protelatórios. em 1991.90%. pelo menos até o mês em que se limitou a pesquisa.processual. pelo excesso de litigiosidade recursal. aos quais ficaria reservado o julgamento de matérias de alta indagação jurídica e de grande interesse social. em 1989. useiro e vezeiro em postergar o cumprimento de decisões judiciais.na atuação processual compulsiva do Poder Público. A súmula vinculante obrigaria a justiça de primeiro grau a aplicar a jurisprudência do tribunal superior sobre determinadas questões. 50.36. portanto. ainda na visão do ex-presidente do Supremo. Pesquisa realizada no final de 1995 revela dados inquietantes: no período de outubro de 1988 a março de 1995.40%.32% dos acórdãos proferidos pelo STF foram repetitivos. [p. desnecessárias. em 1992. serviria de filtro para evitar que questões irrelevantes cheguem aos tribunais superiores. se a causa real do congestionamento do aparelho judiciário reside .08.90%.38.15%. em grande parte.54%. em 1993. sem prejuízo da adoção de outras soluções processuais.41%.

ao menos enquanto se pretender que vivamos num Estado de Direito Democrático” (O Globo. porque na medida em que o órgão controlador se desviasse de suas finalidades.a União Federal e as suas autarquias não mais insistirão em teses jurídicas rejeitadas pelo STF ou pelo STJ. órgão nacional de planejamento e controle do Judiciário.09.1999). visitou na prisão José Rainha. o que constitui um atentado ao princípio da autonomia dos poderes e. [p. deplora iniciativas que pretendem misturar questões de administração . nas questões objeto da jurisprudência iterativa dos tribunais uma vez editada a súmula administrativa vinculante . 145] Não estamos falando de um órgão de Controle Externo do Judiciário.o Superior Tribunal de Justiça. Presidente da Câmara dos Deputados.03. em nada contribuirá para o aprimoramento do Judiciário. ao próprio Estado Democrático de Direito. que também visitou Rainha na prisão. líder do Movimento dos Sem Terra (MST). Sim. viajando num jatinho da Força Aérea Brasileira (FAB). seria um centro de debates destinado a pensar e repensar continuamente o Judiciário. mas investigar sentença.” Entre as causas estruturais podemos apontar a falta de um Conselho Nacional de Administração da Justiça. além de condenável. que pretensões legitimamente manifestadas pela parte privada sejam atendidas. O Ministro Sepúlveda Pertence. e assim por diante. obras irregulares e gastos . até mesmo na própria instância administrativa. é controlar as decisões judiciais. permitindo. 28. eficiente e com funcionamento permanente. em matéria de caráter administrativo.nepotismo. na solução dos problemas gerados pelo congestionamento do aparelho judiciário. 13.2003). tributário ou previdenciário. admite que o Judiciário tem deficiências. . Ora. O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. “Isso é absolutamente inadmissível. Esse tipo de controle. estaria a requerer a existência de órgão que lhe fosse superior. ad infinitum.com sentenças judiciais. talvez a curto prazo. desde logo. aproveitaria as experiências bem sucedidas de outros lugares. assessorado por técnicos de várias áreas. pois. a aplicação desse instrumento legal certamente refletir-se-á. enfim. defende uma reforma ampla. como se apregoa com tanta veemência. disfarçadamente. A criação de um órgão controlador do Poder Judiciário levaria. por via de conseqüência. de maneira positiva. à criação de um outro órgão para controlar o controlador. Esse órgão. O disfarce caiu quando o deputado João Paulo Cunha. por sentença do Juiz Teodoro Sampaio. formularia alternativas administrativas. controlaria o bom funcionamento da atividade judicial. dotado de estrutura leve. desse modo. ex-presidente do STF. condenado por formação de quadrilha e invasão de propriedade. traçaria as políticas administrativa e financeira do Judiciário. não. porque o que se pretende com tal órgão. na ocasião criticou duramente o juiz e disse que suas sentenças reforçam a necessidade de controle externo do Judiciário (O Globo.

[p. se fundam no tripé integrados por sua consagração legislativa. a ele se sobreponha? De que natureza seria esse órgão? Ou será mais um poder da República? São pontos a refletir e que evidenciam. a estrutura otimizada de uma instituição será sempre a que a capacite para melhor desempenho do que a ela será cometido. e o grau de incapacidade para elas mesmas estará assinalando o cumprimento de funções latentes alijadas daquelas. 22. freqüentemente de alto nível. pela previsão dos meios para reclamá-los e pela estruturação do setor estatal que tome efetivas as reclamações. pp. na medida em que sua debilidade e dependência não lhes permitem desempenhar eficazmente a função delimitadora que requer a consolidação do espaço democrático. senão a desnecessidade do órgão controlador. sobre os conflitos que comprometem direitos e sobre suas soluções e meios de preservá-las. faz algumas colocações que merecem ser transcritas no encerramento deste capítulo: “Qualquer instituição deve cumprir determinadas funções e sua estrutura otimizada dependerá da clara atribuição prévia dessas funções. 21. 147] . ainda menos definidos serão seus modelos estruturais. a realização tardia dos objetivos da justiça ou até mesmo a sua ineficiência. as deficiências infraestruturais do Judiciário fatalmente continuarão acarretando o retardamento dos julgamentos. muitas vezes. um dos maiores nomes do Direito Penal na América Latina. em notável trabalho sobre o Poder Judiciário. 146] A relação entre a estrutura institucional e as funções (manifestas e latentes) é indissolúvel: a estrutura indicará a sua capacidade de desempenho das funções manifestas. acertos e desacertos. Ed. o desprestígio e a perda de confiança no Judiciário por parte da coletividade. cit. quer dizer. a volta à justiça privada. [p.Como. Os direitos. Quando o que lhe é cometido não seja bem definido. as estruturas judiciárias latino-americanas são inadequadas para assumirem as demandas de uma democracia moderna. mas existe uma notória disparidade entre este nível teórico e aquele que trata das instituições destinadas a efetivar essas soluções. provocando. feita pelas próprias mãos. e a busca de outros meios para se conseguir justiça. sem ter prerrogativas do Judiciário. portanto.. Enquanto não forem feitas as reformas necessárias. aumenta o perigo para todo o sistema democrático” (ob. Temos elaborado complexas teorias. de qualquer natureza. Na medida em que se amplia a distância entre a função latente ou real e as demandas sociais. Rev. O insigne jurista Eugênio Raul Zaffaroni. a sua descaracterização institucional. Em síntese. dos Tribunais. 29 e 34). crise. criar-se um órgão que.

tanto no aspecto técnico como no moral. Nesta parte trataremos dos sistemas de escolha dos magistrados. há ainda duas questões importantes a serem abordadas. citado pelo Prof. principalmente quando está em jogo a vida ou a liberdade de um ser humano. o problema do pessoal condiciona os demais. e na próxima examinaremos as razões sociais das garantias constitucionais dos magistrados. mais que em outras instituições. Sistema do concurso público.” . “Mais vale um juiz bom e prudente do que uma boa lei”. 1959. tomo I. deve o juiz ser detentor de um caráter impoluto e de uma personalidade ajustável à função. diz o Código Geral da Suécia de 1734. Alcino Salazar: “A justiça vale o que valem os juízes. dar a palavra final nos conflitos de interesse. é preciso alguém altamente qualificado. até com um pouco de poesia. Além de conhecedor do direito. Sistema da nomeação. Milão. Perfil da magistratura brasileira. uma lei boa de nada serve. é quase uma função divina.Capítulo XII SISTEMAS DE ESCOLHA DOS MAGISTRADOS Sistema eletivo.Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica -. **** Dentro do tema examinado no capítulo anterior . p. Acreditamos já ter ficado demonstrada a importância da função desempenhada pelo juiz: decidir as causas que são levadas à sua apreciação. para o exercício de uma função pública assim tão relevante. Evidentemente. constante dos anais do Primo Congresso Internazionale [p. pois na magistratura. como tem sido dito. fazendo valer o direito aplicável ao caso. porque ele a verga e a toma injusta a seu modo”. 65. “Com um juiz mau e injusto. Julgar. O sistema utilizado no Brasil. 149] dei Magistrati. Aprimoramento do nosso sistema. Expressa ainda a relevância do tema o pensamento do Magistrado François Gorphe.

já não o fazem mais e têm-se aproximado dos estados da União Européia.Em verdade. a independência e a dignidade da magistratura. lá existem quatro tipos de escolhas de juízes estaduais: a) nomeação pelo chefe do Executivo com prévia aprovação no Legislativo. Costuma-se apresentar como sua principal vantagem o fato de ser democrático. no exercício do soberano direito do voto. 302). o da nomeação e o do concurso público. elogiável ou iníqua. 64. o que seria a função de julgar exerci da por alguém que não conheça o direito ou que não tenha os inerentes requisitos morais? Daí a importância sociológica da questão ora em exame. Democrático porque é o próprio povo. sob pena de se instituir o absurdo. sobretudo da França e Portugal. que o adotavam. Os países da antiga cortina de ferro. produtiva ou prejudicial. tal como os seus govemantes e legisladores. há três que procuraremos destacar: o da eleição. Pelo sistema eletivo os magistrados são escolhidos através de votação direta. Pouco oneroso porque as despesas com uma campanha eleitoral correm normalmente por conta do candidato ou do seu partido. não tanto pelo seu conteúdo específico. Na verdade. SISTEMA ELETIVO Dentre os vários sistemas existentes e adotados por diferentes países para a seleção dos seus magistrados. [p. que escolhe os seus juízes. em busca de orientação sobre critérios de seleção e formação de magistrados. Surge então a questão: como escolher o magistrado? Qual o critério seletivo mais eficiente? Qualquer empresa de certo porte conhece a importância de se ter a pessoa certa no lugar certo e por isso gasta tempo e dinheiro na seleção e treinamento do seu pessoal. O sistema de eleição para a Magistratura está em pleno desuso no mundo inteiro. recaindo a escolha sobre aqueles que mereceram a preferência popular. já que de uma boa seleção dependerão grandemente a eficiência. Se até mesmo para o exercício das funções mais simples é indispensável ter certas qualificações profissionais e morais. Rápido porque em um mesmo dia podem ser eleitos todos os juízes de um estado ou mesmo do país. a Justiça Federal não adota o sistema eleitoral para escolha de seus juízes. E não são mais todos os 50 estados da Federação a adotarem o sistema de eleições diretas. a norma jurídica tomar-se-á boa ou má. p. 1970. Lições de Direito Constitucional. 150] Nos Estados Unidos. porém antes e acima de tudo pela própria interpretação que o magistrado lhe imprimir (Rosah Russomano. rápido e pouco oneroso para os cofres públicos. tal como os membros do Legislativo. b) nomeação pelo .

ou teriam recursos para custeá-la. É preciso lembrar que os juízes estaduais americanos não têm carreira: apontados ou eleitos para uma county (comarca). acreditamos que a eleição dos magistrados apresentaria graves inconvenientes.” O comprometimento [p. Como bem argumenta Emílio Rabosa: “Nos postos de caráter político. p. 65. os melhores nem sempre estariam dispostos a enfrentar os percalços de uma campanha eleitoral. e com isto desagrada muitas vezes os ricos e poderosos. diz o seguinte: “No século XIX e no começo do XX os partidos americanos tomaram freqüentemente a forma de máquinas manipuladas por políticos desonestos que tratavam de assegurar a impunidade mediante a simultânea eleição do juiz. Duverger. Mas se o juiz necessitar de votos para se eleger ou reeleger-se. estará sujeito a todo tipo de pressões do seu eleitorado ou em nome dele. 203). podendo ser reconduzidos ou reeleitos para o mesmo posto. Além disso. Exige imparcialidade. que são os que se conferem por eleições. o que a toma totalmente desaconselhável. Paris. Em termos de Brasil. ou encontrariam apoio particular à sua candidatura. ali ficam até o final de seu mandato (que é variável). independência. é um vício degradante. 1980. em razão das graves distorções que ocorrem na execução de uma eleição direta. referindo-se aos juízes eleitos. Deve dar ganho de causa a quem tiver direito. perdendo a imparcialidade e a segurança necessárias ao julgador. é constantemente divulgado pela imprensa. 151] econômico dos parlamentares para financiar suas onerosas campanhas eleitorais. a lealdade ao partido é uma virtude.chefe do Executivo entre nomes constantes de lista formada por comissão independente de alto nível. c) eleição indireta pelo Legislativo. tomando-se impopular. Isso no Judiciário seria o caos. Não há promoções ou remoções. conforme já assinalado quando tratamos da escolha dos membros do Legislativo. mas no cargo de juiz. nem sempre se elegem os melhores. sem falar nos compromissos que terá que assumir com pessoas e grupos para conseguir eleger-se. Com efeito. SISTEMA DA NOMEAÇÃO Em alguns países os magistrados são escolhidos mediante livre nomeação do chefe do Executivo. Max Weber também recorda o baixíssimo nível técnico desses juízes e o maior prestígio dos juízes federais. sempre que tiver que decidir questões relevantes e de repercussão social. Deve-se ainda levar em conta que a função de julgar é muito diferente da função política. do chefe de polícia e dos administradores locais” (Institutiones Politiques. O juiz não pode procurar agradar a ninguém com suas decisões. d) eleição popular. Aponta-se como vantagem do sistema de nomeação o fato de ser rápido e . descomprometimento de toda a sorte.

pouco oneroso, visto que em um só listão podem ser nomeados tantos juízes quantos forem necessários. Há, todavia, tantos inconvenientes nessa forma de seleção que, se adotada em nosso país, geraria o caos. De todos é sabido que, quando vigora o critério da livre escolha pelo Executivo, só conseguem ser nomeados aqueles que possuem pistolão, amizades, conhecimentos etc. Disso resulta ser esse sistema antidemocrático, posto que não dá idênticas oportunidades a todos, beneficiando sempre os mesmos afilhados e apadrinhados. Por essas mesmas razões nunca se consegue escolher os melhores, já que os epistolados são sempre aqueles que menos qualidades possuem, procurando vencer na vida sem fazer força. E ainda que assim não fosse, quer dizer, mesmo que o chefe do Executivo estivesse empenhado sinceramente em escolher os melhores, dificilmente conseguiria porque, não sabendo quem são os melhores, teria que se valer da indicação dos seus assessores. E é evidente que, por mais fraco, incapaz e desqualificado que seja o pretendente, quem o indica sempre o apresenta como o melhor elemento do mundo - o mais honesto, inteligente, capaz, induzindo a erro o nomeante. A tudo isso se sobrepõe o fato de tirar o sistema da nomeação, a independência do juiz com relação àquele que o nomeou ou influenciou para a nomeação. Deixa o magistrado numa situação de subserviência ou pelo menos no dever de reconhecimento, prejudicial à função de julgar. A sua nomeação custar-lhe-á bastante caro e ser-lhe-á cobrada com juros e correção monetária, devidamente lembrada sempre que necessário.

66. SISTEMA DO CONCURSO PÚBLICO

O ingresso na magistratura por este sistema se faz através de concurso público de provas e títulos, preenchendo-se as vagas existentes com aqueles que melhor forem classificados. [p. 152] Tem como desvantagem o fato de ser demorado e bastante oneroso: exige uma comissão de alto nível para realizar o concurso e muito tempo no processo de inscrição, exame da documentação de cada candidato, aplicação e correção das provas escritas e realização das provas orais. Entretanto, oferece vantagens que nenhum outro sistema apresenta, dentre os quais podemos destacar:

1) É um sistema democrático, pois oferece iguais oportunidades a todos. Desde que o candidato preencha os requisitos estabelecidos no regulamento do

concurso, poderá inscrever-se e concorrer a uma vaga, seja ou não conhecido, de família ilustre ou humilde. 2) Enseja a escolha dos melhores, tanto do ponto de vista técnico e intelectual, como do moral. Ao fazer a inscrição, deverá o candidato juntar documentos que provem o preenchimento dos requisitos estabelecidos no regulamento do concurso.

Além do mais, são solicitadas informações sobre o concorrente a pessoas conhecidas no mundo jurídico e aos próprios órgãos oficiais, só sendo deferida a inscrição depois desse exame preliminar. As provas escritas, elaboradas por examinadores de alto nível, especialistas em cada matéria, são corrigi das sem identificação, de modo a evitar qualquer protecionismo. Somente concorrem às provas orais aqueles que não forem eliminados nas escritas; os aprovados nas provas escritas e orais terão computados então os pontos obtidos nos títulos, sendo nomeados os melhores classificados no cômputo geral dos pontos obtidos nas provas e títulos. Como se vê, com esse longo e rigoroso processo seletivo, é mais provável que se consiga escolher os melhores. Em terceiro lugar, destacamos que o sistema do concurso público apresenta ainda a vantagem de assegurar ao magistrado a necessária independência para julgar. Não tendo a sua nomeação dependido do prestígio ou influência de quem quer que seja, mas sim da sua própria capacidade, inteligência e esforço, não deve favores a ninguém, podendo decidir os conflitos de interesse que lhe vierem às mãos com total imparcialidade. Ninguém tem nada a lhe cobrar, mas muito a admirar, respeitar e confiar, em face da cultura que revelou possuir ao ser aprovado em rigoroso concurso seletivo. O concurso público é o sistema utilizado nos principais países da Europa, ora como meio para ingressar na escola da magistratura, ora para ingresso direto na carreira. [p. 153] Em Portugal, a seleção dos magistrados é feita por concurso público no excelente Centro de Estudos Judiciários, onde os aprovados são preparados por 23 meses, antes de assumirem a função judicante. Na França, os candidatos a juiz ingressam por concurso na École Nationale de Ia Magistrature, e ali recebem formação inicial de dois anos e sete meses. Na Itália, os pretendentes à Magistratura fazem provas escritas e orais disputadíssimas e, depois, seguem um curso de tirocínio de no mínimo seis meses, em Frascatti.

Na Espanha, com a sua pioneira Escuela Judicial, os aspirantes a juiz têm de se submeter a um concurso público de dissertação oral, e, em seguida, fazem um curso de dois anos em Barcelona. N a Alemanha, também não há eleição para juiz, nem concurso público. As nomeações levam em conta os graus obtidos nos exames finais das faculdades de Direito. Na Austrália, os juízes são escolhidos e nomeados pelo governador geral (representante da rainha), assessorado na escolha pelo Conselho Federal, entre nomes de pessoas altamente qualificadas. Deixando a Europa e indo para o Oriente, veremos que no Japão os futuros magistrados têm de vencer um vestibular rigorosíssimo no Instituto Jurídico de Treinamento, onde estudam por dois anos, após os quais, se aprovados, serão nomeados. Na verdade, o que se vê pelo mundo afora é uma grande preocupação com a seleção dos juízes e, tendo em vista a peculiaridade da função judicante, não se recomenda o processo eleitoral, mas sim o concurso público, que é tão democrático quanto as eleições.

67. O SISTEMA UTILIZADO NO BRASIL

O ingresso na magistratura de primeira instância, por força de dispositivo constitucional, no Brasil faz-se através de concurso público de provas e títulos, o que revela termos adotado o melhor sistema seletivo. A escolha dos magistrados integrantes dos tribunais superiores, entretanto, isto é, os Ministros do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal Militar, do Tribunal Superior do Trabalho e do Superior Tribunal de Justiça, são nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pelo Senado Federal. Temos assim um sistema misto, integrado por concurso público de provas e títulos para a seleção dos magistrados de primeira instância, e [p. 154] por nomeação pelo Chefe do Executivo para os ministros dos tribunais superiores. Nos Tribunais de Justiça dos Estados, bem como nos de Alçada, um quinto dos membros são também escolhidos por nomeação do Chefe do Executivo Estadual (Governador), mediante lista tríplice organizada pelo respectivo Tribunal de Justiça; metade das vagas decorrentes do quinto são para candidatos oriundos da OAB, isto é, advogados militantes, e a outra metade para membros do Ministério Público, cujos órgãos superiores encaminham ao Tribunal de Justiça uma lista sêxtupla para a elaboração da lista tríplice. O objetivo do quinto é enriquecer os Tribunais de Justiça e de Alçada com elementos de destacada cultura jurídica e elevada envergadura moral, militantes dos quadros

do Ministério Público ou da OAB, trazendo para os referidos tribunais uma mentalidade mais eclética, o que lamentavelmente nem sempre ocorre em face das influências políticas que se verificam no momento do preenchimento das vagas que ocorrem.

68. APRIMORAMENTO DO NOSSO SISTEMA

Embora o sistema do concurso público seja o mais recomendável, conforme já exposto, comporta alguns aprimoramentos para permitir a formação de um quadro de magistrados mais eficiente. O juiz, na pureza desse sistema, tão logo aprovado no concurso e nomeado, assume imediatamente as suas funções e começa a despachar e decidir em centenas de processos, sem nunca dantes ter feito isso, encontrando uma série de dificuldades, perplexidades, dúvidas etc. Todos que já passaram por essa experiência sabem do que falamos. A experiência é ainda mais dolorosa quando o juiz, começando a sua carreira numa comarca lá do interior, fica praticamente sozinho, isolado, sem ter a quem recorrer para uma troca de idéias. Isso evidencia que, para o ingresso na magistratura, não é bastante o concurso de provas e títulos, que apenas apanha a formação cultural do candidato; mas não pode penetrar mais e aferir-lhe o pendor, a vocação, o interesse, a capacidade específica para judicar. A função do juiz, por outro lado, envolve uma série de outras atividades, principalmente no interior, onde é a principal autoridade da comarca, para as quais não foi preparado. O juiz mantém relacionamento com autoridades políticas (prefeito, vereadores), policiais (delegado) e com povo em geral, necessitando em todos esses contatos ser necessariamente hábil para, [p. 155] sem enfraquecer sua autoridade e sem se deixar envolver, portar-se com gentileza, educação, polidez. Nada disso ele aprende em concurso ou nos livros de direito, razão pela qual entendemos que, após o concurso e a nomeação, deveria existir um estágio profissional de pelo menos quatro meses. O novo juiz, além de assistir a palestras sobre matérias ou questões relacionadas com os mais variados aspectos do exercício de sua profissão, começaria a exercer a judicatura como auxiliar, ao lado de outro juiz mais experiente na comarca da capital. Nos meses de estágio o juiz passaria pelas principais varas (cível, criminal, família, juizados especiais), de modo a adquirir uma certa experiência em todas as áreas do direito, para depois enfrentar a atividade sozinho em sua comarca. Melhor do que isso, em nosso entender, seria uma escola judicial instituciona1izada de âmbito nacional que estabeleceria diretrizes, programas, políticas de

ensino e orientações a serem executadas por todas as escolas de magistratura estaduais e federais, com o que se conseguiria uma certa uniformidade na formação inicial dos magistrados do país. Essa escola nacional deveria também programar cursos de aperfeiçoamento para os magistrados mais antigos, como condição para a promoção por merecimento, cursos esses que poderiam ser ministrados nas sedes das escolas locais, de modo a facilitar a freqüência e reduzir os seus custos. A crescente expansão da atividade humana, a par de sua constante sofisticação, muito exige do juiz, a cuja decisão nenhuma parcela do complexo social é subtraída. É imperioso, portanto, que o juiz se especialize, se adestre e se prepare. O aperfeiçoamento ressalta a posição da ciência jurídica moderna pela ampliação dos poderes jurisdicionais, pois a insaciável diversificação do fazer humano e seus requintes tomam inaprisionável por regras fixas e rígidas a atuação jurisdiciona1 necessária à devida composição do litígio. Se o Judiciário se toma essencial à convivência social, se o seu papel será cada vez mais importante neste século XXI, somente com juízes à altura dessa missão teremos o Judiciário que a sociedade espera e exige. Destarte, sobretudo quando os novos juízes são cada vez mais jovens no mundo do civil law, quando os sistemas jurídicos passam por profundas mudanças legis1ativas e uma nova mentalidade se reclama, toma-se imprescindível investir na seleção e no aprimoramento dos magistrados, criando-se boas escolas nos moldes das admiráveis e válidas experiências que o mundo civilizado vem presenciando. O Congresso que reuniu magistrados em Roma, em 1958, concluiu pela recomendação de que se realizem promoções para aperfeiçoar o tirocí- [p. 156] nio judiciário, incentivando a pesquisa e o estudo, selecionando aptidões, estimulando a especialização técnica constantemente. Necessário se faz assinalar que no Brasil, após a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 135, de 14.03.1979), timidamente começamos a dar os primeiros passos nesse sentido. Algumas das disposições (arts. 78, § 1°; 80, § 1°, 11; e 87, § 1°) estabelecem que a lei poderá exigir dos candidatos, para a inscrição no concurso de ingresso à carreira, título de habilitação em curso oficial de preparação para a magistratura, e condicionar a promoção por merecimento à freqüência, com aprovação, em curso ministrado por escola oficial de aperfeiçoamento de magistrados. Timidamente, como se vê, pois a disposição legal não passou de uma simples sugestão para ser aplicada se, quando e onde for possível, já que nenhum recurso material ou dotação orçamentária foi criado para tal fim. A Constituição de 88 contém disposição idêntica no seu art. 93, n, c.

Graças ao esforço pertinaz da Associação Brasileira dos Magistrados, criou-se a Escola Superior da Magistratura, que já tem prestado relevantes serviços à magistratura brasileira com a realização de vários cursos de aprimoramento jurídico, assistidos por juízes de quase todos os estados. Esperamos que a feliz iniciativa continue a receber a simpatia e o apoio de todas as autoridades e instituições relacionadas com o Judiciário, até transformar-se na Escola Nacional da Magistratura Brasileira, com cursos de preparação e de aperfeiçoamento de magistrados, funcionando de forma estável e permanente. Tudo por uma magistratura melhor e mais independente. Registre-se, por derradeiro, que muito se avançou neste ponto no âmbito dos Estados. A maioria já criou a sua Escola da Magistratura, em alguns Estados com organização modelar e folha de serviços relevantes. A Escola da Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ) mantém um curso de preparação para o concurso de ingresso na magistratura de alta qualidade teórica e prática, ministrado em cinco semestres (dois anos e meio), durante os quais o aluno pode também estagiar nos diversos órgão julgadores (vara cível, criminal, família, juizados especiais, câmaras do Tribunal de Justiça), fazendo minutas de despachos, decisões, sentenças e participando de audiências, sempre orientado por um magistrado. Aos novos juízes, tão logo nomeados, a EMERJ ministra um curso de iniciação de quatro meses, com palestras e debates pela manhã, ministrados por magistrados e professores experientes, sobre os mais variados aspectos teóricos e práticos da função judicante; à tarde exercem a judicatura como juízes auxiliares em varas cíveis, criminais, de família e juizados especiais, um mês em cada lugar, sempre orientados pelos juízes titulares das respectivas varas. Desse [p. 157] modo os novos juízes conseguem assimilar boa experiência antes de irem exercer a judicatura nas comarcas do interior. Prossegue a atuação da EMERJ no estágio de vitaliciamento, durante os vinte meses seguintes. Além de acompanhados e orientados por um Conselho de Vitaliciamento, os juízes vitaliciandos assistem na EMERJ pelo menos um seminário por mês, de oito horas, sobre temas variados, jurídicos ou não, escolhidos por uma comissão de magistrados. Por último, a EMERJ ministra cursos de aperfeiçoamento aos magistrados em atendimento a uma resolução do Órgão Especial do Tribunal de Justiça que os instituiu como requisito à promoção ou remoção por merecimento. Dessa forma a EMERJ vem efetivamente participando da formação e aprimoramento dos magistrados fluminenses, desde a preparação para o concurso até chegarem a desembargador.

68.1. Perfil da Magistratura Brasileira

Pesquisa realizada pela Associação do Magistrados Brasileiros (AMB/IUPERJ), intitulada “O Magistrado e o Poder Judiciário - auto-análise para melhor servir” - revela que o sistema de concurso público democratiza a magistratura, permitindo que todos tenham as mesmas oportunidades e a escolha dos melhores. Eis os resultados: 56,4% dos juízes brasileiros (mais da metade) são oriundos de famílias simples, cujos pais só tinham o primeiro grau completo; 63,4% não têm nem mesmo promotores ou defensores na família; 52,2% são filhos de servidores públicos e 12,8% de funcionários de empresas, sendo que 25,8% destes correspondem a funções de baixa remuneração. A participação da mulher vem crescendo. Em 1985 apenas 16,8% dos aprovados nos concursos eram mulheres, dez anos depois o percentual subiu para 28,7%. Atualmente, o número de mulheres já é igual e até superior ao dos homens, o que evidencia que o concurso afasta qualquer tendência discriminatória, oferecendo à mulher reais condições de igualdade com o homem. O Centro de Estudo e Pesquisa da EMERJ levantou o perfil da Magistrada Fluminense, por meio de pesquisa intitulada “Quem Somos”, recentemente concluída. Os resultados discrepam em parte daqueles que foram obtidos na pesquisa AMB/IUPERJ. As questões referentes à origem social demonstram que os magistrados fluminenses, em sua maioria (53%), são filhos de pais com formação de nível superior. Quantos às profissões pater- [p. 158] nas, preponderam os da área jurídica, tais como advogados, membros do Ministério Público, Defensoria, Procuradoria e Magistratura (18,2%). Verificou-se também significativa presença de outros familiares dos magistrados nas áreas jurídicas, principalmente advogados (49,9%). Conclui-se que os magistrados fluminenses são predominantemente originários de famílias de padrão cultural e econômico elevado, em razão do Estado do Rio de Janeiro ser economicamente desenvolvido e, conseqüentemente, com maiores possibilidades de educação e trabalho. Entretanto, não se pode desprezar o número de magistrados oriundos de famílias de pouca escolaridade (23,6%) e atividades profissionais exercidas em setores considerados de baixa renda (17,4%). A participação da mulher na magistratura fluminense é mais expressiva que no âmbito nacional; entre os juízes 46,1%, entre os desembargadores 14,3%, o que evidencia uma crescente feminilização, fato relevante do ponto de vista sócio-cultural e da análise da mudança social.

Uma das mais constantes críticas à magistratura é a juvenilização dos seus quadros. Alega-se que os juízes estão ingressando cada vez mais jovens na magistratura, sem a maturidade e experiência indispensáveis para o exercício do cargo. Há até projeto no sentido de exigir um tempo mínimo de cinco ou mais anos de formado em Direito para se permitir a participação em concurso para juiz. Não se nega que o juiz tem que ter maturidade e experiência para exercer a magistratura; o que se questiona, entretanto, é que essas qualidades sejam necessariamente atributos da idade ou do tempo de formado. Há velhos imaturos e formados há muitos anos sem experiência alguma. A questão da maturidade e da experiência pode ser superada com vantagem pelas Escolas da Magistratura por meio dos cursos de preparação e estágio de vitaliciamento, cursos de aperfeiçoamento e outras providências. Por outro lado, as pesquisas revelam que a tal juvenilização não é assim tão grande. Apenas 11,6% dos magistrados brasileiros têm até 30 anos de idade; 35,5% estão na faixa de 31 a 40 anos; 31,5% entre 41 e 50 anos; 17,1% entre 51 e 60 anos; 4,7% entre 61 e 70 anos (pesquisa AMB/ IUPERJ). No Estado do Rio de Janeiro os números não discrepam neste ponto. Até 30 anos, 13,4%; de 31 a 40 anos, 32,8%; de 41 a 50 anos, 18,8%; de 51 a 60 anos, 20,2%; de 61 a 70anos, 13,5%. Nos últimos 10 anos a média de idade dos juízes fluminenses que ingressaram na carreira foi de 31,6 anos. O ingresso de jovens na magistratura tem como vantagem permitir ao juiz dedicar quarenta ou mais anos de efetivo trabalho à Justiça. A pesquisa realizada pela EMERJ revelou que a magistratura é a classe de servidores [p. 159] públicos que trabalha mais tempo e se aposenta mais tarde. A idade média de aposentadoria dos juízes é de 60 anos (entre os desembargadores 69 anos). O tempo médio de serviço dos juízes na época da aposentadoria é 41 anos (entre os desembargadores 48 anos). Mais de 15% dos juízes têm tempo para se aposentar, mas continuam trabalhando normalmente; entre os desembargadores 89% têm tempo para se aposentar, sendo que dos desembargadores que integram o Órgão Especial (os vinte e cinco mais antigos) 100% já poderiam estar aposentados. Os dados acima sublinham com veemência a integral e longa dedicação da magistratura ao serviço ativo, e que não tem como projeto profissional a aposentadoria. Levando-se ainda em conta o número de juízes que têm curso de pós-graduação (52,7%), sendo 21,0% de mestrado, 5,7% de doutorado e 18,4% de especialização, conclui-se que a magistrada fluminense é também detentora de elevado padrão jurídico. Em pesquisa divulgada pelo O Globo em 19.08.2000, o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil conservador. Em outra pesquisa (O Globo de 17.08.2003),

Extremamente complexo é o processo de formação de uma decisão judicial. Crê exprimir o que pensa. coordenada pelo Instituto de Estudos Econômicos. ideológicas. consciente ou inconscientemente. os valores consagrados pela nova ordem jurídica brasileira: a eticidade. Sociais e Políticos de São Paulo (IDESC). Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Entre os juízes com menos de 40 anos. nem pode fazer uma revolução social com a caneta. a justiça social deve prevalecer numa sentença. a partir da Constituição de 1988. à boa-fé e à equidade. não pode estar avançando a seu tempo. produto do meio. é condicionado pelas relações sociais e exprime uma comunidade de propósitos”. Rio de Janeiro. tudo dependendo do ângulo pelo qual os resultados são analisados. a ponderação.agora realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O indivíduo. A mesma norma recebe tratamento diferenciado de juízes e tribunais porque a decisão judicial . Esse perfil foi considerado pela pesquisa como prejudicial à economia porque deixa os investidores temerosos.1%. Quem tem razão? Ninguém. Mas o juiz. 160] Veja-se que na pesquisa do IPEA as áreas em que os juízes defendem prioritariamente a questão social em detrimento dos contratos são. 42. realmente. entre os magistrados de São Paulo. previdência. por mais preocupado que esteja com a justiça social. o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil liberal. mais do que respeitar contratos. Cláusulas contratuais abusivas não podem prevalecer. a1ertava Carlos Maximi1iano. [p. seguida pelo Código do Consumidor e agora pelo novo Código Civil. Para o investidor e os agentes da área econômica em geral. para o sociólogo esse mesmo juiz é conservador porque não adota integralmente os seus pontos de vista sobre a questão social. culturais. inclusive a opinião pública. sociais. na formação da decisão judicial. mas esse próprio pensamento é socializado. Não é apenas uma decorrência do conhecimento jurídico do magistrado. 46.6%.6%. o índice é de 70%. O certo. as mais relevantes e necessárias: trabalhistas. influenciam. é prevalecer o equilíbrio.7% consideram que. “inclina-se num ou noutro sentido de acordo com o seu temperamento. É por isso que se diz não existir norma jurídica. uma vez que 78% dos magistrados preferem basear suas decisões em questões ligadas à justiça social do que no respeito aos contratos. a razoabilidade. Circunstâncias pessoais. 54. entretanto. a socialidade e a efetividade. da hereditariedade e da educação. Está correta a magistratura quando privilegia a justiça social porque essa é a ideologia. o juiz brasileiro é liberal porque contraria os seus interesses. não mais admite o uso abusivo do direito de forma contrária aos seus fins sociais e econômicos. senão norma jurídica interpretada. O nosso Direito. 83. meio ambiente.

criando a justa regra jurídica para cada caso. Deve o juiz obediência à lei mesmo que ela seja injusta? Já ficou destacado que o nosso sistema jurídico. uma decisão humana. pondera o Ministro Carlos Alberto Direito. set. crenças. mas também voz da sociedade. É nesse sentido que se diz ser o juiz um coautor com o legislador. órgão do Estado. uma decisão que está subordinada aos sentimentos. exatamente. Se o juiz abandona esse cenário. como qualquer ser humano. sentimentos. até que ponto está subju1gado ao ordenamento jurídico em função de suas concepções pessoais? Essa é a grande questão. vu1nerabi1idade. porque justiça e liberdade estarão limitadas ao juízo de valor de um juiz ou tribunal. E a independência do juiz está. na sua capacidade de julgar com esses elementos que participam da sua natureza racional.é. “Não pode a justiça dar respostas mortas a perguntas vivas. REsp. embora fundado na lei. deve dar eficaz aplicação à lei. O homem existe porque ele é razão e emoções. Em conclusão. 161] Nessa tarefa. Deve consultar o seu sentimento ético com o cuidado de não se afastar demasiadamente dos sentimentos médios da sociedade em geral e da comunidade jurídica em particular. uma vez que o próprio legislador reconhece a impossibilidade de tudo ser nela previsto. “ela não está. livre e social” (“A Decisão Judicial”. emoções.-dez. o juiz não é livre para fazer prevalecer o seu sentimento particular de justiça a ponto de estrapolar a moldura da lei ou de modificar os seus parâmetros.3 in fine. encastelando-se no formalismo. nem conservador. razoabi1idade. Neste ponto reportamo-nos ao que ficou dito no item 35. Se o juiz. A decisão judicial é. para deixar de dizer o direito” (Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. não é inflexível. a sociedade não terá mais nem justiça nem liberdade. o perfil do magistrado não deve ser avançado. como boa-fé. Isso permite ao juiz exercer o seu poder criador do Direito sem se afastar das diretrizes estabe1ecidas pela ordem jurídica. está sob a influência condicionante de uma série de fatores subjetivos e objetivos que não podem ser evitados. conceitos jurídicos indeterminados e cláusulas gerais. 1999). portanto. ignorando a realidade social subjacente.983/91). essencialmente. pondo-se a emitir juízos totalmente desvinculados da ordem jurídica que lhe incumbe preservar. [p. no domínio da ciência ou da técnica. eqüidade. crenças da pessoa humana investida do poder jurisdicional. Por isso utiliza. RDR nº 15. mas sim suficientemente flexível para ajustar a lei às condições concretas da sociedade. n° 4. E sendo uma decisão humana. força maior. . terá que ser um canal de comunicação entre a sociedade e o mundo jurídico. portanto. Ao mesmo tempo em que procura interpretar a consciência social. por inteiro. dignidade da pessoa humana. como vimos.

vila de 18. a Defensoria Pública e o advogado. teria sido das grandes companhias petrolíferas. publicou a seguinte reportagem: Ao folhear o Diário Oficial francês do último dia 9 de maio.Capítulo XIII RAZÕES SOCIAIS DAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DOS MAGISTRADOS A vitaliciedade: objetivo. Irredutibilidade de vencimentos. E.e envolvendo petróleo. um domingo. que acabava de ser transferido. o juiz Etienne Ceccaldi verificou. como o Ministério da Justiça insistisse. A transferência de Ceccaldi. consternado. em sinal de solidariedade a Ceccaldi. simplesmente. Abandonando a ensolarada cidade mediterrânea de Marselha. que publicaram certos detalhes curiosos sobre os processos a cargo de Ceccaldi em Marselha. onde se encontrava como juiz substituto. O ensino jurídico. 163] Mas se Bodourian foi à falência. de 16 de junho de 1976. no extremo oposto da França. na primeira grande greve de juízes da história da França. sob o título “O caso Ceccaldi”. resolveu que não iria. A revista Veja. 1. Bodourian não era nenhum paradigma de honestidade.000 habitantes perdida nas brumas da Normandia. pequeno atacadista de óleo diesel para aquecimento domiciliar. A inamovibilidade. e um de seus sócios seria preso mais tarde por tráfico de dólares falsos. Todas essas acusações. O juiz. montar manobras de dumping. de fato . como constataria mais tarde uma comissão de . segundo ele. [p. Ceccaldi deveria assumir as funções de procurador público em Hazebrouck. O Ministério Público. na semana passada.300 membros do Sindicato da Magistratura cruzaram os braços. falsificar condições de concorrências públicas e outras falcatruas do gênero. corrupção e pressões políticas que. foi à falência em Marselha. começou em 1971. seus cheques sem fundo assolavam regularmente a praça. o caso acabou chegando aos jornais. na verdade. cujos dirigentes se reuniam periodicamente para elevar preços. quando um certo Roger Bodourian. a culpa. Tão curiosos.

sua atividade não seria mais tranqüila. E em 1974.dos juízes. 164] que bem entendesse em qualquer lugar da França. assinou um protocolo com as companhias petrolíferas. graças à intervenção do prefeito socialista de Marselha. Pior ainda. Transferido para Lyon. eram absolutamente verídicas. E o caso foi justamente parar nas mãos de Ceccaldi. além de suas reclamações inúteis junto ao Ministério das Finanças. A justiça deve ser distribuída de forma imparcial. com o caso Bodourian. as forças que pressionaram por seu afastamento terão triunfado. com 39 anos. continuando seu trabalho. em que estas se comprometiam a mudar seus métodos para salvaguarda da livre concorrência. o Ministro da Justiça. Jean Lecanuet.várias delas misteriosamente fotocopiadas e reproduzidas nos jornais das últimas semanas . Obrigado na semana passada a aceitar a inédita humilhação de uma greve inteiramente ilegal. Gaston Deferre. Se não aceitasse. Ceccaldi não tardou a convocar para depor 43 dirigentes das maiores empresas petrolíferas internacionais acusadas de abuso de poder econômico. por exemplo. Bodourian tinha iniciado também um processo na Justiça marselhesa.inquérito do Ministério das Finanças. Mas ficaram por isso mesmo. Logo no seu primeiro posto. foi obrigado a entregar a seus superiores o processo . nada mais natural que um dia se visse transferido de Marselha para um outro lugar. se extraviou.inclusive o delegado mais conhecido da cidade. independentemente de quem esteja nos pólos da relação jurídica processual. com quatro filhos. obviamente. porém. Ao mesmo tempo.que logo depois. condenou um influente político governista por fraude fiscal. O caso Ceccaldi coloca em destaque vários aspectos da função de julgar que merecem especial atenção. ele já se notabilizara naquela época como competente. Para começar. que acabou mandando prender dezenas de policiais . restaria apenas o recurso definitivo de ameaçá-lo com alguma remota possessão francesa de além-mar. O problema é que. Em Marselha. então Ministro das Finanças. voltaram às mãos do mesmo Ceccaldi. examinou com tanta diligência um processo de prostituição.para que esquecesse numa gaveta qualquer o processo contra as companhias petrolíferas. Nessas condições. Em qualquer hipótese. chamado a Paris para uma reunião de doze horas no Ministério da Justiça. os autos foram miraculosamente encontrados quatro meses depois. Para desgraça do Ministério. mas impermeável a certas sutilezas da vida política. porém. Casado. mas poderia escolher a promoção [p. inclusive Paris. Ceccaldi seria efetivamente removido de Marselha. assegurando-se o . parecia inclinado a tentar uma solução de compromisso. Ceccaldi ignorou as inúmeras sugestões diretas e indiretas de seus superiores hierárquicos . apenas em 1973 o presidente Valery Giscard d'Estaing.

não são para favorecer o juiz. ou Estadual (Presidente da . 165] Em sua aplicação na vida cotidiana. indispensável é. [p. Os demais poderes estatais não podem ter sequer a possibilidade de exercer uma atuação indevida na órbita em que o magistrado atua. a sua conduta. privilégios ou regalias da magistratura como muitos pensam. que nem sempre os pratos da balança da justiça têm peso igual. Às vezes. entretanto. na inamovibilidade e na irredutibilidade de vencimentos. a fortalecer a independência funcional do Poder Judiciário. Acontece. não se deve subordinar a nenhum poder. “essas garantias traduzem a independência de ordem política que o juiz deve auferir. 69. Lições de Direito Constitucional. de um lado da demanda está alguém influente. Nenhuma autoridade ou potentado poderá ter meios de intimidá-lo ou de nortear. não pode perder o cargo a não ser por decisão judicial. 1970. Esta independência. o juiz possa fazê-lo em sã consciência. a justiça não passará de uma farsa e toda a ordem jurídica ficará comprometida. Essas garantias. representa o alicerce sobre o qual se erige a independência jurídica do juiz. Evidente que. mas sim para tomar efetiva e eficiente a função de julgar. 304). de acordo com a ordem jurídica existente. política ou economicamente poderoso. ele não se deve submeter a nenhuma autoridade. que se ache liberto de qualquer pressão. que permaneça intocável a qualquer coação. o Judiciário é um poder desarmado. ao interpretar e aplicar a lei. consubstanciadas na vitaliciedade. Visam. muito embora tenham elas que prevalecer sobre a decisão de qualquer outra autoridade. bem como a integridade do regime democrático. pelo seu conteúdo e pela sua finalidade. em princípio. salvo à força e ao prestígio da própria Lei” (Rosah Russomano. Por outro lado. Para que. Surge então a questão: Como propiciar ao Judiciário as condições necessárias para julgar com imparcialidade e dar às suas decisões a força indispensável para que sejam cumpridas? A força do Judiciário no Brasil. ainda que seja o Presidente da República ou o Governador do Estado. acima de tudo. vêm das garantias que a Constituição lhe confere. capaz de forçar uma decisão favorável ainda que o direito lhe seja totalmente contrário. a seu turno. portanto. no exercício de suas atribuições. e sua independência como Poder. p. A VITALICIEDADE O juiz.pleno exercício de qualquer direito a todo aquele que efetivamente o tiver. sem aparato material para fazer cumprir suas decisões. se essa pressão puder ser feita sobre o julgador. Isto quer dizer que em hipótese alguma o chefe do Executivo Federal. consoante a qual. mesmo de longe e veladamente.

letras a e c da referida lei. De acordo com o art. recebimento. no fato de certas autoridades dos mais elevados escalões. 93. e a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 35. submeterem-se a todas as ordens ou decisões dos seus superiores hierárquicos. I e parágrafo único. integrantes de outros poderes. somente o Tribunal a que o mesmo estiver vinculado. Se isso pudesse ocorrer com o Judiciário. de 14. Após a Emenda Constitucional n° 7. de percentagens ou custas nos processos de sua competência. 69. simplesmente para não perderem o chamado “cargo de confiança”. seja a sua decisão contra quem for. por contraste. A Constituição de 88 dispõe no mesmo sentido . O Objetivo da Vitaliciedade A razão ou objetivo da vitaliciedade é dar ao magistrado a segurança e tranqüilidade necessárias para que possa julgar sem sofrer qualquer pressão quanto ao seu cargo.arts.03. 95. [p. muito embora possa fazer isso com relação a qualquer funcionário público. . 166] A importância dessa garantia pode ser constatada. por julgar com imparcialidade e honestidade. visto que passou a ser adquirida somente depois de dois anos de exercício da magistratura (estágio confirmatório) e as hipóteses de perda do cargo tornaram-se mais numerosas. neste último caso. o magistrado pode perder o cargo em virtude do exercício de qualquer outra função. Seguro está o juiz de que. de abril de 1977. a qualquer título. item II. desde que. poderá decretar a perda do cargo. salvo por motivo de interesse público e pelo voto de dois terços dos membros do seu Tribunal. a vitaliciedade ficou um pouco mais limitada.1979). A INAMOVIBILIDADE O juiz não pode ser removido compulsoriamente de sua sede de atividade (comarca e vara). e o exercício de atividade político-partidária. ainda que estável. jamais virá a perder o cargo. salvo um cargo de magistério superior. voltaríamos aos tempos medievais e a justiça não funcionaria. 70. por mais absurdas ou arbitrárias que sejam. 26.1. Ninguém poderá ameaçá-lo por ser correto e fiel no exercício da sua função.República ou Governador) pode demitir um magistrado. VIII. Tratando-se de juiz. a demissão seja precedida de inquérito administrativo para apurar falta grave. ainda assim por decisão de dois terços dos membros.

A remoção do juiz. ou premiar outro com a remoção para um lugar melhor como meio de obter uma decisão favorável. diferentemente de qualquer outro funcionário público. muito embora estejam sujeitos aos impostos gerais e extraordinários. sempre ocupando os melhores e mais elevados postos os que mais dispostos estivessem a fazer tudo o que o “patrão” ordenar (e não a lei). Tal como a vitaliciedade. numa completa dependência econômica do Executivo. [p. acabariam a segurança. A justiça passaria a ser uma barganha de lugares. normalmente. Num país inflacionário como o nosso até bem pouco tempo. Todos os que exercem “função gratificada” sabem perfeitamente a que um servidor público se sujeita para não perder a gratificação. começa a sua carreira nas pequenas e longínquas comarcas do interior. e passa anos e anos até chegar às comarcas de entrância mais elevada ou à capital. só pode ocorrer com o seu assentimento expressamente manifestado. a inamovibilidade destina-se a garantir o exercício da função de julgar. uma das formas mais eficazes de tirar a segurança e independência de quem quer que seja. como sói acontecer em outros segmentos da administração. cumpre assinalar que a inflação pode fazer da irredutibilidade uma garantia totalmente irrisória. a irredutibilidade tem por objetivo não sujeitá-los a qualquer tipo de pressão econômica. a tranqüilidade e a imparcialidade do magistrado. 167] Com relação aos magistrados. não pode ser transferido do lugar onde exerce as suas funções. salvo na hipótese de interesse público. Se fosse possível pressioná-lo com uma transferência compulsória para que viesse a julgar dessa ou daquela forma. significa castigo tão violento quanto uma demissão. . Às vezes a transferência de uma cidade para outra. com fatais seqüelas para a sociedade. bastará que não se corrija adequadamente os vencimentos dos juízes para que em poucos anos estejam com os salários aviltados. esperamos que não volte a sê-lo. se os vencimentos dos magistrados não forem corrigidos monetariamente nos mesmos índices inflacionários. A partir da Constituição de 88 os vencimentos do funcionalismo em geral passaram também a ser irredutíveis. A IRREDUTIBILIDADE DE VENCIMENTOS Os vencimentos dos magistrados não podem ser reduzidos. às vezes maior que os próprios vencimentos e que já passou a integrar o seu orçamento. entretanto.Significa dizer que o magistrado. O juiz. ou da capital para o interior. 71. Nem mesmo é obrigado a aceitar uma promoção que implique em sua transferência. Nesse particular.

com o indisfarçado intuito de transformá-los em dóceis instrumentos de proteção às políticas governamentais. uma fachada nobre para ocultar do povo a realidade das discriminações e das injustiças. Resumindo todas as considerações atrás expendidas.08. o Legislativo e Executivo. a independência da magistratura. que seus vencimentos sejam compatíveis com as elevadas funções que exerce e a pesada responsabilidade que sobre ele pesa. para representar interesses que essa própria estrutura organizacional lhe infundirá. 1996) acentua: “Longe de ser um privilégio para os juízes. por sua vez.Necessário se faz também. Com isto. da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: “Raramente na vida política brasileira. condição indispensável à proteção dos direitos humanos e à integralidade do próprio regime democrático. em sua preciosa obra O Poder dos Juízes (Editora Saraiva. inamovibilidade e irredutibilidade salarial. Ele conservará a peculiaridade. 23. em seu pleno sentido axiológico e funcional. O professor Dalmo de Abreu Dalari. entretanto. simplesmente por ser inócuo proibir reduzir o que já nasceu reduzido. para que o juiz não sofra pressões econômicas. A rigor. 168] cia de aparelhamento constitucional. mais deletério: solapam a dignidade dos juízes. agem de modo subreptício e. que as garantias constitucionais dos magistrados destinam-se. em última instância. com a colaboração reprovável de altos tribunais. pois tem independência. que precisa de juízes imparciais para harmonização pacífica e justa dos conflitos de direito. . não hesitou em suspendê-la. pois caso contrário nada significará a irredutibilidade. pois sem esta a atividade jurisdicional pode. só reforçou. tal como hoje. uma necessidade da liberdade individual. porém. ainda que mantida a aparên. ser reduzida a uma farsa. Agora.[p. a autoridade do Poder Judiciário na consciência dos cidadãos. em seu tempo de fastígio. o Professor Fábio Konder Comparato. por isso mesmo. poderíamos concluir com as palavras do Ministro Carlos Mário Velloso: “O juiz brasileiro tem tudo para julgar do acordo com sua consciência. paradoxalmente. tem sido tão necessário e urgente entender.2000). mas perderá a autonomia e a proeminência arbitral. o juiz que se verga a interesses o faz não por falta de garantias. O regime militar. pode-se afirmar que os juízes têm obrigação de defender sua independência.” Por último. mas por falta de caráter” ( O Globo. a assegurar a independência do Judiciário. como estorvo ao programa de supressão das liberdades individuais. facilmente. No Brasil. Não se pode perder de vista. a firme e autorizada posição de um dos mais consagrados juristas da atualidade. sendo esta.” A isto acrescentou o jurista Raymundo Faoro quando ainda presidente da OAB: “O maior risco à integridade do Judiciário será convertê-lo em organização burocrática. a independência da magistratura é necessária para o povo.

para que possa atuar também com segurança e independência. quando não atua como simples fiscal da lei. outros elementos humanos atuam na ordem jurídica. com a supressão prática de um Judiciário independente. O Estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a organizar a Defensoria Pública. cuja estrutura administrativa tem servido de modelo para outros Estados. a forma de selecionar os seus membros. basta lembrar que a sua função é altamente social pois é o advogado da sociedade. razão pela qual. Com efeito. na forma do art. 5°. o triste espetáculo de uma involução institucional na defesa da dignidade humana” (Artigo intitulado “Juízes Independentes ou Funcionários Subordinados?”). A despeito da sua dificuldade orçamentária e da má vontade de alguns governos. como instituição essencial à função jurisdicional do Estado. a Constituição impõe ao Estado o dever de prestar assistência jurídica integral e gratuita aos que provarem insuficiência de recursos. merecendo real destaque o Ministério Público. portanto. Reveste-se. eficientes. razão pela qual limitamo-nos a dizer que todas as questões levantadas em tomo do Judiciário são também pertinentes aos demais instrumentos humanos que atuam na ordem jurídica e merecem idêntica atenção. O objeto deste singelo trabalho não comporta maiores considerações a respeito.“Ninguém ignora que a independência da magistratura é uma das mais importantes garantias do sistema de proteção aos direitos humanos. a Defensoria Pública e o Advogado. a Defensoria Pública do Rio . dos necessitados. mesmo que contra os poderosos e influentes. 5° da Constituição assegura o contraditório e a ampla defesa aos litigantes em geral. o art. incumbem a orientação jurídica e a defesa. Por fim. desse às novas gerações de brasileiros. exatamente no cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. o inciso LV. O MINISTÉRIO PÚBLICO. 72. o defensor dos seus direitos. em todos os graus. Sem dúvida. no inciso LXXIV desse mesmo artigo. 134 da mesma Constituição estipula que à Defensoria Pública. com os meios e recursos a ela inerentes. A Defensoria Pública é outra instituição da maior relevância para a boa aplicação do direito. LXXIV. 169] maior importância social estabelecer as suas prerrogativas ou garantias legais. em processo judicial ou administrativo. a assistência judiciária está entre esses meios e recursos. da [p. Com relação ao Ministério Público. para que sejam preparados. sem os quais não se pode fazer uma boa e regular distribuição da justiça. cuja existência tem base constitucional. A DEFENSORIA PÚBLICA E O ADVOGADO Além dos magistrados. Seria um verdadeiro escárnio se o nosso País. do art.

vem prestando extraordinário serviço às comunidades carentes.2002). Tem ela ainda importante atuação na defesa dos direitos humanos e dos consumidores. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. Quando o assunto é . O ENSINO JURÍDICO Quanto ao advogado. com raras exceções. reprovou o ensino médio no país. 73. o que será muito bom. em outros. Cerca de 70% dos processos da área criminal e 50% das varas de família são patrocinados pela Defensoria Pública. A Defensoria Pública não funciona melhor por falta de disposição política do Executivo e entraves burocráticos.08. é um paradoxo que a União tenha celebrado convenções internacionais com Holanda. elas funcionam precariamente. Já fiz parte desse grupo. sem o que o funcionamento do Judiciário seria impossível em certas áreas e lugares. 13. cujo resultado foi divulgado em novembro de 2002. 14. assistência a crianças e adolescentes. 74% tiveram notas abaixo de 40 numa escala de zero a cem. é até apontado como o grande responsável pelo rebaixamento do nível profissional das carreiras jurídicas. Pela deficiência de quadros. Os estados também. ela não tem condições de defender nem os interesses dos cidadãos brasileiros mais necessitados (O Globo. pelas quais se compromete a dar assistência jurídica gratuita aos cidadãos desses países por meio da Defensoria Pública. O último Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM). a Defensoria Pública não passa de uma ficção em nível federal. [p. 59% dos estudantes brasileiros não conseguem ler mais do que frases simples. Bélgica e Argentina. vítimas de maus tratos. E aí está outra grave causa da morosidade da justiça. mas hoje penso diferente.11. A crise é muito mais profunda. E o problema já vem do ensino fundamental. seguem o mesmo exemplo: oito não criaram defensorias e.3 milhões de estudantes que fizeram o ENEM. não obstante os dispositivos constitucionais existentes. Menos de 1% dos alunos das escolas públicas conseguiu tirar mais de 70 (O Globo. Ao concluir a 4ª série do ensino fundamental. Dos 1. Para ele.2000). A defesa dos necessitados é uma tarefa que a União sempre se recusou a cumprir. lamenta o desinteresse do poder público pela Defensoria Pública. 170] Fala-se no momento que a Defensoria Pública é um dos itens prioritários da reforma do Judiciário. desde que a reforma não fique no papel. O ensino do direito em nosso país tem sido duramente criticado nas últimas décadas. O Ministro Celso de Mello. Lamentavelmente. população carcerária. temos como certo que uma das questões de maior relevância diz respeito ao seu preparo profissional.

O ensino superior é o acabamento de um processo educativo que começa no berço. também não se pode ministrar um curso superior de alto nível a quem não tem sólida formação educacional média e fundamental. O Brasil. O foco deve ser em cima dos responsáveis pela transmissão do conhecimento: os professores. considerada uma das maiores autoridades do assunto na América Latina e Professora da Universidade de Minas Gerais. que analisou o nível de compreensão leitora (letramento) de alunos secundaristas de 32 países. 60% dos alunos com avaliação adequada estão em escolas particulares e 98% daqueles com resultados muito críticos estudam em escolas públicas (O Globo. a formação deficiente dos professores é a principal causa desse vexame.Programa Internacional de Avaliação de Estudantes . No fim do ensino fundamental. mas é incapaz de decodificar seus significados.pesquisa feita entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. como já salientado. O Brasil ficou em último lugar no Pisa2000 .2003). principalmente nas escolas públicas. Esse é o diagnóstico da educação brasileira apresentada pelo próprio Ministério da Educação (22.04.matemática. além de incentivar esses profissionais com o pagamento de salários dignos e justos” (Entrevista ao jornal A Tarde.4% dos alunos estão no nível adequado para a série. 23. O fracasso do ensino médio e fundamental em nosso país prejudica a formação de todas as profissões que exigem nível universitário. Os fatores convergem para esse ponto comum. Só 4.2003) com base em dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico desde 1995. 98% dos que tiveram avaliações consideradas muito críticas estudam em escolas públicas. 44% estavam em escolas privadas. promover constantemente cursos de atualização e reciclagem. Na visão da doutora em educação Magda Soares. E assim como não se pode colocar telhado onde não há alicerce nem paredes. É lá que os professores têm que desenvolver nos alunos as habilidades para compreender textos e utilizar conhecimentos adquiridos.2003). a maioria dos jovens brasileiros entre 15 e 16 [p. Salvador. 171] anos é analfabeta funcional: sabe ler as palavras. mas principalmente o magistério e as .05. Em resumo. Esse baixo desempenho do nosso ensino fundamental e médio. Indagariam os leitores: mas o que o ensino fundamental e médio tem a ver com o ensino jurídico? Tem tudo a ver. Deve-se investir na formação dos educadores. Entre os estudantes de 4a série. “A raiz do problema está na sala de aula. 52% deles mal consegue decifrar uma operação simples de somar ou subtrair. levou a outro resultado alarmante. ficou em último lugar. 25. Entre os que tiveram resultado adequado à sua série. atrás do México e da Letônia.04. onde as coisas acontecem.

sendo muito difícil depois disso recuperar essa capacidade. propriamente dito. No que diz respeito ao ensino do Direito. não se pode conseguir ótimos resultados se a formação do estudante no primeiro e segundo graus foi deficiente. Com muita propriedade. familiarizando o jurista com os pressupostos da norma jurídica e habilitando-o a solucionar e compor as controvérsias e os conflitos de interesses. sempre que possível. não se sinta perdido e incapaz de dar os primeiros passos na vida forense.” . harmonizar o ensino teórico com o prático. senão único. precisam ter tirocínio e raciocínio. que tem produzido resultados satisfatórios. Tanto é assim que. perde sentido o preparo. nem o jurista esotérico afastado da realidade: deve ser suficientemente teórico para insuflar no discente o conhecimento geral da ciência jurídica. Mais que as outras. de modo a privilegiar mais íntimo entrelaçamento entre a teoria e a prática. essas profissões dependem do completo domínio da língua. 172] uma ciência teórica quanto ao modo de estudar e saber. de tal forma que se transmita uma cultura jurídica suscetível de ser revogada por uma lei nova.carreiras jurídicas (Magistrados. O curso de Direito não visa preparar o rábula. são desenvolvidas entre os 4 e 10 anos. embora seja [p. porém. compreender e usar aquilo que se lê. dos aprovados em concursos públicos. ao sair da faculdade. E a leitura e a escrita. exprimindo as alternativas de transformação da sociedade que o Direito disciplina. por melhor que seja o ensino jurídico. capacidade de ler. Defensores e Advogados). ainda que excelente. iniciativa da maior relevância. objetivo válido da preparação científica e profissional do advogado (entendida a expressão em sentido amplo e não apenas forense) é o do relacionamento entre a lei e a realidade social. dotados de um sentido de permanência. cumpre pois. de forma lógica e coerente. Procuradores. Como não há vantagem alguma em se usar um método exclusivamente prático nem outro predominantemente teórico. Ministério Público. entendemos ser necessária uma mudança metodológica. no Direito consagrado. se instaura um processo mais ou menos constante de revisão legislativa. dizer o que as coisas são). acentuou o Prof. e suficientemente prático para que o bacharel. pois o direito. a maioria cursou o fundamental e o médio em boas escolas particulares. é eminentemente prático quanto ao fim. segundo os técnicos em educação. O verdadeiro. Logo. Quando. Caio Tácito: “Numa sociedade estável é compreensível que os professores de Direito se limitem a preparar os alunos mediante estudos sistemáticos dos institutos e normas existentes. Para suprir a deficiência muitos cursos de Direito incluíram em seus currículos o estudo do português jurídico (linguagem argumentativa que ensina a organizar o pensamento para.

Dessa forma poderemos ter advogados competentes. . mediante informações e conhecimentos. rápida e equilibrada. e a justiça poderá ser distribuída de forma mais eficiente. e não simplesmente o domínio do direito positivo e da doutrina jurídica.Em suma. preparados para enfrentar até mesmo o imprevisível em face da rapidez com que as normas jurídicas tendem a se modificar. Gabriel Lacerda. É preciso ensinar-lhes a pescar. mediante um ensino teórico e prático que os capacite efetivamente para o exercício da advocacia. o provérbio dispensa maiores comentários. por sua clareza. dando tratamento jurídico aos fenômenos sociais.” Cremos que. ensina-o a pescar e o alimentarás para o resto da vida. que vem a propósito de tudo aquilo que até aqui se afirmou: “Dá um peixe a um homem e matarás a sua fome por um dia. o alvo da educação atual deve ser a conquista do raciocínio jurídico. como vem fazendo o ensino jurídico tradicional. preparar o estudante para resolver problemas. Não basta fornecer peixes aos alunos ou indicar-lhes o mar. Há um provérbio chinês. fixar princípios através do exame de casos atuais. lembrado pelo Prof.

CONCEPÇÃO DE OPINIÃO PÚBLICA De forma simples e sintética. Essas correntes de opinião.Capítulo XIV A OPINIÃO PÚBLICA Concepção de opinião pública. não existe uma opinião pública. A opinião pública sobre o direito e sua utilidade social. formando afirmações de natureza majoritária ou predominante. **** Chegamos agora ao terceiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica: Estudo da Opinião Pública sobre o Direito e suas Instituições. 175] Esse pensamento coletivo a que nos referimos não é a soma de todas as opiniões particulares. É o juízo coletivo adotado e exteriorizado por um grupo. de Miranda Rosa em sua obra Sociologia do Direito (2ª ed. mas sim diversas correntes de opinião. p. . O sentimento coletivo de justiça. A rigor. A opinião pública sobre as instituições jurídicas. como muito bem observou F. assinalar que se trata de algo extremamente impreciso e mutável aquilo que se denomina opinião pública. entretanto. 74. mas sim o resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. desde logo. coexistentes sem conflito ou contraditórias em graus diversos. [p. apresentam certos traços gerais e algumas tendências uniformes. 1973. concorrentes ou divergentes. 157). Cumpre. podemos afirmar que opinião pública é o pensamento predominante do grupo sobre uma determinada pessoa ou questão. nem sua síntese. compondo um universo de opiniões que se manifestam em determinado momento e lugar. O poder da mídia na formação da opinião pública. Importância da opinião pública. A..

a sociedade não passa de mera soma de consciências individuais. mas o seu conjunto. que em muitos casos se conserva tão independente que pode assumir figuras variadas do anti-social. um modo de ser adjetivo derivado da vida individual. Para Tarde. o que restará? Ele próprio responde: nada. A multidão em tumulto é capaz de cometer os mais hediondos crimes. À essa tese psicológica e nominalista se opunha Durkheim. da formulação de G. Os indivíduos formadores da sociedade não desaparecem. Se alguém estiver sozinho em casa e observar que algo está pegando fogo. já que só se pode somar quantidades homogêneas. o comportamento do indivíduo. Exemplo: na formação da água (H20). como o de amarrar um mendigo ao poste e matá-lo a pauladas. como os elementos de que se compõe. Na química. como . como no caso do delinqüente. para darem lugar à água. daria um composto novo e diferente . indagava. pois. não anula a vida individual. como soma. e. o oxigênio e o hidrogênio deixam de existir como substâncias isoladas a partir do momento da síntese.o Social. Isso evidencia.o Coletivo. no comum das circunstâncias. apenas formam uma realidade nova .Ocorre com a opinião pública algo semelhante ao que ocorre entre a sociedade e o indivíduo. a sua síntese. portanto. pode mudar profundamente. resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. normalmente se empenhará em apagá-lo buscando auxílio de outras pessoas. levando-o a fazer coisas de que jamais se imaginou capaz. Embora a idéia de síntese não deixe de ser verdadeira. as parcelas e o resultado têm de ser da mesma natureza. toma-se falha quando levada a exageros. quando em grupo. Tarde. tomada de empréstimo à terminologia química. que o coletivo não é a soma dos indivíduos nem é a síntese de todos: é um novo produto. 176] “fogo”. uma natureza de ordem psicológica. Em razão de determinados processos sociais. por Síntese. Tudo que atrás ficou exposto pode ser claramente constatado mediante simples comparação entre o comportamento individual e o coletivo. Mas se estiver em um teatro ou cinema e escutar alguém gritar [p. Os elementos componentes seriam de natureza psicológica. uma nova realidade. do gênio. o coletivo. Ora. Salvo hipóteses excepcionais de massificação coletiva. isso não ocorre na síntese social. A sociedade seria. imediatamente ocorrerá um tumulto tão grande e desesperado que acabará ferindo e matando mais gente atropelada e pisoteada do que queimada pelo próprio fogo. Se tirarmos os indivíduos da sociedade. ao propor a substituição da palavra Soma. a realização da síntese anula e faz desaparecerem os elementos componentes. do revolucionário etc.

A mídia é.). 74. Globo. Porto Alegre. de qualquer tipo. que se sensibiliza por algum motivo. implica que o comportamento de cada indivíduo que dele participa não está inteiramente sob controle individual. implica que cada um dos indivíduos em apreço responde. sem dúvida. muito embora fossem todos os componentes do grupo pessoas pacatas e de comportamento. que se exercem pelo Executivo. É que o comportamento coletivo. 223-224). via de regra. Idéias. Trata-se em última instância de uma reciprocidade de estimulação que. ao determinar respostas também recíprocas. escola etc. vai se formando a opinião pública. uma nova realidade. que é uma forma de estimulação recíproca pela qual a reação de um indivíduo reproduz o estímulo que recebeu de outro indivíduo. até então. 13ª ed. provoca uma espiral ascendente e de dimensões crescentes. um modo de ser decorrente da opinião de cada indivíduo e das influências que cada um. nas palavras de Donald Pierson (Teoria e Pesquisa em Sociologia. [p. comunicando-lhe e intensificando o processo de estimulação que se repete. 177] No que diz respeito aos instrumentos. Legislativo e Judiciário. consciente ou inconscientemente. p.1. consciente ou inconscientemente. um poder em sua concepção sociológica. que vão se sedimentando e. às influências dos demais. condutas e informações são lançadas na coletividade. é um processo lento de sedimentação da vontade popular. 286) explica o mesmo fenômeno falando em reação circular. O Poder tem várias formas: os poderes constitucionalmente instalados. Representa a tendência geral. é o grande formador da opinião pública. O Poder da Mídia na Formação da Opinião Pública Como se forma a opinião pública? Quais os instrumentos eficazes para esse fim? A formação da opinião pública. começam os comentários no círculo primário (família. pp. e os poderes de natureza econômica e sociológica.. Conforme já assinalado.aconteceu anos atrás em um subúrbio do Grande Rio. a mídia como um todo. trabalho. coisa semelhante ocorre com a opinião pública: não é a soma nem a síntese da opinião de todos: é um novo produto. assim. transformam-se em conversação quase que diária. não só porque o . irrepreensível. E Willems (Dicionário de Sociologia. a imprensa escrita e falada. Tal é a sua força que até é chamada de quarto poder. mas não é necessariamente a opinião de todos os membros nem a opinião de qualquer pessoa em particular. exerceu e recebeu dos demais.

mas também que eles pensem como pensamos. Dessa maneira a notícia acaba. que alcança palacetes e favelas. pode-se dizer que o jornalismo brasileiro evoluiu nos últimos dez anos e muito contribuiu para a fiscalização da gestão pública. porque tem o poder de condicionar. 175). muitas vezes. por meio de uma linguagem emocional. 178] 75. até os mais longínquos pontos do país. cultos e ignorantes.. mas também e principalmente. A mídia sempre esteve próxima do poder estatal e econômico.poderoso sistema de comunicação de massa possa eventualmente derrubar um mandatário político. no que se refere à Justiça e seu funcionamento. nos países de livre manifestação de . no seio das famílias. Baseada na importância que dão todos à crítica. também podemos levar as pessoas a fazer o que queremos. podemos não somente fazer que os outros façam o que queremos. Costuma-se dizer que existem três formas de poder efetivo: o poder de punir. que é a tarefa própria do Poder Judiciário. a opinião pública. A grande problemática é que a imprensa brasileira tem muitos outros interesses. E ainda convencidos de estarem pensando por si próprios. tornando-se mercadoria. IMPORTÂNCIA DA OPINIÃO PÚBLICA “A opinião pública”. “é a um tempo criadora e modificadora poderosa do comportamento social”. No mínimo vem embalada da maneira que melhor atinja os interesses dos detentores do poder. persuasiva. [p. sem contestação. e isso faz com que a informação nem sempre seja fidedigna e confiável. p. Punindo. 181). explícita ou implicitamente. Rev. p. o poder de premiar e o poder de condicionar. Poder que penetra nas casas. Entretanto. 5ª ed. A forma implícita é a mais grave porque o comentário acaba virando notícia. além daquele estritamente jornalístico. contribuindo decisivamente para que ela se torne cada vez mais transparente. pode-se fazer com que alguém faça o que deve ser feito. é tratada de tal forma que já vem comentada. cativante. Pois esse é o poder da mídia. Observa Ana Lúcia Sabadell que a mídia. ricos e pobres. ao desejo inato de conquistar aprovação e simpatia. condicionando. Ed. escreve com propriedade Carneiro Leão (Fundamentos da Sociologia. o que contribui para a formação de uma opinião estereotipada e sensacionalista (Manual de Sociologia Jurídica. colorida. premiando. dos Tribunais. Há até quem fale em liberdade de empresa e não em liberdade de imprensa. “dá particular destaque aos problemas e escândalos (exemplo: corrupção de juízes) e nunca noticia o cotidiano normal do sistema jurídico”.

produtos ou empreendimentos. não se dá atenção à opinião pública no que diz respeito a tais questões. É em razão disso que. pode fazer de um anônimo um herói ou do herói um vilão.pensamento. tanto quanto possível aproximado da realidade e com previsões a respeito de suas tendências e da evolução provável. quando as eleições se aproximam. Dúvidas não temos em dizer que nossa legislação é hoje tão ineficaz. a primeira verificação da opinião pública que se impõe realizar é no que concerne ao sentimento coletivo de justiça. As empresas vivem oferecendo seus produtos através das propagandas mais atraentes e sofisticadas possíveis. pode derrubar do poder quem lá se encontra e colocar outro. A mudança de gosto público pode arruinar uma indústria ou enriquecer outra. tem a opinião pública especial importância para a Sociologia Jurídica porque age como um verdadeiro termômetro. p. lamentavelmente. vivem de olho nas pesquisas feitas sobre a preferência do eleitorado. Os programas de televisão vivem fazendo pesquisa de opinião pública para saberem como agradar o público e merecer a preferência de audiência. como órgão de informação e formação de opinião pública. ou pelo menos não tê-Ia contra. Por isso. fruto de condicionamentos sociais. De forma específica. mesmo . Davis (A Sociedade Humana. do justo e do injusto. porque no Brasil. do bom e do mau. tanto as empresas como os políticos mantêm grupos cuja missão consiste em pesquisar e despertar a simpatia do povo para suas atividades. O SENTIMENTO COLETIVO DE JUSTIÇA Há em todo indivíduo. Daí a grande força que possui a imprensa escrita e falada. constitui elemento decisivo de interação social. 85). agindo em caráter particular. como muito oportunamente lembrou K. 179] No campo do Direito. para serem lembradas na hora em que se vai às compras. é indispensável ao estudo de qualquer ciência social. porque sabem que para chegar ou manter-se no poder precisam ter o apoio da opinião pública. pode atingir enormes proporções. um sentimento acerca do certo e do errado. pode dar início à guerra ou levar à revolução. Os políticos. 76. e nossas instituições tão mal estruturadas e aparelhadas. Isto tudo evidencia que o conhecimento da opinião pública. [p. revelando ao legislador e demais autoridades que atuam na ordem jurídica a temperatura social em tomo de questões sociais relevantes e indicando as mudanças que precisam ser feitas nas leis e nas instituições jurídicas. O efeito maciço de uma tomada de posição feita por milhares ou milhões de pessoas.

exatamente porque foram elaboradas ao arrepio dos interesses sociais. frente a determinadas circunstâncias. O exame do sentimento de justiça. A. um escândalo financeiro ou político. Nem sempre fazer justiça consiste na simples aplicação da lei. Ao legislador especialmente importa conhecer o sentimento coletivo de justiça. conforme já demonstrado quando falamos dos efeitos negativos da lei. Baseado nos resultados de diversas pesquisas feitas. é certo etc. passado o impacto. uma vez que nem tudo que é legal é justo. com as variações do sentimento coletivo de justiça de tempo para tempo. repressiva. Assim como há um sentimento individual de justiça. para que possa elaborar leis justas. Freqüentemente fala-se em leis injustas. Tal conhecimento proporcionaria também ao legislador as condições adequadas para fazer as modificações necessárias na legislação vigente. garantidoras da validez e eficácia das normas. porque afastadas do sentimento coletivo de justiça. produtoras de efeitos negativos. sem prévia consulta à opinião pública a respeito da matéria legislada. a aprovação social das sanções que o Direito estabelece. faz com que a opinião pública se incline no sentido de exigir uma justiça mais severa. as pessoas afirmam com veemência: isto é uma injustiça. muda-se a opinião. Um crime grave. há também um sentimento coletivo. sobretudo na Europa. sua adequação ou não ao que é tido como justo. mas. no qual se baseia a sociedade para estabelecer seus padrões de comportamento . ou a distância entre a desaprovação da norma jurídica acerca da con[p. perderam a razão de ser.É aquilo que se tem chamado de consciência jurídica da população. cuja aplicação vem causando profundo desequilíbrio social. . 180] duta e a desaprovação que o consenso ético-social impõe à mesma forma de comportamento. Também abarca a maneira como a opinião do público se manifesta sobre o comportamento ilícito. principalmente no mundo econômico. muito embora não estejam ainda suficientemente explicadas as relações motivadoras das diversas gradações ou formas em que esse sentimento se apresenta. prisão perpétua e outras penas mais severas. Fala-se até em pena de morte. abrange necessariamente o das normas existentes. Leis injustas existem. ficando ineficazes. imediata. já que. bem como o afastamento de outras no futuro. adequadas aos interesses e conveniências sociais. de tempo para tempo e de lugar para lugar. A correção dessas distorções. muitas normas existentes tomaram-se vazias de conteúdo social. é possível afirmar que o sentimento de justiça varia em suas manifestações. isto é justo.sem nunca ter estudado direito ou tocado a mão em um compêndio de leis. poderiam ser conseguidas mediante o prévio conhecimento do sentimento coletivo de justiça. de Miranda Rosa. escreve F.

[p. Para muitos o Direito não passa de simples meio de se valerem os mais fortes da máquina estatal. Se for feita uma pesquisa sobre a importância dos tributos e a necessidade de sua arrecadação. embora normalmente honestas a ponto de não tirarem um centavo de ninguém. apenas os administra em prol da coletividade. para as normas que estabelecem a obrigação tributária. por exemplo. saúde. e que isso ocorre com grande freqüência. ver-se-á que a maioria do grupo entende necessário o pagamento dos impostos para a consecução de objetivos sociais. já é comum encontrarmos pessoas que. segurança. embora seja o Direito considerado e aceito como forma mais eficaz de controle social em sua organização e aplicação. estradas etc. mas em nível interindividual há descrédito subjacente na justiça. ao nosso ver. Neste ponto. sem a arrecadação dos tri. IPI. O mesmo ocorre com o ICMS. conforme constatado através de pesquisas realizadas em vários países. contra os oprimidos de todos os tipos. Por que tem o Direito uma imagem tão distorcida da realidade? Conhecendo as causas que levaram a opinião pública a se formar de modo tão averso ao verdadeiro objetivo do Direito. A sociedade global acredita no jurídico como algo indispensável à coesão e à sobrevivência grupal. Em matéria de Imposto de Renda.77. Outros entendem que ele se presta a manobras que o desvirtuam completamente. ou ainda sua correta aplicação como instrumento de ordem social. a fim de se procurar modificar . gaboleiam-se de terem conseguido escamotear milhões de imposto. Todos compreendem que não é possível atender às despesas da administração pública com educação. Crêem os grupos que a justiça é fenômeno dependente. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE O DIREITO E SUA UTILIDADE SOCIAL Outro aspecto da opinião pública de interesse sócio-jurídico é aquele que diz respeito à conveniência ou utilidade social do Direito. existem posições conflitantes. Por que essa aversão generalizada ao pagamento dos tributos? Por que essa idéia já arraigada no sentido de não se considerar desonesto fraudar o fisco? Por que essa oposição ou resistência às normas tributárias? Caberia.. relativo às condições de classe social. sofre questionamento da opinião pública quanto à sua eqüidade. e um estudo minucioso das causas. não seria possível eliminar algumas dessas causas e reconquistar a opinião pública? O que acima ficou dito é de fácil demonstração quando atentamos. Na hora de pagar o tributo. Com efeito. por exemplo. uma pesquisa profunda da opinião pública em tomo do assunto por parte do fisco. ninguém gosta e procura esquivar-se. pois O Estado normalmente não gera recursos. ISS. entretanto. diga-se de passagem. 181] butos.

podendo-se arrecadar mais com menos esforço. aliviando a sobrecarga dos assalariados. [p. objetivos. não acredite que o dinheiro público esteja sendo honestamente empregado. muito além de sua capacidade. Talvez o povo não esteja suficientemente esclarecido sobre o destino dado pela Administração Pública ao dinheiro arrecadado através dos tributos. o que em muito prejudicou a arrecadação.as coisas para o futuro. forçando-o a fraudar. dos serviços executados etc. exigindo do contribuinte excessivo encargo tributário. Do ponto de vista social. antes do lançamento da taxa do lixo. pois com base em tal . necessidade. critérios de fixação. o que seria evitado mediante amplo esclarecimento das obras realizadas. isso tudo poderia ser evitado se. o que poderia ser evitado mediante um esforço de reconquista da confiança pública. como no caso do Imposto de Renda que sabidamente recai mais direta e pesadamente sobre os assalariados por sofrerem o desconto na fonte. o que poderia ser evitado mediante a reformulação do sistema tributário. eis que o lixo de uma grande cidade tem que ser recolhido diariamente e com eficiência. de pescar também o peixe grande do comércio e da indústria. quando anos atrás a taxa começou a ser cobrada. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE AS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS Aquilo que o público em geral pensa a respeito das instituições jurídicas é outro aspecto da opinião pública de interesse para a Sociologia Jurídica. É evidente que para a coleta desse lixo é necessária uma estrutura empresarial. Talvez as leis tributárias sejam mesmo extorsivas. sendo a taxa exatamente para tal fim. Os inconvenientes de se deixar de contatar e esclarecer a opinião pública acerca de questões tributárias podem ser demonstrados com a chamada taxa do lixo. em que se procurasse dividir de forma mais equânime as obrigações tributárias de modo a não incidirem sempre sobre os mesmos. o que sem dúvida facilitaria o trabalho de arrecadação e fiscalização. 182] Contudo. ensejando milhares de ações judiciais. facilitando a arrecadação. 78. Em nossa maneira de ver. sob pena de se tomar impossível a vida. a opinião pública fosse esclarecida a respeito de suas causas. bem como a realização de um serviço organizado e sistemático. O fisco deveria engendrar meios de alcançar com suas malhas os de maior capacidade econômica. gente e material. houve uma tremenda reação do público. Talvez o povo não tenha confiança na Administração. acredito que ninguém conteste a necessidade de tal taxa.

ou sua vulnerabilidade às influências dos mais bem atendidos na divisão da riqueza social. a Defensoria Pública. ineficaz. Há uma boa parcela da opinião pública que entende serem os tribunais ou os juizes influenciáveis pelos poderosos. das repercussões sociais que produz a opinião que predomina no que tange à imparcialidade dos órgãos judiciais. O resultado das pesquisas realizadas sobre o funcionamento do sistema judiciário não é nada animador. o sistema carcerário etc. de modo a alcançar seus objetivos sociais. Se realmente estivermos empenhados em recuperar o Judiciário. não em segredo de justiça como se pretendeu fazer em 77/78. tudo é justiça: a polícia. sua docilidade diante do poder. sem credibilidade. parciais. assunto este da maior gravidade e a merecer uma especial atenção. 183] . ou passíveis de corrupção. então é alto tempo de se procurar saber onde estão as causas dessas deficiências e de se realizarem as mudanças necessárias. Quando a opinião pública se forma no sentido de considerar uma determinada instituição deficiente. sob pena de uma desmoralização cada vez maior da instituição. [p. não confia na justiça. do seu grau de incidência. tem uma imagem negativa de seus operadores. Urge igualmente um estudo das causas. então será necessário fazer-lhe as reformas necessárias. portanto. o Ministério Público. A população não possui bom conhecimento do sistema jurídico. sob pena de se tomar a instituição totalmente irrecuperável. mas sim com base em ampla pesquisa da opinião pública e mediante ampla contribuição de todos os segmentos sociais relacionados com o mundo jurídico.opinião é possível saber se as instituições estão ou não funcionando satisfatoriamente. e. acredita que só pobre vai para a cadeia. ou confia muito pouco.

desde logo. devidamente organizados e coordenados. cujas regras foram enunciadas por Durkheim em celebrado estudo.Capítulo XV O MÉTODO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA Conceito de método. É o caminho utilizado para a realização de um objetivo. pois. Para tanto. para não fugirmos aos objetivos deste singelo trabalho. ainda que de forma sucinta. **** Após termos tratado do objeto da Sociologia Jurídica. Convém esclarecer. de que dispõe uma ciência para realizar seu objeto. que não vamos tratar aqui dos métodos que são adotados desde as formações doutrinárias e teóricas da Sociologia. 79. como já afirmamos. A comparação. 185] dos meios ou processos dispostos convenientemente para . mas sim. no estudo de qualquer ciência é indispensável estabelecer o seu objeto e definir o seu método. instrumentos e atividades. um conceito de método. O método utilizado pela Sociologia Jurídica. toma-se necessário estabelecer. A observação: nas sociedades contemporâneas do tipo moderno. recursos. É o conjunto [p. dos processos e técnicas de trabalho empregados pela Sociologia Jurídica na investigação e realização do seu objeto. abrangente. nem do chamado “método sociológico”. A interpretação. São os meios. genérico. nas sociedades contemporâneas do tipo primitivo e nas sociedades desaparecidas. vamos agora dedicar este capítulo ao exame do seu método. CONCEITO DE MÉTODO Método é o meio mais racional e eficiente para se atingir um fim desejado.

As empresas industriais e comerciais dos nossos dias. O MÉTODO UTILIZADO PELA SOCIOLOGIA JURÍDICA Segundo Levy Brühl (Sociologia do Direito. já está generalizado o uso do termo “método” para indicar os processos e as técnicas empregados na investigação social. propondo em lugar de “método” a palavra “processo”. 97-114). interpretação e comparação.alcançar um fim. se não forem executados com método. Por isso torna-se desnecessária qualquer discussão em torno do uso do termo “método”. pode-se afirmar com segurança. conseguem fazer tanta coisa. 80. Quanto à importância da utilização de um método. Estuda para passar de ano. [p. pp. podemos dizer que método é maneira eficiente de fazer as coisas. o método jurídico. Trocando isso tudo em miúdos. desde a mais simples à mais complexa. levam muito a sério a questão relacionada com organização e métodos. mas não para aprender. O estudante que não tem método nos estudos (deixa para estudar somente na hora das provas) nunca será um bom estudante. pois. como têm feito alguns. que não teria a Sociologia Jurídica condições de realizar os seus objetivos sem desenvolver as suas atividades de forma metódica. acabam se revelando deficientes. Os simples serviços domésticos realizados pela donade-casa. Hoje. suscitando debates por entenderem não ser próprio o vocábulo para descrever as operações intelectuais realizadas pelo investigador ainda na fase da observação propriamente dita. A razão pela qual algumas pessoas. é modo racional de proceder. não é muito diferente do utilizado nas ciências sociais em geral e pode ser resumido em três operações principais: observação. para conseguirem realizar os seus objetivos. está justamente no fato de as primeiras serem pessoas metódicas. nas mesmas 24 horas do dia. e especialmente para chegar a um conhecimento científico. mas pouco aproveitamento tirará dos estudos. que já fazem parte das matérias estudadas no curso de Administração. ou para comunicá-lo. reunião dos meios que se empregam nas ciências para achar a verdade. o método utilizado pelo jurista. basta que se diga ser ele indispensável no desempenho de qualquer atividade que se propõe a alcançar algum objetivo. tomado o termo em seu sentido mais amplo. 186] . Vê-se. e outras quase nada conseguem. pode até tirar boas notas.

superabundantes mesmo. saber quantos casamentos. Quem primeiro usou esse método cientificamente na Sociologia foi o francês Le Play. entretanto. ciência. b) as coleções de jurisprudência. Consiste em ouvir pessoalmente os indivíduos componentes de determinado grupo que se deseja estudar. como por exemplo o inquérito. Entendê-se por inquérito a pesquisa. ocorreram no Rio de Janeiro no ano passado. define o seu objeto. a ponto de não se conseguir dominá-las completamente. coleta os dados. por exemplo. Nas sociedades contemporâneas de tipo moderno a observação é bastante fácil. o estatístico etc. sujeitando-se a posteriori verificação.1. e que posteriormente deverão ser examinados. esporte. c) os documentos de caráter técnico. leis etc. Foi criado o Instituto da Opinião Pública.. Na tarefa de coletar dados importantes para o estudo que se pretende fazer. Deve. Quem se propõe a realizar uma pesquisa. literatura. cuja finalidade é lançar permanentes . registros cartorários etc. fundador da Escola de Ciência Social e do método monográfico. pois todos esses atos ficaram devidamente registrados. política etc. pode o investigador lançar mão de vários métodos (tomada aqui a palavra em sentido estrito).. A Observação Consiste a observação na coleta de dados ou fatos sociais importantes para o estudo que se está realizando. pois as fontes de informações são abundantes.80. isenta de qualquer juízo de valor. ou processo de investigação feito muitas vezes por meio de questionário. classificados e interpretados. como os códigos.[p. Há survey para todos os fins: publicidade. 187] feiçoada nos Estados Unidos. Com base nesses documentos é possível. b) sociedades contemporâneas de tipo primitivo. dentre as quais podemos destacar: a) os textos legislativos ou regulamentares. c) sociedades desaparecidas. onde os estudiosos do problema criaram uma verdadeira Sociologia Experimental baseada no survey (inquérito). adotar uma postura de observador. por meio das quais sabemos como as leis estão sendo aplicadas. a fim de conhecer a realidade social através de suas manifestações concretas. divórcios etc. separações judiciais. cinema. como os processos. Pode a observação ser realizada em diferentes tipos de sociedades. conjectura uma solução provável. As mais importantes fontes nessas sociedades são as escritas. Em nosso século a técnica do inquérito social foi altamente aper. a saber: a) sociedades contemporâneas de tipo moderno.

para que os dados coletados sejam realmente representativos de toda a sociedade ou da fração dela que se está investigando. é preciso dispor de elementos numéricos exatos. Para apreciar o verdadeiro alcance de uma [p. à realidade social. 188] instituição e medi-Ia no tempo e no espaço. afastando perguntas capazes de induzir a resposta ou condicionar . Ao longo do nosso estudo fizemos referência a dezenas de pesquisas sobre muitos temas. dar muita atenção à carga semântica variável de certos vocábulos ou de expressões idiomáticas. principalmente por falta de confiança nos dados fornecidos pelos órgãos oficiais. O inquérito é geralmente realizado por uma equipe mais ou menos numerosa de pesquisadores e dirigido por um especialista mais experimentado. e outros detalhes. para tanto. e levantados periodicamente. por seu turno. p. bem como a indução das leis a que tais fenômenos globalmente obedeçam. Há mesmo quem afirme ser a estatística o meio oficial de se afirmar inverdades. entende-se por método estatístico o conjunto de processos que tem por objeto a observação. A importância da utilização da estatística em questões sociológicas foi muito bem assinalada por Levy Brühl (Sociologia do Direito. Antes de iniciar a pesquisa.o raciocínio do entrevistado. com a formação. a fim de evitar perguntas confusas e ensejadoras de respostas dispersivas. pois é o agrupamento metódico dos fatos sociais suscetíveis de avaliação quantitativa. aperfeiçoada nesta última década.inquéritos no seio da comunidade a fim de conhecer-lhe a opinião a respeito dos principais problemas do mundo atual e avaliar a evolução dessa opinião. devendo-se. pois caso contrário as conclusões finais serão um logro. tão exatos quanto possíveis. que lhe permite chegar aos fatos. Na formulação dos quesitos é preciso saber perguntar (como perguntar). pois há uma técnica minuciosa a ser aplicada.” O emprego da estatística no campo sócio-jurídico tem sido criticado por alguns autores. conclui-se que um dos principais instrumentos de trabalho a ser utilizado para conhecê-las é a estatística. realizadas por vários institutos e entidades respeitáveis. Em outras palavras. é necessário estabelecer com clareza e precisão o seu objetivo (o que perguntar). para dela extrair as conclusões necessárias ao seu estudo. é indispensável uma formulação preliminar das hipóteses a investigar. É o seu método por excelência. definição e delimitação do problema. classificação formal e análise dos fenômenos coletivos ou de massa. A estatística. em face da . À quem perguntar é outra questão que deve merecer particular atenção. Assim sendo. enumera a freqüência dos fenômenos sociais. 99) ao escrever: “Tendo em vista que as instituições jurídicas são coisas coletivas. o que evidencia a importância da pesquisa para a Sociologia Jurídica.

porque tudo ou quase tudo que nele se passa. posto que contêm grande número de informações não encontradiças em outros lugares. separações judiciais. a economia.2. sendo mesmo na maioria das vezes bastante acessível.. O conhecimento do direito de uma sociedade do tipo primitivo adquire particular importância no momento em que é comparado com o direito [p. a política.manipulação muitas vezes feita nos dados que lhe serviram de base. como a cultura. fica devidamente registrado. ouvir e observar. caso houvesse um trabalho sério e organizado de coleta dos dados. onde se verifica a sua maior incidência etc. ganhar sua confiança. mas do tipo moderno. no plano científico. estados ou regiões do país? Ou então. mediante a presença física do pesquisador. mesmo não tendo absoluta confiança nas cifras publicadas e ainda que se apontem erros voluntários ou involuntários que se deixaram escapar. não seria difícil e de alto custo o emprego da estatística no mundo jurídico. 80. verificar com grande evidência as profundas diferenças existentes entre o direito de uma e de outra sociedade. pois foram todos registrados. assistir às suas festas e cerimônias. nas diferentes cidades. a observação é feita in locu. a situação da família entre os nossos indígenas. por força de determinados fatores sociais. então. todavia. Se o propósito é conhecer. que. a religião etc. pelo menos de mais relevante. principalmente em questões econômicas. quem não vê a importância de saber o número e o tipo de crimes que ocorrem nos diferentes meios. . Pode-se. razão pela qual o incremento da estatística jurídica é. divórcios. por exemplo. Mas não foi ainda coligida e muito menos consultada. Em tese. testamentos. A Observação nas Sociedades Contemporâneas de Tipo Primitivo Nessas sociedades. esses dados são preciosos. conhecer seus hábitos e costumes.. não haverá outro meio de realizar tal pesquisa a não ser deslocando-se o pesquisador para esse meio para ali ver. contemporânea. participar de sua vida diária.? Tais dados não permitiriam a adoção de uma série de medidas preventivas e repressivas? Sobre estes assuntos e muitos outros fatos jurídicos a documentação existe. Terá que se misturar com eles. à falta de escrita. conforme já exposto na parte em que tratamos dos fatores sociais da evolução do direito. 189] de uma sociedade da mesma época. Quem não reconhece o quanto seria útil saber o número de casamentos. Entendemos. uma medida de grande urgência. reconhecimento de filhos naturais etc.

Com que espírito deve o pesquisador interpretar os dados postos à sua disposição? A primeira regra e mais fundamental é considerar os fatos sociais como coisas. 71). Se sobre o social. que segue caminho inverso. p.3.[p. que parte do geral para o particular (o que vale para o geral há de valer para o particular). 81. 80. Ter-se-á que recorrer aos documentos escritos. sobre as coisas nada sabemos antes da pesquisa cuja realização porventura empreendamos realizar. que são as fornecidas por terceiros. finalmente. o que toma tremendamente penosa a tarefa do pesquisador. devendo o intérprete livrar-se das prenoções de que a vida social nos encharca o espírito com relação aos temas da socie. Quer isso dizer que os fatos sociais devem ser considerados realidades diversas das idéias. é a segunda operação do método da Sociologia Jurídica. Possidônio sobre os trácios. Nessa tarefa podem-se utilizar vários métodos. isto é. o direito primitivo apresenta traços particularmente interessantes e originais. Tácito sobre os germanos. e o indutivo. caldeus.Além disso. 190] dade. como o dedutivo. A Observação nas Sociedades Desaparecidas No que se refere. através de suas inúmeras descobertas. a ponto de constituírem objeto de uma disciplina especial. extraindo-se deles as primeiras conclusões. pergaminhos porventura existentes. a observação está naturalmente circunscrita aos vestígios que essas sociedades deixaram. do particular para o geral. Não tendo . consiste no exame e classificação dos fatos sociais coletados. muito embora a aplicação de ambos no campo sociológico seja severamente criticada. A INTERPRETAÇÃO A interpretação que.. como a dos egípcios. Nesse ponto a arqueologia tem contribuído grandemente para um melhor e maior conhecimento do direito de antigas civilizações. como vimos. às sociedades que deixaram de existir. Durkheim recomenda aos sociólogos o abandono desse conhecimento espúrio. Pode-se ainda lançar mão de informações indiretas. já nosso espírito está cheio de noções prévias (prenoções) sobre sua natureza e seu comportamento. como as que nos dá Heródoto sobre os persas. Em verdade. hebreus etc. a etnologia jurídica. enfatiza Machado Neto (Sociologia Jurídica. monumentos. antes mesmo de iniciarmos a pesquisa.

Muda. e sua significação inicial tem tão pouca importância para o jurista quanto os diferentes sentidos que adquiriu no decorrer do tempo. interessam mais ao jurista os efeitos sociais produzidos pelo escrito do que o sentido original do texto. Tratar os fatos sociais como coisas é. e maior ao momento em que esse fato ou idéia começa a agir. Do ponto de vista sociológico o termo não . 2) Interessa-lhe. A COMPARAÇÃO Chegamos finalmente à última operação do método da Sociologia Jurídica . ou seja. estabelece alguns princípios de interpretação que. É uma espécie de ser vivo destinado a produzir seus efeitos dentro de um ambiente em constante evolução. tal conhecimento somente pode ter sido fruto de prejulgamentos e prenoções. a produzir seus efeitos sociais. 191] 82. cuja significação e importância continuam ligadas às circunstâncias que envolveram sua origem. 108 e 109). Um texto jurídico é. 106. como sói acontecer para o historiador. não o momento em que se verificaram materialmente os fatos. o que merece ser tomado em consideração não é o tempo astronômico. por sua vez. pois. algo diferente de uma peça de arquivo. diferença ou relação. [p. a relação cronológica entre um fato e outro da mesma natureza. por sua importância. como normas de conduta coletivas. libertar o espírito desses prejulgamentos e dessas prenoções. mas sim o momento em que exercem sua influência. portanto. a sua pureza ou o seu teor verídico. aos olhos do jurista sociólogo. constantemente de sentido. mas sim o tempo social. que vulgarmente significa examinar simultaneamente duas ou mais coisas para lhes determinar semelhança. o tempo do calendário. merecem ser aqui destacados: 1) O jurista e sociólogo deve dirigir sua atenção exclusivamente para os fatos jurídicos tais como tentamos defini-los. A noção de autenticidade chega a suscitar-lhe um interesse muito restrito (Sociologia do Direito. e que por isso mesmo evolui também incessantemente. Significa que deixará de lado a priori o que se revelar puramente descritivo. Levy Brühl. pp. uma vez que sobre as coisas não podemos ter prejulgamentos ou prenoções. como o fato individual ou o anedótico.a comparação. 3) Tratando-se de documento escrito.emanado da pesquisa. Somos levados a dar menor atenção ao aparecimento material de um fato ou idéia. Em outros termos.

Antes disso. temporal ou histórico. e o plano horizontal. da Colônia. as origens de algumas instituições atuais. podemos comparar a situação da família na atualidade com a da época da República.Tribunais Federais. Juízes. e certas instituições antigas. por exemplo. espacial ou geográfico. bem como das normas ou institutos jurídicos existentes . mas em épocas diferentes. como por exemplo no norte. Estaduais. o que poderá aumentar a nossa experiência e levar ao aprimoramento das nossas instituições. No plano horizontal ou espacial a comparação é feita entre os resultados obtidos nas observações efetuadas em diferentes sociedades. Foi o que aconteceu com a chamada reforma do Poder Judiciário levada a efeito através da Emenda Constitucional nº 7/77 e da Lei Orgânica da Magistratura. sua eficiência ou ineficiência. para indicar o cotejo ou confronto das conclusões parciais obtidas na fase da interpretação. leste. suas funções sociais.[p. mediante comparação nos planos vertical e horizontal. sendo utilizado. a fim de se estabelecerem as relações. mais abrangentes e definitivas. Somente através do emprego judicioso do método (ou métodos) que acabamos de delinear. para atingir os seus objetivos. No plano vertical ou temporal comparam-se resultados de observações feitas em uma mesma sociedade. mas todas contemporâneas. A comparação pode e deve ser feita em dois planos: o plano vertical. motivadas por fatores sociais e atuantes em cada região ou país. Mudou para pior. Fizeram a tal reforma sem ouvir ninguém. semelhanças e diferenças entre elas existentes e chegar-se a outras conclusões. audiência dos órgãos e instituições que atuam na ordem jurídica . e os resultados aí estão.conhecimento indispensável para se fazerem as reformas. O que ela tem de bom não é novo e o que ela tem de novo não é bom. Através de tal comparação.foge desse sentido. qualquer mudança ou reforma será feita empiricamente. . Assim. ou traços em comum entre elas. no mais absolu. 192] to sigilo ou segredo de justiça. Uma reforma de tal magnitude e necessidade. ou mesmo entre diferentes países. e jamais conseguirá atingir os seus objetivos sociais. É ainda possível verificar. do Império. mudanças e alterações necessárias. sul do Brasil. e investigar as causas que os provocaram. portanto. praticamente no escuro. se estamos estudando os problemas relacionados com a família brasileira. tinha que ser precedida de ampla coleta de dados mediante pesquisa da opinião pública. bem como o grau de aperfeiçoamento de instituições análogas de outras sociedades. atuaram apenas dois ou três elementos que se julgavam donos da verdade. é possível ter um conhecimento profundo das instituições jurídicas. é possível notar as diferenças existentes entre as normas do direito dessas sociedades contemporâneas.

comparados. A menos que tais reformas sejam precedidas de um profundo conhecimento das aspirações do povo e da realidade brasileira. em reforma eleitoral e agrária. atualmente. [p. Com base nessa realidade poder-se-ia fazer uma reforma eficiente. o público em geral. Esses dados. deveriam ser examinados. interpretados. nada será mudado para melhor. 193] . motivada por interesses políticos e feita empiricamente. mediante pesquisa metódica e científica dessa realidade. eliminando as causas de suas deficiências. Ordem dos Advogados. Teremos outra reforma casuística. Fala-se muito. classificados. nas capitais e no interior.Ministério Público. e só então teríamos uma descrição da realidade social do nosso Poder Judiciário. através de técnicos especializados. morosidade e emperramento. quais as deficiências e dificuldades de cada lugar. Ter-se-ia que observar como vem funcionando o Judiciário em cada Estado.

de evasão e rebelião. Comportamentos de desvio. Merton. e nomos quer dizer lei. privação. Foi com esse entendimento que Durkheim usou a palavra pela primeira vez. anomia significa falta de lei ou ausência de norma de conduta. a saber: l) desorganização pessoal do tipo que resulta em um indivíduo desorientado ou fora da lei. a tecer algumas considerações sobre anomia. inovacionistas. segundo o qual o termo tem sido empregado com três significados diferentes. Palavras finais. com reduzida vinculação à rigidez da estrutura social ou à natureza de suas normas. Tipos de comportamento: conformistas. conforme assinalado por Robert Biers. num esforço para explicar certos fenômenos que ocorrem em sociedade. vamos nos limitar. 195] tedt. norma. Etimologicamente. ao encerrar este trabalho. O pensamento de Émile Durkheim.[p. em seu famoso estudo sobre a divisão do trabalho social. portanto. 83. por reputá-lo um tema da maior importância na atualidade e que guarda perfeita adequação com tudo aquilo que ficou exposto nas partes anteriores. Não sendo possível fazê-lo.Capítulo XVI DIREITO E ANOMIA Noção de anomia. inexistência. . Causas do comportamento anômico. falta. NOÇÃO DE ANOMIA A palavra tem origem grega. donde a significa ausência. O pensamento de Robert K. caso o nosso programa comportasse. Depois dele diversos autores têm abordado o conceito com variações quanto ao seu exato entendimento. **** Muitos outros temas de relevância para a Sociologia Jurídica poderiam ser ainda abordados. Vem de a + nomos. ritualistas.

por mais eficientes que sejam as suas normas de conduta e bem estruturadas e aparelhadas as suas instituições jurídicas. É. como anarquia é o contrário de governo. que sociologicamente a palavra pode ser usada em um quarto sentido. CAUSAS DO COMPORTAMENTO ANÔMICO (OU DE DESVIO) Em qualquer sociedade do mundo. eis que em qualquer das variações do significado de anomia está presente a idéia da falta ou do abandono das normas sociais de comportamento. o que resulta em situações sociais que acarretam para o indivíduo dificuldades em seus esforços para se conformar às exigências contraditórias. princípio. . bem elaboradas. e se as instituições destinadas a manter a ordem jurídica são eficientes. entre as quais vamos examinar a de Émile Durkheim e a de Robert K. Merton. o agente causador do fenômeno social. Assim sendo. vamos encontrar em algumas maior incidência de um tipo de desvio mas o fenômeno sempre existirá. Entendemos.2) conflito de normas. como um verdadeiro fenômeno universal. situação social que. Todos deveriam estar empenhados em manter um comportamento em harmonia com as normas de conduta social.em uma sociedade vamos encontrar maior incidência de comportamento anômico que em outra. é. coisas diferentes. desorganização pessoal. conflito de normas. em princípio não deveria ocorrer comportamento anômico. adequadas aos interesses sociais. 84. e bem estruturadas. o fenômeno haverá de desaparecer. em conseqüência. motivo ou razão de ser. Mas não é o que ocorre. que pode ocorrer por ausência de lei. [p. Eliminada a causa. em seus casos limítrofes. 196] Antes de mais nada. Por causa entende-se aquilo que determina a existência de uma coisa: a circunstância sem a qual o fenômeno não existe. 3) ausência de norma. vamos encontrar comportamento de desvio. sua origem. não contém normas. é necessário distinguir causa de fator. entretanto. pode-se afirmar que anomia indica desvio de comportamento (ou comportamento desviante). ou pelo menos guarda perfeita correlação com os três primeiros. de sorte a não existir desvio. que é a síntese. ou seja. ou ainda. existindo a respeito várias teorias. pois. Pode variar de intensidade . Muitos sociólogos têm se empenhado em encontrar as causas do comportamento anômico. todavia. o contrário de sociedade. mas que por muitos são confundidas. Por quê? Se as leis são boas.

perdendo mesmo. preocupa-se o estudo da anomia com as causas. segundo as estatísticas. de qualquer forma. b) a organização impõe divisão de trabalho ou tarefas. 90% ou mais da população carcerária é constituída de pessoas provenientes das classes sociais mais humildes. [p. Pode-se dizer. 197] Para o eminente sociólogo francês. é outro fator de criminalidade. a partir de um certo ponto. porque. porque há milhões de analfabetos no Brasil que não enveredaram pelos caminhos do crime. por sua vez. concorre para o resultado. sem cortar-lhe a raiz. Pode-se dizer. por via de conseqüências. motivando. que o analfabetismo. ao lado de um desenvolvimento favorável do . porque há um número muito grande de pobres que não delinqüem. d) a especialização ocasiona isolamento dentro do grupo. para poder atingir os seus fins.Durkheim. Mas não é certamente a causa de crime. O PENSAMENTO DE DURKHEIM SOBRE A ANOMIA Em seu famoso livro . mesmo porque de quase nada adianta combater os fatores sem eliminar as causas. c) a divisão de tarefas produz especialização. o indivíduo. a idéia dessa obra comum. inclusive de produção e sobrevivência. Mas não é causa de criminalidade. isola-se em sua atividade especial. Como já ficou dito. que a pobreza. a ignorância. o comportamento de desvio. e não simplesmente com os fatores que são inúmeros. concorre para a sua maior ou menor incidência. igualmente. é um fator de criminalidade. precisa organizar-se. portanto. É a circunstância que. debruçado sobre suas tarefas. a miséria.A Divisão do Trabalho Social . 85. que como já assinalamos foi o primeiro a usar a palavra “anomia” numa tentativa de explicação de certos fenômenos sociais. e) o enfraquecimento desse espírito de solidariedade acarreta uma influência dissolvente e. embora não dê causa ao fenômeno. um enfraquecimento do espírito de solidariedade do grupo global. por exemplo. desde que a divisão do trabalho social supera um certo grau de desenvolvimento. porquanto na mesma população carcerária encontramos 85% de pessoas analfabetas ou portadoras apenas de instrução primária. É tentar secar a árvore daninha arrancando-lhe simplesmente as folhas. Durkheim invocou palavras de Comte no sentido de que as separações das funções sociais tendem espontaneamente.Já o fator. assim desenvolveu seu pensamento: a) a sociedade moderna. não mais sentindo a presença dos colaboradores que trabalham a seu lado na mesma obra.

a certos paí. Numa cidadezinha do interior.espírito de minúcia. Há calor humano. da falta de solidariedade e calor humano que lá sentiram. e se junta a outros indivíduos de sua especialidade formando grupos menores. Não há mais lugar em nossos dias. O mesmo ocorre com a atividade humana. ou pelo menos a entravar seriamente o seu desenvolvimento. comparando-se a vida do interior com a de uma grande cidade. e isso tomou-se uma necessidade. espírito de solidariedade etc. que “toca sete instrumentos” etc. queixam-se da frieza. Há várias e diferentes profissões e em cada profissão inúmeras especializações. não deixa de possuir certa razão. fazendo-o perder a visão global ou de conjunto da atividade social. É preciso. limita a visão social do indivíduo. ocorre também um enfraquecimento do sentimento de solidariedade grupal. Especialista. 198] ses da Europa ou mesmo aos Estados Unidos. uma exigência. Nessas sociedades é visível que. para o indivíduo que é “pau para toda obra”. em visita ou a trabalho. Isso é facilmente constatado nas sociedades superdesenvolvidas dos nossos dias. e em cada ciência há inúmeras especialidades. todo mundo conhece e sabe de todo mundo. Pessoas que vão do Brasil. entretanto. em face da vastidão do saber moderno. saber muito bem fazer determinada coisa. forçoso é reconhecer. ao lado das inegáveis vantagens que a divisão do trabalho representa como recurso imposto pela própria complexidade crescente da vida social. diminui-Ihes a extensão ou amplitude. às vezes até com interesses antagônicos aos interesses do grupo global. À medida que o indivíduo aprofunda os seus conhecimentos. Já numa grande cidade ninguém sabe de . Todos se preocupam com todos e estão prontos para se auxiliarem mutuamente. Hoje o saber humano é dividido em várias áreas ou ciências. O indivíduo se isola dentro do grupo. como disse alguém. cada vez mais. profissionalmente falando. A especialização. como uma contingência social. principalmente no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas e por isso mesmo superorganizadas. Citou também Espinas. a abafar o espírito de conjunto.[p. Foi-se o tempo em que era possível saber de tudo. Até mesmo entre nós isso pode ser constatado. ao afirmar que divisão significa dispersão. para se poder competir no mercado de trabalho. tal divisão transforma-se numa fonte de desintegração ao provocar as especializações dos indivíduos. como os sábios da Grécia. O pensamento durkheimiano. embora criticado por alguns. Com essa perda de visão da obra comum e do seu sentido. é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos.

assim. que os meios existentes não são suficientes nem estão ao alcance de todos. Quer isso . não nos dizem respeito: uma pessoa ferida num acidente pode ficar horas a fio sem receber socorro. no lazer etc. fazemos até questão de não saber quem é. acarretando. a influência dissolvente da personalidade que sofre o operário que passa o dia todo apertando parafusos numa fábrica de automóveis. Somos capazes de morar muitos anos em um mesmo prédio sem saber quem é o condômino do lado ou de cima. metas sócio-culturais. entretanto. em face da tese de Robert K. e cada qual corre atrás dos seus próprios interesses.ninguém. aos quais aderem normas de comportamento. que são os recursos institucionalizados pela sociedade. um desequilíbrio entre os meios e as metas. O fenômeno não é novo e já foi até explorado por Charles Chaplin como tema do filme “Tempos Modernos”. 199] Partindo de uma análise da sociedade americana. De um lado. principalmente no que tange à criminalidade. portanto. Merton. transformando-se em parte da sua obra clássica Teoria e Estrutura Sociais. ou pode ser assaltada e massacrada por um marginal aos olhos de uma multidão. Para atingir essas metas existem os meios. diária ou semanalmente nos relacionamos com um pequeno grupo. meios socialmente prescritos para atingi-los. entendendo-se como tais os valores sócio-culturais que norteiam a vida dos indivíduos. onde se destacou entre outras coisas. [p. que teve o mérito de estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia. Os outros não nos interessam. Merton sustentou que em toda sociedade existem metas culturais a serem alcançadas. muito embora dezenas de pessoas passem ao seu lado em seus veículos sem se incomodarem. Se a tese de Durkheim apresenta muitos pontos verdadeiros no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas. Ocorre. sociólogo americano. escreveu um artigo famoso de apenas dez páginas. sem que ninguém venha em seu socorro. não é verdade no que se refere às sociedades subdesenvolvidas. E o que é pior. na escola. e de outro. O artigo foi posteriormente revisto e aumentado pelo autor. Merton. normalmente das nossas relações de atividade no trabalho. MERTON SOBRE A ANOMIA Em 1938 Robert K. O PENSAMENTO DE ROBERT K. 86. verifica-se justamente entre os menos especializados ou mesmo sem nenhuma especialização. Embora morando numa cidade de milhões de habitantes. por esta razão a tese foi contestada e preterida por muitos. onde se observa que o maior índice de desvio.

dizer que. buscaria outros meios. 4) de evasão. Tipos de Comportamento Identificados por Merton Examinando o descompasso existente entre as aspirações culturalmente prescritas e o caminho socialmente estruturado para atingi-Ias. Inovacionista é a conduta que está de acordo com as metas sociais. o inovacionista está de acordo . respeitando assim as normas fixadas pela sociedade. a saber: 1) conformista. mesmo que contrários aos interesses sociais. 3) ritualista. percebendo que os meios são insuficientes e não estão ao seu alcance. no empenho de alcançar as metas que lhe foram sugeri das e não dispondo de meios para tal. enquanto todos são insistentemente estimulados a alcançar as metas sociais. buscando realizar as metas através de outros meios. podendo-se dizer a respeito deles que são positivos (+) quanto aos meios e também (+) quanto às metas. inova. concentrados nas mãos de pequena parcela da sociedade. um descompasso entre os fins sugeridos a todos e insistentemente estimulados. mas. 5) de rebelião.1. eis que o indivíduo. 2) inovacionista. Merton ilustra isso tomando como exemplo a meta mais importante da sociedade americana. É a conduta seguida pela grande maioria das pessoas na sociedade. na realidade apenas alguns poucos conseguem por terem ao seu dispor os meios institucionalizados. muito poucos podem alcançá-la em face da escassez dos meios institucionalizados. Mas quantos realmente têm condições para atingir essa meta? Apesar de erigida em objetivo da vida de todos. Esse desequilíbrio entre meios e metas ocasionaria o comportamento de desvio individual (ou em grupo). 200] acordo com os meios e as metas sociais. poder. prestígio. 86. que buscam adquirir cultura etc. e os recursos oferecidos pela sociedade para alcançar aqueles objetivos. o sucesso na vida. Disso resulta um desajustamento. Conformista é a conduta que busca atingir as metas sociais através dos meios institucionalizados. Em outras palavras. qual seja. nisto incluindo fortuna. Merton classificou os comportamentos socialmente relevantes em cinco tipos diferentes. popularidade etc. inclusive pelos estudantes em geral. através de estudo regular. Os adeptos desse comportamento estão de [p.

201] Essa é a perfeita imagem do ritualista. Abandona as metas. repetindo sempre “boa noite” e “bom dia”. perde de vista os fins. imutáveis. É negativo (-) quanto às metas e negativo (-) quanto aos meios. sendo. quando era dito “bom dia”.. E enquanto falava ia acendendo e apagando o lampião. o acendedor de lampião explicou: antigamente o meu mundo girava bem devagar. E nessa rotina passava ele o tempo todo. de forma que eu acendia o lampião ao anoitecer e o apagava ao amanhecer. Quem já leu o Pequeno Príncipe. mal o lampião era aceso. recorda-se por certo do acendedor de lampião encontrado em um daqueles pequenos mundos que percorreu: causou estranheza ao nosso personagem o fato de que. ele começou a girar mais rápido e cada vez mais rápido. E ainda que já estejam elas velhas.. ultrapassadas. mas continuo a cumprir a minha tarefa. . destituídas de qualquer valor ou utilidade social. Quando perguntado pela razão dessa sua conduta. há mais de duzentos quilômetros por hora. tenho que apagá-lo porque amanheceu. voltava a ser apagado. mas está contra os meios. e se apega às normas como se fossem sagradas. Procuram vencer na vida sem fazer força. Ritualista é aquele que se conduz de forma justamente inversa ao inovacionista. sendo positivo (+) quanto a elas. acendendo e apagando o lampião e dizendo “boa noite” e “bom dia”. significado ou interesse social. entretanto. de modo que hoje. mas. Há aqui uma verdadeira inversão de valores.com as metas sociais. pois. ainda que já estejam totalmente vazias de sentido. por outro lado. arcaicas. apegando-se aos meios com tal importância que os transforma em fins. Comportamento de evasão é aquele que se caracteriza pelo fato de abandonar as metas e os meios sociais. o ritualista abdica das metas. Depois. nada mudou por lá nem se registrou nenhum progresso funcional em sua vida. mas negativo (-) quanto às metas. [p. nunca havendo se atrasado ou faltado ao serviço. pois as metas perdem a sua importância passando os meios para o primeiro plano. momento em que o acendedor dizia “boa noite”. ainda que não sejam socialmente aprovados. os objetivos. As normas de comportamento social são cumpridas pelos ritualistas a todo preço e em qualquer circunstância. É o caso de certas pessoas que se gabam de terem servido 30 ou mais anos na mesma repartição. mal eu acendo o lampião ao anoitecer. Percebendo que as metas sociais são mui elevadas e os meios existentes insuficientes para atingi-Ios. porque encontram nelas uma forma de realização pessoal. negativo (-) neste ponto. os valores sociais. Pode-se representar o ritualista como sendo positivo (+) quanto aos meios. Os inovacionistas adotam a filosofia de que os fins justificam os meios. fazendo delas fins. continua a aplicá-las ou a observá-las como se nada houvesse mudado na sociedade. embora se encontre esta numa outra era.

Ao mesmo tempo que se opõe às metas e aos meios sociais por julgá-las excessivamente elevados e insuficientes. uma vez que os seus adeptos buscam as metas culturalmente prescritas através dos meios institucionalizados para atingi-los e com respeito habitual às normas para isso fixadas pela sociedade. a seguir. que consideram todos os valores sociais irrelevantes ou incapazes de realizar o bemestar humano. em síntese. graças ao intenso condicionamento social exercido sobre o indivíduo. porém. em especial nos grupos familiar e profissional. mais abundantes e melhor distribuídos na sociedade. podendo ser caracterizado como sendo negativo (-) quanto aos meios e negativo (-) quanto às metas. foge da sociedade. razão pela qual ao mesmo tempo que é negativo (-) quanto aos meios e metas.2.Percebendo que as metas sociais são muito elevadas e os meios escassos. é a derrubada dos meios e metas existentes. o comportamento de rebelião também está contra as metas e os meios sociais. é também positivo (+). vivem no meio social mas a ele não aderem. Não pára. os adeptos desse comportamento estão na sociedade mas não são dela. Tipos de comportamento 1) conformista 2) inovacionista 3) ritualista 4) de evasão 5) de rebelião meios (+) (-) (+) (-) (-) (+) [p. ou dele retiram a adesão antes dada. Comportamentos de Desvio O primeiro comportamento. bem como de novos meios. uma nova estrutura social. propõe o estabelecimento de novas metas com a institucionalização de novos meios. Exemplo típico desse comportamento é o dos hippies. Como acentuou Merton. renunciando a tudo o que ela oferece ou determina. Objetiva. usando os próprios símbolos de positivo (+) e negativo (-) utilizados por Merton. Tal como na evasão. O propósito do comportamento de rebelião. . não é de desvio. mais simples e ao alcance de todos. aí a inconformidade do comportamento de rebelião. o quadro de classificação dos tipos de comportamento atrás descritos. o conformista. e o estabelecimento de novas metas. Faremos. portanto. 202] metas (+) (+) (-) (-) (-) (+) 86. É o tipo modal de comportamento.

pretende a derrubada de todos os meios e metas sociais. como vimos. mantendo velhas e arcaicas instituições ou disposições legislativas já sem nenhuma adequação às novas realidades sociais. legisladores etc. 203] sa alguma. quanto às metas culturais. despidos daquela motivação. ocorre no caso inconformismo quanto à manutenção dos alvos socialmente prescritos. a conduta ritualista passa a ser. é assim a conduta observada. com a recusa de conformidade aos comportamentos socialmente estabelecidos. os fins sociais perdem a sua importância. p. um valor em si mesmo. do desencanto e desestímulo decorrentes do desajuste entre os processos socialmente aprovados para alcançar as metas culturais. porque ocorre a rejeição das metas culturais e dos valores que as sustentam. considerados todos irrelevantes ou incapazes de realizar o bem-estar humano. pois o cumprimento dos ritos estabelecidos pelos processos institucionalizantes adquire a dimensão e a importância de valor sócio-cultural. e quanto aos comportamentos sociais aprovados. não se limita a aperfeiçoar instrumentos ou instituições. O indivíduo abandona e virtualmente rejeita os alvos estabelecidos pela sociedade em razão do fracasso efetivo ou em potencial. que se recusam a fazer mudanças ou reformas sociais necessárias. do medo do insucesso. por julgá-los inatingíveis. então. Cumprir de qualquer maneira os regulamentos ou as ordens recebidas. Os adeptos desse tipo de comportamento são um peso-morto na sociedade. Como bem observou Miranda Rosa (Sociologia do Direito. porque ajustado aos tipos de conduta socialmente recomendados ou aprovados. O ritualismo toma-se grandemente prejudicial à sociedade quando se trata do comportamento adotado pelos homens públicos do país (administradores. comportamentos de desvio. O comportamento de rebelião é o mais extremado de todos. Embora na aparência seja esse um comportamento conformista. Enfim. a atitude de que elas não valem a pena de coi. não merecem observância. No comportamento de evasão também há desvio.[p. contrários de algum modo aos padrões de metas culturais e de meios institucionalizados para atingi-los: portanto.Já os outros quatro tipos de comportamentos são não-modais.). quer substituição total de todos os instrumentos e instituições com o fim de realizar uma mudança . Prevalece. 105). posto que. sem indagar da sua adequação àqueles valores e àquelas metas. O ritualista se caracteriza como comportamento de desvio por apresentar abandono das metas sociais e inversão de valores quanto aos meios que são elevados ao primeiro plano. substituindo-os por outros de maneira total e revolucionária.

Normalmente se manifesta nos momentos de grandes crises sociais. permitindo-nos. porque ela tem causas múltiplas. os instrumentos prescritos ou admitidos para atingi-las. mais eficientes para a realização dos objetivos sociais. e atingir os alvos culturalmente estipulados por todo o sistema. um aspecto positivo no comportamento inovacionista. o inovacionista é o comportamento de desvio de maior freqüência na sociedade. em menor escala. e assim continua sendo em nossos dias. promove uma reação em cadeia. que deve ser ressaltado. As normas são abandonadas ou contornadas. assim. com os movimentos dos sem terra. O desequilíbrio entre metas e meios sociais. cria. Há. fazer distinção entre conduta inovadora-criadora e conduta inovadora anti-social. PALAVRAS FINAIS Nenhuma teoria. Dessa maneira a conduta divergente quanto aos meios toma-se no pensamento mertoniano uma reação normal a uma situação social definida e determinada. assim. verdadeira bola de neve social. Referimo-nos àqueles casos de inovações que visam criar novos meios. Nesse desvio de comportamento estão retratadas todas as formas de delinqüência. é sem dúvida a causa remota da anomia que.completa na sociedade. em nosso entender. 204] 87. . Assim foi na França. Sem dúvida alguma. assim foi na Rússia. sem teto e outros. bem como as faltas disciplinares. a própria sociedade concorre para isso ao deixar de proporcionar. o motor à explosão e milhões de outras invenções que tantos benefícios trouxeram à sociedade e nos permitiram chegar ao estágio atual de desenvolvimento científico. a inobservância das regras de conduta social etc. razão pela qual deixamos a sua análise para o final. De certa forma. assim foi em Cuba. num esforço do indivíduo para superar os obstáculos institucionais ou instrumentais. com a mesma generalidade com que estabelece as metas. que acaba provocando comportamentos anômicos de diferentes gravidades. Isso evidencia que nem todo comportamento inovacionista é necessariamente contrário à ética existente no grupo social. esgota o tema da anomia. núcleo da teoria de Merton. entretanto. quando o desequilíbrio entre os meios e metas se toma muito grande e insustentável. Graças a esse espírito inovador temos hoje a luz elétrica. por sua vez. desde a juvenil até a mais grave criminalidade. condições específicas para estimular o abandono ou a burla das normas socialmente fixadas para se atingir as metas culturalmente estabelecidas. como bem observou Merton. [p.

crise de desemprego. cerca de 91% da população brasileira vive em cidades. Em busca de melhores condições de vida. 28. . como demonstrou o Censo de 2000. principalmente saneamento: 54.Vejamos como isso ocorre. estima-se que 1. armados.07. como vimos quando tratamos da violência urbana (item 53). o número de moradias em favelas cresceu 35%. cerca de 12% da população do estado (O Globo. Isto não quer dizer que ele vai virar bandido. segundo dados do Censo 2000 do IBGE (O Globo. vivem a ilusão de poder. Dos 2.181) e a média de quatro pessoas por habitação. seduzidos pelo tráfico. de 1999.01. agressivos. E o que isso gera? Crise habitacional. praticamente em quatro décadas. não se prepararam para receber tamanha massa humana.2002).2004). O déficit habitacional no Brasil passa de seis milhões de moradias. São viciados. forma mais grave de [p. Os ícones desses adolescentes são marcas famosas. Os jovens. o Estado. permitindo o surgimento do crime organizado. aos poucos inverteram-se os valores. os líderes comunitários foram obrigados a obedecer ao poder paralelo para não serem mortos ou terem que se mudar. Essa é a realidade social. vivem brincando de polícia e ladrão. As cidades.1% dos domicílios são semi-adequados ou inadequados. Em relação à pesquisa anterior. gerando dúvidas na população quanto às normas a serem observadas (conflito de normas). siglas de facções e armas. crise na saúde. em especial as metrópoles. E além disso. Pior que tudo. em boa parte (40%) nas capitais e suas periferias. 205] comportamento anômico. o jovem está fora do mercado formal. A renda média de chefes de família em favelas é cinco vezes menor que no asfalto. O poder paralelo que assim se instaurou passou a impor as suas próprias regras. constatou que as favelas estão presentes em 48 dos 92 municípios fluminenses. Esse processo de urbanização aconteceu de forma desordenada e acelerada. mudaram-se os paradigmas. perderam-se as referências. cerca de 700 mil (um quarto) abandonaram a escola antes de concluir o ensino fundamental. na educação e assim por diante. 19. há enormes carências de infra-estrutura. significa que ele está à margem da sociedade. feita em 2001 e concluída em novembro de 2003. Sem o diploma do ensino básico.6 milhões de fluminenses vivem em favelas. Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE.6 milhões de jovens de 15 a 24 anos que vivem no Estado do Rio. Considerando-se o número de domicílios cadastrados em favelas no Estado do Rio (424. não conseguiu se fazer presente nas áreas urbanas favelizadas. porque a oportunidade de ascensão social (meios e metas) está condicionada à educação. o que equivale a 52% deles. e o resultado foi a favelização de áreas urbanas. crise de transporte.

ao alcance da maioria. o que fazer para modificá-la? A toda evidência. mais cedo ou mais tarde acaba vindo a rebelião. nas leis. ou seja. então. na ordem econômica para melhorar a distribuição de rendas. vivem do comércio de droga. 206] dade com outra solução. por isso. afirma que atualmente a prática nos morros é a intimidação: tortura. nas instituições. e não apenas arrancar as suas folhas. Mas não resolverão o problema. É preciso promover as mudanças sociais necessárias nas instituições. Quando isso não é feito. a reconquista dos espaços perdidos pelo Estado. reeditada sucessivas vezes pela Editora Zahar. Devem eles possuir um espírito inovador (e não ritualista) para realizar as reformas sociais necessárias nas leis. pois o desequilíbrio se torna tão grande que não se depara a socie. tornar as metas mais acessíveis e os meios melhor distribuídos.Levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (IBISIS). assim. enfim. Se essa é a realidade social. Com o tempo revelar-se-ão paliativas. A inovação deve ser. e. médio e longo prazo. dentre outras.[p. de Miranda Rosa. aprimorar a educação. pelo menos 10%. obra pioneira no Brasil. da Delegacia de Homicídios. orientar o planejamento familiar. É preciso cortar o mal pela raiz. KatMartins . eliminar a exclusão social. recomendamos a leitura do Capítulo XI da notável Sociologia do Direito do Professor F. A. determinação política das autoridades são. A questão tem que ser enfrentada com medidas a curto. Numa favela de 30 mil pessoas. O delegado Carlos Henrique Machado. para que os moradores tenham medo de denunciá-los. Atuação mais firme e organizada da polícia. na distribuição da riqueza. Para maior profundidade do tema. estabelecendo novas metas e institucionalizando novos meios. constatou que o número de jovens (menores de 18 anos) que trabalham para o tráfico pode chegar a sete mil. a não ser aquela de promover uma total reorganização. reduzir as desigualdades. esquartejamento e incineração de corpos fazem parte do terror que esses traficantes impõem nas favelas. medidas imediatas a serem tomadas. que têm nas mãos o destino da sociedade. três mil pessoas. promover ações afirmativas. não existe solução única e milagrosa. diminuir o desequilíbrio entre metas e meios sociais. uma das principais qualidades dos homens públicos.

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