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S O PAULO EM PERSPECTIVA, 13(4) 1999

EXCLUSÃO TERRITORIAL E VIOLÊNCIA

RAQUEL ROLNIK

Arquiteta, Urbanista, Professora de Planejamento e Coordenadora do curso de mestrado em urbanismo da PUC – Campinas

S e tivÈssemos que apontar apenas um elemento ñ co- mum e o suficientemente forte ñ para definir cida- des brasileiras histÛrica e regionalmente distintas,

este seria sem d˙vida a existÍncia (e permanÍncia no tem- po) de contrastes profundos entre condiÁıes urbanas ra- dicalmente distintas convivendo, muitas vezes conflitando, no interior da mesma cidade. Os morros e o asfalto na zona sul do Rio de Janeiro, o centro e as periferias da metrÛpo- le paulistana, o mangue e a orla na cidade ‡ beira-mar s„o traduÁıes territorialmente distintas da desigualdade de oportunidades urbanas que define nossas cidades. Mais do que expressar diferenÁas econÙmicas e sociais, este contraste tem implicaÁıes profundas na forma e no funcionamento das cidades. O espraiamento em perife- rias prec·rias tem levado a uma necessidade absurda de viagens que atravessam a cidade, para conectar cotidia- namente espaÁos de n„o-cidade ‡s centralidades con- centradoras de emprego, oportunidades econÙmicas, cul- turais, etc. Os efeitos urbanÌsticos decorrentes da persis- tÍncia desta din‚mica s„o devastadores e ocorrem nos dois termos desta equaÁ„o. Nas periferias (ou favelas, ocupa- Áıes, invasıes), o urbanismo È eternamente incompleto e, no mais das vezes, de risco. Urbanismo de risco È aquele marcado pela inseguridade, quer do terreno, quer da construÁ„o, ou ainda da condi- Á„o jurÌdica da posse daquele territÛrio. As terras onde se desenvolvem estes mercados de moradia para os pobres s„o, normalmente, justamente aquelas que, pelas caracte- rÌsticas ambientais, s„o as mais fr·geis, perigosas e difÌ- ceis de ocupar com urbanizaÁ„o: encostas Ìngremes, bei- ras de cÛrregos, ·reas alagadiÁas. As construÁıes rara-

mente s„o est·veis, e a posse quase nunca totalmente ins- crita nos registros de imÛveis e cadastros das prefeituras.

O risco È, antes de mais nada, do morador: o barraco pode

deslizar ou inundar com chuva, a drenagem e o esgoto

podem se misturar nas baixadas ñ a sa˙de e a vida s„o assim ameaÁadas. No cotidiano, s„o as horas perdidas no transporte, a incerteza quanto ao destino daquele lugar, o desconforto da casa e da rua. Mas, neste caso, o urbanismo È de risco para a cidade inteira: por concentrar qualidades num espaÁo exÌguo e impedir que elas sejam partilhadas por todos, os espaÁos mais bem equipados da cidade sentem-se constantemen-

te ameaÁados por cobiÁas imobili·rias, por congestiona-

mentos, por assaltos. Quando a eros„o causada pelos desmatamentos e ocu- paÁıes das encostas se acumula nas baixadas, rios e cÛr- regos, toda a cidade sofre com as enchentes. E quando o excesso de veÌculos e viagens provoca o colapso da cir- culaÁ„o, È toda a cidade que p·ra. Portanto, a exclus„o territorial na cidade brasileira È mais do que a imagem da desigualdade, È a condenaÁ„o de toda a cidade a um urbanismo de risco. O objetivo deste texto È explorar o nexo entre urbani- zaÁ„o de risco e violÍncia urbana, que aparenta ser a face mais visÌvel e recente desse modelo, utilizando a expe- riÍncia concreta de diferentes cidades no Estado de S„o Paulo. Para construir tais relaÁıes, È importante enten- dermos a forma como diferentes padrıes de desenvolvi- mento econÙmico e tendÍncias demogr·ficas contribuem para a geraÁ„o de uma urbanizaÁ„o de risco, e como as po- lÌticas de planejamento e gest„o urbana interagem com esta.

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EXCLUS O TERRITORIAL E VIOL NCIA

A base empÌrica deste estudo È uma pesquisa estrutu-

rada para avaliar o impacto de regulaÁ„o urbanÌstica no funcionamento de mercados residenciais nas cidades do Estado de S„o Paulo com mais de 20 mil habitantes, con- duzida em 1997-98 e financiada pela FundaÁ„o de Am- paro ‡ Pesquisa do Estado de S„o Paulo e o Lincoln Institute of Land Policy. 1 A base da pesquisa foi um ques- tion·rio enviado a 220 municÌpios, 2 que foi respondido por 118 deles. Utilizando os dados desse question·rio, combinados com uma tabulaÁ„o especial do Censo de 1991, pudemos avaliar atÈ que ponto instrumentos de pla- nejamento e controle do uso do solo ñ que em princÌpio s„o desenhados para proporcionar cidades ambiental e so- cialmente equilibradas ñ atingem seus objetivos em mu-

nicÌpios do Estado de S„o Paulo. O question·rio explora os processos de planejamento e regulaÁ„o urbana exis- tentes nas cidades e as condiÁıes sob as quais eles foram produzidos e implementados. De posse dessa informaÁ„o, organizamos um ranking de cidades, de acordo com a exis- tÍncia de diferentes legislaÁıes de controle de uso do solo, de forma que as cidades foram arroladas desde a ìmais reguladaî atÈ a ìmenos reguladaî. 3 As informaÁıes do Censo de 1991 foram utilizadas para construir um indicador ìexclus„o territorialî cruzando informaÁıes sobre condiÁıes na habitaÁ„o. Com essa pro- posta, construiu-se uma matriz de quatro tipos de infor- maÁ„o (referentes a condiÁıes de habitabilidade das ca- sas, localizaÁ„o, infra-estrutura disponÌvel e n˙mero de cÙmodos) transformadas em vari·veis dicotÙmicas (ade- quada ou inadequada). 4 O indicador mede a porcentagem de domicÌlios em determinado municÌpio excluÌdos de condiÁıes urbanas mÌnimas.

O conceito de ìexclus„o territorialî foi construÌdo pro-

curando superar as dificuldades de leitura dos Ìndices tra- dicionais de porcentagem de cobertura de infra-estrutura e indicadores gerais de condiÁıes de domicÌlios que, n„o territorializados, deixam de revelar uma imagem fiel das diferenÁas de condiÁıes urbanas no interior de um muni- cÌpio. Cruzando os indicadores, poderemos esboÁar mais claramente um quadro de onde a urbanizaÁ„o È ìcomple- taî, e onde ela È prec·ria ou incompleta por qualquer ra- z„o. Este indicador pode tambÈm contribuir para medir- mos a segregaÁ„o urbana, cruzando-o com dados de renda familiar, renda de chefes de famÌlia, cor e outras vari·- veis econÙmicas e sociais. Escolhemos o termo ìexclus„o territorialî com a propos- ta Ûbvia de relacion·-lo com o conceito de exclus„o social, muito mais do que com pobreza ou disparidades sociais.

Este conceito ñ que relaciona a acumulaÁ„o de deficiÍn- cias de v·rias ordens ‡ vulnerabilidade ñ tem sido pro- gressivamente utilizado em polÌticas p˙blicas e pode ser

entendido como a negaÁ„o (ou o desrespeito) dos direitos que garantem ao cidad„o um padr„o mÌnimo de vida, as- sim como a participaÁ„o em redes de instituiÁıes sociais

e profissionais (Castel, 1995; Paugam, 1996). A exclu-

s„o social È vista como uma forma de analisar como e por

que indivÌduos e grupos n„o conseguem ter acesso ou beneficiar-se das possibilidades oferecidas pelas socieda- des e economias. A noÁ„o de exclus„o considera tanto os direitos sociais quanto aspectos materiais, abrangendo, portanto, n„o sÛ a falta de acesso a bens e serviÁos ñ que significam a satisfaÁ„o de necessidades b·sicas ñ, mas tambÈm a ausÍncia de acesso a seguranÁa, justiÁa, cida- dania e representaÁ„o polÌtica (Rodgers, 1995). Para analisarmos melhor os resultados da pesquisa, cruzamos tambÈm os n˙meros obtidos com dados adicio- nais sobre as cidades: taxas de crescimento da popula- Á„o, valor adicionado per capita, receita municipal per capita e porcentagem de chefes de famÌlias ganhando menos de dois sal·rios mÌnimos. Toda a informaÁ„o foi processada em uma base de dados GIS para criarmos um mapa da exclus„o territorial no Estado de S„o Paulo. Em uma segunda fase da mesma pesquisa, foram fei- tos estudos de caso tendo como objeto de estudo trÍs municÌpios escolhidos dentre os 118 ñ considerados re- presentativos dos diferentes padrıes de exclus„o territo- rial encontrados na primeira etapa ñ para aprofundarmos

a an·lise. Posteriormente, cruzamos os dados com indi-

cadores de violÍncia urbana, 5 no ‚mbito de um grupo de trabalho organizado pelo Woodrow Wilson Center for

International Scholars. 6

MAPEANDO A EXCLUSÃO TERRITORIAL NO ESTADO DE SÃO PAULO

O Mapa 1 e a Tabela 1 d„o uma idÈia clara da regiona- lizaÁ„o da urbanizaÁ„o prec·ria: as situaÁıes mais agu-

das de exclus„o territorial encontram-se na fronteira da periferia da Regi„o Metropolitana de S„o Paulo (Embu- GuaÁu, 1,35%; Aruj·, 6,26%; Francisco Morato, 7,46%;

e tambÈm Rio Grande da Serra, Cotia, Embu, Cajamar,

entre outros), mas o fenÙmeno se repete nas cidades peri- fÈricas da Baixada Santista, Litoral Norte, Campinas, Vale

do ParaÌba e Sorocaba. A precariedade urbanÌstica situa- se exatamente na periferia dos pÛlos mais din‚micos e ricos de S„o Paulo, para onde se desconcentrou a grande

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MAPA 1

Porcentagem de DomicÌlios em SituaÁ„o Adequada Estado de S„o Paulo ñ 1991

Acima de 60% 40% a 60% 10% a 40% Abaixo de 10%
Acima de 60%
40% a 60%
10% a 40%
Abaixo de 10%

Fonte: FundaÁ„o IBGE. TabulaÁıes Especiais do Censo de 1991.

ind˙stria a partir dos anos 70. A regi„o delimita, do pon- to de vista urbanÌstico, o raio de um padr„o de desenvol- vimento urbano baseado em grandes zonas industriais, em sistemas de transporte sobre pneus e na expans„o de as- sentamentos populares prec·rios, espraiando exclus„o territorial em suas fronteiras. O cruzamento entre o valor adicionado per capita e a vari·vel anterior reforÁa o argumento; entre as dez cida- des com o maior valor adicionado per capita no Estado de S„o Paulo, seis pertencem ao grupo de cidades com o mais baixo percentual de domicÌlios em situaÁ„o adequa- da. Nesses casos, as ind˙strias localizam-se em um mu- nicÌpio situado na periferia de um grande centro urbano e s„o conectadas a este por sistemas de estradas de roda- gem (Monte Mor na periferia de Campinas; Mau·, na pe- riferia do ABC; ou Cubat„o, entre S„o Paulo e Santos). As ind˙strias atraem trabalhadores, mas, diante da mais absoluta ausÍncia de controles de impacto ambiental, in- vestimentos em expans„o de infra-estrutura urbana ou provis„o residencial contribuem para a degradaÁ„o am- biental e a criaÁ„o de mercados residenciais ilegais de

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baixa renda. Essas cidades economicamente vibrantes s„o ent„o, cada vez mais, habitadas exclusivamente por uma populaÁ„o de baixa renda (j· que executivos e gerentes vivem em centros prÛximos ou em S„o Paulo). Trata-se de um padr„o de desenvolvimento econÙmico com altos nÌ- veis de concentraÁ„o de renda e fortes desigualdades regio- nais, produzindo uma m·quina voraz de exclus„o territorial. Outro padr„o, tambÈm fortemente ligado ‡ presenÁa de riquezas, emerge nos locais turÌsticos localizados no interior da mesma mancha macrometropolitana. Cidades costeiras (como Guaruj· e Caraguatatuba) ou est‚ncias de montanha (como Campos do Jord„o) apresentam este padr„o. Tais regiıes foram urbanizadas por investidores imobili·rios, oferecendo segundas residÍncias para dife- rentes segmentos de mercado (de apartamentos de classe mÈdia a condomÌnios luxuosos e marinas), atraindo tra- balhadores da construÁ„o civil e empregados domÈsticos ñ funcionando tambÈm como cidades-dormitÛrio de cen- tros industriais vizinhos (como Guaruj· em relaÁ„o ao Porto de Santos ou Caraguatatuba em relaÁ„o ao Porto de S„o Sebasti„o). Nesses casos, situam-se municipalidades

EXCLUS O TERRITORIAL E VIOL NCIA

TABELA 1

Agrupamento dos MunicÌpios, por Percentual de AdequaÁıes Estado de S„o Paulo ñ 1991

MunicÌpios

Percentual de AdequaÁıes

MunicÌpios

Percentual de AdequaÁıes

Grupo 1 Batatais Barra Bonita Cerquilho Descalvado S„o JosÈ do Rio Preto Lins It·polis Pen·polis Araras Santa Rita do Passa Quatro Vargem Grande do Sul Socorro Ribeir„o Preto Jaboticabal Rio Claro S„o Carlos Amparo Catanduva Araraquara Bebedouro Mogi-GuaÁu Bauru Santos Santa Rosa do Viterbo Assis Pereira Barreto MarÌlia Botucatu Barretos Osvaldo Cruz S„o Joaquim da Barra Limeira Campinas FernandÛpolis GarÁa Americana Rio das Pedras GuaÌra Franca Jales Piracicaba Santa Cruz do Rio Pardo Cruzeiro Cachoeira Paulista Mat„o Leme ParaguaÁu Paulista Itatiba Santa Cruz da Palmeiras AmÈrico Brasiliense Presidente Prudente

 

Morro Agudo Itu S„o JosÈ dos Campos Sorocaba TaubatÈ Lorena Indaiatuba Santa B·rbara d Oeste Santo AndrÈ CaÁapava Votuporanga S„o Paulo S„o Bernardo do Campo BraganÁa Paulista Conchal Taquarituba Pindamonhangaba Salto Andradina Santa Branca JacareÌ Votorantim Mogi das Cruzes S„o Roque Itapeva Ribeir„o Pires C‚ndido Mota

55,99

74,00

55,88

73,39

55,87

71,61

55,76

71,58

55,60

70,72

55,52

70,13

55,31

69,87

55,14

69,50

54,88

68,84

54,11

68,14

54,11

67,70

53,75

67,62

53,51

67,61

53,40

67,51

52,57

67,50

52,22

67,14

52,06

66,51

50,18

66,46

49,90

65,71

48,46

65,58

47,41

65,43

47,11

65,22

46,56

65,12

45,90

64,61

45,38

64,42

43,57

64,32

42,96

64,28

 

64,08

Grupo 3 Salto de Pirapora Itupeva Po· Santa Isabel Mau· Campos do Jord„o Atibaia Guarulhos Iguape Guaruj· V·rzea Paulista Diadema Suzano Monte Mor Mongagu· Cajamar

 

63,96

39,46

63,87

38,39

63,64

37,34

63,12

37,17

62,67

37,03

62,07

36,65

62,06

36,38

62,02

34,46

61,60

34,34

61,56

34,11

61,40

33,38

61,30

31,80

61,30

31,44

61,08

31,14

61,03

30,17

60,95

30,12

60,80

 

60,34

Grupo 4 Franco da Rocha S„o Sebasti„o Caraguatatuba S„o Vicente Santana de ParnaÌba Embu Cotia Praia Grande Rio Grande da Serra Cubat„o Francisco Morato Juquitiba Aruj· Embu-GuaÁu

 

59,93

28,89

59,50

28,36

58,95

26,88

58,88

26,00

58,62

25,92

 

23,06

Grupo 2 IgaraÁu do TietÍ Rancharia Valinhos Santo Anast·cio JundiaÌ Porto Feliz Vinhedo

 

20,64

57,93

18,14

57,41

16,94

57,11

10,07

56,83

7,46

56,66

6,45

56,42

6,26

56,19

1,30

Fonte: FundaÁ„o IBGE. Censo Demogr·fico 1991/TabulaÁ„o Especial AurÌlio Caiado.

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com os mais baixos valores adicionados per capita, vizi- nhas de municipalidades com os mais altos (Mapa 2).

O padr„o de exclus„o territorial tem evidentemente a

ver com a concentraÁ„o de renda, pois, como vimos, as piores condiÁıes do Estado ocorrem nas ·reas mais de- senvolvidas e ricas. PorÈm, a distribuiÁ„o de renda n„o explica tudo, pois outras regiıes do Estado de S„o Paulo com um nÌvel mais baixo de exclus„o territorial possuem mais ou menos a mesma estrutura de renda, ou, em algumas elas, os sal·- rios dos mais pobres s„o ainda mais baixos. 7 Para com- preendermos um modelo de desenvolvimento urbano que reproduz continuamente novas fronteiras de precarieda- de, È importante considerar como funcionam os merca- dos de terras, assim como o impacto do planejamento e regulaÁ„o do uso do solo na configuraÁ„o desses merca- dos.

LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA E MERCADOS INFORMAIS DE TERRAS EM CIDADES INDUSTRIAIS: AS RELAÇÕES PERVERSAS

O caso de Diadema tipifica o processo da grande ex-

pans„o industrial na Regi„o Metropolitana de S„o Paulo. Quando a ind˙stria chega a Diadema (nos anos 60 e 70), acelera-se o crescimento demogr·fico, gerando uma ex- pans„o horizontal de grandes proporÁıes, que n„o cria exatamente um espaÁo urbano. Diadema era uma cidade de 12.000 habitantes em 1960. Em 1971, uma nova estrada ligando S„o Paulo ao Porto de Santos foi construÌda, cruzando o territÛrio da cidade e atraindo pequenas e mÈdias plantas industriais, satÈli- tes das grandes f·bricas de S„o Bernardo. Por sua locali- zaÁ„o na periferia sudeste da metrÛpole, Diadema rece- beu apenas migrantes de baixa renda. Na ausÍncia de um grupo significativo de alta ou mesmo mÈdia renda, confi- guraram-se apenas dois segmentos no mercado de terras:

um para usos industriais e outro para loteamentos resi- denciais de baixa renda. Em 1973, um Plano Diretor para a cidade foi aprova- do, definindo uma regulaÁ„o do uso do solo, na qual mais de dois terÁos das terras do municÌpio ñ as ·reas mais bem urbanizadas ñ foram destinadas para usos industriais. AlÈm da regulaÁ„o municipal, em 1976, uma lei estadual de preservaÁ„o ambiental para a proteÁ„o das ·reas de ma- nanciais da urbanizaÁ„o excluiu 724 hectares (ou 23,55% do territÛrio do municÌpio) de qualquer uso urbano, ex- ceto o de baixÌssima densidade para alta renda.

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O efeito imediato dessa estratÈgia de controle do uso e ocupaÁ„o do solo foi um excesso de oferta de terra para a ind˙stria (em 1990, aproximadamente 40% das glebas destinadas para o uso industrial estavam vazios), levando a uma escassez de terra urbana destinada para uso resi- dencial e outros. Essa equaÁ„o, num contexto de altos Ìndices de crescimento demogr·fico (20,42% por ano nos anos 60 e 11,23% nos anos 70), provocou uma expans„o perifÈrica, ocupando ·reas n„o urbanizadas e consumin- do vorazmente toda a terra n„o destinada para usos in- dustriais, inclusive as ·reas de preservaÁ„o ambiental. Sem outra alternativa, com uma oferta quase inexistente de zonas destinadas para os pequenos lotes residenciais de baixa renda, a expans„o urbana foi, em sua maior parte, irregular, feita por mercados informais que n„o se ade- quavam a qualquer padr„o de urbanizaÁ„o. 8 O resultado foi que no inÌcio dos anos 80 apenas 30% das ruas exis- tentes eram pavimentadas, 50% dos domicÌlios estavam conectados ‡ rede de ·gua e a taxa de mortalidade infan- til era de 83/1.000 (Prefeitura de Diadema, 1995b). Esse padr„o guarda algumas semelhanÁas com o caso de Guaruj·, localizado na periferia de uma regi„o de cres- cimento r·pido ñ a Baixada Santista, onde instalaram-se ind˙strias (a maior parte em Cubat„o) e equipamentos portu·rios (a maior parte em Santos). 9 Trabalhadores que n„o tinham acesso a terra e habitaÁ„o na ·rea urbanizada de Santos assentaram-se na porÁ„o noroeste da ilha vizi- nha de Guaruj·, formando o n˙cleo de Vicente de Carva- lho, prÛximo ao canal que liga ‡ ilha de Santos. Como Diadema, nos anos 60 e 70, o municÌpio de Guaruj· atraiu como populaÁ„o permanente quase exclusivamente migrantes de baixa renda, pois funcion·rios mais qualificados das in- d˙strias da Baixada residiam em Santos ou S„o Paulo. Mas Guaruj· combina a ìcidade-dormitÛrioî ao turis- mo, utilizando sua porÁ„o Sudeste como um balne·rio. A ìPÈrola do Atl‚nticoî. 10 Neste caso, a estratÈgia do Plano Diretor de Guaruj· (de autoria de Jaime Lerner, aprova- do em 1978) e de sua legislaÁ„o urbanÌstica era preservar as ·reas mais bem urbanizadas para o uso balne·rio e sim- plesmente ìesquecerî os mercados residenciais de baixa renda, em um contexto de grande crescimento demogr·- fico. 11 A orla urbanizada ñ que sempre contou com rede de ·gua e saneamento, pavimentaÁ„o e iluminaÁ„o e cons- tantes investimentos em confortos urbanos ñ foi minucio- samente zoneada para os diferentes segmentos de merca- do de veraneio, bloqueando seu acesso a mercados resi- denciais de baixa renda. Este objetivo foi atingido fixan- do-se padrıes urbanÌsticos completamente estranhos ‡s

EXCLUS O TERRITORIAL E VIOL NCIA

lÛgicas econÙmicas e espaciais dos assentamentos de baixa renda, ou seja, lotes de 500 m 2 de ·rea mÌnima, para resi- dÍncias unifamiliares, prÈdios de apartamentos com gran- des recuos, etc. Ao mesmo tempo, assentamentos populares para a populaÁ„o permanente expandiram-se em Vicente de Carvalho sobre mangues, e favelas formaram-se em mor- ros voltados para o continente. Com esse padr„o de urba- nizaÁ„o, foi possÌvel proteger investimentos nos balne·- rios de fim de semana, afastando a ìinvas„oî, pelos pobres, de ·reas ricas e urbanizadas. O que acabamos de descrever, em ambos os casos, s„o mecanismos perversos que mantÍm a pobreza longe das ·reas mais bem urbanizadas, construindo uma muralha por meio de regulaÁ„o urbanÌstica e reservando as regiıes mais qualificadas aos mercados formais ñ e abrindo continua- mente fronteiras de expans„o urbana para o informal. O mecanismo revela-se ainda mais perverso se levarmos em conta que a ìfronteiraî aberta pelos mercados informais n„o foi ocupada pelos mercados formais, devido ‡s difi- culdades para sua urbanizaÁ„o (altas declividades ou ·reas inund·veis) ou a restriÁıes ligadas ‡ preservaÁ„o ambiental (como ·reas de mangue, matas, mananciais, etc.). Os exemplos de Diadema e Guaruj·, dois municÌpios com altos Ìndices de exclus„o territorial, demonstram o fracasso do planejamento e dos paradigmas da regulaÁ„o urbanÌstica que foram aplicados em cidades do Estado de S„o Paulo nos anos 70 e 80.

O Gr·fico 1 faz o cruzamento do ranking da regulaÁ„o urbanÌstica (da mais regulada ‡ menos regulada) 12 com o ranking da exclus„o territorial (da maior porcentagem de domicÌlios em situaÁ„o adequada ‡ menor), demonstran- do que n„o h· conex„o entre a presenÁa do planejamento urbano e o grau de exclus„o territorial das cidades. Con- trariamente ao conhecimento convencional de que o pro- blema das cidades brasileiras È a ìfalta de planejamen- toî, os resultados da pesquisa demonstram que o plane- jamento, como foi majoritariamente praticado atÈ o final dos anos 80, tem um impacto muito pequeno no equilÌ- brio socioambiental das cidades. Em um contexto de alta press„o demogr·fica e competiÁ„o pelo solo urbano, o planejamento ñ e, mais especificamente, o zoneamento ñ foi largamente utilizado como um instrumento para asse- gurar segregaÁ„o e demarcaÁ„o de segmentos de merca- do. Esta È uma das razıes por que o planejamento urba- no, suas estratÈgias e sua relaÁ„o com a gest„o urbana devem ser profundamente repensados, se quisermos que este incida sobre o urbanismo de risco. 13 AtÈ esse ponto, n„o comentamos o outro extremo do ranking ñ as cidades com a melhor performance no pro- vimento de condiÁıes de vida adequadas para seus habi- tantes. Apesar de n„o haver cidade no Estado com 100% de domicÌlios que disponham de condiÁıes urbanÌsticas adequadas, os menos prec·rios localizam-se na porÁ„o noroeste do Estado. 14 Nessa regi„o, conhecida como a ìCalifÛrnia Paulistaî, floresceu a agroind˙stria, sobretu-

GRÁFICO 1 DistribuiÁ„o da Regularidade UrbanÌstica X Exclus„o Territorial com LegislaÁ„o UrbanÌstica Aprovada atÈ 1991

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Jaboticabal BraganÁa Paulista TaubatÈ Suzano S„o JosÈ do Rio Preto Mogi-GuaÁu Santa B·rbara díOeste
Jaboticabal
BraganÁa Paulista
TaubatÈ
Suzano
S„o JosÈ do Rio Preto
Mogi-GuaÁu
Santa B·rbara díOeste
Pen·polis
Araraquara
Guaruj·
JundiaÌ
Araras
Campos do Jord„o
Cotia
Lins
Franca
Po·
Santa Isabel
Limeira
Mat„o
Mogi das Cruzes
Piracicaba
Santa Cruz do Rio Pardo
S„o Joaquim da Barra
JacareÌ
Campinas
GuaÌra
Sorocaba
Salto
Guarulhos
S„o Carlos
Santo AndrÈ
Bebedouro
Cerquilho
Bauru
Assis
S„o Paulo
Botucatu
S„o Bernardo do Campo
Diadema
Porto Feliz
Mau·
MarÌlia
Riber„o Pires
Salto de Pirapora
Conchal
Morro Agudo
Indaiatuba
S„o Roque
Catanduva
Vinhedo
Descalvado
Barra Bonita
Pereira Barreto
Itapeva
AmÈrico Brasiliense
Atibaia
Amparo
Cachoeira Paulista
Vargem Grande Iguape
do Sul
Andradina
Batatais
Rancharia
Osvaldo Cruz
Rio das Pedras

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do ligada ‡ cana-de-aÁ˙car e ‡ laranja. Tomando o exem- plo da regi„o de Ribeir„o Preto, onde o complexo sucro- alcooleiro estabeleceu-se nos anos 70, a maior parte das cidades possui altos Ìndices de adequaÁ„o e condiÁıes de vida, apesar de a concentraÁ„o de renda ser semelhante ‡ do MunicÌpio de S„o Paulo, e os nÌveis salariais inferiores.

AS CIDADES AGROINDUSTRIAIS “FECHADAS”

Apesar de os anos 70 ñ quando o Pro·lcool foi lanÁa- do e consolidado ñ terem sido de expans„o econÙmica, a taxa de crescimento populacional da regi„o de Ribeir„o Preto (2,45% por ano) foi menor que da mÈdia do Estado para esse perÌodo (3,5% anuais) (FundaÁ„o IBGE, 1971).

Durante os anos 80, os efeitos da recess„o foram muito mais agudos na Regi„o Metropolitana de S„o Paulo e na Baixada Santista do que na regi„o de Ribeir„o Preto, que continuou a crescer, apresentando taxas de crescimento (2,59%) ligeiramente mais altas do que a mÈdia do Esta- do (2,02%) (FundaÁ„o IBGE, 1981). A regi„o atrai mi- grantes nos anos 70 e 80, mas nunca na mesma escala que os centros industriais e suas periferias.

A explicaÁ„o dessa situaÁ„o reside na relaÁ„o entre

atividade econÙmica e urbanizaÁ„o. O complexo sucro- alcooleiro, como todos os setores agroindustriais, possui

seu centro din‚mico fora das ·reas urbanas. A lÛgica de instalaÁ„o da agroind˙stria È baseada na proximidade de

·reas de produÁ„o de produtos prim·rios de forma mais acentuada do que nas economias de aglomeraÁ„o. Assim, n„o h· concentraÁ„o em uma ˙nica cidade-pÛlo, mas um espraiamento em diferentes cidades onde se localizam as usinas. A terra para cultivo valoriza-se como resultado de desenvolvimento agroindustrial, criando uma barreira para a convers„o em terra urbana, mesmo durante ciclos de ex- pans„o econÙmica e demogr·fica (Caiado, 1992).

O mercado de trabalho È majoritariamente sazonal ñ ab-

sorve m„o-de-obra apenas durante as safras, pois a maior parte do cultivo foi mecanizado e a terra foi concentrada em grandes latif˙ndios. Em perÌodos de colheita, migrantes as- sentam-se em acampamentos dentro das usinas, ou em quar- tos alugados, principalmente nas cidades menores da regi„o. Para impedir a instalaÁ„o permanente desses trabalhadores sazonais, as cidades estabelecem postos de controle nas es- tradas, estaÁıes rodovi·rias e ferrovi·rias e atÈ bloqueios com ìbatidasî na entrada das cidades. Com menor press„o sobre a terra urbana, e portanto preÁos muito baixos (comparando-se com Diadema ou Guaruj·), e permanecendo parte da receita proveniente

TABELA 2

PreÁos Relativos de Terra Estado de S„o Paulo ñ 1998

Indicadores

Diadema

Guaruj·

Jaboticabal

PreÁo MÈdio (R$) PreÁo Mais Caro (R$) PreÁo Mais Barato (R$) RelaÁ„o entre os Dois Extremos (%)

206,00

416,13

41,00

273,00

870,00

100,00

83,00

14,23

14,23

3,29

37,00

7,03

Fonte: Diadema ñ PMD ñ Banco de Dados sobre o valor do preÁo da terra, 1991/1998. Guaruj· ñ PMG ñ Planta de Valores GenÈricos 1998. Jaboticabal ñ pesquisa de preÁos feita com corretores.

da produÁ„o agroindustrial nas cidades, È possÌvel o in- vestimento mais generalizado em infra-estrutura, geran- do disparidades menores nos preÁos relativos (Tabela 2). Neste caso, a populaÁ„o de baixa renda ñ mesmo con- siderando os baixos sal·rios e a alta concentraÁ„o de ren- da ñ tem mais acesso ‡ habitaÁ„o adequada. Quando a oferta de terra urbanizada responde ‡ demanda, n„o se cria o fenÙmeno da supervalorizaÁ„o da terra urbaniza- da; portanto, h· menor exclus„o territorial. Entretanto, este modelo viabilizou-se apenas em uma escala regional, pois os pobres que n„o penetram nas ci- dades assentam-se em outras localidades, em condiÁıes prec·rias. AlÈm disso, todo o sistema È dependente quase exclusivamente da produÁ„o de cana-de-aÁ˙car ñ que n„o

absorve m„o-de-obra, alÈm de ter devastado o meio ambiente

e de ter sido altamente subsidiada ao longo da histÛria.

EXCLUSÃO TERRITORIAL E VIOLÊNCIA NO ESTADO DE SÃO PAULO

O crime e a violÍncia no Brasil transformaram-se no centro das atenÁıes tanto dos formuladores das polÌticas quanto do p˙blico. Durante os anos 80, as taxas de morte violenta 15 subiram do quarto para o segundo lugar dentre as causas de morte no paÌs. O Brasil, com uma taxa de homicÌdios de 23,35 por 100 mil habitantes em 1988, (Mi- nistÈrio da Sa˙de, 1980-1989) È o segundo paÌs mais vio- lento da AmÈrica Latina, a regi„o mais violenta do mun- do, perdendo apenas para a ColÙmbia (89,5 homicÌdios

por 100 mil habitantes) no final dos anos 80 (Ayres, 1998). Com uma taxa de homicÌdio de 28,79 por 100 mil em 1991,

e 29,70 em 1994, o Estado de S„o Paulo est· acima da

mÈdia brasileira, e pode ser considerado o Estado mais violento do Brasil. 16 Muito j· se escreveu sobre criminalidade e violÍncia e sobre sua relaÁ„o com o uso ilegal e o tr·fico de drogas.

106

EXCLUS O TERRITORIAL E VIOL NCIA

Mas È difÌcil generalizar-se a suposiÁ„o de que as princi- pais causas de crime e violÍncia estariam no uso ou tr·fi- co de drogas, pois estes s„o problemas que afetam cada cidade de forma especÌfica. Mais provavelmente, tanto o aumento da violÍncia quanto do tr·fico s„o sintomas da mesma causa. ExplicaÁıes tradicionais relacionam violÍncia e mar- ginalizaÁ„o social ‡ inabilidade de migrantes de origem rural de realizar a transiÁ„o da tradiÁ„o para a moderni- dade. No caso de S„o Paulo, o argumento n„o se aplica, pois a violÍncia aumentou nos anos 80, quando se verifi- ca um forte declÌnio no Íxodo rural, e o Estado ñ particu- larmente a Regi„o Metropolitana de S„o Paulo ñ come- Áava a passar por sua transiÁ„o demogr·fica (declÌnio da taxa de crescimento da populaÁ„o, taxas de fertilidade e transformaÁ„o dos padrıes regionais de migraÁ„o) (BerquÛ, 1992). Os dados do Censo de 1991 mostram que a capital perdeu 900 mil habitantes nos anos 80, e sua regi„o me- tropolitana teve um fluxo positivo de migraÁ„o de 450 mil, a maior parte migrantes vindo do municÌpio central para a periferia da mesma regi„o (Ribeiro e Lago, 1995). Um forte argumento na literatura recente liga a vio- lÍncia ‡ pobreza. O nexo È sustentado por dados mostrando que aumentos de violÍncia ocorreram em perÌodos nos quais houve tambÈm fortes aumentos da pobreza. A re- cess„o dos anos 80 e os efeitos do ajuste estrutural sobre os pobres urbanos levaram a uma severa diminuiÁ„o dos sal·rios reais e das oportunidades de emprego a grandes segmentos da forÁa de trabalho (Ayres, 1998). Apesar de essas afirmaÁıes serem verdadeiras no caso de S„o Pau- lo, a pobreza absoluta em si n„o pode explicar por que a Regi„o Metropolitana de S„o Paulo È a mais violenta en- tre as metrÛpoles brasileiras. De fato, a proporÁ„o da po- pulaÁ„o abaixo da linha de pobreza em S„o Paulo em 1989 (20,90%) È uma das mais baixas entre todas a metrÛpoles brasileiras. Salvador, com 39,0% a populaÁ„o abaixo da linha de pobreza, È uma das menos violentas, com uma taxa de homicÌdios de 17,5 por 100 mil habitantes (Singer, 1997). Certamente, a desigualdade (ou a pobreza relativa) deve ser levada em consideraÁ„o para explicar-se altas taxas de criminalidade, como apontam alguns estudos em ci- dades norte-americanas (Freeman, 1996). Mas a pobre- za, a desigualdade e atÈ mesmo transformaÁıes no mer- cado de trabalho podem ser tratadas de formas diferentes por comunidades e indivÌduos, dependendo de sua vul- nerabilidade (Moser, 1996). De acordo com Moser, o conceito de vulnerabilidade, ou de inseguranÁa do bem-

estar de indivÌduos, famÌlias ou comunidades diante de um ambiente em transformaÁ„o capta n„o apenas a situa-

Á„o de indivÌduos e grupos, mas tambÈm seus meios de resistÍncia ou os recursos que podem mobilizar em face das turbulÍncias. Nossa hipÛtese È que a exclus„o territorial torna indi- vÌduos, famÌlias e comunidades particularmente vulner·- veis, abrindo espaÁo para a violÍncia e ao conflito. O nexo entre violÍncia e exclus„o territorial È muito claro quan- do cruzamos os dados de homicÌdios com os Ìndices de exclus„o territorial (expressos na porcentagem de domi- cÌlios em situaÁ„o adequada) para os 118 municÌpios pes- quisados (Tabela 3). Entre os 28 municÌpios com pior situaÁ„o de exclus„o territorial (grupos 3 e 4 na Tabela 1), de Embu-GuaÁu ñ 1,30 dos domicÌlios em situaÁ„o adequada ñ a Po· ñ 39,52% ñ, 25 possuem os piores indicadores. O oposto tambÈm È verdadeiro: entre os 21 municÌpios mais bem situados em termos de adequaÁ„o, 14 s„o os menos vio- lentos no Estado. ExceÁıes neste caso s„o Ribeir„o Preto

e S„o JosÈ do Rio Preto, conhecidos centros em rotas de

tr·fico de drogas. A exclus„o territorial produz uma vida di·ria insegura

e arriscada, bloqueia acesso a empregos, a oportunidades

educacionais e culturais, que est„o concentradas em enclaves pequenos e protegidos dentro das cidades. Ela nega a possibilidade de se utilizarem recursos como a casa prÛpria para gerar renda e criar empregos, na medida em que a maior parte das casas È ilegal e o uso misto È geral- mente proibido pelas normas de uso do solo municipal. Os territÛrios excluÌdos constituÌram-se ‡ revelia da presenÁa do Estado ñ ou de qualquer esfera p˙blica ñ e, portanto, desenvolvem-se sem qualquer controle ou as- sistÍncia. ServiÁos p˙blicos, quando existentes, s„o mais prec·rios do que em outras partes das cidades; trabalhar nessas ·reas muitas vezes È visto pelos funcion·rios p˙- blicos como ìcastigoî. Mais do que isso, viver perma- nentemente sob uma condiÁ„o de privaÁ„o de necessida- des ambientais b·sicas faz os habitantes se sentirem como se suas vidas tivessem pouco valor. Recentes estudos sobre violÍncia demonstram que o homicÌdio È a principal causa de mortalidade entre os jo- vens do sexo masculino de 15 a 24 anos de idade (Cardia, 1998). 17 Se verificarmos as tendÍncias demogr·ficas das cidades com as maiores taxas de violÍncia, todas elas passaram, nos anos 70, por imenso crescimento popula- cional, que comeÁou a declinar nos anos 80. Diadema, Embu, Francisco Morato, entre outros, repetem o mesmo

107

S O PAULO EM PERSPECTIVA, 13(4) 1999

TABELA 3

Cidades com os Maiores Õndices de Exclus„o Territorial e Taxa de HomicÌdios (1) Estado de S„o Paulo ñ 1991-1994

AdequaÁ„o

1991

1994

Menos Adequados

(%)

Taxa de

Ranking

Taxa de

Ranking

 

HomicÌdios (1)

ViolÍncia

HomicÌdios (1)

ViolÍncia

1. Embu-GuaÁu

1,3

44,95

9

25,04

29

2. Aruj·

6,26

18,85

36

33,49

19

3. Juquitiba

6,45

50,68

6

36,36

16

4. Francisco Morato

7,46

58,34

3

76,36

3

5. Cubat„o

10,07

37,42

16

31,24

20

6. Rio Grande da Serra

16,94

30,33

19

49,35

7

7. Praia Grande

18,14

44,95

10

14,64

48

8. Cotia

20,64

36,89

17

20,79

34

9. Embu

23,06

78,84

2

76,43

2

10. Santana de ParnaÌba

25,92

10,86

64

26,68

27

11. S„o Vicente

26

20,19

31

26,68

26

12. Caraguatatuba

26,88

45,61

8

25,65

28

13. S„o Sebasti„o

28,36

50,68

5

54,3

5

14. Franco da Rocha

28,89

25,91

24

60,28

4

15. Cajamar

30,12

44,78

12

29,87

25

16. Mongagu·

30,17

26,62

21

9,08

75

17. Monte Mor

31,14

15,82

44

40,8

10

18. Suzano

31,44

25,94

23

40,6

11

19. Diadema

31,8

85,58

1

76,89

1

20. V·rzea Paulista

33,38

19,1

34

20,83

33

21. Guaruj·

34,11

26,34

22

35,14

18

22. Iguape

34,34

14,38

49

11,33

58

23. Guarulhos

34,46

44,12

13

53,89

6

24. Atibaia

36,38

15,17

47

18,01

41

25. Campos do Jord„o

36,65

21,69

29

22,42

30

26. Mau·

37,03

58

4

38,94

14

27. Santa Isabel

37,17

15,87

43

37,15

15

28. Po·

37,34

39,52

15

20,62

36

Fonte: FundaÁ„o IBGE. Censo de 1991; FundaÁ„o Seade. Sistema de InformaÁıes sobre Mortalidade. (1) Por 100 mil habitantes.

padr„o. Essas tendÍncias podem ser interpretadas em ter- mos generacionais: a violÍncia cresce nos anos subseq¸en- tes ao grande crescimento populacional. Jovens, nascidos nos anos 70, viveram todas as suas vidas em situaÁ„o de exclus„o territorial, e, portanto, sob condiÁıes de extre- ma vulnerabilidade. Por volta do final dos anos 80, quando chega a hora de sua inclus„o no mercado de trabalho e for- maÁ„o de famÌlias, n„o existem empregos nem meios dispo- nÌveis para enfrentar a situaÁ„o. A violÍncia ent„o toma conta, com seu sentido ambÌguo de desespero e heroÌsmo. Os resultados da pesquisa que acabamos de expor tra- zem evidÍncias da ligaÁ„o entre exclus„o territorial e vio- lÍncia, e de sua relaÁ„o com modelos de desenvolvimen- to econÙmico e polÌticas de planejamento urbano. Uma quest„o final deve ainda ser colocada:

COMO AS POLÍTICAS URBANAS PODEM ENFRENTAR A EXCLUSÃO TERRITORIAL?

O approach tradicional do planejamento em relaÁ„o aos assentamentos de baixa renda tem sido ìesquecerî ou estigmatizar estes territÛrios (denominando-os ìsubnor- maisî) e investir neles politicamente. Investir politicamen- te significa negociar, em geral usando votos como moeda de barganha, provendo investimento em infra-estrutura e serviÁos como ìconcessıesî ou ìfavoresî do prefeito ou vereador para as comunidades. Este mecanismo tem sido uma fonte muito importante de poder polÌtico na esfera local, na medida em que assentamentos irregulares ou ile- gais n„o tÍm o mesmo direito ‡ infra-estrutura e a servi- Áos que a cidade legal. O estatuto ilegal de seu ambiente

108

EXCLUS O TERRITORIAL E VIOL NCIA

torna os habitantes de baixa renda ainda mais vulner·- veis ao clientelismo. O caso de Guaruj· È muito representativo dessa estra- tÈgia polÌtica. Alguns assentamentos irregulares foram atÈ mesmo promovidos por vereadores ou interlocutores do prefeito, que distribuÌram documentos ìfriosî atribuindo direito ‡ ocupaÁ„o de terras n„o urbanizadas. Mas o caso de Diadema demonstra que uma polÌtica urbana diferente pode levar a transformaÁıes substan- ciais em taxas de exclus„o territorial. Como vimos, tanto Diadema quanto Guaruj· cresce- ram rapidamente durante mais de duas dÈcadas e imple- mentaram sistemas tradicionais de planejamento urbano nos anos 70. Entretanto, nos anos 80, as experiÍncias co- meÁam a diferenciar-se: enquanto em Diadema implemen- taram-se polÌticas para superar a exclus„o territorial, no Guaruj· o poder p˙blico municipal mantÈm as pr·ticas tra- dicionais de planejamento, exacerbando a exclus„o. Diadema investiu pesadamente em regularizaÁ„o fun- di·ria, implantaÁ„o massiva de infra-estrutura, urbaniza- Á„o de favelas e na transformaÁ„o de sua estratÈgia de regulaÁ„o urbanÌstica, introduzindo em seu Plano Dire-

tor instrumentos destinados a ampliar a oferta de terra urbanizada para mercados de baixa renda. 18 A diferenÁa entre as duas experiÍncias ñ e seus resul- tados ñ È fundamentalmente polÌtica. Diadema, devido ‡ sua posiÁ„o no ABC, havia experimentado a organizaÁ„o popular atravÈs de sindicatos no inÌcio dos anos 80. Ini- ciando com um fundo criado por famÌlias e amigos de tra- balhadores em greve, uma rede de cooperativas de com- pras alimentares, associaÁıes de moradia e movimentos articularam-se, gerando uma importante fonte de capital social na cidade. Esses grupos organizados comeÁaram a demandar do governo municipal a intervenÁ„o nas con-

diÁıes urbanas. Em 1982, um prefeito local foi eleito com

a sustentaÁ„o dessas redes e, a partir daquele momento,

comunidades em Diadema transformaram-se em interlo- cutores permanentes das polÌticas p˙blicas, participando nas negociaÁıes em torno de estratÈgias de regulaÁ„o ur- banÌstica e decisıes relacionadas ao investimento p˙bli- co. Em 1995, 121 favelas das 197 existentes tinham sido urbanizadas, a rede de ·gua cobria 95% dos domicÌlios e

a rede de esgotos chegava a 60% deles, 96% das ruas eram pavimentadas e iluminadas e a taxa de mortalidade in-

MAPA 2

Valor Adicionado Per Capita Estado de S„o Paulo ñ 1996

Acima de R$ 10.000,00 R$ 170,00 a R$ 10.000,00 Abaixo de R$ 170,00
Acima de R$ 10.000,00
R$ 170,00 a R$ 10.000,00
Abaixo de R$ 170,00

Fonte: FundaÁ„o Seade. Perfil Municipal. Nota: Valores em Reais de dez./95 pelo IGP-DI da FGV.

109

S O PAULO EM PERSPECTIVA, 13(4) 1999

fantil caiu de 83/1.000 no inÌcio dos anos 80 para 21/1.000 em meados dos 90. Mantendo suas polÌticas tradicionais, e diante de sua primeira crise como cidade balne·ria, os indicadores de Guaruj· se deterioraram: das 17 favelas existentes em 1980, passou-se atualmente a 57, onde vivem 47% da populaÁ„o do municÌpio; apenas 43,09% da cidade est· conectada ‡ rede de ·gua e 6,17% ‡ rede de esgotos. 19 A exclus„o territorial, portanto, n„o È uma fatalidade ou um tema que deva ser tratado apenas em termos eco- nÙmicos. O caso de Diadema, assim como outros exem- plos de sucesso no Brasil, demonstra que a existÍncia de capital social e a disposiÁ„o do poder p˙blico em dividir poder com as comunidades de baixa renda s„o essenciais para transformar a urbanizaÁ„o de risco rumo a um mo- delo mais igualit·rio e sustent·vel, com menos perigo de gerar violÍncia.

NOTAS

1. O relatÛrio final da pesquisa encontra-se disponÌvel sob a forma de CD-ROM.

2. Este n˙mero corresponde ao total de municÌpios com populaÁ„o acima de 20

mil habitantes no Estado de S„o Paulo. O recorte foi estabelecido com base em artigo constitucional de 1988, que determina que todos os municÌpios com mais de 20 mil habitantes s„o obrigados a implementar processos de planejamento e regulaÁ„o urbanÌstica em seu territÛrio. A mesma determinaÁ„o j· existia ante- riormente, desde 1975, quando um decreto federal restringira o acesso dos mu- nicÌpios a crÈditos e emprÈstimos federais (inclusive ‡ cooperaÁ„o internacio- nal) para expans„o de infra-estrutura e serviÁos ‡queles que apresentassem um plano diretor municipal justificando o projeto em quest„o.

3. Plano Diretor, Leis de Uso e OcupaÁ„o do Solo e outras normas que compıem

estratÈgias de regulaÁ„o urbanÌstica foram consideradas.

4. A metodologia e o tratamento dos dados foram desenhados por AurÌlio Caia-

do. Para avaliar infra-estrutura, foram levadas em consideraÁ„o quatro vari·veis:

rede de ·gua e esgotos, coleta de lixo e iluminaÁ„o p˙blica. Se o domicÌlio est· conectado ao sistema de ·gua encanada, È considerado adequado; todos os ou- tros sistemas (poÁos, aÁudes, acessos p˙blicos coletivos, etc.) s„o considerados inadequados. Para esgotos, sistemas p˙blicos ou fossas sÈpticas s„o considera- dos adequados, enquanto todas as outras soluÁıes (queimar os detritos, enterr·- los, deix·-los em terrenos vazios, despej·-los nos rios, lagoas ou mar) s„o con- sideradas inadequadas. Para iluminaÁ„o p˙blica, considera-se adequado o siste- ma elÈtrico com relÛgios nos domicÌlios, e todas as outras soluÁıes (sistema elÈ- trico sem relÛgios, sistemas a Ûleo ou querosene s„o inadequadas).

Em relaÁ„o ‡s condiÁıes de habitaÁ„o, foram consideradas adequadas habita- Áıes com paredes de alvenaria, madeira aparelhada ou taipa n„o revestida, com cobertura de laje de concreto, telha de barro, cimento amianto, zinco ou madeira aparelhada. HabitaÁıes feitas de palha ou materiais aproveitados foram conside- radas inadequadas, assim como domicÌlios improvisados ou habitaÁıes coleti- vas (cortiÁos).

5. Trabalhamos principalmente com a taxa de homicÌdios per capita, porque este

È o indicador mais confi·vel para medir a violÍncia registrado por autoridades de sa˙de p˙blica, que possuem um sistema muito consolidado de registro de mortes por causa no Estado de S„o Paulo.

6. Woodrow Wilson International Center for Scholars ñ Comparative Urban Studies

Project on Urbanization, Population, Security, and the Environment. Grupo de estu- dos sobre populaÁ„o, ambiente, urbanizaÁ„o e seguranÁa, Washington, 1998/99.

7. A regi„o mais pobre do Estado È o Vale do Ribeira, a sudeste do Estado, que

compreende 14 municÌpios e 226,413 habitantes, 45,17% deles considerados indigentes. As periferias da capital, ou 38 municÌpios, possuem 6 milhıes de habitantes, 5% dos quais considerados indigentes.

8. Do total de 380 loteamentos registrados no municÌpio atualmente, 290 s„o

irregulares ñ a maioria tendo sido aberta nos anos 70 (118). (Prefeitura de

Diadema, 1995a).

9. Alguns terminais de containers privados, como os da Dow Chemical, Cargill

e Cutrale, instalaram-se no Guaruj· nos anos 70, definindo assim um retroporto.

10. A primeira ocupaÁ„o da ilha ocorre quando a Companhia Balne·ria da Ilha

de Santo Amaro estabelece um hotel, um cassino e 50 chalÈs para a elite paulis- tana na ˙ltima dÈcada do sÈculo XIX.

11. O crescimento populacional de Guaruj· nos anos 70 foi de 5,26% anuais.

12. Considerando a legislaÁ„o aprovada atÈ o final dos anos 80, j· que esta in-

formaÁ„o foi cruzada com os dados do Censo de 1991.

13. A atuaÁ„o do FÛrum Nacional da Reforma Urbana foi importante nesse sen-

tido. A partir de organizaÁıes populares, comunidades eclesiais de base e seto- res tÈcnicos comprometidos com democratizaÁ„o do acesso ‡ terra e infra-estru- tura urbana, formou-se a partir da redemocratizaÁ„o uma rede de agentes cuja identidade era questionar os compromissos e efeitos da polÌtica urbana tradicio- nalmente praticada no paÌs. A partir desse movimento ñ que culmina com a in- troduÁ„o de uma pauta popular e democr·tica no capÌtulo de polÌtica urbana da nova ConstituiÁ„o de 1988 ñ, pautas como a exclus„o praticada pela prÛpria le- gislaÁ„o s„o incluÌdas na discuss„o sobre polÌtica urbana.

14. De acordo com a Tabela 1, os melhores indicadores correspondem aos muni-

cÌpios de Batatais (74%); Cerquilho (71,61%); Descalvado (71,58%); e S„o JosÈ

do Rio Preto (70,72%).

15. Nas estatÌsticas de sa˙de p˙blica, o grupo abrange todo os acidentes, incluindo

de tr‚nsito, suicÌdios, homicÌdios e outras causas violentas, segundo os cÛdigos E800 a E999 do capÌtulo XVII do CID (ClassificaÁ„o Internacional de DoenÁas)

(Souza, 1994).

16. Dados disponÌveis do Estado de S„o Paulo no perÌodo 1991-94 (FundaÁ„o

Seade), mas n„o s„o disponÌveis para todos os estados. Entretanto, dados com- parativos das regiıes metropolitanas e suas capitais confirmam a posiÁ„o de S„o Paulo. Mesmo tendo havido um aumento das taxas em todas as regiıes metropo- litanas, a taxa de homicÌdios de S„o Paulo foi de 38,9, a maior, seguida por Re-

cife (37,8). Souza (1994) aponta uma distorÁ„o nos n˙meros do Rio de Janeiro:

se levarmos em conta o n˙mero de homicÌdios mais as mortes causadas por ar- mas de fogo, cuja intencionalidade ou acidentalidade era ignorada, a taxa de homicÌdios no Rio de Janeiro em 1988 sobe a 50,3.

17. O n˙mero crescente de homicÌdios entre jovens do sexo masculino È uma

tendÍncia internacional. Nos Estados Unidos, em 1987, no auge da epidemia de

consumo de crack, 4.223 jovens homens entre 15 e 24 anos de idade foram as- sassinados. No mesmo ano, apenas no Estado de S„o Paulo, 3.171 homens jo- vens foram mortos (Cardia, 1998).

18. Entre os instrumentos utilizados em Diadema, foram criadas as Zonas de

Especial Interesse Social (Zeis), em terrenos anteriormente destinados a usos industriais, tendo sido feitos crÈditos para que cooperativas de moradia pudes-

sem comprar as terras e construir suas casas.

19. Dados da Prefeitura do MunicÌpio do Guaruj·, 1998.

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