PAG. : 18 / LIVRO : sociologia – INTRODUCAO A SOCIOLOGIA – Autora: Cristina Costa Editora Moderna.

TEXTO SCANEADO 1 - O Renascimento Introdução O Renascimento, talvez mais do que a maioria dos diversos momentos históricos, suscita grandes controvérsias. Há quem veja nesse movimento filosófico e artístico o momento de ruptura entre o mundo medieval - com suas características de sociedade agrária, estamental, teocrática e fundiária - e o mundo moderno urbano, burguês e comercial. Mudanças significativas ocorrem na Europa a partir de meados do século XV lançando as bases do que viria a ser, séculos depois, o mundo contemporâneo. A Europa medieval, relativamente estável e fechada, inicia um processo de abertura e expansão comercial e marítima. A identidade das pessoas, até então baseada no clã e na propriedade fundiária, vai sendo progressivamente substituída pela identidade nacional e pelo individualismo. A mentalidade vai se tomando paulatinamente laica - desligada das questões sagradas e transcendentais -, as preocupações metafísicas vão convivendo com outras mais imediatistas e materiais, centradas principalmente no homem. Embora as preocupações metafísicas e filosóficas tenham importado ao homem desde a Antigüidade, no Renascimento a nova sociedade que emerge exige a distinção entre conhecimento especulativo e pragmático. Diferentes visões do Renascimento Alguns historiadores têm uma visão otimista do Renascimento, como a tiveram também aqueles que assim o batizaram, por terem erroneamente considerado a Idade Média como a Idade das Trevas e do obscurantismo. Para eles as mudanças que ocorreram na Europa, principalmente na Itália, e depois na Inglaterra e Alemanha, foram essencialmente positivas e responsáveis pelo desenvolvimento do comércio e da navegação, do contato com outros povos, pela proliferação de obras de arte e de obras filosóficas. Nessa ótica foi o movimento renascentista que promoveu o renascer da cultura e da erudição, o gosto pelo saber, além de tê-los, aos poucos, posto à disposição da população em geral. Mas há também os historiadores mais pessimistas, que conseguem perceber nessa época um período de grande turbulência social e política. Para essa análise, esses historiadores apóiam-se na falta de unidade política e religiosa, nos grandes conflitos existentes entre as nações, nas guerras intermináveis, nas inquisições e perseguições religiosas, no esforço de conservação 19 de um mundo que agonizava, características marcantes do período. Consideram sintomas de tudo isso os exílios, as condenações e os longos processos políticos e eclesiásticos, os grandes genocídios que a Europa promoveu na América e o ressurgimento da escravidão

como instituição legal. De fato, um certo clima de fim de mundo perpassa a produção artística do período, expresso na Divina comédia de Dante Alighieri, no Juízo final de Michelângelo, pintado na Capela Sistina e em vários quadros do artista flamengo Heironymus Bosch. Um clima de insegurança e instabilidade perpassa a todos nessa época de profunda transição. A retomada do espírito especulativo De qualquer maneira, o Renascimento marca uma nova postura do homem ocidental diante da natureza e do conhecimento. Juntamente com o descrédito na Igreja como instituição e o conseqüente aparecimento de novos credos e seitas - que conclamavam os fiéis a uma leitura interpretativa das escrituras -, o homem renascentista retoma a crença no pensamento especulativo. O conhecimento deixa de ser revelado, como resultado de uma atividade de contemplação e fé, para voltar a ser o que era antes entre gregos e romanos - o resultado de uma bem conduzida atividade mental. Assim como a ciência, a arte também se volta para a realidade concreta, Para o mundo terreno, numa ânsia por conhecê-lo, descrevendo-o, analisando-o, medindo-o, quer com medidas precisas, quer por meio de uma perspectiva geométrica e plana. "O visível é também inteligível", afirmava Leonardo da Vinci, encantado com as possibilidades de conhecimento pelo do uso dos sentidos. Por outro lado, a vida terrena adquire cada vez mais importância e com ela a própria historia, que “O renascimento se caracteriza por uma nova postura do homem ocidental diante da natureza e do conhecimento.” 20 passa a ter uma dimensão eminentemente humana. Estimulado pelo individualismo e liberto dos valores que o prendiam irremediavelmente à família e ao clã, o homem já concebe seu papel na história como agente dos acontecimentos. Ele vai aos poucos abandonando a concepção que o tomava por pecador e decaído, um ser em permanente dívida para com Deus, para se tornar, na nova perspectiva, o agente da história. Shakespeare evoca constantemente em suas peças a tragédia do homem diante de suas opções e sentimentos, enquanto Michelângelo faz quase se encontrarem os dedos de Deus e Adão na cena da Criação. É nesse ambiente de renovação que o pensamento científico tomará novo fôlego e, com ele, o pensamento acerca da vida social, Um novo pensamento social Num mundo que se torna cada vez mais laico e livre da tutela da Igreja Católica, o homem se sente livre para pensar e criticar a realidade que vê e vivencia. Sente-se livre para analisar essa realidade como algo em si mesmo e não como um castigo que Deus lhe reservou. E, assim como os pintores que se debruçaram nas minúcias das paisagens, na disposição das figuras numa perspectiva geométrica, os filósofos também passam a

questionar e dissecar a realidade, social. A vida dos homens passa a ser fruto de suas ações e escolhas, e não dos desígnios da justiça divina. Novas instituições políticas e sociais, estados nacionais, exércitos, levam os homens a repensar a vida social e a historia. 21 Ao mesmo tempo, emerge uma nova classe social- a burguesia comercial-, com novas aspirações e interesses, que renova o pensamento social. Nessa visão humana e especulativa da vida social está o germe do pensamento social moderno que vai se expressar na literatura, na pintura, na filosofia e, em especial, na literatura utópica de Thomas Morus (A Utopia), Tommaso Campanella (A cidade do Sol) e Francis Bacon (Nova Atlântida). As utopias Como Platão, os filósofos renascentistas tentaram imaginar uma sociedade perfeita. Assim como a Atlântida, surge através da pena de Thomas Morus uma comunidade onde todas as soluções foram encontradas: a Utopia. Uma ilha cujo nome significa "nenhum lugar", onde existe harmonia, equilíbrio e virtude. Desse modo, o pensamento social no Renascimento se expressa na criação imaginária de mundos ideais que mostrariam como a realidade deveria ser, sugerindo entretanto que tal sociedade seria construída pelos homens com sua ação e não pela crença ou pela fé. Utopia é uma ilha onde reina a igualdade e a concórdia. Todos têm sob as mesmas condições de vida e executam em rodízio os mesmos trabalhos. A igualdade e os ideais comunitários são garantidos por uma monarquia constitucional. Cada grupo de 30 famílias escolhe um representante para o conselho que elege o imperador; este permanece até o fim da vida como soberano, sob o olhar vigilante do conselho, que opina sobre cada ato real e pode consultar previamente as famílias, quando considerar necessário. Além da igualdade quanto ao estilo de vida e ao trabalho, também a distribuição de alimentos se dá de forma comunitária. Não há necessidade de pagar por nada, porque há de tudo em profusão, uma vez que a vida é simples, sem luxo e todos trabalham. Em A Utopia, Thomas Morus expressa os ideais de vida moderada, igualitária e laboriosa, semelhantes aos praticados pelos monges nos mosteiros pré-renascentistas, assim como defende, em termos políticos, a monarquia absoluta. “Utopia vem dos termos gregos óu (não) e topos (lugar). Significaria literalmente "nenhum lugar". Corresponde na história do conhecimento a essa evocação, através de uma aspiração, sonho ou desejo manifesto, de um estado de perfeição sempre imaginário. Na medida, entretanto, em que a utopia enfoca um estado de perfeição, ela realiza, por oposição, um exercício de análise, crítica e denúncia da Sociedade vigente. O estado de perfeição ensejado na utopia é necessariamente aquele no qual se tornam evidentes as imperfeições da realidade em que se vive. Mas, apesar de seu caráter de evasão da realidade, a utopia revela um apurada crítica à ordem social, podendo inclusive se transformar em autêntica força revolucionaria como indicam os grandes movimentos messiânicos vividos pela humanidade seja, aqueles movimentos que têm por meta a redução da humanidade ou a salvação do mundo.”

22 “Thomas Morus (1478-1535) Nasceu em Londres. Foi pensador, estadista, advogado e membro da Câmara s Comuns. Como bom humanista, desenvolveu estudos sobre o grego antigo. Em 1518, foi nomeado membro do Conselho Secreto de Henrique VIII e chegou em 1529 a ocupar o mais alto cargo do reino. Opôs-se à anulação do casamento de Henrique VIII, recusando-se a jurar fidelidade à Igreja Anglicana fundada pelo rei, em parte por ser católico e em parte por ser contrário aos desmandos da autoridade real. Foi preso, condenado e executado. Em 1935 foi canonizado pela Igreja Católica e sua festa é celebrada em 6 de julho, dia de sua morte. Sua grande obra é A Utopia.” Seria A Utopia uma obra sociológica? Não no sentido moderno ou científico do conceito, mas como expressão das preocupações do filósofo com a vida social e com os problemas de sua época. Toda a vida ou, como o próprio autor chama, o "regime social" dos utopienses demonstra claramente a preocupação com o estabelecimento de regras sociais mais justas e humanas como resposta às críticas que o autor fez em relação à Inglaterra de seu tempo. Analisar a sociedade em suas contradições e visualizar uma maneira de resolvê-las, acreditar que da organização das relações políticas, econômicas e sociais derivam a felicidade do homem e seu bem-estar é, seguramente, o germe do pensamento sociológico. E, refletindo basicamente os anseios de sua época, Thomas Morus considera esse mundo ideal possível, graças ao plano sábio de um monarca absoluto: Utopos, fundador da Utopia. O monarca esclarecido, justo e sábio é o ideal político do Renascimento, organizador das sociedades perfeitas criadas pela literatura de Thomas Morus e de outros. “Analisar as contradições sociais e procurar resolve-las, acreditar que o bem estar do homem depende das condições sociais é o germe do pensamento sociológico.” Maquiavel: O criador da ciência política Nicolau Maquiavel, pensador florentino, escreveu um livro, O príncipe, dedicado a Lourenço de Médici (1449-1492), governador de Florença, protetor das artes e das letras, ele mesmo um ditador. Nesse livro, Maquiavel se propõe a explorar as condições pelas quais um monarca absoluto é capaz de fazer conquistas, reinar e manter seu poder. Como Thomas Morus, Maquiavel acredita que o poder depende das características pessoais do príncipe - suas virtudes -, das circunstâncias históricas e de fatos que ocorrem independentemente de sua vontade – as oportunidades. Acredita também que do bom exercício da vida política depende a felicidade do homem e da sociedade. Mas, sendo mais realista do que seus companheiros utopistas, Maquiavel faz de O príncipe um manual de ação política, cujo ideal é a conquista e a manutenção do poder. Disserta 23

esses filósofos expressam os novos valores burgueses ao colocar os destinos da sociedade e de sua boa organização nas mãos de um indivíduo que se distingue por características pessoais. tanto como ciência quanto como conhecimento dos fatos. mas na capacidade pessoal do governante e Sua sabedoria. como resultado das condições econômicas e políticas e não de Sua fé ou de sua consciência individual. 29 2 . segundo alguns.” A Visão Laica da Sociedade e do Poder Em relação ao desenvolvimento do pensamento sociológico. como destruir. a imagem dos antigos líderes. Ajudava-o nas decisões políticas. É considerado o fundador da ciência política e. conseqüência do acaso ou das qualidades pessoais dos sujeitos.a respeito das relações que o monarca deve manter com a nobreza. De qualquer maneira. pondo em marcha as forças econômicas do capitalismo em formação. em vez de imaginar como ela deveria ser. Nessa idéia de monarquia se baseia a aliança que a burguesia estabelece com os reis para o surgimento dos estados nacionais. Suas principais obras são: O príncipe e Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. onde a ordem social será tanto mais atingível quanto mais o soberano agir como estadista. Foi exilado e afastado da vida pública quando Soderini foi destronado por Lourenço de Médici. como recompensar os aliados.A Ilustração e a sociedade contratual . Desconhecer a história é desconhecer a evolução e as leis que regem a sociedade onde se 24 vive. na memória do povo. A história. A monarquia proposta no Renascimento não se assenta na legitimidade do sangue ou da linhagem. o clero. nesse campo jamais foi superado. o povo e seu ministério. “Nicolau Maquiavel (1469-1527) Nasceu em Florença. como manipular a vontade popular e usufruir seus poderes e aliados. mas fez sua carreira diplomática em diversos países da Europa. presidente perpétuo de Florença. escrevia-lhe discursos e reorganizou o exército florentino. Maquiavel teve mais êxito do que Thomas Morus. passa a ter um papel relevante nesse novo contexto. A vida dos homens já aparece. A partir de então. Mostra como deve agir o soberano para alcançar e preservar o poder. na medida em que seu objetivo foi conhecer a realidade tal como se lhe apresentava. Além disso. como castigar os inimigos. nessas obras. nas obras de Thomas Morus e de Maquiavel percebemos como as relações sociais passam a constituir objeto de estudo dotado de atributos próprios e deixam de ser. como no passado. De 1502 a 1512 esteve a serviço de Soderini. Faz uma análise clara das bases em que se assenta o poder político: como conseguir exércitos fiéis e corajosos. limitou-se a ensinar e a escrever sobre a arte de governar e guerrear. na herança ou na tradição.

racional e em larga escala. e não para a vida após a morte e para os valores transcendentais. a partir do momento em que surgiu o comércio usando o dinheiro como equivalente de troca e. elaborada e praticada pelo comerciante burguês renascentista. Instalava-se uma sociedade baseada na distinção pela posse de riqueza e não pela origem. Enquanto no Império Romano o comércio realizado com a prática de preços considerados abusivos era considerado ilegal e pouco nobre. nome e propriedade fundiária. porque agora também se cobrava o máximo possível pela mercadoria. do transporte e da venda de azeitonas à Europa. Os valores renascentistas estavam mais adequados ao espírito do capitalismo. e a marca decisiva da ruptura com os valores e as idéias do mundo medieval. a forma de pensar e praticar o lucro era distinta. a competir por mercados e a responder de forma produtiva à ampliação do consumo. Todas essas mudanças se anunciavam no Renascimento e se tomavam cada vez mais radicais à medida que se adentrava a Idade Moderna e a Revolução Industrial se tomava realidade. e projetos como os de Leonardo da Vinci.” 30 o lucro era nova na história e foi instaurada pela burguesia a partir do Renascimento.resultante da relação entre oferta e procura e de outras condições produtivas e de mercado -. Essa mudança radical no mundo ocidental exigia uma nova ordem social. e a Igreja Católica considerava pecaminosa a atividade lucrativa. no capitalismo. o lucro tomou-se a finalidade de qualquer atividade econômica. O lucro não é mais apenas o valor que se paga ao comerciante pelo trabalho realizado. O lucro expressa a premissa da acumulação. então é preciso que a produção seja organizada de forma mais. Desenvolvem-se a . A idéia e a realização do lucro não eram de forma alguma novas.Introdução: uma nova etapa no pensamento burguês O Renascimento desenvolveu nos homens novos valores. dirigida por pessoas dispostas a buscar um espaço no mundo. Nesse preço estavam embutidas a reposição dos navios e dos escravos e a viagem de volta. Pessoas cuja vida estivesse direcionada para a existência terrena e suas conquistas. que ficaram apenas no papel. Se um comerciante pode auferir numa troca comercial o maior preço possível que a situação permite . um armador vivia da compra. para a expansão comercial. A nova concepção de lucro. Muitos comerciantes enriqueceram. a acumulação de riqueza. da ostentação. em decorrência. Vejamos esta situação hipotética: na Grécia. um sistema econômico voltado para a produção e a troca. A procura por novas técnicas mais eficientes se torna uma constante. O preço final do produto remunerava o comerciante por seu trabalho de intermediação. Muitos prêmios são oferecidos aos inventores. Essa forma de entender “O pensamento burguês representou uma ruptura com relação ao mundo medieval. passam a fazer enorme sucesso. O fato de a concorrência ser cada vez maior também exige maior racionalidade e previsão. da diferenciação individual e assim realiza a idéia de que tenho o direito de cobrar o máximo que uma pessoa pode pagar. No entanto. Eram conhecidas desde a Antigüidade. diferentes daqueles vigentes na Idade Média. para a circulação crescente de mercadorias e para o consumo de bens materiais.

independentemente de quem ocupa.a agricultura.a República. O Renascimento introduziu e desenvolveu o antropocentrismo. Portanto. percebeu-se também a existência de diferentes modelos . como forma de organização política pela qual as populações estabelecem relações intersocietárias. como Valor e Estado. prometiam lucros miraculosos. deu um passo a além. O surgimento de conceitos. o desenvolvimento industrial se anunciava em toda sua potencialidade. A pratica de elaboração .ciência e a tecnologia. movimento filosófico que sucedeu o Renascimento. principalmente. Embora ainda tivesse um certo caráter religioso. Concebeu novas idéias de vida social e entende a coletividade como um organismo próprio. entre vontade individual e regras sociais. A sociedade apresentava necessidades urgentes ao desenvolvimento.e passou-se a visá-los e a defender um ou outro modelo. capaz de transformar o conhecimento não só numa exaltação da vida e dos feitos de seus heróis. a Monarquia . científico: melhorar as condições de vida. já se cristalizara na Ilustração. mostram o grau de desenvolvimento do pensamento social. o campo. assim como o aparecimento de teorias capazes de explicar a origem do valor das mercadorias e outros mecanismos sociais. O conceito de nação. O nacionalismo emergente do Renascimento. entretanto. Já era possível identificar fenômenos sociais e concebê-los em sua natureza própria diferenciada. 31 A Ilustração. o individualismo e o racionalismo. de mão-de-obra disponível. mas também num processo que frutificasse em termos de utilidade prática. o gosto pela vida e o racionalismo. Os próprios sábios deveriam se interessar em desenvolver conhecimentos de aplicação prática. por certo tem o os cargos disponíveis. mudar os hábitos sociais e formar uma mentalidade receptiva as inovações técnicas. Nos séculos XVII e XVIII. Afinal. dá lugar à noção de organismo representativo da coletividade. O princípio de representatividade política revelando um aprofundamento no entendimento da vida social. a burguesia avança na concepção de uma forma de pensar própria. passou a concebê-la como uma realidade própria sobre a qual os homens atuam. o Renascimento exaltava a natureza e os prazeres da vida terrena. era preciso preparar a sociedade para receber os resultados desse trabalho. a indústria. O Renascimento correspondeu a uma primeira fase da sistematização do pensamento burguês. que se consegue junto à natureza. enquanto filosofia cada vez mais se procuram as raízes das formas de pensar. Conseguiu-se vislumbrar a oposição entre indivíduo e sociedade. identificado ainda com o monarca e preso ao sentimento de fidelidade e sujeição. na medida em que procurava trazer de volta à Europa os valores laicos. quando bem dirigidos. a laicidade. ampliar a expectativa de sobrevivência humana a fim de engrossar as fileiras de consumidores e. a cidade. Com relação à vida social. Começou a discernir aspectos e áreas da vida social com diferentes características e necessidades . fossem o êxtase religioso ou o simples prazer dos sentidos. e atribuía ao indivíduo valores pessoais que não provinham da sua origem. os empreendimentos. revela a existência e uma metodologia e a emergência de uma nova forma de conhecer a realidade social.

a liberdade de comércio e a livre concorrência de salários. Podemos dizer que a burguesia já se sentia suficientemente forte e confiante em seus próprios objetivos de vida para dispensar a figura do rei como seu aliado contra os privilégios feudais. atividade que consideravam a principal fonte de riqueza das nações. desde que não prejudicadas pela intervenção do Estado absolutista. o melhor preço. apoiado principalmente na contribuição dos fisiocratas (escola econômica da época). em que o Estado nacional favoreceu uma política de acumulação de capital por meio de monopólios. Fortalecida. principal motor do progresso econômico. da distribuição e armazenamento dos produtos.dos projetos científicos para o desenvolvimento da indústria passa a ser aplicada à sociedade. manufaturas e colonialismo. Conclamava o povo a aderir à defesa da igualdade jurídica e do sufrágio universal. os fisiocratas. correspondendo à extensão territorial onde a burguesia de determinado pais teria total controle sobre o mercado. Além desse apreço pelo livre curso das relações econômicas. A nação deveria se submeter a uma 32 organização política que pudesse favorecer o desenvolvimento econômico e estimulá-lo. pois. da melhoria da infra-estrutura. Após um primeiro momento em que a existência de um poder central garantia a emergência e a organização dessa nova ordem social. Segundo esse ponto de vista. As novas formas de pensar e agir aliavam-se à necessidade de a burguesia libertar-se das amarras estabelecidas pelas monarquias absolutas. portanto. maior empenho das pesquisas e do saber em conquistar avanços técnicos. O planejar e o projetar o futuro trouxeram consigo também o conceito de nação. da . conhecido pelo nome de Ilustração. preços e produtos. política e social em que tivesse participação no poder e pudesse realizar seus negócios sem entraves. de maneira mais eficiente do que os decretos reais. a Ilustração foi essencialmente pragmática e liberal. até mesmo governos republicanos. todo o esforço produtivo estaria perdido. melhora nas condições de vida. o indivíduo poderia promover o progresso econômico. o mercado exigia liberdade de expansão. uma vez que a burguesia queria uma ordem econômica. tudo isso somado levou a esse surto de idéias. O controle das relações humanas surgia. fiscalização. Este deveria estar livre das amarras impostas até então pela sociedade feudal. A filosofia social dos séculos XVII e XVIII O pensamento da Ilustração. pois sem um planejamento racional dos meios de transporte terrestres e marítimos. Novos valores guiando a vida social para sua modernização. mover-se e estabelecer-se. que não permitiam a livre iniciativa. as relações econômicas e sociais eram regidas por leis físicas e naturais que funcionariam de maneira racional. de posse de sua total liberdade de agir. defendia a idéia de que a economia era regida por leis naturais de oferta e procura que tendiam a estabelecer. propunham melhor aproveitamento da agricultura. pela livre concorrência. tal como sucedera durante a época mercantilista. opondo-se ao uso ocioso que a nobreza fazia de suas propriedades agrárias. Assim. a burguesia propunha agora formas de governo baseadas na legitimidade popular. Dentro dessa nova organização política da sociedade deveria privilegiar-se o indivíduo. o melhor produto e o melhor contrato.

foi contemporâneo de filósofos da Ilustração. portanto. “Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) Nascido em Génebra. dotada de uma racionalidade intrínseca. segundo o ideal de um Estado representativo da vontade popular. Contrato social.termo derivado de Cartesius. Rousseau procurou traçar a trajetória da humanidade a partir do igualitarismo primitivo até a sociedade diferenciada. nome latino de Descartes . O racionalismo cartesiano . Traduzia-se ainda na concepção de que as relações entre os homens resultariam na livre contraposição de vontades. filho de burgueses protestantes. essa idéia se traduzia na ânsia por liberdade de ação. entre outras coisas. Dedicou-se também ao desenho. “O desenvolvimento do capitalismo estimulou a sistematização do pensamento sociológico. Na França.” John Locke. à Itália e à Inglaterra. pensador inglês. expressava-se no objetivo de livre escolha dos governantes. Rousseau afirmava que a base da sociedade estava no interesse comum pela vida social.se expressava pela frase "penso. Suas principais obras foram. Foi aprendiz de seminarista. Um dos pensadores que mais desenvolveu essa idéia de um pacto social originário foi Jean-Jacques Rousseau. Foi alvo de críticas severas e perseguições. Reconhecia-se no homem. No plano político. empreendimento e contratação. Para ele. Seus Princípios deveriam ser redigidos sob a forma de uma . como Diderot. distingue-se dos demais filósofos da Ilustração. mas na época da Revolução Francesa suas idéias foram intensamente divulgadas. tal como defendiam os pensadores franceses René Descartes e Denis Diderot. Rousseau teve uma vida errante que o levou continuamente da Suíça à França. também defendeu a idéia de que a sociedade resultava da livre associação entre indivíduos dotados de razão e vontade. no consentimento unânime dos homens em renunciar as suas vontades particulares em favor de toda a comunidade. essa contratação estabelecia. Justamente por essa crítica à propriedade.” 33 A racionalidade estava na origem natural e física das leis de organização da sociedade humana e na base da própria atividade humana e do conhecimento. manifestava-se na noção de que as sociedades se baseavam em acordos mútuos entre os indivíduos que as compunham. as garantias de liberdade individual e o respeito à propriedade. Emilio. na liberdade contratual. Para alicerçar suas idéias a respeito da legitimidade do Estado a serviço dos interesses comuns e dos direitos naturais do homem. cuja descoberta era a principal meta dos estudos científicos. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens e Discurso sobre as ciências e as artes. de opinar e resolver sem que leis rígidas perturbassem sua conduta. No plano econômico. Em sua obra Contrato social. logo existo". Finalmente. a capacidade de pensar e escolher. Para Locke. à pintura e à música. as formas de poder. na qual mostrava que a razão era a essência do ser humano. no plano social. a origem dessa diferenciação estava no aparecimento da propriedade privada.própria dinâmica da vida econômica e social.

A coletividade deixava de ser a soma dos indivíduos que a compõem. mas ao aprender e perceber a natureza própria da vida social segundo a qual o comportamento social obedece regras diferentes daquelas que regem a ação individual. tomou contato com o método cartesiano. Em sua analise sobre a riqueza das nações descobriu no trabalho. como as regras naturais regiam o surgimento. ainda. e que todo processo vital não 34 era senão o movimento dessa matéria. ganhavam adeptos a idéia de que toda matéria tinha uma origem natural. a grande fonte de riqueza. na qual repudia a proposição cartesiana de que o homem possua idéias inatas e defende o conhecimento como resultado da experiência. Em sua obra Dois tratados sobre o governo civil. quem demonstrou que a análise científica podia ir além do que era expressamente manifesto nas vontades individuais. Formado em Oxford. os direitos naturais do homem e da propriedade privada. presos ainda à idéia de indivíduos. expressa na obra Ensaio sobre o entendimento humano. Durante o período em que residiu na França.constituição. considerado fundador da ciência econômica. Epístola sobre a tolerância. como queriam os fisiocratas. Esses princípios guiavam o conhecimento racional da sociedade. “A filosofia social da Ilustração levou à descoberta das bases materiais das relações sociais. Podemos afirmar que a filosofia social da Ilustração levaria à descoberta das bases materiais das relações sociais. não-divina. Mas. Alguns pensamentos sobre educação e Raciona/idade do cristianismo. esses filósofos entendiam a vida coletiva como a fusão de individualidades. Sofreu perseguições políticas na Inglaterra que o obrigaram a se refugiar na Holanda.” “John Locke (1632-1704) Era inglês de Wrington. ou seja. defende o liberalismo político. a principal fonte de bens. Percebe-se claramente que os filósofos dessa época já desenvolviam a consciência da diferença entre indivíduo e coletividade. Entre os filósofos da Ilustração. Publicou. na busca das leis naturais da organização social. Suas idéias políticas tiveram grande repercussão assim como sua contribuição ao problema do conhecimento. na produtividade. tal como fizeram Rousseau e Locke. .” Adam Smith: O nascimento da ciência econômica Foi Adam Smith. Não era somente a agricultura. O comportamento social decorreria da manifestação explícita das vontades individuais. ingressou na carreira diplomática. o desenvolvimento e as relações entre as espécies. mas o trabalho capaz de transformar matéria bruta em produtos com valor de mercado. A Revolução Industrial estava em pleno andamento e seus frutos se anunciavam. da percepção e da sensibilidade. obedecendo a leis naturais. Já percebiam que esta possuía regras próprias que regulavam a vida coletiva. Veremos adiante como essa idéia será retomada e reelaborada no século XIX por Karl Marx. Adam Smith revelara a importância do trabalho ao pensar a sociedade não como um conjunto abstrato de indivíduos dotados de vontade e liberdade.

Tão importante quanto seu valor como forma de entendimento da vida social e política foi sua repercussão prática na sociedade. à igualdade e a propriedade. da herança ou da concessão divina. responsável pela fiscalização à observância das leis que asseguravam os direitos individuais e seus limites. A idéias de Locke e de Montesquieu. tendo em vista a proteção dos direitos naturais à liberdade. 36 A legislação norte-americana. executivo. foram a base da Constituição norte-americana de 1787. como na Revolução Francesa. constitucional e democrático. Continuou seus estudos no livro Teoria dos sentimentos morais.35 “Adam Smith (1723-1790) Nasceu na Escócia. outro importante pensador da Ilustração. a vantagem de não constituir apenas uma crítica social baseada no que a sociedade poderia idealmente vir a ser. ainda. Lançaram também as bases para o movimento político pela legitimação poder. A idéia de Estado como uma entidade cuja legitimidade se baseia na pretensa representatividade da sociedade é um avanço em relação à idéia de monarquia absoluta. ou ainda do tipo ditatorial. desenvolvido no século XIX. Tiveram o poder de orientar a ação política e lançar as bases do que viria a ser o Estado capitalista. encarregado da execução das leis. A filosofia social desse período teve. fosse de caráter monárquico. a idéia de que a origem do poder não estava nos privilégios da tradição. mas de criar projetos concretos de realização política para a sociedade burguesa emergente. mas no contrato expresso pela livre manifestação das vontades individuais. no qual afirma que a vida social humana está fundada em sentimentos de benevolência e simpatia. instituindo a divisão do Estado nos três poderes e estabelecendo mecanismos para garantir a eleição legítima dos governantes e os direitos do . Ambos pregaram a divisão do Estado em três poderes: legislativo. Foi professor da Universidade de Glasgow. Sua principal obra foi Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações (A riqueza das nações). mas uma instituição abstrata com relações precisas com a coletividade. como na Revolução Gloriosa da Inglaterra. fosse de caráter republicano.” Legitimidade e liberalismo As teorias sociais da Ilustração no século XVIII foram ainda o início do pensar científico sobre a sociedade. Foi o grande defensor do liberalismo econômico. incumbido da colaboração e da discussão das leis. o Estado criava o princípio da circulação do poder. O confronto de interesses também está subjacente às idéias propostas pelos políticos iluministas. da função da moeda e da ação dos bancos na economia. É considerado o fundador da ciência econômica. Desenvolveu idéias a respeito da divisão do trabalho. Locke defendia. Essa divisão estabelecia a distribuição das tarefas governamentais e a mútua fiscalização entre os poderes do Estado. O Estado já não é a pessoa que governa. como no império napoleônico. Além da circulação de leis e de riquezas. em relação à renascentista. e judiciário.

Por isso. queria conhecer a natureza e intervir sobre ela. como elemento da natureza. eram vitoriosas as conquistas do conhecimento humano. Descartes defendia a validade do método dedutivo. Preparava-se o caminho para o amplo progresso científico que aflorou no final do século XIX. “Se a ciência tinha sucesso na explicação da natureza. Aos olhos dos homens da época. 39 3 .A crise das explicações religiosas e o triunfo da ciência Introdução: o milagre da ciência Vários aspectos da filosofia da ilustração prepararam o surgimento das ciências sociais no século XIX. A ciência se fundava. Em contraposição. A vida parecia submeter-se aos ditames do homem esclarecido. poderia também explicar a sociedade. portanto. Os efeitos de novos inventos. Dessa preocupação provieram as discussões em tomo do método científico.” 40 Se esse pensamento racional e científico parecia válido para explicar a natureza. As idéias de progresso. A indução. eram amplamente verificáveis e pareciam coroar de êxitos as atividades científicas. Os Estados Unidos da América constituíram a primeira república liberal-democrática burguesa. As questões de método O filósofo da ilustração. da química e da farmácia. havia sido desenvolvida por Bacon desde o fim do Renascimento. aquele que possibilitava descobertas pelo encadeamento lógico de hipóteses elaboradas exclusivamente a partir da razão. Claro está que a sociedade européia da época não se dava conta das nefastas conseqüências que a Revolução Industrial do século XVIII traria para o mundo tradicional agrário e manufatureiro. poderia ser conhecida e transformada. pôs em prática os ideais políticos liberais e democráticos modernos. da mesma forma que a natureza. E a sociedade. as primeiras questões que os sociólogos do século XIX tentarão responder serão relativas a definição dos fatos sociais e ao método de investigação. O primeiro deles foi a sistematização do pensamento científico. o desenvolvimento da mecânica. como o pára-raios e as vacinas. ele poderia também explicar a sociedade vista como um elemento da natureza.cidadão. além de preocupar-se com a descoberta das leis que regiam o próprio conhecimento. como um conjunto de idéias que diziam respeito à natureza dos fatos e aos métodos para compreendê-los. no sentido de abrir caminho para o controle sobre as leis da natureza. intervir sobre ela e transformá-la. Tanto o método indutivo de Bacon como o dedutivo de . ou seja. racionalismo cientificismo exerceram todo um encanto 80 re a mentalidade da época. método que concebia o conhecimento como resultado da experimentação contínua e do aprofundamento da manipulação empírica.

O anticlericalismo Um aspecto de especial importância no pensamento desse período.Descartes serão traduzidos em procedimentos válidos para as pesquisas sobre a natureza da sociedade. destaca-se Voltaire. Karl Marx a julgava responsável por uma falsa imagem dos problemas humanos. atacou a concepção segundo a qual o homem criara Deus a sua imagem e semelhança. Voltaire chegou a comprovar a injustiça de alguns veredictos eclesiais e a obter indenizações para as famílias dos condenados. Nesse período desenvolveram-se filosofias materialistas e o próprio estudo da religião como instituição social. Émile Durkheim a considerava um 41 meio de integrar os homens em tomo de idéias comuns. assim como ao repúdio à secular atuação do clero. filósofo alemão. Esse processo. na medida em que a própria sociedade perdeu a sacralidade. denominado por alguns historiadores "laicização da sociedade". atingiu seu apogeu no século XIX. deixou de ser vista como obra de Deus. a Igreja foi questionada como fonte de poder secular. Assim. ao contrário. Entre os filósofos e os literatos que se insurgiram contra a religião. Defendida por uns. em que se eliminou muito de seu aspecto sobrenatural e transcendente. Toda religião . em suas origens e funções. conforme sua inserção na vida concreta e material dos homens. de qualquer maneira. A igreja como objeto de pesquisa A existência da Igreja como instituição social foi discutida por alguns pensadores e sociólogos do século XIX. que. Para o pensamento cientificista . como promotora de valores sociais importantes para a orientação da conduta humana. por outros. político e econômico. na medida em que se imiscuía em questões civis e de Estado. em particular contra a Igreja Católica. a igreja e sua doutrina sofreram um processo de dessacralização. Dessa forma. a fim de rever antigas condenações da Inquisição. também moveu processos judiciais contra a Igreja Católica. e não apenas a vida futura. repudiada por outros. ligada à acomodação e à submissão pregadas por sua doutrina. não se atendo somente à propagação de idéias anticlericais. "descristianização". isto é. em particular das ciências sociais. Nietzsche chega a anunciar a morte de Deus e a necessidade de o homem assumir a plena responsabilidade sobre sua existência no mundo.em especial o catolicismo . Na filosofia. foi o anticlericalismo. A nova maneira de encarar a doutrina religiosa auxiliou o desenvolvimento das ciências humanas. grandes pensadores sistematizaram o pensamento laico e antic1erical. o importante papel de explicar o mundo dos homens. sobretudo aquele de origem francesa. A religião começou a ser encarada como um dos aspectos da cultura humana. passava.era agora vista de maneira favorável ou desfavorável. a Igreja perdia. Tal questionamento levou a uma descrença na doutrina e na infalibilidade eclesiásticas. como algo criado pelos homens com finalidades praticas relativas a vida terrena. Feuerbach. a ser explicada por eles.

46 4 . A ciência já não parecia mais uma forma particular de saber. A vida humana em sociedade deixa de ser mero estagio para a vida após a morte e passa agora a buscar explicações para a existência das crenças religiosas na própria sociedade. mas a única capaz de explicar a vida. julgava-se possível descobrir as leis que regulavam as relações entre os homens na sociedade. a primeira a definir precisamente o objeto e estabelecer conceitos e uma metodologia de investigação. ao definir a especificidade do estudo científico da sociedade. 42 Com a mesma proposta de isenção de valores com que se descobriria a lei da gravitação dos corpos celestes no universo. conseguiu distinguir-se de outras ciências estabelecendo um espaço próprio à ciência da sociedade.Positivismo: uma primeira forma de pensamento social Introdução: cientificismo e organicismo A primeira corrente teórica sistematizada de pensamento sociológico foi o positivismo. leis naturais que existiriam independentemente do credo. da opinião e do julgamento humano. quaisquer que fossem suas opiniões pessoais. o certo e o errado. reforçando a crença na materialidade da vida e no poder da ciência. por meio de procedimentos adequados e controlados. a verdade se descortinaria diante dos cientistas – os novos “magos” da civilização -. Toda essa nova mentalidade. O poder do método científico assim se assemelhava ao poder das antigas práticas mágicas: bem usado.” A Sacralização da ciência A sociologia se desenvolveu no século XIX quando a racionalidade das ciências naturais e de seu método havia obtido o reconhecimento necessário para substituir a religião na explicação da origem do desenvolvimento e da finalidade do mundo. “O pensamento laico . abolir e suplantar as crenças religiosas e até mesmo as discussões éticas. seus valores sobre o bem e o mal. a ciência. Nesse momento. que estudaremos no próximo capitulo.cientifico permitiu pensar a sociedade como obra humana e não divina. Seu primeiro representante e principal sistematizador foi o pensador francês Auguste Comte. o positivismo. revelaria ao homem a essência da vida e suas formas de controle. orientou a formação da primeira escola cientifica do pensamento sociológico. com sua possibilidade de desvendar as leis naturais do mundo físico e social. havia conquistado parte da sacralidade que antes pertencia às explicações religiosas: a de descobrir e apontar aos homens o caminho em direção à verdade. Além disso o positivismo. . Supunha-se que.do século XIX. são os homens que criam os deuses e não ao contrario. utilizando-se adequadamente os métodos de investigação.

isto é.O positivismo derivou do "cientificismo". biologia – e o visível sucesso de suas descobertas no incremento da produção material e no controle das forças da natureza atraíram os primeiros cientistas sociais para o seu método de investigação. . Seu conhecimento pretendia substituir as explicações teológicas. Devotou seus estudos à filosofia positivista. Tornou-se discípulo de Saint-Simon. Essas leis seriam a base da regulamentação da vida do homem. antes de criar o termo sociologia.” 47 naturais – física. em seis volumes. publicada entre 1830 e 1842. O positivismo reconhecia que os princípios reguladores do mundo físico e do mundo social diferiam quanto à sua essência: os primeiros diziam respeito a acontecimentos exteriores aos homens. filosóficas e de senso comum por meio das quais . Este último representava o coroamento do progresso da humanidade. Publicou também: Discurso sobre o conjunto do positivismo. da natureza como um todo e do próprio universo. existiam na história três estados: um teológico. Por isso o positivismo foi chamado também de organicismo. Estudou no colégio de sua cidade e depois em Paris. assim como procurava identificar na vida social as mesmas relações e princípios com os quais os cientistas explicavam a vida natural. os outros. segundo um modelo físico mecânico. considerada por ele uma religião. Catecismo positivista e Síntese subjetiva. Além disso. Sistema de política positiva. outro metafísico e finalmente o positivo. O próprio Comte deu inicialmente o nome de "física social" às suas análises da sociedade. procurando dessa maneira chegar à mesma objetividade e ao mesmo êxito nas formas de controle sobre os fenômenos estudados. a crença na origem natural de ambos teve o poder de aproximá-los. ciência que batizou em sua obra Curso de filosofia positiva.até então . pautar seus métodos e elaborar seus conceitos à luz das ciências naturais. da qual era o pregador. como primeiro princípio teórico dessa escola a tentativa de constituir seu objeto. na Escola Politécnica. Sobre as ciências. Essa tentativa de derivar as ciências sociais das ciências físicas é patente nas obras dos primeiros estudiosos da realidade social. de uma família católica e monarquista. Podemos apontar. de quem sofreu enorme influência. A própria sociedade foi concebida como um organismo constituído de partes integradas e coesas que funcionavam harmonicamente. Essa filosofia social positivista se inspirava no método de investigação das ciências da natureza.o homem explicava a realidade. sendo que a ciência mais complexa e profunda seria a sociologia. Entretanto. Segundo sua filosofia política. Viveu a infância na França napoleônica. a rápida evolução dos conhecimentos das ciências “O positivismo reconheceu a existência de princípios reguladores do mundo físico e do mundo social. a questões humanas. França. química. portanto. distinguia as abstratas das concretas. da crença no poder exclusivo e absoluto da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-Ia sob a forma de leis naturais.” “Auguste Comte ( 1798-1857) Nasceu em Montpellier.

a dominação e a transformação da África e da Ásia pela Europa precisavam apresentar uma justificativa que ultrapassasse os interesses econômicos imediatos. Esta reestruturação do capitalismo estava associada às sucessivas crises de superprodução na Europa. atendiam às necessidades do capitalismo europeu. estruturando-as segundo os princípios que regiam o capitalismo. Porém. nesses territórios. A Europa deparou com civilizações organizadas sob princípios tais como o politeísmo. assim. pois dessa transformação dependiam a expansão e a sobrevivência do capitalismo industrial. que. De outra forma seria impossível racionalizar a exploração da matéria-prima e da mão-de-obra. Estas. Nesses continentes podiase obter matéria-prima bruta a baixíssimo custo. o europeu teve primeiro de organizar. pois era perigoso continuar investindo na indústria européia sem causar novas e mais profundas crises de superprodução. Desencadeava-se.a capitalista -. formas de poder tradicionais. os alvos eram a África e a Ásia. a exploração eficaz dessas novas colônias encontrava resistência nas estruturas sociais e produtivas vigentes nesses continentes que. Isso explica o fato da conquista européia estar revestida de um manto humanitário que ocultava a violência da ação colonizadora. sob novos moldes. eram também pequenos mercados consumidores. que traziam consigo a morte de milhares de pequenas indústrias e negócios. a corrida para a conquista de impérios além-mar. ou voltada para um pequeno comércio local e artesanato doméstico. Assim. Assim. associados ao capital dos grandes bancos. Surgia a época dos monopólios e dos oligopólios. de modo a permitir o consumo de produtos industrializados europeus e a aplicação rentável dos capitais excedentes na Europa. a conquista e a dominação foram transformadas em "missão . passa por profundas transformações com a crescente substituição da concorrência entre inúmeros produtores de cada ramo industrial por uma concorrência limitada a um pequeno número de produtores de cada ramo. A expansão da Revolução Industrial pela Europa. obtida pelas revoluções burguesas que atingiram todos os países europeus até 1870. para dar espaço apenas às maiores e mais estruturadas indústrias. que era a regra geral de funcionamento da sociedade capitalista européia. a única saída para garantir a continuidade dessas indústrias. 48 Da mesma forma. por sua vez. trouxe consigo a destruição da velha ordem feudal e a consolidação da nova sociedade . tiveram de se unir ao capital bancário para sustentar e financiar a sua própria expansão. economia agrária de subsistência. Transformar esse mundo conquistado em colônias que se submetessem aos valores capitalistas requeria uma empresa de grande envergadura. bem como locais ideais para investimentos em obras de infra-estrutura. de forma alguma. em sua grande maioria. a poligamia. portanto. estruturada sobre a indústria.O darwinismo social É importante situar o desenvolvimento do pensamento positivista no contexto histórico do século XIX. o capital financeiro necessitava de novos mercados para poder crescer. Crescer para fora dos limites da Europa era. Assim a conquista. a livre concorrência. bem como mão-de-obra barata. Já no final do século. castas sociais sem qualquer tipo de mobilidade. as nações que conquistava. dão origem ao capital financeiro.

a obrigação moral de civilizá-las. Esse tipo de mudança garantiria a sobrevivência dos organismos . mais adaptado e mais complexo. Lá. Porém essa explicação aparentemente "científica" para justificar a intervenção européia nesses continentes era.mais fortes e mais evoluídos.seria a sociedade industrial européia do século XIX. Países como Inglaterra. Tais idéias. até atingir o "topo": a sociedade industrial européia. Nesse sentido. as diversas “Acreditando na superioridade de sua cultura. que possibilitam. de retirá-las do atraso em que viviam. O fundamento do . incapaz de explicar o que ocorria na própria Europa. isto é. a sobrevivência dos seres mais aptos e evoluídos. ao darwinismo social. "primitivos". desvios importantes. Itália se apoderavam de regiões do mundo cujo modo de vida era totalmente diferente do capitalismo europeu. Em consonância com essa forma de pensar desenvolveram-se as idéias do cientista inglês Charles Darwin a respeito da evolução biológica das espécies animais. Como foi dito. Os principais cientistas sociais positivistas. Para Darwin. A atuação dos europeus sobre os demais continentes foi intensa.o mais alto grau de civilização a que o homem poderia chegar . Holanda.civilizadora". A "civilização" era oferecida. transpostas para a análise da sociedade. entendia-se que o ápice da humanidade . na Ásia. Alemanha.ontem e hoje Essa transposição de conceitos físicos e biológicos para o estudo das sociedades e das relações entre essas trouxe. Como o positivismo explicava essa distorção? Uma visão crítica do darwinismo social . exemplares de estágios anteriores.sociedades e indivíduos . França. o princípio de que as sociedades se modificam e se desenvolvem num mesmo sentido e que tais transformações representariam sempre a passagem de um estágio inferior para outro superior. na América e na Oceania não eram senão "fósseis vivos". mesmo contra a vontade dos dominados. nem todos participavam igualmente das conquistas da civilização. em que o organismo social se mostraria mais evoluído. pela competição natural. procurando transformá-las. criando formas mais complexas e avançadas de existência. no sentido de transformar suas formas tradicionais de vida e neles introduzir os valores do colonizador. as sociedades mais simples e de tecnologia menos avançada deveriam evoluir em direção a níveis de maior complexidade e progresso na escala da evolução social. os frutos do progresso não eram igualmente distribuídos. Assim. entendiam que as sociedades tradicionais encontradas na África. por Sua vez. os europeus intervieram nas formas tradicionais de vida existentes nos outros continentes. Em conseqüência. resultaram no darwinismo social. os organismos tendem a se adaptar cada vez melhor ao ambiente. combinando as concepções organicistas e evolucionistas inspiradas na perspectiva de Darwin. essa nova forma de colonialismo se assentava na justificativa de que a Europa tinha.” 49 versas espécies de seres vivos se transformam continuamente com a finalidade de se aperfeiçoar e garantir a sobrevivência. diante dessas sociedades. do passado da humanidade. como forma de "elevar" essas nações do seu estado primitivo a um nível mais desenvolvido.

históricas -. o caráter cultural da vida humana imprime. Entretanto. Os princípios da seleção natural são aplicáveis às espécies cujo comportamento é expressão das leis imperativas da natureza. principalmente pela doutrina do liberalismo econômico. Essa transposição serviu entretanto como justificativa de uma ação política e econômica que nem sequer avaliava efetivamente aquilo que representaria o "mais forte" ou mais evoluído. Hoje. sente-se que a complexidade da cultura humana tem concorrido para limitar a ação da lei de seleção natural. princípios diferentes daqueles existentes na natureza. Pressupõe-se que competitividade seja o princípio natural. Além disso. além de justificar o colonialismo da Europa no resto do mundo. resultantes do desenvolvimento das relações entre os homens e entre as sociedades.camponeses e operários . Duas formas de avaliar as mudanças sociais O darwinismo social. portanto. Outro procuraria ajustar todos os indivíduos às condições estabelecidas. obedece a leis de organização social essencialmente humanas .e. como vimos no início deste livro. A regra darwinista da competição e da sobrevivência do mais forte é aplicada às leis de mercado. da menos avançada à mais evoluída.que assegura a sobrevivência do melhor.” . o mesmo não se pode dizer das diferentes culturas que ele desenvolveu. como outros elementos da cultura humana.organizavam-se exigindo mudanças políticas e econômicas. o desenvolvimento industrial gerava a todo momento novos conflitos sociais. dois tipos característicos de movimento na sociedade.e portanto universal e exterior ao homem . o bem comum e os anseios da maioria da população. então. apesar desse otimismo em relação ao caráter apto e evoluído da sociedade européia. do mais forte e do mais adaptado. Os empobrecidos e explorados . “O darwinismo social justificava o colonialismo europeu e refletia o otimismo dos europeus em relação a sua cultura. segundo a lei universal. da mais simples à mais complexa. Ainda hoje se tenta essa transposição para justificar determinadas realidades sociais.conceito de espécie em Darwin dificilmente pode ser transposto para o estudo das diferentes sociedades e etnias. Um levaria à evolução transformando as sociedades. A adaptabilidade do homem e a sua dependência cada vez menor em relação ao meio têm transformado o ser humano numa espécie à qual a seleção natural se aplica de maneira especial e relativa. Os primeiros pensadores sociais positivistas responderam com as idéias de ordem e progresso. É preciso lembrar que o mercado. Identificar a especificidade das regras que regem as sociedades é fundamental para o uso de conceitos de outras ciências. Esses dois movimentos revelariam ser a ordem o principio que rege as transformações sociais. Haveria. 50 Se o homem constitui sociologicamente uma espécie. no desenvolvimento das suas formas de vida. garantindo o melhor funcionamento da sociedade. refletia o grande otimismo com que o progresso material da industrialização era recebido pelo europeu.

a outra escola que se desenvolveu no rastro das conquistas das ciências biológicas e naturais e da teoria evolucionista de Charles Darwin. o francês Alfred Espinas. conceito com o qual identificava as diferentes sociedades existentes. os conflitos. propriedade. família. que se dedicou ao estudo dos "tecidos sociais". Isso significava que. religião.” 52 . Comte relacionava os dois movimentos vitais de modo a privilegiar o estático sobre o dinâmico. Assim se justificava a intervenção na sociedade sempre que fosse necessário assegurar a ordem ou promover o progresso. e de estático o responsável pela preservação dos elementos permanentes de toda organização social. se destacou como Herbert Spencer. Ninguém.. Os movimentos reivindicatórios. Auguste Comte identificou na sociedade esses dois movimentos vitais: chamou de dinâmico o que representava a passagem para formas mais complexas de existência. Um deles foi o alemão Albert Schaffle. aperfeiçoar os elementos da ordem e não destruí-los. Todos esses cientistas partem do princípio de que existem caracteres universais presentes nos mais diversos organismos vivos. linguagem. dispostos sob a forma de órgãos e sistemas – partes interdependentes cuja função primordial é a preservação do todo social. o progresso deveria -. desde as espécies mais simples até o homem. “Os organicistas procuravam características universais da espécie humana. como a industrialização. num capítulo que trata do positivismo e do darwinismo social. Seu seguidor. Essa ordem implicaria o ajustamento e a integração dos componentes da sociedade a um objetivo comum. entre os quais o homem. ou ainda quando inibissem o progresso. as revoltas deveriam ser contidos sempre que pusessem em risco a ordem estabelecida ou o funcionamento da sociedade. razão pela qual propõe uma "ciência da sociedade". por exemplo. deixando de lado suas particulariedades. para ele.51 princípio necessário para a evolução social ou o progresso. filósofo inglês que procurou estudar a evolução da espécie humana de acordo com leis que explicariam o desenvolvimento de todos os seres vivos. direito etc. Essa outra escola foi o organicismo. afirma que os princípios da biologia são aplicáveis a todo ser vivo. numa nítida alusão à biologia. seriam responsáveis pelo movimento estático da sociedade. entretanto. que teve como seguidores cientistas que procuraram aplicar seus princípios na explicação da vida social. cujas leis estariam expressas na vida comunitária de todos os seres vivos. a conservação sobre a mudança. Organicismo Não podemos deixar de nos referir. As instituições que mantêm a coesão e garantem o funcionamento da sociedade. A existência da sociedade burguesa industrial era defendida tanto em face dos movimentos reivindicativos que aconteciam em seu próprio interior quanto em face da resistência das sociedades agrárias e pré-mercantis em aceitar o modelo industrial e urbano.

uma natureza social. foi na França. por mais que eles tenham servido como lemas de uma ação política conservadora. ao bem estar do todo social. contemporâneo de Taine. Fora da França. Por mais evidentes que sejam hoje os limites. tudo isso foram descobertas de grande importância. os desejos e as formas de vida derivavam de contingências históricas e sociais -.além de seu corpo e sentimentos . à harmonia natural entre os indivíduos. postulando que as relações sociais seriam decorrência das relações familiares. Ignoram a especificidade do homem. devemos não perder a perspectiva crítica. pode-se destacar Hipolite Taine. interesses. Por fim estabelecem leis de evolução em que as diversas sociedades humanas são tratadas como espécies. na qual reflete sobre as crenças sociais mais gerais formadoras da “mentalidade coletiva” e sua ação em indivíduos agrupados em multidão. Essas teorias entendem as análises sociais da espécie humana como integradas aos estudos universais das espécies vivas. é preciso lembrar que eles representaram um esforço concreto de análise científica da sociedade. em grau variável de complexidade. Da filosofia social à sociologia O positivismo foi o pensamento que glorificou a sociedade européia do século XIX. médico e arqueólogo. ideologias e preconceitos inscritos nos estudos positivistas da sociedade. que constituiria o fundamento biológico. como justificativa para as relações desiguais entre sociedades. . buscava na razão e na experimentação seus horizontes teóricos. havendo concentrado seus esforços na busca da "menor unidade social". comparável ao átomo da física ou às células da biologia. hereditariedade e história. Quase todos os países europeus economicamente desenvolvidos conheceram o positivismo. tinha uma perspectiva “O positivismo exaltava a coesão social e a harmoniosa dos indivíduos em sociedade.Procuravam assim criar uma identidade entre leis biológicas e leis sociais.” 53 naturalista bem acentuada. autor de pioneira e controvertida obra sobre a "psicologia das multidões”. Entre os filósofos sociais franceses. que floresceu essa escola. cujas idéias sofreram menor influência de Comte. que incluiria aspectos físicos e sociais. Diante desses estudos. No entanto. outro destes filósofos sociais. Outra figura relevante é Gustave Le Bon. Apenas o fato de que tais formulações não vinham expressas num livro religioso nem se justificavam por inspiração divina é suficiente para merecerem nossa atenção. que o homem possuía . A simples postura de que a vida em sociedade era passível de estudo e compreensão. Le Play estabeleceu a família como essa unidade básica e universal. por excelência. e o "momento". Formulou uma concepção da realidade histórica como determinada por três forças primordiais: a "raça". a qual. o "meio". Procurava resolver os conflitos sociais por meio da exaltação à coesão. que as emoções. Foram teorias que abriram as portas para uma nova concepção da realidade social com suas especificidades e regras. enquanto espécie predominantemente histórica e cultural. em franca expansão. mas entendê-los como as primeiras formulações objetivas sobre a sociabilidade humana. Pierre Le Play. que se constitui no resultado das sucessões históricas. partindo de uma interpretação original do legado de Descartes e dos enciclopedistas.

para onde levou inúmeros cientistas.” Distingue três características dos fatos sociais. As sanções podem ser legais ou espontâneas. ou seja. As regras do método sociológico. nas quais se estabelece a infração e a penalidade subsequente. Formas elementares da vida religiosa. mas Durkheim foi um dos seus grandes teóricos. Espontâneas seriam as que aflorariam como decorrência de . presa por uma reflexão de natureza filosófica sobre a história e a ação humanas. O suicídio. Procedimentos de natureza científica. Em livros e cursos. Essa torça se manifesta quando o indivíduo adota um determinado idioma. Sociologia e filosofia e Lições de sociologia (obra póstuma). sua preocupação foi definir com precisão o objeto. por suas reflexões na linha do evolucionismo e do organicismo. 59 5 . sob a forma de leis. a força que os fatos exercem sobre os indivíduos. independentemente de sua vontade e escolha. A primeira delas é a coerção social. Iniciou seus estudos filosóficos na Escola Normal Superior de Paris. Ele e seus colaboradores se esforçaram por emancipar a sociologia das demais teorias sobre a sociedade e constituí-Ia como disciplina rigorosamente científica. Durkheim definiu com clareza o objeto da sociologia . Durkheim é apontado como um de seus primeiros grandes teóricos. O grau de coerção dos fatos sociais se toma evidente pelas sanções a que o indivíduo estará sujeito quando tenta se rebelar contra elas. Legais são as sanções prescritas pela sociedade. que estudaremos no próximo capítulo.cabe lembrar mais uma vez o trabalho do inglês Herbert Spencer. reunindo-os num grupo que ficou conhecido como escola sociológica francesa. primeira cátedra dessa ciência criada na França. Suas principais obras foram: Da divisão do trabalho social. análises sociológicas baseadas em fatos observados com maior critério só serão introduzidos por Émile Durkheim e seu grupo. o método e as aplicações dessa nova ciência. Transferiu-se em 1902 para Sorbonne. Educação e sociologia. publicada em 1895.A sociologia de Durkheim Introdução: o que é fato social Embora Comte seja considerado o sociologia e tenha-lhe dado esse nome. Em uma de suas obras fundamentais. levando-os a conformar-se às regras da sociedade em que vivem. pois. “Comte deu o nome de sociologia a essa ciência. Lecionou sociologia em Bordéus. na Alsácia. descendente de uma família de rabinos. indo depois para a Alemanha.” “Émile Durkheim (1858-1917) Nasceu em Epinal.os fatos sociais. quando se submete a um determinado tipo de formação familiar ou quando está subordinado a um determinado código de leis. A maioria dos primeiros pensadores sociais positivistas permanece. As regras do método sociológico. entre eles seu sobrinho Mareei Mauss.

se o fizer. ou seja. A terceira característica apontada por Durkheim é a generalidade. já existem antes do nascimento as pessoas. mais intimidadora do que a lei. por exemplo. A segunda característica dos fatos sociais é que eles existem e atuam sobre os indivíduos independentemente de sua vontade ou de sua adesão consciente. na maioria deles.mesmo quando não proibidos por lei nem reprimidos por penalidade explícita . apos algum tempo. mas o grupo pode espontaneamente reagir penalizando o agressor. A neutralidade exige também a não-interferencia do cientista no fato observado. É social todo fato que é geral. ao estudar. a educação formal e a informal desempenha. a explicação científica exige que o pesquisador mantenha certa distância e neutralidade em relação aos fatos. Além disso. nada me proíbe de trabalhar utilizando processos e técnicas do século passado. exemplificando este último tipo de sanção: "Se sou industrial. como a educação. O uso de uma determinada língua ou o predomínio no uso da mão direita são internalizados no indivíduo que passa a agir assim sem sequer pensar a respeito. uma briga entre gangues. Durkheim procurou definir o método de conhecimento da sociologia. como as formas de habitação. os sentimentos e a moral. A objetividade do fato social Uma vez identificados e caracterizados os fatos sociais.são comportamentos inibidos pela reação espontânea dos grupos que a isso se opuserem. pois nada têm de científico e podem distorcer a realidade dos fatos. Diz Durkheim. que se repete em todos os indivíduos ou. Portanto. é preciso.entendida de forma geral. Essa postura exige o não-envolvimento afetivo ou de qualquer outra espécie entre o cientista e o objeto. ou seja. os fatos sociais manifestam sua natureza coletiva ou um estado comum ao grupo. Jogar lixo no chão ou fumar em espaços particulares . terei a ruína como resultado inevitável" (p. as leis. pelo menos. mas. uma importante tarefa nessa conformação dos indivíduos à sociedade em que vivem. as regras estarem internalizadas e transformadas em hábitos. como para os positivistas de maneira geral. seus valores e sentimentos pessoais em relação ao acontecimento a ser estudado.60 uma conduta não adaptada à estrutura do grupo ou da sociedade à qual o indivíduo pertence. A reação negativa a certa forma de comportamento é. a ponto de. As regras sociais. que o sociólogo deixe de lado suas prenoções. os costumes. resguardando a objetividade de sua análise. Por essa generalidade. os fatos sociais são ao mesmo tempo coercitivos e dotados de existência exterior às consciências individuais. uma ofensa num grupo social pode não ter penalidade prevista por lei. Para ele. o cientista não deveria . de comunicação. segundo Durkheim. muitas vezes. são exteriores aos indivíduos. A educação . 3) Do mesmo modo. segundo Durkheim. são a elas impostos por mecanismos de coerção social. Assim Durkheim imaginava que. isto é.

Para ele. nesse sentido. apresenta em todas elas certa regularidade. saudáveis e doentios. cuja racionalidade só é acessível ao cientista. recrudesce ou diminui de intensidade em certas condições históricas. deveriam ser medidos. expressando assim sua natureza social. definir a sociologia como ciência. constituía-se. Durkheim queria com esse rigor. rompendo com as idéias e o senso comum "achismos" . embora sendo fortuito e resultando de razões particulares. A generalidade distingue o essencial do fortuito e especifica a natureza sociológica dos fenômenos. “Durkheim aconselhava o cientista a estudar os fatos sociais como coisas. que pune o comportamento considerado nocivo. além de uma atitude de distanciamento. afirma que o crime por exemplo. isto é. mas também por representar um fato social que integra as pessoas em torno de uma conduta valorativa. é normal não apenas por ser encontrado em toda e qualquer sociedade e em todos os tempos. distinguindo-se dos acontecimentos individuais ou acidentais. Tais formulações seriam apenas opiniões. lhe sendo exteriores. objetos que. Durkheim considera um fato social como normal quando se encontra generalizado pela sociedade ou quando desempenha alguma função importante para sua adaptação ou sua evolução. apresentaria estados normais e patológicos. dentre os acontecimentos gerais e repetitivos. Assim. a sociologia tinha por finalidade não só explicar a sociedade como também encontrar soluções para a vida social. mas mascaram as leis de organização social. o cientista deve identificar. à maneira do método que garantia o sucesso das ciências exatas. Durkheim aconselhava o sociólogo a encarar os fatos sociais como coisas. juízos de valor individuais que podem servir de indicadores dos fatos sociais. e. observados e comparados independentemente do que os indivíduos envolvidos pensassem ou declarassem a seu respeito. Procurando garantir à sociologia um método tão eficiente quanto o desenvolvido pelas ciências naturais. Vemos que os fenômenos devem ser sempre considerados em suas manifestações coletivas. aqueles que apresentam características exteriores comuns. Imbuído dos princípios positivistas. portanto. em fato social por corresponder a todas essas características: é geral. como todo organismo. 62 . existindo em todas as sociedades.” Sociedade: um organismo em adaptação Para Durkheim. isto é. a eliminação de quaisquer traços de subjetividade. Assim.que interpretavam de maneira vulgar a realidade social. O suicídio. fenômenos que lhe são exteriores e podem ser observados e medidos de forma objetiva. A sociedade.61 envolver-se nem permitir que seus valores interferissem na objetividade de sua análise. o conjunto de atos que suscitam na sociedade reações concretas classificadas como "penalidades" constituem os fatos sociais identificáveis como "crime". o trabalho científico exigia. Para apoderar-se dos fatos sociais. por exemplo. amplamente estudado por Durkheim.

. o consenso social e a vontade coletiva. é normal ou não. a despeito dos protestos que desencadeia. Patológico é aquele que se encontra fora dos limites permitidos pela ordem social e pela moral vigente. seu modo próprio de se comportar e interpretar a vida. pois. mas algo diferente. o “tipo psíquico da sociedade". A definição de consciência coletiva aparece pela primeira vez na obra Da divisão do trabalho social: trata-se do "conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade" que "forma um sistema determinado com vida própria" (p. estamos diante de um acontecimento de caráter mórbido e de uma sociedade doente. “Aquilo que põe em risco a harmonia e o consenso representa um estado mórbido da sociedade. . são considerados transitórios e excepcionais.. segundo Durkheim. e que essa harmonia é conseguida por meio do consenso social. Embora todos possuam sua "consciência individual". isto é. a "saúde" do organismo social se confunde com a generalidade dos acontecimentos. Diz Durkheim: ". que se imporia aos indivíduos e perduraria através de gerações. Ela revelaria. normal é aquele fato que não extrapola os limites dos acontecimentos mais gerais de uma determinada sociedade e que reflete os valores e as condutas aceitas pela maior parte da população. portanto. procurar-se-á no passado o que lhe deu origem. 57) Partindo. sua unanimidade. para saber se o estado econômico atual dos povos europeus.“A generalidade de um fato social representava. o acordo." (p. Se estas condições são ainda aquelas em que atualmente se encontra nossa sociedade. mas está espalhada por toda a sociedade. com sua característica ausência de organização. 342). é garantia de normalidade na medida em que representa o consenso social. para Durkheim. podem-se notar. a adaptação e a evolução da sociedade. no interior de qualquer grupo ou sociedade. a vontade coletiva. o consenso e. ou o acordo de um grupo a respeito de determinada questão. Portanto. como as doenças. formas padronizadas de conduta e pensamento. do princípio de que o objetivo máximo da vida social é promover a harmonia da sociedade consigo mesma e com as demais sociedades. A consciência coletiva não se baseia na consciência de indivíduos singulares ou de grupos específicos. Quando um fato põe em risco a harmonia. Os fatos patológicos.” A consciência coletiva Toda a teoria sociológica de Durkheim pretende demonstrar que os fatos sociais têm existência própria e independem daquilo que pensa e faz cada indivíduo em particular.” A generalidade de um fato social. que não seria apenas o produto das consciências individuais. Essa constatação está na base do que Durkheim chamou de consciência coletiva. é porque a situação é normal.

ou seja. a forma social mais simples. para Durkheim.) E continua: "Um fato social não pode. Ela aparece como um conjunto de regras fortes e estabelecidas que atribuem valor e delimitam os atos individuais. o que é normal para o selvagem não o é sempre para o civilizado. onde os indivíduos se identificam por meio da família. "reprovável" ou "criminoso". “Durkheim acreditava numa evolução geral das espécies sociais a partir da horda. igualmente determinada. e vice-versa. resulta da expressão de características universais de uma mesma espécie. Constituiu assim o campo da morfologia social. isto é. se apresentavam justapostos e iguais. da religião. o trabalho de classificação das sociedades . em certo sentido. por mais diferente que se apresente. igualitária. a sociologia deveria ter ainda por objetivo comparar as diversas sociedades. 52. utilizada também em outros estudos teóricos. apresentando formas diferentes de organização social que tornam possível defini-Ias como "inferiores" ou "superiores". era aquela que predominava nas sociedades pré-ca alistas. Durkheim considerava que todas as sociedades haviam evoluído a partir da horda.63 A consciência coletiva é. Para Durkheim.como tudo o mais deveria ser efetuado com base em apurada observação experimental. tais como os clãs e as tribos. numa sociedade." (As regras do método sociológico. a classificação das espécies sociais numa nítida referência às espécies estuda das em biologia. como o cientista classifica os fatos normais e os anormais em cada sociedade? Para Durkheim a normalidade só pode ser entendida em função do estágio social da sociedade em questão: ". E a consciência coletiva que define o que. ser acoimado de normal para uma espécie social determinada senão em relação com uma fase. Essa referência.” 64 Dado o fato de que as sociedades variam de estágio." (p. a forma moral vigente na sociedade. estabeleceu a passagem da solidariedade mecânica para a solidariedade orgânica como o motor de transformação de toda e qualquer sociedade. reduzida a um único segmento onde os indivíduos se assemelhavam aos átomos. pois. do ponto de vista puramente biológico. Morfologia social: as espécies sociais Para Durkheim. da tradição e dos costumes. permanecendo em geral independentes e autônomos em relação à . 52) “Solidariedade mecânica. Desse ponto de partida. é considerado "imoral". foi possível uma série de combinações das quais originaram-se outras espécies sociais identificáveis no passado e no presente. p. Guiado por esse procedimento. de seu desenvolvimento. tem sido considerada errônea uma vez que todo comportamento humano...

em lugar dos costumes. ao mesmo tempo que os indivíduos são mutuamente dependentes. Durkheim procurou estabelecer os limites e as diferenças entre a particularidade e a natureza dos acontecimentos filosóficos. “Aos poucos começa a se desenvolver na sociologia também a preocupação com o particular. Encontramos em seus estudos um inovador e fecundo uso da 65 matemática estatística e uma integrada utilização das análises qualitativa e quantitativa. Durkheim ateve-se também às particularidades da sociedade em que vivia. Assim.divisão do trabalho social. em seus estudos antropológicos. Essa noção foi desenvolvida particularmente por seu sobrinho e colaborador Marcel Mauss.” 70 . mensuração e interpretação eram aspectos com complementares do método durkheimiano. embora norteado por princípios das ciências naturais. Solidariedade orgânica é aquela típica das sociedades capitalistas. que pusera os filósofos diante de uma realidade social a ser especulada. Essa interdependência garante a união social. Para isso. guiava o cientista para o discernimento de um objeto de estudo próprio e dos meios adequados para interpretá-lo. numa rigorosa postura empírica. fazendo dos estudos de Durkheim um constante objeto de interesse da sociologia contemporânea. Observação. das tradições ou das relações sociais estreitas. como a educação. Distinguiu diferentes instâncias da vida social e seu papel na organização social. a consciência coletiva se afrouxa. O empirismo positivista.” Durkheim e a sociologia científica Durkheim se distingue dos demais positivistas porque suas idéias ultrapassaram a reflexão filosófica e chegaram a constituir um todo organizado e sistemático de pressupostos teóricos e metodológicos sobre a sociedade. Pode-se dizer que já se delineava uma apreensão da sociologia em que se relacionavam harmonicamente o geral e o particular. históricos. a família e a religião. os indivíduos se tornavam interdependentes. cada qual se especializa numa atividade e tende a desenvolver maior autonomia pessoal. A consciência coletiva exerce aqui todo seu poder de coerção sobre os indivíduos. psicológicos e sociológicos. onde. aos mecanismos de coesão dos pequenos grupos e à formação de sentimentos comuns resultantes da convivência social. em Durkheim. centrada na verificação dos fatos que poderiam ser observados. transformou-se. pela acelerada divisão do trabalho social. mensurados e relacionados através de dados coletados diretamente pelo cientista. Havia busca. Ainda que preocupado com as leis gerais capazes de explicar a evolução das sociedades humanas. Nas sociedades capitalistas. ainda que não expressa. da noção de totalidade. Elaborou um conjunto coordenado de conceitos e de técnicas de pesquisa que. Em vista de todos esses aspectos tão relevantes e inéditos. os limites antes impostos pela filosofia positivista perderam sua importância.

Para o positivismo. Como potência emergente nos séculos XVII e XVIII foi. o que atrasou seu ingresso na corrida industrial e imperialista da segunda metade do século XIX. nas maneiras diferentes como cada uma dessas correntes encara a história. por outro lado. capaz de aproximar sociedades humanas de todos os tempos e lugares. Devemos distinguir no pensamento alemão. . cujos estágios o cientista pode perceber pelo método comparativo. Essa forma de pensar faz desaparecer as particularidades históricas. e os indivíduos são dissolvidos em meio a forças sociais impositivas. com a Inglaterra. 71 A sociedade sob uma perspectiva histórica O contraste entre o positivismo e o idealismo se expressa. entre outros elementos. Essa associação entre história. no qual os países disputam com unhas e dentes os mercados mundiais. O desenvolvimento da indústria e a expansão marítima e comercial colocaram esses países em contato com outras culturas e outras sociedades. o que torna a especificidade das formações sociais uma evidência e um conceito da maior importância. O sucesso alcançado pelas ciências físicas e biológicas. o pensamento alemão se volta para a diversidade. da memória e do nacionalismo. portanto. A expansão econômica alemã se dá. obrigando seus pensadores a um esforço interpretativo da diversidade social. como a história e a antropologia. a preocupação com o estudo da diferença. a sede do desenvolvimento industrial e da sedimentação do pensamento burguês. entretanto. a realidade é distinta. enquanto o francês e o inglês. esforço interpretativo e facilidade em discernir diversidades caracterizou o pensamento alemão e quase todos seus cientistas. submetendo a seu imperialismo as mais diferentes culturas. para a universalidade. já no século XIX. Na Alemanha. Por tudo isso. A história particular de cada sociedade desaparece diluída nessa lei geral que os pensadores positivistas tentaram reconstruir. é sob influencia de outras correntes filosóficas e da sistematização de outras ciências humanas. característica de sua formação política e de seu desenvolvimento econômico.6 Sociologia alemã: a contribuição de Max Weber Introdução A França desenvolveu seu pensamento social sob influência da filosofia positivista. desde Gabriel Tarde e Ferdinand Tönnies. impulsionadas pela indústria e pelo desenvolvimento tecnológico. O pensamento burguês se organiza tardiamente e quando o faz. fizeram com que as primeiras escolas sociológicas fossem fortemente influenciadas pela adaptação dos princípios e da metodologia dessas ciências à realidade social. Esse descompasso em relação às grandes potências vizinhas fez elevar no país o interesse pela história como ciência da integração. a história é o processo universal da evolução da humanidade. A Alemanha se unifica e se organiza como Estado nacional mais tardiamente que o conjunto das nações européias. Acresce a isso a herança puritana com seu apego à interpretação das escrituras e livros sagrados. numa época de capitalismo concorrencial.

torna-se um poderoso instrumento para o cientista social. “Weber conseguiu desenvolver a perspectiva histórica e sociológica. todo historiador trabalha com dados esparsos e fragmentários.” Weber consegue combinar duas perspectivas: a histórica. Essa atitude de compreensão é que permite ao cientista atribuir aos fatos esparsos um sentido social e histórico. é impossível admitir que uma mesma individualidade coletiva possa mudar de espécie três ou quatro vezes. entendido como a busca de evidências. e não de estágios de evolução. propunha para esse trabalho o método compreensivo. Uma espécie deve definir-se por caracteres mais constantes. um esforço interpretativo do passado e de sua repercussão nas características peculiares das sociedades contemporâneas. apresenta fenômenos por demais instáveis e complexos para fornecer a base para uma classificação. passou a França por formas de civilização muito diferentes: começou por ser agrícola. Por isso. Durkheim. figura dominante na sociologia alemã. Portanto. de gênese e formação. isto é. com formação histórica consistente. O estado econômico tecnológico etc. entretanto. a generalização e a comparação entre formações sociais." (p. em uma nota. . não achava que uma sucessão de fatos históricos fizesse sentido por si mesma. e a sociológica. Weber. Para ele.“Uma das diferenças existentes entre o positivismo e o idealismo é a importância que o segundo dá a historia.” Ao definir o que é uma espécie social. 82) Fica claro que essa posição anula a importância dos processos históricos particulares. que seriam. Essa pesquisa. alerta para que não se confunda uma espécie social com as fases históricas pelas quais ela passa. que ressalta os elementos mais gerias de cada fase do processo histórico. segundo a perspectiva de Weber. mostrando a passagem da Antigüidade para a sociedade medieval. passou em seguida pelo artesanato e pelo pequeno comércio. valorizando apenas a lei da evolução. Para ele. Weber. permite o entendimento das diferenças sociais. que respeita as particularidades de cada sociedade. a pesquisa histórica é essencial para a compreensão das sociedades. Na obra As Causas Sociais do Declínio da Cultura Antiga. para Weber. Ora. Diz ele: "Desde suas origens. o caráter particular e especifico de cada formação social e histórica contemporânea deve ser respeitado. se oporá a essa concepção. finalmente. Weber analisou com 72 base em textos e documentos. as transformações da sociedade romana em função da utilização da mão-de-obra escrava e do servo de gleba. depois pela manufatura e.e pé de página em" seu livro As regras do método sociológico. por exemplo. baseada na coleta de documentos e no esforço interpretativo das fontes. chegou à grande indústria. O conhecimento histórico.

Seu objeto de investigação é a ação social. a ordem social submete os indivíduos como força exterior a eles. Economia e sociedade (obra póstuma) e A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tais efeitos escapam ao controle e à previsão do agente. Cada sujeito age levado por um motivo que é dado pela tradição. história e sociologia. Desenvolveu estudos de direito. Tönnies e Georg Lukács. que é social na medida em que cada indivíduo age levando em conta a resposta ou a reação de outros indivíduos. para Weber. Para Weber. por interesses racionais ou pela emotividade. Um ator age sempre em função de sua motivação e da consciência de agir em relação a outros atores.“Max Weber (1864-1920) Max Weber nasceu na cidade de Erfurt (Alemanha). Sua maior influência nos ramos especializados da sociologia foi no estudo das religiões. constantemente interrompidos por uma doença que o acompanhou por toda a vida. Para a sociologia positivista. O caráter social da ação individual decorre. é expressão da motivação individual. grupos ou instituições. defendeu ardorosamente seus pontos de vista liberais e parlamentaristas e participou da comissão redatora da Constituição da República de Weimar. a ação propriamente dita e seus efeitos. Iniciou a carreira de professor em Berlim e. foi catedrático na Universidade de Heidelberg. em 1895. filosofia. enquanto indivíduo. É ele que dá sentido à sua ação social: estabelece a conexão entre o motivo da ação.” . Suas principais obras foram: Artigos reunidos de teoria da ciência. o homem passou a ter. “A tarefa do cientista. não existe oposição entre indivíduo e sociedade: as normas sociais só se tornam concretas quando se manifestam em cada individuo sob a forma de motivação. por um lado. formulado expressamente pelo agente ou implícito em sua conduta. isto é. segundo Weber. dos interesses racionais e da emotividade. Por outro lado. Mas o ponto de partida da sociologia de Weber não estava nas entidades coletivas. era descobrir os possíveis sentidos da ação humana. O motivo que “Segundo Weber. na teoria weberiana. a ação social gera efeitos sobre a realidade em que ocorre. de uma justificativa subjetivamente elaborada. Manteve contato permanente com intelectuais de sua época. A ação social: uma ação com sentido Cada formação social adquiriu. Assim. para Weber. da interdependência dos indivíduos. numa família de burgueses liberais. significado e especificidade. como Simmel Sombart. cada individuo age levado por motivos que resultam da influencia da tradição. especificidade e importância próprias. Na política.” 73 transparece na ação social permite desvendar o seu sentido. A tarefa do cientista é descobrir os possíveis sentidos das ações humanas presentes na realidade social que lhe interesse estudar. O sentido. ao contrário. a conduta humana dotada de sentido. estabelecendo relações entre formações políticas e crenças religiosas.

o simples ato de enviar uma carta se decompõe em uma série de ações sociais com sentido . pois. que terminam por realizar um objetivo. orientam a seleção e a relação entre os elementos da realidade a ser analisada. também age guiado por seus motivos.escrever. Por outro lado. Pela freqüência com que certas ações sociais se manifestam. As conexões que o cientista estabelece entre motivos e ações-sociais revelam as diversas instâncias da ação social políticas. Por mais individual que seja o sentido da minha ação. produz o sentido da ação social. Isso não significa que cada sujeito possa prever com certeza todas as conseqüências de determinada ação. Não significa também que a análise sociológica se confunda com a análise psicológica. em dada sociedade. Por exemplo. Como dissemos. como a toda forma de conhecimento. O cientista.” . age guiado por seus motivos. portanto. o social só se manifesta em indivíduos. Assim. econômicas ou religiosas. sua tradição. Weber distingue a ação da relação social. Os fatos sociais não são coisas. mas acontecimentos que o cientista percebe e cujas causas procura desvendar. o sentido produzido pelos diversos agentes em todas as suas conseqüências. a exterioridade do cientista social em relação ao objeto de estudo. é preciso que o sentido seja compartilhado. o cientista pode conceber as tendências gerais que levam os indivíduos. “Weber dizia que o cientista. selar. ou seja. o carteiro etc. o fato de agir levando em consideração o outro dá um caráter social a toda ação humana. Por outro lado. mas tal motivo não é compartilhado. O cientista pode.Ao cientista compete captar. e a recusa em aceitar a importância dos indivíduos e dos diferentes momentos históricos na análise da sociedade. existe uma relação social. Numa sala de aula. sendo impossível descartarse. sua cultura. cabe ao cientista perceber isso. muitos agentes ou atores estão relacionados a essa ação social. É o indivíduo que. como todo individuo em ação. Existe sempre certa parcialidade na análise sociológica. descobrir o nexo entre as várias etapas em que se decompõe a ação social.o atendente. sua tradição. de suas prenoções. enviar e receber -. As preocupações do cientista. onde o objetivo da ação dos vários sujeitos é compartilhado. por meio dos valores sociais e de sua motivação. como todo indivíduo em ação. um sujeito que pede uma informação a outro estabelece uma ação social: ele tem um motivo e age em relação a outro indivíduo. A tarefa do cientista Weber rejeita a maioria das proposições positivistas: o evolucionismo. Para que se estabeleça uma relação social. expressando-se sob forma de motivação interna e pessoal. sua cultura. intrínseca à pesquisa. como propunha Durkheim. Por exemplo. Essa interdependência entre os sentidos das diversas ações mesmo que orientadas por motivos diversos e que dá a esse conjunto de ações seu caráter social. 74 as sociedades. A neutralidade durkheimiana se torna impossível nessa visão. a agir de determinado modo.

para a sociologia weberiana. O tipo ideal Para atingir a explicação dos fatos sociais.Entretanto. interpretação. nos atos individuais. A realização da tarefa científica não deveria ser dificultada pela defesa das crenças e das idéias pessoais do cientista. A compreensão da relação entre valor e ação permitiu-lhe entender a relação entre religião e economia. Weber propôs um instrumento de analise que chamou de tipo ideal. ele define o patrício romano no auge do império: 75 "o tipo do grande proprietário de terra romano não é o do agricultor que dirige pessoalmente a empresa. Assim. mas é o homem que vive na cidade. O cientista parte de uma preocupação com significado subjetivo. necessariamente. Constitui-se em um trabalho teórico indutivo que tem por objetivo sintetizar aquilo que é essencial na diversidade das manifestações da vida social.dos fatos. ela será sempre parcial. Weber analisou os livros sagrados e interpretou os dogmas de fé do protestantismo. os acontecimentos que integram o social têm origem nos indivíduos. perceber rendas em dinheiro. em As causas sociais do declínio da cultura antiga. este deve se conduzir pela busca da maior objetividade na análise dos acontecimentos. buscar os nexos causais que dêem o sentido da ação social. para entender como a ética protestante interferia no desenvolvimento do capitalismo. Um mesmo acontecimento pode ter causas econômicas. Assim. ela sempre resultará numa explicação parcial da realidade. Todas elas compõem um conjunto de aspectos da realidade que se manifesta. constrói um modelo acentuando aquilo que lhe pareça característico ou fundante. Weber relembra que. Portanto. A gestão de suas terras está nas mãos dos servos inspetores (villici)". tanto para ele como para os demais indivíduos que compõem a sociedade. não a objetividade pura. permitindo comparações e a percepção de semelhanças e diferenças. Qualquer que seja a perspectiva adotada pelo cientista. “Qualquer que seja a perspectiva adotada por um cientista. uma vez iniciado o estudo. pelo estudo sistemático das diversas manifestações particulares. políticas e religiosas. O que garante a cientificidade de uma explicação. a análise do social envolve sempre uma questão de qualidade. . Nenhum dos exemplos representará de forma perfeita e acabada o tipo ideal.” Nenhuma dessas causas é superior a outra em significância. pratica a política e quer. subjetividade e compreensão. por exemplo. Sua meta é compreender. antes de tudo. embora os acontecimentos sociais possam ser quantificáveis.é o método de reflexão. mas manterá com ele uma grande semelhança e afinidade. Trata-se de uma construção teórica abstrata a partir dos casos particulares analisados. O cientista. permitindo a identificação de exemplares em diferentes tempos e lugares.

No seio das famílias protestantes. em flagrante oposição ao “alheamento” e a atitude contemplativa do catolicismo. que pretendiam ser exemplos de sociedades observadas em diferentes graus de complexidade num continuum evolutivo. procura estabelecer conexões entre a doutrina e a pregação protestante.” O tipo ideal não é um modelo perfeito a ser buscado pelas formações sociais históricas nem mesmo qualquer realidade observável. empresários bem-sucedidos e mão-de-obra qualificada. nessa obra. a poupança. numa construção do pensamento que permite conceituar fenômenos e formações sociais e identificar na realidade observada suas manifestações. ou tipo ideal.“O tipo ideal de Max Weber corresponde ao que Florestan Fernandes definiu como conceitos sociológicos construídos interpretativamente como instrumentos de ordenação da realidade. é previamente construído e testado. depois aplicado a diferentes situações em que dado fenômeno possa ter ocorrido. a vocação. 1. Alguns dos principais aspectos da analise. preferindo o calculo e os estudos técnicos ao estudo humanístico. por exemplo. os fenômenos típicos "capitalismo" e "feudalismo". a austericidade. Permite ainda comparar tais manifestações.atuavam de maneira decisiva sobre os indivíduos. Weber mostra a formação de uma nova mentalidade. no qual ele relaciona o papel do protestantismo na formação do comportamento 'pico do capitalismo ocidental moderno. Weber descobre que os valores do protestantismo – como a disciplina ascética. mas por intermédio de valores introjetados nos indivíduos e transformados em motivos da ação . seus efeitos no comportamento dos indivíduos e sobre o desenvolvimento capitalista. Além disso. E um instrumento de análise científica. Um dos aspectos importantes desse trabalho. podemos ver de que maneira Weber aplica seus conceitos e posturas metodológicas. sacrifício e renuncia da vida pratica. A partir daí. o sociólogo pode identificar e selecionar aspectos que tenham interesse à explicação como. À medida que o fenômeno se aproxima ou se afasta de sua manifestação típica. optando sempre por atividades mais adequadas à obtenção do lucro. um ethos – valores éticos – propicio ao capitalismo. a relação entre religião e a sociedade não se dá por meios institucionais. no seu sentido teórico. os filhos eram cridos para o ensino especializado e para o trabalho fabril. O conceito. está em expor as relações entre religião e sociedade e desvendar particulariedades do capitalismo. voltados para a oração. o dever e a propensão ao 76 trabalho . Weber parte de dados estatísticos que lhe mostraram a proeminência de adeptos da Reforma Protestante entre os grandes homens de negócios. A ética protestante e o espírito do capitalismo Um dos trabalhos mais conhecidos e importantes de Weber é A ética protestante e o protestante e o espírito do capitalismo. É preciso deixar claro que o tipo Ideal nada tem a ver com as espécies sociais de Durkheim.

é o trabalho. seus trabalhos abriram as portas para a particularidades históricas das sociedades e para a descoberta do papel da subjetividade na ação e na pesquisa social. e não o ganho material obtido por meio dele. a alemã. E. diversos dos da França e da Inglaterra na mesma época. Outros sociólogos alemães puseram em prática o método compreensivo de Weber. Procedendo assim. a fecundidade da análise histórica e da compreensão qualitativa dos processos históricos e sociais. acumula capital e o reinveste produtivamente. O capitalismo promove a separação entre empresa e residência.social. Weber desenvolveu também trabalhos na área de história econômica buscando as leis de desenvolvimento das sociedades. segundo Weber. uma organização econômica racional assentada no trabalho livre e orientada para um mercado real. os feitos dos atos individuais ultrapassam a meta inicialmente visada. estabelecer-conexões entre a motivação dos indivíduos e os efeitos de sua ação no meio social. Foi capaz de compreender a especificidade das ciências humanas como aquelas que estudam o homem como um ser diferente dos demais e. não influenciada pelos ideais políticos nem pelo racionalismo positivista de origem anglofrancesa. Buscando sair-se bem na profissão. sujeito a leis de ação e comportamento próprios. Estudou ainda. Entretanto. conforme seus preceitos. o motivo que mobiliza internamente os indivíduos é consciente. mostrando sua própria virtude e vocação e renunciando aos prazeres materiais. Embora polêmicos. na sua forma típica. Em meio a uma tradição filosófica peculiar. segundo Weber. 83 . 77 Análise histórica e método compreensivo Weber teve uma contribuição importantíssima para o desenvolvimento da sociologia. Assim. pôde trazer uma nova visão. 4. também um estudioso do capitalismo ocidental. Ao cientista cabe. A motivação do protestante. não para a mera especulação ou rapinagem. como Sombart. a utilização técnica de conhecimentos científicos e o surgimento do direito e da administração racionalizados. weber estuda as diversas características das atividades econômicas em diversas épocas e lugares. Sua contribuição para a sociologia tomou-o referência obrigatória. diz ser o capitalismo. com base em fontes históricas. Weber analisa os valores do catolicismo e do protestantismo. enquanto dever e vocação. em seus estudos. Para constituir o tipo ideal do capitalismo ocidental moderno. Weber desenvolveu suas análises de forma mais independente das ciências exatas e naturais. constrói um tipo gradualmente estruturado a partir de suas manifestações particulares tomadas a realidade histórica. Mostrou. portanto. as relações entre o meio urbano e o agrário e o acúmulo de capital auferido pelas cidades por meio dessas relações. 3. como um fim absoluto em si mesmo. o protestante puritano se adéqua facilmente ao mercado de trabalho. mostrando que os últimos revelam a tendência ao racionalismo econômico que predominará no capitalismo. antes e após o surgimento das atividades mercantis e da indústria. 2. e vivendo os problemas de seu país.

onde conheceu Friedrich Engels. instituições e valores estabelecidos que constituem o social. obra fundadora do "marxismo" enquanto movimento político e social a favor do proletariado. é desnecessária ou incorreta. Em 1836. Weber. Morreu em 1883. Em 1848 escreveu com Engels O manifesto do Partido Comunista. permanecer . onde participou da recém-fundada Liga dos Comunistas. não era apenas contribuir para o desenvolvimento da ciência mas propor uma ampla transformação política econômica e social. que há normas. Sabemos que. destinava-se a todos os homens. Sua obra máxima. Expulso da França em 1845. matriculou-se na. reorganizou os fatos sociais "à luz" da história e da subjetividade do agente social. Para a crítica da economia política. Este é um aspecto singular da teoria de Marx. Mudou-se em 1842 para Paris.” 84 Com o objetivo de entender o capitalismo Marx produziu obras de filosofia. na Alemanha. porém. seu companheiro de idéias e publicações por toda a vida. Com o malogro das revoluções sociais de 1848. foi para Bruxelas. É também um dos pensamentos mais difíceis de compreender. O método positivista expôs ao pensamento humano a idéia de que uma sociedade é mais do que a soma de indivíduos. economia e sociologia. Foi redator de uma gazeta liberal em Colônia. se iluminarmos uma mesa cheia de objetos com luzes de diferentes cores. Marx mudou-se para Londres. Miséria da filosofia. abordou níveis diferentes da realidade. tanto no campo teórico como no da ação política. Agora falaremos de Karl Marx e do materialismo histórico.7 . suas idéias se desdobraram em várias correntes e foram incorpora das por inúmeros teóricos. doutorando-se em filosofia em Iena. da política e da sociedade. por sua vez. onde se dedicou a um grandioso estudo crítico da economia política.Karl Marx e a história da exploração do homem Introdução Vimos até agora que o pensamento sociológico. que adquiriram dimensões de ideal revolucionário e ação política efetiva. O capital. explicar ou sintetizar. entretanto. Marx foi um dos fundadores da Associação Internacional dos Operários ou Primeira Internacional. partindo de diversos focos. Assim também acontece com as teorias científicas e. Universidade de Berlim. Cada uma delas "põe à luz" ou privilegia determinados aspectos. após intensa vida política e intelectual.” “Karl Marx (1818-1883) Nasceu na cidade de Treves. em seu desenvolvimento. As contradições básicas da sociedade capitalista e as possibilidades de superação apontadas pela obra de Marx não puderam. “O materialismo histórico foi a corrente mais revolucionaria do pensamento social. a corrente mais revolucionária do pensamento social nas conseqüências teóricas e na prática social que propõe. Sua intenção. Nenhuma delas. estaremos produzindo imagens distintas dos mesmos objetos. entre elas. Suas principais obras foram: A ideologia alemã. pois Marx produziu muito. pois. não apenas aos estudiosos da economia.. as sociais. A luta de classes em França. O capital. Há um alcance mais amplo nas suas formulações.

Ela é. mediante experiências que servissem de modelo. Essa é a base da alienação econômica do homem sob o capital. pois o princípio da representatividade. . trabalhador do fruto do seu trabalho. classes sociais. Esse comportamento do filósofo e do cientista em face do poder resultou também na alienação do homem. mas reprovava o "utopismo" das suas propostas de mudança social.como. Marx destacava o pioneirismo desses críticos da sociedade burguesa. valor. de Claude Henri de Rouvroy. Tratava-se. de quem Marx absorveu e aplicou. por exemplo. que na sociedade de classes esse Estado representa apenas a classe dominante e age conforme o interesse desta. criou a idéia de Estado como um órgão político imparcial. coloca-se a leitura crítica da filosofia de Hegel. o império da razão e da justiça eterna. As três teorias desenvolvidas tinham como traço comum o desejo de impor de uma só vez uma transformação social total. Essa trajetória é marcada pelo desenvolvimento de conceitos importantes como alienação. entretanto. mais-valia. Politicamente. portanto. Essa parcialidade e o fato de que o Estado se torna legítimo a partir dessas reflexões parciais . da competição e da influência da propriedade privada. ou conde de Saint-Simon (1760-1825). base do liberalismo.ignoradas pela sociologia. com o exemplo. a propriedade privada e o assalariamento separavam o trabalhador dos 85 meios de produção . de modo peculiar. que se tornaram propriedade privada do capitalista. Finalmente. por isso. parcial e reflete o pensamento desse grupo. também passou a criar representações do homem e da sociedade. por sua vez. Também significativo foi seu contato com o pensamento socialista francês e inglês do século XIX. Vamos examiná-los a seguir. que também é apropriado pelo capitalista. modo de produção. ou alienava. assim. implantando. sendo possível. trabalho. há toda a crítica da obra dos economistas clássicos ingleses. também o homem se tornou alienado. vindo de fora. por meio da propaganda e. Nos três sistemas elaborados havia a eliminação do individualismo. Podemos apontar algumas influências básicas no desenvolvimento do pensamento de Marx. a filosofia. Em primeiro lugar. o método dialético. o liberalismo transformaram a filosofia em "filosofia do Estado". Com esta formulação. matéria-prima. em particular Adam Smith e David Ricardo. François-Charles Fourier (1772-1837) e Robert Owen (1771-1858). os três desconsideravam a necessidade da luta política entre as classes sociais e o papel revolucionário do proletariado na realização dessa transição. Diz Marx que a divisão social do trabalho fez com que a filosofia se tornasse a atividade de um determinado grupo. Esse trabalho tomou a atenção de Marx até o final da vida e resultou na maior parte de sua obra teórica.ferramentas. para implantá-lo na sociedade. de descobrir um sistema novo e perfeito de ordem social. mercadoria. Marx mostrou. capaz de representar toda a sociedade e dirigi-Ia pelo poder delegado pelos indivíduos. A idéia de alienação Marx desenvolve o conceito de alienação mostrando que a industrialização. terra e máquina -. Separava também. Com o desenvolvimento do capitalismo.

Só existem proprietários porque há uma massa de despossuídos cuja única propriedade é sua força de trabalho. melhores salários e participação nos lucros. tenham de vender sua/orça de trabalho ao empresário capitalista. oposições e antagonismos de classes estão . iguais política e juridicamente. os marxistas vinculam a crítica da sociedade à ação política. Liberdade e justiça eram direitos inalienáveis de todo cidadão. pois uma só existe em relação à outra. que é a ação política consciente e transformadora. Marx. O trabalhador. antagonismo. que dividem os homens em proprietários e não-proprietários dos meios de produção. as desigualdades sociais observadas no seu tempo eram provocadas pelas relações de produção do sistema capitalista. antagonismo e exploração. Marx identificou relações de exploração da classe dos proprietários – a burguesia – sobre a dos trabalhadores – o proletariado. Segundo Marx. As relações entre os homens se caracterizam por relações de oposição. segundo Marx. faz com que os trabalhadores. procura diminuir a exploração ao lutar por menor jornada de trabalho. sob a forma legal de propriedade privada. Essas mesmas relações são também de oposição e antagonismo. Marx propôs não apenas um novo método de abordar e explicar a sociedade mas também um projeto para a ação sobre ela. da luta constante entre interesses opostos. as relações entre as classes são complementares. exploração e complementaridade entre as classes sociais. por natureza. Com base nesse princípio. que precisam vender para assegurar a sobrevivência. por sua vez. Essa crítica radical só se efetiva na práxis. separado e mutilado. apesar de sua oposição intrínseca. “Um dos conceitos fundamentais da teoria marxista é o de alienação. proclama a inexistência de tal igualdade natural e observa que o liberalismo vê os homens como átomos.” As classes sociais As idéias liberais consideravam os homens. por sua vez.” 86 posse dos meios de produção. O capitalista deseja preservar seu direito à propriedade dos meios de produção e dos produtos e à máxima exploração do trabalho do operário. a fim de assegurar a sobrevivência.Uma vez alienado. o homem só pode recuperar sua condição humana pela crítica radical ao sistema econômico. como se estivessem livres das evidentes desigualdades estabelecidas pela sociedade. pois. complementares e interdependentes. seja reduzindo os salários seja ampliando a jornada de trabalho. Isso por que a “Marx afirmava que as relações entre os homens são relações de oposição. As desigualdades são a base da formação das classes sociais. à política e à filosofia que o excluíram da participação efetiva na vida social. As classes sociais são. A história do homem é. As divergências. embora esse conflito nem sempre se manifeste socialmente sob a forma de guerra declarada. o qual se apropria do produto do trabalho de seus operários. na medida em que os interesses de classe são inconciliáveis. a história da luta de classes. Por outro lado.

o . considerada como mercadoria. Como a força de trabalho não é uma "coisa". Surge assim um contrato entre capitalista e operário. isto é. a partir do século XVI. artesãos que desistiam da produção individual e empregavam-se nas indústrias. No início. pelo trabalhador "livre" assalariado . algo útil. dos monopólios e do controle de preços praticados pelos Estados absolutistas. o salário deve garantir a reprodução das condições de subsistência do trabalhador e sua família. inseparável do corpo do operário. por circunstâncias diversas. Na produção artesanal da Idade Média e do Renascimento. nada possuindo. a revolução industrial acelerou o processo de alienação do trabalhador dos meios e dos produtos de seu trabalho. As máquinas e tudo o mais necessário ao processo produtivo . por sua vez. vestirse. mediante o qual o primeiro compra ou "aluga por um certo tempo" a força de trabalho e. Isso faz com que o salário varie de lugar para lugar. Com isso. assim. em todos os tempos. do roubo. o valor da força de trabalho. que se pode comprar e vender. em troca. o salário deve corresponder à quantia que permita ao operário alimentar-se. nos mais diversos níveis da sociedade. A origem histórica do capitalismo O capitalismo surge na história quando. recuperar as energias e. Aos poucos. Os artesãos. que têm por objetivo a acumulação de lucros cada vez maiores. isolados. a força de trabalho se torna uma mercadoria. No capitalismo. cuidar dos filhos. o artesão e as corporações de ofício foram substituídas. A Revolução Industrial introduziu inovações técnicas na produção que aceleraram o processo de separação entre o trabalhador e os instrumentos de produção. assim. O salário é.o operário . O tipo de bens necessários depende. paga ao operário uma quantia em dinheiro. porém. multiplicou-se o numero de operários. não podiam competir com “Segundo Marx. a acumulação de riquezas se fez por meio da pirataria. Além disso. uma enorme quantidade de riquezas se concentra nas mãos de uns poucos indivíduos. que organizaram oficinas. estar de volta ao serviço no dia seguinte. é aquele indivíduo que.força motriz. o salário. mas uma capacidade. O salário O operário. respectivamente.subjacentes a toda relação social. estes passaram às mãos de indivíduos enriquecidos.” 87 O dinamismo dessas nascentes indústrias e do conseqüente crescimento do mercado. o trabalhador mantinha em sua casa os instrumentos de produção. dos hábitos e dos costumes dos trabalhadores. O cálculo do salário depende do preço dos bens necessários à subsistência do trabalhador. trabalhadores “livres” expropriados. A comercialização era a grande fonte de rendimentos para 05 Estados e a nascente burguesia. Uma importante mudança aconteceu quando. matérias-primas – ficaram acessíveis somente aos mais ricos.e pela indústria. como vimos. Em outras palavras. desde o surgimento da propriedade privada. instalações. é obrigado a sobreviver da venda de sua força de trabalho.

já haviam percebido isso ao reconhecerem o trabalho como a verdadeira fonte de riqueza das sociedades. "morto". transformou o trabalho em mercadoria. Tudo o que é criado pelo homem. produziram fios de linha. De modo geral. Enquanto os produtos. o uso da força de trabalho significa. utilizados para produzir um par de sapatos. por isso. o valor de um par de sapatos inclui não só o tempo gasto para confeccioná-lo. que só pode ser reanimado por outro trabalho. simplesmente se desgastam ou desaparecem. diz Marx. serão incorporados ao valor do produto. as mercadorias resultam da colaboração de várias habilidades profissionais distintas. contém em si um trabalho passado. ao se exercer sobre determinados objetos. juntamente com a quantia paga a título de salário.” Os economistas ingleses já haviam postulado que o valor das mercadorias dependia do tempo de trabalho gasto na sua produção. Por exemplo. por exemplo. Deixados em si mesmos. todos. quer ganhar com seus produtos mais do que investiu. Os economistas clássicos ingleses. instrumentos. mas também o dos trabalhadores que curtiram o couro. mais 20 com o desgaste dos instrumentos. porem. força de trabalho). produtos do trabalho humano. vemos. dizia que no valor de uma mercadoria era incorporado o tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção. mas é claro que não se trata de uma mercadoria qualquer. 88 Trabalho. Sabemos que o capitalista produz para obter lucro. o trabalho. mais 30 de salário diário pago a cada trabalhador. Pois bem. provoca nestes uma espécie de "ressurreição". Assim. O valor de todos esses trabalhos está embutido no preço que o capitalista paga ao adquirir essas matérias-primas e instrumentos. ao contrário. valor e lucro O capitalismo vê a força de trabalho como mercadoria. seu valor incorpora todos os tempos de trabalho específicos. renascem como meios de produção e se incorporam num novo produto. segundo o marxismo. Marx acrescentou que este tempo de trabalho se estabelecia em relação às habilidades individuais médias e às condições técnicas vigentes na sociedade. Essa soma . “O capitalismo. criação de valor. ao serem usados. um pedaço de couro animal curtido. No cálculo do salário de um operário qualificado deve-se computar o tempo que ele gastou com educação e treinamento para desenvolver suas capacidades. uma faca e fios de linha são. uma nova mercadoria. os quais. utilizando para esse cálculo uma unidade de moeda qualquer.salário depende ainda da natureza do trabalho e da destreza e da habilidade do próprio trabalhador. a máquina de costurar etc. Marx foi além. No exemplo acima. o que totaliza também 150 unidades de moeda. que o valor de um produto corresponde exatamente ao que se investe para produzi-lo. suponhamos que a produção de um par lhe custe 100 unidades de moeda de matéria-prima. são coisas mortas. um novo valor. Como então se obtém o lucro? . Imaginemos um capitalista interessado em produzir sapatos. Por isso. O valor do par de sapatos produzido nessas condições será a soma de todos os valores representados pelas diversas mercadorias que entraram na produção (matéria-prima. isto é. desde Adam Smith.150 unidades de moeda . Para ele.representa sua despesa com investimentos.

Desse modo. se a disputa se prolongar. mas a quantia relativa ao salário correspondente a um dia de trabalho . Suponhamos que o operário tenha uma jornada diária de nove horas e confeccione um par de sapatos a cada três horas. cobrando 200 pelo par de sapatos. de um cálculo que leva em consideração o quanto interessa ao capitalista produzir para obter lucro sem desvalorizar seu produto. poderá levar o sistema econômico à desorganização. Na verdade. mas. o custo de cada par de sapatos se reduziu a 130 unidades. que geram um valor maior do que lhe foi pago na forma de salário. Custo de um par de sapatos na jornada de trabalho de três horas meios de produção 120 + Salário 30 = 150 custo de um par de sapatos na jornada de trabalho de nove horas meios de produção 120 x 3 = 360 . pois. ele cria uma quantidade de valor correspondente ao seu salário. a valorização da mercadoria se dá no âmbito de sua produção. no cálculo do valor dos três pares. a quantia investida em meios de produção também foi multiplicada por três. nesse caso. uma alta arbitrária no preço de uma mercadoria qualquer tende a provocar elevação generalizada nos demais preços. o restante do tempo. uma mercadoria com preços elevados. porém. Isso pode ocorrer durante algum tempo. ao final da qual o sapateiro produza três pares de sapatos.permaneceu constante. portanto. Como o capitalista lhe paga o valor de um dia de força de trabalho.por exemplo. A duração da jornada de trabalho resulta. atrai novos capitalistas interessados em produzi-la. Cada par continua valendo 150 unidades de moeda. Ao contrário. Nestas três horas. mas agora eles custam menos ao capitalista. De outro lado. A mais-valia Retomemos o nosso exemplo.89 O capitalista poderia lucrar simplesmente aumentando o preço de venda do produto . ao sugerir possibilidades de ganho imediato. cujo preço fatalmente cairá. seis horas. corre-se o risco de inundar o mercado com artigos semelhantes. Mas o simples aumento de preços é um recurso transitório e com o tempo cria problemas. É que. Suponhamos uma jornada de nove horas. que é suficiente para obter o necessário à sua subsistência. todos os capitalistas desejarão ganhar mais com seus produtos. Com isso. de acordo com a análise de Marx. não é no âmbito da compra e da venda de mercadorias que se encontram bases estáveis nem para o lucro dos capitalistas individuais nem para a manutenção do sistema capitalista. o operário produz mais mercadorias. De um lado.

que inclui valores. As relações políticas Após essa analise detalhada do modo de produção capitalista. O processo descrito esclarece a dependência do capitalismo em relação ao desenvolvimento das técnicas de produção. pensemos numa indústria altamente mecanizada. Os indivíduos de uma mesma classe social partilham de uma situação de classe comum. as classes economicamente dominantes desenvolveram formas de dominação políticas que lhes permitem apropriar-se do aparato de poder do Estado e. isto é. Cada forma assumida pelo Estado na sociedade burguesa. como o trabalho. Agora. O capitalista pode obter mais-valia procurando aumentar constantemente a jornada de trabalho. tal como no nosso exemplo. as mesmas nove horas de trabalho agora produzem um número maior de mercadorias. mas expressam uma diferença de existência material. ao mesmo tempo. É claro. 20 pares de sapatos. Esse é. com ele. A mecanização também faz com que a qualidade dos produtos dependa menos da habilidade e do conhecimento técnico do trabalhador individual. digamos. A essas diferenças econômicas e sociais segue-se uma diferença na distribuição de poder. produz cada vez mais. isto é. a força de trabalho vale cada vez menos e. o processo de obtenção daquilo que Marx denomina mais-valia relativa. porém. Numa situação dessas. Marx passa ao estudo das formas políticas produzidas no seu interior. o salário. Essa é. Mostra. em cada um dos três pares de sapatos produzidos. comportamentos. . ao final da jornada de trabalho. Diante da alienação do operariado. Ele constata que as 91 diferenças entre as classes sociais não se reduzem a uma diferença quantitativa de riquezas. ainda. graças à maquinaria desenvolvida. em síntese. seja sob o regime liberal. Esse valor a mais não retoma ao operário: incorpora-se no produto e é apropriado pelo capitalista. Esse valor excedente produzido pelo operário é o que Marx chama de mais-valia. sob o capital. portanto. Visualiza-se. portanto. segundo Marx a mais-valia absoluta. e outra é o quanto esse trabalho rende ao capitalista. que uma coisa é o valor da força de trabalho. legitimar seus interesses sob a forma de leis e planos econômicos e políticos.+ salário 30 = 390 / 3 = 130 Assim. o operário recebe 30 unidades de moeda. A tecnologia aplicada faz aumentar a produtividade. ainda que seu trabalho tenha rendido o dobro ao capitalista: 90 20 unidades de moeda. perde todo o atrativo e faz do operário mero "apêndice da máquina". regras de convivência e interesses. que a extensão indefinida da jornada esbarra nos limites físicos do trabalhador e na necessidade de controlar a própria quantidade de mercadorias que se produz.

principal elemento das forças produtivas. os instrumentos e a técnica. in Cartas filosóficas e outros escritos. As forças produtivas constituem as condições materiais de toda a produção. A classe trabalhadora. acaba por se organizar politicamente. seja sob regime liberal. monárquico constitucional ou ditatorial. num determinado momento. interesse e consciência diversa. vivendo uma mesma situação de classe e sofrendo progressivo empobrecimento em razão das formas cada vez mais eficientes de exploração do trabalhador. e determinados instrumentos. representa maneiras diferentes pelas quais ele se transforma num "comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia" (K. O 92 desenvolvimento da produção vai determinar a combinação e o uso desses diversos elementos: recursos naturais.monárquico. Marx desenvolveu uma teoria abrangente e universal. mas também posição. cooperativistas (como num mutirão).o materialismo histórico. Marx parte do princípio de que a estrutura de uma sociedade qualquer reflete a forma como os homens organizam a produção social de bens. parlamentar ou ditatorial. engloba dois fatores básicos: as/orças produtivas e as relações de produção. Engels. como ferramentas ou máquinas. é o responsável por fazer a ligação entre a natureza e a técnica e os instrumentos. escravistas (como na Antigüidade). ou capitalistas (como na indústria moderna). Forças produtivas e relações de produção são condições naturais e históricas de toda . instrumentos e técnicas produtivas. Marx e F. Para Marx as condições específicas de trabalho geradas pela industrialização tendem a promover a consciência de que há interesses comuns para o conjunto da classe trabalhadora e. Manifesto do Partido Comunista.” Materialismo histórico Para entender o capitalismo e explicar a natureza da organização econômica humana. p. monárquico-constitucional. que procura dar conta de toda e qualquer forma produtiva criada pelo homem em todo o tempo e lugar. A cada forma de organização das forças produtivas corresponde uma determinada forma de relações de produção. Qualquer processo de trabalho implica: determinados objetos. O homem. o conjunto de forças naturais já transformadas e adaptadas pelo homem. Os princípios básicos dessa teoria estão expressos em seu método de análise . A produção social. as relações de produção podem ser. segundo Marx. ou seja. os próprios trabalhadores e o produto final. matérias-primas identificadas e extraídas da natureza. As relações de produção são as formas pelas quais os homens se organizam para executar a atividade produtiva. servis (como na Europa feudal). utilizadas segundo uma orientação técnica especifica. conseqüentemente. Essas combinações procuram atingir o máximo de produção em função do mercado existente. “As classes sociais não apresentam apenas uma diferente quantidade de riqueza. portanto. isto é. tendem a impulsionar a sua organização política para a ação. Assim. Essa organização é que permite a tomada de consciência da classe operária e sua mobilização para a ação política. 86). Essas relações se referem às diversas maneiras pelas quais são apropriados e distribuídos os elementos envolvidos no processo de trabalho: as matérias-primas. mão-de-obra disponível.

Sobre elas. nesse sentido. a desigualdade de propriedade. também conhecido por "despotismo oriental". Dessa relação entre cidadania e trabalho agrícola tem origem a nação. “O estudo do modo de produção é fundamental para se saber como se organiza e funciona uma sociedade. Eventualmente. do estudo do desenvolvimento e do colapso de diferentes modos de produção. Este modo de produção caracterizaria as populações "bárbaras" da Europa antiga. são consideradas as mais importantes relações sociais. as leis. A propriedade era comunal ou tribal. como fundamento das relações de produção. O isolamento entre os domínios torna-os potencialmente mais "individualistas" que a comunidade aldeã asiática. os valores sociais são aspectos cuja explicação depende. religiosas ou para a solução de disputas legais. modo de produção antigo. O trabalho agrícola era considerado atividade própria de cidadãos livres.neste as pessoas mantêm relações de localidade e não de consangüinidade. cria contradições básicas com o desenvolvimento das forças produtivas. A forma pela qual ambas existem e são reproduzidas numa determinada sociedade constitui o que Marx denominou modo de produção. mas baseada na propriedade da terra. cada lar ou unidade doméstica isolada constitui um centro independente de produção. A cidade é o centro da comunidade. A sociedade é essencialmente rural. segundo parentesco consangüíneo. com a derrocada do modo de produção vigente e a ascensão de outro. Modo de produção germânico . politicamente centralizada no Estado. A sociedade se organiza em linhagens. “Modo de produção asiático . o estudo do modo de produção é fundamental para compreender como se organiza e funciona uma sociedade. havendo . que poderia organizar os custos com guerras e obras economicamente necessárias. e a produção agrícola excedente era apropriada em forma de tributo pelo governo. Essas contradições se acirram até provocar um processo revolucionário. modo de produção asiático. É o tipo característico da China e do Egito antigos. 93 Em cada modo de produção.atividade produtiva que ocorre em sociedade. Modo de produção antigo . havia um governo. Cada qual representa diferentes formas de organização da propriedade privada e da exploração do homem pelo homem. esses lares isolados unem-se para atividades guerreiras. O Estado como entidade não existe. modo de produção germânico. as idéias políticas. a religião. modo de produção feudal e modo de produção capitalista.” Para Marx. Analisando a história. em princípio. Os modelos de família. como irrigação e vias de comunicação.neste modo de produção. fato que Marx chama de ruralização da cidade. As aldeias eram centros de comércio exterior.é a primeira forma que se seguiu à dissolução da comunidade primitiva. Marx identificou alguns modos de produção específicos: sistema comunal primitivo. As relações de produção. Sua característica fundamental era a organização da agricultura e da manufatura em unidades comunais autosuficientes. A coesão entre os indivíduos é assegurada pelas comunidades aldeãs. que transmite o ofício e a herança da possessão ou do domínio. A vida é urbana.

Além de elaborar uma teoria que condenava as bases sociais da espoliação capitalista. em O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Marx conseguiu. A ciência. Um deles foi a objetividade científica.família.mérito que a diferencia de todas as teorias subseqüentes . a questão da objetividade só se coloca enquanto consciência crítica. como nenhum outro. extrair conclusões de caráter geral e aplicáveis a formas sociais diferentes. por meio de sua práxis revolucionária.como nas colônias européias e em movimentos de independência.outras questões adquiriram nova dimensão com os princípios sustentados por Karl Marx. só pode ser verdadeira e não ideológica se refletir uma situaria realidade. Entretanto. poder. apesar de considerar as sociedades da sua época e do passado como totalidades e como situações históricas concretas. quer no campo da ciência ciência política.” 94 como um conjunto de relações de produção que caracteriza cada sociedade num tempo e espaço determinados. Para Marx. Foi assim que analisou. Assim. “Para Marx. isto é. Além desse universalismo da teoria marxista . quer no campo da organização política. isto é. uma sociedade assentada na justiça social e igualdade real entre os homens. se deve ao universalismo de seus princípios e ao caráter totalizador que imprimiu às suas idéias.diferença entre as terras do Estado e a propriedade particular explorada pelos "patrícios" (cidadãos livres proprietários) por meio de seus clientes. Por outro lado. tão perseguida pelas ciências humanas. a filosofia e a ciência. econômica e social-. conseguiu substituir a República pela Ditadura. em 1799. estabelecer relações profundas entre a realidade. religião. ao analisar o golpe de Luís Bonaparte. pela profundidade de suas análises.os sindicatos -. Organizou os partidos marxistas entre operários . quando o sobrinho de Napoleão I. objetividade não é uma questão de método.” A historicidade e a totalidade A teoria marxista repercutiu de maneira decisiva não só na Europa objeto primeiro de seus estudos . um conjunto único e integrado das diversas formas de organização humana nas suas mais diversas instâncias . Por sua formação filosófica. Marx conseguiu. Marx concebia a realidade social como uma concretude histórica. com sua obra. Assim. o golpe de Estado ocorrido na França no século XIX. cada sociedade representava para Marx uma totalidade. levou intelectuais à crítica da realidade e influenciou as atividades científicas de um modo geral e as ciências humanas em particular. conclamando os trabalhadores a construir. parodiou o feito do tio que. A amplitude da contribuição de Marx O sucesso e a penetração do materialismo histórico. a realidade social era uma concretude histórica – um conjunto de relações de produção que caracteriza um momento histórico. As sociedades típicas desse modo de produção são a grega e a romana. assim como a ação política. identifica na estrutura de classes estabelecida na França aspectos universais da dinâmica da luta de classes. mas de .

Não é preciso afirmar a contribuição da teoria marxista para o desenvolvimento das ciências sociais. formando duas diferentes maneiras de atuação sob a bandeira do marxismo.como o pensamento cientifico se insere no contexto das relações de produção e na historia. procurando suas contradições. Já em 1864. ou Primeira Internacional. nem sempre conciliáveis. da dinâmica histórica. Isso sem contar a habilidade com que o método marxista possibilita o constante deslocamento do geral para o particular. preocupação dos cientistas sociais positivistas. Marx redimensiona o estudo da sociedade humana. Extinguida em 1873. em Londres. desvendando as relações de exploração e expropriação do homem pelo homem. do movimento estrutural da sociedade para a ação humana individual e coletiva. Ela continua atuante ate hoje. procurava difundir os ideais comunistas e organizar os partidos e a luta dos operários pela tomada do poder.” A sociologia. Outra é exercer a crítica à realidade social. conflito. na Rússia. uma revolução inspirada nas idéias marxistas. a difusão das idéias e das propostas marxistas ficou por conta dos sindicatos existentes em diversos países e nos partidos. de modo a entender o papel dessas relações no processo histórico. A Primeira Guerra Mundial pôs fim à Segunda Internacional. da relação entre consciência e realidade. e da dinâmica histórica. quando diversos congressos socialistas tiveram lugar nas principais capitais européias. Para ele a sociedade é constituída de relações de conflito e é de sua dinâmica que surge a mudança social. assim corno política e revolucionária. das leis macrossociais para suas manifestações históricas. Fenômenos como luta. criava no mundo o primeiro Estado operário. revolução e exploração são constituintes dos diversos momentos históricos e não disfunções sociais. 95 A idéia de uma sociedade "doente" ou "normal". especialmente os socialdemocratas. como a primeira. Karl Marx e Friedrich Engels . A primeira é abraçar o ideal comunista. assim como das posteriores. desaparece em Marx. em 1914. A partir do conceito de movimento histórico proposto por Hegel. com várias tendências. Suas idéias marcaram de maneira definitiva o pensamento científico e a ação política dessa época. que. o socialismo e o marxismo A teoria marxista teve ampla aceitação teórica e metodológica. inaugurava-se a Terceira Internacional ou Comintern. 96 . a Revolução Bolchevique. de uma sociedade onde estão abolidas as classes sociais e a propriedade privada dos meios de produção. A Segunda Internacional surgiu na época do centenário da Revolução Francesa (1889). da relação entre consciência e realidade e da correta inserção do homem e de sua práxis no contexto social foram conquistas jamais abandonadas pelos sociólogos. A abordagem do conflito. Em 1919. promovendo a organização e a defesa dos operários em nível internacional. Em 1917. assim como do historicismo existente em Weber. “Marx contribuiu para uma nova abordagem do conflito.companheiro em grande parte de suas obras estruturaram a Primeira Associação Internacional de Operários.

É preciso lembrar que as teorias marxistas. surgiram partidos comunistas na América do Norte.como são hoje chamados os países dependentes da America Latina e da Ásia. Os ideais marxistas se adequavam também perfeitamente à luta pela independência que surgia nas colônias européias da África e da Ásia. em 1922. e.o capitalista. Nesses países.enfrentando intensa crise provocada pelo fim da União Soviética e pela expansão mundial do neoliberalismo. À formação do operariado no restante do mundo seguia-se o surgimento de sindicatos e partidos marxistas. sob o peso da direção do stalinismo na URSS e dos partidos comunistas a ele filiados. na China e no México. em especial nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento .dificuldade em conciliar as diferenças regionais e étnicas. a derrocada do império soviético foi sentida como uma condenação e quase como a inviabilidade da própria ciência. como um corpo doutrinário fechado para legitimar a tese do "socialismo em um só país". como o próprio Marx propôs. organizavam um sistema político com algumas características comuns . a cubana. O fim da União Soviética provocou um abalo nos partidos de esquerda do mundo todo e o redimensionamento das forças internacionais. baixa produtividade. e o socialista. assim. escassez de produtos. Em 1919. liderado pelos Estados Unidos. excesso de burocracia. Entre eles. economia altamente planejada. falta de recursos para manter um estado de permanente beligerância. entre outros fatores. O movimento revolucionário tomava-se mais forte à medida que os Estados Unidos e a URSS emergiam como potências mundiais e passavam a disputar sua influência no mundo. assim como à luta por soberania e autonomia. nos anos cinqüenta e sessenta. surgidos das antigas colônias européias. Várias revoluções como a chinesa. Difundia-se pelos quatro continentes. parte de sua capacidade de elucidar os homens em relação ao seu momento histórico e mobilizá-los para uma tomada consciente de posição.forte centralização. Em primeiro lugar porque a sociologia confundiu-se com socialismo em muitos países. intelectuais e lideres políticos associaram de maneira categórica o desenvolvimento da sociologia ao desenvolvimento da luta política e dos 97 partidos marxistas. fiscalismo e uso intenso de propaganda ideológica e do culto ao dirigente. inflação e corrupção. liderado pela URSS. coletivização dos meios de produção. existente nos países latino-americanos. desfazia-se o bloco soviético após uma crise interna e externa bastante intensa . preconizada pela liderança soviética. e da gestão burocrática dos estados socialistas. Intensificava-se. Toda essa explicação a respeito do marxismo se faz necessária por diversas razões. Em 1920. perdendo. em Cuba. apesar das suas diferenças. após a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. atraso tecnológico. A polarização política e ideológica é transferida para o conjunto do método e da teoria marxista que passam a ser usados. a vietnamita e a coreana instauraram regimes operários que. em 1925. transcendem . no Uruguai. Entre 1989 e 1991. à medida que se desenvolvia o capitalismo internacional. A aceitação dos ideais marxistas não se restringia mais apenas à Europa. O marxismo deixou de ser um método de análise da realidade social para transformar-se em ideologia. no Brasil e no Chile. a oposição entre os dois blocos mundiais .

com um poder de explicação não alcançado pelas análises Posteriores. em sua possibilidade de explicitar de maneira inequívoca e permanente a realidade. Nunca será bastante lembrar que a ausência da propriedade privada dos meios de produção é condição necessária mas não suficiente da sociedade comunista teorizada por Marx. o mundo rural e o urbano se integram numa estrutura única industrial. hoje se vive nas ciências. Também é improcedente .confundir a ciência com o ideário político de qualquer partido. mundialização do capitalismo. Os grupos etários se aproximam. Assim. Não poderia ser diferente com as ciências sociais. Em segundo lugar. Pode haver integração entre um e outro mas nunca identidade. É nessa perspectiva que ele propõe uma . já não se acredita na infalibilidade dos modelos. um momento de particular cautela. é preciso voltar o olhar para a compreensão da emergência de novas forças sociais e de novas contradições. Assim. após dois ou três séculos de crença absoluta na capacidade redentora da ciência. e o trabalho permanente de discussão. e assim por diante. é preciso entender que a história não termina em qualquer de suas manifestações particulares.e de maneira ainda mais rigorosa . Nem sequer terminou com a derrubada do Muro de Berlim o ideal de uma sociedade justa e igualitária. uma vez que se apoiariam em verdades eternas e imutáveis. “A teoria marxista transcende o momento histórico no qual foi concebida e os regimes políticos inspirados por ela. não se devem confundir tentativas de realizações levadas a efeito por inspiração das teorias marxistas com as propostas de Marx de superação das contradições capitalistas. Assim.entendendo que as contradições não desapareceram mas se expressam em novas instâncias. do contrário. o próprio esforço por manter e reproduzir um modo de produção acarreta modificações qualitativas nas forças em oposição. revisão e complementação se coloca como necessário. em termos científicos e marxistas. O que se toma necessário é rever essa sociedade cujas relações de produção se organizam sob novos princípios . que.” Em terceiro lugar. adquiririam um estatuto de religião e fé.enfraquecimento dos estados nacionais. Steiner mostra como a sociedade pós-classica acabou por desmanchar os antagonismos mais agudos que existiam na sociedade ocidental. quer na vitória comunista. formação de blocos nacionais e organização política de minorias étnicas. o fim da União Soviética não significou o fim da história ou da Sociologia. Enganam-se os teóricos de direita e de esquerda que vêem em dado momento a realização mítica de um modelo ideal de sociedade. as “A teoria marxista transcende amamente histórico no qual foi concebida e os regimes políticos inspirados por ela. de uma maneira geral. nem o esgotamento do marxismo como postura teórica das mais amplas e fecundas. quer na capitalista. Em seu livro De volta ao palácio do barba azul.” 98 distinções comportamentais dos sexos desaparecem. Como Marx mostrou. pois.o momento histórico no qual são concebidas e têm uma validade que extrapola qualquer das 100clativas concretas que buscam viabilizar a sociedade justa e igualitária proposta por Marx. religiosas e até sexuais .

releitura da teoria marxista. Marx jamais deixou de respeitar cientificamente a especificidade e a historicidade de cada uma de suas manifestações. tentando encontrar em diferentes conjunturas sociais formas de contradição e exploração como as que Marx distinguiu na realidade francesa e na inglesa. . Por mais que pretendesse entender o desenvolvimento universal da sociedade humana.

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