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EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA:

PRINCÍPIOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS

CARLOS FREDERICO BERNARDO LOUREIRO

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O AUTOR

CARLOS FREDERICO BERNARDO LOUREIRO - Doutor em Serviço Social (UFRJ), Mestre em Educação (PUC-RJ), bacharel em Ecologia (UFRJ), licenciado em Ciências Biológicas (UFRJ). É Professor Adjunto da Faculdade de Educação da UFRJ e atua como pesquisador do Núcleo de Participação e Desenvolvimento Local Sustentável do Ibase. Coordenou diversos projetos vinculados a instituições governamentais e não- governamentais em Educação Ambiental, o Grupo de Estudos em Educação Ambiental (GEA) e o Curso de Pedagogia da UFRJ. Militante e fundador de organizações ambientalistas. Dentre outras publicações, é co-autor dos livros: Educação Ambiental:

Repensando o Espaço da Cidadania (Cortez, 2002); A Contribuição da Educação Ambiental à Esperança de Pandora (RIMA, 2001); Sociedade e Natureza: A Educação Ambiental em Debate (Cortez, 2000) e Pedagogo ou Professor? (Quartet, 1999).

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DEDICATÓRIA

Dedico esse livro a Denise de Oliveira Viola, minha mulher e grande companheira, que me ensinou muito sobre a vida e me revelou o amor em seu mais intenso valor, me apoiando, trabalhando ao meu lado e permitindo que a grandiosidade de uma união verdadeira se expressasse.

Dedico à minha filha, Yashmin Viola Marote Loureiro, que me traz o sentido de plena realização e felicidade.

Dedico a todos os que não perderam as esperanças e que, mesmo reconhecendo os limites individuais e coletivos, buscam uma nova forma de ser e existir no planeta Terra.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

POR QUE EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA?

QUADRO DE REFERÊNCIA SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Contribuições ambientalistas à Reflexão da sociedade

Globalização e Cidadania Planetária: O Contexto Atual da Educação Ambiental EDUCAÇÃO AMBIENTAL

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO

BRASIL

PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

A OPÇÃO METODOLÓGICA

CONSIDERAÇÕES FINAIS

ANEXO: BIBLIOGRAFIA BÁSICA

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INTRODUÇÃO

As considerações aqui apresentadas são fruto de um trabalho teórico e prático de muitos anos na área de Educação Ambiental junto às classes populares e grupos sociais em situação de elevada vulnerabilidade ambiental. Durante esse tempo pudemos verificar a distância entre o que é realizado como Educação Ambiental no Brasil e os princípios teóricos e metodológicos definidos no contexto internacional em que esta se formou, além da constante dicotomia teoria x prática, que caracteriza a maioria dos trabalhos junto às comunidades mais pobres. É evidente que não podemos incluir todos os trabalhos nesse cenário. Desde a década de setenta temos fantásticos exemplos pontuais de atividades de Educação Ambiental. Além disso, a década de noventa já apresenta um inegável avanço no entendimento conceitual e metodológico, se comparado com a década de oitenta.

Contudo, na Educação Ambiental, os trabalhos, em geral, mesmo quando se apresentam com uma nova perspectiva, tendem a reproduzir um discurso romântico e fragmentado, e a compartimentalizar uma área que, por definição, deve ser integradora e participativa, passando por todas as áreas do conhecimento humano, e capaz de gerar mudanças efetivas no ambiente de vida.

Como exemplo, há guias de atividades escolares que raramente buscam as dimensões sociais e políticas do ambiente, restringindo-se aos aspectos biológicos. Excelente referência neste sentido é o trabalho de Spazziani 1 que evidenciou o reducionismo observado em materiais didáticos produzidos no Brasil.

Esses materiais, seja pelo perfil acima indicado, seja pelo pouco conhecimento teórico acumulado sobre o tema, ou mesmo pela precária formação dos profissionais em educação, talvez por tudo isso junto, se aproximam mais de programas de Ecologia Básica para a preservação da natureza, do que propriamente da Educação Ambiental.

1 SPAZZIANI, M. de L. A Compreensão da Educação Ambiental. Mato Grosso, Monografia de Especialização, UFMT, 1993.

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Por estar em moda o que tem o nome “ambiental” ou “ecológico”, atividades estritamente conservacionistas são rotuladas “Educação Ambiental”, não considerando que o objetivo maior desta é, a partir do repensar do estilo de vida humano, construir ampla consciência crítica das relações Sociedade-Natureza, dentro de uma proposta político-filosófica de mudança global da sociedade e sua estrutura.

Assim, são de grande relevância publicações, pesquisas e debates capazes de repensarem

e redefinirem Educação Ambiental de forma contextualizada e dentro de uma visão

histórica e crítica, que possibilite a compreensão das causas da crise socioambiental. De forma mais genérica, não é mais possível pensar a Educação Ambiental em dimensões isoladas (só pesquisa ou só ensino, só processo formal ou só informal). É imprescindível acoplar essas dimensões, entendendo a Educação como um todo dinâmico e diverso.

Diante de tal cenário, nos propomos a desenvolver um texto simples e objetivo, voltado para aquele que está iniciando seus estudos sobre o tema, que aprofunde a discussão acerca do conceito de Educação Ambiental, tendo como base uma prática participativa, que fundamente os aspectos teóricos e, ao mesmo tempo, seja orientada por esses aspectos, em uma relação dinâmica e dialética.

Ao final apresentamos uma lista de referências bibliográficas a qual o leitor poderá recorrer para avançar seus estudos em Educação Ambiental, sob bases teóricas sólidas e reconhecidas no meio acadêmico.

POR QUE EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA?

É inegável que a atual forma de interação dos seres humanos no ambiente, dentro dos

vigentes modelos socioeconômicos produtivistas, tem ocasionado desequilíbrios que começam a ser sentidos intensamente por todos. É uma crise única e decisiva, pois nunca na história da humanidade conseguiu-se produzir uma situação tão grave. Essa não é uma crise conjuntural, mas é também estrutural, envolvendo questões de princípios básicos da nossa conduta individual e social. É global, pois atinge qualquer parte do planeta; e, em alguns aspectos, é uma crise irreversível, em relação à extinção de espécies, esgotamento de recursos, aumento de entropia.

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Em uma perspectiva macro-planetária, temos a redução da camada de ozônio; o efeito estufa; a desertificação do solo; a diminuição da biodiversidade; o desperdício da água; e a poluição do ar, solo e água, diminuindo a cada dia a nossa qualidade de vida. Tudo isso promovido, estruturalmente, pelos modelos de produção pós Revolução Industrial e seus enfoques produtivistas e economicistas, e pelo projeto cultural hegemônico na modernidade capitalista.

Hoje fazemos indagações sobre esse quadro, pois mesmo quando não o compreendemos concretamente, o sentimos indistintamente. Na verdade, é a possibilidade de sobreviver que exige respostas rápidas e radicais.

Além desse cenário global, é muito importante reforçar os problemas específicos de cada grupo social ou comunidade, principalmente quando se tem por finalidade básica a Educação. Os grupos sociais possuem peculiaridades ligadas à situação particular de seus ambientes e à percepção qualitativa dos problemas. Nesse sentido, destaca-se a situação das classes populares, como sendo as mais atingidas pelas dificuldades oriundas do processo de degradação da qualidade de vida, seja pela marginalização econômica e social sofrida, seja pela distribuição desigual dos bens materiais necessários e do acesso aos recursos naturais.

No caso específico de grandes centros urbanos, estas características se verificam logo nas primeiras observações. As contradições da sociedade se expressam em sua plenitude, conduzindo os moradores a um processo muito particular, impossibilitando qualquer ação elaborada sem considerar o contexto em que se inserem.

Novo caminho é possível, existem propostas concretas nesse sentido, calcadas em bases teóricas que vêm se consolidando nos últimos anos. O romantismo ecológico dos anos sessenta, que tinha por princípio o isolamento individual ou de comunidades da “sociedade perversa”, e as demais propostas pessimistas quanto ao futuro do planeta (que ainda persistem), só dificultam a constituição de ambientes saudáveis e adequados para todos, por não apresentarem projetos alternativos concretos para a sociedade.

A Educação Ambiental, em suas múltiplas manifestações, apresenta dificuldade de penetrar no cotidiano da população brasileira. Esta, em sua grande maioria, por não ter

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seus direitos básicos atendidos, desconsidera as questões ambientais no sentido da interdependência dos problemas existentes, em decorrência do próprio enfoque distanciado e abstrato dado ao assunto e do modo como este chega pelos meios de comunicação. Obviamente que se torna secundário preservar as matas e os pássaros, quando não se tem moradia e alimentação. É difícil compreender a inter-relação entre as partes e a possibilidade de outros caminhos que não os da destruição. O importante é o imediato. São necessárias ações ambientalistas que partam da realidade local e do cotidiano de vida dos grupos sociais envolvidos, compreendendo o ambiente em sua totalidade, em um processo participativo que ressalte a dinâmica da relação do ser humano com todos os elementos do ambiente.

O trabalho educativo que considera o quadro de desigualdades sociais existentes é opção

política na busca da transformação da sociedade em algo mais justo e igualitário, que parte da situação de vida da maioria para a própria superação das contradições do modelo de desenvolvimento.

A Educação Ambiental aqui proposta visa compreender esses problemas e a

multidimensionalidade do ambiente, buscando alternativas que decorram de práticas conscientes dos envolvidos. O intuito não é o de fazer com que os profissionais da Educação se sobrecarreguem ou fiquem desestimulados ao verificarem a complexidade dos problemas. É sim o de procurar levá-los a compreender a interdependência desses problemas (sentido de totalidade), para se alcançar resultados mais concretos do que normalmente se consegue ao se trabalhar uma dimensão isolada. É, em síntese, dar uma nova abordagem ao trabalho pedagógico, incorporando a ética ecológica e a busca por uma nova relação sociedade/natureza.

O sentido de partir dos grupos sociais em situação de maior vulnerabilidade ambiental é

destacar a realidade da maioria, é democratizar o acesso à informação, é entender a

sociedade em suas múltiplas contradições. É revelar a estrutura de dominação, recorrendo

ao que está dominado, para fazer emergir a parte reprimida das relações sociais,

expressando-as em sua totalidade. É fazer com que os diversos setores sociais incorporem

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a

praxis ambientalista e tornem a Educação Ambiental uma política pública democrática

e

transformadora consolidada nacionalmente.

A finalidade de uma Educação Ambiental que incorpore a perspectiva dos grupos sociais

excluídos não é o de reforçar as desigualdades de classes, mas, através do reconhecimento de que elas existem, estabelecer uma Educação Ambiental plena, contextualizada e crítica, que evidencie os problemas estruturais de nossa sociedade e as causas básicas do baixo padrão qualitativo da vida que levamos.

QUADRO DE REFERÊNCIA SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Com a finalidade de se entender os pressupostos e as características da Educação Ambiental na sociedade contemporânea e a amplitude de sua atuação, é necessário que se conheça as bases do movimento de contestação política, filosófica e ética do estilo de vida que temos no mundo contemporâneo – o movimento ambientalista.

Em relação à Educação Ambiental em si, é importante a compreensão histórica do pensamento sobre o tema, através de algumas conferências e da definição da sua especificidade e características essenciais, plenamente em acordo com a pedagogia crítica.

Contribuições ambientalistas à Reflexão da sociedade

Inicialmente, cabe destacar que ao falarmos em movimento ambientalista, estamos nos referindo a movimentos múltiplos, muitas vezes antagônicos, que possuem em comum o foco na discussão sobre natureza e ambiente, em seus diferentes significados econômicos, sociais e culturais. É esta ação conflituosa ambientalista que tem propiciado algumas reflexões importantes sobre a sociedade, dentre elas destacamos quatro, que se seguem abaixo.

O primeiro aspecto refere-se à tradição religiosa judáico-cristã e ao seu processo de

expansão (expansionismo religioso) sobre as demais formas de crenças espirituais. As concepções monoteístas, que representam a negação de outras crenças, afirma o ser humano como ser acima dos demais, à parte da natureza. A hierarquia do monoteísmo se

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expressa no Gênesis bíblico, quando destaca que cabe ao homem, imagem e semelhança

de Deus-Criador, subjugar os demais seres vivos.

Neste escopo, a relação com a natureza é profana: quanto mais próximo da natureza, mais

imperfeito e bruto. Para transcendê-la, instituiu-se o primado da racionalidade

instrumental, da relação sujeito-objeto, da fragmentação do ambiente. Distanciou-se da

Mãe-Terra, aproximou-se do Pai-Deus; terminou-se o matriarcado, o sensível, o natural,

criando-se o patriarcado, o racional, o reino do homem.

Autores vinculados à Teologia da Libertação, destacadamente Leonardo Boff 2 , procuram

repensar o cristianismo em uma perspectiva ambientalista, o que é de grande valor.

Contudo, é fato a aceitação popular de um paradigma religioso excludente e dicotômico.

Um segundo aspecto relaciona-se com a Revolução Científica, bem como à consolidação

do paradigma cartesiano, que molda os valores culturais modernos e o projeto positivista

de ciência e tecnologia. A emergência da ciência moderna positivista está relacionada

com o contexto político-econômico e cultural da época. Neste período, a ciência

expressa, ao mesmo tempo, possibilidades emancipatórias extraordinárias, negando a

natureza imutável governada por desígnios divinos, e a racionalidade instrumental,

própria do novo modo de produção que se consolida: o capitalismo.

“O Objetivo essencial da nova ciência, no início da era moderna, como insistentemente prega seu anunciador e profeta F. Bacon, como demonstram cabalmente seu herói mártir Galileu e seu tematizador filosófico descartes, consiste em dominar a natureza, em tornar-nos seus mestres e

possuidores

serviço de instauração do ‘reino do homem’ ,visando a felicidade para todos. Se queremos realizar tal projeto, precisamos conhecer as causas das leis naturais, forçar a natureza a submeter-se ao novo poder da Razão para que se ponha a serviço do ‘reino humano’. Porque, doravante, não podemos abrir mão de nossa condição de senhores

todo conhecimento deve estar a

(mestres) do mundo: precisamos exercer nosso

2 BOFF, L. Ecologia, Mundialização e Espiritualidade. São Paulo, Ática, 1993. BOFF, L. Ecologia: Grito da Terra, Grito dos Pobres. São Paulo, Ática, 1995.

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poder sobre as coisas, transformá-las e colocá-las a nosso serviço.” 3

A ênfase na ciência analítica cartesiana conduz à fragmentação ilimitada do objeto,

perdendo-se a noção do todo; e ao entendimento do processo causa-efeito de forma

descontextualizada, sem historicidade, ou seja, ao nosso desligamento do ambiente. Cria-

se então o primado do racionalismo instrumental, do reducionismo e do mecanicismo.

Para ilustrar, cabe referir frases contundentes, atribuídas a Francis Bacon, e elucidativas

do pensamento formulador da ciência clássica, encontradas em Crema 4 : “A natureza

precisa ser acossada em seus descaminhos, obrigada a servir, escravizada e reduzida à

obediência”; e “O objetivo do cientista é extrair da natureza, sob tortura, todos os seus

segredos”.

Esses dois fatores sustentam o terceiro elemento da crítica ambientalista: a orientação

individualista e antropocêntrica. A sensação de poder, seja de origem divina ou

decorrente do racionalismo cartesiano potencializado pelo capitalismo, fundamenta não

só a noção de que o ser humano pode ir além dos limites biológicos, mas numa ação

eminentemente individualista.

É característico do pensamento liberal que a humanidade não depende de adequação a

uma ordem transcendente a si próprio para realizar a sua natureza, posto que a dimensão

ética fica reduzida à vida privada, sendo a natureza apenas o meio para satisfazer as

necessidades humanas. A ética e os comportamentos são ditados por valores intrínsecos

ao indivíduo, não havendo interferência do modo de organização social e do ambiente da

vida. O particular e o universal são concordantes e a parte (indivíduo) dita o ritmo global.

No entanto, não se pode esquecer que, na ótica ambientalista, o interesse individual e

antropocêntrico levará ao colapso ambiental e ao esgotamento dos recursos naturais, pois

o uso egoísta impede o uso coletivo. Bom exemplo dessa perspectiva é o Way of Life

norte americano. Este estilo de vida torna o cidadão dos EUA com a capacidade de

consumir 35 vezes mais que um cidadão “terceiromundista”. Apesar do discurso

3 JAPIASSÚ, H. O Projeto Machista da Ciência. Rio de Janeiro, UFRJ, 1996. Mimeo.

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governamental norte-americano sobre a necessidade de se mudar os padrões de consumo

em todos os países, o consumo interno sequer é repensado.

A quarta grande crítica ambientalista é feita à Sociedade Industrial, que representa a

expansão do capitalismo, e suas vertentes, e o uso tecnológico como meio de dominação

e exploração. Nunca foi vista tamanha velocidade nas transformações do ambiente com

conseqüências pouco previsíveis.

Esta constatação não significa afirmar que o ser humano só destrói a partir do final do

século XVlll. Existem inúmeras referências de civilizações que entraram em colapso pelo

uso incorreto dos recursos naturais (Khmeriana, Índica e Maia) 5 e pelo processo de

aniquilamento da diversidade cultural, desde a expansão marítima européia.

Todo ser vivo sempre atua no ambiente em um movimento dinâmico de transformações e

busca do equilíbrio. O que ocorre após a Revolução Industrial é um aumento da

intensidade e velocidade da ação antropocêntrica, alem da afirmação de um sistema

político-econômico individualista mundial, incompatíveis com a lógica ecológica, em que

as variáveis humanas introduzidas apresentam uma ação e impacto que fogem ao controle

natural.

“A vida nasceu sob a égide da crise, mas sempre encontrou mecanismos para superá-la Espécies e ecossistemas desaparecem. Espécies e ecossistemas constituíram-se. A vida, porém estava assegurada.” 6

O início do ambientalismo na década de sessenta, decorreu dos primeiros movimentos

pacifistas, antinucleares e do movimento hippie e de contracultura, como resposta ao

“establishment” político americano: autoritário e belicista, e a um estilo de vida pautado

no consumo. Isso historicamente justifica a sua diversidade de perspectivas.

4 CREMA, R. Introdução à Visão Holística: Breve Relato do Velho ao Novo Paradigma. São Paulo,

Summus, 1989.

5 DORST, J. A Força do Ser Vivo. São Paulo, Melhoramentos/EDUSP, 1981.

6 SOFFIATI, “As Origens da Crise Ambiental da Atualidade”. In: Revista FBCN, Rio de Janeiro, n o 24,

1989.

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Ainda nos anos sessenta, a descoberta dos efeitos nocivos dos pesticidas, denunciado por

Rachel Carson em “Primavera Silenciosa”, a morte e a incapacitação de várias pessoas

por contato com mercúrio, no acidente de Minamata (Japão) e o início da crise do

petróleo, acirram a crítica ao modelo de produção. Garrett Hardin, em “The Tragedy of

The Commons”, e Paul Ehrlich, em “The Population Bomb”, tecem severas críticas à

superpopulação e à necessidade de controlar o crescimento populacional humano, em

uma perspectiva assumidamente neomalthusiana 7 .

Nos anos setenta, a crítica se ampliou com análises mais detalhadas sobre a presença

humana no planeta e sua fragilidade enquanto ser biológico. Destaque para os cientistas

James Lovelock e Lynn Margulis, formuladores da Hipótese Gaia, na qual,

sinteticamente, se defende que o planeta é um organismo vivo, autorregulado pela

dinâmica dos fatores vivos (bióticos) com os não-vivos (abióticos), em que a espécie

humana é apenas mais uma das espécies existentes nessa regulação. Logo, da mesma

forma que aparecemos poderemos desaparecer da Terra.

No âmbito da Paleontologia e da História Natural, a comprovação de que a espécie

humana é resultado de um processo evolutivo obedecido por leis naturais, e não

necessariamente a última e mais desenvolvida das espécies, desmoronou as últimas

esperanças de um poder ilimitado da espécie humana (antropocentrismo-individualista) 8 .

Neste sentido, Layrargues 9 apresenta uma interessante metáfora religiosa de David

Brower, um dos pioneiros do movimento ambientalista norte-americano.

“Tomemos os seis dias do Gênesis como imagem para representar o que, de fato, se passou em quatro bilhões e meio de anos. O nosso planeta nasceu numa segunda-feira à hora zero. A Terra formou-se na segunda, terça e quarta-feira até o meio dia. A vida começa quarta-feira ao meio dia e desenvolve- se, em toda a sua beleza orgânica, durante as

7 HERCULANO, S. “Do Desenvolvimento (In) Suportável à Sociedade Feliz”. In: GOLDENBERG, M. (org.) Ecologia, Ciência e Política. Rio de Janeiro, Revan, 1992. McCORMICK, J. Rumo ao Paraíso - a História do Movimento Ambientalista. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1992.

8 GOULD, S. A Vida é Bela. Lisboa, Gradiva, 1995.

9 LAYRARGUES, P. P. A Cortina de Fumaça: O Discurso Empresarial Verde e a Ideologia da Poluição. Rio de Janeiro, EICOS/UFRJ, Dissertação de Mestrado, 1996, pg. 52-53.

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quatro dias seguintes. Somente às quatro horas da tarde de domingo é que os grandes répteis desapareceram. O homem surge só a meia-noite menos três minutos de domingo. A um quarto de segundo antes da meia-noite, Cristo nasce. A um quadragésimo de segundo antes da meia-noite, inicia-se a revolução Industrial. É agora meia-noite de domingo, e estamos rodeados de pessoas que acreditam que aquilo que fazem há um quadragésimo de segundo pode continuar indefinidamente”.

Partindo do princípio de que o ser humano é um ser social que vive e se define a partir

das relações sociais, a nossa essência natural existe para o ser social. Assim, a sociedade

constitui a unidade substancial do ser humano e da natureza, a realização do naturalismo

do ser humano e do humanismo da natureza 10 .

Desse modo, a grande contribuição das tendências críticas do movimento ambientalista

está, não só no que foi construído pelas linhas do pensamento até aqui e que são parte

viva do movimento, mas principalmente no questionamento profundo e radical do

sistema, já presente em diferentes autores desde a sua formação. O pressuposto é: uma

organização social e econômica que promove a alienação, materializada na subjugação

pelo capital, não estabelece um elo harmônico ser humano - ser humano / ser humano -

natureza, mas sim a dicotomia, o rompimento absoluto entre os pólos.

Assim, para concluir, podemos definir o pensamento ambientalista e a ação política que

contextualiza a formulação conceitual da Educação Ambiental Crítica, como a síntese de

cinco princípios:

A ecologia, enquanto cultura global e prática política radical, concerne ao conjunto

das atividades em sociedade, à relação Sociedade-Natureza, e aos problemas

existentes no modelo de organização social. Visto que, o projeto de dominação

entre seres humanos é o mesmo de dominação destrutiva da natureza, o

ambientalismo não pode ser identificado exclusivamente com a busca por resolver

10 MESZAROS, I. Marx: A Teoria da Alienação. Rio de Janeiro, Zahar, 1981.

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problemas ambientais naturais, mas destacadamente como o repensar dos campos simbólicos e políticos da humanidade.

Busca redefinir desejos e necessidades, a partir do reconhecimento da existência de limites planetários que são historicamente definidos.

Supõe a mudança radical dos valores individualistas, consumistas e produtivistas.

Estimula a vida coletiva, processos autogestionários e descentralizados de produção, e uma nova dinâmica entre global-local e sociedade-comunidade.

Visa à democratização do Estado, a cidadania plena, a construção de condições materiais para a satisfação das necessidades básicas e a formação de uma “governança planetária”. Cidadania aqui entendida não só em relação à garantia, pelo Estado, dos direitos civis (liberdade individual, de pensamento, de fé, de propriedade e à justiça), políticos (participação no exercício do poder) e sociais (bem-estar social), definidos na obra clássica de Marshall e a manutenção destes; mas também à construção ativa dos direitos e responsabilidades, e possibilidades de concretizá-los em cada um de seus aspectos, na fase atual de globalização.

Antes de passarmos ao próximo tópico, cabe um esclarecimento último sobre o

significado do termo “Ecologia”, amplamente utilizado por vários setores que procuram

se

colocar como “defensores da natureza” e da vida na Terra.

O

primeiro a usar o termo “Ecologia” foi Haeckel em 1869, e da sua época até os dias

atuais, foram incorporados uma série de elementos não excludentes, em função da própria necessidade humana, e das características da Ecologia que se apropriou ao longo dos anos de diversos conceitos e métodos de áreas afins (zoologia, botânica, geologia, climatologia, biologia marinha, química, física etc.), apresentando caráter mais abrangente e diverso em sua forma de abordar a realidade.

Castri 11 , em estudo divulgado pela UNESCO, apresenta o desenvolvimento da utilização do termo em cinco etapas:

1) Inicialmente o estudo de uma só espécie e suas relações com o meio;

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2) Nos anos vinte de nosso século, passa a representar as comunidades de espécies e noções de cadeia alimentar e pirâmide de números ; 3) Em 1950, engloba o conceito de ecossistema, abrangendo todas as interações do meio físico com as espécies que nele vivem; 4) Na década de sessenta a ênfase recai no estudo das interfaces dos ecossistemas e na noção de biosfera; 5) Nos anos setenta, a inclusão do ser humano enquanto espécie responsável por uma ação rápida e contundente sendo, portanto, necessária a discussão da percepção do ambiente pelo mesmo.

Fundamentando-se nas diferentes interpretações existentes, países europeus, inicialmente a França, definiram dois termos distintos. Ecólogo, para os que são especialistas, técnicos da ciência Ecologia no interior das Ciências Biológicas; e ecologistas para os que são militantes e simpatizantes do movimento de caráter social e político anteriormente descrito.

Alguns autores também fazem uma divisão entre ecologistas e ambientalistas. Os primeiros são os adeptos de mudanças societárias e civilizacionais radicais para se alcançar uma sociedade sustentável e justa socialmente; e os demais os que acreditam que mudanças nas práticas produtivas, comportamentais e de juízo de valores podem resultar em modelos mais responsáveis ambientalmente. Esta é uma divisão difícil, pois as fronteiras entre as tendências muitas vezes são tênues. Portanto, a generalização em “ambientalistas” para todos os envolvidos com a questão ambiental, reconhecendo-se a enorme diversidade interna de projetos e visões de mundo, se mostra mais adequada ou menos problemática.

11 CASTRI, F. di “Ecologia: Gênese de uma Ciência do Homem e da Natureza”. França, in: Correio da UNESCO, ano 9, n.6, 1981. Cadeia Alimentar - é a transferência de energia alimentar desde a fonte nas plantas, através de uma série de organismos que consomem e são consumidos. Pirâmide de números - é a representação gráfica da estrutura trófica (alimentar) de um ecossistema. Esta representa o gasto de energia em cada transferência na cadeira alimentar. São de três tipos: número, biomassa e energia.

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Globalização e Cidadania Planetária: O Contexto Atual da Educação Ambiental

Apoiando-nos em Gómez e Ianni 2 , podemos sintetizar a globalização como sendo um processo de "mão-dupla".

A primeira tendência refere-se à globalização do capital, do aumento do poder concentrado em corporações financeiras transnacionais e em Estados Centrais, que imprimem uma dinâmica coercitiva, homogeneizadora no plano cultural, profundamente excludente em relação a populações marginais e países periféricos. No dizer de Santos 3 , a construção de um mundo feito de “cima para baixo”, conduz a conflitos, e explosões raciais, étnicas e territoriais, porque visa a unificação e não a união entre iguais. É diferente um sistema de relações em benefício da maioria, de um sistema hierarquizado que perpetua a dominação de poucos sobre muito, em benefício de alguns que detém o poder econômico e político.

Para este autor, a dimensão mundial instituída é a do mercado controlado pelo poder crescente de transnacionais. Essa face da globalização pode ser facilmente observada e verificada quando analisamos dados que atestam o aumento da concentração de renda, os inúmeros conflitos localizados e o fortalecimento de movimentos racistas e étnicos na Europa e Estados Unidos; além do desemprego crescente, o chamado “desemprego estrutural”, do qual o nosso país é exemplo próximo, associado à desmobilização dos setores vinculados ao trabalho (sindicatos e partidos de massa).

A segunda diz respeito à criação de uma sociedade civil global, pautada em parâmetros e iniciativas humanitárias, democráticas e ambientalmente sustentáveis, com inequívocas convicções sociais e ecológicas. A dinâmica que se estabelece nesse campo respalda todo um arcabouço teórico que fundamenta a consciência sobre os limites e riscos planetários e sobre nossa existência em um mundo único, diversificado em suas manifestações vivas, mas inevitavelmente interligado e interdependente.

2 GÓMEZ, J.M. “Globalização da Política: Mitos, Realidades e Dilemas”. In: Praia Vermelha, Rio de Janeiro, n.º 1, 1997. IANNI, O. A Era do Globalismo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1996.

3 SANTOS, M. et ALLI. Fim de Século e Globalização. São Paulo, HUCITEC/ANPUR, 1994.

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Esse “jogo” entre as duas faces da globalização não possui um vencedor, e suas tendências não estão devidamente compreendidas, evidenciando o momento de extrema complexidade em que vivemos. A partir desse movimento, segundo o ordenamento feito por Vieira 4 , podemos caracterizar a globalização em cinco eixos:

Econômico - A globalização em seu vetor econômico envolve a ação simultânea

de três forças: a extraordinária expansão dos fluxos de bens, serviços e fatores; a crescente integração entre economias nacionais; e o acirramento da concorrência no sistema econômico mundial; isso associado ao poder crescente dos conglomerados transnacionais que dominam a produção, a tecnologia de ponta e o sistema financeiro internacional. A política monetária e fiscal dos governos é comandada pelo movimento do mercado, onde as normas são ditadas por organismos como BID, BIRD, FMI e OMC, atrelados ao grande capital. Esse processo acaba por tornar muito pouco competitivo os produtos dos países periféricos, posto que não se enquadram nas chamadas “especificações técnicas”. Ou seja, o mercado só é livre para os que já possuem o poder econômico, os demais funcionam segundo as regras instituídas de “cima para baixo”. É claro que normas que minimizem os impactos socioambientais são positivas. Contudo, sem uma política que garanta financiamentos e apoio técnico às pequenas e médias empresas, essas diretrizes acabam ampliando a exclusão e a concentração de renda e de poder.

Política - Diante da acumulação mundial acima citada, acompanhado da

derrocada do bloco comunista e da crise do Estado de Bem-Estar Social europeu, há profunda restruturação nas relações entre Estados, instituindo a chamada Nova Ordem Mundial, sob hegemonia do pensamento neoliberal e dos Estados Unidos.

Social - Essa Nova Ordem Mundial ampliou a exclusão social e a degradação ambiental. O padrão cumulativo e de valorização da competição em bases desiguais, favoreceu a globalização da pobreza, da miséria, da frivolidade da vida, e da desvalorização da dimensão do trabalho frente ao mercado.

4 VIEIRA, L. Cidadania e Globalização, São Paulo, Record, 1997.

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Ambiental - O modelo de industrialização do capitalismo e seu avanço tecnológico, o padrão de consumo, e a estratégia de defesa da natureza que é preconizada em documentos oficiais, acentuou a perda da qualidade ambiental. Com exceção dos países nórdicos e da Holanda, os acordos resultantes da Rio 92 estão sistematicamente sendo desrespeitados e o estilo de vida dos países do norte permanece quase inalterado 5 . A lógica do interesse privado e das corporações transnacionais sobre o público prevalece, sendo esta a grande causa de degradação ambiental, ou seja, o sentido de sustentabilidade se perde diante dos padrões de crescimento econômico internacionalmente definidos.

Cultural - A atual fase do capitalismo trouxe alterações profundas no plano sociocultural, sem romper com a continuidade histórica das forças de reprodução do capital. Vive-se uma fase de ênfase no fragmentado, no descentralizado, no atomizado, em função da compressão espaço-tempo e da desterritorialização. Pelé, Michael Jackson, Madonna, Steven Spielberg, Disney, Mcdonald, não são nomes presentes em culturas particulares, mas em todas as cidades interconectadas pela globalização. Há uma mescla do tradicional com a inovação, constituindo um Multiculturalismo que potencializa a construção no campo simbólico de valores globalizados 6 . Contudo, devemos atentar para os riscos oriundos de uma ação hegemônica norte-americana, que marca uma tendência para uma homogeneização cultural e não para a intensificação das trocas simbólicas. A cultura pós-moderna, se não for repensada, pode conduzir à profunda alienação do indivíduo, dificultando o pensar de uma sociedade 7 .

Por fim, mesmo correndo o risco de cometer equívocos reducionistas, sintetizaríamos seis itens como características indissociáveis de uma reflexão consistente sobre a globalização:

5 ALTVATER, E. O Preço da Riqueza . São Paulo, EDUNESP, 1996.

6 CANCLINI, N.G. Consumidores e Cidadãos - Conflitos Multiculturais da Globalização. Rio de Janeiro, EDUFRJ, 1996.

7 HARVEY, D. Condição Pós Moderna. São Paulo, Loyola, 1992.

20

Alteração na função do Estado e do próprio conceito de Estado-Nação, que

deixa de ser o centro das políticas nacionais e de concepção de cidadania, e passa a ocupar posição relativa e de sujeito no cenário mundial. Isso não significa que ele não tenha mais papel relevante, mas que seu grau de autonomia e soberania fica radicalmente alterado, assumindo qualitativamente novas responsabilidades, reforçando certas atribuições e minimizando a ação sobre outras.

Desterritorialização, ocasionando o fim das fronteiras culturais e geopolíticas, com a formação de blocos econômicos, de produtos com origem em diversos países, cidades urbanas literalmente inseridas na vida internacional, perda de identidades tradicionais e reforço de etnias. A rede de relações complexas nos diferentes níveis conduz a uma compressão espaço-tempo antes inimaginável.

Redefinição do trabalho. Descentralização e pulverização do processo produtivo,

pautado na concentração do capital, e numa nova divisão internacional do trabalho, com profunda perda de identidade de classe.

Avanços tecnológicos, principalmente nos meios de comunicação e transportes,

com impactos sobre a forma de organização social e a relação com a natureza. Ampliação exponencial da possibilidade de intercâmbio de informações entre indivíduos e instituições, e deslocamento de pessoas entre regiões distantes. As descobertas científicas associadas a esse movimento informacional e material auxiliaram a percepção de que este é um planeta com limites e único, o que, de certa forma, favoreceu a consolidação de uma perspectiva ambientalista planetária.

Urbanização e desruralização progressiva, com conseqüências no ordenamento e uso de solos e no planejamento das cidades.

Internacionalização das decisões, criando-se instâncias supranacionais de poder de pressão sobre tradicionais setores políticos e econômicos, mesmo sem terem poder deliberativo ou coercitivo.

21

Dentro desse denso contexto, esquematicamente exposto, o próprio conceito de cidadania adquire outras dimensões. É urgente a busca de mecanismos efetivos de participação e poder de decisão em movimentos sociais que constituem a sociedade civil, instituindo espaços públicos com poder deliberativo, que traga para o âmbito dos direitos o senso de responsabilidade cívica com ênfase em questões de humanidade (gênero, ambiente, minorias, fome, exploração infantil, analfabetismo, doenças epidêmicas, entre outros).

Para Kymlicka e Norman 8 , a renovação do interesse pela cidadania na década de noventa decorre dos acontecimentos recentes, envolvendo a nova estrutura material e política existente com um aumento de reflexão sobre a qualidade e as atitudes dos cidadãos. Dois artigos publicados na Inglaterra 9 são esclarecedores, ao sistematizarem as principais correntes, interdependentes, que compõem a sociedade civil e que pressionam, em suas ações políticas e considerações teóricas, para uma cidadania ecológica e planetária. São as seguintes:

Cidadania Global “stricto sensu” - Entende-se o planeta como o campo de

criação de condições de paz, justiça e igualdade. Aceita-se a noção de unidade das experiências humanas, considerando improvável a consolidação de sociedades democráticas junto a contextos de ditaduras e extremas desigualdades sociais. A ênfase recai sobre os Direitos Humanos e Universais, com ampla aceitação no campo moral, apesar de dificuldade de implementação de pontos essenciais (fim das torturas, das discriminações raciais e de gênero, e de exploração de mão-de- obra infantil).

Cidadania da “necessidade” - amplos setores da sociedade que repensam o atual

estilo de vida e o processo de produção e de consumo, a partir do suprimento de necessidades básicas e mecanismos de garanti-los, e a possibilidade de sobrevivência e perpetuação da espécie nessa situação de crise social e destruição dos recursos naturais em larga escala. Para atingir suas finalidades, estabelecem um

8 KYMLICKA, W. e NORMAN, W. “El Retorno del Ciudadano”. In: Cuadernos delClaeh, Montevidéu,

1996.

9

FALK,

R.

“The

Making

of

Global

Citizenship”.

In:

STEENBERGEN,

B.V. The Condition of

Citizenship. London, Sage Publications, 1994. STEENBERGEN, B.V. “Towards a Global Ecological

Citizen”. In: STEENBERGEN, B.V. op. cit. , 1994.

22

senso de viabilidade natural com fins políticos, comportamentais e éticos, pautado nos conceitos de solidariedade e cooperação internacional.

Nessa linha, não há grandes preocupações com uma análise estrutural e contextualizada, sendo os problemas remetidos ao plano ético e tecnológico. Assim, o uso indiscriminado de água se resolve com uma nova relação com a natureza (ética) e com melhoria na forma de abastecimento (tecnológico). O lixo, com a reciclagem e o uso de produtos biodegradáveis, deixaria de ser um risco à saúde. E, como esses, teríamos vários outros exemplos. Isso nos parece uma postura questionável, pois abre para a ideológica e ainda comum culpabilização dos pobres pelo desequilíbrio ambiental, e para a reprodução das relações desiguais entre países centrais e periféricos.

Cidadania Regional ou Cidadania “Européia” - Manifestada em um movimento

recente de fortalecimento de organismos e políticas regionais, principalmente na Europa, como forma de enfrentamento do avanço cultural e econômico dos Estados Unidos e do Japão. É uma demonstração de resistência a uma globalização imposta de “cima para baixo”. Temos exemplos disso, através de medidas políticas, na Europa, de proteção aos programas culturais regionais, limitando a veiculação de produtos externos.

Militância Transnacional - Movimentos sociais que se inspiram na máxima “Agir

local, pensar global”, no imperativo ecológico e na extensão dos direitos humanos a todos os indivíduos. Através de estratégias de ação internacional e de pressão sobre governos e organizações transnacionais, vêm consolidando espaços democráticos e conquistas materiais objetivas. São conhecidos os casos de ações espetaculares do Greenpeace, da pressão “moral” da Anistia Internacional e da influência da WWF e UICN, dentre outras ONGs sobre governos, inviabilizando financiamentos para projetos considerados predatórios.

A dinâmica estabelecida por essas “linhas de ação” leva a um novo entendimento do indivíduo, do cidadão e da sociedade no planeta; e à construção de outro padrão de relacionamento Sociedade-Natureza e Estado/Sociedade Civil/Mercado, pautada na

23

participação política e no aumento do conhecimento sobre a Terra e seus limites. Desse modo, a ampliação qualitativa e quantitativa de direitos e o senso de responsabilidade decorrente institui o conceito de Cidadania Planetária, básico para a prática consciente em Educação Ambiental.

Sem dúvida, o aumento de complexidade das relações levou a um aumento de

reflexividade sobre nosso futuro e suas alternativas. No que cabe na proposta deste livro, levantaremos alguns aspectos simultâneos, que consideramos fundamentais para a transformação da sociedade, sobre os quais os educadores devem discutir e atuar ativamente, no que se refere às conclusões teóricas daí decorrentes e suas possibilidades

de concretização.

Um primeiro relaciona-se a processos internos ao Estado-Nação. É preciso que se crie, em seu âmbito, condições estruturais e materiais para a satisfação das necessidades

básicas. É difícil supor um cidadão com capacidade plena de decidir qual é o melhor tipo

de Educação quando não tem sequer o direito de tê-la na prática. Mas, para isso, que não

se obtém por um processo passivo de doação, é imprescindível o fortalecimento das organizações da sociedade civil e da participação do cidadão nestas, instituindo uma relação de diálogo, democrática, entre Estado e sociedade civil. O sentido cívico, nacionalista, de competência política e de confiança no governo, se constrói em relações democráticas e não autoritárias ou paternalistas.

A

ação política dos movimentos sociais e das organizações precisa criar espaços outros

de

participação no processo de decisão do Estado, além do direito ao sufrágio universal,

democratizando e descentralizando as instâncias de poder.

A limitação inerente ao Estado-Nação para abordar e resolver problemas globais exige a

criação de instituições da sociedade civil transnacionais e agências interestatais, relativizando a soberania nacional, mas garantindo a autonomia de povos e nações. Obviamente que esse processo não se dará sem conflitos e nem sem riscos de constituirmos uma governança global autoritária (globalitária) e tecnocrática ou atrelada aos interesses diretos dos países centrais, como é o caso atual da ONU. É fundamental a busca por maior peso decisório dos países periféricos e das organizações da sociedade

24

civil com características transnacionais voltadas para a democratização e a consolidação dos direitos humanos e de modelos sustentáveis de sociedade.

Desde a década de setenta, a Educação Ambiental procura expressar essa dinâmica, por intermédio de seus pressupostos definidos e aceitos internacionalmente, e de uma prática

que parte do local, do ambiente de vida, para se atingir a noção e o entendimento crítico

do global. Logo, a cidadania que se busca a partir do processo educativo ambiental, é a

cidadania ecológica e planetária, com a consolidação dos direitos civis, políticos e sociais, e a busca por qualidade de vida, bem estar social e respeito aos limites dos recursos naturais existentes.

A cidadania planetária enquanto cerne da Educação Ambiental impõe ao processo

educativo profundas reformulações conceituais e metodológicas. Exige a participação; a

solidariedade; senso de responsabilidade e de tempo; respeito ao diverso e ao tradicional,

ao global e ao local; e principalmente o respeito à Vida em todas as suas manifestações.

Pensar a Educação Ambiental a partir desse paradigma pode parecer uma proposta política utopista e romântica. Contudo, a política deve ser entendida como “arte do impossível”, a busca de padrões e valores que, por mais distantes que possam parecer, são indispensáveis e necessários para a sobrevivência.

25

EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Em termos conceituais, o primeiro aspecto que precisa ser esclarecido, quando se fala em

Educação Ambiental, é o conceito de ambiente, ainda percebido por amplos setores da

sociedade como algo do qual o ser humano não faz parte.

O conceito de ambiente exprime uma totalidade, que só se concretiza à medida que é

preenchido pelos sujeitos individuais e coletivos com suas visões de mundo. É uma

categoria historicamente definida, que pressupõe as formas de produção e as relações

sociais (Indivíduo-Sociedade e Sociedade-Natureza). Assim, é um conceito instituído em

cada formação social, de acordo com o momento histórico, podendo ser entendido como

algo que existe na relação dinâmica com o sujeito analisado. Dentro de uma perspectiva

socioambiental, o conceito enfatiza aspectos objetivos e subjetivos que compõem a

totalidade da qual fazemos parte em condição de interferência e transformação.

“[ambiente é

]

O lugar determinado e percebido,

onde os elementos sociais e naturais estão em relações dinâmicas e em interação. Essas relações implicam processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e sociais de transformação do Meio Natural e construído” 10 .

O

mesmo sobre a categoria natureza pode ser dito. E isto pode ser facilmente percebido

no

que se refere à educação, quando lembramos dos materiais literários utilizados em sala

de aula. Temos visões que levam para a natureza atributos humanos (O lobo é mau em

Pedro e o Lobo”, o urso divertido e comilão em “Zé Colmeia”, a orca que é

simbolicamente vista como assassina, ganha contornos de amigável em “Free Wily”),

passando por visões harmônicas e cooperativas (tipo “O Rei Leão”), ou ainda tratando-a

como objeto (em livros didáticos de história e biologia).

Para as formações sociais indígenas, natureza tem um significado sagrado, algo que é

protegido e respeitado como divindade, pois fornece a base para a própria sobrevivência.

É a mãe que nutre a vida e da qual fazemos parte e, assim, não podemos violá-la. Na

26

cultura ocidental, com a modernidade, o iluminismo e, mais tarde, a Revolução

Industrial, a humanidade passa a ver a natureza como um objeto passivo e possível de

total domínio pela tecnologia, algo que só a partir de meados do presente século passa a

ser posto em “Xeque”, com a consolidação de movimentos sociais questionadores do

modo como a sociedade vinha se organizando e do reconhecimento de uma crise de

paradigma e civilizacional, gerando reflexos teóricos e metodológicos na Educação.

Vejamos abaixo alguns eventos marcantes da história da Educação Ambiental para a

melhor compreensão de seu conceito e alcance.

Seminário Internacional de Educação Ambiental – Belgrado, 1975

Esse encontro propiciou o primeiro e um dos mais importantes documentos relativos à

Educação Ambiental – a Carta de Belgrado. Também aqui foram estabelecidos os

princípios que regem a área, servindo como referencial para as diretrizes propostas na

Conferência Intergovernamental realizada em 1977.

O grande mérito desse evento foi reforçar a necessidade de uma nova ética global, que

erradicasse problemas como fome, miséria, analfabetismo, poluição e exploração humana

por meio de um novo modelo de desenvolvimento. Para isso, enfatizou a Educação

Ambiental como instrumento educativo capaz de gerar novos valores, atitudes e

habilidades, visando a melhoria da qualidade de vida, no contexto de um parâmetro

civilizacional distinto.

O I Seminário Internacional de Educação Ambiental constituiu um dos desdobramentos

das discussões ocorridas na Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente Humano em

1972, onde constou, através da recomendação 96 e do princípio 19, a necessidade de se

incluir de forma objetiva a discussão acerca do ambiente na educação. A orientação

central e compreensão do que é a Educação Ambiental no Seminário ocorrido em

Belgrado assim se definem:

“É a Educação dirigida ao crescimento de uma população mundial consciente e preocupada com o meio ambiente e seus problemas associados, e que tenha conhecimentos, habilidades, atitudes,

27

modificações e compromissos de trabalhar individual

e

coletivamente para a solução dos problemas atuais

e

a prevenção dos problemas futuros.” 11

Esse conceito reforça e situa a Educação Ambiental, no campo do conhecimento

sistematizado, como a educação que parte do que está próximo do indivíduo ou da

comunidade (cotidiano/ambiente de vida) e da compreensão de realidade em suas

múltiplas dimensões, enfatizando a interdisciplinaridade e o processo educativo na

promoção de uma nova sociedade, ambientalmente sustentável e socialmente justa.

Taller

Chosica/Peru, 1976

Subregional

de

Educación

Ambiental

para

Educación

Secundaria

Encontro latino-americano de grande relevância para a realidade brasileira. Nesse evento

foram enfatizadas a participação e a relação escola/comunidade, enquanto unidade

indissociável no ambiente de vida dos educandos, e firmada uma proposta efetivamente

popular de Educação Ambiental.

Os problemas ambientais a serem tratados em uma Educação Ambiental latina

demonstram a abrangência da proposta e foram divididos nos seguintes tópicos: recursos

naturais não renováveis (petróleo e minérios); recursos naturais renováveis (água, solo,

bosques, produção agrícola, fauna e vegetação silvestre); contaminação (água, ar e solo);

eliminação de espaços verdes nas cidades; erosão; nutrição; saneamento; moradia e

urbanismo; cultura e educação; trabalho (segurança, salubridade e desemprego); lazer; e

transporte.

Tem uma definição de Educação Ambiental que ressalta a proximidade do cotidiano e

uma perspectiva mais global de ambiente, enfatizando a transformação socioambiental e

a tomada de consciência na busca do cidadão crítico em um processo verdadeiramente

educativo:

11 UNESCO. Carta de Belgrado. Revista Contacto, 1(1): 1-10, 1976.

28

La

Educación

Ambiental

es

la

acción

educativa

permanente

por

la

cual

la

comunidad

educativa

tiende a la toma de conciencia de su realidad global, del tipo de relaciones que los hombres establecen entre sí y con la naturaleza, de los problemas derivados de dichas relaciones y sus causas profundas. Ella desarrolla, mediante una práctica que vincula al educando con la comunidad, valores y actitudes que promoven un comportamiento dirigido hacia la transformación superadora de esa realidad, tanto en sus aspectos naturales como sociales, desarrollando en el educando las habilidades y aptitudes necesarias para dicha transformación.” 12

O aprimoramento verificado nessa definição se deve ao processo de construção de uma

mentalidade ambientalista por parte de alguns setores da sociedade, no âmago do

pensamento latino-americano, de caráter menos conservador e conservacionista, mais

preocupado com questões relacionadas à realidade social, à condição de vida da

população e voltado para a mudança completa da estrutura econômica, política e cultural.

Enquanto ficarmos discutindo em uma perspectiva romântica, individualizada,

fragmentada e acrítica a conservação das matas e a utilização de tecnologias limpas, essas

matas continuarão a ser destruídas e a população a viver em condições de miséria. É

preciso trabalhar de forma contextualizada, articulando os problemas percebidos à

estrutura econômica e aos padrões socioculturais. De outro modo, o educando não

apreende os conhecimentos gerados, pois não vê relação entre eles e sua realidade de

vida, nem atua conscientemente no meio em que vive.

Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental – Tbilisi, 1977

Foi a conferência de maior repercussão e abrangência, contando com representantes de

mais de 50 países, onde foram definidas as diretrizes básicas e ratificados os pressupostos

teóricos, tendo como base as conclusões do Seminário Internacional acontecido em

Belgrado.

29

Ao sintetizar o que vinha sendo discutido em Educação Ambiental, oferece aos

profissionais e interessados pela área excelente referencial teórico. São apresentadas

como características principais: enfoque centrado na resolução de problemas concretos;

interdisciplinaridade; participação; visão holística de ambiente; sensibilização e aquisição

de conhecimentos e habilidades necessários na tomada de iniciativas no ambiente;

formação de senso crítico e investigativo junto ao alunado de forma a que concluam as

causas da crise ambiental; utilização, de modo complementar, de diversos meios e

métodos educativos; e integração escola-comunidade, como meio para garantir o sentido

de

unidade ao ambiente de vida 13 .

O

ambiente, até então entendido em termos mundiais predominantemente como

dimensão física e biológica, é ampliado e definido como sendo também social, cultural e

econômico. Isso repercute positivamente, pois fornece à Educação Ambiental um caráter

de nova proposta globalizante voltada para a Vida, em seu sentido mais profundo, como

eixo da educação.

O caráter educativo é ressaltado como permanente, visando-se à superação dos limites

clássicos do sistema de ensino formal e a necessidade de uma prática interdisciplinar

capaz de imprimir sentido avançado e contínuo à Educação Ambiental.

The determination of bases for a strategy, at all

educational and governmental levels, constitutes the

first stage needed

environmental education into education in

of a

new relationship between all those engaged together in the education process. To this end, legislative measures maybe taken providing the state with a legal framework in which to draw up an environmental

for

the

introduction

of

general

This

task requires the

establishment

education system for the entire community.” 14

Congresso Internacional de Educação e Formação Ambientais – Moscou, 1987

13 UNESCO. La Educación Ambiental: Las grandes Orientaciones de la Conferencia de Tbilisi. Vendome:

Universitaires de France, 1980. 14 UNESCO. Trends in Environmental Education since the Tbilisi Conference. Paris: UNEP, 1983, pág. 9.

30

Evento promovido com o objetivo de analisar e discutir os resultados obtidos na área desde 1977, ano de realização da Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental. A partir da aceitação de que houve um relativo avanço na conscientização mundial sobre problemas ambientais, a conferência reafirma os princípios teóricos definidos em Tbilisi como elementos indispensáveis para a concretização da Educação Ambiental.

O Congresso foi importante por ter preconizado a Educação Ambiental em sua perspectiva ampla, ou seja, incluindo os aspectos conservacionistas e também os relacionados à qualidade de vida humana na Terra; por ter estimulado a organização de redes de informação e comunicação entre os profissionais interessados; e por defender a capacitação de profissionais de formação técnica já no segundo grau, com currículos adaptados à discussão ambiental. Mas o problema central de operacionalização dessas diretrizes permanecia à época, particularmente na América Latina, onde não havia em nenhum país uma política pública condizente com os princípios estabelecidos para Educação Ambiental. Ressaltamos que o primeiro país latino-americano que promulgou uma lei específica para a área foi o Brasil, tendo isto ocorrido somente em 1999.

Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – Rio 92

Neste item estamos nos referindo à análise do Relatório Nacional, que fez parte da programação da ONU para a Conferência de 1992 15 . A parte relativa à Educação Ambiental apresenta uma descrição lógica, apoiada em bases conceituais avançadas sobre o tema. Porém, a boa articulação do discurso se perde pela falta de ênfase em alguns aspectos essenciais. O relatório governamental coloca rapidamente que um dos maiores problemas é que a Educação Ambiental nunca foi tratada como parte de área de Educação e sim como de meio ambiente.

15 CIMA. O Desafio do Desenvolvimento Sustentável: Relatório do Brasil para a CNUMAD.

1991.

Brasília,

CIMA. Subsídios Técnicos para a Elaboração do Relatório Nacional do Brasil para a CNUMAD. Brasília, 1991. Os problemas verificados no relatório preliminar foram reforçados ou omitidos no relatório oficial.

A versão final se pautou na descrição resumida sobre a expansão da temática ambiental nos meios educacionais. Isso, contudo, não expressou no nosso entender o avanço qualitativo, mas essencialmente o quantitativo, que ocorreu com a Educação Ambiental na década de oitenta.

31

“A peculiaridade notável da década de 1970 está no fato de que a educação ambiental se inseriu primeiro na estrutura administrativa dos órgãos públicos de meio ambiente, em vez de ser objeto de trabalho do sistema educativo. Isto talvez se explique em razão dessa educação ser, à época, ainda carente de desenvolvimento conceitual e, logo, vinculada mais a ambiente do que a educação propriamente dita” 16 .

Isto não deve ser apenas apresentado como um fato, mas como o principal problema. A

falta de percepção da Educação Ambiental como processo educativo, reflexo de um

movimento histórico, produziu a sua prática descontextualizada, voltada para a solução

de problemas de ordem biológica do ambiente, incapaz de discutir questões político-

sociais e princípios teóricos básicos da educação.

Os profissionais e instituições envolvidos em Educação Ambiental precisam se

aprofundar mais nas questões educativas para serem capazes de, a partir de uma dada

realidade, que se insere na estrutura de poder na sociedade, elaborarem conjuntamente

com a comunidade alternativas viáveis e transformadoras.

É pela falta de disposição política para transformar o que existe que não se têm recursos

para o investimento na formação de quadros, na capacitação e na própria Educação

Ambiental. Ou seja, não é a carência de recursos financeiros em si o empecilho, mas a

falta de uma política pública assumida como prioritária. O problema não é conjuntural, é

radical e estrutural.

Assim, quando o documento afirma que a Educação Ambiental está consolidada no

Brasil, devemos refletir sobre que Educação Ambiental está se falando e qual a função

desta na sociedade.

AGENDA 21

Este documento oficial da RIO’92 17 , apresenta o item “Promovendo a Conscientização

Ambiental”(capítulo 36, seção IV), que se refere textualmente à Educação como sendo

16 CIMA. Op. Cit. ,1991, p. 63. 17 GOVERNO FEDERAL/ PNUD. Agenda21. Brasília, 1992.

32

“crucial para a promoção do Desenvolvimento Sustentável e à efetiva participação

pública na tomada de decisões” (pág. 44), reconhecendo que há uma falta considerável de

conscientização sobre as relações e ações do ser humano na natureza em todo o mundo.

Seus eixos são, basicamente:

Universalizar a Educação Básica;

Pôr fim ao analfabetismo;

Realizar a Educação Ambiental, voltada para a proposta de Desenvolvimento

Sustentável, em todos os níveis, e de forma contextualizada;

Tornar as crianças agentes de promoção da saúde ambiental;

Ampliar e melhorar a qualificação acadêmica e tecnológica no que se refere à temática

ambiental, visando uma intervenção ecologicamente correta do ser humano na

natureza.

Os

pontos relacionados são inquestionáveis quanto à necessidade de ocorrerem na prática

e estão plenamente em acordo com as diretrizes da Educação Ambiental. Contudo,

devemos ter cuidado com dois aspectos que estão implícitos no texto.

O primeiro se refere ao fato de que estas orientações não representam em si

transformações estruturais no sistema vigente, podendo ser entendidas como mecanismos

de diminuição das tensões existentes. O segundo diz respeito ao enfoque

tecnicista/economicista, evidenciado no último parágrafo do capítulo 36, que diz:

“O custo anual estimado do programa da Agenda 21 para Educação, promoção da conscientização ambiental e aperfeiçoamento fica entre 14,2 bilhões de dólares e 15,2 bilhões de dólares no período de 1993 -2000. Desse total, de 5,6 a 6,6 bilhões de dólares têm que provir de fontes internacionais em termos de subvenção ou concessão”.(pg.45)

Será que a questão da Universalização da Educação e da Conscientização da população

passa só por parâmetros econômicos? Sem dúvida, há outros aspectos relacionados à

33

cidadania que devem ser considerados pensando-se uma nova sociedade condizente com

o ambientalismo. Além disso, qual é a intenção real dos países desenvolvidos em reverter

a quantia descrita para possibilitar a Educação em outros países?

Jornada Internacional de Educação Ambiental – 1992

No evento da sociedade civil, paralelo à Conferência Oficial na Rio’92, foi produzido o

documento Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e

Responsabilidade Global, que expressa com clareza o que os educadores de países de

todos os continentes pensam em relação à Educação Ambiental. No total foram mais de

dois anos de debates a partir de um documento básico, em que a versão final foi definida

em leitura e discussão com mais de 500 participantes presentes à Jornada.

Essencialmente, reforça a Educação Ambiental como o processo educativo capaz de

fornecer os elementos instrumentais e racional-emancipatórios necessários para a

concretização do ideal de uma sociedade sustentável e planetária.

Não temos o intuito de reproduzi-lo aqui, pois pode ser encontrado na íntegra no

“Manual Latino-Americano de Educação Ambiental” 18 , contudo sempre é oportuno

reforçar o sentido geral do documento, expresso em sua introdução:

“Este Tratado, assim como a Educação, é um processo dinâmico em permanente construção. Deve, portanto propiciar a reflexão, o debate e a sua própria modificação.

Nós, signatários, pessoas de todas as partes do mundo, comprometidos com a proteção da vida na Terra, reconhecemos o papel central da educação na formação de valores e na ação social. Comprometemo-nos com o processo educativo transformador através de envolvimento pessoal, de nossas comunidades e nações para criar sociedades sustentáveis e eqüitativas. Assim, tentamos trazer novas esperanças e vida para nosso pequeno, tumultuado, mas ainda assim belo planeta.

INTRODUÇÃO

18 VIEZZER, M. e OVALLES, O Manual Latino - Americano de Educação Ambiental. São Paulo, Gaia,

1995.

34

Consideramos que a educação ambiental para uma sustentabilidade eqüitativa é um processo de aprendizagem permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida. Tal educação afirma valores e ações que contribuem para a transformação humana e social e para a preservação ecológica. Ela estimula a formação de sociedades socialmente justas e ecologicamente equilibradas, que conservam entre si relação de interdependência e diversidade. Isto requer responsabilidade individual e coletiva em nível local, nacional e planetário.

Consideramos que a preparação para as mudanças necessárias depende da compreensão coletiva da

natureza sistêmica das crises que ameaçam o futuro do planeta. As causas primárias de problemas como

o aumento da pobreza, da degradação humana e

ambiental e da violência podem ser identificadas no modelo de civilização dominante, que se baseia em superprodução e superconsumo para uns e em subconsumo e falta de condições para produzir por parte da grande maioria.

Consideramos que são inerentes à crise a erosão dos

valores básicos e a alienação e a não-participação da quase totalidade dos indivíduos na construção de seu futuro. É fundamental que as comunidades planejem e implementem suas próprias alternativas

às políticas vigentes. Dentre essas alternativas está a

necessidade de abolição dos programas de desenvolvimento, ajustes e reformas econômicas que mantêm o atual modelo de crescimento, com seus terríveis efeitos sobre o ambiente e a diversidade de espécies, incluindo a humana.

Consideramos que a educação ambiental deve gerar, com urgência, mudanças na qualidade de vida e maior consciência de conduta pessoal, assim como harmonia entre os seres humanos e destes com outras formas de vida.”

Conferência Meio Ambiente e Sociedade: Educação e Consciência Pública para a

Sustentabilidade – Thessaloniki–1997

35

Reafirma que a Educação Ambiental deve ser implementada de acordo com as orientações de Tbilisi e de sua evolução a partir das questões globais tratadas na Agenda 21 e conferências da ONU, que abordaram a educação para a sustentabilidade.

Outros dois eventos específicos da área foram de grande relevância para o desenvolvimento da Educação Ambiental na América Latina: Seminário Educação Ambiental para América Latina – Costa Rica, 1979, e Seminário Latino-Americano de Educação Ambiental – Argentina, 1988. Ambos reforçam o aspecto múltiplo do ambiente, inclusive a necessidade de preservação do patrimônio histórico-cultural, o papel da Educação Ambiental na construção de uma sociedade justa e pacífica, a função da mulher na promoção do ecofeminismo e a importância da dimensão cultural na compreensão do ambiente de vida, com uma crítica contundente à manutenção das desigualdades sociais e da dominação dos países do chamado primeiro mundo sobre os demais.

36

A

BRASIL

INSTITUCIONALIZAÇÃO

DA

EDUCAÇÃO

AMBIENTAL

NO

Seguindo a linha utilizada no tópico anterior, traçaremos uma breve retrospectiva do processo de institucionalização da área no Brasil, considerando que esta só ganha projeção social e reconhecimento público na década de noventa, apesar de constar oficialmente na Constituição Federal de 1988, Capítulo VI, sobre meio ambiente, no seu artigo 225, parágrafo 1 o , inciso VI, onde está escrito que compete ao poder público promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente ”.

Nos anos setenta e oitenta foi recorrente sua simplificação a medidas educativas voltadas para a conservação dos recursos naturais e a mudanças comportamentais individuais, o tornar-se “ecologicamente correto”, sendo aceito por sistemas educacionais sua inclusão no currículo como disciplina, algo que seria combatido nos anos noventa, tendo em vista a busca por coerência com os princípios e conceitos da Educação Ambiental e a tentativa de sua implementação em bases sólidas e sintonizadas com as diretrizes mundiais para a área.

Programa Nacional de Educação Ambiental – PRONEA - 1994

Com a intenção de superar os limites da análise feita à época da Rio’92 e reconhecendo formalmente que a Educação Ambiental não estava consolidada como política pública no país até então, em 1994, o Ministério da Educação e o Ministério do Meio Ambiente, com interveniência do Ministério da Cultura e do Ministério da Ciência e Tecnologia, aprovaram o PRONEA. Foi definido por meio de sete linhas de ação: (1) Educação Ambiental através do Ensino Formal (capacitar os sistemas de ensino formal, supletivo e profissionalizante); (2) Educação no Processo de Gestão Ambiental (levar gestores públicos e privados a agirem em concordância com os princípios da gestão ambiental); (3) Realização de Campanhas Específicas de Educação Ambiental para usuários de Recursos Naturais (conscientizar e instrumentalizar usuários de recursos naturais, promovendo a sustentabilidade no processo produtivo e a qualidade de vida das

37

populações); (4) Cooperação com os que atuam nos Meios de Comunicação e com os Comunicadores Sociais (viabilizar aos que atuam nos meios de comunicação condições para que contribuam com a formação da consciência ambiental); (5) Articulação e Integração das Comunidades em Favor da Educação Ambiental (mobilizar iniciativas comunitárias adequadas à sustentabilidade); (6) Articulação Intra e Interinstitucional (promover a cooperação no campo da Educação Ambiental); (7) Criação de uma Rede de Centros Especializados em Educação Ambiental, integrando Universidades, Escolas Profissionais, Centros de Documentação, em todos os Estados da Federação.

Portaria n o 482/95 – MEC

O MEC, com esta portaria, incluiu em seu Catálogo de Habilitações Profissional (2 o

Grau), as habilitações de técnico em Meio Ambiente e auxiliar técnico em Meio

Ambiente.

CONAMA – 1995

Criação da Câmara Técnica de Educação Ambiental no Conselho Nacional de Meio Ambiente, ampliando a alcance de discussões e propostas para a área.

Lei n o 9276/96

Aprovação do Plano Plurianual do Governo federal (1996/1999), definindo como um dos principais objetivos para a área de meio ambiente a promoção da Educação Ambiental.

Parâmetros Curriculares Nacionais – 1996

A inserção dos temas transversais nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), no

qual se insere a questão ambiental, decorre do entendimento de que a educação escolar deve estar fundamentalmente voltada para a construção de cidadãos, conscientes de suas

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atribuições políticas e sociais, com condições de posicionar-se criticamente e responsavelmente nas diferentes situações sociais.

O critério utilizado pelo MEC para escolha dos temas transversais foi pautado em:

Urgência social – questões reconhecidamente graves na atualidade; abrangência nacional – questões que em diferentes escalas e enfoques fossem pertinentes a todo o país; possibilidade de ensino-aprendizagem no ensino fundamental (antigo 1 o grau); favorecer a compreensão da realidade cotidiana e da vida coletiva e a participação social.

Com isso, foram definidos os seguintes temas: ética, pluralidade cultural, meio ambiente, saúde, orientação sexual, trabalho e consumo.

O tema transversal meio ambiente, em sua concepção nos PCNs, deve ser tratado de

modo articulado entre as diversas áreas de conhecimento, impregnando a prática educativa e criando uma visão global e abrangente da questão ambiental. E isto está

projetado e planejado desde o entendimento do significado das ações cotidianas no local

de vida, passando pela reconstrução e gestão coletiva de alternativas de produção que

minimizem e superem o quadro de degradação, até a inserção política na sociedade como

um todo, redefinindo o que se pretende por qualidade de vida e propiciando a construção

de uma nova ética ecológica.

Os conteúdos foram divididos em três blocos: A natureza “cíclica” da Natureza (conhecimento da dinâmica da Natureza); Sociedade e ambiente (aspectos abrangentes e históricos das formas de organização humana e a relação com a Natureza na definição de seus espaços de vida); e Manejo e Conservação Ambiental (possibilidades de intervenção no ambiente, visando a melhoria da qualidade de vida e a preservação dos recursos naturais).

I Conferência Nacional de Educação Ambiental – 20 anos de Tbilisi – 1997

Reunindo esforços dos dois ministérios envolvidos diretamente com a implementação do PRONEA, foi realizada esta conferência nacional com o objetivo de refletir sobre as práticas em Educação Ambiental no Brasil, visando consolidar diretrizes políticas para sua concretização. Teve a participação de 2868 pessoas de entidades governamentais e da

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sociedade civil que, a partir de documentos regionais, possibilitaram a elaboração de um documento nacional, conhecido como a Declaração de Brasília, onde constam grandes temas com seus problemas e recomendações.

Os grandes temas foram categorizados em: (1) Educação Ambiental e as Vertentes do Desenvolvimento Sustentável; (2) Educação Ambiental Formal; (3) Educação Ambiental no processo de Gestão Ambiental (Metodologia e Capacitação); (4) Educação Ambiental e as Políticas Públicas; (5) Educação Ambiental, Ética e Formação da Cidadania:

Comunicação e Informação da Sociedade.

No geral, foram apresentados como maiores necessidades: Implementação do PRONEA; reformulação dos currículos do sistema formal de ensino e implementação dos PCNs; definição de políticas públicas mais integradas (governo/sociedade civil) e fundamentadas nos princípios da Agenda 21; estímulo público à gestão ambiental e a processos de desenvolvimento comunitário sustentáveis; democratização dos meios de comunicação com mais espaços para a divulgação e promoção de projetos, experiências e debates acerca da questão ambiental; e motivar a mídia a ser um formador de opinião social onde a ética ecológica esteja presente.

Lei n o 9795/99 – Política Nacional de Educação Ambiental

Lei que institui a Política Nacional de Educação Ambiental, onde no seu art. 2 o reforça que “A Educação Ambiental é um componente permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal”.

Decorre de um longo processo de tramitação no congresso e de debates com a sociedade civil, iniciado com o Projeto de Lei n o 3792/93. Após sua aprovação, duas críticas foram pertinentemente feitas. A primeira foi a de que, apesar de estar dentro do espírito assumido mundialmente a partir de Tbilisi, possui uma definição restrita e voltada para a conservação ambiental, em que não fica claro que ambiente se define pela inserção humana ativa. Isto pode ocasionar uma limitação no entendimento de Educação

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Ambiental como processo que integra a dimensão cultural com a produtiva, a dimensão individual com a coletiva. A segunda referiu-se ao fato do texto ser genérico, não atribuindo de onde partirão os recursos para viabilizar a implementação da Política Nacional. Pelo que os fatos históricos evidenciam, leis no Brasil que são pouco delimitadas acabam não se consolidando.

Contudo, mesmo considerando estes limites, o importante a destacar é que esta é a primeira lei na América Latina que torna oficial o reconhecimento da Educação Ambiental como um instrumento educativo para a busca de padrões mais sustentáveis de sociedade. Demonstra claramente seu caráter interdisciplinar e transversal, bem como o papel de todos na sua promoção, respeitando as diretrizes de Tbilisi.

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PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Unidade Ecológica

Este pressuposto está relacionado diretamente com a compreensão do ambientalismo em termos filosóficos. O paradigma ecológico rompe com a fragmentação inerente ao paradigma cartesiano, dominante em nossa cultura, constituindo-se em um parâmetro ético-filosófico mundial que reúne aspectos políticos e filosóficos e procura formar uma nova consciência humana sobre a vida na Terra. Esse novo paradigma está vinculado aos princípios de contextualização, de historicidade e dialética.

Na busca de ruptura com os princípios cartesianos e positivistas, possui quatro pressupostos que podem ser definidos nos seguintes eixos:

Nenhum elemento possui identidade e existência fora do ambiente, entorno ou contexto de sobrevivência, onde a realidade é constituída pela dinâmica e interação dos sistemas;

A obtenção de conhecimentos depende de nossa participação nos processos existentes, modificando e sendo modificado pelos mesmos, em um processo essencialmente qualitativo;

A capacidade de síntese é tão importante quanto à de análise, pois parte-se do princípio de que tudo está interrelacionado e que para conhecer algo é necessário procurar compreender sua origem e finalidade;

O Universo é uma realidade que se auto-organiza.

Saber trabalhar as contradições como um processo básico, um movimento interno da própria existência, é o elemento para deixarmos de pensar de forma linear e compreendermos que a realidade é dinâmica e diversa, onde a negação de uma afirmação é a possibilidade de se ir adiante em uma nova síntese. Significa compreender as múltiplas facetas do concreto, e ter uma certeza unitária a partir da compressão das

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contradições. Isso traz para a Educação Ambiental um caráter flexível, dialético e

construtivo, eliminando qualquer princípio rígido e absoluto.

Interdisciplinaridade

A Educação Ambiental foi discutida como disciplina, no Brasil, durante boa parte da

década de setenta, resultado do pouco aprofundamento teórico existente e pela confusão

conceitual que relacionou Educação Ambiental com o ensino de conteúdos de Ecologia.

Após a superação do enfoque de disciplina isolada, apesar da manutenção dos problemas

básicos relativos à Educação Ambiental, passamos a ter um enfoque multidisciplinar, de

trazer o tema ambiental para cada disciplina. Esse processo histórico pode ser entendido

ao se analisar os Anais do 2 o Simpósio de Educação Ambiental, realizado na cidade de

Santos em 1986. A partir do meado da década de oitenta, quando a visão dicotômica e

cartesiana começa a ser rediscutida com profundidade, a interdisciplinaridade passa a ser

central, recuperando uma discussão da década de setenta nas ciências humanas e sociais.

A interdisciplinaridade, enquanto reação não só ao modelo científico, mas ao

socioeconômico existente, pressupõe a reciprocidade, a mutualidade, o fim da

compartimentalização, por uma percepção unitária e não totalitária do ser, e a

compreensão do humano enquanto parte da natureza.

No auge do debate interdisciplinar, a declaração de Gusdorf, no prefácio do livro de

Japiassú 19 , exemplifica a crítica à postura cartesiana e economicista.

“Só que tais verdades (as cartesianas), desligadas de toda referência à figura humana, são verdades que se enlouqueceram. Devemos considerar como alienada e alienante toda ciência que se contenta em dissociar e em desintegrar o seu objeto. É absurdo, é vão, querer construir uma pretensa ciência do homem, se tal ciência não encontra na existência humana em sua plenitude concreta, seu ponto de partida e seu ponto de chegada”.(p.20).

19 JAPIASSÚ, H. Interdisciplinaridade e Patologia do Saber. Rio de Janeiro, Interamericana, 1976.

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A interdisciplinaridade não se resume à crítica aos modelos tradicionais. É necessária a

transformação interior, a formação de uma postura de compromisso coletivo capaz de

superar o individualismo tão exaltado na sociedade industrial. Esta deve ser vivida e não

continuar como exercício intelectual que produz o discurso transformador e mantém a

prática conservadora, fazendo da interdisciplinaridade mais um modismo sem efeitos

concretos.

Uma atividade de múltiplas áreas (multidisciplinaridade) não representa uma efetiva

construção conjunta em função de um problema concreto, apenas troca de informações

dentro de uma postura de integração com vistas a se atingir determinados objetivos.

“A interdisciplinaridade se caracteriza pela

intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas, no intervir

de um projeto específico

20

.

Para continuarmos nos aprofundando sobre o tema, definiremos alguns termos que ainda

não estão muito claros entre os profissionais que atuam em Educação Ambiental.

MULTIDISCIPLINARIDADE - Aproximação e até sobreposição entre conteúdos e

métodos de disciplinas diversas de áreas distintas. Seria, por exemplo, a integração

entre matemática e história.

PLURIDISCIPLINARIDADE - O mesmo que a anterior, só que realizada entre

disciplinas próximas em termos de área de conhecimento.

INTERDISCIPLINARIDADE - Interação real entre disciplinas, independente da área

de origem. Há diferentes níveis e definições, indo desde a utilização de métodos e

incorporações conceituais teóricas de outras disciplinas, até a aproximação inerente ao

fato de duas ou mais disciplinas possuírem domínios de estudo que estabeleçam uma

afinidade e diálogo entre elas.

Acreditamos que a verdadeira interdisciplinaridade signifique mutualidade e construção

conjunta a partir da interação a níveis conceituais, metodológicos, de ensino e pesquisa,

20 JAPIASSÚ, H. op. Cit., 1976, p. 74.

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sendo capaz, essa interação, de produzir uma linguagem comum sem perda do que é específico de cada disciplina.

A postura interdisciplinar de recusa à prática fragmentária e onipotente de cada

disciplina, está intimamente relacionada com as propostas inclusivas de educação, que perceberam que a pulverização do saber não nos conduziu à compreensão da presença humana no mundo em suas múltiplas dimensões.

A proposta interdisciplinar não nega a importância da especialização, que ajuda e

aprofunda a compreensão dos fatos, mas esta deve fazer parte de uma interpretação global, histórica e social. Não é o se especializar em várias disciplinas, mas o aproximar a totalidade do conhecimento específico.

Dentro da perspectiva ambiental e interdisciplinar não há ciência superior ou inferior, todas se complementam, cada uma assumindo papéis definidos conforme os problemas são apresentados. Assim, podemos afirmar que a interdisciplinaridade na Educação Ambiental oferece uma série de vantagens na busca da emancipação humana.

1 -

Em termos de ensino-aprendizagem:

a) Melhor capacitação, fornecendo informações em uma perspectiva de compreensão dos fatos em suas múltiplas inter-relações, respeitando-se a diversidade de opiniões que representam a totalidade;

b) Estímulo à postura crítico-construtiva, ou seja, à percepção crítica, objetivando alterações concretas por meio de uma análise dialética dos acontecimentos;

c) Estímulo à Educação Permanente, que é normalmente colocada como um dos pressupostos da Educação Ambiental, e pode ser entendida como a capacidade do indivíduo se educar independentemente e após o processo escolar.

Este ponto é aqui destacado pois vivemos um período de transformações aceleradas de

valores e conhecimentos técnicos, causando modificações diretas no meio que precisam ser acompanhadas. Assim, a Educação Ambiental precisa ser permanente em dois

sentidos:

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Estar em constante modificação dos conteúdos e assuntos trabalhados para não recair

no esquema tradicional de ensino;

Perpassar não só o currículo escolar e atividades extracurriculares, mas também os

meio de comunicação e demais atividades culturais.

2 - Em termos de compreensão de mundo:

A interdisciplinaridade propicia uma nova forma de inserção na natureza, o que

representa um novo tipo de compreensão do mundo e forma de existir. Isso conduz quem

vivencia a interdisciplinaridade à busca da transformação da sociedade em sua própria

atitude cotidiana.

Participação

A participação é, juntamente com a interdisciplinaridade e a unidade ecológica, o tripé

básico da Educação Ambiental e, na verdade, de todo o processo educativo que visa à

formação plena do cidadão e não sua alienação através de práticas impositivas. Diríamos

que, levando-se em consideração a realidade sociocultural brasileira, qualquer proposta

em Educação Ambiental deve ter como princípio maior a participação, pois o que se

precisa, em última instância, é que a população conquiste seus direitos com compromisso

coletivo – o cidadão pleno.

Além disso, a construção de uma abordagem integradora pressupõe a participação de

todos os envolvidos: técnicos, pesquisadores, professores, alunos, funcionários, e pessoas

da comunidade; seja em ações formais ou informais, curriculares ou extracurriculares.

Este é, dos pressupostos, o mais difícil de se abordar teoricamente, pois a participação é

dinâmica e se baseia no cotidiano de vida de cada um e da sua coletividade e não em

produtos quantificáveis.

Participação é igualdade de poder no processo, respeito pelas experiências acumuladas

por cada indivíduo e construção coletiva em busca da cidadania plena.

“Com efeito, participação é o processo histórico de conquista da autopromoção. É a melhor obra de arte do homem em sua história, porque a história que vale a pena é a participativa, ou seja, com o

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teor menor possível de desigualdade, de exploração, de mercantilização, de opressão. No cerne dos desejos políticos do homem está a participação que sedimenta suas metas eternas de autogestão, de convivência.” 31

É um processo sem fim, contínuo, sem produtos acabados, pois sempre se problematiza o

que existe na busca de novas alternativas e conhecimentos individuais e coletivos,

visando à melhoria das condições de vida. Logo, a verdadeira participação não é aquela

que surge motivada por algum fato concreto e se limita a ele, mas que problematiza toda

a realidade a partir de uma realidade específica.

É uma conquista, pois observamos na prática que dificilmente alguém participa

espontaneamente, mas motivado por algum interesse específico, sendo, portanto,

necessário a definição de um eixo que promova o estímulo na população em participar e

dialogar. São históricos a dominação e o individualismo. Hoje, é ingenuidade acreditar

que a população se mobiliza por achar que este é o caminho.

Há uma questão central que perpassa as iniciativas “participativas” em nossa sociedade.

Nos últimos anos ficou muito comum o discurso da participação como parte do processo

de abertura democrática no país. Porém, são ações que passam, na maioria, uma falsa

impressão de igualdade e de conquista popular. Esta prática manipuladora foi comum em

meados do século XX, justamente com o objetivo de conquistar a confiança e ir, aos

poucos, manipulando-os ideologicamente segundo os seus interesses.

O paternalismo também ocorre com freqüência. Neste tipo de prática parte-se do

princípio, conscientemente ou não, de que há alguns “iluminados” que pensam pela

maioria, que é desprovida de recursos materiais e intelectuais. Cabe a esses “iluminados”

se inserirem para compreenderem a realidade popular e, com isso, definir o que é mais

adequado a ser feito.

No entanto, o que há de mais comum e prejudicial à participação é o assistencialismo,

pois este inibe tudo o que há de participativo, a noção de direito e de cidadania, recria a

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miséria sob a forma de tutela, pois nunca vai à raiz dos problemas e nunca tira o pobre da situação de pobreza, estigmatizando-o e oferecendo como saída medidas paliativas que os mantêm vivos em condições precárias.

É, contudo, necessário reconhecermos que o pobre e principalmente o que se encontra em

situação de miséria precisam de ajuda imediata para superarem as deficiências objetivas. Não há como prevenir sem cuidar do que já existe. Assim, por exemplo, quando se vai trabalhar com a prevenção de verminose, que é um dos maiores problemas nacionais, não adianta sensibilizar, mobilizar e conscientizar para prevenir, se há inúmeras crianças morrendo por já estarem contaminadas.

Atrelado a essas práticas que dificultam o processo participativo e democrático, está o comodismo. As pessoas culturalmente se acostumaram com a idéia de o governo fazer tudo pelo indivíduo, fruto do clientelismo imposto no discurso de políticos e governantes. Isso resulta no fato de que ninguém quer assumir compromissos e responsabilidades, preferindo ficar cobrando o que é, na maioria, dever do governo, porém se esquecendo que somos sujeitos sociais e que a conquista dos direitos se dá com participação e consciência.

O processo participativo é lento, pois a realidade é enfrentada, criticada, avaliada e

superada qualitativamente; e nossa história de alienação na sociedade de classes faz com que a ausência de participação seja um fato a ser encarado como ponto de partida para a transformação.

Por mais difícil que seja a conquista da participação, esta é o âmago da democracia e da cidadania. Para Demo, na obra já citada, os objetivos da participação são:

AUTOPROMOÇÃO: É o conhecimento e a valorização de si mesmo, pois o ser se valoriza à medida que conquista seus direitos, supera suas alienações e está ciente de seus deveres, a partir de relações que formem o compromisso social para a superação dos problemas existentes.

AUTOGESTÃO e CO-GESTÃO: São processos distintos que em última instância possibilitam a autonomia comunitária e a busca de caminhos próprios de inserção

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social, cultural e econômica. Esse aspecto é central no paradigma ecológico e, portanto, na Educação Ambiental. CONQUISTA DE CIDADANIA: A educação liberal promove o discurso de conquista da cidadania através do processo educativo, mas só permite a participação das classes populares após considerá-las preparadas para tal função. Além de questionarmos o que é “estar preparado para tal função”, a cidadania não é pré-condição para a participação, é conquista da participação.

Assim, a conquista da cidadania não se dá somente através da formação escolar, sendo decisivo, dentro do espaço escolar e fora deste, a mobilização e a participação efetiva, pois o cerne do educativo está na condução do indivíduo à cidadania.

Caráter Político

Colocamos este pressuposto com o objetivo de reforçar um aspecto inerente a qualquer prática educativa, mas que ainda não foi suficientemente analisado por quem trabalha com Educação Ambiental.

Político é o espaço de atuação humana no social, onde ele forma a si mesmo e molda as características objetivas que o cercam, indo muito além dos aspectos partidários associado geralmente ao termo.

Ser um cidadão politizado é ser um indivíduo capaz de compreender e de atuar no meio de forma consciente. A falta de politização deixa o ser humano sem projeto de vida, sem capacidade de intervir, sem objetivos claros e ideais, tornando-o incapaz de atuar como um ser inserido na sociedade.

A Educação sempre tem a dimensão política por duas razões:

a) O conhecimento construído faz parte de um contexto social e político. O que se produz em uma sociedade é resultado de suas próprias exigências e contradições. Assim, o domínio do conhecimento técnico-científico confere ao indivíduo maior consciência de si mesmo. O saber técnico é parte do domínio político da sociedade.

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b) Na escola ou na comunidade, as relações que se estabelecem são propícias para que o indivíduo tenha uma percepção crítica de si e da sociedade, podendo, assim, entender sua posição e inserção social.

A Educação Ambiental é essencialmente praxis social que busca a formação de valores, conceitos e atitudes, permitindo a compreensão e atuação consciente no ambiente em suas múltiplas dimensões. Logo, é política e a negação deste pressuposto limita as práticas educativas, ambientais e populares.

Aplicação das Metodologias da Educação Ambiental nos Diversos Espaços Pedagógicos da Sociedade

Para atender ao pressuposto anterior, a Educação Ambiental deve estar presente não só nos currículos e atividades escolares, mas também nos espaços de trabalho, nas atividades comunitárias, na organização familiar, nos clubes e associações de classes, nos meios de comunicação e, enfim, em todos os espaços sociais.

Isto sem se tornar uma prática maçante com conteúdos abstratos, mas sim um processo global de conscientização e mobilização no sentido de uma real melhoria da qualidade de vida, pautado em metodologias e instrumentos de aprendizagem variados.

Adequação do Processo Educativo à Realidade Cotidiana

Para se chegar a uma compreensão dos grandes problemas nacionais e internacionais, deve-se partir do concreto, do imediato, possibilitando a construção de um sentido coerente no discurso ambiental para os educandos. É preciso construir um senso de pertencimento a uma comunidade, a uma localidade definida e à sociedade, ser um cidadão local para sê-lo no nível planetário.

Os valores não podem ser passados através de um processo de transmissão unilateral, mas sim construídos, elaborados conjuntamente a partir do que se tem mais próximo. Só isso produz a mobilização desejada para se atingir os fins da Educação Ambiental.

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Exemplificando, não se pode iniciar um programa de Educação Ambiental na Baixada Fluminense discutindo conservação da Amazônia, a desertificação e o Efeito Estufa. Para se atingir estes aspectos é preciso falar antes em saneamento, moradia e ocupação e uso do solo, em transporte urbano e uso de recursos energéticos, em entender e valorizar a história do local, construindo a devida identidade comunitária.

Temos que ressaltar também que o inverso do que foi dito acima, aquelas atividades fechadas em si mesma, como por exemplo, a implantação de hortas comunitárias, a realização de reflorestamentos ou um programa de coleta de lixo, se não forem articuladas como processos educativos, não passarão do plano da instrumentalização para o melhor uso e manejo de recursos naturais. É evidente que em um projeto não temos condições de trabalhar várias atividades, todos os espaços pedagógicos e abordar a teia de problemas existentes em um ambiente, porém, mesmo a partir de algo específico, não podemos perder de vista os princípios e fundamentos da Educação Ambiental, sabendo relacioná-los.

Sensibilização e Aquisição de Conhecimentos e Habilidades Necessários na tomada de Iniciativas no Ambiente

Este

esquemático:

pressuposto,

para

ser

melhor

compreendido,

pode

ser

apresentado

de

modo

O primeiro passo no processo educativo é sensibilizar, chamar a atenção e mobilizar para um dado problema, que só o é à medida que é aceito como tal. Um problema é construído e definido socialmente.

Para poder agir sobre um problema definido é preciso ter conhecimento sobre este (origem, condicionantes, impactos etc.).

Contudo, para mudar a realidade confrontada não basta estar mobilizado e saber a sua complexidade. É preciso ser capaz de agir, estar devidamente instrumentalizado para isto, criando habilidades e competências.

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Porém, mesmo com todos estes passos preenchidos é fundamental que o cidadão tenha dois outros elementos: condições materiais para agir e o estímulo coletivo necessário. O que torna evidente a pertinência de todos os outros pressupostos e a relação da educação com as demais lutas sociais emancipatórias. A mudança envolve a articulação entre o que podemos fazer individualmente e o que é de caráter coletivo, espaço onde atuamos, modificando-o e sendo modificado.

Após o que foi exposto em termos de história e pressupostos da Educação Ambiental, podemos resumi-la como uma educação que atua na modificação da relação sociedade- natureza e que tem como diretrizes principais:

Levar em conta a totalidade do ambiente, ou seja, considerar os aspectos naturais e os construídos pelo ser humano;

Ser um processo contínuo e permanente;

Adotar a perspectiva interdisciplinar, utilizando e respeitando o específico de cada disciplina, de modo a analisar os problemas ambientais através de uma ótica global e equilibrada;

Inter-relacionar os processos de sensibilização, aquisição de conhecimentos e habilidades para resolver os problemas;

Possibilitar ao indivíduo descobrir os sintomas e causas do problema ambiental;

Desenvolver sentido crítico e as aptidões necessárias para a resolução dos problemas observados. Analisando-se esses aspectos expostos acima, podemos ir um pouco mais adiante, afirmando que a Educação Ambiental é um processo educativo, de formação da cidadania ecológica, plena e planetária. Assim, a especificidade da Educação Ambiental é trazer para a Educação o respeito à Vida como seu eixo central, promovendo a superação da dicotomia sociedade-natureza, em um processo crítico de construção da cidadania.

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A OPÇÃO METODOLÓGICA

Associado ao pouco aprofundamento teórico sobre Educação Ambiental está a dificuldade em identificar qual metodologia é a mais adequada. Na verdade, não é correto definir um só modelo metodológico, pois a Educação Ambiental é diversa nas suas formas de atuação. Contudo, quando observamos os itens anteriores, principalmente os pressupostos teóricos, não há dúvidas em se afirmar que as metodologias participativas são as mais propícias. Com efeito, estas não só correspondem aos objetivos maiores de formação do cidadão consciente, como facilitam a superação da antiga classificação entre Educação Formal, Informal e Não-Formal. Esta divisão reproduzia o perfil educacional que desconsidera a relação existente entre escola e comunidade e a interdependência entre as múltiplas dimensões do ato educativo. A formação permanente se dá também fora do espaço escolar que é privilegiado, porém, não o único na Educação.

Neste sentido, defendemos a integração dos diferentes aspectos, de modo a se desenvolver um processo global de educação, e a possibilidade de construção do conhecimento a partir da prática coletiva e da aproximação teórica a esta.

A metodologia participativa engloba inúmeras tendências e estilos participativos:

pesquisa-participante, pesquisa-ação, investigação-ação, entre outras. Contudo, o que é central é que todas têm como eixo uma proposta de transformação a partir da realidade vivenciada e de construção no processo, sendo forte a crítica aos modelos tradicionais de pesquisa e seu uso como instrumento de dominação e manutenção do sistema.

Na área de atuação das ciências humanas e sociais o conhecimento científico produzido

promove alterações graduais, só percebido a longo ou médio prazo em um esquema de distanciamento entre sujeito e objeto, e isso, no trabalho educacional, gera dificuldades, pois os grupos sociais marginalizados exigem respostas imediatas aos seus múltiplos problemas e maior compromisso e envolvimento do profissional na realidade estudada.

Não podemos ter a ilusão revolucionária de que a Educação é o caminho para o salto qualitativo que conduz a um novo sistema sócio-econômico-político. Também não

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podemos desconsiderar o papel da mesma na transformação. Entretanto, em um salto qualitativo, aqui compreendido como a conquista da cidadania por todos e a diminuição das desigualdades socioeconômicas, a Educação é eixo indissociável e imprescindível.

Estamos dentro do capitalismo e sua lógica de poder. Devemos estar cientes disso, de nossa posição de classe e, a partir daí, no interior das próprias contradições do sistema, encontrarmos alternativas coletivas que produzam resultados no caminho da transformação efetiva.

Os objetivos que norteiam as metodologias participativas, tendo como premissa que propiciar às pessoas os meios para que possam conduzir livremente as transformações que se fazem necessárias é um processo educativo, podem ser definidos assim:

Conduzir a ação educativa no sentido do crescente comprometimento com a melhoria da qualidade de vida;

Conduzir os problemas da Educação de maneira integrada, em processo participativo das forças das comunidades, onde a escola é o pólo privilegiado de integração;

Conduzir a ação educativa dentro de uma perspectiva de educação permanente e de forma que a instituição educativa assuma sua função libertadora, a partir da formação de consciência crítica do educando;

Conduzir a ação educacional de modo a apoiar e estimular a manifestação espontânea de indivíduos e grupos na transmissão e recriação do patrimônio cultural;

Vincular os processos educativos com as atividades econômicas e sociais, possibilitando a integração escola-trabalho-organização comunitária.

Tais diretrizes estão plenamente em acordo com as da Educação Ambiental, pois favorecem a formação da consciência ambiental crítica e contextualizada, a organização comunitária, e a busca de desenvolvimento autônomo e de tecnologias descomprometidas com o sistema de produção utilitarista dos recursos naturais.

As premissas metodológicas da prática participativa em Educação Ambiental são:

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É prática social com sentido político, não devendo ser entendida como lógica acabada, possibilitando a construção e a correção de desvios no próprio processo;

Não é neutra. É uma opção metodológica que rompe com o positivismo;

Procura integrar o potencial do conhecimento popular com o científico;

Busca a produção coletiva do conhecimento;

Parte da realidade do grupo para atingir a transformação, produzindo uma nova estrutura e um novo conhecimento.

Este modo de agir com rigor científico em Educação Ambiental é desenvolvido em fases definidas para fins de sistematização das informações e organização do conhecimento. Pautando-nos no trabalho desenvolvido pelo Grupo de Estudos em Educação Ambiental da UFRJ, a organização básica para uma ação prática e de pesquisa é a seguinte:

1 a FASE: CONHECIMENTO DA REALIDADE DA COMUNIDADE ENVOLVIDA

INSERÇÃO

CONHECIMENTO HISTÓRICO

FASE:

2

EDUCAÇÃO AMBIENTAL

a

REARTICULAÇÃO

DA

PRÁTICA

DE

PESQUISA

À

TEORIA

EM

3 a FASE: DIAGNÓSTICO DO AMBIENTE

4 a FASE: PLANEJAMENTO DA AÇÃO

5 a FASE: DESENVOLVIMENTO E AVALIAÇÃO DAS AÇÕES

O Processo de Inserção

Trata-se de uma fase essencial de integração com o grupo e a sua realidade nas múltiplas dimensões e necessidades. Trata-se de um participar da vida deste grupo, com vistas a estabelecer laços orgânicos, dentro de uma perspectiva emancipatória-transformadora.

É impossível promover o acesso das classes populares a processos políticos decisórios e a bens socialmente produzidos sem uma relação de compromisso entre sujeito-sujeito e não

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entre sujeito-objeto (relação de dominação), bem como de respeito por sua cultura, que não pode ser vista como a única legítima, mas como elemento dialeticamente relacionado com a cultura erudita ou científica, de modo a permitir a apropriação do saber e a elaboração conjunta de um novo conhecimento.

O respeito pela cultura e pela organização popular é ponto referencial para a execução

dos trabalhos, pois esta é produto da existência objetiva, das condições reais e interesses imediatos da própria comunidade.

Nesse momento, normalmente constatamos que é ilusório acreditar que todos

indistintamente participam. Primeiro, há uma aproximação com aqueles que representam

e trabalham pela comunidade, depois se aglutinam ex-lideranças e pessoas pouco conhecidas, mas mobilizadas e mobilizadoras. Contudo, a maioria permanece desmobilizada, só se envolvendo à medida que as atividades se viabilizam.

As metodologias participativas devem partir da compreensão desse fenômeno, de que participação se conquista no processo e que a diminuição da distância entre comunidade- educadores se dá na dinâmica do trabalho conjunto, através de compromissos claramente definidos.

Esta etapa ocorre paralela à definição de como será o diagnóstico do ambiente de vida e de debates sobre algumas possíveis atividades futuras. Nesse tipo de metodologia utilizada, as fases são claras, porém se interpenetram para se alcançar maior profundidade e qualidade no vínculo formado e no conhecimento e transformações produzidas.

É ainda nesta fase de inserção comunitária que se produz uma relação de empatia, o que é essencial para a compreensão de vários elementos que só são expostos por haver um elo coeso e de confiança entre as partes.

Conhecimento Histórico

A dimensão histórica é aqui compreendida como o conhecimento da realidade, situada

em determinado contexto sócio-político-econômico, reconhecendo-se que o momento atual é fruto de uma história local, com suas múltiplas determinações e condicionantes socioeconômicos.

56

O diagnóstico sem contextualização conduz a prática à formulação de alternativas sobre

as conseqüências e não sobre as causas primárias. O trabalho educativo deve partir de uma realidade particular bem compreendida e da percepção de como esta se enquadra dentro da sociedade como um todo.

Esta fase é desenvolvida em dois eixos:

Análise de documentos existentes a respeito da história comunitária;

Análise de depoimentos de pessoas que vivenciaram a constituição da comunidade.

O depoimento pode ser entendido como uma técnica que parte de pequeno número de

perguntas abertas, objetivando maior profundidade nos assuntos abordados. Utiliza-se como instrumentos a gravação e a transcrição, e a anotação de campo.

Na gravação se considera o registro da “informação viva” vantajoso em relação ao registro escrito, pois o primeiro realça as motivações específicas que vêm do informante, modificando o eixo do pesquisador para o entrevistado. O gravador é útil ao permitir que se tenha todos os dados por mais tempo, possibilitando diversas retomadas que são essenciais para a “impregnação” do pesquisador, havendo o mínimo de distorção.

Verificamos, porém, que apesar dessas vantagens, é central a habilidade de não forçá-la em situações delicadas ou quando a pessoa não se sente à vontade. As crianças se mostram mais abertas à gravação pela curiosidade natural associada à confiança; o adulto, mesmo quando tem vínculo estabelecido, às vezes, por questões pessoais apresenta maior resistência.

Rearticulação da Teoria à Prática

Paralelamente ao desenvolvimento da fase anterior e do diagnóstico, realiza-se um levantamento teórico dos pontos mais importantes existentes no projeto.

A reflexão feita entre a revisão teórica, o conhecimento histórico e a experiência prática

acumulada, forma um corpo teórico consistente requalificado na prática.

57

Esta fase é posta como parte da metodologia, pois o constante ir e vir entre teoria e prática permite a manutenção do rigor científico, exigido pelas metodologias de pesquisa participante.

É executada em quatro eixos:

a) Revisão da literatura sobre Educação Ambiental, em todas as suas tendências;

b) Revisão de literatura sobre movimento ambientalista, para reforçar a referência histórica do contexto onde se insere a Educação Ambiental.

c) Contato com grupos que trabalham com Educação Ambiental, nos mantendo sempre informados de como a sociedade está reagindo diante da questão ambiental.

d) Participação em eventos não só de Educação Ambiental, mas que promovam a discussão sobre temas ambientais.

Diagnóstico do Ambiente

Diversos elementos desta fase serão levantados desde a inserção. Contudo, é neste momento que realizamos alguns procedimentos metodológicos para sistematizar as informações relativas à compreensão da comunidade a respeito da situação ambiental.

O diagnóstico é realizado de modo participativo, onde se promove debates, conversas e

discussões conjuntas, delimitando o que é relevante para a viabilização das atividades que são propostas. Sua estratégia é o diálogo, entrevistas, observações e atividades em grupo, para que o consenso conduza à melhor solução para uma realidade concreta. Assim, à medida que se estabelece a conversa, a troca entre indivíduos, as pessoas passam a pensar e a se sensibilizar diante do tema, criando um novo patamar de decisões coletivas.

O tratamento das informações coletadas exige a definição de categorias. Utilizamos a

técnica de análise de conteúdo, seguindo as recomendações de Minayo 33 de se tentar

33 MINAYO, M. C. S. O Desafio do Conhecimento - Metodologia de Pesquisa Social (Qualitativa) em Saúde. Rio de Janeiro, Tese de Doutorado, ENSP/FIOCRZ, 1989.

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desvendar o sentido de um texto ou depoimento, que muitas vezes não estão em primeiro plano 34 .

Convém ressaltar o uso de estratégia de retardamento de categorização, definida por Thiollent 35 , que consiste em uma técnica que evita respostas prévias às perguntas feitas. Para isso, procuramos analisar as informações dentro do contexto do indivíduo entrevistado e através de leituras sucessivas, evitando o direcionamento das respostas ou informações. Esse enfoque impede também a aceitação de que é a freqüência estatística que determina a validade e a representatividade das categorias. Com a finalidade de se evitar o direcionamento vertical de “cima para baixo”, é bom reforçarmos que as informações obtidas e sistematizadas são referenciais para o estímulo das discussões e a busca da melhor proposta e solução para os problemas observados conjuntamente.

Planejamento da Ação

O planejar a ação exige a participação de todos os envolvidos no projeto, seguindo as

orientações existentes em Educação Ambiental. Conforme foi analisado na parte do pressuposto da participação, é ilusório acreditar que todos ajudam a elaborar as ações a serem implantadas.

A superação de formas indevidas de tecnologias oriundas do processo produtivo, em uma

comunidade, só se dá pela participação e pelo respeito às diferentes culturas, conhecimentos e experiências de vida.

O planejamento é uma forma de inserção e intervenção na realidade e não sendo participativo, mas tecnocrático, conduz o processo ao controle e à supremacia dos técnicos. O planejamento participativo desenvolve a consciência crítica, produzindo o conhecimento coletivamente e fornecendo os elementos para a comunidade formular suas estratégias e prioridades para atuar em busca da transformação do contexto.

Qualquer atividade, para conseguir ser sistematizada, precisa de um grupo que represente a comunidade em seus interesses, sendo este definido no processo e não previamente.

34 O texto básico e clássico sobre análise de conteúdo é: BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa, Edições 70, 1977. 35 THILLENT, M. Crítica Metodológica, Investigação Social e Enquete Operária. São Paulo, Polis, 1987.

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Mais importante que a definição de qual atividade vai ser implementada, é o como tal

atividade é viabilizada e que tipo de efeito se espera após sua realização. Assim, por exemplo, um reflorestamento pode ser um elemento muito pouco educativo à medida que

o indivíduo não compreenda o porquê dele e o técnico não participe da vida da

comunidade. Pode ser muito educativo se fizer parte de um projeto de Educação Ambiental coerente, que ao realizar a atividade a faça com a comunidade, capacitando-a e mobilizando-a.

As estratégias planejadas podem ser agrupadas em três categorias básicas:

COMUNICAÇÃO - visam à informação educativa e a produção de conhecimentos;

TREINAMENTO E CAPACITAÇÃO - visam o desenvolvimento de habilidade para a ação e capacitação, de forma a fornecer autonomia e continuidade ao projeto;

ORGANIZAÇÃO COMUNITÁRIA - visam à mobilização e participação da comunidade, formando os grupos que se responsabilizarão pelas atividades e estabelecendo um sentido educativo consciente nas próprias organizações e manifestações sociais da comunidade.

Desenvolvimento e Avaliação

Esta fase não vem isolada no final, há momentos de realização de pequenas atividades que podem ser classificadas tanto como uma ação quanto como elemento capaz de

fornecer dados concretos sobre o grau de compreensão do assunto em pauta. Caracteriza-

se por comprovar o grau de envolvimento atingido, a transmissão e troca de informações

e a capacidade da comunidade em compreender que ter um ambiente sadio é parte integrante da cidadania e da possibilidade de cada um de nós continuarmos vivos.

O último passo é a avaliação, que na verdade deve ser permanente, permeando todas as

fases, corrigindo possíveis desvios. Esta ao final possui caráter conclusivo, traçando o ocorrido e seus resultados ao longo de todo o processo. Nesse sentido, é entendida como toda a atividade capaz de obter objetivamente informações que possibilitem a comparação dos resultados com os objetivos propostos e a construção de julgamento do programa. Com isso, espera-se fornecer dados concretos aos participantes e à sociedade,

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formular novos projetos com as devidas correções, definir necessidades e fornecer a devida cientificidade às atividades.

61

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do grau de complexidade e diversidade dos problemas existentes na atual sociedade capitalista globalizada, a Educação Ambiental se constrói e se define enquanto elemento transformador. Não o único, mas um dos eixos essenciais dentro do movimento ambientalista em suas múltiplas manifestações.

Na sociedade moderna, consolidou-se a concepção de que o ser humano tem por direito o

domínio sobre o restante da natureza. Porém, a dominação se baseia na aceitação da

superioridade e da inferioridade, o que nos faz concluir que o processo de dominação da natureza é parte do processo de dominação entre seres humanos, instituído na sociedade

de classes.

No caso do Brasil, esse quadro se agrava, pois a conquista e a exploração de nossas terras

e povo nativo foi sinônimo de colonização européia, aguçando ao longo dos séculos a espoliação por parte das classes dominantes.

Como resultado de todos os movimentos locais e mundiais contrários à dominação da e

na natureza, vem se consolidando nas últimas décadas, o que é chamado de movimento

ambientalista. Apesar da diversidade de concepções e manifestações inerentes ao mesmo,

o grande mérito deste movimento social está no questionamento do modelo econômico de produção e de inserção da humanidade na natureza.

A Educação Ambiental, elemento educativo do novo paradigma ecológico, é uma

rediscussão do ser humano na natureza, indo além dos aspectos biológicos da problemática ambiental. Está pautada nos pressupostos e definições construídos internacionalmente nas décadas de setenta e oitenta. Em todas as definições, reconhecendo-se os diferentes enfoques existentes, os princípios inseparáveis de sua prática, são: participação; unidade ecológica; interdisciplinaridade; ação voltada para a realidade de vida; aproximação entre ensino formal, não-formal e informal; caráter permanente; e caráter político-transformador.

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Sem reducionismo, afirmamos que não há como pensar Educação Ambiental sem levar em consideração estes elementos apontados ao longo do livro. Um projeto pode e deve se limitar a determinadas linhas de ação, mas sem perder o sentido integrado dos pressupostos historicamente definidos, que surgem dentro da perspectiva de mudança de padrão civilizacional da sociedade, fundamentando-se também em princípios pedagógicos avançados, tais como: ensino capacitador para a ação cotidiana e cidadã; ação contextualizada; e relação mais próxima entre professor e aluno.

A compreensão desses aspectos ainda é incipiente no Brasil, facilitando a prática

reducionista da Educação Ambiental, que mesmo com um discurso inovador tende a refletir o sistema de dominação e a visão utilitarista e romântica da natureza.

Cientes dessas questões de ordem teórica e fundamentado na experiência prática, definimos a metodologia participativa como a mais adequada para o trabalho em Educação Ambiental. A construção de um processo participativo transparente é

extremamente benéfica e aceita pelos grupos sociais, mesmo reconhecendo os conflitos

de interesse existentes.

As metodologias participativas não podem se resumir a atividades sem a devida sistematização e organização científica. É essencial a realização de fases dinâmicas e interrelacionadas, fornecendo os elementos capazes de propiciar informações e conhecimento com rigor acadêmico.

Concluímos que, de modo geral, a questão ambiental ainda não está vivenciada e compreendida pelo cidadão brasileiro, independentemente de sua classe social de origem. A tradição cultural utilitarista e dominadora está presente, mesmo em alguns discursos mais críticos de professores e atores sociais que estão em contato com novas formas de manifestações sociais e culturais. O dado de realidade é que os problemas ambientais ainda são identificados isoladamente e não como questões estruturalmente interligadas.

Todo o processo participativo é lento, as pessoas estão acostumadas a paternalismos e clientelismos, e a se manifestarem de modo individualista e imediatista. Isso é compreensível visto a história secular de opressão na sociedade brasileira. Assim, a preocupação central em um projeto de Educação Ambiental tem que ser a de estabelecer

63

um processo efetivamente educativo no ambiente em que se está atuando, contribuindo para a transformação qualitativa do cotidiano de vida dos sujeitos individuais e coletivos.

64

ANEXO: BIBLIOGRAFIA BÁSICA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL

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