P. 1
Psicologia Institucional e Processo Grupal

Psicologia Institucional e Processo Grupal

|Views: 1.324|Likes:
Publicado porMontana Netos

More info:

Published by: Montana Netos on Sep 09, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

11/08/2012

pdf

text

original

PSICOLOGIA INSTITUCIONAL E PROCESSO GRUPAL

A nossa vida cotidiana é demarcada pela vida em grupo. Estamos o tempo todo nos relacionando com outras pessoas. Mesmo quando ficamos sozinhos, a referência de nossos devaneios são os outros: pensamos em nossos amigos, na próxima atividade que pode ser assistir a aula de inglês ou realizar nova tarefa no trabalho (que, provavelmente, envolverá mais de uma pessoa); pensamos no nosso namoro, em nossa família. Raramente encontraremos uma pessoa que viva completamente isolada, mesmo o mais asceta dos eremitas levará, para o exílio voluntário, suas lembranças, seu conhecimento, sua cultura. Por encontrarmos determinantes sociais em qualquer circunstância humana’, podemos afirmar que toda Psicologia é, no fundo, uma Psicologia Social. Talvez seja por isso que nossas vidas encontram sempre uma certa regularidade, que é necessária para a vida em grupo. As pessoas precisam combinar algumas regras para viverem juntas. Se estiver num ponto de ônibus às sete horas da manhã, eu preciso ter alguma certeza de que o transporte aguardado passará por ali mais ou menos neste horário. Alguém combinou isso com o motorista. Dependemos do outro em nosso cotidiano. Um funcionário precisou abrir o portão da escola, cujas dependências já estavam devidamente limpas; um professor nos espera; ao chegar à escola, encontro colegas que também têm aulas no mesmo horário. A esse tipo de regularidade normatizada pela vida em grupo, chamamos de institucionalização. Dada a importância da vida dos grupos (e em grupo) e do processo de institucionalização, estes dois temas têm se destacado ultimamente no campo da Psicologia Social. O primeiro é recorrente e pode-se dizer que, apesar de sua atualidade, é um tema clássico. Estamos falando da Psicologia dos Grupos, a qual preferimos chamar de Processo Grupal. O segundo tema - Psicologia Institucional - só é encontrado na literatura especializada a partir da metade do século 20. De certa maneira, estes temas estão interligados, e isso nos levou a abordá-los.

A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE
Para entendermos a Psicologia Institucional, precisamos, primeiro, conhecer o processo de institucionalização que ocorre em nossas sociedades. Na realidade,vivemos mergulhados em instituições e, por isso, antes de entrarmos no assunto, devemos desfazer algumas confusões muito comuns geradas pelos vários entendimentos do que seja “instituição”. O termo é utilizado, de forma corriqueira, para designar o local onde se presta um determinado tipo de serviço - geralmente público, como os serviços de saúde e social. Freqüentemente ouvimos alguém mencionar que trabalha na instituição tal, ou somos orientados a procurar determinada instituição para resolver um tipo de problema. E o caso dos hospitais e centros de saúde, ou dos locais que atendem a crianças e adolescentes. O termo instituição também pode ser empregado para determinadas organizações sociais, como a família — “A família é uma instituição

começa com o estabelecimento de regularidades comportamentais As pessoas Vão. A tradição se impõe porque é uma herança dos antepassados. então. não são mais questionadas. Entre os povos primitivos. provavelmente. antes de definirmos o termo.autores muito usados para definir como se dá a construção Social da nossa realidade . ele passou a estabelecer essas regularidades. como regra. As pessoas (no caso.pode ser considerada uma dessas instituições. então. O PROCESSO DE INSTITUCIONALIZAÇÃO O processo de institucionalização de acordo com Berger e Luckmann . É sabido que as sociedades primitivas não a conheciam. descobrindo a forma mais rápida. da propriedade privada e a descoberta da paternidade biológica colocavam o homem da época diante de uma questão: a herança. Entretanto. estabeleceria formas práticas que garantissem a maior eficiência possível na realização da tarefa. transforma-se em tradição. quando falarmos aqui no termo instituição. os homens) que acumulavam riquezas durante sua vida não tinham para quem deixá-las. o papel de pai era atribuído ao irmão materno mais velho. Vamos imaginar O homem primitivo: No momento em que começou a ter consciência da realidade que o cerca. teriam certeza de que o filho lhes pertencia. imperava o matriarcado. que não adotam a momiogamia como regra e. que suas mulheres deveriam manter relações sexuais somente com eles próprios (em função da descoberta do funcionamento da paternidade biológica) e. Pode-se dizer que um hábito Se estabelece quando uma dessas formas repete-se muitas vezes. A monogamia . Um grupo social que vivesse. ainda hoje temos culturas. dirá que o casamento se dá desta forma porque “é natural”. A monogamia surge. vamos identificar a origem do processo de institucionalização da sociedade. da pesca. aos poucos. o que nos permitirá entender melhor a referência teórica na qual estamos nos fundamentando. estes homens proprietários passaram a estabelecer. é porque tinham alguma razão. Os casamentos eram poligâmicos. qualquer pessoa de nossa sociedade ocidental. as famílias eram matrilineares (baseadas na linhagem materna) e. Um hábito estabelecido por razões concretas.modelar” — frase mencionada ~ com certa freqüência. O filho passou a ser o herdeiro dos bens paternos. que essa regra social foi institucionalizada. com o passar do tempo e das gerações. E o que acontece? As bases concretas. Hoje. fundamentalmente.o casamento somente entre duas pessoas . apesar dessa evidência . o surgimento das cidades. na Grécia antiga e no Oriente Médio com o estabelecimento da propriedade privada e a descoberta da paternidade biológica. simples e econômica de desempenhar as tarefas do cotidiano. não estaremos nos referindo a esses sentidos mais conhecidos e utilizados no nosso dia-a-dia. se questionada sobre a monogamia. Como a muçulmana. uma maneira de perpetuar a propriedade através da herança. dizemos. No início do modo de produção escravagísta da organização social antiga (como foi o caso da Grécia). estabelecidas com o decorrer do tempo. Quando se passam muitas gerações e a regra estabelecida perde essa referência de origem (o grupo de antepassados). Para isso. A família paterlinear e o casamento monogâmico foi a forma de organização encontrada que definia. assim. Curiosamente. Se eles determinaram que essa é a melhor forma. claramente. Mas.

ORGANIZAÇÕES E GRUPOS A instituição um valor ou regra social reproduzida no cotidiano com estatuto de verdade. da produção do novo. e se a organização é a forma de materialização destas regras através da produção social. A instituição é o que mais se reproduz e o que menos se percebe nas relações sociais. o grupo. A este fenômeno chamamos de instituição. Pode-se dizer que. o Ministério da Saúde. ora sujeito da transformação. As instituições sociais serão mantidas e reproduzidas nas organizações. Um dos primeiros pesquisadores deste assunto foi Gustav Le Bon. alguém de nossa cultura continuará considerando a monogamia natural. a base concreta da sociedade é a organização. representam o aparato que reproduz o quadro de instituições no cotidiano da sociedade. em geral. de certa forma. ou pode estar reduzida a um pequeno estabelecimento. Se a instituição constitui o campo dos valores e das regras (portanto. uma grande empresa. uma Igreja. como a Católica. A organização pode ser um complexo organizacional . como. os pesquisadores do final do século 19 foram influenciados pela Revolução Francesa e. por exemplo. autor de um conhecido tratado intitulado “Psicologia das Massas” (Psicologie des Foules. fosse preciso colocar em risco a própria vida. INSTITUIÇÕES.ora controlado. como a Volkswagen do Brasil. um campo abstrato). todo tipo de organização social e toda a relação de grupos sociais.um Ministério. Se a instituição é o corpo de regras e valores. para isso.contrária. por sua vez. como o que fora mobilizado durante essa revolução. de uma certa maneira. que serve como guia básico de comportamento e de padrão ético para as pessoas. Só recorremos claramente a estas regras quando. em outras oportunidades reformula tais regras. são quebradas ou desobedecidas. Atravessa. por qualquer motivo. E também o sujeito responsável pela produção dentro das organizações e pela singularidade . pelo impacto que causou nos pensadores do século 18 (como foi o caso de Hegel). O grupo é o sujeito que reproduz e que. Qual fenômeno psicológico possibilitaria a coesão das massas? Estas perguntas . estamos abordando um tema que. como uma creche de uma entidade filantrópica. submetido de forma acrítica a essas regras e valores. da rebeldia. é o tema fundante da Psicologia Social. A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DOS GRUPOS NA PSICOLOGIA Quando falamos em grupos. Os pesquisadores se perguntavam o que teria sido capaz de mobilizar tamanho contingente humano. realiza as regras e promove os valores. Portanto a organização é o pólo prático das instituições. O que se perguntava no campo da Psicologia era o que levaria uma multidão a seguir a orientação de um líder mesmo que. Os primeiros estudos sobre os grupos foram realizados no final do século 19 pela então denominada Psicologia das Massas ou Psicologia das multidões. no francês). entendidas aqui de forma substantiva. O elemento que completa a dinâmica de construção social da realidade é o grupo – o lugar onde a instituição se realiza. de forma invisível. mais precisamente. As organizações.

que priorizou o estudo da organização social do grupo de trabalho. sabemos que. dos padrões informais que dirigem o comportamento dos participantes num grupo de trabalho. Lewin passou a pesquisar no Massachusetts Institute of Technology (MIT) . na verdade. nem sempre os episódios de mobilização popular podem ser considerados um fenômeno irracional em que as pessoas perdem momentaneamente sua capacidade de discernir a realidade. . a quantidade de horas trabalhadas.não eram descabidas como. como objetivo. que se desenvolverá a pesquisa de grupos. exemplificou as possibilidades de manipulação das massas. Esse desenvolvimento ocorre a partir de 1930. nas empresas. o pensamento sobre os problemas industriais. A possibilidade de aplicação imediata desta teoria ao campo organizacional impulsionou o desenvolvimento dos estudos sobre grupos nos Estados Unidos. tenciona manipulá-las em função de interesses particulares ou políticos. será com grupos menores. das relações sociais entre O supervisor e os subordinados. aos Estados Unidos. dos motivos e das atitudes dos operários no contexto do grupo. que levou o mundo à 2ª Grande Guerra (de 1939 a 1945). Aplicada na fábrica Hawthorne. episódio importante para a queda da ditadura militar. Apesar de a Psicologia Social surgir com o estudo das massas. foi possível observar durante o processo de ascensão do governo do 3º Reich — Adolf Hitler — na Alemanha. tinha. O caso da Alemanha nazista foi surpreendente porque demonstrou até que ponto é possível produzir uma forma de hipnotismo coletivo. A observação dessas relações deu novo rumo à pesquisa. Essa teoria influenciou tanto a Psicologia. de Kurt Lewin . ficando à mercê de um líder carismático que.professor alemão refugiado do nazismo. Entretanto. em diversas ocasiões. em 1984. Tanto as indústrias quanto as Forças Armadas investiram recursos financeiros na produção de pesquisas que revelassem corno os grupos funcionavam e como poderiam ser motivados para o trabalho. a natureza dos incentivos salariais. como a freqüência de pausa para descanso. Um exemplo dessa capacidade de mobilização ocorreu em nosso País. com objetivos claros e racionais. entre os operários e a administração). No entanto. Esta pesquisa praticamente inaugurou a área da Psicologia Organizacional e mudou. com a chegada.um renomado instituto americano . consideravelmente. Mayo e seus colaboradores depararam-se com um outro fenômeno: o das relações interpessoais (entre os operários. da Western Electric Company (empresa americana de eletricidade). Elton Mayo realizou uma pesquisa que se tornaria o paradigma dos estudos motivacionais na área organizacional. é aplicada no estudo das relações humanas no trabalho.onde desenvolveu a primeira teoria consistente sobre grupos. Este triste episódio. na década de 30. estudar a relação de fadiga nos operários a partir de uma Série de variações experimentais introduzidas na relação de trabalho. infelizmente. os quais possuem objetivos claramente definidos.Milhões de pessoas que foram às ruas e aos comícios estavam conscientes de sua participação. por ocasião da campanha das Diretas Já. Hoje. Na década de 30. que a partir dela surgiu um campo na Psicologia Social denominado Cognitivismo. as pessoas se unem e formam massas compactas muito organizadas e autônomas. O trabalho de Lewin também influenciou bastante o desenvolvimento de uma teoria organizacional psicológica que.

A DINÂMICA DOS GRUPOS Exemplos mais detalhados da teoria dos grupos elaborada por Lewin e levada adiante por seus colaboradores podem ser encontrados no compêndio escrito por Cartwright e Zander. editado pela primeira vez em 1953. Exemplos de temas abordados: coesão do grupo (condições necessárias para a sua manutenção). Em alguns casos. do centro acadêmico ou grêmio estudantil etc. vão à escola. Como já foi dito anteriormente. descobrimos que vamos conviver com um grupo de 20. manifestos ou velados que seus membros utilizam para garantir a fidelidade dos demais aos objetivos do grupo e ao padrão de conduta estabelecido).). convivem com grupos informais. desempenho de papéis. e. do bar. a institucionalização nos obriga a conviver com pessoas que não escolhemos. motivos individuais e objetivos do grupo (elementos que garantem fidelidade e que estão relacionados com a escolha que cada indivíduo faz ao decidir participar de um grupo). as propriedades estruturais dos grupos (padrões de comunicação. Geralmente moram com suas famílias. as pessoas vivem. relações de poder etc. . à igreja. em campos institucionalizados. como o grupo de amigos da rua. Quando conhecemos nossa primeira classe no ensino médio ou na universidade. nos Estados Unidos. 30 ou 40 pessoas com as quais. ao emprego. pressões e padrão do grupo (argumentos reais ou imaginários. por fim. em nossa sociedade. ao clube. Os dois volumes trazem uma síntese de tudo o que foi produzido sobre dinâmica de grupo a partir dos estudos iniciais de Kurt Lewin. liderança e realização do grupo (força de convencimento — carisma — exercida por um ou mais indivíduos sobre os outros e o tipo de atividade exercida pelo grupo).

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->