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História da Filosofia Antiga - Giovanni Reale

História da Filosofia Antiga - Giovanni Reale

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GIOVANNI REALE

Rua 1822 n° 347 — Ipiranga 04216-000 São Paulo, SP

HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANTIGA
II. PLATÃO E ARISTÓTELES

Caixa Postal 42.335 — 04299-970 São Paulo, SP Te!.: (011) 6914-1922 Fax: (011) 63-4275 Home page: www.ecof.org.br/loyola e-mail: loyola@ibm.net Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quais quer meios (eletrônico, ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema

Tradução HENRIQUE CLÁUDIO DE LIMA VAZ MARCELO PERINE IIIIIIIIIIIIII/II///I/I/I//I// Ne890 Edições Loyola .—I o Título original: Storia deila filosofia africa, in cinque volumi 1° edição da obra completa: 1975-1980 90 edição: janeiro de 1992 © 1975-1980; 1991, Vita e Pensiero Largo Gemeili, 1 — 20123 Milano ISBN 88-343-2561-3 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Índices para catálogo sistemático: 1. Filosofia grega antiga: História 180.9 Edição de texto: Marcos Marcionilo EDIÇÕES LOYOLA

ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. ISBN: 85-15-00840-8 (obra completa) 85-15-00847-5 (vol. 11) 1° reimpressão: abril de 1997 Reale, Giovanni História da filosofia antiga / Giovanni Reale. São Paulo: Loyola, 1994. — (Série História da Filosofia) Obra em 5 vol. Conteúdo: v. 1. Das origens a Sócrates/ tradução Marcelo Perine. v. 2. Platão e Aristóteles/ tradução Henrique Cláudjo de Lima Vaz e Marcelo Perine. ISBN 85-15-00840 (obra completa) — ISBN 85-15-00847-5 (v. 2) Série. 1. Filosofia antiga — História L Título. II. 94-0792 CDD-l 80.9 © EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 1994 SUMÁRIO Primeira parte 1 E A DESCOBERTA DA CAUSA SUPRA-SENSÍVEL. A “SEGUNDA NAVEGAÇÀO’

Primeira seção / O grande choque entre a cultura da “escritura” e a cultura da “oralidade” e os diferentes modos de comunicação da mensagem filosófica de Platão 1. A mediação tentada por Platão entre “escritura” e “ora/ida de” e a relação estrutural entre “escrito” e “não-escrito’ 1. Por que é necessário superar o critério tradicional e adqui rir um novo critério para compreender o pensamento de Platão — 2. O juízo de Platão sobre os “escritos” no “Fedro” — 3. Os autotestemunhos contidos na “Carta VII” — 4. As linhas essenciais das “Doutrinas não-escritas” de Platão que nos che garam através da tradição indireta 5. Como se deve enten der o termo “esotérico” referido ao pensamento não-escrito de Platão — 6. Significação, alcance e finalidade dos escritos platônicos — 7. O “socorro” que a tradição indireta presta aos escritos platônicos II. Os grandes problemas que ocuparam os intérpretes de Platão e sua solução mais plausível à luz dos novos estudos 1. A questão da unidade e do sistema no pensamento de Platão — 2. A questão da ironia e sua função nos diálogos platôni cos — 3. A questão crucial da “evolução” do pensamento de Platão — 4. “Mito” e “logos” em Platão — 5 O caráter poliédrico e polivante da filosofia platônica Advertência xv 5 7 31 VI SUMÁRIO SUMÁRIO VII Segunda seção / A componente metafísico-dialética do pensamento platônico 1. A ‘segunda navegação” como passagem da investigação fi sica dos présocráricos ao plano metafisico

1. O encontro com os físicos e a verificação da inconsistência da sua doutrina — 2. O encontro com Anaxágoras e a veri ficação da insuficiência da teoria da Inteligência cósmica por ele proposta — 3. A grande metáfora da “segunda navega ção” como símbolo do acesso ao supra-sensível — 4. As duas fases da “segunda navegação”: a teoria das Idéias e a doutrina dos Princípios — 5. Os três grandes pontos focais da filosofia de Platão: teoria das Idéias, dos Princípios e do Demiurgo 11. A teoria platônica das Idéias e alguns problemas ligados a ela 1. Algumas observações sobre o termo “Idéia” e sobre o seu significado — 2. As características metafísico-ontológicas das Idéias — 3. O supremo caráter metafísico da “unidade” das Idéias — 4. O dualismo platônico como expressão da trans cendência — 5. O grande problema da relação entre o mundo das Idéias e o mundo sensível III. As “Doutrinas não-escritas” dos primeiros é supremos Prin cípios e os grandes conceitos metafisicos a eles conexos 1. Os primeiros princípios identificados com o Uno e com a Díade grande e pequeno — 2. O ser como síntese (mistura) dos dois Princípios — 3. A divisão categorial do real — 4. Nú meros ideais e estrutura numérica do real — 5. As realidades matemáticas. IV. A metafísica das Idéias à luz da protologia das “Doutri nas nãoescritas” e as alusões de Platão à doutrina dos Princípios 1. Os juros pagos por Platão na “República” em tomo ao Bem e a dívida deixada aberta 2. O “Parmênides” e a sua sig nificação — 3. A ontologia dos gêneros supremos no “Sofis ta” e a metáfora do “parricídio de Parmênides” — 4. As gran des teses metafísicas do “Filebo”: a estrutura bipolar do real, os’ quatro gêneros supremos, e a Medida suprema como Ab soluto 49 61 83 100 V. A doutrina do Demiurgo e a cosmologia 1. A posição do mundo físico no âmbito do real segundo Platão — 2. O Demiurgo e o seu papel metafísico — 3. O Princípio material do mundo sensível, seu papel metafísico e seus nexos com a Díade —4. O “Uno” como marca do agir

e do operar do Demiurgo — 5. A atividade criacionista do Demiurgo platônico entendida na dimensão helênica — 6. O Demiurgo (e não a Idéia do Bem) é o Deus de Platão. VI. A gnosiologia e a dialética 1. A anamnese, raiz e condição do conhecimento no “Mênon” — 2. Confirmações da doutrina da anamnese nos diálogos posteriores — 3. Os graus do conhecimento delineados na “República” — 4. A dialética — 5. A construção protológica da dialética fundada sobre o uno e sobre os muitos. VII. A concepção da arte e da retórica 1. A arte como afastamento do ser e do verdadeiro — 2. A retórica como mistificação do verdadeiro Terceira seção / A componente ético-religioso-ascética do pensamento platônico e seus nexos com a protologia das “Doutrinas não-escritas” 1. Importância da componente místico-religioso-ascética do platonismo II. A imortalidade da alma, os seus destinos ultraterrenos e a sua reencarnação 1. As provas da imortalidade da alma — 2. Os destinos escatológicos da alma — 3. A metempsicose III. A nova moral ascética 1. O dualismo antropológico e a significação dos paradoxos com ele conexos — 2. A sistematização e fundamentação da nova tábua de valores — 3. O anti-hedonismo platônico — 4. A purificação da alma, a virtude e o conhecimento IV. A mística de philía e eros 1. A amizade (philía) e o “Primeiro Amigo” — 2. O “amor 124 153 171

181 185 203 216 platônico” VIII SUMÁRIO SUMÁRIO Ix V. Platão profeta? VI. A componente ético-religiosa do pensamento platônico e suas relações com a protologia das “Doutrinas não-escritas” Quarta seção / A componente política do platonismo e seus nexos com a protologia das “Doutrinas não-escritas” 1. Importância e significação da componente política do platonismo 1. As afirmações da Carta VII — 2. Diferença entre a concep ção platônica e a concepção moderna da política II. A “República” ou a construção do Estado ideal 1. Perspectivas de leitura da República — 2. O Estado perfei to e o tipo de homem que a ele corresponde — 3. O sistema de comunidade de vida dos guerreiros e a educação da mulher no Estado ideal — 4. O filósofo e o Estado ideal — 5. A educação dos filósofos no Estado ideal e o “conhecimento máximo” — 6. Os Estados corrompidos e os tipos humanos que lhes correspondem — 7. O Estado, a felicidade terrena e a supra-terrena — 8. O Estado no interior do homem III. O homem de Estado, a lei escrita e as constituições 1. O problema do Político — 2. As formas possíveis de cons tituição — 3. O “justo meio” e a arte política IV. O “segundo Estado” das LEIS 1. A finalidade das Leis e sua relação com a República — 2. Alguns conceitos fundamentais das Leis V. A componente política do pensamento platônico e suas rela ções com a protologia das “Doutrinas não-escritas”

Quinta seção / Conclusões sobre o pensamento platônico 1. O “mito da caverna” como símbolo do pensamento platônico em todas as suas dimensões fundamentais II. Vértices do pensamento de Pia tão, pontos de referência na história do pensamento ocidental 223 225 235 240 275 281 285 293 Segunda parte ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Primeira seção / Relações entre Aristóteles e Platão. Prosseguimento da “segunda navegação” 1. Premissa crítica: o método histórico-genético e a moderna interpretação do pensamento aristotélico II. Tangências entre Aristóteles e Piarão: a verificação da “se gunda navegação” III. As diferenças entre Piatão e Aristóteles Segunda seção / A metafisica e as ciências teoréticas 1. A metafTsica 1. Conceito e características da metafísica — 2. As quatro causas — 3. O ser e os seus significados e o sentido da fórmula “ser enquanto ser” — 4. A tábua aristotélica dos significados do ser e a sua estrutura — 5. Especificações sobre os significados de ser — 6. A questão da substância —

7. A questão da “ousía” em geral: a forma, a matéria, o sínolo e as notas definidoras do conceito de substância — 8. A “for ma” aristotélica não é o universal — 9. O ato e a potência — 10. Demonstração da existência da substância supra-sensível — 11. Natureza do Motor Imóvel — 12. Unidade e multipli cidade do Divino — 13. Deus e o mundo II. A física 1. Caracterização da física aristotélica — 2. A mudança e o movimento — 3. O espaço e o vazio — 4. O tempo — 5. O infinito — 6. A “quintessência” e a divisão do mundo sublunar e celeste III. A psicologia 1. O conceito aristotélico de alma — 2. A tripartição da alma — 3. A alma vegetativa — 4. A alma sensitiva — 5. A alma racional IV. A matemática 315 323 329 335 374 386 399 300 Terceira seção / As ciências práticas: ética e política X SUMÁRIO 1. A ética SUMÁRIO Xl 405 1. O destino da filosofia aristotélica 495

1. Relações entre ética e política — 2. O bem supremo do II. Vértices e aporias da filosofia aristotélica 498 homem: a felicidade — 3. Dedução das “virtudes” a partir das

e Platão era um apelido. O belo — 4. quando a aristocracia tomou o poder e dois dos seus parentes. Mais ainda. num primeiro momento. Platão deve ter tido um primeiro contato direto com a vida política em 404403. rrXáro significa amplidão. O entimema. a definição — 4.) O pai orgulhava-se de contar entre os seus ancestrais o rei Crodo. O silogismo — 6. A defini ção da retórica e suas relações com a dialética. existencial. Psicologia do ato moral II. As virtudes “dianoéticas” — 6. A perfeita felicidade — 7. Os princípios da demonstração — 9. O Estado ideal Quarta seção / A fundação da lógica. desde a juventude. O Estado e suas formas possíveis — 5. A administração da família —3. Conceito de Estado —2. os termos. Conclusões sobre a Retórica III. Posteriormente os acontecimentos deram outro rumo à vida de Platão. Os três gêneros de retórica — 6. A poética 484 1. de Sócrates (o encontro de Platão com Sócrates deu-se provavelmente em tomo dos vinte anos). A MEDIAÇÃO TENTADA POR PLATÃO ENTRE “ESCRITURA” E “ORALIDADE” E A RElAÇÃO ESTRUTURAL ENTRE “ESCRiTO” E “NÃO-ESCRiTO” 1. O cidadão — 4. As proposições (o Sobre a interpretação) — 5. O quadro geral dos escritos lógicos e a gênese da lógica aristotélica — 3. justamente por aqueles nos quais confiara. por conta dos métodos facciosos e violentos que Platão viu serem postos em ação. refere-nos: Aristo. indubitavelmente. O conhecimento imediato — 8. A retórica 471 Platão nasceu em Atenas. A fundação da lógica 449 1. parti ciparam como personagens de destaque do govemo oligárquico: mas deve ter sido. porém. E certo. mas para preparar-se melhor. (Recorde-se que. os silogismos erísticos e os paralogismos — lO. largura. uma experiência amarga e decepcionante. de maneira profunda. isto é. O seu verdadeiro nome era Aristocles (nome do seu avô). A lógica e a realidade II. que incidirá. com a ética e com a política — 3. O prazer e a felicidade 9. antes chamava-se Aristocles. a inteligência e as atitudes pessoais. A amizade e a felicidade — 8. lutador proveniente de Argos. do qual recebeu o nome de Platão. Por que é necessário superar o critério tradicional e adquirir um novo critério para compreender o pensamento de Platão É hoje convicção universal que Platão’ Constitui o vértice atingido pelo pensamento antigo. Os diferentes argumentos de persuasão — 4. como diz Neanto”. em grego. através da filosofia. permanecendo no mais alto 1. Cármides e Crítias.C. O silogismo dia. A gênese platônica da retórica aristotélica — 2. na Sucessão dos filósofos. para a vida política. depois. A 6) refere-nos que Platão foi primeiro discípulo do heraclitiano Crátilo e. Conceito de lógica ou “analítica” — 2. Outros sustentam que ele tomou o nome de Platão pela amplidão do seu estilo.“partes da alma” — 4. O conceito de ciências produtivas — 2. A catarse Quinta seção / Conclusões sobre a filosofia aristotélica L ITU . na própria substância do seu pensamento. As virtudes éticas — 5. Diógenes Laércio. A tópica da retórica — 7. 1. e desse termo deriva Platão. ou porque era larga a sua fronte. como diz Alexandre. Aristóteles (Metafísica. de um parentesco com Sólon. nome do seu avô. A política 432 1. III. O silogismo científico ou demonstração — 7. visse na vida política o seu ideal: a família. Este é um dado biográfico. foi seu mestre de ginástica. melhor. portanto. 4. Era. extensão. pelo seu vigor físico. não para fazer da filosofia o escopo da própria vida. a retórica e a poética 1. a mãe. As categorias.lético. em 427 a. A mimese poética — 3. que Platão freqüentou Sócrates. com a mesma intenção da maioria dos outros jovens. o exemplo e as premissas do silogismo retórico — 5. óbvio que Platão. absolutamente essencial. tudo o movia naquela direção.

Em resumo. Dionísio 1 morrera e suce dera-lhe o filho Dionísio II. para usar uma terminologia moderna. que. Platão teria. Pistão dirigiu-se uma segunda vez à Sicília. Felizmente. em 388 a.. Em 361. muito provavelmente. Platão voltou a Atenas e aí permaneceu na direção da Academia até a morte. enquanto sabemos com certeza da viagem à Itália. no qual Platão acreditou encontrar um discípulo capaz de se tomar rei-filósofo. mais simplesmen te. Das viagens a Cirene e ao Egito não temos confirmação na Carta VII.. Os trinta e seis escritos foram subdivididos nas seguintes nove tetralogias: . a fim de com pletar a sua preparação filosófica). quando Sócrates foi condenado à morte. Mas não deve ter estado muito tempo em Megara. foi morto em 353. em tomo aos quarenta anos. em 357. de repensamentos e desenvolvimentos do pensamento de Platão. talvez. encontrou Díon. que Platão retomasse a Atenas. forçado a desembarcar em Egina. Depois. foi resgatado por Anicérides de Cirene. era melhor manter-se longe da militância política. avistar-se com os profetas [ Platão tinha decidido encontrar-se também com os magos. Platão foi para Megara com alguns outros socráticos. Platão foi convidado a ir à Sicília.C. mas as guerras da Asia o constrangeram a renunciar a isso” (III. e manteve Platão quase como um prisioneiro.Mas o desgosto com os métodos da política praticada em Atenas deve ter chegado ao cume em 399. que. como hós pedes de Euclides (provavelmente para evitar possíveis perseguições que lhe poderiam sobrevir pelo fato de ter feito parte do círculo socrático). 6-7). 19) — de vendê -lo como escravo a um embaixador espartano em Egina (mas. 338 c). o mate mático. enfim. certamente. voltou uma terceira vez à Sicília. a filosofia de Platão foi. Foi.C. com os pitagóricos Filolau e Eurito. parente do tirano. segundo Díon. (Díon conseguirá. de onde o nome Academia). A ordem que lhes foi dada (trabalho levado a termo pelo gramático Trásilo. e das sucessivas viagens. E daí ao Egito. foram buscar as mais importantes categorias metafísicas. Qual a razão fundamental de tudo isto? Em certo sentido. Platão logo entmu em conflito com o tirano e com a corte (justamente por sustentar os princípios expressos no Górgias).. Dionísio deixou. mais do que o pai poderia favorecer às intenções de PIstão. O próprio Aristóteles. mas não por muito tempo: de fato. a primeira manifestação da nova Escola. 8 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 9 âmbito do pensamento antigo. Em 367. PIstão. a Siracusa. A Academia firmou-se muito depressa e atraiu jovens e também homens ilustres em grande número. pelo tirano Dionísio 1. que a filosofia platônica constitui o mais significativo eixo de susten tação do modo de pensar dos gregos. verifica-se. tomar o poder em Siracusa. como sabemos pela Carta VII. e o Ménon é. desse modo. Os escritos de Platão chegaram-nos integralmente. tudo o que de mais significativo proveio dos gregos depende. que aí se refugiara. elevan Em 360. como veremos no quarto volume. provavelmente. 20). Mas foi um erro acreditar que OS sentimentos de Dionísio tinham mudado. naquele momento. Platão certamente esperava inculcar no tirano o ideal do rei-filósofo (que já expusera no Górgias. esperando que. Dionisio o readmitisse também em Siracusa. com efeito. [ foi a Cirene. Tendo retomado a Atenas. o desejo de conhecer a comunidade dos pitagóricos que o levou à Itália (conheceu. Ao retomar a Atenas. III. fundindo-as e unificando-as. a mais “influente” e a mais estimulante. Sem contar a influência que Platão exerceu na antigüidade tardia sobre os Padres da Igreja. E assim Platão convenceu-se de que. Platão tenha sido detido como escravo). mas estreitou forte vínculo de amizade com Díon. anterior à viagem). Dionísio irritou-se com Platão a ponto — diz Diógenes Laércio (III. direta ou indiretamente. Diógenes Laércio informa-nos: “. de maneira surpreendente. depende estruturalmente de Platão e. corrido grande risco se não fossem as intervenções de Arquita e dos habitantes de Tarento para salvá-lo. obra. Exilou Díon. juntar-se a Teodoro. que se encontrava em Egina (Diógenes Laércio. fundou a Academia (num ginásio situado no parque dedi cado ao herói Academo. empenhado em uma guerra. certamente. por mais de um milênio. depois à Itália. a fim de elaborar e exprimir racionalmente a grande mensagem espiri tual contida na fé dos cristãos. Em Siracusa. após a era helenística e durante seis sé culos. ocorrida em 347 a.) haveremos de mostrar. Durante essa viagem. o próprio Platão respondeu a esta pergunta: ele ensinounos a olhar a realidade com novos olhos (ou seja com a visão do espírito e da alma e a interpretá-la em uma nova dimensão e com um novo método que recolhe todas as instâncias postas sucessivamen te pela especulação precedente. exatamente em Platão. Arquita. que estava em guerra com Atenas. E pela condenação de Sócrates foram responsáveis os democratas (que tinham retomado o poder). Mas Dionísio II revelou-se da mesma cepa do pai. o qual o convenceu a acolher um novo e empe rihado convite de Dionisio (que queria novamente o filósofo na corte. mas iniciado antes dele) baseia-se no próprio conteúdo dos escritos. como Depois de 399. acusando-o de tramar contra ele.

no curso da exposição citaremos. hoje mostra-se infundado e errado justamente na sua premissa maior. desfazem-se inteiramente também as conclusões e. de sorte a doravante impor-se em larga medida um critério novo e alternativo. tanto Platão com as afinnações explícitas feitas sobre os seus escritos. Alcibíades II. Político. Platão diz expressamente que o filósofo não consigna por escrito as coisas de “maior valor” (T T1 3. VII. Amantes. Krãmer. Para evitar que o nosso texto se tome pesado. Para uma visão adequada. VII: J-Iípias menor. Banquete. enfim. que a paginação dos vários diálogos à qual todos 05 estudio sos se remetem é a da edição quinhentesca de Stephanus.mente. Protágoras. IV: Alcibíades 1. Laques. de modo irrefutável. Por conseguinte. isto é verdade. a) Nos autotestemunhos do Fedro. Arete bei Piaron und Aristoteles. mas. por conse guinte. sobretudo. II: Crátilo. Górgias. dois fatos importantes. República. todo o seu pensamento. e confirma largamente essa afirmação na Carta VII. Heinrich Gomperz e. A primeira questão a ser tratada é a de compreender qual foi o critério com o qual (a partir dos inícios do século XIX) Platão foi lido e interpretado e por que motivos esse critério desgastou-se grande. desfazendo-se a premissa maior. a) O texto escrito é. todo o raciocínio. particularmente com as seguintes obras: H. Fedro. em particular. geralmente. Hípias maior. 219 a. A necessidade de introduzir um novo critério e um novo modelo para ler e entender Platão (parcialmente iniciado por Robin. Fílebo. Lisis. de todos os seus escritos à nossa disposição. c) Por conseguinte. Recordemos. no caso de Platão. reproduzida à margem em todas as edições e traduções modernas. Apologia de Sócrares. a expressão mais plena e signi ficativa do pensamento do seu autor.1: Eutífron. como os seus discípulos que nos informaram da existência e dos principais conteúdos das “Doutrinas não-escritas” comprovam. Críton. e está certo somente no segundo ponto. Fédon. Cartas. VI: Eutidemo. em primeiro lugar. normalmente. VIII: Clitofonte. 4. e forneceremos uma rica e articulada bibliografia no volume V. Leis. Menexeno. só as obras às quais nos referiremos explicitamente. é necessário resol ver uma série de complexas questões preliminares. que hoje vieram ao primeiro plano. 278 d. No entanto. que convenceu por tanto tempo a imensa maioria dos estudiosos. seja como pensador seja como escritor. Podemos resumir num raciocínio muito simples o critério tradi cional. mesmo possuindo nós todos os escri tos de Platão. Zum Wesen und zur . esses dois importantes fatos que os estudos mais recentes trouxeram a plena luz e que impõem a necessidade de introduzir um critério novo e mais adequado para ler e compreender Platão 5. 2. b) Existe uma tradição indi reta que atesta a existência de “Doutrinas não-escritas” de Platão e transmite seus principais conteúdos. em conseqüência. chegaram até nós todos os escritos que os antigos citam como sendo de Platão e que são considerados autênticos (caso praticamente único para os autores da era clássica). que são justamente as que tornam um homem filósofo. por J. Fédon. Examinemos. que os escritos não são para Platão a expressão plena e a comunicação mais significativa do seu pensa mento e que. Epínomis. Este raciocínio. Jon. e a leitura e a interpretação dos diálogos devem ser levadas a cabo numa nova ótica. dotado de extraordinárias capacidades. Mênon. O IX: Minoxe. 99 c-d. V: Teages. Parmênides. Cármides. Sofista. Com efeito. Banquete. antes de enfrentar este problema. Stenzel) foi apresentada de maneira sistemática pela primeira vez pela Escola de Tübingen. desmentem o primeiro ponto. República. que perma nece até hoje plenamente confirmado. de caráter me todológico e epistemológico. é possível extrair com segurança. III. de todos esses escritos não podemos extrair todo o seu pensamento. Fedro. 10 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO ii do-se a um novo plano de pesquisa alcançado com a que ele mesmo denominou a “segunda navegação” ( rrXoüç) metáfora ver dadeiramente emblemática à qual freqüentemente aludimos no pri meiro volume e que chegou o momento de explicar. 519 b. Teeteto. Timeu. que se impõem em relação ao nosso filósofo mais do que em relação a qualquer outro dos pensadores antigos. pedimos ao leitor que a ela se remeta. Hiparco. b) Além disso.

Stuttgart 1963 (19682). hoje republicada também em K. e. K. H. Londres 1931.. Berlim 1985 (introdução e tradução de G. Gaiser. Hildesheim 1969.. Part 1: Siudies in Greek Philosophy. J. The Written and Unwritten Doctrines. Reale. Merlen. Milão 1988. Nápoles 1984. 2 vois.. C. !dee und Zahl. Milão 1988). Gadamer. nela compreendida a que remonta ao discípulos imediatos que muitas vezes ouviram Platão e com ele viveram na Academia por longo tempo. O juízo de Platão sobre os escritos no “Fedro” O modelo que constituiu o ponto de referência da maior parte dos estudos modernos sobre Platão formou-se em parte no decurso do século XVII. Recordemos. e sobre a pretensão de monopólio reivindicada a seu favor.. 2. 33-149. Milão 1987 (a primeira edição é de 1984. Gaiser. K. é a célebre La Théoríe P/atonícienne des Idées ei des Nombres d’apr Aristote. La metafisica de/la sioria in Platone. junto com esta citaremos. in AA. Vita e Pensiero. Destaque particular merecem. esses dois volumes contêm todos OS escritos de Gadamer sobre Platão). Vita e Pensiero. pp. Introdu ção e tradução de G.. Recordemos ainda que as numerosas críticas feitas (no curso do século XIX e na primeira metade do século XX) a Schleiermacher não se referiam à tese de base. N. Gaiser (org. de Stenzel. 426-431 (reimpresso em versão inglesa em Gomperz. Heidelberg 1968. Heidelberg 1959 (Amsterdam 19672). que se encontra em Platone. seja do ponto de vista do conteúdo. onde explica com a maior exatidão como os escritos devem ser entendidos de maneira limitada. porém. passim. Platons Ungeschriebene Lehre. Kiitmer. também a de Krãmer. modelo está centrada na convicção da autonomia dos escritos platôni cos.. 153-292.. Robin. é: J. in AA. três merecem particular menção: D. From Platonism to Neoplatonism. Entre OS estudiosos que contribuíram de diversos modos para uma articulação do modelo de interpretação tradicional. introdução e tradução de G.. junto com os textos gregos. Queilentexte zur Schuie und mündiichen Lehre Platons. mas foi F. todo o resto entra. Toda a bibliografia sobre o tema encontra-se em Krãmer. à qual acima nos referimos. 121-147. em particular: Platons ungeschriebene Dialekiik. Platone e i Jondamenti dei/a metafisica. Van Gorcum. pp. à luz do novo paradigma. seja do ponto de vista do método. pp. Marietti. A. Haia 1953 (19682. No entanto. Reale. essa convicção é desmentida pelo próprio Platão no Fedro e na Carta Vi!. Londres 1974. Gadamer. numerosos artigos agora recolhidos in: Kleine philosophische Schriften..). esta obra foi composta por Krãmer a nosso convite). pp. D. Para a compreensão dessa Einleitung são fundamentais as páginas de Platone. Saggio sul/a teoria dei principi e sulie doitrine non scrilte di Platone con una raccolia dei documenti fondamentali in edizione bilingue e bibliografia. Proceedings ofthe Seventh International Congress of Philosophy. G. Plato. na complexa articulação desse modelo. Szlezák. Moretto. Schleiermacher ver-se-á sobretudo a Einleitung à grandiosa série de traduções da obra de Platão (1804ss. Veja-se ainda: Th. ao menos. pp. assaz significativo) prejuízo da tradição indireta. 71 -87 e Krãmer. pela perspectiva que nos interessa.VV. Rileitura de/la metafisica dei grandi dialoghi a/la luce de//e “Dotirine non scritte”. pp. Platon und die Schrifihichkeit der Philosophie. Platone. . embora permanecendo sempre fixo o ponto da autonomia dos escritos. Platone. pela razão de que não po dem comunicar ao leitor algumas coisas essenciais. Cf. Siudien zur systematischen und geschichtlichen Begründung der Wissenschaften in der Plaionischen Schule. ainda de Gaiser. 1-32. Findlay. muitas vezes reeditado. O. G. com total (ou. de Vogel. enfim. pp. reimpressão 1975). mostram-se muito fecundas. De F. Oxford 1951(19522). ver sobretudo: Zahl und Gestalt bei Platon und Aristoteles. que a numeração das Testimonia Platonica à qual nos refe riremos é a já clássica de Gaiser. Zehn Beitrãge zum Platonverstãndnis. 119-124).. ademais: C. 358ss.. São obras a serem relidas com muita atenção. Leiden 1986. A obra de L. pp. Rethinking Plato and P!atonism. mas publicada como esboço provisório e parcial). Studi platonici.. e. os últimos ensaios sobre Platão publicados por H. Com o acréscimo: Testimonia Plaionica. Schleiermacher que o consolidou e impôs no início do século XIX A tese hermenêutica fundamental desse muito amplas): Platons philosophisches System. J. Per una nuova interpretazione di Platone. vol. pp. e agora também traduzido em italiano: H. Reale. Casale Monferrato 1983/1984 (preparado por G. Reale. Plato’s Theory of Ideas. Assen 1970.).. Milão 1982 (19872. numerosos ensaios agora recolhidos in: Philosophia. de Vogel. Philosophi cal Siudies. Recordemos que a tese de Schleiermacher cons titui um verdadeiro modelo hermenêutico só na medida em que projeta e defende de maneira sistemática a autonomia dos escritos platônicos. que na idade moderna teve grande quantidade de complexas variantes. 121-147... ao invés.VV. Ph.. Plarone come scrittorefilosofico. Ross. que traz. também a nossa tradução. 418ss.Geschichte der piatonischen Ontologie. Boston 1953. Reale. Leipzig-Berlim 1924 (Darmstadt l959 de Heinrich Gomperz é interessantíssimo o breve artigo (mas com perspectivas l2 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORAL1DADE” SEGUNDO PLATÃO 13 2. pp. HildesheimNova lorque 1976. Muito sugestivo. Studien zur platonischen Philosophíe. Paris 1908 (Hildesheim 1963). em nossa opinião. 6.

que encarnou de maneira paradigmática e num sentido global o modelo da cultura fundada sobre a “oralidade”. mais ainda. isto é. ele mesmo possuindo dotes de escritor dentre os maiores da antigüi dade e de todos os tempos. por conseguinte. Tomando posição justamente . portanto. Talvez o exemplo mais belo e significativo seja o que nos é oferecido nada menos do que por F. e isto torna-nos sensíveis à compreensão de uma situação análoga em certo sentido (embora diferente sob muitos pontos de vista) na qual Platão se encontrou e somente a partir da qual torna-se bem compreensível seu juízo sobre a escritura. d) A escritura implica uma parte notável de “jogo”. além disso. Nietzsche. e sim ao discurso oral “as coisas de maior valor”. Hoje. en quanto no passado se tentou de várias maneiras significação. Platão experi mentou o choque entre as duas culturas de modo bastante intenso e. Platão diz que o escrito possui a sua significação somente para aquele que já sabe. sob certo aspecto. captou poderosa mente as instâncias dos defensores da cultura fundada na “escritura”. de acordo com Platão. Mais ainda. gravado na alma de quem apren de. constituírem o meio que melhor se aproxima do ensinamento oral. teve como mestre Sócrates.. muito mais belo é o empenho que a oralidade dialética exige Na verdade. e embora esse jogo possa ser muito bonito em certos escritos. Com efeito. O escrito deve ser ‘um tesouro para o recurso à memória’ para quem escreve e para seus companheiros filósofos. Com efeito. Mas. e se apóia numa falsa interpretação. o discurso escrito é como uma “imagem”. um ou outro tinham compreen dido que os autotestemunhos do Fedro deveriam ser tomados muito a sério. de Schleiennacherl está em contra dição com a explicação que se encontra no Fedro. não obstante os autotestemunhos de Platão. Estamos em condições de com preender exatamente seus “autotestemunhos” contidos no Fedro. o escrito mais perfeito deve imitar a forma do ensinamento oral exatamente com o fim de fazer lembrar o modo como aquele que conhece tornou-se cognoscente. Vivemos hoje num tempo no qual ocorre o choque entre duas culturas.. uma cópia. Schleiermacher. Para a demonstração disso remetemos ao nosso Platone. Tratou-se. que constituíra o eixo de susten tação da cultura antiga. mas aumenta a aparência do saber (ou seja a opinião): além disso. para Schleiermacher o escrito deve ser o meio que é o melhor em segundo grau para conduzir aquele que não sabe ao saber. estamos em con mas às suas complexas articulações. como meio de recurso à memória. Nietzsche es crevia: “Toda a hipótese [ saber. que sustentava serem os escritos o meio para condu zir à ciência aquele que ainda não a possuía e. e os estudos mais recentes o demonstra ram em todos os pormenores. e os escritos são meios para ajudar a memória daqueles que são membros da Academia” Nietzsche tinha razão. muito bem articulado. c) Muito melhor e muito mais poderoso do que o discurso con fiado à escritura é o discurso vivo e animado. Eis o raciocínio de Platão. Ao invés. 14 PLATÂÓ E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 15 dições de entender muito melhor do que no passado o sentido que pode ter o choque entre duas diferentes culturas e de entender por que um escritor tão notável pudesse convencer-se do alcance limitado da função comunicativa da “escritura”. enquanto a comunidade dos estudiosos seguiu outro caminho.. enquanto a oralidade implica uma grande “seriedade”. não fortalece a memória. também no passado. do discurso levado a cabo na dimensão da oralidade. considerada como o medium por excelência de toda forma de saber. por meio da ciência. passim. ele é incapaz de ajudar-se e defender-se sozinho contra as críticas. A totalidade dos escritos tem uma finalidade geral própria de ensino e de educação. b) O escrito é sem alma. de outro. mas oferece apenas meios para “trazer memória” coisas já sabidas. extremo: de um lado. a passagem do Fedro afir ma sem rodeios que o filósofo só é verdadeiramente tal tão-somente e na medida em que não confia aos escritos. não é capaz de falar ativamente. A explicação da passagem do Fedro pressu põe a existência da Academia. o es crito em geral não tem uma finalidade de ensino e de educação. reduzir sua densidade hermenêutica e mudar sua contra a tese de F.Não deve surpreender-nos o fato de que o modelo do qual fala mos tenha convencido os estudiosos por largo tempo e de modo avassalador. e sim a finalidade de avivar a memória daquele que já é educado e já possui o conhecimento. que se desdobra da maneira seguinte a) a escritura não aumenta o saber dos homens. Só nos últimos decênios nasceu e se difundiu largamente um tipo diferente de cultura fundado em vários tipos de comunicação audiovisual dos mass-media que levanta grandes pro blemas quanto à função e natureza da própria comunicação. Platão viveu em um momento no qual a dimensão da “oralidade”. que se tornava predominante. de casos isolados. Portanto. porém. A idade moderna é a expressão mais típica de uma cultura globalmente tun dada sobre a escritura. mantido na dimensão da oralidade e. mas exige sempre a intervenção ativa do seu autor. perdia importância em favor da dimensão da “escritura”.

fazedor de discursos ou redator de leis? Fedro — Sem dúvida 3. no excursus contido na Carta Vil’ afirma-o de maneira mais explícita. Platone. Gesammelie Werke. p. para uma interpretação e um comentário analítico ver: Krãmer. então.TEpa) do que aquelas coisas que compôs ou escreveu. o escrito não pode ensinar e fazer com que se aprenda de maneira adequada. Platon. mas que não tem intenção de confiar aos escritos. Com efeito. em última análise coincidem. mas chamá-lo filósofo.se justamente das coisas que são capazes de “socorrer” (í3oni3eTv) os escritos em última instância e das quais unicamente depende a solidez. Trata... F. exatamente porque nele há uma gran de parte de jogo. Os autotestemuribos contidos na “Carta V De uma série de indícios convergentes que se encontram no Fedro infere-se claramente em que consistem exatamente as “coisas de maior valor” (T T0 que o filósofo não confia aos escritos... Schriften und Vorlesungen 1871-1876. ao mesmo tempo. Platone come scrittore. e) O escrito. amante da sa bedoria. Ver a minha tradução com o texto grego in Krãmer. pp. para ser conduzido segundo a regra da arte. estando em condições de demonstrar em que sentido as coisas escritas são de “menor valor” (Tt paõÀa) com respeito às coisas de “nwior valor” (T Tl que ele possui. a clareza. passando muito tempo em girá-las de um lado e de outro. Platone.. seria mais próprio e mais conveniente para ele. no sentido mais elevado.. Mas tu deves procurar Lísias e dizer-lhe que nós dois. ou seja. Reale. Musarion Ausgabe. reservando-as à oralidade. Fedro. é capaz de socorrê-las e de defendê-las quando isso é necessário. pp. 77-101. pp. a Homero e a qualquer outro que tenha composto poesia com música ou sem música.. pp. aquele que não possui nada de mais valor (Ttç. mas com um nome deri vado do objeto ao qual se aplicou seriamente”. f) Escritor e filósofo é aquele que compõe obras conhecendo a verdade e que.. Fedro — E que nome é esse que lhe dás? Sócrates Chamá-lo sábio. 7-48. Fedro — Certamente Sócrates — Já nos divertimos bastante com o que se refere aos discur sos. parece-me exagerado. a completude e a seriedade estão unidas apenas à oralidade dialética. deveria ser grandemente ingênuo e ignorar. 336-347. 89-106. 8.. Munique. o escritor deve ter bem presente que no escrito não podem existir grande solidez e clareza. Os perfeitamente o sentido de “meio hipomnemático” que Platão dava aos escritos e o alcance limitado que lhes atribuía tanto na forma como nos conteúdos: Sócrates Por conseguinte. Não obstante. 274 b-278 e. enquanto Platão no Fedro diz isto por meio de vários tipos de acenos.. cf. pois tal nome convém somente a um deus. um homem assim deve ser chama do não com o nome que têm aqueles que citamos. Eis duas passagens das mais significativas do Fedro que ilustram sinais escritos alguma coisa de claro e sólido. a Sólon e a quem quer que haja composto discursos políticos denominando-os leis: Se compôs essas obras conhecendo a verdade e está em condição de socorrê-las ( quando defende as coisas que escreveu e.LId. implica um conhecimento da verdade dialeticamente fundada e. ao falar. 36ss. 370. 16 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL •ESCRITURA” E ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 17 as coisas já sabidas. portanto. quem julgasse poder transmitir uma arte com a escritura e quem a recebesse convencido de que poderá extrair daque les . com os primeiros e su premos Princípios. Nietzsche critica tam bém outras teses de Schleiermacher. se considera que os discursos consignados por escrito são alguma coisa mais do que um meio para trazer à memória ( o de quem já sabe as coisas das quais trata o escrito.em torno aos mesmos temas dos quais os escritos tratam. tendo descido à fonte e ao santuário das Ninfas. mas justamente a crítica deste ponto demonstra a sua extraordinária e ampla compreensão do problema de fundo. na verdade. Mas... Szlezák. um conhecimento da alma daquele a quem é dirigido. a clareza e a completude do raciocínio e que. pode apenas ajudar a trazer à memória 7. ou com algum outro nome desse tipo.. o vaticínio de Amon. colando ou separando uma parte da outra. pp. Platone. possa demonstrar a de bilidade (paõÀa) do texto escrito... Fedro — E de nenhuma maneira seria fora de propósito. também Gaiser. Sócrates — Ao contrário. Níetzsche. não o chamarás com razão poeta. e muito mais válidos são os resultados que ela alcança. Pedro. A con seqüente estruturação do discurso (que deverá ser simples ou comple xo conforme a capacidade de a alma à qual é dirigido recebê-lo). ouvimos discursos que nos ordenavam dizer a Lísias e a quem quer que componha discursos.. Vierter Band: Vortrãge.

Não é conveniente escrever sobre essas coisas que são exatamente as “maiores”. seja leis de . ao contrário. Carta VII. E é justamente por meio dessa constante aplicação e comunhão de pesquisa e de vida que se alcança a verdade que se ilumina na alma e depois alimenta-se por si mesma. para um comentário ver Krãmer. enquanto aos outros homens que não têm “boa natureza” é totalmente inútil escrever sobre coisas supe riores à sua capacidade. 278 b-e.. pp. 1. Mas para os homens que têm essa natureza afim às coisas que se procuram. Platone. Platão invoca alguns argumentos gnosiológicos fundamentais. 9. mostra-se assaz prejudicial pelas reações que provocariam em numerosas pessoas que. Platão explica em que consistia a “prova” à qual submetia aqueles que se aproximavam da filosofia. que insistira com ele para que retomasse à sua corte exatamente para dele aprender a filosofia.. Fedro. 12. o texto escrito não é necessário. esclarece os péssimos resultados da “prova” aplicada ao tirano Dionísio de Siracusa... Szlezák. ao contrário. ao vermos obras escritas de alguém. pp. acreditasse que se deveriam escrever e que se poderiam comunicar de modo adequado à maioria. pelo fato de exigirem uma série de discussões feitas com perseverança e em estreita comunhão entre o que ensina e o que aprende. porque os poucos que poderiam aproveitar-se de tal escri to são capazes de encontrar a verdade por si mesmos. seja por tê-las descoberto sozinhos. 10.. c) Para fazer compreender melhor essas razões. como Dionísio tentou fazê-lo (e outros como ele) não o fez por boas razões. de uma coisa tenho certeza: se essas coisas deves sem ser escritas ou ser ditas eu o faria do melhor modo possível. que coisa de mais bela poderia eu fazer na minha vida do que escrever uma doutrina tão útil aos homens e trazer à luz aos olhos de todos a natureza das coisas? Mas. Em suma. 275 c-d. ele nasce na alma e alimenta-se de si mesmo. mas somente movido por más intenções. b) Logo em seguida. pois nem mesmo Linceu poderia comunicar a visão a homens deste tipo. a fim de certificar-se se eram ou não capazes de praticá-la de modo correto. Dionísio julgou poder redigir justamente o que diz respeito às “coisas maiores”. não entendendo aquelas coisas. Reale. as ridicu larizariam e desprezariam. quem pretendeu escrever sobre aquelas coisas mais elevadas. De qualquer maneira. que se desenvolve nos seguintes pontos: a) Em primeiro lugar. a não ser para aqueles pou cos capazes de encontrar a verdade sozinhos. 105. depois de ter ouvido apenas uma lição oral de Platão. 278 c. Piatone pp. 386-405. Platone. Fedro. alguns de um desprezo injusto e inconveniente. a maioria se perca de diversas maneiras por esses caminhos. Fedro. seja por tê-las ouvido de outros. 18 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 19 justamente aquelas com relação às quais Platão negava firmemente a conveniência e a utilidade do texto escrito. Sobre essas coisas não existe um texto escrito meu nem existirá jamais (oõxouv 1Óv yE TrEpi CZ E oúyypcxl. tendo em vista de monstrar quão complexo seja o caminho que conduz à verdade e como. que tenham enten dido algo desse objeto. Eis algumas das passagens mais significativas do excursus da Carta VII que impõem um modelo de todo peculiar para reler Platão: Posso dizer o seguinte sobre todos aqueles que escreveram ou que es creverão: todos os que afirmam saber as coisas sobre as quais medito. ou ficariam cheios de presunção pensando ter entendido o que de nenhuma maneira são capazes de entender. segundo meu parecer. 346-357.. Ora.. outros. sobre os “Princípios primeiros e supremos da realidade”.X1 y De nenhuma maneira o conhecimento dessas coisas é comunicável como o dos outros conhecimentos. enquanto os outros se encheriam. com breves indicações que lhes são dadas na comunhão de vida e de pesquisa. seja por tê-las ouvido de mim. com poucas indicações que lhes forem dadas. 05-121.autotestemunhos contidos nesse excursus são ver dadeiramente exemplares e apresentados de modo articulado. 44ss. convencidos de ter aprendido coisas magníficas’ Portanto. pp. como luz que se acende de uma faísca. todo homem sério evita escrever coisas sérias para não abandonálas à aversão e à incapacidade de compreensão dos homens. a saber. Somente os poucos que possuem uma natureza boa podem percorrer esse caminho em todos os sentidos e alcançar o conhecimento “daquilo que tem uma natureza boa”. Se. ao contrário. de uma presunção soberba e vazia. mas.. d) Em conclusão. e sentiria muito se fossem mal escritas.I O%16è l. 340 b-345 c. não creio que um tratado escrito e uma comunicação sobre esses temas seja um beneficio para os homens.113. Platon. de tudo isto deve-se concluir que. depois de muitas discussões sobre elas e depois de uma comunidade de vida. pp. Ver a minha tradução com o texto grego in KrAmer. subitamente. conseqüentemente.. não é possível.

legisladores ou escritos de outro tipo. In Ansi. aceitou apresentá-las em públi co fora da Academia ao menos numa lição ou num ciclo de lições orais. a partir do 4. Mas isto se poderia saber também de Espêusipo e de Xenócrates e dos outros que assis tiram ao curso Sobre o Bem de Platão. que ele chamava grandee-pequeno. Estas expressões tão significativas encontram-se na Carta VII.mas se resumem em poucas proposições (êv PpaxuTáTOtç). há uma certeza incontestável acerca da existência de exatas “Doutrinas não-escritas” de Platão. despertou incompreensões. Assim sendo. cujo resultado porém foi exatamente aquele que ele afirmava seria provocado pelos seus eventuais escritos sobre tais temas. na medida em que ela nos conduz ao conhe cimento das linhas essenciais das doutrinas que Platão reservou para a dimensão da “oralidade” no interior da Academia. 4). Mas quando se viu que os discursos tratavam de coisas matemáticas. ao contrário. em razão dos motivos que explicamos. para a maioria o discurso escrito sobre esses temas seria danoso. citando Alexandre de Afrodísia: Diz Alexandre: “Segundo Platão. 341 a. se consigna por escrito aqueles pensamentos que são para ele verdadeiramente os mais sérios. . Com efeito. uma Unidade. 15!. Plai. essa era a impressão experimentada pela maioria dos que assistiram à Conferência de Platão Sobre o Bem. Test. uma felicidade maravilhosa. ou seja. em geral. 453 Diels (Gaiser.. Simplício. As linhas essenciais das “Doutrinas não-escritas” de Platão que nos chegaram através da tradição indireta Todos terão compreendido a importância excepcional que a tra dição indireta assume. e portanto desprezo testemunho: e reprovação. 54 A Krãmer. A 2. a função hipomnemática (ou do trazer à memória) que é para Platão a função verdadeira e própria exercida pelo texto escri to. todos os que lá foram pensavam poder aprender algo sobre os bens considerados humanos como a riqueza. 18. Física. p. uns desprezaram a conferência. Assim.1Ef3&oÇ ta xai àXrlO ‘rí’jç 6Xr ot’ioíaç). Carta VII. como também Aristóteles lembra nos livros Sobre o Bem. 341 c-e. p. Mas como é possível jus tificar e resgatar os escritos dos seus alunos sobre essas doutrinas. os Princípios de todas as coisas e das próprias Idéias são o Uno e a Díade indeterminada. outros a censuraram Portanto.t “o falso e o verdadeiro de todo o ser” (Tà 4.. geometria e astronomia e.ç txpa xai ‘rrpc Platão não quis escrever nem desejou que algum dos seus discípulos escrevesse. 20 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 21 OS POUCOS que seriam capazes de entendê-lo seria inútil. Tcst. números. uma vez que tenham sido bem compreendidas pela alma. 2). 15. ao mesmo tempo em que recusou consignar por escrito essas suas doutrinas orais. e dizem que ele usa esses Princípios’ E ainda Simplício menciona também “Heráclides”. Carta VII. 23 B = Krãmer. 17. extremamente breves ( PpaXuTáTo pois que se reduzem a proposi ções O próprio Aristóteles diz-nos que esses ensinamentos que Platão comunicava só por meio da “oralidade” eram chamados “doutrinas não-escritas” (&ypapa Só’y .. “Estieu” e “ou tros discípulos” que escreveram o pensamento “não-escrito” de Platão. pois essas estarão depositadas na parte mais bela dele. 8 = Krãrner. 344 c-d. como nos diz esse importantíssimo Como Aristóteles Costumava contar. finalmente. “então certamente” não os deuses. para 13. 3). todos registraram por escri to e consen’aram a opinião de Piarão. In Ansi. com efeito. a força e. 341 b. “as coisas maio res” (T . seria nesse caso completamente inútil: [ não há perigo de que alguém esqueça essas coisas. Segundo a sua opinião. E Simplício refere-nos. 344 d. de sorte que quem as compreendeu grava-as na própria alma e não as esquece nunca. “as coisas mais sérias” (T oTrouSatóTaTa). Tes!. Piar. susten tavam que existe um Bem. 16. Phys. Siniplício. Platão. a saúde. 19. Sobre o que compreende o “todo” (Tà 6Àov). De fato. Carta VII. não só pelos motivos já expostos. as coisas escritas não eram para tal autor as mais sérias (oTrouBaióTaTa) sendo ele sério. por outro lado. “os Princípios supremos da realidade” (T TrEpi pÚGEC. Mas há mais. 344 d-e. Piar.. mas também pelo fato de que as verdades supre. mas os mortais “fizeram-no perder o juí zo.. 344 b. Aristóteles. penso que tudo isto pareceu com pletamente paradoxal. 209 b 11-17 (Gaiser. 14. 6-9 Diels (Gaiser. Phys..

e os opõe a tipos como Dionísio. Também Aristóteles tinha uma filosofia esotérica e uma filosofia exotérica. com a diferença.escritas” do Mestre não procuraram fazer aquilo que Platão conside rava impossível objetiva e estruturalmente. se [ as considerava tolices. Por conseguinte. mas fizeram simplesmen te aquilo que ele considerava ineficaz. Mas. ficariam fechadas para sempre e para todos. mas provavelmente para fazê-las circular só no interior do grupo dos acadêmicos. dentro da Escola (esotérico deriva de que quer dizer dentro). então estará em oposição com muitas testemunhas que sustentam o contrário e que. Carta Vil. Platão não diz que as suas “Doutrinas não-escritas” não sejam por si mesmas passíveis de serem escritas (ao contrário. “esotérico” significa o pensamento que Platão reservava somente ao círculo dos alunos no interior. e indicava genericamente uma doutrina destinada a permanecer envolta em mis terioso segredo. Tanto mais que a cultura escrita estava adquirindo uma nítida primazia e quem não tinha sido discípulo direto de Sócrates não podia sentir os efeitos do choque entre as duas culturas tais como Platão os sentiu. Como se deve entender o termo “esotérico” referido ao pensamento nãoescrito de Platão Desde algum tempo os estudiosos introduziram. como fizeram todos aqueles que Platão censura. pois. Os discípulos de Platão. portanto. e em Platão também à matéria’. 22 PLATÂO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA’ E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 23 questão. quanto à primeira vista poderia parecer. De qualquer maneira.. Mas os discípulos de Platão estavam já distantes de Sócrates o suficiente para não se sentirem indissoluvelmente presos àquelas convicções e. mas que era inútil e mesmo nocivo expô-Ias a um público inadequado e incapaz de compreendê-las. já Hegel fez justiça uma vez para sempre contra esse modo de entender o Platão “esotérico”. To lices! Pareceria quase que o filósofo possui seus pensamentos como coisas exteriores: ao contrário. Em suma. 11. Ao contrário. como uma espécie de metafilosofia para iniciados Segundo nosso parecer. diz claramente que ele mesmo poderia escrevê-las melhor). um grande serviço aos pósteros e à história. preparação e conhecimentos ade quados Ora. PIat. sem restrições ou limites. Platão mesmo nos fornece o juízo positivo mais claro e mais indubitável sobre esses discípulos. no passado. “esotérico” era entendido de modo bastante vago. Tesi. 340 b-d. numa página a nosso ver exemplar: “Uma [ dificuldade poderia nascer da distin ção que se costuma fazer entre filosofia esotérica e exotérica. o termo “esotérico”. transgredindo. a tradição indireta deve ser considerada. Aristóxeno. eiem. Com efeito. depois de duas gerações. um documento fundamental juntamente com os diá logos 5. entre os que não entenderam essas doutrinas não se pode incluir de maneira alguma seus melhores discípulos. transmitiram-nos as chaves que nos permitem abrir as portas que. Harm. como veremos. exatamente aque les dos quais chegaram até nós escritos e testemunhos sobre essa 20.momento em que Platão pronunciou uma veredicto categó rico contra todos os escritos do passado e do futuro sobre esses te mas? A resposta ao problema não é tão difícil. a idéia filosófica é algo de muito diferente. como resulta dessas suas afirmações: Pois bem. no sentido que acabamos de explicar.. porém. a maior parte dos melhores discípulos de Platão não escre veu as “Doutrinas não-escritas” para difundi-las em meio a um públi co desadaptado e inadequado. Tennemann afirma: ‘Platão valeu-se do direito de que goza todo pen sador. 344 d. não possuíam idoneidade. de que nele a distinção . a grande proibição de escrever sobre as suas “Doutrinas não-escritas”. inútil e sobretudo perigoso para a incompreensão da maioria. 34! c-e. distiguindo um Platão “esotérico” de um Platão “exotérico”. Mas há mais. apoiavam-se na convicção da supremacia da dimensão da “oralidade” sobre a da “escritura”. sobre essas coisas poderiam ser juízes de muito maior autoridade do que Dionísio Claro que os discípulos que escreveram sobre as “Doutrinas não. ela . Ele reprova sobretudo os escritos sobre as suas doutrinas orais produzidos por aqueles que.dizia respeito somente à forma. de comunicar somente a parte das suas descobertas que julgava oportuno e de comunicá-la somente àqueles que julgava capazes de acolhê-la. para julgar que podiam consignar por escrito toda a filosofia. 2!. mas enraizavam-se em convicções de caráter prevalentemente ético-educativo e pedagógico hauridas em Sócrates. para designar essas “Doutrinas não-escritas”. Prestaram. 7 = Krãmer 1). dizendo-nos que eles compreende ram bem as doutrinas em questão. 39-40 Da Rios (Gaiser. “Exotérico” significa o pensamento que Platão destinava com seus escritos também àqueles que estavam “fora” da Escola (“exotérico” deriva de E que signi fica “fora”). como o tirano Dionísio. as proibições de Platão de escrever sobre certas doutrinas não eram de caráter puramente teorético.

italiana de E. manifestou as suas concepções por alusões e com contínuas indicações. Vierte Auflage der Jubilãumsausgabe. por pouco que a matéria tratada tenha conteúdo. Gaiser. ou em ligas sectárias ou grupos de elite” Em resumo: “Esotérico” deve ser entendido no sentido de “intra. 960 b ss. caminhando pela “longa via do ser”. de modo que não há nunca o puramente exotérico nos filósofos” Ora. W.é que possui o homem. livros VI e VII. (trad. Significação. alcance e finalidade dos escritos platônicos Sobre o fundamento de tudo que acima foi dito é evidente que se impõe a necessidade de rever os escritos platônicos segundo uma nova ótica. pp. porque está entrelaçado de vários modos com o exotérico e mesmo oculto sob as alusões demasiado complexas e sob as mais variadas indicações. F. Platone.. agora in Gaiser. Filosofar para Sócrates significa examinar. II. isto é. com alguns.. falam de maneira extrínseca. todavia nos seus discursos está sempre contida a idéia. De fato. com alguns. que confronta imediatamente alma com alma e permite pôr em prática o método irônicomaiêutico. Explica Gaiser: “Chaman do [ essa teoria dos Princípios de Platão [ nas ‘Doutrinas não-escritas’} quero dizer que Platão pretendia falar dessas coisas somente no círculo restrito dos discípulos que. vol. La metafisica dei/a abria. Sauna. Hegel. 18. Ao contrário. em seus discursos exotéricos dirigidos a um vasto público fora da Escola. ainda que se exprima sobre problemas particulares de maneira em certo sentido extrínseca. mas num sentido completamente diferente. p. Quando os filósofos falam de temas filosóficos devem exprimir-se segundo as suas idéias e não 23. todavia nos seus discursos está sempre contida a idéia. Entendido nesse sentido exato. Stuttgart-Bad Cannstatt 1965. Se. in “Elenchos”. Tennemann. renunciando . mais articuladas. System der plaronischen Philosophie. o Platão das “Doutrinas não-escritas” é um Platão “esotérico”. Leipzig 1792-1795. no entanto. como qualificativo de “doutrinas professadas no interior da Academia” e reservadas aos discípulos da própria Academia. sem esperanças de encontrar atalhos. Com efeito. La teoria dei Principi in Platone. 1 (1980). po deria haver um escrito em prosa (um oúyypaiiita) que. segundo o seu parecer.). na dimensão da “oralidade”). mais complexas e também mais construtivas delineiam-se para o antigo problema “o que é e o que significa o escrito platônico” Devemos recordar. a saber que “quando os filósofos falam de temas filosóficos devem exprimir-se segundo as suas idéias e não podem guardá-las no bolso.. depois de uma longa e intensa preparação matemáticodialética. Na época moderna foi.. Leis. passim. 26. por pouco que a matéria tratada tenha conteúdo”. mas para comunicar idéias é necessário capacidade e essa permanece sempre de alguma maneira esotérica. K. Porém. 192. Hegel. curar e purificar a alma: e. XII. Cf. Codignole e O. sobretudo. W. Reale. acreditou poder realizar uma mediação válida (embora parcialmente e nos limites que assinalamos). Soluções diferentes. ao contrário. p..acadêmico”. os Princípios supremos que conferem o sentido último às coisas são na verdade acessíveis ao homem só por meio de um tiro cínio muito longo. La Nuova Italia. como veremos. o sentido peculiar da dimensão “esotérica” platônica é o mesmo que caracteriza a escolha da oralidade dialética para expri mir a doutrina dos primeiros Princípios. De outra parte. República. passim. Cf. um segredo artificioso. 24. Voriesungen über die Geschic/.. Florença. 24 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 25 podem guardá-las no bolso. o termo “esotérico” aplicado às “Doutrinas não-escritas” de Platão escapa inteiramente às criticas de 25. in: Sãmt/iche Werke. Carta VII. julgou possível seguir uma via média ou seja. I79s. 161s. Não se deve entender. eram capazes de captá-las de maneira adequada. 345 b. provar. 22. em Platão não existe nunca o puramente exotérico. ou seja. Em suma. falam de maneira extrínseca. O. 48. 27. que a forma dialógica na qual são redigidos quase todos os escritos de Platão tem sua matriz na forma do filosofar socrático. vol.te der Philosophie. e justamente a ele refere-se Hegel. na passagem que transcrevemos em seguida. Glockner. isto só pode realizar-se através do diálogo vivo (ou seja. no caso de Platão verifica-se justamente aquilo que diz Hegel. Para entregar um objeto externo não é preciso muito. em primeiro lugar.. sem a tradição indireta não poderíamos reconstruir e compreender o esotérico que há nos diálogos. tal como se encontra em conventículos de culto religioso. 6. Portanto. Se.. Platão. quem difundiu essa concepção.. pp. herausgegeben VOfl H. A via de acesso ao esotérico coincidia com o durissimo tirocínio educativo do qual falam expres samente também a República e as Leis A República fala mesmo (como veremos) de um tirocínio que dura até os cinqüenta anos.

constantes que se encontram em todos os escritos platônicos. não se podem mais esquecer). análogas às que o próprio Sócrates tinha em vista com o seu filosofar moral. Mas mesmo sobre o diálogo assim concebido pesa o juízo acima examinado proferido por Platão no Pedro. Platão se propõe finalidades protréticas. Nasce. e não mais do que isso d) Platão chega a negar ao discurso escrito a capacidade de “co municar” eficazmente as doutrinas. procurasse reproduzir o espírito socrático sem sacrificá-lo inteiramente. Platon. Algumas das mais significativas são recolhidas por Krãmer. são úteis para “rememorar” uma série de doutrinas. Para a bibliografia sobre este tema.. reproduzindo seu interrogar sem descanso. sobretudo no arco dos diálogos que vai da República (e em parte também dos diálogos precedentes) às Leis. 28 PLATÁO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL ‘ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 29 com texto grego e .. Portanto. Platorte. Mais tarde atenuam-se.28. referentes aos Princípios supremos da realidade. Em particular. educativas e morais. o escrito deveria fixar e pôr à disposição do autor e dos outros um material conceitual adquirido por outro caminho. as coisas de maior valor. mas. 30. ver o volume V. uma vez bem compreendidas. Essas alusões são muito numerosas. que nos outros escri tores degenerou em maneirismo.. No entanto. 29. para Platão. mas representam modelos de colóquios ideais. com os cortes impre vistos que impelem maieuticamente a encontrar a verdade sem nunca revelá-la inteiramente no sentido sistemático. mas solicitando a alma a encontrá-la. Apêndice II. assim. isto é. modelos de comunicação filosófica coroada de êxito ou então concluída sem êxito. de alusões que bem podem ser chamadas “alusões hipomnemáticas”. pp. 376-385. mas somente à oralidade dialética. 26 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 27 à rigidez da exposição dogmática e ao discurso de exibição dos so fistas e dos retóricos. nas quais o método doélenchos.. isto é. Essa função “rememorativa” aparece em primeiro plano a partir do momento em que os diálogos platônicos adquirem uma notável espessura doutrinal e. as verdades supremas da filo sofia. ele foi certamente o representante desse gênero literário muito superior a todos os outros e. isto é. Por conseguinte. tradução minha. mas não todas (e justamente não as mais elevadas). (sob o título: “1 rimandi degli scritti platonici ai ‘nOn scritto”). ao menos com várias alusões e sinalações. do qual Platão foi provavelmente o criador. ou seja. enfim. com todas as suspensões da dúvida. passim. c) Na exposição das doutrinas contidas nos “autotestemunhos” do Fedro e da Carta V vimos como Platão atribuía ao escrito uma exata função “hipomnemática”. reservando-a ao discurso oral.léticas magistralmente orquestradas. Cf. a prepa ração maiêutica à verdade e a discussão com fins educativos são. em discussões antes realizadas e.. a essas doutrinas supremas destinadas a permanecer nãoescritas porque não têm ne cessidade de meios rememorativos (na medida em que se resumem a “brevíssimas proposições” que. isto é. Sobre o significado desse termo e sobre a sua refer6ncia aos diálogos de Platão. os diálogos apresentam discussões dia. o diálogo socrático que vem a tomar-se mesmo um gênero literário adotado pelos discí pulos de Sócrates e depois também pelos filósofos seguintes.. válidas apenas para quem co nhecesse a doutrina conseguida mediante outro meio de comunica ção. portanto. os diálogos alcançam algumas finalidades que Platão tinha em vista como filósofo. mesmo. não as doutrinas mais elevadas. o único representante. que são os que mais se aproximam do espírito socrático. como já mostramos. não podem de nenhuma ma neira ser confiadas à escritura em nenhuma de suas formas. na dimensão antecedente da oralidade. os escritos fazem referências precisas. b) Os diálogos platônicos nunca têm por objetivo espelhar coló quios que realmente tiveram lugar. Em síntese. com as rupturas dramáticas que abrem estruturalmente perspectivas ulteriores de pesquisa: fazendo. pois somente nele se pode réconhe cer a natureza autêntica do filosofar socrático.. Mas nos diálogos da juventude elas estão certamente em primeiro plano e constituem os objetivos principais. pois. Em todo caso. 358ss. nem mesmo a dialógica. mas permanecem como uma constante. portanto. PIatone. ver Szlezák. também Reale. que acaba as sumindo claramente uma função regulativa. provavelmente com vín culos muito exatos com respeito às discussões que se desenrolavam na Academia. podemos dizer o seguinte: a) Nos primeiros diálogos. uso de uma dinâ mica especificamente socrática. o método de procura da verdade por meio da refutação do adversário.. A purificação da alma das falsas opiniões. Isto significa que. alcança algumas vezes a perfeição. Tratava-se de buscar reproduzir no escrito o discurso “socrático” imitando sua peculiaridade. pp. sem dúvida. Trata-se. Essa idealização do colóquio implica uma fixação mais exata de uma metodologia. pelos motivos que acima explicamos. Além disso lembremonos de que os escritos.

Por sua vez. significa um incre mento do seu valor. como escrito que. nas suas particularidades e em geral. Devese. . no entanto. porque os diálogos são iluminados na sua zona 30 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL -autárquico. de fato. concluir que. Platão parece encerrar o leitor. esses “socorros” encontram-se nas partes posteriores do próprio escrito. Não obstante as decididas afirmações que lemos no Fedro. constitui justamente a estrutura de sustenta ção de todos os escritos platônicos. do ponto de vista do conteúdo deve ser transcendido se se quer compreendê-lo plenamente. mas somente aos últimos diálogos. acaba por admiti-lo e mesmo por demonstrá lo. 32. o plus que nos DE NOVOS ESTUDOS é revelado pela tradição indireta se reduz a um discurso muito breve. também pp. Então. p.. as funções hipomnemáticas não seriam evidentemente pos síveis se. mais ricos de instâncias e de tensões PLATÃO E SUA SOLUÇÃO MAIS PLAUSÍVEL À LUZ DOS e voltados para horizontes mais amplos. por tanto. 328ss. e) Além disso.Todavia. “somente se cairmos na conta de que os diálogos platônicos remetem. e que a tradição indireta trouxe até nós. as pesquisas mais avançadas dos últimos anos mostraram de maneira sempre mais convincente como muitas passagens obscuras dos diálogos intermédios resultam perfeitamente compreensíveis so mente com o “socorro” das “Doutrinas não-escritas”. ou seja. 33. subentendem o quadro teorético geral das “Doutrinas não. Platon p.. Platão já possuía um quadro das “Doutrinas não-escritas” e uma concepção exata das relações entre “escritura” e “oralidade”. um discurso sempre muito breve: é como o trajeto último da subida de um cume. Platone come scrittore. 66. “os procedimentos didáticos do escritor Platão põem em movimento um processo cognoscitivo que chega a seu fim não nos escritos.escritas”. justamente através dos seus raios. que no passado ficaram sem explicações exatas ou foram explicadas somente de modo parcial ou forçado. O discurso sobre os “fundamentos últimos” que nos é transmitido pela tradição indireta é. Por conseguinte. t) Uma confirmação dessa perspectiva é dada pela contribuição recente de Szlezák que. p... tornam-se claras e perfeitamente inteligíveis sobre bases exatas objetivas e históricas. OS GRANDES PROBLEMAS QUE OCUPARAM OS INTÉRPRETES de sombra. é claro que o escrito platônico é também um instrumento de comunicação filosófica. supõem doutrinas que se encontram presentes em outros diálogos. de maneira muito 31. com efeito. ao contrário. além disso. remete muitas vezes. Kramer. na medida em que aqueles que tinham ouvido diretamente Platão nos fornecem as chaves para elas. O livro do filósofo deve ter a justificação dos seus argumentos além dele mesmo” As demonstrações analíticas fornecidas por Szlezák são particularmente notáveis porque demonstram como esse “socorro” deva realizar-se em níveis diferentes e. Em alguns níveis. a um “não-escrito” que forma como que um círculo mais amplo que engloba e delimita o círculo do escrito. O “socorro” que a tradição indireta presta aos escritos platônicos Somente a partir do início do nosso século. ou seja. a uma jus tificação de amplo alcance que não está explícita na obra escrita. Mesmo que o autor o negue expressamen te.. as partes centrais de muitos desses Diálogos. todos os diálogos mais significativos de Platão. desde a fundação da Academia. que deve ser levado ao escrito e do qual fala o Fedro. Gaiser. que sempre foram considera dos pontos essenciais de referência para poder reconstruir o seu pen samento. mas é pressuposta em todas as suas partes. em outros níveis. que é o mais breve. 46. 148. Concluindo: no âmbito do novo modelo interpretativo a perda da autarquia dos diálogos devida à valorização da tradição indireta não significa perda do seu valor. Platone. começou-se a com preender que a tradição indireta pode trazer uma série de “socorros” aos diálogos platônicos. a partir já dos escritos da juventude.. 7. Szlezák. na medida em que escreveu e no modo com que o fez. partindo justamente do exame dos diálogos e permanecendo no seu âmbito (sem entrar no mérito das “Doutrinas não-escritas” a nós transmitidas pela tradição indireta) demonstra que o “socorro” oral. mas. cf. o “socorro” que a tradição indireta traz aos diálogos pla tônicos consiste nisso: tendo presentes as “Doutrinas não-escritas” que permanecem como fundo. na verdade. Além disso. Platão filosófico como um escrito não“con cebe desde o princípio o escrito fundamentos últimos não se encontra nos diálogos e é exatamente aquele que Platão não quis consignar por escrito. podemos compreendê-los” O círculo no qual. com o escrito. mas o socorro que conduz aos LI. a função comunicativa estivesse inteiramente ausente do escrito. ficam mais claros. mas na atividade de ensinamento oral da Acade mia” Portanto. ampla.

um apanhado especulativo sinótico de cada conhecimento adquirido em todos os âmbitos possí veis do real. Essa qualificação porém. de modo particular. não quer dizer que se tratasse . Leibniz. “sistema” é uma conexão orgânica de conceitos em função de um conceito-chave (ou de alguns conceitos-chave). Os escritos platônicos nos 1. eles nos permitem recons truir as linhas essenciais e os nexos estruturais de tal sistema. 32 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 33 nhos sejam incompletos e muito sintéticos. não há dúvida de que Platão tivesse em vista apresentar um sistema capaz de abarcar o real na sua é possível resolver toda uma série de problemas. Oerhardt. a filosofia grega revelou como traço definitivo e como propriedade essencial do pensamento filosófico. Explicar significa uni-ficar. porém. J. a tradição indireta nos dá a condição de alcançar tamSeguindo a linha desse novo modelo de interpretação de Platão. mas sim naquele sentido que. pois. passim.mas. que viveu numa época na qual a plurissecular interpretação neoplatônica (que se mantivera prevalentemente sobre a base de uma leitura alegórica dos diálogos) estava já em processo de radical dissolução. 637. flOSS() Platone. referências a dimensões dife rentes. Die philosophischen Schriften. o “sistema” não tem nada a ver com rigidez sistematizante e estreitezas dogmáticas. provocações surpreendentes. seja em pormenores. é necessário determinar exatamente em que sentido se deva entender o termo “sistema” referido ao pensamento de Platão. as interpretações de tipo cético.. Gaiser insiste de maneira análoga: “Com a qualificação de ‘sistemática’ quero dizer que com esta teoria se tinha em vista e se punha por obra uma com posição completa. desde as suas origens com os pré-socráticos. não obstante esses testemu 1. não certamente de um anti-sistema de fragmentos de teorias sem conexões exatas. o mais exigente. O maior problema que ocupou os intérpretes de Platão desde a antigüidade até hoje consiste na reconstrução da unidade do pensa mento platônico e em alcançar uma visão sintética e orgânica que ordene o complexo material conceitual que os diálogos nos oferecem. mas heurística que permaneceu mesmo em alguns pontos particulares em estado de es boço e. W. mas não nos fazem alcançar o cume. ed. não dogmática. Pois bem. no qual se entrecruzam perspectivas múltiplas de gênero diverso. A inteireza e nas suas partes essenciais. preenche em boa parte essa lacuna que os diálogos apresentam e ajuda a resolver o enigma. enten dido dessa maneira. Ao invés.. I 34. portanto. na via aberta pela Escola de Ttibingen. já que essa descoberta torna obsoletas de um só golpe toda uma série de interpretações que foram dadas de Platão (e. a tradição indireta. fizemos Berlim 1887 (19782). mas apresenta-se como um projeto do eixo de sustentação principal das pesquisas.metafísico). E esse justamente.se falar. na verdade. de quanto se depreende dos testemunhos que chegaram até nós. Mas. existencialista e anti. de uma instância. ao mesmo tempo. Naturalmente. problematicista. até agora Parece-nos exato o que Kr explicou a esse respeito: “ o projeto era considerado elástico e flexível e estava aberto fundamen talmente a ampliações. Portanto. uma síntese universal. p. Com efeito. questão da unidade e do sistema no pensamento de Platão fazem subir toda a montanha. G. Não se deve entendê-lo em sentido hegeliano ou neo-idealista. na medida em que nos revela quais fossem para Platão os fundamentos supremos do real e em que nos indica os nexos que unem todas as realidades ao Princípio supremo. É exatamente iSSO que. de sistema aberto. instâncias aporéticas e problemáticas. Leibniz. E. deve-se levar certamente em conta a tendência à totalização e a um projeto geral coerente e consistente” Por sua vez. escrevia: “Se alguém reduzisse Platão a um siste ina prestaria um grande serviço ao gênero humano”. seja no conjunto. conexos e das suas implicações dos eixos de sustentação com ele ao contrário. Pode. vol. o grande enigma que é preciso resolver para se poder penetrar o pensamento platônico e para compreendê-lo profundamente. bém o cume sem solu ção. C. em função de conceitos de base que implicam um vínculo estrutural entre si e que se referem a um conceito supremo que os engloba. disfarces irônicos muitas vezes desconcertantes.

o tipo do sistema vivente.. Ver. Quereria dar um sinal da verdade escondida. 3. 34 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÂO 35 suas variantes polimorfas e policrômicas. juntamente com o diálogo socrático. Kramer. era sempre possível integrar novos conhe cimentos singulares no sistema complexivo” A tradição indireta.2. Portanto. 1 77s. “A ironia filosófica — escreve Jaspers — ao invés.. As indicações exatas que se extraem da tradição indireta . não poucos diálogos deixam de ser enigmas. p. mal entendida. Platão devia retomar também a “ironia” e introduzi-la nos seus escritos como um constitutivo essencial.dinâmico que é ‘aberto’ na medida em que procura representar a realidade sempre e somente de modo hipotético e dialético. A questão da ironia e sua função nos diálogos platônicos O que foi dito por Leibniz a propósito do problema da reconstru ção do sistema platônico. a fim de desmascarar a ignorância do presunçoso interlocutor. N. Goethe repetia-o com razão e com palavras semelhantes a respeito da ironia: “Quem soubesse explicar-nos que coisa homens como Platão disseram com seriedade. antes acolhe um constante desenvolvimento ulterior: mesmo se a concepção funda mental. certamente nos prestaria um serviço extraordinário e traria uma contribuição infinitamente valiosa à nossa cultura” Na realidade. W. ela quereria captar o verdadeiro não falando. Ao contrário. pouco a pouco vai reduzindo o seu mordente e o seu alcance na medida em que os diálogos se enriquecem com conteúdos de doutrina e na me dida em que. permaneceu sem mudança por longo tempo. 140. algumas vezes fazendo uso da lógica própria àqueles métodos Ora. Piato.. para ter uma idéia de como a questão do “sistema” é. Com a sua ironia — diz ainda Jaspers — “parece que Platão tenha querido dizer: aqueles que não podem compreender devem compreender erradamente” Pois bem. no variado jogo das simulações. 5. E justa mente esse aspecto da ironia platônica que dificulta a interpretação de certos diálogos. Uppsala 1977. No torvelinho dos fenômenos. através do torvelinho. La teoria. o momento construtivo prevalece sobre o momen to aporético. XXXII (na coleção “Deutsche National-Litteratur. pp. neles. pp.. Historischkritische Ausgabe” 113. semelhante a um núcleo de cristalização. e se pode compreender o que Platão disse de fato seriamente e por convicção. em Platão encontramos ambos estes aspectos da ironia. a ironia consistia num jogo hábil conduzido sobretudo com a máscara da ignorância em todas as 4. Em Sócrates. por exemplo.. escolástico. com um autêntico descobrimento. nos faz cair no nada. é a expressão da certeza de um conteúdo originário. O pri meiro. Sócrates chegava mesmo a fingir que acolhia idéias e métodos do adversário como se fossem dele e os levava ao extremo para poder fazer emergir facilmente os pontos débeis e refutá los. Como é sabido. o sistema platônico não exclui. o segundo tende a ampliar-se e a tornar-se sempre mais complexo. estabelecido de uma vez por todas. com a visão niilista que segue o caminho da pura negação e coincide com o ridículo que fere e aniquila.. por brincadeira ou de modo meio brincalhão... enquan to a ironia niilista é vazia. a ironia platônica nada tem a ver. revelando-nos as linhas essenciais das “Dou trinas não-escritas” e oferecendo-nos aquele plus que falta nos diálo gos. e isso vale para a ontologia no seu conjunto. Ao invés. Goethe. mas suscitando. Ela im pede toda incompreensão total imediata”. Perplexa diante da univocidade da necessidade racional e da multiplicidade dos significados que os fe nômenos possuem. em geral. e o que disseram por convicção ou então simplesmente por modo de dizer. à presença inefável da sua verdade. quereria levar. como Jaspers justa mente acentuou na sua reconstrução do pensamento platônico. porém. a ironia platônica implica a posse de algo positivo. faz-nos conhecer justamente o eixo de sustentação (o conceito supremo ou os conceitos supremos) que organiza e uni-fica de modo notável os vários conceitos apresentados pelos diálogos. Platone. 192s. Mas isso haveremos de vê-lo com amplitude mais adiante. pp. La metafisica dei/a sioria. que é um tanto acentuado nos primeiros diálogos.). Gaiser. porque o filósofo não mostra expressamente reconhe cível a ficção irônica como tal e muda de máscara sem nunca deixá la cair. Tigerstedt. o Parmênides. A ironia platônica tem um profundo valor metodológico cujas raízes estão na maiêutica socrática: o leitor dos diálogos é envolvido nas invenções e no jogo das ficções com a finalidade de obter o seu empenho total e assim fazer saltar desde dentro a centelha da verdade. de um complexo de proposições ngidamente fechado. J. Interpreting Plato. que não é expresso diretamente com o fim de evitar a incompreensão de quem não é capaz de entender. 2.. Bd. acolhendo o novo modelo interpretativo. E. enquanto a ironia vazia. até atingir sua intensidade máxima em diálo gos muito importantes como. ais Mitgerwsse einer chrístiichen Ofjenbarung in Goethes Werke. Há até hoje em cada ciência. com todas as dificuldades e com todos os pro blemas que ela traz consigo.. A ironia filosófica é pudor de toda verdade direta. 48s. Compre endido corretamente.

ao fim e ao cabo. K. 49. italiana de F. e justamente no aprofundar em todas as direções a problemática ético-política. Leipzig 1896-1897. 357s. por exemplo. dos escritos do seu tio. pp. Munique 1957. sendo precedida pelo Banquete e pelo Fédon. Nesse caso possuiríamos o melhor auxílio para o estudo do desenvolvimen to espiritual de Platão” Gomperz observa que isso não supriria a falta de um diário. A tese encontrou acolhi da excepcional. Th. Sofista. para fazer cair a máscara e para identificar de fato a mensagem filosófica platônica. Em todo caso. por um momento. sobretudo os mais breves. Daqui foi possível con cluir (com o auxílio também de critérios colaterais de vários tipos). a ironia tudo arrasta inclusive a si mesma. Griechische Denker. Milão 1973. Com uma. a interpretação pan-irônica dos diálogos platônicos à qual. para entender bem esse problema e as soluções que hoje sempre mais se impõem. volume 1.). Longanesi. seu sobrinho Espêusipo [ tivesse feito o que não exigiria mais do que um quarto de hora dos seus ócios e que o teria tornado. o que é confirmado pela temática es pecificamente socrática neles discutida. O ponto de partida foram as Leis. e seguida pelo Pedro. O Protágoras é talvez a coroa da primei ra atividade. Gomperz. Igualmente foi possível dar como certo que um grupo de diálogos representa o período de amadureci mento e de passagem da fase juvenil a uma fase de maior originali dade: o Górgias pertence verossimilmente ao período imediatamente anterior à primeira viagem à Itália. Ulteriormente foi possível estabelecer que a República pertence à fase central da produção platônica. vol. La Nuova Italia. Supo nhamos que um dos discípulos íntimos de Platão. Cf. (trad. Leis. Mas. é necessário expor com exatidão alguns dos seus traços essenciais. essa convicção se considera hoje em parte superada sobre o fundamento de tudo o que acima ficou dito sobre as relações entre “escritura” e “oralidade” em Platão. de um rico epistolário. Bandini. 8. sobre as partes enigmáticas dos diálogos (que algumas vezes alcançam objetivamente os limites do não-decifrável) e ofere cem a chave para compreender o jogo irônico. 3. ela é redimensionada segundo o modo estrutural. não se pode mais propor à luz da revalorização da tradição indireta. O conceito de “evolução” do pensamento de Platão foi introdu zido por Hermann em 1 839v. Herniann. pp. por ordem de data. dado que o pensamento de Platão é um contínuo progredir. Florença 1953 p. sobretudo. Pois bem. K. ao passo que o jogo irônico descobre afinal sua seriedade filosófica e seus fins construtivos. pp. Timeu. o luxo de um belo sonho. Crítias. Filebo. um catálogo daquele tipo poderia resolver os maiores problemas. são. que os escritos do último periodo seguem provavelmente a seguinte ordem: Teeteto. Em seguida. 6. 307-310. Primeiramente. Eis as conclusões que. Jaspers. todavia. com certeza. Die grossen Philosophen. Geschi chie und Systern der platonischen Philosophie. e a concepção da evolução do pensamento platônico tornou-se um verdadeiro e próprio cânon hermenêutico. de modo inestimável. articulando de maneira nova o modelo interpretativo proposto por Schleiermacher. inclusive pelo fato de ter recebido algumas confirmações importantes apoiadas na aplicação do método da análise estilística e da estilística lingüística e ainda com o auxílio dos refinados métodos da filologia moderna. italiana de L. F. determinação acurada das caracteristicas estilísticas dessa obra procurou-se estabelecer que escritos correspondessem a tais características. trad. e que uma cópia dessa lista tivesse chegado até nós. do ponto de vista teorético e doutrinal. Platão dedicou-se a uma problemática prevalen temente ética (ético-política). numa obra que assinalou uma inflexão essencial nos estudos platônicos. Alguns deles podem ter sido retocados no período da maturidade. o ponto de vista diretivo que diz respeito ao desenvolvimento cronológico e o que diz respeito à continuidade dos conteúdos doutrinais disputariam sempre a primazia. escritos da juventude. partindo exatamente da posição à qual Sócrates chegara. A esse período de amadurecimento pertence prova velmente também o Crátilo. ele compreendeu a necessi dade de reavaliar as instâncias da . A questão crucial da “evolução” do pensamento de Platão A propósito da questão crucial da evolução do pensamento pla tônico. além disso. que ele tivesse registrado sobre uma tabuinha a lista. III. que sabemos terem sido cer tamente o último escrito de Platão. benemérito da história da filosofia: isto é. Costa. Pensatorj greci.lançam muita luz sobre muitos diálogos e. 36 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 37 conversações. em ser inferidas dessa ordem dos diálogos e que ilustram o esque ma também por nós adotado no passado. Theodor Gomperz escrevia em fins do século XIX: “Concedamo-nos. e o Mênon ao período imediata9. Os outros diálogos. 267 s. Político. Parmênides. de notícias sobre as suas 7. 1 grandijulosofi. em todo caso. Heidelberg mente seguinte.

A esse respeito é fácil salientar uma mobilidade de limites entre escrito e não-escrito. Platão escolheu como protagonista exatamente o pitagónco Timeu. De fato. a uma substi tuição de Sócrates como protagonista. fundamentar a intuição teleológica de Anaxágoras. de superações. ou seja. b) A interpretação genética aplica. Segundo a maioria dos estudiosos (incluindo aqueles que primeiramente as tinham reavaliado). Platão pôde harmonizar a antítese entre Heráclito e Parmênides. Do alto dos horizontes alcançados com a descoberta do suprasensível. Mas a recuperação das instâncias ontocosmológicas dos físi cos deu-se de modo originalíssimo e. Deve-se notar que muitos estudiosos acreditaram poder descobrir nos diálogos posteriores à República expressões de crises. citado na nota precedente. mas somente de um conhecimento do ser e do cosmo do qual o homem é parte. como antes dissemos. adaptando. naturalmente. Lutoslawskf. apresentam um conteúdo doutrinal menor simplesmente pelo fato de que eles têm em vista fins mais limitados com relação a outros. à doutrina das Idéias. ao aspecto do Platão pensador. Com efeito. sem de nenhum modo demonstrá-lo. Londres 19052 (1 897 O mais recente trabalho sobre o tema é: H. foram decisivos os trabalhos de L. deu um outro sentido ao homem e ao seu destino. e isso com propósitos hipomnemáticos. mas até levaram. Alguns diálogos.filosofia da physis: entendeu que a justificação última da ética não pode provir da própria ética. Será oportuno recordar em grandes linhas os pontos focais dessa questão. as instâncias eleáticas tornaram-se mesmo de tal modo urgentes que não somente inspiraram todo um diálogo como o Parmênides. 38 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 39 pitagóricas (de resto. com prejuízo do siste ma. Platão. por meio de uma autêntica revolução do pensamento. esses fins à medida dos personagens. com prejuízo da unidade do pensamento platônico’°. no Sofista e no Polí tico. a) Deve-se observar em primeiro lugar que o estudo dos diálogos platônicos em chave genética pode alcançar resultados merecedores de atenção no que diz respeito ao aspecto do Platão escritor. a toda uma série de novos problemas que Platão incansavelmente tematizou e aprofundou pouco a pouco nos diálogos da maturidade e da velhice. o princípio segundo o qual Platão possuía somente o lO. de “autocorreções” de diverso gênero do pensamento platônico originário. como fica claro do que acima foi dito e como se mostrará com exatidão a partir das observações a seguir. e só em um segundo momento eram fixadas nos escritos as doutrinas (ou ao menos algumas dentre elas) estabelecidas através da discussão oral. a conspícua obra de W. porque justamente os pressupostos sobre os quais se apóia são submetidos a uma séria crítica. por exemplo. nível de doutrina e de consciência teorética que exprime nos diálogos sucessivamente escritos. por razões de natureza estrutural. Campbell e. um mais ou um menos em quantidade e qualidade de doutrinas. por outro lado. na fase da velhice. o verdadeiro protagonista será um Estrangeiro de Eléia. A descoberta do ser supra-sensível e das suas categorias desencadeou um processo de revisão de toda uma série de problemas antigos e deu origem. sobretudo no que diz respeito à dou trina central. uma série de variantes (e até mesmo bastante notáveis) nos diversos intérpretes. Studies in P(atonic Chronoiogy. Thesleff. Platão diz clara mente que o momento de elaboração oral da doutrina vinha em pri meiro lugar. Essa parábola típica que brevemente esboçamos tem. níveis diferentes de exposição doutrinal.escritas” teriam levado a termo a parábola evolutiva de Platão. ao mesmo tempo. a reconstrução genética do pensamento platônico recebe. d) Além disso. Convém notar como o problema das relações entre evolução e sistema foi resolvido de maneira diversa. Além do trabalho de l-lermann. alçaram-se ao primeiro plano as instâncias 1839. as “Doutrinas não. juntamente com todas as pretensões que ela acolhe. um outro sentido à Divindade. o es critor Platão está longe de coincidir sistemática e globalmente com o pensador Platão. resol ver muitas aporias do eleatismo. a maioria das vezes com a tendência a conferir a primazia à evolução exatamente como cânon hermenêutico. de “autocríticas”. um redimensionamento drástico. c) As finalidades diversas e os diversos objetivos que inspiram os vários diálogos impõem. Na fase da maturidade. com o passar dos anos. com a descoberta do supra-sen sível (do ser supra-físico). que produz um espaçamento notável no jogo das inferências sobre as quais se apóia o método genético. mais ainda. como acima vimos. Helsinki 1982. The Origin and Growth of Plato’s Logic. mas não. A conquista do conceito de supra-sensível deu novo sentido à psyché socrática e ao socrático “cuidado da alma”. dar ao pitagorismo um novo sentido. no Fedro. Ora. sempre presentes e ativas de muitos modos do Górgias em diante) a tal ponto que. aceitando-se o novo modelo interpretativo. na grande síntese final cosmo ontológica do Timeu. Final mente. vale dizer. viu-se impelido a escrever sempre mais e deteve-se somente diante das “coisas de maior . ou seja. sobretudo. além disso. ao cosmo e à verdade.

f) Portanto. sozinha. em certa medida. segundo o nosso parecer. tem dificuldade em alcan çar. diante das doutrinas que. a partir do Górgias até os diálogos tardios. que domina na teoria das Idéias. E uma vez comprovado que o núcleo essencial das “Doutrinas não-escritas” remonta a uma época muito anterior à que se pensava no passado. ou seja. Em suma. E essas razões são identificáveis na revalorização de algumas teses fundamentais do orfismo e da sua tendência mística e. a filosofia volta a retomar o mito do qual procurara. ao menos. ele fez uma série de referências a essas “Doutrinas nãoescritas”. não ao pensamento. elevando o espírito a uma visão ou. no momento em que a razão alcançou seus limites extremos. Mas. o discurso filosófico platônico sobre alguns temas escatológicos na maior parte dos diálogos. suscita sempre imagens sensí veis adaptadas à representação. mas. A força da “fé” que se explicita no mito Platão confia ora a tarefa de transportar e elevar o espírito humano a âmbitos e esferas de visões superiores que a razão dialética. como expressão daquela poderemos denominar fé (Platão usa no Fédon o termo esperança. a escola de Heidegger chegou a conclusões diame tralmente opostas. Ao invés. em último caso. naturalmente. Platão confia à força do mito a tarefa. o mito em Platão teria um valor (filosoficamente) negativo. Portanto. Na mito-logia dever-se-ia procurar o sentido mais autêntico do platonismo’ Entre esses dois extremos situa-se. e o da estrutura das relações entre escritura e ora/idade que. de uma abdicação parcial da filosofia das suas prer rogativas próprias. Quando Platão compu nha os diálogos. será necessário distinguir diferentes níveis da parábola evolutiva: o do Platão pensador. é constituído pelo fato de Platão revalorizar o “mito” ao lado do “logos” e. mas incapaz de explicar a vida: o mito vem em socorro justamente para explicar a vida e. Hegel escrevia: “O mito é uma forma de exposição que. de várias maneiras. de certa maneira. portanto. o mito em Platão renasce não apenas como expressão de fan tasia. sobre os fundamentos das re lações entre as duas tradições que chegaram até nós. 4. supera o logos e se faz mito-logia. em geral. levando-se em conta todas as circunstâncias acima indicadas. movia-se num horizonte de pensamento mais amplo do que aquele que ia fixando por escrito. o do Platão escritor. só encontra solução se descobrirmos as razões exatas que levaram Platão a repropor o mito. o logos. não é ainda pensamento livre. esse horizonte de pensamento. como o pensamento está nele contaminado com formas sensíveis. . de uma renúncia à coerência ou. e) Ademais. antes. As soluções extremas vieram de Hegel e da escola de Heidegger. exatamente sobre os fundamentos das relações entre a obra es crita e o ensinamento oral. Logo.lhe uma importância assaz notável. as conclusões são evidentes. pelas razões acima explicadas.valor”. torna-se uma espécie de fé acompanhada de razões: o mito procura um esclarecimento no logos. ele não pode exprimir o que o pensamento deseja exprimir. de superar intuitivamente esses limites e de coroar e completar esse esforço da razão. ora. em boa medida. Como se explica isso? Como. mas isso atesta a impotência do pensamento que ainda não sabe manter-se por si mesmo e. mos tra-se capaz de captar o ser. pois só se mistura com ele quando ainda não está de todo amadurecido. A propósito. o mito platônico pertenceria à forma exterior e à repre sentação. na medida em que é mais antiga. mas que pode conquistar mediatamente. afinal. Ela apontou no mito a expressão mais autêntica da metafísica platônica. a uma tensão transcendente. 40 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 41 g) Em todo caso. e o logos um complemento no mito. o conceito filosófico deve ser sempre separado do mito. urna gama bas tante variada de soluções intermediárias’ O problema. vale dizer. A reavaliação correta da tradição indireta permite reconstruir. do Górgias em diante. em geral. atribuir. inequívocas para os leitores e os intérpretes que não estejam indevidamente munidos de pré-conceitos tradicionais. de uma desconfiança de si? Em suma. libertar-se? Trata-se de uma involução. Quando o conceito amadurece não tem necessidade de mi tos”. Àrriç)’ que Com efeito. ao invés. segue-se evidentemente que a questão da evolução do pensamento platônico será formulada de modo inteiramente novo. ao lado dos que acabamos de examinar. pouco a pouco se estreitam. isto é. qual o sentido do mito em Platão? As respostas a esse problema foram as mais diversas. “Mito” e “logos” em Platão Outro problema de enorme alcance. no poderoso afirmar-se da componente religiosa a partir do Górgias. deve riam permanecer definitivamente “não-escritas”. O mito faz parte da pedagogia do gênero humano porque estimula e atrai a ocupar-se do conteúdo.

nesse sentido. as seguintes: com respeito ao universo fisico (que não é puro ser. Foi justamente salientado que. 1 88s. é um mito que. explica Platão. ao ser mutável não se poderá aplicar o logos. pp. Ver a bibliografia no volume V.. na sua pureza. tu. então devemos ficar satisfeitos com eles. lembrando-nos de que tanto eu que falo quanto vós que julgais temos uma natureza humana. Fédon. o risco é belo e convém com essas crenças fazer um encantamento sobre si mesmo. Hirsch. Polo e Górgias. ligada sobretudo a problemáticas escatológicas. se apresentarmos raciocínios verossímejs tanto como qual quer outro. sendo um mito que. Em suma. Mas considera bem que vós três. puramente com a razão) pu 12. Com efeito. ital. A exemplificação mais clara do que afirmamos encontra-se numa passagem do Fédon que segue imediatamente a narração de um dos mais grandiosos mitos escatológicos destino das almas no além: com que Platão procurou representar o Mas o problema é ainda mais complexo na medida em que o mito em Platão apresenta outras significações além daquela ora con siderada. não sabeis demonstrar que se deva viver uma vida diferente dessa vida que nos parece útil também do lado de lá’ Além disso deve-se notar partícularmente que o mito.é.é. desde que se concluiu que a alma é imortal. 67 b-c. é essencialmente diverso do mito pré-filo sófico que ainda não conhecia o logos. que sois os mais sábios entre todos os gregos. Berlim 1971. toda a cosmologia e toda a física são.). os raciocínios e discursos que têm por objeto a realidade sujeita à geração são verossímeis e fundados na crença. não conseguimos apresentar raciocínios exatos em tudo e por tudo coerentes com eles mesmos. mas estimula o logos e o fecunda no sentido que já explicamos. depois de muitas coisas por muitos enunciadas em torno aos Deuses e à origem do universo. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL déssemos encontrar outras melhores e mais verdadeiras. ele é cognoscível de alguma maneira. mas a opinião verdadeira ou. pode aplicar-se apenas ao ser que não muda. ao invés. em razão da própria natureza do objeto da pesquisa. não te deves maravilhar se. Mas. no sentido de “narração provável”. Algumas vezes o nosso filósofo o apresenta mesmo com uma esconjura de caráter tipicamente mágico. 6 Sócrates. não é possível ir mais além: Portanto. O logos. eis o que me parece convenha e valha a pena arriscar a quem assim pense. mas é possível fazer somente alguns raciocínios verossímeis. justamente. que é “modelo originário”. com efeito. 14. mas a sua imagem). acolhendo em tomo a essas coisas o mito (narração) provável (T6v EixóTa iOÚov). dirigindo-se a Cálicles e aos campeões da sofística hiper-racionalista: Essa estória (i. ao ser criado. pois. assim. não é pos sível fazer raciocínios veritativos em sentido absoluto. W. “mito” Mas há outros significados do mito em Platão. Com efeito. um mito que não subordina o logos a si. Hegel. mas é igualmente. como dizíamos. Nesse âmbito. enriquece o logos. E eis o ponto ao qual se deve prestar bem atenção: exatamente na medida em que o cosmo em devir é uma “imagem” do ser puro.Eis o que responde expressamente Platão às negações racionalistas do valor do mito usado nesse sentido. é por essa razão que há tempos eu me demoro nesse mito’ . Os raciocínios e os discursos que têm por objeto 05 GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÂO o ser estável e firme são também estáveis e imutáveis e captam a verdade pura. obstinar-se em pretender que essas coisas sejam exatamen te como as descrevi não convém a um homem sensato: mas afirmar que isso ou algo parecido a isso aconteça com as nossas almas ou com as suas mo radas. entre o conhecimento e as coisas das quais temos conhecimento existe uma afinidade estrutural. pp. cit. em certo sentido. 11. o mito provável. 13. não seria absurdo desprezar tais coisas se buscando (i. com isto. Um segun do e notável significado é.. 171s. o mito de além-túmulo) parecerá a ti que seja uma dessas lendas que as velhinhas contam e a desprezarás. pois. Trata-se de um mito que não somente é expressão de fé. na verdade. “ele pretende caracterizar a particular Sem dúvida. (trad. do qual Platão faz uso metódico. Cf. o de narração provável que diz respeito a todas as coisas sujeitas à geração. Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie. Platons Weg zum Mythos. é despojado pelo logos dos seus ele mentos puramente fantásticos para manter somente seus poderes alu sivos e intuitivos. convém que não avancemos além disso’ Por conseguinte. mais do que de espanto fantástico. e justamente sobre esse seu ser “imagem” funda-se o diferente alcance cognoscitivo com respeito ao modelo’ As conclusões de Platão são. ao contrário. 68 a: 114 c. a natu reza humana deve contentar-se com o “mito”.

X. na dimensão mística. c) Essas duas interpretações são as que perduraram de vá rias maneiras até os tempos modernos. ainda. p.. O iu tornase. 5. sobre esse caráter do mito cf. ao menos no que diz respeito à sua justa importância. O mito platônico na sua forma e no seu poder mais elevados é um pensar-porimagens não somente na dimensão fisico-cosmológica. os intérpretes se guiram. o que permanece Válido em vários níveis. portanto. Acreditamos que o verdadeiro Platão não se encontre em nenhu ma dessas três perspectivas tomadas separadamente como sendo a única válida. em geral. da qual já falamos. algumas cons tantes e as idéias de base em torno das quais elas giram.c. em geral. mas também as camadas emotivas da alma” Mais ainda. 44. Se quiséssemos resumir com um mínimo denominador co mum o que acabamos de explicar. Procuraremos seguir uma terceira via que avança no meio das outras duas. na medida em que pensamos não só por conceitos. como teremos ocasião de ver. 519-521. Leis. faces diversas: talvez seja justamente essa diversidade de faces que pode desvelar-lhe o pensamento. nas três direções juntamente e na dinâmica que lhes é própria. Fédon. surgiu uma terceira interpretação. Platone come scrittore.força persuasiva do discurso poéti co-mítico. ao contrário. por exemplo. dois caminhos opostos. Gaiser. algumas chaves e. mas deva encontrar-se. três dimensões ou três componen tes ou. acaba por ser essencialmente dispersivo e. que organizou sua exposição do platonismo segundo o esquema dialético triádico IdéiaNatureza-Espírito). falar por mitos (l. as três propostas de leitura iluminam três faces efetivas da poliédrica e polivalente especulação platônica.Fédon. É certo que a teoria das Idéias. a) Já a partir dos filósofos da Academia. ao con trário. O caráter poliédrico e polivalente da filosofia platônica Ao compreender e expor a filosofia platônica. Mas o primeiro método acaba por transformar-se num leito de Procusto. com o neoplatonismo. pensouse encontrar a mensagem platônica mais autêntica na temática religiosa. em lugar de resolver.. no nosso século. ao invés. b) Em seguida. 18.. Com efeito. com todas as suas implicações metafísicas. que é capaz de alcançar não somente as camadas racionais. escamoteia o problema da leitura de Platão. inspirando-se em esquemas que prevaleceram de Aristóteles em diante ou. Outros. para ser esclarecedora. na ânsia do divino e.. 19. amplo relevo. poderíamos dizer que. que apontou a essência do platonismo na temática política. todos os seus diálogos ou grande parte dos mesmos) O leitor terá compreendido a enorme importância do mito para Platão. está no centro da especulação platônica. temática transcurada no passado. pp. mas também na dimensão escatológica e mesmo metafísica. 1)4 d (ver o texto citado acima). de cada escrito ou de todos juntos. 29 b. Alguns expuseram-na de maneira sistemática. Mas é igualmente verdadeiro que Platão não é o metafísico abstrato: a metafísica das Idéias tem também um profundo sentido religioso e o próprio processo cognoscitivo é apresentado como conversão. é verdade que Platão não fixou na contemplação o estádio no qual . uma das cifras emblemáticas do espírito humano à qual Platão conferiu. no esquema hegeliano (como. Zeller. apontando na teoria das Idéias e dos Princípios supremos o fuicro do platonismo. ético-políti coeducativa.. Timeu. Ti. mas também por imagens. na medida em que obriga a amputar numerosas partes do pensamento platônico. Com efeito.neu. em particular nos diálogos da maturidade e da velhice. no fim. Ver Reale. 903 b.. acentuadas ou orientadas de diversas maneiras. preferiram expor cada diálogo separadamente. em certos casos Platão entende por mito toda espécie de exposição narrativa de temas filosóficos que não tenha puramente 17. Finalmente. lógicas e gnosiológicas. a fim de poder sistematizá-lo.1ui é um exprimir-se por ima gens. a leitura de um filósofo deve individuar algumas cifras. Platão revelou pouco a pouco. depois da descoberta de critérios que permitiram fixar uma sucessão. original e sugestiva. de fato. para o nosso filósofo. até que. começou-se a ler Platão em chave metafísica e gnosiológica. no curso dos séculos. O segundo. ainda que aproximativa. ou melhor. Cf. e com a convicção de que o pensamento platônico tenha sofrido uma profunda evolução. dos diálogos mais importantes. temas intensamente presentes na maior parte dos diálogos. ! 44 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 45 a forma dialética (e. dessa maneira. em suma. sendo o Amor que eleva à Idéia suprema apresentado como força de ascen são que conduz à contemplação mística. Platone. 29 c-d. 42 43 IS. 527 a-b. mesmo. três linhas de força que constantemente vêm à tona. tentando recuperar o “sistema” no sentido que acima foi explicado. 16. Górgias.

79 a lampridem h o aut apud Mrgarcn aut BixocosciTeni. Cf. o vértice da dimensão ético-religiosa e da dimensão políti Portanto.fz. uma vez que prescreveu ao filósofo.quo qin. Exporemos e interpretaremos segundo essas três dimensões pensamento platônico. nec ab aI cam dificre potui. Fédon. . ncdclaca: nili luítius & przclarius tuatral (cm. a protologia é o vértice unitário geral. non potle facerc es qu mibi vifa flicrini . Equidem iftiuscau. E tirada da célebre edição de H. Fedro. T6 6 [ estabeleçamos portanto E. cas pcrnas quas cd ciuicaa.nem. necdiuinum quoddarn robur habeq’ te arbicrancur: vci ccníent te Atiantem quendamillofortiorem & immo ria litace mnaacontsncntetn compcriffc lFfum vc ‘ia r & Pulchrum nibil colligare & conuncreexiflimant. 276 e.mc. na Carta V apontou expressamente no empenho político a paixão fundamental sua vida. fecundam iflain nauigauo. dessa manein unidade que dá o sentido supremo do pensamento platônico. verum Cmà dicai. forma uma quarta dimensão. SEGUNDA SEÇÃO A COMPONENTE METAFÍSICO-DIALÉTICA DO nia h tem & ofli & ncruos.o g aUEarjm gcflrrs li taquenonnulh dum qucodam aqturum gurguem ccrrz circumponunc fub caio. portanto. depois de ter visto o verdadeiro.non vcr O plimi deleâu. luc reatquc perfcrrc. falaremos amplamente da protologia “não-escrito” seja como segundo percurso e vértice da metafís seja como vértice das duas outras componentes e.piam íine quo cauCa non (it caufa. al1udcauI vocani. r está ao lado das outras em condições de igualdade. o ponto-chave. ou seja. o eixo sustentação em tomo do qual essas três dimensões se articulam p manece a protologia revelada nas “Doutrinas não-escritas”. quz nimirum fie & ta . Platão. 1.. em outro sentido. vi ubi dcmonflrcm ccba i Vc— hcmcntcr id quidcm Reprodução de grande parte da página do Fédon que contém a célebre metáfora da “segunda navegação” (o ponto fulcral do platonismo).& ‘ alieno abucences. Q auccm nec píe comperire. dent do qual é possível uma vida justa.u’.] duas espécies de seres: uma visível. qui quafi in tenebris palpantes. dando-lhe unidade estrutura.qW quomodo cófiec.“ D.nec quz rune. Q li quis dicat. ela constil (como veremos) o percurso final da metafísica. outra invisível”. qu fugiuuuin exu lémque alibi viuin tolcrare. Stephanus de 1578. iuquam. o que faz do cc plexo pensamento platônico um “sistema”. Todavia. 46 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIV empenhar-se politicamente na construção de um Estado justo. reconquistando.. portanto. e veremos como ele. co pano de fundo de todos os temas. sUam. V ha caulas appcllarc admodum et importu num. cffici volune. 61). Opunu illtusopiiuo quolibct velkm difccre. Por conseguinte. Tà èv ópaTÓV.o filósofo deve acabar seu itinerário. mas.alialTt cife caufaxn reuera : aaliud vera iUud quid. em certo sentido. Nihdominus tamen fiquis allirmarit peer hzc mc Lacete quz facio & balienui mente & incellígentia (acere. lllud ením rnmirum eft noil poffcdiftinguac atque dlkcrncre. quoquo rauoncs i d p”i isrn u candem iila 6h modo. ao mesmo te po. voltar para salvar também os outros e para 20. quam ad caulam peruefligandam exqqtlito Itudio intlicui molnut(luc íunh vilae. cuja paginação e divisão em parágrafos (indicada no centro da coluna que divide o texto grego da tradução latina) são reproduzidas em todas as edições modernas como ponto de referência (Ver o frontispício dessa edição na p. quadain pcrcnniorcm & m o PENSAMENTO PLATÔNICO Úc O j Búo T( ÓVTWV. negligenter ccrc Íupmé— que dixerit.od g.q . Consigi da à dimensão da oralidade e transmitida a nós pela tradição indire a protologia. dem in crrore mihi verlari videntur ii!. vi tUa bunc in modum con.r llftae: alii lata quandam rna&r acrem fundamencum l Eam aticem tilam vircutcm quz poculi rcs tp(as optime conftituerc. No tanto.. situa-se num plano diferente e.

O encontro com os fisicos e a verificação da inconsistência da sua doutrina Uma das passagens mais famosas e mais grandiosas que Platão nos deixou nos seus escritos é. Empédocles). Segundo nosso pare cer. J t flq oï í flty . por que são? Pois bem. W. On Phaedo 96 a-102 a and on lhe 6EÚTEPOS rrÀoOç 99 d. .1.. ou ainda. 96 a-102 a.. pp.1 (k c nd p . de um ângulo e de outro.. a “magna charta” da metafLsica ocidental. Ao se apoia rem sobre o método desse tipo de investigação. 17 (l903). examiná-la nos seus conceitos fundamentais e nos seus trechoschave. justamente destes problemas de fundo. in Classical Review”. em geral. procurando ad quirir a sabedoria que diz respeito à “investigação sobre a natureza”. PHAEbO. por exemplo. pp. a passagem central do FédonL Os estudiosos o reconheceram desde muito. Goodrich. Platão diz (pela boca de Sócrates) ter partido. As questões metafisicas mais importantes e a possibilidade da sua solução permanecem ligadas aos grandes problemas da geração.. as 50 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” 51 soluções que esses filósofos propuseram para tais questões. onde apresentamos a mais ampla e pormenorizada análise que dessa passagem foi feita até agora. Cf. a primeira descrição “de uma história espiritual apresentada através das suas várias fases. 381-484 e 18 (1904). examinando muitas vezes. O problema de fundo é o seguinte: por que as coisas nascem. sem dúvida. pois. o pensamento. pelas razões que aduziremos adiante. Por exemplo. Vamos. Anaxímenes e Diógenes de Apolônia) ou pelo fogo (como supunha. i 4fl ii ç J r4g ISLJ o 1 v. da corrupção e do ser das coisas e estão particularmente articuladas com a individuação da “causa” que está no seu fundamento. seria produzido pelo sangue (como afirmava.. destacando o fato de que ela constitui. aos fenômenos do céu e da terra. àquele tipo de investigação do qual se ocupavam os primei ros filósofos. m9c 4 v4 ot $ two . pelo ar (como pensa vam. por exemplo. vem a ser. Fédon.i *‘ e c d 4V 1U 1p*P 4 . as respostas a tais problemas acabam por ser de caráter puramente físico. quando jovem. Alcmeón). a vida nasceria em razão dos processos aos quais se submetem o calor e o frio. na literatura européia. Heráclito) ou pelo cérebro enten dido como órgão físico (como pensava. 10. . ? O. A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” COMO PASSAGEM DA I]WESTIGAÇÃO FÍSICA DOS PRÉ-SOCRÁTICOS AO PLANO METAFÍSICO o ( iqsi ) ‘6 4v II Si aer o iirTl .vQ t u A 1. 47-177. assim como a primeira [ afirmação clara da visão teleológica e ideal” De maneira ainda melhor. seria lícito afirmar que esta passagem constitui. u4 (i’ c 1. 2. aflov J ti ‘ . 5-li.. poder-se-ia dizer que ela constitui a primeira exploração e demonstração racionais da existência de uma realidade supra-sensível e transcendente. E inteiramente análogas são as respostas que os físicos dão aos vários problemas concernentes à corrupção e. çi . por que se corrompem. pp. por exemplo.011 ‘i1. Para uma pormenorizada análise remetemos aos nosso Platone. além disso. por exemplo.

mas que falhou inteiramente pelos motivos que haveremos de ver. E essa a dimensão do inteligível só alcançável com um 52 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A SEGUNDA NAVEGAÇÃo53 método diferente do método seguido pelos físicos e para o qual Platão. mas não lhe atribuiu o papel acima indicado. aponta com a grande metáfora da “segunda navegação”. da lua e dos astros. articular a Inteligência com os elementos físicos e não com o melhor] significa dizer que não se é capaz de distinguir que uma coisa é a causa verdadeira e outra é aquilo sem o qual jamais a causa poderia ser causa. tive de empreender uma segunda navegação ( uXoOç) para andar à busca da causa. já que fiquei sem ela e não me foi possível descobri-la por mim mesmo nem aprendê-la com outro. como se a terra fosse uma arca achatada.Mas os exames repetidos dos diversos tipos de resposta apresen tados para esses problemas oferecem. A “verdadeira causa”. o ar e o céu têm atualmente a melhor posição possível nem a procuram nem acreditam que haja uma força divina. em vez de atribuí-lo ao “melhor”. do perecer e do ser das coisas. O encontro com Anaxágoras e a verificação da insuficiência da teoria da Inteligência cósmica por ele proposta Antes de afrontar o novo tipo de investigação que conduz à so lução dos problemas levantados. segundo um conhecimento exato do melhor e do pior. colocando um vórtice em torno da terra. Eis as motivações. Mas. numa palavra. continuou a atribuir o papel de causa aos elementos físicos (ar. a inconsistência dos fundamentos de caráter naturalístico (sobre os quais se apóia também a opinião comum) e suas contradições. e que não se possa falar da primeira sem falar do segundo. mas não conseguiu dar a essa afirmação um fundamento ade quado e uma necessária consistência. E evidente que. o modo de agir. designa o meio como se fosse a causa. mais imortal e mais capaz de sustentar o universo. se Sócrates não possuísse os Órgãos físicos não poderia fazer as coisas que desejasse fazer. deveria ter explicado como os vá rios fenômenos sejam estruturados em função do melhor e. supõe que ela permaneça firme em razão do céu. seus movimentos e as relações entre esses movimentos. Inteligência e elementos físicos não são sufici entes para “ligar” e “manter juntas” as coisas: é necessário alcançar outra dimensão que nos conduza ao conhecimento da “causa verda deira” (Tô aÏTIOV T ôvTt). seus ossos. usando um nome que lhe não convém. seus nervos e assim por diante. mas quisesse em seguida explicar a “causa” pela qual ele se dirigiu ao cárcere e lá permaneceu. se esses elementos físicos são necessários para pro duzir a constituição do uníverso. Em resumo. de notável importância. Com todo o prazer me tornaria discípulo de quem quer que fosse para poder aprender algo sobre essa causa. enquanto outros colocam debaixo dela o ar como apoio. e não a verdadeira causa que foi a escolha do “justo” e do “melhor”. portanto. invocando os seus Órgãos locomotores. Isto implica que a “Inteligência” e o “Bem” sejam articulados estruturalmente. Platão examina a concepção da In teligência apresentada por Anaxágoras. por ele seguido. isto é. Em conseqüência alguém. os diversos fenômenos. 2. sobre o fundamento desse critério. andando a tatear como na escuridão. No entanto. toda via. Os filósofos da natureza fazem-nos compreender. a “causa verdadei ra” e não podem ser com ela confundidos. queres. água. que poderia ter fornecido uma imporiante contribuição exatamente para a solução daqueles proble mas. e assim por diante). Em particular. Anaxágoras teve razão ao afirmar que a Inteligência é a causa de tudo. nem pensam que é o bem e o laço do bem o que verdadeiramente liga e mantém todas as coisas. Afirmar a Inteligência como causa implica eo ipso afirmar o melhor (o Bem) como condição do nascer. que representa o símbolo mais grandioso do filosofar. ele agia por meio dos órgãos. feita com a Inteligência. e justamente essas proporções aumentadas mani festam a incapacidade de uma convicção desse tipo para explicar adequadamente as coisas. éter. mas pensam ter encon trado um Atlas mais poderoso. Anaxágoras deveria ter explicado o critério do melhor em função do qual a Inteligência opera. justamente porque não o permi tia o método de investigação dos naturalistas. Eis o texto exemplar: — Isto [ saber. Parece-me que a maioria. não são. Mas Anaxágoras não fez isso. Introduziu a Inteligência. exatamente aquilo ao qual a Inteligência se refere. mas não por causa dos órgãos. em pro porções aumentadas. . do sol. de sofrer a ação e de ser da terra. e. Mas aquela força pela qual a terra. ou seja. aduzidas por Platão: Afirmar que a Inteligência é causa e ordenadora de todas as coisas Em resumo: Anaxágoras cometeu o mesmo erro que cometeria quem sustentasse que Sócrates faz tudo aquilo que faz com a inteli gência. segundo Platão. que te exponha quanto trabalhei nisso? — Quero sim. a essa altura. um resultado completamente insatisfatório: aquilo que antes se sabia claramente acaba obscurecendo-se exatamente como conseqüência dessas inves tigações. porém. e muito. respondeu significa afirmar que ela dispõe todas as coisas da melhor maneira possível. a “causa real” (Tà aTTtov T ÓVTI) é a sua inteligência que opera em função do melhor. Cebes. deveria ter explicado as condições. ao sustentar a tese da Inteligência or denadora. Por conseguinte.

as causas dos sábios. retomo às coisas já tão conhecidas e a partir delas recomeço. não compreendo mais e não posso conhecer as outras causas.. 99 b-d. 54 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” captar a verdade das coisas. e assim por diante [ Considera então. por isso. As velas ao vento dos físicos eram os sentidos e as sensações. fundado sobre os sentidos. foi nessa direção que me lancei e. Talvez a comparação que fiz não seja perfeitamente exata. para ti. e tam bém para o antes e para o depois de Platão. no entanto. corresponde ao novo tipo de método. mas torna obscuro o conhecimento. Em todo caso. Concordas com essa causa? — Concordo. o qual escreve: “Reale thinks that Plato’s deureros plous is second’ and superior to the method of the phiszkoi. Ed. justamente sobre eles se funda o novo método. W. um Grande em si e por si. que leva à conquista da esfera do supra-sensível. feita com velas ao vento. por meio deles. e como os textos que apresentamos compro vam de maneira clara e indubitável. disse ele. Em geral deria àquela levada a cabo seguindo os naturalistas e o seu método. Pensei nisso e temi que também minha alma se tornasse completamente cega se olhasse as coisas com os olhos ou procu rasse tocá-las com cada um dos outros sentidos. 5. se as conseqüências que derivo dessas hipóteses são. A. feita com remos e sendo muito mais cansa tiva e exigente. a mostrar-te qual seja o tipo de causa em torno do qual apliquei meus esforços e. e assim das outras coisas. pareceu-me que deveria ficar atento para que não me acontecesse o que acontece aos que contemplam e observam o sol durante um eclipse. foi apreciada por numerosos críticos. referindo-se a Pausânias. — E. Brescia [ 1986’°]. portanto. exemplified by Anaxagoras. 32 [ p. não me canso de repetir. um Bom em si e por si. 4. O novo tipo de método deverá fundar-se sobre os logoi e. os remos da “segunda navegação” são os raciocínios e os postulados.3. La Scuola. In Odyss. p. justamente no sentido metafórico no qual Plano a usou. estabelecendo como fundamento que exista um Belo em si e por si. o meta-sensível como. consist in the scoperta dei soprasensibile e delle ldee (. as mesmas que para mim. correspon 3. cada vez.. 40). não o bastante! disse Cebes.. pois alguns estragam a vista se não contemplam a sua imagem na água ou em algo semelhante. Disponho-me. A grande metáfora da “segunda navegação” como símbolo do acesso ao supra-sensível “Segunda navegação” é uma expressão tirada da linguagem dos marinheiros. e se alguém me diz que uma coisa é bela em razão da sua . Pareceu-me então que deve ria refugiar-me nos pensamentos e neles considerar a verdade das coisas. todo o Fédon confirma. as “hipóteses” das quais fala este texto são exatamente as que as Idéias introduzem e. não escla rece. mas digo as mesmas coisas que em outras ocasiões e também no raciocínio pre cedente. deverá procurar foi bem compreendida. considero verdadeiro o que concorda com ela. pois que não admito que quem considera as coisas nos pensamentos as considere em ima gens mais do que aquele que as considera nas experiências.. Essa belíssima imagem da segunda navegação (ãtúi. se há algu tna coisa de belo além do belo em si. Eis esse novo método: Sócrates então disse: “Depois disso. Goodrich. disse-lhe. tomando como hipótese a idéia que considero a mais sólida. com a única exceção (até agora) de A. 100 a)” ( Classical Review”. — Por Zeus. pp. Nor does it. passirn. 147-167 (ver também a nossa precedente tradução com comentário do Fédon. disse Sócrates. CR 17 [ 383).. com isso não digo nada de novo. 1453. — Sendo assim. que. como estivesse cansado de investi gar as coisas dessa maneira. justamente a frase que cita. Que o leitor veja as análises que apresentamos em Plarone. 99 d-lOOa. diz o que eu digo: de fato. com efeito. Long.i-rXoóç). explica: “Chama-se ‘segunda navega ção’ aquela que se leva adiante com remos quando se fica sem ven tos” A “primeira navegação”. Mas Long está errado porque. as such. but that cannot be right (cf. as sumimos como chave de leitura para a interpretação do pensamento de Platão. torna-se muito clara a mensagem de Platão: o tipo de método dos naturalistas. por nenhuma outra razão é belo senão porque participa do belo em si.) but in ínTo*ípsvoç i?CáQTOTE Àóyot ão &%/ )Cp(V(J ippCJpEVíoTaTou eival (Phd. Eustáquio. de resto. ram o com relação às causas como com relação a tudo mais: e o que não concorda julgo que não é verdadeiro” Desta maneira.. e a sua significação parece ser fornecida por Eustáquio que. a “segunda navegação”. J. Eis em que consiste essa “verdade das coisas”: — [ Quero explicar-te mais claramente as coisas que digo porque creio que ainda não me compreendes. Fédon. Parece-me que. Fédon.

Não te parece também a ti? Parece-me. que devem participar dessa Dualidade as coisas que querem tornar-se duas. — Portanto. que é pequena. figura e coisas semelhan tes). se alguém afirma que um é maior do que outro pela cabeça e que o menor é menor pela mesma razão. responderás da maneira como foi explicado 4. mas lhe dirias francamente que não admites que uma coisa seja maior do que outra por nenhuma outra razão senão em razão da Grandeza e é justamente a Grandeza que faz com que ela seja maior. Isso me parece o que de mais sólido posso responder a mim mesmo e a outro qualquer. que dez seja mais do que oito se explicará não em razão do dois. E não temerias também. a participação à Dualidade. no nosso caso. Tenho para mim. temendo como se costuma dizer. assim. As duas fases da “segunda navegação”: a teoria das Idéias e a doutrina dos Princípios O benefício da “segunda navegação”. — E não te parece. Com efeito. também. eu as cumprimento e as deixo partir. apoiando-te na solidez dessa hipótese. como acabamos de ler na longa passagem citada. que nenhuma outra razão faz bela tal coisa a não ser a presença daquele Belo em si ou a comunhão com ele ou qualquer outra nwneira de se estabelecer essa relação. — E então? Acaso não evitarias dizer que. essas somas e todas as outras invenções engenhosas. e. sobre o modo dessa relação não é hora de insistir. Portanto. 100 a-I0I d. não poderíeis admiti-lo. somando o um ao uni ou então dividindo o um. pois seria algo prodigioso que algo fosse grande em razão de alguma coisa que é pequena. mas em função da Grandeza-em-si e da Pequenez-em si. Fédon. mas em função da Beleza-em-si. que todas as coisas grandes sejam grandes em razão da Grandeza.cor viva. O que se ganha com o postular a existência dessas rea lidados é a explicação de todas as coisas exatamente em função de tais realidades. a tua própria sombra e a tua inexperiência. 56 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSíVEL A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” 57 redução do sensível ao nível de meio e de instrumento mediante os quais a “causa verdadeira” se realiza. Acaso não temerias essas objeções? — Eu sim. a soma ou a divisão sejam a causa que faz com que o um se tome dois? E não exclamarias em alta voz que não conheces outra maneira pela qual alguma coisa possa vir à existência senão participando da essência própria da realidade da qual aquela coisa participa e. se dissesses que alguém é maior ou menor em razão da cabeça. mas afirmo simplesmente que todas as coisas belas são belas em razão da Beleza. A primeira fase da “segunda navegação” consiste em tomar por base o postulado mais sólido que consiste em admitir as realidades inteligíveis como “causas verdadeiras” e. mas pela Pluralidade. mas por meio da participação à Dualidade e à Unidade. deixando que as usem nas suas respos tas aqueles que são mais sábios do que tu. não te fosse objetado que é impossível que o maior seja maior e o menor seja menor pela mesma razão e que é também impossível que pela cabeça. Tu porém. acrescentou Sócrates. Saudarás e mandarás embora essas divisões. afirmar que dez é maior do que oito em razão do dois e por essa causa supera o oito. além disso. e que o menor por nenhuma outra razão é menor senão em razão da Pequenez e é justamente a Pequenez que 55 faz com que e/e seja menor. respondeu ele. as coisas belas se explicarão não pelos elementos físicos (cor. considerar como verdadeiras as coisas que estão de acordo com esse postulado e como não-verdadeiras aquelas que não estão de acordo com ele (e em rejeitar pois todas as realidades físicas que erradamente são tidas como “causas verdadeiras”). as coisas pequenas e grandes não se explicarão por algumas partes das próprias coisas físicas que se comparam. a saber. o maior seja maior. e que as maiores sejam maiores igualmente em razão da Grandeza e as menores sejam menores em razão da Pequenez? — Sim. Isso dirias com temor de que. com singeleza. — Sem dúvida. não tens outra causa para explicar a gênese do dois a não ser essa. e a exclusão de que o sensível e o físico possam ser considerados no nível da “causa verdadeira” e. . que consiste nas realidades puramente inteligíveis. como vimos. e os modos com os quais se obtém o dois e o um se explicarão não por meio das operações físicas de “soma” e “divisão”. sem artifício e talvez ingenua mente. é a descober ta de um novo tipo de “causa”. e da Unidade tudo o que quer ser um. e não pela Pluralidade e em razão da Pluralidade? E que dois côvados é maior que um côvado em razão da outra metade e não em razão da Grandeza? Pois esse temor é o mesmo de antes. a 6. em conseqüência. disse Cebes sorrindo. pois em todas elas acabo me confundindo. ou por causa da sua figura ou por qualquer coisa dessas.

usa justamente o termo “Princípio” ( na única maneira alusiva que lhe permitia a sua opção de não consig nar por escrito tal doutrina. ou seja. juntamente. apenas os Princípios supremos podem ser tais que. disse Símias.] Se alguém. na passagem imediatamente seguinte à que acaba de ser citada. justamente com o aceno positivo que alude ao Uno na nova dimen são. 101 d-e. reexaminados com maior exatidão. mesmo que vos pareçam dignos de fé. Platão colo cava justamente os Princípios primeiros e supremos. Mas é o próprio Platão que. é o chamado à protologia que Platão faz no texto subseqüente. como acredito que o fareis. dentro de mim. aquele que te parece o melhor entre os que são os mais elevados. 101 e-102 a. não farás confusão como fazem aqueles que díscutem os prós e os contras de todas as coisas e que. 107 a-b. 5. no nosso texto. se és um filósofo. para verificares se concordam ou não entre si. mas. no entanto. postulado ( ulterior. devem ser. viesses a dar razão do próprio postulado. é necessário buscar um postu lado ainda mais elevado e é necessário proceder dessa maneira até que se obtenha o postulado adequado. pela amplitude do argumento sobre o qual discutimos e pelo pouco apreço que nutro pela fraqueza humana. Platão indica exatamente qual seja o pla no que. ou seja. se és filósofo. respon deu Sócrates. pois. E se os aprofundardes suficientemente (ixavôç). justamente por ser tal. e quando. no entanto. Fédon. Que fazer se alguém atacar o próprio postulado sobre o qual se apóia a teoria das Idéias? Antes de responder. Mas. como haveremos de ver. ele quis manter na dimensão da oralidade. deverão ser examinadas todas as conseqüências que derivam do postulado. Fédon. eu também não tenho motivo de não acre ditar.. acredito que farás o que te digo . 58 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” 59 Nas passagens citadas. 9. em virtude da sua opção ético-pedagógico-moral. o ponto focal das E como se não bastasse. e enfatiza particularmente os três pontos focais da metafísica e de todo o Muito mais forte. ísto é. Fédon. com um chamado àquele que será. — Não somente dizes bem. 7. um pouco de desconfi ança com relação às coisas que foram ditas. não é necessário buscar nada mais alto. não consigna nos seus escritos. depois de ter falado do “Prin cípio” e de como deva ser tratado. E se isso se vos tornar claro. deverias estabelecendo um fazê-lo procedendo da mesma maneira. as “coisas de maior valor” que o filósofo. eles não falam e não se dão cuidado do princípio porque. antes de refutar as objeções.. a fim de verificar se concordam ou não entre si. A penúltima das passagens lidas acima. que se apóia justamente sobre o postulado das Idéias. mas apenas à ora/idade as coisas de maior valor.Nesse ponto termina a primeira fase da “segunda navegação”. E. deves deixar que fale e não responderás até que não tenhas considerado todas as conseqüências que derivam do postulado. 8. podereis compreendê-los tanto quanto é possível a um homem. vejo-me obrigado a conservar ainda. acima das Idéias. E também os postulados ( que estabelecemos por primeiro. dos Princípios e do Demiurgo A passagem central do Fédon que resumimos e interpretamos apresenta verdadeiramente o projeto que engloba todo o quadro da metafísica platônica. dando ao discurso uma signifi cação muito geral e. põem em discussão o princípio (àpxt’i) e as conseqüências que derivam dele! De fato. ou seja. acredito que farás o que digo”. nada mais deveis investigar Evidentemente. embora misturando juntamente todas as coisas. conclui reiterando de modo impressionante o seguinte: — Na verdade. Os três grandes pontos focais da filosofia de Platão: teoria das Idéias. muito indicativa: Se queres descobrir alguma coisa dos seres. e assim procedendo até que chegues a algo suficiente ( rt ixavàv) A tradição indireta refere-nos que. isto é. ou seja a doutrina dos Princípios primeiros e supremos à qual aqui se remete. a fim de justificar o postulado. todo o procedimento argumentativo do diálogo. quisesse ficar preso ao mesmo postulado. ao mesmo tempo. capazes de agradar a si mesmos. uma vez alcançados. o exato postulado que não tem mais necessidade de nenhum outro: {. mas fazes bem em dizê-lo. são. “Doutrinas não-escritas”. no entanto. dizendo de maneira indubitavelmen te emblemática: “Mas. E o filósofo (como vimos no Pedro) é aquele que confia não ao escrito. conclui justamente com a explicitação do termo “filósofo”. depois disso. com a sua sabedoria. fundando-me naquilo que foi dito. ó Símias. ou seja.

afronte o risco das oposições e das censuras. que todas as coisas no seu conjunto e o que é chamado o todo sejam regidos em virtude do irracional. do casual e do fortuito ou. disto Platão advertiu os leitores da sua obra da maneira mais explícita. Concordo contigo.135 b. ó Parmênides. eis o que é digno do espetáculo do cosmo. do Demiurgo. mesmo se necessariamente existissem. que são governados por uma Inteligência e por uma admirável sabedoria ordenadora? Protarco — Não é a mesma coisa. Esses três pontos focais são. a teoria dos Princípios é lembrada com alusões numerosas. E deveria ser um homem de excelene natureza aquele que fosse capaz de compreender que. para a maioria dos homens. Sempre houve (e. por conseguinte. e esses poucos compreendem-na sobretudo na dimensão da oralidade dialética. Mas a compreensão desses três pontos focais e. ó maravilhoso Sócrates. Mas afirmar. O homem capaz de entendê-las e de comunicá-las aos outros deve possuir uma natureza verdadeiramente excepcional. Platão manifestou convic ções que pressupõe a ambos. primeiro e supremo Princípio. ao contrário. mas. questão com a qual o homem sempre lutou. portanto. juntamente com eles. de cada coisa existe um gênero e uma essência em si e por si.pensamento de Platão. ele escreveu que a maioria encontra muitas dificuldades para compreendê-la e. disse Parmênides. mas. b) a teoria dos primei ros Princípios e c) a doutrina do Demiurgo. Para esses poucos que compreendem o escrito seria inútil e. mas porque. sustenta que elas não existem e. li. do sol. as Idéias implicam necessa É muito dijícil encontrar o Artífice e Paí deste universo e é impossível falar a todos acerca dele’ É impossível falar dele a todos não pelas razões esotéricas que valem para a teoria dos Princípios e que já conhecemos. de modo que. por isso. seria também necessário que fossem incognoscíveis à natureza humana. com a indicação do modo no qual é fundada (diferentemente do que fez Anaxágoras). mas permanecem em desordem? Protarco — E como não haveria de querer? Na nossa exposição iremos pela seguinte ordem: primeiro falare mos das Idéias. disse Sócrates. deveria ser um homem ainda mais maravilhoso aquele que fosse capaz de ensinar essas coisas. a doutrina do Demiurgo é expressa amplamente por meio da questão da Inteli gência que ordena e governa o cosmo. o que acabas de dizer não me parece coisa santa. provavelmente sempre haverá) o “ter rível” homem de turno (o cientista de turno) que nega uma Inteligên cia divina ordenadora do Universo. que concordemos com os nossos prede cessores em dizer que assim estão as coisas e que não apenas estamos con vencidos de que se deva repetir sem perigo os ditos dos outros. em razão das incompreensões e conseqüências que isso im plica. b) Já sabemos o que Platão pensava acerca da teoria dos Princí pios: apenas poucos a compreendem. 134 e. se existem. danoso. que uma Inteligência ordena todas as coisas. 12. Eis as palavras que Platão pôs nos lábios de Parmênídes. Protarco. seria extraordinariamente difícil convencê-lo. 28 c. são incompreensíveis à natureza humana. Eis o que Platão diz no Fi/ebo: Sócrates — Devemos afirmar. quem isso afirmasse pareceria afirmar algo concreto e. 60 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL ráveis à existência de uma Inteligência divina. em conexão com o Bem. jamais poderei pensar ou dizer diferentemente. Sócrates. Timeu. da lua. Sócrates — Queres. exatamente a) a teoria das idéias. com efeito. Carta VII. quem ouve encontra dificuldade e objeta que essas Idéias não existem ou então que. dos astros e de toda a revolução celeste e. com o problema do Demiurgo. riamente essas dificuldades e ainda muitas outras além dessas. do sentido global do pensamento platônico é bastante difícil. depois de examiná-las adequada mente. 34! e. em seguida dos Princípios e. Escreve Platão: Sobre essas coisas não existe um escrito meu e nunca existirá’ c) Sobre a concepção do Demiurgo. Com efeito. se tais Idéias dos seres existem e se são definidas como algo em si. finalmente. como há pouco dizíamos. ao contrário. falas sem dúvida da maneira como eu penso’°. por isso é necessário ao que nela crê que não se limite a repetir as convicções dos predecessores favo O. como protagonista do diálogo homônimo: — No entanto. a) Sobre a teoria das Idéias. isto é. sobre isto. A teoria das Idéias funda-se expressamente numa inferência metaempírica exemplar. mas também que corremos com e/es o risco e com eles participamos da repreensão quan do um homem temível venha afirmar que as coisas não estão dispostas dessa maneira. Parmênides. como diziam nossos predecessores. Solicitamos ao leitor que siga com atenção inteiramente análogas àquelas expressas pela teoria das Idéias: . se entra na questão da crença ou descrença na existência de um Deus.

mas também das outras dimensões do seu pensamento na sua significação fundamental’ 13. a forma exterior e a figura que se capta com o olhar. tal civilização seja antitética. que o vocábulo “Idéia” é a tradução dos termos gregos iS e eTSo Infelizmente a tradução (nesse caso. sublimada. tal teoria constitui a expressão mais significativa e mais alta da peculiaridade grega. da “forma” que é objeto de visão. Portanto. que é quantidade. à civilização hebraica. nós. para o qual o pensamento está vol tado de maneira pura. 28 d-29 a. na medida em que as infinitas diferenças do real não somente estão aí justificadas na sua inumerável variedade. algo que constitui o objeto específico do pensamento. Essa observação é exata e é da máxima importância em ordem à compreensão da teoria platônica das Idéias. peculiarmente helênico. “Idéia” assumiu um sentido estranho ao sentido platônico. Demócrito usara o termo L&a para designar o átomo. a essência da coisa. uma vez que. e finalidade. com efeito. cujo traço predominante foi o “auscultar” e o “ouvir” (auscultar a “voz” e a “palavra” de Deus e dos profetas). no âmbito filosófico. a Idéia platônica não é de modo algum um puro ser de razão e sim um ser e mesmo aquele ser que é absoluta mente. A tradução exata do termo seria “forma”. Pode-se dizer que antes “da Idéia platônica. a n reza específica da coisa. Compreender profundamente as razões que levaram Platão à criação da teoria das Idéias significa compreender exatamente o nexo sintético que une estruturalmente. entendemos por “Idéia” um conceito. porém. II. Recordemos ao leitor que uma pormenorizada documentação de tudo o que dizemos encontra-se no’nosso Platone. modernos. Escreve . Além disso. no sentido 62 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 63 de natureza inteligível. Esse conjunto de homeomerias é. aquilo sem o qual o pensamento não seria pensamento: em suma. e até púoiç. Anaxágoras usa expressamente o termo i falando de sementes que têm “formas (iS cores e gostos de todo tipo” Esse “originário qualitativo” só pode ser captado na sua pureza com o pensamento e não com os sentidos. é visível apenas ao inte lecto e não aos sentidos e. Na língua grega ante rior a Platão. um mundo “formado” no qual. Algumas observações sobre o termo “Idéia” e sobre o seu significado Para enfrentar o problema que nos dispomos a tratar. De fato. mas metafisico. de modo aná logo. torna-se estável na linguagem metafísica do nosso filósofo. Portanto. Filebo. mas não nos conduz para fora da esfera do físico. 14. O átomo-idéia de Demócrito é. e como. Os termos ibéa e ei derivam ambos de iSeiv que quer dizer “ver”. como vimos no caso dos atomistas. por exemplo. pelas razões que haveremos de compreender nas páginas seguintes. portanto. pois da compreensão desses temas depende a compreensão não só da metafísica de Platão. O salto fundamental de Platão tornou-se possível por meio da “segunda navegação”: as formas ou Idéias platônicas são o originá rio qualitativo imaterial. na linguagem moderna. Vários estudiosos observaram que a civilização espiritual grega era uma civilização da “visão” e. Procuremos compreender esse nexo sintético. por transferência. para o grego. nessa direção. convém notar o seguinte. a “forma” dos atomistas é pura materialidade na medida em que. eram empregados sobretudo para designar a forma vi sível das coisas. realidade íntima das coisas)’. que é qualidade. como dissemos. como se observou justa mente. A prova é a sua admissão de sementes (homeomerias) em número infinito. tem caráter físico. “ver”-”forma”-”ser”. o “pleno” dife renciado e quantitativamente determinado. Platão entendia por “Idéia”. raro antes de Platão. o “que é visto” sensível. Sucessivamente idea e eidos pas saram a indicar. ou seja. o problema que agora deveremos procurar compreender é justamente este: como. mas mesmo demonstradas como sendo infinitamente mais verdadeiras do que parecem Num célebre fragmento. podendo ser captado apenas com a mente. sob diversos aspectos.o que diremos a respeito. transliteração) não é feliz porque. “toda forma é cristalizada e. afinal. em certo sentido. imaterialidade. o ser verdadeiro. há a idéia democritiana. Ainda estamos na esfera do material. unia representação mental. entendido no sentido de forma geométrica indivisível e pensável como invisível ao olhar físico. no entanto. portanto. é determinada e diferenciada apenas quantitativamente. passim. materialidade e necessidade” Mas também Anaxágoras se lançara. são realidades de caráter não fisico. por assim dizer. ao contrário. um pensamento. enfim. algo que nos transporta ao plano psicológico e noológico. Pois bem. A TEO1UA PLATÔNICA DAS IDÉIAS E ALGUNS PROBLEMAS UGADOS A ELA 1. deve-se ter presente. a forma interior. Esse segundo uso. primeiramente. Platão fala de Jdea e de Eidos sobretudo para indicar essa forma interior essa estrutura metajïsica ou essência das coisas de natureza puramente inteligível (e usa como sinônimos também os termos o isto é substância ou essência. um termo que significa originariamente o objeto de um ver pôde chegar a exprimir a mais alta forma metaflsica do ser.

Diels-Kranz. G. que com ela coincide em larga medida. de D. nos fará entender algumas razões fundamentais pelas quais. p. E. L’origine Florença 1953 (Galatina 19792). “a visão da alma”.). Calogero. Portanto. 269. a literatura crítica é assaz conspícua. o objeto visto intelectjvo. p. e assim por diante. Com efeito. Florença 1979. 4. Berlim 1964 p. e essa é justamente a realidade inteligível das . mesmo oferecendo uma explicação da realidade sensível num nível bastante elevado. do justo. 6) a unidade (cada Idéia é uma unidade e unifica a multiplici dade das coisas que dela participam). 2) a incorporeidade (a Idéia pertence a uma dimensão totalmen te diversa do mundo corpóreo sensível). Ban 1967. isto é. 1. ital. O ver intelectivo implica. 519 b. absoluta mente objetivas). funda-se sobre os ra ciocínios e sobre a realidade que se capta somente com os raciocí nios. é claro que a primeira das caracterís ticas que define a estatura metafísica das Idéias é a da “inteligibilidade”. Na base do que ficou dito. P. Friedlãnder. a analogia é clara: as coisas que captamos com os olhos do corpo são formas fisicas. O exame sintético dessas seis características além de fazer-nos entender a estatura metafísica das Idéias. p. com a qual está estreitamente conexa a da “incorporeidade”. da mesma natureza daquele que o matemático grego dirigia às puras formas geométricas. Platão exprime ver dadeiramente um dos traços espirituais supremos da cultura grega. La Nuova Italia. 2. que estimulou o maior número de repensamentos teoréticos e inspirou alguns dos maiores pensadores justamente em pontos centrais das suas doutrinas. Com efeito. para Platão há uma conexão metafísica entre a visão do olho da alma e o objeto em razão do qual tal visão existe. consegue “fixar” ou “ver”. Essa analogia leva a compreender o proble ma do qual estamos tratando. 3) o ser no sentido pleno (as Idéias são o ser que é verdadeira mente). Faucci. essências puras. o novo método próprio da “segunda navegação”.justamente Friedilinder: “Platão possuía [ o olho plástico do heleno. Cf. 219 a. quando se protende no máximo da sua capacidade e se move na pura dimensão do inteligível. Por esse motivo a Idéia implica 1. por excelência. o que dizemos no vol. objeto da inteli gência e só com a inteligência pode ser captada). sobre isso. As características metafísico-ontológicas das Idéias As Idéias representam a figura especulativa do pensamento de Platão que obteve maior difusão. 1. VII. portanto. 15). ou seja a Idéia. que Platão contrapõe ao dos naturalistas. que a inteligência. as coisas que captamos com o “olho da alma” são. ao contrário. Sobre a doutrina das Idéias. como sua razão de ser. 59 B 4 (ver. 54 (602). vol. an tes complicaram a compreensão das Idéias platônicas. Poderia parecer que Platão fosse consciente desse dom que lhe coube em sorte mais do que a todos os pensadores A prova dessa consciência está no fato de que é justamente a Platão que remonta a criação das expressões “a visão da mente”. 13 (trad. 4) a imutabilidade (a Idéias são imunes a todo tipo de mudança e não só ao nascer e ao perecer). Sobre esse tema continua sendo fundamental o volume: V. do verdadeiro. um nexo sintético radical. Ver o volume V. República. exatamente. 64 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 65 dei concetto deil’atomo nei pensiero greco. Storia delia logica antica. 5) a perseidade (as Idéias são em si e por si. para indicar a capacidade da inteligência para pensar e captar a essência Portanto. repetidamente invocadas em muitos escritos verdadeiramente irrenunciáveis: e que constituem pontos de referência 1) a inteligibilidade (a Idéia é. Platon. 143ss. elas próprias exi gem uma justificação ulterior e. no que diz respeito à sua gênese e ao seu signi ficado filosófico. justamente uma unidade estrutural entre vi sãovisto-forma-ser. pp. 5. Alfieri. formas não-fisicas: o ver da inteligência capta formas inteligíveis que são. 2. um olho de natureza igual à daquele com o qual Policleto viu o cânon [ e igualmente. com toda uma série de conseqüências facilmente imagináveis que não simplificaram. do belo. na teoria das idéias. As características básicas das Idéias — se nos apoiarmos sobre a base objetiva dos textos — podem ser resumidas nas seis seguintes. uma explicação última. 3. As Idéias são as essências eternas do bem. ba seado sobretudo nos sentidos e no sensível. 6. Banquete. Laterza. Atonios Idea.

que transcende a dimensão do físico e do corpóreo é. na visão ou em qualquer outro sentido e sem tomar nenhum outro para companheiro do pensamento. manifestam-se claramente Com Platão. numa palavra. — E que haveremos de dizer. Sócrates. a alma do filósofo não despreza acaso o corpo e não foge dele. 65 c-66a. ao contrário. da mesma maneira. pp. acaso a alma não raciocina melhor quando nenhum desses sentidos a perturbe. Símias. só pode ser captada pela inteligência que saiba libertar-se adequadamen te dos sentidos. também o Belo e o Bom? — E por que não? Porventura viste alguma dessas coisas com os olhos? — Não. no seu raciocinar. mais do qualquer outro. o plano do inteligível e o plano do sensível. Pois bem: acaso se pode conhecer o que nelas existe de mais verdadeiro por meio do corpo ou. 66 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 67 a mente cada coisa investigada. com toda a sua força fixe o olhar no ser? Assim é. como teremos ocasião de verificar daqui para a frente. nem a vista. — E alguma vez as apreendeste com outro sentido do corpo? Não falo apenas das coisas acima enumeradas. Foi exatamente a navegação” que tornou possível a descoberta dessa dimensão 8. deixando o corpo e rompendo o contato e a comunhão com o corpo na medida do possível. O inteligível. Símias. valên cia “se gunda . pode aproximar-se mais do conhecimento de cada uma delas? — Sem dúvida.. de maneira alguma. A distinção dos dois planos (ou das duas “regiões” ou esferas) da realidade. por sua própria natureza. do modo mais claro. quando está em comunhão com ela. ou seja. mas usando a pura razão em si mesma e por si mesma. — E portanto... uma característica essencial das Idéias que as contrapõe ao sensível como uma esfera de realidade subsistente acima do próprio sensível e que. feita. aquele que. Mas queremos insistir num ponto ao qual já nos referimos. avizinha-se de cada uma das reali dades unicamente com a razão sem apoiar-se. da Força. nem a dor. nem o prazer. respondeu Símias É esta a nítida distinção do plano meta-físico e do plano físico.idéias. poderá atingir a verdade? O que dizes. acaso não será esse o raciocínio? — Sim — Então. de todo o corpo. exatamente enquanto não pode ser captado pelos sentidos. busca alcançar cada um dos seres na sua pureza em si e por si. na máxima medida possível. portanto. mas quando se recolhe só em si mesma e. “incorpóreo” [ com efeito as coisas incorpóreas (àa que são as mais belas e as maiores somente com o raciocínio e de nenhuma outra maneira. Cf. nem o ouvido. daquilo que cada uma é verdadeiramente. de todas as outras coisas na sua essência. adquirir a verdade e a sabedoria? E não é acaso esse. Leiamos a passagem mais significativa do Fédon a esse respeito: — Se há um meio através do qual algum dos seres se manifesta à alma. Fédon. E por acaso não é verdade que poderá fazer isto da maneira mais pura aquele que. o termo “incorpóreo” assume o significado e a conceptual que ainda hoje lhe atribuímos. na medida em que ele perturba a alma e não a deixa. Plazone. da Saúde. somente aquele dentre nós que está preparado para considerar apenas com 6a. também nesse caso. é supremamente verdadeiro. não é de admirar que todos os escritos contenham referên cias implícitas ou explícitas a esse caminho. A inteligibilidade exprime. Do latim per se [ 7. separando-se o mais que puder dos olhos e dos ouvidos e enfim. buscando permanecer só consigo mesma? — Claro. mas também da Grandeza. por Zeus! — E. respondeu. 169-221. exatamente por isso. Reale. acerca dessa outra questão? Di remos que o Justo é alguma coisa por si mesmo ou não’ — Diremos sim. que apreendem somente o corpóreo. mas apenas pela inteligência. constitui verdadeiramente o caminho principal de todo o pensamento platônico. pela primeira vez na história do pensamen to ocidental.

1. por exemplo. com efeito. exata mente. vol. do ser. outra invisível. porque são coisas invisíveis e não se podem apreender com a vista? — E muito verdadeiro o que dizes.] A realidade em si (corr i oúoia). mas noutra perspectiva. justamente ao contrário das coisas em si. enfim o ser (Tà 6v). 12. T6 6v ôvTcaç e oúoía Óv-rcaç oõaa (Fedro. disse ele’ Também aqui é particularmente interessante a afirmação exata da existência de dois planos do ser ( ET&1 Tc. portanto. o incorpóreo toma-se “forma” inteligível (ou seja. forma no sentido fisico). o ser é. 248 e). 286 a (cf. mantém-se sempre de modo idêntico ou ora de uma maneira ora de outra? O Igual em si. A in “Hermes”. homens. cf. na dimensão naturalística. que não nasce nem perece de maneira alguma e que é em si e por si em sentido pleno: 10. metafísica) e. — E que o invisível se mantenha sempre idêntico a si mesmo. o Belo em si e qualquer outra coisa que é em si. e o visível não. p. duas espécies de seres (Sóo Ei TGV ÓVTC uma visível. cf. pois. e ainda: “Sendo uno não deve possuir corpo. V. Sócrates. porém. República. portanto. Mas Platão usa. muito amiúde. não-sensível). nunca se mantêm do mesmo modo.9. ao passo que aque las que permanecem sempre idênticas não temos outro meio de captá-las senão com o raciocínio puro e com a mente. Recordemos sobretudo as expressões T6 TrcXVTEÀC)Ç 6v (cf. 155-167. sensível) e o do ser supra-físico ou meta -físico (o ser não-visível. Mas. sa limitante. 67 (1932). — Se queres. como é dito no Fédon. estabeleçamos portanto. respondeu. sempre se mantém idêntica a si mesma e não suporta alteração alguma de qualquer natureza que seja? — E necessário. numa palavra como ser absoluto’ Essa característica tem relações muito estreitas com as duas já examinadas e com aquelas que examinaremos abaixo. 247 c-e). 127. o termo “incorpóreo” indica a ausência de uma forma determinada (evidentemente. pp. nunca se mantêm do mesmo modo? — Assim é. Estabeleçamos. sendo esse um ponto pouco conhecido. iaão tem limites nem fronteiras nem determinação e. Sobre esse tema. ou seja a causa PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS iDÉIAS 69 — í. Epínomis. Diels-Kranz. pode acaso sofrer qualquer mudança de qualquer tipo que seja? Ou então cada uma dessas coisas que é. Filebo. porque “fonte infinita e rica que nunca se esgota”°.. Sofista. 13. em si e por si. que cada uma conserve sempre a sua identida de. — Também isso estabeleçamos. 11. convém lembrar que o termo “incorpóreo” foi usado também por outros pensadores antes de Platão. renova radicalmente esse significado: para ele. ou de todas as outras às quais damos o mesmo nome que às coisas em si? Acaso permanecem sempre do mesmo modo ou. respondeu Cebes. segundo a sua forma. Diels-Kranz. tanto é verdade que “o incorpóreo” é conexo com o infinito o qual. vestidos e outras do mesmo gênero que designamos como “belas” ou “iguais”. O “ser” das Idéias é aquele tipo de ser que é puramente inteligível e incorpóreo. 13 B 3. Conta-se que Anaxímenes chamava o “ar” (que era para ele princípio de todas as coisas) de “próximo ao incorpóreo”. E sendo uno não pode possuir corpo”. E o eleático Melisso compreendia o seu ser como incorpóreo. As Idéias são classificadas insistentemente por Platão como o ser verdadeiro. meta-sensível. 247 d. cavalos. numa palavra.W ÓVTWV): o plano do ser físico (o ser visível. se tivesse espessura teria partes e. 246 b. ademais: Fédon. disse Cebes. nos pré-socráticos (aliás. Sofista. 1. Gomperz. um ser de-terminado que age como causa determinante. Mas é também muito interes sante outra passagem do Fédon na qual Platão apresenta o caráter do ser como o “selo” que caracteriza as Idéias e exprime a sua absolu tidade ontológica: Outra característica que define a estatura metafísica das Idéias é aquela que se concentra em tomo do ser. E acaso não é verdade que essas coisas mutáveis podes vê-las ou tocá-las ou percebê-las com os outros sentidos corpóreos. deveríamos dizer nos préplatônicos). 981 b). a saber. 85 e. acrescentou ele.. Pois bem. deve ser uno. a realidade de cujo ser ( damos razão formulando perguntas e dando respostas. dizendo: “Se. 477 a. vol. nesse caso. não seria mais uno”. numerosas outras expressões análogas. p. por isso. Político. 68 . e constitui como que o nexo que a todas liga estreitamente. um ser de-limitado que age como cau verdadeira e real. está privado de toda forma’ Platão. continua sendo fundamental: H. — E que haveremos de dizer de muitas coisas belas como. não são nunca idênticas nem com relação a si mesmas nem com relação às outras e. como o que é ser em sentido pleno. respondeu. 30 B 9. 61. 64 b.

de fato e de direito. 14. 514 a ss. quem. como um con duzir a alma “de um dia que é noite para um dia verdadeiro” ou seja. Cf. VI. o do ser misturado ao não-ser. 18. Aristóteles. mas somente tem ser. mas somente a realidade inteligível. que se mostram muito importantes em ordem a bem entender seu pensamento. Cf. para o Santo em si e para cada uma das outras coisas. ele implica sempre também o não-ser e. Platão une estreitamente essas duas características. infra. enquanto é o mundo das Idéias que possui as características que Parmênides e os eleatas atribuíam a todo o real. 78 d-79a. não o tendo como seu. o “causado”. Platão compõe a antítese entre as duas escolas exatamente com a distinção dos dois diversos planos da realidade. 20. 1.. que reduzia toda realidade e toda ação a algo puramente subjetivo e fazia do próprio sujeito a medida. V. M 4. VII. o que tem de ser deve tê-lo por participação a outro. enquanto do não-ser há somente a ignorância pura’ Não é de admirar que Platão chame a investigação feita pelo filósofo como um “anelo do ser”. 70 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 71 possui as características que Heráclito e. que qualifique as ciên cias que preparam a alma para a dialética (portanto. 987 a-b. como um estudo capaz de mostrar “aquele ser que sempre é e não muda por geração ou por corrupção”. deve como que pedir emprestado e receber. deram origem a grandes críticas contra Platão. 1078 b-1079 a. vol. Fédon. VII. porém. com amplificações consideráveis também em nível gnosiológico: somente o ser verdadeiro é verdadeiramente cognoscível. assim acaba va por torná-la inalcançável. 75 c-d.[ Com efeito. pergun tando nas nossas perguntas e respondendo nas nossas respostas. que constituem uma explicação e uma determinação espe cífica da sua natureza de “ser puro”. é apenas objeto de opinião. que na República a temática do ser torna-se centralíssima. incognoscível. como Protágoras. 200ss. 17. com efeito. O mundo do vir a-ser é o mundo sensível. Com efeito. os heraclitianos. Recor damos.). punha o homem como “medida” de todas as coisas (cf. adiante citada’ que fala do mundo das Idéias como de um “Hiperurânio” e que é perfeitamente convergente com as que foram lidas até agora. ou seja. mas também para o Bom em si. mas de modo fortemente redutiv& e que. a) A primeira forma de relativismo é a de origem heraclitiana (à qual Aristóteles faz referência. portanto. ademais. pp. mais ainda. Fédon. analogamente. e. Para explicar verdadeiramente o vir-a-ser. como digo. 478 e-479 d. as próprias idéias não devem estar sujeitas a ele. Cf. cf. De fato. que remontam ao próprio Aristóteles e que ainda hoje (conquanto com matizes variados) são repetidas. Metafísica. como a comparação da linha e o mito da caverna’ Esse caráter de ser absoluto próprio das Idéias torna-se perfeitamente claro com o mesmo raciocínio que fizemos acima. não toda a realidade é tal como a queriam os eleatas. (O vir-a-ser como tal não é ser. o mundo sensível. chegava. o raciocínio que estamos fazendo não vale apenas para o Igual em si. para a verdadeira filosofia) como um “gancho que levanta a alma do vir-a-ser ao ser”. 509 d ss. o mundo do ser e do imóvel é o mundo inteligível. de modo particular. mas devem ter como próprio delas aquele ser que o vir-a-ser. proclamando o fluxo perene e a radical mobilidade de todas as coisas. A 6. sobretudo. b) A segunda forma de relativismo é a sofistico-protagoriana. como “uma subida para o ser”. 521 c-d. A dimensão do ser (reinterpretado naturalmente de maneira adequada) do qual Parmênides falava é a “causa” (a “causa verdadeira”). 79s. pp.. sem falar de outras célebres imagens da República das quais teremos ocasião de falar mais adiante. Platão amadurecera e fixara a sua teoria das Idéias em oposição a duas formas de relativismo. 16. para o Justo em si. . atribuíam a todo o ser. ao invés. mas somente a realidade sen sível. nas quais. República. a dissipar cada coisa numa multiplicidade irredutível de estados móveis relativos e. Ou seja. essas características e. Em outras palavras: o mundo das coisas sensíveis é que 5. Na realidade. a obje tividade absoluta das Idéias no contexto platônico tem um significado bastante mais complexo e teoreticamente bastante mais consistente. 485 a-b. o vir-a-ser do qual os heraclitianos falavam é. o critério de verdade de todas as coisas 19. Repéblica. a perseidade. não toda a realidade é tal como a queriam os heraclitianos. ininteligível.) Com isso se abria o ca minho para a recuperação tanto de Heráclito como de Parmênides e para uma mediação entre heraclitismo e eleatismo. finalmente. imprimimos o “selo” do “ser em si” (aú-rô Leia-se também a célebre passagem do Fedro. VI. Venhamos às características da “imutabilidade” e da “perseidade” das Idéias. as Idéias. estreitamente unidas entre si.

e assim não se poderia mais conhecer que coisa seja ele nem como seja. mas que eles mesmos. esse conceito é perfeitamente reiterado. caindo como num redemoinho. no mesmo momento no qual falamos dele. Devemos dizer que o Belo. de sorte que as coisas sejam para mim tais como parecem sê-lo e sejam para ti tais como a ti parecem ser. se também a ti os seres sejam tais que a sua essência seja. ou é necessário que. Recordemos que as Idéias foram ex pressamente introduzidas como o postulado que é necessário introduzir. são alguma coisa em si mesmos ou não? Crátilo — Parece-me que sim. depois. primeiramente. ao invés. Com efeito. eo ipso ficará também comprometido o causado. mas “em si mesmo”. não te parece que elas tenham certa estabilidade de essência? Hermógenes — Aconteceu-me já. e não são objetivamente diferenciadas. . ou antes. em realidade. examinar aquele “em si mesmo” (aúTó): e se não é belo um rosto ou alguma coisa desse tipo. E certamente nenhum conheci mento conhece o objeto que conhece se este não permanece de nenhum modo estável. relativa a cada um de nós como pensava Protágoras ao dizer que o homem é “medida de todas as coisas”. Sócrates. apoiando-nos em textos exatos. é evidente que. mas exatamente enquanto é coisa empírica e sensível. não vai embora. assim. Sócrates — Devemos. emerge da polêmica contra o relativismo sofístico -protagoriano (ao qual Platão associa também a forma oposta do eleatismo. uma mudança na própria Idéia do Belo. Sócrates — Portanto. dessas que parecem sempre fluir. puxando também a nós.Procuremos aprofundar essas duas características de “imobilida de” e de “perseidade” das Idéias. que ele é e. isto é. Em outros termos: declarando imutável a Idéia. se fica momentaneamente da mesma maneira. o seu tornar-se nãobela. De fato. aquilo que continuamente estou sonhando. o desaparecimento de toda beleza empírica já que. ou seja. não me parece que a realidade seja desse modo. cada um dos seres. não se afastando nunca da própria idéia? Crátilo — Jamais poderia fazê-lo. por sua própria conta. 72 PLATÂO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 73 Sócrates — Mas. pois do contrário não seria a “verdadeira causa”. as coisas empíricas e os sensíveis particulares. o Belo-em-si. vejamos. Examina portanto. mas o Belo-em-si não muda e não pode mudar. implicaria a destruição total também de toda beleza participada. Eis como as características da imutabilidade e da perseidade das Idéias vêm à luz justamente no con texto da polêmica contra o heraclitismo. torne-se imedia tamente outro e nos escape e não seja mais -dessa maneira? Crátilo — E necessário. b) E eis como a “perseidade”. segundo o qual todas as coisas são sempre e juntamente no mesmo modo de ser. ó Sócrates. na verdade. e se permanece sempre da mesma maneira e é “em si mesmo”. ser arrastado a essas coisas que Protágoras diz. no próprio momento em que quem quer conhecê-lo chega perto dele. o Belo não é sempre tal e qual é? Crátilo — Necessariamente. Crátilo — Assim é como dizes Igualmente nas passagens do Fédon que lemos no parágrafo pre cedente. estando eu em dificulda de. aqueles que instituíram os nomes. ele se torna outro e de outra espécie. Uma mudança da Idéia significaria para ela um absurdo afastar-se de si e um tornar-se outra com relação a si mesma: a coisa bela poderá. no sentido de solidez e esta bilida de das Idéias. o fizeram pensando que todas as coisas sempre se movem e fluem e a mim me parece também que era justamente isso que pensavam no entanto. a fim de superar as contradições nas quais se cai ao explicar o sensível pelo sensível e o mutável pelo mutável. ao menos nesse tempo. é verdade. a fim de que esses muitos nomes que visam à mesma coisa não nos enganem: se. pode acontecer que não sejam assim. ó maravilhoso Crátilo. então. Hermógenes. mas são juntamente con-fundidas): Sócrates — Pois bem. mas. tornar-se feia. Sócrates — Mas também de outro modo não poderia ser conhecido por ninguém. é possível denominá-lo justamente “em si” se sempre nos foge e dizer. levada a cabo por Platão no Crátilo: Sócrates — Então. não seria a razão última. isto é. a) Mudam e se modificam as coisas belas singulares. que é a causa (a “causa verdadeira”) do belo sensível não pode absolutamente tornar-se feio. nos atirem lá dentro. que é tal. como poderia mudar e mover-se. como poderia ser alguma coisa o que nunca permanece da mesma maneira? Com efeito. dizemos. Platão quis afirmar o con ceito de que a causa verdadeira que explica o que muda não pode mudar ela mesma. compro metida a causa. o Bom e. pois. devemos ainda examinar o seguinte. sejam arrasta dos e.

disse. mas creio que concordarás comigo num ponto. para Platão. se as coisas não são juntamente da mesma ma neira e sempre para todos. 3. homem nenhum poderia ser verdadeiramente mais sensato do que outro se o que parece a cada um seja para ele verdadeiro. Crátilo. 74 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORJA DAS IDÉIAS 75 avaliações morais) estariam carentes de qualquer significado e o nosso falar não teria sentido algum. a imutabilidade e o em-si e o por-si das Idéias implicam a sua natureza absoluta. 385 e-386 e. ou seja sua objetividade estável. segundo Eutidemo. a própria natureza do filósofo se mani festa exatamente em saber captar e possuir essa unidade. a todos e sempre. Platão concebeu e fixou duas características fundamentais das Idéias. o verdadeiro conhecimento consiste em saber uni-ficar a multiplicidade numa visão sinótica que reúne a multiplicidade sensorial na unidade da Idéia da qual depende. como ex pressamente nos é dito nessa importante passagem da Reptíblica: — Quem dizes que são. com efeito. mas que queres dizer com isto? — Dizê-lo a outro. pois. — Qual? — Uma vez que o Belo é contrário ao Feio. constituindo deste modo uma multiplicidade uni ficada. Sócrates — E alguma vez te pareceu que haja homens muito bons? Hermógenes — Sim. mas implica uma firmeza e uma estabilidade estruturais. se Protágoras dizia a verdade e se a ver dade é que cada coisa seja assim como parece a cada um. explica as coisas sensíveis que dela participam. pelo fato de que goza de uma importância verdadeiramente excepcional (não obstante ter sido em larga medida transcurada ou subestimada no âmbito do paradigma tradicional). parece-te que haja alguns. conviessem juntas a virtude e o vício. Hermógenes — Assim é. Sócrates — Creio. perguntou. Justamente por isso. — Como não? . Numa palavra.Sócrates — E assim te deixaste arrastar a ponto de crer que não exista um homem mau? Hermógenes — Isso não. Sócrates — Mas nem mesmo creio que te pareça. como podes assegurar-te disso? Talvez assim: os homens muito bons são muito sensatos. Note-se que. Crátilo. respondeu. 22. por Zeus! Antes. respondi. que todas as coisas sejam da mesma maneira sempre juntas. os verdadeiros filósofos? — Aqueles que amam contemplar a verdade. os homens muito maus muito insen satos? Hermógenes — Assim me parece. justamente a imutabilidade e a perseidade. que te parecerá indubitável o seguinte: se há sensatez e insensatez não é possível que Protágoras diga a verdade. que não estão em relação conosco e não são arrastadas por nós daqui e dali com a nossa imaginação. Hermógenes — Sim. — E certo. conforme a sua natureza Meditando essas duas formas de relativismo. nem cada coisa é para cada um segundo o modo próprio dele. Sócrates — Por conseguinte. todos os nossos conhecimentos e as nossas avaliações (em particular nossas 21. é possível que alguns de nós sejamos sensatos e outros insensatos? Hermógenes — Certamente não. também desse modo nunca os homens poderiam ser uns bons outros maus se. como tal. muitos deles. 439 b-440 a. mesmo. Sócrates — Portanto. as Idéias têm uma realidade que não é arrastada no vir-a-ser e não é relativa ao sujeito. com efeito. uma realidade que não é impelida pela mudança contínua e não pode ser manipulada segundo o capricho do sujeito. muitas vezes eu mesmo expe rimentei que era preciso crer haver homens maus e. Sócrates — Pois bem. O supremo caráter metafísico da “unidade” das Idéias A última característica das Idéias sobre a qual importa voltar particularmente a atenção (a sexta entre aquelas que acima enumera mos). eles são dois. mas são por si mesmas em relação com a sua essência. é a da “unidade”. é evidente que as coisas possuem nelas mesmas uma essência própria e estável. mas bem poucos. Cada Idéia é uma “unidade” e. Hermógenes — E verdade o que dizes. Sócrates — Em todo caso. não seria fácil. Se assim não fosse.

do filósofo. as realidades físicas são mescladas com o não-ser. o filósofo é justamente aquele que sabe ver o conjunto e sabe captar a multiplicidade na unidade. Florença 1975. Platão resume seu pensa mento nessa admirável máxima: Quem sabe ver o conjunto (ouvoTrrlxóç) é dialético. Ii “De ideis” di Aristotele e la teoria platonica deiie Idee. 484 b. e que pode ser formulada da seguinte maneira: se há muitos homens e cada um é essencialmente homem e se há algo que se atribui a cada um e a todos os homens sem ser idêntico a nenhum deles. pp. — Isto também. como o que faz que cada coisa seja ela mesma e não outra. é a Idéia Mas as implicações complexas dessa característica fundamental das Idéias só poderão ser protológica. pp. Mas. ao passo que as Idéias são absolutas. 76 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 77 são sensíveis. repetindo ou desenvolvendo de várias maneiras as críticas movidas por Aristóteles. Berti. fato que muito freqüentemente é transcurado ou silenciado. 537 e. corpos e outras <Idéias>. Metaph. enquan to as Idéias são realidades estáveis e eternas. In AnsI. e assim por diante [ [ caminham errantes na multiplicidade e não são filósofos Ao invés. sendo dois. examinadas mais adiante. os primeiros diálogos apresentam o aspecto da Idéia como o que permanece idêntico nas coisas. sobretudo a partir do Fédon (onde introduz o tema da “segunda navegação” e 4. a o fundamento) da sua imanência. o que fixa as coisas na sua natureza e as torna. em relação com a problemática 27. que se limita ao sensível. VII. O dualismo platônico como expressão da transcendência Depois de tudo o que dissemos. 80. 990 b 13. V. mas como aparecem sempre e em toda a parte em comunhão com ações. 23. fr. ao passo que as Idéias são inteligíveis. 208ss. Observemos que o primeiro aspecto das Idéias sobre o qual Platão chama a atenção é exatamente o da imanência. que se deve rigorosamente evitar se se deseja compreender Platão. justamente transcendendo-o ontologicamente po dem ser o fundamento da sua estrutura ontológica imanente. 3 Ross). e que exatamente enquanto tal se possa predicar de modo idêntico. as realidades sensíveis são corruptíveis. além de cada um deles. 479 a. República. Confundir esses dois aspec tos ou nivelá-los de algum modo sobre o mesmo plano.. — E sobre o Justo e o Injusto. enquanto as Idéias são incorpóreas. Alexandre de Afrodisia. o Justo. V. p. na realidade. e sobre todas as outras Idéias deve-se dizer o mesmo. Para Platão transcendência das Idéias é justamente a razão de ser (ou seja. Pádua 1962. isto é.. 9ss. significa esque cer inteiramente a “segunda navegação” e os seus resultados. Em seguida Platão. 26. La filosofia dei primo Anistotele. algo separado deles e eterno. inte ligíveis. susten tando que a “separação” das Idéias das realidades sensíveis. De ideis. l4lss. Justamente esse “uno que está além dos muitos” e que os transcende e é eterno. As Idéias não poderiam ser a causa do sensível (isto é. República. Leszl. Para uma porme norizada análise desse argumento. então é necessário que haja. a transcendência das Idéias é justamente o que qualifica a função que elas cumprem de “causa verdadeira”. . a “causa verdadeira”) se não transcendessem o próprio sensível. de todos os homens numericamente diferentes. Hayduck (= Aristóteles. Desde logo ob serve-se que as Idéias têm tanto de “imanência” quanto de “transcen dência”. além disso: [ não suportaria de maneira nenhuma que outros dissessem que Uno é o Belo. República. República. A 9. ver: E. cada uma aparece múltipla Justamente nisso consiste o que separa o homem comum. ou seja. e. enquanto as Idéias são ser em sentido puro e total. cada um deles é uno. 25. compromete a sua função de “causa”. Com efeito. o primeiro se agarra ao múltiplo repe lindo a unidade e. trata-se de puro preconceito teórico. sobre o Bem e sobre o Mal. a sua “transcendência”. Aristóteles Metafisica. VI. W. que cada uma delas é una. as coisas sensíveis são múltiplas. 475 e-47 a. as coisas sensíveis são relativas. quem não sabe não o é Essa característica na definição das Idéias mostrava-se de tal modo importante que os acadêmicos fundaram sobre ela uma das argumentações dirigidas a demonstrar a existência das Idéias e a denominaram justamente “prova que deriva da unidade do múltiplo”. por conseguinte. Em resu mo. insistem fortemente nesse “dualismo”.— Ora. ao passo que as Idéias são unidade. as realidades sensíveis são corpóreas. muitos es tudiosos. pareceria inevitável falar de concepção “dualista” da realidade em Platão: as realidades empíricas 24. Com efeito.

os resultados a ela ligados). o outro muda em força da persuasão.. isso seria a coisa mais oportuna. Mas também não convém inserir no discurso já longo um outro também longo sobre um tema acessório. um deles se ongina por meio do ensinamento. que não recebe em si algo vindo de fora nem ela mesma passa para outra coisa. de modo . P/ato’s Theory oJ Ideas.. o outro é efeito da persuasão. Finalmente. mas. Ross. devemos ainda chamar a atenção para um ponto importante que diz respeito. descobriu o mundo do inteligível como a dimensão incorpórea e metaempfrica do ser. Se inteligência e opinião são dois gêneros diversos. é claro que elas representam uma dimensão diversa da realidade. a unidade à multiplicidade. clt. ao passo que da inteligência participam os Deuses e alguns poucos do gênero humano. em razão da complexidade dos problemas nela implicados e que serão adequadamente tratados de maneira analítica tendo em vista a compreensão dessa outra forma de dualism&°. que não nasce nem perece. então existem verda deiramente essas realidades em si. da “transcen dência” Se as Idéias se contrapõem às coisas empíricas como o inte ligível ao sensível. Mas. Um não se dobra à persuasão. não conviria afirmar algo a respeito num sentido ou noutro. que se origina num lugar e dali mesmo desaparece. e foi por nós reproduzida em Platone. ao contrário. em nada diferem a opinião verdadeira e a inteligência. 199s. sendo eles exatamente dois. mas só com a inteligência. Como freqüen temente assinalamos. por causa da sua auroconrraditoriedade. Ela é apreendida pela opinião acompanhada de sensação Quem nos seguiu até aqui dispõe de todos os elementos ne cessários para chegar a uma conclusão sobre o significado autêntico da teoria das Idéias. que constitui o primeiro e notável resultado alcançado na primeira fase da “segunda navegação”. o absoluto ao relativo. Concluindo. o dualismo de Platão não é senão o dualismo de quem admite a existência de uma causa supra-sensível como razão de ser do próprio sensível. não pode possuir uma razão de ser total de si mesmo. Platão é muito explícito. com as Idéias.. então é preciso afirmar como certíssimas todas as coisas que percebemos por meio do corpo. com os devidos cuida dos teóricos. E é preciso dizer que dessa última todos os homens participam. a verdadeira razão de ser do sensível. desenvol ve. outra forma de dualismo concernente aos Princípios supremos. O “dualismo” metafísico de Platão não tem absolutamente nada a ver com o ridículo dualismo que põe o sensível como subsistente e depois contrapõe essa subsistência ao próprio sensível. formas que não podemos captar com os sentidos. somente mais tarde poderemos tra tar dessa questão. além dessa.. pp. pp. Voltando ao “dualismo” entendido como expressão da transcendên cia. não sendo isso mais do que palavras? Se deixarmos essa questão sem examiná-la e sem nos pronunciar sobre ela. numa bela passagem que vale a pena ler: Acaso há um Fogo em si e somente por si? E todas as outras realidades que chamamos com esses nomes são cada uma em si e por si? Ou as coisas que também vemos e as outras que percebemos por meio do corpo são as únicas que têm essa verdade e não há outras além dessas. e é em vão que dizemos que de cada uma há uma forma inteligível. invisível nem podendo ser captada com outro sentido. 228ss. é irracional. Platão. um plano novo e superior da mesma realidade. Mas se conseguirmos encontrar em poucas palavras uma definição nítida e de grande alcance. O primeiro está sempre acompanhado pelo raciocínio verdadeiro. Um excelente elenco das expressões com as quais Platão indica a imanência das Idéias e daquelas com as quais indica a transcendência foi fornecido por D. é necessário admitir que há uma forma de realidade que sempre é da mesma maneira. Se assim é.. E esse mundo do inteligível incorpóreo transcende o sensível. Com efeito. E foi essa realidade que coube à inteligência contemplar. Sobre a existência de dois diferentes planos do ser. não no sentido de uma absurda “separação” e sim no sentido da causa metaempírica (isto é. convencido de que o sensível. além do motivo da imanência o motivo que. 78 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 79 E também é preciso admitir que. homônima e semelhante a essa reali dade há uma outra sensível. é necessário observar que Platão apresenta. na maneira mais correta. como lemos em algumas pas sagens acima referidas e como ele reitera solenemente ainda no Timeu. o ser ao vir-a-ser.. em lugar nenhum e de maneira nenhuma. Eis a minha sentença nesse caso. da “causa verdadeira”). como parece a alguns. que nasce e continuamente se move. nota 61. pode ser chamado. é necessário dizer que aqueles são dois gêneros diferentes de conhecimento pois têm origem diferente e se comportam diferentemente. o outro. o imóvel ao móvel. o incorpóreo ao corpóreo. Se. 28. ao contrário.

. Com efeito. o “supercéu” é o “supervisível” (ou seja. e mesmo nesse nível deixando ainda aberto um grande problema. afir mando que. não aquela à qual está unido o vir-a-ser. Tendo isso presente. Ora. é preciso ter realmente coragem para dizer o que é verdadeiro.). ele pretendia deter-se no primeiro nível alcançado na primeira fase da “segunda navegação”. como um falar por 29. no giro dessa rotação ela vê a própria Justiça. as Idéias que ocupam aquele “lugar” são imediatamente descritas como sendo dotadas de características que nada têm a ver com o “lugar” físico: são sem figura. convém lembrar que a interpretação das relações entre o mundo das Idéias e o mundo sensível foi objeto de mal-entendidos já por alguns contemporâneos e mesmo por alguns discípulos de Platão. o corruptível com o ser incorruptível. Na realidade. em torno do qual não poucos equívocos se formaram. o móvel com o imóvel. a saber. O grande problema da relação entre o mundo das Idéias e o mundo sensível O problema da relação entre o uno e o múltiplo. a) O sensível é niimese do inteligível porque o imita. Platão apresenta diversas perspectivas. 247 c-e. Veremos que essa forma de dualisnw tem uma precisa estrutura “bipolar”. 51 b-52a. De fato. o ser. O que ele tinha em vista era simples mente estabelecer que a Idéia é a causa verdadeira do sensível. que se impõe em ordem à compreensão das relações Subsistentes entre as diferentes Idéias e para explicar sua derivação de um princípio primeiro. isto é. o relativo com o Absoluto. a dimensão do supra-sensível. uma expressão metafórica e um símbolo. . República. cf. Mas. 204s. sem cor. Platão quis dizer o seguinte: o sensível se explica somente com a dimensão do supra-sensível.particular. se regozija e. exatamente. penetra de novo no interior do céu e volta para casa “Hiperurânio” significa “lugar acima do céu”. isto é a inteligência... 8Bss. etc. depois de certo tempo. Sobre isso. Em suma. e com o qual se ocupa o gênero do conhecimento verdadeiro. o sensível). na qual Platão fala justamente do Hiperurânio: Nenhum dos poetas daqui de baixo cantou jamais nem jamais cantará de modo digno o lugar supraceleste (Hiperurânio). até que a rotação a tenha trazido de volta ao mesmo ponto. Eis o que existe a respeito. mesmo sem nunca conseguir igualá-lo (no seu contínuo vir-a-ser avizinha-se. Tanto é verdade que. 80 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 8! 5. como já observamos repetidamente. somente com a inteligência. VI. Platão deixou dito explicitamente que esses termos deve riam ser entendidos como simples propostas sobre as quais ele não pretendia insistir de modo algum. E depois que contemplou todos os outros seres que são verdadeiramente e deles se saciou. invisíveis. d) ou ainda de parusia (irapouoía) ou de presença Sobre esses termos levantou-se uma grande discussão que acabou errando o alvo. ao grande mito do “Hiperurânio”. mas a ciência que é ciência do que é verdadeiramente ser. no entanto. indica um lugar que não é absolutamente um lugar no sentido físico e sim um lugar meta -físico. Leiamos. contemplando a verdade. para chegar à resposta última seria necessário recorrer à protologia das “Doutrinas nãoescritas”. no Fédon. pp. como vere mos. com a teoria das Idéias. b) ou de métexis (l ou de participação. Ora. no Parmênides. infra. entendida corretamente naquilo que quer exprimir. porque essa implicava ter che gado à teoria dos Princípios. a passagem do Fedro. Fedro. uma imagem que. e às quais não pretendia dar a consistência de uma resposta última.. vendo. O “céu” é o “visí vel” (logo. 3. o metafísico). Platão toma como alvo e refuta algumas interpretações que lembram as que são sustentadas justamen te na Metafísica de Aristóteles. retorna no nível da explicação das relações que subsistem entre as próprias Idéias e as coisas sensíveis. e podem ser captadas por nós somente com a parte que detém o governo da alma. já que a razão de um deus é alimentada pela inteligência e pelo conhecimento puro. entre o sensível e o inteligível existe a) uma relação de mimese ( ou de imitação. que pode ser contemplado somente pelo piloto da alma. desde que permaneçamos naturalmente no ní vel alcançado pela primeira fase da “segunda navegação”. c) ou de koinonía (xoIvc ou de comunhão. assim tam bém a de toda alma que se preocupa em receber o que lhe convém. tornam-se bastante claros os termos platô nicos acima referidos. incolor. isto é. Concluamos que. cf. nem aquela que é diversa enquanto se funda sobre a diversidade das coisas que nós chamamos seres (= seres fenomênicos). Aquele lugar é ocupado pelo ser que é realmente (oúaía 6 oóoa). 509 d (ver Reale. vê a Ciência. Timeu. o múltiplo com o Uno. imagens. tida entre as mais famosas. o super-sensível ou. sem figura e invisível. essa é para ela alimento benfazejo. Nos seus escritos. Platone pp. o “mito” não é um logos abstrato e deve ser corretamente entendido por aquilo que é. Note-se ainda como. 30. no mito do Hiperurânio e sem dúvida para evitar mal-entendidos. sobretudo quando se trata da verdade.

Cf. para explicar a obra das Idéias com relação à chora indeterminada (ao substrato de tipo material). mas foi no Timeu 33. para explicar como as coisas nascem dessa “mistura” por obra da causa que opera a mistura e que é exatamente a Inteligência demiúrgica.crescendo. A Idéia de santo é “paradigma” porque exprime o como as coisas ou as ações devam ser feitas ou ser para serem chamadas santas. como as coisas devem ser. isto é. essa operação é a ação determinante exercida pe/o Uno sobre o indeterminado múltiplo por obra da Inteligência. com os primeiros e supremos Princípios reservados à oralidade dialética. Dessa maneira. fazendo com que cada coisa se assemelhe e imite o mais perfeitamente pos sível o seu “paradigma ideal”. o princípio no principiado. e a nossa introdução e o nosso comentário a esse diálogo (Ed. no próprio Timeu Platão nos revela expressamente o seguinte: [ Deus possui a ciência e. na medida em que realiza a própria essência. 6 d-e. Cf. com o qual Platão designa o papel das Idéias em confronto com os sensíveis que as “imitam” e são como suas “cópias”. Os primeiros Princípios identificados com o Uno e com a Díade grande-epequeno Chegou o momento de considerar o “postulado” supremo do qual fala a carta metafísica traçada por Platão no Fédon e que a República (considerando-o como vértice de todos os postulados) eleva acima dos próprios postulados’. de novo. do ilimitado. a Idéia de belo é “pa radigma” porque exprime como as coisas devam ser formalmente estruturadas para ser e serem chamadas belas. na medida em que a causa está no causado. pode-se também dizer que o inteligível está presente no sensível. cf. um princípio que realize a imitação. isto é uma tangência com o inteligível. III. ou seja. também 74 d. ou seja. e é cognoscível). “modelo”. além do problema protológico da relação do Uno e dos Muitos. do modelo ideal e depois afasta-se dele corrompendo-se). atualize a presença e seja funda mento da comunhão. ao mesmo tempo. associada à imagem tornada clássica do “Demiurgo”. na medida em que possui esse ser e essa inteligibilidade. justamente por seu ter parte na Idéia que é. a potência para misturar muitas coisas na unidade (Tô TtoX)o eis v) e. Eurífron. 00 c-d. tem com ele “comunhão”. aqui deveremos traçar em síntese as suas linhas essenciais porque somente à sua . Devemos agora dedicar nossa atenção justamente a esse ponto. mas nenhum dos homens de agora sabe fazer nem uma coisa nem outra e nunca o saberá no futuro Quem nos tiver seguido até aqui terá compreendido de maneira adequada que. 82 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL que a formulou com maior amplitude. se não se tem presentes as nume rosas infiltrações de caráter protológico. d) Enfim. e que coincide com as “coisas de maior valor” das quais fala o Fedro. ou seja. b) O sensível. como haveremos de ver. Fédon. sobretudo no Filebo. à imagem de um Artífice que plasma o Princípio material (uma espacialidade indeterminada ou uma espécie de substrato ou de excipiente informe) em função do “modelo” das Idéias. Muitas vezes já nos refe rimos a essas “Doutrinas não-escritas”. Evidentemente Platão possuía. Mas. tanto é verdade que a antecipou em numerosos diálogos imediata mente posteriores ao Fédon. Brescia 19846). E este o grande problema da Inteligência orde nadora e da sua função. a partir da República. A mediação entre o sensível e o inteligível é obra de uma Inteligência suprema. é necessário afrontar e resolver o grande problema da protologia. da sua mistura e da causa da mistura. do inteligível (em particular. para poder resolver os vários problemas que a teoria das Idéias levanta e que aqui enumeramos. para dissolvê-las da unidade em muitas coisas ( vbs eis uoXXá). a condição no condicionado. 32. La Scuola. se poderia denominar a “normatividade ontológica” da Idéia. assegure a participação. a perfeita solução do problema desde quando escreveu o Fédon. segundo um esquema que se tomou clássico. para as categorias metafísicas do limite. e a “mistura” que daí deriva é unidade-na-multiplicidade. a terminologia platônica torna-se clara. isto é. isto é. ou seja. sendo este a causa e o funda mento daquele: tudo que o sensível tem de ser e de inteligibilidade recebe-o do inteligível e. E tam bém torna-se claro o célebre termo “paradigma”. mas que depois deixa sem resol ver: a relação entre as coisas e as Idéias não pode ser pensada como imediata. Em última análise. De resto. é necessário um mediador. como vere mos. o dever ser das coisas. com linguagem moderna. Platão apelará. e assim por diante Nessa concepção permanece aberto. participa. da metafísica não-escrita de Platão. também o problema que a carta metafísica do Fédon apresenta como essencial (e do qual parte nada menos que a “segunda navegação”). c) Pode-se dizer que o sensível tem comunhão. não se consegue penetrar a fundo na solução desse problema. Platão exprime com o termo “paradigma” aquela que. AS «DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” DOS PRIMEIROS E SUPREMOS PRINCÍPIOS E OS GRANDES CONCEITOS METAFÍSICOS A ELES CONEXOS 1.

a teoria das Idéias dá origem a uma ulterior pluralidade. Com efeito. que procedem à explicação da multiplicidade dos fenômenos referentes ao cosmo reduzindo-a. Fédon. Como sabemos. mas também para todas as qualidades e para todos os aspectos das coisas que podem ser reuni dos sinoticamente (belo. República. No entanto como acima já indicamos —. Essa esfera é constituída. duplo. as muitas manifestações do belo pela Idéia do belo e se assim acontece para todas as realidades empíricas que indicamos com o mesmo nome. bastante instrutiva) nas doutrinas dos eleatas. e no interior da Acade mia. Um bom encaminhamento à compreensão preliminar do discurso protológico pode ser dado por uma observação geral com respeito a uma característica essencial do modo de pensar dos gregos.luz a ontologia das Idéias (e. jus tamente. à unidade de um princípio ou de alguns princípios unitariamente concebidos. dois estágios da “segunda navegação”. ele propôs como objeto de discussão. todo o pensamento de Platão) pode adquirir sentido pleno. todo inteiro apoiado na pergun ta “o que é?” que implica.. Mas tal convicção sustenta também o discurso socrático. reduzida à ciência (as muitas virtudes se expli cavam com a redução a uma única essência. Ora. e assim por diante). por sua vez. exige uma explicação ulterior. em conseqüência. por sua vez. Platão os chamava expressamente Tà i xa TrpC e é justamente por esse motivo que propomos denominas protologia (discurso em tomo aos primeiros Princípios) a doutrina que deles se ocupa. vegetais. assim. E claro.). impõe-se a necessidade da elevação a um segundo nível de fi ração metafísica. Toda a filosofia anterior a Platão é penetrada pela convicção básica de que explicar significa un Esta convicção sustenta. nasceu exatamente de uma convicção análoga e de uma acentuação notável da importância da visão sinórica. o “múltiplo” sensível se explica com um “múltiplo” inteligível. 1. por sua vez. Realizava-se. VI. em geral. De fato. por isso mesmo. O esquema do raciocínio que sustenta a duplicidade de nível da fundamentação metafísica é o seguinte: como a esfera do múltiplo sensível depende da esfera das Idéias. isto é. a própria doutrina das Idéias de Platão. Essa doutrina contém a fundamentação última porque explica quais sejam os Princípios dos quais procedem as Idéias (que. e essa é a esfera primeira e suprema em sentido absoluto. na qual vai ter minar a operação metódica da “unificação” do múltiplo que se pre tende explicar. os quais resolvem na unidade a totalidade do ser. etc.. considerada no seu conjunto. em primeiro lu gar. Timeu. animais. o pluralismo das realidades inteligíveis) mostra-se verdadeiramente notável. o discurso de todos os físicos. analogamente. explicam o resto das coisas) e fornece a explicação da totalidade das coisas que são. portanto. pois. conseqüentemente. pelos primei ros Princípios (que são o Uno e a Díade indefinida dos quais logo falaremos). embora situada no novo plano metafísico do inteligível. Eis aqui três dos testemunhos fundamentais: . de tal sorte que o pluralismo do mundo das idéias (ou seja. em que sentido a ontologia das Idéias e a protologia ou teoria dos Princípios constituam dois níveis distintos de fundamentação. não se resolve por si mesma. 511 b. a última fase da “segunda navegação”. 84 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSíVEL AS DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS’ 85 dente o que estamos ilustrando: todas as complexas manifestações que caracterizam a vida moral e política eram reduzidas à unidade da virtude. Platão julgou que o primeiro nível de fundação metafísica fosse suficiente uma vez que. Além disso. as muitas árvores pela Idéia de árvore. tendo em vista resolver os problemas levantados pela teoria das Idéias. desembo cando num verdadeiro e próprio monismo radical. Com os alunos porém. de posse da teoria das Idéias. Essa explicação atinge sua expressão ex trema (mas. 510 b. assaz desen volvida. como já Aristóteles afirmava Vê-se que a teoria das Idéias não poderia cons tituir o nível de explicação última. é evidente que a multiplicidade sensível resolve-se e simplifica-se nas Idéias inteligí veis. as várias doutrinas que ele confiava aos escritos estavam sufici entemente justificadas. mas a multiplicidade inteligível. se os muitos homens sensíveis são unificados e explicados pela correspondente Idéia de homem. grande. que consistia justamente na unidade do verdadeiro conhecimento Ora. nos seus diálogos e para os leitores que se limi tavam à leitura dos mesmos. e de maneira justamente o segundo nível de fundamentação. mas este por sua vez. dois planos sucessivos da investigação metafísica. a redução sistemática do que é objeto da discussão a uma unidade. exatamente enquanto “múltiplo”. con cluída exatamente segundo o plano traçado na carta metafísica do Fédon. a esfera da multiplicidade das Idéias depende de uma esfera ulterior de realida de da qual as idéias derivam. 68 d. A pluralidade das coisas sensíveis se explica exata mente por meio da redução sinótica à unidade da idéia corresponden te. Em particular no âmbito da ética (à qual Sócrates dedicou seu interesse principal) torna-se muito cvi34. é preciso ter presente que Platão admite Idéias não somente para aquelas coisas que realmente chamamos substan ciais (homens. 101 e.

não obstante isso. Ambos esses princípios têm estrutura metafísica e são. pois. assim que deve existir alguma coisa que está ainda acima da realidade delas. Tesi. Além de Princípio de pluralidade horizontal. por participação à qual todas as unidades que se contam são pensadas justamente como unidades e a dualidade indeterminada por participação à qual todas as dualidades determinadas são justamente dualidades [ nível] Para os gregos. é também Princípio da gradação hierárquica do real. fragmento que. 8. “por que e como do Uno derivam os muítos?” E a novidade que Platão traz no nível da protologia reside justamente nessa tentativa de “justificação” radical e última da multiplicidade em geral em função dos Princípios do Uno e da Díade indefinida. volume 1. A “Díade” ou “Dualidade indeterminada” não é. segundo Platão. três. e a gradação dos entes nascem da ação do Uno que determina o Princípio oposto da Díade. Metafísica. o Uno [ segundo nível] Pode parecer que Platão. recordemo-lo. 6 b 11-16 (Gaiser. Anstóteles. 3. é também classificada como dualidade do muito-e-pouco. o três ou um número maior se predica das Idéias. Por exemplo. 12). por sua vez. 987 b 18-2 1 (Gaiser. o número. mesmo sendo hierarquicamente superior à Díade. dois. Platão admite que os elementos constitutivos das Formas sejam os elementos de todos os seres. Pia!. elas não resultam primeiros princípios das coisas desde que cada Idéia. 9). conside rada singularmente se diz que é una. Ela é uma multiplicidade in-determinada e in-definida que. nem por isso são sem mais necessariamente elementos das coisas que existem e princípios primeiros. o número dois. 7. Teofrasto. não . Heráclito.. Aristóteles. Como elemento material das Formas [ Idéias] ele punha o Grande-e-pequeno e. são incorpóreas.. Cf. pois. a saber. preexistem aos corpos e como cada coisa que nasce nasça fundada nas relações com elas [ nível]. Ela é pensada como dualidade de grande-e-pequeno no sentido de que é infinita grandeza 6. o problema metafísico por excelência é o seguin te: “Por que há os muitos?”. ao passo que. portanto. p. 32 Krãmer. na qual a Díade toma-se matéria sensível. as Formas [ Idéias] causa das outras coisas [ nível]. Ora. o dois. do maior-e-menor. por participação ao qual o um. e como desigualdade estrutural. Carta VII. ao referir as coisas aos princípios. 266ss. Sexto Empírico. consideremos como as Idéias que. 4. do mais-e-menos. enquanto tendência ao infinitamente grande e ao infinitamente pequeno. AS ‘DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 87 e infinita pequenez. igualmen te originários. e outras vezes apelou para o Uno. Em particular. sendo os números posteriores aos Princípios e derivados deles. X. Pia!.. O Uno não teria eficácia produtiva sem a Díade. aos 2. descendo depois. a primeira unidade. que é uma multiplicidade indeterminada. 86 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL números e desses suba aos princípios [ nível]. com exclusão da esfera cosmológica. M 4. 5.Sendo. e da sua estrutura bipolar. metamatemáticos. Test. como veremos). desempenhando o papel de substrato à ação do Uno. Se há seres incorpóreos que existem anteriormente aos corpos. quatro. no sentido de Princípio. vol. 22 B 11). por conseguinte. O problema do qual partimos resolve-se desse modo: a pluralidade. mesmo que não tenha sido usada ex pressamente por Platão. no primeiro volume. A 6. podemos dizer que a Díade é uma espécie de “matéria inteligível”. ou ainda. E justamente em razão dessa duplicidade de direção (infinitamente grande e infinitamente pequeno) que é chama da “Díade infinita” ou “indefinida” e. Atendendo à exatidão de vemos dizer que seria em si mesmo inexato falar de dois Princípios se dois fosse compreendido em sentido aritmético. Metafísica. ao menos nos níveis mais altos (isto é. até as coisas das quais se falou De tudo o que se disse aparece claro que os princípios dos corpos que podem ser captados somente com o pensamento devam ser incorpóreos. pp. escolhemos até como epígrafe do tratamento da filosofia pré-socrática nas suas origens (cf. [ Os princípios dos seres são. Com efeito. observamos que a “Díade” é Princípio e raiz da multiplicidade dos seres. Cf. 1. Com uma terminolo gia mais específica e técnica. como causa formal. Tes. obviamente. Os dois Princípios são. Metafisica. Piar. atra vés da geração. pois. assim como o Uno. 22 A = Krarner. trate das coisas sensíveis ligando-as às Idéias [ nível] e essas. produz a multiplicidade das coisas em todas as suas formas. dizia justamente isso: “I de todas as coisas o um e do um todas as coisas” (Diels-Kranz. 30 Kr 8). considerada em conjunto com outra ou com muitas outras se diz duas. Contra os Matemáticos. não é o número um. 45). 344 d. a diferença. 1078 b-I079 a. 258 e 262 (Gaiser.

50). desde a ori gem. como foi bem observado. toda divindade tem uma outra divindade polarmente contraposta como. 12. Sobre esse tema Platão será levado a apresentar um esboço nos escritos. os Deuses e as forças cósmicas se dividiam em duas esferas lO. mas de “polarismo” ou de “bipolarismo”. “A forma polar do pensamento vê. do indeterminado e do indefinido ou. na dimensão metafisica. In Arist. em particular nos níveis teológico. no âmbito das quais os pares se excluem ou então. como unidade. se destroem ou. 156. In Pia!. em pares de contrários. Platone. dizen do que o Uno é “melius ente” mas Platão decidiu-se a dar-nos a mais notável amostra desse ponto justamente no maior dos seus escri tos. 155s. Klibansky-Labowsky. Leiamos suas conclusões sobre esse tema. Se se examina a expressão mais acabada da teologia grega tal como contida na Teogonia de Hesíodo. onde expressamente se define o Bem como Tr Tf ot’IGías’ Ao invés. ligados pelo nexo bipolar e a con seqüente concepção do ser (em todos os níveis. Mas. 13-16 Diels (Gaiser. E esse o fuicro da protologia platônica: o ser é produto de dois princí pios originários e é uma síntese. finalmente. Esses pares de contrários da forma polar de pensamento são fundamentalmente dife rentes dos pares de contrários da forma de pensamento monística ou da dualista. modela e organiza o mundo. os contrários de um par não somente . pp. de limitante e ilimitado. as características da “amorfidade” e da “forma” as quais. oposto polarmente” ao Olimpo. sobre o status da Díade como não-ser. Parm. Tes!. resumem a totalida de do real. Além disso. ou seja. 88 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL AS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 89 entes que derivam da atividade do Uno sobre a Díade são uma espé cie de síntese que se manifesta como unidade-na-multiplicidade. pp. Apoio. Nesse caso.. protetora das partu rientes. opostas. derrotados por Zeus. a característica típica do modo de pensar dos gregos em todos os níveis. Apoio tem polarmente contraposto Dionísio. entendendo o “dois” em sentido prototípico. um misto de unidade e multiplicida de. Cf. do modo grego de pensar. de-terminação e de-finição do ilimitado. 248. Também a segunda fase da teogonia. Test. Pia!. Kràmer. indefinida e não-ser em virtude da negação do ser. São esses a forma com a qual o mundo se apresenta ao espírito grego e com a qual ele transforma e concebe em ordenamentos e como ordenamentos a multiplicidade do mundo. por exemplo. de equalização do desigual Os 9. Com ela nada tem a ver nem o princípio. Pia!. p. 509 b. Cada um dos Deuses se mostra como um misto de forças com um caráter polarmente oposto. nota 6. Phys. há mais. seria mais exato falar não de dualismo. reconcilian do-se. ou seja com o ad vento do reino de Zeus e dos Deuses olímpicos. parte que nos chegou apenas na tradução de Guilherme de Moerbeke (Gaiser. informe. essa concepção fun damental se mostra bem evidente. como estando abaixo do ser. Artemis tem como polarmente con traposta Afrodite. justamente com essa oposição. concebe.podem ser aplicados aos Princípios senão em sentido metafórico.. em geral. na forma polar de pensamento. notar-se-á que. Simplicio. cessam de existir como contrários [ Ao contrário. por exem pio.. tem mesmo como simbolos típicos a doce lira e o arco com as flechas cruéis.. filosófico e moral. Sobre o status do Uno pensado como acima do ser é escassa a documentação da tradição indireta. VI. 31 Kriimer. 2. Essa concep ção dos dois Princípios supremos. e os documentos na p. de determinante e indeterminado. República. Deve-se falar de dois Princípios. Artemis é virgem e. com batendo-se reciprocamente. Proclo. 38ss.. a tese que estamos defendendo. segundo nos pare ce. encabeçadas pelo Caos e por Gaia e tendo respectivamente. Assim. que se ajustam de maneira perfeita à ordem de pensamentos que estamos desenvolvendo e comprovam de modo eloqüente. e assim por diante Por isso Paula Philippson afirmou justamente que “a forma po lar” é a estrutura de base da teogonia grega e. Disso fala um testemunho.. II. 13). como parece que Platão tenha dito. e assim por diante. é-nos dito: Tal coisa é chamada instável. sobre a significação do status metafisico do Uno (que coin cide com o Bem) entendido como acima-doser voltaremos mais adiante interpretando as afirmações platônicas que se encontram na Repúbli ca. Os Titãs. juntamente. em particular no Filebo. que é uma definição e de-terminação do indefinido e indeterminado. na medida em que um Princípio exige estruturalmente o outro. nem a essência. são precipitados no Tártaro que é o “contramundo. do mais alto ao mais baixo) como uma “mistura” de estrutura sempre bipolar refletem de maneira perfeita.. mas move-se numa situação de desordem Mas sobre um ponto é necessário que insistamos. O ser como síntese (mistura) dos dois Princípios A ação do Uno sobre a Díade é uma espécie de de-limitação.

etc. (Gaiser. Plai. cavalo. com o título Origini e forme dei mito greco. 43 e 44 = Krãmer. conveniente-inconveniente. Alguns põem como princípios ímpar e par. na verdade. os une — serem parte de uma unidade maior que não pode ser definida exclusivamente a partir deles: para exprimir-se em termos geométricos. Essa divisão categorial é atestada por boas fontes’ de modo bastante amplo e aparece também claramente nos próprios diálogos.. na sua mais íntima existência lógica. apresentou também uma divisão categoria! de toda a realidade com o escopo de demonstrar como todos os seres devam ser efetiva mente referidos aos dois Princípios enquanto derivam da sua mescla.) Os seres se subdividem em: 2a) opostos contrários (ex. Para concluir: a teoria platônica dos Princípios. que têm estrutura numérica e. etc. Origini. 3. sobretudo tal como era expresso nos Sete Sábios e nos poetas gnômicos. Tese essa da qual Aristóteles se ser virá amplamente na sua célebre doutrina das “virtudes éticas”. Ora. isto é. Philippson. passim. 247. na verdade. como Aristóteles reco nheceu da maneira mais explícita e justamente com relação ao pen samento filosófico: Além disso. representa.. perderiam seu próprio sentido.: homem. no entanto. mas são. o repouso ao uno e o movimento ao múltiplo. 263ss. Sobretudo por Sexto Empírico.. eles são pontos de uma esfera perfeita em si mesma. 27-31). além de iluminar as linhas de fundo das “Doutrinas nãoescritas”. nos quais essa polaridade e síntese estrutural dos princípios opostos se mostra evidente. Esse sentido consiste exatamente no fato de eles.. As máximas “usa com medida”. Test. ao uno e aos muitos. Subdividem-se em: seres por si (ex. Simplício. trad. ou seja. alto-baixo. em conseqüência.. 32 = Kr 12). ital. ter ra. pp. X. água. amizade e discórdia. quente e frio. Untersuchungen über den griechischen Mythos. todas as coisas. Eis o esquema sinótico: 2) seres que estão em relação com outro. foi no seu seio que se formou a visão grega do divino” A concepção polar da qual estamos falando constitui. “a medida é a melhor coisa” pressupõem de maneira exata e essencial um “limite” oposto a um “i-limite” (esse último constituído pelo excesso e pelo defeito). todos põem como princípios os contrários. imóvel-movido. exprimindo verdadeiramente o símbolo supremo da espiritualidade da cultura grega. Ver P... justamente com as características que acima ilustramos. In Ans Phys. ou ló. uma visão sintética polarmente conotada. Por isso. 65s.. um eixo de sustentação do pensamento grego. Essa forma polar do pensamento informa necessariamente toda objetivização do pensamento grego. poderíamos também chamar a atenção naturalmente para o pensamento moral dos gregos. 31 Kr 13). enfim.. uma das duas séries dos contrários é privação. outros ainda limite e i-limite. a dou trina filosófica mais elevada e o modo mais típico e profundo do pensar em geral dos gregos e igualmente do seu imaginar e sentir. exatamente 13.. Zurique 1944. . Contra os Matemáticos.: igual-desigual.. direito-es querdo.. a modo de comprovação.) 2b) correlativos etc. Outros. por exemplo. bem como as Idéias. Boringhieri. No entanto. “o melhor está no meio”. pp. portanto também os princípios dos outros filósofos se reduzem inteiramente a esses dois géneros’ Além do pensamento filosófico. Diels (Gaiser.estão entre si indissoluvelmente unidos. Pia!. Plai. como argumentação essencial de confirma ção. Tesi. Philippson. está também nos fundamentos da posterior doutrina das categorias de Aristóteles (que dela recebe uma inspiração fundamen tal. Platão não se limitou a essa dedução e. 30s. como os pólos do eixo de uma esfera. e todos os contrários se podem reduzir ao ser e ao não-ser. como contrários — do mesmo modo que o eixo que os separa e. Turim 1983. com efeito. Trata-se de uma argumentação de extrema importância teorética e histórica porque. A divisão categoria! do real Dos dois Princípios supremos derivam os Números ideais. 90 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL AS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 9’ polar..) (ex. E também todos os outros contrários se reduzem man(festamente ao uno e aos muitos (pressupomos essa redução já por nós levada a cabo em outro lugar). embora a oriente em diferente direção).: grandepequeno. várias passagens de Divisiones Aristoteleae (Gaiser. condicionados pela sua oposição: perdendo o pólo oposto eles seja. quase todos os filósofos estão de acordo em admitir que os seres e a substância são consti tuídos por contrários. 14. “nada em demasia”. Test.

Ulte riormente o “igual” refere-se ao Uno pela razão de que o Uno repre senta o igual a si mesmo de maneira primária. portanto. Números ideais e estrutura numérica do real Outro ponto que sempre representou grave obstáculo à compreen são da protologia platônica é constituído pela doutrina dos números ideais e pela típica redução platônica das Idéias a Números. na vida e na morte. Reale. Krãmer.. para os opostos correlativos.. pois. da Dualidade indeter minada). pp. 1 59s. refere-se. pp. por exemplo. enquanto cada um dos termos pode crescer ou decrescer e. mas teve lugar depois dela»’.15.. não estando a sua relação recíproca definida estruturalmente.. especialmente. O primeiro dos membros dessa série não está submetido ao “mais ou menos”. 94 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA SENSÍVEL 4. analogamente. Wilpert. entre o mais e o menos há no meio o suficiente. 24s. enquanto em outros entes prevaleça a ação do segundo (ou seja. em face de Idéias absolutamente gerais. Plarone. o que é movido pode ser mais ou menos movido. Gaiser. e toda coisa é dife renciada. pp. 1004 b 27-1005 a2. Arete. Gaiser. O mesmo vale para o “alto e baixo” e para os outros correlativos.. Idee und Z Studien zur platonischen Philosophie. Enfim. e assim também o segundo.. ou seja. não há direita se não há esquerda. Esses seres são colocados sob o gênero do “excesso-e-defeito”. QueI/enkritische Probleme der indirekien Platoniiberliefrrung. assim como o que é inconveniente pode ser mais ou menos inconveniente. E o mesmo vale. pela ação adequada do Uno). ao contrário. ou seja. O proceder dessa distinção categorial dos seres fundamenta-se sobre um esquema de relações típico do mundo ideal. deve-se notar que essa distinção categorial e. Por exem plo.. por que tudo o que é posterior aos Princípios implica mistura e síntese de ambos... e o desa parecimento de um dos contrários coincide com o produzir-se do outro (pensemos. 31-84 e. também no seu diferente grau de prevalência sobre o Princípio opost& 1 7. os segundos.. Em todo caso. os correlativos são caracterizados pelo coexistir e pelo desaparecer juntamente (não há alto se não há baixo. entre móvel e imóvel). enquanto o segundo o está. Platone. os primei ros não admitem um meio termo (não há meio termo entre vivo e morto. 2b) Os seres que constituem pares de “correlativos” implicam uma referência ao “excesso” e ao “defeito”. os contrários não podem coexistir simultaneamente.. essas diversas categorias não são puras distinções lógicas e abstratas. 261ss. que sobe das espécies aos gêneros.. 92 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL AS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 93 À primeira vista pode surpreender a distinção entre contrários (2a) e correlativos (2b). o conveniente não pode ser mais ou menos conveni ente. O primeiro estudioso que explicou devidamente e reavaliou essa doutrina foi P. ou seja.. Mas os primeiros distinguem-se nitidamente dos segundos: com efeito. pp. antes.. Por exemplo. tornar-se “mais” ou “menos”. ao Princípio da Díade indefinida. portanto. in: AA. a unidade permanece o constitutivo ontológico fundamental. Regensburg 1949. Tal síntese implica. Sabemos que essa conexão entre as Idéias e os Números ideais não coincidiu com a descoberta da teoria das Idéias. o “de sigual”. quando . os contrários. 63ss. E veros símil que tenha acontecido juntamente com a formulação sistemática e global da teoria dos Princípios. Platons. implica também o excesso e o defeito. no par “grande e pequeno” o primeiro termo pode ser “mais ou menos” de quanto é em determinado momento. Encontramo-nos. dado que ambos são seres-em-relação-a-ou tro. Ver.. seja em nível geral.. pela concepção das Idéias como Idéias-Números. Metafísica. no móvel e no imóvel).ften über die Ideenlehre. 2a) Os seres que estão entre si em relação de “oposição de con trariedade”. devendo ser referido ao Princípio da Díade indefinita. obviamente.. Heidelberg 1968. pp. Ao contrário. o admitem (entre o grande e o pequeno há no meio o igual. Zwei ariswtelische Frühschr. E o “excesso-e-defeito” sabemos.VV. entram nos gêneros do “igual” e do “desigual” (diverso). 282-379. isto é. Krãmer. sempre em direção ao mais universal. do Uno). enquanto o imóvel não pode ser mais ou menos imóvel e. Com efeito. Com efeito. definidos e determinados. segundo a gradação seguinte: 1) Os “seres por si” (ou substanciais) caem sob o gênero da Unidade. mas sim conhecimento da própria estrutura do ser. r 1. Anstóteles. Além disso. ademais. pp. 73-88. definida e determinada justamente na medida em que é una (ou seja.. seja em nível particular. l77s. como É quase desnecessário observar que a redução aos Princípios acima exposta não implica que alguns seres dependam somente do primeiro princípio e que outros dependam somente do segundo. enquanto implica o mais ou o menos. ao contrário. 438ss. esse tipo de relação funda-se na indeterminação dos dois termos. e assim por diante). entre o agudo e o grave há no meio o harmônico). que em alguns seres prevaleça a ação do primeiro Princípio (ou seja. os seres em si ou substanciais são seres perfei tamente diferenciados.

O. de logoi. multiplicidade indeterminada e ilimitada de grande-e-pequeno. cf. um olhar de natureza igual à daquele com que b) Cada Idéia não se reduz a um Número exato. ou subtrair a essência do dois da essência do três. Para explicar a teoria das Idéias e a dimensão “visual” que ela implica. 244s. para os gregos. como tais. Cada Idéia está numa posição exata no mundo inteligí vel. Os números ideais não multiplicam os entes além do verossí mil. Além disso. ou mal-entendidos dos discípulos. 3-33.. por exemplo. mas os metafisicos: isto é. para os gregos resulta perfei tamente natural traduzir as “relações” em “números” e indicar com números as relações. uma conexão estreita. mas constituem a essência dos números. por Gaiser e por Kr pp. o Dois como essência da dualidade. Essa trama de relações pode ser reconstruída e determinada mediante a dialética e. Os Números são as essências dos números matemáticos e. na concepção do número como “proporção” (logos) reside a chave para se poder ler e com preender esse ponto verdadeiramente muito delicado das “Doutrinas não-escritas”. AS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 95 a) Entre Idéias e Números.Platão mostrou-se capaz de dotar a teoria das Idéias com a fundação protológica. assim como a doutrina dos Princípios primeiros. na sua versão teorética. são. Essa tese foi acolhida e difundida por J. o que dissemos in Platone. mas não uma samente que Platão. agora na coletânea de vários estudos organizada por O. o Três como essência da trialidade. Aristóteles. Zur Geschzchte der griechischen Mathematik. de analoghiai. pp. segundo sua maior ou menor universalidade e segundo a forma mais ou menos complexa das relações que mantém com outras Idéias (que estão acima ou abaixo dela). Becker. 1078 b 7-12. representa um vértice metafísico que revela. 96 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSlVEL AS DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS’ 97 Uma vez explicado exatamente esse ponto. a saber. Os Números ideais dos quais nos ocupamos não são os números matemáticos. in “Queilen und Stud. isto é. Stenzel. sobretudo. justamente pela razão de que não represen tam simplesmente números. Aristóteles nos diz expres 19. Um primeiro esclarecimento evitará uma série de confusões e equí vocos. Os Números ideais constituem modelos ideais supre mos. diferente do que cabe aos números matemáticos. pp. eis a solução do problema. P. não tem sentido somar a essência do dois com a essência do três. pelas razões já explicadas. Se assim é. uma das cifras mais emblemátícas do espírito dos gregos. Tüplitz. 45-75. que é uma grandezas e de frações de gran dezas.. ele subordinava à Década e articulava com ela os processos dedutivos de todos os outros números. ou seja. A essência do Número ideal consiste numa determinação e delimitação específica produzida pelo Uno sobre a Díade. Tal doutrina é própria dos pitagóricos e. Também essa doutrina. Darmstadt 1965. sem uma razão adequada. Com efeito. Platão não segue uma via de caráter aritmológico ou aritmosófico. Tõplitz demons trou que. o número é pensado sempre não tanto como número inteiro. Por conseguinte. justamente por causa dessa conexão que vigora entre número e relação’ Com base nessas explicações. e assim por diante. também. e. dos neopitagóricos. e compreendia todos os outros números como logoi no sentido acima explicado. O. a estrutu ra sintética de unidade-na-multiplicidade que caracteriza todos os di ferentes planos do real e todos os seres em todos os níveis. são “nãooperacionais”..en zur Geschichte der Mathematik. Conseqüentemente. não podem submeter-se às opera ções aritméticas. e não se mostra condicionado por uma espécie de mística numérica. paradigmática.. 1 (1929/31). há identificação ontológica total. ou ainda como pura abstração conceptual. pode ser expressa “numericamente” (dado que o número exprime justamente uma relação). Cf. como uma espécie de grandeza compacta. Friediánder escreveu (como antes já lembramos) que “Platão possuía f.] o olhar plástico do heleno. enquanto o caminho apresenta um caráter fortemente racio nalista. 18. “avançava até a Década” Portanto. Das Verhàlrniss von Mathematik und !deenlehre bei Plato. M 7. seguido por Platão c) Essa doutrina platônica não pode ser interpretada com base no conceito moderno de número inteiro que exprime determinada quan tidade. longe de representar desvios do pensamento de Platão. Portanto. na geração dos números ideais. e assim por diante. Provavelmente reduzia os números inteiros (mas esses também concebidos de modo articulado) à Década. o logos grego se mostra essencialmente vinculado à dimensão numérica e significa fundamen talmente “relação”. Wilpert. podemos esclarecer uma série de pontos-chave em vista da compreensão dessa difícil doutrina. os Números ideais são apresentados como “primeiros a serem gerados” porque (como foi bem observado pelos estudiosos) eles representam em forma originária. e sim como uma relação articulada de . Astronomie und Physik”.. Eles têm um status metafísico. Metafísica.

justamente.. PlatSo afirma que. sobre um “cânon” (correspondente ao fomos. muitos triângulos iguais e muitos de todos os tipos dos quais se fala nas demonstrações). Lembremos. A fonte teorética dessa doutrina deve . tal consideração se aplica justamente. porque as operações aritméticas implicam muitos nómeros iguais e as operações e demonstrações geométricas implicam numerosas figuras iguais e múltiplas figuras que são variações da mesma essência (por exemplo. e com mais razão. mas também com as figuras geométricas.. transferir tudo isso ao plano alcançado pela “segunda navegação” de Platão. mas via. 15). os números e as grandezas com os quais se ocupam a aritmética e a geo metria não podem ser os Números ideais nem as Grandezas ideais. a célebre representação que se tomou clássica. segundo nos parece. 1 98 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL AS ‘DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 99 e eternos. são imóveis e eternos como o são as Idéias (e os Números ideais) e. existem os entes matemáticos intermediários (pETaE entre uns e outros. por exemplo. 13 (trad. Haia-Paris-Varsóvia 1970 (trad. A “forma (= Idéia)” que de várias maneiras é realizada nas artes plásticas. FriedUinder. o número e a relação numérica. entra perfeitamente no quadro geral do pensamento platônico. 22. para além dela algo ulterior. na Grécia. os quais ocupam um lugar ontologicamente “intermediário” (liETa isto é. podia ser reduzida. há deles muitos da mesma espécie. As realidades matemáticas Explicamos que os Números ideais (assim como as Idéias que. em nível metafísico. enquanto cada um dos Números ideais é único assim como é única cada uma das Figuras ideais. Tatarkiewicz. Mais ainda. ver as excelentes páginas de W. Einaudi. a perfeição da figura e da forma retratada na escultura era ligada não só às relações numéricas das partes entre si e das partes com o todo. 61 e 62). designada com a expressão homo quadrarus (em grego avi tetpa’ que incluía de modo perfeito o homem num quadrado e esse num círculo. Aristóteles. daqui lo que os artistas gregos exprimiram com as suas criações. O olhar plástico dos gregos não via a Forma ou Figura (Idéia) como algo de último. a) Os números sobre os quais a aritmética trabalha não são sensíveis. como demonstram as ciências que se ocupam com eles. mas que. isto é. por que são imóveis e eternos. Os entes matemáticos são como as realidades inteligíveis. juntamente com os sensíveis e com as Formas [ Idéiasl. Piaton. vol. As Idéias que exprimem as formas espirituais e a essência das coisas não são a razão última das coisas. Também na arte da cerâmica dos vasos existiam cânones expressos em proporções numé ricas que regulavam as relações entre altura e largura. Cf. Estes seres matemáticos são “intermediários” na medida em que. Eis um importante testemunho de Aristóteles: Além disso.. portanto. M 8. Turim 1979). um caráter fundamental das Idéias e um caráter típico das coisas Sensíveis. e justamente por isso são “intermediários”. à lei que regulava a música) e que exprimia (contrariamente ao que vigorava no âmbito de outras civi lizações) uma “regra de perfeição” essencial que os helenos indica vam por meio de uma proporção perfeita. Com efeito. à redução das Idéias a Números como a arte dos gregos no-lo demonstra de maneira perfeita. ao passo que cada Forma é somente uma e indivídua Eis uma doutrina que surpreende à primeira vista. agora. passim. nos Princípios supremos. amplamente utilizada também nas construções dos edifícios e das estátuas As conclusões às quais desejávamos chegar são as seguintes. ao mesmo tempo. ital. podem ser todas qualificadas como Idéias-números) são muito diferentes dos números e dos objetos matemáticos em geral. mas supõem algo ulterior que consiste. e diferem das Formas porque deles há muitos exemplares. ital. a arquitetura e a escultura fundavam-se. 21. 1: Ancient Aesthitics. X 8. a saber. 5. de um lado. possuindo uma estrutura numérica. tendo como centro o umbigo. b) Por outro lado. Metafísica. 1084 a 12-b 2. Tes:. que se podia exprimir de maneira exata com números. Sobre esses temas. nos Números e nas relações numéricas e. Piar. do outro.Policleto viu o cânon [ e também da mesma natureza daquele que o matemático grego dirigia às puras formas geométricas” Ora. 1073 a 18-22 (Gaiser. Tendo-se presente isto ficam bem explicadas as conclusões pla tônicas acerca da existência de entes matemáticos que possuem carac terísticas “intermediárias” entre o mundo inteligível e o mundo sen sível. ao mesmo tempo que são análogos às realidades sensíveis porque deles há muitos da mesma espécie. Platão os introduziu pelos motivos seguintes. p. um lugar que está no meio entre os entes ideais e os entes sensíveis. dos quais derivam os números e as relações numéricas. p. a proporção numérica e a número. Têm portanto.. History of Aestheuics. desse modo se conseguirá a correspondência perfeita. de fato. mas sim inteligíveis. e procediam do mais simples a outros mais complexos que espelhavam a proporção da seção áurea. Procure-se. para os gregos. os quais diferem dos sensíveis porque imóveis 20.

Metafisica. Gaiser afirma o seguinte: “ justamente porque as rea lidades matemáticas em senso estrito estão no meio da estrutura do ser e aqui reúnem manifestamente em si as propriedades opostas do que é subordinado e do que é supra-ordenado. p. 2. Diels-Kranz. 89. Platons. A 6. A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 101 W. 28 B 3. . Plat. mas. já que ela constitui uma marca fundamental do sistema. e nenhum filósofo pode pó-las à parte e escondê-las. Test. exemplares. assim. mas. 26. e assim por diante — requeridos pelas operações e demonstrações geométricas). justamente porque nenhum filósofo possui as verdades fundamentais como coisas exteriores. é possuído por eles e não pode não exprimi-los. por conseguinte. Com toda razão.buscar-se na convicção muito enraizada em Platão da correspondência estruturalmente perfeita en tre conhecer e ser (“a mesma coisa é o conhecer e o ser” segundo a qual a determinado nível de conhecimento de determinado tipo deve necessariamente corresponder um determinado nível de ser.. Os juros pagos por Platão na “República” em torno ao Bem e a divida deixada aberta Na passagem de Hegel acima citada’.. trata-se dos muitos números semelhantes requeridos pelas operações. 22 A = Krãmer. em chave analógica. diz-se (e com fundadas razões) que o filósofo não é dono dos próprios pensamentos como de coisas exteriores. mas “aludir” com uma série de referências que se tornam.. com o fito de preparar a mentalidade dialética. deve corresponder um plano que possua as respectivas conotações ontológicas (no nosso caso. 987 b 14-18 (Gaiser. superior ao ní vel do conhecimento sensível. consideradas no seu complexo. Eis o que justamen te se verificou por sua vez no caso de Platão: com efeito. 22 B 93... Resta. na medida em que matemática e metafísica permanecem bem distintas. Portanto. Gaiser. Platone come scrittore. ele fez uma série de referências e alusões a elas e até de modo cada vez mais freqüente. p. 24. o fragmento citado de Heráclito está em Diels-Kranz. no entanto. mas também sobre um fundamento objetivo. supra. justamente à luz do que a tradição indireta nos transmitiu sobre as “Doutrinas não-escritas” e que muito nos ajuda a entender aquele “dizer” e “não dizer”. a saber. p. nos princípios gerais do ser” Em uma palavra: Platão não matematizou a metafísica. 25. é possível ver igual mente no âmbito dos objetos matemáticos um Modelo de toda a rea lidade” Naturalmente trata-se de um “modelo” em sentido analógi co. em última instância. 23-24.. Konrad Gaiser cunhou uma imagem muito bela que exprime excelentemente o sentido e a estrutura do modo de falar e de exprimir-se por escrito de Platão: “O leitor [ deve esforçar-se por captar a verdade nesses escritos não diversamente de como se esforça para entender as sentenças dos orá culos. as leis matemáticas não têm seu fundamento no âmbito matemático.. “a estrutura do ser ele mesmo não é de modo especial de tipo matemático. pois. E o famoso fragmento de Parmênides. pp.. Sobre o problema. Além disso. Gaiser. mas.. ela proporciona um ótimo encaminhamento para conhecer a própria realidade. um esforço pessoal não somente levado adiante sobre bases subjeti vas. nele estão sempre contidos os conceitos fundamentais. Platons.. E isso explíca perfeitamente o importante papel cognoscitivo que Platão atribuía à matemática na Academia. Aristóteles. Gaiser. das muitas figuras seme lhantes — os muitos quadrados. Cf. A METAFÍSICA DAS IDÉIAS À LUZ DA PROTOLOGIA DAS “DOUTRINAS NÃO-ESCRiTAS” E AS ALUSÕES DE PLATÃO À DOUTRINA DOS PRINCÍPIOS 1. a matemática. 89. utilizou metafisicamente. os muitos triângulos. 9). Qualquer que seja o seu modo de manifestar-se. mas deixa entender por sinais’ (o Àéy OôTE XpÚTTTEI. ao contrário. Essa “Doutrina não-escrita” é essencial para compreender a es trutura gnosiológica platônica que se encontra nos Diálogos (em particular na República). ver a bibliografia no volume V. o fato de que hoje podemos entender essas vigorosas alusões e essas referências contínuas unicamente apoiados nos “socorros” trazidos pela tradição indireta. por estar totalmente possuído por elas. embora mantendo a determinação rigorosa de calar algumas coisas (ou ao menos de não exprimi-las expressis verbis). também nos seus escritos (como igualmente na dimensão da oralidade). XÀix c3flp São textos cuja significação se manifesta ao leitor somente por meio da interpre tação e de um esforço pessoal de assimilação” Naturalmente trata1. Aos diálogos platônicos pode-se aplicar o que Heráclito disse do Deus de Delfos: ‘Não afirma nem esconde. 23. ao contrário. mas inferior ao nível do conhecimento dialético. Com efeito. fundou metafisicamente e. ao nível do conhecimento matemático. 299.

muitos assim procedem em razão da sua indolên cia. companheiro. Os livros centrais da República contêm um tratado Sobre o Bem que vai diretamente ao núcleo das temáticas reservadas. disse eu. a medida completa (ou seja. respondi eu. em vista da sua explicação completa. o que seja cada uma dessas virtudes? — Se não me lembrasse. disse eu. Em primeiro lugar. à dimensão da oralidade. — Mas. E acho que é esse o caso. — Mas esses não são os objetos mais altos ( ou há ainda algo superior à justiça e aos objetos sobre os quais discorremos? — Sim. E então respondestes que isto era o suficiente. em geral. algumas vezes parece a alguns que isto seja suficiente e que não se deva pesquisar mais adiante. uma medida justa ( com efeito. tratando da justiça. — E justamente isso que deve evitar. todas as coisas) derivam o seu ser úteis e proveitosas. Esse é o toda a sua clareza. isto é. já o ouviste repetidas vezes. e assim permaneceu o que naquela ocasião se disse. da fortaleza e da sabedoria. mas agora. parece-me que foram ditas segundo a medida justa (t e assim também pareceu aos outros. assim é. a meu parecer com pouca exatidão. e o jogo do não afirmar nem esconder. disse ele. obraprima que resume todas as conquistas de todos os escritos platônicos anteriores e lança as bases das que hão de vir. depois de ter explicado que. meu caro. ele deve andar pelo caminho mais longo e esforçar-se no aprender tanto quanto nos exercícios ginásticos. mais que todos o guardião da cidade e das leis. ele disse. Ao invés. ao contrário. mas cabe a ti perguntar. disse eu. disse. ao ciclo de lições ministradas por Platão no interior da Academia e. a conquista uma fadiga não desprezível. “muitas vezes”. os livros centrais da República deveriam concentrar-se justamente sobre a definição dessa Idéia. deverse-ia empreender uma volta maior. na verdade. mas que também era possível articular as de monstrações seguintes ao que fora dito antes. do máximo rigor e exatidão. mas dizer por meio de uma série de alusões torna-se verdadeiramente paradigmático. — De fato. da qual a justiça e a virtude (e. da temperança. de que depois de ter distinguido as três formas da alma delas deduzimos. — Quanto a mim. disse eu. que implica um grande empenho e “conhecimento máximo”. nada de imperfeito pode ser me dida ( do que quer que seja.Comecemos pelo exemplo mais significativo constituído pela República. a vós cabe agora dizêlo. com efeito. Platão remete-o a outra ocasião e a um plano diferente. disse ele. Mas. Dela deriva todo valor axiológico. não seria digno de ouvir o resto. Eis a passagem muito significativa: 02 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFISICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 103 — Lembra-te. que a Idéia do Bem (i TofJ àycxOo0 i seja o conhecimento mais excelente (I á já o ouviste muitas vezes e é servindo- conhecimento da Idéia do Bem. caso contrário. esclarece que esse justamente é o “conhecimento máxi mo” e para chegar até ele é necessário percorrer um “longo caminho”. sobre a definição da essência do Bem em si e por si. — Assim. para poder vê-las do modo mais belo. De qual quer maneira. como acabamos de dizer. as “muitas vezes” nas quais Platão falou dela referem-se obviamente à “oralidade” (ao tê-la “ouvido” justamente nessa dimensão). jamais chegará ao termo dessa ciência que é a mais excelente e a que mais lhe convém (Toõ 1EyÍOTOU TE xcxí l 1Tpoa iaOi’ú1aToç). disse ele. ou pretendes causar-me embaraço fazendo objeções. — Naturalmente. ou não refietes sobre isto. — E também do que foi dito antes delas? — O quê? — Dizíamos a certa altura que. uma medida ( de coisas dessa natureza que deixe de fora uma parte qualquer do ser não é. Platão. Conseqüentemente. No entanto. A conti güidade entre o escrito e o não-escrito nesses livros mostra-se funda mental. a respeito desse conhecimento supremo e de tudo o que a ele diz respeito. mas pensas que. a medida suprema) e que é necessário avançar além daquilo que ele expôs nos primeiros cinco livros. haja alguém que te deixará ir adiante sem perguntar o que é? Certamente que não. se para vós foi suficiente. respondi. para compreender a fundo a natureza da justiça e da virtude é preciso alcançar a justa medida ou. portanto. mais exatamente. diz ao interlocutor que este “ouviu” dele a doutrina do Bem “não poucas vezes”. e como ne nhum diálogo anterior à República fala da Idéia do Bem. pois. existe algo mais alto e esses mesmos objetos não convém considerá-los apenas em esboço como fizemos agora e transcurar a contemplação do quadro perfeito. ao termo da qual elas nos aparece riam em . Ou não seria ridículo esforçar-se em vista de coisas de pouco valor para que tenham toda a perfeição e nitidez possí veis e não entender que o que é excelente merece também uma exatidão perfeita — Sem dúvida.

como o Sol produz a faculdade de ver própria da visão. já que com o Bem se toca justamente o núcleo das doutrinas apresentadas na República e. como trataste da justiça. Com efeito. que tem como centro exatamente esse tema. por conseguinte. de poder pagá-la e de ser cobrado por vós e não limitar-me. eu não Evidentemente essa referência ao que é “ouvido” não é bastante. República. não te afastes agora que estás quase no fim. Quando os olhos vêem as coisas na obscuridade da noite vêem pouco ou nada. 504 a-505b. isto é. porque apresenta a se melhança mais clara e mais bela que. E o caminho escolhido por Platão foi verdadeiramente o mais belo. portanto. e. para dizer que o que é aqui apresentado é justamente um juro-fruto do Bern e. Platão deve revelar o suficiente. aqui. disse ele. Mas a vista não é da mesma natureza do Sol. sabes que daí não nos derivaria vantagem alguma. pela luz. ao menos em certa medida. Sócrates. para dar um sentido ao seu texto escrito.-se dela que a justiça e tudo o mais se tornam úteis e proveitosos. a visão recebe a sua capacidade do Sol e. respondeu ele. quando fita o que está misturado com escuridão. com grande habilidade artística. acrescentando que não conhecemos essa Idéia suficientemente. ao passo que. entre os órgãos dos sentidos. sob muitos aspectos. tomou-se uma das mais famosas ou mesmo a mais famosa. Mas temo não ser capaz disso e que meu zelo despropositado me torne ridículo. E também agora sabes bem que é isso mesmo que estou dizendo. quando vêem as coisas iluminadas pelo Sol. — Ficaremos. nos livros centrais da República serão pagos somente os juros. disse eu. ela pode ver também o Sol. Mas ficai atentos para que involuntariamente eu não vos engane prestando-vos uma conta errada dos juros. portanto. ao contrário. quando contempla o que é iluminado pela verdade . quanto a ti cabe apenas falar O “filho” do Bem (ou seja. disse ele. exerce com relação à visão e ao visível. que exatamente por essa razão foi apresentado como sendo o “filho” do Bem. é capaz apenas de opinar e fazer conjeturas e quase parece não ter inteligência. vêem-nas com clareza e a vista assume o seu papel adequado. ela é a mais semelhante ao Sol e recebe do Sol a própria capacidade e o próprio poder. VI. se não. a) O Artesão dos sentidos (o Demiurgo dos sentidos) fabricou da maneira mais preciosa a faculdade de ver e a correspondente de ser visível. justamente por isso. tanto quanto possível. “fruto” em sentido analógico. 3. ou seja. Além disso. no entanto. Assim sucede também com relação à alma a qual. o juro do capital original) é represen tado pelo Sol numa página que. somente aos juros (Tóxouç). deixemos de lado por agora tratar do que seja o Bem em si. 104 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 105 — Também a mim. Eis as palavras exatas de Platão: Por Zeus. enquanto a visão e o visível são unidos por um vínculo de valor maior. se é do vosso agrado. como fazemos agora. companheiro. revela tudo o que Platão quis confiar aos escritos acerca do Bem A comparação é constituída por Platão da maneira seguinte. E se não a conhecemos. na esfera do sensível. introduziu um terceiro elemento para reuni-los. o Bem pode ser explicado por analogia com o Sol. assim ele é visto por ela. ou seja “filho” e. Cada um dos outros sentidos se mostra dire tamente acoplado ao seu objeto. bastaria e muito. com a dupla significação do termo TÓXOÇ que quer dizer “juro” e “fruto”. não conhecendo nada de belo e bom? Por Zeus. por meio de imagens. atentos. seu “filho” que reflete em proporções diminutas o pai. Ora. associa esse termo a xyouoç que quer dizer “déscendente”. desejo falar do que me parece ser o filho ( do Bem. — Gostaria mesmo. a fonte da luz é o Sol. A doutrina completa e exaus tiva Em torno ao Bem permanece como uma grande conta ou dívida a ser paga noutra oportunidade. Portanto. deixemo-lo de lado. o mesmo acontecendo se possuíssemos qualquer outra coisa sem o Bem. disse Glauco. para nós bastará que trates igualmente do Bem. ao passo que. mesmo que conhecêssemos tudo o mais fora dela da maneira mais perfeita. assim como o lucro é proporcional ao capital (para usar uma terminologia moderna). outra vez pagarás a explicação do que seja o pai. Mas. Mas. parece-me tarefa superior ao nosso esforço presente chegar até o que penso a respeito. entre a visão e o visível. — Fala. caríssi mos. mas em medida proporcional com respei to à dívida que será saldada de outra vez. o que nasce e morre. En quanto isso tomai para vós esses juros e esse filho (Tóxou TE xai xyovov) do Bem. o Bem está em relação ao inteligível e à inteligência em função e proporção análogas àquelas que o Sol. Jogando mesmo. b) Ora. da temperança e das outras virtudes. Na esfera do inteligível. Ou crês que é vantagem possuir qualquer coisa se essa posse não é boa? Ou conhecer tudo sem conhecer o Bem. noutra circunstância.

Portanto. balançando as opiniões daqui e dali. eleva-se à sua estatura e à sua função própria. E daí? — Assim também pensa que seja a condição da alma. E como o seria? — Assim. 5. disse ele. Além disso. A Idéia do Bem confere às coisas conhecidas a verdade. — Sabes que quando alguém não dirige a sua vista para aquelas coisas sobre cujas cores não se difunde a luz do dia. E considera-a cognoscível. do conhecimento da verdade) e também do valor de qualquer coisa. Certamente não falas do prazer! Não digas isso. diz somente que o Bem é causa do ser e da verdade (e.e pelo ser. e a quem a conhece confere a faculdade de conhecer a verdade das coisas. E do mesmo modo que é justo pensar que a visão e a luz são semelhantes ao Sol. O Bem vem a ser uma beleza extraordinária na medida em que excede em beleza o conhecimento e a verdade. deves dizer que é a Idéia do Bem que confere a verdade às coisas conhecidas e a faculdade de conhecimento ao sujeito cognoscente. que o Bem . VI. mas não revela o porquê. se volta para o que está mistu rado com escuridão. E como a visão e o que é visto não são o Sol. — Falas de uma beleza extraordinária. tem a vista obtusa. assim também o conhecimento e a verdade não são o Bem. é semelhante mesmo. mas não são o Sol. está acima delas. eis como. o que nasce e morre. mas afins ao Bem. Platão recusa revelar a essência do Bem que. completa a tua explicação. mas são afins ao Sol. vê claramente e toma-se evidente que esses mesmos olhos têm a visão pura. crescimento e nutrição. Qual? — Penso que dirás que o Sol não apenas proporciona às coisas visíveis a capacidade de serem vistas. o texto célebre entre todos: — Portanto. E como tanto o conhecimento quanto a verdade são belos julgarás com jus tiça ao julgares a Idéia do Bem mais bela do que ambos. — De fato. o crescimento e o alimento. 106 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL — Isso mesmo. mesmo não estando ele próprio implicado na geração. logo o conhece e se mostra dotada de inteligência. que o Bem gerou análogo a si mesmo: o que é o Bem no mundo inteligível com relação à inteligência e aos inteligíveis. e é semelhante a quem não possui inteligência. enfim. assim é justo admitir que o conhecimento e a verdade são semelhantes ao Bem. pois a natureza do Bem é ainda superior. disse ele. a vista fica ofuscada e parece cego. — Mas creio que quando a dirige para as coisas iluminadas pelo Sol. A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 107 diz ter em mente. mas estando acima da essência (irríxetva Tf] oúaíaç) em dignidade e poder. fica sabendo que esse é o que chamo filho do Bem. pode apenas emitir opiniões. mas dele igualmente recebem ser e a essência. disse eu. Diz. mesmo não sendo ele geração. República. portanto. na sua parte conclusiva. c) Mas a comparação com o Sol oferece ulteriores indicações. mas causa igualmente sua geração. respondi eu. assim é o Sol no mundo visível com relação à vista e às coisas visíveis. no que toca à beleza. o “filho” e não o pai. e sim superior à essência em dignidade e poder. República. como o Sol está acima da visão e do que é visto. 507 a-509 e. quando. como se não tivesse uma vista pura. aos objetos cognoscíveis dirás que procede do Bem não ape nas o ser cognoscíveis. VI. 4. conhecer. Mas considera a sua imagem da seguinte maneira. o inteligível puro. Como o Sol não somente dá às coisas a capacidade de serem vistas. isto é. Além disso. Isso posto. 506 d-506 a. ao contrário. sendo ela a causa do conhecimento e da verdade. mas que não são o Bem. ou seja. de maneira análoga o Bem não somente causa a cognoscibilidade das coisas. não sendo um “ser” ou uma “essên cia”. mas apenas os clarões noturnos. mas. por analogia com o Sol (o “filho”) o Bem (o “pai”) cumpre a sua função própria essencial e eis o que dela deriva. — Como assim? disse ele. a Idéia do Bem é. Quando volve seu olhar ao que é iluminado pela verdade e pelo ser. — Então Glauco exclamou divertido: Apolo! que superioridade maravi lhosa! Eis em que sentido essas passagens de excepcional importância histórica contêm somente os “juros” do capital original. no entanto. não sendo ele uma essência. Eis. pois ela proporciona ciência e verdade. mas causa igu o ser e a essência. assim o Bem está acima do conhecimento e da verdade. cognoscível. ela mesma. mas também a geração. enquanto tal.

Plotino. Com efeito. a essência desses Princípios e os seus nexos fundacionais. VII. isto é. in Archiv für Geschichte der Philoso phie”. 508 b-509c.. 35-70 (agora no volume organizado porJ. Por conseguinte. 271. r 6. com o nome de Apoio exatamente o “Uno”. sobretudo. Em particular. Reale. 6. Das Problen. a não ser muito parcialmente. mas aludir do oráculo. 184198. O “Parmênides” e a sua significação Outro diálogo que recebe muita clareza com a nova interpretação de Platão é o Parmênides. isto é. os eleatas) e com os seus interesses que não se voltavam para a proble mática do Bem. V. a própria inteligência (que na sua natureza e função é uni-ficante).. 110(1966). ao mesmo tempo. Ver a gama das interpretações que traçamos in Platone pp. Pode-se.“muitos”.. revelar o “quê” significa revelar o “filho” e pagar os “juros”. que pervade as duas passagens sobre o Bem que acabamos de ler): o Bem é o Uno. aos Princípios. . o qual de-limita e de-termina em vários níveis o Princípio oposto da multipli cidade indeterminada. 335ss. e justamente com aquele típico não revelar e não calar. Szlezák.. E1TEKEINA TH OY Zu Platon Politeja 509 b. o mais supervalorizado ou subvalorizado. lO.. unidade-namultiplicidade). mas.. De fato. como a tradição indireta e também os diálogos sucessivos confirmam largamente 2. D 972. fundando-se sobre o alfa (a) privativo e sobre polion (TroÀÀóv.326. seria necessário revelar a essência do próprio Bem Mas o “pai” e o capital original nós os conhecemos somente através da tradição indireta.está acima do ser.. 108 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓcJICA 109 Expressão que significa: UNO (A-pollon)! que maravilhosa superioridade! E para ser compreendido naquilo que queria dizer com essa alu são verdadeiramente emblemática.. Platão assinalou com uma série de referências ao Uno todos os pontos-chave do seu discurso. Platone. e quase todas caíram nos excessos do muito e do muito pouco’°. República. Krãmer.. um dos mais célebres e. mas falar por meio de vigorosas alusões. alcançando nessa passagem um dos grandes vértices da sua habilidade de escritor. E o Uno é superior ao ser porque é a causa do ser (o ser é um “misto” que deriva do Uno como determi nante de um Principio oposto). revelar o “porquê” significaria revelar o pai e pagar a grande dívida Em torno ao Bem. (com as respectivas soluções analíticas). todavia. entender o momento conclusivo da dialética que consiste no “definir” a Idéia do Bem com uma definição que a “abs trai” de todas as outras Idéias (apoiando-se justamente naquele carac terístico não afirmar e não calar. como “Uno” supremo. dos quais revela até mesmo a estrutura bipolar. E isto está em perfeita coerência com os personagens escolhidos (isto é. Enéadas. para fazer isto. pp. Über den Zusaminenhang von Prinzipien/ehre und Dialektjk bei Platon. Krãmer. Zur Definition des Dia/ektikers Politeia 534 h-c. der Ungeschriebenen Lehre Platons. proporção. mas cala o porquê. que quer dizer “muito”) e. pp. harmonização. E Platão conclui sua grande passagem dizendo justamente: APOLO! que maravilhosa superioridade! 7. e também o valor de qualquer coisa (dado que o valor é ordem. portanto entendendo o termo ApoIo como “priva ção”-dos. 51(1969). como nos é transmitido os pitagóricos chamavam simbolicamente. no-lo diz sim bolicamente e por imagem (mas também o confirma de diversas maneiras). 8. ele não revela de maneira alguma a dialética na sua inteireza e. Wippern. foram apresen tadas numerosas interpretações desse diálogo que vão desde aquelas que nele vêem a summa mais notável da metafísica e da dialética de Platão até aquelas que. ao contrário. A essência do Bem é o Uno. 1-30. H. vêem nele um simples exercício escolástico e até com um abundante “matagal lógico”. 293-333. O esquema correto para a releitura do Parmênides é o seguinte: nesse diálogo Platão avança muito ao discorrer sobre o que diz res 9. 394448).P/aton. ver H. Ver o mapa desses problemas que traçamos in Platone. então.. pp.. e o Uno é a medida suprema de todas as coisas. pp. produzindo desse modo o ser (que é sempre uma de-terminação e uma de-limitação do indeterminado). E Platão. Todas essas respostas (conhecimento do porquê) concentram-se na definição do Bem como Uno. pp. pp. Platão silencia até sobre os nexos fundacionais axiológicos (não fala absolutamente do Bem). 31 2ss. Para um aprofundamento. in “Philologus”.. peito ao vértice da metafísica. não revela. a cognoscibilidade de todas as coisas (é cognoscível sempre e tão -somente o que é determinado e delimitado). 5. KrãmerPlatone. pp. Beitrãge zur Verstãndnis der platonischen Prinzipienlehre.

o qual assume pessoalmente o ônus da confutação. a doutrina dos Princípios. É justamente sobre esse problema que Platão chama firmemente a atenção. já o sabemos. E não será certamente o velho exer cício dialético realizado no plano fisico pelos eleatas. contrárias à tese de maneira sistemática e. nela se explica como os célebres argumentos zenonianos pretendiam ser uma prova de reforço às teses de Parmênides. Pois bem. a dialética eleática se desloca. mas deslocando-se a um outro plano com respeito aos pluralistas. mas um novo exercício realizado no plano conquistado por aquela que o Fédon chama “segunda navegação” e que já conhecemos bem. com uma própria e verdadeira metábase. afirmava a unidade e unicidade do ser). Com efeito. Seria bastante grave se as contradições assinaladas no âmbito do múltiplo sensível se reapresentassem na mesma forma ou em forma análoga no novo plano das Idéias. Ora. Este afirmava que o Todo é o Uno (ou seja. rebaixando a causa ao mes mo nível dos causados. nascem de um clamoroso erro de base: tratam das Idéias. ou seja. considerando-a na sua relação a si mesma e na relação ao seu oposto. No entanto é dito que o exercício dialético (aquele exercício de longa duração e de grande empenho que Platão prescrevia na Academia) é a condição para não cair nas aporias que examinamos e para resolvê-las. b) a teoria das Idéias faz surgir aporías. move-se no piaII. para as Idéias de truturalmente múltiplas. es limita-se a salientar aporias. no seu escrito. e com isso se daria cabo à filosofia’ 3) Abre-se. pois. considerando-a com relação a si mesma e com relação ao seu contrário. e ver em seguida quais são as conseqüências. igualmente. nesse ponto. avançando até o nível dos Princípios supremos). próprias para destruí-la. e justamente as que aparecem como as mais temerosas. em particular com incompreensão total da transcendência das Idéias em sentido meta-fisico. Note-se que. em novo plano. mas. eliminaremos o próA METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA prio pensamento e a própria dialética. com todas as conseqüências que esse erro comporta. ou seja. mostrando como a hipótese dos adversários que sustentavam ao contrário. conseguida já em parte com a teoria das Idéias. que se tornou muito famosa.Se examinarmos atentamente o esquema teórico do diálogo e o reduzirmos às suas linhas essenciais. da mesma maneira que as coisas das quais são causas. portanto. notaremos que ele retoma exa tamente as linhas da carta metafísica do Fédon: do plano do sensível se deve passar ao plano do inteligível. A participação das coisas ás Idéias explica todas as contradições que acaso se encontrem no plano do múltiplo sensível. o esquema dicotômico da dialética de Zenão operando uma autêntica metábase. a prova da impossibilidade da tese “pluralística”. isto é. e por isso tomaram-se muito famosas). o diálogo defende a multiplicidade. tomava-se uma confirmação dialética do próprio monismo”. 126 a. se a eliminarmos. dificuldades e contradições presentes na própria teoria das Idéias (enquanto na ter ceira parte se desdobrará em todo o seu poder e alcance. adversários dos eleatas. mas. para o plano conquistado pela “segunda navegação” platônica. no nosso escrito. oposta à “monística” de Parmênides. isto é. Em resumo. todas as contradições do múltiplo sen sível são resolvidas e superadas exatamente com a doutrina das Idéias. portanto. Deve-se pôr a hipótese da existência de uma Idéia. Poderse-ia dizer que essas criticas em geral. As aporias levantadas por Parmênjdes contra a teoria das Idéias são sete. conquistando primeiro a dou trina das Idéias e. e algumas delas eram já evidentemente muito difundidas na época da composição do diálo go (algumas das principais retornam também na Metafísica de Aris tóteles. mas já no fim da segunda parte ele adianta as se guintes observações: a) é preciso um espírito privilegiado para com preender a teoria das Idéias (o que quer dizer que essa está longe de ser conhecida por muitos) e é preciso um ainda mais privilegiado pa ra saber ensiná-la e sabê-la comunicar aos outros. a saber a dialética no nível do mundo inteligível. Parmênides. que o Uno não é) çomportava conse qüências ainda mais absurdas do que a hipótese de Parmênides. que “os muitos são” (e. a dialética de Parmênides . o plano do inteligível. na primeira escaramuça. a terceira parte do diálogo (a mais longa e a mais complexa)’ Esta parte tem uma espécie de prólogo de caráter metodológico e programático. assim. Por conseguinte. Todavia. também no plano da pluralidade inteligível. introduzidas por Platão como “causas”. depois. Zenão pagava na mesma moeda aos adversários de Parmênides. E retomado.1 28e. que revela uma grande parte dos fins perseguidos por Platão. esses últimos moviam-se no plano do sensível enquanto Platão. logo se deve pôr também a hipótese de que aquela Idéia não exista e se deve verificar analogamente quais são as conseqüências. 1) Na primeira parte. Portanto. Sócrates apresenta a teoria das Idéias. são expostos a interpretação e o quadro geral da dialética zenoniana. A resposta de Platão está contida na terceira parte. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL no que foi alcançado com a “segunda navegação”. Isso deve ser feito não somente para o Uno e para os Muitos. 2) Na segunda parte. e os adversários da afirmação “o Uno é” deduziam toda uma série de conseqüências absurdas. Esse desafio socrático provoca a intervenção do próprio Parmênides.

ou seja. Poderia parecer. falando do Uno que “participa” do Outro. portanto. como abaixo veremos. Na verdade. não tanto pela sua temática de fundo. vejamos qual seja o nexo dia. A relação entre as Idéias e as coisas sensíveis deve ser reexaminada à luz da estrutura bipolar da Unidade e da Multiplicidade. ou seja. de ser e não-ser e assim por diante. as conseqüências dialéticas referen tes justamente ao próprio Uno e ao Outro com respeito ao Uno. 13. aquela que admite uma estrutura polar. sim. Entre monismo e pluralismo exis te. e dão origem a aporias superáveis. Platão realiza uma “escolha” exata das Idéias que lhe inte ressam com o fim de desenvolver o tema específico do “sofista”. que diz respeito à natureza e à arte do “sofista” (diferenciada radicalínente da do filósofo) quanto pelo lugar “clássico” no qual se discute acerca do ser e de algumas Idéias supremas e se opera uma reviravolta numa tese fundamental do eleatismo. a uma leitura superficial. a partir dessa hipótese. Não se mantêm absolutamente as hipóteses que supõem uma contraposição e uma cisão radical do Uno e do Outro com respeito ao Uno. seja reciprocamente. em seguida será examinada a hipótese oposta. considera dos seja em si. Parmênides começa pela hi pótese sobre a qual se funda a sua própria filosofia (que Platão enten de em sentido rigorosamente monístico). ou seja. o diálogo foi supervalorizado. entendido como multiplicidade infinita. Assim serão 12. porém. Em particular. em páginas célebres das Enéadas. Platão faz ver ao menos algumas das suas cartas mais significativas. tal concepção dos dois Princípios supremos e da sua participação estrutural lança uma luz completamente nova sobre a teoria das Idéias. também do Outro com respeito ao Uno analogamente não se pode dizer nada e se pode dizer tudo. como a tabela das categorias do mundo inteligível’ Ao invés. por exemplo. ou melhor.lético que liga esses gêneros generalíssimos (ou Meta-idéias) escolhi dos no Sofista em vista do desenvolvimento do seu tema peculiar. que tão trabalhoso exercício deva concluir-se com um laboriosíssimo zero. O exame dialético de cada uma dessas oito hipóteses conduz a resultados positivos e a resultados negativos que se alternam.semelhante e dessemelhante. estrutura que se refere a dois Princípios — O Uno e o Múltiplo indefinito (Díade) —. Por essas razões.c. seguindo os mesmos passos lógicos. na medida em que. 128 e. a atomística). como resultou de estudos modernos mais cuidadosos. ou então que negam o Uno ou o Outro com relação ao Uno. Uma vez esclarecido esse ponto. 3. Parmênides. Parmênides. em razão do seu conteúdo e dos próprios personagens que nele comparecem — torna-se grandemente significativo e verdadeira mente claro na sua mensagem fundamental. o primeiro a induzir os intérpretes nesse erro foi Plotino o qual. de maneira totalmente negativa. da hipótese “se o Uno é”. E com essa con cepção o plano sobre o qual se fundam as aporias da segunda parte fica inteiramente modificado. o Parmênides — que sempre foi uma espé cie de pomo de discórdia no que diz respeito à exegese de Platão. 135 c-166c. apre sentou as Idéias tratadas no Sofista como uma lista exaustiva dos universais supremos e. de movimento e de repouso. Na verdade não é assim. e aludindo à função de limjte do Uno. . de tal sorte que um não é sem o outro e vice-versa. Em particular. também não se sustenta uma posição simplesmente pluralista (como. Depois de ter aceitado a discussão. serão exa minadas. Mantêm-se. O núcleo teórico do diálogo acaba sendo o seguinte: a concepção monista dos eleatas não se sustenta porque cai em aporias insuperá veis. Platão diz claramente que escolhe somente “algu mas” das Idéias dentre as que são consideradas as maiores. as hipóteses que supõem uma relação estrutural entre o Uno e o Outro com relação ao Uno (os muitos). realizando um “parricídio” de Parmênides. Por con seguinte. bipolar do real. Sobre o fundamento do esquema geral proposto. é um escrito repleto de elementos e tons esotéricos. que do Uno não se pode dizer nada e se pode dizer tudo. 110 lii 112 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 113 obtidas oito hipóteses apresentadas como pontas antitéticas de quatro antinomias. a dois Princípios que se mostram indissoluvelmente ligados. assim a trama da totalidade das Idéias é deixada de fora do discurso. na medida em que se pensou que Platão tratasse aqui dos conceitos metafísicos úl timos e supremos. Assim interpretado. de fato. e ainda as conseqüências que derivam para cada um deles. A ontologia dos gêneros supremos no “Sofista” e a metáfora do “parricídio de Parmênides” O Sofista tomou-se muito famoso na história da ontologia. uma via média sintética. isto é.

“Repouso”. Por conseguinte podemos dizer. como disseste. por assim dizer. como parece. Falamos do “não-ser” em dois sentidos muito diferentes: a) ora o entendemos como contraditório do ser (ou seja. a Idéia do Ser tem relações de participação positiva com as duas outras. Plato. vale dizer. é: há uma coisa que é o movimento. ou de imagens. se acaso algo nos coíbe a esse respeito. o não-ser não pode existir (porque não pode existir o que é negação do ser). na medida em que o Repouso “é” e o Movimento também “é”. assim. b) ora. Mas essas três Idéias. não é nenhuma das outras” Descobriu-se. Teeteto — E muito claro. “Movi mento”. b) ao contrário. Mas ambos são e são idênticos a si mesmos e. Estrangeiro — Porque. por que uma não participa da outra. se entendido exatamente no sentido de “Diverso”. ‘participam’ [ de ser e identidade e. enquanto essas proposições não forem ou aprovadas ou refutadas. nesse diálogo Platão se dis farça de Estrangeiro de Eléia (isto é.Platão parte das três Idéias seguintes: “Ser”. Londres 19496. eleata). sob certo aspecto a não-ser. p. Cumpre-se. Eis a página na qual Platão apresenta o “parricídio” de Parmênides: Estrangeiro — Mas faço-te ainda um pedido insistente. ital. ou então devemos simplesmente deixar tudo de lado. p. por exemplo. assim. como negação do ser). por essas razões. E. da diferença. Mas. Corsi. Teeteto — Qual? Estrangeiro — Que não penses ter-me eu tomado um parricida. para defender-nos será necessário que subme ramos a exame a tese de nosso pai Parmênides e que obriguemos o não-ser sob certo aspecto a ser e o ser. nesse sentido podemos dizer que ele não é. já que cada um é diferente do outro. pois seremos obriga dos a falar de coisas que se contradizem a si mesmas. Com o mesmo procedimento se demonstra que é possível afirmar o ‘não-ser’ de todas as cinco idéias acima referidas. Estrangeiro — E como não seria isso evidente. e até do próprio ser. da mesma maneira. o outro com respeito ao ser não é mais deficiente em ser do que qualquer outro gênero? É preciso ousar dizer . devem ser cada uma diversa da 14. E eis o nexo dialético que as liga e que Taylor enfatiza de maneira sintética: “Movimento não é repouso nem repouso é movimento. La Nuova Italia. o entendemos não como contrário. a) No primeiro sentido. ao mesmo tempo. podemos dizer que o movimento ‘participa’ do ser e. segundo o qual o não-ser não é. pois não significa um contrário do ser. Teeteto — E bem verdade. Estrangeiro — E como deveremos denominá-la? Teeteto — E evidente que se traia do não-ser que procurávamos a propósito do sofista. de imitações ou de simulacros ou de artes que se ocupam dessas coisas sem parecermos ridículos. cada uma idêntica a si mesma. que é não-ser. o “Idêntico” e o “Diverso”. não poderemos falar de raciocínios falsos ou de opiniões. justamente pelo fato de serem três. Taylor. Florença 1968. o que o próprio Platão chamou o “parricídio” de Parmênides. mas simplesmente algo diverso com relação a ele. Teeteto — Como assim? 15. como se costuma dizer. no segundo caso pode existir porque possui unw sua natureza específica (a natureza da alteridade). obtivemos cinco Idéias generalíssimas. a mútua oposição de uma parte da natureza do outro e da natureza do ser não é. mas também que não é: não é repouso. duas outras Idéias gerais. Ao contrário. VI. 114 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 115 outra e. portanto. Estrangeiro — Assim. para depois transgredir o mandamento supremo de Parmênides. 604). Ao contrário. no entanto movimento não é idêntico a ser e. por sua vez. Temos. devemos ter a coragem de atacar agora a tese paterna. Enéndas. Entre essas duas últimas subsiste uma relação negativa. assim. mas como diverso do ser. de cópias. o que se procurava. Desta sorte. ao invés. 1-3. também. 389 (trad. uma vez que cada delas é dife rente das outras e. diz textualmente Platão-Estrangeiro de Eléia: o não-ser é. desta maneira. até para um cego? Com efeito. Estrangeiro — Logo. Teeteto Parece-me que em tomo desse ponto deveremos lutar no nosso discurso. Plotino. Com efeito. portanto. que o movi mento é: é movimento. Teeteto — Mas nada absolutamente nos coíbe!’ E eis a página (que se tomou verdadeiramente das mais célebres na história da ontologia) na qual acontece o “parricídio” de Parmênides exatamente no plano ontológico: Estrangeiro — Portanto. A. de M. menos ser que o próprio ser.

116 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 117 Teeteto — Como assim? Estrangeiro — Porque avançamos na nossa pesquisa muito além do que ele nos permitia e contra ele fizemos nossas demonstrações. que os gêneros se misturam entre si e que ser e outro penetram através de todos os gêneros e um no outro. se ele é dife rente (enquanto nome) da coisa que exprime. por causa da aceitação desse último. Mas será com pletamente absurdo admitir que um nome seja porque. deverá englobar na unidade também o nome. Teeteto — Sem sombra de dúvida. enquanto não for capaz disso. mas não é. E sendo o ser. acaba atribuindo- . mas justamente da discussão em tomo ao próprio ser e à sua estrutura e. somente na perspectiva ontológica. Mas eis como. a) “Ser” e “Uno” são dois nomes. Teeteto — De que modo? Estrangeiro — Porque em algum lugar ele diz: “Tu não obrigarás nunca o não-ser a ser Mas desse caminho afasta o teu pensamento” Teeteto E verdade que ele assim fala. sob muitos aspectos são e sob muitos aspectos não são. por sua vez. à impossibilidade de se sustentar a concepção do ser-uno no sentido monístico-eleático: Estrangeiro — Parece-me que com muita desenvoltura Parmênides dis corra conosco. seja ele ou não seja. estrangeiro. mas. e assim também quem quer que se abalance a definir quantos são os seres e quais sejam’ Eis as aporias das quais Parménides não consegue sair identifi cando o Ser com o Uno e com o Todo. Com efeito Parmênides. cada um separadamen te e todos juntos. 241 d-242 a. o monismo absoluto. Logo. que diga como nós dizemos.que o não-ser possui firmemente a sua própria natureza. com ela constituirá juntamente um dois (uma coisa é o nome. temos ainda alguma dúvida a respeito? Teeteto — Nenhuma dúvida. E como vimos que o grande é grande e o belo é belo. tenha algo de razão ou seja totalmente irracional. Teeteto. Platão invoca a temática henológica do Uno e dos Princípios primeiros e indica igualmente a estrutura hierárquica do ser. Estrangeiro — Mas que não se venha dizer termos nós ousado afirmar que o não-ser é. ousamos dizer que cada parte dessa natureza que é oposta ao ser é verdadeiramente o não-ser. há muito demos adeus a um contrário do ser. deverá ser outro com relação aos outros gêneros. como vimos. e sendo outro com relação ao ser será necessariamente não-ser. é. e assim todos os outros gêneros. para ser coerente. ao contrário. no campo da discussão dos conceitos de ser e não-ser e. depois de ter mostrado que a natureza do não-ser é. Por conseguinte. assim. quando dissemos que ele é o contrário do ser. também o não-ser era e é não-ser. em particular. pela mesma razão. Estrangeiro — Nós. E sendo outro com relação a todos eles não é nenhum deles nem é todos os outros juntos menos ele mesmo. como normalmente se pensa. justamente com evidenciar tal “polarismo” que opera uma reviravolta radical no monismo eleático. Teeteto — É verdade O “parricídio” de Parmênides não acontece. ou que alguém nos convença de que erramos e nos refute. que o não-ser é. Ele não parte das discussões em torno ao não-ser. participante do outro. pondo nos lábios do grande eleata aquele notá vel exercício dialético que. Estrangeiro — Sabes então. a saber uma Idéia una que entra no número da multidão das Idéias? Ou então. Platão submete a um ataque as “con clusões” do pai. admitir dois nomes desde que se admita somente o Uno é contraditório. e o não-grande é não-grande e o não-belo é não-belo. Quanto ao que acabamos de dizer. em particular. De resto. não só mostramos que o não-ser é. isto é. b) Mas a posição dos eleatas implica ulteriores complicações na medida em que fazem coincidir o Uno com o Todo. aquilo do qual participa. ou então. já no necessidade de admitir a diálogo Parmênides. Platão obrigara Parmênides a se “matar”. Sofista. mas mostramos também qual seja a forma do não-ser. a saber. logo depois de ter falado do “parricídio” de Parmênides. porém. e que se estende a todos os seres nas suas relações mútuas. uma segunda coisa aquilo que o nome indica). o ser. por sua vez. em razão dessa participação. mas é outro. que desafiando Parmênides fomos muito além dos limites da sua proibição? 16. Com efeito. e que o outro. Com efeito. orienta-se para tomar evi dente esse “polarismo”. identificando o Todo com uma esfera. não é inumeráveis vezes. Com efeito. o que dissemos é muito verdadeiro. participando do ser.

nitidamente explícitas. ela não contém duas ou mais Idéias e. em conexão com este tema.. d) O Inteiro não coincide nem com o Ser nem com o Uno. 23 B Kramer. à multiplicidade dos indivíduos empíricos. Sofista. o Uno enquanto tal é indivisível e. mesmo se Platão os dilui de várias maneiras com aquele tom “jocoso” que. igualmente necessários.. Comecemos pelo primeiro ponto Depois de ter reafirmado a importância da questão das relações do Uno e dos Muitos e de ter ulteriormente destacado que a identi dade do Uno e dos Muitos estabelecida pelo raciocínio se encontra sempre e em todas as partes. 258 a-259 b. absolutamente simples. até chegarmos às Idéias que não sejam ulteriormen te divisíveis. In Ansi.. ou seja. 453. com efeito. como se vê. Eis em que consiste mais exatamente essa revelação e esse “dom de Deus aos homens”: o ser enquanto tal contém em si o limite e o ilimitado (o “peras” e o “apeiron”) que se mostram sempre compo nentes essenciais. b) O que tem partes pode ter unida de. 21. no momento em que se atingem as Idéias que não são ulteriormente dialética e passadivisíveis. 22. o Todo é algo mais do que o Uno. Por conseguinte. começando das próprias Idéias. Diels (Gaiser. identificar em geral Ser. num certo sentido. pp. “partes”. Assim fizera Porfírio. para conhecê-los. em segundo lugar. 118 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 119 Esse texto contém o “parricídio” de Parmênides no plano da henologia na nova dimensão alcançada por Platão e revela o seguin te. portanto. então. como nos refere Simplício. J. porque cada um deles tem uma natureza própria e distinta: o Ser participa do Uno e. por tanto. Stenzel. não é mais possível avançar na divisão -se. no sentido explicado pelo nosso diálogo. por meio de uma série de alusões muito claras e. Sofista. 242 d-245 d. o horizonte que os inclui. a) O Uno em sentido primeiro é absolutamente indivisível e. por sua vez. Nem se pode. 20. 17. o Ser não é o Uno. Platão põe em re levo a estrutura bipolar do real (Uno-Muitos) e. E necessário exami nar atentamente essa Idéia para ver se. Platão esclarece que esse conhecimento das relações do Uno e dos Muitos coincide substancialmente com uma “revelação divina” que nos foi transmitida pelos antigos. em terceiro lugar reitera. para ele. Quaisquer que sejam os objetos em discussão é necessário. que se encontre a unidade da Idéia. os quatro gêneros supremos e a Medida suprema como Absoluto As indicações protológicas se ampliam de maneira considerável no Filebo como os antigos já haviam notado e como faz tempo os estu diosos modernos mais atentos o reconheceram Três são as passagens protológicas mais significativas: em primeiro lugar. Tesi. do modo que será abaixo explicado. Siudien zur Eniwiklung der platonischen Di/aekiik von Sokrates zu Arisioteles. Em outros termos: a estrutura bipolar é o eixo de sustentação de toda a realidade e. depois. Sofista. As grandes teses metafísicas do “Filebo”: a estrutura bipolar do real. 242 c. enquanto contém tanto o Ser quanto o UnoL 18. e) E já que o Ser não coincide com o Inteiro porque implica fora de si o Uno do qual participa. a essência do Bem como Uno e como Medida suprema. se cada uma dessas Idéias se subdivide em outras Idéias. por conseqüência necessária. mas não pode ser por si o Uno. segundo a qual todas as coisas que são ditas “ser” são constituídas justamente pelo “uno” e pelos “mui tos” e contêm em si o limite e o ilimitado. realçando os quatro gêne ros supremos do real. II). o que possui partes pode participar do Uno. Trata-se. o escrito enquanto tal exigia 4. em todas as coisas das quais se fala. em certa medida. Phys. explica a estrutura numérica das próprias Idéias. estendendo-a a toda a esfera cosmológica e antropológica. voltado sobretudo para as Idéias. Mas. o número das Idéias contidas numa Idéia dada é sempre determinado. portan to. Essa afirmação vale para todo e qualquer ser. Plai. c) O Ser participa do Uno. Platone. portanto. de alguns motivos protológicos de impor tância fundamental. 30s. amplia essa temática.-lhe. com Parmênides. o Ser não é por si mesmo a completude e incluirá o Não-ser (entenda-se. também do pensamento. em particular. Reale. mas constitui. Cf. Ora. a divisão das Idéias dá origem sempre a uma quantidade limitada de Idéias nela incluídas. está acima das partes. a diversidade). Tarefa particular da dialética é . Para uma análise pormenorizada cf. 359-379. um centro e os extremos e. 19. mas somente por participação no Uno. portanto não é o Uno. pp. Enquanto se permanece no âmbito das Idéias. Uno e Todo. mas não coincide com o Uno (o Uno está acima do Ser e do Uno depende o Ser). Darmstadt I96I (a primeira edição é de 1917)...

é evidente a referência ao Princípio da Díade do grande-e-dopequeno das “Doutrinas não-escritas” que exprime justa mente uma ilimitação (Díade indefinida) no duplo sentido de avançar para uma in-finita grandeza e para uma in-finita pequenez. a saber. finalmente. Mais ainda. com efeito. tomando-se um uno ( qualquer não se deve considerá-lo imediatamente. a escolha do “mais e menos” como sinal distintivo da natureza do ilimitado é particularmente eloqüente: Platão entende um avançar sempre no “mais” e um avançar sempre (em sentido oposto) no “menos”. Em particular. além desses dois gêneros é necessário acrescentar. as estações do ano. Somente uma vez alcançadas as Idéias indivisíveis será possível a passagem aos inumeráveis indivíduos empíricos correspon dentes. Platão indica mesmo explicitamente o maior e o menor como exemplo ilustrativo conclusivo e paradigmático ou como referência evidente alusiva justamente a Díade indefinida do maior-emenor. em vários níveis e de diversas maneiras exerce a sua função de princípio. descobrindo. Esses quatro gêneros supremos são articulados com a protologia não-escrita de maneira absolutamente emblemática. na sua relação com a na tureza do ilimitado ( cpúaiv). particularmente. mas sim com referência a certo número dotado de certa quantidade e final mente chegar ao uno tendo percorrido todo o conjunto Passemos ao segundo dos pontos acima indicados Platão retoma as argumentações metafísicas já desenvolvidas e tira delas algumas conclusões da máxima importância. de justa medida. exatamente. com a sua estrutura numérica e a capacidade de de-terminar o indeterminado justamente com a mediação numé rica. quais e quantas sejam). Por isso a Idéia exerce por sua vez. Afirma-se que o que existe em geral implica. todas as coisas belas e. se não por meio da divisão ontológica e lógica da Idéia nas várias Idéias das quais aparece constituída. Filebo. por exemplo. 18 a-b. 3) a “mistura” de “limite” e “ilimitado” como sendo o terceiro gênero e. 3) O misto de ilimitado e de limite mostra-se. depois desse processo. intro duzindo o número e. o que é comensurado e proporcionado (o efeito da ação do peras sobre o apeiron) como. de igualdade. e insiste em que isso é o que elimina o excesso. Trata-se. de maneira sistemática. Platão invoca as características de quantidade. determinante e último. deter minar quais e quantas sejam as Idéias contidas numa Idéia-gênero).justamente estabelecer quais e quantas sejam essas Idéias. 1) O apeiron (o “in-determinado”. pela divisão. Portanto. justa mente em razão da sua estrutura numérica. “in-definido” “ilimitado”) consiste num “avançar sempre e não permanecer parado” nas duas direções opostas. 16 c ss. abaixo da Idéia ínfima. produzindo justamen te medida e proporção. não mais ulteriormente divisí vel. desta maneira. Aqui aparece. está o ápeiron sensível. comensurando e proporcionando. E Platão esclarece ulteriormente 24. como dá bem a entender o exemplo do quente e do frio adotado por Platão. o vigor físico. que implica um sempre mais no quente e um sempre mais no frio em direções opostas. que são multiplicidade indeterminada. Portanto. pois. não se deve pensá-lo imediatamente com referência ao uno. em particular. a música. Filebo. . muito importante. em sentido diádico. como veremos melhor mais adiante. 23. Mas. Ou me lhor. as Idéias particulares nas quais se divide e. Isto significa que não é possível passar imediatamente de uma Idéia geral (unidade) à multiplicidade dos indi víduos empíricos. Com efeito. quando seja necessário come çar do ilimitado. no caso contrário. bem esclarecida a partir de Stenzel. uma função determinante de unidade com respeito aos sensíveis. 25. conseqüen temente. ou seja um proceder ao infinito dos “dois” extremos opostos. os conceitos 1) de “sem limite” e 2) de “limite” são retomados com uma valência ontológicocosmológica. como já observa mos. para compreender a estrutura ontológica da realidade física. a ulterior “causa da mistura”. Filebo. esses dois fatores. E exatamente aqui reside a novidade mais notável do Filebo. como dizemos. será possível passar à multiplicidade indeterminada dos indivíduos. e a determinação do seu número (a saber. evidentemente. E aqui Platão é levado mesmo a afirmar expressamente que o limite “é o Uno por natureza” (‘dv púoEI). ele acentua que o limite é o que faz cessar as relações de oposição do indeterminado e do ilimitado. de medida com re lação a medida. dos vários modos com os quais o Uno. as que têm lugar nas nossas almas. 120 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 121 É possível estabelecer a estrutura de toda Idéia geral. de número com relação a número. a doutrina das Idéias-número no sentido que acima explicamos. a conjunção da estrutura diairérica das Idéias com o número. mas com referência a certo número (i-rrí TIVa xpi assim. 2) O peras (ou “limite”) implica tudo o que tem relação com as Idéias e. assim exprimir essa estrutura diairética num número (isso significa. 28 c-31 a. a saúde. Enfim. mas como o seguinte texto já no-lo diz com clareza: Sócrates — [ Assim como.

seguidas das Idéias mais universais (que algum estudioso propõe chamar justamente Meta-idéias) e depois as Idéias mais específicas e particulares. no plano do mundo inteligível não é necessária.. Dessa maneira. 2) o plano dos seres matemáticos inclui os seres geométricos planos e sólidos. 26. 422. Aos Princípios primeiros e supremos do Uno e da Díade seguem-se.. trad. Der hellenische Mensch. um assumir o Uno da parte do múltiplo indeterminado e. no mundo do vir-a-ser e em tudo aquilo que implica “gera ção” é necessária uma causa eficiente produtora dessa ‘mistura”. p. ao menos nos seus traços essenciais. confirma-se em todos os sentidos que Platão nos seus escritos. como vimos pelas alusões da Repúbli ca e como no Filebo Platão volta a dizer por meio de alusões que chegam quase a revelações. como o oráculo de Delfos. de maneira verdadeiramente notáveP°. portan to. Já Pohlenz observava muito bem a esse respeito: “E. e ainda as almas. 28. Diels-Kranz. “não afirma nem esconde. ou seja. DEMJURGO E COSMOLOGIA 125 V. A posição do mundo fisico no âmbito do real segundo Platão O conceito de base que se deve ter presente para poder compreen der a doutrina do Demiurgo e a cosmologia (um dos vértices do pen samento platônico) é o da estrutura hierárquica do real. a mistura do cosmo físico em geral e das coisas nele contidas em particular implica uma Inteligência cósmica.. um princípio de ordem e proporção e constitui a causa primeira do seu existir concreto e a norma da sua mistura exata” Ora. Reale. Depois de ter-nos dito (nas passagens que interpretamos) com uma série verdadeiramente impressionante de alusões que o Bem é o Uno. M. 405-421 e 471-507. em razão da estrutura bipolar dos Princí pios. Mas desse complexo e importante capítulo. onde apresentamos a mais pormenorizada análise desses problemas. portanto. Fik’bo. 27. 504 a-506 b.. Platone. de fato. mas também o Belo e.] por Medida Platão entende. uma unidade-namultiplicidade. Gattingen 1947. de B. naturalmente.122 PLAT E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 123 que o misto é um “caminhar para o ser” (y Eiç oúo ou seja. nesse trecho metafísico conclusivo Platão avança até explicar que no vértice de todos os valores está a Medida e que dela derivam todos os valores. Florença I962. o Demiurgo (o Artífice) universal. Cf. que constitui um daqueles notáveis eixos de sustentação que garantem a unidade e a compreensão global correta do pensamento de Platão. modo que desde já se impõe nos níveis mais elevados das pesquisas hoje em curso. ou seja. assim. 1) o plano das Idéias. exatamente: 1) o plano das Idéias tem como vértice os Números e as Figuras Ideais. e escolhe essa determinação porque o Absoluto inclui em si não apenas o Bem em sentido finalista. . uma causa ulterior que garanta a mistura estrutural do limite e do ilimitado. Cada um desses planos se articula em distinções ulteriores. um ordenamento hierárquico. ou seja. ao pôr a Medida ( no vértice de todos os valores. pp. Chegamos. VI. e é possível senão totalmente. Em particular. Faz-se necessário lembrar que falamos de “planos” usando uma expressão física que. con tido nas conclusões do diálogo. 64 a ss. deve ser tomada como uma ima gem para indicar uma estrutura metafísica. mas se faz compreender por sinais” Mas a explicitação desses si nais (que é muito forte no Filebo) é ainda hoje possível para nós mediante a ajuda e o “socorro” fornecidos pela tradição indireta. La Nuova Italia.. conhecemos pela tradição indireta que a Medida suprema é a própria natureza do Uno (em sentido metafísico). e essa é Inteligência em todos os seus níveis. portanto. 2) o plano íntermediário dos seres matemáticos. 3) enfim. problema nos ocuparemos de modo específico no próximo E esse justamente o modo mais significativo e mais construtivo para ler e compreender Platão. 22 B 93. é a unidade que deriva das medidas produzidas pelo peras sobre o apeiron e. os seres que pertencem à astronomia pura e à musicologia. ao terceiro dos pontos acima indicados. 3) o plano do mundo físico inclui todas as realidades sensíveis. ita!. Proto. Veja na página seguinte o esquema ilustrativo. República. o Absoluto. 29. Luomo greco. o plano do mundo sensível. 4) Enquanto no mundo das Idéias essa “mistura” é eterna (acontece desde sempre e para sempre) na medida em que. A DOUTRINA DO DEM1IJRGO E A COSMOLOGIA PRINCÍPIOS PRIMEIROS E SUPREMOS: “UNO” E “DÍADE INDETERMINADA” 1. assim como as artes e os produtos da atividade do homem implícam a inteligência do homem. Pohlenz. segundo Platão. 30.

todas as Idéias (que. que escreve: Algumas coisas se dizem anteriores e posteriores segundo a natureza e segundo a substância: tais são rodas as coisas que podem existir independen temente de outras. além disso. portanto.. dado como originário. como sabemos. Como já explicamos acima. Trata-se. o adensamento. a) Os números matemáticos eram deduzidos de mônadas (unidades particúlares) e da pluralidade de “muito e pouco”. entre um ser eterno 2. pp. aquele do qual de pende. que não vem-a-ser em nenhum sentido (não nasce. como o seguinte esquema ilustra de maneira sintética e sinótica: suprimido sem que seja suprimido. ao passo que essas outras não podem existir independen temente delas: essa é uma distinção da qual Piarão se servi&. mas não a sua diferença (todos os seus aspectos de . o princípio material adquire um adensamento e uma força tais de sorte a produzir a dimensão do sensível e a gerar o mundo do vir-a-ser (como veremos mais adiante). em cada fase suces siva.. 3) Passando ao plano ontológico seguinte. 2) O plano “intermediário” dos seres matemáticos era explicado por Platão da maneira seguinte. que contém sucessivamente um adensamento em materialidade (inteligível) e multiplicidade (sempre no nível in teligível). Platone. assistimos ao nasci mento do cosmo físico: aqui. ou seja. a causação que o plano superior exer 1. b) As figuras planas e estereométricas eram deduzidas de uma espécie particular de ponto que Platão denominava “linha indivisível” (ponto matemático dotado de uma posição) que servia de princípio formal. E esta a relação de “anterioridade” e “posterioridade” segundo a natureza e segundo a substância para usar uma expressão de Aristóteles. porque explica apenas o aspecto metafisicamente formal do plano sucessivo (tudo o que se refere à sua ordem e à sua unitariedade). portanto. com isto. a partir de uma ótica diferente. não cresce. não diminui. Reale. mas não vice-versa. Nesse sentido. Números e Figuras ideais plano das Idéias Idéias generalíssimas ou Meta-idéias Idéias particulares plano dos entes matemáticos objetos da aritmética objetos da geometria plana objetos da astronomia pura objetos da musicologia a este plano se reportam também a Alma do mundo e as almas em geral plano do mundo físico sensível A fórmula platônica técnica era a seguinte: o que depende pode ser objetos da esteriometria multiplicidade e pluralidade).. enquanto ele punha. Significa que nos encontramos diante de um tipo de dependên cia metafísica dos planos sucessivos do ser um com relação ao outro o que implica. mas apresentado simplesmente como tal e. os seres matemáticos são “intermediá rios” entre dois diferentes gêneros de ser. o mundo sensível é “intermédio” se for conside rado em função de uma ótica que inclui também o não-ser entre os graus da escala hierárquica. pp. como princípio material. 126 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 127 ce é necessária.. os seres matemáticos são múltiplos como os sensíveis. o “largo e estreito” para a superfície e o “alto e baixo” para o sólido. 1) Vimos acima como dos dois Princípios supremos derivem os Números ideais e. A I 1019 a 1-4. Aristóteles. 164 e 1 76s. do Princípio diádico que não é deduzido nem explicado sistema ticamente. por assim dizer. não muda) e um ser que nasce e vem-ao-ser em todos os sentidos. possuem uma estrutura numérica). Sobre esse problema ver Krãmer. por meio de um processo de deli mitação (ou de igualização) da parte do Uno sobre a multiplicidade indeterminada da Díade. Com efeito. Metafísica. na medida em que tornam possível e explicam o modo de articular-se do inteligível no sensível (como mais adiante veremos). 427ss.. o “curto e longo” para a linha. que depende do Pnncípio diádico.A relação subsistente entre os planos é de dependência ontológica unilateral e não biunívoca: o plano inferior não pode ser (e não pode ser pensado) sem o superior. mas não suficiente. evidentemente. de diferenciações específicas do Princípio supremo da Dualidade originária de gran de-e-pequeno.. são intermédios também como intermediários. Ao invés. Mas — e esse é o ponto mais importante a ressaltar — também no plano do sensível mostra-se um “intermediário”.. Platone. não morre. Essa é uma observação de grande importância porque exclui claramente os esquemas e implicações do panteísmo e do imanentismo Alguma observação a mais esclarecerá melhor essa estrutura complexa da metafisica platônica.

se o conhecimento verdadeiro (a verdade) diz respeito somente ao mundo ideal e ao ser verdadeiro. como já a propósito do mundo ideal (que. o que participa de ambos. no entanto. e assim também o Justo e as outras coisas [ as outras Idéias]. Assim. é claro que o ser do mundo sensível é um ser de alguma maneira partido. mas diga respeito a algo de “intermédio”. mas se ao não-ser em sentido absoluto. Igualmente claro para Platão é que. ele foi obrigado a modificar (e não menos radicalmente) a palavra de Parmênides e a conceder aos fenômenos. de alguma maneira. mas somente admite muitas coisas belas [ os muitos fenômenos empíricos]. Para Platão. não é no sentido forte do termo. Vimos já como a tentativa de Parmênides de explicar os fenôme nos se rompesse nas suas mãos porque. mas é outro estruturalmente com relação ao “ser verdadeiro”. ao contrário (justamente em conseqüência da sua “segunda navega ção”) compreende que o ser do mundo sensível e fenomênico subsis te. do nada. Ou acaso não é assim? — Assim é. e que não se poderia chamar justamente com nenhum dos dois nomes. a opinião (doxa) gira em torno de alguma coisa que é de alguma maneira (na medida em que espelha algo da verdade) e que não pode referir- . não os salvava. quando se apresente. a saber do ser e do não-ser. mas igno rância Eis. porque do não-ser não há conhecimento. — Posto isso. uma realidade própria e um ser próprio. para poder explicá-los. não é. um ser tomado de emprés timo Leiamos a passagem que exprime esta concepção e que é funda mental para se entender Platão corretamente. mas é necessário que essas coisas belas [ possam. condicionado pelo não-ser. não é ser (o ser verdadeiro e absoluto). disse ele. atribuindo aos extremos os lugares extremos e aos intermédios os lugares intermédios. e assim das outras sobre as quais interrogas. mas tem ser e o tem pela sua participação ao mundo das Idéias (isto é. A respeito dessas muitas coisas belas [ diremos: ó bom homem. por assim dizer. Depois de ter explicado. ao “ser que é verdadeiramente”. mas é do mesmo modo claro para ele que não se trata de maneira alguma do absoluto não-ser. no mesmo instante em que 128 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 129 tentava repor os fenômenos no leito do ser. mundo do vir-a-ser. — E assim as grandes e as pequenas. que é ser em devir. muda e devém. inteiramente os destruía (aplicado aos fenômenos. ou seja. a propósito do mundo sensível. é nada. o ser eleático os absolutizava. seres matemáticos (ser em sentido pleno) 2) ser que nasce. Em conseqüência. Mas. morre. qualifica o mundo físico. Porque falou Platão dessa maneira? Parmênides não tinha dúvidas: o que é múltiplo e relativo. como o opinar não possa referir-se nem ao ser nem ao nãoser (porque do ser há ciência e não opinião. fora identificado com o ser absoluto e interpretado como uma cate goria de origem eleática). ou seja. 3) não-ser É justamente nessa ótica que Platão. no não-ser e no nada tateia a “opinião” ou doxa. — E o que pensas das muitas coisas [ duplas? Acaso as coisas duplas não são tão metades quanto duplas? — Sim. devem ser chamadas assim em vez do nome contrário? Não. que é própria dos mortais e que. o filósofo escreve: — Fica-nos por encontrar. ao ser verdadeiro): tem. a cada uma convém igualmente os dois contrários. acaso haverá alguma que não apareça também feia? E dentre as justas [ acaso haverá alguma que não apareça também injusta? E dentre as coisas santas [ haverá alguma que não apareça tam bém ímpia? — Não. disse. direi: diga-me e responda-me aquele bom homem que não crê num Belo em si e em nenhuma Idéia do Belo que permaneça sempre idêntica a si mesma. pois. parecer também feias. ao que parece. Platão modificara a palavra de Parmênides e introduzira um não-ser como “diverso” para poder explicar a mul tiplicidade ideal. ou de algo totalmente privado da marca metafísica do ser. imobilizava e reduzia ao absolutamente idêntico) Platão. vem-ao-ser (ser em sentido apenas parcial e não pleno). assim também. e do não-ser há ignorância). condena-o ao não-ser. poderemos dizer que é o opinável. as leves e as pesadas. analisando as formas do conhecimento. crendo no vir-a-ser do ser.1) Ser inteligível e eterno: Idéias. dividido. na República. a resposta platônica ao problema: o ser do sensível é um “intermédio” (11ETa entre o puro ser e o não-ser. como “intermédio” entre ser puro e não-ser. responda-me aquele amante de espetáculos [ me ramente fenomênicosj que não suporta de maneira nenhuma que alguém diga que o Belo é Uno. O mundo sensível.

ilimitada). ser e não-ser e não é nem ser (puro) nem não-ser. 286s. nem que é ambas as coisas ou que não é nenhuma das duas. para ser engendrada toda coisa tem necessidade de uma causa que produza a geração. 3) Tudo o que está sujeito ao processo da geração exige uma causa porque. também essas coisas podem ser entendidas em duplo sentido e não se pode pensar com certeza se é ou não é. se a “ser” e “não-ser” damos aqueles significados específicos. ele é captado pela inteligência por meio do raciocínio. jle dizer. 5. Platon /958-1975. 208-227. ao que parece. 7. encontram-se outras im portantes indicações bibliográficas. portanto. o ser é um “misto”. dado que. ao mesmo tempo. para o nosso filósofo. e deve-se prestar atenção também à afirmação inicial de que o ser sensível intermédio “participa de ambas”. distinta da razão. sabes como tratá-las ou colocá-las em posição me lhor que a intermediária entre o ser e o não-ser (IiETa otlaíaç TE xai TO pi) ETvaO? Com efeito. Essa causa é um Demiurgo. 20 (1977). que as muitas opiniões que a multidão tem em torno ao belo e ao resto giram como intermédias entre o não-ser e o puro ser 2. O Demiurgo e o seu papel metafisico Se entendermos bem o sentido da página que acabamos de ler. como sabemos. que Platão na sua metafísica lhes dá. — Então. (com as relativas remissões). Cf. V. do qual fala Platão nesta página. ou seja. L. ou seja. Brisson. elas não têm mais obscuridade que o nada porque não são o não-ser em grau superior. 25 (1983). que depende da de-terminação e de-limitação do indeterminado e ilimitado (e tal é. a Díade de grande-e-pequeno. tomando-o como modelo. pp. L. ou seja. 477 a ss. para ele o ser na dimensão do vir-a-ser implica a causa específica da Inteligência produtora e tudo o que ela postula. grandes e pequenas (alusão à Díade de grande-e-pequeno da qual participam). “Lustrum”. — Encontramos.. Cf. é assimilado ao não-ser. poderia parecer o nada (o não-ser em sentido absoluto). A charada soava aproximadamente assim: há um homem que não é homem (= eunuco). 295ss.. cada uma dessas muitas coisas [ é ou não é aquilo que dizemos que é? — Elas se parecem com essas frases com duplo sentido que se dizem nos banquetes ou então à adivinhação dos meninos sobre o eunuco que atira algo no morcego e na qual é preciso adivinhar com que o atinge e onde o atinge com efeito. mas é evidente que o “participar” ao não-ser só é possível se é algo (justamente o in-determinado e o i-limitado). o Princípio material oposto (a Díade sensível). 130 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 131 — É veríssimo. mas julgou necessário introduzir a Inteligência divina como causa metafísica originária Com efeito. 3. O mais amplo tratamento da base metafísica do diálogo encontra-se in Reale. compreenderemos também as razões pelas quais Platão não pôde explicar o cosmo físico por simples dedução dos Princípios primeiros e supremos e do mundo das Idéias. 8.. República. 4) O Demiurgo. ademais. Platon 1975-1980. Plato (/950 1957). 4. 4 (1959). uma causa eficiente. ou seja. ele é objeto de opinião. porque permanece sempre nas mesmas condições.. disse ele. Cherniss. 1) O ser que é sempre (o ser inteligível) não está sujeito à gera ção e ao devir. “Lustrum”. Todavia. pp. Deve-se notar. pp. 509-622. A rica bibliografia publicada nos últimos decênios sobre o Timeu (que foi por muito tempo o diálogo mais lido de Platão) encontra-se em H. Eis como (no mag nífico prelúdio teorético ao grande discurso cosmológico do Timeu Platão resume seu pensamento em quatro axiomas. Sobre esse tema encontra-se um amplo tratamento in Reale. du plas.. Repiíblica.— Mas então.. nas pp. que é. disse eu. 425-622. que lança uma pedra que não é pedra (= pedra-pomes). pp. V. 509ss. A evocação dessa charada sugere de maneira esplêndida a fundamental ambigüidade do pETa do sensível. 6. sobre uma planta que não é uma planta (= cana). as alusões (que destacamos em itálico) ao Uno (que se explica nas Idéias) em oposição às coisas fenoménico-sensíveis. é captado mediante a percepção sensorial. o Artífice produz sempre alguma coisa contemplando previamente algo como ponto de referência. ao qual nos referiremos outras vezes. pp. essa página resulta muito mais clara. pp. 1 l3ss. Brisson. justamente. ao invés. que. antes. 2) O devir. É oportuno observar que o não-ser. que continuamente se engendra não é nunca um verdadeiro ser justamente porque está em contínua mudança. “do ser e do nãoser”. e que refletem de ma neira perfeita a sua protologia. nem são mais claras do que o ser porque não são ser em grau maior. . volume 1. que é. um Art(fice. o texto e o contexto levam a crer que Platão indica. a um pássaro que não é um pássaro ( morcego). Platone.. 478 e-479 d. “Lustrum”. Platone. Em conclusão.

uma vez encon trada. é evidente a todos que ele contemplou o modelo eterno: com efeito. [ E quando o Artífice ( de qualquer coisa. e. o que não é permitido nem mesmo supor. ao contrário. ao mesmo tempo. ou então: [ se foi gerado. no que diz respeito ao céu na sua totalidade — ou ao mundo ou. [ O segundo. contemplando sempre o que é idêntico. enquanto é gerado. Mas. o cosmo sensível é uma “imagem”. tudo o que é engendrado é necessariamente engendrado por alguma causa. o seu Demiurgo é. ou seja. com fundamento no quarto axio ma. dissemos que o que é gerado é necessariamente gerado por uma causa. todas as coisas que constituem este mundo são perceptíveis com os sentidos. [ Ora. pelo contrário. porque é engendrado e perece e nunca é verdadeira mente ser. se encontrarmos outro nome mais apropriado chamemo-lo assim — devemos considerar o que em primeiro lugar se considera a respeito de qualquer coisa: 1] se ele existiu sempre. Assim. o Demiurgo. o universo é a mais bela dentre as coisas que foram geradas (xáXMoTo TC3V yEyovóTcav). é engendrado e está sujeito ao vir-a-ser. toma como modelo algo que foi gerado. ao tipo de realidade do qual se falou no segundo axioma). Com efeito. ou se é uma “realidade engendrada”. é evidente que ele contemplou o modelo eterno. podemos estabelecer perfeitamente o modelo para o qual olhou o Demiurgo que construiu este mundo. porque permanece sempre idêntico. Ora. b) ou a alguma coisa sujeita à geração (ou seja. ao construí-lo. o que produz não é belo. realizada pelo Demiurgo. deve ser gerado por uma causa. Além disso. Sendo o cosmo o objeto da discus são que se desenrola no Timeu. é demonstrável claramente que o mundo é belo. não tendo nenhum princípio de geração. sendo o mundo a mais bela das realidades engendradas. mas todas as coisas desse tipo são sensíveis e o que é sensível é apreendido pela opinião por meio da sensação. conseqüentemente. se este mundo é belo e o Artífice é bom (àyai3óç). Ora. 27 e-28b. justamente por isso. o tipo de realidade da qual fala o segundo axioma. não fosse belo (mas somente nesse caso). se. E a propósito do universo devemos ainda indagar a que tipo de modelo o seu autor olhou ao fabricá-lo: se ao modelo que está sempre da mesma maneira e é idêntico ou se ao modelo que é gerado. fundamenta a estrutura gnosiológica e a justificação da metodologia adotada. é trabalhoso descobrir o autor e pai deste universo e é impossível falar dele a todos. Eis o texto: Segundo a minha opinião é preciso distinguir em primeiro lugar o seguinte: [ O que é o que é sempre e não está sujeito à geração? [ E o que é o que sempre é engendrado e nunca é ser? [ O primeiro é apreendido pelo pensamento juntamente com o racio cínio. . o melhor dos artífices. este mundo. é objeto da opinião juntamente com a sensação sem a razão. é também difícil fazê-la compreender por todos os homens (pelas razões acima explicadas). Com efeito. ao invés. logo. No entanto. Mais ainda. De fato. com fundamento no terceiro axioma. antes de tudo.Mas o Artífice poderia referir-se a dois tipos de modelo: a) ao que existe sempre e da mesma maneira (ou seja. No entanto. Finalmente. gerado em razão da sua natureza e sujeito ao vir-a-ser. ao tipo de ser do qual se falou no primeiro axioma). o Demiurgo olhou necessariamente para um modelo eterno. o Demiurgo teria usado um modelo engendrado. Mas tudo o que é perceptível com os sentidos e é opinável. e o Artífice é a melhor das causas (àplaToç TC. é visível e tangível e tem um corpo. é necessário estabelecer. se. 132 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 133 do Timeu e. é impossível que possa nascer sem uma causa. contemplou necessariamente um modelo eterno. Ora. a saber. é. [ Ora. ele olhou o modelo gerado. ele foi gerado. o axioma estabeleceu que. ou seja. ao contrário. serve-se dele como exemplar e realiza a sua idéia e a sua virtualidade. o Artífice não é bom. de uma realidade meta-sensível. Platão constrói metafísico e cosmo-ontológico de todo o tratado cosmológico 9. como veremos. o que produz é belo. como se estabeleceu no segundo axioma. um ser do tipo do qual nos falou o primeiro axioma. começando a partir de um principio. se. Timeu. Se o Artífice toma como modelo o ser eterno.v aiTíWV) Portanto. tudo o que assim é produzido é necessariamente belo: mas o que ele realizar utilizando um modelo sujeito à geração não será belo Sobre o fundamento desses quatro axiomas. [ Ora. existe um ser puro que só podemos captar com a inte ligência e é justamente esse que o Demiurgo contempla como modelo para poder realizar o mundo sensível e sujeito ao devir. se este mundo é belo. o Artífice que imitou e realizou o Bem no maior grau possível. Eis as palavras de Platão: — Ora. encontrar de maneira adequada essa causa o edifício do universo é difícil. se ele é um “ser que é sempre”.

que consiste na recepção da marca das imagens derivadas das Idéias. por meio de uma complicada mediação de caráter numérico e geométrico como teremos ocasião de ver ao menos parcialmente. de maneira muito acentuada. entendido como “paradigma” ou “modelo”. Mas. o Princípio material que constitui o mundo sensível não pode ser reduzido totalmente à estrutura do Prin cípio ideal e exatamente por esse motivo dá origem a um ser-em-devir intennediária entre puro ser e não-ser)’ (a uma forma de ser Mas há ainda dois pontos importantes que devem ser bem assi nalados para compreendermos essa complexa concepção de Platão. 134 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA para ser justificada e fundada. justamente porque o que nasce e perece nasce em algum lugar no qual e a partir do qual depois perece. acontece de modo “inefável e maravilhoso” (TpóTrov Ttv?x úOppaGTov xa auI. a saber: o que o Princípio material recebe e com o qual se “mistura” não são as próprias Idéias de modo direto. entendido como imagem daquele exige. pois que essa participação. o Universo é assim gerado. que alcança verdades incontrovertíveis. 3. insiste em que a realidade sensível. é gerada e está em movimento contínuo. o Princípio material assume tal espessura de sorte a in troduzir justamente a dimensão do sensível e. e quais suas relações com a Díade das “Doutrinas não-escritas”. não gerado e imperecível” e que. as imagens das Idéias obtidas pela mediação dos seres matemá ticos. portanto. enquanto na esfera do inteli gível o “misto” é estrutural e ah aeterno. 1) Platão sublinha. foi realizado pelo Artífice olhando o que se compreende com a razão e com a inteligência. Eis algumas afirmações: . Com efeito. de caráter inteligível. Evidentemente. Além disso. Platão dissera no Filebo. como acima explicamos. é “mito” no sentido de narração plausível. enquanto na esfera do inteligível os dois Princípios opostos que formam o “misto” são. mas são as 135 “imagens das realidades que sempre são”. b) Além disso. enquanto puro ser. E é exatamente sobre essa estrutura metafísica que se apóia a estrutura gnosiológica de todo o tratado cosmológico: o modelo ori ginário. a) O Princípio material participa de modo bastante complexo (por intermédio da Inteligência demiúrgica) do inteligível. ao contrário. deve-se ter bem presente o que já implicitamente assinalamos. “nasce Conseqüentemente. constituem um fundamental eixo de sustenta ção da doutrina escrita de Platão.Se. não é assim. Com efeito. essa pode ser bem fundamentada.taoTóv) ou seja. justamente em razão da sua estrutura ontológica. nem “passa numa outra coisa”. é absolutamente necessário que este cosmo seja imagem de alguma coisa’ Essa concepção do puro ser como “modelo” e do vir-a-ser como “imagem” do modelo e a necessidade de uma causa eficiente (o Demiurgo ou Artífice) para fundar e justificar essa relação. Timeu. mas não atinge certezas epistemológicas e. primeiramente. mas também explicara que. portanto. portanto. 29 a-b. por conseguinte. Mas. como tal. e que sempre permanece da mesma maneira. somente a intervenção da Inteligência demiúrgica pode levar a cabo a mediação. portan to. imutável e eterno das Idéias. é necessário admitir outro gênero de realidade: a “espacialidade” ou chora ( que forma o “lugar” (TóTroç) ou a “sede” ( para todas as realidades que nascem e perecem. é objeto de ciência. ao contrário. 10. vejamos quais são as características essen ciais do Princípio material sensível. O Princípio material do mundo sensível. que toda a realidade — em todos os níveis — é um “misto” que implica uma conjunção sintética bipolar de dois princípios opostos (limitei ilimitado). na esfera do sensível. não acolhe outra coisa que venha de fora. um Princípio material que tenha a função de recipiente e de substrato da imagem. ambos. o nosso cosmo físico que é justamente “imagem”) é objeto de opinião. cópia ou imagem sensível do modelo inteligível. E. com notável exatidão. que encontra justamente no Timeu sua expressão mais amadurecida e mais completa. imagens ou aparências de outras realidades’ ou seja. se é assim. surge uma natureza tal que. a imagem desse modelo (e. na esfera do sensível o “misto” requer uma causa que o realize (exatamente a Inteligência demiúrgica). exerce a função de modelo. em qual quer lugar e novamente perece num lugar”. I Timeu. o motivo da intervenção necessária da Inteligência demiúrgica depende do fato que. e ser sensível em contínuo devir. 28 b-29a. seu papel metafísico e seus nexos com a Díade A importante distinção metafísica entre ser inteligível. e justamente em razão desse plus que a dimensão sensível comporta. não obstante a tendência a reunirse com o Princípio oposto e a disponibilidade a deixar-se dominar por ele em ampla medida. as “imitações dos seres eternos” e. que o gênero da realidade inteligível “que é sempre da mesma maneira.

pela sua natu reza. supra. o do espaço (Xc que é sempre e não está sujeito à corrupção. Cf. as coisas que ocupam espaço são somente imitações ou imagens das Idéias. e h) um substrato. 52 c. 50 c. a natureza que recebe todos os corpos] é sempre a mesma coisa porque nunca abandona a sua natureza. pode continuar a rece ber continuamente outras. Timeu. e esse é apreendido sem os sentidos. sustentamos que uma coisa. imagem e ao qual se refere como a seu modelo (isto é. deve encontrar-se justamente “em algum lugar” e “o que não está na terra e em algum lugar no céu não é nada” Mas a verdade. ou seja. todas as coisas e é plasmável de várias maneiras justamente porque é um realidade amorfa (carente de uma definitivamente as formas estrutura formal própria) e nunca assume que sucessivamente recebe e. 13. 15. além da conotação conceptual da “espacialidade” (Xc tam bém a de “receptáculo” de tudo o que é gerado (úTroSoXT TraV&X O “receptáculo” é uma realidade que permanece sempre idêntica na sua estrutura amorfa. que nasce em algum lugar (-róTroç) e num lugar perece e que é compreendida pela opinião acompanhada de sensação. Em suma. Com efeito. não as próprias Idéias. Timeu. engendrada. em movimento contínuo. as realidades sensíveis e não as realidades inteligíveis em si e por si. o pIas mam e nele imprimem uma marca como com um metal (por exemplo. para ser. que proporciona uma localização (‘ a tudo o que está sujeito à geração. homônima àquela e a ela semelhante. não-gerada e não-perecível e que não recebe de fora outra realidade nem passa em outra realidade. Por conseguinte. E as coisas que entram e saem são imitações das coisas que são sempre. já que é a condição necessária para que tudo o que é gerado possa existir (é aquilo que. Se possuísse uma forma qualquer. Timeu. eliminaria toda forma de geração)’ 2) Para caracterizar o princípio material sensível. para acolher convenientemente todas as formas. a nota 6. o receptáculo não deve possuir nenhuma.o TI’JL v&õq). enquanto tal. é movida e modelada pelas coisas que nela entram e. é a seguinte: as coisas que ocupam espaço são somente as realidades geradas. 50 c. uma base sobre a qual se apóia. e não sujeita à corrupção”. especifica o que na passagem da República lida acima era indicado como ignorância. se fosse removido. Assim. observa depois Platão. 136 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 137 Ora. ou 12. pelo que só é cognoscível com raciocínio bastar do”. e) é dificilmente acreditável. ao contrário. por isso. Note-se como Platão. estendendo-a a todos os seres e a ela atribuímos erronea mente uma função onicompreensiva. como um material maleável. com efeito. com um raciocínio espúrio. conhecemos (seja sensivelmente. nós temos a tendência a conferir-lhe um alcance superior à sua natureza. não-conhecimento do não-ser (que corresponde ao Princípio material aqui tratado). ela é. referindo-se justamente a essa reali dade. as Idéias). Pois ela recebe sempre todas as coisas e em nenhuma circunstância passou a ter uma forma semelhante às que nela entram. a chora “é sempre. . há uma segunda forma de realidade que é sensível. 51 a. ou seja. Cf. cada vez em formas diferentes e aparece justamente sob aquelas formas. Eis o texto: É necessário dizer que ela [ saber. por causa delas.[ É necessário admitir que há um gênero de realidade que é sempre da mesma maneira. seja racionaliflente) o que é detcrn. Por isso. O que recebe a marca. assim como a recebe justamente o receptáculo. aqui.. só está ade quadamente preparado para essa função se estiver privado de qual quer forma. enquanto o Princípio material é in-determinodo. bastardo” (Àoytoí. aparece ora de uma maneira. por elas marcadas de uma maneira maravilhosa e difícil de explicar’ Platão insiste na estrutura informe do receptáculo. e dificilmente pode-se crer nele’ 14. não poderia acolher e reproduzir de modo adequado as formas opostas às que ele teria como suas próprias. [ E é necessário admitir que.nado. Platão apre senta. não é visível nem perceptível pelos sentidos e que somente à inteligência cabe contemplar. De fato. E comparável a um material que é plasmável seja. ou seja. o ouro) e o material é plasmado pelas formas que recebe. De fato. ele a) não é cognoscível pelos sentidos. portanto. o status ontológico das imagens que se realizam no sensível (coincidindo perfeitamente com o do “misto” do qual fala o Filebo) implica a) o ser do qual é aparição ou manifestação e. Com efeito. Recebe. ora de outra. 51 e-52b. [ E necessário enfim admitir que há um terceiro gênero. justamente a espacialidade da qual falamos e que se torna necessária como substrato do que nasce. b) é cognoscível somente com um raciocínio espúrio. As coisas que entram e saem do receptáculo são imagens das realidades eternas (imitações dos paradigmas das Idéias) e nele entrando.

devemos interrogar qual seja o nexo que o prende à Díade indefinida da qual falam as “Doutrinas não-escritas” e à qual a tradição indireta o liga de maneira exata e explícita A expressão Díade indefinida do grande-e-pequeno exprime de maneira constituída por uma combinação de já que a inteligência dominava a sintética a natureza do Princípio material. dizem respeito às obras da inteligência. a chora entra na Díade. outras de outro assim como no joeirar o trigo quando.. Com efeito. em certo sentido. sacudidos e agitados por peneiras e outros instrumentos. esse universo foi constituído desde o princípio. desse modo e por tais razões. Assim como fizemos para as coisas que até agora vimos. Esse tender ao grande-e-pequeno. o ar e a água tinham. em todos os níveis. Evidentemente a teoria que lemos no Timeu devia ocupar um lugar importante . que consiste em tender de maneira in-determinada e i-limitada na dupla direção do grande e do pequeno de várias maneiras. Reale. 138 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 139 E a nutriz da geração (rti yevlaec umedecida e abrasada. anômalo. agitação e movimentos desordenados e caóticos. observe-se que. engloba generica mente as três que acabamos de ilustrar) Platão faz apelo aos conceitos de “necessidade” (àváyxri) e de “causa errante” ( i aiT(a): As coisas das quais falamos antes. as coisas assim movidas separando-se continuamente eram levadas algumas de um lado. isto é. Reale. 543ss. e assim era antes que o universo formado por elas fosse ordenado. 9. casual.. Platone. Mas. Devemos.neu. a geração deste cosmo foi produzida como mistura necessidade e de inteligência.. é preciso acrescentar à nossa exposição o que vem ao ser por necessidade. ou seja. em parte alguma estava em equilíbrio. para falar de modo mais exato.. levou-o da desordem à ordem [ 18. algo indeterminado. a desordem em sentido global. aco Ihendo em si as formas de terra e de ar. ao mais e ao menos em todos os sentidos. pp. o nível mais baixo dela (o nível sensível). alguns traços ( da sua forma. mostrava-se à vista extremamente diversificada. à desmesura nas direções opostas. à exceção de algumas poucas. justamente como primeira cono tação do Princípio material (que. 52 c. vencida pela persuasão inteligente. acontecia que as partes mais desiguais separavam-se entre si o mais possível e as partes mais semelhantes se apertavam o mais possível no mesmo lugar e ocupavam desta sorte um lugar diverso umas das outras. E antes disso todas as coisas se encontravam sem razão e sem medida. sendo aqueles quatro gêneros sacudidos pelo receptáculo que se movia como um instrumen to de joeirar. Ti. os mais leves e raros para outro. Platão entende a carência total de finalismo (a mera disteleologia). ar. 6. ou melhor. em primeiro lugar o fogo e também a terra. mas se encontravam na condição na qual é natural que se encontre qualquer coisa da qual Deus está ausente [ 4) Por último. segundo a natureza do seu movimento.. ao excesso e ao defeito.] tomando tudo o que era visível [ sensível] e não estava em repouso. vale para tudo o que. trazendo em si caracteres rudimentares e traços dos elementos (água. evidentemente ao infinito. se alguém quisesse nar rar efetivamente como o universo foi gerado.. acerca do Princípio material. Portanto. 536-543. por meio da necessidade.. Eis dois dos textos mais claros: Deus E. 50 b-c. desconectadas entre si. cf. terra e fogo) e implicando também forças e afeições sem ordem e sem equilíbrio. é verdade. portanto. Eis o que significa justamente “causa errante”. Portanto. como uma realidade que se move e se agita de ma neira irregular e desordenada. Portanto. Timeu. ou. ou seja. 30 a. mas se encontrava de modo confuso e desordenado. e recebendo todas as outras afecções que a essas se seguem. o Princípio material é como um feixe de forças. ou seja. Timeu. Timeu. Ora. Portanto. um aspecto. mas. mas não a esgota de maneira alguma. Assim. E agora que explicamos o que Platão diz expressamente no Timeu ou na obra escrita. Plazone. E sendo cheia de forças nem semelhantes entre si nem em equilíbrio. cf. Ora. causa que age ao acaso e de modo anômalo. tende ao mais e ao menos. voltar atrás e começar com um novo princípio mais apropriado.. os grãos mais densos e pesados vão para um lado. precisaria acrescentar também a forma da causa errante. 52 b.3) Uma conotação conceptual ulterior e bastante interessante do Princípio material sensível é aquela que o indica como fonte da ge ração. pp. quando Deus começou a ordenar o Universo. também para estas é preciso recomeçar desde o princípio Por “necessidade”. oscilando de todas as partes irregular mente era sacudida por elas e ao mover-se por sua vez as sacudia. E necessidade persuadindo-a a orientar para o melhor as coisas que se produzem. 17. a chora do Timeu (e tudo o que o diálogo diz do Princípio material) representa apenas uma parte da Díade.

plasmando-o segundo o mundo das Idéias? O próprio Platão no- . 546ss. de que tipo de mal. a Díade não é totalmente domi nada pelo inteligível e pelo racional e deixa falhas abertas a uma des ordem e a uma des-mesura de teor bem diverso daquele que se veri fica na esfera dos inteligíveis. 5-15 Diels (Gaiser. esse tema essencial das “Doutrinas não-escritas” exercera sobre ele um influxo verdadeiramente notável. 31 Krãmer. a Díade enquanto tal abraça um quadro bem mais amplo.. De fato. podemos dizer que o que Platão nos refere em tomo ao Princípio material no Timeu (e. de gradação e de multiplicidade.. por conseguinte. tanto que se sentiu obrigado a discuti-lo mais de uma vez Devemos esclarecer um último ponto... 549-559. 52 d-53 b. Reale.. A tradição indireta refere-nos que Platão atribuía ao Uno a causa do Bem e à Díade a do Mal. Todavia não nos diz expressamente que a Díade fosse considerada tal em todos os níveis.. é necessário subir aos vértices da 22. No nível inteligível.. e da problematicidade axiológica. p. 8). a esfera intermediária produz também multiplicidade das mesmas realidades em sentido horizontal. A 6. pp. a única perspec tiva segundo a qual a Díade pode ser considerada causa do mal na esfera dos inteligíveis é uma perspectiva muito geral. com todas as suas implicações com respeito às dimensões do inteli gível. Metafísica. Platone. cf.. 54 A Krãmer. em geral. ao passo que na esfera do sensível a Díade mantém abertas as conseqüências negativas do vir-a-ser. onde a Díade age como princípio de diferença. multiplicidade e rebaixamento de grau somente em nível metafísico. D 2. 55 E). Metafísica. pp.também nas lições de Platão e talvez justamente com todas as quatro características que evocamos. sobretudo. do mal) somente em sentido paradigmático e abstrato. 987 b lss. Nela. todas as características liga das à esfera do sensível. 140 PLATÂO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 141 abstração metafísica alcançados nas “Doutrinas não-escritas”. 47 e-48 b. nas três grandes esferas: 1) a ideal. 2) a intermediária. Ao invés. 4). todavia. Timeu. ela se limitava apenas ao que diz respeito aos fenômenos sensíveis e deveria se apresentar somente como uma parte da visão global. Plai. a Díade causa. 4. o Princípio antitético ao Bem-Uno se diferencia nos diversos graus do ser e. o Prin cípio antitético produz especialmente a diferenciação e a graduação hierárquicas. Na esfera ideal. Ou antes. dado que entra na explicação do toda a realidade em todos os níveis. 248. da caducidade ontológica. ligando a questão da matéria inteligível justamente à proble mática platônica das Idéias e dos seres matemáticos. Timeu. nesse sen tido. Piar. na medida em que dela dependem as Idéias negativas das várias duplas de contrá rios. 16 Diels (Gaiser. Reale. 988 a lOss.. Test.. nos vários diálogos) não é exaustivo e que. cf. Piarone. Aristóteles. entende-se bem em que sentido a Díade sensível deva ser considerada causa dos males em sentido concreto.. Concluindo. 13). pp. Tesi. nos níveis inteligíveis. 531-535. 20.. 21. In Arist. Platone. diferença. em torno à natureza mortal Portanto. Piar. Test. in Ans Phys. Simplício. Pia!. Com efeito. Test. em última análise. isto é. a Díade é causa do negativo (e. 209 b 11-17 (Gaiser.. 34-431. somente antíteses. em particular. Reale.. Tesi. Teofrasto. mas sempre no nível inteligível. da insuficiência gnosiológica. Cf. em suma. Phys. fica assim muito claro o que o nosso filósofo diz no Teeteto. o novum porém que ele introduz na esfera do sensível consiste justamente em dar origem à própria dimensão do sensível.. (Gaiser. 30 Kramer. 3) a sensível. O “Uno” como marca emblemática do agir e do operar do Demiurgo Como opera exatamente o Demiurgo sobre esse princípio mate rial. mas que ele gira nesse mundo. que não é possível o mal ter lugar junto dos Deuses (ou seja. Piar.. Física.. na esfera dos inteligíveis). Aristóteles. 22 A Kr 9). Simplício. Evidentemente. o Princípio antitético ao Uno-Bem é prevalentemente causa de mal (ao menos de maneira concreta e específica) no seu nível mais baixo: no nível sensível. Evidentemente. cf. 6 a 23-b 5 (Gaiser. O próprio Aristóteles na Metafísica menciona muitas vezes o problema da existência de uma matéria inteligível além da matéria sensível. cujos traços essenciais nos foram conservados pela tradição indireta. ela possa ser causa do mal em sentido verdadeiro e próprio e. pp. seria difícil explicar como. 430.

Cf.. querendo que todas as coisas fossem boas (àya e que nada fosse mal na medida do possível. 142 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 143 julgando esta de todo superior àquela. criado juntamente com o cosmo. Com efeito. K 1. 68 d-69b. a comunhão de todas as coisas entre si 3) Mais ainda. 1) O mundo é perfeito porque é realizado como Uno ( E para ser perfeito deve ser uno. Deus. Ele quis que todas as coisas se tor nassem semelhantes a si [ Com efeito.0±tÀLOTa ‘év). Algumas linhas antes dessas afirmações. Reale. como dissemos. pp.toTç). 9). H 6. Metafisica. Timeu. Sendo assim. não é permitido ao que é ótimo (T ixpíoTp) fazer senão o que é mais belo (Tà XáXÀIOTOV) Ao fazer essa obra. explicando que o Demiurgo. O mesmo se diga do movimento circular que lhe foi impresso. realiza uma unidade no seu fluir. Afistóteles. Platão caracterizou insis tentemente em geral e em particular a atividade e as obras do Demiurgo. é para Platão a própria essência do Bem) e operou realizando a unidade-namultiplicidade.. ou seja. 1037 a 5-13. Teeleto. 56 c. 24. 26. 2) Além disso. enquanto o tempo imita a eternidade que é um permanecer na unidade (iv iví). enquanto tal é uno. porque a esfera é uma forma que inclui em si todas as formas (a Tà TrsplElÀflpàç iv TrávTa óTrócYa a)(T realizando o máximo da semelhança. MetafLsica. Em outros termos. Timeu. a atividade do Deus-Demiurgo consiste em levar as coisas . longe da inveja. enquanto é o “bom” em sumo grau (ou seja.-lo revelou claramente. 176 a-b. o cosmo é constituído como uno-todo. que é uma forma de movimento no mesmo lugar e em si mesmo do mesmo modo (sintetiza estabilidade e movimento). Platone. as relações numéricas. ef. tomando tudo o que era visível e não estava em repouso. O testemunho mais famoso das “Doutrinas não-escritas”. 581-615. diz-nos Platão. ao levar a ordem ao seio da desordem: Ele era bom (àya e num ser bom não nasce inveja por coisa alguma. levou-o da desordem (ix Tflç xTa d ordem (siç Tá e que se encontram em condição desordenada ( a uma medida ou co-medida (ou e introduzir nelas ordem e proporção geral e particular. Z 11. A 6. a me dida e em plasmar e modelar “segundo formas e números” (ET8EGL xal xpiOi. como um “uno””inteiro” ( justamente porque tem como base um cálculo numérico. 30 b-31 a. Justamente sobre essa base da relação numé rica ( que leva todas as coisas à unidade ( o Demiurgo funda a amizade (ptXía) ou seja. mas se movia confusa desordenadamente. 29 e-30 a. Z 10.. o “ótimo”). Platão nos diz (numa passagem sobre a qual adiante voltaremos) que a ciência e a potência de Deus consistem justamente em misturar “os muitos no uno” (rlx rroXXà El v) e em dissolver as coisas “do uno nos muitos” (i ivóç lç iroXXá) Referindo-se exatamente ao Uno (e aos vários modos nos quais o Uno se desdobra e realiza em vários níveis). como sabemos. 1059 b 14-21 e o flOSSO comentário à Metafisica nessas passagens. que é um tipo de liame que faz das coisas ligadas um “uno em grau supre mo” ( . Com efeito. Pia!. e o cosmo é imagem desse modelo (imagem una de um modelo único) 25. sem a intervenção de Deus todas as coisas (todas as coisas no âmbito do Princípio material) jazem “sem ordem e sem medida” (ixXóyo xai 1iTpc E ordenar o universo consiste justamente em produzir os logoi. de modo a conduzi-las a estar em relação adequada com a medida (i3 &JvaTàv fjv c xai OiqiitETpa eTvat). 53 a-b. que engloba num uno-inteiro a totalidade dos inteiros. o que o Demiurgo produz é um bem que se infunde no Princípio material mediante a relação numérica (àvaXoyía) e pondo em proporção as coisas que estão em desordem segundo relações numéricas (ouvrjpiióoOai TaOTQ c Xóyov). pp. E essa imitação da unidade da eternidade acontece por meio do número (xaT’ áptOiióv) 23. nos modos mais variados e mais notáveis. sem deixar nada fora 4) Também a forma esférica do cosmo realiza perfeitamente a unidade. Cf. Studien zum aristoteiischen Materie-BegriJj Berlim-Nova lorque 1971. a unidade do cosmo é garantida pelo liame par— ticular que o Demiurgo estabeleceu entre os quatro elementos. por meio da medida e das relações numéricas e geométricas.. Ver em particular: H. Estando. opera atuando o Bem em sumo grau. e é justamente isso que produz coisas belíssimas e ótimas (xftXXicrrcx xa àptcrra).. no qual Platão liga a Díade de grande-e-pequeno com a “causa do mal” (Toõ xax aiTía) é de Aristóteles. E isso vale igualmente para o ser autárquico pelo qual o mundo é uno sem que tenha necessidade de qualquer outra coisa 5) Também o tempo. Timeu. Happ. 988 a 14 (Gaiser. 572ss. 1036 a 9-12. 1045 a 33-35. porque o modelo. 27. pois. 22 A = Krãmer. Hyle. Tes!. Podemos sintetizar essa insistência sobre o “Uno” como marca que caracteriza a atividade e a obra da Inteligência demiúrgica. o Demiurgo apoiou-se no Uno (que.

com a trama numérica e geométrica que reproduzem. que é uma forma de semicriacionismo (ainda que notável) comparada com a do Deus bí blico. 34. a passagem entre as Idéias e as coisas que lhes são correspondentes. 32. cf. e a realidade do Princípio material sensível caracterizado pelo mais-e-menos. b) Essa complexa trama metafísico-numérica no puro nível ideal implica.34 a. T-meu. 47 e-48 a. há “muitos semelhantes”. Com efeito. que são justamente os “seres matemáticos” Eis o que. Platone. bem como a supe ração radical das objeções à teoria das Idéias e. desenvolve uma complexa articulação de formas e números (ET xa’t ptO que de-limitam o Princípio material sensível. ‘iv) e um “inteiro” ( estruturado segundo dimensões geométricas e numéricas har mônicas que realizam o Bem. cf. 5. as Idéias ou For mas eternas de um lado. o parágrafo seguinte e as notas 39-40. 3 Cf. enquanto a criação do Deus bíblico é absoluta. 29. para bem entender isto devemos ter presentes alguns conceitos já nossos conhe cidos. 30.. somente por meio dela é possível fazer descer o inteligível articulações numéricas e geométricas ao sensível. a) A mediação entre a esfera do ser eterno e a da realidade sensível e a “criação” (passagem do não-ser ao ser) implica. pelo desigual. 33 b. “criar” um ser gerado que realize sensivelmente. a complexa questão das Idéias. pois pressupõe. a atividade criadora do Demiurgo platônico não é absoluta. além disso. o ser não-gerado (e jus tamente é esse o criacionismo no sentido helênico). entre a Forma-uno não-gerada e incorruptível (de um lado) e os correspondentes muitos seres semelhantes gerados e corruptíveis (do outro lado) se situem como intermediários os muitos seres semelhantes não-gerados e eter nos. pp. pp.. que a Inteligência demiúrgica criou com o fim de realizar perfeitamente o modelo do inteligível no sensível. Levar essa realidade desordenada à ordem é justamente le var o não-ser ao ser. E este é o modo perfeito de realizar a uni dade 7) Enfim a própria alma. das dificuldades que têm como alvo a sua transcendência.. 575ss. Tinzeu. o parágrafo seguinte e as notas 41-44. ou seja. a Ordem de modo perfeito como explicaremos melhor. que ligam em particular e em geral cada uma das Idéias com todas as outras. pp. Os seres matemáticos. a Unidade. pela desordem e pelo excesso. segundo Platão. sendo uma passagem que acontece entre Uno ( e muitos (iroÀÀá) é explicada com a introdução de muitos entes eternos semelhantes entre si ( xcx’t xxívqTa—TróÀÀ’ oia) de modo que. Platone. 578s. em particular. como haveremos de ver. 31 b-32 c. formam exatamente a estrutura mediadora (e justamente por isso são chamados “intermédios”) entre os Números ideais. Platone. e as coisas sensíveis do outro. uma esfera intermediária mediadora. a Medida. Mas. em conseqüência. diz claramente que esse mundo nasceu exatamente da mistura de necessidade e de inteligência: l1E yàp oõv i TOO ToO xóøi-tou )‘iVEO ixváyx Tt xclj voO O1JOTáOEO)Ç âYEVVt será incompreensível se não tivermos bem presentes a estrutura metafísiconumérica das Idéias platônicas e os nexos numéricos (àpiO Àóyoi).. uma complexa articulação numérica porque. exatamente.. deles. e resumir de maneira sinótica.. 144 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 145 tuída com a mistura de três realidades (ix TpIC. lia Lama) e. tudo o que foi dito. pois não pressupõe nada e é um produzir ex nihilo. segundo a sua opinião. uma unidade que é consti 28. . explica bem o desdobrar-se da estrutura bipolar do real em geral e. os complicados nexos fundacionais que subsistem entre a transcendência do mundo das Idéias com respeito ao mundo sensível e a participação deste naquele. Cf. Com efeito. é una (uma Idéia. Cf. cf. a existência de duas realidades que têm entre si um nexo metafísico bipolar: a realidade do ser que é sempre do mesmo modo e que serve de exemplar.. mas. Portanto. Reale. em particular. ou seja. Tirneu. ou seja. completando-o. o parágrafo seguinte e as notas 36-38. desenvolve-se a atividade criadora do Demiurgo no mais alto grau possível na dimensão do pensamento dos gregos.. A atividade criacionista do Demiurgo platônico entendida na dimensão helênica Nesse produzir a unidade-na-multiplicidade e no produzir o “misto” do ser cosmológico e as estruturas que o tornam possível. Reale. Reale. Justamente por isso os seres ma temáticos intermediários são “imóveis e eternos” como as Formas. justamente para produzir. 32 c-33 b. Timeu. os “seres matemáticos” são a mediação necessária entre cada Forma ou Idéia que é “una” ela somente (‘iv xacTrov ióvov) e a multipli cação da mesma numa pluralidade..Números que acima expusemos.6) Mas justamente na criação (produção) dos quatro elementos materiais sensíveis o Demiurgo. 579ss. Mas essa trama de 33. realizando a imagem dos modelos ideais. da melhor maneira possível.

9). enten dendo-a sob o ângulo alegórico-didático ou refutando-a. ele pensou pro duzir uma imagem móvel da eternidade e. ar. todas as coisas se encontravam sem razão (ixXáycaç) e sem medida ( Mas. como é possível imitar este permanecer na unidade. por hipótese. já lido parcialmente: Antes disso. 2) Mais complexa e articulada mostra-se a operação produtora dos quatr água. ou seja. reproduzindo esse modelo segundo o ritmo e a trama numérica. Justamente por isso o “era” e o “será” não podem ser referidos cor retamente aos seres eternos para os quais vale somente o “é”. e este cons . porque “era” e “será” são apenas cópia móvel numerada do “é” do eterno. a terra. A distinção entre o eterno e o tempo e o esclarecimento de que não é correto aplicar ao eterno “era” e “será”. 37 d 3-7. 987 b 14-18 (Gaiser. mas encontravam-se na condição na qual é natural que se encontre tudo aquilo do qual Deus está ausente. na história do pensamento oci dental. foram levantadas em vários níveis e em repetidas oportunida des. essas coisas que se encontravam então naquele estado. ou seja. em sentido helênico. 37. O exemplar ao qual o Demiurgo se refere na criação do cosmo é eterno (o Vivente eterno. o Demiurgo se inspira nas duas formas mais belas de triângulos: no triângulo retângulo isósceles e no triângulo que se obtém dividindo em duas partes o triângulo eqüilátero com uma perpendicular (ou então dividindo o mesmo tri ângulo em seis triângulos. Timeu. estavam em estado de total desordem. A 6. no mês e no ano e move-se ciclicamente segundo o número. o fogo em primeiro lugar. o tempo foi gerado juntamente “com o céu” e “se gundo o modelo” e assim. Eis um texto exemplar. Sendo assim. ele as modelou em primeiro lugar com for. feitos juntamente. a água e o ar tinham. 37 d-39 d. Como observamos. Desse movimento cíclico numericamente determinado nascem o “era” e o “será” do tempo. como fez Aristóteles. ar. Test. Com base no triângulo isósceles. na origem. terra e fogo. ademais. Timeu. Cf. algum traço da sua forma própria. operando por meio de formas e números e produzindo um “misto” entre o Princípio material e aquilo que é realizável no Princípio material das Idéias dos quatro elementos por meio de formas geométricas e números. IIET’ oõpavoõ OVEV e. Aristóteles Metafisica. e 3) a criação da alma. 22 A = Krãmer.nas e com números (Ei TE xcii xpu Fique também isto firme. 35. o céu perecesse. Deus produz esses elementos (ou os “cria” no sentido helênico) e os cons titui de modo belo e bom. justamente aquela que deno minamos Tempo Para Platão. faz uma imagem eterna que procede segundo o número (xaT’ da eternidade que permanece na unidade (h. Platão formula uma tese verdadeiramente inovadora. Plat.. o tempo e o céu. que Deus tenha constituído essas coisas da maneira mais bela e melhor possível. o fluir da unidade segundo um ritmo numérico que se realiza no dia e na noite. A imagem da eternidade é o fluir da mesma. Em conseqüência. ví). quando Deus começou a ordenar o Universo.Detenliamo-nos em três dos pontos que caracterizam da maneira mais perfeita a atividade criadora do Demiurgo. enquanto constitui a ordem do céu.. 38 b 6-8: importante notar as fortes expressões: XPóVO .. que permanece no uno Eis o ponto mais significativo do texto: Ora. ou seja. Ora. 146 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 147 1) Comecemos com o exame da criação do tempo. a Idéia global do cosmo que implica a essência da vida). traçando uma perpendicular de cada vér tice com relação ao lado oposto). que consiste em levar o Uno aos Muitos mediante os seres matemá ticos e a dimensão numérica: 1) a criação do tempo. xaTix Tb irapíxSEtyIla. Portanto. e. o Demiurgo formou cada um dos quatro elementos da maneira seguin te: coordenando quatro triângulos isósceles com os ângulos retos reu nidos em torno de um centro se obtém um quadrado. partindo do estado em que elas se encontravam e que sem dúvida não era esse Ao constituir os quatro elementos. o eterno é um permanecer na uni dade (év vi). toda uma série de dificuldades que. são e serão sempre (o tempo pereceria junto com o céu se. a saber. e combinando seis quadrados de maneira adequada obtém-se um cubo. vimos que a natureza do Vivente é eterna e que não era possível adaptá-la perfeitamente ao que é gerado. terra e fogo possuíam somente “alguns traços da sua forma” no interior do plexo do Prin cípio material. água. 2) a criação dos elementos. característica essencial da eternidade? E exatamente a mediação do número que torna possível a resposta. vice-versa). 38. cortam pela raiz 36. naturalmente. sim. Timeu. que os seus próprios discípulos não saberão receber de maneira adequada. como sendo dito uma vez por todas.

c) ao icosaedro. com as indicações ulteriores que aí damos. na ordem harmônica. 148 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGLA 149 titui a estrutura atômica que configura o elemento terra. ou seja. justamente por isso. mostrando como essa estrutura numérica coincida com a estrutura musical e como. por sua vez. obtém-se um triân gulo eqüilátero que adequadamente multiplicado e combinado de maneira exata (que Platão indica. mas. ela participa do mundo ideal.39. Timeu. Para um aprofundamento desse tema cf. 44. dão origem aos corpos que vemos e tocamos. Diferença intermediária). com a mistura que chamamos horizontal o Demiurgo opera sobre três realidades intermediárias (Ser intermediá 40. Combinan do. a partir do centro do cosmo se estende para todas as partes e envolve circularmente desde fora o mundo. Cf.. estrutura atomística e fundando-se nos sólidos estritamente articuladas com a inteligência da Alma do mundo. Evidentemente. que constitui a estrutura do ar. a criação e a racionalidade dos corpos sensíveis em geral dependem exatamente da estrutura geométrica e matemáti ca. Platone.. por assim dizer. sinteticamente combinados ou “misturados” com o Princípio material sensível. ele insiste igualmente na estrutura numérica. o Demiurgo produz três intermediários desta maneira: a) um Ser intermediário entre o Ser indivisível e o Ser divisível. uma. Cf. segundo a geométricos regulares. constituem os quatro elementos não são por si visíveis por causa da sua pequenez (sendo como átomos). 41 d-42 a. mas aqui não podemos pormenori zar para não alongar demasiadamente a exposição) dá origem: a) ao tetraedro (pirâmide regular de base eqüilátera). b) ao octaedro. Além da estrutura dimensional da alma. os movimentos caóticos do Princípio material) Com a inteligência que lhe é infundida pelo Demiurgo. cunhada pelos renascentistas.. em sentido vertical. b) uma Identidade interme diária entre a Identidade indivisível e a Identidade divisível e c) uma Diferença intermediária entre a Diferença indivisível e a Diferença divisível. com dotados todos corpos esféricos feitos de almas inteligen tes. por si caótico. Reale. Cf. Identidade intermediária. por meio de uma penetração capilar que “refreia” o Prin cípio material sensível. são pura mente inteligíveis. 563-571. Com a mistura em sentido vertical. que constitui a estrutura da água. dessa maneira. Timeu. os movimentos que a alma imprime ao mundo sejam harmôni cos (os movimentos que a alma imprime dessa maneira reproduzem. O corpóreo físico-sensível espelha a estrutura do corpóreo inteli gível (geométrico). de modo a formar uma unidade que deriva das três malidades ( T v) Além disso. Assim. ao passo que. corresponde perfeitamente à concepção platônica. Por sua vez. 585-598. é “a mistura de uma combinação de ne cessidade e inteligência” Ponto. 150 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 151 . a Alma do mundo tem como função concretizar o grande desenho do Demiurgo. e outra em sentido horizontal. Com a sua estrutura geométrica dimensional e matemática. Ela é produzida por meio de uma dúplice “mistura”. Platone. o criacionismo do Demiurgo age como um levar ordeth na des-ordem em todas as partes. por meio do Demiurgo. Timeu. com exatidão segundo relações numéricas e geométricas perfeitamente proporcionadas: e 41. misturando-os “mais ou menos do mesmo modo” e. superfície. reunindo-se em grande número. Na “mis tura” com a qual cria estas almas utiliza o que sobra dos três elemen tos com os quais cria a alma do universo. tornam-se visíveis. constituindo o verdadeiro vínculo entre o mundo metafísico e o mundo físico Recordemos que o Demiurgo cria igualmente todas as estrelas e os astros como seres viventes predominantemente divinos e de fogo e eternos. as almas dos homens. a nota 34. ver Reale. pp. de maneira análoga. Em conclusão. esses sólidos regulares de estrutura geométrica que rio. supra.. Timeu. 40 a-b. estrutura tridimensional. pp. até nos mínimos pormenores. Cf. 34 a-36 d. linha. seis triângulos do segundo tipo.. 3) Mais complexa mostra-se a operação da criação da alma do mundo (e das almas em geral). 53 a-b. Platão insiste na Estrutura geométrico-dimensional da Alma do mundo (num sentido ideal de linha e superfície que plasmam a figura global do cosmo). a qual. 43. 42. que constitui a estru tura do fogo. no plano dos seres intermediários e ideais. Ele cria também. A expressão anima copula mundi.. ela proporciona um fundamento à passagem entre Idéias e mundo con creto sensível e resume analogicamente toda a realidade. torna-as imortais Em todos os sentidos. 34 b-35 a.

é o Demiurgo (isto é. é tam bém o que realiza a unidade-na-multiplicidade. Se quer agir bem. por conta própria. Deus age da me lhor maneira ordenando e co-mensurando a desordem que procede do Princípio material antitético ao Bem. que liga o Uno e os Muitos e os Muitos e o Uno de maneira perfeita. como Aquele que realiza a Medida suprema. segundo a ótica da estrutura bipolar que já conhecemos. ou seja. 46.. Para um aprofundamento do problema e para uma interpre tação e um comentário dos textos relativos a isso cf. A anamnese. O Demiurgo pressupõe a existência das Idéias gerais e das Idéias das realidades naturais (às quais se refere e nas quais se inspira. 41 b. nem mesmo remotamente. 605ss. na construção do cosmo). aquilo que Deus faz. Timeu. Deus. é o “melhor dos seres inteligí veis” e a “melhor das causas” Por sua vez. 463-470. para os gregos. em geral. O Timeu no-lo diz continuamente. ou seja. o Deus platônico é “aquele que é bom” em sentido pessoal enquanto a “Idéia do Bem” é o Bem no sentido impessoal Para entender isso destaquem-se dois pontos essenciais. justamente por isso Ele é o Bom e o ótimo por excelência. a potência para misturar muitas coisas na unidade (T iroXXux EiS v) e de novo dissolvê-las da unidade em muitas coisas ( vàç ElÇ iro)iXá). ou seja. Timeu. 152 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL uma interpretação daquilo que liga todas as coisas (da amizade e da comunhão que fazem que o Todo seja uno) proposta no seu mais alto grau na dimensão helênica VI. uni-ficando o múltiplo. é o ser mais cerca do Bem. e isso imprimindo-lhes justamente o Bem. vale dizer. a fim de atuá-las em todos os níveis. tem acima de si. pois. Cf. justamente enquanto inteligência. O Demiurgo (e não a Idéia do Bem) é o Deus de Platão O Deus supremo.. Por razões de conipletude. E Deus quis que todas as coisas se tomassem o mais possível semelhantes a Ele. Reale. realizar a unidade-namultiplicidade e assim produzir ordem e harmonia. a Idéia do Bern é “o Divino” (Tà ÚeTov). mostrou-lhe como modelo:. a Medida e a Ordem. ou seja. duz. a saber. 68 d. mas também conceptual e expressamente insiste nisso numa passagem à qual já acenamos e que é oportuno reproduzir aqui a modo de sigla conclusiva: Deus possui de maneira adequada a ciência e. Timeu. a Inteligên cia suprema) que. pp. para Platão. o ser das Idéias e os Princípios primeiros e supremos). Mas não há nenhum dos homens que saiba fazer nem uma coisa nem outra. Por conseguinte. Plarone. Exata mente nesse sentido também para Platão a Inteligência suprema im plica como seu . Cf. para o grego. as Idéias dos objetos artificiais. 29 e. não pro 45. Trata-se de 48.. na produção de todos os objetos das suas artes. h) Parmênides introduziu no pensamento grego a concepção se gundo a qual a inteligência é possível somente se tem o ser como seu fundamento e se ela se exprime no ser e por meio do ser. tem acima de si hierarquicamente uma regra ou regras às quais deve ater-se e nas quais deve inspirar-se na sua atividade. o Bem é a regra suprema (e o mundo das Idéias no seu complexo constitui como que a totali dade das regras) nas quais Deus se inspira e às quais se atém. como modelos. atuando-os perfeitamente. a Inteligência suprema. como mani festações do nexo metafísico que unifica toda a realidade. o homem deve fazer o que Deus mesmo. enquanto é a Inteligência que desdobra e atua o Bem em sentido universal.. nessa ótica. A GNOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 1.. 47. E é esse justamente o modo segun do o qual Platão entendeu a justiça e a virtude. mas cria” (em sentido helênico) todas aquelas nas quais se inspiram os homens. ou seja. mas o pressupõe. a) Deus. do ponto de vista hierárquico. tomando a si mesmo como medida de todas as coisas (como dizia Protágoras) saiba ou possa fazer (ainda que de forma diferente). 29 a. uma regra ou algumas regras supremas. que realizassem em grau supremo o Bem-Uno. recordemos que o criactonismo do Dentiurgo estende-se também às Idéias dos artefacto. nem haverá no futuro Naturalmente não há nenhum homem que. depois de ter criado os Deu ses. na medida do possível. pp. ou seja. ao mesmo tempo. Desta sorte. do Uno e da Medida suprema. 439-453. Plalone. raiz e condição do conhecimento no “Mênon” 6. como Platão nos diz no livro X da República. como diz o Timeu. às quais deve referir-se e que deve cumprir. Em outras palavras. o próprio fundamento. Justamente nesse sentido o Deus pla tônico. Reale.. como modelos. Também uma Inteligência suprema. imitar a potência atuada por Ele na criação das coisas. 49.isso significa justamente levar possível o Uno-nos-muitos no melhor dos modos fundamento o Bem (e. Deus é Bom por excelência justamente porque opera em função da Idéia do Bem. 37 a.

80 d. 41 infra. não é preciso aceitar aquele raciocínio erístico. (Reproduzimos a passagem do Timeu. em geral. Deuses e homens “são mantidos juntos pela ordem. as soluções propostas nos escritos se mostrem. 304 e a passagem do Górgias. Devemos responder aos seguintes problemas: como se dá e o que é o conhecimento? Em que difere o conhecimento do inteligível do conhecimento do sensível? O problema do conhecimento fora levantado de algum modo por todos os filósofos precedentes. Para um comentário analítico do diálogo remetemos à nossa edição. conv. não se pode procurar e conhecer o que não se conhece porque. abertas. pela sabedoria e pela retidão”.tônico “sempre geometriza” (Plutarco. e possui desde sempre: e esse “tirar de si” é um “recordar”. Fica agora por examinar de que maneira o homem pode ter acesso cognoscitivamente ao inteligível. um vir à tona do que já existe sempre no interior da nossa alma. pesquisar e aprender são. La Scuola. que ele convida esses Deuses a imitar. nosso discurso. Na realidade. inspira-se nas doutrinas órfico-pitagóricas dos sacerdotes segundo as quais.. consiste em traduzir o Uno-nOs-múltiplos. Se assim é. e somente as “Doutrinas não-escritas” alcançam o vértice supremo. E já que toda a natureza é congênere. nos torna operosos e estimula a pesquisa Na verdade. qual te propões procurar? Ou ainda. que ela não é senão mito e de maneira nenhuma uma doutrina de caráter dialético e teorético. Os erísticos tentaram bloquear capciosamente a questão. com efeito. obvia mente. da sua estrutura e do modo pelo qual ele se reflete no sensível. as deste mundo e as do Hades. 228-229). como sabemos. Sócrates. não se poderia reconhecê-lo. 2). . e já que a alma aprendeu tudo. Quaest. isto é. Muitos estudiosos dizem. Platão dizia que céu.mente. o que é fundado sobre o mito — e a reminiscên cia assim formulada funda-se sobre um mito — não pode ter outro valor senão o de mito. A alma viu e conheceu toda a realidade na sua totalidade: a realidade do além e a realidade do aquém. ele nos tornaria indolentes e só é agradável aos ouvidos dos homens incapa zes. mesmo encontrando-o. nada há que não tenha apreendido. é pouco mais que uma fábula. não é surpreendente que ela seja capaz de recordar-se a respeito da virtude e a respeito das outras coisas que conhecia também precedente. não tem sentido procurar o que já se conhece. mas não se pode dizer que algum deles o houvesse formulado de maneira específica e definitiva. perfeitamente razão quantos lamentam o caráter puramente mitológi teriam Falamos do mundo do inteligível. Já no Górgias. A primeira maneira. Ver o discurso que o Demiurgo faz aos Deuses criados. 41 a-d. pois não a conheces? É exatamente para superar essa aporia que Platão encontra um caminho inteiramente novo: o conhecimento é anamnese. a-d. 507 e-508 b. Brescia 1986”. justamente porque já é conhecido: E como procurarás. Exatamente neste sentido a tradição indireta concebia a atividade demiúrgica. in Timeu. assim sendo. de caráter mítico-religioso. como sempre. o que não sabes absolutamente o que seja? E das coisas que não conheces. dizendo que o Deus pia. Tentemos explicar essa doutrina platônica tão freqüentemente mal-entendida. p. 154 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL co e a não-validez no campo estritamente especulativo da “reminis cência”: com efeito. na pp. é facil compreender como a alma possa conhecer e aprender: ela deve simplesmente tirar de si mesma a verdade que possui substancialmente. Eis o célebre passo do Mênon: Sendo a alma imortal e tendo renascido muitas vezes. um recordar. Portanto. A ONOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 155 forma de “recordação”. sus tentando que a pesquisa e o conhecimento são impossíveis: com efei to. Ménon. O Mênon apresenta a doutrina de duas maneiras: uma mítica e outra dialética e é preciso examiná-las a ambas para não se correr o risco de trair o pensamento platônico. 507 e-508b. e já que viu todas as coisas. ao invés. conclui Platão. Platão foi o primeiro a abordá-lo em toda a sua clareza mesmo se. por outro lado. nada impede que quem se recorde de uma coisa — o que os homens chamam aprender — possa descobrir também todas as outras. desde que seja forte e não perca coragem na pesquisa: com efeito. a alma é imortal e renasceu várias vezes: a morte não é senão o termo de uma das vidas da alma num corpo. terra. uma 1. A primeira resposta ao problema do conhecimento se encontra no Mênon’. O seu “poder”. 2. a questão se apresenta bem longe de ser tão facilmente reduzida e eliminada. como poderias saber que é ela mesma. se te acontecesse esbarrar justamente nela. E justamente nisso consiste o levar a unidade-na-multiplicidade. o nascimento não é senão o recomeçar de uma nova vida que vem somar-se à série das vidas precedentes. se Platão não houvesse dito mais do que isto. e é justamente isso que faz do mundo um “cosmo” e não “desordem e desregramento”.50. VIII.

com a função de fundamento. despertadas por meio da interrogação. que estão encobertas. Sócrates — Se pois. ao contrário. pois nasceu e foi criado na tua casa. ou seja. apenas interrogando-o socraticamente com o método maiêutico. Sócrates — E a ciência que ele possui agora. Sócrates. assim como a verdade. a alma deverá ser sempre ímortal. certamente não a aprendeu nesta vida. ele procederá da mesma maneira para a geometria e para todas as outras ciências. Sócrates — Mas ele tem ou não tais conhecimentos? Mênon — Incontestavelmente parece que os tem. longe de ser um mito. desde o momento em que ele soube conquistá-la sozinho (embora com o auxílio do método dialético) não resta senão concluir que ele tirou-a de dentro de si mesmo. “lembrou-se” dela E aqui. verdades que não aprendeu antes na vida atual. com efeito. em substância. é uma constata ção e uma prova de fato. se sempre a possuiu foi também sempre um cognoscente. Cf. ao invés. pp. Mênon — Mas eu sei que ninguém nunca lhe ensinou nada. antes do nascimento do homem no qual agora se encontra: a alma é então imortal e. por meio da experiência maiêutica. tanto no tempo em que é homem como no tempo em que não o é há nele opiniões verdadeiras as quais. como é claro. Eis a conclusão que Platão faz Sócrates deduzir depois de tomar claro a todos. Mênon — Sim. com efeito. Mênon — E claro. ele (o escravo) conhecerá sem que nin guém lhe ensine. quer dizer que ela já as possuiu como próprias desde sempre. não é evidente que os aprendeu e possuiu em outro tempo? Mênon — Claro. porém. ora é homem e ora não o é. Interroga um escravo absolutamente ignorante de geometria e consegue fazê-lo resolver. ou seja. Mênon — Assim é. Sócrates — Então. 45-60). tirando ele próprio a ciência de si mesmo. que não há recordação) Os estudiosos repetiram com freqüência que a doutrina da anamnese nasceu em Platão de influências órfico-pitagóricas. que. Da existência da verdade na alma Platão deduz em seguida a imortalidade e perenidade da mesma: se a alma possui como suas próprias. mais ainda. a alma dele não estará sempre e em todo o tempo de posse do saber? E evidente. se a verdade dos seres reside sempre na nossa alma. que o escravo. o nosso comentário. enquanto o que antes era pressu posto mitológico. Com efeito. 156 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL A ONOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 157 Sócrates Por conseguinte. mas somente o interrogue. toma-se. tomam-se conhecimentos.Logo depois. Mênon. mas podem ser desveladas à consciência. 82 b-86 e (ver o comentário e o aprofundamento desse ponto na nossa edição. Assim sendo. pode tirar e extrair de si mesmo a verdade que antes não conhecia e que ninguém lhe tinha ensinado. se não os adquiriu na vida presente. no Mênon. em certo sentido permanente no ser. uma questão complexa de geometria (implicando. soubera resolver um dificil problema de geometria e alcançar a verdade: 3. Sócrates — Logo. Sócrates — Portanto. Mênon. pp. mas. conclusão. Ou acaso alguém lhe ensinou geometria? Mais ainda. como todo homem em geral. 39ss. se. depois da exposição mitológica. depois de tudo o que explicamos é claro que na gênese da doutrina . da própria alma. Portanto — assim Platão passa a argumentar — já que o escravo não havia apren dido geometria antes e já que ninguém ditou-lhe a solução. em todo o decurso do tempo. o conhecimento do teorema de Pitágoras). ele a aprendeu em algum tempo. Talvez haja alguém que lhe tenha ensinado tudo? Certamente deves sabê-lo. a base da argumentação. que o escravo in culto. ou aprendeu-a em algum tempo ou sempre a possuiu. 81 c-d (cf. as partes são exatamente inverti das: o que era conclusão toma-se interpretação especulativa de um dado de fato experimentado e comprovado. Platão faz uma “experiência maiêutica” que tem um extraordinário alcance demonstra tivo.). guiado somente por perguntas oportunas. 4. é necessário entregar-se confiantemente a buscar e a recordar o que atualmente não se sabe (é disto. Sócrates — E não é acaso esse o tempo no qual ele não era homem? Mênon — Sim. Sócrates — E o tirar a ciência de dentro de si mesmo não é recordar? Mênon — Certamente.

referindo-se sobretudo aos conhecimentos matemáticos (que tiveram importância muito grande no determinar a descoberta do inteligível) Em resumo. — Estamos. às noções correspondentes que. de modo perfeito. de modo a não poderem ser tais como o igual em si? Ou então não são sob nenhum aspecto deficientes? — São deficientes e muito. como um dos seres que são por si. Os sentidos só nos dão conhecimentos imperfeitos. é necessário que tenhamos visto o igual em si antes do momento em que. Com efeito. não consegue ser como ela e lhe é inferior”.a maiêutica socrática teve uma importância equivalente. de modo defeituoso? — Necessariamente. etc. a matemática revela que a nossa alma está de posse de conhecimentos perfeitos. 5. vendo pela primeira vez coisas iguais. ou são. para este ponto. de fora. 73 c ss. mais ainda. indiscutivelmente possuí mos: nenhuma coisa sensível é jamais “perfeitamente” igual a uma outra. às luminosas páginas de J. “absolutamente perfei tos”. não resta senão a conclusão de que ela os encontre em si e os extraia de si como uma “possessão originá ria”. entre os dados da experiência e as noções e os conhecimentos que temos. que não derivam das coisas sensíveis e que. maiores e menores. Mênon. acrecentou Sócrates. . quando alguém. A doutrina da anamnese apresenta-se. justo. 158 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL A ONOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 159 mente (a nossa inteligência. E já que os não produz. a propósito daqueles iguais que encon tramos nos pedaços de madeira e naquelas outras coisas iguais sobre as quais há pouco discorríamos.) que possuímos e das quais fazemos uso nos nossos juízos e que. que é recuperada de maneira explícita como Eis a passagem do Fédon que contém o momento conclusivo do raciocínio: — E então. isto é. Mas. mesmo sem alcançá-los. “recordando-os”. como se viu. não só como um corolário da doutrina da metempsicose órficopitagórica.. respondeu ele. estamos de acordo em que quem raciocina deste modo deve necessariamente ter visto aquilo ao qual a coisa se assemelha. encontra os conhecimentos perfeitos corresponden tes. diz-me: parecem-te iguais como o igual em si. Paris 1967. aprofundando-se e como recolhendo-se dentro de si ou interiorizandose. 2. espelham modelos ou paradigmas aos quais tendem as coisas. e de cfrculo. pois. quadradas e circulares e de outras análogas. ao contrário. — E então? Não é algo parecido que nos acontece a propósito das coisas iguais (empíricas) e do igual em si? — Exatamente o mesmo. de quadrado. o nosso espírito). como brotando de uma originária e pura possessão da nossa reminiscência. II 5ss. não pode provir de dentro de nós como criação do sujeito pensante: o sujeito pensante não cria esse plus. mas são deficientes com respei to a ele. a fundação lógico-metafísica) da própria possibilidade da rnaiêutica socrática. santo. a nossa 6. belo. Remetemos. não provêm para nós da experiência sensível porque são mais perfeitas do que os dados fornecidos pela experiência e contêm o plus que não se pode justificar senão da maneira já explicada. E necessário concluir que. como sabemos pela exposição da dou trina ontológicometafísica. sob algum aspecto. Le sens di platonisme. pp. isto é. eis como argumenta Platão: averiguamos com os senti dos a existência de coisas iguais. o plus se impõe absolutamente ao próprio sujeito. 7. pensamos que todas tendem a ser como o igual em si. de acordo em que. — Portanto. vendo alguma coisa raciocina desse modo: “Essa coisa que agora eu vejo quer ser como uma outra. Desta maneira. 85 d-86 b. E de onde poderá derivar esse plus? Se. tomando ocasião desses dados. deficientes. existe um desnível: estas con têm algo mais com relação àquelas. não resta concluir senão que provém de dentro de nós. Ora. no entanto. desco brimos que os dados que a experiência nos fornece — todos os dados. não deriva e não pode estruturalmente provir dos sentidos. Confirmações da doutrina da anamnese nos diálogos posteriores Platão ofereceu no Fédon uma comprovação ulterior da anamnese. mas também como a Justificação e a comprovação (ou seja. Fédon. não obstante. depois de atenta reflexão. nenhuma coisa sensível nunca é “perfeitamente” ou “abso lutamente” quadrada ou circular e. é evidente que para poder fazê-la surgir maieuticamente da alma.. assim. isto é. mas é deficiente com respeito a ela. ele o “encontra” e o “descobre”. possuímos essas noções de igual. manifes tamente. porém. Moreau. alma. sem nenhuma exceção — nunca se conformam. Platão repete o mesmo raciocínio a propó sito das doutrinas estéticas e éticas (bom. a verdade deve subsistir na alma. Cf.

1. ouvir e usar os outros sentidos apenas nascidos? — Certamente. em vista do que queremos 8. dividiu-o em almas. mas não é facil para todas as almas recordar-se ( nas coisas daqui das coisas lá do alto [ No Timeu. — Parece. — E acaso não é verdade que começamos logo a ver. — Mas também estamos de acordo no seguinte: que. a ouvir e a empregar os outros sentidos tivemos de obter de alguma maneira a ciência do igual em si. para o bom em si. aos quais. para o santo em si e para cada um dos outros seres como eu digo. vol.— Assim é. 249 b-c. na alma de cada um de nós Platão manteve constantemente a teoria da reminiscência e a reiterou expressamente no Fedro (posterior à República). Sócrates. para o conheci mento do igual em si partimos e não podemos partir senão de um ver ou tocar ou de qualquer outra percepção sensorial. antes que começássemos a ver. — Pois bem. o Demiurgo. — E o que se conclui necessariamente do que foi dito. Algum estudioso entreviu na reminiscência das 9. que antes de nascer é necessário que já estivéssemos de posse daquele conhecimento. perguntando nas nossas perguntas e responden do nas nossas respostas. mesmo se velada. assim como no tardio Timeu. colocou-as dessa maneira como sobre um veículo. conhecíamos antes de nascer e logo depois de nascidos não somente o igual. — Logo. se esquece. Portanto. desprezando as coisas que agora chamamos ser e tendo a cabeça levantada para o que existe verdadeiramente’ Como. encontrando-se no séquito de um Deus. Sciacca. 74 d-75 d. Lemos no Fedro: É necessário que o homem conheça por meio do que chamamos Idéia. 38ss. mas também para o belo em si. — Assim é necessário que das sensações nasça em nós a idéia de que todas as coisas iguais que percebemos sensivelmente tendem a ser como o igual em si. não teria vindo a esta vida. mostrou-lhes a natureza do universo (T TO€1 TravTàÇ çóatv I8EI e deu-lhes a conhecer as leis do destino’ Assim como a expusemos e interpretamos. Com efeito. logo depois de ter criado as almas des tinadas a encarnar-se em corpos humanos e depois de tê-las confiado aos astros (para que. mas não inteiramente: Depois de ter feito um todo [ de quanto sobrara dos elementos com os quais constituíra a alma do universo]. o raciocínio que agora estamos fazendo não vale somente para o igual em si. mas permanecem sempre inferiores. já nascemos possuindo-o. 10. que devemos dizer? — Isso mesmo. efetivamente. uma “visão” metafisica originária do mundo ideal . demonstrar. Fedro. — Assim parece. apomos o selo do “ser em si”. tantas quantas eram os astros e distribuiu cada uma em cada um dos astros. de outra maneira. — De fato. procedendo da multidão de sensações à unidade (Eiç ‘iv) conquistada com o raciocínio: e essa é a reminiscência ( das coisas que a nossa alma viu alguma vez. Milão 1967. para o justo em si. pois. do que ele é. é necessário que tenhamos aprendido as noções de todas essas coisas antes de nascera. não faz diferença. Sobre o significado da anamnese platônica ler-se-ão com proveito as páginas de M. passassem aos corpos). pp. o maior e o menor. Fédon. para poder referir a ele as coisas iguais sensíveis e perceber que todas têm o desejo de ser como ele. mostra-lhes a verdade originária: aquela verdade da qual a alma. ao entrar depois no corpo. mas são deficientes com respeito a ele. já que isso não faz diferença. 160 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A GNOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 161 que permanece sempre. mas também todas as outras realidades dessa espécie. a doutrina platônica do conhecimento como reminiscência das Idéias torna-se algo muito menos fantasioso de quanto algumas interpretações menos avisadas deram a entender. ai: Platone. Ou então. toda alma humana pela sua própria na tureza contemplou os seres pois. — E também não dissemos que antes ainda de ter sensações era neces sário que tivéssemos alcançado o conhecimento do igual em si? — Sim. se tendo alcançado antes de nascennos aquele conhecimen to. Sócrates. inspiradas no apriori objetivo em sentido rosminiano. dissemos. A reminiscência supõe estruturalmente uma impressão na alma por parte da Idéia. F. por meio deles.

de que o conhecimento é proporcional ao ser. e Platão determinou-os na República e nos diálogos dialéticos. — Portanto. em geral. Mas. Huber. de acordo com a faculdade de cada uma? — Assim é’ As formas do conhecimento são duas: a mais baixa é a doxa (6ó a mais alta é a episteme ( ou ciência: a primeira tem por objeto o sensível. se para o que é dizemos haver ciência. doxa. o não-ser é absoluta mente incognoscível. 1 4. a segunda o supra-sensível. Com efeito. — Algo que é ou então que não é? — Algo que é: como poderia ser conhecida uma coisa que não é? — Sob qualquer ponto de vista que consideremos a questão. a opinião é ordenada a uma coisa e a ciência a outra. sobre a qual o leitor encontrará ampla informação e discussão in A. Eis a passagem da República que exprime claramente esses conceitos: — [ Aquele que conhece conhece alguma coisa ou nada? — Responderei que conhece alguma coisa. ou seja. de modo a ser e não-ser. Na República. para Platão. E já que a mente. não seria como intermediária entre o que é puramente e o que não é de modo nenhum? — Seria intermediária. Sul/e interpretazioni immaneniistiche de/Ia filosofia di Plalone. enquanto explica substancialmente apenas isto: o conhecer é possível porque temos na alma uma intuição originária do verdadeiro. ver o volume V. sabendo que existe também uma realidade intermediária entre ser e nãoser. temos. Platos Ideen/ehre. disse ele. Natorp. 41 d-e. o a priori que o platônico Rosmini reivindicou contra Kant. Anamnesis bei Plato. da primeira concepção do a priori na história da filosofia ocidental’ 3. Munique 1964. indicamos a volumosa obra de C. Levi. 12. as Idéias são realidades objetivas absolutas que. Timeu. [ em 1920]). por suficientemente assegurado que o que é totalmente ser é totalmente cognoscível e o que não é de modo algum é totalmente incognoscível? — Absolutamente assegurado. — Portanto. é evidente que. E. a anamnese explica a “raiz” ou a “possibilidade” do conhecimento. se impõem como objeto da mente.11. Para os recentes estudos. Como pretende P. na reminiscência. pois. Platão conclui que desse ser intermediário há exatamente um conhecimento intermediário entre a ciência e a igno rância. Essa expressão. para o que não é necessariamente ignorância. — Pertence a uma faculdade distinta da ciência ou à mesma? — A uma faculdade distinta. isto é.d. um conhecimento que não é conhecimento próprio e verdadei ro e cujo nome é “opinião”. Ao leitor que queira aprofundar a questão da anamnese em todos os seus aspectos. 162 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A GNOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 163 misto de ser e não-ser. desde que se entenda não o a priori de tipo kantiano e neokantiano ou. — Muito bem. mais do que o conhecimento. e assim por diante). Fedro. Idéias a primeira descoberta ocidental do a priori. o sensível. mas se alguma coisa fosse tal. é muitas vezes deficiente. ainda que com o concurso da experiência (devemos ver as coisas sensíveis iguais para nos “recordarmos” do Igual-em-si. — Ora. Todavia. idealista’ que é um a priori subjetivo (ainda que em sentido transcendental). podemos com razão falar da descoberta do a priori. mas um a priori objetivo. para o tal intermediário será necessário buscar algo de intermediário entre a ignorância e a ciência. Os graus do conhecimento delineados na “República” No entanto. de modo que somente o que é plenamente ser é perfeitamente cognoscível. Leipzig 1903 (e a corrente de inspiração neokantiana. Turim s. não dizemos que a opinião é alguma coisa? — Sem dúvida. por meio da anamnese. que (como vimos acima) é um 13. parte do princípio. pode sem dúvida ser usada. uma vez tomado claro que não é platônica. — Certamente. a opinião. Os estágios e os modos específicos do conhecer ficam por determinar ulteriormente. Ela . e as capta independentemente da experiência. 249 e-250 a. já nosso conhecido. desde que ele exista mesmo. capta e não produz as Idéias.

haveria uma passagem do sensível ao supra-sensíveP Mas Platão especifica ulteriormente tanto a doxa como a episteme. ou seja. a dois graus do inteligível: a dianoia é o conhecimento das realidades matemático-geométricas. O intelecto e a intelecção. como alguém oportunamente traduz o termo) pode também ocupar-se com elementos visíveis (por exemplo. a segunda às coisas e aos próprios objetos sensíveis. das Idéias e do Prin cípio supremo e absoluto (ou seja. deixadas as sensações e o sensível e qualquer elemento ligado ao sensível. 18. como sabemos. conforme Platão mesmo indica’ com a célebre comparação da linha. como Platão diz no Mênon. mas não pode nunca ter em si a garantia da própria retidão e permanece sempre lábil como lábil é o sensível ao qual se refere. Para fundamentar a opinião e torná-la estável seria necessário. de Idéia em Idéia. e sobem de Idéia em Idéia até intuir a Idéia suprema (que é o primeiro e supremo Princípio. as matemáticas) como coadjuvantes nessa conversão — Além disso. o comum dos homens detém-se nos primeiros dois graus da primeira forma do conhecimento. 15. livre dos sentidos e do sensível. o Incondicionado. e levanta e eleva ao alto o olhar da alma. disse ele. com um proceder que é ao mesmo tempo discursivo e intuitivo. só o filósofo ascende à noesis e à ciência suprema. desejando fundá -la em provas não segundo a opinião. Cf. cada conhecimento refere-se a um grau correspondente grau e forma do e a uma forma correspondente de realidade e de ser. 17. a primei ra às sombras e às imagens sensíveis das coisas. mas se caracteriza sobretudo pelo conhecimento dos seres matemáti cos que. os mate máticos elevamse à dianoia. A eikasia e a pistis correspon dem a dois graus do sensível e referem-se. como. fixá-la com o conhecimento da causa (da Idéia). Mênon. passim. na medida em que não sabe dar razão nem a si nem aos outros. assim. Sobre República: esse aspecto da dialética detém-se particularmente a raciocínio causal. à Idéia suprema. por meio da dialética. respectivamente. além das suas lições (eis por que os diálogos posteriores à República são chamados dialéticos). prendê-la com o 4. e passando como num combate através de todas as objeções. não chamas dialético a quem sabe dar razão da essência de cada coisa. conduz às Idéias e em seguida. V. o Bem/Uno). República. captam. A noesis é o conhecimento. mas então ela deixaria de ser opinião e se tornaria ciência ou episteme.pode ser também verdadeira e reta. 476 e-477 b. 164 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A ONOSIOLOGIA E A DIALÉTtCA 165 Portanto [ somente o método dialético procede por este caminho. atravessando tudo isto com um raciocínio inatacável. as figuras que se traçam nas demonstrações geométricas). seus nexos positivos e negativos.é. são ontologicamente “intermediários”. da República em diante. atribuindo a cada uma dois graus: a doxa divide-se em imaginação (Eixaoía) e em crença ( enquanto a ciência divide-se em uma forma de conhecimento mediano (3távota) e em intelecção pura (vó De acordo com o princípio acima ilustrado. pelo qual a inteligência passa do sensível ao inteligível e vai de Idéia em Idéia. — Assim será igualmente com relação ao Bem: quem não é capaz de definir a Idéia do Bem com o raciocínio. a noesis é a dialética pura das Idéias. mas segundo a essência. Cf. 509 c ss. VI. mergulhado num pântano bárbaro. com um procedimento sinótico (que passo a passo abraça a multiplicidade na unidade). usando as artes das quais temos tratado (i. as Idéias puras. A dialética EiX (eikasia) /1 ou imaginação 1TÍQTIÇ (pistis) L ou crença Naturalmente. E esse proceder. A dianoia (conhecimento mediano. na opinião. da Idéia do Bem) com todos os seus nexos de fundamentação e participação’ Podemos esquematizar as formas e os graus do conhecimento e as respectivas formas e graus da realidade. mas que. da maneira seguinte: 16. Cf. o que dissemos nos parágrafos 4 e 5. é a “dialética”. A dianoia e a noesis referem-se. isto é. se acaso apreende alguma imagem do . Platão tenha buscado aprofundar de todos os modos esse conceito de dialética tam bém nos seus escritos. e quem não é capaz disso. de modo que o filósofo é o “dialéti co”. não dirás que esse tal não conhece nem o Bem nem alguma coisa boa. afastando as hipóteses (iiro1 até alcançar o Princípio (irr’ airn rf àpxt para conferir solidez. por sua vez. Entende-se. 97 a ss. isto é. todos os liames de implicação e exclusão. não dirás por isso que esse tal não tem inteligência? — E como poderia dizer que tem?. Haverá uma dialética ascendente que. República. abstraindo-a de todas as outras. isto é.

20. mas entre essas coisas ditas ao acaso há dois modos de proceder dos quais seria interessante. esses dois procedimentos da dialética e os seus nexos. ensinar algo [ Fedro — E o que dizes. sobre o outro modo de proceder? . necessi tamos ainda de algumas explicações mais pormenorizadas. é precíso ter bem presente o fato de que os nexos fundacionais consistem exata mente nas relações Uno/muitos e que as gradações dos dois procedi mentos dialéticos são as que levam passo a passo a abraçar a mui tiplicídade na unidade. a) Primeiramente é necessário ter bem presente que o procedi mento sinótico e o diairético se entrecuzam de várias maneiras e encadeadamente. descendo ao Hades. Três pontos merecem ser especialmente salientados. qual é aquela sobre a qual se pretende. b) Em segundo lugar. de modo a se compreender como o uno se desdobre nos muitos. até chegar à unidade suprema. procedendo por divisão (procedimento diairético). as coisas dispersas e múltiplas. aí termina num sono completo? Haverá também uma dialética descendente que. a saber. apenas nos entregamos a um jogo. vale dizer: a ciência . ou seja. a fim de compreender bem quanto acabamos de expor. os nexos fundacionais e totalizantes que constituem a trama da própria dialética em geral e em particular. compreender tecnica mente a função. a compreender a trama complexa das relações numéricas que unem as partes e o todo. isto é. em cada caso. No seu grau supremo. Sócrates. c) Em suma. República. V 534 b-d. apreende-a com a opinião e não com a ciência e sua vida aqui não é senão sono e sonho dos quais não acorda até que.Bem. com a fina/idade de tornar claro. parte da Idéia suprema ou de Idéias gerais e. distinguindo passo a passo Idéias particulares contidas nas Idéias gerais e fundando-se nas articulações nas quais se desdobram. de como “os muitos sejam um e o um seja os muitos”. para misturar muitas coisas na unidade e. a dialética no seu sentido global leva à compreensão daquela coisa “admirável” da qual fala o Filebo. VII. chega às Idéias que não incluem em si Idéias ulteriores e assim consegue estabelecer o lugar que uma Idéia dada ocupa na estrutura hierárquica do mundo ideal e. de fato. novamente. República. 166 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A GNOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 167 diários” das “Doutri nas não- Mas. seguindo o cami nho oposto. ou seja. 533 c-d. dissolvêlas da unidade em muitas Eis três passagens fundamentais que trazem ao primeiro plano os três pontos que destacamos: Sócrates — Parece-me que nas outras coisas nós. de sorte que um só é compreensível em conexão com o outro e reciprocamente. Plano do conhecer Bó (doxa) ou opinião Plano do ser imagens sensíveis objetos sensíveis mundo sensível 7rlOT (episteme) ou ciência ufzvota (dianoia) ou conhecimento mediano vórlcltç (noesis) ou intelecção objetos matemáticos (os entes “interme escritas”) Idéias e Idéia do Bem mundo in teligível 19. 5. A construção protológíca da apoiada sobre o uno e sobre os muitos Quanto expusemos não alcança ainda o fundamento e a constru ção protológica da dialética. por meio de uma visão abran gente. e as que le vam a decompor diaireticamente a unidade na multiplicidade. com isso. ao se definir cada coisa. . Fedro — Quais são? Sócrates — <O primeiro modo de proceder consiste em> reconduzir a uma única idéia. se possível. ela é exatamente o conhecimento que o Demiurgo (a Inteligência divina) possui de maneira perfeita.

ao contrário. eu sou. Platão nos oferece um esboço dos mais notáveis desses nexos dialéticos. a estrutura bipolar (Uno-Díade. 265 c-266 b. E. é em nós uma propriedade dos próprios raciocínios. e. e buscando não quebrar parte alguma. que eram melhores do que nós e estavam mais perto dos deuses. 68 d. ainda que muito importante. é determinável justamente no sentido grego de “número” (no sentido que podemos qualificar como arithmós-logos). Fi/ebo. pois. a essa individuação 22. Fedro. portanto.Sócrates — Ele consiste. em cada uma das coisas que se dizem agora e no passado. sob as quais estão e) os múltiplos sensíveis correspondentes. Sofista. com a escolha de algumas das Idéias supremas. [ muitas <Idéias> to talmente distintas. procedendo de Idéia em Idéia até aquelas hierarquicamente mais elevadas e aludindo (embora de maneira bastante insistente) a como se chega à Idéia do Bem (ao Uno). ocorre sempre e em todas as partes. 168 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A GNOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 169 . a fim de ser capaz de falar e de pensar. 21. imortal e imune de velhice A definição das relações positivas e negativas subsistentes entre as Idéias se reduz. em saber dividir segundo as idéias. além disso. são envolvidas do exterior por uma <idéia> única: [ uma única idéia que. um grande amante. por obra de algum Prometeu. a) O primeiro estágio. e bem assim às determinações segundo as quais as Idéias comunicam entre si ou segundo as quais são entre si incomunicáveis. nas suas últimas instâncias. Os antigos. [ b] muitas outras que. distintas entre si. que em parte nos foi transmitido pela tradição indi reta. Estrangeiro — Por conseguinte. A República apresentou somente amplas indicações de como se chega à essência do Bem (ou seja. sobretudo. E isso é saber comunicar por meio de gêneros e compreen der de que modo cada um pode comunicar com o outro e de que modo não Afirmamos que a identidade do uno e dos muitos. somente na dimensão da oralidade Platão apresentou um quadro completo da dialética nas suas cone xões essenciais. os quais representam a Unidadena-multiplicidade na maneira mais elevada e num sentido prototípico e paradigmático. 24. das divisões e das unificações. 15 d. A passagem do Uno aos Muitos — recordemo-lo — tem lugar sobre o fundamento de uma relação bipolar do Uno com relação à Díade (o Princípio oposto da multiplicidade indeterminada). Todas as Idéias estão articuladas aos Números no sentido que explicamos. isto é. e. no Filebo. e o próprio Parmênides apresenta apenas um escorço. do Uno). ademais. o mais luminoso. quem é capaz de fazer isto percebe bastante complexa dos nexos Uno-muitos e muitos-Uno. segundo me parece. separando-a de todas as outras (e. Eis como. apresentando-o mesmo como “um dom dos Deuses aos homens”: Sócrates — Parece-me que de algum lugar divino foi lançado. por meio da ação determinante daquele sobre esta. juntamente com os nexos que cada Idéia admite com as superiores e as inferiores. E isto não cessará nunca e não começou agora. A carta global da dialética não foi apresentada por Platão nos seus escritos. b) dos Números ideais se passa às Idéias mais gerais c) e depois às Idéias particulares até se alcançar d) as Idéias não ulteriormente di visíveis. não dire mos acaso que seja isto próprio da ciência dialética? Teeteto — Assim o diremos. E se julgar que alguém é capaz naturalmente de ver o uno nos muitos. isto é. estabelecida nos raciocínios. é assinalado pelos números ideais (que se redu zem à Década). transmitiram-nos este oráculo: que as coisas das quais se diz que adequadamente fi a] a idéia que se estende completamente através de muitas outras. das supremas). Os diálogos dialéticos apresentaram algumas notáveis seções diairéticas e ilustraram certos nexos entre algumas Idéias fundamentais. fundando-se nas articulações que elas têm por natureza. 253 b-c. como costuma fazer um mau açougueiro [ Fedro — Dizes coisas muito verdadeiras. ou seja. Sócrates — E dessas coisas. se estende por muitas unidades. um dom dos Deuses aos homens. juntamente com um fogo. em sentido hierárquico. no sentido de que o Número (ixpt’ significa uma relação exata (Xóyoç). mas. concentrada embora na sua uni dade. “abstraindoa”. 23. mas algo assim. correrei atrás de suas pegadas como das de um deus Estrangeiro — Dividir por gêneros e não considerar diversa uma idéia que é idêntica e não considerar idêntica uma idéia que é diversa. limite-ilimitado) de todo ser que comporta a estrutura metafisico-numérica de todo o real. e um vértice sob determinado ângulo. na verdade. O Sofista apresenta um exemplo específico. a trama complexa que liga cada Idéia com as outras. Timeu. Fedro. das quais cada uma permanece isolada em si mesma e.

ou seja. múltiplo como os sensíveis. são essas coisas que distinguem entre nós os raciocínios efetuados de maneira dialética e de maneira erística Para concluir. nas Idéias (primeiro nível da “segunda navegação”). como eu disse. Quando compõe. percorre em todos os entidos a multiplicidade da estrutura piramidal dos inteligíveis. o poeta é inspirado.] O terceiro é a invasão e o delírio vindo das Musas que. em vez da máscara de um “Estrangeiro de Eléia”. ou qualquer outro número e novamente fazer o mesmo exame para cada uma. no plano metafísico por ele conquistado. e em que medida. O poeta nunca é tal por ciência ou por conhecimento. ligado ainda ao ponto de vista dos físicos. deveria. com relação a qualquer conjunto.sempre existem são constituídas de uno e de muitos e. cada um. Tentemos compreender mais profundamente as razões dessa con denação que permaneceu quase sem apelação em todos os diálogos. mas o corrompe porque é mentirosa. Por conseguinte. Já nos primeiros escritos. Como o Uno determina e de-limita o Princípio oposto (Díade i -limitada e in-determinada). a Idéia pode multiplicar-se na sua “unidade” e des cer no sensível justamente por meio dos seres matemáticos que são eternos como as Idéias. ela se aproxima do verdadei ro. Platão assume uma atitude negativa diante da poesia. desdobrando-se nos Números ideais e na trama numérica ideal. porque não conhece. e 25. os Deuses nos transmitiram esse modo de investigar. 3) se possui socialmente valor educa tivo ou não. 170 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL desta maneira podem determinar o Princípio material de modo capi lar. que são nossas partes inferiores. apoderando- . considerandoa decididamente inferior à filosofia. enquanto lhes escapam as coisas intermediárias. aprender e ensinar os outros. mas oculta o verdadeiro. suas respostas são totalmente negativas: 1) a arte não desvela. Mas os sábios de hoje tratam o uno de qualquer maneira. resta chamar a atenção sobre um único ponto. a estrutura de arithmóslogos do ii até alcançar as Idéias supremas e. antes de ver qual seja o número deste. Como é sabido. Com efeito. Eis a passagem do Fedro a mais significativa a esse respeito: E. mas por intuição irra cional. levar a cabo um “parricídio de Pitágoras”. Platão preocupa-se somente com o seguinte: estabelecer o valor de verdade que a arte possui. E não devemos aplicar a Idéia do ilimitado ao múltiplo. Platão. na medida em que desloca o número do plano puramente quantitativo ao plano metafísico e axiológico. Com efeito. é necessário que. 16 c-17 a. retomando o que já foi dito. portanto. pois somente a partir de tal conexão tornase plenamente inteligível. Filebo. para um plano metafísico inteiramente novo V A CONCEPÇÃO DA ARTE E DA RETÓRICA 1. passando imediata mente do uno ao ilimitado. já que as coisas assim estão dispostas. inversamente.. podemos resumi-la da maneira seguinte: conduz do sensível ao inteligível (do plano fí sico ao metafísico) recolhendo a multiplicidade do sensível em vários níveis nas unidades do inteligível. que são a mais perfeita e idealmente articulada unidade-namultiplicidade. assim como reconheceu em Parmênides um pai. Portanto. evidentemente. ou três. mas. 2) não melhora o homem. inconsciente: não sabe dar razão do que faz nem sabe ensiná-lo a outro. em seguida. está “fora de si”. isto é. levou às últimas conseqüências o pitagorismo. ao determi nar a essência. depois dessa primeira devemos examinar se não há duas. busque mos sempre uma idéia — nós a encontraremos sempre presente. realizando uma metábase do plano puramen te aritmético. o desdobrar-se também em todos os sentidos da unidade na multiplicidade). é “invadido” e. e o que é intermediário entre o ilimitado e o uno. ele tivesse assumido a másca ra de um pitagónco. 1) se. de sorte a que vejamos não somente que o primeiro uno é uno e muitos e ilimitado. a função. com a metáfora emblemática do “parricídio de Parmênides” se. O poeta é poeta por l I1Oíp isto é.. não por virtude de conhecimento’. nos diálogos dialéticos. pela sua natureza. Portanto. mas também qual a sua exata quantidade. Mas. ou seja. finalmente. e os muitos mais rapidamente ou mais lentamente do que se deve. assim analogamente as Idéias e a trama do mundo ideal determinam a Díade sensível com a mediação dos seres matemáticos “intermediários” entre ser inteligível e ser sensível. Ora. por sorte divina. levada a cabo pela Inteligência divina (Demiurgo) no modo que já vimos. têm em si o limite e a ilimitação. 2) se faz o homem melhor. A arte como afastamento do ser e do verdadeiro A problemática platônica da arte deve ser vista em conexão es treita com a temática metafísica e dialética. fazendo uso de uma metáfora igualmen te emblemática. de sorte a espelhar tão bem quanto possível o mundo inteligível. a cifra emblemática da dialética platônica torna-Se bastante clara e. captando em todos os sentidos a unidade-na-multiplicidade (e. mas deseduca porque se dirige às faculdades irracionais da alma. a abstração última da Unidade absoluta. Tendo-a encontrado. só então podemos deixar cada unidade do conjunto dispersar-se no ilimitado. o papel e o valor da arte. 3) não edu ca.

— E exatamente assim Por conseguinte. corruptora e é. por um lado a sua obra permanecendo longe da verdade. verdadei ros hinos à beleza. muito se escreveu e muito se disse. o que parece. chocado com a sua crueza. lon. Platone. o imitador não terá nem ciência nem opinião reta daquilo que imita. ou seja. assim. Muitas vezes foram citadas as passagens do Banquete e do Fedro. — Portanto. no entanto. — Parece que não. Com efeito. é um jogo ou uma brincadeira. 244 a ss. A arte em todas as suas ex pressões (isto é. vale dizer. Ora. Fedro. 245 a ss. fatos e acontecimentos de vários tipos. esse associar o problema da arte ao problema da beleza é historicamente pouco correto. e que a imitação é um jogo e não uma coisa séria. quem chega às portas da poesia sem o delírio das Musas. sobre este ponto estamos de acordo o suficiente. não pretendendo nada de são e verdadeiro A arte é. com ele se entretém e lhe são amigas e companheiras. Mas. a arte figurativa imita a mera aparência e. segue-se então que ela acaba sendo uma imitação de uma imitação.. ele imitará não conhecendo para cada coisa sob que aspectos é boa ou má. Platão está convencido de que a arte se dirija não à parte melhor. ou então com o fim de imitar a aparência tal como aparece. exilada ou mes mo eliminada do Estado perfeito. e que aqueles que compõem a poesia trágica em iambos e hexâmetros são imitadores no grau máximo em que se possa ser. passim. 172 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL A ARTE E A RETÓRICA 173 apenas pela habilidade artística. realiza todas as oisas na medida em que não atinge senão uma pequena parte de cada uma e esta somente como uma imagem Logo. é imitação das coisas sensíveis. e a poesia de quem permanece no seu são juízo é obscurecida pela dos que estão possuídos pelo delírio Mais exatas e determinadas são as concepções da arte que Platão exprime no décimo livro da República. — Portanto. excitam-na e a arrastam fora de si na inspiração báquica. uma cópia que reproduz uma cópia. 1. os poetas falam sem saber e sem conhecer aquilo de que falam. julgando que poderá ser um poeta de valor 26.. Mênon. uma “imi tação” de coisas e acontecimentos sensíveis. E inútil tentar. a arte imitativa está longe do verdadeiro e. seja como arte pictórica e plástica) é. invocando o fato de que Platão aprecia em grau sumo a beleza e a Idéia do Belo. ensina aos pósteros. pois. cores. por sua vez. 99 d ss. mas à parte menos nobre da nossa alma. no que diz respeito ao belo e ao feio. do ponto de vista ontológico. Cf. Cf. será o imitador na poesia amável quanto à sabedoria das coisas que faz? — Não muito! — E.. e. sabemos que as coisas sensíveis são. passim. relevos plásticos. ao que parece. em geral. “visível” entre todas as realidades inteligíveis. de outro se dirigem ao que é em nós mais afastado da inteligência. [ A pintura e. e houve quem. distam do verdadeiro na medida em que a cópia dista do original. disse ele. — Então. se a arte. valendo-se das aquisições da estética . ao menos no contexto platônico. sendo imitação da aparência ou da verdade? — Da aparência. somente ela. Reale. como veremos. Eis. a menos que se submeta às leis do bem e do verdadeiro Sobre essa concepção. mas. mas a imitação do ser verdadeiro: são uma “imagem” do “paradigma” eterno das Idéias e. procurando reproduzi-los com palavras. assim.-se de uma alma pura e delicada. sobretudo. em cânticos e outras poesias e. uma mimesis. é um poeta incompleto. — E mais o quê? — Pois bem. revestindo de glória inú meros feitos dos antigos. Na verdade. desde que seja bela à maioria que não sabe nada. assim ele a imitará. em larga medida.. do ponto de vista ontológico. que o imitador nada sabe de válido sobre as coisas que imita. a arte da imitação cumprem. Tanto a poesia como as artes figurativas em geral descrevem homens. à qual atribui mesmo o privilégio de ser. as cruas palavras de Platão: [ Em vista de qual dos dois fins a pintura é feita em cada caso particular? Talvez com o fim de imitar o ser como ele é. Ora. a respeito. seja como poesia. nosso filósofo liga a beleza não tanto à arte quanto ao eros e à erótica que. pensou devê-la moderar e redimensionar. do ponto de vista do verdadeiro. estando mais distante do verdadeiro de quanto o estão as coisas sensíveis: ela está “três graus longe da verdade”. têm outro sentido e função. não o ser verdadeiro. a sua fala.

República. 2. mas negou que a arte devesse valer unicamente por si mesma: ou a arte serve ao ver dadeiro ou serve ao falso e tertium non datur. poderemos aduzir contra Platão numerosas aquisições da estética e demonstrar o lado positivo que. A retórica (a arte dos políticos atenienses e dos seus mestres) é mera bajulação. Assim como a arte cria meros fantasmas. sensível ao prazer e à lisonja do prazer. algo relacionado ao artifício literário que se situa à margem da vida. única capaz de alcançar a verdade. mas unicamente nas aparências da verdade’ A retórica (como a arte) dirige-se à pior parte da alma. A verdade é que a arte não tem. mas nega toda validez a esse poder quando abandonado a si mesmo de maneira autônoma e quando não submetido aos preceitos imutáveis do logos verdadeiro. apoiandose não na verdade. do ponto de vista da verdade. ao contrário. 8. Em suma. a retórica gozava de uma importância muito grande. 602 a-b. Como a arte pretende retratar e imitar todas as coisas sem ter delas verdadeiro conhecimento. Se. O retórico é aquele que. Não obstante isso. como quan do se deixou levar a excessos quase iconoclastas. República. Cf. mas imitando as suas puras aparên cias. considerada em si e por si. Platão não negou o poder da arte. Liminta. livros II e X. da arte). mas não se deu muita atenção a esse diálogo. embora não sabendo (e. portanto. tenha contribuído. a retórica cria persuasões vãs e crenças ilusórias. T. Fedro. X. a esse propósito. modernos. ao libertar-se do verdadeiro metafísico e ético. justamente como Platão advertiu. 3. rejeitou a autonomia . 387 b. 598 b. encontrar em Platão o que nele não há. X. foi feita por Platão no Hípias maior. julgado inautêntico. uma esfera e um valor propriamente autônomos: ela vale somente e na medida em que possa ou saiba pôr-se a serviço da verdade E paradigmático. ou 7. A retórica como mistificação do verdadeiro Na antigüidade clássica. não podemos dizer que nada de verdadeiro exista na posição platônica. 5. porque joga com os sentimentos e as paixões. ou torcer suas afir mações noutro sentido. e o poeta deve obedecer às regras e à dialética do filósofo. M. deve submeter-se à filosofia. a qual. até vanglo riando-se de não saber) possui. Uma análise da Idéia de belo. apresentaram-se como retóricos e mestres de retórica Bem cedo. assim a retórica pretende persuadir e convencer a todos acerca de tudo sem ter conhecimento algum. tenha acabado por dirigir-se ao que há de pior em nós e. Celux. que. pretendendo ser mestres e educa dores ético-políticos das novas gerações. entre outras coisas. há na arte. Milão 1974. quanto mais poéticos tanto menos devem ser ouvidos pelas crianças e pelos homens que devem ser livres [ É evidente que Platão não nega de modo algum à arte a magia e o poder que lhe são próprios. no ensaio: II problema de/la be/lezza. III. Autenticirà e significato de/l’Ippia maggiore di Platone. o que Platão diz a respeito de alguns versos que inspiram o temor da morte e que ele propõe excluir da Ilíada e da Odisséia no projeto da sua Cidade perfeita: Rogaremos Homero e os outros poetas a que não fiquem indignados se cancelarmos esses versos e todos os outros desse tipo: não certamente porque não sejam poéticos e agradáveis aos ouvidos da maioria. República. a habilidade de ser mais persuasivo do que aquele que verdadeiramente sabe. Era uma força civil e política de primeiríssima ordem. o que observa a nossa aluna. para nos deixar perdidos em meras aparências. a arte não tenha muitas vezes arriscado a tornar-se um jogo vazio. é adulação. como vimos ao tratar dos sofistas. é lisonja. mas porque. Platão sentiu a necessidade de avaliar exatamente a retórica e de estabelecer qual fosse a sua essência e o seu valor de verdade. 6. como o é para nós modernos. é contrafaçdo da verdade. X. Ver. 174 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A ARTE E A RETÓRICA 175 moderna. Nós. E foi muito clara a sua resposta: a retórica deve ser conde nada por razões de todo análogas àquelas pelas quais a arte deve ser condenada.4. no caso extremo. tanto assim que os sofistas. diante da maioria. 245 a. explica pormenorizadamente as razões pelas quais Platão puramente estética do belo (e. muitas vezes. 603 a-b. 2. sob vários aspectos. à parte que é suscetível de emoção. que proclamamos a absoluta liberdade da arte e consideramos intangível o dogma da arte pela arte. República. República. a arte quiser “salvar-se”. para Platão. E bem difícil negar que. em certos casos. Ela não era.

á retórica. Cf. Uma arte autêntica de falar s a verdade.9. Tà xcxti3civétv d fiv. está longe do verdadeiro e até mais do que o artista porque deliberada. estamos mortos”. 260 d-e. Os poetas e os retóricos estão para o filósofo como as aparências estão para a realidade e como os fantasmas da verdade estão para a verdade. sem mim. gente admirável. EÍ TÓ l 1 OTt xaT. lO. 14.). Cf. deve substituir a retórica. xa i T4 ÔVTt YC)Ç T “Eu não ficaria maravilhado se fosse verdade o que Eurípedes afirma quando diz: Quem pode saber se viver não é morrer e morrer não é viver? e que nós. Fedro — E quem fala assim não fala corretamente? Sócrates — Sim. a primeira parte do Górgias. mas. porque a arte da persuasão se dirige à alma’ Somente conhecendo a natureza das coisas e a natureza da alma humana será possível construir uma retórica verdadeira. seja no seu mo mento descendente e diairético que ensina a dividir as Idéias segundo as articulações que lhes são próprias)’ Em segundo lugar. o entusiasmo pelo mís tico Platão foi renovado (deixando de lado os medievais que não conheciam diretamente o . onde à arte dos discursos. 11. Este áspero juízo sobre a retórica emitido no Górgias.ASCÉTICA DO P Platão não é apenas o metafísico e o dialético: quem o interpre tou exclusivamente sob esse aspecto reduziu-o simplesmente a um esqueleto. 1. TERCEIRA SESSÃO A COMPONENTE ÉTICO-RELIGIOSO-ASCÉTICA DO PENSAMENTO PLATÔNICO E OS SEUS NEXOS COM A PROTOLOGIA DAS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” o yáp TOt Úcxu &v E àXr V TOtG& X ?t TÍS ‘ oT&v. Fedro. 463 b ss. naturalmente. 12. 492 e. Alguns a entenderam mesmo como uma iniciação mística: muitos neoplatô nicos chegaram a considerar os diálogos respostas de um oráculo. com a condição de que se sub meta à verdade e à filosofia: Sócrates — Mas. Assim como a filosofia deve substituir a poesia. amigo. Cf. diz o Espartano. Górgias. com essa conversa vazia? Eu não obrigo ninguém que não conhe ça o verdadeiro a aprender a falar. aprender em primeiro lugar a doutrina das Idéias e a dialética (seja no seu momento ascendente que leva do múltiplo ao uno. O retórico. revelações divinas. Cf. isto é. quem sabe não falamos mal da arte dos discur sos mais do que o devido? Talvez ela possa dizer-nos: “Que pretendeis. com a descoberta da dimensão metafísica. revolucionou todo o mundo espiritual do ho mem grego que. não existe nem poderá existir no futuro’ Para alcançar a verdade será necessário. ou seja. pelo que vimos. Os antigos já haviam caído na conta de que a filosofia de Platão era totalmente impregnada por um espírito fortemente religioso. 13. se os discursos que se apresentam dão testemunho de que se trata de uma arte. Fedro. antes de Platão. com o nosso comentário. IMPORTÂNCIA DA COMPONENTE MÍSTICO-RELIGIOSO. tanto quanto o artista. no volume 1. 17-46. via no poeta e no retórico seus mestres de vida e de virtude. que ele adquira a verdade antes de tomar-me nas mãos. Mas. Pois parece-me ouvir já alguns discursos que se apresentam em seguida para testemunhar que não se trata de uma arte.mente confere aos fantasmas do verdadeiro as aparências do verda deiro. A “segunda navegação”. 270 b ss. 263 b ss. é em parte atenuado no Fedro. se meu conselho tem algum valor. e mostra assim uma malícia que o artista não possui ou possui somente em parte. uma arte verdadeira de persuadir por discursos. pp. persuadir ninguém segundo as regras da arte”. Fedro. coincide com a filosofia.. a “política ver dadeira” que. a seção sobre OS Sofistas. l76 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A ARTE E A RETÓRICA 177 à parte crédula e instável”. Górgias. ainda que com linguagem diversa. é reconhecido um direito à existência. como veremos. Cf. passim (pp. que constituía fonte inexaurível para os espíritos sedentos do divino. mas de uma rotina sem arte. 1 87ss. Platão. será ne cessário conhecer a alma. Mas o que proclamo em alta voz é o seguinte: quem conhece a verdade não poderá. na verdade.

a doutrina de Sócrates não seria suficiente para refutar a de Cálicles. Cf. não hesita em proclamar. É claro que. latente nos primeiros diálogos e em alguns ausente quase de todo. igual a uma morte E justamente em resposta a essa visão extrema que Platão. avan çando além de Sócrates. que o levou a meditar a fundo o sentido da “vida órfica” e da “vida pitagórica” e o impeliu não somente a aceitá-la.1 existência beata e feliz. Cf. Viver para o corpo (como faz a maior parte dos homens) signi fica viver para aquilo que está destinado a morrer. que a arcana doutrina. isto é. buscar todos os meios que servem a seus fins. a virtude uma estultície. que se lhe apresenta drama ticamente. não basta dizer que o homem é a sua psyché. Górgias. pela primeira vez. falando dos epígonos dos sofistas). juntamente com a morte do corpo. por muitos intérpretes e tradutores modernos e até contemporâneos: e não sem fundamento. 3. ao contrário. Bari 1957. em todas as suas mais gritantes e trágicas contradições: Sócrates. a tempe rança um absurdo. certamente. mas depois também nos escritos sucessivos. E a minha afirmação não é. que diz perfeita mente bem como os últimos gregos entenderam o pensamento de Platão: “Eu considero [ que. depois de alternados acontecimentos. A dimensão mística. por obra de um único homem fez. em realidade. como veremos a seguir. como em nenhum dos escritos precedentes. 492 d ss. Górgias. De que lado está a verdade? Cálicles. o justo. portanto. errada. estabeleci da no mais íntimo de santíssimos lugares inacessíveis” (Proclo. o político sem escrúpulos se impõe. mas a aprofundá-la e a mostrar. particular aos mistérios divinos (doutrina assentada em trono santo por pureza. ao contrário. ao contrário. satisfazer a todas as paixões. torna-se fonte de solução justamente a resposta ao problema que Sócrates deliberadamente deixara sem so lução. praticamen te retirada em si mesma e tomada invisível aos muitos que fazem profissão de filósofos e pretendem empreender a caça ao verdadeiro. portanto. a doutrina da imortalidade passa ao primeiro plano e dá nova feição à ética e à política. aos poucos. saciar todo desejo. de E. Especialmente no Fédon. com a mais deslavada impudência. que exprime as tendências mais extremistas amadurecidas na quela época (como vimos. 5. a filosofia de Platão e o seu próprio princípio tenham sido acendidos pela bondosa vontade de Deuses superiores . brilhou aquela luz de primeira filosofia. a justiça é uma invenção dos fracos. num momento sucessivo tenha nova mente vindo à luz. Cálicles e todos aqueles (pseudo-sofistas e homens polí ticos do tempo) dos quais Cálicles é símbolo dizem que a vida do virtuoso. La teologia platonica. o bem é que deveria triunfar e. 1. quando chamo a este de guia e intérprete dos santíssimos mistérios. um dos protagonistas do diá logo. Se a alma fosse mortal e se. reencontra a verdade do ensinamento órfico -pitagórico. ou seja. pp. que teve eterna sub sisténcia junto aos próprios Deuses). gozar de todos os prazeres. aquelas verdadeiras iniciações nas quais encon tram consumação iniciática as almas separadas do espaço terreno. porque a vida que ele vive é. o virtuoso e justo está à mercê do injusto e sofre todas as suas agressões. é o mal que parece prevalecer.] e considero que essa filo sofia. o político justo sucumbe. Somente a resposta a esse problema passa a ser verdadeiramente decisiva Em conseqüência. no grandioso afresco do Górgias e coincidiu com um momento de crise na vida de Platão. e intérprete das completas e imóveis visões das quais participam almas repletas de desejo premente (. e depois. mas é preciso estabelecer ulteriormente se essa psyché é ou não imortal. que a verda de está do lado do mais forte. Mas considero. foi morto e. é moderado e go verna suas paixões é um estulto. como em venerandos santuários. morte Mas. quem se abstém dos prazeres. que é a vida? E que é a morte? Essa que chamamos vida não poderia acaso ser morte e.). 4. por um lado. plenamente segura.nosso filósofo) pelos humanistas do círculo de Ficino e. o problema da sorte escatológica da alma. o vicioso e o injusto parecem. viver para a alma significa. 492 e ss. Cf. Turolla.. trad. 3s. depois. guia. para Platão. o injusto parece triunfar. cap. felizes e satisfeitos com as suas prepotências. 182 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A COMPONENTE MÍSTICO-RELIGIOSA DO PLATONISMO 183 dizer. Para Platão. desse divino reino. daquele que sabe zombar de tudo e de todos. que mortifica os instintos. manifesta aparição a quem nos acontecimentos temporais é capaz de provar o seu gosto. E considero ainda que de modo verdadeiramente augusto e envolto novamente no silêncio e no segredo. como Sócrates dizia. patenteou-se pela primeira vez. por outra parte. e como que. também o espí rito do homem se dissolvesse no nada. ao fundamentais relativos à vida do homem. 482 e ss. tenha-se consumado. ao . ser verdadeira vida aque la que começa com a morte? 2. é vida sem sentido e. por assim 1 Eis uma página sumamente eloqüente de um neoplatônico. todas as suas implicações e todas as suas conseqüências No Górgias. Platão afronta todos os problemas contrário. Górgias.

em particular. 2. a nosso parecer. 186 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL A IMORTALIDADE DA ALMA 187 visível é mutável e o inteligível imutável. com elas. para poder captar essas coisas ela dever ter. perde o que é mortal. XXXVHIss. caso contrário tais coisas permaneceriam fora da sua capacidade. em Platão. a mais significativa. como conditio sine qua non. mas. 7. depois de ter feito recurso a categorias de caráter físico e. uma natureza que lhes seja afim.sensível. o corpo e a alma. uma ao me nos. ao passo que salva a alma para a eternidade Essa visão da vida não é uma simples retomada e uma. isto é. última edição Hildesheim 1968. que unicamente pode dar sentido à visão da vida que descre vemos. As primeiras são as que nunca permanecem nas mes mas condições. por assim dizer. e já que o 1. 184 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL II a reminiscência (de modo análogo ao que já vimos a propósito do Ménon) queremos examinar as outras duas das quais. pp. as segundas. Perguntemos agora a que tipo de realidade devem ser as semelhadas as duas partes ou as duas componentes que constituem o homem. passim. Fédon. Platão vai alem do socratismo e do orfismo e estabelece uma mediação sintética entre as instâncias racionalistas do primeiro e as instâncias místicas do segun.1. perceptíveis e sensíveis e b) as realidades invisíveis e inteligíveis. é essa a prova. Pode-se vê-ia brevemente exposta na Introdução à nossa tradução do Fédon. perdendo o corpo. Cf. da qual se torna coma que um corolário: a alma é a dimen 6. isto é. era um pressuposto em contraste com seus princípios físicos. nesta vida. mas. à qual o próprio Platão atribui pouco valor e que. É evidente que as provas da imortalidade da alma adquirem uma importância muito grande porque. como demonstrou de modo solidíssimo H. A alma humana — diz Platão — é capaz (como acima se viu) de conhecer as coisas imutáveis e eternas. em caso extremo. pois bem. sobre a doutrina do supra. Se. viver para aquilo que está destinado a viver sempre. Começaremos pek análise dessas provas. o justo é vítima das opressões dos injustos. 70 a ss. depois da descoberta do mundo inteligível. está entre as mais convincentes dentre as que a metafísica pos terior tentou apresentar nesse campo. isto é. e eterna como é eterno o inteA IMORTA DA ALMA. Existem dois planos de realidade: a) as realidades visíveis. sendo elas imutáveis e eternas. As provas no Fédon são três. apóia-se finalmente sobre . a saber. OS SEUS DESTINOS ULTRATERRENOS E A SUA REENCARNAÇAO ligível e imaterial. Bonitz. Die im Phddon enthaltenen Beweise fi die Unszerb/ichkeit der mensch/ichen Seele. ele sofre no corpo e pode. O Fédon apresenta três provas em favor da imortalidade da alma Deixando de lado a primeira. mas é racionalmente demonstrada. As provas da imortalidade da alma do. A existência de uma alma imortal. quando a alma se apóia sobre as percepções sensíveis.contrário. Em síntese. Cf. perder o corpo. não permanece mais mera crença nem somente fé e esperan ça. reelaboração quantitativa de temas órfico-pitagóricos: ela al cança um novo significado depois da “segunda navegação”. 293-323 (os estudiosos que falam de quatro OU mais provas no Fédon igno ram a documentação de Bonitz). Com efeito. significa viver purificando a alma por meio de um progres sivo desapego do corpóreo. mas sendo. Não há dúvida de que o corpo é afim à realidade visível. ao contrário. essas a fazem são inteligível e imaterial do homem. a alma ao invisível e inteligível. está fundamentada e apoiada per feitamente sobre a metafísica. também a alma deve ser imutável e eterna. são as que permanecem imutáveis. ao ponto de ser impunemente vítima de bofetadas. No orfismo tratava-se de uma simples doutrina misteriosófica. de procedência heraclitiana. primeiro publicado in “Hermes” e agora ia Platonische Studien. queremos determiná-la analiticamente. pp. assim pois. a alma deve ser imutável. ao contrário. nos présocráticos que tinham aceitado a visão órfica. Górgias e Fédon.

porque assim são as coisas com as quais tem contato? — Sem dúvida. Sócrates. Também desde esse ponto de vista qual dos dois te parece mais semelhante ao que é divino e qual ao que é mortal? Ou acaso não te parece que o que é divino deva governar e mandar e o que é mortal deva ser governado e servir? — Parece-me. E não é inteligência que se chama esse estado da alma? — Exatamente. quando se eleva sobre os sentidos e se recolhe somente em si. O que dizes. ora servindo-se da visão. é característica do que é divino comandar. é a alma que domina e governa. e do que é mortal ser comandado. continuou Sócrates. — Mas quando a alma.errar e confundir-se. ora do ouvido ou de outra percepção dos sentidos (com efeito. quando a alma usa o seu corpo para fazer alguma investigação. — Considera agora a questão de outro ponto de vista. — Estabeleçamos. é mais semelhante ao visível. — Sim. estabeleçamos duas espécies de seres: uma visível e outra invisível. portanto. que a alma é mais semelhante ao que é imutável do que ao que é mutável. logo — também desde esse ponto de vista — a alma é afim ao divino. é verdadeiro e belo. (Uma confirmação ulterior disso consiste no seguinte: quando a alma e o corpo estão juntos. — E quanto ao corpo? — O contrário. — A qual dos dois. pois. em relação àquelas coisas sempre da mesma maneira porque tais são os objetos com os quais está em contato. respondeu. permanece imutável. Sócrates. Sócrates. — Então. ao passo que o corpo obedece e é dominado pela alma. é visível ou invisível? — Ao menos para os homens. que qualquer um. respondeu ele. ao invés. eterno. é mais semelhante ao invisível. — Sobre a alma. — Mas nós agora falamos de coisas visíveis e invisíveis à natureza humana ou tens em mente alguma outra natureza? — A natureza humana. ela cessa então de errar daqui e dali e permanece. enquanto o corpo é afim ao mortal Dada a importância dessa prova convém lê-la na sua formulação platônica literal: — Se queres. erra e se confunde e balança como embriagada. a alma se assemelha? . mesmo o mais obtuso de mente deva admitir. não é visível. e tendo sua natureza a ele afim. — Ora. — A alma. Quando a alma e o corpo estão juntos. porque são mutáveis como os objetos aos quais se referem. disse. ora. — Assim é necessariamente. então se eleva ao que é puro. e não o corpo que. permanecendo só em si e para si. investigar por meio do corpo significa investigar por meio dos sentidos) então ela é arrastada pelo corpo para as coisas que nunca permanecem idênticas. que diremos? Que é visível ou invisível? — Que não é visível. — E a qual das duas espécies de coisas diremos que o corpo é mais afim? — É evidente a qualquer um que é mais semelhante e afim à espécie visível. imortal e imutável. é junto dele que permanece todas as vezes que consegue ser somente em si e para si. por sua vez. acrescentou ele. então não erra mais e encontra nas Idéias puras e no inteligível o seu objeto adequado e. — Estabeleçamos também isso. portanto. — Ora. que outra coisa há em nós senão de um lado o corpo e de outro a alma? — Nenhuma outra coisa. pensando as coi sas imutáveis. é invisível. conduz sua investigação. seguindo esse caminho. — E há pouco não dizíamos acaso o seguinte: que. descobre também ser-lhes afim e. e dentre as que agora mencionamos. a natureza impõe ao corpo o servir e deixar-se gover nar e à alma o dominar e o governar. dentre as coisas de que falamos antes. a qual delas parece-te que a alma seja mais semelhante e mais conatural? — Parece-me. justamente com conhecê-lo. Sócrates. disse ele. — E que o invisível permaneça sempre na mesma condição e o visível nunca permaneça na mesma condição. — Quanto à alma.

3. ininteligível. corrompe-se e morre. e se não pode nem mesmo ser destruída pelo seu próprio mal. afortiori não a poderá destruir o mal das outras coisas. impiedade etc. como tal. O fogo nunca admitirá em si a Idéia do frio e a neve nunca admitirá em si a Idéia do quente. com efeito. uniforme. Temos algo a objetar contra essas conclusões. Portanto. E qualquer coisa tem um mal pe culiar (assim como tem um bem peculiar). insensatez.frio”. deve remos concluir que tal realidade é estruturalmente indestrutível. uma contradição em termos. quando uma Idéia entra em determinada coisa. imortal. justamente enquanto con trárias. se a alma não pode ser destruída pelo mal do corpo porque o mal do corpo (em força do princípio estabelecido) é alheio à alma e. 85-92. a neve deve dissolver-se e ceder o lugar. mortal. neve e quente. Mas. não destrói a alma que continua a viver. mesmo se muito má. Logo. uma coisa não perece de mal algum. como é natural. se de tudo o que dissemos não se segue que a alma seja semelhante em grau sumo ao que é divino. no Fedro. em força do princípio já estabelecido. inteligível. o corpo se corrom perá e a alma se retirará para outro lugar.— E claro. indissolúvel e sempre idêntico a si mesmo. em muitos contextos. também não podem combinar-se e estar juntas as coisas sensíveis que participam essencialmente de tais Idéias. Eis as conclusões do raciocínio platônico: — quando a corrupção que lhe é própria e o mal que lhe é próprio i. Cf. multiforme. Em conclusão: a alma. — Dificilmerite. mas também o grande e o pequeno que estão nas coisas mutuamente se excluem. Pois bem. e ao sobrevir do frio o fogo deve apagar-se e ceder o lugar. 102 b-107 b. Se assim é. pois. alma = Idéia de vida = o que por sua natureza é e dá a vida incorruptível = imortal eterna Platão deixou-nos na República uma prova ulterior em favor da imortalidade da alma. disse ele Finalmente. a alma. não poderá estruturalmente acolher em si a morte e será imortal. enquanto o corpo é semelhante em sumo grau ao que é humano. E sendo a morte o contrário da vida. a imortalidade da alma é deduzida do conceito de psyché entendida como princípio do movimento (dizer 5. . se não a pode destruir o seu próprio mal. como conseqüência. de um ponto de vista estritamente lingüístico. que a alma assemelha-se ao que é divino e o corpo se assemelha ao que é mortal. mesmo não sendo con trárias entre si. Portanto. então ela é indestrutível. difi cilmente o mal que está ordenado para a destruição de outra coisa poderá destruir a alma ou outra coisa diferente daquela para a qual está ordenado. é imortal. As Idéias contrárias não podem com binar-se entre si e permanecer juntas porque. mas que. que tem como marca essencial a vida. Cebes? Ou não é assim? — Não. pp. Apliquemos agora à alma quanto acaba de ser estabelecido. o outro desaparece e cede o lugar). ao sobrevir a morte. Ela tem o seu mal que é o vício (injustiça. não pode acolher a morte. mas também fogo efrio. Sócrates. ao ser estragado pelo seu mal. — Observa agora. Fédon. por maior que seja. é esse exatamente o caso da alma. e é e pode ser destruída somente por esse mal que lhe é próprio e não pelo mal das outras coisas. é evidentemente necessário que tal coisa exista sempre. a Idéia contrária que estava em tal coisa desaparece e cede o lugar (não só a Idéia de grande e a de pequeno não podem combinar entre si e claramente se excluem entre si quando consideradas em si e por si. a injustiça e o vício] não são capazes de matar e destruir a alma. não pode atingi-la. — E necessário. por violento que seja. Ora. A alma tem como marca essencial a vida e a idéia da vida. nem próprio nem estranho. O mesmo se verifica não somente para os contrários em si. 188 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENS A IMORTALiDADE DA ALMA 189 dissolúvel e jamais idêntico a si mesmo. têm em si os contrários como seus atributos essenciais: não somente o quente e o frio se excluem da maneira que acaba de ser dita. significa simplesmente vida). porque Idéia de vida e Idéia de morte totalmente se excluem: a expressão “alma morta” é um puro absurdo. disse ele. O mal é o que corrompe e destrói (enquanto o bem é o que ajuda e acrescenta). mas também para todas aquelas Idéias e coisas que. mas o vício. justamente por essa razão de caráter estrutural. como “neve-quente” “fogo. não o pode dissolver nem destruir. mutuamente se excluem. é ela.).é. não obstante. o nOSSO comentário ao Fédon. se pudéssemos encontrar algo que tenha o mal que o torna mau. ao sobrevir do quente. justamente o oposto do que acontece com o corpo que. sobrevindo um. nada temos a objetar A última prova que o Fédon apresenta é derivada de algumas ca racterísticas estruturais das Idéias. — Quando. já que. Cebes. que traz a vida ao corpo e o mantém vivo (e isto — convém tê-lo presente — é ainda mais óbvio para um grego do que para nós já que. e se sempre existe. que pela sua essência implica a vida. psyché lembra a noção de vida e.

que podem suscitar perplexidades e discussões numerosas e de diverso tipo. 304. apenas o seguinte: a alma é a dimensão inteligível. portanto. Com Platão. Os juízes do além não se 7. meta-empírica. A verdade fundamental que os mítos pretendem sugerir e levar a crer é uma espécie de “fé razoável”. leva-nos a crer. tendo-se manifes tado imortal o que se move a si mesmo. da temperança e da devassidão. por sua vez. Mas o logos sozinho não é capaz de responder a esse problema. Não sendo gerado. pois. caso contrário todo o céu e todo o mundo da geração se precipitariam juntamente e parariam. A verdadeira vida está no além. o conceito de alma como princípio do movimento não é senão uma derivação. da virtude e do vício.6. que lhes parece deva ser mantida. cessando o seu movimento cessa a sua vida. uma significação inteiramente diversa da que lhe era atribuída quando a outra era ignorada. E no Hades a alma é “julgada” segundo unicamente o critério da justiça e da injustiça. Eis a página do Fedro na qual se desenvolve essa demonstração: Toda alma é imortal. O princípio é a mesma coisa que o ingêníto. se o prin cípio fosse gerado de algo. se assim é — e assim é —. por meio de diferentes representações alusivas. nem ele poderá vir à existência a partir de outra coisa. não haveria geração a partir do princípio. que não há nada que se mova a si mesmo a não ser a alma. é sustentada pelo próprio logos. a alma será neces sariamente ingênita e imortal Nos diálogos anteriores ao Timeu. mas. eles são tais somente se udos segundo a lógica do logos. se é verdade que tudo deve originarse de um princípio. uma única verdade fundamental. E necessário que tudo o que é gerado o seja a partir do principio. mas. E este não pode nem perecer nem morrer. meta-empfrico. é animado. assim como não está sujeito à morte tudo o que o Demiurgo diretamente produz Para além da formulação técnica das várias provas. um ponto permanece estabelecido para quem crê na possibilidade da metafísica: a existência e a imortalidade da alma só têm sentido se se admite um ser supra-sensível. ele é necessariamente incorruptível. no Hades (o invisível). não é redutível ao logos. no Timeu. Somente o que se move a si mesmo nunca cessa o movimento. do conceito de alma como princípio de vida): e o princípio do movimento. A alma na ‘qual Sócrates (superando a visão homérica e pré -socrática e os aspectos irracionais da visão órfica) acreditava residir o “homem verdadeiro”. portanto. o princípio do movimento é o que se move a si mesmo. ao passo que ele não provém de nada. como acima lembramos. as almas são geradas pelo Demiurgo: têm. 610 e-61 1 a. segundo certos aspectos. que Pia tão denominava mundo das Idéias. mas que significa. um nascimento. inteli gente e moral. Com efeito. e não haveria de onde pudessem retomar o movimento. mas o que move um outro e. Fedro. Com efeito. enquanto é tal. consiste no seguinte: o homem está sobre a terra como de passagem e a vida terrena é como uma provação. como já tivemos ocasião de dizer. . Assim. se o princípio perece. E esse ganho será irreversível porque mesmo aqueles que negarão uma das duas dimensões darão à dimensão física. o homem descobriu ter duas dimensões. e não segundo sua lógica peculiar que. não estão sujeitas à morte. porém. em última análise. as almas pareceriam ser sem origem. todo corpo ao qual o movimento é comu nicado de fora é um corpo sem alma. o que se move a si mesmo é imortal. e é nesse ponto que Platão vai pedir socorro aos mitos. ao passo que todo corpo ao qual o movimento provém de dentro e a partir de si mesmo. 2. 4. como se essa fosse a essência da alma. Na ver dade. como vimos na seção introdutória. recebe com Platão o seu adequado fundamento ontológico e metafísico e um lugar exato na visão geral da realidade. ninguém tenha receio de dizer que é esta a essência da alma. p. Cf. 79 a-80 b. Pois. 8. antes. mas não antilógica. de alguma maneíra. que é metalógica. Os destinos escatológicos da alma A imortalidade da alma (é a tese que Platão estabelece no nível do logos). identificando-a com o ser consciente. pois não pode abandonar a si mesmo e. Em síntese. 190 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A IMORTAL DA ALMA 19! vida significa dizer movimento. a modo de corolário. ou seja. Ao invés. De fato. Fédon. situa o ulterior problema da sua sorte depois do seu sepa rar-se do corpo. nem outra coisa poderá proceder dele. Mas. é movido por outro. incorrup tível do homem. 245 c-246 a. como eram sem termo. nunca pode cessar. Notou-se freqüentemente como os mitos escatológicos sejam diferentes e. entre si contraditórios. República. é fonte e prin cípio do movimento para as outras coisas enquanto são movidas. em força de exata disposição divina. Portanto.

o proveito lhes vem somente através de dores e sofri mentos. Sobre essas penas eis quanto escreve Platão: Acontece que todo homem que cumpra uma pena que lhe foi aplicada com razão toma-se melhor e lucra com isso e serve de exemplo aos outros. A outra afirmação que deve ser sublinhada é a de que Zeus constitui juízes seus três filhos. ou a lugares ainda superiores e indescritíveis). e também nos primeiros tempos do reino de Zeus. mas entrega o juízo ao Filho” O juízo. expiada a sua culpa. Observese. 12. esconder a feiúra das almas e enganar os juízes. Cf. 5. ao passo que. que julgavam. Minos e Radamante e um da Europa. sejam tomados de temor e tomem-se melhores. como aspecto). Radamante julgará os da Asia. as riquezas. Górgias. segundo o Górgias e o Fédon. como explica Platão logo depois. De qualquer maneira. traduz uma ver dade essencial julgamos oportuno ilustrá-lo pormenorizadamente. o parágrafo que segue. logo depois da sua morte: sem a companhia de todos os parentes e depois de ter deixado na terra todos aqueles outros ornamentos. duas afirmações impressionam de modo parti cular. em suma. nesse caso será apenas temporariamente punida (depois. segundo as declarações expressas do nosso filósofo. seja sobre a terra seja no Hades. 527 a. que são os dois diálogos que mais amplamente tratam do assunto (a República e o Fedro. o juízo acontecia antes da morte e corria o risco de ser mal proferido: a beleza dos corpos. portanto. c) se contraiu somen te injustiças sanáveis. em primeiro lugar. mas preocuparam-se somente com a virtude) o prêmio de uma vida feliz nas Ilhas dos Bem-aventurados e pune os maus com a pena do Hades. por isso ordenei já a Prometeu que retire essa possibilidade dos homens. a eliminar. Além disso. 523 a. mas ilustram outro juízes meus três filhos: dois da Asia. l94 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A IMORTALIDADE DA ALMA Primeiramente devemos falar do “juízo” que decide acerca da sorte da alma no além. a fim de que. Górgias. deverão ser julgados despojados de todos esses revestimentos. 10.192 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSíVEL A IMORTALIDADE DA ALMA 193 preocupam com outra coisa. as honras. II. depois da morte. Mas aqueles que cometeram as injustiças 9. viveu parte justamente e parte injusta mente. pesam tão-somente os sinais da justiça e da injustiça que ela traz em si. numa dimensão puramente espiritual. tendo sabido isso antes de vós. mesmo. eles os julgarão na planície de cujo trívio partirão dois caminhos: um dirigido para a Ilha dos Bem-aventurados. dá aos justos (sobretudo aos filósofos que não se dispersaram nas vãs tarefas da vida. “tudo fica bem visível quando ela é despojada do corpo. os testemunhos dos parentes poderiam. Eaco os da Europa. 22. E tam bém o juiz deverá estar despojado de tudo: o juízo deverá ser frito pela própria alma do juiz diretamente sobre a própria alma do que deve ser julgado. com as almas condicio nadas por eles. ou seja. No tempo de Cronos. Eu. vere mos’ confirmam a mesma verdade. não se pode ficar livre da injustiça de outra maneira. Nessa passagem. vendo-o sofrer o que sofre. a fim de que a sentença seja justa. E aqueles que tiram proveito cumprindo a pena que lhes foi aplicada pelos Deuses e pelos homens são os que cometem culpas curáveis. b) se viveu na injustiça plena. 523 d-524 a. Eaco. no caso em que os outros dois se encon trem em dúvida. receberá o prêmio que merece). A Minos darei o privilégio de ser o árbitro supremo. Como se trata de um dos pontos mais delicados do pensamento de Platão que uma abundante crítica (racionalista. deverá ser retirada dos homens a possibilidade de prever a própria morte. estando eles também nos corpos e. Eis a decisão suprema de Zeus: Em primeiro lugar. constitui . que o juízo supremo é proferido por uma alma despojada do corpo sobre uma alma igualmente despo jada do corpo. com efeito. A sorte que cabe às almas pode ser tríplice: a) se viveu em plena justiça receberá um prêmio (irá a lugares maravilhosos nas Ilhas dos Bem-aventurados. e não pesa nada o fato de a alma ter sido a alma do Grande Rei ou a do mais humilde dos seus súditos. um juízo que incide intei ramente na interioridade. e na alma. a ponto de ter-se tomado incurável. Quando os homens morrerem. de modo que o juízo sobre a destinação dos homens seja o mais justo’’. ou seja. Cf. o outro dirigido ao Tártaro. arrependendo-se ademais das próprias injustiças. receberá um castigo eterno (será precipitada no Tártaro). como já dissemos. em certos casos. Não há quem não veja a surpreendente analogia com a a afirmação evangélica: “O Pai não julga ninguém. sendo que agora a podem prever. idealista ou posi tivista) tende a desvalorizar ou. narra Platão. João. as suas características de constituição e as afeições com que o homem a dotou mediante seu modo de compor tar-se em cada circunstância”: é.

195 maiores e que, em razão dessas injustiças tornaram-se incuráveis, servem unicamente de exemplo aos outros; e enquanto para si mesmos não trazem nenhum proveito, justamente porque incuráveis, aproveitam no entanto aos outros, isto é, àqueles que os vêem sofrer os castigos maiores, mais dolorosos e mais terríveis, por toda a eternidade, em razão das suas culpas: são verda deiros e próprios exemplos suspensos no cárcere do Hades, espetáculo e advertência aos injustos que continuam chegando’ Essa passagem, para além de certas obscuridades, contém uma das mais poderosas intuições do nosso filósofo: a intuição da função purificadora da dor e do sofrimento. E eis a página do Fédon que fornece a representação mais com pleta da sorte das almas no além: Assim, pois, é feito o além, E depois que os mortos aí chegam, cada um conduzido pelo próprio daimon, primeiramente são julgados os que viveram bem e santamente e os malvados. Quanto aos que viveram uma mediania entre o bem e o mal, chegados às margens do Aqueronte, sobem em barcas que ali estão preparadas para eles e nelas chegam ao lago, onde permanecem para purificar-se seja expiando as próprias culpas se acaso as cometeram, seja recebendo a recompensa pelas suas boas ações segundo o mérito de cada um, Ao contrário, aqueles que foram reconhecidos incuráveis porque cometeram muitos e graves sacrilégios, homicídios numerosos injustos e fora da lei e outros crimes como esses, a sorte que lhes cabe é ser lançados ao Tártaro donde jamais sairão. Ao invés, aqueles que cometeram culpas passíveis de serem curadas, mesmo graves como, por exemplo, os que, sob o impulso da ira, cometeram ações violentas contra o pai ou contra a mãe e disso se arrependeram por toda a vida ou os que, de modo semelhante, tornaram-se culpados de homicídio, são lançados no Tártaro. Mas depois que foram pre cipitados e lá permaneceram um ano, a onda os rejeita para fora: os homici das ao longo do Cocito, e os violentos contra o pai ou a mãe, ao longo do Piriflegon. Depois de arrastados pela corrente até o lago Aquerúsio, desde esse lugar gritam e chamam, uns aos que assassinaram, outros aqueles contra os quais cometeram violência e, invocando-os, suplicam e rogam que permi tam-lhes sair do lago e os acolham; se conseguem convencê-los saem do rio e esse o fim dos seus males; se não, são de novo levados para o Tártaro e, outra vez para os rios. Não cessam de sofrer esses castigos enquanto não convençam as suas vítimas: essa a pena que lhes foi imposta pelos juizes. Finalmente, os que viveram uma vida de grande santidade, logo libertados destes lugares subterrâneos e deles retirados como de um cárcere, elevam-se a uma habitação pura acima da terra. Entre esses, os que se purificaram

adequadamente com o exercício da filosofia vivem completamente livres de todo o vínculo com o corpo por todo o tempo futuro, e vão para habitações ainda mais belas do que essas, e que não é fácil descrever’ Já falamos do valor de verdade de que esses mitos são portado res. E também nos referimos ao modo como Platão demitiza o seu aspecto fantástico no momento mesmo em que os constrói. No entan to, convém ler a passagem na qual o nosso filósofo adverte o leitor para não tomar ao pé da letra o mito e, ao mesmo tempo, reafirma a sua capacidade de alusão ao transcendente, porque essa passagem contém a única chave correta de leitura de toda a mito-logia platôni ca: Sem dúvida, sustentar que as coisas sejam de verdade assim como as descrevi não convém a um homem que tenha bom senso; mas sustentar que isso ou algo semelhante deva acontecer às nossas almas e ao lugar para onde vão, uma vez que se afirma ser a alma imortal: pois bem, isso me parece perfeitamente sensato, e vale a pena arriscar-se a crê-lo, pois o risco é belo! E é necessário que com essas crenças façamos como um encantamento a nós mesmos: e é por isso que desde muito tempo me ocupo com este mito. Por esse motivo deve ter muita confiança com respeito à sua alma o homem que, durante a sua vida, renunciou aos prazeres e aos adornos do corpo conside rando-os coisas que não lhe dizem respeito e pensando que só fazem mal; e, ao contrário, preocupou-se com as alegrias do aprender e, tendo ornado a sua alma não com omamentos exóticos, mas com os ornamentos que lhe são próprios, isto é, de sabedoria, justiça, fortaleza, liberdade e verdade, assim espera a hora de tomar o caminho do Hades, pronto para partir quando o destino o chamar’ 3. A metempsicose Esta concepção do além, em si bastante clara e linear, entrelaça -se com a doutrina órfico-pitagórica da metempsicose, sem porém harmonizarse perfeitamente com ela. 13. Górgias, 525 b-c. 14. Fédon, 113 d 14 c. 15. Fédon, 114 d-115 a. 196 A IMORTALIDADE DA ALMA 197 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

No entanto, é bom notar que a doutrina da reencarnação das almas em Platão assume duas formas e dois significados muito dis tintos entre si. A primeira forma nos é apresentada de maneira mais pormeno rizada no próprio Fédon. Aí se diz que as almas que viveram uma vida excessivamente ligada aos corpos, às paixões, aos amores e aos seus prazeres não conseguem, com a morte, separar-se inteiramente do corpóreo que se lhes tornou quase conatural. Essas almas, com medo do Hades, vagueiam por certo tempo em torno dos sepulcros como fantasmas até que, atraídas pelo desejo do corpóreo, ligam-se novamente aos corpos e não somente de homens, mas também de animais, segundo a baixeza do teor de vida moral que tenham tido na vida precedente. Eis a página célebre do Fédon na qual Platão mani festa essa crença: — Mas certamente se separará, creio i. é, a alma que viveu submetida ao corpóreo], inteiramente penetrada por aquele corpóreo que a freqüentação e a convivência com o corpo, em razão da união e o contínuo preocupar-se com ele, tomou conatural para ela. — Certamente. — E é preciso acreditar, meu amigo, que esse corpóreo seja pesado, terreno e visível; a alma que a isso foi reduzida está como vergada sob o peso e volta a ser arrastada para o mundo visível por medo do invisível e do Hades, como se diz; ela vai vagueando em tomo dos monumentos fúnebres e dos sepulcros, junto dos quais foram vistos espectros e sombras de almas. São fantasmas sob os quais se apresentam essas almas que não se libertaram e purificaram, participam ainda do visível e, por isso, são vistas. E verossímil, Sócrates. — Claro que é verossímil, Cebes! E é também verossímil que essas almas não sejam as dos bons, mas as dos maus, que são obrigadas a andar errantes em tomo desses lugares, cumprindo a pena da sua malvada existên cia passada. E assim vão errantes até o momento em que o desejo do corpóreo que nelas há não as prenda de novo a um corpo. E como é verossímil, ligam-se a corpos que têm os mesmos costumes que elas, na sua vida passada, praticaram. — E quais são esses aos quais te referes, Sócrates?

Eis: aqueles que se abandonaram aos prazeres do ventre, à violência e à embriaguez e não tiveram freio algum, é verossímil que se metam em formas de asnos e de outros animais parecidos. Não te parece? O que dizes é absolutamente verossímil. Ao invés, os que preferiram cometer injustiças, tiranias e rapinas é mais provável que entrem em formas de lobos, falcões ou milhafres. Ou em que espécie de animais diremos que essas almas devem entrar? — Nessas certamente, disse Cebes. — Também para as outras almas, acaso não é claro onde cada uma delas deva se meter conforme a semelhança dos hábitos que teve na sua vida? — E claro, disse ele; como poderia ser de outra maneira? — Nesse caso não serão os mais felizes e não irão ter aos melhores lugares aqueles que praticaram a virtude comum, a virtude do bom cidadão, a que chamam temperança e justiça, que nasce do costume e da exercitação, sem filosofia e sem lume de conhecimento? — E de que modo esses serão mais felizes? — Porque é provável que venham a um gênero de animais mansos e sociáveis como abelhas, vespas ou formigas ou então, se retornam ao gênero humano, deles nascerão homens honestos. — Sim, é provável. — Mas à estirpe dos deuses não é dado chegar a quem não tenha cul tivado a filosofia e que não tenha deixado concedido somente ao amante do saber’ o corpo inteiramente puro; isso é

Aqui se fala de um ciclo de vidas a ser percorrido pelas almas dos malvados antes de chegarem ao Hades? Ou então não se trata de um modo diverso de representar o destino escatológico (a punição) do malvado? E certo, porém, que Platão permaneceu fiel a essa crença, pois que a repete ainda no tardio Timeu. Como sabemos o Demiurgo compôs as almas destinadas a encarnar-se em corpos e tornar-se homens, e para elas traçou o se guinte destino: Quem vivesse bem o tempo que lhe foi destinado, tendo voltado de novo à habitação do seu astro próprio, aí levaria a habitual vida feliz; mas quem falhasse nisso, no segundo nascimento passaria para uma natureza de mulher; e se nem assim cessasse a sua malvadeza, segundo o modo dos seus maus costumes, passaria cada vez para uma natureza de fera, segundo a semelhança das más inclinações que nele tivessem sido alimentadas; nem, mudando,

acabaria seus trabalhos antes que, deixando prevalecer o período do mesmo e do semelhante que nele se desenrola, e superando com a razão o acumular-se nele produzido, ainda depois disso, de fogo e de água, de ar 16. Fédon, 81 c-82 e. 17. Ver pp. 148s. e 304. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL e de terra, tumultuoso e irracional, chegasse ao gênero da primeira e excelen te índole’ Na República, Platão fala de um segundo gênero de reencarnação das almas notavelmente diferente deste. As almas são em número limitado, de modo que, se todas recebessem no além um prêmio ou castigo eternos, em determinado momento não restaria mais nenhuma sobre a terra. Por esse motivo evidente, Platão considera que o prê mio e o castigo ultraterrenos para uma vida vivida sobre a terra deve ter uma duração limitada e um termo fixo. E já que uma vida terrena dura, no máximo, cem anos, Platão, evidentemente influenciado pela mística pitagórica do número dez, considera que a vida ultraterrena deva ter uma duração de dez vezes cem anos, ou seja, de mil anos (para as almas que cometeram crimes muito grandes e incuráveis, a punição continua para além do milésimo ano). Transcorrido esse ci clo, as almas devem voltar a encarnar-se. No célebre mito de Er, com o qual se fecha a República, narra-se, em algumas páginas admirá veis, o retomo das almas à terra. Terminada a sua viagem de mil anos, as almas concentram-se numa planície onde é decidido o seu futuro destino. A respeito, Platão opera um autêntica revolução na crença tradicional grega segundo a qual os Deuses e a Necessidade é que decidem o futuro do homem. Os “paradigmas das vidas” diz, ao contrário, Platão, estão no seio da Moira Laques, filha da Necessidade; mas eles não são impostos e sim propostos às almas, e a escolha é inteiramente entregue à liber dade das próprias almas. O homem não é livre para escolher entre viver e não viver, mas é livre para escolher como viver moralmente, ou seja, para viver segundo a virtude ou segundo o vício: Contou Er que, quando chegaram lá, tiveram de ir onde estava Laques; e que um hierofante as dispôs em ordem e tomando depois dos joelhos de Laques os destinos e os modelos das vidas, subindo sobre um alto púlpito, disse: Proclamação da virgem Laques, filha da Necessidade: almas efêmeras, ireis começar um novo período da vida que é um correr para a morte. Não será o daimon que vos escolherá, mas vós que escolhereis o vosso próprio daimon. O primeiro sorteado escolha por primeiro a vida à qual ficará depois A IMORTALIDADE DA ALMA

necessariamente ligado. A virtude não tem dono; conforme alguém a honre ou a despreze, possuirá nwis ou menos dela. A culpa é daquele que escolhe, Deus não tem culpa Tendo disto isto, o hierofante de Laques lança os números à sorte para estabelecer a ordem segundo a qual cada alma deve escolher: o número que lhe cabe é o que cai mais perto dela. Então o hierofante estende sobre a relva os paradigmas de vida (paradigmas de todo tipo de vida humana e também animal), em número muito superior ao das almas presentes. O primeiro a quem cabe a escolha tem à sua dispo sição um número muito maior de paradigmas do que o último. Mas isso não condiciona de maneira irreparável o problema da escolha. O hierofante de Laques observa expressamente: Mesmo ao último que se aproxime e escolha ajuizadamente e viva de acordo com sua escolha é proposta uma vida que o satisfaça. Não seja desa tento aquele que começa a escolha nem desanime aquele que é o último A escolha feita pelas almas individualmente é depois ratificada pelas outras duas Moiras, Cloto e Atropos e, assim, torna-se irreversível. Depois, as almas bebem do esquecimento nas águas do rio Amelés e voltam aos corpos nos quais viverão a vida escolhida. Dissemos que a escolha depende da liberdade das almas, mas seria mais exato dizer do conhecimento ou da ciência da vida boa e da má, isto é, da filosofia, que se toma, para Platão, a força que salva no aquém e no além, para sempre. O intelectualismo ético é levado aqui a conseqüências extremas: Com efeito, se alguém, vindo à vida do aquém, se entrega à sã filosofia, e se a sorte da escolha não o puser entre os últimos, há uma probabilidade para ele, segundo o que se conta daquele outro mundo, não somente de ser feliz nesta terra, mas também de que a sua viagem daqui para lá e de novo para cá, não seja por áspero caminho subterrâneo, mas pelo plano caminho do céu O valor que Platão dá a esse mito é exatamente o que dá aos mitos do Fédon e aos outros: o valor de um “encantamento” na dúvi 20. República, X, 617 d-e. 21. República, X, 619 b. 22. República, X, 619 d-e. 198 199 18. Timeu, 42 b

19. República, X, 618 a. 200 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A IMORTALIDADE DA ALMA 20! da e de socorro à fé Soam, de resto, inequívocas, as palavras com as quais termina o mito: E assim, Glauco, salvou-se do esquecimento esse mito e não desapare ceu. E ele poderia salvar-nos também se quisermos acreditar nele: assim passaremos felizmente o rio Lete e não contaminaremos nossas almas. Se consentirmos no que eu disse, julgando a alma imortal e capaz de suportar todos os bens e todos os males, guardaremos sempre o caminho que leva para o alto e, de toda maneira, praticaremos a justiça e a temperança, de sorte a sermos amigos de nós mesmos e dos Deuses, não somente enquanto perma necermos nessa terra como quando formos receber os prêmios como os que alcançam os vencedores nos jogos; assim seremos felizes aqui e na viagem de mil anos da qual falamos Finalmente, convém lembrar que Platão propôs no Pedro uma visão do além ainda mais complexa Provavelmente a razão reside no fato de que, em nenhum dos mitos até agora propostos ele explica a causa da descida das almas nos corpos, as origens primigênias das próprias almas e as razões da sua afinidade com o divino. Originariamente a alma estava junto dos Deuses e vivia, no sé quito dos Deuses, uma vida divina, e caiu num corpo sobre a terra em razão de uma culpa. A alma é como um carro alado puxado por dois cavalos com o cocheiro. Enquanto os dois cavalos do Deus são igualmente bons, os dois cavalos das almas dos homens são de raça diversa: um é bom, o outro mau, e guiá-los torna-se difícil (o cocheiro significa a razão, os dois cavalos as partes alógicas da alma, das quais falaremos mais adiante). As almas avançam no séquito dos Deuses voando pelas estradas do céu e sua meta é a de chegar periodicamente, juntamente com os Deuses, ao mais alto dos céus para contemplar o que está para além do céu, o Hiperurânio (o mundo das Idéias) ou, como Platão também diz, a “planície da Verdade”. Mas, à diferença do que se passa com os Deuses, é uma empresa árdua para as nossas almas poder contemplar o Ser que está para lá do céu e poder saciar-se na “planície da Verdade”, sobretudo por causa do cavalo de raça má, que puxa sempre para baixo. Acontece, assim, que algumas almas conse / /f3

guem ver o Ser ou, ao menos, uma parte dele e, por isso, continuam a viver com os Deuses. Ao invés, outras almas não conseguem chegar à “planície da Verdade”: ajuntam-se, atropelam-se, e não conseguin do subir o declive que leva ao alto do céu chocam-se e se pisam; origina-se daqui um conflito no qual as asas são quebradas e, tornan do-se as almas pesadas em razão disso, precipitam-se sobre a terra: E esta é a lei de Adrasta: a alma que, encontrando-se no séquito de um Deus tenha visto alguma das verdades i. é, as Idéiasj, permanece incólume alé o outro giro e se sempre puder fazer assim ficará ilesa para sempre. Mas se, por falta de vigor intelectual não viu nada e se, em razão de algum acidente, encheu-se de esquecimento e de maldade e tornou-se pesada tendo, em razão do peso, perdido as asas e se precipitado sobre a terra, dispõe a lei que não entre em nenhuma natureza de animal durante a primeira geração [ Enquanto uma alma consegue ver o Ser e apascentar-se na “pla nície da Verdade”, não cai num corpo sobre a Terra e, de ciclo em ciclo, continua a viver em companhia dos Deuses e dos daímones. (Platão não diz quanto dura o ciclo do giro do céu, talvez para sugerir que essa é a vida fora do tempo.) A vida humana, que se origina da queda da alma, é moralmente tanto mais perfeita quanto mais a alma tenha podido ver no Hiperurânio e tanto menos perfeita quanto menos tenha visto. Quando da morte do corpo a alma é julgada e por um milênio, como já sabemos pela República, gozará de prêmios ou sofrerá penas correspondentes aos méritos ou demérítos da vida terrena. Depois do milésimo ano voltará a reencarnar-se. Mas, no Pedro, há uma novidade com respeito à República. Pas sados dez mil anos, todas as almas readquirem as asas e voltam para junto dos Deuses. As almas que, por três vidas consecutivas viveram segundo a filosofia, fazem exceção e gozam de uma sorte privilegiada, pois readquirem as asas depois de três mil anos. Portanto, é claro que, no Pedro, o lugar no qual as almas vivem com os Deuses (e para onde voltam depois de dez mil anos) é totalmente diferente do lugar no qual gozam do prêmio milenário correspondente a cada vida que viveram. Eis a passagem do Fedro na qual Platão exprime essa complexa visão: 26. Fedro, 248 c. 23. Cf. supra, nota 15. 24. República, X, 621 b-d. 25. Cf. Pedro, 246 a-249 d. 202 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

na concepção das relações entre a alma e o corpo se introduz. 248 e-249 b. com efeito. a nossa alma. como a relação das Idéias e das coisas não seja “dualista” no sentido em que é habitualmente entendido. e elevadas a um lugar do céu [ não é o lugar originário do qual provêm as almas]. isto é. 1. 29. pp. fun damentalmente. como lemos na passagem do Timeu acima citada a sua escatologia. o funda mento metafísico das coisas’. supra. uma vez julgadas. à qual originariamente o Demiurgo destinara a alma. a componente religiosa do orfismo. 75ss. inimizades. De qualquer maneira permanece. que transforma a distinção estrutural entre alma (= supra-sensível) e corpo (= sensível) em oposição estrutural. dualista (em certos diálogos em sentido total e radical) a concepção platônica das rela ções da alma e do corpo. aqui passam a vida de modo análogo àquele com o qual viveram a vida humana. de paixões. As outras. já ouvi tam bém homens sábios dizerem que nós. isto é. a alma liberta-se do cárcere. seus teoremas e . O corpo é raiz de todo mal. pp. supra. Essa concepção negativa do corpo atenua-se em parte nas últimas obras de Platão. inabalável do Górgias ao Timeu. com exceção da que haja filosofado com toda a sinceridade e haja amado os jovens de acordo com a filosofia: essas almas. pois não readquire as asas antes daquele tempo. Fedro. e nota 18. readquirem as asas e levantam vôo ao terceiro milésimo ano. nosso morrer (com o corpo) é viver porque. ao terceiro volver de mil anos.. 28. ao contrário. 148s. e a alma. 204 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A NOVA MORAL ASCÉTICA 205 morta. discórdia. tornadas leves em virtude da sentença judiciária. como morta. na seção precedente. Górgias. quando terminam a primeira vida. em razão de um mal. supra. como vimos cria direta mente as almas. estamos mortos porque somos. estamos mortos e que o corpo é um túmulo para nós [ Enquanto temos um corpo. Cf. está como num túmulo. na realidade. Cf. mantendo o ciclo das reencarnações como expiação de uma vida moralmente má e pondo a volta à estrela. devia fatalmente trazer consigo também uma modificação da afirmação de que a alma se encontra no corpo por uma queda e.Ao lugar de onde caiu [ o lugar onde vivia com os Deuses]. 1 97s. já que as Idéias são a “verdadeira causa”. No milé simo ano. E. além da componente metafísico -ontológica. a outra vida. comparecem em juízo e. como prêmio de uma vida boa. De fato. 492 e. talvez estejamos mortos. 2. umas descem aos cárceres subterrâneos para aí pagar suas penas. Dito isto. p. deveria levar a interpretar de modo positivo também esse seu ser no corpo.. como “túmulo” e “cárcere” da alma e lugar de expiação. Cf. com a morte do corpo. a introdução dessa fundamental figura especulati va. de animal. é necessário observar que a ética platônica só em parte está condicionada por esse dualismo exasperado.. 1. o aquém tem sentido somente se referido a um além. agora. mostra-lhes originariamente a verdade e confia aos “Deuses criados” a tarefa de revesti-las de cor pos mortais. sem desaparecer de todo. ignorância e loucura: e é tudo isto o que traz a alma como L A NOVA MORAL ASCÉTICA 27. umas e outras caminham para a designação e escolha de uma vida ulterior e cada uma escolhe a que quer. voltar a ser homem. O dualismo antropológico e a significação dos paradoxos com ele conexos Explicamos. este princípio fundamental: o que dá sentido a esta vida é o destino escatológico da alma. ao invés. portanto. cada alma não volta antes de dez mil anos. quanto. Por esse motivo o corpo é compreendido não tanto como o receptáculo da alma que lhe dá a vida e as suas capa cidades como um instrumento a serviço da alma segundo pensava Sócrates. se por três vezes seguidas escolheram essa maneira de viver. Mas Platão não desenvolveu expressamente esse tema e apenas simplificou. então uma alma de homem pode tomar vida de animal e aquele que já fora homem pode. bem como a afirmação do princípio de que o Demiurgo executa todas as suas obras tendo em vista o bem. Mas. Lemos no Górgias: Eu não ficaria admirado se Eurípedes afirmasse a verdade quando disse: Quem pode saber se viver não é morrer e morrer não é viver? e que nós. as outras. mesmo com o flutuar das representações. fonte de amores insanos. Com efeito. coloca-as nas estrelas. enquanto está no corpo. Pois a alma que nunca viu a verdade não poderá tomar essa figura Essas complicações simplificam-se no Timeu em razão da explicitação da figura do Demiurgo que.

Isso significa que a morte do corpo descobre a vida verdadeira da alma. nos será dado alcançar o que vivamente dese jamos e do qual nos declaramos amantes. diz respeito somente ao corpo. isto é. estaremos. nos encontraremos. quando nos atingem. e não nos deixaremos contaminar pela natureza do corpo. e a nossa alma permanecer penetrada por essa coisa má. de modo que. Eis como Platão. pois então a alma estará só e por si mesma. Eis por que convém empregar-nos em fugir daqui o mais depressa para ir ter lá no alio. A “segunda navegação” per manece. com seres puros como nós e conheceremos. Assim. ele nos enche de amores. Assim. Em outras palavras: sua vida. persegue através do a morte é um episódio que. E Platão mesmo quem no-lo revela do modo mais explícito. pois sempre haverá alguma coisa de oposto e contrário ao bem. o fundamento verdadeiro da ética platônica. livres da estultície que provém do corpo. Todas as guerras nascem por cupidez de riquezas e nós devemos necessariamente procurar as riquezas por causa do . da vida na dimensão pura do esp frito. Assentado esse ponto. Mais ainda. ao contrário. tudo o que é puro: essa é. juntamente. por culpa dele. o verda deiro filósofo deseja a morte. corpo. eslando nós a serviço das necessidades do corpo. O sentido do paradoxo não muda se mudarmos a sua formulação. se não é possível conhe cer nada na sua pureza por meio do corpo. nos impedem a busca do ser. mas deve necessaria mente circular nessa terra e em tomo da nossa natureza mortal. como parece. 206 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A NOVA MORAL ASCÉTICA 207 O mal não pode acabar. uma vida toda recolhida em si mesma. por meio do raciocínio. em todo caso. porque enquanto estamos vivos não é possível. A fuga do corpo é o reencontro do espírito. porque se olhou mais para seu matiz exterior misteriosófico do que para sua substância metafísica: referimo-nos aos dois paradoxos da “fuga do corpo” e da “fuga do mundo”. sem obstáculos e véus. A alma deve aplicarse em fugir o mais possível do corpo e. Eis suas palavras: 3. Mas está realmente provado que. E esse fugir é um assemelhar-se a Deus tanto quanto possível ao homem. como se diz. tanto mais próximos ao saber quanto menos teremos relação com á corpo e comu nhão com ele. a não ser na medida estrita de uma necessidade inevitável. e se a morte não é outra coisa senão desligamento da alma com relação ao corpo. a verdade. de paixões. dire tamente à seguinte consideração: enquanto possuirmos um corpo. não alcançaremos nunca de modo adequado aquilo que desejamos ardentemente. ou será possível somente quando estivermos mortos. os quais. a verdade. Com efeito. como é verossímil. mas traz-lhe um grande beneficio. vem a ser. Com efeito. explica o sentido desse parado xo numa página exemplar: Parece que há um caminho que nos leva. na conhecimento.corolários de fundo apóiam-se na distinção metafísica da alma (ser afim ao inteligível) e do corpo (ser sensível) muito mais do que sobre a transposição misteriosófica da alma (daimon) e do corpo (túmulo e cárcere). Somente então. E durante o tempo em que estamos em vida. e antes não. continuam válidos no plano ontológico. permitindo-lhe viver uma vida mais verdadeira. e asse melhar-se a Deus é alcançar justiça e santidade e. ela não somente não causa dano à alma. quando conseguimos obter do corpo um momento de trégua e conseguimos nos voltar para a pesquisa de alguma coisa. Se o corpo é obstáculo à alma com seu peso sensível. se quisermos ver alguma coisa na sua pureza devemos despren der-nos do corpo e contemplar só com a alma as coisas em si mesmas. O primeiro paradoxo é desenvolvido sobretudo no Fédon. Além disso. de duas uma: ou não é possível alcançar o saber. tumultos e batalhas não se originam de outra coisa a não ser do corpo e das suas paixões. explicando-nos que fugir do mundo significa tornar-se virtuoso e procurar assemelhar-se a Deus. O pior de tudo é que. de algum modo. o corpo nos traz preocupações sem-número em razão da necessidade de alimentá-lo. por sua culpa não nos é possível deter nosso pensamento sobre o que quer que seja. de medos. guerras. separada do corpo. Efetivamente. 66 b-67 b. Com efeito. no Fédon. O sentido desse paradoxo é muito claro. por isso. confunde e atrapalha de modo que. aparece melhor o filósofo é aquele que deseja a vida verda deira (= morte do corpo) e a filosofia é o exercício da vida verdadeira. sapiência ontologicamente. por todas essas razões. “a quem é impuro não é permitido aproximar-se do que é puro” Também é claro o significado do segundo paradoxo. eis que improvisamente ele se lança no meio das nossas pesquisas e nos perturba. nem pode ter lugar entre os Deuses. da “fuga do mundo”. em substância. e inteiramente unida ao inteligível. não podemos ver a verdade. o conhecimento supre mo: isto é. Fédon. quando estivermos mortos como mostra o raciocínio. na pureza da nossa alma. a morte constitui. mas nos manteremos puros do que é do corpo. somos desviados da filosofia. como parece. as doenças. tantas vezes mal entendidos. até quando Deus mesmo não nos liberte dele. examinemos logo os dois paradoxos mais conhecidos da ética platônica. a realização completa da libertação que o filósofo. e a verdadeira filosofia é exercício de morrer. muito provavelmente. de imaginações de todo tipo e de vaidades. Dessa última procedem a formulação extrema e a exasperação paradoxal de alguns princípios.

ocupa cada um dos seres a que eles se referem. o lugar que cada valor ocupa corresponde. ora. pois então não se faz senão desonrar a alma da maneira mais real e mais absoluta: pois essa preferência equivale a dizer que o corpo é mais precioso do que a alma. com uma 2) Logo após os Deuses vem a alma que é. num primeiro momento. é necessário que cada um honre sempre a parte que nele ordena. ao contrário. há duas partes: uma 4. a primeira sistemática e completa que nos foi transmitida pela antigüidade. 6. por tanto. tendo que. assim para as outras qualidades vale o mesmo princípio Como se vê. a parte superior e melhor. se preciso. entre as quais escolhe mos os dois exemplos mais indicativos]. Os valores do corpo e os valores exteriores passam para um segundo plano e perdem a impor tância que a tradição lhes atribuíra Ora. virtude e conhecimento. seguir a virtude e o conhecimento quer dizer assemelhar-se a Deus. mesmo acreditando o contrá rio [ um elenco de ações que não honram a alma. 3) Em terceiro lugar. 2. 208 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL superior e melhor. é intemperante. ou seja. dizendo que cada um deve dar à sua alma o segundo lugar na sua estima. é a alma. quem entre nós é temperante é caro a Deus porque é semelhante a ele. Eis um passo pouco conhecido das Leis que merece ser meditado porque contém a última palavra de Platão sobre esse problema: Qual é a conduta amiga e obsequiosa a Deus? Somente uma e ela está fundada no ditado antigo. a saber. para nós a medida de todas as coisas é Deus acima de tudo. é dessemelhante e discordante dele e é injusto. o que é falso. provavelmente. os dois paradoxos têm um significado idêntico: fugir do corpo quer dizer fugir do mal do corpo mediante a Virtude e o conhecimento. que é “medida” de todas as coisas. Cf. como se afirma. 716 c. exatamente. como fundamento a sua descoberta capital da psyché como essência do homem. homem algum. que os valores que ocupam o ter ceiro e quarto lugares são tais somente se subordinados ao valor superior da alma. Se. Os verdadeiros e autênticos valores são somente os da alma. 266ss. A sistematização e fundamentação da nova tábua de valores Já Sócrates. solicitado sobretudo por seus interesses políticos. De todos os bens que alguém possui. onde as coisas saem fora da justa medida não se comprazem uma na outra nem amam aquelas que as conservam. Em todo homem. aos valores que podemos denominar religiosos. Note-se. quem honre a própria alma como convém. vem o corpo com seus valores (os valores vitais como hoje se diria). em particular. depois dos Deuses. nada do que é terrestre é mais precioso do que as coisas celestes. assim os valores ligados ao sensível são e valem somente em função dos valores meta-sensíveis. que é o bem mais individual. ao lugar que. de preferência àquela que serve. de tal modo que ele é somente em função do ser supra-sensível. fugir do mundo quer dizer fugir do mal do mundo sempre por meio da virtude e do conhecimento. quem tem . o mais divino. na ontologia geral de Platão. depois dos deuses que são nossos senhores e dos seres que a eles estão próximos. Se acaso forem antepostos ou de algum modo opostos aos valores da alma. eu dou um preceito justo. com os valores que lhe são peculiares da virtude e do conhecimento. atenuou a desvalorização dos outros valores e chegou à dedução de uma verdadeira e própria tábua de valores. permanece a operara uma revolução dos valores mais radical da antigüidade. Leis. no homem. que ordena. que serve. que o semelhante ama seu semelhante. 5. ou seja. 1) O primeira e mais elevado lugar pertence aos Deuses e. Como é evidente à primeira leitura dessa tábua. IV. E como o sensível é inteiramente dependente do supra-sensível. como vimos. De acordo com esse princípio. vêm os bens da fortuna. pp. Com efeito. Entre nós não há. tomam-se negativos e tomam-se contra-valores. Certamente isso não acontece quando se prefere a beleza à virtude. Assim. muito mais do que o seja. a nova estatura metafísica atribuída por Platão à alma con fere um fundamento definitivo à tábua socrática dos valores. pouco a pouco. com os valores espirituais. 4) Em quarto lugar.Essa passagem pode ser ulteriormente passagem paralela das Leis: explicada. outra inferior e menos boa. Platão polarizou quase toda a sua atenção sobre os valores da alma como se fossem os únicos valores. o volume 1. quem. Ora. 176 a-b. por assim dizer. desde que conserve a justa medida. Teeteto. Quem quiser ser amigo de tal ser é necessário que também ele procure tornar-se quanto possível tal qual é Deus. as riquezas e os bens exteriores em geral.

Em suma. uniforme. 3. de sedições e inimizades. causa de servidão A NOVA MORAL ASCÉTICA 209 prazeres. crava e finca a alma no corpo e a faz tornar-se quase corpórea. portanto.. o pra zer é entendido.opinião dife rente com respeito à alma ignora o quanto seja precioso esse bem que ele menospreza. radicalizou em sentido cínico o pensamento de Sócrates. que o que a faz experimentar essas afeições é concretíssimo e veríssimo. por isso. com fundamento na distinção das várias funções ou partes da alma (sobre a qual voltaremos adiante de modo mais profundo). visto até como antítese do bem. a tornar-se tal que não pode chegar pura ao Hades. as outras a tornam pusilânime e vil [ O mesmo se diga da posse do dinheiro e de outros bens [ ocupa o último lugar] que deve ser avaliada segundo o mesmo critério. na maioria dos casos. o desprezo de todos os prazeres e de todas as satisfações do corpo. como vimos. de longe. Eis um dos textos mais significativos: A alma do verdadeiro filósofo. Em diálogos como o Górgias e o Fédon (e. abstém-se. como se tivesse um cravo. negou ao prazer uma validez autônoma e Aristipo. segundo a ordem natura!. ao passo que todo o ouro que há em cima e debaixo da terra não se pode comparar com a virtude E. parece-me que ele declare. é claro que o prazer ligado aos sentidos não pode ser senão radicalmente desvalorizado e. ao passo que não é assim. E sendo mais o prazer como mal. e nos quais o corpo é visto também como cárcere da alma —. Nesse ponto. fazendo-a acreditar ser verdadeiro o que o corpo diz ser verdadeiro. 210 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A NOVA MORAL ASCÉTICA 211 — É bem verdade. 743 e. ele a enche de aflição pois que vende por pouco ouro ao mesmo tempo sua honra e sua beleza. E com esse ter as mesmas opiniões do corpo e gozar dos mesmos prazeres do corpo penso que é obri gada também a adquirir os mesmos modos e as mesmas tendências do corpo e. V. qualificando sem 7. Sócrates. tanto para os Estados como para os cidadãos. pois as primeiras tomam a alma cheia de si e orgulhosa. Sócrates. na própria República) — nos quais. - — E não é acaso sobretudo em razão dessas suas afeições que a alma está ligada ao corpo? — Por quê? — Porque todo prazer e toda dor. embora com algumas oscilações. disse Cebes Uma perda da rigidez dessa concepção verifica-se já na República onde. isto nos sucede particularmente com as coisas visíveis. divino. crescerá nele. Todos compreenderão que. mas recebe o mal maior que imaginar se possa e não cai na conta disso. ao contrário. sairá do corpo toda cheia de desejos corporais de sorte que cairá logo de novo em outro corpo e. ao passo que a falta deles é. experimentando um forte prazer ou uma dor forte em razão de alguma coisa. como se fosse uma semente. forte ou dotado de velocidade ou grande ou nem mesmo são — ainda que assim pareça a muitos — e nem certamente pelas qualidades opos tas.. esse mal? disse Cebes. julgando que não deve opor-se a essa libertação [ corpo]. quanto à estima do corpo é necessário examinar qual seja a verdadeira e qual a falsa. Ora. em certo sentido. o excesso de dinheiro e de bens materiais é causa. Leis. de prazeres. ao passo que Antístenes. 726 a-729 a. Ora. Com efeito. certamente com tais dons não honra a sua alma. O anti-hedonismo platônico E o prazer? Acaso encontra seu lugar nessa tábua de valores ou nela não lhe cabe nenhum lugar? Sócrates. é levada a crer. e essa é tarefa do legislador. também V. traiu Sócrates. ou pelos temores ou pelas dores e paixões. como prerrogativa da alma mais do que do corpo. que o corpo é digno de estima não porque seja belo. nunca terá como sorte a participação no ser puro. além da distinção metafísica alma-corpo. Mas. considerando que aquele que se deixa cativar além da medida pelos . o mais possível. o desprezo dualista do corpo traz consigo. de desejos e de medos.]. — Consiste em que a alma do homem. a posição de Platão mostra uma evolução que vai de uma radicalização em sentido ascético da posição de Sócrates a uma recuperação aprofundada e ontologicamente elucidada da posi ção socrática. na medida em que sujeita a alma ao sensível e a prende a ele. em parte. cf. por isso. — E qual é. fazendo do prazer o bem supremo. Quando um homem gosta de adquirir riquezas de modo pouco louvável ou não sente repugnância em adquiri-las assim. como conseqüência. Ou não? — Certamente. o que há de mais sábio é um justo meio entre essas qualidades e é também. também o dualismo misteriosófico desempenha um pape]. o mais seguro. o terceiro lugar compete ao corpo. a propósito disso. não recebe um mal tão grande como se ficasse enfermo ou gastasse parte das suas riquezas para satisfazer às suas paixões.

Na Academia. porque não são o ser verdadeiro. li. como veremos. o prazer é. De Eudoxo falaremos no volume III. tentando uma com posição da polêmica. Os prazeres da terceira espécie são muito superiores. — Se. enquanto as outras duas espécies de prazer são “espúrias”. IX. alguns acadêmicos negaram que o prazer pudesse de alguma maneira identificar-se com o bem. não convém uma vida de pura inteligência que é indubitavelmente a vida mais divina. haverá três espécies de prazer: os prazeres ligados às coisas materiais e às riquezas (próprios da alma concupiscível). ao passo que a parte superior. toda a alma se deixa guiar pela faculdade que ama o saber e não se revolta contra ela. República. que é uma alma num corpo. que demonstram claramente como a ética do Górgias e do Fédon é redimensionada. mas. alimenta-se de coisas que também são menos ser. pois o que é melhor para cada um é também o que lhe é mais conforme? — Isso mesmo. gozará de um prazer verdadeiro de maneira mais real e verdadeira. A grande massa [ homensi dando-lhes crédito como fazem os adivinhos com os pássaros. a concupiscível. o que recebe o que é menos ficará menos verdadeira e firmemente pleno. pois a verdade é que os guia. mas nem o corpo e as partes inferiores da alma são capazes de reter o que recebem nem seus objetos são capazes de saciar. como o “encher” e o “tornar repleto” algo vazio. porém. uma eliminação dos excessos devidos ao dualismo misteriosófico de origem órfica e uma tentativa de tomar premissas metafísicas. 586 d-e.três as partes da alma. A solução mediana que ele propôs. Como não? — Assim. mais do que uma modificação dos pressupostos filo sóficos da sua ética é. os prazeres ligados à honra e à vitória (próprios da alma irascível) e os prazeres do conhecimento (próprios da alma racional). em primeiro lugar porque muito superior é a faculdade racional da alma à qual se referem. é o que lhe é mais conforme. experimenta em sumo grau o prazer — Portanto. De um lado. Eudoxo revalorizou o prazer e até o identificou com o bem. 83 b-e. 8. Fédon. mas de nenhum modo repudiada: O primeiro [ em verdade. [ o daremos ao prazeri mesmo que assim o façam todos os bois. com o próprio ato de buscar o prazer. cada uma goza dos prazeres que lhe são próprios. se é agradável tomar-se pleno do que mais convém por na tureza. a irascível e a racional. sendo condenáveis desde que tenham a primazia. com sua ajuda. acontece que cada uma das suas partes executa o próprio ofício e se conserva na justiça e. é vida dos deuses eternos. 212 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A NOVA MORAL ASCÉTICA 213 sejam mais úteis ao bem viver e acredita que os amores dos brutos animais sejam testemunhas de maior peso do que os raciocínios gerados no espírito da Musa filósofa’ . IX. disse ele. disse ele Todavia. portanto. se bem considerarmos. é vida mais do que humana. Mas também não convém ao homem uma vida de puro prazer. justamente porque é tal. — E absolutamente necessário. somente os prazeres da terceira espécie são “autên ticos”. 9. também os prazeres “espúrios” das duas partes inferio res da alma. Eis as conclusões do Filebo. são porém aceitáveis se forem refreados pela razão: — Então? disse eu: teremos a coragem de afirmar que também todos os desejos da parte que ama o lucro [ a parte concupiscível da almal e a vitória a parte irascívell. os melhores e mais verdadeiros de que ela pode gozar’°. os corolários éticos mais coerentes com as Ao homem. antes. Platão interveio na discussão com o Filebo. tornando-se plena com o verdadeiro ser. Com efeito. seguindo a ciência e a razão e. o que se torna mais realmente pleno do que verdadeiramente é. procu rando e alcançando os prazeres que a sabedoria aponta. assim. sendo menos ser. todos os cavalos e todos os outros animais. em geral. em segundo lugar porque os objetos que provocam os prazeres da razão são muito superiores aos que provocam o prazer das outras partes da alma. alcançarão os mais verdadeiros e os que lhes são mais convenientes e podem alcançar prazeres verdadeiros. o que se toma pleno de coisas que possuem mais ser. surgiu logo uma viva polêmica em torno à natureza do prazer que confrontou duas soluções opostas. aduzindo como prova da sua tese o fato de que tanto os homens como os animais tendem igualmente ao prazer e fogem da dor. 585 d-e. participando mais do ser toma-se verdadeiramente mais pleno do que aquele que. que é uma vida puramente animal. República. Mais ainda. e participará de um prazer menos seguro e menos verdadeiro. do outro. julga que os prazeres lO.

pois nos 2. Ora. como umas prevalecem sobre as outras quanto a prazeres. a sua doutrina não muda. é preciso perguntá-lo à razão. para saber qual seja a maneira reta de gozar. usa uma linguagem que. já antes expusemos rapidamente todos os preceitos que têm caráter divino. com respeito à conduta que é necessário manter e às qualidades individuais que cada um deve ter. Sendo a ordem das coisas necessariamente assim. como em todos os diálogos precedentes: Ora. nossa vontade de escolha não tem em vista os estados nos quais prevalece a dor: julgamos mais agradável. com seu aspecto exterior. Filebo. e também as condições contrárias a essas. Se acaso dissermos que queremos alguma coisa fora desses limites. pela sua própria natureza. prazeres. Protarco — Muito justo. ela vale mais do que qualquer outra naquilo que todos procura mos. V. a saber.Ao homem convém uma vida “mista” de inteligência e de prazer. E necessário pensar ainda que todos os estados da nossa vida estão contidos. já que nesse raciocínio o prazer e a inteligência se demonstraram sem capacidade para bastar a si mesmos e sem força sufi ciente e perfeita. ao mesmo tempo. deve-se também notar que a direção permanece inteiramente confiada à inteligência e somente a esta: Sócrates — [ Tendo presente o que se discutiu ainda há pouco e sendo contrário à tese [ a qual o prazer é o bemj que não é só de Filebo. se queremos gozá-la e não nos afastarmos dela na juventude. porém. em segundo lu gar. Que assim seja qualquer um pode percebê-lo imediatamente. Platão conclui que a vida que garante maior prazer é somente a vida virtuosa. à primeira vista. ela vale mais do que qualquer outra quanto à boa reputação. observou-se que a inteligência é mil vezes mais familiar e mais afim ao ideal do vencedor do que o pra Também nas Leis. afirmei que a inteligência é muito melhor e mais agradável do que o prazer para a vida humana. acres centei que se aparecesse algum outro eu teria lutado contra o prazer para dar à inteligência o segundo lugar. dentro desses limites e. no entanto. mas não preferimos nem queremos a dor. menores e mais raros. contenham prazeres e dores em menor número. podemos acrescentar. 13. desde que queira gozar corre tamente dessa vida. Se. ao contrário. Mas. vale dizer. Protarco — E verdade. pareceria até antecipar a linguagem de Epicuro. Protarco — Lembro-me de que disseste isto. Filebo. examinando se o que dissemos é conforme à natureza ou a ela contrário. Queremos o prazer. 14. confrontando-as da seguinte maneira. ao fazer o elogio da vida mais bela. falamos assim por ignorância ou inexperiência da vida real’ Mas logo depois de ter reconhecido isto (que. se prevalece o que não agrada. Leis. Protarco — Assim o disseste. não se pode afirmar claramente que o queremos. onde Platão. dores. não a queremos. Ora. concluiu-se que nem um nem outro é o bem. mas os prazeres prevalecem. ainda que a vida temperante em comparação com a intemperante e. a inten sidade como a igualdade. considerar quais são os que naturalmente preferimos. o seguinte: Assim. mas preferimo-lo à dor. a prudente em comparação com a insensata e a corajosa em comparação com a covarde. Mas. não basta mostrar que. Ora. é preciso pensar que queremos essa vida desde que prevaleça o que é agradável. é preciso que o façamos. 66 e-67 a. Em cada um desses casos influem na vontade. nem queremos um estado neutro em lugar do prazer. grandes e intensos. os prazeres das atividades espirituais e das percepções. E necessário. mas ainda não falamos daqueles que se revestem de um caráter humano. dirigimos a homens e não a Deuses. 732 d-733 d. com efeito. suspeitando que existissem ainda muitos bens. porém prazeres e dores se equilibram como acima dizíamos. em primeiro lugar. deve-se notar que os prazeres que Platão aceita na “vida mista” são somente os “prazeres puros”. Sócrates — Assim pois. gozar mais e sofrer menos durante toda a vida. com relação ao prazer. mas. para determinar em cada um deles a escolha. tanto a abundância como a grandeza. mas não queremos menor prazer com maior dor. Assim sendo. 67 b. desejos são coisas profundamente humanas por sua natureza às quais todo mortal deve estar necessariamente apegado e como suspenso delas. aliás. é reconheci mento motivado pela concepção popular das Leis). mas de Outros mil. quanto ao estado em que prazer e dor se equivalem. Sócrates — Mas. a vida na qual ela é menor. . pois considerar a vida mais agra dável e a mais penosa. mas é preciso mostrar também que. assim o prazer teria perdido também o segun do posto honorífico. preferimos a vida na qual os pra zeres e as dores são muitos. pareceu-nos da maneira mais convin cente que nem um nem outro era suficiente. Sócrates — Mas. tendo aparecido um terceiro melhor que cada um dos dois. Sócrates — Em seguida. No quinto livro lemos. e estas sobre aquelas quanto a dores. queremos menos dor com maior prazer.

Eis uma passagem significativa do Fédon na qual virtude. a virtude e o conhecimento Sócrates tinha posto no “cuidado da alma” a suprema tarefa moral do homem. a coragem e o próprio saber não sejam senão uma espécie de purificação. de maneira que a vida temperante. V. nessa fusão de misticismo e racionalismo. justiça e a virtude será somente a que vem acompanhada do saber. A purifica ção aqui. quem. diversamente das cerimônias iniciátícas dos órficos. uma virtude verdadeiramente servil que nada tem de bom e de genuíno. 4. A purificação da alma. Leis. a vida que reúne as boas qualidades do corpo e da alma é mais agradável do que a vida que reúne más qualidades e. em suma. reconhecen do assim ao conhecimento uma força onipotente 16. qual seja a de trocar prazeres com prazeres. Fédon. veremos que. como vimos. se isso é verdade. talvez não haja senão uma moeda que tenha valor e pela qual se devam trocar todas essas coisas. toma posse do mundo do inteligível puro e do espiritual. e todas as outras paixões semelhantes a essas! Quando essas coisas são separadas do saber e trocadas entre si. e essa é o saber. a vida insensata. já desde os tempos antigos revelaram-nos que quem chega ao Hades sem ter sido iniciado e sem ter sido purificado jazerá em meio à lama. admite que a injustiça é involuntária. Platão reitera o mandamento socrático. V. boa fama. e o mau é tal involuntariamente. 860 d-e: “ todos os maus são. a prudente à insensata. IX. explicando que “cuidado da alma” significa “purificação da alma”. ibidem. assim ela faz com que. Certamente não foram tolos os que insti tuíram os mistérios: na verdade. Essa purificação se realiza quando a alma. ao contrário. em todo caso. como beleza. 69 a-d. mas a ele acres centa um matiz místico. considerará que o injusto comete injus tiça involuntariamente”. Timeu. Portanto. unindo-se a ele como ao que lhe é congênito e conatural. e estas coisas são odiosas a cada um e lhe acontecem contra a sua vontade”. E esses. temperança. 734 e-e. a vida corajosa. retidão. quem foi iniciado e se purificou. a vida prudente e a vida sã são mais agradáveis do que a vida covarde. é totalmente ik)gico admitir que involuntariamente se cumpra um ato voluntário. acaso não será esta a troca correta no que diz respeito à virtude. [ O homem injusto é mau. os maiores com os menores como se fossem moedas. Ao expor a República. falaremos de cada uma das virtudes. temeres. a fim de expli car mais adequadamente o comportamento humano. Somente então o que se compra e vende a preço do saber e com o saber será verdadeiramente cora gem. processo de conversão moral: na medida em que o processo do conhecimento conduz-nos do sensível ao supra-sensível. temores com temores. 731 c: “ antes de tudo. purifica-se. já haviam descoberto). 86 e: “ ninguém é mau por sua vontade. transcendendo os sentidos. Com efeito. Com efeito. Aqui observamos ainda como. seja que se lhe acrescentem ou não prazeres. converte-se e se eleva. dores com dores. não são senão os que praticaram corretamente a filosofia Não somente o Fédon. mas aínda os livros centrais da República insistem nessa tese: a dialética é conversão ao ser. é preciso saber que o homem injusto não é voluntariamente tal”. a alma se cura. a vida intemperante e a vida enferma. involuntariamente maus. Nisso consiste a sua virtude. e a filosofia coincide com a verdadei ra iniciação aos mistérios: Ó bem-aventurado Símias. conhecendo. mas um esforço catártico de pesquisa e de subida progressiva ao conhecimento. IS. mas poucos os bacantes”. viva em tudo mais felizmente do que quem abraça a vida oposta°. e que a temperança. coinci de com o processo de elevação ao conhecimento supremo do inteli gível.214 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A NOVA MORAL ASCÉTICA 2 resulta que a vida corajosa é superior à covarde. é iniciação ao Bem supremo. além disso. saber e purificação são identificados. mas o mau toma-se mau por alguma depravada disposição do corpo e por um crescimento sem educação. se ele reserva um lugar na alma às forças alógicas. observa se a virtude que daí procede não seja uma aparência vã. Leis. a justiça. Cf. 17. quem a abraça. E até nos dois últimos diálogos reitera o paradoxo socrático de que ninguém peca voluntariamente. portanto.lógica e extática. penso eu. para Platão. Assim se entende perfeitamente por que o processo do conhecimento racional seja. é superior em tudo o mais. A MÍSTICA DE PHILIA E EROS 217 . e se a virtude verdadeira não seja senão uma purificação de toda paixão. lá chegando morará com os Deuses. a conseqüência necessária que daí deriva é esta. os intérpretes dos mistérios dizem que “os portadores de tirso são muitos. Platão retoma plenamente o intelectualismo socrático. atribui indiscutivel mente a primazia à razão. ora. converte-nos de um mundo a outro e nos leva da falsa à verdadeira dimensão do ser. E necessário refletir justamente sobre esse valor de purificação reconhecido à ciência e ao conhecimento (valor que os antigos pitagóricos. para compreender a novidade do “misticismo” platônico: ele não é uma contemplação a.

218 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A MÍSTICA DE PHILIA E EROS 219 beleza e de bondade. a amizade não nasce nem entre bom e bom nem entre mau e bom (ou entre bom e mau). A análise do Amor conta-se entre as mais esplêndidas entre as que Platão nos deixou O Amor não é belo nem bom. pode-se ver. uma força que dá asas e eleva. é um aspecto do Bem. remetemos ao trabalho de nossa aluna M. Milão 1974. à Beleza meta-empírica em si mesma. E já que o Belo. E amigo do bom por causa do mal que traz em si (naturalmente deve tratar-se de um mal que não o condicione inteiramente) e por causa do desejo do bem do qual é carente. Eis como esses seres demônicos são descritos: . — E necessário que assim seja. e não reveladora da beleza inteligível). Lualdi. continuei. para Platão. de amizade em amizade]? Ou alcan çaremos um princípio que não nos remeterá mais a outra coisa amiga mais além? Mas aquele princípio não será nem mais nem menos do que o Primei ro Amigo. sendo ele intermédio (observe-se que o intermédio pode ser defmido não só como o que não é nem bom nem mau. A MISTICA DE PilhA E EROS 1. O Amor não é um Deus (só Deus é sempre belo e bom). assim Eros é uma força que eleva ao Bem: a erótica platônica. torna-se claro que esse “Primeiro Ami go” não é senão o Bem primeiro e absoluto. A amizade que liga os homens entre si é autêntica para Platão somente se se revela um meio para subir ao Bem. não se desenvolve em sentido pura mente horizontal. Para uma acurada exegese do Lisis. 11 problema delia philia e ii Liside platonico. através dos diversos graus da beleza. 1. E antes o inter. caracte rísticas peculiares do eros e é por essa razão que Platão estuda sepa radamente a amizade no Lisis e o amor no Banquete e. à temática da arte (a qual é imitação de mera aparência. mas também como o que é juntamente bom e mau). coincide com o Bem ou. na solução. Lisis. em vista do qual dizemos que todas as outras coisas são amigas. Não é mortal. para eventuais aprofundamentos: G. ao menos. de alguma maneira. mas é sede de 2.IV. para Platão. ou seja transcendente. mas que. ao invés. mas também não é imortal: é um daqueles seres demônicos “intermediários” entre o homem e Deus. por assim dizer. 219 c-d. São análogas as conclusões a que chega Platão nas suas análises em tomo do amor. Sobre o tema do amor. bem longe de se opor ao misticismo e ao ascetismo platônicos. mas à temática do eros e do amor. está ausente a paixão e a “divina mania” que são. entendido esse como força mediadora entre o sensível e o supra-sensível.nédio (nem bom nem mau) que é amigo do bom. Frankfurt 1939 (1 963 G. — Justamente por isso. para o grego. embora tendo muito em comum. em todo o caso. das quais agora falaremos sinteticamente. 2. mas também não é um homem. Calogero. A amizade (philía) e o “Primeiro Amigo” Vimos como Sócrates elevou a indagação sobre a amizade ao nível de problema filosófico. mais uma vez a partir dos resultados da “segunda navegação”. 3. II Simposio di Platone. todas as outras coisas que chamamos amigas tendo em vista aquele Primeiro nos são amigas e queridas e como imagens dele nos atraem enganosamente. Celuc. Mas aquele Primeiro é que é ver dadeiramente o Amigo No contexto do diálogo. é próprio dele. é um aspecto fundamental e genuinamente helênico de ambos. Geralmente as exposições platônicas sobre a amizade (philía) e sobre o amor (eros) são consideradas globalmente. mas. Krüger. O que buscamos nas amizades humanas remete sempre a alguma coisa de ulterior. Para além das aporias dispersas no Lis is. O “amor platônico” Já vimos que a temática da beleza não está ligada. podemos dele extrair com suficiente clareza o seguint&: A amizade não nasce nem entre semelhantes nem entre dessemelhantes. também no Fedro. Eisicht und Leidenschaft. mas isso não é certo pois os dois conceitos não coincidem. e toda amizade tem um sentido somente em função de um “Primeiro Amigo” (1rpc (ptÀoV). em parte. vai muito além de Sócrates. Eis a passagem mais significativa do diálogo: — Então é necessário que nossas forças se esgotem procedendo ao infinito [ coisa amiga em coisa amiga. mas eleva-se em sentido vertical. Platão retoma de Sócrates essa orienta ção do problema. Mas a amizade. prevalece o elemento racional ou. Na philía grega.

justamente como faz o amante. E filósofo o tempo todo. toda a arte profética e mágica. andando sempre acompanhado da pobreza. quando tudo lhe sucede bem. um homem demônico E. O degrau mais baixo na escala do amor é o amor físico. descansa dormindo ao ar livre sob as estre las. Platone educatore. da parte dos segundos. pp. da felicidade. Por isso mesmo se diz que quem possui um seguro conhecimento disso é um homem em relação com poderes superiores. a fim de gerar na beleza um outro corpo. 202 e-203 a. já esse amor físico é desejo de imortalidade e de eternidade. cada vez mais no alto. Deita-se sempre por terra e não possui nada para cobrir-se. 1 42ss. não é de maneira alguma delicado e belo como geralmente se crê. 11. o Amor está sempre à espreita dos belos de corpo e de alma. hirsuto. L. O Amor é um caçador temível.]. inicia ções e encantamentos. Banquete. 6. 206 e. 5. é possuída somente por Deus. seja na vigília como no sono. do Absoluto. O que os homens chamam de amor não é senão uma pequena parte do verdadeiro amor: amor é desejo do belo. assim como Stenzel. Há. isto é. Enfim. Sua natureza não é nem mortal nem imortal. ordens e a retribuição dos sacrifícios. há a visão final. a ignorância é própria daquele que está totalmente alienado da sapiên cia. sofista. 299ss. eis qual é a sua condição. Em todo caso.Eles interpretam e transmitem aos Deuses os desejos humanos. 220 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSíVEL A MÍSTICA DE PHILIA E EROS 221 Todo esse prelúdio é feito tendo em vista aquela visão. ao contrário.. é perenidade e imortalidade Em seguida. e assim também aos homens as vontades divinas. Numa pala Bai-i 19462. Paris 19682. há a visão fulgurante da Idéia do Belo. mas na alma. encantador poderoso. mostra claramente a natureza da sua mãe. não possui o saber mas a ele aspira. Da parte dos primeiros. Sócrates. Gosta de invenções e é cheio de expediente para consegui-las. Robin. 4. Paideia.. Amor tem uma dupla natureza: Pois que o Amor é filho de Penia e Poros. no momento seguinte morre. recurso. Ele está no meio entre a ignorância e a sapiência Portanto. pp. no mesmo dia em um momento. acontece por meio deles. os amantes da ciência pura. [ porque a geração. Banquete. mesmo sendo em criatura mortal. no alto da escala do amor. mas depois retoma à vida graças à natureza patema. está sempre procuran do e o que encontra sempre lhe escapa e deve buscar mais além. descalço. as iniciações perfeitas e supremas. mas sim duro. e Jaeger. a sapiência. Em meio a um e outro mundo. poderás talvez ser iniciado a essa parte da doutri na do amor. Banquete. A divindade E. em suma. mas. 203 c-e.. floresce bem vivo e. fazedor de fil tros. Cf. preces e sacrifícios. todavia. os amantes das almas. vra. a filo-sofia é própria de quem não é nem sábio nem ignorante. sempre armando intrigas. Leiamos as páginas maravilhosas nas quais Platão descreve a escala do amor que leva do belo corpóreo à Idéia pura do Belo: estão entre as mais elevadas da literatura de todos os tempos: Também tu. Por isso. do Belo em si. A sophía.. do Absoluto. com sagazes ardis. astucioso. La théorie platonicienne de I’amour. todo o seu falar com os homens. Um deles é o Amor O demônio Amor foi gerado por Penia (que quer dizer pobreza) e por Poros (que quer dizer expediente. há o grau dos amantes que são fecundos não nos corpos. audaz e constante. Não sei se serás capaz de chegar lá. Por obra do ser demônico. bibliografia no volume V. E valoroso. sem teto. Estes demônios são muitos e de toda espécie. aquisição). desde que se siga o caminho direito. Ao invés. o Amor nunca é totalmente pobre nem totalmente rico. somente por meio de demônios tem relação conosco. desenvolve-se a arte de predizer o futuro. da sapiên cia. e também toda a arte dos sacerdotes em sacrifícios. Entre os amantes na dimensão do espírito en contram-se. nos caminhos e junto às portas. que trazem sementes que nascem e crescem na dimensão do espírito. Finalmente. O Amor tem muitos caminhos que conduzem a vários degraus de bem (toda forma de amor é sempre desejo de possuir o bem). a visão do que é absolutamente belo. Mas tudo o que consegue pouco a pouco sempre lhe foge das mãos. da parte do pai. que é desejo de possuir o corpo belo. os amantes da justiça e das leis. da imortalidade. o verdadeiro amante é o que sabe percorrê-los todos até alcançar a visão suprema.] não tem nunca uma relação direta com o gênero humano. unindo assim o Todo consigo mesmo. E sempre pobre. enchem o vazio que há entre eles. o Amor é filósofo no sentido mais significativo do termo. os amantes das artes. disse . do bem. no dia do nascimento de Afrodite.

Deves prestar agora.1. cujo objeto é essa Beleza da qual falaremos. ficará contente de amar essa alma e de gerar discursos parecidos com ela e procurar aqueles que tomarão melhores as almas jovens. mais do que em qualquer outro. que a esse homem. Ele contemplará subitamente um Belo maravilhoso na sua natureza. poderá dar à luz belos. Esforça-te por seguir-me na medida das tuas forças. Depois das ações será levado aos conhecimentos e à ciência para ver a beleza que há nelas. sem mistura. vendo como se deve ver o Belo. acabar naquele conhecimento do qual falei. a ti e a muitos outros. vale a pena viver para o homem: contemplar a Beleza em si mesma. essa Beleza é eterna. como num viven te na terra ou no céu ou em qualquer outro elemento. Não deve ser representada como dotada de face. Quem foi conduzido passo a passo a essas alturas da ciência do amor. o nascer e o morrer dos outros seres belos nada produz nela. e compreendendo retamente o que seja o amor dos jovens. de tal sorte que. nem será. como um escravo. das belas ocupações para os belos conhecimentos. em lugar do belo revestido de carnes humanas. ao termo de tudo. sem comer nem beber. Como 7. de cores. mas somente contemplá-la e fazer-lhe companhia. Daqui estenderá sua vista sobre todo o vasto domínio da beleza e deixará de servir. será dado produzir não fantasmas de virtude. Que devemos pensar então se fosse dado a alguém intuir o próprio Belo. refletindo. mas virtude verdadeira. continuou ela. Desde quando a possas ver. se é bem conduzido. Assim será forçado a contemplar a beleza que está nos costumes e nas ações. Banquete. de sorte a querer sempre vê-la e estar junto dela. nem é bela sob um aspecto e feia sob outro. julgando ser ele de pouca valia. chega finalmente à meta da ciência do amor. Primeiramente. nem acrescenta algo nem diminui nem a faz padecer qual quer efeito. quando ainda é jovenzinho. não a julgarás segundo a medida de objetos preciosos. de mãos. feia aos olhos de outros. pensar que a beleza que está em tal corpo é irmã da que está em qualquer outro corpo. o Belo que existe em si. Portanto. uma ciência que não tem outro objeto senão a Beleza em si mesma. de modo a considerar bem pequena a beleza que está nos corpos. de mil outras vaidades mortais. unindo-a com a doutrina da reminiscência. bem como pensamentos nascidos de uma incansável aspiração ao saber até que. nem crescimento nem diminuição. em razão do qual foram empreendidos todos os trabalhos anteriores. Pensando nisto. quem quer seguir nessa tarefa pelo reto caminho deve. 210 a-212 a. pois ele não está em contato com um fantasma. o máximo de atenção ao que vou dizerte. contemplar a beleza divina na unici dade da sua forma? Pensas que deve ser uma vida miserável a de quem dirige seu olhar lá para o alto. Depois disso considerará mais preciosa a beleza das almas do que aque la que transparece nos corpos. disse Diotima. deve dirigir seu amor a um só corpo belo e a partir daí gerar belos discursos. Voltado agora para o vasto oceano da beleza e contemplando-o.. partindo das coisas desse mundo. com o órgão próprio. e verá o parentesco que une todas essas coisas. usando como que degraus. o ponto da vida no qual. se for bela e gentil uma alma em um corpo cuja beleza corporal quase não floresceu.ela [ falarei e tudo tentarei. começar por andar atrás da beleza nos corpos belos. de um homem ou de uma só ocupação. ficará enamorado da beleza em todos os corpos e dei xará arrefecer o amor por um só. de sorte a se conhecer. pois está em contato com o Verdadeiro? E a esse homem que produz a virtude real e a alimenta não acontece tomar-se amigo de Deus? A ele. Em seguida. Platão aprofunda mais ainda a natureza sintética e mediadora do amor. ou caminhando por si mesmo ou sendo conduzido por outro: partir das belezas deste mundo sempre tendo em vista a Beleza e elevar-se continuamente. pensar que. da beleza de adolescentes e de jovens ou segundo a beleza que ora te deixa abalado. de um para dois e de dois para todos os corpos belos e dos corpos belos às belas ocupações. de nada que pertence ao corpo. pode-se dizer que esse quase já chegou à meta. Quando. contemplando as coisas belas pela sua ordem e seguindo o caminho reto. bela aos olhos de alguns. continuou ela. assim fortalecido e crescido. Sócrates. de belas vestes. aquele mesmo. como um vil escravo. alguém se eleva a tal Beleza e começa a contemplála. seria rematada insensatez não considerar uma e a mesma a beleza em todos os corpos E. mais do que a qualquer outro é dado tornar-se imortal No Fedro. numerosos e magníficos discursos. poderá vislumbrar uma ciência única. sempre ela mesma na sua forma e todas as outras coisas belas são belas enquanto dela participam.. nem ainda como uni discurso ou como um conhecimento ou como existindo num sujeito dela distinto. enquanto tem o olhar voltado para o alto. puro. de um jovenzinho. do homem que. inteli gível. finalmente. à beleza de um só. Eis aqui. Tal é o caminho direito na ciência do amor. dos belos conhe cimentos. se a meta a alcançar é a beleza na sua forma. caro Sócrates. Essa Beleza é em si e por si. recitador de pobres discursos. não conhece geração nem corrupção. 222 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL . contempla essa Beleza e junto dela faz sua morada? Não percebes. disse a Estrangeira de Mantinéia.

mantinha sempre uma vela acesa. torturado. 527 b-d. Fedro. será crucifi cado [ Se. talvez lhe venha até um movimento de irritação (para deixar numerosos exemplos que se poderiam aduzir e limitar-nos a um dos mais eloqüentes) diante de uma dedicatória como essa feita por F. somente a Beleza teve a sorte de ser “extraordinariamente brilhante e extraordinaria mente amável” Esse transiuzir da Beleza ideal no belo sensível in flama a alma. Acri (um dos mais insignes tradutores de Pl nos tempos modernos): “Estes livros [ saber. Górgias. Eros que. por parte dos Entre tantos raciocínios que se fizeram [ somente este permanece firme: é preciso evitar cometer a injustiça mais do que sofrê-la. embebido de incredulidade tendente ao ateísmo. os diálogos platônicos traduzidos por ele]. E todo tipo de lisonja. dirigida a si mesmo ou aos outros. os gregos não conheciam propriamente a “crucifixão”. Mas. p.. essa recordação acontece de um modo todo particular porque. 5. Se alguém comete uma injustiça. 224 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL Assim sendo. por Zeus. PLATÃO PROFETA? Algumas exaltações de Platão. entre todas as outras Idéias. na época de Platão. como puro cientista. é plausível. 1 93ss. mas o suplício de “atar ao tronco”. passagens e afirma ções que podem ser entendidas como prefiguração do cristianismo. que durante um tempo muito contemplou. Cf. V. contemplou o Hiperurânio e as Idéias. Acri escreve: “Aqui. a poucos ou a muitos. são inegáveis. Esse desejo é. O Lexicon Platonicum de F. deve ser afastado para bem longe [ Ouveme. uma tensão transcendente para o metaempírico. filosofando. 9. Deixa mesmo. a tradução de Acri (e de outros estudiosos). primeiramente tem um es tremecimento e alguma coisa o penetra dos seus temores de outrora. O texto grego. se fores verdadeiramente honesto e justo e exercitares a virtude. 11. continua inflamado. o justo será flagelado. Quanto ao que acaba de ser iniciado. depois de sofrer todos os males. mas em sê-lo verdadeiramente pri vada e publicamente. conti nuando a olhar. no platonismo. que é precisamente aquele tipo de pena da qual derivou a “cruc E. justamente. permanecendo impávido. sente veneração como a um deus [ Depois que viu. cf. Com efeito. Todavia. De fato. que é tomada pelo desejo de levantar vôo para voltar para o lugar de onde desceu. 361 e-362 a. o calor derrete a crosta dura que impedia as asas de crescer. Ao homem con temporâneo. 250 d-e. Ast (vol. Milão. serás feliz enquanto vives e depois de morto. os deposito aos pés do vigário de Cristo em espírito de humildade”. recebendo através dos olhos o eflúvio do belo. por exemplo. do profeta pagão de Cristo. 1. destituídas de crítica. se chegares lá. com o anélito transcendente do suprasensível. de modo obscuro. na sua vida originária no séquito dos Deuses. antes. “será crucificado”. grego e pagão? 3. por outro lado. Dialoghj. nada de mal poderás sofrer Mas — para deixar outros exemplos menos eloqüentes — que remos citar apenas uma passagem da República absolutamente desconcertante: 1. 2. e segue-me até onde. amarrado. pois. com o estremecimento o invadem um suor e ardor desacostumados. traz o termo àvaoXIu8uÀEua que significa “será atado ao tronco”. e uma força que nos impele a retornar ao nosso originário serjunto-dos-Deuses. que te atinjam com aquela bofetada ignominiosa porque. uma passagem que revoluciona o sentir moral dos gregos e quase antecipa o dito evangélico: se te ferem com uma bofetada oferece a outra face: . também o que observamos acima. esqueceu tudo. é vaticinado o Homem-Deus” qualquer um pode julgar que tal afir mação não é feita sem um fundamento de verossimilhança. depois. seus olhos serão queimados e por fim. os tem para pronunciar-se contra. 251 a-b. perdendo as asas e precipitando-se cá para baixo. não possui certamente instrumentos para pronunciar-se a favor ou. Deixa que os outros te desprezem considerando-te um maluco e que te ofendam se assim o quiserem. como mostra o raciocínio. embora trabalho samente. República. Fedro. ou uma imagem ideal do corpo. O fluxo de alimento produz uma dilatação e um ímpeto desde as raízes das asas em toda a forma da alma: pois antes a alma era totalmente alada O amor é nostalgia do Absoluto. a alma “se recorda” das coisas que viu outrora. se vê uma face de feições divinas que seja perfeita imitação do bem e do belo. na Academia florentina.já sabemos. em face de tal texto. 159) indica: àvaov palo vel cruci affigo. Eis. 8. Com efeito. deve ser punido e esse. No caso específico da Beleza. pp. para ser exato. vulgarizado por F. Mas. Também faz sorrir o fato que se conta a respeito de Ficino que. a alma. 3 ed. neoplatônicos fazem sorrir o leitor moderno. O cien tista. o que dá nova vida à natureza das asas. Platone. os próprios hebreus introduziram a “crucifixão” em lugar do suplício do tronco através dos romanos. p. quem crê sabe que o Espírito sopra onde quer. e o homem deve preocupar-se não em parecer bom. E por que não poderia ter soprado sobre Platão. Acri. diante do busto de Platão. depois do ser justo. faz renascer na alma suas antigas asas. é o bem que vem em segundo lugar: tomar-se justo cumprindo a pena e sofrendo o castigo.

246 a-b. na República já se mostra claramente que Platão concebia a alma. a função de vértice da protologia e.4. vem a ser. justamente se considerarmos conjun tamente na ótica protológica as mesmas temáticas que Platão larga mente desenvolveu nos seus escritos. 246 a ss. p. Platone. como um “misto”. 589 c-d. efeito da Necessidade (entendida no sentido de Princípio diádico). justamente da sua parte racional. 611 b-c (cf. a estrutura bipolar de toda a realidade faz-nos entender como não seja possível restringir e limitar à época do Timeu a composição e estrutura sintética bipolar da alma e. 590 c-d). indicando nos dois cavalos que tendem para direções opostas uma imagem significativa “de uma díade do grande e do pequeno”. 9. Gf. Assim. também IX. a saber. a dupla de cavalos.. mas é bastante evidente que as almas do Deuses não têm nenhuma necessidade das componentes irascível e concupiscível que caracterizam a alma humana Além disso. tendendo potencialmente para duas direções opostas e que somente o auriga pode dominar e inclinar de maneira ordenada. na sua dimen são racional. em termos míticos. seja na sua constituição seja na sua estrutura 3) Mas também o conceito de virtude ( torna-se bastante claro na Ótica protológica. . assim parece à primeira vista. 135 (trad. 184). Eis alguns pontos essenciais que merecem ser considerados particular. Platão concebe também como “parelha ala da” as almas dos Deuses. Robin. no âmbito do mundo inteligível. Fedro. Nos tempos modernos. Platão admitia como imor tal somente essa dimensão racional da alma. Mas isto não explica alguns elementos importantes que constituem anomalias. Fedro. 5. um mais ou menos” Além disso. como um composto em função de uma síntese belíssima (xaÀÀícrn Ouv1 Evidentemente. já Robin chamara a atenção para esses pontos. A COMPONENTE ÉTICO-RELIGIOSA DO PENSAMENTO PLATÔNICO E SUAS RElAÇÕES COM A PROTOLOGIA DAS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” Nossa exposição das temáticas e das doutrinas essenciais da componente ético-religiosa do pensamento de Platão funda-se inteira mente nos escritos. VI. 2) Além disso.. Acri. justamente na sua natureza verdadeira (i. em particular. pois que a Necessidade é um princípio de desordem. exprimindo de maneira surpreendente e 1) Primeiramente. Robin explicava o seguinte: “ essa dualidade em si mesma não é um perigo. 1 34s. a presença e a função da Díade na dimensão da alma. Gavazzi Porta. de fato. Com efeito. ora rebelde a ela” Entendida nesse sentido. 185). ou seja. Quisemos manter esse tipo de exposição para depois indicar suas conexões com a protologia. novamente se impõe uma interpretação em sen tido protológico do grande mito da “parelha alada”. 4. já no tempo da República. La théorie. a partir do momento em que o auriga não é mais dono dos seus cavalos. como um composto de muitos elementos (oúvõ€Tóv TE X ‘rroXXc e. pois. La théorie platonicienne de I’amour. a queda da alma é. X.o’rán] púaEI). ou seja. se o auriga da “parelha alada” representa a raciona lidade da alma no seu fundamento. p. de fato. ital. Ver República. é essa. os dois cavalos do Fedro pare cem representar exatamente a essência do Diverso e a causa necessá ria. que só podem ser resolvidas na ótica protológica. de “uma desigualdade e de uma dessemelhança. Paris 1 968 pp. se o concupiscível e o irascível constituem a parte mortal da alma. 2. 226 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL MORAL ASCÉTICA E PROTOLOGIA 227 verdadeiramente eficaz. dificilmente pode re presentar a alma concupiscível e a alma irascivel. isto é. que ele qualifica como sendo de “natureza divina”. damentos metafísicos gerais. p. justamente com o objetivo de evidenciar quanto dizíamos. Robin. Milão I973. conseqüentemente. enquan to a desigualdade está submetida à ordem: ela não se torna um perigo a não ser nas almas nas quais essa subordinação é destruída ou seja. de maneira Com efeito. Na realidade. apresentado por Platão como imagem metafísica emblemática da alma 1. p. (trad. L. de D. verdadeiras Em primeiro lugar. a componente a-lógica representada pela dualidade dos cavalos torna-se perfeitamente coerente com os fun 3. em particular. Dialoghi. o delinear-se de maneira sempre mais nítida da compacta unidade teorética do pensamento de Platão e da solidez dos eixos de sustentação que unificam as várias compo nentes nas quais ele se articula (e que fazem dele um “sistema” no sentido que acima explicamos). não podem permanecer estruturalmente unidos à alma racional no Hiperurânio. ora dominada pela razão.. ital. a dupla de cavalos da “parelha alada” é assim comumente interpretada e. uma multiplicidade.

os professores de ginástica e os médicos. pois. exigiria um amplo desenvolvimento. os quais fazem de tal maneira que os elementos sobre os quais trabalham adquiram uma forma determinada. Sócrates O mesmo podemos afirmar dos nossos corpos? Cálicles — Certamente. os quais derivam exatamente da Identidade indivisível e da Identidade divi sível. bem conhecidos nossos. adaptando-se um ao outro na maneira mais conveniente. mas nesta sede con sideramos oportuno limitar-nos às linhas de fundo da questão. e comoessa igualdade é a lei cósmica em geral. do desregramento e do excesso. os pintores. os arquitetos. Parece-me. urna boa casa será a que tem ordem e proporção. refuta-me sem complacência. explica Platão. se assim te é mais agradável. Sócrates — Para a ordem e harmonia da alma a palavra correta é disciplina e lei: daqui provêm os homens observantes da lei e de costumes ordenados. se algum desses foi tal como eu digo. porém. que para a ordem do corpo o nome seja saudável. Observa. E o que na alma nasce da ordem e da harmo nia? Esforça-te por encontrar e dizer esse nome como fizeste para o corpo. Se são verdadeiras. a especificação platônica sobre a parelha de cavalos da alma humana. Cálicles — Sim. se relacionada com o que Platão diz no Timeu. a questão deveria ser aprofundada. onde fala da Identidade e da Diferença como dois dos três elementos componentes da alma racional. Estamos de acordo sobre este ponto? Cálicles — Sim. Cálicles — E por que tu mesmo não o dizes. assim como os pais dos quais descende. Estás ou não de acordo? Cálicles — Sim Pouco adiante. sofrer a pena e o castigo é a única maneira de ser feliz. que produz no corpo a saúde e todas as outras virtudes do corpo. por exemplo. 6. e se isso for necessário a nós ou a qualquer dos nossos famili ares. da tua parte dirás se aprovas o que vou dizer. assim em particular.Já a partir do Górgias. até se obter um todo ordenado e perfeito. mas de tal sorte que a obra produzida adquira determinada forma. toma-se muito clara. deverá cuidar para que não tenha necessidade de ser castigado. Platão evidencia a estrutura ontológico -axiológica da justiça e da virtude em geral como ordem e como harmonia ( Tá da alma e como superação da des-ordem. a que é desordenada nada vale. com claras alusões aos nexos protológicos. o nosso filósofo avança para uma evocação plena de alusões à “igualdade geométrica”. mas sempre tendo em mira alguma coisa! E assim também todos os outros artesãos se entregam cada um à sua própria obra não escolhendo ao acaso os materiais. ou a um cidadão particular ou a uma cidade. seja assim. aquele que quiser ser feliz — como é evidente — deverá buscar e exercitar a temperança e deverá fugir o mais depressa que puder da intemperança e. observando que um é belo e bom como os pais dos quais descende. E ou não é assim? Cálicles — Assim é. isto é. e é nisso que residem a justiça e a sabedoria. Essa me parece ser a meta que . com a protologia. os que se dedicam aos cuidados do corpo. Esta questão. 228 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL MORAL ASCÉTICA E PROTOLOGIA 229 Sócrates — Portanto. Sócrates? Sócrates Direi. e o outro o oposto. regulam e tornam harmô nico o corpo. Eis o texto. o que soa de maneira verdadei ramente emblemática por causa dos seus nexos. Ao nosso ver. os engenheiros navais e todos os outros artesãos ou quem quer que desejes entre eles: notarás que cada um deles põe cada coisa numa certa ordem e obriga a que uma coisa convenha à outra e a ela se adapte. E como os artesãos. ela é tam bém fundamento da virtude humana. verdadeiramente importante: Portanto. Sócrates — E quanto à alma? Será boa quando tem em si a desordem ou quando tem uma certa ordem e harmonia? Cálicles — A partir do que antes se admitiu é preciso concordar tam bém com isso. assim aqueles dos quais há pouco falávamos. Justamente essa igualdade é o fundamento do “liame” e da “comunhão” ou da “amizade” universal. Vejamos: o homem bom que diz tudo o que diz tendo em vista o que é melhor não falará ao acaso. sobretudo. De fato. A virtude. é uma ordem introduzida na alma análoga à que os artesãos (os “demiurgos”) produzem. Leiamos o texto mais significativo: Sócrates — Examinemos agora calmamente. se não. até que o todo resulte perfeitamente ordenado e ornado. Sócrates — E como se chama o efeito que resulta da ordem e da har monia no corpo? Cálicles — Sem dúvida falas da saúde e da força? Sócrates — Exatamente. são essas as coisas que afirmo e digo que são verdadeiras.

a determinação conceitual mais pertinen te. a temperança e a justiça e por isso. companheiro. pp. 503 d-504 d. para depois buscar satisfazê-los. e 173. que o céu e a terra. é deficiente e aspira a uma posse (e portanto . LIss. Em primeiro lugar (para limitar-nos somente a alguns nexos es senciais). o Demiurgo. proporcional) será explicitada com expressões verda deiramente inequívocas. e este é o Divino no sentido impessoal. à unidade-na-multiplicidade”.. os Deuses e os homens conservam a comunhão. que deve ser integrado com o que aqui dizemos e. levando uma vida de ladrão. ao contrário. a um tempo. a Medida suprema de todas as coisas é o Bem como Uno. Sobre este ponto é fundamental o exame feito por Kilirner in Arele. 10. na passagem indicada na nota seguinte..s a geometria Na República. Brescia 1985v. 507 c-508 a. portanto. Ora. Cálicles. também no nível ético) levar a unidade na multiplicidade. tanto na sua vida particular como na sua vida pública e. que é Penia. a boa ordem. Pensas. ou seja. 203ss. 9. a estrutura da vida é o correspondente exato. simboliza a Díade (uma das suas explicações). chamam a esse universo de cosmo e não de desordem e desregramento. com as importantes análises de Kra. a Deusa da Pobreza.. E. Introduzir a ordem na desordem significa. 230 PLATÁO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL conexões com a protologia. como veremos. Cf. salientaremos como os pais dos quais nasceu Eros e a natureza sintética e mediadora do próprio Eros se mostram propriamen te emblemáticos A mãe de Eros. adquirindo virtude (justiça. Ora. ou seja. 5) Outrossim a célebre doutrina da “assimilação a Deus” assume. a respeito disso. efetivamente. fugir do mundo e do mal. Górgias. como acima explicamos. La Scuola. O homem deve imitá-lo o mais possível buscando realizar como Ele. Platão articula o mal justamente com a Díade. é Medida em sentido pessoal. na nossa Introdu ção e comentário ao Górgias. da estrutura metafisica de toda a realidade. esse homem não poderá ser amigo nem de outro homem nem de Deus. sendo embora sábio. ou seja.mer. a ordem das realidades que são sempre da mesma maneira e que são estruturadas segundo uma relação numérica em sentido helênico (xaTà Àóyov). porque não tem nada de comum com eles: e onde não há comunhão não pode haver amizade. pp. é que transcura. Ver o que dissemos. 7. Justamente enquanto tal implica o supremo conhecimento do Bem (ou seja. em todos os níveis (e. em todas as formas do seu agir. nesse sentido. santidade. pareces não aplicar a tua mente a essas coisas e te esqueces que a igualdade geométrica (I ioóTflç 1 yE pode muito entre os deuses e entre os homens. com efeito. que somente em sentido protológico e henológico são perfeitamente interpretáveis e compreensíveis. na maneira que acima já explicamos. Portanto. na perspectiva protológica. no plano ético. Com efeito. exatamente a unidade-na-multiplicidade’ 6) Também a doutrina do Eros revela. do Uno) em todos os sentidos. como Platão explica na República. à medida na desmesura. a desordem) e optar em favor do Princípio do Bem (ou seja. Significa. do Uno-nos-muitos. o Deus-pessoa). vale dizer. Mas o Deus-pessoa é Aquele que realiza a Medida e o Uno de maneira perfeita e. Para essa meta devem tender todos os esforços de cada um e da cidade: que a justiça e a temperança estejam sempre diante de quem quer ser feliz. Ed. em outros termos. Mas tu. a estrutura do logosarithmós que pode levar a or dem à desordem. a regra suprema à qual se atém o próprio Deus (o Demiurgo. Assim ele deve proceder e não deixar que seus apetites corram sem freio e insaciáveis. sa piência) significa subtrair-se à primazia do Princípio antitético (a multiplicidade. que é preciso esforçar-se para poder sempre mais.. portanto. supra. essa ordem (essa igualdade geomé trica e. do Uno) e é exatamente essa a “fonna” da qual fala o Górgias que deve ser introduzida na realidade moral para produzir uma ordem adequada 4) Também a grande metáfora ética da “fuga do mundo” recebe significação teórica muito mais nítida na perspectiva protológica’°. uma MORAL ASCÉTICA E PROTOLOGIA 231 A “fuga do mundo” é a fuga do mal. pp. orientar toda a vida sobre o fundamento desse nexo bipolar tendo como centro a preeminência do Bem-Uno. sob diferentes aspectos. o Deus supremo é Aquele que leva a ordem na desordem justamente com articular o Uno e os Muitos da melhor maneira. em particular. E dizem os sábios. Portanto. e desenvolver todas as atividades humanas como uma conseqüência disso. Assim. como um realizar-se da unidade-na -multiplici dade. assimilar-se a Deus significa ordenar a vida introdu zindo na realidade. fortes 8. Com efeito. Górgias. em geral. é aquela força que. 57-83. a amizade.devemos ter diante dos olhos para poder viver.

Lembramos — ao menos de passagem — que Platão. Cf. corres ponde ao Princípio determinante. com a sua extraordinária habilidade de nunca dizer de modo explícito as verda des últimas. ‘íva Ehrw i. um”.— podemos dizer — a ser de-limitada e de-terminada e. Reale. 521 d 1. em toda a sua rele vância e em todo o seu alcance. e isso não somente no piano inteligível. que a exercita”. foi “inteireza” original. em forma de duplas conjugadas em uma unidade como um inteiro e. para lá de onde desceu’ 232 14.ia I. TTIXEIPETV Ti cbç zÀiiÚc It0XITI4 TdXVJ xa\ 1T T 7rOÀ 1ÓVOÇ TC)V vCrv. pintadas de maneira soberba.u5voç. exprime a relação bipolar e dinâmica que caracteriza toda a realidade (e assim.. eleva da harmonia sensível à inteligível. Em outra sede ataremos analiticamente essa problemática. específica e particularmente. 620ss. Assim. ao contrário. infra. 12. Com efeito.. ordem e harmonia.. 250 e ss. por meio da Beleza. Platone. ou seja. magnífica. segue-se que o Belo nos faz ver o Uno nas suas relações proporcionais e numéricas nas quais se desdobra. mas tam bém na dimensão sensível do “visível” Justamente enquanto é tal o Belo atrai e. cortadas em dois pelos Deuses para limitar o seu excessivo e perigoso vigor e poder. para a Uni dade) que se realiza em tal ou qual nível no seu perene reproduzir. é o próprio Uno que atrai fazendo-se “ver” nas relações de proporção. do mesmo modo que o Bem. tornem-se uno. Eis aí uma expressão verdadeiramente soberba. ou seja.IET’ 6Xiyc. justamente por isso. da Multiplicidade fecundada para o Princípio do Bem (e. é um modo de desdobrar-se do Uno exatamente através da ordem e da medida. 189 e. Pedro. para não dizer-me o único. E justamente em conseqüência desse fato que cada “metade” derivada do corte do inteiro procura 11. em todos os níveis. 261.v ‘AÚr)vaíwv. o amor é anelo de buscar o Uno em todos os níveis. em todos os níveis. até o supremo e mais elevado . “Eu creio estar entre os poucos atenienses. atuando a estabilidade permanente do ser. 15. VI. exprime a tendência crescente. Cf. República. o homem). por conseguinte. 13. no dia em que se festejava o nascimento de Afrodite. Por conseguinte. IMPORTÂNCIA E SIGNIFICAÇÃO DA COMPONENTE POL DO PLATONISMO 1. o que no amor dos homens se manifesta de várias maneiras é o anelo da Dualidade (da Díade) à inteireza (ou seja. Justamente com cores aristofanescas. levada a cabo com o jogo da comédia e posta nos lábios do maior comediógrafo da Grécia. do ponto de vista artístico. de-limitante e uni-ficante (exata mente uma das suas explicações). Cf.se e. Platão. Banquete. da conjunção emblemática da Díade e do Uno. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL encontrar a outra “metade” e unir-se com ela para poder retornar à 7) Finalmente. dessa maneira. com o fim de sanar desse modo a natureza humana nas suas carências e “consolidar numa unidade” os homens. Cf. que tentam a verdadeira arte polí tica e sou o único. que tende eternamente a ulteriores e mais altas aquisições. QUARTA SEÇÃO A COMPONENTE POLÍTICA DO PLATONISMO E SEUS NEXOS COM A PROTOLOGIA DAS “DOUflUNAS NÃO-ESCRITAS” oT$. A natureza sintético-dinâmica e mediadora de Eros. Em primeiro lugar.193 d. de modo que de “dois” (que de várias maneiras são). Górgias. já que o Belo. Plat apresenta miticamente o modo originário de ser dos homens em forma de es fera. por conse guinte. 203 b ss. entre os que agora vivem. uni-ficada). Cf. no Ban quete põe nos lábios de Aristófanes (propondo assim habilmente por meio do jogo da comédia as verdades mais sérias) a afirmação de que a essência do amor está no fazer “de dois. a componente política do platonismo. a tese platônica de que o Belo é a única entre as Idéias que goza do privilégio de ser “visível” adquire em conexão com a protologia uma explicação adequada. Portanto. Penia conseguiu capturar Poros e unir-se com ele para ser por ele fecundada. 500 b ss. à Unidade). Desta manei ra faz renascer as asas na alma para reconduzi-la aos níveis mais altos. depois. reproduzimos a passagem. p. As afirmações da “Carta Vil” Somente no nosso século compreendeu-se. Banquete. comunicando-as por meio de reiteradas alusões. O pai Poros.. pp.

desde jovem. L. Levinson. Sobre as Cartas de Platão. sentiu-se. logo dedicar-me à vida política Mas logo o reteve na execução desse propósito a profunda cor rupção dos homens de governo. 129-647. B. alimentou essa paixão política. ou seja. em todo o arco da sua vida. que polemizam ferrenhamente com Platão. Nápoles 1970. Em todas as partes. pois a nossa cidade não era mais governada segundo os usos e costumes dos antepassados. poderosamente atraído para a vida polí— tica. Desta sorte. Eis então as suas conclusões: Observava esses fatos (referia-se a uma série de episódios de corrupção política que culminaram na condenação e morte de Sócrates). Crossman. senti uma espécie de vertigem. II. Em resumo. Pasquali. ora clássica. Paideia. de G. como os de K. certamente as desgraças e desven turas do gênero humano não conhecerão fim a não ser no dia em que ver dadeiros e puros filósofos tenham acesso ao poder. Filosofia e politica neile leitere di Platone. Para uma análise pormenonzada da Carta VII. VOfi Wilamowitz-Moellendorff. Já Platão. cf. K. por abraçar num único olhar todas as cidades. mas a conside rava algo oposto à sua natureza. as legislãções apresentam condições que se podem chamar desesperadas. Wilamowitz-Moellendorff explorando o conteú do da Carta VII. embora incorrendo em excessos) que o problema político não só constitui o interesse central do homem Platão. 2. indicamos ao leitor dois volumes: um já clássico: G. Florença 1938 (19672) e um recente. Platon. Plaron. Eis as afirmações explícitas da Carta Vil: Desde jovem [ passei por uma experiência comum a muitos e me decidi firmemente a uma coisa: apenas em condição de dispor da minha vontade. afirmando que todas. mas também fora de Atenas. considerando tudo o que acontecia e vendo que tudo e em todas as partes e de todas as maneiras era arrastado num incontrolável processo de corrupção. No entanto. mas. com efeito. it. Nova lorque 1937 (contra essas teses cf. 236 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL IMPORTÂNCIA DA COMPONENTE POLÍTICA DO PLATONISMO 237 tual. que a política foi a paixão dominante da sua vida. S. Berlim 1933 (trad. as classes dirigentes nas várias cidades sejam inflamadas pelo verdadeiro amor da sapiência. como também as leis e os cos tumes. melhorasse o espírito das constitui ções). H. Edeistein. sem exceção. verificou que Platão. em tomo dos quarenta anos. seriam necessárias reformas excepcionais. Enquanto a velha política e o velho Estado tinham na “retórica” (no sentido . considerado um inimigo da democracia. mas não pensei em desviar meu olhar dos acontecimentos. por algum dom de Deus. Isnardi Parente. Plato Today. 4. pp. Esse diálogo é uma manifestação de misticismo e. em particular. na qual Platão diz expressamente. The Open Sociely and its Enemies. Turim 1947). que descobriu serem injustas não só em Atenas. Plato’s Seventh Letier. seja por nobreza de nas cimento. ao mesmo tempo. sobretudo. E quanto mais avançava nas minhas observações e quanto mais eu mesmo avançava em idade. e era dificil e até impossível conseguir novos colaboradores. Acabei. bibliografia no volume V). U. E não era coisa fácil en contrar esses amigos e colaboradores entre os que nos eram próximos. seja por vocação íntima e espiri 1. Hildebrandt. nos anos em que pela primeira vez veio à Itália. Jae de1 deci sivo: procurou demonstrar (e o conseguiu. dos seus costumes e das próprias leis. tanto se me tomava mais clara a imensa dificul dade para bem administrar a cidade. fui irresistivelmente levado a louvar a reta filosofia e a concluir que somente graças a ela é possível esperar ver um dia justa a política das cidades e justa a vida dos cidadãos. Jaeger. Cambridge [ 1953). não obstante meu primeiro impulso no sentido de participar da vida política. Não têm relação com esta corrente exegética os volumes pro cedentes da Inglaterra e dos Estados Unidos. Popper. no momento da composição do Górgias. Acrescente-se que legislações. Finalmente. Coili. Leiden 1966 (cf. costumes e tudo o mais se dissolvia com in crível rapidez e de modo espantoso. na es perança de que um dia seu curso se tornasse mais favorável (e não só cada um dos acontecimentos. 3. Le lettere di Platone. ajudadas pela boa fortuna. seja por tradição familiar. Na sua biografia de Platão. Londres 1945 (muitas vezes reeditado) e de A. observava tam bém os homens que agem na cena política. Berlim 1 959 (a primeira edição é de 1918). Sim. In Dejènse ofPlaro. esperava sempre a melhor ocasião para agir. R. R. manifestação de paixão política e a proclamação de uma nova con cepção da política A arte política e o conceito de Estado são redimensionados em função das instâncias do socratismo. mas ainda a substância da própria filosofia platô nica Outros estudiosos aderiram a essa tese Sócrates nunca participara ativamente da vida política: não so mente não sentia necessidade de ocupar-se com ela. no dia em que. como ele mesmo diz logo a seguir. M. Recordemos. sofrem em razão d maus governos.reivindicada a autenticidade da Carta VIP. e sejam formadas por filósofos Tal convicção amadureceu em Platão. as sim. traçando a própria autobiografia. Era impossível a ação política sem a ajuda de pessoas amigas e de fiéis colaboradores.

enquanto o corpo não é senão seu casulo passageiro e fenomênico.clás sico que já conhecemos) o seu instrumento mais poderoso. portanto.. a nova e verdadeira política e o novo Estado deverão ter. de há muito. estava profundamente convencido de que o Verdadeiro e o Bem contemplados devessem descer à realidade com o fim de torná-la melhor. pp. antes de examinar qual seja a reconstrução da tornar-se momento em que o homem é concebido como sendo a sua alma. o indivíduo era. De outra parte. Carta VI!. se aos elemen tos acima examinados se acrescenta também esse dado. não eram somente os pressupostos do sistema platônico que levavam a essas conclusões: o homem grego esteve sempre convencido (ao menos até ao tempo de Platão e Aristóteles) de que o Estado e a lei do Estado constituíssem o paradigma de toda forma de vida. Ao invés. devessem politicamente efetivos (mas sobre isso falaremos mais adiante). simplesmente óbvia). Por essa razão. mas sim o horizonte absoluto da vida do homem. à Introdução. muito o Estado renunciou a ser fonte de todas as normas que regulam a vida do indivíduo porque. justamente na Carta VII. com o fim de prevenir toda uma série de equívocos. fica claro que toda a obra do Platão “filósofo” pretende ser. de resto. Assim sendo. do verdadeiro Es tado. passim. seu instrumento na filosofia. a partir do . Platão não hesita em pôr nos lábios de Sócrates (com quem doravante se identifica) esse desafio: Eu creio estar entre os poucos atenienses. 325 c-326 b. 8. é claro que o verdadeiro bem do homem é o seu bem espiritual’ Está assim assinalada a linha de demarcação que divide a política verdadeira da falsa: a verdadeira política deve ter em vista o “cuidado da alma” (o cuidado do verdadeiro homem). em particular. o prazer do corpo e tudo o que é relativo à dimensão inautêntica do homem. o cidadão. Platão está profundamente convencido de que toda forma de política que pretenda ser autêntica deve ter em vista o bem do homem. Além dis so. 521 d. Carta VII. Xl-LVIH. lO. e o valor e a virtude do homem eram o valor e a virtude do cidadão: a polis não era o horizonte relativo. E já que não existe outro meio para “curar a alma” senão a filosofia.é fácil com preender como as conclusões platônicas fossem absolutamente inevi táveis. Górgias. estamos mais avançados do que Maquiavel. e o único entre os que agora vivem. com exatidão. justamente como uma ampliação da alma. bem como a identificação (considerada paradoxal. é necessário antepor um esclarecimento sobre a diferença radical entre a concepção platônica da política e a concepção moderna da mesma. enquanto a política falsa tem em vista o corpo. que a exercita 2. que são o fundamento verdadeiro de toda política autêntica e. remetemos à nossa edição. ria República. pp. o Estado renunciou há muito à apropriação das esferas da vida interior dos cidadãos que interessavam a Platão acima de tudo. De há. nossa concepção da política situa-se nos antípodas da política platônica. Górgias. professamos um realismo político Cida de. Diferença entre a concepção platônica e a concepção moderna da política De tudo o que ressaltamos. juntamente. dei xando à consciência dos indivíduos a livre decisão nesses assuntos. Platão narra-nos. para não dizer-me o único. “indivíduo” e “cidadão” deixaram de identificar-se. Para um aprofundamento dessa interpretação do Górgias. segue-se daqui a identificação de política e filosofia. ao contrário. sob certos aspectos. 5. No entanto. 324 b-c. Veremos que Platão desenha o seu Estado ideal. mas. porque ela representa o único caminho se guro de acesso aos valores de justiça e de bem. obra de “político” no sentido explicado. como bem o sabemos. somos filhos de Maquiavel e. a última vasta obra na qual trabalhou nos anos da velhice são as Leis. supra a nota biográfica. 7ss. hoje a economia e a aspiração comum pelo bemestar condicionam de tal modo radicalmente a práxis e a teoria políticas que elas se limitam freqüentemente a pretender ser justamente aquele sistema de desenvolvimento dos bens e do bem-estar material no qual Platão via a fonte de todo mal Em suma. de político e filó sofo no contexto platônico. 11. 7. idealizada por Platão. Conhecidas são. os próprios títulos das obras que vêm depois do Górgias o confirmam: a obra-prima central do pensamento platônico é a República. cf. que tentam a verdadeira arte política. Cf. Mais ainda. substancial9. Por outra parte. 238 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL IMPORTÂNCIA DA COMPONENTE POLÍTICA DO PLATONISMO 239 Platão fez junto aos tiranos de Siracusa Dionísio 1 e Dionísio II para realizar os ideais políticos que nele vinham amadurecendo Contem plar o Verdadeiro e dirigir a Academia não era o bastante para ele. as repetidas tentativas que 6. no meio dos diálogos dialéticos tem lugar o Político. mente. mas.

justamente por ser obra ética deve ser obra política porque. mais do que nunca. e que o Estado platônico não é senão a imagem aumentada do homem: formar o verdadeiro Estado significa.que assinala a inversão mais radi cal daquele idealismo político teorizado por Platão. acima des ses condicionamentos. Jaeger. expusemos genericamente. portanto. formar o verdadeiro homem Um segundo tipo de problemas mostra-se igualmente danoso ao propósito de se compreender a República e o espírito que a anima. Platone. 421 e-422 a. deve-se notar como juízos dessa natureza (que. demonstrou que a “política” platônica é justamente isso. Todavia. República. não pode obter a salvação sem levá-la à sua sociedade. sem. de um modo de entender política e ética próprio dos tempos modernos. tudo o mais é injusto. 413s. 3. que iluminam bastante bem os termos do problema que estamos debatendo: “Algumas vezes se per guntou se a República devia ser considerada como uma contribuição à ética ou à política. que propôs a releitura de todo Platão segundo o critério político. pelo menos. A REPÚBLICA OU A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 1. Fédon. 4. Perspectivas de leitura da República As explicações que acabamos de dar deveriam oferecer-nos o sentido da perspectiva correta de leitura da República. Taylor. 414. como já insinuamos. se impuseram como canônicos até a metade do nosso século) contradizem-se a si mesmos. o homem só pode explicar-se moralmente se se explica politicamente. passim. as cidades e para os indivíduos. abdique das dimensões do es pírito e estruture-se exclusivamente segundo as leis da dimensão ma terial do homem. o do mundo grego clássico. para Platão. nenhum homem vive em si e para si. cedo ou tarde tornam a impor-se inexoravel mente. leis de moral pessoal. no parágrafo pre cedente. e termina com o mito do juízo final. enunciar juízos de valor. Por isso o filósofo não pode ser justo para consigo sem ser um rei-filósofo. por muitos aspectos. Cf. não a ética sobre a política. (De resto. as exigências do espírito. se se trata de uma obra de política ou de ética. na medida em que pretendem contribuir para a compreensão histórica da concepção platônica. o seu problema é: como se torna o homem digno ou indigno da salvação eterna? Como quer que a consideremos. A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 241 II. Mas eis o que o mesmo estudioso é obrigado a afirmar: “Ao mesmo tempo. Perguntar-se. não há distinção. te. No início da passagem referida reconhece-se que. significa formular um pseudoproblema que nasce. é inevitavelmente animado pelo espírito missioná rio para com toda a comunidade. com pequenas variações. é estritamente ética”. negadas ou reprimidas.m como tema central um problema mais íntimo do que o da melhor forma de governo e do mais conveniente sistema de reprodução. não poderá subsistir. a política é fundada sobre a ética. Fizemos essas observações no nível da análise estrutural. do ponto de vista de Sócrates e de Platão. para admitir que a República é obra de política pelo menos tanto quanto o é de ética. “não há distinção” entre ética e política o que. Paideia. nem uma nem outra podem repetir-se historicamente. O homem tem uma alma que pode alcançar a bem aventurança eterna. do membro da sociedade política. As leis do direito são as mesmas para as classes. 11. As instituições sociais e a educação que o põem em condições de conquistá-la são instituições e educação justas. soa como uma advertência: uma política que. já bastaria para subverter as conclusões de Taylor ou. al mejam levantar também uma dúvida crítica. da obra-prima que constitui. 12. antes de tudo. para Platão. vem a ser. o próprio Jaeger. Foram justamente esses problemas mal formu lados que por longo tempo atrasaram a recuperação e a valorização da componente política do platonismo. A questão fundamental levantada pela República e respondida ao termo do diálogo. pp. Para exemplificar e tornar mais claro quanto. Platone. a suma do platonismo. para Sócrates e Platão. porém. mas que nem é o de Platão nem. pp. 66 c. ou seja. E certo que Platão estava condicionado em dois sentidos: pelos pressupostos do seu sistema e por determinada visão histórico-socialcultural do Estado. leiamos algumas afirmações de um dos maiores platonistas modernos. Taylor. a obra está intensamente voltada para o mundo ‘ultraterreno’. Seu objeto é a ‘justiça’ ou o ‘Estado ideal’? A resposta é que. em geral. ao regu lar a vida em sociedade dos homens. acima de tudo. como fizeram alguns. IV. . a não ser de simples conveniência. e o homem que progride pessoalmente tendo como alvo a bem-aventurança. E ainda: “A República que se abre com as observações de um ancião sobre a proximidade da morte e sobre o temor do que possa vir depois da morte. O ‘filósofo’ é o homem que encontrou o caminho para essa bem-aventurança” Ora. importa conquistar na vida. Mas deve-se acrescentar que essas leis são. por si. ele apontou para uma verdade que hoje. na medida em que o homem ainda não é concebido por ele (como já salientamos) como “indiví duo” distinto do “cidadão”. Esse é o modo segundo o qual a Repú blica concebe a relação entre a ética e a ciência do Estado” Isso significa que a República. entre moral e política. e é essa bem-aventurança que. Referimo-nos aos problemas levantados pelas interpretações que pode2.

Platão é apontado como o primeiro grande inimigo da sociedade aberta (a tríade popperiana dos inimigos da “sociedade aberta” é constituída. e os vários ensaios de diversos autores recolhidos e publicados por R. pode-se nela encontrar tudo e o contrário de tudo. sobretudo a propósito da necessidade de pôr em co mum todos os bens (incluindo a família e os filhos) proclamada por Platão para a classe destinada a ser guardiã do Estado. In Defénse ofPlato. em suma.1. sobretudo nos países anglo-saxônicos) na qual a concepção do Estado de Platão não somente é qualificada de conservadora e reacionária. Belo Horizonte-São Paulo. Platone. dissera Sócrates E Platão reforça essa afirmação não somente nos diálogos “místicos”. sob a luz da razão. além de Platão. Portanto. onde a leva às últimas conseqüências: o Estado. tenta tivas de encontrar na República traços característicos do nazismo. A. entendem erradamente de modo bem mais grave a natureza do discurso platônico. se atraiçoa o significado autêntico do discurso político de Platão. Cambridge-t lorque 1967. Dentro desse clima.. construir a própria segu rança e liberdade. e a verdadeira Cidade é a “cidade interior”. na medida em que admitem que “Estado” e “política” possam ter somente a acepção que hoje possuem e. (r 7. por exemplo. 244 PLATÀO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 245 . é certo que. permanece a que acima foi indicada: Platão quer conhecer e formar o Estado perfeito para conhecer e formar o homem perfeito. Bambrough. O Estado perfeito e o tipo de homem que a ele corresponde O problema do qual parte Platão para a construção do seu Estado ideal nasce da necessidade de responder de maneira definitiva às críticas dissolventes que a sofística (em particular na sua corrente 5. 2 ed. comparação crítica e juízo de valor Essas interpretações incidem no mesmo erro das acima mencionadas. pp. mais adiante. no volume 1. sobretudo na Alemanha. Platão seria o fautor de uma “socie dade fechada”. dessa maneira. 412s. e não poucos foram os estudiosos que. a saber. de caminhar no desco nhecido e no incerto e de. Taylor. 6. 243ss. filosofia. uma vez desimpedido o terreno dos equívocos que acabamos de enumerar. 9. em particular as obras de Popper e de Crossman citadas na nota 4 do capítuk precedente. 242 PLATÃO E A DESCOnERTA DO SUPRA-SENSlVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 243 mos chamar “politizantes” as quais. e veremos estabelecer-se entre a alma e o Estado essa correlação recíproca: se é verdade que o Estado é uma projeção ampliada da alma. tendo reconhecido a natureza política do discurso platônico. mais ainda. bem como fundamentos teóricos e motivações espirituais que nada têm a ver com o comunismo moderno. como veremos em seguida. teve origem a obra célebre de Karl Popper (que obteve ampla difusão. Cf. a negação da liberdade. reduzindo-o a uma dimensão ainda mais reduzida. da sociedade aberta ao futuro e capaz. Cf. Platão seria o inimigo da sociedade democrátíca e da democracia A partir da obra de Popper. surgiu toda uma literatura. finalmente. 270ss. Plato. toda a seção dedicada a Sócrates. ltatiaia-Edusp. mas também de acentuadamente totalitá ria. não menos verdade é que. A obra de Popper encontra-se também em língua portuguesa: A sociedade aberta e seus inimigos. a sede autêntica do verdadeiro Estado e da verdadeira política é justa mente a alma. chamaram a atenção para temas e sugestões de espírito democrático e liberal presentes e operantes nos escritos do nosso filósofo Como se vê. Cf.ics.. Ao contrário. 8. pouco a pouco. refutando a interpretação totalitária de Platão. que não é apenas ideologia mas. entenderam-nas servindo-se de catego rias da política moderna como de normas de exegese. que não está fora. E. pp. O Estado platônico seria. O homem é a sua alma. Falou-se. seja o totalitarismo (de direita e de esquerda) seja a sua negação: em todo caso. mas exatamente na República. 1977. Na vertente oposta não faltaram. ao passo que tais doutrinas platônicas não têm senão pontos acidentais em comum com o comunismo. Ed. pp. especialmente a obra de Levinson. metafí sica e até escatologia do Estado. ao se pretender ler a República em função das categorias próprias das ideologias políticas modernas.. por Hegel e Marx). Popper and Poli. é a alma ampliada. a perspectiva correta de leitura da República. rigidamente atada a estruturas imóveis e na qual as instituições (nelas inc]uídas as castas) são tabus sagrados. como veremos. Cf. de um “comunismo” e de um “socialis mo” platônicos. mas dentro do homem 2. sobretudo.

Ver o volume 1. respondi. República. I 375 a ss. disse ele. os guardiães do Estado. mas o que vês de semelhante. que tem em vista satisfazer às necessidades essenciais da vida. no formar-se do Estado não se pode esperar ver melhor o que procuramos? — Muito melhor. mas de muitos outros homens que atendam a essas necessidades. já que não somos capazes de tanto parece-me. 234ss. II. disse Adimanto. na investigação em tomo da justiça? Já vou dizer-te. então. em razão do mesmo princípio acima exposto. que a investigação pode ser feita da seguinte maneira: se alguém ordenasse aos que têm a vista curta ler de longe letras pequenas. uma visão penetrante. Com efeito. 14. cada homem não nasce em tudo semelhante aos outros. uma grande sorte para este poder ir primeiro ler as letras grandes e depois examinar as pequenas para ver se são as mesmas. porque nenhum atingia a questão no seu fundo. segundo acreditava. simplesmente. Nascem assim diferentes profissões que somente homens diversos podem exercer adequadamente. de uma índole apropriada: o guardião deve ser como um cão de boa raça. Cf. mas com dife renças naturais e apto a fazer trabalhos diferentes Mas o Estado. para a das I República. 246 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO 1D . por ra zões análogas. convencional. 369 e ss. resolver os problemas levantados em tomo à justiça] não era fácil mas exigia. se para a primeira classe de cidadãos não era necessária uma educação especial. — Já pensamos. República. dotado ao mesmo tempo de mansidão e de ousadia. Assim. Há uma justiça do indivíduo singular e há também a de todo o Estado? — Certamente. República. seria. é provável que haja uma justiça maior no que é maior e mais fácil de se apreender. figura de modo emblemático entre as personagens da República) levantava contra a justiça. veríamos com ele nascer a justiça e também a injustiça. pois as profissões usuais são fáceis de aprender. e um deles se lembrasse que as mesmas letras se encontram em outra parte em grandes caracteres e sobre uma extensão maior. Daqui a necessidade de formu lar a pergunta de modo radical e de dar-lhe uma resposta igualmente radical: que é a justiça (qual a sua essência ou natureza)? Que valor tem ela para o homem? A justiça possui uma validez interior ou. — Portanto. será oportuno examiná-la onde ela reside na sua forma ampliada para melhor compreendê-la também onde se encontra na sua forma mais reduzida. da mesma maneira. Ora. I 369 b. Com efeito. 368 c-369 b. acrescentei. — Parece-me. Eis a passagem na qual Platão exprime esse conceito e que constitui uma das principais chaves de leitura de toda a República: — Respondi. — Mas o Estado é maior do que o indivíduo singular? E maior. de modo que cada um de nós necessita não de um ou de poucos. 11. — Pois bem. Cf. Por que e como nasce o Estado? Porque cada um de nós não é “autárquico”. o Estado deve anexar outros territórios ou então. valente e amante do saber na alma’ Além disso. quisessem apoderar-se de territórios que lhe perten cem’ Ora. pp.degenerada de políticos sofistas cujo expoente. no primeiro em proporções pequenas. disse ele. E as nossas necessidades são múltiplas. 373 e ss. defender-se daqueles que. apenas uma utilidade meramente exterior. se considerássemos o Estado na sua gênese. — E provável. Sem dúvida. — Assim. procuraremos primeiro o que é a justiça nos Estados. Trasímaco. Cf. disse Adimanto. depois a observaremos.é. antes de tudo. penso. porque não basta a si mesmo’ O tufo donde nasce o Estado é a nossa necessidade. República. com o crescer das necessidades. devem ser dotados. 13. irascível. portanto. e das quais já falamos em seu devido lugar Nenhum dos argumentos tradicionais era capaz de responder a essas críticas. tem igualmente necessidade de uma classe de guardiães e guerreiros. disse ele. ou seja. nos indivíduos. 10. 15. deve ser forte e ágil no físico. buscando na natureza do menor a semelhança com o maior. legal? Já que a justiça tem a sua sede no indivíduo e exatamente por isso no Estado. que está muito bem dito. — Acreditais que convenha tentar levar a termo essa empresa? Penso que não seja coisa fácil. pois [ que a investigação para a qual nos dispúnhamos ti. Cf. faze o que acabas de propor”. reflete bem. caro Sócrates. respondi. além da classe que se aplica às profissões de paz. 12. no segundo em grandes proporções. II. se quiseres.

embora em medida assaz moderada. I 376 d ss. forma e robustece a parte irascível da alma. formada por camponeses. República. 111. 24. além disso. A cultura (poesia e música) e a ginástica serão os instrumentos mais idôneos para educar o corpo e a alma do guardião. 25. República. 18. tenham amado a Cidade e. República. nada têm a ver com as castas. que porém Platão reforma de maneira bem determi nada A poesia da qual se alimentará a alma dos jovens no Estado perfeito deverá ser purificada de tudo o que é moralmente indecente e indecoroso. sobretudo no que diz respeito às narrações em tomo aos Deuses Analogamente. 111. a educação física. 22. Cf. 21. Porém aos defensores do Estado não será concedida nenhuma posse de bens e riquezas. 403 d. artesãos e comerci antes é concedida a posse de bens e de riquezas (não muitas. III. Esses últimos serão os di rigentes do Estado e deverão ser. mas não vice-versa E o fim último da ginástica deverá ser não somente e não tanto a robustez do corpo quanto também a robustez do elemento da nossa alma do qual procede a coragem A educação musical. Cf. passim. tanto se . Trata-se da antiga paideia helênica. O Estado perfeito devérá necessariamente possuí -las. não é somente uma classe que deve ser particularmente feliz no Estado perfeito já que. e III. 20. já que a alma boa com a sua “virtude” pode tornar bom o corpo. 398 e ss. República. tanto da mais alta para a mais baixa quanto vice-versa À primeira classe. Com efeito. mais que todos. IV. 423 c-d. por meio do corpo. 403 e ss. serão eliminadas as harmonias langorosas que tomam a alma efeminada. 415 a-d. na medida em que não são 16. 19. para que a índole e a natureza dos indivíduos cor respondam às funções que exercem. República. República. e receberão víveres da parte dos outros cidadãos como compensação pela sua atividade. também para que o Estado não se torne demasiado grande nem de masiado pequeno. Cf. 111. e a temperança). 111. III. 17. nascer filhos de natureza e índole diferente e. aqueles que. Cf. tenham realizado com maior zelo o que para ela é útil e bom (esses. no que se refere à música. 423 e ss. para que se proceda à educação adequada dos melhores jovens. IV. pois. terão habitação e mesa comuns.247 se dos guardiães do Estado é necessária uma educação muito acurada. 419 a ss. A distinção das classes não está ainda completa. forma e robustece a parte racional da alma. e para que não se mude o onlenamento do Estado Agora que o Estado ideal foi delineado. República. uma e outra produzem no homem acordo e harmonia perfeita. eles passarão para a classe que tem índole correspondente à sua. de pais de deter minada índole podem. 410 b ss. tão célebres e sobre as quais discutiu. 248 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL Essas três classes sociais. 23. devem cuidar que no Estado assim construído não se introduzam mudanças que poderiam arruiná-lo. entre os guardiães será necessário distinguir aqueles que deverão obedecer e aqueles que deverão mandar. Cf. mas abertas. Cf. 412 b ss. Cf. cada classe deve participar da felicidade somente na medída em que a sua natureza o permite Os guardiães. que terceira classe) constituem a fechadas. exatamente. e serão conservadas somente aquelas capazes de infundir coragem na guerra e espontaneidade nas obras de paz. República. República. Cf. é possível ver qual seja a natureza e o valor da justiça. 11. além da justiça. Esta limitação torna-se necessária em razão do bem superior e da felicidade do Estado: com efeito. a fortaleza. assim se escolherão somente os ritmos apropriados e simples Também a ginástica deve ser apropriada e simples e não cair em nenhuma forma de excesso Ela andará junto com a educação da alma. 377 b 111. 398 a. em vista da equilibrada felicidade do Estado na sua inteireza. todas as quatro. ao longo da vida. IV. e de tudo o que é falso. não menos verdade é que. Deverão estar atentos para que na primeira classe não penetre dema siada riqueza (que produz ócio. são os filósofos verdadeiros. Cf. embora raramente. além do desejo de novidade). Cf. Repúb/ica. se é verdade que no fundamento da distinção de classes está uma diferente índole humana. como veremos. E para individuar exatamente a justiça é necessário determinar as quatro virtudes fundamentais (as conheci das virtudes cardeais. luxo e amor de novidades) como nem pobreza (que produz os vícios opostos. Com efei to. então. para que não se mudem as leis que regem a educação. mas também não muito escassas). isto é. a sapiência.

A fortaleza é virtude própria sobretudo dos guerreiros e o Estado é forte pela classe dos seus guerreiros A temperança (oc é uma espécie de ordem. na verdade. portanto. — E uma conclusão necessária. 250 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO [ 251 — Mas eis o de que não nos esquecemos de modo algum. tendo como objeto o modo correto de comportar-se do Estado com relação a si mesmo e com relação aos outros Estados. e é a razão. República. Por conseguinte. ou seja. de que a Cidade era justa porque sendo nela três as classes. assim são três as partes da alma: a racional (ÀoyioTxÓu). é chamado a fazer. República. de domínio ou disciplina ( dos prazeres e dos desejos.. as virtudes cardeais do homem: — Penso que diremos também.249 O Estado que descrevemos possui a sapiência (oop(a) porque tem bom conselho (e e o bom conselho é uma ciência ( distinta das ciências e técnicas particulares. c) desejamos os prazeres da geração e da nutrição. República. Ela é diferente da razão porque é passional. IV. aquela pela qual nos enchemos de ira e que não é nem razão nem desejo. É a capacidade de submeter a parte pior à parte melhor. Eis a página paradigmática na qual Platão fixa. que o tenhamos esquecido. Essa correspondência entre as classes do Estado e as faculdades da alma implica uma conseqüente correspondência entre as virtudes do Estado e as virtudes do cidadão. mesmo não sendo razão. verificamos que há em nós uma tendência que nos impele para eles. elas não apareceram no Estado provindas de outra origem Mas eis a prova sobre a qual Platão fundamenta a tríplice distin ção das faculdades da alma. pelos medos ou pelas paixões. Essa virtude se encontra par ticularmente na terceira classe dos cidadãos. 430 d ss. Cf. IV. . Verificamos em nós três diferentes ati vidades: a) pensamos. — Não creio.. b) nos inflamamos e nos enchemos de ira. IV. IV. pelos governantes. República. 29. ou seja. o Estado não é senão a ampliação do homem e da sua alma. fazendo com que as classes inferiores estejam em perfeita harmonia com as superiores. chegamos à justiça ( Ela coincide com o próprio princípio segundo o qual o Estado ideal é construído. então a vida do Estado se desenrola de maneira perfeita e temos exatamente o Estado justo Se. por lei. outra que nos retém em face deles e sabe dominar o desejo. mas não é exclusiva dela e se estende por todo o Estado. que o homem é justo do mesmo modo que a Cidade é justa. a saber.1 absolutamente necessário convir que em cada um de nós existem as mesmas formas e características que há também no Estado? Pois. 30. O Estado é sábio pela classe dos seus governantes A fortaleza ou coragem ( é a capacidade de conservar com constância a opinião reta em matéria de coisas perigosas ou não. IV. 31. porque. mas também é diferente do desejo porque pode ser oposta a ele (por exemplo quando ficamos irados por ter cedido ao desejo como a uma força que nos fez violência). Mas há uma terceira tendência. sem deixar-se vencer pelos prazeres ou pelas dores. 26. 28. mas pode igualmente aliar-se com a parte mais baixa da alma. cada uma cumpre a sua função. E. República. em analogia com as virtudes da Cidade. como vimos no início. IV. às três classes sociais do Estado deverão corresponder três formas ou faculdades na alma: Ora. 435 e. 27. com o princípio segundo o qual cada um deve fazer somente aquilo que por natureza e. O Estado temperante é aquele rio qual os mais fracos estão de acordo com os mais fortes e os inferiores em plena harmonia com os superiores Finalmente. 432 b ss. não nos é acaso (. assim como três são as classes do Estado.. República. Cf. disse ele. Glauco. justamente assim se comportam as três atividades que acabamos de enumerar: fazem e sofrem coisas contrárias em relação ao mesmo objeto. Ora.. 436 b. e é o desejo. Diante dos mesmos objetos. a irascível ( e a apetitiva ( pela sua natureza. se for estragada pela má educação. e é possuída somente pelos guardiães perfeitos. não é possível que desempenhemos essas três atividades com a mesma faculdade. Cf. Quando cada cidadão e cada classe atende às próprias funções do melhor modo. 428 b ss. Cf. 429 a ss.] a mesma coisa nunca será capaz de fazer ou sofrer juntamente coisas contrárias na mesma parte e sob o mesmo respeito Com efeito. a irascível está do lado da razão.

de acordo com o que é a sua natureza verdadeira (xaTà púaiv) 3. disse ele. saciando-se com os chamados prazeres do corpo. — Como antes dissemos. A reforma que Platão propõe é verdadeiramente revolucionária para o seu tempo. de acordo com a sua natureza. acaso não guardariam da maneira mais bela toda a alma e todo o corpo dos inimigos externos. disse eu.— Devemos também lembrar-nos no que diz respeito a nós mesmos que. a outra combatendo. — E sábio chamaremos um indivíduo em razão dessa pequena parte que nele governa e formula tais preceitos. uma aconselhando. 449 c ss. ou seja. E como o Estado feliz é somente aquele que cumpre ordenadamente as suas funções segundo a justiça e as outras virtudes. mas procure submeter e dominar também aquelas partes que não lhe dizem respeito. domine ou se deixe dominar. cresça e se torne forte e não só não cumpra mais o seu oficio. uma vez que. ao passo que a injustiça e o vício são a feiúra e a doença da alma. — Exatamente. — Exatamente. 33. é insaciá vel de riquezas. saúde. Cf. esse será justo e fará o que deve. replicou ele. portanto. disse ele. devem vigiá-la para que não aconteça que. como quem é sábia e tem a incumbência de velar sobre toda a alma. estimulando a uma e alimentando-a com belos discursos e ensinamentos. O sistema da comunidade de vida dos guerreiros e a educação da mulher no Estado ideal Antes de tratar dos Estados degenerados. Com isso se resolve igualmente o problema do valor da justiça. 4.44 d. essas duas faculdades. 252 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL . em cada um é a parte maior da alma e que. 441 d-442 d. República. Ela é segundo a natureza e é. os filhos. — Portanto. 34. disse ele. disse ele. ou seja. não será a boa mescla da música e da ginástica que as porá de acordo entre si. quando a que manda e as duas que obedecem estão de acordo em que a razão deva governar e não se revoltem contra ela? — Efetivamente. beleza. estado de bem-estar da alma. à parte racional convém mandar. República. esta porém obedecendo a quem manda e cumprindo com fortaleza o que foi decidido pelo conselho? — Assim é. Cf. V. mas à interior. — E então? Não chamaremos de temperante um indivíduo em razão da amizade e do acordo das três partes. o primeiro dos quais. ela é algo que diz respeito não à atividade exterior. consiste numa série de conseqüências que derivam do fato de ter posto o princípio de que a classe dos guardiães do Estado deve ter todas as coisas em comum: além da habitação e da mesa. pela sua natureza. a de educar as mulheres com a mesma paideia ginástico -musical da qual acima se falou. à própria vida da alma. acalmando-a com a harmonia e o ritmo? — Certamente. Platão aprofunda dois grupos de questões. — Estas duas portanto. assim educadas e instruídas verdadeira mente a fazer o que lhes é próprio. a temperança não é senão isto tanto na Ci dade como no indivíduo É claro então que. — Ora. cada uma das faculdades cumprindo a sua função. — Disso devemos bem lembrar-nos. República. IV. e assim perturbe a vida de todas. — E também não chamaremos de forte um indivíduo em razão dessa parte da sua alma. e à parte irascível ser súdita e auxiliar dela? — Sem dúvida. assim alma feliz é somente aquela que desenvolve as suas atividades ordi nárias segundo a justiça e as outras virtudes. tendo ela também [ como os governantes do Estado] em si mesma a ciência do que é conveniente a cada parte e à comunidade das três. como a virtude em geral. sendo a justiça a disposição das faculdades da alma que faz com que cada uma cumpra a função que lhe é própria (T auTo lrpàTTeiv) e. deverão governar a faculdade do desejo que. quando a sua faculdade irascível (Úu saiba mantê -lo em meio às dores e aos prazeres fiel ao que por parte da razão lhe foi dito ser temível ou não? E com justiça. distendendo a outra e exortando-a. a cria ção e a educação da prole Uma primeira conseqüência derivada por Platão é a de entregar às mulheres dos guardiães as mesmas casas entregues aos homens e. IV. em 32. também as mulheres.

ao passo que não o serão os filhos dos casais piores. somente homens entre trin ta e cinqüenta e cinco anos e mulheres entre vinte e quarenta anos terão direito de gerar filhos. 458 e ss. 40. iremos impor todos os ofícios ao homem e nenhum à mulher? — E como? — Mas diremos que existe. se exercitarão despidas nas palestras. apenas ela é. e não foi em razão dessas qualidades que escolhemos a natureza dos guardiães? Exatamente. Cf. 37. 460 b ss. As mulheres dos guardiães serão comuns e também os filhos serão comuns As núpcias serão reguladas pelo Estado e declaradas sagradas. assim como o homem. 39. uma mulher que tem aptidões para as artes das Musas e outra que não tem. Cf. E os filhos desses casais serão criados. Além disso. 35. em todas. creio. é a eliminação do instituto da família para a classe dos guardiães. mas as disposições da natureza estão igualmente repartidas entre os dois sexos. E haverá uma mulher que tem disposições para a ginástica e para a guerra e outra que é pacífica e inimiga da ginástica? — Penso que sim. Portanto existe a mulher que serve para ser guardiã e outra que não serve. 457 a. assim como a propriedade. mães e pais não deverão reconhecer os filhos. Por sua vez. Cf. o maior número possível de vezes. sem que porém isso se torne conhecido. República. V. das atividades bélicas e políticas. República. 455 d-456 a. 461 d. — Assim. que deriva imediatamente da ante rior. — Certamente. tanto no homem como na mulher há a mesma disposição para a guarda do Estado. Haverá a simulação de um sorteio para os casais. já que as mulheres (assim como os homens) não deverão ocupar-se de outra coisa a não ser da guarda do Estado (a família é mantida. V. tomarão parte na guarda do Estado e também na guerra (haverá somente o cuidado de confiarlhes tarefas menos pesadas. excetuando o fato de que um é mais forte do que a outra Assim sendo. como os homens. se nascer. República. mais fraca que o homem. Se um filho for concebido em união de homens e mulheres não em regra com a idade. nenhum ofício da administração do Estado próprio da mulher porque mulher. será exposto e não será criado Todas as crianças que nasceram entre o sétimo e o décimo mês a partir do dia em que o homem e a mulher tiverem celebrado as núpcias deverão ser considerados seus filhos e filhas. nem do homem porque homem. V. confiava-lhe a administração da casa e a criação dos filhos e a man tinha longe das atividades de cultura e de ginástica. 38. V. essa mesma natureza que há na mulher e no ho mem deverá ser educada da mesma maneira. 457 c-d. Cf. Além disso. Uma corajosa e outra não-corajosa? — Também isso. todos os que nasceram no período em que seus pais e suas mães procriavam tratar-se-ão entre si por irmãos e irmãs 36. Cf. e se procederá de maneira que as mulheres mais dotadas se unam aos homens igualmente mais dotados. de sorte a que a raça se reproduza da melhor maneira possível. — Sendo assim. — Certamente. Eis o raciocínio sobre cujo fundamento Platão opera a inversão conceitual da função da mulher grega: — Não há pois. a fim de que as melhores entre todas se unam aos melhores entre todos. em razão do seu menor vigor por relação aos homens) Uma segunda conseqüência. . Por conseguinte. para a classe inferior). República. eles chamarão pai e mãe todos os homens e todas as mulheres que contraíram matri mônio entre o décimo e o oitavo mês anterior ao seu nascimento. sem dever ocupar-se de outra coisa. República. — E também uma mulher que é amiga da sapiência e outra que é inimiga da sapiência. mas de tal sorte que se ob tenha sempre o efeito desejado Os filhos serão imediatamente tirados das mães. a mulher é chamada pela natureza a todas as funções. meu amigo. República.253 geral. uma mulher que é apta para a medi cina e outra não. o grego recolhia a mulher no recinto das paredes domésticas. V. revestidas de virtude e não de roupas e. as mulheres. não se deixará que nasça e. o Estado usará de todas as indústrias oportunas. V.

Ao contrário. — Se acontece algo de mal ou de bom a um único cidadão. à exceção do corpo. e se aplica sobretudo à esfera econômica. a saber. — Ao contrário. quanto à dor se é ferida. con vém entender a intenção que as anima. esse Estado será. por mais nobre que tenha sido o fim almejado por Platão 41. sozinha. o comunismo platônico nasce de instâncias comple tamente diferentes. juntamente se alegram e se entristecem pelos mesmos ganhos e pelas mesmas perdas? — E exatamente assim. como é óbvio. é claro que o comunismo platônico não tem nada a ver com o coletivismo moderno. disse ele. . V.254 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 255 São essas as leis do Estado platônico que. mas porque a minoria dominante no seu Estado representa. a solução não podia ser esta não só pela razão negativa. Assim o motivo da proibição de toda posse individual. República. combina-se com o prin cípio da seleção racial no conduzir à teoria da comunidade de mulhe res e filhos para os guerreiros” Em todo caso. O coletivismo moderno. seja por razões teóricas. o proletariado da grande cidade. sofre com a parte ferida e é assim que dizemos que o homem tem uma ferida no dedo. quando uns es tarão muito alegres e os outros muito tristes a respeito dos mesmos aconte cimentos que afetam o Estado e os cidadãos no Estado? — Como não? — E essa conseqüência não deriva do fato de que no Estado não há uma só voz dos cidadãos a dizer meu e não meu. a respeito da mesma coisa e segundo o mesmo sentido diz juntamente é meu e não é meu. ordenada sob o princípio que a rege. as motivações teóricas desse comunismo são decididamente espiritualistas e quase ascéticas. o clero. a comunhão dos prazeres e das dores não é o que o articula quando os cidadãos. — Ora. e o mesmo se diga de qualquer outra parte do homem. o mesmo acontecendo a respeito de algo que não lhes é próprio? — Sem dúvida. Eis a passagem mais significativa a esse respeito. susci taram as reações mais ardorosas e por muitos foram consideradas simplesmente absurdas. Além disso. — Tornar privado esse sentimento acaso não o divide. quando em algum de nós se fere um dedo. disse ele. seja por ra zões históricas. mas também a posse daquele bem peculiar que é a família desperta de várias maneiras o egoísmo humano. viveu da sua parte como um celibatário. em face da sua classe dominante. não haverá um ótimo governo? — Sim. que para ele o matrimônio não era ainda moralmente inferior ao celibato. do ponto de vista histórico. Com efeito. o Estado melhor governado é o que mais se aproxima do modelo do indivíduo. o primeiro a dizer que é a ele que acontece e juntamente ficará alegre ou triste Levando-se em conta essas afirmações. supõe a revolução industrial. e quanto ao prazer se sara. no Estado em que o maior número de cidadãos. os guardiães de nada mais poderão dizer “é meu”. a elite da população. permanece verda de que. — E não é também o que melhor se assemelha a um único indivíduo? Por exemplo. não somente a posse de bens materiais divide os homens. 462 a-e. ótimo. Tendo posto em comum também a família. Platão quer tirar dos guardiães uma família sua particular para oferecer-lhes uma muito maior. toda a comunidade das partes do corpo com a alma. ou seja. Mas antes de proceder à sua avaliação. e é necessário que justamente dela nasça a nova elite. para voltar à questão de fundo. que é indispen sável meditar se se quiser captar o sentido próprio do comunismo platônico: — Há um mal maior para o Estado do que aquele que o desmembra e de um produz muitos? ou um maior bem do que aquele que o articula e faz com que seja uno? — Não. de resto. pro duz e administra toda a riqueza. Mas para Platão que. — O mesmo. o capitalismo. penso. física e espiritualmente. “estão mais na posição de uma ordem monástica militar da Idade Média do que na de uma burocracia coletivista” Analogamente observa Jaeger: “Mais tarde a Igreja. do ponto de vista teórico. diz muito bem Taylor. porque tudo absolutamente será comum. Os guardiães da Cidade platônica. resol veu o mesmo problema com o celibato obrigatório dos padres. da exigência de ter a classe dos guardiães totalmente disponível para o governo e para a defesa do Estado e deixa completamente de fora a classe trabalhadora que. ele nasce de uma concepção materialista do homem. não há. na medida do possível. e quanto ao que perguntas. exatamente. mesmo da posse de uma mulher.

VI. no que concerne à sua possibilidade. Considerando bem. disse ele Qual seja a significação desta afirmação (que Platão introduz com circunspecção. mas ao mesmo tempo. os resultados da “segunda navegação”. senão. Colocar o filósofo como construtor e regen te do Estado significa colocar o Divino e o Absoluto como medida suprema e. mas ele utilizou aquelas asserções em direção oposta. 43. não teve claro o conceito de homem como indivíduo e como singular único e não-repetível. e à cidade de obedecer-lhes. a necessidade de assumir o cuidado do Estado. Com efeito.42. de outra parte. a saber. não haverá. certamente. filósofos. ou aconteça agora em algum país bárbaro longe daqui e fora do nosso conhecimento. 499 b-d. mas é também só o filósofo que pode realizá-lo e fazê-lo entrar na história. e não logrou enten der que nesse ser uma individualidade singular e não repetível está o supremo valor do homem 4. Paideia. Que seja impossível acontecer uma dessas duas coisas ou as duas juntamente. fundamento do Estado. e unia coisa e outra não coincidam na mesma pessoa. seríamos com razão expostos ao ridículo por estar nos entretendo acerca de quimeras. e se. teriam podido levar à des coberta do indivíduo e do seu valor. para que seu aparente caráter paradoxal não pre judique o seu valor de verdade. com extrema decisão). p. Taylor. disse ele. não sejam afastados dos 44. continuei. a caracterização específica dos “governantes” ou “regentes” supremos do Estado e sua peculiar paideia ou educação. por intuição. depois de ter 45. E exatamente a concepção da natureza dos governantes que revela. — Tenha pois acontecido ou não aos perfeitos filósofos essa necessida de de governar o Estado no tempo infinito que já passou. vale dizer. dizíamos que nem Estado nem Governo e. cortando pela raiz tudo o que fomenta os egoísmos humanos). p. ao menos isto estamos prontos a sustentar. ou venha a acontecer no futuro. não aconteça por uma sorte favorável. repouso dos males para o Estado e. Portanto. é e será tal. II. — Fala. Conhecemos já a tese e ela pode ser resumida dessa maneira: condição necessária e também suficiente para que se realize o Estado ideal é que os filósofos se tornem governantes e os governantes. até o aparecimento das correntes helenísticas). 418. nem mesmo para o gênero humano a menos que a constituição que ora traçamos não se mostre possível e não veja a luz do sol Afirmação solenemente repetida e estendida. negócios públicos aqueles muitos que tendem separadamente a uma e a outra coisa. se conscientemente aprofundadas. Platão. mas tidos como inúteis. República. 258 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL . República. não há razão nenhu ma para afirmálo. ou então que aos filhos dos poderosos ou reis de agora ou a esses mesmos alguma divina inspiração não infunda o amor da verdadeira filosofia. 46. 256 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 257 (unificar a Cidade como uma grande família. portanto. os meios que indicou não somente se mostram inadequados. o poder político e a filosofia. caro Glauco. que o Estado que descrevemos foi. deste modo. não só ao presente mas também ao passado e ao futuro: Obrigados pela verdade. o filósofo não somente projeta teo ricamente o Estado perfeito. a possibilidade de realização do Estado platônico. isto é. creio. nem é impossível que tal aconteça nem nós dizemos coisas impossíveis. — Assim parece também a mim. e consiste em considerar a raça mais importante do que o indi víduo. — Se. O filósofo e o Estado ideal No quadro do Estado ideal aqui reconstruído. falta ainda a parte mais significativa. nem mesmo um homem. queiram eles ou não.). Eis a célebre afirmação platô nica: — Mas presta atenção no que eu digo. chamados agora não de maus. V. O filósofo. Ou não é assim? — E assim. mas que sejam difíceis somos os primeiros a admiti-lo. Jaeger. 272ss. 473 c-d. em todas essas doutrinas o erro fundamental permanece o mes mo. todas as vezes que esta Musa filosófica se tornar senhora da cidade. além do fundamento teórico. a coletividade mais do que o sujeito singular. Platone. Platão chega. 432. particularmente. a algumas asserções que. poderia tornar-se perfeito antes que a estes poucos filósofos. é agora fácil determinar desde que se tenham presentes o conceito de filosofia acima exposto e. ou os filósofos não sejam reis na sua cidade ou os que ora se dizem reis e soberanos não se entreguem honesta e convenientemente a filosofar. Como veremos mais adiante (pp. como todos os gregos antes dele (e também depois dele. mas decepcionantes.

O mundo grego não conheceu. a ser contraposto às teocracias sacerdotais do Oriente: o ideal de um domínio dos filósofos construído sobre a capacidade da inteligência indagadora do homem de alcançar o conhecimento do Bem divino” Este. para quem tem verdadeiramente o seu pensamen to voltado para o que é [ o ser supra-sensível]. República. o que não é fácil. II. VI. — Com razão. pois. 505 a V 540 a-b (transcrevemos esta ssagem na p. Paideia. a máxima clareza desejável. também o fundamento da vida dos homens ria dimensão política. crês que será ele um mau artífice de temperança. inspiran do-se no exemplar que Homero. proclamando a suprema Idéia do Bem. cha mou divino e semelhante aos Deuses. livros VI e V passim. 518. . belo e sensato e a outras virtudes semelhantes. de outro ao que podem fazer nos homens. continuará a hostílizá-lo e a não acreditar em nós quando dizemos que o Estado não poderá ser feliz enquanto seu plano não for traçado por aqueles pintores que utilizam um modelo divino? Não continuará a hostilizá-lo. é o estatuto ver dadeiro da Cidade platônica ideal. a tentativa de organizar a vida associada dos homens na base do mais elevado fundamento teológico. Jaeger escreve: “A obra máxima platônica [ é um Tractatus theologico-politicus no sentido mais próprio do ter mo. um domínio sacerdotal fundado sobre dogmas. mas podes acreditar que logo se distinguirão dos outros ao não querer ocupar-se de indivíduo nem d Cidade nem de escrever-lhes as leis. 50. caros a Deus O discurso platônico alcança. encher-se de inveja e má vontade.e!o” supremo ou “paradigma” do qual o filósofo deve servir-se para regular a própria vida e a vida do Estado Com isso. o eixo fundamental verdadeiro da polis A esse propósito. de que modo será esse plano? Tomando a Cidade e os costumes dos homens como se fossem uma tela. a essas ele as imita e. Mas. Cf. quanto possível. 49.259 alcançado o divino. plasma e conforma o Estado segundo a mesma medida. 262). p. Mas. E já que. misturando e temperando a cor humana com diversas ocupações. que ao executá-la deverão olhar continuamente de uma parte e de outra. por mais íntimo que nele possa ter sido o laço entre religião e estado. por conseguinte. desde que entenda isso. nem fazem nem sofrem injúria. posto à frente do Estado. primeiramente deverão limpá-la bem. 48. o Bem em si como “mod. a Idéia do Bem é o divino no mais alto grau. — Depois disso crês que já podem traçar a figura da constituição? — Porque não? Penso. — Exatamente assim. — Mas quando a maioria cair na conta de que falamos a verdade a respeito do filósofo. e da vida privada dos homens. de um lado ao que é justo por si mesmo. mas estão sempre no seu lugar e obedecendo à razão. na maior medida possível. — E em parte deverão apagar. República. Cf. entretendo-se sempre com o que é divino e ordenado. torna-se ele tt divino e ordenado na medida em que é pos sível ao homem: mas em todas as coisas se encontra sempre algo que cen surar. de justiça. Adimanto. a Hélade criou um ideal ousado e digno dela. pois. e de todas as outras virtudes cívicas? — De modo algum. disse ele. o Estado platônico torna-se. ele se visse na necessidade de adaptar aos cos tumes públicos e privados o que ele vê lá no alto [ o divinol e não conten tar-se só com plasmar-se a si mesmo. disse ele. mas olhando e contemplando coisas bem ordenadas e sempre idênticas que entre si. ou seja. plasma a si mesmo de acordo com ele e. disse ele. não há tempo de descanso para olhar para baixo. em parte pintar de novo até que façam os costumes humanos. antes de recebê-los limpos ou de limpá-los eles mesmos. VI. portanto. com o Estado platônico. ao fazer-lhes a guerra. — Muito bem. Ou crês que seja possível não imitar urna coisa com a qual se vive e que se admira? — E impossível. — O filósofo. Eis uma passagem fundamental da República na qual Platão expressamente trata desse conceito: — De fato. 47. assim. quando o encontrou entre os homens. por conseguinte. Se. o Estado platônico alcança sua plena definição: ele pretende a entrada do Bem na comunidade dos homens por meio daqueles poucos homens (jus tamente os filósofos) que souberam elevar-se à contemplação do Bem. além de fundamento do ser e do cosmo. por conseguinte. como vimos. O Divino torna-se. para os afazeres dos homens e. contempla-o e o imita. na realidade. República. se toma semelhante a elas. Jaeger. disse. 500 b-501 c.

da astronomia e da ciência da harmonia: com efeito. 435 d. do corruptível ao incorruptível. No entanto. todas essas ciências obrigam a alma a empregar a inteligência e a entrar em contato com uma parte do ser privilegiado (os entes e as leis aritmético-geométricas). na alma. A educação dos filósofos no Estado ideal e o “conhecimento máximo” Num Estado tal como idealizado por Platão. e que não é outro senão o caminho da “segunda navegação”. V 536 d-537 a. quem não sabe não o é A natureza do dialético é a capacidade de ver o conjunto (oúvo a capacidade que o próprio Platão define como o tender da alma “ao inteiro ( e ao todo (irãv)” Aos trinta anos. meu caro. se as fadigas do corpo suportadas à força nem por isso tomam o corpo pior. não constitui senão um momento propedêutico. Para os que são destinados a tornar-se governantes-filósofos. República. tornam-se da máxi ma importância a seleção de jovens dotados de natureza filosófica autêntica (ou seja. disse ele. fazer dela um sistema de . mas há somente o “longo caminho” o caminho que do sensível leva ao supra-sensível. — Por conseguinte. Resumidamente po demos dizer que a paideia ginásticomusical produz os efeitos do Bem. VI. convém chamar a atenção ainda sobre algumas ob servações de Platão. República. República. Com efeito. mas não é capaz de levar ao conhecimento das causas das quais dependem aquela ordem e aquela harmonia. esse ti po de educação é capaz de tomar o homem harmônico. Paideia. 525 d ss. é esta a meta da educação filosófica: alcançar o “conhecimento máximo” (ii ijái3ii vale dizer. !bidem. nas fadigas e na capacidade de enfrentar perigos de vária natureza. 55. VI. ao “conhecimento máximo” Podemos dizer. serão educados a entender as afinidades existentes entre as disciplinas aprendidas no ciclo precedente e a compreender o laço superior de afmidade entre essas disciplinas e a natureza do ser (ToCJ ô púoiç) Durante esse segundo ciclo que dura dos vinte aos trinta anos. a posse do “Bem em si” na ordem do conhecimento Para chegar ao “conhecimento máximo” não há atalhos. 52. 486 a. IV. os que tenham revelado natureza dialética serão postos à prova para verificar: 51. sem porém doutrinas que deva ser aprendido por obrigação. — E verdade. VI. VI. será preciso descobrir quais são os jovens dotados de natureza dialética: E esta é a prova máxima da aptidão ou da inaptidão à dialética: quem sabe ver o conjunto é dialético. não poderá durar nenhum ensinamento forçado. e a sua vida bem ordenada. avançando através das Idéias. com a qual a alma se desliga completamente do sensível para alcançar o puro ser das Idéias e. a educa ção ginástico-musical. O sentido desse longo caminho foi bem esclarecido por Jaeger. da geometria plana e no espaço. a ciência do cálculo e a da geometria. V 537 c. O longo caminho do ser passa através da aritmética. o homem livre não deve aprender ciência alguma segundo o modo dos escravos. República. Cf. pp.260 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 261 5. os meninos no estudo não de vem ser educados com a violência. os que se tiverem assinalado nesses esta dos. República. mas com jogos. chega à visão do Bem. respondi. de jovens nos quais a parte racional da alma do mina sobre as outras duas) e a sua educação. disse eu. Com efeito. a fim de que sejas capaz de descobrir para que cada um nasceu Na idade de vinte anos. 503 e-504 e. 483ss. Cf. 53. ao contrário. 504 d ss. em resumo. II. do devir ao ser. mas não o conhecimento do Bem. 54. Os primeiros ensinamentos matemáticos deverão ser propostos quase sob forma de jogo e não impostos. porque somente assim se mostrarão eficazes e capazes de revelar a natureza dos jovens: — Portanto. devemos propô-la a eles enquanto são ainda meninos. Cf. Ao invés. 57. que o método e o conteúdo da paideia dos governantes e dirigentes do Estado são exatamente o método e o conteúdo da filosofia platônica que acima expusemos. República. e toda disciplina preparatória que deve ser ensinada antes da dialética. que vimos estabelecida para os guardiães em ge ral. Mas o trecho que é de longe o mais exigente e árduo do longo caminho é constituído pela dialética. 56. — Por quê? — Porque.

e nos livros oitavo e nono da República oferece também uma espécie de contraprova. assim coerentemente ele reafirma o mesmo princípio para a classe dos governantes: — Caro Sócrates. tendo visto o bem em si mesmo. “dos cos tumes morais que existem no Estado” distinção entre homem e mulher pensando que. que existe uma corres pondência estrutural entre virtude e felicidade. 540 a-b. teus governantes são de uma beleza perfeita e assim os faria um estatuário. “não provêm de um carvalho ou de uma rocha”. Mas Platão não se contenta com a prova direta. ele 58. . se tudo deve ser igual e comum para os dois sexos. Vil. — E é justo. levantando para o alto o olhar da alma. Cf. chegada a sua vez. o faz descer na realidade e. e que a segunda não é senão o natural e necessário efeito da primeira. o supremo e necessário “serviço” daquele que. sendo os dotes iguais. 60. depois de ter formado continuamente outros cidadãos segundo o seu próprio modelo e deixando-os em seu lugar na guarda do Estado. 62. disse ele. De fato. pode trazer-lhes. Observemos ainda um último ponto. não deves crer que o que eu disse o tenha dito mais para os homens do que para as mulheres. 61. Cf. cada um da sua parte ocupando-se de filosofia a maior parte do tempo. 540 e. como vimos. a fim de que. desejaria naturalmente viver o resto da vida contemplando. 59. sem dúvida. aqueles que tenham sobrevivido e se assinala do em tudo e por tudo nos estudos e nos trabalhos devem ser levados ao termo último e obrigados. disse eu.262 PLATÃO E A DESCO}SERTA DO SUPRA-SENSIVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 263 j quem seja capaz. 264 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 265 diz. mas. pois. VII. O Estado não pode permitir que somente uma das suas classes tenha o privilégio de uma felicidade extraordinária. não porque seja uma coisa bela. VII. a contem plar justamente o ser que ilumina todas as coisas. prescindindo dos olhos e dos outros órgãos do sentido. como vimos Esta é. República. através da práxis política. os indivíduos e a si mesmos. o distribui aos outros. com o fim de demonstrar que. VII. pelo menos para aquelas que tenham recebido uma natureza apro priada. a revalorização mais radical e mais audaz da mulher feita na Antigüidade. mas. e por isso é justo que volte a ocupar-se dos outros. 520 e-52 b. República. tendo alcançado a visão do Bem. perdem igualmente a felicidade. — E também as governantas. mas porque é uma coisa necessária: assim. Mas isto não lhe é concedido em razão de uma dívida estrita contraí da por ele para com o Estado: ele chegou às alturas onde poucos chegam e realizou a sua natureza graças à paideia e aos cuidados do Estado. na mesma medida em que eles decaem da virtude. República. procedendo à análise das formas de constituição degeneradas e dos tipos humanos que lhes cor respondem. Somente aos cinqüenta anos termina a paideia dos governantes: Chegados aos cinqüenta. irão habitar nas ilhas dos bem-aventurados [ E assim como para a classe dos guardiães guerreiros Platão não faz O filósofo. assumindo comandos militares e diversos cargos. suportando os aborrecimentos da política. Toda essa parte das análises platônicas é sustentada pelo princí pio da correspondência perfeita entre a alma e os costumes do indi víduo. Os Estados corrompidos e os tipos humanos que lhes correspondem A construção do Estado perfeito e a análise do tipo humano que lhe corresponde almejava demonstrar. 539 e. deverão voltar a ser pro vados com a realidade empírica. 537 d. nele se inspirem como modelo para ordenar pelo resto da sua vida a cidade. devam receber a mesma educação e exercitar as mesmas fun ções no Estado. caro Glauco. República. e as instituições do Estado: os governos e as constituições. de subir junto com a verdade até o que é verdadeirament& Aqueles que superarem a prova serão educados na dialética por cinco anos Dos trinta e cinco aos cinqüenta anos. República. tendo chegado à contemplação do Bem e do ser su premo. 6. assumindo sucessivamente o go verno para o bem da comunidade. para conseguir para eles as vantagens que somente ele. VII. disse ele. mas deve fazer com que as classes se proporcionem vantagens recíprocas segundo a sua capacidade O supremo “poder político” na visão platônica torna-se. tendo contemplado o Bem.

Cada um vive como lhe apraz e. mesmo fisica mente. crescendo sem uma educação moral. VIII. a sede de dinheiro. 544 d-e. na primeira ocasião propícia. tornam-se soberanos os desejos e prazeres. quali ficado como tolice. porque o senhorio da riqueza. para filósofo. Apenas os ricos gerem a coisa pública. é banido o respeito. nos seus cidadãos. Assim. até que a parte mediana (a “inflamada” ou “irascí vel”) não acabe por predominar sobre as outrasM. com esses “raciocínios”. acontece já um desequi líbrio entre as diversas faculdades. a concupiscíveJ A “democracia” que Platão descreve é o estágio que. Os jovens. se substitui ao da virtude. os quais [ acabam por ocupar a cidadela da alma. para Platão. a não se cuidar de . da parte racional da alma. na oligarquia. 66. República. A “oligarquia” é. pode participar também da vida pública. Ela assinala uma decadência ulterior dos valores. República. pois o que o nosso filósofo tem em mente é a demagogia e o aspecto demagógico da democracia. fundado sobre a virtude como valor supremo e caracterizado pela primazia. 4) a tirania. A justiça se faz tolerante e mansa. 560 b. O Estado fica cheio de “liberdade”: mas é uma liberdade que. 555 b ss. o leitor moderno não deve deixar-se enganar pelo nome. o efeito sem a causa. até o momento em que os súditos pobres tomam consciência do que está acontecendo e. Nessa forma de Estado. a virtude e os bons são postos na sombra e a pobreza e o pobre são. Cf. Para os jovens. desvinculada de valores. buscando. vale dizer. encontrando-a vazia de belas doutrinas e costumes. sem mais. Cf. portanto. porque substitui a honra à virtude. República. em mãos dos poucos que detêm as rique zas). pois a virtude é transcurada tanto pelos ricos como pelos pobres). 63. 545 d ss. por assim dizer. bem puramente exterior. VIII. o homem desse Estado rompe com o tempo o equilíbrio da sua alma e acaba por deixar dominar a parte inferior. 3) a democracia. habilmente escondida e mascarada. e distribuindo as magistraturas com o sistema do sorteio. pois encontram riquezas já acumuladas) e se abandonam indiscriminadamente a todo gênero de prazer (pois perderam o sen tido da medida que pode derivar somente de valores superiores). gastando a vida em fazer dinheiro. tomam o poder e instauram o governo do povo. um Estado guardado e governado pelos melhores por natureza e por edu cação. diz Platão). no avanço da corrupção. 67. seja aos desiguais. portanto. e de raciocínios verdadeiros. ótimas sentinelas e guar das na inteligência dos homens que são amigos dos deuses 65. pouco a pouco. proclamando a igualdade dos cidadãos (distribuindo a igualdade seja aos iguais. que representa. 2) a oligarquia que é uma forma de governo fundada sobre a riqueza entendida como valor supremo (e. Na alma do cidadão desse Estado. Dessa maneira. 64. e mesmo as sentenças passadas em juízo muitas vezes não se executam. como já acenamos. precede e prepara a tirania. República. 266 PLATÂO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO !DEAL 267 Os “raciocínios impostores” fecham a entrada e tiram toda possi bilidade de acesso aos discursos mais antigos que “querem prestar au xílio ou também impedem a entrada das embaixadas enviadas pelo bom conselho”. degenera em licenciosidade. 550 c ss. também o indivíduo mostra as mesmas características. Cf. entre a parte racional e as duas partes irracionais. Assim. República. Como observamos. se quiser. Quem quiser fazer carreira po lítica não necessita ter natureza adequada.e pobres e permanece um conflito sem possibilidade de mediação (por falta de um valor comum que seja superior à riqueza e à pobreza. que é uma forma de governo que se apóia sobre o reconhecimento da honra (que em grego se diz justamente rTi donde o nome timo-cracia) como valor supremo. a ambição. o nosso outra coisa a não ser da riqueza. é O Estado ideal que nos é descrito por Platão é uma “aristocracia” no sentido mais forte e mais significativo do termo. que Platão entende no sentido pejorativo de demagogia.As formas corrompidas do Estado enumeram-se na seguinte or dem: 1) a timocracia. essencialmente uma “plutocracia”. educação e competência: basta que “afirme ser amigo do povo” Nesse Estado. VIII. um verdadeiro flagelo da humanidade. no qual a liberdade é licença. A insaciabilidade de riqueza e dinheiro leva. A “timocracia” (que Platão identificava substancialmente com o regime político espartano) rompe já esse equilíbrio essencial do Es tado perfeito. VIII. Torna-se fatal o conflito entre ricos . a mola da vida pública é a sede de honras e. começam a gastar sem medida (o sentido de poupança do pai não tem valor para eles. VIII. os ricos detentores do poder se enfraquecem. enquanto na vida particular já prevalece. desprezados.

expulsa com insultos a temperança. assim penso. e eu a digo: ninguém acreditaria o quanto são mais livres ali os próprios animais que estão sujeitos ao homem. se não tivesse feito a experiência. O excesso de liberdade (que é licenciosidade). os cavalos e asnos se acostumam a andar com porte livre e altivo. disse ele. e o meteco torna-se o igual do cidadão. Assim a vida desse jovem toma-se sem ordem e sem lei. mas louva os cidadãos que são iguais aos magistrados e os magistrados que são iguais aos cidadãos pública e privadamente. ela os insulta como almas de escravos e que não servem para nada. disse ele. não é verdade? — Sim. uma cidade governada pelo povo e sedenta de se embriaga. é assim que ela procede. Com efeito. o desperdício do dinheiro público é considerado liberalidade e a impudên cia é tida como coragem. E por que. Por sua vez os velhos. ela os acusa de traidores e inclinados à oli garquia. disse. Eis a página verdadeiramente exemplar na qual Platão descreve a passagem da democracia à tirania (os tons acentuados de propósito e o sutil jogo irônico tornam essa página ainda mais eficaz): — Por acaso as coisas não acontecem da mesma maneira na mudança da oligarquia em democracia e da democracia em tirania? — Como assim? — O bem que a oligarquia se propunha e por meio do qual era consti tuída era a acumulação de riquezas. imitando os jovens a fim de não parecerem desagradáveis e despóticos. portanto. — De que modo? disse ele. disse ele. tornam-se amáveis e brincalhões. Analogamente são exaltadas as qualidades negativas opostas: a arrogância é chamada de boa educação. o mesmo acontecendo com o estrangeiro. que somente na cidade livre vale a pena viver o homem que é livre por natureza. e. bebe-a pura mais do que convém e . — Também a democracia não estabelece como termo um bem e o ex cesso desse bem não provocou a sua ruína? — De que bem falas? — Da liberdade. — Quanto aos cidadãos obedientes aos magistrados. ó amigo. justamente em razão da insaciável sede de liber dade. — E exatamente assim disse ele. E aí verdadeiramente que se verifica o provérbio de que as cadelas são tais como o é a sua dona. — Pois bem. se os governantes não são muito condescendentes e não concedem a mais ampla liberdade. disse ele. Em uma palavra. respondi. e da mesma maneira o filho ao pai. a anarquia é dita liberdade. e não ter respeito nem medo dos seus progenitores. faz cair no seu oposto. freqüentemente se ouve falar assim. os jovens igualam-se aos velhos e disputam com eles em palavras e em ações. — Por exemplo: o pai se habitua a tratar o filho como seu igual e a temê-lo. para agradar os jovens. qualificada de falta de virilidade. então. para mostrar que é livre. — De fato. — Mas o máximo a que chega a liberdade da multidão em tal cidade é quando até escravos e escravas adquiridos no mercado não são menos livres do que aqueles que os adquiriram. respondi. — De fato. dessa maneira. — Quando. — Sucede assim e sucedem também outras pequenas coisas: o professor nesse Estado teme os alunos e os adula. esbarrando na rua em que em tal Estado o espírito de liberdade tem à sua frente maus escanções. E quase nos esquecíamos de dizer a que ponto chegam a liberdade e a igualdade dos homens para com as mulheres e das mulheres para com os homens. na servidão. o que eu estava para dizer é que o excesso desse bem e o descuido do resto são a razão da mudança desse regime e preparam a necessidade da tirania. também nas casas particulares e que finalmente a anarquia acabe por implantar-se até entre os animais? — E como podemos afirmar coisa semelhante?. A respeito desse bem ouvirás dizer num Estado democrático que é o mais belo de todos e. e a moderação e a medida no gastar são consideradas avareza. ou seja. assim sucede. com Esquilo não “diremos a palavra que há pouco nos vejo aos lábios”? — Exatamente. dedicada inteiramente aos prazeres Da democracia (entendida no sentido acima descrito) deriva di retamente a tirania. os alunos zombam dos seus profes sores e também dos seus educadores. — E verdade. — E o desejo insaciável de riquezas e o descuido de tudo o mais por causa do dinheiro arruinou a oligarquia. Não é uma necessidade liberdade se estenda a tudo? — Como não? — E que ele penetre.

— Esse é portanto. VIII. e enquanto este ponto estiver incompleto. como bem sabes. Com métodos diversos buscam tirar dos ricos a sua riqueza procedendo de tal maneira que alguma vantagem resulte para o povo. mas guardando para si a parte mais conspícua. mas os exilará ou até os fará executar. quando está adormecida a alma na sua parte racional. que despertam no sono. 268 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 269 — É meu próprio sonho que estás descrevendo. — Para isso. em alguns homens são totalmente eliminados ou permanecem poucos e débeis. mansa e que deve mandar na outra. mas com mais força e virulência e destrói o Estado democrático. tanto no indivíduo como no Estado. Repablica. respondeu ele. deixa livre curso aos desejos e amores selvagens e fora da lei. E eis a caracterís tica do cidadão tirânico: a liberdade sem freio que é. nasce também aqui. Primeiramente se mostrará sorridente e gentil. aproveitando-se da liberdade. mas o são também os cidadãos. enquan E) em outros são mais fortes e mais numerosos. de modo que ao menor sinal da autoridade eles se irritam e se revoltam e chegam. pois tudo isto me acontece quando vou ao campo. VIII. seja nos corpos e. e a parte bestial e selvagem. — E que desejos seriam esses de que falas? — Aqueles. disse eu. mais que tudo. finalmente. e observa o que neles procuro ver. mas o que vem depois disso? A mesma doença. carregando sobre seus próprios ombros a servidão mais dura e mais amarga. ó amigo. de total liberdade. — De fato. que surgiu na oligarquia e a levou à ruína. como se costuma dizer. aos desejos terríveis que estão presentes em cada um de nós. Pois é certo que todo excesso provoca geralmente uma reação violenta. na realidade. Os mais ousados desses arrastam os outros e. para que não tenham absolutamente nenhum senhor. justamente. “purgará” o Estado. República. O tirano acabará por viver enU gente pouco tecomendável e. seja nas plantas. esse logo se tornará tirano. 569 b-c. é natural. a desprezar as leis escritas ou não-escritas. . dominam com a palavra e a ação e não toleram quem fala diferentemente. cairia assim no fogo do domínio dos seus servos. repelindo (5 Sono. para evitar a fumaça de servir a homens livres. será odiado por aqueles mesmos que o levaram ao poder O povo. Cf. mas que a razão e a educação dominaram e que afloram somente nos sonhos 70. E é natural que o excesso de liberdade não possa transformar-se senão no excesso de servidão. pois. E tudo o mais goza. seja nas estações. disse ele. — Podes imaginar como a soma de todas essas coisas torna sensível a alma dos cidadãos.quem se lhes está diante se não sair do seu caminho. porém reprimidos pela lei e pelos desejos melhores com o auxílio da razão. assim. Realmente sedutor. o belo e sedutor princípio do qual nasce a tirania. antecipam alguns princípios da psicanálise: “Parece-me que ainda não distinguimos bastante os desejos quais sejam e quantos são. estamos ainda em tempo? — Sem dúvida. embora no nível intuitivo. começa a desmandar-se e. Em seguida. anarquia e licença. não resta outro caminho a esse tal a não ser ou deixar-se liquidar como vítima da vingança dos adversá rios ou. a pesquisa do que procuramos permanecerá sempre obscura. Citamos uma passagem que ilustra esse ponto. disse eu. a de ser escravo dos escravos. disse ele. ingurgitada de alimentos e bebidas. de alguma maneira. respondi. e podemos dizer deles que se encontram em cada um de nós. e os eliminados serão justamente os melhoms. não é tirânico somente aquele que está na chefia do Estado. Deverá promover guerras contínuas para que haja necessidade de um comandante. da extrema liberdade nasce a mais total e dura servidão A doença que corrompe a democracia deve ser buscada na cate goria dos ociosos que gostam de gastar sem medida. 68. E quando entre esses nasce um ho mem que se destaque e consiga tornar-se um líder reconhecido pelo povo (um demagogo). o perturbam. Chegado a esse ponto. à qual ele se abandona. em vez da excessiva e inoportuna liberdade No regime da tirania. disse ele. não somen te acusará injustamente os adversários. — E natural. na qual Platão toca uma série de temas que. mas logo será obrigado a tirar a máscara. 71. transformar-se de chefe em tirano e assim tornar-se “de homem em lobo”. tenta satisfazer as suas inclinações. — Sei muito bem. que a tirania não se estabeleça senão a partir do governo democrático. 560 c ss. tal como me parece. eliminando todos aqueles elementos que. — E mais do que natural. ou seja. e é o seguinte: considero como ilícitos alguns dos prazeres e desejos não necessários. nos governos.

deus ou animal. é uma grandiosa confirma ção dessa tese. IX. O Estado ideal e o homem régio ou aristocrata que lhe correspon de são caracterizados pelo domínio inconteste da racionalidade. no Estado e no homem tirânicos. e se revela no domínio que a razão exerce sobre eles): e não somente a razão domina nos chefes do Estado. e que isso se mamfes:a nos sonhos” (República. rompido já inteiramente o equilíbrio da alma.] o homem se torna inteiramente tirânico quando. sua virtude e o seu vício. 72. ela ousa fazer qualquer coisa. e de ter saciado sem excessos a parte apetitiva para que ela adormeça e não 69. República. aos desejos furiosos do eros e à melancolia profunda É claro que tais homens são incapazes de relações normais com outros homens.. IX. a natureza tirânica é incapaz de apreciar a verdadeira liberdade e amizade A tirania é. não se detém mais diante de nada e quer domi nar não somente sobre os homens. nesse estado. — Quando porém. vem à tona e dominam mesmo os desejos mais desenfreados e bestiais. 270 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 271 Tornando-se vítima desses desejos. aprofundada em todos os seus aspectos. a racionalidade cede à parte irascível da alma. entrega-se à embriaguez. mas sempre ou dominando ou servindo a outros: com efeito. IX. assim. disse ele — Ao tratar dessas coisas desvieime bastante do caminho. passadas ou futuras. 573 e. mas o que queremos dar a conhecer é que dentro de cada um de nós há uma espécie terrível. a perturbe a parte melhor. mas a deixe só consigo mesma na sua pureza a indagar e a desejar saber o que não sabe das coisas presentes. numa palavra. e levando-a a refletir sobre si mesma. A República platônica. . mesmo supérfluos. a doença. nada lhe falta quanto à loucura e à impudência. Esse é o Estado são e. e tomam-se alheios às pessoas com as quais se encontram não apenas tenham obtido o que desejam delas: Portanto. como se estivesse solta e libertada de todo pudor e de toda razão. Já com S&rates a felicidade fora interiorizada na psyché e identificada com a areté. O Estado. mesmo naqueles poucos que parecem bem comedidos. não hesita em tentar o incesto. como tal. e esta não é somente a servidão dos súditos ao tirano. República. Enfim.sabes como. também à alma concupiscível e então domina a sede de lucro e dos prazeres. ele lança fora de si todo re síduo de temperança. — E muito verdade o que dizes. quando tal homem sossegou a parte irascivel e pode dormir tranqüilo sem ter sofrido irritação contra alguém — acalmadas as duas partes e posta em movimento a terceira na qual mora a sensatez. mas domina igualmente na classe dos guardiães-guerreiros. com a qual coincidem substancialmente a virtude (a virtude é. e atinge o fundo quando de todo se abandona à embriaguez do vinho. alguém se comporta para consigo de maneira sã e temperante. mais ainda. Com o regredir progressivo da racionalidade abrem caminho. feliz. e não vai dormir antes de ter despertado a parte racional alimentando-a com belos discursos e considerações. então adormeça — deves pensar que nesse estado atinge melhor a verdade e que menos do que em qualquer outro estado lhe aparecerão em sonho visões monstruosas. ou por natureza ou por hábitos de vida ou em razão dos dois. vivem toda a vida sem ser nunca amigos de ninguém. 7. Com efeito. e na classe inferior na medida em que regula a alma concupiscível nela produzindo temperança. mas também sobre os deuses. mas é servidão total (nos súditos e no tirano) da razão aos instintos baixos: a servidão exterior não é senão a conseqüência e a manifestação da servidão interior. nem cometer crimes de sangue ou ter horn)r de qualquer alimento. No Estado e no homem timocráticos. o Estado da servidão absoluta. no Estado e na alma. sob certo aspecto. racionalidade) e também a liberdade (a liberdade é liberda de da razão em face dos instintos e dos impulsos alógicos. são capazes apenas de mandar ou de obedecer. 571 a-572 b). 562 a-564 a. que assiste a um predomínio da ambição e da sede de honras sobre a virtude. a racio nalidade cede. — Estou absolutamente convencido disso. sua felicidade e infelicidade. 576 a. como imagina fazê-lo já com a própria mãe ou com qualquer outro homem. selvagem e sem lei de desejos. a ruína espiritual e a infelicidade. aos prazeres do sexo e à depressão psíquica: E. No Estado e no homem oligárquicos. 73. República. fundamen talmente. acredito. que alcançam o seu limite extremo no Estado e no homem tirânicos.. a felicidade terrena e a supraterrena Acima já dissemos como Platão constrói o Estado ideal com o fim de ver reproduzida em proporções maiores a alma do homem. Desta sorte se produz uma primeira ruptura do equilíbrio. VIII. na medida em que regula a alma irascível nela produzindo a virtude da coragem.

vive a vida filosófica. — E natural. que põe termo à República. — Além disso. — De fato. quem tenha bom senso. ou então um ideal e um dever-ser? E fácil agora responder à pergunta: na construção platônica há sem dúvida aspectos e momentos utópicos e míticos. O grandioso mito escatológico de Er. — E claro. mas. para preparar-se mates sem fim? — Creio que não. para sempre. na sua alma. porque o objeto que o causa é o objeto mais verdadeiro. ele se ocupará intensamente da ci dade que é a sua própria. ou seja. é a construção do homem divino 74. das quais acima já falamos. Esse prazer é também o mais veniadeiro (aliás. a verdadeira recompensa da virtude está no além Assim a vida segundo a política no Estado ideal garante a felicidade no aquém como no além. podemos. não viverá voltado para essas preocupações. mas talvez não na sua pátria se a isto não o ajudar uma sorte divina. e nem olhará a saúde nem dará grande importância a ser forte. nada disso. respondi. aparece também a partir de considerações ulteriores em torno ao prazer. a ele conformar-se a si mesmo. E pouco importa que ela exista e se alguma vez possa existir. se com isso não se torna também temperante. Platão aduz um último argumento no livro final da República. cuidará que excesso e escassez de bens nela não produzam desordem. A vida filosófica no Estado ideal é a vitória do elemento divino sobm o elemento animal que há no homem. tendo-o visto. — Pelo Cão. pois não creio que sobre a terra ela se encontre em algum lugar. que é o da parte racional da alma. queres dizer naquela cidade que fundamos e idealizamos. uma última verificação: o tempo que transcorre entre o nascimento e a morte é breve. — Mas. — Então ele recusará tomar parte nos negócios públicos. mas eles são. seguindo a política verdadei ra no nosso íntimo. na vida e depois da morte. continuei. Se o Estado verdadeiro não existe fora de nós. disse eu. A República platônica exprime fundamentalmente um ideal realizável (mesmo se historica mente o Estado perfeito não existe) no interior do homem. 590 d-e. se isso lhe vem à mente. disse ele Somente em tempos bem recentes o sentido dessa página pôde ser compreendido. seguirá essa norma no aumentar e no consumir as riquezas. 272 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 273 Como fecho dessa tese. disse ele. mas se preocupará sempre em cuidar da harmonia do corpo para mantê-la de acordo com a música da alma. talvez está no céu o modelo para quem deseje vê-lo e. com toda a clareza. também na aquisição das riquezas guardará ordem e harmonia? E não se deixando perturbar pela opinião vulgar de felicidade. respondi. segundo a sua capa cidade? — Perfeitamente. — Portanto. Cf. disse ele. com efeito. se não marginais. das que poderiam causar dano ao estado da sua alma fugirá em público e em privado. são e belo. Melhor que ninguém a compreendeu . não o abandonará ao prazer animal e irracional e. sendo ela decisiva sob muitos aspectos. República. somente dessa cidade e de nenhuma outra ele poderia ocupar-se. 589 d. Eis a página na qual Platão exprime. vale dizer. portanto. o único verdadeiro). é o ser e o eterno contemplados pela alma. no entanto. procederá assim se quiser ser verdadeiro músico. — Quanto às honras procederá da mesma maneira: participará e usufrui rá das que o tornam melhor. A felicidade não pode consistir senão na forma mais alta do prazer. que pretende ser uma contraprova definitiva. disse ele. O Estado no interior do homem A República platônica exprime um mito e uma utopia. pelos menos não-essenciais.A felicidade superior do homem que vive segundo a política do Estado perfeito. que não existe senão nos nossos discursos. não quererá que elas cresçam indefinidamente. IX. construí-lo em nós mesmos. Mas. mas no eterno e para o eterno 8. tendo os olhos voltados para a cidade que tem em si mesmo. isto é. honrando acima de tudo os conhecimentos que tornarão tal [ virtuosa] a sua alma e desprezando os outros. e o prêmio da virtude nesta vida é apenas relativo. esse conceito: — Portanto. disse. — Entendo. passará toda a sua vida dirigindo a esse fim toda a sua atividade. oferece assim o sentido último da política platônica: a verdadeira política é aquela que não nos salva apenas no tempo. quanto ao estado e ao sustento do corpo.

Nas subseqüentes obras políticas de Platão (o Político e as Leis). A Escola que Platão fundou tinha por alvo educar. mas privada da sua essência divina. torne-se estranho e tanto mais estranho quanto mais a sua vida se conforme com a política ideal. porque nele o homem de Estado (o filósofo) e a lei não podem encontrar-se estruturalmente em oposição. 77. II. a essência do Estado de Platão não está na estrutura externa — dado que possua uma — mas no seu núcleo metafísico. Mas. além do modelo do Estado ideal. e o próprio Platão declarou-o explicitamente realizável somente na dimensão espiritual (na nossa alma). ao considerar os homens e os Estados como são efetivamente. 591 c-592 b. Mas sobretudo deve salientar-se o fato de que Platão não parece ter tido consciência do alcance da afirmação sobre a qual discutimos. que esperavam encontrar na República um manual de ciência política que tratasse das várias formas constitucionais existen tes. somente em parte isto é verdade. fonte da sua perfeição e beatitude” E natural que. tentaram repetidas vezes encontrar aqui e ali. De outra parte. o cidadão que vive a política da Cidade ideal. mas o como ele é efetivamente: um Esta do. pergunta-se se será melhor situar o homem de Estado acima da lei ou. 608 c ss.Jaeger. pontos de referência mais realistas. 621. sem dúvida. Platão amadureceu o desenho do “se gundo Estado”. na idéia de reali 75. Não é possível realizar a república de Platão imitando a sua organização externa. Justamente para responder a essas exigências. O HOMEM DE ESTADO. Jaeger considera que tal idéia seja “o produto da dissolução da unidade grega do in divíduo e da cidade” e que não seja senão “a consciência realizada da situação real do homem filosófico tal como a ele (i. a Idéia do Bem. E claro que no Estado ideal da República tal dilema não tem razão de ser. portanto um dualismo. do Estado que vem depois do Estado ideal: um Estado que. O Político assinala a primeira fase desse trabalho de mediação da política ideal com a realidade histórica. 274 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL dade absoluta e de valor sobre a qual é construído. na medida em que a lei não é senão a maneira com que o homem de Estado realiza na Cidade o bem contem78. retorna soberanamente a unidade grega do indivíduo e do Estado: somente no pensamento helenístico terá lugar a ruptura definitiva dessa unidade. a Platão) vinha tipicamente configurando-se na vida e na morte de Sócrates” Na realidade. Cf. depois da grandiosa construção do Estado ideal? A resposta é simples se tivermos presente. à diferença do primeiro. homens políticos. Jaeger. Por conseguinte. X. devese notar que a visão ultramundana que Platão foi buscar no orfismo desempenhou um papel não menos importante do que a vida e a morte de Sócrates em levá-lo a essas conclusões. Platão. 622. quem conseguiu atuar essa ordem divina na sua alma individual trouxe uma contribuição maior à realização do Estado platônico do que quem edificasse uma inteira cidade externa mente semelhante ao esquema político de Platão. leva em conta não somente o como o homem deve ser. chegando mesmo a recuar. pela primeira vez a idéia do cidadão das Duas Cidades. 79. no Estado histórico. as finalidades da Academia. sobre esta terra. tanto assim que não continuou por esse caminho e não tirou dessa sua poderosa intuição as conclusões que se impunham. os tempos não estavam ainda maduros para que fosse aprofundada a intuição das duas Cidades (terrena e celeste) e do homem como cidadão de duas Cidades. Paideia. República. mas somente cumprindo a lei do bem absoluto que constitui a sua alma. 618 c ss. indicações historicamente mais realizáveis e que a problemática política fosse reproposta em outra ótica. da cidade terrestre e da cidade divina. II. Repúbl X. Era necessário que o filósofo oferecesse. Nasce aqui. que possa mais facilmente encarnar-se na história. Cf. República. Ibidem. no Político. que escreve: “Intérpretes antigos e modernos. o Estado platônico e o identificaram nesta ou naquela forma real de Estado que parecesse mais próxima a ele na sua estrutura. p.é. ao contrário. 276 PLATÃO E A DESCORERTA DO SUPRA-SENSÍVEL . em suma. Buscando a definição do homem de Estado e da arte do estadista. 80. de modo particular. Jaeger. A LEI ESCRITA E AS CONSTITUIÇÕES 1. pôr a lei como soberana. III. Paideia. homens formados de um modo novo para um novo Estado. p. IX. que culmina com as Leis. ou seja. No entanto. O problema do Político O que poderia dizer-nos ainda em matéria política o nosso filó sofo. essencialmente. 76. A atuação histórica do ideal dese nhado na República era impossível.

o rei. de fato. como o pouco que se encontra no meio entre o uno e os muitos. aquela que unicamente é reta e verdadeira forma de governo. No Político. como acreditamos. 278 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL O HOMEM DE ESTADO E AS CONSTITUIÇÕES 279 conhecem freio é na democracia que é mais fácil viver. convém bem observá-lo. ao mesmo tempo. reconhece que homens dotados dessa virtude e conhecimento não somente são excepcionais. As formas possíveis de constituição O reconhecimento realista do princípio sobre o qual acima fala mos aristocracia. quando não nasce. e não acarreta muito de bom nem de danoso em comparação com as outras formas. temos a . Sócrates. o governo da multidão nós o chamaremos fraco sob todos os aspectos. um rei na cidade. temos a monarquia. 30! d. nasceram o tirano. afirmamos. 2. distri buir com eqüidade a todos o que for justo e santo. com efeito. acima da lei que é sempre abstrata e impessoal e. 300 c ss. mas. muitas vezes não ade quada. porque nele o governo está pulverizado em pequenas frações. a aristocracia torna-se oligarquia. surge daqui o problema acima enunciado. a aristocracia e a democracia. no Estado histórico. a lei não é respeitada. nascem três formas correspondentes de constituição corrompida: a monarquia torna-se tirania. o Jovem — Receio que sim. Se. Essas três formas de constituição são justas na medida em que quem governa respeita as leis e os costumes. Cf. temos a democracia. justamente porque não pode existir a perfeita forma de governo que. como nasce nas colméias. Sócrates. Político. antes. mas das que são contra a lei é a melhor. Político. ultrajar. o critério da legalidade e da ilegalidade divide cada uma em duas partes. se nascesse um rei como nós o descrevemos. querendo-o. é necessário que nos reunamos e formulemos códigos escritos seguindo. na República. Pois que. o Jovem — E como não? Estrangeiro — Ora. porque os homens não suportaram o governo daquele ónico e duvidaram que pudesse um dia nascer alguém digno de tal cargo que quisesse e fosse capaz. Sócrates. a menos pior (uma vez que se trata de “imitações”) e qual a pior? Qual é a mais suportável e qual a mais insuportável? Eis a resposta de Platão: Estrangeiro — A nós que então buscávamos a forma correta [ a constituição ideal] essa divisão particular [ a divisão segundo a lei e contra a lei] não nos era ótil. Se é. No Político. ao invés. Estrangeiro — Portanto a monarquia. não existem. porém. as coisas não podem caminhar dessa maneira: não existem os homens de Estado tais como deveriam ser para realizar esse ideal. e se todas não 3. como vimos. de acordo com o raciocínio agora feito. Estrangeiro — O governo de alguns poucos. Se é o povo inteiro que governa e procura imitar o político ideal. qual é a melhor ou. exigiria a existência impossível de um homem extraordinário. vinculada a bons textos que se chamam leis. a oligarquia. a supremacia deve ser da lei. os traços da mais verdadeira forma de governo 2. por isso. ele seria aclamado e regeria e governaria felizmente. sem lei é má e a mais insuportável para se viver nela. As constituições históricas são “imitações” da constituição ideal Se somente um homem governa e imita o político ideal.piado no Absoluto. no Estado histórico. se demonstra que elas são necessárias O HOMEM DE ESTADO E AS CONSTITUIÇÕES 277 e possuem uma validez própria. Entre essas constituições históricas. ao que parece. mas. Platão não renuncia ao seu ideal e insiste na tese de que a forma melhor de governo seria aquela de um homem que governasse com “virtude e ciência”. e a democracia toma-se democracia corrompida (dínamos hoje demago gia). maltratar e matar a qualquer um de nós. Por isso. que logo se destaque no corpo e na alma. é a melhor de todas as seis. entre muitos. 301 c-e. Mas. Mas agora que deixamos a primeira e estabelecemos as outras como necessárias. governando com virtude e ciência. foram apresentadas como formas patológicas do Estado. de todas as formas legais esta é a mais infeliz. temeram que pudesse. ao invés. mas se são bem ordenadas é nela que menos convém viver. nós o consideraremos como inter mediário entre uma e outra. mas. e há necessidade de elaborar constituições escritas invioláveis: Estrangeiro — Assim. a classe dos ricos que governa e imita o polítíco ideal. Político. na primeira está o comportava uma reavaliação das diversas formas de constituição que. 1. o Jovem — E o que parece. de modo que.

por sua vez. com o que é oportuno. o Jovem — Isto é exato. enquanto a primeira é atividade de persuasão. Político. na rea lidade. Político. 280 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL conveniente fazer a guerra de preferência a manter a paz. Assim a retórica se distingue da política porque. Há porém a medida “segundo a essência que é necessária à geração” ou seja. com o que é dever-ser. e é uma medida de caráter matemático. 6. 305 d. 302 e-303 b. Sócrates. o outro também não poderá existir. com respeito aos seus contrários. a largura. 8. não existindo um ou outro desses termos. mostram-se subsidiárias e subordinadas a ela. Quanto ao fato de que. a profundidade. Sócrates. agora. longo-curto. e com tudo que tende ao justo meio. uma clara supera ção do pita gorismo. mas também com respeito à produção da medida justa? Porque não é possível que possa existir nem político nem qualquer outro indiscuti velmente competente nas suas ações se não admitirmos isto.primeiro e maior bem-estar. as artes exis tem. se ela existe. o dever. é porque nisto vinha dar o nosso raciocínio. enquanto a atividade do político estabelece a lei . mas também com respeito à produção da medida justa. da filosofia. segundo o que foi dito: de um lado colocando todas as artes que medem o número. conforme a tendência geral do diálogo. A introdução desse segundo gênero de medida constitui. acaso não será necessário obrigar o mais e o menos a serem. mas o que se segue daí? Estrangeiro — E evidente que distinguiremos a arte da mensuração em duas partes. 283 e 7. mensuráveis não somente nas suas relações recíprocas. Há a medida que tem como base a relação recíproca de grande-pequeno. como Platão teve o cuidado de sali entar expressamente: Estrangeiro — Ora. fugindo dos extremos Aplicando essa distinção fundamental (aplicável. porque a primeira se limita a aplicar a lei. 283 d. como é óbvio. a segunda é atividade que decide se é ou não conveniente persuadir (ou usar a força) e por isso é não somente diversa. a espessura. a medida que tem como base o “justo meio” ou a “medida justa” (Tà lÂéTpIov) a saber. a todas as artes) de modo específico à arte do político. parece-me que ajude a demonstrá-lo magnificamente o seguinte argumento: é necessário admitir que todas as artes existem igualmente. Político. uma tarefa ainda maior do que a outra — e nos lembramos o quanto era longa! — Mas. mas não em decidir se é ou não 4. porque se refere a valores ideais (a qualidades) e não a puras quantidades. Com efeito. o Jovem — Qual? Estrangeiro — Que alguma vez teremos necessidade do que acaba de ser dito para podermos proceder à demonstração da exatidão absoluta. No Político ela é definida de maneira mais específica. as Idéias ou essências das coisas. O “justo meio” e a arte política Na República. agora se deve fazer o mesmo da melhor maneira possível! Estrangeiro — E é esta. e que o maior e o menor devam medir-se não somente nas suas relações recíprocas. com a introdução do “não-ser” como “diverso”. 284 b-e. Sócrates. aquela afirmação esteja bem e suficientemente demonstrada. excetuada naturalmente a sétima [ a forma ideal]. Cf. Também a atividade dos juízes é di versa da política e a ela subordinada. desse modo. Pois esta última deve ser separada de todas as outras formas como um deus é separado dos homens 3. 5. Sócrates. em geral. que se valem de dois critérios fundamentalmente diversos. portanto. excesso-defeito. de outro as que realizam essas medidas na sua relação com a medida justa. a medida justa também existe. diremos que ela tem como objeto o justo meio. as artes também existem. ora. decisão que pertence justamente à política. o Jovem — Portanto. mas superior. de uma série de atividades conexas com a política. o oportuno. com relação à nossa tese presente. com o conveniente. Há dois modos de proceder na medida. inteiramente análoga à que foi levada a cabo com relação ao eleatisrno. que se ocupa em fazer e vencer a guerra. talvez da mesma maneira com que no Sofista fomos obrigados a reconhecer que o não-ser. assim também. mas que. o comprimento. o conveniente nas esferas mais importantes da vida da A atividade do político distingue-se perfeitamente. e essa é uma medida que poderemos chamar axiológica. Político. Um raciocínio análogo vale para a arte da guerra. a ciência do político coincidia com o conhecimen to supremo do Bem e das Idéias e. logo. ao menos será legítimo fazer a propósito a suposição seguinte. Político.

os homens podem ser divididos segundo dois temperamentos opostos e duas virtudes opostas: de um lado os mansos e temperantes. por meio de matrimônios oportunamente combi nados. o primeiro Estado. levando-se em conta a imponente soma de conhecimen tos. Com efeito. E dito que o próprio Platão fosse solicitado a redigir leis para Megalópolis e. nem a lei nem ordenamento algum valem mais do que a inteligência. o seu testamento político. não será necessário que haja leis que exerçam soberania sobre ele. em razão da sua finalidade prática. Elas não somente traçam um desenho geral do Estado. 306 a ss. mas somente a suma daquilo realizável dentre aquelas instâncias. O nó divino é o conhecimento dos valores supremos. dando-lhes uma única força e impondo-lhes um único selo. 11 Político. Com efeito. 282 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL O “SEGUNDO ESTADO” DAS LEIS 283 quando o tenha conhecido]. estabelecendo como soberanas as leis: Se. na medida em que é concedido a uma cidade ser feliz. pela sua natureza. fornecendo um modelo quase com pleto de legislação de uma Cidade. livres e servos. consiste em fazer com que. O político deve justamente saber har monizar esses temperamentos opostos como se compusesse uma tela ou um tecido usando fios macios e duros. de outro os audazes. de sorte a não omitir nada que possa contribuir para o alvo proposto IV. a necessidade de recuar para uma concepção mais realista. porém. e seja efetivamente livre. mas penetram nas suas particularidades. mas que governe sobre tudo. como já no Político. com efeito. como já em parte explicamos. é necessário adotar a segunda alternativa. sob mais de um aspecto. de grande valor. 10. por uma sorte divina. como grupo reconhecido de pentos em jurisprudência. levando a bom fim a mais magnífica e a mais nobre das telas e com ela envolvendo todos os homens nos Estados. que vêem e contemplam o que acontece mais freqüentemente. que ela supõe. No tecer essa tela. o fim da tela da ação política: a boa textura da índole dos valorosos e dos temperantes. As Leis pretendem justamente oferecer tal exemplo”. Taylor: “ No século IV a Academia. Cf. 1. a melhor constituição e as leis mais excelen tes se encontram lá onde se realiza em toda a cidade e da melhor maneira possível o antigo provérbio. governando-a e administrando-a. Era desejável que aqueles a quem acaso fosse dirigido o convite para fazer leis tivessem sob a mão um exemplo do modo de como essa tarefa devia ser levada a cabo. as Leis são sem dúvida obra de grande importância e. recorrer à ordem e às leis. as naturezas opostas se conjuguem. nem corresponde à ordem das coisas que a inteligência seja sujeita ou escrava de quem quer que seja. Platone. que amansa as almas audazes e torna sensatas as almas mansas e une umas e outras com relação ao belo e ao bom numa só opinião. por isso. com um “nó” humano. já que se apóia sobre a verdade. de modo que os tempera mentos opostos venham a se equilibrar também do ponto de vista biológico Eis as conclusões do diálogo: É este. mas. mantendo-os unidos nessa urdidura e. vier a nascer um dia um homem capaz. isto é. deixaram bem claro as razões pelas quais Platão se submeteu às extenuantes fadigas que tal obra implica. O nó humano. As modernas reconstruções historiográficas. foi continuamente solicitada a prestar o mesmo serviço [ de leis]. pp. Cf. ele fixará a parte divina do homem (ou seja. por exemplo. 718s. também. Taylor. Escreve. a alma) com um “nó” divino e a parte animal (o corpo). que Platão julgava imediatamente Assim a concepção do rei-filósofo e do Estado dirigido por tal ho mem permanece o ideal expressamente reiterado. Hoje. de satisfazer a essas condições [ de conhecer o que é útil à convi vência política dos homens. também de caráter jurídico. isso não se realiza em parte alguma nem de nenhuma maneira. 31 1 b-c. por sua vez. senão em medida bem reduzida. 304 a ss. valorosos e fortes. Político. conforme à sua natureza. justa mente. A finalidade das Leis e a sua relação com a República As Leis são a última obra de Platão e. mesmo que se reconhe ça ao mesmo tempo.Mas o político busca a medida justa ou o justo meio sobretudo na atuação da sua tarefa fundamental que é construir a unidade do Estado partindo de elementos heterogêneos e mesmo opostos. mas não podem ver e contemplar tudo É expressamente confirmada a superioridade da vida comunitária e confirmados também os pressupostos teóricos implicados pelo “co munismo” platônico: Assim. Político. quando a arte real torna comum a sua vida com vínculos de concórdia e de amor. Desse ponto de vista. O “SEGUNDO ESTADO” DAS LEIS 1. e de querer e agir sempre da melhor maneira 9. muitos dos seus companheiros se prestaram a essa tarefa para muitas novas cidades. diz esse provérbio que entre amigos tudo é . embora tivesse ele decli nado do convite. não são a suma de todas as instâncias políticas de Platão.

Num tal Estado. V. ela concede mais ao maior. assim confere honras sempre maiores aos que possuem maior virtude. sendo verdadeiro. orelhas e mãos. V. enquanto for possível. como não está bem claro qual seja a igualdade capaz de produzir tal efeito. “vem como segundo” depois do original “que é primeiro” Por esse motivo. por isso. isto é. comuns todos os bens e que. de ordinário. a outra democracia. ser chamada monarquia. como antes dissemos. de fato. Ora. 4. Leis. A constituição que Platão propõe nas Leis como a mais adequada é uma “constituição mista” que une as vantagens da monarquia com as da democracia e elimina os seus defeitos: Entre as formas de governo. só descendo aos pontos porticulares uma exposição das Leis pode adquirir seu justo relevo.comum. 5. Leis. seja a ele semelhante 2. ao constituir o Estado que agora estamos fundando. de peso e de número e qualquer Estado ou qualquer legislador pode introduzi-la na distribuição das honras. 739 b. pouco a pouco o povo foi levado a uma servidão extrema (daqui nasceu uma forma de absolutismo tirânico). são quase opostas: uma consiste na igualdade da 2. e que. e é justamente em razão da igualdade e da desigualdade que as sedições tomam-se freqüentes nos Estados. menos ao menor. seja entre os particulares. Leis. 739 a. V. 875 c-d. Leis. tendo neste fixo o olhar. diz algo muito justo e que corresponde à boa ordem. o que somente pode ser feito em trabalhos nionográficos. se há leis que tornem o Estado uno na medida maior que for possível. de modo a parecer que se vê. mas pela igualdade propor cional: Os servos e senhores nunca serão amigos e nem mesmo homens de pouca valia e homens de valor se a lei lhes conferir as mesmas honras. 111. concede proporciona imente o que a eles pode caber. 7. Leis. e não é preciso procurar em outra parte o modelo de um Estado. com efeito. produz toda espécie de bem. e quem quer que no futuro pense fundar um outro. Realmente o antigo provérbio de que a igualdade produz amizade. isso nos embaraça bastante. fixando sempre o olhar nessa espécie de igualdade. 739 b-e. 693 d-e. além disso. 284 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL medida. Com efeito. que as mulheres sejam comuns. se existe em alguma parte. mas. mas esse pouco que dela se encontra. mas aos que. Nisso justamente consiste para nós a política e a justiça em si para a qual devemos tender. Aqui devemos nos contentar com subli nhar dois pontos importantes. A liberdade absoluta (anarquia) vale menos do que uma liberdade dosada e bem regulada A liberdade harmonizada com a autoridade é a “justa medida”: e a justa medida não é dada pelo igualitarismo estreito. é absolutamente necessário que o governo participe de uma e de Outra dessas formas [ O Estado que mostrou um amor excessivo pela monarquia e o que fez o mesmo pela liberdade. com razão. Ela é o julgamento de Zeus e. se ouve e se age em comum. bastando utilizar a sorte. no entanto. na medida em que se pode dizer que delas derivam todas as outras. Alguns conceitos fundamentais das Leis O Estado das Leis é como que uma cópia do modelo original e. ninguém que queira atribuir um outro fim à extraordinária vir tude dessas leis poderá atribuir-lhes outro melhor e mais justo. quanto for possível. há duas que são como mães. mas sempre a justiça ou. 6. na Grécia ele foi conduzido a uma extrema liberdade (assim. duas espécies de igualdade que levam o mesmo nome. com efeito. Deuses e os filhos de Deuses nele habitam numerosos e a vida é plena de alegria e de felicidade. a igualdade entre desiguais torna-se desigualdade se falta a medida justa. por todos os meios seja banido da cidade tudo o que se diz privado. e que. e que experimentem alegrias e dores pelas mesmas coisas. deve ter em vista a mesma meta. e. Há. se consiga tomá-las de alguma maneira comuns. I 698 a-b. a mais alta expressão da primeira se encontra na Pérsia. a demo cracia tornou-se demagogia). buscar com todas as forças o que. pois. que isso aconteça hoje ou que venha a acontecer um dia. tX. dela bem pouco se encontra entre os homens. quanto à vir tude e à educação. Seja. Dessas duas formas uma pode. a segunda entre nós. nem um nem outro souberam conservar a justa medida [ Na Pérsia. também as coisas que por sua natureza são próprias de cada um como olhos. mas há outra que é a verdadeira e perfeita igualdade e que não é facilmente conhecida por qualquer um. em resumo. estabelecer entre os desiguais a igualdade que é segundo a natureza . mas que. quase todas as outras derivam dessas duas por efeito de combinações variadas. 739 e. comuns os filhos. seja na administração pública. ou a soberania do povo. todos os cidadãos louvem e censurem enquanto for possível em comum. Leis. Cf. com efeito. se encontram no caso oposto. não já o interesse de uns poucos ou de um só. para que num Estado haja liberdade e concórdia acompanhadas de sabedoria. dando a um e a outro em medida correspondente à sua natureza. 3. em numerosos casos.

1218 a 15-28 (Krãmer. uma dos pobres outra dos ricos. a faz tomar-se “muitas em vez de una”. uma inimiga da outra. fala-se de “muitíssisnas cidades e não uma cidade”. no qual Platão não somenté apóia seu raciocínio sobre os Princípios Uno-Muitos. Leis. por sua vez. a partir do que explicamos nas partes precedentes. VII.. trazendo unidade. — Por quê?. sabemos que o verdadeiro político. tendo visto e contemplado o Bem em si. No início da parte decisiva desta passagem. 2. impõe-se. Vt. 517 c. afirmando explicitamente que o “bem máximo” para uma Cidade é o que a prende conjuntamente e a torna “una”. encontrarás muitos que parecem tão grandes e mesmo muitas vezes maiores do que o nosso. 37. ordenamento e estabilidade e medida a todas as coisas. 26). 3. como tais. como se diz por brincadeira. E teu Estado. 26ss. e mesmo as pessoas. Test. Pia!. 34 . será o maior de todos. tão grande Estado uno não o encontrarás nem entre os gregos nem entre os bárbaros. Protréuco.Em geral a “justa medida” domina as Leis do começo ao fim. Leis. enquanto for governado com sabedoria. portanto. fr. Jâmblico. vem a ser. “a medida de todas as coisas é Deus” V. o problema final: que políticas. torna-se fácil a resposta. e sobre as quais concentra mesmo a sua obra-prima. E em cada uma dessas duas há. disse ele Platão exprime esse conceito de maneira em certo sentido mais acentuada e com algumas expressões de eficácia verdadeiramente extraordinária. na 4. 286 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL POLÍTICA E PROTOLOGIA 287 Eis um texto muito significativo. muitíssimas. depois das explicações que já fornecemos sobre os nexos exatos que há entre os fundamentos metafísicos da República e a protologia. 422 e-423 b. a Cidade boa será aquela na qual predomina a unidade em todos os níveis. o Princípio antitético ao Uno. duas. 6. 9. ao passo que o “mal máximo” é o que divide a unidade e. o qual é Medida de todas as coisas. Com efeito. A COMPONENTE POLÍ11CA DO PENSAMENTO PLATÔNICO E SUAS RELAÇÕES COM A PROTOLOGIA DAS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” Depois de nossa ampla exposição das temáticas que constituem a componente política do pensamento platônico. cada uma das outras é não uma. 8. com as “Doutrinas não-escritas”. mas liga mesmo o Muito com o Dois (com a mais evidente alusão à Díade): És bem afortunado. o verdadeiro político ordena e proporciona. disse ele. tra zendo a todos os níveis justamente a unidade-na-multiplicidade. ou seja. para nós homens. Este é um ponto em geral mal entendido. mais ainda. não digo por fama. mas muitíssimas cidades. enquanto a Cidade não boa será aquela na qual predomina a multiplicidade. bem como para realizar a ordem em si mesmo como cidadão privado Sabemos. E o Uno-Bem é causa de todas as coisas retas e boas. riquezas. com efeito. República. se. mesmo que não tenha senão mil defensores. ver Aristó teles. o escritos. República. Platão revela seu fundamento especificamente teológico afirmando que. Ou pensas diferentemente? Não. De fato. Sabemos que o Bem é “causa de todas as coisas retas e belas”. IV. Com efeito. Em primeiro lugar há em todo o caso. Sobre este tema e os seus nexos com as “Doutrinas não-escritas”. Pistelli Aristóteles. dele deve servir-se como “modelo” com o fim de dar “ordem ao Estado”. com a doutrina dos primeiros e supremos Princípios? Ora. 5 Ross (Gaiser. todas as coisas são boas justamente porque “definidas” e “ordenadas” e. Eis a passagem que constitui. A 8. como acaba de ser estabelecido. poder. e se as tratares como se fossem uma errarias comple tamente. por Zeus. unidade-na-multiplicidade Por conseguinte. IV. Conseqüentemente. cap. se pensas que o nome de Cidade possa ser dado a qualquer outra que não seja àquela que estávamos construindo. ao invés as tratares como muitas dando a uns o que pertence aos outros. além disso. pp. 540 a-b. Etica Eudémica. mas o maior em verdade. e se acrescenta: “Como se diz por brincadeira”. 757 a-d. — Porque é preciso chamar as outras com um nome maior. Protrético. que o Bem é o Uno. sobre as quais Platão discorre relações têm as tão ampla mente doutrinas nos seus Krãmer. VII. implicam estabilida de. 1. 25). República. terás sempre muitos aliados e poucos inimigos. disse eu. 716 e.

das mulheres. justamente por escrito!) aquele que prende e harmoniza as suas várias faculdades e tudo o que a elas está ligado. não permitir que alguma parte dentro dele exerça oficios próprios de outras. justamente. para a organização da Cidade. nem que os gêneros diferentes que há na alma [ três partes da alma] se entremetam um no que pertence ao outro. afirmemo-lo! .grego Tb T(SV 1Tat é interpretado “como acontece no jogo das iróXttç”. ação injusta a que dissolve essa ordem. se ordene. no teu e no seu e perder-se a multiplicidade (na desordem dos egoísmos) que dela em vários sen tidos deriva. assume um significado perfeito. entende-se perfeitamente que o homem justo por excelência. que apresenta tal interpretação. em lugar de uma ( 1 faz dela muitas (iroXÃâç)? Ou um Bem (c maior do aquele que a prenda e a torne una (8 âv ouvS xc TrOL iikw)? — Não. que consiste no T QUTO TrpáTTEIV). e exprimindo com perfeita alusão jocosa as verdades protológicas últimas. porque não se vê absolutamente qual possa ser a aplicação de tal provérbio”. mas às ações internas que se referem a ele mesmo e às coisas que lhe pertencem. o baixo e o médio. que acima já explicamos com argumentos de natureza diversa. — E poderemos ter um mal maior na Cidade do que aquele que a divide e. ou para os negócios da cidade. ou para o cuidado do corpo. segundo a ótica henológica que já conhecemos bem. das mulheres. que atua na sua essência a justiça. Entretan to. é menos provável. E o trocadilho seria este: o Tr6XLÇ àÀÀlx Tr6ÀEIS. 462 a-b. e “sapiência” vem a ser a ciência sobre a qual esse uni ficar estruturalmente se fundamenta. a recusava por estes motivos: “Esta segunda interpretação. V. e ignorância a opinião falsa que preside à ação injusta. ou para os negócios particulares. 1TÓXEÇ. ao que me parece. mas que ele estabeleça verdadei ramente ordem no seu interior. entendido como acusativo plural épico de TroÀú Fraccaroli (Pia tone. a saber. nota 1). não apenas uma alusão. mas que não diz respeito às ações exteriores das faculdades do homem. por Zeus! — Então. da realização da unidade entre os homens: nada. e qual o máximo mal (ltlytoTov xaxóv) e ver se o que agora tratamos pos coloca nas pegadas desse Bem (T T0i1 àycxi3o ixvoç) e nos afasta das pegadas do mal? — Exatamente. o mais alto. Em tudo isto julgará e chamará ação justa e bela a que conserve esse estado e coopere com ele. — Nada mais verdadeiro do que o que dizes. o sentido exato é “como se diz por brincadeira”. e tomado amigo de si mesmo e postas de acordo as três partes da alma como se fossem três sons da harmonia. mas quase um trecho explícito sobre os conceitos esotéricos: Não é esse. centrando. p. nos perguntarmos qual seja. dos filhos. Em conseqüência. doravante opere como deve operar ou para adquirir riquezas. verdade. deverá dividir-se no meu.1 x iToXÀc temperante e harmônico. a justiça era algo semelhante. 171. ademais. e outros intermediários entre estes. República. a essência metafísica do justo e da justiça consiste em fazer a unidade na mul tiplicidade. que faz somente aquilo que lhe compete (ou seja. verdadeiro programa: — Na verdade. 5. na ótica da interpretação que sustentamos. seja chamado por Platão (e mais ainda. deverá reunir-se no “nosso” que traz unidade na multiplicidade em sentido global. devemos afirmá-lo? — Sim. de modo a “tornar-se um composto de muitos”. não poderemos Esta última passagem introduz expressamente a complexa temá tica da comunidade dos homens. tenha o mando sobre si mesmo. Assim. o máximo bem (Tà yIoTov ?xya para o qual o legislador deve voltar o olhar para estabelecer leis. dos filhos e dos bens é concebida e apresentada por Platão como uma das formas mais elevadas de unificação. — Não. ao contrário. uma espécie de jogo no qual vários pedaços seriam chamados. o ponto do qual devemos começar para nos pôr de acordo. no Estado perfeito. — Bem. se então afirmássemos ter encontrado o homem justo e a justiça que deve residir nele. sobre o plano henológico das “Doutrinas não-escri tas” toma-se ainda mais claro. Florença 1932. tudo. ou seja. a saber. ligados juntamente todos esses elementos e feito inteiramente um composto de muitos ( yeuóI. mas que. 288 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL POLÍTICA E PROTOLOGIA 289 Eis o texto.se exatamente sobre a temática do uno e do múltiplo. ou lroÀETç. e dos di versos bens. disse ele. La Republica. Sócrates. ao invés. respondi. a comunidade dos ho mens. não creio que estaríamos dizendo uma falsidade. então. Ao invés. Com efeito. e sapiência o conhecimento que preside a essas ações e.

possui a ciência e o poder de dissolver o Uno em Muitos e de reconduzir os Muitos ao Uno. é necessário ler e meditar tod o trecho 902 d-904 d.. pp. considerado na sua singulari dade. mesmo na maneira com que é exposta no Político e nas Leis. portanto. desenvolver muitas ativida des. justamente. 290 10. com as “Doutrinas nãoescritas”. prevalecem sobre a Unidade Não menos evidentes são os nexos que a problemática política mostra. Kràmer. 118-145). PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL Lembramos. cf. num diálogo denominado justamente Po lítico e inspirado no homônimo Político de Platão. segundo a medida justa. remete à dimensão da oralidade dialética de modo muito claro. ao mesmo tempo. Timeu.. uni-ficando as suas potencialidades e atividades. misturando justamente os extremos e prendendo-os com vínculos ao Belo e ao Bem. em função da Medida perfeitíssima. fr. ou seja. para concluir.. é 68 d. como Plat n somente no-lo diz no Timeu. desordem e excesso que. 9. 443 d-444 a. Platone pp. Para entender bem a passagem. Nas Leis. um homem só não pode realizar bem muitas artes e. encontra uma expressão emblemática na afirmação que conhecemos bem. E a justa medida. da mais alta à mais baixa. Reale. a passagerr das Leis é X.mente o seguinte: E. justamente.. IV. E propriamente essa capacidade de produzir a unidade-na-multiplicidade que permite ao político realizar a “mistura”. uma somente). ruas. não somente a comunidade civil realiza o Bem atuando a Unidade. e justamente em todos os trechos que lemos. na sua essência. um modo de ser uno que deriva da unidade originária. 716 c. uma sigla de ouro. E exatamente com essa mensagem (a realidade política como mistura dos opostos em função da Medida) que o diálogo ter mina na passagem acima citada. aquele grande “tecido” que constitui a sociedade política. Com efeito. O próprio Aristóteles. diz-nos expressa. atua em si o Bem realizando-se de modo unitário. vem à tona esses mesmos conceitos da “constituição mista” e do “meio entre os extremos” que possuem nexos estruturais essenciais com a protologia.TOXX Ei v ouyxEpczvvúvcx xa Trc’sÀtv vàç iç rroXX aÀt’JE xcxv rnoTá & XcIi 8uvcx-róç. e jamais o saberá no futuro”. que inspira fortemente todas as Leis. Político.nd. pouco a pouco. da qual Gaiser deu excelentes explicações in: Platone coou scriftore. novamen te.Portanto. como vimos. se gundo a qual “Deus é a medida de todas as coisas” 7. na verdade. são desenvolvidos os conceitos de “justo meio” e de “justa medida” que são. QUINTA SEÇÃO CONCLUSÕES SOBRE O PENSAMENTO PLATÔNICO [ 6 1 T . 1 46ss. E a Medida perfeitíssima é exatamente o Uno. que Deus é medida de todas as coisas porque. A própria virtude. vem a ser. xv1 . 379-385. 2 Ross. ç qxxatv. Arete. da Medida suprema que é o Uno. No Político. assim. uma fundamentação radical desses conceitos implica uma demonstração da exatidão absoluta. um selo aposto em conclusão ao pensamento de Platão. também pp.. unidade-na-multiplicidade. enquanto o vício é chamado “infinito” nas suas formas (exata mente como é infinita a Díade). A passagem do Timeu. onde afirma que o governo divino do mundo acontece plasmando [ muitas coisas de uma e uma de muit Essa é. 8. Em conseqüência. é designada como somente uma. Leis. 903 e-904 a. dissolvê-las de uma em muitas. mas também cada homem.ti-a. já outras vezes evocada por nós. E na sua gama completa as consti tuições políticas se sucedem. Aristóteles. 68 d ó Sf i 1 1rc XPfl T âV e’ Ic xai lTo7ui XÀou f ITO TLç. homem al gum sabe fazer no presente nem uma coisa nem ou. 83-118 (cf. isto é. ou seja. mas “somente uma” (um. v6pc O O TOÚTC ixavà O OT1 V oCrt-E eiç a TroTe CT [ Deus possui a ciência e. vale dizer. pp. justamente com um progressivo predomínio da “multiplicidade” que comporta desigualdade. Platão. IV. mas como torna a repeti-lo também nas Leis. 6. O justo meio e a ordem (como doravante já bem o sabe mos) são uma unidade-na-multiplicidade e.] o Bem é a medida perfeitíssi. República. o poder para misturar muitas coisas na unidade e....

o sol. disse eu. concluímos com ele a ex posição e interpretação do seu pensamento. Variazioni da P/atone ad oggi. alguns dos carregadores falem e outros permaneçam em silêncio. — Estou vendo. de um estranho quadro e de estranhos prisioneiros. representa-te. e figuras de homens e de animais feitas de pedra e madeira. que aquelas sombras fossem a única e verdadeira reali dade. O “MITO DA CAVERNA” COMO SÍMBOLO DO PENSAMENTO PLATÔNICO EM TODAS AS SUAS DIMENSÕES FUNDAMENTAIS No centro da República. disse ele. figurando todo o tipo de coisas existentes. se assim fosse. numa caverna. Imaginemos homens que vivam numa habitação subterrânea. madeira e outros materiais. Nápoles 1985. ver K. ele simboliza tudo isto e também a política platônica e hoje estamos em condição de reconhecer igualmente as vigorosas alusões de caráter protológico que ele apresenta de maneira muito poética: é o mito que exprime todo Platão e. finalmente veria o sol e entenderia que são essas as verdadeiras realidades e que o sol é a causa de todas as outras coisas. passam homens carregando utensílios de todo tipo que excedem a altura do muro. Pois bem. O mito foi sucessivamente visto como símbolo da metafísica platônica. mais que tudo. Sobre OS influxos desse mito sobre autores antigos e modernos. la. V 514 a ss. de modo que. Suponhamos agora que alguém arraste o prisioneiro para fora da caverna. com uma escarpada via de acesso ao interior. a medida de todas as coisas. além disso. também com muito esforço ele conseguiria acostumar-se à nova visão que teria diante dos olhos. e também da ética e da ascensão mística segundo Platão. inteiramente ocultos por ele) passem conti nuamente homens que trazem sobre os ombros estátuas e objetos esculpidos em pedra. — Eles são semelhantes a nós. Antes de tudo. habituando-se. Imagina ver homens encerrados numa habitação subterrânea em forma de caverna. . aprenderia a ver as próprias coisas. assim. livrar-se das cadeias. Ora. sem poder virar a cabeça por causa das cadeias. Imaginemos ainda que seguindo a largura da caver na haja um pequeno muro da altura de um homem e que.T 294 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL O MITO DA CAVERNA 295 pertencentes àquelas sombras. imaginemos que a caverna possua um eco e que os homens que passam atrás do muro falem entre si. entre os prisioneiros e o fogo corre um caminho elevado e ao longo dele um pequeno muro. Gaiser. e todo tipo de formas. Finalmen te. primeiramente ele ficaria ofusca do com a grande luz e depois. veria as estatuetas movendo-se aci ma do muro e entenderia que elas são bem mais verdadeiras do que as coisas que antes via e que agora lhe aparecem como sombras. algum homem” Platão. que atrás desses homens ‘ esteja aceso um grande fogo e fora. li paragone dei/a caverna.d. e imaginemos que os moradores dessa caverna estejam presos pelas pernas e pelo pescoço de modo que não podem voltar-se e. Então. na verdade. no alto. igual à cortina que os exibidores de mario netes colocam entre si e os espectadores e acima da qual exibem seu espe táculo. atrás desse pequeno muro (portanto. assim. e sob as conspícuas reelaborações que dele foram feitas. segundo essa condição. ao longe. situa-se um mito platônico muito céle bre. Dentro da caverna (N. como é natural. cuja entrada esteja aberta para a luz em toda a sua largura. depois em si mesmas. do fundo da caverna as suas vozes sejam refletidas pelo eco. para além do muro. — Falas. a nossa natureza no que diz respeito à educação e à ausência dela. República. primeiro nas suas sombras e reflexos na água. e acreditariam ainda que as vozes do eco fossem as vozes 1. 716 c 1. IV. Leis. da gnosiologia e da dialética platô nicas. se estão obrigados a ter a cabeça imóvel durante toda a vida? — E quanto aos objetos que são levados. que tenha a entrada aberta para a luz em toda a sua extensão. Citemos todo o texto. brilha a luz de uma fogueira. muito mais do que o seja. não acontece a mesma coisa? — Sem dúvida. — Imagina agora que.“para nós Deus é. não tendo nunca visto outra coisa. e. com árduo esforço. só podem olhar para o fundo da caverna. com as pernas e o pescoço presos a cadeias de modo a não poder mover-se e a dever olhar sempre para a frente. suponhamos que um dos prisio neiros consiga. que eles se encontrem aqui desde crianças. verdadeiramente fundamental: — Depois disso. com o hábito. disse ele. respondi. Bibliopolis. aqueles prisioneiros não poderiam ver senão as sombras das estatuetas projetadas sobre o fundo da caverna e ouviriam o eco das vozes: mas acreditariam. crês que eles e seus vizinhos vejam outra coisa a não ser as sombras que o fogo projeta na parede da caverna que está diante deles? — E como. Imaginemos. ao longo do pequeno muro. atrás deles. corno dizem. chamado “da caverna”. além disso.

e não o deixasse antes de tê-lo trazido para fora. não poderia vê-los imediatamente. se as coisas lhes acontecessem natural mente. contemplando-o tal qual é. não pensas que se felicitaria da mudança e teria compaixão daqueles outros? — Sim. ele via mais corretamente as coisas? E mostrando-lhe cada um dos objetos que passam. — Considera agora. de repente. o que levaria bastante tempo. disse eu. disse ele. a caminhar e a levantar os olhos para a luz. — Necessariamente. que governa todas as coisas no mundo visível e que é causa também de todas as coisas que ele e seus companheiros antes viam. — E se voltasse a discorrer sobre aquelas sombras. honras e prêmios para quem tivesse a vista mais aguda para observar os objetos que passavam e se recordasse mais exatamente quais eram os que costumavam passar em primeiro ou em último lugar ou juntos. não ficaria com os olhos cheios de trevas vindo. para a luz do sol. “viver sobre a terra e ser servo de um pobre homem” e sofrer qualquer coisa. não teria os olhos ofuscados pelo seu brilho e não ficaria impedido de ver nem mesmo um dos objetos que a partir de agora são ditos veniadeims? — Pelo menos. mas ele mesmo e em si mesmo. — E se de lá alguém o tirasse. todas as vezes que um dos passantes falasse crês que pensariam ser outro a falar a não ser a sombra que passa? — Não. — E claro. — Depois disso poderia deduzir a esse propósito as conclusões de que é o sol que produz as estações e os anos. discutindo com os prisioneiros que lá ficaram. depois os próprios objetos. disse ele. O que pensas que ele responderia se alguém lhe dissesse que o que via há pouco eram sombras vãs e que agora.— Se. O que primeiro veria mais facilmente seriam as sombras. disse ele. antes que seus olhos se acostumassem com a escuridão. da luz do sol? — Certamente. disse ele. e que ele preferiria muito mais. de que modo seria a sua libertação das cadeias e a sua cura da ignorância. não seria motivo de riso e não se . disse ele. disse ele. creio que poderia ver o próprio sol e não os seus reflexos nas águas ou em alguma outra superfície. — Pensa também nisso: se aquele tal descesse de novo na caverna. antes do que voltar a viver lá e ter lá aquelas opiniões? — Sem dúvida. pensas que este tal teria desejo daquelas coisas e inveja dos que entre eles gozam de mais honra e poder. mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais. acaso não sofreria e não se revoltaria por ver-se assim arrastado e. que depois de tudo chegaria a essas conclusões. seus olhos não ficariam doloridos e não fugiria. vendo a luz dos astros e da lua com mais facilidade do que veria durante o dia o sol e a luz do sol. — Sem dúvida. e a partir dai fosse o mais capaz de prever o que estava por acontecer. quando se lembrasse da sua primeira morada e da sabedoria que ali pensava possuir e dos que estavam prisioneiros com ele. ou não sucederia acaso o que diz Homero. portanto. voltando-se para aquelas coisas que pode ver. levando-o por força a subir pela rude e es carpada subida. — E se alguém o obrigasse a olhar a luz mesma. penso que sofreria qualquer coisa antes do que tornar a viver aquela vida. Em seguida veria os objetos que estão no céu e contem plaria o próprio céu durante a noite. disse ele. — Penso que deveria primeiro habituar-se para poder ver as coisas daqui de cima. o forçasse a responder à pergunta “o que é”? Não crês que ele ficaria perplexo e que os objetos que antes via lhe pareceriam mais verdadeiros do que aqueles que agora vê? — Bem mais verdadeiros. tendo chegado à luz. disse ele. — Finalmente. — Em todo caso. pudessem conversar entre si não crês que pensariam designar objetos reais. esses tais outra coisa não pensariam que fosse o real verdadeiro a não ser a sombra daqueles objetos artificiais. Logo que um fosse solto e obrigado a levantar-se e a virar o pescoço. depois as imagens dos homens e das outras coisas refletidas nas águas. designando as sombras que contemplam? — Necessariamente. voltasse a sentar-se no seu lugar. continuei. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL — Necessariamente. certamente. na morada que lhe é própria. por Zeus. — E se o cárcere tivesse um eco vindo da parede em frente. — E então. — E se entre eles havia louvores. e não consideraria a estas realmente mais claras do que as que lhe são mostradas? — Assim é. disse ele. ao fazer tudo isto sofreria dores e ficaria ofuscado sem poder ver as coisas cujas sombras via antes.

Estas são. e que não vale a pena tentar a subida? E se buscasse libertá-los e conduzilos para o alto e eles pudessem agarrá-lo com suas mãos. 16. Enfim. é possível afirmar doravante que não nos enganamos “se nelas reconhecermos as Meta-idéias de identidade e de diversidade. nos seus diferentes níveis e nos vários graus desses níveis.T. o conhecimento e a fruição do Uno e da Medida suprema de todas as coisas ou do absolutamente Divino. que acontece primeiramente por meio dos reflexos e imagens das mesmas e. Para além do muro. também Gaiser. o conhecimento mediano estruturalmente ligado às ciências matemáticas. o voltar o rosto das som bras à luz. ou intermediário que está A visão mais elevada. p. E o que simbolizam as estrelas e os astros situados. cf. 296 O MITO DA CAVERNA 297 todas as coisas sensíveis. o mito da caverna simboliza também o aspecto místico e teológico do platonismo. de igualdade e de desigualdade.. acima das coisas verdadeiras singulares? Já agora tornou-se clara a resposta e.. o muro representa o divisor de águas que divide as coisas sensíveis das supra-sensíveís. simboliza . c) Em terceiro lugar. acaso não o matariam? — Certamente o fariam. voltou com a vista estragada. disse ele O que simboliza exatamente esse “mito da caverna”? a) Antes de tudo. tendo subido lá em cima. produzidas pelas estátuas e pelos objetos artificiais e pela luz do fogo. finalmente. A liber tação das cadeias e a “conversão”. enquanto a vida na pura luz simboliza a vida na dimensão do espírito. através da visão das estrelas. o sol simboliza a Idéia do 2. a saber. ao Princípio do Todo. as Idéias. Notemos. 2a. e a conseqüente decisão de nele inspirar-se em todas as atividades da vida. ao passo que o Sol sim boliza a Idéia do Bem-Uno. por abstração dessas. ao contrário daquelas. b) Em segundo lugar. ou seja. com Kriirner. Krãmer. as estrelas e os astros as Meta-idéias e os Números ideais. A passagem da visão das estátuas à visão dos objetos verdadeiros sensíveis das coisas. as primeiras que o prisioneiro vê para além do muro? Observemos que as sombras diretas para além do muro e as imagens refletidas na água fora da caverna são justamente sombras e imagens das verdadeiras realidades produzidas pela luz do sol. ou seja. Em outras palavras. de par e de ímpar [ Portanto. evidentemen te.. completamente diferentes das sombras que os prisioneiros vêem no fundo da caverna. como bem o sabemos. aquelas primeiras estão verdadeiramente “no meio” entre as Idéias e as coisas que as reproduzem e exprimem muito bem os “seres intermediários que são ontologicamente “intermediários”. a vida na caverna simbo liza a vida humana na dimensão dos sentidos e do sensível. 11 paragone. como Platão indica a libertação da visão das sombras para a luz como um “voltar o pescoço” do prisioneiro da caverna (TrepláyEIv TÓV a justamente para poder levantar o olhar para a luz (irpàç TÓ qx àva E esta imagem emblemática de voltar a cabeça para a parte oposta é retomada e desenvolvida pouco depois e qualificada como “conversão” (1TEp1aywyr da alma correspondentes. dos seres matemáticos. as coisas verdadeiras e os astros simbolizam a realidade no seu ser ver dadeiro. as coisas reais sim bolizam as Idéias singulares especificamente distintas. VII.). simboliza o grande caminho da dialética nos seus estágios essenciais. que se inicia com a percepção dos seres reais e que. Platone. o mito simboliza os planos do conhecimen to. 194. até à própria Idéia do Bem. A visão das sombras na caverna simboliza a Eixaaía ou imagi nação. 298 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL O MITO DA CAVERNA 299 a &UVOLCt. dos astros e da lua durante a noite. portanto. com as suas subdivisões: as sombras da caverna são as meras aparências enquanto as estátuas e os artefatos simbolizam Bem. p. ou seja. no seu avançar e no seu passar de Idéia a Idéia até às Idéias supremas e. 514 a-517 a. simboliza o converter-se do sensível ao inteligível. em particular. chega à visão do sol na plena luz do dia. a suprema visão do sol e da luz em si simboliza a visão do Bem. República.diria dele que. O que exprimem as sombras e as imagens refletidas das coisas verdadeiras. A água ou outras superfícies (N.... ou seja. simboliza os vários graus ontológicos da rea lidade.d. 3. os planos do ser sensível e supra-sensível. enquanto a visão das estátuas e artefatos simboliza a 1T(OTIÇ ou crença.

certamente. aparece já em Platão verdadeiramente emblemático. mas. Jaeger. de um retorno que tem como alvo a libertação das cadeias dos outros em companhia dos quais antes ele fora escravo. 5. o “único político ver dadeiro” da Grécia. se seguisse apenas seu desejo. irá atribuir-lhes um “uso” regulativo estrutural de grande importância. com todas as suas conse qüências. e assim foi e será ou poderá ser para quem quer que se apresente “político” em sentido universal. Mas. deve-se reconhecer em Platão o primeiro autor desse conceito. para poder repensar Platão. mas usa mando e poder como serviço à Cidade. 518 d ss. Os escolásticos irão buscar importan tes motivos teóricos nessas duas interpretações. como Platão o chama. confiada por . vamos lembrar dois exemplos que são os de maior significação: Kant interpretará as Idéias como as formas supremas da Razão e. na dimensão da “escritura”) é justamente a metafisica das Idéias e sobre ela. o retorno do filósofo-políti co. Eis o que Platão pretende dizer: ai de quem rasga as ilusões que envolvem os homens! Eles não toleram as verdades que subvertem os seus cômodos sistemas de vida fundados sobre as aparências e sobre a parte mais fugidia do ser. Com efeito. V 515 c. mais ainda. conquan to negando-lhes um valor cognoscitivo. como bem observou Jaeger. como condição necessária para chegar a ver o ser no seu máximo esplendor e. senão depois de ter-se novamente habituado à escuridão. Poderíamos afirmar. pelos motivos supra. o Bem. República. VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÂO 301 H. PONTOS DE REFERÊNCIA NA HISTÓRIA DO PENSAMENTO OCIDENTAL 1) Um dos vértices do pensamento platônico — que permaneceu talvez como o ponto de referência mais significativo e mais estimu lante na história do pensamento ocidental. não somente na idade antiga. todos os leitores se concentraram em todas as épocas. mas da origem do conceito cristão de conversão. correrá o risco de não ser entendido por eles e de ser tido por louco. que é o Princípio do Todo Essa metáfora da “conversão” foi retomada e desenvolvida pelos cristãos em sentido religioso.do devir ao ser. República. não ama o mando e o poder. nela vai buscar a inspiração fun damental justamente para a sua concepção da “forma” que plasma e estrutura a matéria. Apresentemos alguns exemplos mais notáveis. nota 82. superando tal desejo. II. o qual. 6. as Idéias tornam-se pensamentos da Inteligência divina e nesse sentido as entenderão igualmente os Padres da Igreja. Na idade moderna. em vista da atuação do Bem). que uma história da interpretação e dos repensamentos teoréticos da teoria das Idéias abrangeria uma ampla área da história da filosofia ocidental e exata mente em alguns pontos essenciais. mas o juízo vai sem dúvida muito além do caso de Sócrates. 512s. desce para tentar salvar também os outros (o verdadeiro político. VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÃO. VII. que poderá acontecer a quem volta a descer? Passando da luz à sombra ele não conseguirá enxergar. A transfe rência do vocábulo para a expressão religiosa cristã teve lugar no terreno do primitivo platonismo cristão” Mas a dimensão religiosa e ascética (naturalmente em sentido helênico) está já largamente pre sente em Platão.. Com efeito. Este “retorno” é. uma alusão a Sócrates. e o “converter-se” no sentido compreensivo do “vol tar-se” da alma das ilusões para a verdade. Há aqui.citados. Com o platonismo médio. custará a readaptar-se aos velhos usos dos companheiros. mas também na idade moderna — é constituído pela teoria das Idéias. segundo Platão. quanto a Hegel. embora fazendo da teoria das Idéias objeto de uma intensa crítica de natureza teórica. Aristóteles. julgará a teoria das Idéias como a “verdadeira grandeza especulativa” de Platão e. 2) Do ponto de vista estritamente teórico. 4. portanto. o vértice mais elevado do pensamento platônico é constituído pela teoria dos Princípios (da qual a própria teoria das Idéias depen de). d) O mito da caverna exprime também a concepção política especificamente platônica. Paideia. suscitando profundas aversões e poderá até correr o perigo de ser morto. o principal eixo de sustentação do pensamento que Platão apresentou nos seus diálogos (ou seja. quem lhes traz uma mensagem de ver dade ontologicamente revolucionária pode ser condenado à morte como um charlatão! Assim aconteceu com Sócrates. indubitavelmente. como demonstra de modo admirável justamente esse mito da caverna. afirmando que ao “considerarmos o problema não já do fenômeno da ‘conver são’ como tal. ficaria a contemplar a verdade. ao invés. Platão fala igualmente de um “retorno” à caverna daquele que se libertara das cadeias. com bons fundamentos. e temem as verdades que invocam a totalidade do ser e o eterno. como uma própria e verdadeira “pedra miliar” na história da filosofia e mesmo na história universal. pp.

Jaeger reconhecia que a filosofia platônica à qual Aristóteles se refere na sua Metafísica não é a dos diálogos. que se articula em Núme ros ideais. Desse ponto de vista. sem dúvida. tornadas mais gritantes justamente pelo fato de que retomam posições e categorias pré-socráticas . Jaeger. Tà ópaTáV. mais do que sobre essa distinção 1. é a concepção da estrutura hierárquica do real. depois ulteriormente a esfera dos seres matemáticos. justamente. como teremos ocasião de ver nesse mesmo volume. 302 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL . crer no supra-sensível e crer no divino e. 2. O Uno-Bem. outra invisível” (& [ Súo ET& TC)V 6VTC)V. que parte dos Princípios primeiros e supremos. como fará depois toda sucessiva concepção evoluída do divino. isto é. o “Princípio do Todo” de Platão. Berlim 1912. irão levá-la de modo sistemático às suas conseqüências extremas. Já os neoplatônicos irão buscar aqui os estímulos para o repensamento teórico e para os desenvolvimentos sistemáticos da fi losofia de Platão. introduz essa concepção na sua visão teórica e a faz um dos eixos de sustentação da sua metafísica. T6 S uS Voltaremos à significação de fundo desse “dualismo”. a possibilidade de ver o divino justamente na perspectiva do supra-sensível. W. do ponto de vista histórico. o criador da teologia ocidental. Idéias particulares). na medida em que descobriu a categoria (o Em 1912. de um lado. referiu-se com exa tidão também nos seus escritos. também nós hoje consi deramos como fundamentalmente equivalente. mas co-essencial e eterna). inclusive a própria Díade. O próprio Aristóteles. 3) Uma conquista de Platão. segundo uma estrutura hierárquica (com a emergente e particular importância da esfera das Idéias. seja pelas suas polêmicas. tendo ela encon trado em Proclo seus desenvolvimentos mais amplos.VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÃO 303 básica entre o físico e o suprafisico. por último. mas a das “Doutrinas nãoescritas” Com efeito Aristóteles. ao passo que nos neoplatônicos trata-se de um Princípio de estrutura monopolar e absoluto. Studien Aristoteles. negar o divino e negar o supra-sensível. 141. no sentido de que tudo deriva dele. com esta diferença: em Platão trata-se de um Princípio supremo. Sem esse horizonte de fundo. queremos chamar a atenção para a complexa articulação dessa distinção (antes já explicada). do pensamento antigo. VI. mas à qual. mas. do Princípio primeiro. com tudo o que daí resulta. Platão é. estreitamente ligada às precedentes e que constitui mesmo a sua base. deveria dar a Platão. seja pelos seus repensamentos teóricos. Na perspectiva da moderna interpretação de Platão. a descoberta do supra-sensível. p. zur Entstehungsgeschichte der Metaphysik des imaterial) segundo a qual é possível e necessário pensar o divino (as posições ulteriores dos estóicos e dos epicuristas. A “segunda navegação”. de vários modos e em todos os níveis. das “Doutrinas não-escritas”. 511 b. de outro. cuja validez permaneceu intacta para Platão. apresentam um emaranhado de aporias. são aquelas sobre as quais repetidamente insistimos: “Estabele çamos [ duas espécies de seres: uma visível. Idéias generalíssimas ou Meta-idéias. de estrutura bipolar (o Uno age sobre a Díade que lhe é hierarquicamente subordinada. a esfera das realidades sensíveis. justamente. 79 a. como veremos no volume IV. com uma dependência estrutural do plano inferior com relação ao supe— nor (e não vice-versa) e. ligado ao problema da transcendência. Essa doutrina leva (como se diz por alusão justamente na República) exatamente ao “princípio do Todo” (ToO Trav-ràç p e à explicação metafísica da realidade em todos os seus aspectos. entendida no seu sentido justo. 4) Repetidas vezes fizemos uso dos termos “divino e “Deus” ao expor o pensamento platônico. também hierarquicamente e. com uma dependência mediata de toda a realidade. que admitirão deu ses materiais. Essa concepção da estrutura hierárquica do real teve grande importância. aqui. em larga medida. é devedor.Platão sobretudo à “oralidade”. pelo menos no âmbito correntes verdadeiramente notáveis. pelos motivos acima apresentados. não se podem entender os sucessores imediatos de Platão. aos quais se segue a esfera das Idéias hierarquicamente estruturadas. Já os neoplatônicos. ela suscitou 3. a teoria dos Princípios foi recuperada e compreendida no seu alcance apenas em tempos mais recentes. As conclusões do Fédon. Com efeito. Fédon. República. Alguém afirmou que Platão é o fundador da teologia ocidental A afirmação. fundamento do pensamento de todos os neoplatônicos (e do qual trataremos amplamente no IV volume) é. é exata. pela primeira vez. Cada uma dessas esferas articula-se. com indicações e alusões às vezes bastante incisivas. e chegou o momento de resumir quan to dissemos e de determinar qual seja propriamente o sentido da teologia platônica.

pelo menos. apresentando todos os Deuses como criados pelo Demiurgo. Com respeito ao resto. hierarquicamente. depois de Platão e Aristóteles. Divina é a alma do mundo. aplicai-vos. Platão aparentemente avançou mais. II. ao morrer. quando menos. junto às quais devem ser enumerados os demônios mediadores. Por essa razão e já que fostes gerados. eu mesmo vos darei a semente e o seu princípio. recebei-os novamente” Acima do Deus platônico. pois não terá em si todas as espécies de seres vivos. logo após a Idéia do Bem). ao menos dentro da medida helênica. imitando a potência que usei na vossa geração. se estes fossem gerados por mim e de mim recebes sem a vida. Essas prevenções geraram numerosas confusões ou. pois que a minha vontade é para vós um laço mais forte e maior do que aquele com o qual fostes ligados ao nascer. E no que diz respeito àquela parte dos viventes que deve ter o mesmo nome que os imortais e que é chamada divina e que rege aqueles que querem seguir-vos e seguir a justiça. em certa medida. Aprendei agora o que vos digo e vos demonstro. e que permanecerá uma constante de toda filosofia grega) segundo a qual o divino é estruturalmente múltiplo. Divino é o mundo ideal em todos os seus planos e. O Deniiurgo não cria nem mesmo o princípio material que. tudo o que é ligado pode ser . mas depende dele gnosiológica e normativamente (embora encontrando-se no vértice. pois conhece e quer. são deuses criados pelo Demiurgo. como vimos. Platão chegou à concepção de “criacionismo” mais avançada na dimensão helênica Lembramos que. pp. 5) Como acima recordamos. devemos distinguir. Jaeger. o maior de todos os entes ontológica e metafisicamente subordinado só aos Princípios primeiros e supremos). está o Di vino no sentido supremo (o Uno-Bem e os Princípios e. as Idéias consideradas na sua totalidade.dissolvido. Ficam ainda por gerar três espécies de mortais. como antes esclarecemos. No entanto. embora de maneira parcial e problemática. Portanto. Se eles não forem gerados o Céu permanecerá incompleto. todos os outros Deuses acabam dependendo estruturalmente do primeiro. dentre os quais Eros é o exem plo mais típico. fatalmente. na teologia platônica. entretecendo essa parte imortal com a mortal. justamente na perspec tiva que indicamos: . Cf. Assim. Com efeito. divinas são as almas das estrelas e as almas humanas. Platão enveredou por um caminho que se dirige para uma espécie de monoteísmo. diante desse problema tiveram e têm lugar for tes reações e prevenções por parte de muitos intérpretes motivados por aversões de tipo diverso contra a temática da “criação divina”. fazei-os nascer. isto é. embora havendo alcançado o novo plano do supra-sensível e tendo nele situado a problemática teológica. se considerarmos rigorosamente o conceito de criação (ainda que no sentido do semicriacionisino helênico). o Demiurgo tem características de pessoa. No entanto. Porém. Os astros e o mundo (concebidos como inteligentes e animados). Ao contrário. No entanto. avançará além de Platão. filhos de Deuses. 4. divina é a Idéia do Bem (Uno). Portanto. para que sejam mortais e para que este universo seja verdadeiramente completo. enquanto. o “Divi no” “Ó Deuses. deve tê-las para ser sufici entemente perfeito. nesse sentido.que. mas querer dissolver o que é belo e harmoniosamente unido é próprio de um ser mau. assim como as Idéias são Entes divinos (impessoais) e não Deuses (pessoais). não sois nem imortais nem totalmente incorruptíveis. e a ele talvez se acrescentem algumas divindades das quais falava o antigo politeísmo e que Platão parece conservar (ou. levaram a pôr entre parênteses e a situar essa problemática à margem da interpretação de Platão. mas coetemos. mas as cinqüenta e cinco inteligências motri zes das esferas celestes que ele introduz (das quais adiante falaremos) são Deuses a Ele inferiores. Paideia. de Deus. Mas. repropõe a visão (já nossa conhecida. a ele preexiste. fabricai os viventes. Mas ele é inferior ao mundo das Idéias no seu complexo já que não o cria. dai-lhes o alimento e o crescimento e. parece não rejeitar de maneira categórica e globalmente). à produção de tais viventes. no cimo da hierarquia do inteligível há um Ente divino (impessoal) e não um Deus (pessoal). nunca sereis dissolvidos nem estareis submetidos a um destino mortal. eu sou o vosso Artífice e Pai das obras que produzis por meu intermédio. convém acrescentar que Platão. pondo no vértice justamente um Deus que tem a característica da inteligência pessoal e. seriam iguais aos Deuses. mesmo de longe e ao menos como exigência. nesse ponto. Ora. em particular. segundo a vossa natureza. Como haveremos de ver. impessoal do Deus pessoal. Aristóteles inverterá a hierarquia. e que são indissoláveis enquanto assim eu o quiser. mas não é o Deus-pessoa. não poderiam conservar mais o sentido originário). embora o Demiurgo seja. 492s. 304 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÃO 305 As famosas palavras que o Demiurgo (Deus “criador” exatamen te na significação helênica) dirige aos Deuses criados impõem-se num certo sentido quase como emblemáticas.

com desenvolvimentos assaz notáveis. mas sem a grandiosa e paradigmática linearidade e essencialidade que alcança em Platão. mas chega a afirmar com precisão que os constitui. os muitos no uno. mas. Timeu. Em outros termos: o Demiurgo plasma tanto os elementos materiais dos quais derivam as coisas. qual seja a medida de todas as coisas e. Com efeito. como os 7. O próprio Aristóteles operará uma redução da dialética às perspectivas da sua lógica. justamente porque o ser é esse ordenamento de uma desordem (uni-ficação de uma multiplicidade ilimitada). como explicamos e verdadeiramente notável. 6) Platão identificou o filósofo com o “dialético” e definiu o dialético como aquele que é capaz de olhar a realidade sinoticamente. vem a ser. paralelamente. também a característica essencial do Intelecto divino e do seu operar 7) Justamente nesse sentido deve ser entendida a “assimilação a Deus” (ó E4)’ ou seja. os ve getais. 205 b. Mas. por documentamos. o “fazer-se semelhante a Deus na VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÃO 307 medida em que é possível ao homem” ( 8oov SUvaTÓV V ó 3Eq))’ da qual Platão fala (e à qual muitos autores se referiram em todos os tempos e segundo áticas diversas). ibidem. sobretudo com Zenão. a criação do Demiurgo é a criação de um misto. Platone. como o procedimento cognoscitivo capaz de recolher sinoticamente os muitos (iroXX no uno ( e. atua o Bem (o Uno) no grau mais elevado pos sível. que é capaz de ver o “todo”. Cf.. como Ele. um fazer passar da desordem à ordem. um dos mais notáveis 8) A grandeza da concepção do homem em Platão reside no deli neamento da natureza humana em duas dimensões. terra e fogo).. vem a ser. E vai muito além de todos os gregos a anteriores ou posteriores. Sofista. ar. 9. Banquete. os elementos (água. têm seus pressupostos e seus precedentes exatamente em Platão. No entanto. Com efeito. cf. 306 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL elementos formais que permitem realizar no mundo sensível o mundo ideal e. Cf. dentro dos limites do pensa mento antigo. 41 a-d. imitar a Deus significa alcançar o conhecimento e a capacidade de realizar a paradigmático. Com os neoplatônicos. em potência e em atividade prática constitui justamente a linha de força mais significativa de todo o pensamento platônico em todas as suas componentes metafísicas. os animais. em particular por meio dos números e das estruturas geométricas. meio de uma gradação diairética. matemá ticas e com os procedimentos sinótico e diairético. Mas. 5. 425-622. pp. 266 b. desse modo. manifesta-se a sua exata fisionomia como fundada sobre os Princípios primeiros e supremos e sobre a conse qüente estrutura bipolar do real. Para Platão. 6. 219 b. a expressão suprema do pensamento e o fundamento de toda capacidade e poder do operar e. nesse sentido. gnosiológicas. eis como deve ser entendido esse aspecto do pensamento platônico. O ser é um “misto” e. alguns consideram que não seja possível falar de “criação” em nenhum sentido com referência a autores gregos. 266 b. acima das interpretações diversas que se podem dar da dialética platônica. nesse desenvolvimentos na história do pensamento ocidental os quais. de decompor o uno em muitos. O conceito de dialética teve. ou seja. isto é. Platão avança muito. os minerais e ainda. como Ele. se não indo contra o modo de pensar próprio dos helenos. embora permanecendo na dimensão helênica. imitar a Deus é conseguir conhecer. não somente se limita a dizer que o Demiurgo com bina na mistura elementos antes constituídos. justamente. de maneira ele bem além dos horizontes de Platão. de recolher a pluralidade na unidade. como acima tivemos ocasião de mostrar.Mais ainda. unidade-na-multiplicidade. mas também “as coisas das quais derivam as coisas que são geradas” ou seja. porém. Como já vimos. Sofista. Em suma. 37 a. se avançam . sobretudo com Hegel (e com os pensadores que de várias maneiras dele dependem). não só as coisas que são geradas. a dialética tem suas origens no âmbito do pensamen to eleático. atuá-la praticamente em todas as coisas. Sobre este assunto ver: Reale. material e espiritual. também. que Deus possui de modo Essa conquista em conhecimento. a respeito desse ponto. ela retomará horizontes mais ampios. éticoreligiosas e políticas. alcança seu vértice justamente com Platão. A dialética. Mas. 265 b.. Timeu. toma-se verdadeiramente para Platão. Platão fala de uma atividade demiúrgica no sentido de levar do não-ser ao ser (áx TOÜ I1 6VTOÇ Eis T6 6v) e diz com toda clareza que o Demiurgo produz o universo. conseqüentemente. 8. 29 a.

Platão é uma expressão sem dúvida paradigmática da civilização helênica. de modo decisivo. para entender bem Platão nesse ponto é necessário recordar que. justamente por essa distinção’ seja na medida em que a acei tar (como é óbvio). ao longo de toda a vida. Cf. portanto. proclamando a necessidade de suprimir os malformados e os doentes crônicos e in curáveis. ou seja. 11. Platão não se cansou. se desejarmos compreender Platão ao tratar essa temática. o estágio mais importante na história da metafísica. o Bem é o Uno e a Medida suprema para o nosso filósofo. com me tMora não menos vigorosa. e que em Platão alcançam a extraordinária função metafisica que conhecemos). mas a erótica (o “amor platônico”) que implica uma experiência cognoscitiva. A filosofia conquistou o mundo inteligível. a esfera das rea lidades que não são sensíveis. passim. 176 b. VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÂO 309 sobre a qual nos demoramos longamente a seu tempo e que. Em suma. como já antes explicamos. a alma é prisioneira do corpo. derroga essa afirmação. Contra todos os predecessores e contra muitos contemporâneos. Em particular. a idea e o eidos que significam justamente forma e figura. por exemplo. para ele. na República. também “conversão” da alma e “libertação das Em conclusão. no Fédon. Esse fato nos faz compreender bem a importância extraordinária que a forma e a figura adquiriram para o grego (e. essa concepção conduz a um excesso de rigorismo que atinge. razão e fundamento). e o Belo (assim como o Bem) explica-se por multiplicidade. é revelador da Verdade de modo excelente. Essa afirmação é tanto mais desconcertante quanto Platão não se cansou de dizer-nos que o homem é a sua alma e que os males do corpo não atingem a alma. o Belo. fundada sobre a dimensão do espírito humano que conduz ao Absoluto através da Beleza. portanto.particular. com efeito. como vimos. enquanto a Idéia. 613 b. seja na medida em que não a aceitar. não ocorreu a nenhum grego por razões que ainda teremos ocasião de expor. não. no entanto. algumas vezes. do Uno e do seu vário e múltiplo desdobrar-se. Mas há um outro ponto fundamental que deve ser bem entendido. Mas o caráter absoluto da vida humana só é adequadamente fundamentado se ela for vinculada diretamente ao Absoluto e feita depender Dele: essa afirmação.. Reale. o paroxismo. porque é uma “imagem clara” do Inteligível (do Belo em si e. chamou cadeias”. E depois da “segunda navegação” platônica (e somente depois dela) que se pode falar de corpóreo e incorpóreo. é também revelador do belo como no caso da música (com todas as conseqüências que daí derivam). Por conseguinte. a Erótica com sua escala ascendente (o “amor platônico” para usar uma expressão que se tomou emblemática). longe de ser prisioneira da coisa da qual é Idéia. ou seja. portanto. ver dadeiramente revolucionária: há bem . nesse último caso deverá justificar polemicamente a não-aceítação de tal distinção e permanecerá assim dialeticamente condicionado por essa negação. 1 10. ele defronta-se com sérias aporias. pois que ela é posse dos deuses e não nossa. 9) Outra notável conquista de Platão reside na extraordinária força de revelação que ele soube dar à Beleza: com efeito. Mas. empfrico e meta-empfrico. no mais alto nível. Com efeito. ainda que em nível intuitivo. segundo a ordem e a harmonia que se manifestam em vários níveis e de diversas maneiras. e o tenha proclamado. e a natureza e o cosmos físico não se consideram mais como sendo a totalidade das coisas que são. como obser vamos no início. de repisar essa sua descoberta fundamental. Teeteto. do Princípio de todas as coisas). A respeito desse ponto. como unidade-najustamente isso que “vemos” no belo sensível: o desdobrar-se da unidade na multipli cidade. do ouvido que. embora tenha descoberto que a vida é sagrada e não pode de modo algum ser suprimida. na medida em que contrapõe num dualismo levado ao extremo. é igualmente sua causa. O Belo é a única das Idéias transcendentes acessível por meio dos sentidos. físico e suprafisico E é somente à luz dessas categorias que os físicos anteriores podem ser ditos materialistas. a alma e o corpo (ao passo que não contrapõe a Idéia à coisa. República. em cujo âmbito o “ver” teve um nítido e estru tural predomínio hierárquico sobre o “ouvir”. e vê no corpo um mal e como que uma pura crisálida do homem. Platão. o Belo (primeiro sensível. todo o pensamento ocidental será condicionado. 12. podemos afirmar que a “segunda navegação” platô nica constitui uma conquista que assinala em certo sentido. sensível e supra-sensível. mas não de todos e sim somente através da visão. mas somente pensáveis. ao qual cabe o predo mínio em outras culturas. depois inteligível) é revelador do Bem porque é revelador. não é a arte. meio e é de ntímeros e medida. mas o Eros (Eros em sentido helênico) e. do Bem. Além disso. no entanto. para ele (e assim será também para os neoplatônicos) não é a arte a via de acesso para a fruição do Belo.. X.. Platone. mas somente a totalidade das coisas que aparecem.

não é possível saber. em 384/383 a. no sentido já antes explicado. E certo que no arco dos vinte anos passados na Academia. na Sicília). dado que ele morreu quando Aristóteles era ainda jovem. à pergunta “por que existe o ser e não. presumir que a família tenha morado em Pela. as coisas existem porque são algo positivo. Foi. justamente nos anos em que Aristóteles freqüentou a Academia. o qual. segundo nos parece. que foram hóspedes da Academia. e que tenha freqüentado a corte. onde ficava o palácio de Amintas. Se e até que ponto Nicômaco pôde ensinar ao filho a arte médica. Ou metafisico (N. Diógenes Laércio. 1 1. ‘Ap [ yVflaIc)TaTOS TC)V flÀ 1a “Aristóteles foi o mais genuíno discípulo de Platão”. como é provável. 9) nasceu no primeiro ano da XCIX Olimpíada. era um médico de valor e esteve a serviço do rei Amintas da Macedônia (pai de Felipe. de nome Nicômaco. e. em primeiro lugar. ou seja. Aristóteles SEGUNDA PARTE ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Ú 1TpG)TOV V 1tÍGTaGÚaL lráVTa TÓV aOcpàV XETat. o Bem são o fundo do ser.) 308 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL nem mesmo o devir”. e.d. em 366/365. foi a personagem mais influente. oú5è )‘ ETVOI 6uvaTóv. é oportuno falar de Aristóteles De fato. porque são como é bem que sejam. e entrou imediatamente para a Academia platônica. V. em Estagira. e justamente em função da sua “segunda navegação”: porque o ser é um bem. colonizada pelos jônicos e aí falava-se um dialeto jônico..T. O positivo. Aristóteles adquiriu substancialmente os princípios platônicos e defendeu-os em alguns escritos. a começar pelo célebre cientista Eudóxio. enquanto isso é possível”. isto é. Entre o sensível e o supra-sensível (N. limitada à dimensão do físico! Essa justamente. Com certeza sabemos que aos dezoito anos. B 4. nos confins da Macedônia. em Diógenes Laércio. a ordem. mas além disso devem ter sido fundamentais as suas contribuições nas numerosas discussões em torno de todo o arco de temas dos quais se ocupava a Academia (e eram discussões estabelecidas não só com Platão e com os Acadêmicos. não poderia existir insignes personagens de diversificada formação.mais coisas de quanto não conhe ça a vossa filosofia. Qual foi o preciso papel de Aristóteles no âmbito da Escola platônica. A 2. que o sábio co nhece todas as coisas. durante todo o tempo em que Platão permaneceu em vida. pois ficou na Academia por cerca de vinte anos. isto é. na Escola de Platão. A pequena cidade fora.T. Aristóteles (como sabemos pelo cronógrafo Apolodoro. em geral. Aristóteles. “Se não existisse nada de eterno. antes. O pai de Aristóteles. “Consideramos. mas com todas as mais PRIMEIRA SEÇÃO RELAÇÕES ENTRE ARISTÓTELES E PLATÃO PROSSEGUIMENTO DA “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” Et àt iri13 GTtV. certamente. 12b. . estando Platão.C. Pela primeira vez. 10) Os pontos que acabamos de enumerar são os frutos mais sig nificativos daquela que Platão denominou a sua “segunda navegação”.). 999 b 5s. que são os anos decisivos na vida de um homem. que Aristóteles amadureceu e consolidou a sua vocação filosófica de modo definitivo. o Macedônio). naquele período. V. ao mesmo tempo. na primeira Aca 1. PREMISSA CRíTICA: O MÉTODO HISTÓRICO-GENÉTICO E A MODERNA INTERPRETAÇÃO DO PENSAMENTO ARISTOTÉUCO Antes de falar da Escola de Platão e dos primeiros escolarcas da Academia. Metafísica. pois.d. Metafísica. 982 a 8-9 foi para Atenas em vista de aperfeiçoar a sua formação espiritual. por muito tempo. Pode-se. o nada?” o Ocidente soube responder com Platão. é a “conquista definitiva” que Platão transmitiu aos pósteros. não sabemos com exatidão: certamente ele deu liçôes de retórica. 12a. Aristóteles.

pesquisas de ciências naturais. retirou-Se a Calcídia. Passou em seguida a Mítilene. Com um célebre companheiro de Academia. como a de Miti lene são fundamentais: é provável que em Assos o Estagirita tenha dado cursos sobre disciplinas mais propriamente filosóficas. O Perípato contrapós -se assim à Academia e. eram patrimônio exclusivo da Escola).subme teu-os a exigentes críticas. Felípe. sucessor de Aristóteles). casual que um Aristóteles muito jovem apareça como personagem no Parmênides platônico. Finalmente. ao invés. portanto. onde fundou uma Escola. por um certo período. como veremos. em 335/334. já responde a certas criticas dirigidas contra a teoria das Idéias: de fato. réu de ter sido mestre do grande sobe rano (formalmente foi acusado de impiedade por ter escrito em honra de Hérmias um carme digno de um deus). Aristóteles decidiu não permanecer na Academia. ao invés. certamente. estando então Alexandre ativamente empenhado na vida política e militar). .. e “Peripatéticos” foram chamados os seus seguidores. teria falado ao soberano sobre Aristóteles em ter mos elogiosos. como é sabido. aconteceu em Atenas uma forte reação antimacedônia. Os escritos de Aristóteles. se Aristóteles pôde partilhar a idéia de unificar as cidades gregas sob o cetro macedônio. em todo caso. que Felipe poderia ter conhecido Aristóteles quando criança. estabeleceu-se em Assos (na costa de Trôade). que se tornaram conselheiros de Hérmias. mas só aos discípulos e. certamente Hérmias. e os escritos esotéricos (que constituíam. dado que eram categorias substancialmente conservadoras e. hábil 316 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A MODERNA INTERPRETAÇÃO DO PENSAMENTO ARISTOTÉLICO 317 demia. dividem-se em dois grandes grupos: os exotéricos (compostos na sua maioria em forma dialógica e destinados ao grande público). personagem destinado a revolucionar a história grega. juntamente com os platônicos Erasto e Corisco. senhor de Artaneu e de Assos. e que em Mitilene tenha feito. Tanto a fase do ensinamento em Assos.. Morreu em 322. E certo que. a idéia de helenizar os bárbaros e pacificá-los com os gregos. inaugurando e consolidando aquela preciosa colabora ção com Teofrasto. e. com gravíssimas conseqüências. Por ocasião da morte de Platão (347). chama-o à corte e confia-lhe a educação do filho Alexandre. ao mesmo tempo. a herança platônica não só não é acrescentada. Xenócrates. na ilha de Lesbos. sob certo aspecto. que o acaso quis juntar. Aristóteles inclusive. morto Alexandre. ao con trário. Aristóteles ficou. mais tarde. Abriu-se. inclusive reacionárias. originários da cidade de Esquepsi. nesse âmbito. eclipsou-a inteiramente. e que. enfim como fundador de uma Escola própria em oposição à Academia (a Academia tal como fora reduzida por Espêusipo e por Xenócrates). onde sua mãe possuía bens. em primeiro lugar como verdadeiro Acadêmico. começa um novo período na vida de Aristóteles. na qual foi envolvido Aristóteles. provavelmente estimulado por Teofrasto (destinado a tornar-se. Infelizmente sabemos pouquíssimo das relações espirituais que se es tabeleceram entre as duas excepcionais personagens (um dos maiores filósofos e um dos maiores homens políticos de todos os tempos). encontradas na Metafisica aristotélica. a Escola foi chamada também passeio). Estes foram OS anos mais fecundos da produção de Aristóteles: os anos que viram a grande sistema tização dos tratados filosóficos e científicos que fl05 chegaram. o fruto e a base da atividade didática de Aristóteles e não eram destinados ao público. Aristóteles. diálogo que. desse modo. O gênio político do discípulo. Em Assos. que nascera naquela ilha. em todo caso. até quan do Alexandre assumiu o trono. então com treze anos. que terá enorme peso nos destinos do Perípato. em muitos homem político. Recordemos que já o pai de Aristóteles fora ligado à corte macedônia. aos poucos meses de exílio. tentou uma verificação sistemática do discurso platônico. Aristóteles voltou para Atenas e alugou alguns edifícios próximos a um pequeno templo consagrado a Apoio Lício. tentando dar-lhes nova direção. mas é grave mente comprometida e submetida a um verdadeiro desmantelamento. Em 343/342 a. porque a direção da Escola fora assumida por Espêusipo (o qual encabeçava a corrente mais distante das que eram as convicções por ele amadurecidas). como sabemos. recordam análogas criticas que se lêem no Parmênides). abriu perspectivas históricas muito mais novas e audases do que as categorias políticas do filósofo permitiam compreender. Em 323 a. quando então aviava-se para o “mezzo dei cammin di nostra vita”.C. deixando Teofrasto na direção do Perípato. Para fugir aos inimigos. chegando a resultados que são. isto é. não compreendeu. permaneceu cerca de três anos. de onde veio o nome de “Liceu” dado à Escola. po liticamente ligado aos macedónios. o Macedônio. Deixou Atenas e dirigiu-se à Asia Menor. em seguida como Acadêmico dissidente. talvez. uma fase importantíssima na vida de Aristóteles. E como Aristóteles dava as suas lições passeando no jardim anexo aos “Perípato” (do grego peripatos edíficios. até 336 (mas é também possível que depois de 340 ele tenha voltado a Estagira. (Não é.C. algumas das críticas à teoria das Idéias. Na corte macedônia.

a Grande Ética. Ligadas a estas são as obras de psicologia. depois ainda. e delas conseguiu-se recuperar certo número de fragmentos. Bekker. na ordem atual. em seguida através dos medievais e. antes de afrontar este ponto. As partes dos animais. O Corpus aristotelicum. Roma 1963). Enfim. Berlim l960ss. Refutações Sofísticas. Finalmente. numa obra que pareceu subverter radi calmente a secular concepção dos estudos aristotélicos sustentou a seguinte tese: O método sistemático-unitário com o qual sempre se leu Aristó teles é errado porque não-histórico: não leva em conta a gênese desenvolvimento do seu pensamento. a quem Aristóteles tinha-se ligado com profunda amizade no . Do céu. o número arábico que segue indica o capi tulo. Aristotele. Seguem as obras de filosofia natural. A geração e a corrupção. Das mãos de Apelicon eles passaram às de Sila. Ao contrário. é exato. Talvez o primeiro escrito exotérico tenha sido O Grilo ou Da Retórica (no qual Aristóteles defendia a posição platônica contra isócrates). enquanto os últimos foram o Protrético e Sobre a Filosofia. mas quem. Dei/a Filosofia. Mas. foi designado o conjunto dos tratados de lógica. as letras a e b indicam as colunas. Naturalmente trata-se de dar a “discípulo” e a “genuíno” um significado correto: genuíno discípulo de um grande mestre não é certamente quem o repete. conseguiu preparar e publicar uma edição adequada das obras aristotélicas: Andrônico era então o décimo sucessor de Aristóteles no Perípato (cf. comentadas e repensadas entre todas as que nos foram transmitidas da antigüidade. estas obras tornaram-se as mais lidas.. isto é: Física. Foi precisamente isso que fez Aristóteles em confronto com Platão. em meados do século 1 a. devemos recordar a Poética e a Retórica. Tratrato sul cosmo. onde se continuou o trabalho de transcnção iniciado por Apelicon. Arisiotele. abre-se com o Organon. filho de Corisco. na corte macedônia (para o ensinamento do insigne discípu lo). Berti. através dos renascentistas. Vêm em seguida os tratados de filosofia moral e política: a Etica Nicomaquéia. a letra grega maiúscula (ou o número romano) indica o número do livro (os antigos dividiam as suas obras em livros). meditadas. chegou-nos o grosso das obras de escola. enquanto o número sucessivo indica a página. Gigon. Estrabão. (Entre as obras que dizem respeito às ciências naturais recordemos a imponente História dos animais. 54. (Cf. ao nosso ver. La filosofia de/primo Aristotele. Sobre o elenco de todos os títulos das obras aristotélicas transmitidas pelos antigos catálogos e sobre os vários problemas a eles conexos remetemos ao excelente trabalho de P. que não é um bloco his tórica e o período de Assos. A Meteorologia. No catálogo dessas obras. Os descendentes de Neleu esconderam na adega da casa esses escritos. Recordemos em pri mcm) lugar as obras mais propriamente filosóficas. a Política. que durante a primeira guerra contra Mitrídates confiscou-os e levou-os a Roma. Sobre a Inter preta çõo. Berlim l 831 (reimpressa aos cuidados de O. A geração dos animais: são obras que interessam mais à história da ciência que à história dos problemas filosóficos). p. que é o título com o qual.a. XIII. Lovaina 195 1.O primeiro grupo de escritos perdeu-se completamente e não restam deles senão alguns títulos e alguns fragmentos. autênticas “verificações” das instâncias platônicas. Pádua 1962: aí o leitor encon trará indicada e discutida toda a literatura relativa à questão. limitando-se a conservar intacta a sua doutrina. Les listes anciennes des ouvrages d’Aristote. E a partir daí. acurada. O movimento dos animais. o Eudemo ou Sobre a Alma. que Arístóteles escreveu.). Segundos Analíticos. que atam de toda a problemática filosófica e de alguns ramos das ciências naturais. da esquerda e da direita (dado que a edição de Bekker apresenta duas colunas por página). depois através dos filósofos árabes. a partir da tardia antigüidade. Werner Jaeger. é preciso situar preliminarmente uma questão de caráter metodológico e crítico. Outros escritos do primeiro período são para nós apenas títulos vazios. Sobre o Bem. Primeiros Analíticos. constituídas pelo tratado Sobre a alma e por um grupo de recolhidos sob o título de Parra natural. respectivamente. informada e equilibrada reconstrução destes escritos foi feita por E. A obra mais opúsculos famosa é 318 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A MODERNA INTERPRETAÇÃO DO PENSAMENTO ARISTOTÉLICO 319 casos. Outros escritos juvenis são dignos de menção: Sobre as Idéias. primeiro através dos grandes comentadores gregos. Andrônico de Rodes.C. Tópicos. além do mestre. constituída pelos quatorze livros da Metafísica. Vida de Si/as. e resolver Em 1923. Arisiotelis Opera. ao contrário do que crêem muitos modernos. 26). Já Diógenes Laércio escrevia que “Aristóteles foi o mais genuíno discípulo de Platão” e tal juízo. Moraux. Nápoles lLoffredo] 1974). também: M. A citação das obras de Aristóteles é feita com base na edição clássica de 1. provavelmente. partindo das apodas do mestre. a Etica Endêmica. que são: Categorias. Untersteiner. O complexo dos escritos aristotélicos foi deixado por Teofrasto em herança a Neleu. 608 e Plutarco. com o mesmo estilo elegante e com o método usado nas obras destinadas ao grande público (cf. entra talvez também o Tratado sobre o cosmo para Alexandre. Sobre tais obras fixou-se hoje a atenção dos estudiosos. A mais completa. Reale. que aí permaneceram até quando um bibliófilo chamado Apelicon (que mili tava nas hosles de Mitrídates) OS comprou. busca superá-las no espírito do mestre.

ao ser aplicado por outros estu diosos. mas tam bém grandes partes das obras esotéricas. em favor das ciências empíricas e dos dados empiricamente verificáveis e passíveis de classificação. não podiam deixar marcas seguramente reconhecíveis. mas não teriam nem mesmo uma homogeneidade especulativa. se não de repúdio. W. pode-se dizer que o método genético não alcançou quase nenhum dos seus objetivos com relação à interpretação das obras de escola: promoveu um grande renascimento dos estudos sobre o Estagirita. Elas teriam nascido de alguns núcleos originários. mas . Ans ate/e. já a partir do período transcorrido em Assos. a engenhosidade e a cultura de Jaeger garantiram ao livro um enorme sucesso. aplicando o método genético jaegeriano. ao invés. G. Porém. a uma posição. e levou até mesmo a uma reviravolta do significado da pretensa pará bola evolutiva do Estagirita. mas constituíam o substrato da atividade didática e. como sabemos. teriam sido compostas em fases sucessivas. Jaeger. Florença 1935. demonstrou a informalidade literária de tais escritos.enfim os números sucessivos às letras indicam as linhas às quais se refere. aos quais elas foram sem dúvida submetidas pelos seus autores. b) Por conseqüência. cf. constituíam o material de esco la de Aristóteles. deveria construir sobre dados de fato incontroversos. aos quais ter-se-iam progressivamente acrescentado sem pre novas partes. não só distantes entre si no tempo. de fato. Em suma. l. para ser verdadeiramente histó rico. e) Assim. enfim. maleáveis. em conclusão. justa mente por causa da maleabilidade do material. V. assim. em nítida contradição. Em função dessa idéia condutora. exposições de problemas e soluções relativas a momentos da evolução do pensamento aristotélico. uma unidade de caráter filosó fico e doutrinário. e prossegue com uma crítica sempre mais cerrada ao platonismo e às Idéias transcendentes. Calogero. monolítico e compacto como se acreditou. desmembrou as obras de escola. mas procede de uma po sição inicialmente platônica. e todas as conclusões alcançadas sobre as estratificações e as evoluções das obras de escola foram assim reduzidas a zero Não é. ital. umas e outros faltam completa mente no que concerne às obras de escola de Anstóteles. de admirar que esteja diminuindo paulatinamente o número dos seguidores do método jaegeriano. de idealista platônico. de uma conversão ao empirismo e ao naturalismo. Grundiegung einer Geschichre seiner Enswick/ung. o material que servia para as lições e para os cursos. chegou a delinear um Aristóteles que se torna. De fato. mas permaneceram sempre. portanto. nas quais o Estagirita retomava os problemas a partir de novos pontos de vista. o método histórico-genético de Jaeger. expressão do momento platônico do pensamento de Aristóteles não seriam só as obras exotéricas — que (como vimos na nota biográfica) foram compostas e publicadas quan do Aristóteles ainda era membro oficial da Academia —. ao menos de desinteresse pela metafísica. Mas. Diógenes Laércio. Elas conteriam. c) O método histórico-genético. pois. buscando isolar as várias estratificações e. a tese ainda não revela todo o seu alcan ce. por isso. Jaeger reconstruiu algumas das obras exotéricas com base em alguns fragmentos. Para a bibliografia. não só nunca escaparam do domínio dos seus autores. um empirista. De fato. a histót-i espiritual de Aristóteles seria a história de uma subversão do platonismo e da metafísica e. isto é. Berlim 1923 (trad. permanecendo apenas bolsões de resistência provincianos. A habilidade. muitas vezes reimpressa). o método genético está destinado a falir pelas seguintes razões: a) As obras de escola nunca foram concebidas e escritas como livros a serem publicados. que. em contraste entre si e. o volume V. aperfeiçoou enormemente as técnicas de pesquisa e de exegese dos textos. é absurdo estratificações cronologicamente pensar que se possam distinguir determináveis: os remanejamentos sucessivos. assim formulada. ou seja. No curso de meio século. para chegar a uma posição metafísica centrada no interesse pelas formas e as enreléquias imanentes e. as obras de Aristóteles que temos hoje teriam nascido de sucessivas estratificações e não só não teriam uma unidade literária. Estas obras. mas também no que se refere à inspiração teorética. d) O método histórico-genético não resolve absolutamente as dificuldades que a leitura do Corpus aristotelicum põe. Portanto. Prime /inee di una storia de//a sua evo/uzione spirituale. 3. às vezes. por assim dizer. pôde-se demonstrar tudo e o contrário de tudo. começou a dar resultados diferentes dos que ele alcançou. segundo Jaeger. tanto que alguns não hesita 320 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A MODERNA INTERPRETAÇÃO DO PENSAMENTO ARISTOTÉLICO 321 ram em acolher as suas conclusões quase como definitivas. Aristote/es. 2. sobre datas seguras e bem provadas. antes multi plica-as ao inverossímil.

os estudiosos que não caíram em teses extremistas e paradoxais. jus tamente. mas às doutrinas conexas às lições de Platão na Academia (e. Paderborn 1952 (da qual damos amplamente conta no ensaio: J. afirmou que as críticas do Estagirita a Platão não se referem às doutrinas dos diálogos. depois. dos quais falamos acima. assumiremos. sobre as quais fundare mos a nossa exposição. as duas etapas da “segunda navegação”: a doutrina dos Princípios e a teoria das Idéias. a respeito disso. ver também a já clássica obra de E. 8. a negação deste princípio: negação que. começavam a exposição do pensamento aristotélico com o tema: “Crítica de Aristóteles à teoria das Idéias”. no seu primeiro livro sobre Aris tóteles’. J) E justo. O estudioso alemão não aprofundou posteriormente esta tese e envere dou por outros caminhos. Pois bem. de outro pode induzir a uma série de erros nos quais muitos estudio sos caíram. nas obras esotéricas tiveram todo o seu destaque Nesta História da filosofia antiga não poderemos nos ocupar dos fragmentos descobertos das obras exotéricas (isto só poderia ser feito em sede monográfica) Diremos. se. e tenta ir além dele. riormente feitas e refeitas por Aristóteles). P. por uma série de razões. ver Reale. Elas manifestam uma unidade de fundo e uma honiogeneidade especulativa. La Nuova Italia. pp. mas às que são. in nuce. Introduzione a Aristotele. a tese de que elas têm um sentido unitário. E. sobretudo o volume de Berti. para manter o justo equilíbrio. Milão l985 II. de certo ponto de vista. TANGÊNCIAS ENTRE PLATÃO E ARISTÓTELES: A VERIFICAÇÃO DA “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” Não se pode compreender Aristóteles senão começando por es tabelecer a exata posição que ele assume. Para um aprofundamento dos mesmos. qualquer que tenha sido a sua gênese (isto é. com efeito. perfil Em primeiro lugar. ao invés. no volume Aristotele nelia critica e negli studi contemporanei. De fato. seja sob o histórico. fossem reelaborações de Teofrasto’ 5. ao contrário. mesmo no caso em que partes delas situem-se no período de Assos ou até mesmo da Academia. L’Aristotele perduto e lajbrmazionefllosofica di Epicuró. ao longo de todo tempo. do ponto de vista metafísico e na ótica teórica em geral. das quais se estão recuperando muitos fragmentos. às “Doutrinas não-escritas”). no limite. justamente. todavia. na obra Aristotele’s Werk und Geist. mas segundo o seu espírito. implica a negação de que Aristóteles seja um autêntico filósofo 7. La filosofia dei primo Aristoiele. Trattato sul cosmo. hoje em dia. Aristotele. esta tese está praticamente confirmada em sua totalidade. em certa medida. na nota 1. mesmo anteriormente à obra de Jaeger. Dizemos isso tendo presente. Bari 1 986 pp. Zürcher e un tentativo di rivoluzione nel campo degli studi aristote/ici. Florença 1936 (19731). 6. como nós as lemos. Ver também Reale. que. portanto. Ver. como vimos. acima. se a posição de Aristóteles em relação à doutrina dos Princípios e à teoria das Idéias não for considerada nas suas implicações extrema mente articuladas e nas suas . nelas. que já no período transcorrido na Academia. Bignone. já citado. No que diz respeito às obras esotéricas.. mas. a própria cifra espiritual. e que outras partes tenham sido poste. é necessário dar-se conta de que as maciças e contínuas críticas de Aristóteles a Platão não são dirigidas só à teoria das Idéias. à qual visava. o qual pretendeu até mesmo que oitenta por cento das obras aristotélicas. seja sob o perfil filosófico. Milão 1956. Aristóteles já revela. nenhum filósofo poderia ser compreendido se não se assumisse que 4. começar justamente por este tema uma exposição sobre Aristóteles. como foi dito recentemente. é bas tante dificil.não soube reconstruir a “história da evolução espiritual” do filósofo. Aubenque. De resto. Aristóteles foi amadurecendo algumas conquistas que. pro vam. Jaeger. revela-se como o discípulo que repensa e não repete o mestre. quase todos os historiadores da filosofia. é necessário ar ticular tal questão de maneira conveniente. reconhecer que o método inaugurado por Jaeger deu ótimos resultados no tratamento dos problemas de fundo levantados pelas obras exotéricas de Aristóteles. 108-143). 322 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SAI3ER FILOSÓFICO ele é. mas isso. diante de Platão. 9s. que só podem ser negadas por quem pretende. Mas os fragmentos dessas obras também não provam a tese de Jaeger. como dado adquirido depois da falida tentativa de entendê-las em chave genética. Paris 1962. como por exemplo Zürcher. é verdadeiramente necessário. com bastante consistência. são até mesmo mais freqüentes as dis cussões sobre temáticas protológicas conexas com a teoria dos Prin cípios e sobre ela fundadas. 1 2ss. Laterza.. Cf. descobrir nelas quimé ricas parábolas evolutivas. Todavia. Vita e Pensiero. Mais ainda. pp. responsável pela sua obra. 2 vols. a todo custo. Para uma justificação adequada do que afimiamos remetemos ao nosso volume II concetto di filosofia prima e l’unità de/Ia Metafisica di Arisiotele.. Le problême de I’être chez Aristof e. quando não tenha negado expressamente parte dela O modo como os seguidores do método histórico-genético interpretam Aristóteles pressupõe. Para uma breve caracterização dos principais dentre esses escritos.

ao mesmo tempo. ou seja. nos seus escritos. TANGÊNCIAS ENTRE PLATÃO E ARISTÓTELES 325 jamais quis explicar a fundo de que modo as Idéias podiam ser. Nas Idéias supra-sensíveis. é objetivamente muito diferente. justamente pelo seu estatuto de causas cornmento. rejei tando a doutrina dos Princípios e a teoria das Idéias. 141. se isoladas do contexto da metafísica aristotélica e do novo paradigma teórico que ela propõe. a um núcleo fun damental. Studien zur Enistehungsgeschichie der Metaphysik des metafisicas. poderá pare cer. Platão concebia a pesquisa dos fenômenos naturais e as ciências físicas como estruturalmente ligadas à narração mítica (porque ligadas ao devir). a existência de uma realidade transcendente.sensíveis. 1. devemos esclarecê-lo ulteriormente e precisá-lo. enquanto podem induzir a acreditar que Aristóteles. pp. as Idéias têm relações imanentes com as coisas e. Platão. La Metafisica. Reate. todas as realidades.. atribuiu uma função geral de Princípio como Motor imóvel de todas as coisas. Cf.assim como os livros M e N. do que com as suas específicas relações com o sen sível e. afirmando expressamente que “de tal Princípio dependem o céu e a natureza” e. No Uno-Bem transcendente. como observamos. Platão indicou a “causa” das coisas sensíveis. traduzione. nem causa do conhecimento das coisas sensíveis. 509-622. pelo menos à primeira vista e nas suas aparências polêmicas. justamente a essa realidade. 4. e grande parte do livro Z (desta obra publicamos inclusive uma editio minor. global e categoricamente. Cf. Assim eles terminaram. ao invés. Cf. particularmente no Timeu cuja narração. tentan do deduzir os nexos neles fundados e buscando estabelecer de que. com o comen tário (vol. cf. 2 vols. e negou a existência do Princípio do Uno-Bem e de todas as Idéias ou Formas transcendentes. Enquanto causa das coisas. passim. portanto. pp. será preciso introduzir o Bem 3. como já explica mos. é entendida por Aristóteles numa ótica muito parcial e segun do as suas novas categorias.. em particular. imanentes e transcendentes. rejeita também (por conseqüência) quase completamente a “segunda navegação” pla tônica. Nápoles 1968 (19782). pelo menos. como Pensamento de Pensamento. são meta-sensíveis. ele. são um outro das coisas sensíveis. com isso ele não pre tendeu absolutamente negar que existam algumas realidades supra. Reale. Antes. Aristoteles. pp. eles não podem ser nem causa da existência. é preciso compreender e ressaltar que as pesadas crí ticas do Estagirita à teoria das Idéias. o é só em parte e numa ótica diversa). ademais. e pelos quais Aristóteles nutria o máximo interesse. 5 19-523. Ele quis demonstrar. Platone. mais precisamente. transcendentes. Loffredo Editore. com a estrutura deste..complexas conseqüências. Aristóteles negou a existência do Uno-Bem transcendente.. A verdade. e interpretadas fora das complexas relações históricas que as sustentam. Reale. por deixar na sombra os fenômenos e o mundo físico.. Aristóteles criticou arduamente a doutrina dos Princípios e a teoria das Idéias. 301. Platão indicou o Princípio de toda a realidade. Jaeger. explica-se perfeitamente a enérgica rea ção de Aristóteles. Em todo caso. que pode ser resumido do seguinte modo: em lugar do Princípio transcendente do Uno-Bem. p. supra. ao mesmo tempo. Arsitoteles. entretanto. 324 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Ademais. Cf.. portanto. mas sem o .. Ao contrário. concebida no seu vértice superior como Inteligência suprema e. embora elevadíssimo. não é assim. Platone. E a maior parte dos discípulos da Academia centraram as suas discussões segundo a pers pectiva e o aspecto transcendente dos Princípios e das Idéias. em certo sentido. 174-182 e l89. pela Editora Rusconi. totalmente negativa. 5. então eles não servem de modo algum ao objetivo em vista do qual foram introduzidos: justamente enquanto transcenden tes. 19842. quando na realidade. Por conseqüência.léticos. modo as realidades se deduzem dos Princípios primeiros. fazem cair num inevitável erro de perspectiva (como ocorreu a muitos estudiosos). Se os Princípios e as Idéias são supra-sensíveis e transcendentes. Todas as numerosas criticas aristotélicas (que o leitor poderá ver no nosso comentário à Metafísica reduzem-se. mas reafirmou. ver sobretudo A 6 e A 9. porém. introduzione e cit. Milão 1978. Todavia — e é indispensável compreender muito bem este ponto capital —. considerava essas pesquisas um jogo. exceto nos diálogos dia. porque a causa essendi et cognoscendi das coisas deve estar nas coisas e não fora delas. que a realidade supra-sen sível não é como Platão pensava que fosse (ou. para explicar os Princípios e as Idéias que neles tinham sido introduzidos.. em certa medida. um ponto verdadeiramente fundamental. teoricamente. Platão não alimentou interesses específicos e particulares pelos fenômenos físicos como tais Ele preocupou-se muito mais com indagar a estrutura do mundo ideal como tal. de modo firme e preciso. p. 1. Dado que este é. como veremos.

porque não é normalmente compreendido).. se não existisse o supra-sensível. mas a ele hierarquica mente inferiores.. os sucedâ neos da teoria dos Princípios e das Idéias. justamente. será preciso introduzir as Formas ou essências imanentes. ou seja. pode ser afirmada como significando a renúncia. portanto. poder-se-ia até mesmo dizer que em Aristóteles. realidades sucessivas umas às outras (e. em certo sentido. entendido prioritariamente como realidade inteligível. ou seja. que o sensível não existiria. uma tendência a uma coerência e consistência maiores (e. progressivamente. 1072 b 13s. não sobre o Inteligí vel transcendente. 252-255. de fato. à convicção da existência do su pra-sensível? Foi justamente este o erro que muitos cometeram. quando. torna-se. da forma ancorada à matéria. centrada. A 7. até a mais pura Forma imaterial que é a Inteligência’. Aristóteles individuar o supra-sensível nas seguintes realidades: a) Deus ou primeiro Motor imóvel.. realidades com estrutura hierárquica. o que nos inte ressa é uma questão mais importante: a interpretação do Bem na ótica da causa final e a imanentização das Idéias.. Ver o nosso comentário à Meraftsica. em nova ótica. em última aná lise. H e e. Ademais (e também isso deve ser bem observado.comentário. 2) outra é uma nova e. Cf. d) almas intelectivas existentes nos homens. A 1. Eis um mapa sinótico muito significativo: Depois de ter demonstrado. Metafisica.. o grande mundo das Idéias torna-se a trama inteligível do sensível. de maneira per feita. entendendo-as como a inteligível de todo o real.j TC OÔ TÍ&VT’ q)íETaL. entendidas como formas inteligíveis dos sensíveis. Cf. justamente como conseqüência da crítica à teoria dos Princípios e das Idéias transcendentes. os fenômenos adquirem mais concretude e são “salvos”: porém. Reale. podemos dizer que Aristóteles chegou à nova concepção do supra-sensível. uma Deixamos de lado o problema de saber se essa crítica é totalinen te merecida por Platão. 1094 a 3: (. intelecto ou pensa mento que “vem de fora” são também as almas racionais dos ho mens Portanto. como dizíamos. repensando a metafisica platônica de modo capilar. que só subsiste em virtude da forma e pela forma. ou seja. 534s. Portanto. potencialidade e aspiração à forma inteligível. estrutura b) realídades análogas ao primeiro Motor. do ponto de vista especulativo. pp. recuperou largamente a sua mensagem sob outro perfil. à concepção platônica do supra-sensí vel. mas sobre a Inteligência transcendente. 9.. decomposta e irracional necessidade. e do sensível de modo particular. vale dizer. pelo que será sempre preciso referir-se à edição maior que publicamos por Loffredo).. por parte do Estagirita. . passim. e) precisamente. 6. na realidade. Reale.: íx T0LcXÚTT1Ç àpa àp)(iiç I1PTT1TaI ô o ‘1 Úc 326 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO TANGÊNCIAS ENTRE PLATÃO E ARISTÓTELES 327 entendido como causa final de toda a realidade (como “aquilo a que todas as coisas tendem”) em lugar das Idéias transcendentes. Platone. acreditando que as formas imanentes fossem o único sucedâneo do supra-sensível em geral e das Idéias em particular. em Aristóteles. a concepção da estrutura inteligível imanente do sensível. um platonismo mais robusto e metafisicamente mais fecundo do 7. Cf. Ética Nicornaquéia. é possível encontrar algo mais do que em Platão (pelo menos segundo certo paradigma metafísico). Aristóteles substitui concepção do supra-sensível entendido principalmente como inteligência. mais acentuadamente (porém. há. 1) Uma é aquela à qual já nos refe rimos outras vezes.. 8. as outras realidades supremas também são Inteligências. salvos justamente na forma: e todo o universo (como veremos) apresenta-se como uma grandiosa escada que se eleva. 2. se atinge plenamente o alvo. a grande verdade que Platão conquistou com a sua “segunda navegação”. O primeiro Motor é Pensamento que pensa a si mesmo. segun do planos hierarquicamente superiores um ao outro. em certo sentido teó rico. Antecipando o que discutiremos longamente. são duas dourrinas bem distintas entre si. hierarquicamente inferiores umas às outras). de dominante. chegou a Nesse sentido pode-se dizer que em Aristóteles. pp. o Príncípio mate rial. seguindo uma linha já traçada por Platão’). P/atone. nos âmbitos abertos pela “segunda navegação”) do que as que encontramos em Platão: o supra-sensível em sentido global é o mundo da Inteligência (o supremo Bem é a própria Inteligência suprema). em particular aos livros Z. mais elevada concepção do supra-sensível.

também Mefafisica, A 7, 1072 b 1 ss. 328 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO que nos outros Acadêmicos dos quais nos chegaram testemunhos, como veremos de maneira pormenorizada no terceiro volume desta obra. Eudóxio, por exemplo, para resolver os problemas levantados pelo transcendentalismo platônico, propôs a hipótese da “mistura” das Idéias com as coisas, contra a qual o próprio Aristóteles reagiu violentamente. Espêusipo eliminou as Idéias, mantendo apenas as realidades matemáticas. Xenócrates tentou recuperar o que se estava perdendo, mas sem êxito (assumindo uma típica posição de epígono). Portanto, Aristóteles, com a sua doutrina da Inteligência trans cendente, em certo, sentido mostra-se teoricamente mais platônico do que os outros Acadêmicos, porque, mesmo negando a existência de um Princípio primeiro entendido como impessoal Uno-Bem, reafir ma-o, justamente, como Inteligência suprema, alcançando vértices especulativos com relação aos quais os outros Acadêmicos ficaram decididamente abaixo. Além disso, também com a teoria das formas imanentes, Aristóteles permanece mais platônico do que os outros platônicos, porque, enquanto nega a transcendência das Idéias, mantém o teorema platônico da prioridade metafisica da forma, embora fazendo da forma a trama inteligível do sensível em larga medida; e, além disso, man tém a fundamental concepção eidética, gravemente comprometida por alguns expoentes da Academia (em particular por Espêus como amplamente veremos. Nesta ótica, a afirmação de Diógenes Laércio, de que Aristóteles foi o mais genuíno, ou seja, o mais legítimo (yvfloIc dis cípulo de Platão, parece-nos verdadeiramente emblemática, e, justa mente neste sentido, apresentaremos a nossa interpretação da filosofia do Estagirita. 10. Diógenes Laércio, V, 1. Cf. supra, p. 313, as epígrafes com as quais carac terizamos a Primeira Seção, ligando essa afirmação de Diógenes Laércio com a afir mação verdadeiramente emblemática de Aristóteles: “se não existisse nada de eterno, tampouco poderia existir o devi?’ (Metafisica, B 4, 999 b 5s.). ifi. AS DifERENÇAS ENTRE ARISTÓTELES E PLATÃO Agora fica claro em que sentido afirmamos que Aristóteles rea liza e aperfeiçoa a ‘segunda navegação” platônica: a descoberta do supra-sensível não só é mantida, mas fortemente potenciada. As opo sições entre Aristóteles e Platão se dão noutra direção.

Em primeiro lugar, falta ao discípulo a inspiração mística e re ligiosa, cuja aura poética encontrava em Platão particular destaque e ressonância, e falta a conexa dimensão e tensão escatológica: mas tudo isso está, em grande parte, fora da esfera propriamente filosófica e metafísica, ou melhor, é algo que a ela se acrescenta. A propósito disso, impõe-se um esclarecimento. A inspiração místicoreligiosa e as crenças escatológicas sobre os destinos da alma estão ainda presentes, e até mesmo com aspectos muito claros, no primeiro Aristóteles, vale dizer, nas obras exotéricas, enquanto desa parecem quase totalmente nas obras esotéricas. Eis, por exemplo, um explícito testemunho de Proclo a respeito: E também Aristóteles aprovou este procedimento e, ocupando-se da alma de um ponto de vista físico, no tratado Sobre a alma, não fez menção nem à descida da alma nem aos seus destinos, mas nas obras dialógicas [ é, nos exotéricos] tratou especitlcamente dessas questões [ E eis o que, posteriormente, o mesmo autor nos refere: Fala também o divino Aristóteles da causa pela qual a alma, vindo do além a este mundo, esquece as visões que no além contemplou enquanto, depois, saindo deste mundo, recorda no além as experiências e as paixões provadas neste mundo; e é preciso aceitar o raciocínio. Diz também, que aqueles que passam da saúde à enfermidade esquecem até que aprenderam a ler e a escrever, enquanto a ninguém, passando da enfermidade à saúde, aconteceu sofrer algo desse gênero. Na verdade, para as almas, a vida sem o corpo, aquela que é conforme à sua natureza, assemelha-se à saúde, en quanto a vida no corpo, contrária à sua natureza, assemelha-se à enfermidade. No além, de fato, as almas vivem conformemente à sua natureza; neste mundo, vivem de maneira contrária à sua natureza. Assim, verossimilmente acontece 1. Proclo, in Pi’at. Tím., 338 c-d ( Aristóteles, Eudemo, fr. 4 Ross). A tradução italiana dos fragmentos dos exotérios é de G. Giannantoni, in Aristotele, Opere, Laterza, Bari 1973. 330 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FiLOSÓFICO AS DIFERENÇAs ENTRE ARISTÓTELES E PLATÃO 331 que elas, vindo do além, esquecem as coisas do além, enquanto, ao invés, saindo deste mundo para o além, recordam as coisas que lhes aconteceram aqui No Protrérico, indo até mesmo além de Platão, Aristóteles equi parava o corpo não só ao túmulo da alma, mas até mesmo a um horrendo suplício para ela:

E deriva também ser verdade o que se encontra em Aristóteles, isto é, que somos sujeitos a um suplício análogo ao daqueles que em outros tempos, quando caíam nas mãos dos piratas etruscos, eram mortos com calculada crueldade: os seus corpos ainda vivos eram amarrados a cadáveres, fazendo combinar com a máxima exatidão possível, frente a frente, as várias partes. Assim as nossas almas estão unidas aos corpos, como os vivos são amarrados aos mortos Pois bem, é exatamente essa componente místico-religioso -escatológica que na evolução do pensamento aristotélico se perdeu; mas, como vimos, trata-se da componente platônica que lança suas raízes na religião órfica e alimenta-se mais de fé que de ontologia e dialética. E perdendo essa componente nos esotéricos, Aristóteles pre tendeu, indubitavelmente, emprestar maior rigor ao discurso pura mente teorético, buscando distinguir bem o que se funda unicamente no logos do que se funda em crenças religiosas. Uma segunda diferença de fundo entre Platão e Aristóteles está no seguinte: Platão interessou-se pelas ciências matemáticas, mas não pelas ciências empíricas (com exceção da medicina), e, em geral, não teve nenhum interesse pelos fenômenos empíricos enquanto tais. Aris tóteles, ao invés, teve grandíssimo interesse por quase todas as ciên cias empíricas (e escasso amor pelas matemáticas) e pelos fenômenos considerados enquanto tais, ou seja, como puros fenômenos, apaixo nando-se também pela coleta e classificação de dados empíricos, independentemente da sua consideração em função de categorias fi losóficas. Mas, olhando bem, esse elemento, ausente em Platão e presente em Aristóteles, não deve levar a engano: ele só prova que 2. Proclo, in PIat. Rep., II, p. 349, 13-26 Kroll ( Aristóteles, Eudemo, fr. 5 3. Agostinho, Contr. Julian. Pelag., IV, 5, 78 ( Aristóteles, Protrético, fr. lO Aristóteles, além de interesses puramente especulativos, tinha também

contrário: Aristóteles, malgrado todo o amor que teve pelos fenômenos, não se cansou de repetir que, do ponto de vista especulativo, estes só se “salvam” com o metafenomênico, isto é, se forem postos em relação com uma causa imaterial, imóvel e transcendente Podemos resumir brevemente as diferenças até aqui destacadas deste modo: Platão, além de filósofo, é também um místico (e um poeta); Aristóteles, ao invés, além de filósofo, é também um cientista. Todavia esse mais de sinal oposto que diferencia marcadamente os dois homens, diferencia-os justamente nos seus interesses humanos extrafilosóficos e não no nácleo especulativo do seu pensamento. Enfim, uma última diferença deve ser observada. A ironia e a maiêutica socráticas, fundindo-se com uma força poética excepcional, deram origem, em Platão, a um discurso sempre aberto, a um filosofar como busca sem repouso. O oposto espírito científico de Aristóteles devia necessariamente levar a uma sistematização orgânica das várias aquisições, a uma distinção dos temas e dos problemas segundo a sua natureza e, também, a uma diferenciação dos métodos com os quais afrontar e resolver os diversos tipos de problemas. E assim à mobilíssima espiral platônica, que tendia a envolver e a juntar sempre todos os problemas, sucederia uma sistematização estável e definiti vamente fixada dos quadros da problemática do saber filosófico (e serão justamente os quadros que assinalarão as vias mestras sobre as 4• É significativo o fato de que obras como a Física, Do Céu, A geração e a corrupção, O movimento dos animais, apresentem o Motor imóvel como a razão última dos vários fenômenos naturais por elas tratados. Ross). b Ross). ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO quais correrá toda a sucessiva problemática do saber filosófico: me

tafísica, física, psicologia, ética, política, estética, lógica). Contudo, também nesse ponto, a diferença é muito menos radical do que parece à primeira vista. De fato, Platão foi constrangido pelo próprio peso das suas descobertas a fixar, senão dogmas, pelo menos pontos estabelecidos, e a sacrificar a mobilidade da sua poesia ao premente rigor do logos, a mitigar em parte a tensão aporética. E o próprio Aristóteles, por sua parte, quando é lido de maneira adequa da, não só não elimina a aporia, mas a institucionaliza, por assim dizer, e proclama a consciência da aporia como condição necessária para o acesso à verdade: a aporia é como um nó e a sua solução é o seu desatamento, e o nó só pode ser desatado por quem o conhece e reconhece como tal. Também aqui, as diferenças foram aumentadas por uma

interesse pelas ciências empíricas, pelas quais o mestre não se interes sava. Portanto, esse elemento diferencia, de fato, mestre e discípulo, mas do ponto de vista antropológico, e não necessariamente do ponto de visa especulativo. Os doutos do Humanismo e do Renascimento (e muitos estudiosos modernos) incorreram nesse equívoco. O afresco da Escola de Atenas de Rafael oferece uma esplêndida representação visual dessa interpretação, pintando Platão com a mão apontando para o céu, o transcendente, e Aristóteles, ao invés, com a mão indicando a terra, a empírica e imanente esfera dos fenômenos. Na realidade, veremos ser verdade exatamente o

ótica errada: não se teve sempre na devida conta que o diferente modo no qual os dois filósofos exprimiram os seus pensa mentos (um valendo-se da mobilidade do diálogo, conduzido, não só pelo logos, mas também pela força da poesia, o outro valendo-se de um sóbrio e até mesmo árido discurso denso de conceitos), amiúde pode fazer parecer (ou faz efetivamente) os dois pensamentos mais diferentes do que são, ou simplesmente diferentes mesmo quando não sao. Em conclusão, as relações entre Platão e Aristóteles não são de antítese: são, ao invés, para usar uma terminologia hegeliana que se adequa perfeitamente, como dissemos acima, relações tais que levam o discípulo a uma supera ção do mestre, que é uma verificação da sua conquista de fundo. E além da verificação em Aristóteles, há também um completamento que leva à sistematização do saber filosófico à qual já acenamos, da qual emergirão os quadros do saber filosófico que sustentarão a especulação ocidental por séculos inteiros. 332

antes, pela mais elevada dentre elas, pois é dela e em função dela que todas as outras ciências adquirem o justo significado. Que é a metafísica? Comecemos com um esclarecimento do termo. E sabido que “metafísica” não é termo aristotélico (talvez tenha sido cunhado pelos peripatéticos, se não nasceu por ocasião da edição das obras de Ans tóteles feita por Andrônico de Rodes, no século 1 a.C.) Aristóteles usava, normalmente, a expressão fi/osofia primeira ou também teolo gia em oposição àfi/osofia segunda ou física. Mas o termo metafísica é certamente mais significativo, ou melhor, foi sentido como mais significativo e preferido pela posteridade, e assim definitivamente consagrado. A metafisica aristotélica é, com efeito, como logo vere mos, a ciência que se ocupa das realidades que estão acima das físi cas, das realidades transfísicas ou suprafísicas, e, como tal, opõe-se à física. E metafísica foi denominada definitivamente e de maneira constante, na trilha do pensamento aristotélico, toda tentativa do pen samento humano de ultrapassar o mundo empírico para alcançar uma realidade meta-empírica. 1. Cf. Metafísica, E 1, passim.

SEGUNDA SEÇÃO A METAFÍSICA E AS CIÊNCIAS TEORÉTICAS a ièv o ÚEc T()V c a cXi TG)V Ec “As ciências teoréticas são de muito preferíveis às outras ciências, e esta (a metafisica), por sua vez, é de muito preferível às outras ciências teoréticas”. Aristóteles, Metafísica, E 1, 1026 a 22s. 1. A METAFÍSICA 1. Conceito e características da metafísica Aristóteles distinguiu as ciências em três grandes ramos: a) ciên cias teoréticas, que buscam o saber por si mesmo, b) ciências práticas, que buscam o saber para alcançar, através dele, a perfeição moral e c) ciências poiéticas ou produtivas, que buscam o saber em vista do fazer, isto é, com a finalidade de produzir determinados objetos. As mais ele vadas por dignidade e valor são as primeiras, constituídas pela metafí sica, pela física (na qual está incluída a psicologia) e pela matemática’. Convém iniciar a nossa exposição pelas ciências teoréticas e, o

2. Cf. Reale, Aristorele, La Metafisica, vol. 1, p. 3ss. e as indicações bibliográficas dadas ali. Desta nossa tradução extraímos todas as passagens apresentadas no curso deste capítulo e dos sucessivos. 336 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 337 Feito este esclarecimento de caráter geral, devemos caracterizar pontualmente as precisas valências que Aristóteles deu àquela ciên cia, que ele chamou de “filosofia primeira” e os pósteros de “meta física”. As definições dadas pelo filósofo são pelo menos quatro: a) a metafísica indaga as causas e os princípios primeiros ou supremos b) a metafísica indaga o ser enquanto ser c) a metafísica indaga a substância a metafísica indaga Deus e a substância supra-sensível Quem nos seguiu até aqui não terá dificuldade em compreender o sentido, histórico ou teorético, das quatro definições da metafísica: elas dão forma e expressão perfeita às linhas de força segundo as quais se desenvolveu toda a precedente especulação de Tales a Platão, linhas de força

que agora Aristóteles reúne em poderosa síntese. a) Em primeiro lugar, todos os filósofos monistas da natureza não bus cavam senão a arché, isto é, o princípio ou a causa primeira; as causas e os princípios primeiros também foram buscados pelos físicos pluralistas, e as “causas verdadeiras” foram buscadas pelo próprio Platão com a sua teoria das Idéias: portanto, a determinação aristotélica da metafísica como “aitiologia” ou “eziologia” (pesquisa de causas e princípios) está em perfeita sintonia com todo o pensamento prece dente. b) Em segundo lugar, Parmênides e a sua Escola indagaram o ser, o puro ser, e Platão, desenvolvendo a instância eleática, construiu toda uma ontologia (das Idéias) muito elaborada (sem contar que a própria doutrina da physis é uma doutrina do ser ou uma ontologia, porque a physis é a verdadeira realidade, isto é, o verdadeiro ser): portanto, a determinação da metafísica como “ontologia” era inevitá vel. c) Também a terceira determinação da metafísica (que podere mos chamar de “usiologia”) explica-se bem: uma vez superado o monismo eleático e acertado que existem muitos seres, diversas for mas e diversos gêneros de realidade, era necessário estabelecer qual era o ser fundamental, qual era a ousía ou substância, ou seja, era necessário estabelecer as coisas que se deviam consider “ser” no sentido mais forte e mais verdadeiro da palavra (ousía ou substância indica, 3. Cf. sobretudo Metafísica, livros A, a, B. 4. Cf. especialmente Metafísica, livro 1’ (assim como OS livros E 2-4; K 3). 5. Cf. sobretudo Metafísica, Z, H, 8, passim. 6. Cf. sobretudo Metafísica, E 1 e todo o livro A. justamente, o ser mais verdadeiro). d) Por último, também a determi nação da metafisica como “teologia” explica-se perfeitamente. Vimos que todos os naturalistas indicaram como Deus (ou como o Divino) os seus princípios; o mesmo, em nível mais elevado, fez Platão ao identificar o Divino com as Idéias, e Aristóteles não podia deixar de fazer o mesmo. Mas — note-se — as quatro definições aristotélicas de metafísica não estão em harmonia apenas com a tradição especulativa preceden te ao Estagirita, mas também em perfeita harmonia entre si: uma leva estruturalmente à outra e às outras, e cada uma a todas as outras, em perfeita unidade Vejamos mais de perto. Quem indaga as causas e os primeiros princípios, necessariamente deve encontrar Deus: Deus é, com efeito, a causa e o princípio primeiro por excelência. A pesquisa aitiológica desemboca estruturalmente na teologia. Mas também partindo das outras definições chega-se a idênticas conclusões: perguntar o que é o ser significa

perguntar se só existe o ser sensível ou também um ser supra-sensível e divino (ser teológico). O problema “que é a substân cia?” implica também o problema “que tipos de substâncias exis tem?” Só as sensíveis ou também as supra-sensíveis e divinas. Por tanto, está posto o problema teológico. Com base nisso, compreende-se bem que Aristóteles tenha utili zado o termo teologia para indicar a metafísica, à medida que as outras três dimensões levam, estruturalmente, à dimensão teológica. A pesquisa sobre Deus não é só um momento da pesquisa metafísica, mas é o momento essencial e definidor. O Estagirita, de resto, diz com toda clareza que se não existisse uma substância supra-sensível nem sequer existiria a metafísica: Se não subsistisse outra substância além das sensíveis, a física seria a ciência primeiras. E compreende-se bem a razão: se não existisse o supra-sensível, as causas e os princípios seriam só os sensíveis, ou seja, os físicos; 7. Para a precisa documentação destes pontos e do que dissemos em todo o curso do parágrafo, cf. Reale, 1/ conceito di filosofia prima..., passim. 8. Cf. Metafísica, E 1, 1026 a 27 e K 7, 1064 b 9-14. 338 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFlSICA 339 se não existisse o ser supra-sensível, todo o ser se reduziria ao ser natural, isto é, físjco; se não existissem substâncias supra-sensíveis, só existiriam substâncias naturais, isto é, físicas. Em suma: se não existisse uma realidade supra-sensível, não restariam senão a natureza e as causas naturais, e a ciência mais elevada seria a da natureza e das causas naturais, a física. Da “segunda navegação” platônica nasceu, fundamentalmente, a nova ciência, que, querendo alcançar a substância ou o ser suprafísico, de fato e de direito merece o apelativo de meta-física Dissemos acima que as ciências teoréticas são superiores às prá ticas e às produtivas e que, por sua vez, a metafísica é superior às outras duas ciências teoréticas. A metafísica é a ciência absolutamen te primeira, a mais elevada e a mais sublime’ Mas para que serve?, alguém poderá perguntar. Pôr-se esta pergunta significa situar-se do ponto de vista antitético ao de Aristóteles. A metafísica é a ciência mais elevada, diz ele, justamente porque não está ligada às necessi dades materiais. A metafísica não é uma ciência dirigida a fins prá ticos ou empíricos. As ciências dirigidas a tais

Metafísica. objetar-se-á. perfeitamente aristotélico. entre todas as ciências. r 3. Deus é feliz conhecendo e contemplando a si próprio. o termo é. realiza desse modo também a sua mais autêntica felicidade. porque tem em si mesma o seu fim e. Aristóteles qualifica aquele que se ocupa de tal conhecimento como “alguém que está acima da físico” (ToO puc TIS àvc enquanto o físico ocupa-se da natureza. Só Deus pode ter esse tipo de ciência que tem em si mesma o seu único fim. justamente. pois. em todo caso. nós. preferíveis às outras duas ciências. Mas uma ciência pode ser divina só nesses dois sentidos: ou porque ela é a ciência que Deus possui em grau supremo. o homem tem um ponto de contato com Deus. corretamente. não valem em si e para sj. e nisso Aristóteles indicou a máxima felicidade do homem. Deus in primis et ante omnia. porque ela tem como objeto as coisas divinas. Porém. E não há dúvida. 1026 a 18-23: “Três são. Metafísica. 340 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 341 de fins práticos e pragmáticos particulares. neste sentido. 12. E.fins a eles estão sub metidas. porém. a sua mais elevada areté. ao contrário. Metafísica. apresentada por Aristóteles como pesquisa das causas primeiras. de um puro amor ao saber. por isso. de longe. parcialmente. tem este tipo de ciên cia”. E 1 e A passim. é ciência “livre” por exceléncia°. a metafísica é ciência que vale em si e para 9. Ver também Metafísica. não há dúvida de que se o divino existe. Na Metafísica. mas a metafísica perma nece. da necessidade. conseqüentemente. perfeitamente e de maneira continuada. Ora. Embora não seja de cunho aristotélico. responde Aristóteles. com ela. também para os conceitos que seguem. é filosofia puramente especulativa. imperfeitamente e de modo descontínuo. todavia. 10. que Deus. contemplativa. também. Com efeito. também. a qual constitui somente um gênero de ser (enquanto acima deste existe um outro gênero de ser). a física e a teologia [ metafísica). portanto. Nesse conhecimento o homem realiza perfei tamente a sua natureza e a sua essência. Mas. o homem que faz metafísica aproxima-se de Deus. os ramos da filosofia teórica: a matemática. Ao invés. ciência que tende exclusivamen te a apaziguar essa exigência humana do puro conhecimento. de longe. passamos agora a enuclear o seu conteúdo. ou. 983 a 4-10: “Esta [ metafïsica]. Agora estão claras todas as razões pelas quais — como já disse mos — Aristóteles chamou a metafísica de ciência “divina”. de conhecer o porquê último. Aristóteles pôde dizer: Todas as outras ciências superiores a esta. só a sapiência I metafisica] possui ambas as caracterís ticas: com efeito. prescindindo de qual quer vantagem prática que tal saber possa trazer. Cf. Esta afirmação pode. mesmo dentro desses limites. e qual é a sua razão de ser? A metafísica. em primeiro lugar. segundo . justamente por terem admitido só um gênero de ser). Devemos. existe numa realidade daquele tipo. consistem na razão e na inteligência. é a mais divina e mais digna de honra. E enquanto as ciências teóricas são. e estabeleceu que. pois. que. não nasce senão da admiração e do estupor que o homem experimenta diante das cojsas: nasce. Portanto. pelo menos da filosofia classicamente entendida. A 8. esta é. e apazigua a mais profunda. estabelecer quais e quantas são essas “causas”. Cf. Neste sentido. por sua vez. preferível às outras ciências teóricas”. A 2. de que a ciência mais elevada deve ter como objeto o gênero mais elevado de realidade. de fato. nenhuina serão mais necessárias aos homens. A 2. 983 a lOs. da filosofia em geral. 1005 a 33 s. de fato. As quatro causas Examinadas e esclarecidas as definições de metafísica do ponto de vista formal. radicada na natureza humana. Dissemos que a metafísica é. o homem é feliz conhecen do e contemplando os princípios supremos das coisas. é convicção comum a todos que Deus é uma causa e um princípio. ser transformada nesta outra: as outras ciências serão mais necessárias em função das realizações 1 1. A 2. como veremos na ética. 2. também. sí. que. a mais necessária. mas só à medida que alcançam aqueles fins. como já se viu no curso do precedente volume. ou seja. e. reduzem-se às seguintes quatro causas (já entrevistas — embora confusamente —. Deus a possui inteiramente. original e imprescindível necessi— dade que brota dessa natureza: a pura necessidade de saber. relativamente ao mundo do devir. o homem ama-o só por ele mesmo. A metafísica é. passim (onde são criticados os Físicos. E 1. Essa é a mais verdadeira e autêntica defesa e justificação da metafísica e. passim. ou exclusivamente ou em grau supremo. no seu espírito. Aristóteles afirmou que as causas devem ser necessariamente finitas quanto ao número. porque nela e com ela o homem realiza a sua natureza de ser racional. como nasce.

342 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 343 Que é. a matéria da esfera de bronze é o bronze. pp.iovaxc mas oÀÀa A essa conquista essencial. impõem-se duas outras razões ou causas: a causa eficiente ou motora. o eleatismo cristalizou-se na doutrina do Ser-Uno com absorção integral de toda a realidade nesse Ser-Uno. id ex quo) é feita uma coisa: por exemplo. e assim por diante. comporta também a unidade. mas. da taça de ouro é o ouro. e das quais falaremos mais amplamente adiante.. “por que se desenvolve e cresce?”. no caso particular do ser. A 3-10. através de Zenão. exatamente. “quem o gerou?”. Platão e os platônicos tentaram uma dedução do múl tiplo. como universal substancial.ele. além delas. 15. Cf. Vejamos que é o ser (6v. o telos ou o fim ao qual tende o devir do homem. mas. 2) causa material. a metafísica é definida por Aristóteles como doutrina do “ser” ou. e assim por diante. que constitui a base da sua onto logia. ele se reduz à sua matéria (carne e ossos) e á sua forma (alma). o que estrutura)’ Por ora note-se: matéria e forma. que só se podia entender num único sentido. isto é. 34ss. pelos seus predecessores): 1) causa formal. ou seja. 1) A causa formal é. ao fazer isso. 13. não souberam chegar. . 3) causa eficiente. ao invés. De fato. a matéria dos animais são a carne e os ossos. das quais falaremos em seguida’ 3. e assim por diante. por exemplo. é o bem (àya*óv) de cada coisa. Ora. Estas são as causas próximas. a forma ou essência (ETSo T6 TÍ fjv Elval) das coisas: a alma para os animais. não bastam.. 3) A causa eficiente ou motora é aquilo de que provêm a mudan ça e o movimento das coisas: os pais são a causa eficiente dos filhos. id cuius gratia) cada coisa é ou advém. nem Platão nem os platônicos. por exemplo. Aristóteles caracteriza o ser: a) Como dissemos. 2) A causa material ou matéria (Cr) é “aquilo de que” (Tà oõ. isto é. os que o geraram. para Aristóteles. sig nificam o que funda. formula o seu grande princípio da originária multiplicidade dos sentidos de ser. no seu produzir-se e no seu corromper-se. 4) causa finaV As duas primeiras são a forma ou essência e a matéria. e levou à imobilização do Todo. ETvat) e o ser enquanto ser (6v i 6v). em polêmica com eles. em particular. 14. que constituem todas as coisas. cada uma dessas quatro causas. as relações formais determinadas para as diferentes figuras geométricas (para a circunferência. A 4-5 e 6-8. a univocidade. pois. além das coisas: por esse motivo escapou-lhes a verdadeira recuperação do múltiplo e do devir. bastam para explicá-lo. isto é. são necessárias as ulteriores causas fornecidas pelo movimento dos céus e a causa suprema do primeiro Motor Imóvel. além de doutrina das causas. Cf. se considerarmos o ser das coisas estatica mente. é evidente que se considerarmos. E assim os platônicos não puderam verdadeira mente superar Parmênides Eis como. e a causa final.. diz Aris tóteles. e isso. O ser e o devir das coisas exigem em geral essas quatro cau sas. De fato. determinado homem estaticamente. não obstante as suas criticas a Parmênides. como dissemos. se o considerar mos dinamicamente. Metafísica. Melisso e a Escola de Megara. Aristóteles diagnostica perfeitamente a raiz do erro dos eleatas e. também. a vontade é a causa eficiente das várias ações do homem. eles entenderam o Ser como gênero transcendente. determinada estrutura para os diferen tes objetos de arte. segundo Aristóteles. mas se o considerarmos dinamicamente e perguntarmos: “Como nasceu?”. univocam ente. subsistente em si e para si. o golpe que dou nessa bola é a causa eficiente do seu movimento. nem como gênero transcendente ou universal substancial ao modo dos platônicos. Examinemos. mas polívoco (o ô não se diz . 4) A causa final constitui o fim ou o escopo das coisas e das ações. no seu devir. o lugar preciso dos pontos eqüidistantes de um ponto chamado centro). no contexto da especulação aristotélica. ou seja (em termos aristotélicos). Reale. Metafisica. ela constitui aquilo em vista de que ou em função de que (Tà oõ vExa. do “ser enquanto ser”. permaneceram vítimas do pressuposto eleático. o ser não pode ser entendido univocamente ao modo dos eleatas. da estátua de madeira é a madeira. o ser? Parmênides e o eleatismo acreditaram que o ser só podia ser absolutamente idêntico. O ser e os seus significados e o sentido da fórmula “ser enquanto ser” Vimos que. o que condiciona. Ora. da casa são os tijolos e cimento. no seu desenvolvimento. (Recorde-se que “causa” e “princípio”. brevemente. O ser não tem sentido unívoco. II conceito di filosofia prima.

mas todos em referência a um único princípio [ Deixemos por ora as questões da individuação desse princípio e prossigamos na caracterização geral do conceito de ser. de múltiplos modos. passím. (Remetemos. d) Se a unidade do ser não é unidade nem de espécie nem de gênero. para Aristóteles. ou porque são corrupções ou privações. Portanto. e que ele exprime um conceito trans-genérico e trans-específico. Entre univocidade e equivocidade pura há uma via de meio. LVI [ pp. mas ao mesmo tempo todas implicam uma referência a algo que é uno. que é o princípio em relação ao qual todos os outros significados subsistem. ou qualida des ou causas produtoras ou geradoras. Trata-se. se refere à substância Em todo caso. G 2. nesse sentido. Portanto. ou negações da substância’ Em conclusão. Eis a célebre passagem na qual Aristóteles enuncia a sua doutrina: 16. com efeito. a fórmula “ser enquanto ser” perde todo significado fora do contexto do discurso sobre a multiplicidade dos significados de ser: quem a ela atribui o sentido de ser generalíssimo . Não por isso. ou enquanto é obra da medicina. e) Que é esse algo uno? É a substância.b) O ser exprime originariamente uma “multiplicidade” de signi ficados. Os medievais dirão que é um conceito analógico. ou também do modo em que dizemos “médico” tudo o que se refere à medicina: ou enquanto possui a medicina ou enquanto é bem disposto a ela por natureza. fundamentalmente. o centro unificador dos significados de ser é a ousía. Cf. também o ser se diz em muitos sentidos. mas só tendo presente que a analogicídade do ser aristotélico é diferente da analogicidade do ser medieval. e que esta é definida por características bem precisas. o “ser enquanto ser” significará a substância e tudo o que. mas todos eles tendo uma precisa relação com um idêntico princípio ou uma idêntica realidade. além de trans-espec(fico. não poderá ser um “gênero” e muito menos uma “espécie”. funda mentalmente. O ser não se diz por mera homonimia. Metafísica. mas ela não poderá reduzir-se absolutamente a mera fenomenologia ou descrição fenomenológica dos diversos significados de ser. portanto. ou enquanto a produz. justamente. A unidade dos vários significados de ser deriva do fato de serem ditos em relação à substância. e o caso do ser está. mas do mesmo modo em que dizemos “sadio” tudo o que se refere à saúde: ou enquanto a conserva. a serem em seguida explicadas. com que cada um seja ser. é mero “homônimo”. 1003 a 33-b 6. na passagem acima citada. Assim. em conseqüência do que se estabeleceu. Essa fórmula não pode significar um abstrato uniforme e unívoco ens generalissimum. porém. Disso tudo se deduz claramente que a ontologia aristotélica de verá distinguir e estabelecer quais os vários significados de ser. pois. c) O ser. mas todos em referência a um único princípio: algumas coisas são ditas ser porque são substâncias. Vimos. as várias coisas que são ditas “ser” exprimem sentidos diferentes de ser. um “equí voco”. justamente. seja da substância. mas Aristóteles não usa este termo com relação ao ser: poder-se-ia usá-lo. nessa vida intermediária. E. isto é. A 2-3. mas sempre em referência a uma unidade e a uma realidade determinada. Então. é indiscutí vel que. de um conceito trans-genérico. ou enquanto é o seu sintoma. O ser se diz em múltiplos sentidos. seja do que se 18. seriam excluídos todos os significados de ser. Física. Cf. 344 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 345 refere à substância. centrar-se na substância. Metafísica. vale dizer. a substância. é claro que a ontologia aristotélica deverá. ou porque são negações de algumas dessas. ao nosso ensaio: L’impossibilità di intendere univocamente l’essere e la tavola dei significari di esso secando Aristotele. mais amplo e mais extenso do que o gênero e a espécie. a fórmula “ser enquanto ser” só pode exprimir a própria multiplicidade dos significados de ser e a relação que formalmente os liga e faz. como muitos crêem. ou enquanto é capaz de recebê-la. podemos ontologia aristotélica é. que tipo de unidade é? O ser exprime significados diversos. que o ser não é uma espécie nem tampouco um gênero. outras porque são vias que levam à substância. para um aprofundamento da questão. 17. Então. porque todos os diferentes significados que o ser pode assumir implicam uma referência fundamental à substância: excluída a substância. como bem ilustram os exemplos de “sa dio” e “médico”. pois. outras porque são afecções da substância. e podemos aduzir ainda outros exemplos de coisas que se dizem do mesmo modo destas. uma usiologia. dizer que a Essas observações devem alertar o leitor para a interpretação da célebre fórmula “ser enquanto ser” (6v 6v). 289-326). N 2. in “Rivista di Filosofia Neoscolastica”. também o ser se diz em muitos sentidos. Aristóteles o diz com toda clareza na conclusão da passagem que lemos acima: Assim.

o ser músico não exprime a essência do homem. ou seja. como logo veremos. Owens. diferentes categorias. c) não-ser como falso. permanece vítima do arcaico modo de raciocinar dos eleatas e trai completamente o significado da reforma aristotélica 4. O ser segundo a potência e segun do o ato. mas às vezes todas as catego rias: além da essência ou substância. vem o significado de ser como verdadeiro. momentaneamente. isto é. Eis o elenco e a elucidação dos significados de ser a) O ser se diz. Recordemos que a primeira sistematização da tábua aristotélica dos significados de ser foi feita por F. seja quem dele faz uso em ato. c) ser como verdadeiro e falso. 22. quem sabe aritmética. é o ser por si (6v xa’ aúTó). enquanto o não-ser como falso indica o ser do juízo falso. Para um aprofundamento dos problemas ver: J. dado que Aristóteles traça uma exata “tábua”. um puro aconte cer. 346 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA d) O último elencado é o significado de ser como potência e como ato. um mero acidente. seja quem pode fazer uso do próprio saber (por exemplo.ou de puro ser. essencialmente. d) ser como acidente ou ser fortuito. o nosso ensaio citado na nota 16 e o nosso comentário aos livros 1’. Toronto 19632. que é em potência o bloco de mármore que o artista está esculpindo. tem os olhos fechados). a relação. Este é o ser que podemos chamar “lógico”: de fato. e nesse sentido dizemos que é trigo a muda de trigo. . A tábua aristotélica dos significados do ser e a sua estrutura Tendo adquirido o conceito de ser e o princípio da original e estrutural multiplicidade dos significados de ser. quem pode ver (isto é. embora subordinadamente à substância. isto é. ao invés. Com efeito (diferen temente do que ocorre na especulação medieval). Analogamente. implicitamente. sobretudo. Cf. no sentido que é trigo em potência. Friburgo 1862. mas o que é por si. de quatro significa dos. The Doctrine ofBeing in the Aristotelian Metaphysics. o ser como verdadeiro indica o ser do juízo verdadeiro. 20. Metafísica. Por exemplo. mas. com efeito. devemos examinar quantos e quais são esses significados. pois. F 2. 1003 b 5-10. ao invés. somente três: a) não-ser segundo as diferentes figuras de categorias. diremos que os significados de ser são os quatro seguintes. não o que é por outro. e a nossa Introdução à Metafísica. Como exemplo de ens per se. ou “o justo é músico”. mas o explicitaremos logo em seguida. ordenados do significado mais forte ao mais fraco: a) ser segundo as diferentes figuras de categorias. Esse é um ser puramente mental. b) não-ser como potência (= não-ser-em-ato). Metafísica. (Mas disso falaremos mais A tábua dos significados de ser consta. Os significados do não-ser são. numa obra agora clássica: Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach Aristoteles. além da substância. Cf. que o ser não se entende de modo unívoco. b) ser segundo o ato e a potência. b) Oposto ao ser acidental. no sentido acidental. normalmente. a qualidade. Aristóteles indica. ou seja. seja quem tem a potência para ver. o agir. mas não está no momento contando). esclarece Aristóteles. por um lado. o que tem a capacidade de ver. o onde e o quando. são algo muito mais sólido do que o puro acidente (que exprime o puro fortuito). como ser acidental ou casual (6v xa GU143Ef3r]xÓç). Este indica. só a substância. Já vimos. dizemos que vê. enquanto da espiga ma dura dizemos que é trigo em ato. estende-se a todos os significados de ser acima descritos: pode haver um ser acidental em potência ou em ato. Brentano. em Aristóteles as categorias. nem no âmbito de cada um dos quatro significados. Porém seria mais exato dizer de quatro grupos de significados. a quantidade. pode haver o ser de um juízo verdadeiro ou falso em potência ou em ato e. Darmstadt 19602. pp. Para reduzir a esquema o que foi dito e para concluir. contraposto ao significado do não-ser como falso. fundamento em segunda ordem dos outros significados de ser. D 7. 3Oss. pode haver uma potência e um ato segundo cada uma das amplamente adiante). E e K da Metafísica 21. dizemos também que é em ato uma estátua já escul pida e. mas apenas que ao homem ocorre ser. como o ser acidental. o padecer. seja quem vê em ato. digamos. Por exemplo. E 2-4 e as ulteriores indicações que damos no nosso ensaio citado na nota 16. indicamos casos de ser acidental: de fato. ou dizemos que é sábio. um ser que só subsiste na razão e na mente que pensa. 19. aquém ou além das múltiplas determinações do ser. c) Em terceiro lugar. enquanto são. quan do dizemos “o homem é músico”.

Como Aristóteles deduziu as categorias e a sua tábua? Este pro blema é complexíssimo. ou que são ser só se acrescentarmos ou extraírmos de ser determinada qualifi cação. e o já citado volume de Brentano. in ‘Sitzungsberichte der Kaiserlichen Akad. ao invés. Apelt. e. os supremos “gê neros” do ser E. o correto é afirmar que as categorias são ditas ser. cada um deles agrupa. cujos diferentes significados implicam a referêncía a uma única e mesma coisa. a substância. como também diz Aristóteles. provavelmente.. a) Em primeiro lugar. Metafísica. ver abaixo a tábua). porque já é. Z 3.. vale em particular para as categorias: as restantes categorias só são ser em relação à primeira e em virtude dela. nem no mesmo grau: O é predica-se de todas as categorias. uma operação ou um instrumento. Especificações sobre os significados de ser Notamos acima que os quatro significados de ser são. debatidíssimo no século passado.-hist. as figuras de categorias Aristóteles diz expressamente que o ser pertence às diversas categorias. mas em virtude de uma referência a uma única coisa Essa última realidade é. para uma dedução ontológica. vale di zer. mas da substância de modo primário e das categorias de modo derivado E ainda: É preciso dizer ou que as categorias são ser apenas por homonímia. Z 4. Trendelenburg sustenta que Aristóteles deduziu as categorias da gramática. compreende-se bem que Aristóteles tenha indicado nas categorias o grupo de significados de ser “por si”. agora clássicos: F. nesse sentido. o que vale em geral para os diversos significados de ser. que é. justamente. 24. “algo próximo ao não-ser” isto é. São oitO. !Jber die Kategorien des Aristoteles. os signi ficados nos quais originalmente se divide o ser são as supremas divisões do ser. insolúvel. mas sobretudo deve ter sido decisiva a análise fenomenológica e ontológica 26. ou. justamente porque se trata dos sígnificados originários. 25. por si. mas não idênticos. lingüísticas. Mas. 591-645. noutros termos. e passim. dez. paSsim. a expressão “ser segundo as figuras das catego rias” designa tantos significados diferentes de ser quantas são. in Von der mannigjzchen Bedeutung. 1030 a 32-b 3. o das categorias? A resposta é a seguinte: as fíguras das categorias oferecem os significados primeiros e fundamentais de ser: são a dis tinção originária sobre a qual. não em sentido equívoco. como. d. Heft 5. além da unidade que é própria de todos os significados de ser. nem por sinonímia. por exemplo. pois. Trendelenburg. Z 4. 101-216. in Beirrãge zur Geschichte der griech. Como se vê. Bd. E 2. ao invés. ver os seguintes estudos. 29. Metafísica. se nos atemos ao elenco da Metafísica e da Física. Cf. pp. obviamente. Bonitz. quando se diz que também o não-cognoscível é cognoscível. obstante. Leipzig 1891. porém não do mesmo modo. Sobre o problema. de fato. Phi/os. quatro grupos de significados: de fato. Com efêito. não 23. Bonitz e Brentano tendem. significados semelhantes. mas não signijicam uma única e mesma coisa. 28.O ser acidental não tem o relativo não-ser. nem em sentido unívoco. não por homonímia. 196-380). O. segundo o elenco das Categorias e dos Tópicos (mas a nona categoria é redutível à quarta e a décima à sétima.. 10. justa mente. se apóia a distinção dos ulteriores significados. Philos. como têm os outros três significados de ser. 1026 b 21. de uma dedução lógica. na realida de. Die Kategoríenlehre des Aristoteles. mas análogos. não do mesmo modo. 5. qual é o laço específico que une as diversas “figuras de categorias” num único grupo. Geschichte der Kate Berlim l846 (pp. O leitor italiano encontra uma ampla discussão dessas teses no nosso ensaio: Conseqüentemente. Wissensch. pp. 1029 a 21. Devem ter contribuído as pesquisas lógicas. As categorias representam. 347 348 ARISTOTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 349 . Apelt fala. a maciça documentação aduzida por Brentano. Klasse”. não unívocos. Metafísica. 1030 a 21-23.. até agora não resolvido e. mas do mesmo modo que o termo médico. o ser transmitido significado por cada uma das “figuras diferente do significado de de categorias” cada uma constitui um das outras. ulteriormente. as diferentes figuras de categorias não oferecem significados idênticos ou unívocos de ser. perguntar-se-á. A. Metafísica. pp. quase um não-ser. 1-1. 98ss. necessariamente. não são puros homônimos: médico. então. 27. designa um corpo. antes. Viena 1853. segundo Aristóteles.

não existem fora ou além das categorias.4 entende sempre o ser fortuito ou casual. do ser acidental) é bastante complexa. mas à lógica. uma forma de ser em ato e uma de ser em potência segundo a qualidade. Cf. c) Também o terceiro significado de ser. mas são modos de ser que se apóiam no ser das categorias. ao qual. entre as categorias. in “Rivista di Filosofia Neoscolastica”. fortuitamente. E. chama o ser da potên cia até mesmo de nãoser. e assim por diante. acaba fixando a realidade num imobilismo atualístico que exclui qualquer forma de devir ou de movimento. em certo sentido. Com efeito. justamente com a descoberta do ser potencial. um ponto fica claríssimo: o ser como potência e o ser como ato (recolhidos num único grupo. A parte as numerosas questões que essas afirmações poderiam suscitar. Para um exato exame da doutrina remetemos ao nosso ensaio: La dottrina aristore/ica de/ia potenza. Digamos inicialmente que a questão do acidente (e. e são diversos segundo se apóiem nas diferentes figuras de categorias. Não deve levar a engano o fato de Aristóteles às vezes (mas. há o modo de ser em potência: isto é. vale dizer. não é ligado por nenhum vínculo essencial. dell’atto e dell’entelechia neila Metafisica. a especulação posterior) chamar de “acidente” as próprias categorias. mas. Em todo caso. in Siudi difilosofla e di storia delia filosofia in onore di Francesco Olgiari. o ser em potência é não-ser-em-ato. Eis a tábua das categorias: [ Substância ou essência (oõoía.n. por conseqüência. pp. sobretudo Metafísica. não nos deteremos em ilustrá-lo. porém. 423-457. enquanto o termo “acidente”. opostos. A experiência diz. é dos mais flutuantes. mas isso é um grave erro. em Aristóteles. XLIX (1957). não deve levar a engano. Aristóteles. entende-se em diferentes modos. Em primeiro lugar é claro que com a expressão “ser segun do a potência e o ato” indicam-se dois modos de ser muito diferentes e. 145207. de fato. mesmo tomados singularmente. com efeito. pois. veremos que. o ato e a potência estendem-se a todas as categorias e as- 30. livro Q. como decorre da polêmica com os megáricos. A expressão. Mas. E claro. o ser como verdadeiro e como falso. de novo. resta falar do ser acidental. 350 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 351 sumem tantos significados diferentes quantas são as categorias. TÓ TÍ i €Tvat) [ Qualidade ( [ Quantidade (Troaàv) [ Relação (irpàç TI) [ Ação ou agir (rroteTv) [ Paixão ou padecer (irâoXEtv) [ Onde ou lugar (rroO) [ Quando ou tempo (1ToT [ Ter ( [ Jazer (xeTa b) Também o ser segundo a potência e o ato não tem só um significado. mas que não podem ser tratadas nesta sede. por que Aristóteles dá à distinção ser-em-potência e ser-em-ato um grandíssimo destaque Porém — e este é o ponto ao qual devemos chegar — o ser potencial e o ser atual. que além do modo de ser em ato. mas capacidade de ser em ato: quem nega a existência de outro modo de ser além daquele em ato. revestem muitos significados. não têm um único significado. . o modo de ser que não é ato. um ser que depende de outro ser. Milão 1962. pp. sobretudo. outra forma ainda diferente de ato e de potência segundo a quantidade. casualmente Amiúde se confundiu o ser categorial e o ser acidental. são modos de ser que se estendem segundo toda a tábua das categorias. TÍ cYTL. porque só se compreendem e se especificam um em função do outro). mas às vezes. e ele também se apóia no ser das categorias. um tipo de ser que não é sempre e nem sequer na maioria das vezes.se dele.Ei/o conduitore granunatica/e e filo conduitore onro/ogico nella deduzione de/le cate gane aristote/iche. como não compete à metafísica ocupar. Efeti vamente. com relação ao ser-em-ato. ademais. pois Aristóteles considera ter adquirido um concei to essencial em vista da explicação da realidade e do ser. Isso quer dizer que há uma forma de ser em ato e uma de ser em potência segundo a substância. no sentido de que. quando o Estagirita fala de ser acidental (ôv XaT oji. passi. d) Por último. pois.

o leitor poderá encontrar mais ampla mente documentado na Introdução à Metafisica. (cf. não visa à simples inerência a outro. E 2-4 e o nosso comentário. concluir. na realidade. 506-516. 17-40) e. ser ou não ser. encabeçados. a substância? 6. nem se pode dizer que tanto pode ser como não ser. indiferentemente. Todos os significados de ser pressupõem o ser das categorias. Pode ser casual o fato de uma coisa ter certa medida. sobretudo. são o que é unido ou separado. e o acidente é afecção ou acontecimento meramente fortuito. Que é. Neste sentido. in Scritti in onore di Cano Giacon. devemos examinar que é o ser entendido nesse sentido Deve-se. pelas categorias. 33. mas não é casual e não é acidental que tenha medida (uma coisa sensível sem quantidade é impensável). enquanto a categoria é necessária. por sua vez. uma diferença de algum modo com parável à que existe entre as categorias em geral e os outros signi ficados de ser. equivale a isso: “Que é a substância” E. principal mente. Um exem plo servirá para esclarecer o pensamento e concluir. e as outras supõem esta primeira e são estruturalmente inerentes a ela. mas distinguem-se totalmente delas. também Reale. ou seja. renunciando às so1uções sumárias. qua tro grupos de significados.]. mas — e este ponto já emergiu outras vezes e agora é o momento de aprofundá-lo — as várias categorias. não se pode absolutamente dizer que é ser casual. O exemplo pode repetir-se para todas as categorias. casual. por sua vez. é evidente que a pergunta radical sobre o sentido de ser deve centrar-se na substância. o mais complexo e. por sua vez. pp. do ser categorial como tal. tudo o que não é substância não pode ser por si em sentido estrito e. Recapitulemos os resultados da discussão deste parágrafo. no comentário aos livros Z e H. assim como agora e sempre. Ora. Aquilo que dizemos aqui em síntese.. é 31.. por isso. desde os tempos antigos. por assim dizer. . então. que o sentido último de ser é desvelado pelo sentido da substância. todos eles. pp. justamente.só a primeira é um ser autônomo. E assim os exemplos poderiam multiplicar-se. o ser das categorias depende inteiramente do ser da primeira categoria. La polivocitã de/Ia concezione aristotelica de/Ia sostanza. Enfim. porém é necessário que o homem tenha qualidades (não importa se estas ou outras). e o ser acidental só podem fundar-se (como. isto é. no sentido de que elas poderiam. Mas quando Aristóteles fala de “ser acidental”. mas à casual. e se. pelo primeiro. O ser como potência e como ato tem lugar segundo as diferentes categorias e só segundo elas. passim. em certo sentido. ou seja. de resto. 1028 b 2-7. o que constitui o eterno objeto da pesquisa e o eterno problema “que é o ser”. Sobre esses dois últimos significados de ser cf. Não é absoluta mente necessário que um homem seja pálido ou irado: que o homem tenha estas qualidades é acidental. da substância. ele não subsiste fora delas ou além delas. às quais a sistematização manualística nos habituaram 32. só pode basear-se nas catego rias que. vol. Em conclusão: o acidente. fundamentalmente e unicamente. é o que não é sempre nem na maioria das vezes. o que que. Metafísica. que consiste na operação mental de somar ou dividir. pp. Merafisica. ou que não é sempre nem na maioria das vezes. o ser das categorias supõe o ser da primeira e funda-se inteiramente sobre ele. ocasional união com outro e o ser no outro. 1. fortuita. O ser acidental é o que pode não ser. também o mais desconcertante. também os outros significados de ser) sobre as categorias. pois. A questão da substância Comecemos por dizer que o problema da substância é o mais delicado. Em suma: o ser acidental é a afecção con tingente ou evento contingente que se realiza segundo as diferentes (necessárias) figuras das categorias. Agora compre endem-se bem as precisas afirmações de Aristóteles: Na verdade. enquanto tal. O ser (ao menos o ser sensível) é impensável sem as catego rias. não estão todas no mesmo plano: entre a substância e as outras catego rias há uma diferença radical. em sentido pró prio. Pádua 1972. Portanto: todos os significados do ser pressupõem o ser das categorias. O ser como verdadeiro. elas são necessárias. que tem lugar segundo cada uma das categorias. por isso também nós. também o ser acidental funda-se sobre o ser categorial e não é senão uma 352 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 353 afecção acidental ou um evento segundo as várias figuras das catego rias. pois. De monstrou-se que os quatro significados de ser são. Se. fortuito. mas não é puramente acidental o seu ser num lugar. ou ao ser em outro. todos os significados de ser supõem o ser das catego rias. 45ss. acidente. é óbvio que das categorias. Pode ser acidental que algo se encontre em determinado lugar. para quem queira entender a metafísica aristotélica. Z 1.

que o ponto de chegada consistirá em determinar que substâncias existem: se somente as sensíveis (como querem os naturalistas) ou também as suprasensíveis (como querem os platônicos). orientado o leitor acerca da resposta aristotélica ao problema posto. estruturando-a de maneira exemplar. que é a ousía em geral. seja 2) a matéria. Para Aristóteles. por exemplo. Com isso Aristóteles reconhece a cada um dos seus predecessores uma parte de razão e indica o seu erro na unilateralidade. 1041 a 6-9. Eis. 1040 ti 341041 a 3. Ilustremos brevemente os três significados. “que substâncias existem” (problema teológico). é claro que a questão da substância supra-sensível resultaria eo ipso excluída. porque aquilo a partir do qual nos movemos para conhecer são os sentidos e o sensível. E em que se baseará Aristóteles para tratar da substância em geral? Obviamente as substâncias não contestadas por ninguém: as substâncias sensíveis. passim. o primeiro. 1037 a 10-17. Escreve expressamente o Filósofo: 34. Com efeito. com toda clareza. primeiro. que é ontolo gícamente segundo. a matéria. N. Z 2. a título diverso. para poder da validade ou não dos resul tados da “segunda resolver esse problema especffico. se chegasse à conclusão de que ousía é só a matéria ou o concreto sínolo de matéria e forma. à questão da ousía.T. além disso o primei ro (preliminar) não se pode resolver senão com base na substância sensível. Z 3. então a questão do supra. Depois de ter reduzido o problema ontológico geral ao seu núcleo central. de decidir navegação” de Platão Mas. Cf. 36. alguns viram na matéria sensível a única substância. Esclareçamos preliminarmente estes problemas. a forma e o universal. com efeito. Aristóteles quer primeiro resolver o problema do que é a substância em geral. 1029 a 33 ss. Note-se: este é o pro blema dos problemas e a quaestio ultima. dos dois problemas da usiologia aristotélica. Z 2. segun do o senso comum. que ousía é também outra coisa ou. como já recordamos. ao invés. Aristóteles afronta ex nova a questão. Quem tem razão? A resposta do Estagirita é: todos e ninguém ao mesmo tempo. um dos quais desenvolve-se ulteriormente em duas direções. prioritariamente outra coisa que a matéria. e ao inteligível chegamos só através e depois do sensível. traduzimos o composto de matéria e forma. o que é ontologicamente primeiro. a única que se conhece. 34a.d. em última análise. isto é. antes de aceitar se existe ou não também uma substância supra-sensível 7. a resposta ao problema não pode ser simples. se for estabelecido. substância era a matéria ou o substrato material. provavelmente. finalmente: que é a ousía em geral? Aristóteles. Por sínolo (de ). também Metafisica. para os platônicos.Antes de tudo. todos adquirem o saber desse modo: procedendo através das coisas que são menos cognoscíveis por natureza (= as coisas sensíveisj na direção das que são mais cognoscíveis por natureza = as coisas inteligíveis} Em conclusão. Trata-se. o sínolo e as notas definidoras do conceito de substância Perguntemo-nos agora. Tudo o que foi dito até aqui já terá.nbém o supra-sensível. é primeiro o sensível. Se. para nós.’ parece ser substância o indivíduo e a coisa concreta. “que é a substância em geral”. Cf. é de grande utilidade proceder gradualmente na direção daquilo que é mais cognoscível. assim como de toda metafísica em geral. diz. por exigência metodológica: poder.sensível se apresentaria sob uma luz totalmente diferente. enquanto o senso comum parecia indicá-la nas coisas concretas. Z II. dizer se existe só o sensível ou ta. Platão. encontrava nos predecessores res postas contrastantes: para os naturalistas. Os predecesso Aristóteles deram à questão da substância soluções antitéticas: res de A METAFÍSICA 355 Todos admitem que algumas coisas sensíveis são substâncias. Z 17. passini. 354 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SAISER FILOSÓFICO .se-á. portanto. o outro problema da usiologia aristotélica: que é a substância em geral? É a matéria? E a forma? É o sínolo Este problema geral deve ser resolvido antes do outro. se se concluís se. é preliminar ao segundo. porém. portanto deveremos desenvolver a nossa pesquisa partindo delas. 35. ao invés. até mesmo. a pergunta por excelência da metafísica aristotélica. indicou nos entes supra-sensíveis a verdadeira substância. A questão da “ousía” em geral: a forma. com maior precisão. deve ficar claro que a questão geral da substância envolve dois problemas essenciais estreitamente conexos. seja 3) o sínolo de matéria e forma. De fato. O Estagirita diz que por ousía podem-se entender. é por natureza primeiro inteligível. deve ser necessariamente complexa. seja 1) aforma. ao invés. Z 16.

Cf. o Estagirita. resulta plenamente esclarecido também o terceiro significado: o do sínolo (oúvoÀov). mescla-se com ela de vários modos. (4) tampouco é algo unitário. (3) não é algo determinado. sem distinção. 3) Em terceiro lugar. as coisas só são cognoscíveis na sua essência 2) Todavia. 2) Em segundo lugar. 5) Enfim. Todas as coisas concretas não são mais que sínolos de forma e matéria. O Estagirita parece estabelecer as características definidoras da substância em número de quatro. substância deve ser algo intrinsecamente unitário (‘év) e não um mero agregado de partes ou uma multiplici dade qualquer nãoorganizada. porque tal só pode ser algo que já possui forma. Portanto. porque não há matéria que já não possua a forma. todas as coisas sensíveis. a forma ou essência do animal é a alma sensitiva e a da planta. A forma ou essência do homem. o que faz dele um ser vivo racional. todavia. refere-se à matéria. se a alma racional não informasse um corpo. a forma (ET iopq “Forma”. a matéria seria indeterminada e não bastaria abso lutamente para constituir as coisas. Esta segunda direção. vol. que esses limites são bem definíveis: de fato. o que é ou essência íntima (Tà TÍ iujv ETVaI) das mesmas. não é em ato. porque a unidade deriva da forma. portanto. E esta característica. contudo. num piano um pouco dife rente dos outros. de algum modo. é a sua alma. a título diverso (no sentido em que vimos). Ora. Ou ainda. 572621 e vol. de cinco. pp. 3) Com base no que dissemos. se a alma vegetativa não informas se outra matéria. e se a alma sensitiva não informasse certa matéria. a ela inere e dela se predica. tanto a forma como a matéria e o sínolo 37. II. poderá ser dita — pelo menos dentro de certos limites — substância das coisas. antes. no seu todo. forma e sínolo realizam essas notas? A matéria possui. pp. 1. não teríamos um animal. não teríamos as plantas. buscou também determinar quais são esses “títulos” com base nos quais algo tem o direito de ser considerado substância. num sentido. referimo-nos à sua forma ou essên cia e. e o mesmo deve--se dizer de todos os outros casos.1) Substância é. 4) Em quarto lugar. . porém. amiúde. ao stnolo e à matéria. 1) Em primeiro lugar. a essência do círculo é o que faz com que ele seja aquela figura com aquelas determinadas qualidades. Z 4-12 e H 2-3 com o nosso comentário. não teríamos um homem. mas é a natureza interior das coisas. aquilo que dissemos ser — a título diverso — significados de ousía. Cf. Quando definimos as coisas. 19-30. pode-se chamar substância só o que é um algo determinado (Tà& TI): não pode. (5) enfim. e substância (ousía) são. desen volvendo o problema da substância em geral numa segunda direção. Composto é a concreta união de forma e matéria. ainda. se não existisse a forma. a forma e o sínolo. segundo Aristóteles. mas é substrato de inerência e de predicação de todos os outros modos de ser. como disse mos. e o mesmo pode-se dizer das outras coisas. A matéria. passim. 356 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 357 Dissemos que a título diverso Aristóteles atribui a qualificação de substância à forma. portanto. ela não teria nenhuma concretude. Reexaminemos e comparemos agora com essas notas definidoras das características da substancialidade a matéria. Ela (2) não subsiste por si. ademais. H. substância só pode ser um ente que pode subsistir por si ou separadamente do resto (um xc dotado de uma forma de subsistência autônoma. Assim diga-se — e isso resulta ainda mais evidente — de todos os objetos produzidos pela atividade da arte: se não se realizasse na madeira a essência ou forma da mesa. não possui al gumas das características da substancialidade. Z. nos textos. todo o resto: a própria forma inere e. ou seja. é essen cial distingui-la para compreender a fundo o pensamento aristotélico. também a matéria resulta fundamental para a constituição das coisas e. é importantíssima. a alma vegetativa. por exemplo. na sua matéria. em geral. sem dúvida (1) a primeira das características: ela não inere a outro nem se predica de outro. e. 38. deve ser recordada a característica do ato ou da atua lidade ( vTEÀ só é substância o que é ato ou em ato. podem ser consideradas na sua forma. em certo sentido. não é obviamente a forma extrínseca ou a figura exterior das coisas (ou melhor. Metafísica. vale dizer. E claro. ser substância um atributo geral. Neste sentido. Metafísica. nem algo universal e abstrato. se contarmos tam bém uma característica que está. não é sempre explicitamente diferenciada da pri meira e. só se pode chamar substância o que não meTe a outro e não se predica de outro. Em que medida matéria. que está num plano diferente. só subordinadamente o é).

e ser é. que a matéria só é substância em sentido muito fraco e impróprio. voE 1. A forma (1) não deve o seu ser a outro e não se predica de outro: é verdade — note-se — que a forma inere à matéria e refere-se. 8. A distinção dos múltiplos significados de ousía não é de modo algum proposta num plano de pesquisa meramente lingüístico e para satisfazer a ins tâncias lingüísticas. pois o sínolo é. a forma é ato por excelência. antes. a matéria. de fato. pelo menos conceitualmente. Ao invés. pois.mas apenas em potência. a forma é substância por excelência. a propósito dos E o sínolo? Também o sínolo de matéria e forma possui as ca racterísticas acima indicadas. em sentido totalmente excep cional (inere à matéria como aquilo que informa a matéria e possui mais ser — como logo veremos — que a matéria. com ele. ser. e num terceiro sentido (e por excelência) é a forma: ser é. O ser no seu significado mais forte é a subs tância. portanto. porque é o que faz com que as coisas sejam o que são e não outras. Aristóteles usar freqüentemente forma e ato como sinônimos. (1) é substrato de inerência e de predicação de todas as determinações acidentais. (5) Enfim. O sínolo. Em certas passagens. em certo sentido. é o sínolo. embora de maneira distinta Para concluir diremos que. causado e fundado. o imaterial e o supra-sensível não seriam substância! A forma pode ser chamada substân cia por excelência: Deus e as inteligências motoras das esferas celes tes são puras formas imateriais. pois bem. é princípio que dá ato. (3) é um TÓ& Ti em sentido concreto. às vezes o afirme: ela só possui a primeira carac terística da substancialidade e não as outras. neste sentido. Do ponto de vista empfrico e da constatação. Em suma: quoad nos. supuseram. com relação a ela. (2) subsiste por si e independentemente de modo pleno. à matéria. deve-se responder conforme o primeiro ou conforme o segundo sentido. a ponto de parece considerar assim a forma. fundamento. A Zeiler escapou que. em grau mais ele vado. a forma é substância por excelência e no mais alto grau. desse modo. Com efeito. (3) A forma é algo determinado (Tó& TI). 40. as exatas referências que damos na Introdução à Metafisica. sobretudo. a união de matéria e forma. ao invés. num segun do sentido (mais próprio) é o sínolo. Slss. no sentído mais forte. como repetidamente afirma Aristóteles. hierarquicamente é a matéria que dispõe da forma. A forma é essencial a estes e àqueles entes. a forma é absolutamente separada. pois. mas. mas situa-se num plano de análise ontológica e para satisfazer à exigência de compreensão da realidade nos seus múltiplos aspectos. enquanto as coisas sensíveis são for mas que informam a matéria. é claro que o sínolo ou o indivíduo concreto parece ser substância por excelência. pp. a forma é. (2) A forma pode sepa rar-se da matéria em dois sentidos: a) é a forma que dá ser à matéria e não vice-versa e. justamente. Metafisica. Assim Deus e. e a substância num sentido (impróprio) é matéria. causa e razão de ser. nada que não fosse sínolo seria substância. substância por excelência é o concreto. Mas nisso não há contradição. 39. muitos dos estudiosos modernos. enquanto possui todas as suas partes materiais unificadas na forma. Z 17. E entre a forma e o sínolo. têm todas as características da substancialidade. Cf. a forma. é princípio que dá unidade à matéria que informa. embora não de maneira idêntica. Mais ainda. Zellei e. o sínolo é principiado. a forma é princípio. porém. A “forma” aristotélica não é o universal Entendida do modo acima proposto. e. do ponto de vista estritamente especulativo e metafísico: de fato. Isso explica muito bem por que às vezes Aristóteles negue que a matéria seja substância e. (5) é em ato porque as suas partes materiais são atualizadas pela forma. o sentido de ser é ple namente determinado. e.ES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFíSICA 359 que se refere ao seu grau de substancialidade? A questão é complexa. nesses casos. a forma e o sínolo. Por outro lado. (4) A forma é unidade por exce lência. Diremos. a doutrina aristotélica da substância mostra-se muito menos aporética do que. passim. se gundo o ponto de vista no qual nos Situemos. a forma é algo determinado e também determinante. em geral. em geral. A matéria — como vimos — é menos substância que a forma e o sínolo. sempre separável. assim como o comentário ao livro Z. há uma diferenciação ulterior no 358 ARISTÓTEI. em si e por natureza. . isso é plenamente confirmado se pensarmos que o sínolo não pode esgotar a substância enquanto tal: se o sínolo es gotasse o conceito de substância enquanto tal. Assim compreende-se por que Aristóteles chamou a forma até mesmo de “causa primeira do ser” justamente enquanto informa a matéria e funda o sínolo. vale dizer. Não. 1041 b 28. em outras passa gens. como poderia parecer à primeira vista. não o contrário). b) existem substâncias que se esgo tam inteiramente na forma e não têm matéria. que é a coisa concreta individual. Aristóteles parece considerar o sínolo ou o in divíduo concreto como substância por excelência. (4) é uma unidade.

mas de vários elementos (do contrário estaríamos ainda no primeiro caso). a concepção zelleriana. justa mente como tais. 1041 b 5-9. elevado pelos platônicos ao posto de substância por excelência. e a pesquisa deve ser conduzida assim: por que esta coisa ou este fato são assim e assim? O que equivale a dizer: por que a matéria é (ou constitui) este determinado objeto? Eis como Aristóteles especifica o problema: Este material é uma casa: por quê? Porque está presente nele a essência de casa. dir-se-á. 344ss. Aristóteles afirma com muita energia o caráter não-advindo do eidos. como vimos: a metafísica aristotélica não é levada. Metafísica. nem a carne é simplesmente fogo e terra: de fato. nem BA é idêntica a B e A. também ele. d. o eidos aristotélico não é um universal? A resposta é inequivocamente negativa. porque não possui nenhuma das características que vimos serem próprias da substancialidade Mas. Ii. pp. ao contrário. se esse algo devesse ser. pp. não é um amontoado. como 41. esta outra é sílaba. enquanto o universal. ou da condição.três signi ficados de ousía e. não pode absolutamente ser considerado substância. em particular. E assim a 43. 621-634). como pretende Aristóteles.Assim resolve-se facilmente outra dificuldade levantada por Zeller. Portanto. vimos que todas as características da substancialidade competem ao eidos. com relação ao causado. vale dizer. Metafisica. o que dissemos a propósito da carne e da sílaba. deve-se discorrer em termos de et-et. mas a causa pela qual esta coisa determinada é carne. como pode Aristóteles afirmar o eidos como não-advindo. uma condição ontológica: em termos modernos. Trazemos como prova apenas uma passagem — a mais significativa —. Muitas vezes Aristóteles qualifica o seu eidos como TÓSE TI. Die Philos. a substância Eis o exemplo mais eloqüente com o qual Aristóteles sugere a sua pesquisa: O que é composto de alguma coisa. carne e sílaba. 589-606). E assim se procederá: por que esta coisa determinada é homem? Ou. pp. ou do prin cípio metafísico. justamente. não só não procede a ulteriores unificações. aceita pela maioria. detendo-nos num ponto amiúde descuidado e do qual. E difícil — diz ele — pensar como não-advindas as formas do que advém. não se deve por razões estruturais — discorrer em termos de aut -aut. sem recair nas teses da “transcendência das formas”. carne não é só fogo e terra. Ora. enfim. a sílaba é algo não redutível unicamente às letras. mas é algo diferente delas. Na verdade. ou seja. Depois de dizer que a substância é “um prin cípio e uma causa”. seria. por outro lado. de tal modo que o todo constitui uma unidade. Z 13-16 (e o nosso comentário. ela é causa primeira do ser . o fogo e a terra continuam a ser. ao condicionado e ao prin cipiado empírico Queremos. 1. voE 1. O eidos aristotélico é um princípio metafísico. diríamos uma estrutura ontológica. 2. Por isso. Griechen. Aristóteles. na pesquisa do porquê. dos dois principais (sínolo e forma). e assim para todo o resto. 360 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 361 vimos. forma e sínolo podem ser considera dos ousía. evidentemente. Ora. Falamos da relação entre a forma e o universal. que é a conclusão do livro dedicado à substância. E isso é a substância de todas as coisas: de fato. valeria o que dissemos acima (a carne seria constituída por esse elemento com fogo e terra e por algo diferente. de resto. isto é. às vogais e consoantes. concluir sobre a substância. um composto de elementos. uma vez que os compostos. Cf. mas é como uma sílaba. ou quente e frio. mas. expressão que indica o determinado que se opõe ao universal abstrato. mas declara-os irredutíveis e. a forma pela qual a matéria é determinada coisa: e esta é. se fosse. distinguir os vários aspectos da realidade. como se a qualquer custo devesse permanecer só um dos signi ficados. vol. 42. demonstra que matéria. ao invés. também aqui. A coisa ou o fato dos quais se buscam o princípio e a causa devem ser precedentemente conhecidos. mas visa. mas algo diferente deles. um elemento ou um composto de elementos. não mais existem. por ele insistentemente reprovada aos platônicos? Simples: o caráter nãoadvindo do eidos aristotélico não é senão o caráter não-advindo da causa. dar-se-ia o seguinte: se fosse um elemento. mas as letras. Metafisica. E a sílaba não é só as letras das quais é formada. considera-os expressões do caráter estruturalmente poliédrico da realidade. e tendo-os distinguido. Aristóteles mostra como se deve buscar tal prin cípio e tal causa. por que esse corpo tem essas características? Portanto. Z 7-9 (e o nosso comentário. de modo que deveríamos dizer. 44. ZeIler. como as sucessivas. busca-se a causa da matéria. principalmente. deve-se reter que esse algo não é um elemento. Cf. tenham-se dissolvido. . e. à reductio ad unum a todo custo. composto não de um só. Z 17. fatalmente impede a compreensão. de modo que iríamos ao infinito).

como eidos. resgatando-o da sua abstrata universalidade como veremos também na lógica. potencialidade. inclusive por razões lingüísticas. por exemplo. será sem dúvida ato ou enteléquia. 1029 a 3-7: “Chamo matéria. se o considerarmos como tal. e tem a sua realidade ontológica. Cf. se o considerarmos na sua materialidade. o bronze. Metafísica. A alma. 49. Metafísica. composto. porque é efetiva capacidade. repetimos. pela mesma razão ela será anterior também ao composto”. todas as formas das substâncias sensíveis são ato e enteléquia. O universal é.Como se vê. isto é. Portanto. já visto. o outro é o que poderemos chamar de lógico. como tais. preocupado em reafirmar o primeiro ponto. Ademais. Cf. que não tem realidade em si e não existe senão no homem ou em outra forma de animal. aos seus olhos. maior ou menor potencialidade Se. ao invés. Aristóteles tem razão ao dizer que não é um universal. E. justamente “diferenciando-o” e. animal. O ato e a potência As doutrinas expostas devem ser agora integradas com algumas especificações relativas ao ato e à potência referidos à substância A matéria é potência. em particular na Metafisica. a ousía-eidos de Aristóteles. a madeira é potência para os vários objetos que com ela podem ser feitos. puras formas. A forma configura-se. O ato. isto é. Notamos a diferença. e. deve-se observar que o eidos aristotélico tem dois as pectos: um deles é o ontológico. mas passou. Ora. A alma do homem. predominantemente ato. só é um termo comum abstrato. Aristóteles não 45. porque amiúde somos cons trangidos a traduzir eidos de dois modos diferentes: às vezes por forma e outras por espécie. mas é mais ser que a matéria e mais ser que o sínolo. ao invés. mas do ser em . o eidos também considerado como espécie é a “diferença” específica que dá concretude ao gênero. a forma. do ponto de vista metafísico. existem seres imateriais. será enteléquia pura (e assim também as outras Inteligênci as motoras das esferas celestes). O Estagirita não estudou e não tematizou os dois aspectos e as relativas diferenças. misto de potência e ato. Cf. diz ainda Aristóteles. como estrutura ontológica imanente da coisa. como veremos. é um princípio que informa um corpo e faz dele um homem. perfeição atuante e atuada. 1041 b 11-28. como já acenamos. a nota 30. O sínolo de matéria e forma será. de um ao outro inconscientemente. 48. A 6-8. 47. o que desta resulta. o eidos não é um universal. o ato é superior à potência. ao contrário. ao invés. senão reportando-a ao ato do qual é potência. 362 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 363 destacou o segundo. enquanto é princípio que. privados de potencialidade 46. Z 3. o ato (que é forma) é condição. Z 12. (Tanto mais que. é chamado por Aristóteles também de enteléquia: às vezes parece haver entre os dois termos certa distinção de significado. poder-se-ia dizer que. 1043 b lOss. portanto. Enfim. como ato ou atuação da capacidade. eles serão atos puros. mas na maioria das vezes. porque não assinalam uma passagem do não-ser absoluto ao ser. os dois termos são sinônimos. em geral. forma. estruturando a matéria. vale dizer. porque é o modo de ser das substâncias eternasS A doutrina da potência e do ato é. Deus. o gênero (y que não tem uma realidade ontológica separada. regra e fim da potencialidade. tem absoluta “prioridade” e superio ridade sobre a potência: de fato. Quanto ao aspecto ontológico do eidos. portanto. é ato e enteléquia do corpo. nos vários casos.iãÃÀov 6v) com relação à matéria. cf. essas dificuldades não nos devem desviar daquilo que antes dissemos sobre a estrutura ontológica e real do eidos. melhor do que ele. será. H 2. enquanto essência e forma do corpo. ato e enteléquia referem-se à realização. a estrutura e a configuração formal. enquanto pensado e abstraído pela mente humana. Mas e o eidos no sentido lógico de espécie? Evidentemente a espécie não é senão o eidos enquanto pensado na mente humana. não pode absolutamente confundir-se com o universal abstrato. O eidos não só não é um universal. Metafisica. isto é.. Mas. Todas as coisas que possuem matéria têm sempre. faz subsistir o próprio sínolo 9. 50. porque é concreta capacidade de assu mir as formas dos vários objetos. como veremos. Metafísica. no sentido de que é capa cidade de assumir ou receber a forma: o bronze é potência para a estátua. de grandíssima importância. Com ela Aristóteles pôde resolver as aporias eleáticas do devir e do movimento: devir e movimento correm no álveo do ser. Z 17. O ato. Cf. se a forma é anterior e maiormente ser ( ca . Ademais. não podemos conhecer a potência como tal. ao invés. também H 2. se o conside rarmos na sua forma. Metafísica. enten dido como gênero. tanto de receber como de assu mir a forma da estátua. Cf. enquanto estrutura ontológica ou princípio metafisico. passim. supra. torna-se um universal. e. a estátua.) Em todo caso.

a sua natureza. para demonstrar a existência de Deus e para compreender a sua natureza Mas também no âmbito de todas as outras ciências. possui a forma atuada. E assim chegamos à última e decisiva questão da metafísica: a da substância supra-sensível. Cf. pois. por exemplo Metafísica. e quando. o adulto é antes da criança e o homem é antes do esperma: um. as incorruptíveis. como já dissemos. forma pura ab solutamente privada de matéria. anteriormente à geração do tempo. Metafísica. porém “incorruptíveis”. existem três gêneros de substâncias hierarquicamente ordenadas. vão além de Platão. que. Se. como sabemos. do ser ao ser Ademais. Cf. Acima destas existem 3) as substân cias imóveis. reconfirmou as conquistas da “segunda navegação”. o outro. para o Estagirita. . o Estagirita serviu-se dela. A existência do supra-sensível é dem do seguinte modo. motoras das várias esferas que Os dois primeiros gêneros de substâncias são constituídos de ma téria e forma: as sensíveis corruptíveis são constituídas pelos quatro elementos (terra. A substância supra-sensível é. ao invés. segundo Aristóteles. os planetas e as estrelas. e nada do que é em potên cia é eterno”. mas alcançou posições que. como já acenamos. Dos dois primeiros gêneros de substân cias ocupam-se a física e a astronomia. com ela Aristóteles resolveu perfeitamente o pro 1 5 1. como veremos. capazes apenas de movimento ou mudança local. e. Em primeiro lugar. da substância. são incorruptíveis porque constituídos de matéria incor ruptível (o éter. ar e fogo). não existiria absolutamente nada de incorruptível. As substâncias são as realidades primeiras. no sentido de que todos os outros modos de ser dependem. porém incorruptíveis. porque as coisas que na ordem da geração são últimas. ou existem apenas substân cias como sabemos. posteriormente à destruição do tempo deveria haver um sensíveis? Aristóteles tentou responder com precisão ao proble ma (que. também em sentido mais elevado: de fato. pela clareza metódica e pelas conclusões. mas possuem a vista com a finalidade de verem [ Ademais. A substância sensível corruptível. Esse teorema da prioridade do ato sobre a potência é muito iniportante. quintessência). a segunda. K 9. duas são de natureza sensí vel: 1) o primeiro é constituído pelas substâncias sensíveis que nas cem e perecem. o procedimento através do qual Aristóteles demonstra a existência da substância supra-sensível. 364 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAHSICA 365 biema da unidade da matéria e da forma: a primeira sendo potência. não-passíveis de alteração. são os céus. por éter puro. como veremos. está em ato. passini. não. a matéria é em potência porque pode alcançar a forma. e a relação entre tal substância e o mundo. d um escopo (OU fim): com efeito. Resta-nos a examinar. se é única ou se. ato ou atuação da mesma Enfim. E ofim é ato. ao invés.).potência ao ser em ato. estão sujeitas ao aumento e à diminuição. isto é. além de mover-se. pelo menos em parte. que são Deus ou Motor imóvel e as outras substâncias constituem o céu. o escopo constitui um princípio e o devir tem lugar em função do fim. são múltiplas. 2) o segundo é constituído pelas substâncias sensí veis. depois. então ela é na forma [ Mas o ato é anterior à potência segundo a substância. era o problema levantado pela “segunda navegação” platônica) e não só. Em segundo lugar. a alte rações. nem de aumento ou dimi nuição. na ordem daftrma e da substância são primeiras: por exemplo. Q 8. justamente porque a matéria da qual é constituída inclui a possibili dade de todos os contrários: por isso as coisas deste mundo (sublunar). 1050 a 4 ss. muito menos de geração e corrupção. é anterior porque tudo o que advém procede em vista de um princípio. Digamos logo que. Demonstração da existência da substância supra-sensível Existem substâncias supra-sensíveis. Eis a passagem da Meta física (Q 8. deveria ter havido um “antes”. 10. como vimos amplamente. Mas — diz Anstóteles — o tempo e o movimento são certamente incorruptíveis. brevemente. os conceitos de potência e de ato têm em Aristó teles um papel muito relevante. O tempo não se gerou nem se corromperá: de fato. 52. os animais não vêem com a finalidade de possuírem a vista. o terceiro gênero de substância constitui o objeto peculiar da metafísica. e graças a ele adquirese também a potência: de fato. na qual é ilustrada a prioridade ontológica do ato sobre a potência: “Mas o ato é anterior também para a substância. e. à geração e à corrupção. está submetida a todos os tipos de mudança. todas as substâncias fossem corruptíveis. OU seja. eternas e transcendentes ao sensível. ao invés. Estas substâncias “sensíveis”. os seres eternos são anteriores aos corruptíveis quanto à substância. com efeito. constituí um dos princípios sobre OS quais se apóia a inferência metaempírica do Motor Imóvel. água.

portanto. uma causalidade de tipo final. e. à guisa de fim. Ora. é necessário haver um Princípio eterno que o produza. não há tempo sem movimento e. 53. o Principio deve ser imóvel: só o imóvel. assim também o inteligível move a inteligência sem mover-se a si mesmo. por exemplo. pensar que se poderia ir de motor em motor ao infinito. é movido por outro. quem pretendesse — escavando de vários modos nos textos aristotélicos e explicitando os pressupostos de certas afir mações — encontrar em Aristóteles. “antes” e “depois” são tempo. se a causa absolutamente primeira do móvel é o imóvel. permanecendo absolutamente imóvel? Existe. na realidade. o princípio deve ser totalmente privado de potencialidade. e mais do que implicitamente. e esta pelo homem. Ora. mas — e a fortiori — deve haver um Princípio absolutamente primeiro e absolutamente imóvel. porque. este outro. E como deve ser este princípio para ser causa dele? Em primeiro lugar. Em terceiro lugar. um movimen to sempre em ato. o Princípio deve ser eterno: se eterno é o movimento. Não houve um momento no qual havia o caos (o não-cos mo). isto é. pelo desejo do perfeito. porque um processo ao infinito é sempre impensável nesses casos. b) imóvel. assim. ou pelo escultor que esculpe o mármore. mas isso é absurdo. algo que saiba mover sem mover-se a si mesmo? Aristóteles responde indicando como exemplo de tais coisas o desejo e a inteligência. ato puro. mas de nenhum outro modo” O mundo. o teorema da criação não foi conquistado pela especulação grega e é própria da especula ção medieval subeseqüente. Metafisica. os textos aristotélicos e os seus contextos não autorizam tal exegese: de resto. se eterno é o que ele causa. no âmbito das coisas que conhecemos. Na Física. E desse tipo é também a causalidade exercida pelo Primeiro Motor. Tudo o que se move é movido por outro. do tipo daquela exercida pela mão que move um corpo. isto é. é movida por um bastão. como tal. com efeito. Em conclusão: dado que há um movimento eterno.sensível que estávamos buscando. do qual depende o movimento de todo o universo. Parece correto dizer. pois. por sua vez. de fato. a eternidade do pri meiro postula a eternidade do segundo. não teve começo. este. com Ross: “ Deus é causa eficiente por força de ser causa final. e é necessário que tal Princípio seja a) eterno. justamente porque. Mas sob que condição pode subsistir um movimento (e um tem po) eterno? O Estagirita responde (com base nos princípios por ele estabelecidos ao estudar as condições do movimento na Física): só se subsistir um Princípio primeiro que seja sua causa. uma verdadeira causalidade eficiente do Motor imóvel Mas. Evidentemente. Em outros termos: pelas razões aduzidas. pela atração que Ele exerce como supremo fim. por exemplo. Hou ve. passim. diz Aristóteles. o tempo não é mais que determinação do movi mento. permane ce absolutamente imóvel. ou pelo pai que gera o filho. que não é senão a substância supra. Metafisica. a causalidade do Primeiro Motor não é uma cau salidade de tipo eficiente. se é movido. e atrai como objeto de amor. c) ato puro. Os intérpretes discuti ram longamente esta questão. Em suma. de fato. embora totalmente influenciado por Deus. há sempre tempo antes ou depois de qualquer suposto início ou término do tempo. atrai. Uma pedra. Seria absurdo. Deus. a causa só pode ser eterna. isto é. é causa absoluta do móvel. Mas de que modo o Primeiro Motor pode mover. segundo Aristóteles. propriamente. eterna deve ser a sua causa. para explicar todo o movimento é pre ciso admitir um princípio por si não ulteriormente movido. pelo menos com relação áquilo que move. não só devem existir princípios ou motores relativamente móveis. O mesmo raciocínio vale para o movimento. se é sempre em ato o movimento que ele causa Esse é o Motor imóvel.“depois”. K 6. Em outros termos: para ser idônea a explicar um movimento eterno. poderia também não mover em ato. o belo e bom atraem a vontade do homem sem se mover. Se. 366 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 367 Em segundo lugar. Aristóteles demonstrou este ponto com rigor. Cf. Cf. ora. a substância primeira: o Primeiro Motor move como objeto de amor e atrai o amante ( èpC XIVED e. chegando a diferentes conclusões. contradir-se-ia o teorema da prioridade do ato sobre a potência: . dos quais dependem os movimentos particulares. porque nesse caso não existiria o movimento eterno dos céus. o tempo é eterno. A 6-9. 54. contudo. move movido pela mão. se assim fosse. a causalidade do Motor imóvel é. vale dizer. O objeto do desejo é o que é belo e bom. o conceito de criação e. se é assim. tivesse potencialidade.

A inteligência pensa a si mesma. ela pensa a si mesma. Deus se encontra perenemente. insbesondere dem schbpferischen Wirken des Aristoielischen Goues). é excelente e perfeita: a vida que só nos é possível por um breve tempo: a vida do puro pensamento. porque a atividade da inteligência é Vida. trad. Bari 1946. de modo que a Deus pertence uma vida perenemente contínua e eterna: esse. dependem o céu e a natureza. in Wien. que pensa Deus? Deus pensa o que há de mais excelente. Eis a maravilhosa pas sagem na qual Aristóteles — fato extremamente raro para ele — comove-se. é ainda mais maravilhoso. da atividade contemplativa. Spinelli. 59. o qual. e se ele se encontra numa condição superior. o que é capaz de captar o inteligível e a substância. E naquele estado ele é sempre. Londres 1923. imóvel. Metafisica. que é ato. in “Sitzungsberichte der Akademie der Wissensch. também esperança e recordações [ Se. e na qual a sua linguagem se faz quase poesia. que se transmite mecanicamente de uma à outra. E a sua atividade. Mas isso é tanto mais absurdo pelo fato de Deus ser eterno: sendo eterno. 1882. A 6. e. ital. pp. pois. é Vida. imóveis e eternas. 1072 b 3. E também para nós vigília. a Inteligência divina é o que há de mais excelente. E deve também ser “impassível e inalterável” 12. Natureza do Motor Imóvel Esse Princípio. de modo a coincidirem inteligência e inteligível. Metafísica. para explicar o movimento de todas as esferas das quais ele pensava serem os céus constituídos. A 6-7. que movem de modo análogo ao Primeiro Motor. portanto. L 7. e o seu pensamento é pensamento de pensamento Deus é eterno. vida espiritual e pensamento de pensamento. sozinho. Unidade e multiplicidade do Divino Aristóteles. A inteligência é. 269. pois. Com efeito. ela se torna inteligível intuindo e pensando a si. Bd.primeiro haveria o caos. que subsiste por si. justamente porque são ato e. Mas o que há de mais excelente é Deus mesmo. Cf. Die Psychologíe des Ari Mainz 1867 (Darmstadt 1967). aquela atividade. mas deve ser “sem partes e indivisível”. Portanto. que é potência. D. nessa feliz con dição na qual nos encontramos. ou são movidas por outras substâncias supra-sensíveis. E ele também é Vida. sempre atraiu o universo. do qual “dependem o céu e a natureza”. Cf. Que vida? Aquela que. depois haveria o mundo. A nós isso é impossível. Ross. 55. E nessa condição ele se encontra efetivamente. com efeito. Arisrotle. 101. aos cuidados de A. eterno e ótimo. e o pensamento que assim é em máximo grau tem por objeto o que é excelente em máximo grau. Deus move diretamente o primeiro móvel — o céu das esferas fixas —. 234-250 (o apêndice intitula-se: Von dem Wirken. Assim por exemplo F. que Deus é vivente. ato puro privado de potencialidade e de matéria. pois. é vida Ótima e eterna. Deus pensa a si mesmo: é atividade contemplativa de si mesmo: é pensamento de pensamento (vó vo1 Eis as palavras textuais do filósofo: O pensamento que é pensamento de si tem como objeto o que é por si mais excelente. “não pode ter nenhuma grandeza”. graduadas e encerradas umas nas outras. Brentano. Di zemos. essa posse é o que a inteligência tem de divino. a primeira não podia enquadrar-se na concepção da diversidade dos vários movimentos das diferentes esferas. portanto. E o seu modo de viver é o mais excelente: é o modo de viver que nos é concedido só por breve tempo. é Deus Mas. de fato. Klasse”. e a atividade contemplativa é o que há de mais aprazível e mais excelente Ainda: Se. segundo . sensação e conhecimento são sumamente aprazíveis. sempre do mesmo. como objeto de amor. é maravilhoso. mas entre essa esfera e a Terra existem muitas outras esferas concêntricas. Os movimentos das várias esferas eram. às vezes. mais do que todas as outras. em virtude dele. canto. Aristoteles und seine Weltanschauung. 57. porém. 95-126. Lepzig 1911 (Darmstadt 1967). Sendo tal. e ele é. Uber den Creationismus des Aristoteles. captan do-se como inteligível: de fato. Quem move todas essas esferas? As respostas poderiam ser duas: ou são movidas pelo movimento derivado do primeiro céu. acreditou que Deus não bastava. desde sempre deve ter sido como é 56. lírica: De tal princípio. Idem. Metafísica. passim. mas a ele não. 58. A segunda solução é acolhida por Aristóteles. justamente.-hist. Philos. p. pp. e é em ato quando os possui. Deus. ob viamente. pois o ato do seu viver é prazer. com efeito. ainda mais do que aquela capacidade. 368 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFíSICA 369 11.

1072 b 13-18 e 24-30. divino é o Demiurgo. e deduzir dessa unicidade a unicidade do mundo. como os leitores dessa História da filosofia antiga já sabem. Deuses inferiores. Todavia elas são. na qual. 62. de modo a poder legitimamente chamá-lo de único. O mesmo vale para Platão: divinas são. 1073 a 5-13. em vista de poder produzir. o Divino designa uma ampla esfera. ademais. de algum modo. pois. Portanto. vale dizer. A 7. 1074 b 34-35. as Idéias do Bem e do Belo e. admitindo. para o grego. Cf. e só indiretamente as outras. Eis as razões pelas quais Aristóteles introduziu a multiplicidade dos motores. L 9. em sentido pleno. Metafísica. em suma. a título diverso. ademais. as estrelas. de igual número devem ser as substâncias imóveis e eternas que produzem os movimentos da quelas. como hierarquicamente inferiores ao Primeiro Motor Imóvel. outras cinqüenta e cinco substâncias supra-sensíveis movem as outras cinqüenta e cinco esferasM. nem como da atração uniforme de um único Motor poderiam derivar movimen tos circulares dirigidos em sentido oposto. divinos são os astros. entre essas . também. pondo-o num plano totalmente diverso. é tudo o como que é eterno e incorruptível. E. as esferas e o éter que as constitui. deixou completâmente inexplicada a exata relação subsjstente entre Deus e essas substâncias. E o livro teológico da Meta física. seja um só o comandante É claro. com o significativo verso de Homero: como para dar maior o governo de muitos não é bom. o movimento dos planetas (que não é um movimento perfeitamente circular). Metafísica. um monoteísmo de exigência mais que efetivo. Anstóteles estabeleceu o número de cinqüenta e cinco para as esferas celestes. De exigência. umas inferiores às outras. Em Aristóteles há. admitir a existência de cinqüenta e cinco substâncias supra-sensíveis além da primeira. Já para os naturalistas o Divino incluía. em geral. afirmação selada. Analogamente. Porém. 61. divinas são as substâncias supra-sensíveis e imóveis motoras dos céus. Com base nos cálculos do astrônomo do seu tempo. de a questão nunca ter sido Dada a forma mentis do grego. O Deus aristotélico não é criador das cinqüenta e cinco inteligências motoras: e daqui nascem todas as dificuldades sobre as quais refletimos. divinos são os astros e divino é o mundo. devia parecer coisa muito menos estranha do que para nós. Aristóteles reafirma a unicidade do Primeiro Motor — Deus em sentido verdadeiro e próprio — e dessa unicidade deduz também a unícidade do mundo. como causas finais (causas finais relativamente às esferas individuais). muitos entes. porque as cin qüenta e cinco substâncias motoras são igualmente substâncias imateriais eternas que não dependem do Primeiro Motor quanto ao ser. uma possível diminuição para quarenta e sete. mesmo admitindo isso. porque ele tentou separar nitidamente o Primeiro Motor dos outros.a visão astronômica de então. A 7. 1072 b 18-24. Mas essa exigência é transgredida. No mesmo lugar em que é exposta a doutrina da pluralidade dos motores. isto é. Por isso os motores das cinqüenta e cinco esferas são inferiores ao Primeiro Motor e. só o Primeiro Motor. Deus ou Primeiro Motor move diretamente a primeira esfera. pensados substâncias supra-sensíveis. O Estagirita. diversos e não-uniformes. combinando-se de vá rios modos. divino é o Motor Imóvel. todas as Idéias. não se veria como do movimento do primeiro céu poderiam derivar diferentes movimentos. e operando algumas correções que pessoalmente considerava necessá rias. assim como para Platão e. que Aristóteles só poderia ter concebido as outras substâncias imóveis. em gera). capazes de mover de modo análogo a 60. O grego (e nesta obra demonstramos amplamente este ponto) não percebeu a antítese unidade-multiplicidade do divino: e não é. solenidade. entram múltiplas e diferentes realidades. E se tantas são as esferas. Metafísica. como é sabido. Calipo. do Motor Imóvel. encerra-se com a solene afirmação de que as coisas não querem ser mal governadas por uma multiplicidade de princípios. puramente contingente o fato explicitamente tema tizada nesses termos. que movem as esferas celestes individuais. Essa é uma forma de politeísmo? Para Aristóteles. e. e divina é também a alma intelectiva dos homens. A 7. Metafisica. então. pois. para Aristóteles. 370 ARLSTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 371 Deus. Divino. com efeito. são hierar quizados um com relação ao outro Isso explica bem a existência de substâncias individuais diferentes umas das outras: são formas puras imateriais. Antes de tudo. devemos dizer que é inegável uma tentativa de unificação por parte de Aristóteles. estruturalmente. ele chamou explicitamente com o termo Deus. a sua hierarquia resulta ser a mesma da ordem das esferas celestes que movem os astros. ulteriormente. divinas são as almas. 63. para ele.

e Deus não é privado de nada. também. nas suas E logo em seguida. 398). 1073 b 1-3: “Portanto. ela pensa a si mesma. 70. ao invés. ou algo diverso. Ademais. para que se fosse adiante. de fato. Em outros termos: Deus só é amado e não. logicamente a continuidade do pensar constituiria uma fadiga para ela. Se. só ama a si mesmo). e o seu pensamento é pensamento de pen samento Dessas passagens parece. falando de Deus. Deus não pode amar. ou seja. a inteligência pura é impassível e. a capacidade de pensar e a ativi dade de pensamento pertencem também a quem pensa a coisa mais indigna: de modo que. demonstrando que. é também claro que deverá conhecer-se como tal: conhecerá a si mesmo. se Deus é princípio supremo. Cf. mas poderá operar esta transformação justamente em virtude do conceito de criação. justamente na sua empiricidade e particularidade. porém. o homem. o Inteligível. e pare ce. como cada coisa. Cf. por sua natureza. mas não ama (ou. mas Deus. Cada um dos homens. tender para a negativa. é sempre para o pior. não ama (cf. que os indivíduos enquanto tais. pensa e contempla a si mesmo. se esta é. a inte ligência divina é ato. uma venha antes e a outra siga na mesma ordem hierárquica ( T ai:rrÍiv Tó dos movimentos dos astros. Deus e o mundo Deus (e. O Deus aristotélico certamente possui conhecimento da existên cia do mundo e dos princípios universais do mundo. é evidente que qualquer outra coisa seria mais digna de honra que a Inteligência: ou seja. e delas. enquanto tais. amante. que existam estas substâncias. a Inteligência divina é o que há de mais excelente. tende de vários modos para Deus. ou o pensar uma coisa qualquer? Ou não é absurdo que ela pense certas coisas? E portanto evidente que ela pensa o que é mais divino e mais digno de honra. não são objeto do amor divino: Deus não se volta para os ho mens e muito menos para o homem individual. dado que amor é sempre tendência a possuir algo do qual se é privado. aos olhos de Aristóteles. é ou não é bem diferente o pensar o que é belo. pelo menos em certa medida. Homero. passirn. Metafísica. A 8. são indignos do pensamento divino. é impensável que Deus (o Absoluto) ame alguma coisa (qualquer coisa além de si). a passagem do De anima que apresentamos nas pp. A Idade Média trans formará essas substâncias nas célebres “inteligências angélicas” 65. o Estagirita acrescenta: Em primeiro lugar [ se não é pensamento em ato. Para um aprofundamento de todos OS problemas relativos à metafísica aristotélica. quer na hipótese de que a sua [ da inteligência de Deus] substância seja a capacidade de entender. 1074 b 28-35. II. e essa mudança constitui sempre uma forma de movimento . segundo Aristóteles. segundo Anstóteles. represen taria uma diminutio para Deus. 13. também como objeto de amor e de atração de todo o universo. 64. o leitor encontrará todas as indicações necessárias na limitações. E certo. ele é objeto e não também sujeito de amor. como não pode conhecer. quer na hipótese de que a sua substância seja o ato de entender. Mas. De fato. o que há de mais excelente não poderia ser o pensamento. Metafísica. conquistar o teorema da criação: mas a especulação grega não chegará a tal conquista. coisa a ser evitada — é melhor. dever-se concluir que oSindiví duos empíricos. Meta/ísica. ou algo sempre diverso. 69. não são conhecidos por Deus: esse conhecimento do imperfeito. que coisa ela pensa? Ou a si mesma. assim como para Platão. L 8. é evidente”. não ver certas coisas do que vê-las —. ou pensa sempre a mesma coisa. Outra limitação do Deus aristotélico — que tem o mesmo funda mento da precedente: o fato de não ter criado o mundo. no máximo.substâncias e as esferas que elas movem. como vimos. deficiências e carências. porque é inteligência pura e. L 9. 372 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO 00 SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 373 motoras. Ade mais. Pensa também o mundo e os homens no mundo? Aristóteles não forneceu solução clara para tal problema. mas em potência. nem mesmo com o neoplatonismo 68. e que o objeto do seu pensar não muda: a mudança. as almas individuais — consiste em que ele é objeto de amor. (E totalmente desconhecida para o Grego a dimensão do amor como dom gratuito de si). como tal. com efeito. 66. 204. aludimos ao Primeiro Motor). também não pode amar nenhum dos homens individuais Era necessário. Por outro lado. lUada. Para Aristóteles. Os indivíduos. pois. Eis os textos mais eloqüentes: Ademais. pois.

425-446. então necessariamente diferentes. passim. mais que uma ciência. com efeito. ver especialmente o segundo livro da Física. 1025 a 28ss. Introduction d Ia Physique Arisrotélicienne. pp. e. Cf. intrinsecamen te caracterizada pela falta absoluta de movimento A distinção de uma problemática metafísica e de uma problemá tica física. já para os pluralistas. A FÍSICA 1. €1. assim como a metafísica tinha por objeto a realidade supra-sensível. em vez de signi ficar a totalidade do ser. soube estabelecer qual era a sua essência e o seu estatuto ontológico. Metafísica. ninguém. natureza quererá dizer. nos livros de Física abundantes considerações de caráter metafísico. 376 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO . Z. Mansion. Os eleatas negaram o devir e o movimento porque.. que tem por objeto de pesquisa a realidade sensível. e na bibliografia que se encontra no vol. a de Aristóteles resulta. pp. vice-versa. Paris 1931 2• Sobre o tema cf. Sa bemos também que. está nos antípodas: a sua não é uma ciência quantitativa da natureza. Sobre o conceito aristotélico de natureza. Lovaina-Paris 19452. pp. 3. na verdade. do qual O. para nós. se existem dois gê— neros diferentes de substâncias estruturalmente distintos. também as páginas luminosas de A. 1. passará agora a significar o ser sensível. a passagem do não-ser absoluto ao ser e do ser ao não-ser 4. Não é de admirar que se encontrem nos livros de Metafísica amplas considerações físicas (no sentido precisado) e. 1074 b 21-27. natureza sensíveP (mas um sensível no qual a forma permanece como o princípio dominante) O leitor moderno. Traduction ei commentaire. L 9.. A mudança e o movimento Dissemos que a característica essencial da natureza é dada pelo movimento.riquíssima bibliogra fia elaborada por Owens. os mais característicos — o demonstrará adequadamente. e à análise do movimento e das suas causas Anstóteles dedica. 2. com base na sua tese de fundo. Hamelin fez um bom comentário: Aristote. pode ser levado a engano pela palavrafísica. por conseqüência. Ver a posição que Aristóteles assume diante da pré-socrática filosofia da physis in Metafísica. e passim. depois das aquisições da “segunda navegação” platônica. The Doctrine ofBeing. e cada um desses estados não é o precedente e não é o seguinte. estes suporiam a existência de um não-ser (o que advém em geral passa de um estado a outro. ao invés. uma onrologia ou metafísica do sensível. 321 -376. por razões de espaço. o gênero supra-sensível e o gênero sensível. Física. limitar-se-á apenas a alguns dos temas de fundo. Todavia. em parte. 92ss. impunha-se estruturalmente: se são dois os planos da realidade ou. além disso. mas também os livros que precedem tocam em grande medida o movimento ou conceitos a ele estreitamente ligados. pois os âmbitos das duas ciências são estruturalmente intercomunicantes: o supra-sensí vel é causa e razão do sensível. vale dizer. II da nossa edição da Meta física. a física identifica-se com a ciên cia da natureza galileanamente entendida. 2. o movimento foi recupe rado e. intrinsecamente caracterizada pelo movimento. Aristóteles. em suma. e. nascer e morrer parecem. 449-502. Metafisica. justificado. na bibliografia comen tada que acrescentamos à segunda e terceira edições do nosso volume li concetto di filosofia prima e l’unità de/la MetafIsica di Aristotele. A FÍSICA 375 II. quantitativa mente entendida. predominantemente. pp. para nos exprimir em termos mais aristotélicos. Encontramo-nos. portanto. A 8. a exposição a seguir . Caracterização da física aristotélica A segunda ciência teorética para Aristóteles é a física ou “filo sofia segunda”. E 1. nem mesmo Platão. A distinção entre metafísica e física comportará a definitiva superação do horizonte da filosofia dos pré-socráticos e também uma radical mudança do antigo sentido de physis. até então.que. De resto. mas uma ciência qualitativa. deverão ser as ciências que têm essas duas realidades por objeto de pesquisa. Physique II. Comparada á física moderna. diante de uma consideração especificamente filosófica da natureza: e será esse tipo de consideração que prevalecerá até a re volução galileana.. 67. livros E. que. também o método de estudo aplicado nas duas ciências é idêntico. Cf. grande parte da Física Que é o movimento? Já sabemos que o movimento tornou-se problema filosófico só depois de ter sido negado como aparência ilusória pelos eteatas. e no supra-sensível termina tanto a pesquisa metafísica como (embora em sentido diferente) a própria pes quisa física. H.

a categoria da relação: basta que se mova um dos dois termos da relação para que também o outro. 6. r 1. Mas como se justifica? Sabemos (pela metafísica) que o ser tem muitos significados e que um grupo desses significados é dado pelo par ser como potência e ser como ato. particularmente. seja pela substância. de um contraditório a outro contraditório. que é o escopo e a razão do devir. 1066 b 5 ss: “O ser ou é em ato ou é em potência. existe de dois modos diferentes [ de ma neira que deverão existir tantas formas de movimento e de mudança quantas são as categorias do ser”. segundo a qualidade é a alteração. a corrupção consiste em perder a forma. Voltemos à distinção original dos diferentes significados do ser. e. mas é claro que se trata de um não-ser relativo. chegando a estabelecer todas as possíveis formas de movimento e a sua estrutura ontológica. 5. Por conseqüência. Física. Ora. r 1-2. nas outras três formas. e não há nada que seja comum a todas e que não entre numa única categoria. ao mesmo tempo. como já vimos. 3) da quantidade. o movimento ou mudança em geral é. enquanto o aumento e a diminui ção são uma passagem do pequeno ao grande e vice-versa. Cf. o sentido positivo de todo devir que. enquanto o não-ser não existe de modo algum. vindo ao ponto que nos interessa. que passa de um oposto a outro oposto: na primeira forma. 8. Física.A FÍSICA 377 absoluto). Causa externa é. A solução da aporia é alcançada por Aristóteles da maneira mais brilhante. e. segundo a quantidade é o aumento e a dimi nuição.. que não pode ser posto em dúvida. Cada uma das categorias. e fica fundamentalmente explicado. que é passa gem da potência ao ato. a alte ração é uma mudança da qualidade. 1065 b 33: i TOÜ uvaro0 i Suvaràv iVTEÀIXEIa xívqafç icYTIv. As categorias do agir e do padecer já são por si movimentos e não é possível movimento de movimento. porque se desenvolve no álveo do ser e é passagem de ser (potencial) a ser (atual): com isso o movimento perde definitivamente o caráter que podemos denomi nar nadificante. o movimento não supõe absolutamente o não-ser parmenidiano. Ii ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SA8ER FILOSÓFICO . A geração consiste na assunção da forma pela matéria. também o quando ou tempo. portanto. K 9. Cf. o devir supõe um substrato (que é o ser potencial). é uma afecção do movimento. diz Aristóteles Portanto. a passagem do ser em potên cia ao ser em ato (o movimento é o ato ou a atuação do que é em potência enquanto tal. e é justamente segundo essas categorias que ocorre a mudança. segundo o lugar é a rranslação. Mas Aristóteles fornece ulteriores aprofundamentos sobre o movimento. Enfim. em todas as coisas. Só os sínolos de matéria e forma podem mudar. de capital importância. o ser-em-potência pode ser dito não-ser. a mudança tem lugar sempre segundo as categorias do ser. o movi mento local é passagem de um ponto a outro. K 9. que já conhecemos. se admitíssemos movimento segundo a relação. por exemplo. com efeito. pois. 201 a 10-11 e Metafisica. mude o significado relacional (e. A 5 ss. ou é. pois a potência é real. em ato e em potência: e verifica-se isso. pelo qual os eleatas acreditavam ser constrangidos a eliminá-lo. a raiz de todo movimento Essas considerações remetem-nos ao problema das quatro causas. 2) da qualidade. referir-se-á às várias categorias (a todas elas ou às principais) E assim da tábua das categorias é possível deduzir as várias formas de mudança. que implica necessaria mente matéria e potencialidade. seja pelas restantes categorias. seja pela qualidade. também E 1-2. porque é real a capacidade e efetiva possibilidade de chegar ao ato. Física. porque só a matéria implica potencialidade: a estrutura hilemórfica da realidade sensível. Matéria e forma são causas intrínsecas do devir. E 1-2. a última Em todas as suas formas. é preciso a causa final. como. é fundamentalmente um progredir para a forma e uma realização da 7. não admitem mudança. precisamente. o agente ou causa eficiente: nenhuma mudan ça tem lugar sem essa causa. A mudança segundo a substância é a geração e a corrupção. Restam as cate gorias 1) da substância. movimento. de um contrário a outro contrário. Algumas das categorias. O movimento é um dado de fato originário. A causa final indica. Não existe nenhum movimento que esteja fora das coisas: de fato. Mudança é termo genérico que corresponde a essas quatro formas. também o movimento. A doutrina é retomada com palavras textuais da Física também na Metafísica. é. Física. 4) do lugar. Cf. admitiría mos o absurdo de um movimento sem movimento para o segundo ter mo). é termo que designa as últimas três. cf. Cf. Com relação ao ser-em-ato. ao invés. ao invés. emboru permanecendo sem mudança. Enfim. precisamente não-ser-em-ato. Vimos que potência e ato dizem respeito às várias categorias e não só à primeira. porque não pode haver passagem da po tência ao ato sem que haja um motor já em ato. aos olhos de Aristóteles. substan cialmente.

Física. Aristóteles esclarece ainda que o lugar não deve ser confundido com o recipiente: o primeiro é imóvel. ela serve-se do que a contém como de um vaso mais do que como de um lugar. isto é. ele será. enquanto este é contíguo ao conteúdo’ Por último. se trazemos à mente o fato do deslocamento recíproco dos corpos (no recipiente onde há água. lO. que é intuído e afirmado pelo Estagírita. o devir aparece a Aristóteles como a via que leva à plenitude do ser.forma. D 1. Os objetos não estão no não-ser. D 1. todo o rio é lugar. viu mais profundamente: e. igualmente. Física. em particular OS caps. ou seja. e. Introduction à la Physique. 212 a 14-21.210 b 34-21! a 1.] o limite do corpo continente. com a doutrina do Demiurgo no Ti.. ver a este respeito Mansion. em um lugar. sobre a sua realidade. como uma nave num rio. Longe de ser entrada no nada. A 2. em certo sentido. não por um desígnio do Absoluto. move-se e toma-se uma coisa movida. Física. o lugar? Aristóteles conquista uma primeira carac terização distinguindo o lugar que é comum a muitas coisas e o lugar que é próprio de cada objeto: O lugar. por uma parte. o embaixo não é qualquer coisa. compreende-se bem por que a physis aristotélica é. um certo limite (•• Ulteriormente. 7-8. pela qual o mundo existe. & passim. um corpo diferente vem sempre ocupar o lugar antes ocupado por um corpo que é deslocado. pp. O em cima e o embaixo não são algo relativo a nós. D 4. Sobre a razão de fundo do finalismo universal. Física. poderse-ia. então. A 4. o lugar é o primeiro limite imóvel do continente’ 9. 14. e a parte do espaço para a qual e a partir da qual verifica-se a mudança dos dois elementos é algo diferente de ambos 2 Ademais. 13. é imóvel: por isso. O lugar. E não há dúvida sobre a existência do lugar e.. 378 A FÍSICA 379 . 208 b 6-8. é aquele comum no qual estão todos os corpos. mas não é rigorosamente justificado. 292-314. a via que as coisas percorrem para atuar-se. Portanto. quando esta sai. B. 3. essa forma) A respeito disso deve-se notar que a teleologia aristotélica per manece defeituosa. ao invés. em geral. a experiência mostra que existe um “lugar natural” ao qual cada um dos elementos tende. ou o finalismo universal não se sustenta. por outra. Introduction à la Physique. entra ar. Físicc B 4-6.] o lugar é o que contém o objeto do qual é lugar e não é nada da própria coisa que ele contém’ Unindo as duas caracterizações chega-se a que o lugar é E.. quando alguma coisa está dentro de outra. quando não encontra obstáculo: fogo e ar tendem para cima. que é algo existente. enquanto o recipiente é um lugar móvel: E como o vaso é um lugar transportável.neu. porque o todo é imóvel. para realizar a sua essência ou forma (e. 17. 6. 15. ou se admite um Ser que projeta o mundo e o faz ser em função do bem e do melhor. Aristóteles afirma que E. o último Platão. pp. são determi nações naturais: O em cima não é qualquer coisa. Por isso. que não existe. mas por uma espécie de mecânico e fatal anelo de todas as coisas à perfeição. 12. Física. não pelas limitações que ele expressamente opera em famosas passagens da Física mas pela irresoluta aporia metafí sica de fundo. enquanto o segun do é móvel. assim também o lugar é uro vaso que não se pode transportar. A 4. Sobre isso ver Mansion. com efeito. Física. substituindo-se a este): Assim é claro que o lugar é algo. terra e água para baixo. 25 -281. 212 a 6. em última análise. é aquele particular no qual imediatamente está um corpo [ e se o lugar é aquilo que imediatamente contém cada corpo. então. O espaço e o vazio Os conceitos de espaço. e..208 b 19-2í. Cf. Física. mas estão em um onde. mas o lugar para onde se dirigem o fogo e o que é leve. 209 a 3 2. mas o lugar para onde vão as coisas pesadas e feitas de terra [ Que é. para ser plenamente o que são. nesse sentido. mas algo objetivo. Física. portanto. vazio e tempo ligam-se ao conceito de movimento. dizer que o lugar é o recipiente imóvel. 11.

213 b 21 e 33. E a causa disso está no fato de se crer que o ente seja um corpo e que todo corpo seja um lugar. porém. mas nenhuma existe. se num lugar não há um corpo. que antecipam alguns conceitos que Sto. no éter. Física. Uma parte dele foi e não é mais. Num lugar está note-se — tudo o que se move (e move-se tendendo a alcançar o seu lugar natural). é necessário que. Eis corno Aristóteles explica a origem dessa convicção: “ E opinião que o vazio seja um lugar flO qual não há nada. possua uma essência. a extremidade do céu. o tempo? Aristóteles tenta resolver o mistério em função de dois pontos de referência: o movimento e a alnui: se pres cindimos desta ou daquela. de fato. seja o tempo na sua infinidade. este. a natureza do tempo nos escapa. D 5. e é jlimite imóvel] contíguo ao corpo móvel: por isso a terra está na água. conseqüentemente. Le ternps ei I’insiant selon Aristote. considerando a definição de lugar como terminus continentis. pode ser considerado uma afecção ou propriedade dele. poder-se-ia suspeitar pelo que segue. Paris 1967. o que é imóvel não está num lugar: Deus e as outras inteligências motoras não têm. mas implica essencialmente movimento e mudança: A existência do tempo [ não é [ possível sem a da mudança. Do tempo. O tempo Aristóteles dedicou profundas análises ao conceito de tempo. é uma contradição nos termos. Tenha-se ainda presente que o instante não é uma parte: de fato. que é sempre movimento através de um espaço contínuo. E de tais partes se compõem. ao invés. O vazio fora entendido como “lugar no qual não há nada” ou “lugar no qual não há nenhum corpo” Mas é óbvio que lugar no qual não há nada. não mudamos nada dentro da nossa alma e não percebemos qualquer mudança. embora ele seja divisível em partes. E assim exclui-se o pressuposto cen tral sobre o qual os abderianos construíram a doutrina dos átomos e a concepção mecanicista do universo. a parte tem uma medida. e por isso todas as coisas estão no céu: pois o céu. outras ainda existirão. E no contínuo distinguem-se o antes e o depois. e que o vazio seja o lugar no qual não há corpo. necessidade do lugar. e o todo deve resultar composto de partes. não há qualquer coisa fora do todo. que. o éter no céu: mas o céu não está em outra coisa E assim o movimento do céu como totalidade só será possível no sentido da circularidade sobre si mesmo. uma parte está para ser e não é ainda. algumas partes existiram. M. então. é. 7. Agostinho desenvolverá e torna rá célebres 18. es truturalmente. esta no ar. assim. Da definição de lugar segue também a impossibilidade do vazio. E que pro priedade? O movimento. A doutrina aristotélica do tempo dedicou um exame exaustivo J.380 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A FÍSICA 381 Esta definição tomar-se-á famosíssima. não havendo lugar para uma translação. também ele. e os medievais irão fixá -la na célebre fórmula: terminus continentis irnmobilis priinus. 19. não é o céu. seja aquele que gradualmente é assumido por nós. no tempo: . Física. entende-se. E parece impossível que este. Além disso. no momento em que ele existe. Contudo. Contí nuo deverá ser o tempo. o tempo não é movimento e mudança. 4. aí há vario”. quan do. é o todo! O lugar. porque a quantidade de tempo transcorrida é sempre proporcional ao movimento. 20. Eis o ponto focal da doutrina aristotélica do tempo: Que este [ tempol não exista absolutamente ou que a sua existência seja obscura e dificilmente controlável. têm um correlativo no movimento e. compondo-se de não-entes. parece-nos que o tempo absolutamente não passou E dado que o tempo implica tão estreitamente o movimento. se existe um todo divisível em partes. 212 b 16-22. contínuo. Dubois. por conseqüência. mas. existam também ou todas as partes ou algumas delas. por sua vez. enquanto o tempo não parece ser uro conjunto de instantes Que é. E dessa definição do lugar segue que não é pensável um lugar fora do universo nem um lugar no qual esteja o universo: Mas se prescindimos de todo o universo. portanto. por assim dizer.

Física. conhecemos também o tempo. contra a existência de um corpo infinito. isto é. Ao invés. assim como necessita-se uma unidade de medida para medir qualquer coisa. o que quer que lhe falte. o inteiro é aquilo fora do qual nada há. porque sempre é possível acrescentar a qualquer número um número ulterior. segundo a qual o finito é perfeito e o infinito é imperfeito. por conseqüência. ao contrário. por exemplo. estão também fora do tempo. então a alma torna-se conditio sine qua non do próprio tempo. 219 a 26-30. pp. 219 b 1-2: TOOTO yàp iOTlv à póvo ixpi X1v1 XQT Tà TrpóTEpov xai L 25. e. 382 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A FlSJCA 383 Tempo é a medida do movimento segundo o antes e o depois Ora. enquanto imóveis. quando remos percepção do antes e do depois do movimento E eis a célebre definição do tempo: 21. então nós dizemos que há entre esses dois instantes um tempo. é também o tempo. própria de quase toda a grecidade). E Aristóteles nem de longe entreviu a idéia de que o imaterial pudesse ser infinito. 223 a 21-26.Quando determinamos o movimento mediante a distinção do antes e do depois. com efeito. só a alma ou o intelecto que está na alma têm a capacidade de numerar. necessariamente supõe a alma: Quando [ pensamos as extremidades como diferentes do meio e a alma sugerenos que os instantes são dois. definimos o inteiro: aquilo ao qual nada falta. obviamente. para medir o tempo necessitase uma unidade de medida. já que o tempo parece ser o que é determinado pelo instante: e isso fique como fundamento Mas se a alma é o princípio espiritual que mede e a condição da distinção do numerador e do número. fora do qual não há. E quando fala de infinito. torna-se impossível a existência do tempo sem a da alma [ Esse pensamento é fortemente antecipador da perspectiva agostiniana e das concepções espiritualistas do tempo. Física. na natureza das coisas. 24. Número. Le temps ei l’instant selon Aristote. é ulteriormente divi sível. depois dessa . de modo que. Física. Assim. enquanto o resultado da divisão é sempre uma grandeza que. como tal. E explica-se também que ele terminasse por chancelar definitivamente a idéia pitagórica (e. e compreende-se bem a aporia que Aristóteles levanta nessa passagem de incomensurável importância histórica: Poder-se-ia [ duvidar da existência do tempo. com efeito. assim como estão fora do espaço. Aristóteles. que só vale para o sensível. 5. 23. 219 a 22-25. Aquilo. mas aquilo fora do qual existe alguma coisa que lhe falta. e só recente mente recebeu a atenção que merecia. a percepção do antes e do depois. esclareceu que. Física. o número. O infinito Devemos. o volume de Dubois. e os argumentos que aduz contra a exis tência de um infinito em ato são. o inteiro e o perfeito são ou a mesma coisa em tudo e por tudo ou alguma coisa semelhante por natureza. Mas se é verdade que. se n se admite a existência do numerante. Física. 218 b 21-23. portanto. posteriormente. decorre. assumido como quantidade. mas transcorre e cresce sem fim. que a unidade de medida é o movimento das esferas e dos corpos celestes Deus e as inteligências motoras. 14. sem que se chegue a um limite extremo além do qual não se possa ir. D II. e o fim é o limite Isso faz compreender muito bem a razão pela qual Aristóteles devesse necessariamente negar a Deus a infinitude. nem o número existirá. Infinito em potência é também o espaço. In finito em potência é. A II. é sempre possível assumir alguma outra coisa. 259ss. não é o todo. é também impos sível a do numerável. justamente porque ligava o infinito à categoria da quantidade.nada. Diz Arístóteles numa página paradigmática: Infinito é [ aquilo fora do qual. e então dizemos que o tempo cumpre o seu percurso. Mais do que nunca. é perfeito e inteiro. da medida do movimento. sem a existência da alma. D 11. 27. II. justamente. em geral. Física. infinito potencial. que não pode existir todo atualmente. por exemplo o homem inteiro e virtuosissimo. De fato. porque é divisível ao infinito. O infinito só existe conw potência ou em potência. assim também no mais autêntico significado lógico. 217 b 32-218 a 8. entende sobretudo um corpo infinito. Mas nada que não tenha um fim é perfeito. e dado que o movimento uniforme e perfeito só é o movimento circular. é ou o que foi numerado ou o numerável. o antes e o depois. falar do conceito de infinito Aristóteles nega a existência de um infinito em ato. 26. enfim. Esta deve ser buscada no movimento uniforme e perfeito. enfim. 22. Para o aprofundamento desses problemas cf. D lO. E tal qual é no particular.

como já acenamos ao tratar da metafísica. A “quintesséncia” e a divisão do mundo sublunar e celeste Aristóteles distinguiu a realidade sensível em duas esferas entre si razão. não se admirará o leitor de que a Física seja repleta de considerações metafísicas e. só é suscetível de receber o movimento local. está na matéria da qual são constituídos: E se existe algo de eternamente movido. os astros e todo o céu estão sempre em ato: e não se deve temer que esses. Cf. portan to. Do Céu. Deve-se notar que se tal denominação está ausente nos esotéricos. depois de ter dito que o éter “não aumenta nem diminui e não está sujeito ao envelhecimento e a outras afecções”. eles chamaram éter (ai o lugar excelso. 32. parece ter sido transmitido dos antigos até os nossos dias. ademais já se encontra no Epínomis (diálogo nitidamente diferenciadas: de um lado. ao invés. também Meteorol. A 3. devia esperar a descoberta de ulteriores horizontes metafísicos. mais profundamente do que Empédocles. não existiria tampouco o devir” o Estagirita coroou as suas pesquisas físicas demonstrando exatamente a existên cia desse princípio. o que tornaria fatigante a continuidade do movimento E essa matéria. do ar e da água. de baixo para cima os leves). portanto. do fogo. uma metafísica do sensível e. transformáveis um no outro. precisamente. Mais uma vez manifesta-se como absolutamente determinante o êxito da “segunda navegação” platônica 31. movem-se os céus). Os céus. nem alteração. parem. num certo momento. considerados por Aristóteles. senão de um ponto ao outro (como. 339 b l6ss. A diferença entre o mundo supralunar e o sublunar. chamado assim porque corre sempre (àEi Eiv) Ele foi também denominado “quintessência”. ar e fogo). ar. que culmine com a demonstração da existên cia de um primeiro Motor imóvel: convencido radicalmente de que “se não existisse o eterno. na verdade. nem aumento. devemos esclarecer ulteriormente as razões da O mundo sublunar é caracterizado por todas as formas de mu dança. não sujeito a crescimento nem alteração. água. O éter é ingênito. a antiga intuição dos milesianos. até mesmo. Ao invés. de outro. já está presente nos exotéricos. o movimento do éter é. pelo movimento circular. os quais. e para poder renascer. que via o Abso luto como infinito. nem mesmo isso pode ser movido segundo a potência. 29. Essa doutrina de Aristóteles será depois acolhida pelo pensamen to medieval. porque se acres centa às quatro essências dos outros elementos (água. que é potência dos contrários. por esse motivo. A 3. que só possui a potência de passar de um ponto a outro e. seria obliterada: ela permaneceria excêntrica com 28. também são incorruptíveis os céus constituídos pelo éter. Dissemos no início que a física aristotélica (e também grande parte da sua cosmologia) é. terra e fogo) E enquanto o movimento característico dos quatro elementos é retilíneo (movem-se de cima para baixo os elementos pesados. é também indestrutível). O 6. considerando o corpo primeiro como uma subs tância diferente da terra. é o éter. con tra o eleatizante Empédocles. a outra matéria. Cf. contudo. o mundo chamado sublunar e.. junto com o pressuposto sobre o qual se sustentava. Aristóteles afirma. são igual mente sensíveis. Nesta passagem. é a mesma experiência a afirmar que o céu não nasceu e. porque o seu movimento não é. Nas esferas celestes e nos astros. não pode haver geração nem corrupção. 6. ao invés. O 4-8. Eles também não se cansam de realizar o seu percurso. justamente para dar . Física. incorruptível. como o das coisas corruptíveis. justamente. por isso. e só no início da era moderna cairá a distinção entre mundo sublunar e mundo supralunar. são caracterizados só pelo movimento local e. Física. e deram esse nome porque ele corre sempre (&‘t sTv) na eternidade do tempo”. nem diminuição (em todos os tempos. os homens sempre viram o céu assim como nós o vemos: portanto. Cf. ligado à potência dos contrários. 207 a 7-15. Por isso. de Melisso e de Anaxágoras. da geração e da corrupção. circular (o éter não é nem pesado nem leve). nem a qualquer outra afecção que im plique essas mudanças e. 384 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A FÍSICA 385 relação ao pensamento de toda a grecidade. E nada impede que exista uma matéria própria desse tipo de movimento. é dada pelos quatro elementos (terra. 270 b l6ss. entre as quais predominam a geração e a corrupção. o mundo supralunar ou celeste. entre outras coisas: “E também o seu nome [ éter]. o sol. concebendo-o eles do modo como também nós o dizemos [ Por isso. como temem os físicos.teorização do infinito como potencialidade e imperfeição. Aqui diferenciação.

Laterza. 981 c. os animados desprovidos de razão e os seres animados dota dos de razão (o homem). B 4. (Depois do Fédon. passim. Opere biologiche. 999 b 5s. cf. A PSICOLOGIA 387 ifi. pois. mas não superando totalmente a sua posição original). Laurenti. Ora. será preciso dizer que ela é a enteléquia primeira de um corpo natural orgânico É claro. a partir dessa simples definição. Com isso salva-se a unidade do ser vivo. também para os seres vivos. O pensar puro. sobre o universo físico e a sua es trutura. e também relativamente à psyché platônica. compondo uma ingente quantidade de tratados. estruturando o corpo. naturalmente. a alma é enteléquia primeira (iVTEXíXEIa i irpc de um corpo físico que tem a vida em potência Se devemos dar uma definição que seja válida para toda alma. unificando os dois pon tos de vista anteriores e tentando uma síntese mediadora. ArLslotele. mas também sobre os seres que estão no universo. Gttingen 1962. Die aristotelische Physik. sendo a matéria. porque esta era identificada em geral com o princípio físico ou. de uma realidade separada e inconciliável com o corpo. dualisticamente contraposta ao corpo. Vegetti. e 8. Trendelenburg. Wieland. Metafisica. Uma nova (embora por muitos aspectos discutível) interpretação da física aristotélica foi dada recentemente por W. observa o Estagirita. que a alma seja substância como forma de um corpo físico que tem a vida em potência. Bati 1973.atribuído a Platão). entre os quais se destaca — pela profundidade. Platão entenderá a alma como princípio de movimento. tiletaftsica. A PSICOLOGIA 1. Tricot. que examinaremos agora (a maior parte dos outros tratados contém doutrinas que inte ressam mais à história da ciência e não à história da filosofia) Os seres animados diferenciam-se dos seres inanimados porque possuem um princípio que lhes dá a vida. in Aristotele. mas não são vida e. uma vez que o corpo era visto como cárcere e lugar de expiação da alma. assim como se salva na metafísica com a doutrina do Motor Imóvel. Turim 1971. G. Opere. Física. Trattato sul cosmo. matizando. TraiM de /‘âme. é enteléquia de tal corpo Portanto. pp.. 34. J. Arislou’. 1050 b 20-27. A alma. originalidade e valor especulativo — o célebre tratado Sobre a almat. Estes tratados estão agora disponíveis em duas traduções italianas: Aristotele. tam bém não se perde na psicologia. a especulação que leva a conhecer o imaterial e o . Ross. Mas que é a alma? Para responder a esta pergunta. Lanza e M. os corpos vivos têm vida. Todas as coisas em geral são compostos de matéria e forma. Aristofe. são como o substrato material e potencial do qual a alma é forma e ato. O conceito aristotélico de alma A física aristotélica não indaga somente sobre a natureza em geral e sobre os seus princípios. mas trata-se da forma. Movia. Js’anima. A. É necessário. Aos seres animados o Estagirita dedica particular atenção. Paris 1947. potência. De Anima. UTET. foi reimpresso em Graz em 1957). Berlim 18772 (cujo comentário permanece fundamental. porém. mas tem razão Platão ao ver nela uma natureza ideal: não se trata. os inani mados. Aristóteles remete-se à sua con cepção metafísica hileniórfica da realidade. 33. D. Aristotle. G. enteléquia ou ato. e a forma. 2. e Aristotele. Têm razão os pré-socráticos ao ver a alma como algo intrinsecamente unido ao corpo. e esse princípio é a alma. o faz ser aquilo que deve ser. Rodier. Sobre o problema ver: Reale. Isso vale. Paris 1900. como sem pre tenta fazer na solução de todos os problemas especulativos. portanto. Escreve Aristóteles: 1. Indicamos esta obra como estimulante antítese da nossa exegese. Mas a substância como forma é enteléquia [ ato]. Aristóteles toma uma posição intermediária. que a psyché aristotélica distingue-se4a psyché dos pré-socráticos. pelo menos. Arisfotelis De anima libri tres. a ponto de ser vista como totalmente diferente do corpo e incapaz de conciliação harmônica com ele. portanto. De l’âme. lO2ss. Q. organizado por D. Aristotele. Para uma leitura aprofundada desta obra indicamos: F. Oxford 1961. Mas a substancial descoberta platônica da transcendência. Nápoles 1979. organizado por R. Piccoli trattati di storia naturale. pois Aristóteles não considera a alma como absolutamente imanente. 30. do ato ou da enteléquia do corpo: trata-se daquele princípio inteligível que. reduzida a um aspec to deste.

eterno, que leva o homem, embora por breves momentos, quase a uma tangência com o divino, só pode, 3. Da alma, 8 1, 412 a 19-22. 4. Da alma, B 1, 412 a 27-28. 5. Da alma, B 1, 412 b 4-6. 388 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SA8ER FILOSÓFICO A PSICOLOGIA 389 evidentemente, ser a prerrogativa de algo em nós que é congênere ou afim ao conhecido, como Platão demonstrou definitivamente no Fédon. E assim Aristóteles, embora a preço de aporias deixadas sem solução, não hesita em afirmar a necessidade de que uma parte da alma seja “separável” do corpo. Eis as passagens mais significativas a respeito: Não há dúvida de que a alma não é separável do corpo ou, pelo menos, não o são algumas de suas partes, se ela é por natureza divisível: de fato, a enteléquia de algumas de suas partes é a enteléquia das correspondentes partes do corpo. Mas nada impede que pelo menos algumas outras partes sejam separáveis, pelo fato de não serem enteléquia de nenhum corpo Com relação ao intelecto e à faculdade especulativa, nada, em certo

nascida fundamentalmente da análise do comportamento ético introduzida para explicá-lo, tem muito pouco em

do

homem

e

comum com a tripartição aristotélica, que nasceu, ao invés, da análise geral dos seres vivos e das suas funções essenciais e, portanto, no terreno biológico, além do psicológico. Porque os fenômenos da vida — assim raciocina Aristóteles — supõem determinadas operações constantes, nitidamente diferenciadas (a ponto de algumas dessas po derem subsistir em alguns seres sem que neles subsistam também as outras), a alma, que é princípio de vida, deve também ter capacidades ou funções ou partes que presidem e regulam essas operações. E dado que os fenômenos e as funções fundamentais da vida são: a) de ca ráter vegetativo, como nascimento, nutrição, crescimento, b) de cará ter sensitivo-motor, como sensação e movimento, c) de caráter intelectivo, como conhecimento, deliberação e escolha; então, pelas razões acima esclarecidas, Aristóteles introduz a distinção de a) alma vegetativa, b) alma sensitiva e c) alma intelectiva ou racional. Escre ve o Estagirita: As faculdades da alma das quais falamos encontram-se [ todas em alguns seres, só algumas em outros, uma só em outros Ora, as plantas possuem só a alma vegetativa, os animais a ve getativa e a sensitiva, os homens a vegetativa, a sensitiva e a racional. Para possuir a alma racional o homem deve possuir as outras duas e, assim, para possuir a alma sensitiva o animal deve possuir a vegeta tiva; ao invés, é possível possuir a alma vegetativa sem as outras. É claro que a noção de alma é como uma noção de figura: de fato, em geometria não existe uma figura além do triângulo e das outras figuras que a ele seguem, nem, em nosso caso, há uma alma além das que indicamos. Poderse-ia formular para as figuras uma definição comum, que valerá para todas, mas não será própria de nenhuma figura específica. O mesmo diga-se para as almas das quais falamos. Por isso é ridículo buscar uma definição comum (seja para este, seja para os outros objetos), que não será definição própria de nenhum, e não fazer referência à espécie própria e indivisível, deixando de lado uma definição desse tipo. (Dá-se com a alma o que se dá com as figuras: de fato, no subseqüente está sempre contido em potência o antecedente, seja no âmbito das figuras, seja no âmbito dos seres animados: por exemplo, no quadrado está contido o triângulo, na alma sensitiva está comida a nutritiva). Por conseqüência, é preciso buscar em particular qual é 6. Da alma, B 1, 413 a 4-7. 7. Da alma, B 2, 413 b 24-29.

sentido, é claro. Parece, antes, que se trata de um gênero de alma diferente e que este só pode ser separado do corpo como o eterno do corruptível. Ao invés, as outras partes da alma ...l é claro que não são separáveis Também na Metafísica afirma-se com toda clareza: Se, pois, permanece algo também depois [ corrupção], é problema que ainda deve ser examinado. Para alguns seres nada o impede: por exemplo, para a alma, não toda a alma, mas só a intelectiva; toda ela seria impossível Como se vê, os resultados da “segunda navegação” encontram aqui ulterior e plena confirmação. 2. A tripartição da alma Para compreender a fundo o sentido dessas afirmações, devemos primeiro examinar a doutrina geral da alma, e o sentido da célebre tríplice distinção das “partes” ou “funções” da alma. Platão, a partir da República, falara de três partes ou funções da psyché, distinguindo uma alma concupiscível, uma irascível e uma intelectiva; mas tal tripartição,

8. Metafisica, A 3, 1070 a 24-26. 9. Da alma, B 3, 414 a 29-31. 390 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A PSICOLOGIA 391 a alma de cada um [ dos diferentes tipos de seres vivosj, qual a alma da planta, qual a do animal ou a do homem. Devem-se, depois, examinar tam bém as razões pelas quais as almas têm essa ordem de sucessão: com efeito, sem a faculdade nutritiva não existe a sensitiva, enquanto a faculdade nutri tiva existe separada da sensitiva nas plantas. Ademais, sem o tato não sub siste nenhuma das outras sensações, enquanto o tato existe sem as outras sensações: de fato, muitos animais não possuem nem visão, nem audição, nem olfato. E entre os seres que têm sensibilidade, alguns têm faculdade de locomoção, outros não; enfim, pouquíssimos têm faculdade de raciocinar e pensar. Entre os seres corruptíveis, os que têm faculdade de raciocinar têm também todas as outras faculdades; ao invés, nem todos os que possuem uma dessas faculdades têm a faculdade de raciocinar, e, antes, alguns não têm nem mesmo a imaginação, enquanto outros vivem só com esta. Com relação ao intelecto especulativo a questão é diferenie Entre as três almas, há mais distinção que separação. “f...J a divisão que a alma admite — escreve Ross — não é em partes qua litativamente diferentes, mas em partes nas quais existem a qualidade do todo. A alma, de fato, embora Aristóteles não o diga, é homogê nea, como um tecido e não como um órgão. E embora use amiúde a tradicional expressão ‘partes da alma’, a palavra que prefere é ‘facul dade” Esta observação é exata e, ademais, como veremos, esclarece algumas coisas, acentua o caráter aporético de outras: em particular, toma aporética a relação da alma intelectiva com as outras. De resto, na passagem lida, é o próprio Aristóteles a sublinhar que para o intelecto especulativo a questão é diferente. Vejamos partícularmente as três funções da alma. 3. A alma vegetativa A alma vegetativa é o princípio mais elementar da vida. Dado que os fenômenos mais elementares da vida são a geração, a nutrição e o crescimento, a alma vegetativa é princípio que governa a geração,

a nutrição e o crescimento. Assim é nitidamente superada a explicação dos processos vitais dada pelos naturalistas. Causa do crescimen to não são nem o fogo, nem o calor, nem um gênero de matéria: o fogo e o calor são, no máximo, co-causas, não a verdadeira causa. Em todo processo de nutrição e de crescimento está presente uma espé cie de regra que proporciona grandeza e aumento, que o fogo por si não pode produzir e que, portanto, seria inexplicável sem algo além do fogo, isto é, sem a alma. E assim também o fenômeno da nutrição, por conseqüência, deixa de ser explicado como mecâni co jogo de relações entre elementos semelhantes (como alguns sus tentavam), ou entre certos elementos contrários: a nutrição é a assi milação do dessemelhante, sempre tomada possível pela alma me diante o calor: Porque existem três fatores — o que é nutrido, o de que se nutre e o que nutre —, o que nutre é a alma, o que é nutrido é o corpo que a possui, o de que este é nutrido é a nutriçã& Enfim, a alma vegetativa preside à reprodução, que é o escopo de toda forma de vida finita no tempo. De fato, toda forma de vida, mesmo a mais elementar, é feita para a eternidade e não para a morte. Escreve Aristóteles: A operação que para os seres vivos é a mais natural de todas (para os seres vivos que são perfeitamente desenvolvidos, não têm defeitos e não têm uma geração espontânea) é a de produzir um outro ser igual a si: um animal, outro animal, uma planta, outra planta, com a finalidade de participar, quanto possível, do eterno e do divino: de fato, é ao que todos aspiram e é o fim pelo qual cumprem tudo o que cumprem por natureza [ Dado, portanto, que os seres vivos não podem participar do eterno e do divino continuamente, pelo fato de nenhum dos seres corruptíveis poder permanecer idêntico e numeri camente uno, então, cada um participa dele na medida em que é possível participar, uns mais e outros menos, e permanece, não ele, mas um outro semelhante a ele, uno, não numericamente, mas pela espécie Mesmo o mais modesto dos vegetais, reproduzindo-se busca o eterno, e a alma vegetativa é princípio que, no mais baixo nível, torna possível esse perpetuar-se eternamente. 12. Da alma, B 4, 416 b 20-23. 13. Da alma, B 4, 415 a 26-b 7. lO. Da alma, B 3, 414 b 20-415 a 12. 11. Ross, Aristotele, p. 198. 392 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SARER FILOSÓFICO

A PSICOLOGIA 393 4. A alma sensitiva Os animais, além das funções examinadas no parágrafo prece dente, possuem sensações, apetites e movimento. Será preciso admitir um princípio ulterior que presida a estas funções, e este é, justamente, a alma sensitiva. Comecemos pela primeira função da alma sensitiva, isto é, pela sensação, que, em certo sentido, entre as tês acima distinguidas, é a mais importante e, certamente, a mais característica. Alguns predecessores explicaram a sensação como uma afecção ou paixão, ou alteração que o semelhante sofre por obra do semelhan te (ver, por exemplo, Empédocles e Demócrito), outros como uma ação que o semelhante sofre por obra do dessemelhante. Aristóteles parte dessas tentativas, mas vai muito além. A chave para interpretar a sensação é buscada mais uma vez na doutrina metafísica da potên cia e do ato. Temos faculdades sensitivas que não estão em ato, mas em potência, isto é, capazes de receber sensações. Estas são como o combustível, que não queima senão em contato com o comburente. Assim a faculdade sensitiva, de simples capacidade de sentir, torna-se sentir em ato ao contato com o objeto sensível: Todas as coisas padecem e são movidas por um agente que é em ato. Por isso, de um lado, é possível que padeçam por obra do semelhante e, por outro, é possível que padeçam também por obra do dessemelhante, como se disse: de fato, padece o dessemelhante, mas, depois de ter padecido, é seme lhante’ A faculdade sensitiva é, em potência, o que o sensível já é em ato, como se disse. Aquela, portanto, padece enquanto não é semelhante, mas, tendo padecido, torna-se semelhante e é como ele’ É, portanto, exata a exegese proposta por Ross: “A sensação não é uma alteração do tipo de uma simples substituição de um estado pelo seu oposto, mas do tipo de uma realização de potência, de um avanço de algo ‘em direção de si mesmo e da atualidade” Mas — perguntar-se-á — que significa ser a sensação um fazer-se semelhante ao sensível? Não se trata, evidentemente, de um processo de assimilação do tipo do que acontece com a nutrição; na assimilação da nutrição, com efeito, é assimilada também a matéria. Ao invés, na sen sação é assimilada somente a forma. Escreve expressamente Aristóteles:

Em geral, para cada sensação, é preciso ter presente que o sentido é o que tem capacidade de receber as formas sensíveis sem a matéria, como a cera recebe a marca do anel sem o ferro ou o ouro, portanto, recebe a marca do ouro ou do ferro, mas não enquanto ouro ou ferro. De modo semelhante, o sentido padece por obra de algum ente que tem calor ou sabor, ou som, mas não enquanto cada um destes entes é dito tal coisa particular, mas enquanto ele tem determinada qualidade, e em virtude da forma’ O Estaginta passa, em seguida, em exame os cinco sentidos e os sensíveis que são próprios a cada um desses sentidos. Quando um sentido capta o sensível próprio, a relativa sensação é infalível. Além dos sensíveis próprios, existem também os sensíveis comuns, como, por exemplo, movimento, quietude, figura, grandeza, os quais não são percebidos por nenhum dos cinco sentidos em particular, mas podem ser percebidos por todos: Na verdade não pode haver um órgão sensorial próprio dos sentidos comuns, dos quais temos percepção mediante cada um dos sentidos por aci dente: refiro-me ao movimento, à quietude, à figura, à grandeza, ao número e à unidade. Todas essas coisas nós as apreendemos do seguinte modo: a grandeza, mediante o movimento (e, por conseqüência, também a figura, pois, de fato, a figura é uma grandeza), o que está parado, mediante a falta de movimento, o número mediante a negação de continuidade e mediante os sensíveis próprios (de fato, todo sentido percebe um único sensível), de modo que é evidente que não pode haver um sentido próprio para qualquer uma dessas coisas [ Tendo presentes essas particularizações, pode-se falar de um “sen tido comum” (e Aristóteles, com efeito, fala), que é como um sentido nãoespecífico ou, melhor ainda, é o sentido que age de maneira não-específica. Em primeiro lugar, justamente na passagem lida, vê-se 14. Da alma, B 5, 417 a 17-20. 15. Da alma, B 5, 418 a 3-6. 16. Ross, Aristotele, p. 202; cf. Da alma, B 5, 417 b 6 ss. 17. Da alma, B 12, 424 a 17-24. (Para um aprofundamento deste ponto cf. Trendelenburg, Aristote/es De Anima, pp. 337ss.). I8. Da alma, r 1, 425 a 14-20. 394 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A PSICOLOGIA 395

bem que a sensação capta de modo específico os sensíveis comuns. Ademais, pode-se, indubitavelmente, falar de sentido comum a pro pósito do sentido de sentir ou da percepção do sentir, ou ainda quan do distinguimos ou comparamos os sensíveis uns com os outros. Com base nessas distinções, Aristóteles estabelece que os sentidos são infalíveis quando colhem os objetos que lhes são próprios, mas o são só nesse caso. Eis a passagem célebre que formula essa doutrina: A percepção dos sensíveis próprios é verdadeira, ou comporta um erro mínimo. Em segundo lugar, vem a percepção do objeto ao qual são inerentes essas qualidades sensíveis: nesse caso já é possível enganar-se. De fato, não nos enganamos sobre o fato de que o sensível seja branco, mas em determinar se o branco é esta ou aquela coisa. Em terceiro lugar, vem a percepção dos sensíveis comuns [ por exemplo, o movimento e a grandeza; é sobretudo sobre estes que o sentido pode enganar-s& Da sensação derivam a fantasia, que é produção de imagens, e a memória, que é conservação das mesmas (e do acúmulo de fatos mnemônicos deriva ulteriormente a experiência). As outras duas funções da alma sensitiva mencionadas no início do parágrafo são o apetite e o movimento. O apetite nasce em con seqüencia da sensação: As plantas têm só a faculdade nutritiva, outros seres, ao invés, além desta, também a sensitiva. Mas se têm a sensitiva, têm também a apetitiva; de fato, o apetite é desejo, ardor e vontade, e todos os animais têm pelo menos um sentido, ou seja, o tato; mas quem tem sensação, sente prazer e dor, o aprazível e o doloroso, e quem os experimenta tem também desejo: efetivamente, o desejo é apetite do aprazível O movimento dos seres vivos, enfim, deriva do desejo: “O motor é único: a faculdade apetitiva” e, precisamente, o desejo, que é “uma espécie de apetite” E o desejo é posto em movimento pelo objeto desejado, que o animal capta mediante sensações ou do qual, em todo caso, tem representação sensível. Apetite e movimento de pendem, pois, estritamente da sensação. 5. A alma racional Assim como a sensibilidade não é redutível à simples vida vege tativa e ao princípio da nutrição, mas contém um mais, que não se pode explicar se não se introduz o princípio ulterior da alma sensitiva, o pensamento e as operações a ele ligadas, como a escolha racional, são irredutíveis à vida sensitiva e à sensibilidade, mas contêm um mais, que não se explica senão pela introdução de um princípio ulte rior: a alma racional. Dessa devemos agora falar.

O ato intelectivo é análogo ao ato perceptivo, enquanto recepção ou assimilação das formas inteligíveis, como o ato perceptivo era um assimilar a forma sensível. Mas o ato intelectivo é profundamente diverso do perceptivo, porque não é misturado ao corpo e ao corpóreo. E eis como Anstóteles caracteriza o intelecto, numa das mais eleva das páginas que saíram da sua pena, na qual a antiga intuição de Anaxágoras toma forma definitiva graças às categorias adquiridas com a “segunda navegação”, e é, conseqüentemente, firmada como conquista irreversível: Sobre a parte da alma, com a qual ela conhece e pensa — seja essa algo separado ou não separável espacialmente, mas só idealmente — é preciso ver as características que ela possui, e como se produz o pensar. Ora, se o pensar é como o sentir, deve ser um padecer algo da parte do pensado, ou alguma outra coisa do gênero. Mas então, a rigor, ele não deve padecer nada, mas apenas acolher a forma, e tomar-se em potência semelhante à coisa, mas não de fato a própria coisa: em suma, a relação do pensar ao pensado deve ser semelhante à do senciente ao sentido. E preciso, por conseqüência, que o intelecto, enquanto pensa tudo, seja privado de qualquer mistura, exatamente como Anaxágoras diz que deve ser, a fim de que possa ‘dominar’, o que significa: a fim de que possa conhecer. Qualquer coisa estranha que se apre sentasse no meio, oporia, de fato, uma espécie de obstáculo e um impedimen to: portanto, o intelecto não pode ter nenhuma natureza, exceto, justamente, esta, de ser potencialidade. Portanto, aquilo que na alma chamamos Naus (e entendo, com este nome, aquilo com que a alma pensa e opina) não é, em ato, nenhuma das realidades existentes, antes do seu efetivo pensar. E por isso não á razoável que ele seja misturado ao corpo: porque logo adquiriria certa qualidade, e seria frio ou quente, ou seria um instrumento de uma certa espécie, como é o órgão do sentido. Ora, ao contrário, não é nada disso. E têm razão aqueles que dizem que a alma é o lugar das formas ideais: salvo que isso não pode ser dito de toda a alma, mas só da alma pensante, e que 19. Da alma, r 3, 428 b 18-25. 20. Da alma, B 3, 414 a 32-b 6. 21. Da alma, 17 lO, 433 a 21. 22. Da alma, 17 lO, 433 a 25-26. 396 ARISTÓTFLES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A PSICOLOGIA 397 as formas ideais aí não existem em ato, mas só em potência. E é claro que a imunidade a padecer ações não é igual no caso da faculdade inteligente e da

antes. e intacto pela sua essência: de fato. é o que é. entre intelecto possível e intelecto ativo. Caem. e a este. que permitisse ao intelecto “ver” o inteligível. suprafísica e espiritual. acontece. Ora. por sua vez. o sentido não pode sentir: assim. para usar a terminologia que se tornará técnica (mas que não está em Aristóteles senão potencialmente). enquanto a inteligência existe por si. pois. Assim o intelecto pode pensar por si próprio Também o conhecimento intelectivo. só ele. como faz. e. um intelecto agente. é explicado por Aristóteles em função das categorias metafísicas de potência e ato. Se. por sua vez. ele reflete as características do divino e. em certo sentido. ser visto em ato. seja na Idade Média. a velhice não é devida a uma afecção que a . pelo menos. Portanto. por si.puX por toda a vida do homem. A outra afirmação é que esse intelecto ativo está “na alma”. no que é percebido sensíveiniente. Da alma. enquanto se torna todas as coisas. Leia mos a página que contém essa distinção. de modo que o pensamento se atualize captando em ato a forma. entre intelecto potencial e intelecto atual. para explicar a mais ele vada das faculdades humanas. assim as formas inteligíveis contidas nas imagens sensíveis permaneceriam nelas em estado po tencial. embora não no mesmo sentido em que o era antes de ter aprendido e descoberto. 25. e a forma contida na imagem torne-se conceito em ato. Desse modo surgiu aquela distinção que se tomou fonte de inu meráveis problemas e discussões. por exemplo. também a luz. a comparação com a luz: como as cores não seriam visíveis e a vista não as poderia ver se não existisse a luz. 429 a I0-b 10. a arte com a matéria. 430 a 10-23. a sua absoluta impassibilidade: 24. e é transcendente ao sensível. Significa que em nós há uma dimensão metaempírica. se se corrompesse. se não existisse uma espécie de luz inteligível. é necessário que também na alma existam essas diferenciações. E isso é o divino em nós. enquanto produz todas. 1’ 5. Mas quando o intelecto pensa um pensamento que está no mais alto grau da pensabilidade. de fato. justamente porque tal faculdade é irredutível a qual quer coisa ulterior e representa um limite insuperável. entre outras coisas. pois. os sons demasiado fortes não são distintos. Aristóteles não podia dispor senão de uma analogia. 23. 26. note-se. E há. Da alma. A geração dos animais. sobretudo. Mas se o intelecto agente não é Deus. em potência. assim como o perceptivo. seja na Antigüidade.senciente. capacidade e potência de conhecer as puras formas. quando transforma a sua capacidade em ato (e isso acontece quando esse seu atuar-se só depende dele). o agente é sempre superior ao paciente e o princípio é superior à matéria [ Separado [ da matéria]. mas é igualmente verdade que. através dele. se considerarmos os órgãos do sentido e a própria sensação. um Intelecto divino separado). Em primeiro lugar. pois ela permanecerá por séculos como um constante ponto de referência: E porque em toda a natureza há algo que é matéria e é próprio de cada gênero de coisas (e isso é o que todas as coisas são em potência). tal como acontece com o que é chamado sábio. também aí ela é. e só ele é imortal e eterno [ Duas afirmações devem ser postas em relevo. é preciso algo que traduza em ato essa dupla potencialidade. um intelecto potencial. e algo que é causa eficiente. tem mais. as interpretações sustentadas pelos antigos. segundo as quais o intelecto agente é Deus (ou. E é verdade que Aristóteles afirma que “o intelecto vem de fora e só ele é divino” enquanto as faculdades inferiores da alma já estão em potência no germe masculino e. o qual. jus tainente. enquanto produz todas. o mesmo que com os órgãos sensoriais: se um velho recebesse um olho adequado. e o mesmo vale para as cores demasiado luminosas. que é como um estado semelhante à luz: de fato. 398 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Mas o intelecto parece que é em nós como uma realidade substancial que não se corrompe. veria da mesma maneira que um jovem. A inteligência é. A afirmação de que o intelecto vem de fora significa que ele é irredutível ao corpo por sua intrínseca natu reza. 430 a 13. a inteligência torna-se todas as coisas. não por isso ele tem menos capacidade de pensar as coisas menores. as formas são contidas em potência nas sensações e nas imagens da fantasia. cores em ato. captá-las em ato. 736 b 27-28. deveria corromper-se pelo enfraquecimento da velhice. e para os odores muito violentos. De fato. passam para o novo organismo que se forma no seio materno. Trata-se de uma imagem. Da alma. torna as cores em potência. captado e possuído. Pois o órgão do sentido não existe sem o corpo. a perceptibilidade é muito intensa. E esse intelecto é separado. desse modo. impassível e não-misturado. E quando. 1’ 4. de certo modo. ao contrário. essa imagem é a mesma com a qual Platão representou a suprema Idéia do Bem: mas. ele permanece na alma (êv ri . ou. 1’ 5. tem características estnituralmente inconciliáveis com as do intelecto agen te. e. B 3. mesmo vindo “de fora”. e o intelecto potencial não poderia. como vimos anteriormente.

Essa con tribuição merece ser recordada de maneira precisa. também Assim. tendo adquirido o conceito do espírito que está em nós. em potência subsis tem nas coisas como sua propriedade Expliquemos melhor. Todavia. não pôde resolver as numerosas aporias que se lhe seguiam. As coisas sensíveis têm múltiplas proprie dades e determinações. Cf. 2. os números e os entes matemático-geométricos. que. separada do resto: basta. Ele nutria por elas interesses muito inferiores aos de Platão. Eles subsistem poten cialmente nas coisas sensíveis e a nossa razão separa-os mediante a abstração. A atividade do pensar e do especular enfraquece quando uma outra parte no interior do corpo se desgasta. portanto. Aos problemas escatológicos. só podemos considerar as coisas sensíveis enquanto têm a característica de estar em . Aristóteles dedicou a sua atenção nas obras juvenis. não recorda e não ama: com efeito. junto com essa. A MATEMÁTICA Às ciências matemáticas Aristóteles não dedicou especial aten ção. de qualquer modo. tam bém nesse âmbito. mas do sujeito que possui o intelecto. mantendo firme a convicção de que são realidades inteligíveis distintas das sensíveis. Eles são entes de razão. algo irreal. Da alma. Que são. que. a não ter estrutu ralmente resposta: para serem tematizadas e. o estatuto ontológico dos objetos dos quais se ocupam as ciências matemáticas. e sobre o portal da Academia mandara escre ver: “Não entre quem não for geômetra”. nem. também aqueles problemas. muito menos. para serem adequadamente resolvidas. 1078 a 25ss. A 4. mas do composto que pereceu e o intelecto é. Ulteriormente podemos considerar as coisas só corno compri mento e. só subsistem como “separados” na e pela mente). isto é. e. o Estagirita. como vimos. 400 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SAHER FILOSÓFICO A MATEMÁTICA 401 como realidade em si e por si. . mas nem por isso é necessário que exista o movimento 27. E depois. 1. ele deixou de lado o componente místico-religioso (que nos escritos juvenis em prestara de Platão). imanentizando os objetos matemáticos nas coisas sensíveis. com efeito. M 2. por exemplo. é estranho não só a Aristóteles. o amar e o odiar não são afecções do intelecto. das matemáticas. tendo. depois. 408 b 18-29. Metafísica. M 3. e. exigiriam a aquisição do conceito de criação. como sabemos. só subsistem na nossa mente. se não são entes inteligíveis dotados de subsistência própria? Eis a solução aristotélica: os objetos matemáticos não são nem entidades reais. mas ao sujeito no qual a alma se encontra. mas ela é por si impassível ( O raciocinar. e podemos considerar as coisas sensíveis somente enquanto corpos de três dimensões. Podemos considerar todas essas propriedades. a nossa faculdade de abstrair e a capacidade que a nossa mente tem de considerar aquelas características das coisas sensíveis prescindin do de todas as outras. prescindindo de todo o resto. avançando no processo de abstração. soube dar a sua contribuição peculiar e relevante ao determinar. também aqui. sobretudo. justamente. fez quase uma via de acesso obrigatória à metafísica das Idéias. em virtude da nossa capacidade de abstração (ou seja. Tra ta-se. Por isso. Aristóteles não pôde resolver as numerosas aporias que aquela conquista comportava. absolutamente inaceitáveis. ao invés. IV. mas podemos dirigir a mente só a algumas delas prescindin do das outras. pela primeira vez de modo correto. Metafísica. de problemas que a razão sozinha não sabe resolver e aos quais só uma fé religiosa pode responder plenamente. Cf. o qual. seguindo esse procedimento. como unidade indivisível. julgando-as ab surdas e. considerar as coisas só se gundo duas dimensões. em ato. então. podemos ain da. prescindindo de todo o resto. Arístóteles refuta essas duas concepções. e estariam destinadas. Platão e muitos platônicos entenderam os números e os objetos matemáticos em geral como entidades ideais separadas das entidades sensíveis. recordar e amar não são próprios do intelecto. Esse intelecto é individual? Como pode “vir de fora”? E que relação tem com a nossa individualidade e com o nosso eu? E que relação tem com o nosso comportamento moral? Está completamente subtraído a qualquer destino escatológico? E que sentido tem a sua sobrevivência ao corpo? Algumas dessas interrogações não foram sequer levantadas por Aristóteles. mas a toda a grecidade. como se passa nos estados de embriaguez e nas enfermidades. Outros platônicos buscaram mitigar essa árdua concepção. certamen te. Nas obras esotéricas. uma vez que esse sujeito tenha perecido. uma vez conquistado o conceito de Deus com as características que vimos. algo mais divino e impassível Do mesmo modo que na Metafisica.novimento. Analogamente. como superfície.alma padece. passim. justamente enquanto possui o intelecto. podemos prescindir também do movimento.

existirão também características peculiares às coisas consideradas s: somente quanto ao comprimento e à superfície [ O raciocínio feito acima valerá também para a harmonia e para a ótica: de fato. em geral. com as características das quais falam os matemáticos. em geral e com verdade. L A ÉTICA 1.. mas consideram-no enquanto linhas e enquanto nameros: estas. Ética Nicomaquéia. com efeito. portanto. não o branco. nem serão tampouco ciências de outros objetos separados dos sensíveis. só como pontos. como vimos. Relações entre ética e política Na sistematização aristotélica do saber. nem uma nem a outra consideram o próprio objeto como vista e como som. Estas são hierarquicamente inferiores às primeiras. assim dever-se-á dizer também para a geometria: embora os objetos dos quais ela trata tenham as características dos seres sensíveis. Em seguida subdivide a “política” (ou “filosofia das coisas humanas”).porém. existem como afecções das coisas. enquanto cada um desses atributos é inerente a elas: existem. se este é sadio e se a ciência em questão tem por objeto o sadio). em certo sentido. e desenvol ver o aspecto eidético da ontologia platônica. portanto. em ética e em política propria mente dita (teoria do Estado). quer como cidadãos. alguns acadêmicos. igualmente se estende a felicidade [ Aristóteles. dado que se pode dizer em geral e com verdade que não só as coisas separadas existem. 1077 b 3Iss. Aristóteles chama. passim. TERCEIRA SEÇÃO AS CIÊNCIAS PRÁTICAS: ÉTICA E POLÍTICA [ t TOG ÚEoO èv çlaxaptóTflTt Stapé pOUO C &V !1] X TC)V vOpC &i ‘1 TWITt OUyyEVECT EaU E. no qual arriscou-se a cair o último Platão. depois das ciências teoréticas.. a qual. podemos considerar as coisas também como unidades puras. Nessa subordinação da ética à política. como unidades numéricas. Portanto. também que os objetos matemáticos existem. também entre em felicidade. Mas tal como os consideram os geômetras e os matemáticos. respectivamente. os objetos da geometria e da aritmética têm o seu fundamento nas características das coisas sensíveis. mas subordinado e. e o homem.] “ a atividade de Deus. como veremos.. posição no espaço. 1178 b 2lss. sobretudo da sociedade política. enquanto nelas o saber não é mais fim para si mesmo em sentido absoluto. isto é. dissolvendo nele grande parte das conquistas da “segun da navegação” 3. K 8. Muitos atributos competem por si às coisas. servo da atividade prática. Estas ciências práticas. embora não existam uma fêmea ou um macho separados dos animais.. Enfim. dava forma paradigmática à concepção tipicamente helênica. assim poder-se-á dizer. ela não os considera enquanto sensíveis. em geral e com verdade. em segundo lugar aparecem. ou enquanto macho. justamen te. Eis o texto mais significativo a respeito disso: Portanto. E foi essa mesma interpretação que lhe permitiu captar perfeitamente o erro de fundo do pan-matematismo no qual caíram. Assim as ciências mate máticas não serão ciências de coisas sensíveis. M 3.. incidiu clara e determi nantemente a doutrina platônica que amplamente ilustramos. é a atividade as atividades humanas. que entendia o homem . que excede contemplativa. por exemplo. como sabemos. 4.] p’ oov 8 8taTE T 13Ewp cx il Eú6a1. as ciências práticas. como vimos. se a ciência em questão tem por objeto o sadio. e. A’tetaffsica. se a ciência em questão tem por objeto o homem). características peculiares aos animais enquanto fêmea. a mais congênere a esta será a que for mais capaz de tornar felizes E. de fato. tanto quanto se estende a contemplação. pode-se dizer que o móvel existe). quer como indivíduos. seja enquanto fazendo parte de uma sociedade. são propriedades peculiares daquelas. seja enquanto individuos. mas dizem respeito ao objeto que é peculiar a cada uma delas (por exemplo o sadio. ou seja. só existem por via de abstração. como entidades indivisíveis e sem posição espacial. dizem respeito à conduta dos homens. Sobre as críticas que Aristóteles move aos acadêmicos ver sobretudo os livros M e N da Metafísica. Por conseqüência. que também as outras ciências dizem respeito não ao que é acidente dos seus objetos (por exemplo. mas que também as coisas não-separadas existem (por exemplo. “polí tica” (mas também “filosofia das coisas humanas” a ciência complexiva da atividade moral dos homens.l E. ou seja. E como pode-se dizer.]: portanto. bem como ao fim que através dessa conduta eles querem alcançar.. A mesma coisa diga-se da mecânica Foi exatamente essa interpretação dos objetos matemáticos como abstrações da mente que permitiu a Aristóteles permanecer imune ao matematismo.

sendo impen sável um processo que leve de fim em fim e de bem em bem ao infinito (tal processo destruiria até mesmo os próprios conceitos de bem e de fim. O bem supremo do homem: a felicidade Nas suas várias ações. à política compete a função arquitetônica. este não pode ser o fim último que buscamos. A 3. consideramos que o bem é algo individual mente inalienável’ Ademais. a maioria está praticamente de acordo: felicidade o chamam. idêntico é o bem para o indivíduo e para a cidade. no início. portanto. não é levado por Aristóteles ao nível de consciência crítica. 3. o horizonte que encerrava os valores do homem. que se configuram como bens. não tem nem sequer essa aparente plausibilidade: . A multidão dos homens considera que a felicidade consiste no prazer e no gozo.. Mas que é a felicidade? Vejamos mais de perto este ponto. Ética Nicomaquéia. há fins e bens que nós queremos em vista de ulteriores fins e bens e que. parece mais importante e mais perfeito escolher e defender o bem da cidade. a relação entre indivíduo e Estado corre o risco de inverter-se. de fato. à medida que Aristóte les procede na sua Ética. Diz expressamente Aristóteles: Se. sem distinção. por exemplo. portanto. A 2. de modo que a nossa tendência seria vazia e inútil). o mesmo não se pode dizer do tipo de vida dedicado a acumular riquezas. corno algum estudioso observou. Ética Nicornaquéia. o homem tende sempre a precisos fins. a felicidade: Quanto ao seu nome. toda ação e todo projeto parecem visar a algum bem: por isso. sobretudo. no limi te. quais devem aprender cada um e até que ponto” É verdade. é certo que o bem é desejável mesmo quando diz respeito só a uma pessoa. Cf. a juízo do nosso filósofo. é claro que esse deve ser o bem e o bem supremo Qual é esse bem supremo? Arístóteles não tem dúvidas: todos os homens. os quais implicam estruturalmente um termo). são fins e bens relativos. ou seja. 1 181 b 15. os homens buscam a honra não por ela mesma. consideram que tal bem é a eudaimonia. de comando: a ela compete determinar “que ciências são necessárias na 1. que é essencial. é algo exterior: Ele. têm uma aparente plausibilidade. porém. ao invés. Os condicionamentos histórico-culturais tiveram mais peso do que as conclusões especulativas e a pólis permaneceu. devemos pensar que todos os fins e os bens aos quais tende o homem estão em função de um fim último e de um bem supremo. embora inadequados pelas razões vistas. para o Estagirita. de fato. ou seja. “e no final da obra fala como se o Estado tivesse uma simples função subsidiária com relação à vida moral do indiví duo. nota Aristóteles. o bem foi definido como aquilo a que tendem todas as coisas Ora. enquanto os outros os queremos só em vista daquele. demonstram ser mais importantes que a honra. Assim começa a Ética Nicomaquéia: Toda arte e toda pesquisa e. Contudo. teriam rompido a concepção geral da “filosofia das coisas huma nas”. porém é mais belo e mais divino quando se refere a um povo e às cidades Portanto. o qual. e não desejamos nada em vista de outra coisa particular (assim. fornecendo o elemento de compulsão para tornar os desejos dos homens submissos à razão” Todavia este fato. K O. que. fundamentalmente. com razão. 1094 b 7-lO. de fato. aqueles que se dedicam ativamente à vida política. porque. as quais. 406 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 407 Cidade. E a honra buscam. supondo que ser feliz consiste em viver bem e em ter sucessos. Mas uma vida dedicada aos prazeres toma “seme lhante aos escravos” e é uma “existência digna dos animais” As pessoas mais evoluídas e mais cultas põem o bem supremo e a felicidade na honra. 2. Precisa o Estagirita: Se há um fim das nossas ações que queremos por ele mesmo.unicamente como cidadão e punha a Cidade completamente acima da família e do homem individual: o indivíduo existia em função da Cidade e não a Cidade em função do indivíduo. Ética Nicomaquéia. Portanto. 2. do mesmo modo. a felicidade é o fim ao qual conscientemente tendem todos os homens. que em si mesmo é importantíssimo. tanto o vulgo como as pessoas cultas. e tampouco são tiradas por ele as conseqüências que. mas como prova e reconhecimento público da sua bondade e virtude. Se o tipo de vida dedicado ao prazer e o dedicado à busca das honras. parece depender mais de quem confere a honra do que de quem é honrado: nós. mas. iríamos ao infinito.

valem como meios e não como fins. A 2. Como. do citaredo virtuoso e. 1094 a 28-b 2. pois. dado que o viver é próprio de todos os seres vegetativos. ou não sem razão. mas também de todo o pensamento moral da grecidade: Se dizer que a felicidade é o sumo bem parece algo sobre o qual se está de acordo. 10. O verdadeiro bem do homem consiste nessa obra ou atividade de razão. 1095 b 1 9ss. Podendo-se. além dessas. 408 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 409 De fato. é a idéia do Bem]. e sem a qual seria vão esperar compreender toda a construção ética do nosso filósofo. pois este é comum também às plantas. ela só existe em vista do lucro e é um meio para outra coisa. na obra que ele e só ele pode realizar. porque é gasta para buscar coisas que. em geral. prazeres e honras são buscados por eles mesmos. o bem fosse uno e predicável em geral. E dessa distingue-se ainda uma parte obe diente à razão. assim como. 11. que já conhecemos bem. A 2. é preciso considerar a que tem uma real atividade: esta. Ética Nicomaquéia. mas sempre ligado por uma relação de analogia). se existe alguma obra que lhe seja própria. do citaredo virtuoso o tocá-la bem): . A 5. 1094 a 18-2. não é uma realidade única e unívoca. uma outra que a possui e raciocina. uma vida ativa própria de um ser racional. A 5. mas de um bem reali zável e atuável pelo homem e para o homem. 280. mas de um Bem imanen te. no perfeito desenvolvimento e atuação dessa atividade. qual quer artesão e. 4. 1095 a 17-20. para o flautista. pois. qualquer um que tenha um trabalho e uma atividade. o bem de cada coisa consiste na obra que é peculiar a cada coisa. mas. pois. em particular. Resta. consi derar também esta de duas maneiras. Aristorele. em suma. de cada membro. da mão. 8. porque é uma das mais esclarecedoras. como parece haver uma obra própria do olho. O bem do homem só poderá consistir na obra que lhe é peculiar. e se dissemos que esta é a obra do seu gênero e. en quanto não existe nenhuma obra própria do homem. em suma. diferente nas diversas categorias e diferente também nas diversas realidades que entram em cada uma das categorias. em particular. Será que para o arquiteto e para o sapateiro existem obras e atividades próprias. b) E não pode ser também o sentir. E a obra do homem? a) Esta não pode ser o simples viver. e. Ética Nicomaquéia. o escultor. a Idéia do Bem. 9. não de um bem definitivamente realizado. c) Resta. de fato. pois. ao boi e a todo animal. Erica Nicomaquéia. Ética Nicomaquéia. Etica Nicomaquéia. dos pés e. todavia sente-se a necessidade de dizer ainda algo mais preciso sobre a sua natureza. e que este nasceu ina tivo? Ou antes. 5. e assim por diante. dado que este é comum também aos animais. excluir a nutrição e o crescimento. Etica Nicomaquéia. a atividade da alma segundo a razão. deve-se admitir. A obra do olho é ver. p. assim poderia parecer também para o homem. se examinannos a obra ( do homem. quando consideramos a virtude que se acrescenta à ação (do citaredo é próprio tocar a citara. parece que o bem e a perfeição residam na sua obra. com efeito. ou seja. uma obra própria do homem? E qual seria essa obra? Não o viver. de fato. Seguiria a sensação. não só da mentalidade aristotélica. o transcendente Bem-em-si: Se. e é evidente que a riqueza não é o bem que buscamos. como vimos a pro pósito do conceito de ser. parece ser superior. do virtuoso. e subsistisse sepa rado [ justamente. Etica Nicomaquéia. Mas qual é o bem supremo realizável pelo homem? A resposta de Aristóteles está em perfeita harmonia com a con cepção tipicamente helênica da areté. isto é. ROSS. que a obra peculiar do homem seja a razão e a atividade da alma segundo a razão. assim como há uma obra do citaredo e. as riquezas não: a vida dedicada a acumular riquezas é a mais absurda e a mais inautêntica. A 1. em suma. mas também esta mostra-se comum ao cavalo. A 5. para Aristó teles.A vida [ dedicada ao comércio é contra a natureza. (O bem. de fato. Mas o bem supremo do homem não pode ser nem mesmo o que Platão e os platônicos indicaram como tal. 1095 b 24-26. pois. 7. 6. mais precisamente. é algo polívoco. 1094 a 1-3. no má ximo. A 4. vale dizer. E preciso. Poderemos fazer isso sem dificuldade. a obra do ouvido é ouvir. mas é justamente isso que nós buscamos’ Não se trata de um Bem transcendente. Leiamos toda a página da Ética Nicomaquéia que desenvolve esses conceitos. uma vez que se busca algo que lhe seja próprio. a “virtude” do homem e aqui deve ser buscada a felicidade. como sempre se verifica. pois. é evidente que não seria realizá vel nem adquirível pelo homem. 1096 a 5-7. Se própria do homem é. Esta é.

Quando falamos de virtude humana. os da alma e os do corpo. dizemos que os relativos à alma são os principais e mais perfeitos’ Em conclusão. muito mais do que se crê comumente. Os autênticos valores. na parte racional da alma. De fato. não poderão ser nem os exteriores (como as riquezas). nem os corporais (como os prazeres). 410 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 411 A bela página que lemos mostra de maneira exemplar. cuja na tureza conhecemos bem. em particular. como veremos. que consistem na virtude da sua alma. e menos ainda. isto é. Ética Nicoinaquéia. parece que a felicidade exige também tal bem-estar exterior’ Aristóteles está convencido de que também as desventuras com prometem a felicidade. Com efeito. a felicidade se nos arruína. se estes. diz expressamente Aristóteles. realizar as belas ações sem meios de ajuda. preci samente. talvez. da riqueza e do poder político. não podem dar a felicidade. E a esta parcial reavaliação dos bens exteriores associa-se também certa reavaliação do prazer. pode-se dizer que os verdadeiros bens do homem são os bens espirituais. ou não é fácil. ninguém poderá ser verdadeiramente feliz “se tiver a sorte de Príamo” Mas. todavia. ele não hesita em fazer afirmações como estas: Parece. o intelecto] é a parte dominante e melhor. O homem bom. pois. nem mesmo aquele Sócrates que viveu toda a sua vida buscando e atuando a virtude. Por isso. se é assim. realizado segundo o bem e o belo. parece que cada um de nós consiste exatamente nela’ E dado que este é o próprio fundamento da ética socrático-pla tônica. com a sua presença. ou sozinho na vida e sem filhos. Diz explicitamente o Estagirita: Tendo. também para Aris tóteles. mas só os da alma. acima de tudo. E isso vale também para uma vida realizada. E se somos priva dos de alguns desses meios. coroa a vida virtuosa. a única via que conduz à felicidade. A socrática “cura da alma” permanece. que parece constituir cada um de E ainda: É. 1097 b 22-1098 a 20. ou se os tem bons e os vê morrer. 1096 b 32-35. uma única andorinha ou um único dia não fazem verão. e se múltiplas são as virtudes. pois. não é de admirar que Aristóteles. De fato. pois. A 7. enquanto do homem virtuoso seja próprio isto.mente o homem. Ética Nicomaquéia. Se. 13. que. e é neles que está a felicidade. Somos a nossa razão e o nosso espírito. a substancial adesão de Aristóteles à doutrina socrático-plarônica que punha a essência do homem na alma e. segundo a melhor e a mais perfeita. Com efeito. não pode ser de todo feliz quem é totalmente feio de forma. mas a virtude da alma.se é assim. Mas estas afirmações são ditadas mais pelo bom senso (e pelo bom senso à maneira grega) que pelo realismo aristotélico. é assim. aceitando o fundamento. repartido os bens em três grupos: os assim chamados ex teriores. não entendemos de modo algum a virtude do corpo — precisa de modo inequívoco Aristóteles —. Ética Nicomaquéia. além do que observamos acima. de modo que cada um dos seus atos se cumpra bem segundo a própria virtude. então o bem próprio do homem é a atividade da al. que tocam apenas tangencial. De fato. de uma boa prole. que não dizem respeito ao eu verdadeiro do homem. assim também um único dia ou um breve tempo não proporcionam a beatitude ou a felici dade’ 12. da beleza física. diz ele.na segundo a virtude. pois. nem mesmo Sócrates poderia ser considerado feliz. sobretudo. . já que na alma consiste o verdadeiro homem. no esp frito. mas as grandes desventuras. muitas coisas são realizadas através de meios de exe cução. a parte mais elevada dela. à diferença de Sócrates e. enfim: E se esta [ alma racional e. todavia podem arruiná-la ou comprometê-la (pelo menos em parte) com a sua ausência. ou seja. de Platão. que a felicidade precisa também dos bens exteriores. nós supomos que do homem seja próprio determinado gênero de vida. [ age pela parte racional de si mesmo. intelecto e que a pessoa moralmente conveniente ama sobretudo isso E. Todavia. Evidente18. 1099 a 31-b 7. aquelas das quais não podemos nos refazer em pouco tempo. Aristóteles considera indispensável ser suficientemente dotado também de bens exteriores e de meios de fortuna. A 8. porém. na medida em que é impossível. e que esta seja constituída pela atividade da alma e das ações racionais. através dos amigos. para Aristóteles. também para o Estagirita (como acima já pusemos implicitamente em relevo). como quando care cemos de uma boa estirpe. Por isso. A 6. ou de obscura estirpe. se tem filhos e amigos celerados. acabe por concordar com Sócrates e com Platão. não as desventuras comuns. e é a necessária conseqüência da qual a virtude é o antecedente. claro que cada um é. como dissemos. e dizemos que a felicidade consiste numa atividade própria da alma.

e a esta o Estaginta chama de “virtude ética”. fazendo coisas corajosas. Também este elemento parece participar da razão [ dado que ele obedece à razão. Qual é a natureza comum a todas as virtudes éticas? O Estaginta responde com exati dão: nunca há virtude quando há excesso ou falta. mais exatamente. tornamo-nos corajosos. as virtudes éticas são aprendidas à semelhança do aprendizado das diferentes artes. As virtudes éticas Comecemos pelo exame da virtude ética. Não importa de que modo se dá essa oposição. da morte feliz de Sócrates. adquirimos o habitus da coragem. ao invés. ela contrasta com as asserções que lemos. Realizando atos de coragem. 1102 b 23-31. que bebeu a cicuta com plena serenidade de espírito. Realizando atos justos. Ética Nicomaquéia. a alma vegetativa e a alma sensitiva. A 10. a qual. 1103 a 33-b 2. concupiscível e. 21. construindo casas tornamo-nos arquitetos. isto é. por exemplo.19. Em suma. apetitiva. embora sendo por si irracional. em seguida. para Aristóteles. em geral. Etica Nicornaquéia. vegetativa. que em seguida nos levará a realizar facilmente atos cora josos. bem como numerosos são os impulsos e os sentimentos que a razão deve moderar. a experiência da vida e. permanece em nós de maneira estável como um habitus. 412 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FiLosóFIco A ÉTICA 413 mente. ainda mais dócil. 15. que se opõe e resiste a ela. a outra. De fato. As virtudes éticas derivam em nós do hábito: pela natureza. tornamo-nos justos. 1102 b 2-3. que consiste em dominar. 22. como coisa comum a todos os seres e não especificamente humana Diferente é a questão no que concerrte à alma sensitiva e concupiscível. em harmonia com a razão. Ética Nicomaquéia. porquanto esclarecedor. 14. talvez. Enfim. Cf. o que o próprio Aristóteles dirá sobre a vida contemplativa redimensiona radicalmente estas concepções do senso comum 3. e uma racional.A felicidade consiste numa atividade da alma segundo a virtude. 23. dado que são numerosas. B 1. isto é. corajosos Esse raciocínio. ou seja. nos fará realizar mais facilmente ulteriores atos de justiça. sobretudo. E assim por diante. Ética Nicornaquéia. Ética Nicomaquéia. de fato. cada uma tem uma peculiar virtude ou excelência. E se pertence a um homem moderado e corajoso. que também são hábitos: Como. mas não nos diz em que consistem as virtudes. ele é. por assim dizer. 1169 a 2-3. Todavia. pp. Ética Nicomaquéía. 17. Portanto. participa dela de certo modo. K 7. a alma intelectiva. quando há 20. das virtudes éticas. 300ss. e tocan do a citara rornamo-nos citaredos. é preciso supor que também na alma há algo contra a razão. 1 8. Ética Nicomaquéia. De resto. não é considerada por Aristóteles. a virtude raciona!. 414 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SARER FILOSÓFICO . A 8. Dedução das “virtudes” a partir das “partes da alma” . quando pertence a um homem continente. adquirimos a virtude da justiça. tudo nele está. que. enquanto é obediente e dócil à razão Fica claro que existe uma virtude dessa parte da alma específica. segundo Aristóteles. consciente de ter atuado plenamente o seu destino. então deverá haver também uma virtude peculiar dessa parte da alma. 1178 a 2-3. Ora. somos potencialmen te capazes de formá-los e. 16. Etica Nicotnaquéia. a alma vegetativa é comum a todos os viventes: A virtude de tal faculdade mostra-se. Com efeito. e esta será a “virtude dianoética”. 1 4. a virtude humana só é aquela na qual entra a atividade da razão. o qual. a parte irracional mostra-se de duas espécies: uma. vimos que a alma se divide. 4. traduzimos essa potencialidade em atualidade.mente humana. E claro que qualquer ulterior aprofundamento no conceito de “virtu de” depende de um aprofundamento no conceito de alma. A 13. participa de certo modo da razão: Entretanto. essas ten dências e impulsos que são por si desmedidos. mediante o exercício. depois. em três partes. realizando coisas moderadas tornamo-nos moderados. assim realizando coisas justas tornamo-nos justos. A 13. 1101 a 7-8. pois. E dado que cada uma dessas partes tem a sua atividade peculiar. dado que existe em nós uma alma puramente racional. não leva ainda ao centro da questão: diz-nos como adquirimos e como possuímos essas virtu des. duas irra cionais. ou seja. não participa em nada da razão. 1098 b 12-IS. 1166 a 16-17.

enquanto assinala a afirmação da razão sobre o irracional: Por isso. como bem diz Aristóteles. E há. e esse meio é estabelecido não em relação à coisa. pois. Eis as palavras do nosso filósofo: Em qualquer coisa. a justa atitude que a razão nos faz assumir diante da ação de gastar dinheiro. a virtude é uma certa mediania. mas se experimentamos aquelas paixões quando se deve. privado do controle racional. para um principiante de ginástica é muito. esta. e esta é uma só e idêntica em todas as coisas. porém. a tem perança é. e ambos não são bons. Aristóteles fornece o seguinte elenco de virtudes e vícios: [ a mansidão é a via média entre a iracúndia e a impassibilidade. 1106 b 18-28. e do mesmo modo. uma falta e um meio. Essa doutrina da virtude ética como “justo meio” entre os extre mos é ilustrada por uma ampla análise das principais virtudes éticas (ou. há um preciso aproveitamento do conceito de “justa medida”. de fato. ela é o ponto mais e/evado Há aqui como que uma síntese de toda a sabedoria grega que encontrou expressão típica nos poetas e nos sete sábios. enquanto busca o meio e prefere-o. por falta. contra quem se deve. B 6. A ÉTICA 415 para quem compreendeu bem essa doutrina de Aristóteles. dos quais um é por falta. o outro por excesso.demais ou de menos. A liberalidade é o “justo meio” entre a ava reza e a prodigalidade. pois. por exces so. a qual. e chamo posição de meio com relação a nós o que não excede nem carece. pois. mediania entre dois vícios. 25. a suprema regra do agir moral: regra que é como uma cifra paradigmática do modo de sentir helênico. Ética Nicomaquéia. daquelas que a grecidade considerava tais). melhor. Portanto. à piedade e. A virtude. isto é. a justa atitude que a razão nos faz assumir ante determinados prazeres. que a mediania não só não é mediocridade. nas quais encontra-se o erro do excesso desaprovação da falta. posição de meio de uma coisa a que dista igualmente de cada um dos extremos. ao desejo. portanto. mas a sua antítese: o “justo meio”. 1107 a 6-8. mais ainda. de fato. que tanta importância teve sobretudo no último Platão. é possível distin guir o mais. paixões e ações. que tem por escopo o justo meio Em conclusão: a virtude ética é. Assim. Por exemplo. cada pessoa que tem ciência evita o excesso e a falta. no que se deve. enquanto o meio é louvado e tem sucesso: e a mais elevado do ponto de vista do valor. não é única. A posição de meio com relação a nós não é interpretada assim: com efeito. o seis é considerado o meio com relação à coisa: este é. em descontrolada audácia. então estaremos no meio e na excelência. a justa proporção. Eu chamo. o menos e o igual. A temperança é o “justo meio” entre os excessos da intemperança ou dissolução e a insensibilidade. que é a via de meio entre dois excessos. ao invés. mas empiricamente e quase rapsodícamente elencadas.se — esclarece Aristóteles — a sentimentos. naturalmente deduzidas. Com relação ao temor. pondo o dez como quantidade excessiva e o dois como quantidade defectiva. E assim por diante. também. representando. 416 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇ&O DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 417 [ a coragem é a via média entre a temeridade e a covardia. A virtude da coragem é o “justo meio” entre os excessos da temeridade e da covardia. 8 6. 1106 a 26 7. está nitidamente acima dos extremos. o ponto . refere-se às paixões e às ações. não por isso o mestre de ginástica mandará comer seis minas. a afirmação da lição pitagórica que indicava no limite (o péras) a perfeição e. mas em relação a nós Mas — perguntar-se-á — a que se referem “excesso”. portanto. e essas duas coisas são próprias da virtude. de fato. B 6. 26. portanto. ela é. e isto ou em relação à própria coisa ou em relação a nós: o igual é uma via de meio entre o excesso e a falta. pode degenerar. para quem receber tal porção. em covardia. E óbvio. “falta” e “justo meio” do qual se fala a propósito das virtudes éticas? Referem. indicara na via média. a virtude é uma mediania. mas com relação ao bem e à perfeição. nem igual para todos. virtude implica. pois. Ética Nicomaquéia. Na Ética Eudêmica. ao gozo e à dor há um excesso e uma falta. ela pode ser muito ou mesmo pouco: para Milo Eque era um atleta excepcional]. a justa medida imposta ao sentimento de medo que. precisamente. não segundo um preciso fio condutor. a sua superação e. de fato. 24. segundo a sua essência e segundo a razão que estabelece a sua natureza. [ a verecúndia é a via média entre a impudência e a timidez. que são próprios da virtude. à ira. seja ela homogênea ou divisível. por assim dizer. o meio segundo a proporção numérica. também para as ações há um excesso. O mesmo deve-se dizer da corrida e da luta. amiú de. em geral. é pouco. ao ardor. com a finalidade e do modo como se deve. a coragem é. um “cume”. na justa medida. se comer dez minas é muito e comer duas é pouco para alguém. Ética Nicomaquéia. no nada em excesso.

no sentido de indicar os meios idôneos para alcançar os verdadeiros fins. no caso da descrição da magnanimidade. em saber deliberar sobre o que é bem ou mal para o 30. em torno do que é bem e mal para o homem” Deve-se notar. as vantagens e os ganhos (ou os seus con trários). e uma perfeição ou virtude da segunda função da alma racional Essas duas partes da alma racional são. Cf. [ a indignação é a via média entre a inveja e o excesso oposto que não tem nome. e dado que a lei do Estado (do Estado grego) cobre toda a área da vida moral. [ a anwbilidade é a via média entre a hostilidade e a adulação. Ética Nicomaquéia. a individuar e alcançar as coisas que conduzem àqueles fins. em substân cia. num piano puramente fenomenológico. E dado que duas sãos as partes ou funções da alma racional. As virtudes “dianoéticas” Acima das virtudes éticas.d. não como o são as outras virtudes. Diz exatamente Aristóteles: A obra humana cumpre-se através da sabedoria e da virtude ética: de fato. que devia ser uma espécie de ornamen to das virtudes. 3ss. é “uma disposição prática. a justiça é. pode-se dizer que. Em português. sem o con trole da razão. para uma exata compreensão da doutrina aristotélica. E. a justiça parece ser a mais importante das virtudes. Em vista de respeitar as opções do autor. logicamente. neste sentido. enquanto a típica virtude da razão teorética é a “sapiên cia” (sophia) A sabedoria consiste em saber dirigir con a vida do homem. amiúde. ela não indica nem deter mina os fins. Cf. da alma racional. o Estagirita não hesita em indicar a justiça como a mais importante (e dedica à sua análise todo um livro) Num primeiro sentido. Entre todas as virtudes éticas. Os verdadeiros fins são captados pela virtude ética que retifica o querer de modo correto. [ a liberalidade é a via média entre a prodigalidade e a avareza. 31. A tradução de ppóv por “saggezza” (sabedoria) e ao pia por “sapienza” (sapiência). uma perfeição ou virtude da primeira função. a justiça é o respeito pela lei do Es tado. [ a seriedade é a via média entre a complacência e a soberba. Ética Nicomaquéia.. 32. estão as virtudes da parte mais elevada da alma. Etica Nicomaquéia. compreensiva de todas as virtudes. uma pesada hipoteca que o gosto do tempo impõe à doutrina aristotélica 5. [ a justiça é a via média entre o ganho e a perda. ao invés. a justiça é “mediania”. [ a magnificência é a via média entre a suntuosidade e a mesquinharia Em todas essas manifestações a virtude ética é a justa medida que a razão impõe a sentimentos. 32a. uma que conhece as coisas con tingentes e variáveis. e no provérbio dizemos: na justiça estão todas as virtudes Mas o sentido mais próprio da justiça (que é aquele mais aten tamente analisado por Aristóteles) consiste na justa medida com a qual repartimos os bens. [ a veracidade é a via média entre a pretensão e o autodesprezo. nem a da manhã são tão admiráveis. que a phrónesis ou sabedoria ajuda a deliberar corretamente sobre os verda deiros fins do homem. corresponde a uma opção do autor na interpretação desses dois conceitos aristotélicos. E 1. 28. ações ou atitudes que. normal mente.. a razão prática e a razão teorética. freqüentemente. segundo Aristóteles. (Esta. Ética Nicomaquéia. enquanto a sabedoria torna retos os meios sempre ppóv por sabedoria e copia por . E. tenderiam para um ou outro excesso. Reale. a virtude torna reto o fim. Ética Eudêmica. 29. Escreve Aristóteles: E por isso. a outra que conhece as coisas necessárias e imutáveis. e nem a estrela da tarde. mas resulta. livro E. acompanhada da razão veraz. isto é. porém. Ela ajuda. antes. como. Z 1.] mas porque ela é a característica do justo meio. é usual traduzir ppóvlløLÇ por “prudência” e ao pia por “sabedoria”. de algum modo. (N. Cf. diz Aristóteles. por exemplo. E 5. as convicções morais da sociedade à qual pertencia Aristóteles impõem-se ao filósofo. traduziremos sapiência. portanto. 1129 b 27-30. chamadas virtudes dianoéticas ou virtudes da razão.) 27. A típica virtude da razão prática é a “sabedoria” (phrónesis). B 3.[ a temperança é a via média entre a intemperança e a insen sibilidade. isto é. 418 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO homem. e as respectivas virtudes serão as formas perfeitas com as quais se colhem a verdade prática e a verdade teorética. enquanto a injustiça o é dos extremos As abundantes e precisas análises sobre os vários aspectos das virtudes éticas individuais feitas por Aristóteles permanecem. em G.T. Ética Nicomaquéia. então existirão. [ a magnanimidade é a via média entre a vaidade e a estrei teza de alma. 1133 b 32-1134 a 1. passim.

e constitui também o elemento que. com base no que dissemos. Cf. todavia. Escrevia Zeller “A virtude. 36. Na atividade da con templação intelectiva. Ética Nicomaquéia. A perfeita felicidade Dado que. não enquanto homem ele viverá .É claro. é claro agora em que ela consistirá. Z 7. Etica Nicornaquéía. de modo especial. vol. unifica a todas b) Por outro lado. se é assim. Cf. é também verdade que não pode haver sabe doria sem virtude ética. é a sapiência (sophia). “é um hábito decisório que consiste no justo meio relativo a nós mesmos. parece que em tal atividade encontram-se todas as qualidades atribuídas ao homem feliz. como. Então. no fundo. tendo em si o próprio fim. La filosofia dei Greci nel suo sviluppo storico. 35. Z 13. A sabedoria permanece a con dição necessária (embora não suficiente) de cada uma e de todas as virtudes éticas. se durar por toda a vida. determi nado pela razão e pelo modo como o homem sábio a definiria” é claro que não se a pode ter sem essa razão. Escreve Aristóteles: Se E. de modo irreflexo. caso o alcançássemos sem a sabedoria. para permanecer nas mais visíveis. capacidade geral de encontrar e conseguir os meios para alcançar qualquer fim. A sabedoria é a perspicácia que se tem nas coisas morais Este duplo laço. se a virtude ética. a mais elevada. ao bem moral. parece exceder em dignidade. no que diz respeito à felicidade. portanto. não pode haver nada de incompleto. com a mais elevada delas. que as virtudes éticas e a virtude dianoética da sabedoria são duplamente ligadas entre si. a sapiência diz respeito ao que está acima do homem: o homem é o melhor dos seres vivos. Ética Nicornaquéia. com efeito. 1141 a 34-b 2. Parte II. isto é. é o que há de mais elevado em nós e a atividade do intelecto é atividade perfeita. Z 5. a felicidade é uma atividade conforme a virtude. sendo contemplativa. De fato. só o alcançaríamos pôr uma espécie de natural inclinação. de certo modo. vale dizer. a metafísica. como vimos. mas somente a específica capacidade de encontrar os justos meios que levam ao fim mais elevado do homem. Plebe. com efeito. esta será a felicidade perfeita do homem. justamente aquela que se conforma à sabedoria. não visando a nenhum outro fim fora de si mesma e tendo o próprio prazer perfeito (que engrandece a atividade). Em primeiro 38. antes. Esta é constituída.] a atividade do intelecto. seja pela captação intuitiva dos princípios através do intelecto. Do que se disse. o homem alcança o vértice das suas possibili dades e atualiza o que há de mais elevado nele. ágil. sem essa reta razão. de fato. nem b) ser sábios sem a virtude ética a) Na verdade. A ÉTICA 419 cia. ou seja.. os astros que compõem o universo. 6. sendo auto-suficiente. porque. 34. como vimos no início. acaba por incorrer num círculo. 40. diz Aristóteles: Existem outras coisas muito mais divinas que o homem por natureza. 6. 1144 a 6-9. consiste em manter o justo meio. 39. é evidente. enquanto aquela diz respeito ao homem e. p. 37. 72. 1144 b 3 1-33. Z 13. Etica Nicornaquéia. que se só a sabedoria nos indica os fins para alcançar o bem. portanto. A sapiência é uma virtude mais elevada que a sabedoria. Com efeito. De resto. Etica Nicomaquéia. como se disse. tão ininterrupta quanto possível ao homem. ZeIler-Mondolfo. mas esta não poderia ser autêntica virtude. A outra virtude dianoética. ou melhor. e essa reta razão só é a do sábio. Ética Nicomaquéia. por outro lado. diz Aristóteles: a) Não é possível ser virtuosos sem a sabedoria. ao que há de mutável no homem. na atividade do intelecto conforme à sua virtude: o intelecto. B 6.. Mas tal vida será superior à natureza do homem. organizado por A. a perspicácia só merece o nome de sabedoria quando se dedica a realizar fins éticos” E uma aporia que deriva de outras aporias das quais falaremos no final. 1006 b 36-1007 a 2. Z 12. enquanto tende a conhecer por ela mesma. 1 420 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO lugar. é claro que a sapiência é ao mesmo tempo ciência e inte ligência das coisas mais excelsas por natureza Noutros termos: a sapiência coincide com as ciências teoréticas e. e este só pode ser determinado pela sabedoria. a sabedoria não é simples perspicá 33. a tarefa da sabedoria não consiste só na busca do meio para alcançar fins éticos: sem ela não é possível nem sequer determinar exatamente aqueles fins e. 1140 b 4-6. auto-suficiente. como há tempo os estudiosos observaram. seja pelo conhecimento discursivo das conseqüências que derivam daqueles princípios. Z 12. Etica Nicomaquéia.

contemplar o próprio Deus. para os deuses. é preciso fazer-se imortal e fazer tudo para viver segundo a parte mais elevada dentre as que estão em nós. de outro: a primeira existe em vista da segunda). pois. de um lado. tem valor por si mesma. Assim se passa com relação à faculdade contemplativa: Deus. dado que o homem é por natureza composto de uma parte governante e de uma parte governada. quanto possível. toda a vida é 41. a tematização da tangência da vida contemplativa com a vida de Deus. o é em duplo sentido: de fato. portanto. mas pela especulação: esta. Ii 422 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SAI3ER FILOSÓFICO 7. 43. para além do humano. com efeito. e que Platão teorizara. de fato. porém. pois. adquire um significado mais preciso: assimilar-se a Deus significa contemplar o verdadeiro tal como Deus o contempla. a que é mais congênere a esta será a mais capaz de tomar feliz. relativamente à natureza do homem. é preciso viver em conformidade com o princípio regulador e conformando-se à disposição e à atividade do princípio regulador. “assimilar-se a Deus”. Prova disso é também o fato de os outros seres vivos não participarem da felicidade. que excede em beatitude. mas enquanto nele há algo divino. aos problemas centrais da ética Em segundo lugar. ou de outras coisas). estruturalmente ligada à virtude e à felicidade. e a saúde. mas nenhum dos outros seres vivos é feliz. esta é pequena em extensão. o preceito platônico de que o homem deve. que Sócrates já começara a explicitar do ponto de vista conceitual. como tais. Assim. Por isso a escolha e a posse de bens naturais que será maximamente conferida pela contemplação de Deus (sejam estes bens corporais. o intelecto é algo divino. como vimos. todavia excede de muito a todas as outras em poder e valor Em segundo lugar. antes. ao invés. se. a felicidade da vida contemplativa leva. que é a suprema racionalidade: Portanto. A medida que um homem busque no outro o útil. sobretudo. que faltava em Platão. a quem faltava. por assim dizer. por falta ou por excesso. a problemática da amizade. não é um governante imperativo. ater-se às coisas humanas e. será má. e na mesma medida em que este excede a estrutura composta do homem. a felicidade é uma espécie de especulação Esta é a mais perfeita formulação do ideal que os antigos filó sofos da natureza buscaram realizar na sua vida. Ética Nicornaquéia. A ÉTICA 421 beata. impede servir e contemplar a Deus. Portanto. Portanto. Se. 1249 b 6-23. também a vida conforme com ele será divina relativamente à vida humana. ou de riqueza. qualquer coisa que. 1178 b 21-32. será a melhor. o conceito de Deus como Mente absoluta e Pensamento de pensamento. às coisas mortais. Ao invés. K 8. também entre as atividades humanas. o . isto é. a estrutura da sociedade grega dava à amizade uma importância decididamente superior à que dão as modernas sociedades. o melhor critério de referência. ou. uma tangência com a divindade. o aprazível e o bom. diferentemente go vernam a ciência médica. já fora debatida a fundo e conquistara uma notável con sistência filosófica. vem a vida segundo as virtudes éticas. Em primeiro lugar. Com efeito. K 7. tanto quanto se estende a especulação. de algum modo. A amizade e a felicidade Aristóteles dedicou dois livros da Ética Nicomaquéia ao tema da amizade. não se deve seguir os que aconselham a. de modo que também desse ponto de vista expli ca-se a particular atenção que lhe dedica o Estagirita. Ética Nícotnaquéia. como explicita a Ética Eudêmica. o de sentir o menos possível a parte irracional da alma enquanto tal 42. Q 3. assim como o escravo deve viver conformando-se ao princípio do senhor. excede também a sua atividade sobre aquela segundo as outras virtudes. e este é. Assim. sendo mortais. Mas. Em terceiro lugar. como vimos. aqui. Escreve Aristóteles: De modo que a atividade do deus. e naqueles em que se encontra mais especu lação. por serem com pletamente privados dessa atividade. será con templativa. 1177 b 19d a 2. elas dizem respeito à estrutura composta do homem e. Isso se explica por diversas razões fundamentais. Três são as coisas que o homem ama e pelas quais estabelece amizades: o útil. para Aristóteles. a amizade é. e este é o melhor critério regulador da alma. igual mente se estende a felicidade. como nas outras coisas. de fato. O homem possui tal faculdade na alma.de tal modo. Mas em Aristóteles há. ou de amigos. e cada um de nós ao princípio que lhe é próprio. por Platão. enquanto é possível. há também maior felicid4de: e isso não acontece por acaso. sendo homens. cuja vida só pode ser contemplativa. só podem dar uma felicidade humana. cada um de nós deverá viver conformemente à parte governante (esta. por Sócrates e. Ao contrário. ademais. mas é fim em vista do qual a sabedoria ordena [ porque Deus não tem necessidade de nada. realiza. porque não participa em nada da especulação. Portanto. Etica Eudétnica. e para os homens o é enquanto há neles uma atividade semelhante àquela.

E isso acontece sobretudo na amizade dos bons Aristóteles não hesita em afirmar expressamente que a amizade pelos outros nasce “do sentido de amizade para consigo mesmo” e que “cada um quer bem a si próprio” Ademais. E a virtude é. como três são as espécies de qualidades suscetíveis de amizade: e a cada uma delas corresponde uma amizade recíproca e não ignorada pelos que a experimentam. livros Q e 1. não se amam por si mesmos. Na verdade não é assim: de fato. de modo que a verdadeira forma de amizade é. estes amam as pessoas. Estes. e são bons em si 423 mesmos. porque. mas enquanto ela é útil ou aprazível.aprazível ou o bom. quan do se toma amiga. mas pelo que tem. amando o amigo. mas enquanto lhes deriva reciprocamente algum bem. a amizade é entendida como uma relação de dar e receber que. 424 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 425 dos dois. A ÉTICA 44. aquilo em que e através do que o homem atua plenamente a sua natureza e o seu valor de homem. é a característica de fundo do sistema ético do Estagirita. sob o aspecto pre ciso pelo qual se amam. Portanto. embora no nível espiritual. para o egocentrismo que. ama-se o próprio bem. é clara a razão pela qual Aristóteles liga a amizade à virtude: a verdadeira forma de amizade é o laço que o homem virtuoso estabelece com o homem virtuoso por causa da própria vir tude. Assim. se são três os valores que se buscam. de fato. para falar em termos modernos. de fato. toma-se um bem para aquele de quem é amiga. tais amizades s facilmente desfeitas. três deverão ser também as formas de amizade: Três. são as espécies de amizade. e há. ama o próprio bem e oferece em troca o equivalente na boa vontade e no prazer: de fato. Ética Nicomaquéia. não o é em si mesmo. os que amam por causa do útil. Assim sendo. portanto. mas enquanto oferece um bem ou um prazer. E os que se amam reciprocamente querem-se reciprocamente o bem. estes são tais em si mesmos e não acidentalmente). por conseqüência. Q 3. prazer) que oferece. Etica Nicomaquéia. De fato. Normalmente chama-se egoísta a quem ama a parte inferior de si e quer ter para si o máximo possível de riquezas e prazeres. ou seja. 1166 a 12-13. o laço que une os homens segundo o próprio valor do homem. existem. uma vez que as pessoas não permanecem sempre iguais: se. Assim. ele afirma claramente que também na amizade segundo a virtude o amigo busca no amigo o próprio bem. não porque elas tenham determinadas quali dades. pela sua bondade intrínseca de homem. Portanto. 45. Com efeito. formas extrínsecas e ilusórías de amizade. nascem diferentes tipos de amizade. em larga medida. portanto. não por aquilo que ele é. o que é amado. mas porque são agradáveis. querem-se bem reciprocamente enquanto são bons. Por isso tais amizades são acidentais. ao contrário. dois modos diferentes de amar a si próprio: há o modo inferior de amar a parte mais baixa de si e de querer para si o máximo possível de riquezas e prazeres. com elas o homem ama o outro. Cf. e a virtude é algo estável As duas primeiras formas de amizade são as menos válidas. para resolver o problema da amizade. deve de algum modo se equilibrar: E. são. Cada um 46. 1156 a 6-2 1. a pessoa boa. Aristóte les pode apelar. 1 4. diz-se que eqüidade é um espírito amigável. portanto. 47. como vimos. o modo superior de amar a parte mais elevada de si e os bens relativos a esta parte. a sua amizade dura enquanto são bons. do mesmo modo também os que se amam por causa do prazer. em última análise. ao princípio utilizado (como veremos) para resolver o problema das opções mo rais de fundo: Parece que a virtude e o virtuoso são a medida de todas as coisas Alguns intérpretes de Aristóteles acreditaram encontrar na doutrina da amizade um corretivo para o egoísmo ou. porque só com ela o homem ama o outro por aquilo que ele é. A amizade como dom gratuito de si ao outro é uma concepção totalmente estranha a Aristóteles: mesmo em seu mais alto grau. sob certo aspecto. amam pelo que de aprazível lhes advém e não enquanto a pessoa amada é a que é. elas deixam de ser agradáveis ou úteis. mas Aristóteles observa que “egoísta” é também quem ama a parte superior de si e quer para si o máximo possível de bens espirituais: a diferença está em que o primeiro é egoísta . é instrumentalizado às vantagens (riqueza. 1156 b 7-12. de fato. Q 3. Ética Nicornaquéia. Ética Nicornaquéia. Os que se amam reciprocamente por causa do útil. amam pelo bem que lhes advém e os que amam por causa do prazer. justamente. e os que querem bem aos amigos por eles mesmos são os autênticos amigos (com efeito. dado que existe em nós uma parte pior e uma melhor. se quisermos. cessa a amizade A amizade perfeita é a dos bons e dos semelhantes na virtude. Só a terceira forma de amizade é autêntica. o amigo.

a si próprio as coisas mais belas e suma. Ética Nicomaquéia. para que serve o amigo?”. portanto. Ética Nicornaquéia. como dissemos. sobre tudo naquelas ações realizadas segundo a razão. Mas. tal homem poderia parecer particular. com efeito.mente boas. de fato. de fato. e delas emergiram opostas conclusões. escolheria ter todos os bens para si só. de fato. o fortunado precisa de pessoas a quem possa beneficiar. em suma. embora se tenha mais necessidade deles na fortuna ou no infortúnio. que a maioria costuma chamar de egoísta aqueles que atribuem a si próprios as coisas acima mencionadas [ e bens materiais]. um movimento.mente egoísta. com efeito. alguém se empenhasse mais do que todos em realizar ações justas. como. acenderam-se vivas discussões so bre o prazer e suas relações com a felicidade. E é claro que é melhor passar o dia com pessoas amigas e convenientes do que com pessoas estranhas e quais quer. então o homem virtuoso terá necessidade de pessoas que recebam os benefícios. diferente daquela que é lastimada. o segundo. em certo senti do. pois ele possui os bens naturais. possuem o que é bem. como parece. 1169 b 3-22. sendo autárquicos. 1157 b 33-1158 a 1. o Estado e qualquer outro sistema organizado parecem ser constituídos sobretudo pela sua parte mais elevada. E um homem é chamado continente ou incontinente segundo o seu intelecto domine ou não. como ser estruturalmente político. 1159 a 12. é também verdade que. nem o lastimaria. Ética Nicornaquéia. com efeito. buscasse sempre o decoro. Enfim. ou ações em todos os sentidos segundo a virtude e. em geral. e parece que nós agimos propriamente e de maneira voluntária. 426 1 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO 8. se é verdade que o homem bom tende mais a fazer o bem do que a recebê-lo. coisa que parece ser o maior dos bens externos. de modo exemplar. Ética Nicomaquéia. por isso o homem feliz tem necessidade de amigos 51. mas de uma espécie 48. mas uma atividade em todo tempo perfeita: O ato de ver. ou moderadas. Assim. 52. enquanto o amigo. uma plenificação. ele não carece de nada que se lhe acrescente para tornar perfeita a sua forma): tal parece ser também o prazer. sen do um outro eu. que não tem necessidade de amigos os homens felizes e autárquicos: estes. ninguém. Por isso busca-se amigos. O prazer e a felicidade Já no âmbito das escolas socráticas e no interior da própria Aca demia platônica. ele tem necessidade de pessoas a quem fazer o bem. portanto. o prazer não é uma mudança (um preenchimen to. e goza da parte mais elevada de si e a ela obedece em tudo. 1168 b 23-1169 a 6. parece estranho que os que atribuem todo bem ao homem feliz não lhe concedam amigos. e é mais belo fazer o bem aos amigos do que aos estra nhos. 49. e tão diferente desta quanto o viver segun do a razão é diferente de viver segundo a paixão. 50. Este. as sumindo uma posição bastante original diante delas e. ele atribui. Eis o texto no qual. é egoísta em sentido superior e positivo. é uma totalidade inteira e em nenhum período de tempo poder-se-ia encontrar um prazer cuja forma tomese mais perfeita com o prolongar-se do tempo A ÉTICA . capaz de mediar as instâncias opostas. Para Aristóteles. Aristóteles exprime esses conceitos: Há ainda uma questão sobre o homem feliz: se ele tem necessidade de amigos ou não. acima de tudo. deveria oferecer aquilo que por si só não pode obter. ® 7. justamente por isso. justamente para poder gozar dos bens: um homem absolutamente isolado não poderia gozar de nenhum bem. ao in vés. Daí o dito: “Se deus ajuda. Eis um texto fundamen tal a respeito: Fica claro. intelecto e que a pessoa moralmente conveniente ama sobretudo o intelecto. o aspirar ao decoro é diferente de aspirar ao que parece ser útil Nesse contexto compreende-se em que sentido Aristóteles consi dera a amizade necessária para a felicidade: ela entra no catálogo dos bens superiores de cuja posse depende a felicidade verdadeira. pela sua própria natureza tem neces sidade de outros. ou seja. Ade mais. de fato. o homem é um ser político e naturalmente levado à vida em sociedade. uma integração ou reintegração) nem. Se. Ética Nicomaquéia. ninguém diria que tal homem é egoísta. e se é próprio do homem bom e da virtude beneficiar. se. E esta característica também existe no homem feliz. de fato. Contudo. Aristóteles discute a fundo estas conclusões. fica claro que cada um é. o homem. assim se passa também com o homem: e é sobretudo egoísta quem ama a sua parte mais elevada e goza dela. como se cada um se identificasse com o seu inte lecto. é perfeito em todos os momentos (de fato. 1 4. Dizem. 1 9. não têm necessidade de ninguém. 1 8. Q 5. na verdade. é próprio do amigo antes fazer o bem do que recebê-lo. 1166 a 2-1 1. E é absur do fazer do homem feliz um solitário. Portanto. feito para viver em sociedade com outros (disso falaremos de modo mais preciso ao expor a con cepção política de Aristóteles). enquanto o desafortunado precisa de que se o beneficie. tal homem seria egoísta.em sentido inferior e negativo.

parece-nos que tudo seja como aparece ao virtuo so. nos homens surgem muitas corrupções e impurezas. em última análise. que é. justamente. ou seja. a aspiração ao prazer é totalmente natural. e essas atividades alcançam (atuam) o seu escopo relativamente ao objeto que lhes é próprio. o pra zer acompanha-se a toda atividade (seja esta atividade sensível. substância das próprias ações. em todo caso. mas como uma perfeição que se lhe acrescenta. ou por ignorância das circunstâncias. como existem atividades conve nientes e boas. De fato. como vi mos. no sentido que foi pre cisado acima. 1076 a 15-22. é acompanhada. serão considerados verda deiramente preciosos somente os prazeres ligados a essa atividade. voluntárias. pois. para estabelecer um critério discriminante e. de um prazer. por força da própria razão. assim. K 4. então a virtude e o homem bom enquanto tal serão a mçdida de cada coisa. Em primeiro lugar.Antes. e o prazer as acompanha como ressonância subjetiva da p0. e atividades inconvenientes e más. Justamente porque as nossas atividades são essa realização objetiva de potencialidades. uma atividade e a realização de algo positivo. K 4. realizamos determinadas potencialidades. existe um critério ontológico para discriminar os prazeres superiores dos inferiores: os primeiros são os ligados às atividades teorético-contemplativas do homem. 53. realizá-lo efazer dele. à virtude e ao homem virtuoso: Em todos estes casos. Aristóteles remete-se. 54. inopinadamente a pers pectiva muda. Se podemos dizer isso. com efeito. assim todo prazer. por que naturalmente acompanha o viver e toda atividade própria do viver à guisa de “perfeição” daquelas atividades. dependem deles). reduziu as virtudes à ciência e ao conhecimento. embora tivesse . prazer na atividade enquanto forem como devem ser. e prazeres inconvenientes e maus. seja intelectualmente. e verdadeiros prazeres serão aqueles que lhe parecem tais. por assim dizer. prag mática ou teorética) e a aperfeiçoa: O prazer aperfeiçoa a atividade. é verdadeiro prazer. mais uma vez. como tal. pois Aristóteles situa entre as ações voluntárias tam bém aquelas ditadas pela impetuosidade. 9. falando ainda mais propriamente. ou seja. A própria vida. Aristóteles tenta superar essa interpretação intelectualista do fato moral. Como bom realista que era. e tentou deter minar mais profundamente quais eram os complexos processos psí quicos pressupostos pelo ato moral. também para ele. deu-se perfeitamente conta de que uma coisa é conhecer o bem. Psicologia do ato moral Sócrates. para Aristóteles. tanto o objeto pensável ou sensível como o que discerne ou contempla [ Fica claro qual é a novidade do pensamento aristotélico. E. os ligados à vida vegetativo-sensível do ho mem. se ele conhece as circunstâncias particulares nas quais se desenvolve a ação” Mas se tudo parece lógico até este ponto. haverá. sempre acreditou que a virtude humana consistisse no domínio da razão e na submissão daquelas forças à razão. ao invés. ele esclarece o que se entende por “ações voluntárias” e “ações involuntárias”. portanto. Para qualificar o prazer. seja de modo sensível. traduzimos em ato. de modo que. chama voluntárias também as ações das crianças e até mesmo as dos animais (enquanto têm origem neles e. razão. como vimos amplamente. Platão condividiu largamente esta concepção individuado na alma humana forças irracionais. 427 1 428 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 429 seja. Ética Nicomaquéia. pela ira e pelo desejo e. uma hierarquia dos mesmos. Toda atividade tem o seu prazer. a virtude permane cia. por exemplo. e estas coisas não são verdadeiramente aprazíveis. 1174 a 14-19. como. 1174 b 31-1175 a 1. como parece. Para Aristóteles. mas somente àqueles que têm tal disposição Mas ao homem bom os prazeres aparecem bons ou maus por razões de fundo bem precisas. outra coisa é atuá-lo. dado que a felicidade está ligada. no seu gê nero. a beleza para aqueles que estão na flor da idade. K 5. a alma concupiscível e a alma irascível capazes de se oporem à alma racional. E não devemos nos maravilhar se a alguém parecem aprazíveis coisas que lhe desagradam.sitividade objetiva. Ética Nicomaquéia. constituem algo objetivamente positivo. Quando agimos ou conhecemos. Involuntárias são as ações que se cumprem forçosamente. assim também existem prazeres convenientes e bons. Ética Nicomaquéia. e aprazíveis serão as coisas das quais ele goza. é claro e. os segundos são. e negou que o homem pudesse querer e fazer voluntariamente o mal. Todavia. são as ações “cujo princípio reside no agente. à atividade teorético-contemplativa. portanto. não como uma disposição conseguida. Portanto. ou 55.

57. se assim fosse. objeto da escolha é o que já foi julgado com a deliberação. e dado que a um parece uma coisa. 430 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO reza. uma forma de ignorância. neste sentido. A diferença entre “deliberação” e “escolha” consiste no seguinte: a deliberação estabelece quais e quantas são as ações e os meios neces sários para alcançar certos fins: estabelece. Não soube determinar corretamente a verdadeira natureza da vontade e do livrearbítrio. são sadias as coisas que são verdadeiramente tais. as coisas aptas a cada uma das disposições são belas e aprazíveis. absolutamente e segundo a verdade. O Estagirita prossegue a sua análise. Que é essa volição do fim? De duas. b) No segundo caso. porque a vontade diz respeito só aos fins. De fato. é evidente que a escolha não-reta não será voluntária. causa do próprio modo pelo qual as coisas nos aparecem moralmente. afirmando. II II a 22-24. ou seja. que todos seriam bons. 58. com efeito. Na realidade. Quem é virtuoso. Contudo. que parece bem. e o remete àquela parte de si próprio que comanda: esta. mas será. b) ou é tendência ao que nos parece bem.que “voluntárias”. cessa de buscar como deverá agir quando remete a si próprio o princípio da ação. exceto o fato de que o que se escolhe já foi determinado. a outro. nem só razão. 11’ 2. e assim por diante. não é só desejo ou apetite. Ética Nicomaquéia. mostrando como os atos humanos. Aristóteles crê poder sair do dilema do seguinte modo: É preciso. o Estagirita nega expressamente que a “escolha” possa identificar-se com a “vontade” (boúlesis). e a escolha (assim como a deliberação) só se refere aos meios. aos enfermos. e explica que esta parece ser “coisa essencialmente própria da virtude e mais apta que as ações para julgar os costumes” Com efeito. mas segundo o que a cada um parece. todavia. Por isso escreve Aristóteles: O objeto da deliberação e o da escolha são o mesmo. a escolha age sobre estas últimas e as descarta quando são irrealizáveis. [ 3. Na maioria dos homens. e fogem como mal do que é doloroso Mas. o que nos torna verdadeiramen te bons. aquele tipo de raciocínio e reflexão relativos às coisas e ações que dependem de nós e estão na ordem do realizável. um equívoco. qualquer coisa. e o mesmo vale para as coisas amargas. mas só os reconheço se sou bom. Etica Nicomaquéia. portan to. assim. o que é verdadeiramente bem. porém a cada um de nós. além de “voluntários” no sentido esclarecido. movemo-nos num círculo (um círculo análogo ao que assinalamos a propósito das relações entre virtudes éticas e sabedoria): para tomar-me e ser bom devo querer os fins bons. responsáveis. o que é o mesmo. não é. Cada um. para quem é vicioso. à medida que nos aprofundamos na posição aristotélica. para as quentes. enquanto a es colha (assim como a deliberação) diz respeito aos meios. dizer que. sendo ele o cânon e a medida delas. ao que é verdadeiramente bem. embora criticando Sócrates. com efeito. põe-nas em ato quando as encontra realizá veis. mas não soube dizer por que é assim e o que está na raiz de tudo isso em nós. o princípio primeiro do qual depende a nossa moralidade está propria mente na volição do fim. a) No primeiro caso. para as pesadas. mas só ao homem que raciocina e reflete. 1111 b s. das mais remotas às mais pró ximas e imediatas. assim como para os corpos. se é verdade que a escolha é o que nos torna senhores de nossas ações. aos que são bem dispostos. toda a série das coisas a realizar para chegar ao fim. que têm a sua origem nos sujeitos que as cumprem. por exemplo. Por isso eles escolhem como bem o que é aprazível. são simples mente as ações espontâneas. justamente porque todos fariam o que lhes parece bem. raciocínio e reflexão e. causa dos nossos próprios hábitos morais. Então. que o incontinente . e não coincidem com as que nós. enquanto a escolha é apetite ou desejo deliberado e. o são outras coisas. outra. um erro. r 1. ao invés. são determi nados por uma “escolha” (proáiresis). então. como dizia Sócrates. o objeto da vontade é o bem. de fato. para as doces. de fato. chamamos com o mesmo nome. 1113 a 2-7. o que é querido seria ao mesmo tempo coisas contrárias” o que significaria que ninguém mais poderia ser chamado bom ou mau ou. precisa mente. A verdade é que Aristóteles compreen deu muito bem que somos responsáveis pelas nossas ações. uma: a) ou é tendência infalível ao bem. a escolha não pertence à criança ou ao animal. seria preciso concluir que “o que é querido não é querido por natu 56. esta se revela extrema mente ambígua e difícil de apreender. pois só os fins que nos propomos podem nos tornar tais. e o homem virtuoso difere dos outros sobretudo porque vê a verdade em todas as coisas. A “escolha” sempre implica. E então. Esse tipo de raciocínio e reflexão é chamado por Aristóteles “deliberação”. parece surgir o engano através do prazer. mesmo não o sendo. recaia às vezes em posições socráticas. é a que decide Muitos estudiosos acreditaram encontrar aqui o que chamamos vontade. julga retamente todas as coisas e em cada uma se lhe mostra o verdadeiro. Infelizmente. e assim explica-se que. objeto da vontade é o que parece bem: para quem é virtuoso. Ética Nicomaquéia. ao invés. modernos. se é assim.

no momento em que comete ações incontinentes. Cf. Introduction. 62. que po demos apropriadamente chamar de espiritual. em dois tornos cada um). o cavalo. a natureza distinguiu os homens em macho e fêmea. e quem não vive numa cidade. porque o todo. ainda não bastam para garantir as condições da vida perfeita. e afirma que o conhecimento é determinante A ÉTICA 431 para o agir moral E explica-se também que Aristóteles chegue até mesmo a dizer que. em segui da. em geral. conceito: bastante célebre. o bem do Estado é mais importante. por sua própria natureza e não por acaso. G 4. De fato. Aristóteles. Conceito de Estado Vimos acima que. para Aristóteles. traduction et cornmentaire par R. E quem é assim por natureza. por isso. Ao invés. isto é. não podemos mais deixar de ser tais. 63. de garantir de modo Mas se a família e a vila são suficientes para satisfazer as neces sidades da vida em geral. enquanto ela é o seu fim. 1113 a 20-2 1. a têm também os animais. e só ele. por efeito das leis e das instituições políticas. só pode ser garantida pelas leis. Gaulhier eI J. deve viver numa cidade.erra porque. a natureza não faz nada em vão e o homem é o único animal que tem a capacidade de falar: a voz é simples sinal do prazer e da dor e. para ser si mesmo. De resto. da vida moral. sem-lar”. Para uma aprofundada meditação das Eticas aristotélicas indicamos: Aristole. segundo o que sustentamos. a família. pela complexa organização de um Estado. o escopo e o fim são o que há de melhor. Ética Niconzaquéia. Ética Niconzaquéia. é primeiro ontologicamente. que se unem para formar a primeira comunidade. Por isso toda cidade é uma instituição natural. uma vez tornados viciosos. segundo o Estagirita. L’étique à Niconiaque. na virtude). Nessas obras encon trar-se-á. que o homem é um animal que. enquanto não possui laços e é como uma peça de jogo posta ao acaso. A. que é uma comunidade mais ampla. do ponto de vista ontológico. Y. de “apátridas. Por isso é claro que o homem é animal mais sociável do que qualquer abelha e qualquer outro animal gregário. em vista da procriação e da satisfação das necessidades elementares (no núcleo . a qual surge para tornar possível a vida e subsiste para produzir as condições de uma boa existência. é justo reconhecer que. toda a bibliografia geral e particular concernente aos vários proble mas da ética aristotélica. ou é um ser inferior ou é mais que um homem: é o caso dos que Homero chama. também entra o escravo que. é levado a sair do seu egoísmo. surge a vila. e a viver con forme o que é subjetivamente bom. por natureza. devemos objetivamente reconhecer que nenhum grego conseguirá isso e que o homem ocidental só compreenderá o que são a vontade e o livrearbítrio através do cristianismo 61. tem necessidade de estabelecer relações com os seus semelhantes em todo momento da sua existência. Cf. em ambos os casos. melhor do que todos os seus predecessores. isto é. que alcançou o que se chama o nível da autarquia. que a cidade pertence aos produtos naturais. ademais. vale dizer. Esta forma de vida. na qual o Estagirita desenvolve esse A comunidade perfeita de várias vilas constitui a cidade. Lovaina-Paris 19702 (2 vols. com a finalidade sistemático a satisfação das necessidades vitais. é tal por natureza). que é último cronologicamente. entreviu que há em nós algo do qual depende o ser bom ou mau. também o justo e o 1. mas não é tampouco razão pura. a palavra serve para indicar o útil e o danoso e. 60. é também sedento de guerra. G 4. que não é mero desejo irracional. sem-lei. mais belo. porquanto o bem do indivíduo e o bem do Estado sejam da mesma natureza (pelo fato de consistirem. Desse modo o Estado. Em primeiro lugar. não tem perfeito conhecimento. e a natureza de uma coisa é o seu fim. Etica Nicomaquéia. com desprezo. porém. dá sentido às partes. dado que as famílias não bastam cada uma a si mesmas. Eis a página. a casa. portanto. mais perfeito e mais divino. Ética Nicomaquéia. A razão disso deve ser buscada na própria natureza do homem. embora sem adequado sucesso. 1-1 1 ss. por isso. E claro. assim como conforme o que é verdadeira e objetivamente bom. como veremos. 1113 a 23-b 2. 59. A POLÍTICA 433 familiar. Jolif. só o Estado dá sentido às outras comunida des e só ele é autárquico’. dizemos que a natureza de cada coisa é aquilo que ela é quando se concluiu a sua geração. a autarquia é um fim e o que há de melhor. F 5. porque se configura como o todo do qual a família e a vila são partes. Mas. esse algo fugiu-lhe das mãos sem que ele conseguisse determiná -lo. como acontece com o homem. enquanto a sua natureza chega até o ponto de ter e de significar aos outros a sensação do prazer e da dor. pelas magistraturas e. a qual demonstra com clareza que ele é absolutamente incapaz de viver isolado e. se o são também os tipos de comunidade que a precedem. Assim. e. E no Estado que o indivíduo. o todo precede as partes. embora num primeiro momento fosse possível não vir a sê-lo Todavia. Ora.

à conduta da vida. isto é. de modo que. e a identificá-la com o Estado. foi posta em crise ou. na sua reivindicação do caráter natural do Estado. Eis as palavras textuais do nosso filósofo: . por natureza. é “um instrumento que serve à ação” isto é. vai muito além do que poderia. Política. mas não se deve esquecer o peso que. Por isso quem não pode fazer parte de uma comunidade. o todo precede necessariamente a parte. a mulher pior. faz-se ferrenho defensor da “naturalidade” da escravidão. neste ponto. Evidentemente Aristóteles. mais exa tamente. relativamente ao todo está na mesma relação em que estão as outras partes. b) as rela ções pai-filhos. uma instituição que estabelece que um homem possa ser “posse viva” de um outro homem? Vimos que. para fazer isso. assim ele conclui que o homem é por natureza melhor. por exem plo. correta mente aplicados. 434 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Talvez Seja esta a mais radical defesa do Estado feita na antigüida de contra as tentativas de algumas correntes da sofística de reduzir a polis a simples fruto de convenção artificial. comprometida a convicção da liceidade da escravidão. não faz parte de uma cidade. em particular as riquezas (a assim chamada crernatística). a pólis de tipo helênico. E verdade que. é claro que a cidade existe por natureza. A administração da família A família. aquele apto para coman dar. senão por homonímia. Política. pelo menos. A 2. tomado isoladamente. ao invés. eram fatalmente levados a reconhecer um único tipo de sociedade que tivesse fins metabiológicos e espirituais. Sobre que bases pode-se admitir uma instituição como a escravi dão. Portanto. portanto. Cf. a ponto de submeter da maneira mais artificio sa os seus próprios princípios para fazê-los corresponder àquelas convicções. esta para obedecer Com mais razão devem ser considerados piores por natureza e. é cons tituída por quatro elementos: a) as relações marido-mulher. governam o corpo e o apetite. o escravo não serve à produção ‘de coisas. mas. era convicção geral de que a alma e a razão predominavam mais no homem que na mulher. capazes só de obedecer e. Mas ele estava de tal modo distante dessa distinção. que nem sequer foi capaz de compreender que pudesse haver outras formas de Estado além da Cidade. não possuindo nem uma nem outra. quem não tem necessidade de nada. todos os homens que a natureza dotou de corpos robustos e frágeis intelectos. enquanto ele é o único a ter noção do bem e do mal. Dado que. assim os homens nos quais predominam a alma e o intelecto devem governar aqueles nos quais estes não predominam. E na ordem natural a cidade precede a família e a cada um de nós. e é anterior ao indivíduo. então o artesão e o escravo — pensa Aristóteles — são indispensáveis. mais uma vez tiveram as condições políticas. d) a arte de obter as coisas úteis. para fazer isso. Todas as coisas são definidas pela função que cumprem e pela sua potência. os princípios metafisicos do seu sistema. porque se o indivíduo.injusto: e isso é próprio do homem com relação aos outros animais. Aristóteles deveria ter definido o homem como “animal social” em vez de “animal político”. bastando a si próprio. com a polis. da parte de alguns so fistas e de alguns socráticos menores. O artesão é “como um instrumento que prece de e condiciona os outros instrumentos” e serve à produção de deter minados objetos e de bens de uso. Na verdade. como ocorre. como veremos melhor adiante. em geral. a não ser por homonímia. mas é ou um animal ou um deus II. então. assim. “é um artesão que serve ao que A POLITICA 435 diz respeito à ação”. Com efeito. 1252 b 27-1253 a 29. quando se fala de u’a mão de pedra. sociais e culturais da Grécia do seu tempo: os helenos. teriam levado a conclusões exatamente contrárias a estas: mas aqui o filósofo deixa-se condicionar pelos preconceitos e convicções do tempo. não é autárquico. 2. não poderão mais ser ditas as mesmas de antes. exige instrumentos adequados. ele deveria poder distinguir a sociedade do Estado. como foi dito. como há tempo os estudiosos notaram. núcleo originário do qual se compõe a Cidade. Ele parte do pressuposto de que como a alma e o intelec to. A 1. mas esta na realidade é u’a mão morta. A POLÍTICA 1. do justo e do injusto e das outras virtudes: a comunidade dos homens constitui a família e a cida de. Aristó teles detémse especialmente sobre o terceiro e o quarto elementos. não haverá mais nem pés nem mãos. tão radicado estava no sentimento grego o seu modo de pensar o Estado e a coisa pública! 2. e contra as negações ex tremistas dos Cínicos. inani mados ou animados. não tendo uma Igreja. porque sem o todo. Aristóteles. mas é igualmente verdade que. Dado que a administração doméstica deve adquirir determinadas propriedades e. Ao invés. ou algo de algum modo equivalente a ela. c) a relação senhor-escravos. escravos.

Sem contar que a diferença de inteligência. inferior é o “bárbaro” e. em tudo igual “por natureza” a quem o fez prisioneiro. está bem longe de corresponder à que é afirmada no trecho acima lido. sem preocupar-se com viver bem. prisioneiros). sem possuí-la propriamente. Diz com sábias palavras Aristóteles: A alguns parece que esta seja a tarefa da economia [ aumentar con tinuamente as riquezas]. e acaba por transformar o que é simples meio em fim. que é o de satisfazer a reais necessidades e não acumular riquezas. enquanto os outros animais não têm nem mesmo o grau de razão que compete á sensibilidade. 5.Todos os homens que diferem dos seus semelhantes tanto quanto a alma difere do corpo e o homem do animal (e estão nessa condição aqueles cuja tarefa implica o uso do corpo. Mas uma guerra pode ser injusta. os escravos provinham. A 4. v. mas obedecem às paixõeS. são escravos por natureza e. e esta é a diferença essencial e determinante. inverte-se o sentido da vida: usa-se a vida para produzir dinheiro em vez de usar o dinheiro para viver. sobre a qualidade). No que se refere à crematística Aristóteles distingue três modos de obter bens e riquezas: a) um modo natural e imediato. os escravos e os animais domésticos. em caso de guerra de gregos contra gregos. a escravidão não é justificável “por natureza”. E escravo por natureza quem pertence a alguém em potência (e por isso torna-se posse de alguém em ato) e só participa da razão no que diz respeito à sensibilidade imediata. sem aprofundar as ques tões relativas à vila (que. por isso. se isso vale para os exemplos que acima indicamos. Política. o melhor é submeter-se à autoridade de alguém. Cf. Efigênia em Au/ide. Política. era o segundo dos elementos constitutivos do Estado). mesmo forçando os princípios e os dados. pode ser um grego. A Sss. fundamentalmen te irracional. 1254 b 16-26. isto é. . Para todas essas expressões cf. o fato de alguns homens terem mais ou menos razão não pode mudar a sua essência ou natureza: a natureza do homem permanece tal enquanto há razão. Aristóte les tem não pouco trabalho para fazer concordar esses seus raciocínios com a realidade histórica pela qual também estava condicionado. para salvar a igualdade entre os gregos. sustenta com Eurípedes: que é natural que os gregos dominem sobre os bárbaros Mas pode-se ver claramente que a emenda é pior do que o soneto. do pastoreio e do cultivo dos campos. Ora. como tal. 7. passirn. 3. que têni um linti te fixado pela natureza. e dado que o desejo de afirmar a própria vida não tem limites. Política. no sentido de tornar mais chocante a posição do filósofo. além de uma boa dose de incorreção nas próprias premissas. que recorre a todos os artifícios para aumentar sem limites as riquezas. pouco ou muito que seja (a quantidade não incide. o quan to basta para satisfazer as necessidades naturais. portanto. 1400. Política. porque não existe limite para o acréscinlo das riquezas. nesse caso. das conquistas de guerra (eram. porque uns e outros. o pri sioneiro pode ser de alto posto e. Em todos esses casos. A 2. e continuam a crer que esta deva salvaguardar ou aumentar ao infinito a consistência do patrimônio pecuniário. a ter6. são utilizados para os serviços necessários ao corpo 4. 1252 b 8. E o seu modo de emprego difere de pouco. A POLÍTICA 437 ceira forma de crematística é condenada por Aristóteles. que. que consiste na troca dos bens com bens equivalentes (escambo) e c) um modo não-natural. Eurípedes. mediado. A 5. não por isso é menos verdadeira a instância de fundo que elas tornam válida: quan do o dinheiro transforma-se de meio em fim. A causa dessa atitude é o fato de afadigar-se em torno às coisas que permitem viver. E então? A solução de Aristóteles é a seguinte: por natureza. ora. O cidadão Do exame da família. 3. 436 ARISTÓTELES 13 A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO De onde resulta imediatamente evidente a desproporção entre as premissas e as conclusões. tam bém. toda forma de investimento em dinheiro com a finalidade de produzir mais dinheiro E por mais que nessas posições se pressupo nha uma situação socioeconômica oposta à nossa. A 5. que é o que eles têm de melhor). adere ao preconceito tipicamente helênico. Naturalmente. 1254 b 13-14. Política. nos primeiros dois modos. segundo o qual o grego é por natureza superior ao bárbaro. desejam meios produtivos ilimitados A sã economia busca obter. A nota que diferencia o homem do animal é a razão. Aristóteles (depois de cerradas críticas ao comunismo platônico)’° passa ao do Estado. b) um modo intermédio. de caráter absolutamente racista e. como vimos. para estes. muito amiúde. que se realiza através da atividade da caça. que consiste no comércio através do dinheiro. De fato. que Aristóteles pretende observar entre os homens. É lógico que ele condene a usura e. cf. e assim quem a ela se entrega perde o sentido e o fim último da sã economia.

meios que servem para sa tisfazer às necessidades dos primeiros. Cada uma dessas três formas de governo pode ser exercida de modo correto ou de modo incorreto: Quando um só. . de algum modo. 1279 a 32-b 10. a oligarquia. administrar a justiça). portanto. As degenerações das precedentes formas de gover no são a tirania. sobretudo. Política. aristocracia o governo de poucos (quer o governo esteja em mãos dos melhores.se o nome de poliria E. as constituições serão. E o poder soberano pode ser exercido: 1) por um só homem. da autoridade soberana’ o Ora. A lO. às quais correspondem outras tantas formas de consti tuições degeneradas: tirania. poucos ou a maioria exercem o poder no seu interesse privado. segundo dife rentes constituições. quer se interesse em obter o maior bem possível para a cidade e para os cidadãos) quando se propõe o bern comum. mais do que nunca. Política. em todos os seus momentos (fazer leis. r 1: 438 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FiLOSÓFICO O Estado. tomar parte na administração da justiça e fazer parte da assembléia que legisla e governa a Cidade”. mesmo não sendo metecos. O 7. Define Aristóteles: A constituição é a estrutura que dá ordem à Cidade. aqueles servem às necessidades públicas. Mas não só. E assim. 1279 a 28-31. são essenciais. Os artesãos diferenciam-se dos escravos porque. aos olhos de Aristóteles. tem. trata-se de estabelecer quem é o cidadão. 3) ou pela maior parte dos homens. 2) por poucos homens. G 6. tem-se necessariamente constituições retas. 8. Para ser cidadão. descuidando o bem de todos. foi definitiva mente estabelecida.Antes. não basta habitar no território da Cidade.. ao termo a acepção negativa que nós tra duzimos por “demagogia”: com efeito. relativamente à aristo cracia e a democracia. visa favorecer os interesses dos mais pobres de modo indevido. onde o cidadão só se sentia tal se participava diretamente no governo da coisa pública. enquanto Aristóteles afirmava que “não devem ser con siderados cidadãos todos aqueles sem os quais a cidade não subsis tiria” a história demonstrou a verdade do contrário: mas demons trou-o somente ao preço de uma série de revoluções. Nessa definição. que o Estagirita entende por “democracia” um governo que. nem gozar do direito de empreender uma ação judiciária e. aristocra cia e politia. sem não por isso deixar de ser meios’ E assim. ou seja.. e. Por conseqüência. tantas quantas são estas formas. impõe-se “a participação nos tribunais ou nas magistraturas”. enquanto estes servem às necessidades de uma única pessoa. reflete-se a peculiaridade da pólis grega. não basta ser descendente de cidadãos. Mas nem mesmo os artesãos podiam ser verdadeiros cidadãos. também. Cf. apresenta a questão segundo uma perspectiva diferente. dando. fundamentalmente. é claro que. livro B. 1257 b 38-1258 a 2. em nível histórico. cuja natureza e finalidade já estabelecemos acima. A 9. Política. podendo essa autoridade soberana realizar-se de diferentes formas. F 7. relativamente ao reino. oligarquia e democracia. e ainda custa traduzir em ato essa verdade que. quando a massa rege o governo em vista do bem público. a oligarquia visa aos interesses dos ricos. nem estrangeiros. enquanto quan do uni. por não terem à sua disposição o tempo necessário para exercer as funções que. A POLÍTtCA 439 Para ser cidadão numa Cidade. Eis as precisas palavras do Estagirita: Temos o hábito de chamar reino o governo monárquico que se propõe o bem público. Aristóteles esclarece que o 14. pode atualizarse segundo diferentes formas. 9. estabelecendo funcionamento de todos os encargos e.]. para orientar-se bem. 10. fazê-las aplicar. nem o co lono nem o membro de uma cidade conquistada podiam ser ou sentir-se “cidadãos” no sentido acima visto. poucos ou a maioria exercem o poder em vista do interesse comum. 1278 b 8-10. 15.se então os desvios’ Existem três formas de constituições retas: monarquia. mas nenhuma dessas formas visa à utilidade comum’ (O leitor moderno deve ter presente. Política. Política. a tirania é o governo monárquico exercido em favor do monarca. a esta forma de governo dá. enquanto todos os outros homens da Cidade acabam por ser. nem escravos). isto é. os “cidadãos” são muito limitados em número. relativamente à politía. mesmo sendo homens livres (isto é. De fato. a democracia aos dos pobres. Visto que o Estado é feito de cidadãos. CL Política. 16.

são naturais e.4. nem os outros desejam a sua. todos podem e devem ser iguais também em tudo o mais). boas. governar e ser governados segundo as leis. antes de tudo. oferece a maior garantia de esta bilidade. quando retas. uma vez que ele próprio é uma lei’ Portanto. cuja virtude e importância política (do indivíduo ou do grupo) não sejam comparáveis às dos outros. Mas porque tais condições normal mente não se verificam. Política. dada a igualdade de todos na liberdade. Eis as explícitas afirmações de Aristóteles: Uma cidade quer ser constituída. abstratamente. se preferimos. uma via média entre a oligarquia e a democracia ou. Política. mas não se trata da multidão pobre (diferentemente da democracia). também. uma democracia temperada com a oligarquia: de fato. enquanto “médio”. deriva a possibilidade da comunidade urbana. necessariamente. A politia. a melhor. 5. Aristóteles. 1278 a 3. seja com relação às duas primeiras constituições perfeitas. e a aristocracia seria. 18. V e VI da Política (dedicados ao exame dos vários gêneros e espécies de cons 17. resulta em posição um tanto anômala. e as cidades que estão nessas condições podem ser bem governadas. 1284 a 3-14. tanto que Focilides. justamente. (Como se vê. porque seriam injustiçados se fossem igualados aos outros. alternadamente. mas muitos homens que. com o seu sentido realista. cuja posição é invejada pelos pobres. indica substancialmente a politia como a forma de governo mais convenien te para as Cidades gregas do seu tempo. justamente. no esquema geral traçado pelo Estagirita. portanto. por sua vez. é aquele cuja existência é garantida na cidade. De resto. aquelas — digo nas quais o estrato médio é mais numeroso e mais poderoso que os dois extremos ou. Também na política o conceito de “mediania”. O 13. mas de uma multidão suficientemente abastada para poder servir no exército e. assim como na ética. r 5. 1295 b 25-38. por cidadãos iguais e semelhantes entre si. a monarquia seria. quem governa é uma multidão (como na democracia) e não uma minoria (como na oligarquia). impor-se-ia um governo aristocrático. De fato. O Estado ideal Das análises que Aristóteles nos oferece nos livros IV. desde que existisse na Cidade um homem excepcional. embora não sobressaindo na virtude política. eram capazes de. que são iguais por estirpe e por capacidade. Política. E. por natureza. a melhor forma de governo. praticamente. é a constituição que valoriza o estrato médio que. e se existisse um grupo de indivíduos verdadeiramente excelentes por virtude. portanto. que a melhor comunidade política é a que se funda sobre o estrato médio. Qual dessas três constituições é a melhor? A resposta de Aristóteles não é unívoca. 13. passam a vida sem perigos. O Estado e suas formas possíveis II. justamente porque o bem do Estado consiste em visar ao bem comum. 442 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A POLÍTICA . isto é. Eis as explícitas pala vras de Aristóteles: Se há uma pessoa ou um grupo. enquanto possível. Por onde se vê que. enquanto sobressaem por capa cidade e por peso político: eles seriam como um deus entre os homens. e isso acontece sobretudo com cidadãos que perten cem aos estratos médios: por isso a cidade melhor governada será aquela na qual se realizam as condições das quais. desempenha um papel fundamental. Por isso aqueles. justamente o estrato que funda essa possi bilidade. enquanto não são pobres. O 1. e nessas quero estar na cidade”. A politia é. como acontece com os ricos. que seja tão excelente em virtude. seja com relação às três imperfeitas). A 11. Política. deve-se dizer que as três formas de governo. o estrato médio. evidente que. que se destaque nas habilidades guer reiras. a legislação deve ser confiada a eles. se numa cidade existisse um homem que superasse a todos em excelência. não muito numeroso para constituir uma cidade. nas quais não existiam um ou poucos homens excepcionais. proclamava: “Muitas coisas são ótimas pela sua medianidade. a politia reúne os valores e exclui os defeitos das duas formas degeneradas e. porque vem a en contrar-se num plano diferente. enquanto não é possível impor leis a quem é superior à normalidade. portanto. os que a ele pertencem. Política. O 5. a ele caberia o poder monárquico. mais poderoso do que um deles”. pelo menos. desde que houvesse um grupo de homens excepcionais. não dese jam a condição dos outros. não tramando contra os outros e não sendo objeto de tramas. E claro. 12. portanto. contudo. então é desnecessário dizer que estes constituem uma parte da cidade. 440 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A POLÍTICA 441 erro da democracia é o de considerar que.

e as pessoas prudentes fazem justamente isso. Ao invés. E vimos também em que sentido os dois primeiros são considerados simples meios para a realização dos terceiros. e nenhuma boa ação. seja com relação ao interior. é mais digna do que os bens externos e os bens do corpo. a justiça. na ética. E impossível que tenha êxitos felizes quem não cumpre boas ações. razão pela qual gozam de maior liberdade. das várias formas de revolução. que cada um merece tanta felicidade. seja para o Estado. têm um limite dentro do qual preenchem a sua função de ser úteis. também a utilidade. Em suma. dedicados à ilustração do Estado ideal. O valor. Por conseqüência — e valem as mesmas razões trazidas precedentemente — podemos dizer que feliz e florescente é a cidade virtuosa. Ele deverá ser suficientemente grande para fornecer o que se precisa para a vida. mas por si mesmo e por aquilo que é por natureza. Maior interesse. bens corpóreos e bens espirituais da alma. que é feliz e bemaventurado. a prudência de uma cidade têm a mesma potência e a mesma forma cuja presença num cidadão privado faz com que se o diga justo. tanto mais úteis. 20. prudente e sábio’°. mas não têm um verdadeiro governo e não são 19. H 5-6. Assim se a alma. Os cida dãos não poderão conhecer-se uns aos outros e. das causas que as determi nam e dos modos em que é possível preveni-las). mas além do qual tornam-se danosos ou inúteis para quem os possui. nem de um indivíduo. e invocamos como testemunho o próprio deus. do que sobre os aspectos técnicos relativos às instituições e às magis traturas. sem produzir o supérfluo. pode rea lizarse sem virtude e prudência. para nós ou absolutamente. a boa sorte é diferente da felicidade. mas justamente medida. uma cidade que tenha poucos cidadãos não poderá ser autárquica. Eis as condições ideais que deveriam dar lugar ao Estado feliz: a) No que concerne à população. uma fineza de compreensão e uma sagacidade no entendimento dos fatos e acontecimentos políticos verdadeiramente excepcional. Ninguém poderá ser arauto de uma cidade muito numerosa. quanto mais abundantes. se não tem a voz de um Estentor. é aquela que ocupa um lugar privilegiado com relação às outras disposições das coisas. não poderão distribuir com conhecimento as várias tarefas. Fique pois estabelecido. dado o seu caráter pormenorizado e até mesmo técnico. Política. de nossa parte. esta não deverá ser nem demasiado exígua nem muito nume rosa. Também o Estado deve buscar os dois primeiros tipos de bens de modo limitado e exclusivamente em função dos bens espirituais. não pelos bens exteriores. 1323 b 7-36. ao invés. Os bens espirituais. se neles se considera. necessariamente. como todo instrumento.443 tituições. além da beleza. mas carecem de inteligência e não fizeram progressos nas artes. Aristóteles quer uma Cidade que seja à medida do homem b) Também o território deverá apresentar características análo gas. portanto. Com efeito. Deverá ser dificilmente atacável e facil mente defensável. E porque. que os bens são de três gêneros diferentes: bens externos. como se viu. Neles o Estagirita demonstra um conhecimento histórico extraordiná rio. como meios. E isto vale — diz Aristóteles — seja para o indivíduo. Por isso. não é de admirar que ele polarize o seu discurso mais sobre os problemas morais e educativos. H 4. a concepção do Estado de Aristóteles é fundamentalmente moral. os bens se escolhem tendo a alma como fim. primeira condição da atividade política. Eis a página mais significativa a respeito disso: Todos os bens exteriores. 444 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A POLITICA 445 . 21. aquela que tenha cidadãos em demasia será dificilmente governável. Ninguém poderá ser senhor de um nUmero demasiado ingente de cidadãos. apresentam os últimos dois livros. H 1. Política. Vimos. pru dência e capacidade de agir em conformidade com eles. seja com relação ao mar c) As qualidades ideais dos cidadãos são — segundo Aristóteles — exatamente aquelas que apresentam os gregos: estas são como uma via de meio e como uma síntese das qualidades dos povos nór dicos e dos povos orientais: Os que habitam os países frios e a Europa são cheios de impulsos. pela sua importância relativamente às outras. no que diz respeito à problemática propriamente filosófica. Suas fronteiras deverão ser alcançáveis a olho nu. mas ninguém é justo ou sábio por acaso ou por sorte. é necessário que as disposições da alma gozem da correspon dente posição de privilégio. quanto possui de virtude. Política. Ademais. não podemos falar nesta sede. Em geral podemos dizer que a melhor dispo sição. e a Cidade deve poder bastar a si própria. em posição favorável. enquanto o acaso e a sorte podem ser causa dos bens exteriores da alma. porque só nestes consiste a felicidade. nem de uma cidade. e evitam submeter a alma aos bens considerados como fins.

capazes de dominar os seus vizinhos. Os povos da Ásia são inteligentes e hábeis no progresso técnico, mas privados de vivacidade de espírito, de modo que continuam a viver como escravos e servos. A estirpe grega, assim como ocupa uma posição geográfica intermédia entre a Asia e a Europa, participa dos caracteres que distinguem os povos de uma e da outra; por isso é inte ligente e de espírito vivo, vive em liberdade, tem as melhores constituições e poderia dominar sobre todos se fosse unida sob uma única constituição Inútil dizer que nesse juízo o Estagirita é vítima daqueles mes mos pressupostos que lhe fizeram crer que os “bárbaros” pudessem ser escravos “por natureza”. d) Aristóteles examina em seguida as funções essenciais da Cidade e a sua ideal distribuição Para subsistir, uma Cidade deve ter: 1) cultivadores da terra que forneçam o alimento, 2) artesãos que forneçam instrumentos e manufaturas, 3) guerreiros que a defendam dos rebeldes e dos inimigos, 4) comerciantes que produzam riquezas, 5) homens que estabeleçam o que é útil à comunidade e quais são os direitos recíprocos dos cidadãos, 6) sacerdotes que se ocupem do culto. Ora, a boa Cidade impedirá que todos os cidadãos exerçam todas essas funções. Contudo, na Cidade ideal não se praticará uma forma de vida particular, tal como a dos que exercem a agricultura, nem como aquela praticada pelos artesãos e pelos comerciantes: estes são modelos de vida ignóbil e contrários à virtude e, em todo caso, são tais que impedem o exercício da virtude, porque não deixam sufici ente liberdade e tempo. Os camponeses serão escravos, e também os artesãos e os comerciantes não farão parte dos ‘cidadãos”. Os verda deiros cidadãos ocupar-se-ão da guerra, do governo e diferentes do (o culto. Por si, enquanto estas funções exigem virtudes guerreiro deve ter a força, o juiz e o legislador a

assim o “bem viver” e a felícidade serão concedidos aos “cidadãos” da Cidade ideal: todos os outros homens que nela vivem serão reduzidos a simples “condições neces sárias” e serão condenados a uma vida subumana. Encontramonos diante do conhecido condicionamento histórico-cultural, que tão pro fundamente limita o pensamento aristotélico nesse ponto, situando-o numa dimensão extremamente distante de nós, pois, em substância, o filósofo diznos que é necessário que muitos homens vivam uma vida subumana ou não perfeitamente humana para que outros homens vivam a plena e perfeita vida humana, e que tudo isso é “natural”. e) Mas resta ainda um ponto essencial. A felicidade da Cidade depende da virtude, mas a virtude vive em cada cidadão e, por isso, a Cidade pode tornar-se e ser feliz na medida em que cada uni dos cida dãos se tome e seja virtuoso. E corno cada homem torna-se virtuoso e bom? Em primeiro lugar, deve haver certa disposição natural, depois, sobre esta agem os hábitos e os costumes, em seguida os raciocínios e os discursos Ora, a educação age sobre o hábito e sobre o raciocínio e é, portanto, um fator de enorme importância no Estado. Os cidadãos deverão ser educados de modo fundamentalmente igual, para que possam ser capazes, alternadamente, de obedecer e de coman dar, dado que, alternadamente, deverão obedecer (quando são jovens), e depois comandar (uma vez tornados homens maduros) Mas, em particular, dado que é idêntica a virtude do cidadão bom e do homem bom, a educação deverá, substancialmente, ter em mira a formação de homens bons, ou seja, deverá fazer com que se realize o ideal estabe lecido na ética, isto é, que o corpo viva em função da alma e as partes inferiores da alma em função das superiores, e, em particular que se realize expressamente o filósofo: o ideal da pura contemplação. Escreve

Introduzindo nas ações uma distinção análoga àquela feita para as partes da alma, poderemos dizer que são preferíveis as que derivam da parte melhor 25. Cf. Política, H 13. 26. Política, H 14. 22. Política, H 7, 1327 b 23-33. 23. Cf. Política, H 8ss. 24. Política, H 9, 1329 a 14-17. 444 ARJSTÓTELES E A SISTEMATIZAçÃo DO SABER FILOSÓHCO A POLITICA 445

prudência), seria preciso distribuí -las a diferentes pessoas, mas isso dificilmente seria tolerado pelos guerreiros, que, tendo a força militar, querem também o poder polí tico. A solução que Anstóteles propõe é a seguinte. As mesmas pes soas exercerão essas tarefas em diferentes tempos: A natureza quer que os jovens tenham a força e os velhos a prudência, de modo que é útil e justo dividir os poderes políticos tendo em conta esse fato Assim, os cidadãos serão primeiro guerreiros, depois conselhei ros, enfim sacerdotes. Todos estes serão abastados, e dado que cam poneses, artesãos e comerciantes provêem às suas necessidades ma teriais, eles terão todo o tempo necessário ao exercício da virtude e à plena atuação da vida feliz. E

capazes de dominar os seus vizinhos. Os povos da Ásia são inteligentes e hábeis no progresso técnico, mas privados de vivacidade de espírito, de modo que continuam a viver como escravos e servos. A estirpe grega, assim como ocupa uma posição geográfica intermédia entre a Asia e a Europa, participa dos caracteres que distinguem os povos de uma e da outra; por isso é inte ligente e de espírito vivo, vive em liberdade, tem as melhores constituições e poderia dominar sobre todos se fosse unida sob uma única constituição Inútil dizer que nesse juízo o Estagirita é vítima daqueles mes mos pressupostos que lhe fizeram crer que os “bárbaros” pudessem ser escravos “por natureza”. d) Aristóteles examina em seguida as funções essenciais da Cidade e a sua ideal distribuição Para subsistir, uma Cidade deve ter: 1) cultivadores da terra que forneçam o alimento, 2) artesãos que forneçam instrumentos e manufaturas, 3) guerreiros que a defendam dos rebeldes e dos inimigos, 4) comerciantes que produzam riquezas, 5) homens que estabeleçam o que é útil à comunidade e quais são os direitos recíprocos dos cidadãos, 6) sacerdotes que se ocupem do culto. Ora, a boa Cidade impedirá que todos os cidadãos exerçam todas essas funções. Contudo, na Cidade ideal não se praticará uma forma de vida particular, tal como a dos que exercem a agricultura, nem como aquela praticada pelos artesãos e pelos comerciantes: estes são modelos de vida ignóbil e contrários à virtude e, em todo caso, são tais que impedem o exercício da virtude, porque não deixam sufici ente liberdade e tempo. Os camponeses serão escravos, e também os artesãos e os comerciantes não farão parte dos “cidadãos”. Os verda deiros cidadãos ocupar-se-ão da guerra, do governo e diferentes do (o culto. Por si, enquanto estas funções exigem virtudes guerreiro deve ter a força, o juiz e o legislador a

Assim, os cidadãos serão primeiro guerreiros, depois conselhei ros, enfim sacerdotes. Todos estes serão abastados, e dado que cani poneses, artesãos e comerciantes provêem às suas necessidades ma teriais, eles terão todo o tempo necessário ao exercício da virtude e à plena atuação da vida feliz. E assim o “bem viver” e a felicidade serão concedidos aos “cidadãos” da Cidade ideal: todos os outros homens que nela vivem serão reduzidos a simples “condições neces sárias” e serão condenados a uma vida subumana. Encontramonos diante do conhecido condicionamento histórico-cultural, que tão pro fundamente limita o pensamento aristotélico nesse ponto, situando-o numa dimensão extremamente distante de nós, pois, em substância, o filósofo diznos que é necessário que muitos homens vivam uma vida subumana ou não perfeitamente humana para que outros homens vivam a plena e perfeita vida humana, e que tudo isso é “natural”. e) Mas resta ainda um ponto essencial. A felicidade da Cidade depende da virtude, mas a virtude vive em cada cidadão e, por isso, a Cidade pode tornar-se e ser feliz na medida em que cada uni dos cida dãos se torne e seja virtuoso. E como cada homem torna-se virtuoso e bom? Em primeiro lugar, deve haver certa disposição natural, depois, sobre esta agem os hábitos e os costumes, em seguida os raciocínios e os discursos Ora, a educação age sobre o hábito e sobre o raciocínio e é, portanto, um fator de enorme importância no Estado. Os cidadãos deverão ser educados de modo fundamentalmente igual, para que possam ser capazes, alternadamente, de obedecer e de coman dar, dado que, alternadamente, deverão obedecer (quando são jovens), e depois comandar (uma vez tornados homens maduros) Mas, em particular, dado que é idêntica a virtude do cidadão bom e do homem bom, a educação deverá, substancialmente, ter em mira a formação de homens bons, ou seja, deverá fazer com que se realize o ideal estabe lecido na ética, isto é, que o corpo viva em função da alma e as partes inferiores da alma em função das superiores, e, em particular, que se realize expressamente o filósofo: o ideal da pura contemplação. Escreve

prudência), seria preciso distribuí -las a diferentes pessoas, mas isso dificilmente seria tolerado pelos guerreiros, que, tendo a força militar, querem também o poder polí tico. A solução que Aristóteles propõe é a seguinte. As mesmas pes soas exercerão essas tarefas em diferentes tempos: A natureza quer que os jovens tenham a força e os velhos a prudência, de modo que é útil e justo dividir os poderes políticos tendo em conta esse fato 22. Política, H 7, 1327 b 23-33. 23. Cf. Política, 1-1 8ss. 24. Política, H 9, 1329 a 14-17.

Introduzindo nas ações uma distinção análoga àquela feita para as partes da alma, poderemos dizer que são preferíveis as que derivam da parte melhor 25. Cf. Política, H 13. 26. Política, H 14. 446 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO da alma, pelo menos para quem saiba comparar todas ou, em todo caso, duas das partes da alma, porque todos acharão melhor o que tende ao fim mais

elevado. E todo gênero de vida pode ainda ser dividido em dois, segundo tenda para as ocupações e o trabalho ou para a liberdade de qualquer obri gação, para a guerra ou para a paz; correspondentemente a estas distinções, as ações são necessárias e úteis ou belas. Ao escolher esses ideais de vida deve-se seguir as mesmas preferências que valem para as partes da alma e para as ações que nelas têm origem, isto é, deve-se escolher a guerra tendo como fim a paz, o trabalho tendo como fim a libertação deste, as coisas necessárias e úteis para poder alcançar as belas. O legislador deve ter presen tes todos esses elementos que acabamos de analisar, as partes da alma e as ações que as caracterizam, visando sempre às melhores, e de tal modo que possam servir de fins e não sejam apenas meios. Este critério deve guiar o legislador na sua atitude diante das várias concepções da vida e dos vários tipos de ações: deve-se, é claro, poder atender ao trabalho, fazer guerra, fazer as coisas necessárias e úteis, mas ainda mais deve-se poder praticar o livre repouso, viver em paz e fazer as coisas belas [ é, contemplar] O Estado, e não os indivíduos, deverá fornecer a educação que,

QUARTA SEÇÃO A FUNDAÇÃO DA LÓGICA, A RETÓRICA E A POÉTICA oi &v13pc Trpàç Tà àÀiiÚ TrEpúxcxatv ixavc xai T IrXE(W TUyxc TfjÇ & “Os homens são suficientemente dotados para o ver dadeiro e normalmente alcançam a verdade”. Aristóteles, Retórica, A 1, 1355 a 15-17 1. A FUNDAÇÃO DA LÓGICA 1. Conceito de lógica ou “analítica” A lógica não tem lugar no esquema segundo o qual o Estagirita subdividiu e sistematizou as ciências, e isso não é casual. Com efeito, ela não tem em vista a produção de algo (como as ciências poiéticas), nem a ação moral (como as ciências práticas), e não tem um conteúdo determinado, diferente do conteúdo da metafísica ou da física ou ainda da matemática (ciências teoréticas). A lógica considera a forma que deve ter qualquer tipo de discur so que pretenda demonstrar algo e, em geral, queira ser probatório. A lógica mostra como procede o pensamento quando pensa, qual é a estrutura do raciocínio, quais os seus elementos, como é possível fornecer demonstrações, que tipos e modos de demonstração existem, como e quando são possíveis. Naturalmente, poder-se-ia dizer que a lógica é ciência, no sentido em que o seu conteúdo é dado pelas operações do pensamento, isto é, do ens tamquam verum (o ser lógico) que foi, efetivamente, distin guido pelo Estagirita’. Todavia, isto só em parte se enquadraria nas afirmações de Aristóteles, o qual apenas dc passagem e quase aciden talmente chamou a lógica de “ciência” considerando-a, sobretudo, como um estudo preliminar, isto é, uma propedêutica geral a todas as ciências. Portanto, o termo organon, que significa “instrumento”, in troduzido por Alexandre de Afrodísia para distinguir a lógica no seu conjunto (e sucessivamente utilizado também como título para o con junto de todos os escritos aristotélicos relativos à lógica), define bem o conceito e o fim da lógica aristotélica, que pretende fornecer, jus tamente, os instrumentos mentais necessários para afrontar qualquer tipo de pesquisa 1. Cf. Metafísica, E 2-4. 2. Cf. Retó rica, A 4, 1359 b lO, onde se fala de “ciência analítica” (e analítica, como logo veremos, em Aristóteles, está no lugar de lógica).

naturalmente, começará pelo corpo, que se desenvolve antes da razão, e procederá com a educação dos impulsos, dos instintos e dos apeti tes, e, enfim, concluir-se-á com a educação da alma racional. A tra dicional educação atlético-musical grega é assumida no Estadc aristotélico, e a sua descrição conclui a Política. E desnecessário afirmar que todos os estratos inferiores são ex cluídos da educação: uma educação técnico-profissional, para Aristó teles, é um contra-senso, porque educaria não tanto em benefício dc homeni, mas em benefício das coisas que servem ao homem, enquan to a verdadeira educação tem em mira ser verdadeira e plenament homem. Instância belíssima, esta, e que teria muito a sugerir ao: homens de hoje, se não pretendesse que, para que alguns possan viver e ser perfeitamente homens, outros devam ficar cravados a destino de serem homens apenas pela metade. Também na política, em conclusão, a meraempírica concepçã da alma e dos valores da alma resulta como a linha de força segund a qual se desenvolve todo o discurso aristotélico. Também aqui Aris tóteles é muito mais próximo de Platão do que se crê comumente: sã certos aspectos aberrantes da República platônica que o Estagirit critica e rejeita, não o ideal de fundo que ela exprime. 27. Política, 1-1 14, 1333 a 26-b 3.

3, Cf. Th. Waitz, (reinipresso em

Aristotelis

Organon,

2

vais.,

Lípsia

1844-1846

7. Ver o status quaestionis in Mignucci, Aristotele, Ana! iti ci Primi, pp. l9ss. Cf. ademais, V. Sainati, Storia delI’Organon aristorelico, Florença 1968. todavia, é justamente nessa ordem sistemática que devem ser udos. No centro, como se disse, estão os Analíticos (que Aristóteles talvez conside rasse uma única obra) os quais, muito cedo, foram divididos em Pri meiros Analíticos e Segundos Analíticos. Os primeiros tratam da estrutura do silogismo em geral, das suas diferentes figuras e dos seus diferentes modos, considerando-o de maneira formal, isto é, prescindindo do seu valor de verdade e estudando só a coerência formal do raciocínio. (De fato, pode perfeitamente haver um silogismo formalmente correto, o qual, partindo de determinadas premissas, deduz conseqüências que se impõem a partir daquelas premissas; mas se tais premissas não são verdadeiras, o silogismo, embora formalmente correto, chega a conclu sões não verdadeiras). Nos Segundos Analíticos, Aristóteles ocupa-se do silogismo, além de formalmente correto, também verdadeiro, ou seja, do silogismo cient(fico, no qual consiste a verdadeira demonstração. Chamo demonstração — escreve Aristóteles — o silogismo científico; chamo científico aquele silogismo com base no qual, pelo fato de possuí-lo, temos ciência. Então, se ter ciência é assim como dissemos, é necessário que a ciência demonstrativa proceda de prótases verdadeiras, primeiras, imedia tas, mais conhecidas, anteriores e causas das conclusões. Desse modo, com efeito, os princípios serão também pertinentes ao demonstrado. O silogismo, de fato, subsiste também sem essas condições, mas a demonstração não pode subsistir sem elas, uma vez que não produziria ciência Por conseqüência, além das premissas, os Segundos Analíticos ocupam-se de como estas são conhecidas e dos conexos problemas da definição. Nos Tópicos, Anstóteles trata do silogismo dialético, isto é, o silogismo que parte de premissas simplesmente fundadas sobre a opinião, ou seja, sobre elementos que parecem aceitos por todos, ou aceitáveis para a maioria, e oferecem, portanto, tipos de argumenta ção puramente prováveis. Enfim, nas Refutações Sofisticas, que na realidade deviam ser o último livro dos Tópicos’ o filósofo ocupa-se das argumentações sofisticas. 8. Cl’. Waitz, Organon, i, pp. 366s. 9. Segundos Analíticos, A 2, 71 b 17-25. lO. Como último livro (lota) dos Tópicos, Waitz o considera na sua edição do Organon; cf. a justificação que ele fornece no vol. 11, pp. 528s. Cf. também as indi cações dadas por Mignucci, Aristotele, Arialitíci Primi, p. 19, nota 2.

Aalen 1965), vol. II, pp. 293s. 450 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A FUNDAÇÃO DA LÓGICA 451 Todavia, deve-se ainda observar que o termo “lógica” não foi usado por Aristóteles para designar o que nós hoje entendemos por ele, O termo remonta à época de Cícero (e talvez seja de origem estóica), mas provavelmente só veio a consolidar-se com Alexandre O Estagirita chamava, ao invés, a lógica de “analítica”, e Analíticos são intitulados os escritos fundamentais do Organon A analítica (do grego análysis, que significa resolução) explica o método com o qual, partindo de uma conclusão dada, a resolvemos nos elementos dos quais deriva, isto é, nas premissas das quais decor re e, portanto, a fundamos e justificamos. A analítica é, substancial- mente, a doutrina do silogismo e, com efeito, essa doutrina constitui o núcleo fundamental, o eixo em torno do qual giram todas as outras figuras da lógica aristotélica. De resto, o Estagirita teve perfeita cons ciência de ser o descobridor do silogismo, tanto é verdade que, com toda clareza, no final das Reflua ções Sofísticas, afirma que sobre os discursos retóricos já existiam muitos e antigos tratados, mas sobre o silogismo não existia absolutamente nada O que equivale a dizer que foi, justamente, a descoberta do silogismo que possibilitou ao Estagirita a organização e a enucleação de toda a problemática lógica e a sua fundação, dado que a lógica (aristotelicamente entendida) é toda polarizada em torno do silogismo. 2. O quadro geral dos escritos lógicos e a gênese da lógica aristotélica Para nos orientar na exposição da temática lógica, é oportuno tra çar, em grandes linhas, o quadro geral que emerge dos escritos lógicos que nos chegaram. Eles certamente não foram compostos na ordem segundo a qual foram sistematizados pelos sucessores no Organon 4. Cf. Ross, Aristotele, p. 29. 5. Aristóteles cita esses escritos também com a expressão Escritos sobre o silogismo, além de Com O título Analíticos; c M. Mignucci, Aristotele, Gli Analitici Prirni, Nápoles 1969, p. 40 e nota 2. 6. ReJittações Sofisticas, 34, 183 b 34s.; 184 a Sss.

Ora. dá origem a numerosas dificuldades. na verdade. as catego rias. torna-se capaz de pôr-se a si mesmo e ao próprio modo de proceder como problema e assim. como “homem”. 1 b 25-27. ou ter. e decomponho a proposição. ou a quantidade. para r deixar escapar o sentido his tórico da lógica aristotél que ela asceu de uma reflexão em tomo aos procedimentos que os\ sf tinham atuado. são as supremas figuras de todos os possíveis predicados. Certamente influiu também o método matemáti co. chega a estabelecer o que é a própria razão. isto é. tal como apresentada nos tratados de lógica clássica e em grande parte da manualística. nas Categorias e no Sobre a Inter pretação. Aristóteles. devemos recordar. ao juízo e à proposição. análises concementes. Tal ligação subsiste. Categoria foi traduzida por Boécio por “predicamento”. obtemos palavras “sem conexão”. à t 454 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO totalmente ad