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Vila Mimosa: a origem, suas representações e seus personagens

Vila Mimosa: a origem, suas representações e seus personagens

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Trabalho realizado no final do curso de Teoria da Comunicação 2, ministrado na Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Trabalho realizado no final do curso de Teoria da Comunicação 2, ministrado na Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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Índice

Índice.......................................................................................................................................1 Introdução...............................................................................................................................1 Capítulo 1: A Origem..............................................................................................................3 A Europa do início do século XX...................................................................................3 A Belle Époque carioca...................................................................................................5 Da Cidade Nova à Praça da Bandeira: Surge a Vila Mimosa.........................................7 Capítulo 2: Análise teórica....................................................................................................13 Representações e imaginário.........................................................................................13 Cidadania cultural.........................................................................................................15 A invisível Vila Mimosa...............................................................................................17 Verticalidades e horizontalidades..................................................................................18 Capitulo 3: A vida na Vila Mimosa......................................................................................21 Sobre as meninas...........................................................................................................22 Sobre a economia do lugar............................................................................................25 Sobre a legislação..........................................................................................................27 Bibliografia...........................................................................................................................31

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Introdução
Nós escolhemos a Vila Mimosa como objeto do trabalho sem ter completa noção de como era o ambiente. Fomos instigados pela curiosidade de conhecer algo que não faz parte da nossa realidade, ainda que dessa forma tivéssemos que lidar com o desconhecido e que superar preconceitos latentes da nossa criação. Foi uma escolha corajosa e ao mesmo tempo determinante no nosso crescimento como seres humanos, e na nossa compreensão sobre o que chamamos de "mundo". Essa escolha expandiu o tamanho do nosso mundo, expandiu nossas noções de verdade/realidade, e nos fez flutuar por complexas dicotomias jamais vivenciadas. Chegar de um dia de trabalho, depois de exaustivas conversas com garotas de programa, sobre drogas, prostituição, fome e desespero, e depois sentar na frente de um computador da Apple para transformá-las em texto foi uma experiência reveladora, em razão da convivência em mundos tão distintos. Somos um grupo de cinco amigos que como todos os amigos são amigos por afinidades. E uma dessas afinidades é a paixão pelos bares e pelas conversas que eles propiciam. Quando nos foi apresentada a ideia do trabalho sabíamos que iríamos fazer algo nesse sentido, mas não tínhamos exata noção de que seria tão intenso quanto foi. Decidimos, a princípio, não ler nada sobre o lugar para não sermos influenciados por leituras alheias e às vezes não contemporâneas do lugar. Fomos às cegas conhecer um espaço novo, cheio de mitos e lendas, e isso nos fez seguir até o final tendo a certeza de que ninguém jamais enxergou a Vila Mimosa da forma que enxergamos. Não por termos um olhar mais apurado, mas por termos vivido situações únicas, por termos recortado a Vila da maneira que preferimos, sem a opinião de terceiros. As duas mulheres do grupo compraram a ideia, embarcaram na nossa aventura e foram importantíssimas na abordagem das personagens que serão descritas. Sem a presença feminina no grupo seria impossível a realização do trabalho. Optamos por não levar conosco um questionário pré-moldado que nos levasse a um objetivo específico. Buscamos fazer entrevistas abertas, onde o que nos guiou, na verdade, foram as histórias e pontos de vista dos entrevistados.

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Portanto, a nossa escolha de abordar a Vila Mimosa, entender o funcionamento de lá, foi nosso maior acerto. Desde o primeiro dia, não tivemos dúvidas de que tínhamos, ao menos, começado bem. Decidimos começar o trabalho através da Belle Époque francesa, que influenciou o mundo e trouxe grandes alterações na paisagem do Rio de Janeiro. Uma delas, a união de prostitutas em um bairro da cidade, nascia ali a semente da Vila Mimosa. Relatamos depois, os processos e as relações presentes no espaço da Vila Mimosa através de um olhar acadêmico. Identificando conceitos e aplicando ao que vivenciamos no local. Na terceira parte do trabalho estão nossas impressões sobre a Vila Mimosa. Também nessa parte estão os relatos das pessoas que vivem o dia-a-dia do lugar. Suas representações e sentimentos a respeito da Vila Mimosa. Os nomes dos entrevistados são fictícios para que suas verdadeiras identidades sejam preservadas.

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Capítulo 1: A Origem A Europa do início do século XX Paz significava "antes de 1914": depois disso veio algo que não mais merecia esse nome. como a indústria química. dos cabarés e do cinema. a fotografia. mas permitiu que umas séries de invenções fossem desenvolvidas. Era dos Extremos. A Europa do final do século XIX e início do século XX experimentava um clima de latente euforia e grande harmonia social. a penicilina. o sabão em pó. Era compreensível. Em 1914 não havia grande guerra fazia um século. período sem guerras no Velho Continente e que permitiu aos europeus desfrutar cada vez mais a vida. A conquista do ar através dos aviões e o desenvolvimento de grandiosos transatlânticos aproximava a Europa da América. uma série de inovações tecnológicas também apareceram. elétrica. o refrigerador. o fogão a gás. Os avanços técnicos possibilitaram a criação de motores a combustão para automóveis e caminhões. o rádio. ERIC HOBSBAWN. as roda-gigantes. parques de diversões elétrico. os adubos artificiais. os eletrodomésticos. o cinema. medidor de pressão arterial. o aquecedor elétrico. É nessa época que surgem o telégrafo. o telefone. Surgiram novos ramos industriais. farmacêutica. Vivia-se a Belle Époque. A Segunda Revolução Industrial não apenas possibilitou o aumento da produção. a seringa hipodérmica. as cervejas engarrafadas e a aspirina. os refrigerantes gasosos. o sorvete. A Segunda Revolução Industrial alimentou esse sentimento de euforia vivido na Europa. a anestesia. os elevadores. escadas rolantes. O mundo parecia se mover mais rapidamente. as montanhas-russas. o papel higiênico. 4 . através dos cancans. os processos de pasteurização e esterilização. os vasos sanitários com descarga automática. as comidas enlatadas. Durante esse período. O surgimento de coisas antes jamais pensadas alterou completamente o cotidiano dos cidadãos europeus. a iluminação elétrica. petrolífera e de aço. os arranha-céus. estetoscópio. os sistemas metroviários. a escova de dentes.

Esses traficantes. Renato Cordeiro. também conhecidos por “mercadores do prazer”.Esse sentimento de euforia incontida que era vivido na Europa possuía ainda mais força em Paris. Revelava o anacronismo de sua velha estrutura urbana. p. e se caracterizasse como centro cosmopolita por excelência do Brasil. levando à miséria e ao desemprego milhares de pessoas. A Belle Époque carioca No início do século XX. teatros. até então. operetas. livrarias. Tudo acabava em festa.104) 5 . p. “Embora fosse o centro político e financeiro e tivesse o maior contingente populacional e consumidor do país. após a consolidação da República. As aldeias pobres conheceram um processo brutal de desagregação da sociedade camponesa tradicional como fruto das mudanças propiciadas pela mecanização dos campos e pela urbanização acelerada”. Segundo Marcelo Gruman. especialmente na região agrária da Europa. capital federal. o Rio de Janeiro mantinha ainda as feições de uma cidade colonial. enquanto a região Ocidental da Europa vivia um momento de grande enriquecimento cultural e glamour. como a Moulin Rouge. a modernidade e a “civilização”. (GRUMAN. 1994. tornando famosas casas de espetáculos. Marcelo. A capital francesa fervilhava culturalmente e influenciava o mundo inteiro com seus cafés-concertos. Fazia-se necessária a remodelação da cidade. “Grande parte da Europa não conseguia acompanhar a dinâmica da industrialização e a invasão da tecnologia no campo. eram os responsáveis por trazer essas meninas para o continente americano. (GOMES. a Oriental não conseguiu acompanhar esse ritmo de modernização. boulevards e sua alta costura. assistiu à aceleração do ritmo de vida da sua população e à implementação de um projeto que buscava o progresso. O Rio de Janeiro. para que a ordem e o progresso civilizatórios fossem encenados. Era preciso construir um palco ilusionista para representar os tempos modernos com todos seus aparatos”.5) A miséria e a fantasia da “cidade” fez com que muitos pais negociassem suas filhas com traficantes de mulheres visando a garantia da sua sobrevivência. balés. Os parisienses buscavam coisas que quebrassem aquela rotina comportada. o Brasil experimentou significativas alterações na sua paisagem urbana.

1). (GOMES. Marcelo. Festas populares e a prática da capoeira foram reprimidas e a circulação de animais pelo centro da cidade foi proibida. houve o desenvolvimento de vida noturna e. surgiram novos personagens na paisagem do Rio. “As transformações não devem ser vistas apenas enquanto empreendimento. surgiram grandes avenidas. ao fim. Diversos cortiços foram demolidos e. A nomeação casou-se perfeitamente com o projeto modernizador desenvolvido pelo Estado brasileiro. Cafetões e prostitutas passaram a frequentar os cafés e teatros e a interagir com a população. 6 . Somado a isso. deslocando a cidade para o eixo das capitais do mundo moderno.105) O modelo de modernização carioca visava inserir a cidade em um mundo civilizado reproduzindo o mundo europeu através de novas formas de lazer e possibilidades de busca do prazer. Transforma-se a cidade numa ‘ floresta de símbolos’ para que possa ser lida como ‘moderna’”. e confeitarias. “livre das ruelas estreitas e sujas. A modernidade sonhada e almejada passava pela eliminação do que era considerado resquício de um período colonial. segundo Renato Cordeiro Gomes. p. Em visita ao Rio em 1912. Buscava-se construir uma nova imagem para a cidade. transformou radicalmente o cenário da capital federal. Com isso. cafés. do comércio ambulante com pouca higiene e das epidemias que aterrorizavam os estrangeiros que aqui chegavam”. promovida pelo prefeito Pereira Passos. em seus lugares. da população negra e pobre que vagava pelo centro da cidade. O desejo era que fosse construída a “Paris dos Trópicos”. não passa de uma subcosmópolis que gravita em torno de Paris. Indicam como o Brasil pôde demonstrar ao mundo o inaugurar da ‘modernidade’ nesta cidade dos trópicos. a poetisa francesa Jeanne Catulle Mendès cunhou o termo que viria a ser sinônimo de Rio de Janeiro. a política do “Bota-abaixo”. já que. Tenta-se apagar a tradição da cidade colonial. Renato Cordeiro. para erguer uma cosmópolis que. A busca por esse “refinamento” europeu promoveu uma verdadeira caça aos costumes tipicamente cariocas da época. p.Também é nesse período que a cidade ganha o epíteto de “Cidade Maravilhosa”. cinemas. do odor fornecido pelos animais que circulavam pelas ruas. teatros. 1994. mas pelo viés da comunicação simbólica. “esse epíteto não remete apenas à criação divina da natureza. com ela. A mão do homem a completa e a urbaniza”. (GRUMAN.

(Marcelo Gruman. p. presentes de seus admiradores). a Confeitaria Colombo tornou-se um dos locais preferidos da pequena elite burguesa da cidade. que se tornou o centro das atividades econômicas do país. uma nova ordem urbana. Rússia. Romênia. quando o êxodo iniciava. Motivo: a chegada das ‘madames’. Através do porto. “Lá pelas duas horas da tarde. ao desembarcar. que consumia as empadas e croquetes servidos no local. A Colombo possuía uma freqüência de caráter familiar durantes a tarde que se alterava com o anoitecer. tinham como única opção para sobrevivência. Essas meninas que. Da Cidade Nova à Praça da Bandeira: Surge a Vila Mimosa A expansão urbana que aconteceu na segunda metade do século XIX no Rio de Janeiro promoveu uma grande agitação no porto da cidade. milhares de meninas oriundas do leste europeu desembarcaram na cidade. viriam a ser chamadas de “polacas”. ou melhor. por conseguinte. A sociedade brasileira da Belle Époque buscava apagar a imagem de uma nação constituída por indivíduos de origem indígena ou africana. abriu-se espaço ali para o desenvolvimento de um mercado de baixo meretrício. A presença das meretrizes funcionava como um fantasma para as “mulheres honestas”. a prostituição.O surgimento de uma “indústria do prazer” no Rio de Janeiro permitiu que aparecessem novas maneiras de circulação nas ruas e. Devido ao enorme fluxo de marinheiros e de uma população de baixa renda. cocottes. 7 . desembarcavam imigrantes estrangeiros ou migrantes de regiões mais pobres do país em busca de melhores condições de vida. Áustria e Hungria. e servia como comparação para o comportamento feminino no espaço urbano. Símbolo dos cafés e restaurantes que apareciam pela cidade. 5) As cocottes (ou “francesas”) simbolizavam o modelo francês de prazer a ser encontrado. principalmente. e seus coronéis”. Os aliciadores agiam. as senhorinhas costumavam chegar e ali ficavam até às cinco e meia da tarde. Por ali. Eram prostitutas brancas. nas aldeias pobres da Polônia. bem vestidas e adornadas com jóias (na maioria das vezes. A vestimenta e a maneira de agir daquelas mulheres simbolizavam os desejos e aspirações do imaginário social dos que tentavam se tornar modernos.

36). as prostitutas consolidam o que ficou conhecido como “Zona do Mangue”.) tinha no quarto da frente Flora Berta. morava um tipozinho franzino e pintado. Em uma região que constituía mais de dois quilômetros de raio. a miséria não deve ser considerada como fator único para a vinda dessas mulheres para o Brasil. A preocupação com a prostituição e o tráfico internacional de mulheres chegou a tal ponto que a Polícia dos Portos passou a exigir certos documentos a mulheres que viajavam sozinhas que não eram pedidos a outros imigrantes: “carteira de identidade do país de origem. João do Rio. pregados a tacha pelas paredes. No quarto pegado. morava a Rosinha da Gruma. Lená Medeiros. apaixonada por um adolescente belo 8 . “A casa (. a Formiga.Apesar de ter um papel importante no aliciamento das jovens. as prostitutas foram expulsas do centro do Rio de Janeiro. um sofá servindo de toilete e as fotografias e os cartões postais dos seus apaixonados. que lhe levavam os magros vinténs. As “polacas” misturam-se. As meretrizes foram mandadas em direção aos subúrbios da cidade. cujo primeiro e único carinho fora a aplicação de uma sova tremenda. Devido a seu fenótipo (mulher branca. 1992. atestado policial de boa conduta e bons costumes e certificado de exercício de uma profissão lícita ou chamamento de pessoa residente no Brasil” (MENEZES. Tinha talvez trinta permanentes. as “polacas” se encaixaram perfeitamente em um ideal extremamente romantizado da burguesia carioca e passaram ser vistas e valorizadas enquanto acompanhantes de luxo. ardendo de devotamento e choravam quando se viam preteridos pelo mais velho. então. As “polacas” não eram necessariamente polonesas e resumiam a imagem das mulheres nativas de regiões atrasadas agrícola e industrialmente da Europa. Com a política de modernização e refinamento da cidade promovida por Pereira Passos. bela envergadura de atleta. que se fizera especialista em amar meninos.. uma pobre mulher de boca mole e dentadura postiça. dos treze aos dezoito anos. às prostitutas brasileiras e se mudam para a rua Pinto de Azevedo. loira e de olhos claros). As paredes estavam cobertas dessa ilustração amorosa e edificante. p.. assim como outros imigrantes “decentes”. com uma cama quebrada. Elas desejavam “fazer a América”. e acabaram se estabelecendo no bairro da Cidade Nova. Na alcova pegada. na crônica A menina amarela descreve uma das casas da “Zona”. Muitas delas já eram consideradas prostitutas experientes e outras eram recém-iniciadas na profissão quando decidiram mudar-se para o Novo Mundo.

o irmão de Flora. onde. de um guarda-comida e da bilha de barro. e a criada . sempre envolta num chalé e fumando certo cachimbo tão comprido. além da mesa. É que a maior parte das prostituas oriundas do Leste Europeu era judia. Esse pessoal fazia ponto de reunião na estreita casa de jantar. faz com que parte das “polacas” da Zona do Mangue se transfira para a Amazônia. O primeiro endereço da Vila Mimosa. 9 .uma criada baiana. De modo que de repente. rebaixada por falta de pagamento. em que se expunham os nomes das pessoas devedoras. ex-cantora de café-concerto. Era alguém que entrava”. subitamente empolada pelas caretas de um cômico jovem chamado Andrade. que parecia mais um narguilé. Nina Banez. Para passar aos quartos. e no quarto da sala de jantar. que lhe batia diariamente. na conversa animada. Ainda para os fundos moravam a velha mãe de Flora. havia uma lousa negra.como o Perseu de Benevenuto. Rua Pinto de Azevedo. ser ambíguo e serpentino. havia um silêncio. Quartos havia que exigiam mesmo a passagem por outro. No final do século XIX. já eram as preferidas da alta burguesia da capital amazonense. Outro fator que explica o desaparecimento das “polacas” da Zona do Mangue é a perseguição que entidades judaicas realizaram contra elas. passavase por ali. A perseguição e repressão das autoridades cariocas e as notícias de prosperidade e riqueza oriundas do Ciclo da Borracha vindas de Manaus. e a ligação de uma comunidade inteira a atividades como a prostituição representava o perigo de uma estigmatização e da construção de uma imagem negativa perante a população nativa. com um tipo valentaço.

ignoravam mesmo o que fosse o pudor. O segundo endereço. com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. criam-se novas maneiras de sociabilidade e são desenvolvidas novas formas de comportamento.porque elas tinham dignidade – era ter muitos amantes e não se zangar quando as outras lhes tomavam alguns”. ainda impúberes e já com o conhecimento completo das mais tremendas luxúrias. Com os maridos envolvidos no conflito. então. Com isso. na rua Pinto de Azevedo. se apresentam por lá. tanto masculino como feminino. Diversos shows aconteciam nos bares e cabarés que compunham a Zona do Mangue. Há uma emigração em massa da Europa. as mulheres nascidas naquele meio desde crianças. Após a chegada dessas mulheres que fugiam da guerra. E a sua dignidade. “Os homens pareciam ir ali despir a vergonha para estar à vontade. (João do Rio. Juntaram-se. e muitos desses imigrantes vêm parar no Brasil.Porém. muitas mulheres desembarcam em solo carioca com muita fome e sem perspectivas de conseguir algum emprego no mercado formal de trabalho. A menina amarela) Rua Júlio do Carmo. como Luiz Gonzaga. prestando-se a todas as ignomínias. . o número de meretrizes vindas do leste europeu aumenta. ainda na Cidade Nova. onde ficam por mais de dez anos. às últimas “polacas”. 10 . Grandes artistas. A prostituição cresce e se desenvolve. a Zona do Mangue muda de endereço e se estabelece na rua Júlio do Carmo.

a Zona do Mangue muda de endereço novamente e vai para a esquina da Travessa do Guedes com a rua Miguel de Frias. o prédio é apelidado de “Piranhão”. 11 . Nova mudança. em referência às antigas moradoras do local. Em 1994/1995. Devido ao senso de humor e à irreverência do carioca. Vai para a rua Sotero dos Reis. chamada “Vila Mimosa”. Travessa do Guedes e Miguel de Frias. O nome pega. Ao chegarem no local. É nesse período que as “polacas” saem de vez de cena. e a Zona do Mangue passa a ser conhecida como Vila Mimosa.Após algumas obras. por causa da construção do prédio que seria a sede da Prefeitura do Rio de Janeiro. a Vila muda novamente de lugar. na Praça da Bandeira. as prostitutas se hospedam em uma vila já existente.

Atual endereço. 12 .Rua Sotero dos Reis.

que dá a ver uma ausência. De acordo com Pesavento: “Representar é. posteriormente. Dentre esses novos aspectos que entram em cena. A ideia central é.Capítulo 2: Análise teórica Representações e imaginário Um novo tipo de abordagem histórica trouxe para a cena principal aspectos antes deixados de lado ou ignorados ao se analisar um período histórico. fundamentalmente. espécie de reflexo. que recoloca uma ausência e torna sensível uma presença (. argumenta Sandra Jatahy Pesavento (História & História Culutral. é presentificação de um ausente. p. É o que conta Jéssica. Ocorreram mudanças epistemológicas que fundamentaram um novo olhar da História. 2003. sua imagem perfeita. As que se prostituem na Vila Mimosa criam uma representação do local enquanto um lugar onde vão trabalhar durante um certo tempo. muitas mulheres enxergam na prostituição uma forma de sair da miséria. uma das mulheres entrevistadas na execução desse trabalho: 13 . Sem nenhuma perspectiva de conseguir um emprego no mercado formal de trabalho. Sandra Jatahy.) A representação não é uma cópia do real. pois. intimamente entrelaçados e interdependentes) constituem o cenário da Vila Mimosa. mas uma construção feita a partir dele”(PESAVENTO.. As mulheres que se prostituem lá. estar no lugar de. ganhar dinheiro e conseguir. 2003). é um apresentar de novo.40) Três grupos facilmente separáveis (porém. Cada grupo se manifesta de uma forma diferente e constitui uma representação própria da Vila Mimosa. o da representação possui uma grande importância.. estudar ou trabalhar com outra coisa. desenvolvendo um novo campo denominado História Cultural. a da substituição. os frequentadores e os comerciantes e vendedores ambulantes que trabalham na rua Sotero dos Reis e não estão diretamente ligados à prostituição. pois.

vendedores de amendoim. Há ainda um terceiro grupo. onde se pode sentar e tomar uma cerveja sem ter a preocupação de ser assaltado. bares. Para seu Jorge. cabeleireira. o que os pais dão não dá nem pra começar. barraquinhas de churrasquinho. Eu pago todas minhas contas direitinho. que não enxerga e não representa a Vila Mimosa enquanto um lugar para se obter recursos financeiros. um outro grupo se instalou na Vila Mimosa com o objetivo de trabalhar lá. Interligado ao conceito de representação. Gosto muito desse lugar. É o que relata Geórgia. manicure e esteticista do salão de beleza DEPILASIM: – Acho o lugar muito feio e mal cuidado. apesar de gostar bastante do ambiente em que trabalho.– Eu faço o que é errado aqui. a Vila Mimosa aparenta ser um local não muito higiênico. mas lá fora eu faço certo – argumenta a mulher de 28 anos – eu preciso criar meus filhos. – Casei-me com três mulheres que conheci aqui. Pesavento destaca outra alteração importante no cenário das mudanças epistemológicas trazidas pela História Cultural. angolano frequentador de longa data da Vila Mimosa. é um ambiente muito tranquilo. nas barraquinhas de churrasquinho e vão até lá atrás do principal atrativo da Vila Mimosa. a ideia de imaginário. Mas. Para esses trabalhadores que não estão diretamente envolvidos na prostituição. as prostitutas. apesar disso. 14 . São os comerciantes e vendedores ambulantes que circulam pelo local e trazem um novo tipo de movimentação financeira para a região. graças à Deus! – e completa dizendo o que deseja fazer quando conseguir juntar a quantidade de dinheiro desejada – Meu sonho é me formar em Letras. que consomem nos bares. Enquanto as prostituas pensam em sair dali assim que conseguirem uma certa quantia de dinheiro. a representação deles da Vila Mimosa remonta a um ambiente tranquilo e bom para se trabalhar. Há na Vila. lojas especializadas em roupas íntimas e um salão de beleza. São os frequentadores. o local é representado como um lugar de diversão e possibilidade de encontros e descobertas de novas paixões.

a Vila Mimosa é tachada como uma localidade tomada pela prostituição e pelo crime por aqueles que não frequentam o local. dando sentido ao mundo. Cidadania cultural O cotidiano na Vila Mimosa apresenta diversas atividades culturais. É própria do ser humano essa habilidade de criação/recriação do real. George. 2004. p.43) Recheada de estereótipos que permeiam o imaginário coletivo. mas na maioria das vezes elas são dirigidas como recurso para resolver uma série de problemas para a comunidade. “o imaginário é capacidade humana para representação do mundo. De acordo com Pesavento. pela "sociedade civil valorizada" (YÚDICE. A ideia do imaginário como um sistema remete à compreensão de que ele constitui um conjunto dotado de relativa coerência e articulação” (PESAVENTO. p. Sandra Jatahy.43/44) Profundamente enraizado no imaginário coletivo. gerando representações totalmente diferentes daqueles que costumam estar lá. 42). p. seus moradores e trabalhadores não são considerados. com o que lhe confere sentido ontológico. Apesar desse fato a VM. 2003. As atividades variam de uma simples roda de samba ao lançamento de uma grife. O argumento para colocá-los em tal condição é de que suas atividades não têm o conteúdo erudito 15 . esse “magma de sentido” costuma ser um fator que repele possíveis visitantes da zona de prostituição e favorece a construção de uma representação social extremamente influenciada por uma visão pré-moldada. construíram para si. fomentadores culturais e muitas vezes são postos na condição de minoria aculturada sem instrução. em especial do carioca. Sandra Jatahy. de um desfile de beleza à aulas livres para aumentar o grau de instrução das meninas que trabalham no local.“Entende-se por imaginário um sistema de ideias e imagens de representação coletiva com que os homens. formando uma espécie de magma de sentido ou energia criadora” (PESAVENTO. Ora essas atividades são meras expressões artísticas. em todas as épocas. 2003.

ou seja. O conteúdo da cultura diminui em importância à medida que a utilidade da reivindicação da diferença como garantia ganha legitimidade. têm aulas de inglês e espanhol com voluntários de fora. tanto pelos voluntários quanto pela a associação que cuida das profissionais do sexo (AMOCAVIM – Associação dos Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa). Além disso. 1924. p. dar uma nova alternativa de trabalho para quem quer sair da "vida da rua".semelhante aos das classes mais abastadas que serviriam para promover uma melhora social e econômica. Assim fica refutada a argumentação de que na VM não se produz cultura e conhecimento. O resultado é que a política vence o conteúdo da cultura. por um lado para aumentar o grau de instrução das meninas. que funciona como recurso. e de português com voluntários da comunidade. quanto. por outro. 34) O trabalho realizado na Vila Mimosa. ligada à Presidência da República. assim. segundo Flores e Benmayor. O problema desse argumento é que a cultura de uma sociedade é pautada pela diferença e "num conjunto de idéias e valores que imbui o indivíduo de identidade" (Sapir. Sem essas aulas tudo poderia ficar mais difícil" diz Maria da Graça. junto com a comunidade ao redor. Ela é. Esse curso. somado aos cursos de digitação e secretariado. recebendo aulas de corte e costura. "Essas atitudes para aumentar lado cultural das prostitutas visa dar a elas mais cidadania. 401). Também fica claro seu papel como recurso de mudança social e econômica e a criação de cidadania: “a cultura está sendo crescentemente dirigida como um recurso para a melhoria sociopolítica e econômica. e a diferença é um ótimo recurso para fomentá-la: “A cultura é. desde janeiro. foram possíveis graças a um financiamento da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. mais do que um ajuntamento de idéias e valores. presidente da AMOCAVIM. para aumentar sua participação nessa era de envolvimento político 16 . busca melhorar a qualidade de vida das meninas e dos moradores. as prostitutas estão. George. As aulas servem. As prostitutas. As reivindicações pelo reconhecimento cultural normalmente são meios para se chegar ao esvaziamento do domínio ou da privação injusta” (YÚDICE. 2004. p. fundamentada na diferença. O seu conteúdo deixa de ter grande importância quando o objetivo é usá-la como objeto de melhoria sociopolítica e econômica.

Cheia de mansões que traziam consigo minúsculos quartos. quem mais arrecada com os serviços oferecidos na cidade são os grandes proprietários. de conflitos acerca da cidadania” (YÚDICE. A labuta é livre e os preços variam de acordo com a clientela. mas fontes seguras me afirmaram que ele acontece semanalmente. construíram Mimosea próxima de um mangue. forte economia.26) A invisível Vila Mimosa Imaginamos que se Ítalo Calvino fosse incluir a Vila Mimosa nas suas cidades invisíveis. Ninguém sabe ao certo como funciona esse pagamento. p. A diversão propiciada pelas belas mulheres de olhos azuis e enormes seios encantava os passantes e alimentava a ira dos puristas. George. Se por acaso ouvires que trata-se de uma cidade violenta. musicalidade da mais rica e variedade na gastronomia popular. Os viajantes chegavam até ela buscando simplesmente a diversão. desacredite. Você sabe melhor do que ninguém. que cobram pela permanência em seus quartos fortunas contando os minutos de utilização. Dizem ainda que essa seria a única lei da cidade. têm família. 2004. Dessa forma. O cheiro característico de Mimosea pode ser sentido distante e serve para atrair simpatizantes e repelir os invasores. sábio Kublai. além disso. assim o faria: "No século passado. As mulheres que trabalham em Mimosea.decadente. vivem suas vidas fora da cidade. outros trabalhos e chegam ao local apenas para maximizar sua renda. em sua maior parte. a cidade apresenta. Mimosea nunca foi pensada para ser lugar de moradia. que jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Ela era itinerante e de tempos em tempos levava suas atrações para outros pontos do império. Mimosea nunca estabeleceu-se definitivamente em um espaço. filhos. Portanto se ouvir alguém lhe descrever Mimosea como uma simples zona de prostituição mantenha-se receoso. A Guarda do Império recebe moedas dos comerciantes locais para proteger os turistas e passantes. 17 .

Information sur lês Sciences Sociales. De acordo com Milton Santos. Milton. justamente a partir do uso pragmático que o qeuipamento modernizado de pontos escolhidos assegura” (SANTOS. E ela se reconstrói de vez em quando sem que ninguém pare para descansar”. essencial à sobrevivência do conjunto. atuam os “macroatores”. Local onde os interesses privados tendem a prevalecer sobre os interesse coletivos/públicos. Nas verticalidades. 18 . 106) No eixo horizontal. 1975) segundo a qual o território pode ser visto com um recurso. mas ouso afirmar que há beleza por lá. 110). um forte sentido coletivo. No eixo vertical. nas horizontalidades o que prevalece é o “espaço banal”. Deixando a evolução e manutenção de uma área nas mãos de sociedades privadas. todos estariam representados no espaço banal (empresas. “As verticalidades realizam de modo indiscutível aquela ideia de Jean Gottman (‘The evolution of the conception of territory’. pessoas). 2001. “aqueles que de fora da área determinam as modalidades internas de ação” (SANTOS. isso há. Verticalidades e horizontalidades Segundo Milton Santos (Por uma Outra Globalização. Há nas verticalidades o que François Perroux denominou de “espaço dos fluxos”. que seria o espaço das vivências. 2001. Milton. estariam as relações institucionais. as relações que acontecem dentro de uma sociedade aconteceriam em dois grandes eixos: vertical e horizontal. instituições. Cria-se um “exercício da solidariedade. 108) Enquanto nas verticalidades predomina o “espaço dos fluxos”. inidvíduo/empresa.Se Mimosea é a mais bela cidade do Império eu não me arrisco a dizer. p. as ações que o Estado promove. p. indivíduo/espaço geográfico). estariam todas as demais relações (as relações Há nas indivíduo/indivíduo. Milton. horizontalidades. 2001). p. indispensável ao trabalho e que gera a visibilidade do interesse comum” (SANTOS. 2001.

“Esse espaço banal. 2001. um eixo vertical. no qual um pequeno grupo determina como uma grande área deve agir e se comportar. Ele pode ser recebido através de alimentos e bebidas alcoólicas que os comerciantes dão aos policiais. propina paga a policiais para que façam vistas grossas em relação às atividades que acontecem por lá. Os comerciantes são forçados a pagar o aluguel semanalmente. fornecem com os comerciantes uma relação de fidelidade. conseguimos identificar relações que se encaixam nos dois eixos sugeridos por Milton Santos. a relação mais vista e frequente é a prostituição. chegando a castigos físicos. que cobra caros aluguéis para quem deseja montar um negócio ali. essa extensão continuada. A relação e a negociação acontecem de forma direta. e os inadimplentes sofrem severas punições. integrantes da Polícia Militar e milicianos agem com uma organização. em que os atores são considerados na sua contiguidade. Milton. um fator de produção” (SANTOS. Outra relação vertical observada na Vila Mimosa é a com policiais militares. Desse modo. freqüentando sempre o mesmo local. Outra relação que ocorre no âmbito horizontal é a entre comerciantes e prostitutas. que controla e regula o funcionamento da Vila Mimosa. Mulheres seminuas conversam com os transeuntes e negociam seus corpos. No segundo andar dos bares da Vila Mimosa há quartos que os comerciantes alugam para que as prostitutas atendam seus clientes. p. atraem clientela para determinado bar que negocia descontos com as prostituas no aluguel dos quartos. sem intermediários. Configurando assim. são espaços que sustentam e explicam um conjunto de produções localizadas. Passam lá para recolher o “arrego”. 109) Ao transportarmos essa análise para as relações existentes na Vila Mimosa. porém. O “arrego” nem sempre é recolhido em dinheiro. dentro de uma área cujas características constituem. As prostitutas não são vinculadas diretamente aos bares. 19 . Viaturas da PM circulam rotineiramente pela rua Sotero dos Reis. Já nas horizontalidades. Os espaços disponíveis para bares na Vila Mimosa pertencem todos a esse grupo. Há uma troca de vivências e ideias (de forma direta ou indireta) toda vez que isso acontece. também. Apesar de não formarem uma instituição legalmente constituída. interdependentes.

Organizadas.Uma terceira relação horizontal existente está presente na AMOCAVIM. as prostitutas desenvolvem ações em parceria com outras instituições que permitem uma melhor qualidade de vida das mulheres que trabalham lá. 20 .

Entretanto poucos sabiam que não era na Rua Ceará a VM. Há vendedores informais que expõem suas mercadorias no chão.70 no total . quatro bares. Mulheres seminuas caminham pela rua com a tranquilidade de quem está em casa. sombra. cosméticos (batom. cremes). chamou-nos a atenção um shopping chamado Club das Primas.são parecidos entre si: Luzes vermelhas. enquanto outros perambulam pelas ruas. No mesmo shopping há uma loja de roupas customizadas para as prostitutas. Os bares e as casas de show . uma rua bem estreita que força o contato mais próximo dos transeuntes e dificulta a circulação de veículos. ambiente escuro e música alta ao gosto do freguês . 21 . roupas (lingeries. Estes vendedores vendem diferentes produtos: sucos. "É só saltar na Praça. Já quase no fim da parte movimentada. Nesta espécie de corredor. A Praça da Bandeira é a referência mais recorrente quando o assunto é a Vila. Caminhamos mais alguns passos e a ideia do sagrado é completamente substituída pela do profano. um salão de beleza e 10 quartos no segundo andar do local. Todo o levantamento de dados e quase todas as entrevistas contidas no trabalho foram feitas em um dos bares do local. Detalhe que os motociclistas detestam quando há essa confusão de lugares. desodorante. nas janelas dos estabelecimentos.Capitulo 3: A vida na Vila Mimosa Sobre o espaço e sua localização Todos do grupo sabiam por onde ficava a Vila Mimosa. Preferem que não haja "mistura". churrasquinho. Há ainda outro ponto que merece destaque que as pessoas chamam de "U". nem todos entretanto sabiam chegar lá com precisão. doces. atravessar a passarela sentido linha do trem que você está na Rua Ceará".Jukeboxes. salgados. Na Rua Ceará viramos à direita na segunda transversal e podemos nos considerar na tão falada Vila Mimosa. nela o que há são inúmeros motoclubes e bares que tocam rock durante a noite. A primeira impressão é a de que estamos entrando numa dessas festas de Igreja: Barraquinhas de cachorro-quente. perfume. biquínis. tops). o comércio é intenso.

A rua é de paralelepípedo. grande parte são mães solteiras e sustentam seus filhos sem a ajuda dos respectivos pais. Devido à distância. O tempo em família é escasso. que cuidam e educam as crianças enquanto suas filhas trabalham para dar sustento à família. Muitas provêm do nordeste do país. Definitivamente a Vila Mimosa é um lugar que deve ser conhecido: A maior zona de prostituição heterossexual do mundo. lá nos sentimos verdadeiramente na Vila Mimosa. São elas. elas geralmente contam às famílias que trabalham como domésticas ou acompanhantes. bijuterias. os bares são casas adaptadas. e as barraquinhas esprememse nas calçadas. um lugar é comum entre elas: a Baixada Fluminense. As meninas que trabalham na Vila são em sua maioria de baixa classe social e chegaram a prostituição por necessidades financeiras aliadas a falta de instrução e oportunidade. hoje o cenário disposto pela rua Sotero Reis é bem diferente. O ambiente é agradável e extremamente informal. dormindo e trabalhando em quartinhos minúsculos de aproximadamente 4x2m. Além da Vila Mimosa. as avós. Os filhos dessas prostitutas parecem ter sempre o mesmo destino: a casa das avós. aos finais de semana elas trabalham.incensos. O clima no “U” é completamente diferente do vivenciado no Club das Primas. As origens de sua renda em 90% dos casos são omitidas. Por isso. Em nossa apuração notamos que todas as meninas entrevistadas moram na baixada. entre outros. muitas não retornam às suas casas e passam a semana no clube. competindo com churrasqueiras e com mulheres pelo espaço. é impossível caminhar pela VM nas calçadas. onde. surpreendentemente não é permitida a entrada de travestis e garotos de programa. e 22 . Mas também é comum a prostituição entre mulheres casadas. Sobre as meninas Se a origem da Vila Mimosa nos remete às polacas e aos hábitos europeus do século XIX. chegamos a beber cervejas e ouvir Caetano Veloso em um dos bares sem que nos sentíssemos ferindo qualquer gosto alheio. O cheiro das churrasqueiras está impregnado no ambiente e pode ser sentido antes mesmo de se entrar na rua.

a gente paga. Geralmente. elas empregam a maior parte de seus lucros nessa atividade e por isso são repelidas pelas outras meninas que não fazem uso desse tipo de droga. Quando uma garota deixa de pagar algo em algum estabelecimento dentro dos limites da Vila Mimosa. mas eu não chamo. O Clube das Primas abriga quatro bares. e segundo 23 . por exemplo. um salão de beleza. tudo depende do movimento de clientes. O casal de comerciantes responsável pela loja se reveza para cumprir o expediente do estabelecimento. O programa no Clube das Primas custa em média R$ 27. É o que afirma Natasha. as mulheres que se prostituem no beco. estão as “meninas do beco” que se prostituem usando os quartos de outras casas. Alguns comerciantes optam por uma conversa sincera com as inadimplentes. dívidas. e algumas mesas de sinuca espalhadas no espaço central. que é pago ao dono do clube. O local pertence a quatro policiais militares que alugam a estrutura do clube para outros comerciantes. uma loja de roupas segmentada. A loja de roupas possui mini peças íntimas penduradas por todo o teto e os preços variam de 5 a 25 reais. O mesmo ocorre com o movimento no Clube que é sempre maior até a primeira quinzena do mês. eles alegam saber a forma agressiva como elas serão tratadas pelos seguranças. e contra elas em relação a conduta de cada uma. R$ 7 destinamse ao aluguel do quarto. não são perdoadas. senão eles batem muito nas meninas”. mas garante que o movimento é maior no começo do mês. É comum vê-las completamente depiladas. desse valor. o DEPILASIM. A respeito delas é interessante citar o preconceito que foi desenvolvido por uma parte da Vila. são conhecidas pelo vício em cocaína. fazendo as unhas ou usando serviços de depilação. As meninas não possuem expediente fixo e trabalham de acordo com sua vontade. Próximo ao Clube. pagando o valor do quarto elas podem usá-lo a qualquer hora do dia ou da noite. as meninas estão sempre escovando os cabelos. Para elas em relação ao público. O forte esquema de segurança que existe no lugar está para elas e contra elas ao mesmo tempo. Já o salão consegue ter maior estabilidade. ela é castigada ou até mesmo expulsa do local. balconista de um dos bares do Clube das Primas: “Eu não chamo a segurança.durante a semana nem sempre é vantajoso voltar para casa. Período no qual os freqüentadores gastam mais.

Durante o ensaio para o ato de Natal a presidente da associação Cleide Nascimento comentava: “Esse professor é muito chato! Daqui a pouco elas desistem. ainda que pequena. desfiles e o tão aclamado concurso de beleza “Gatinha Mimosa”. obviamente.. depiladora do salão. 24 . que garante a realização de atividades com outra natureza. há pessoas que vão lá apenas para tomar cerveja e conversar.. As meninas alegam que muitos homens só vão ao Clube beber e “tirar onda com a cara das putas”. coloridas e desenhadas também são bem usuais. aqueles que procuram exclusivamente sexo. mas nem todas vão lá procurando garotas de programa. Apesar da prostituição ser o maior objetivo da Vila Mimosa existe uma estrutura. tem que respeitar. entre elas citamos: artesanato. elas saem e só voltam se assim preferirem. Como quase tudo na VM depende da prostituição. prostituta do beco há quatro anos afirma: “Durante os finais de semana isso aqui enche. teatro e outros.sem prestar contas a ninguém. A AMOCAVIM oferece diversas oficinas.Geórgia. essa se tornou uma queixa frequente em todos os âmbitos. Mas durante a semana só tem mosca e homem que vem tirar onda com a cara das putas”.” Quem chega na Vila e conversa com funcionários e principalmente com as meninas só escuta uma reclamação: o movimento. elas tem o jeito delas. o que evidencia o caracter de liberdade com que as mulheres trabalham . o estilo brazilian wax (meio de depilação no qual se retira todo o pêlo pubiano) é o mais pedido. Unhas grandes. mas nem sempre as aulas agradam ao gosto das meninas. tem muita gente mesmo. há. corte e costura. Entre os diversos tipos de frequentadores. As meninas participam de peças. Sobre os frequentadores Milhares de pessoas passam diariamente pela Vila Mimosa. Cansamos de ver carros novos parando e levando garotas de programa embora. Porém. informática. Jéssica. Os professores responsáveis por essas atividades são cedidos pelo Ministério da Cultura.Ele tem que entender que elas não são atrizes de verdade. como se faz em diversos pontos da cidade do Rio de Janeiro.

em 2007. Jorge conheceu a Vila Mimosa em 1995 e casou-se em 2004 com uma das garotas de programa com as quais saía. com o álcool fizeram com que o relacionamento durasse pouco tempo. desde o comum amendoim até cosméticos de uma nova marca chamada Ph6." Mas nem só de peões vive a Vila Mimosa. o período em que a Vila recebe mais pessoas é o início do mês: "Quando os peões recebem o salário isso aqui fica lotado. foram-nos oferecidos os mais diversos produtos. as 25 . angolano que cursou três anos de medicina em seu país natal e veio para o Brasil em decorrência de guerras na Angola. Aposentado pela cervejaria Brahma. se eles recebem o dinheiro. ele é enfático: "Aqui é mais barato. comerciante da Vila: "Os PMs recebem o dinheiro. além de dez reais diários para cada policial que faz a ronda do dia. namorou novamente com uma garota de programa. ele arcou com todas as despesas da moça e reformou sua casa no período em que passaram casados: “A casa era um lixo. mas os problemas da moça de 38 anos. As casas pagam cerca de mil reais semanais para a milícia que toma conta do espaço. comerciantes". senão já era. seu colchão era feito de trapos. Por isso que a Zona pode mudar de lugar.” Mesmo após a experiência. mas nunca acaba. É o que conta Paulo Freitas. Inclusive nós. Porque para parar comigo tem que ser boa de cama. namora outra moça da Vila Mimosa e quando perguntado o porquê de sua preferência pelas garotas da VM. fica evidenciada a importância econômica da Vila Mimosa.Segundo a funcionária de um dos bares. Eu fiz tudo. elas se oferecem e são boas de cama. Quando estivemos sentados nos bares." Sobre a economia do lugar A Vila Mimosa movimenta mais de um milhão de reais mensalmente. Imaginando que as casas obtenham lucro com os negócios. O trabalho informal também é uma boa forma de se ganhar dinheiro na Zona.e quando ela viu que já estava bom pra ela me deu um pontapé. e vai assim até o prefeito. o capitão sabe e recebe o dele também. o senhor não perdeu o amor pela VM. Hoje. Muita gente ganha com isso aqui. O senhor Jorge Gouvêa é exemplo disso. Jorge Gouvêa. Natasha Ramos. natural de Paracambi. Além disso.

E ao mesmo tempo que a gente compreendia o espaço. Não passava pelas nossas cabeças que um carro de polícia passava por ali de cinco em cinco minutos. Em uma de nossas visitas. Pode parecer um exemplo pequeno. oral e vaginal 26 . eles tentavam entender o que nos motivava a estar ali também. anal. eles compreendiam a nossa presença ali. Antes de visitarmos a vila pela primeira vez tínhamos a sensação de que lá era um lugar inseguro. todas as casas pertencem a policiais. mas ilustrativa. Segundo Paulo. Era um sentimento bilateral. os mesmos comerciantes terão o direito de explorar o comércio na nova VM. Ela nos foi servida com copos de vidro e a Rafaela pediu para que o dela fosse trocado por um descartável. Sobre o preconceito No primeiro dia de trabalho sentamos num bar e pedimos uma cerveja. diariamente em cocaína: "Eu faço tudo. como se por ele estar na Vila Mimosa não usasse detergente na limpeza da louça. Ela chega a fazer dez programas por dia. imaginávamos um ambiente completamente diferente da paz promovida pela milícia que "organiza" o espaço. mas a cada dia nos livrávamos de um preconceito enraizado na gente. É importante salientar que nenhum dos comerciantes é dono das suas casas. enquanto tentávamos entender o que as pessoas faziam ali. ela aceitou o copo de vidro e ainda utilizou o banheiro do bar. fazíamos anotações na mesa de um boteco no Club das Primas quando um vendedor ambulante passou e gritou: "Vai fazer pesquisa na casa do 'caralho'!" Nos entreolhamos e o Thiago falou: "Mas não é isso que estamos fazendo?" Foi uma situação engraçada. pois não seguíamos o padrão das pessoas comumente vistas na VM. Os comerciantes e frequentadores também nos olhavam com certo receio. Desconfiava da higiene do bar. ganha 150 reais e gasta de 40 a 50. Mas com a mudança da Vila Mimosa de lugar planejada para o ano que vem. Horas depois.churrasqueiras vivem cheias de espetos. A nossa visão sobre a prostituição pasteurizada por mais de 20 anos de cegueira também mudou quando diversas vezes nos chocávamos com histórias como a de uma moça que se apresentou como Tatiana à gente.

" Quando perguntada se com 150 reais diários não era possível viver bem. 27 . § 3º Se o crime é cometido com o fim de lucro. irmão. Abaixo foram transcritos os Capítulos e os respectivos artigos do Código Penal Brasileiro que são. Induzir alguém a satisfazer a lascívia de outrem: Pena – reclusão de um a três anos § 1º Se a vítima é maior de quatorze anos e menor de dezoito anos. ou se o agente é seu ascendente.." Sobre a legislação A exploração da prostituição no Brasil é proibida.E não é todo dia que dá pra fazer isso não. de tratamento ou de guarda: Pena – reclusão de dois a cinco anos. no exercício da prostituição: Título VI Dos Crimes Contra os Costumes Capítulo V Do Lenocínio e do Tráfico de Mulheres Mediação para servir a lascívia de outrem Art. Mesmo assim. e tem dias que consigo fazer quinze. quando chove é foda. aplicados pelas autoridades para a detenção de profissionais do sexo. 227.. As mulheres trabalham livremente sem a conhecida figura do "cafetão". ou pessoas a que esteja confiada para fins de educação. mas tira daí o dinheiro do pó. as práticas presentes na Vila Mimosa poderiam se enquadrar em vários artigos da consituição brasileira. o que eu dou pra minha mãe que aí fica pouco. aplica-se também multa. Na Vila Mimosa.por 10 reais. grave ameaça ou fraude: Pena – reclusão de dois a oito anos. § 2º Se o crime é cometido com emprego de violência. entretanto. descendente. usualmente. não há exploração. ela respondeu: "É. tutor ou curador. marido. . além da pena correspondente à violência. dezesseis programas. das passagens.

além da multa e sem prejuízo da pena correspondente à violência. além da pena correspondente à violência.228. a pena é de reclusão. Rufianismo Art. § 2º Se a emprego de violência ou grave ameaça: Pena: reclusão de dois a oito anos. ou fraude. § 1º Se ocorre qualquer das hipóteses do §1º do art. Induzir ou atrair alguém à prostituição. § 2º Se o crime é cometido com emprego de violência. de cinco a doze anos. Casa de Prostituição Art. Manter. 28 . haja ou não intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente: Pena – reclusão de dois a cinco anos e multa. 229.Favorecimento da Prostituição Art. 227: Pena: reclusão de três a seis anos. além da pena correspondente à violência. § 1º Se ocorre qualquer das hipóteses do §1º do art. 227: Pena: reclusão de quatro a dez anos. aplica-se também multa. 231. grave ameaça. grave ameaça ou fraude: Pena – reclusão de quatro a dez anos. facilitá-la ou impedir que alguém a abandone: Pena – reclusão de dois a cinco anos. § 3º Se o crime é cometido com o fim de lucro. por quem a exerça: Pena: reclusão de um a quatro anos e multa. § 2º Se há emprego de violência. 230. ou a saída de mulher que vá exercê-la no estrangeiro: Pena: reclusão de três a oito anos. por conta própria ou de terceiro. participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar. Tráfico de Mulheres Art. no todo ou em parte. no território nacional de mulher que nele venha exercer a prostituição. § 1º Se ocorre qualquer das hipóteses do 1º do artigo anterior: Pena – reclusão de três a oito anos. casa de prostituição ou lugar destinado a encontros ou para fim libidinoso. além de multa. Promover ou facilitar a entrada. Tirar proveito da prostituição alheia.

de quinze dias a três meses. de quatro mil cruzeiros a dez mil cruzeiros. estampa ou qualquer objeto obsceno: Pena – detenção de seis meses a dois anos. adquirir ou ter sob sua guarda. Parágrafo Único: A aquisição superveniente de renda que assegure ao condenado meios bastantes de subsistência extingue a pena. Nos crimes de que trata este capítulo. 29 . importar. pintura. Art. ou multa. ou aberto ou exposto ao público: Pena – detenção. para fim de comércio. Entregar-se alguém habitualmente à ociosidade. Escrito ou Objeto Obsceno Art. sendo válido para o trabalho. 234. aplica-se também multa. desenho. é aplicável o disposto nos artigos 233 e 234. de distribuição ou de exposição pública. ou de prover a própria subsistência mediante ocupação ilícita: Pena – prisão simples. exportar. de três meses a um ano. ou multa. 59.233. CapítuloVI Do Ultraje Público ao Pudor Ato Obsceno Art. Fazer. Lei das Contravenções Penais Vadiagem Art.§ 3º Se o crime é cometido com o fim de lucro. Praticar ato obsceno em lugar público. 232. escrito. sem ter renda que lhe assegure meios bastantes de subsistência.

entrevistas cheias de palavrões. Com os muitos cursos ministrados para as prostitutas. a Cleide. bem-recebidos por outros. o senhor Jorge que adora as meninas de lá e inclusive reforma as casas de suas preferidas. Descobrimos a origem do nome Vila Mimosa. Mas depois isso ficou pequeno demais. um salão de beleza que começa a trabalhar cedo e deixa as meninas arrumadas para o trabalho. coisa que não fazíamos desde a época do vestibular. Nos deparamos com a hierarquia da Vila. tivemos até que trocar os nomes dos personagens.Conclusão: Desde o início sabíamos que o trabalho não seria fácil. o Paulo que vira a noite servindo cerveja aos clientes como tantos outros garçons. Entramos no “U”. Com suas horizontalidades e verticalidades. fomos além do imaginário. Fomos na origem. a revoltada Jéssica. para tentar compreender como as polacas foram substituídas pelas naturais da Baixada Fluminense. Conversamos muitas amenidades nos bares da VM. mas valeu a pena. enquanto garimpávamos à procura das melhores personagens. Conhecemos pessoas como a Natasha que foi trabalhar na Vila por engano. no século passado. Jogamos sinuca no Club das Primas e ouvimos Caetano num Jukebox que preferia tocar funk. invisível para nós. Conhecemos lojas de produtos segmentados para prostitutas. até então. Escolhemos um tema complexo. Assistente Social preocupada com os direitos e deveres das garotas de programa. Enfrentamos tempestades na hora de ir embora. e que ela já esteve em outros lugares do Rio de janeiro. cheio de dificuldades. descobrimos desde a senha do Orkut da Vanessa até quanto a polícia cobra semanalmente para fazer a segurança do local. Ficou pequeno porque conhecemos com essa pesquisa a realidade de personagens antes inimagináveis. E descobrimos uma "cidade" que era. Descobrimos uma Vila Mimosa nunca antes imaginada. Quisemos de qualquer jeito fazer um bom trabalho para conseguirmos uma boa nota. Com os mínimos quartos onde só cabem uma cama e uma porta de correr. e por que ainda é necessário prostituirse depois de tanto tempo. que não gosta dos homens que vão ao beco apenas para beber. fotografamos em dias ensolarados. 30 . Voltamos ao Eric Hobsbawn. Enfim. Fomos xingados por uns.

Bibliografia http://www.infoescola.scribd. Companhia das Letras. As Cidade Invisíveis.com/2006/05/belle-poque-e-revoluo-tecno-cientfica. 1994.html GRUMAN.com/doc/14113159/A-Prostituicao-Judaica-no-Inicio-do-Seculo-XXdesafio-a-construcao-de-uma-identidade-etnica-positiva-no-Brasil HOBSBAWN. Os Estrangeiros e o Comércio do Prazer nas Ruas do Rio (1890-1930). Rio de Janeiro. “A Prostituição Judaica no início do Século XX: desafio à construção de uma identidade étnica positiva no Brasil” http://www. “A Era dos Extremos: O breve século XX 1914-1991”. CALVINO. GOMES. Companhia das Letras. Rocco MENEZES. Marcelo. 1994. São Paulo. Milton. Renato Cordeiro. 2001.blogspot. São Paulo. Editora Record.com/artes/belle-epoque/ http://carbonocatorze. Rio de Janeiro. 31 . Eric. Ítalo. Rio de Janeiro. 1972. Por uma Outra Globalização: Do Pensamento Único à Consciência Universal. a Cidade: Literatura e experiência urbana. 1992. Arquivo Nacional. SANTOS. Todas as Cidades. Lená Medeiros.

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