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Este livro realiza um percurso por este processo de

redefinição do estatuto da escola na ordem republicana.


Centra-se, para isto, na elucidação do projeto político-
pedagógico formulado nos anos 20, ao calor do chama-
do entusiasmo pela educação. A partir da avaliação da
República instituída, que informou este projeto, o livro
se detém numa leitura da ação reformadora de Caetano
de Campos, no fim do século, para, em seguida, regis-
trar o deslocamento que sofre a questão educacional no
final da década de 1910. Finalmente, exibe o novo des-
locamento que se produz no discurso pedagógico a partir A DÍVIDA REPUBLICANA
de meados da década de 20, interpretando-o como repoli-
tização do campo educacional, expresso num ambicioso
projeto de reforma moral e intelectual.
Em seu percurso, o livro recusou a doutina do
transplante cultural, acionada com freqüência na histo- Sedirnentou-se nos anos 20, entre intelectuais que se
riografia sobre educação no Brasil, para explicar o abis- aplicavam a pensar o Brasil e a avaliar a República instituí-
mo que efetua -pelo confronto entre ideologias e fatos da, a crença de que na educação residia a solução dos pro-
- entre projetos lidos como propostas de democratiza- blemas que identificavam. Este entusiasmo pela educação
ção da sociedade pela escola e a realidade educacional. condensava expectativas diversas de conmle e moderniza-
Descartando essa doutrina por sua capacidade de tudo ex- ção social, cuja formulação mais acabada se deu no âmbito
plicar e, portanto, nada explicar, o livro deixa como su- do nacionalismo que contamina a produção intelectual do
gestão a novas investigações em história da educação período. Neste âmbito, o papel da educação foi hiperdi-
brasileira uma perspectiva de análise que descarte a ten- mensionado: tratava-se de dar forma ao país amorfo, de
tação, sempre recorrente, de entender a importação de transformar os habitantes em povo, de vitalizar o organis-
idéias estrangeiras como mimetismos inconseqüentes mo nacional, de constituir a nação. Nele se fodava projeto
que atestariam a fragilidade das classes dominantes ou de político autoritário: educar era obra de moldagem de um
fração delas na formulação e imposição de projetos povo, matéria informe e plasmável, conforme os anseios
políticos de seu interesse. de Ordem e Progresso de um grupo que se auto-investia
como elite com autoridadepara promovê-los.
Perpassava fortemente o imaginário desses entu-
B-
siastas da educação o tema da amorfia. Referido ao país, idéia de que a educação era fator mesológico determinante
marcava-o como nacionalidade em ser a demandar o tra- no aperfeiçoamento dos povos, sobrepujando os fatores
balho conformador e homogeneizador da educação. Refe- raciais. As imagens do negro e do mestiço como "vadio"
rido às populações brasileiras, proliferava em signos da continuam a inquietar esse imaginário, mas deixam de
doença, do vício, da falta de vitalidade, da degradação e ser o signo de uma incapacidade inamovível para o traba-
da degenerescência. O trabalho é, nessas figurações, ele- iho livre. O liberto e seus descendentes permanecem es-
mento ausente da vida nacional. As imagens de popu- tigmatizados como criaturas primitivas e por isso pro-
lações doentes, indolentes e improdutivas, vagando ve- pensas à vadiagem. Mas esta passa a ser também o resul-
getativamente pelo país, somam-se às de uma popu- tado da incúna política de abolicionistas e republicanos
lação urbana resistente ao que era entendido como tra- que não os teriam adestrado para as imposições da liber-
balho adequado, remunerador e salutar. Imigrantes a dade. Era o que, em 1931, Femando Magalhães -ilustre
fermentar de anarquia o caráter nacional e populações médico carioca que desde os anos 20 se engajara na carn-
pobres perdidas na vadiagem impunham sua presença panha de regeneração nacional pela educação - lastima-
incômoda nas cidades e comprometiam o que se propu- va, ao escrever que o país não se preparara
nha como "organização do trabalho nacional".
Regenerar as populações brasileiras, núcleo da na- "para o dia seguinte da liberdade que despovoaria os carn-
cionalidade, tomando-as saudáveis, disciplinadas e pro- pos pelo delírio dos libertados, meio inconscientes, cujo
dutivas, eis o que se esperava da educação, erigida nesse primitivismo os manteria na escravidão social, ainda ho-
imaginário em causa cívica de redenção nacional. Rege- je não abolida. A displicência dos governos despreocu-
pou-se de defender o trabalho livre, garantia da produtivi-
nerar o brasileiro era dívida republicana a ser resgatada
dade nacional, no momento em que a alucinação da alfor-
pelas novas gerações. na houvesse, como houve, de se encaminhar para a va-
A questão da organização do trabaiho nacional for- diagem. A palavra dos pregadores da abolição, se '

mulava-se em termos diversos daqueles que haviam proclamou criaturas livres, não as adestrou para as im-
predominado no fim do século. As teses racistas, que ha- posições da liberdade." (A Escola Regionai)
viam sido articuladas em defesa da imigração, embasando
prátjcas excludentes da participação do liberto no mercado Por sua vez, o imigrante não era mais marcado no
de trabalho dos setores mais dinâmicos da economia na- imaginário dessas novas elites pelos signos da operosi-
cional, são agora reformuladas. Se a cor da pele permane-' dade, vigor e disciplina que haviam enleado os promotores
cia assombrando os novos intérpretes do Brasil que en- da imigração no fim do século XIX, alimentando-lhes os
tram em cena nos anos 20, ganhava força entre eles a sonhos de Progresso. Tais sonhos, articulados numa polí-
tica de exclusão do liberto, na expectativa racista e mora- "as riquezas materiais que se ocultam no interior do
lizadora de que a tão decantada operosidade do imigrante país: são as suas forças vivas, as suas forças morais,
únicas capazes de dominar a dissolução dos centros
acabasse por erradicar a vadiagem nacional, ruíam agora.
urbanos ostentosos e anarquizados." (ibidem)
As greves operárias marcavam a figura do imigrante como
presença também incômoda a "fermentar de anarquia o
caráter nacional", como lastimava o mesmo Magalhães: Desta perspectiva, organizar o trabalho nacional
era, sobretudo - com o concurso de uma escola que
disseminasse "não o perigoso conhecimento exclusivo
"Parecia o Brasil pagar duramente o pecado da escra-
vidão prolongada. Ao cabo de quase 50 anos, permanece
das letras, mas a consciência do dever domiciliário" -,
a preocupação angustiosa pelo destino da massa popular, fixar o homem no campo, de modo a conter os fluxos
núcleo da nacionalidade e da democracia, incapaz de migratórios para as cidades e a vitalizar a produção
servir as suas responsabilidades e arriscada de se falsi- rural. Neste caso, o resgate do que se considerava uma
ficar nas correntes imigratórias fermentadas de indisci- dívida republicana fazia-se como proposta agrarista: "o
plina." (ibidem) que não foi feito oportunamente sê-10-á agora e o traba-
lhador rural, livre, criará o cidadão útil, votado à pro-
A preocupação angustiosa pelo destino da massa priedade do seu recanto." (ibidem)
popular encenava, no discurso de Magalhães, a crítica Outro era o teor da dívida republicana a ser res-
ao citadismo e ao industrialismo de importação, conse- gatada, segundo Vicente Licínio Cardoso, intelectual
qüências de mentalidade verbalista cega ao país real e que cunhou a expressão pensar o Brasil nos anos 20.
Propunha que se revisse a h i s t ~ r i o g r ~
estabelecida
a so-
fascinada com fórmulas e costumes estrangeiros:
bre o advento do regime republicano, criticando-lhe a
desconsideração dos fenômenos sociais e econômicos
"O exemplo de outros países de costumes e tradições postos em jogo com a emancipação dos escravos. No
diferentes contaminou de suntuosidade o regime, criando seu p,ntender, tal desconsideração não somente impedia
o novo problema, o citadismo, atraindo para os centros a compreensão adequada do processo que conduzira à
de grande torvelinho provincianos e sertanejos, crentes Proclamação da República, como também induzia a
no milagre da vida fácil." (ibidem) ,
uma percepção equivocada dos problemas que barravam
A industrialização era "fenômeno de importação a efetiva republicanização do país. Entendendo democra-
onde a terra definha de emigração". O antídoto desses cia como organização social do trabalho livre e repúbli-
males era a "educação do povo sertanejo desprotegido", ca como a forma política de tal organização, Licínio jul-
que o fixasse no campo. Não são apenas, dizia, gava que a República brasileira não se havia ainda efeti-
Marta Maria Cllcrgcrs rle Cor.i.o1l i o A Escola e a República 15

varnente implantada, dado o estado de desorganização do


trabalho nacional. Desorganizada a economia rural com
a Abolição, teria havido "um verdadeiro êxodo dos
emancipados para os centros urbanos", determinando a
oferta do "braço operário barato". Disto teria decomdo
"uma organização urbana artificial", que funcionava co-
mo "uma válvula de descarga aberta, atraindo continua-
mente o elemento rural emancipado para os bairros fa-
bris das grandes capitais". O fenômeno se lhe afigurava
como conseqüência de um processo inadequado de
transição da economia agrícola fundada na escravidão
para a fase industrial do operário urbano livre:

"Sem capitais fáceis como a França e a Inglaterra, sem


o artifício técnico em abundância como a Alemanha e
outros países, sem carvão na medida de suas necessi-
dades e sem a indústria de ferro organizada, o Brasil, co-
mo a Rússia, não podia resolver o problema gravíssimo
da transição agrícola, baseada na escravidão do cam-
pônio, para a fase industrial do operário urbano livre."
(A Margem da República)

Nesses dois países haveria apenas um ingrediente


necessário ao processo: "o braço operário barato, mas
com o inconveniente da falta de instrução". Desta de-
composição resultava a avaliação de que a República ti-
nha falhado sobretudo por não ter enfrentado a questão da
organização do trabalho nacional, furtando-se a uma
política de "valorização do elemento primordial do tra-
balho - o homem". Não teria havido "uma única
palavra sobre ensino profissional, nenhum plano de edu-
-
16 Marta Maria Chagas de C a r ~ a l h o A Escola e a Repiíblica
I

cação dos negros emancipados, nenhum programa geral tratégico, técnico e conceitual de defesa nacional, de
de combate ao analfabetismo de letras e ofícios". Para crescimento industrial, de modernização agrícola, de re-
Licínio, além de ser preciso enfrentar a "complexidade ordenação política, de saneamento e educação.
do problema econômico agrícola (campônios sem in- A seção "A Defesa Nacional", publicada de julho
strução e sem máquinas)", urgia também resolver "a de 1927 a agosto de 1928 em A Bandeira, era uma pu-
gravidade do problema industrial urbano num país de blicação militar já existente desde 191 1 . O grupo militar
capitais pequenos e, de outro lado, de recursos frouxíssi- ligado à revista tivera origem em 1906, na política do
mos em ferro e carvão." (A Margem da República) Marechal Hermes da Fonseca de modernizar o exército
Formado pela Escola Politécnica do Rio de Janei- enviando jovens oficiais para servirem arregirnentados
ro, Vicente Licínio Cardoso pertencia a um grupo mar- no exército alemão. Com a vinda da Missão Francesa,
cadamente industrialista que se formara em seus bancos. em 1920, os militares ligados à revista ampliaram sua
O grupo vinculava-se ao Club dos Bandeirantes do concepção de defesa nacional. Segundo José Murilo de
Brasil, organização que, além de difundir os sports e o Carvalho, o que "existia na área se baseava num con-
tourismo como signos de um modo de vida moderno, ceito estreito de defesa que se limitava quase que só à
moldado em costumes norte-americanos, propunha-se a proteção de fronteiras do Sul e do Sudoeste". Com a
renovar a mentalidade brasileira elaborando um "estado vinda da Missão, amplia-se a noção, "incluindo a mobi-
de consciência para a nação brasileira". Ridicularizado lização de recursos humanos, técnicos e econômicos"
pelo jornal A Esquerda como "ajuntamento mussolínico que abrangiam "todos os aspectos relevantes da vida do
do Cinema Império", o Club era prestigiado pela grande país, desde a preparação militar propriamente dita até o
imprensa carioca e contava em seus quadros com altas desenvolvimento de indústrias estratégicas como a
personalidades da vida social e política do país, entre siderúrgica." ("Forças Armadas na Primeira República")
'

elas o Presidente Washington Luiz e o então Ministro Os signos de progresso de A Bandeira estavam a
da Fazenda, Getúlio Vargas. Entre 1927 e 1929, o serviço de um projeto de modernização nacional articu-
Club publicou uma revista, A Bandeira, que anexou a lado com essa concepção de defesa nacional. É neste
publicação militar A Defesa Nacional e uma seção ci- quadro que a educação ganha estatuto de peça fundamen-
vil, "A Terra e o Homem". A revista operava com sig- tal de uma política de valorização do homem como fator
nos de progresso, dinamismo, força e unidade, produzin- de produção e de integração nacional. A superação do
do com eles, metonimicamente, imagens de um país isolamento das diversas regiões brasileiras pelo desen-
dinâmico e próspero, que surgiria de propostas de orga- volvimento dos meios de comunicação e transporte; sua
nização social, política e econômica que propagandeava. integração num circuito que garantisse a circulação dos
Entre elas, figuravam projetos de aprimoramento es- bens materiais e culturais constituindo um grande mer-
Mcrrtcr Mcrr.icr Chcrgcrs de Cut.i~ullio A Escola e a República

pela educação -"toda essa gente reduzida pela vérmina Regenerar essa massa popular era tarefa comparti-
a meio homem, a um terço de homem, a um quarto de lhada por agraristas, como Magalhães, e industrialistas,
homem" era a única. 3alvação" (No Brasil só há um como Vicente Licínio, típicos defensores do velho e do
problema nacional - a educação do povo). A incum- novo, que alguns historiadores têm afirmado estarem
bência de educar os "sub-homens" era alçada por em total polarização no período. As diferenças de diag-
Femando Magalhães à missão sagrada a ser executada "à nóstico e de terapêutica eram unificadas por sua subordi-
beira do abismo, ante o precipício". nação a um interesse comum: o de minimizar os efei-
Cobrava-se então o preço da incúria política dos re- tos, tidos como perniciosos, dessa massa popular no
publicanos: a massa popular, o núcleo da nacionalidade, cotidiano das cidades. Deter os fluxos migratórios para a
esses milhões de analfabetos de letras e ofícios relegados cidade, promovendo política agrarista de fixação do
a condições sub-humanas de vida maculavam a assepsia homem no campo através da escola, ou dinamizar a
burguesa de que vinham sendo tecidos os sonhos de Pro- economia de base industrial, por medidas educacionais
gresso na República. O pesadelo pode ser descrito citan- que incorporassem levas de,ociosos ao sistema produti-
do-se o higienista Belisário Penna, que em 1912 fora en- vo, eram projetos com um denominador comum: o
carregado por Oswaldo Cruz de fazer um inventário das equacionamento da questão urbana, a estruturação de es-
condições de saúde de populações sertanejas e que se in- quemas de controle que viabilizassem, no espaço da
tegrara na campanha educacional nos anos 20: cidade e no tempo da produção-expropriação capitalista,
o disciplinamento das populações resistentes, na vadia-
"314 dos brasileiros vegetam miseravelmente nos la- gem ou na anarquia, à nova ordem que se implantava.
tifúndios e nas favelas das cidades, pobres párias que, A empresa regeneradora não era fácil. O balanço
no país do nascimento, perambulam como mendigos feito da República instituída era, para Licínio e para a
estranhos, expatriados na própria pátria, quais aves de autodenominada "geração dos homens nascidos com a
arribação de região em região, de cidade em cidade, de República", a que ele pertenceu, pessimista:
fazenda em fazenda, desnutridos, esfarrapados, famintos,
ferreteados com a preguiça verminótica, a anemia palus- "A grande e tiste surpresa de nossa geração foi sentir
tre, as mutilações da lepra, as deformações do bócio que o Brasil retrogradou. Chegamos quase à maturidade
endêmico, as devastações da tuberculose, dos males na certeza de que já tínhamos vencido certas etapas. A
venéreos e da cachaça, a inconsciência da ignorância, a educação, a cultura ou mesmo um princípio de expe-
cegueira do trawma, as podridões da bouba, da leish- ' riência, nos tinham revelado a pátria como uma terra
maniose, das úlceras fragedêmicas, difundindo sem peias em que a civilização já resolvera de vez certos proble-
esses males."(A Escola Regional) mas essenciais. E a desilusão, a tragédia da nossa alma
.- --

Marta Maria Chagas de Corl~ílho

foi sentir quanto de falso havia nessas suposiçóes. O


tempo nos preparava uma volta implacável à realidade.
E essa realidade era muito outra, muito outra, do que
aquela a que o nosso pensamento nos preparara e que a
imaginação delineara.

Encontramo-nos bruscamente, ao abrir os olhos da


razão, perante urna pátria ainda por fazer, ainda informe,
ainda tolhida em sua aç,ão e sem vitalidade, sem alma, sem
ideal, uma pátria que o lirismo tinha decantado em cores
falsas e de que a indiferença agora soma ou o pessimismo
A ESCOLA MODELAR
negava grosseiramente." (A Margem da República)

Proclamada a República, a escola foi, no Estado de


São Paulo, o emblema da instauração da nova ordem, o
sinal da diferença que se pretendia instituir entre um pas-
sado de trevas, obscurantismo e opressão, e um futuro
luminoso em que o saber e a cidadania se entrelaçariam
trazendo o Progmm. Como signo da instaumçáo da nova or-
dem, a escola devia fazer ver. Daí a importância das cerimônias
inaugurais dos edScios escol=. O rito inaugural repunha o
gesto instaurador. A fala de Cesário Mota na inaugu-
ração do edifício da Escola Normal Caetano de Campos,
rm 1894, é paradigmática:

"...o historiador, fitando o passado inteiro de nossa pá-

tria, querendo sopesar o grandioso progresso de nosso


Estado, precisando de avaliar a sua extensão, conhecer-
lhe a base, os lados, os vértices, há de forçosamente
tomar como ponto culminante, ponto de prova, ponto
Marta Maria Chagas de Canva1ho A Escola e a Replíhlica

de triangulação, ponto que denote a reunião de todos os ciária do menino, e o ganha-pão do mestre". Dessas es-
lados do polígono social, no início da República em colas não se poderia obter nem educação cívica, nem
São Paulo, a Escola Normal que ora se inaugura." "preparação para satisfazer as necessidades da vida ou
para desempenhar as funções sociais, que o regime re-
E prosseguia: presentativo exige", nem "preparo da mentalidade infan-
"Não porque tenha este palácio as grandes ,-... til para receber as idéias que por ampliação se ihe deve-
lações artísticas que orgulham os arquitetos, os pintores riam incutir nos anos superiores". Por isso, resolvido o
de todos os tempos", mas porque no edifício celebrado problema econômico, o social e o político, o governo
"a grandeza, a majestade do simples" simbolizava a republicano ter-se-ia voltado para o da instrução. O edi-
"força de uma idéia elevada": a instrução do povo. fício que então se inaugurava era a resposta dos gover-
"Ponto culminante de nossa arquitetônica", o edifício nos republicanos a uma sociedade inteira que, cansada de
revelava "a altura em que a República colocou desde o enviar os filhos ao estrangeiro "para mendigar o saber
início o problema da instrução". A "nobreza" das suas que aqui não se podia obter", e entristecida em ver os
linhas demonstrava a crença de que não haveria mais no- cárceres repletos, teria bradado com Goethe: "Luz! Luz!
bre. profissão que aquela que se incumbe de "preparar Mais Luz!"
cidadãos para a sustentação, defesa e engrandecimento de Para fazer ver, a escola devia se dar a ver. Daí os
uma pátria livre". Sua "vastidão" denotava o gesto do edifícios necessariamente majestosos, amplos e ilumi-
Governo, convidando "todas as aptidões, todas as fortu- nados, em que tudo se dispunha em exposição perma-
nas, todas as idades, todos os sexos, todas as vocações nente. Mobiliário, material didático, trabalhos executa-
para virem sagrar-se aqui sacerdotes da religião do saber, dos, atividades discentes e docentes -tudo devia ser da-
em que nós democratas fundamos as nossas ardentes es- do a ver de modo que a conformação da escola aos pre-
peranças de prosperidade da pátria e de glória para a ceitos da pedagogia moderna evidenciasse o Progresso
República". que a República instaurava.
A visão do luminoso templo laico levantado com Aquilo que num imaginário fortemente impregnado
recursos que o Império havia destinado à construção de pelo positivismo era tido como dogrna da constituição
uma catedral, contrapunham-se \risões tenebrosas da es- dos povos modernos -conhecerpara vencer -era o de-
cola na velha ordem: "c :asas serri ar e luz, meninos sem safio lançado à República. Sem preparo intelectual, pon-
livros, livros sem mé;todo. _,es.;colas sem disciplina, derava Caetano de Campos em documentos compilados
mestres tratados como párias". No retrato da educação por João Lourenço Rodrigues, nenhum povo estaria apto
no Império, a falta de recursos "trazia a de estímulos, o para as conquistas do Progresso. Facultadas à Huma-
desânimo, e a escola pública era, em geral, a peniten- nidade pela Ciência, tais conquistas desembocavam na
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26 Marta Maria Chagas de Cama1h O A Escola e a República

revolução "prodigiosa" que o século vinha realizando.


Educar era a aspiração uníssona que se levantava
em todos os países. Não bastava, contudo, ensinar: era
preciso saber ensinar. Não poderia haver ensino produti-
vo sem a adoção de métodos que estariam transformando
em toda a parte o destino das sociedades. A educação do
homem moderno exigiria uma soma de conhecimentos
que resultavam "sinteticamente das noções enciclopédi-
cas hauridas em diversos ramos de estudo". Como era
impossível "ensinar às crianças tudo quanto pode ser
necessário à vida", tomava-se praticável dar à inteligên-
cia um grau de maturidade que preparasse suficiente-
mente o homem novo para entrar na vida social "com
seguros capitais para o êxito". Dos métodos bem enten-
didos e bem praticados é que poderia sair "o cérebro
adaptado à conquista da verdade". Por isso, insistia
Caetano de Campos em discurso aos professores, em
1890:

"...quando um país quer dar a medida de seu progresso,


do alcance de suas instituições, do valor de sua raça,
aponta o número de suas casas de ensino e abre-lhes as
portas como que dizendo: Vede como se aprende!"

A montagem do sistema' público de ensino


paulista no início da República, sob a ação reformadora
de Caetano de Campos, levou às últimas conseqüências
o primado da visibilidade. É que, fazendo a educação do
homem novo depender de novos mCtodos e processos de
ensino e o domínio desses métodos e processos da ex-
periência de vê-los em execução, essas iniciativas re-
publicanas organizaram-se em tomo da instituição da permanecesse. (...) Modemamente o pedagogo atua de
Escola Modelo. A escola em que se aprende a ensinar, outro modo. Coleciona previamente os fatos que devem
dizia Caetano de Campos em Carta à Imprensa, "é ne- ser explicados, coordena-os tacitamente em seu gabi-
cessariamente uma escola prática e longa", pois não se- nete, numa sucessão lógica que é muitas vezes o segredo
ria possível "ser mestre em tais assuntos sem ter visto de todo o sucesso do ensino; apresenta-os depois à
fazer e sem ter feito por si". Toda erudição seria de apreciação do aluno, atendendo sempre à sua capacidade
pouco proveito para os mestres se não fossem "ver co- atual, à sua idade, à sua agudeza de espírito e outras
mo as crianças eram manejadas e instruídas". condições psicológicas que ele, professor, estuda em ca-
Na Escola Modelo, instituição que deveria ser o da aluno." (ibidem)
"coração do Estado", revelar-se-ia, "aos olhos dos futuros
professores, o mundo, novo para eles, do ensino intuiti- Formar o pedagogo moderno consistia em fazê-lo
vo". Os processos intuitivos, que estariam em constante ver os novos métodos em funcionamento,pois seria "inú-
aperfeiçoamento na Alemanha, na Suíça e nos Estados til pensar em adquirir sem ter visto praticar". Mas como
Unidos, eram a base do ensino moderno. Seu mérito, "a fazê-lo sem mestres que já tivessem visto fazer e feito por
cultura intensiva do espírito, o aproveitamento de todos si? A solução era mandar vir do estrangeiro mestres
os detalhes, cada cousa em cada hora, o alimento intelec- hábeis nessa especialidade e, com eles, profuso material
tual o mais completo, dado na proporção da receptividade didático adequado às exigências da "moderna pedagogia".
psicológica" ("Discurso aos professorandos"). Disciplina A importação de mestres foi resolvida pela con-
do espírito pela seleção e dosagem adequada dos "fatos tratação de professoras já radicadas no- Brasil, mas for-
que devem ser explicados" à psicologia infantil, o ensino madas nos Estados Unidos. A importação de material
intuitivo repetia "o processo que instruiu a humanidade didático foi possibilitada pelo Governo e suplementada
inteira em sua vida intelectual -a intuição." (Memória por alguns empréstimos feitos à Escola Americana. Um
apresentada em I891 ao Governo do Estado) Marcava- então aluno da Escola Normal, João Lourenço Rodri-
se com o signo do novo opondo-se aos processos que ha- gues, deixou seu depoimento:
viam caracterizado a educação na velha ordem:
"O edifício constava de dois corpos ligados por um
corredor, mas, a princípio, dele só foi aproveitado o
"Dantes, enchia-se a cabeça do aluno com uma sCrie in- pavimento superior. O corpo da frente foi ocupado pela
terminãvel de definições por meio duma instrução im- seção masculina, a cargo de Miss Browne; no corpo do
buída na memória B força de repetições, tantas vezes re- fundo foi instalada a seção feminina, confiada a D.
produzidas quantas eram necessárias para que o fato aí Maria Guilhermina. Completa a instalação das classes e
F -- .r

1ho
Marta Maria Cliagcrs cle CUI-\YI A Escola e a Repiíhlica

bem encaminhado o trabalho de sua organização, os para traçar a orientação do ensino nas esperadas escolas
alunos e alunas do 3" ano puderam enfim começar os modelos. No dia marcado para o primeiro encontro, os
exercícios práticos de ensino. A princípio deviam limi- alunos, reunidos numa das salas de aula, as esperavam
tar-se a observar e a anotar as suas observações. Entre com grande curiosidade. Depois do toque da sineta, as
o que Ihes foi dado a ver e as suas reminiscências, ain- duas entraram, acompanhadas do Diretor, muito som-
da recentes, da escola régia tradicional, o contraste não dentes, a desfazerem-se em mesuras e cortesias. Feita a
podia ser mais flagrante. A mobília, cedida pela Escola apresentação, o , Dr. Campos retirou-se e D. ~ & a
Americana, era nova e envemizada; o aspecto das clas- Guilhermina iniciou sua exposição inaugural. Estava
ses, munidas do material necessário para a prática do visivelmente intimidada e, talvez por isso, não con-
ensino intuitivo, causava excelente impressão. Notava- seguiu dar a essa exposição a clareza que fora para dese-
se por toda a parte ordem, asseio e não faltava nem jar. Os ouvintes ansiavam por conhecer as diretrizes
mesmo a nota artística de algumas jarras de flores, ali- essenciais da nova pedagogia e D. Maria Guilhermina,
nhadas sobre as mesas. O ambiente não podia ser mais perdendo-se em minúcias, deixou essas diretrizes na
sugestivo. As crianças, que outrora fugiam com horror . penumbra. Por muito bem informada que se revelasse
da escola, eram agora as primeiras a chegar. Pudera! A em processos de ensino, parecia ser dessas pessoas que
imobilidade de outrora, que as fazia morrer de tédio, não sabem elevar-se da noção da árvore à noção da flo-
sucediam agora, alternando com lições curtas, exercí- resta: era dispersiva.(...) Miss Browne foi mais feliz:
cios de marcha e canto, que imprimiam à vida escolar não conhecendo bem a língua, ficou dispensada de falar
um tom."(Urn Retrospecto) e mal se aventurou a alguns monossílabos" (ibidem).

Exímias na arte de ensinar, as professoras con- A inépcia das professoras não era, contudo, rele-
tratadas para a Escola Modelo não tiveram, entretanto, vante para os propósitos republicanos de Caetano de
muito êxito na exposição dos princípios que norteavam Campos. O sistema público de ensino paulista monta-
sua prática aos alunos da Escola Normal. O mesmo va-se, como já foi sublinhado, sob o primado da visi-
João L. Rodrigues recordava: bilidade. Ver para reproduzir os procedimentos vistos e
dar a ver sua prática como modelo de outras era o que se
"As aulas das escolas modelos não podiam começiii UC:~-
propunha aos futuros mestres. É que a Pedagogia dos
de logo, em razão das obras que estavam sendo execu- "processos intuitivos:' era uma arte da minúcia, da
tadas no prédio da Rua do Carmo. (...) O Dr. Caetano de dosagem, da gradação, que se queria fundada na obser-
Campos entendeu que as duas professoras poderiam vação de cada aluno, na experiência de cada situação, na
aproveitar utilmente o seu tempo dando hs duas classes concatenação minuciosa dos conteúdos de ensino pa-
do terceiro ano algumas aulas teóricas, que serviriam cientemente isolados e colecionados no cultivo de cada
faculdade da criança numa ordenação que se pretendia vicção científica", tomando realidade o self-government.
fundada na natureza Seria através desses processos, Para o Governo, educar o povo era um dever e um inte-
"sem o descuido de um instante, que a criança, graças à resse. Interesse "porque só é independente quem tem o
sua natural atividade", tomava-se "produtiva em vez de espírito culto, e a educação cria, avigora e mantém a
vadia, amiga da verdade e induzida a procurá-la por posse da liberdade". Tal interesse não se restringia ao
hábito, porque tudo o que sabe deve a seu próprio es- ensino primário. Se este era importantíssimo por desen-
forço, muito apta para a conquista das noções, porque volver na criança "o hábito de refletir antes de enunciar,
aperfeiçoaram-lhe os sentidos e com eles a aquisição de a ciência de aproveitar o tempo (...) e sobretudo o amor
idéias"; tornava-se também "hábil e fecunda, porque só ao trabalho", isto não seria suficiente para formar
se lhe deu o que ela podia receber; porque o que se lhe cidadãos. Para tanto se impunha que o ensino fosse,
deu tinha a medida na sua própria psicologia, e tudo o tanto quanto possível, "completo, inteiro em todos os
que adquiriu estava baseado na formação do seu caráter, conhecimentos indispensáveis à vida, enciclopédico por
na justiça das coisas..." (Carta a Imprensa) assim dizer, já que nosso viver social na atualidade en-
Colhendo nas ciências naturais "os elementos de volve-nos em contingências oriundas de toda sorte de
disciplina mental" que fez seus, a "intuição como méto- noções científicas". Não era admissível "apagar o facho
do pedagógico" era a pedra de toque na organização do que deve conduzir a criança para o grande templo da vi-
sistema de ensino paulista. Era, como já se observou da", terminado o ensino primário. Não quando os
aqui, a possibilidade de recapitular, no indivíduo, "o primeiros anos de escolaridade já tivessem desenvolvido
processo que instruiu a humanidade inteira em sua vida na criança o hábito de pensar e sua curiosidade já hou-
intelectual". Era, por isso, a possibilidade de conquistar vesse sido despertada. Os conhecimentos científicos
para o indivíduo os benefícios que a Ciência trouxera ministrados na escola secundária deveriam ser a base da
para a Humanidade e, através deles, as condições para o educação. O conhecimento do mundo físico constituía-
exercício da cidadania. Já que a mudança de regime havia se na "melhor disciplina mental", assim como o hábito
entregue "ao povo a direção de si mesmo", nada era de experimentar era garantia de "formação de um ho-
mais urgente, ponderava Caetano de Campos em mem apto em todos os sentidos".
Memória apresentada ao Governador Jorge Tibiriçá, que Fomecer tal ensino inteiro, completo, de base
"cultivar-lhe o espírito, dar-lhe a elevação moral de que científica, condição efetiva da cidadania pl~liia,é o que se
ele precisa, formar-lhe o caráter para que saiba querer". entendia como tarefa republicana. Isto porque era a re-
Num regime em que "o príncipe é o povo" e em que denção da Ciência que a República devia trazer ao povo:
não haveria por que zelar pelo "interesse de uma família
privilegiada", o povo só poderia guiar-se pela "con- "No século em que vivemos, todas as liberdades foram
conquistadas pela ciência. S6 esta desvenda a realidade jetos de um Caetano de Campos e de tantos outros re-
das coisas, s6 esta separa o joio do trigo, s6 esta no- publicanos que, eloqüente e reiteradamente, afirmaram
bilita o homem, s6 esta combate, resiste e vence." com palavras e atos sua fé no poder liberalizador e de-
("Discurso aos professorandos") mocratizador da educação podem ter sua extensão
aquilatada. A pergunta que fica ao nos depararmos com
Era preciso "afastar o sofisma, rechaçar o precon- o imaginário pedagógico republicano é: Quem, nesse
ceito, fustigar o obscurantismo, seja qual for sua pro- imaginário, é o cidadão que a República tem o dever e o
cedência". O que implicava o povo ser "instruído larga- interesse de educar?
mente, proficientemente, como quem precisa governar-se Em estudo sobre o negro no imaginário das elites
a si, e poder governar outros povos, se a ocasião o exi- brasileiras no século XIX, Célia Azevedo mostra como
gir." (Memória apresentada ao Governador) A dissemi- se consolidou na Assembléia Legislativa Provincial de
nação desse ensino de base científica, entretanto, deman- São Paulo, no início da década de 80, o imigrantismo.
dava o estabelecimento prévio de novas escolas-modelo, Acompanhando os debates parlamentares nos anos 70 e
de 2" e 3 Q a u s , anexas à Escola Normal, em que 80, a autora mostra como o
pudessem ser vistos os novos processos de ensino. Antes
de criar as escolas secundárias adequadas a esses graus es- "imigrantismo, bem como a formulação correspondente
colares superiores, era preciso preparar os professores, fa- de seu ideário racista, emerge tal qual uma m a ou ins-
miliarizando-os com "os processos que os naturalistas trumento político manejada contra os negros, adver-
empregam para a obtenção da verdade científica". Havia sários temidos do cotidiano passado, presente e futuro,
"muito que fazer na criação de bons moldes, muito livro e cuja resistência disseminada, e por isso mesmo difícil
a escrever, muita noção a adquirir". A cidadania efetiva de ser coibida, objetivava-se de alguma forma neu-
dos brasileiros ficava postergada para o futuro, na tessitu- tralizar, substituindo-os por uma massa de imigrantes
ra dos moldes pedagógicos com que a República se anun- brancos." (OndaNegra Medo Branco)
ciava. Caetano de Campos dizia: "É preciso não perder
tempo porque devemos andar devagar". As medidas tomadas para sustar a "onda negra" -
"imagem vívida do temor suscitado pela multidão de es-
cravos transportados do norte do país para a província
no decorrer das décadas de 1860 e 1870" (ibidem) -
/ As profissões de fé dos republicanos paulistas não bem como para promover a imigração eram veemente-

~~
'li
podem deixar de ser referidas à opção política da grande mente defendidas nos debates parlamentares por insis-
lavoura cafeeira pela imigração. Só desta forma os pro- tente caracterização do negro como raça inferior, incapaz
J
I -- 36
-

o
Martu Maria Chagus de Car~v-~lh A Esc~)lae u República 37
I4

para o trabalho, propensa ao vício, ao crime e inimiga nesta direção páme sedutor. Não é ele o reformador que
I da Civilização e do Progresso. A partir do início da déca- Ieva o transplante cultural às últimas conseqüências, im-
da de 80, quando o imigrantismo se consolida, o tema portando métodos, material didático e até professoras,
do aproveitamento do nacional, intensamente debatido num afã reformista que lembra o afinco do personagem
dentro e fora do Parlamento durante todo o século, é de Herzog em montar uma ópera na selvagem Amazô-
posto de lado. A imigração européia é, então. a altemati- nia? Mais sedutor, entretanto, é pensar os limites deste
Y va escolhida, "dando vazão aos sonhos de trocar o negro projeto educacional republicano, referindo-o à sociedade
pelo branco, de transformar a 'raça brasileira' e, no caso fortemente excludente que se estruturava nas malhas da
1
I I, de São Paulo, de valorizar as tão decantadas qualidades opção política que foi o recurso à grande imigração.
11
'viris' dos paulistas, tomando-a, no futuro, uma provín- Observa Alfredo Bosi que, com esta política, re-
cia branca, capacitada, conseqüentemente, para um fran- solvera-se o problema do trabalho assalariado, mas não a
co progresso e desenvolvimento." (ibidem) Assim, o questão do ex-escravo, a questão do negro: "Para este, o
imigrantismo propunha não somente a troca do negro liberalismo republicano nada tinha a oferecer." ("A
pelo branco nos setores fundamentais da produção, como Escravidão entre Dois Liberalismos") O que tinha a
,I
também arquitetava um projeto de regeneração e capaci- República instituída a oferecer às populações que a polí-
Ii tação para trabalho, cujo instrumento era a miscigenação tica imigrantista degradava a condições miseráveis ao re-
de que se esperava um desejado b~queamentomorali- produzir continuamente uma força de trabalho excedente?
zador das populações negras. Alijando enormes contingentes populacionais do proces-
I I
I
É dominante na historiografia educacional o recur- so produtivo e otimizando as condições de expropriação
I
I so à figura do transplante cultural como um lugarco- do trabalhador incorporado no processo pelos fluxos

1k~ 1 i' I mum, que explica um abismo alegado entre os bons imigratórios constantes - como tem sido pontuado na
propósitos ilustrados de uma elite convencida do poder bibliografia sobre a constituição do mercado de trabalho I
1
livre em São Paulo - tal política exibe os limites da
11

1: democratizador e liberalizador da educação e os resultados


efetivos desses propósitos. Os projetos dessas ilustres cidadania possível na República instituída. Neste con-
elites não se teriam transformado em realidade porque texto, adquire maior precisão a pergunta: Quem era, no
inspirados em ideologia forjada no estrangeiro. imaginário republicano, o cidadão que a República teria
Mimetismos inconseqüentes atestariam a fragilidade das o dever e o interesse de educar? Estariam todas essas
classes dominantes ou de fração delas na formulação e populações degradadas à miséria, excluídas a priori dos
I I imposição de projetos políticos de seu interesse. benefícios das luzes educacionais? Se assim for, não
I
Interpretar os projetos de um Caetano de Campos haverá distância entre projetos e realizações e nenhum
I
L
espaço para o chavão explicativo do transplante cultural.
A importação dos moldes norte-americanos, com
que o darwinista Caetano de Campos anelava implantar
não só uma nova escola, mas uma nova sociedade, é
homóloga ao movimento de transplantar para o país no-
vas populações, construindo com elas o tão almejado e
luminoso Progresso. Seu afã pedagógico pode ser inter-
pretado como alegoria da opção imigrantista. Para os
contemporâneos dèlaetano Campos, a escola instituída
se exibiria como demarcação de dois universos - o dos O FREIO DO PROGRESSO
cidadãos e o dos sub-homens - funcionando como dis-
positivo de produção/reprodução da dominação social.
Se a cidadania plena só era para Caetano de Campos fa-
cultada por um ensino inteiro, completo, de base cientí- O vagar com que Caetano de Campos marcava seu
fica e se a generalização deste ensino ficava postergada paciente trabalho de reformador não tem lugar na lin-
para um futuro remoto na dependência de morosas guagem de cifras e na urgência das metas que caracteri-
providências pedagógicas, fica a questão: o que tomava zam o relatório apresentado em 1918 por Oscar Thomp-
possível este vagar? son, Diretor Geral da Instrução Pública do Estado de
São Paulo, ao Secretário do Interior, Rodrigues Alves:
"A evolução do ensino público paulista, já no que toca
aos seus métodos educativos,j2 no que se refere à sua di-
fusão por todos os 196 municípios do Estado, acresceu
ao estudo grandes e importantes problemas que exigem
solueo pronta e riipida: 232.621 crianças frequentaram
escolas em 1918; 247.543 em idade escolar não fresuen-
tararn escolas públicas ou particulares conforme atesta a
estatística.
Que fazer para educar esses milhares de menores
que, crescendo analfabetos, constituirão elementos ne-
gativos do nosso progresso?"
A Escola e a República 4
Marta Maria Chagas de Carvalho -

Só resolvendo o problema do analfabetismo é que o


O analfabetismo passava a ser a marca da inaptidão Brasil poderia "assimilar o estrangeiro que aqui se instala
para o Progresso. Era ele a causa da existência das po- em busca da fortuna esquiva". Não haveria como fugir
pulações que "mourejavam no Estado, sem ambições, ao dilema: ou o Brasil manteria "o cetro dos seus desti-
indiferentes, de todo em todo, às cousas e homens do nos, desenvolvendo a cultura dos seus f&osn, ou seria
Brasil." (ihidem) Produz-se, assim, um deslocamento "dentro de algumas gerações absorvido pelo estrangeiro
no discurso educacional: um novo personagem irrompe, que para ele aflui". Reintroduzia-se, assim, a questão do
um brasileiro doente e improdutivo, peso morto a frear aproveitamento do chamado elemento nacional. Em.-es- --
o Progresso, substitui a figura do Cidadão abstrato, al- -

tudo sobre a formação do mercado de trabalho livre em


vo das luzes escolares. O novo cidadão não é mais invo- São Paulo, Lúcio Kowarick observa que o tema da va-
cado para oficiar no augusto templo da Ciência. Basta- lorização da desacreditada mãode-obra nacional é retoma-
lhe agora o manejo cívico do alfabeto. do num momento em que, com a Primeira Grande Guer-
A pergunta formulada pelo Diretor Geral é respondi- ra, os fluxos imigratórios contínuos sofrem brusco cor-
da por Sampaio Dória em carta aberta. O futuro refor- te. Além disso, as greves operárias do fim da década de
mador da instrução pública paulista em 1920justificava 10 destroem os mitos da tão decantada operosidade do
as medidas que preconizava, reiterando as razões para a imigrante que haviam embalado o imaginário das elites
extinção do analfabetismo: paulistas no fim do Império e início da República.
O programa educacional desta revalorização con-
"Ho-je não há quem não reconheça e n5o proclame a centrou-se inicialmente na alfabetização. A partir de
urgcncia salvadora do ensino elementar às camadas po- meados da década de 20, esse promama é redefinido ao
pulares. O maior mal do Brasil contemporâneo é a sua - -. ---
calor da campanha de regeneração nacional promovida
porcentagem assombrosa de analfabetos. (...) O mons- pela Associação Brasileira de Educação (ABE),fundada
tro canceroso, que hoje desviriliza o Brasil, é a igno-
no Rio de Janeiro, em 1924. Para os entusiastas da edu-
rância crassa do povo, o analfabetismo que reina do
cação que nela se aglutinaram, era preciso combater o
norte ao sul do país, esterilizando a vitalidade nativa e
"fetichismo da alfabetização intensiva", valorizando-se o
poderosa de sua raça."
que se entendia por "educação integral". Em ambas as
formulações, entretanto, o mesmo deslocamento discur-
A alfabetização do povo apresentava-se para
I1 I ~. ~ , ~
I,/
Sampaio Dória como "a questão nacional por excelên-
cia". É que o imigrante de que os republicanos históri-
sivo. A figura do Cidadão abstrato, dominante na retóri-
ca dos republicanos históricos, é substituída pela ima-
gem de um brasileiro improdutivo, doente e ignorante,
cos haviam esperado o aprimoramento da "raça brasi-
que urge regenerar com o recurso da escola.
leira" era visto agora como ameaça ao "carcíter nacional".
Marta Maria Chagas de Car.i7a/lio I r o Rej>rihliiu
A ESCO~LI

sino elementar de 2 anos a todos. A Reforma opta pela


O projeto de Sampaio Dória,ideólogo da Liga
segunda via. As medidas que adota para erradicar o anal-
Nacionalista de São Paulo, não se limitava, contudo, à fabetismo são amoladas por Heládio Antunha:
alfabetização. A escola primária de objetivos mais
modestos e de duração reduzida que sua reforma irnplan-
"(a) a radical modificação efetuada nos níveis inferiores
tou em São Paulo deveria, enfatiza Heládio Antunha, do ensino público (art. lP),com a redução do ensino
funcionar como: primário a dois anos e a conseqüente criação do ensino
"I9 instrumento de aquisição científica, como aprender a médio de dois anos de duração, correspondendo aos 3" e
ler e escrever, Z9 educação inicial dos sentidos, no de-
4* anos primários, então extintos;
senho, no canto e nos jogos; 3" educação inicial da in- (b) a redução da obrigatoriedade e gratuidade da fnquên-
teligência, no estudo da linguagem, da análise, do cálcu- cia escolar primária. As crianças legalmente obrigadas
a frequentar o curso primário de dois anos passam a ser
lo e nos exercícios de logicidade; 4" educação moral e
apenas as de 9 e 10 anos de idade;
cívica, no escotismo, adaptado à nossa terra e no co-
(C)a taxação do curso médio;
nhecimento de tradições e grandezas do Brasil; 5 W u -
(d) a unificação das escolas isoladas ao tipo único de
cação física inicial, pela ginástica, pelo escotismo e pe-
dois anos;
los jogos." (A Reforma de 1920)
(e) a redistribuição de professores de 3" e 4" anos, que
Mesmo a Liga Nacionalista, cujas campanhas de ficavam em disponibilidade, para as novas classes alfa-
alfabetização se atrelavam à luta pelo alistamento elei- betizadoras de 1"e 2" anos a serem formadas;
toral e pelo voto secreto, não descurava de iniciativas de (f) o desdobramento das escolas isoladas e também do
educação cívica de modo a garantir a qualidade do voto trabalho do professor das escolas em que fosse excessi-
e, concomitantemente, a propalada regeneração do va a matrícula e no caso de não haver condições para a
existência de dois professores;
caráter nacional.
(g) isenção dos pobres das taxas em todos os graus do
Apesar disto, a prioridade da difusão do ensino so-
ensino;
bre questões atinentes à sua qualidade é legível na ur-
(h) a 'proscrição' escolar às crianças de 7 e.8 anos. As
gência das metas e no roteiro das cifras que determinam crianças dessa idade deixavam de ser obrigadas à fre-
a lógica da Reforma. O sistema escolar era racionalizado qüência escolar e, mais do que isso, não Ihes seria per-
de modo a conciliar a alegada exigüidade de recursos fi- mitido o ingresso nas escolas públicas antes de com-
nanceiros governamentais às metas democráticas de ge- pletarem 9 anos de idade;
neralização dos benefícios escolares. No confronto dos (i) a criação de duas mil escolas isoladas." (A Reforma
números, era construído o dilema: d a . uma escola de 4 ,de 1920)
anos a alguns, excluindo os outros, ou generalizar o en-
L

1 r
-

R
'1 14 s C U ~ - \ ' U I ~ ~ ( >A Escola e a República
Ma1.t~Maria C h a ~ a de 45

?i Estas medidas foram acompanhadas de outras,


para o que era entendido como nacionalização do
Sediada originalmente no Rio de Janeko, a ABE
foi projetada como organização nacional. Seus organi-
01 ensino. A questão comportava dois aspectos distintos,
embora solidários: tratava-se, por um lado, de
"abrasileirar 0s brasileiros" através & dfabetização e da
,
'i
zadores esperavam que em cada Estado brasileiro fossem
criados núcleos similares ao instalado no Distrito Fede-
ral. A ação local desses núcleos deveria ser integrada por
educação moral e cívica e, por outro, de integrar 0 imi- Conferências Nacionais realizadas anualmente, de forma

1
r grante estrangeiro. Neste segundo aspecto, 0 escotismo
foi incentivado, juntamente com outras medidas de for-
mação cívica. Mas a iniciativa mais relevante neste Caso
que 0 debate e a troca de informações pudessem consti-
tuir a Associação como "órgão legítimo de opinião das
classes cultas" em matéria educacional. Embora tenha
1 I foi a intervenção nas escolas estrangeiras. Novas dis- malogrado o objetivo de organizar os núcleos estaduais,
I
posições legais prescreviam que respeitassem 0s feriados a ABE consolidou-se como entidade nacional quando, a
nacionais, ministrassem o ensino em vernáculo, in- partir de 1927, passou a promover as projetadas
I 1
I cluíssem no currículo o ensino de Pomiguês, Geog&a e Conferências Nacionais. Isto é testemunhado por Fer-
História do Brasil por professores brasileiros natos e en- nando de Azevedo que, ao descrever o movimento educa-
sinassem 0s cantos nacionais nas classes infantis. Além cional na década de 20, põe em relevo o papel da ABE
I
disso, essas escolas deveriam abrir-se 3 inspeção do em sua dinamização e expansão, afirmando que sua im-
I I
tado do e fornecer-lhe os dados estatísticos solicitados- portância residiu em ter funcionado como "força de
Com a derrogação da Reforma em 1925, a reorga- aglutinação" dos esforços esparsos dos educadores que se
I
nização do ensino paulista fez-se sob o signo da volta vinham empenhando na reforma dos sistemas estaduais
I
ao passado, de retomada dos padrões que haviam de educação:
l1
I prevalecido no início da República e que a Reforma mu- "Congregando os educadores do Rio de Janeiro, pondo-

1'
I('

1
,,!Il
11
1
tilara. Era reabilitado o modelar sistema de ensino
paulista montado a partir das meticulosas providências
de Caetano de campos e dos que imediatamente de-
0s em contacto uns com os outros, abrindo oportu-
nidades para debate largo sobre doutrinas e reformas, fre-
quentemente de um conteúdo intelectual confuso e con-
ram a ele. O primado & @& impunha-se & pfiori- traditório, e convocando para congressos ou conferên-
I'
I dade concedida à difusão do ensino. Será Uma mudança cias de educação", a ABE teria sido "um dos
de ênfase como esta que permeará O discurso educacional h m u n e n t 0 ~mais eficazes de difusão do pensamento
'!I/ 1, dominante na segunda metade da década de 20. Nesta re- pedagógico europeu e norte-americano e um dos mais
'I\ ;,;I ~ definição de prioridades, teve importantíssimo papel a
Associação Brasileira de Educação (ABE), fundada, co-
importantes, se não o maior centro de coordenação e de
debates Para o estudo e solução de problemas educa-
. ,

mo já foi dito, em 1924. cionais, ventilados por todas a i formas, em inquéritos,


I

-
1,- -
-- - -2

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Mt/irc,M 0 r . i ~Cha,qu.sti. Ctir'i'ti//lfl
A Escola e a República 47
46

ii
I
em comunicados à imprensa, em cursos de férias e nos
congressos que promoveu nas capitais dos Estados."
a culpa do atraso, do desgovemo, da anarquia e dos
muitos males que afligem nosso país."

I:
1
(A Cultura Brasileira)
E~ especial, as Conferências Nacionais, aproxi-
I
I
Antes seriam "... mais nocivas, culpáveis e con-
denáveis as elites mal preparadas que nos governam e as
legiões sempre crescentes de semi-alfabetos que as sus-
(1 mando educadores de todos os Estados e congregando-os
tentam".
em diferentes centros culturais do país, teriam propicia-
do o que chamou de "marcha resoluta para uma política Segundo Sodré, os analfabetos eram "obreiros
nacional de educação." (ibidem) pacíficos e conformados ao progresso nacionalw.Se era
E~ discurso-programa da Associação Brasileira de verdade que "produziriam mais, com menos esforço", se
Educação, Heitor Lyra da Silva, apontado Como ~rinci- fossem instruídos, era entretanto "prefenvel que fossem
idealizador e organizador da entidade, a f i a v a em analfabetos", porque "os iletrados adultos que trabalham,

/ I
1
11
1925:
"creio interpretar a maioria senão a totalidade dizendo
que não temos o fetichismo da alfabetização intensiva e
produzem, não fazem revoltas, não perturbam, nem
anarquizam o nosso meio". A solução apresenta& pre-
tendia-se estritamente pedagógica, propondo-se como
ampliação do âmbito formativo da escola. Era preciso,
que estamos convictos, salvo pequenas diveigências se- ao invés de "apressadamente ensinar a ler, escrever e con-
cundárias, de que o levantamento do nível popular tem tar aos adultos iletrados" - coisa de má pedagogia -
que repousa sobre tríplice base: moral, higiênica e ''cuidar seriamente de educar-lhes os filhos fazendo-os
econômica, o que significa que sem a cultura das Fali- WÜentar uma escola moderna que i n s t . i e moraliza,
dades do caráter, sem a melhona das condições de saúde que alumia e civiliza".
massa população e sem uma racional organização
A partir do trabalho de Jorge Nagle, Educação e
;:i i:; I
do trabalho 6 utopia esperar que a alfabetização rápida e
quase instantânea, se possível, viesse a transfoma Para
Sociedade na Primeira República, tomou-se impossível
referir-se ao movimento educacional do período sem uti-
o bem as atuais condições do nosso país." (Discurso)
lizar a nomenclatura que criou para expressar 0s momen-
1 1 Para os organizadores da ABE, era necessário, co- tos distintos desse movimento com suas caractefisticas:
1 entusiasmo pela educação e otimismo pedagógico.
mo pontuava Azevedo Sodré em conferência Por ela
O entusiasmo pela educação caracterizar-se-ia pela
i , ,1 promovida em 1925: importância atribuída à educação, constituída como o
'lhl

"... convencer a nossa gente de que, ao contrário do maior dos problemas nacionais, de cuja solução adviria
I I 0 equacionamento de todos os outros. 0 otimismo pe-
que habitualmente se afirma, não cabe a0 analfabetismo
1 1 , I
-
era o da difusão do ensino."(...).
dagógico manteria, do entusiasmo, a crença no poder da O entusiasmo pela educação que se manifesta a t c i v r ud
;~
educação, não de qualquer tipo de educação, enfatizando mobilização em favor da difusão do ensino elementar e
a importância da nova pedagogia na formação do que está ligado 2s tentativas de recomposição do poder
homem novo. Na passagem do entusiasmo para o oti-
mismo se teria produzido no movimento uma crescente
dissociação entre problemas sociais, políticos e
político através da ampliação do número de votantes,
iniciada em meados da década de 10, não sobrevive com ,
o mesmo caráter logo após os primeiros anos da década
econômicos e problemas pedagógicos. seguinte, quando foi se tomando claro para os grupos
Existe para Nagle uma anterioridade temporal do en- em luta pelo poder que, através da educação, a conquista
tusiasmo pela educação em relação ao otimismo da hegemonia política era problemática e demandava
pedagógico. Ent~tanto,não considera relevante o critkio muito tempo... Os políticos efetivamente interessados
cronológico na distinção entre os dois movimentos. na conquista do poder, abandonam este campo de luta.
Exemplo disto é que toma o discurso de Miguel Couto na deixando-o aos diietantes da educação e entregan~
do-se hs
ABE, em 1927, No Brasil só há um problema nacional, conspirações de revolta armada" (&ação PLpular e
a educação do povo, como caso mais típico do entusias- Educação de Adultos)
mo pela educação. A leitura que Vanil& Paiva faz do tex-
to de Nagle estabelece um limite temporal rígido: até Em Vanilda, Miguel Couto é o principal represen-
1925, estm'amos diante do entusiasmo pela educação; a tante desse diletantismo. Paralelamente a essa sobre-
pariir de então, do otimismo. Leia-se o que escreve: vivência do entusiasmo como diletantismo, teriam sur-
gido os profissionais em educação, representantes do
"Com o nacionalismo dos anos 10 voltam h baila os otimismo pedagógico. Tais profissionais
ideais republicanos e democráticos, aos quais se ligam
os anseios de universalização do ensino elementar e de "reuniram-se numa Associação Brasileira de Educação
ampliação das oportunidades educacionais para o povo. (ABE), fundada por Heitor Lyra em 1924, a fim dede-
Organizam-se as 'ligas', em cujos programas sempre fender seu campo de trabalho... Era a primeira sociedade
estão presentes reivindicações relativas à instrução de profissionais da educação com caráter nacional e sua
popular. .. Este nacionalismo educacional, que se mani- atuação, principalmente atrav6s das Conferências
festa na luta pela democratização do ensino, está ligado Nacionais de Educação promovidas a partir de 1927,
ao problema da ampliação das bases de representação contribuiu no sentido da difusão dos ideais e princípios
eleitoral, pois na medida em que o gmpo industrial ~ r - da Escola Nova e do 'otimismo pedagógico' em ge-
bano pretende a recomposição do poder político dentro ral.( ...) Durante os anos vinte, passada a fase do 'entu-
do marco da democracia liberal o caminho mais seguro siasmo pela educação', dominam as idCias de tecnifi-
Marta Mar-ia Chagas de Carvalho
- -
sustentar que o grupo aglutinado na ABE na década de ' mo pedagógico em termos que possibilitem evidenciar o
20 era apenas um grupo remanescente do entusiasmo sentido da repolitização operada.
pela educação, convencido da importância da simples di- A ampliação do número de eleitores, a erradicação
fusão do ensino sem qualquer restrição ao conteúdo da da ignorância como instrumento de qualificação do voto
educação a ser difundida. Este não é o caso, como já se consciente, a formação e organização de uma opinião
afirmou. A crítica ao que Heitor Lyra da Silva chamara pública são objetivos que, em maior ou menor grau,
de "fetichismo da alfabetização intensiva" era mesmo aglutinam na ABE os intelectuais dedicados ao estudo e
um dos pontos consensuais entre os integrantes da As- à propaganda da causa educacional. Mas o que os agluti-
sociação, constituindo-se, ao que parece, como um dos nava era, fundamentalmente, o projeto político de uma
mais importantes móveis da fundação da entidade. grande reforma de costumes que ajustasse os homens -
Muito esclarecedora, a respeito, é a informação de como afirmaria Lourenço Filho em 1935 referindo-se à
Mattos Pimenta. Pertencia à Comissão Executiva do trajetória da ABE -"a novas condições e valores de vi-
Partido Democrático do Distrito Federal em 1927 e 1928 da, pela pertinácia da obra de cultura, que a todas as
e era muito identificado com intelectuais do Conselho atividades impregne, dando sentido e direção à organiza-
Diretor da ABE, participantes, nesses anos, daquela ção de cada povo". A proposta de uma educação inte-
Comissão. Segundo ele, o Partido fora organizado a par- gral, resultante da subordinação da difusão do ensino a
tir da avaliação de que a Revolução de 1924 em São razões técnicas ou estritamente pedagógicas que determi-
Paulo falhara devido à inexistência de uma opinião públi- nassem sua qualidade, era uma das respostas políticas
ca que desse sustentação àI tomada do poder pelas armas. ensaiadas por setores da intelectualidade brasileira na re-
Isto implicava, a seu ver, deslocar a ênfase que vinha ca- definição dos esquemas de dominação vigentes.
racterizando as campanhas de alfabetização no período -
ampliação do número de eleitores -para questões de or -
ganiurção do eleitorado. Estas abrangiam a formação de
uma opinião pública e, para tanto, partido e sistema edu-
cacional eram propostos como instrumentos principais.
Isto sugere que o abandono da ênfase na difusão do ensi-
no, registrado por Vanilda Paiva, não significou uma des-
politização do campo educacional mas, ao contrário, sua
politização em novos termos. Compreender este desdo-
bramento requer que se compreenda o aparecimento do
entusiasmo pela educação e sua transformação no otimis-
A Escola e a República

de atuação. Amalgamando ou diluindo divergências,


atraindo adeptos, a campanha cívica tinha importância
em si mesma, sendo ela própria parte essencial do proje-
to de reforma moral e intelectual em que se engajava a
ABE. Produzindo o que se entendia como uma taineana
temperatura moral, era processo em curso de erradicação
do que se identificava como uma das principais causas da
crise nacional: o ceticismo, o individualismo, a apatia
das elites políticas, cegas à importância da educação.
Promover uma reforma da mentalidade dessas elites, con-
vencendo-as da necessidade de regenerar pela educação as
populações brasileiras, moldando-as como povo saudável
e produtivo, era o que se esperava da campanha educa-
cional.
Máquina persuasiva, o discurso cívico da ABE
opera maniqueistamente, produzindo imagens da reali-
As principais iniciativas que notabilizaram a dade brasileira que opositivamente se interqualificarn. O
Associação Bmileira de Educação nos anos 20 foram presente é reiteradamente condenado e lastimado, sendo
marcadas como acontecimentos cívicos: a propaganda que caracterizado de modo a fundamentar temores de
se fez delas, os rituais que as constituíram colocaram a catástrofes iminentes, que atingirão o país se a campa-
Associação como obra cívica de que dependia a redenção nha educacional não obtiver os resultados desejados. Ao
do país. As Conferências Nacionais não foram somente futuro insistentemente se alude como dependente de
instâncias de debate mas eventos que funcionaram como uma política educacional: futuro de glórias ou de pe-
propaganda da causa educacional. Nelas, discursos e ritu- sadelos, na dependência da ação diretora de uma elite que
ais representaram a ABE como congregação de homens direcione, pela educação, o processo de transformação do
de elite, esclarecidos, bem intencionados e devotados ao país. Na oposição construída por imagens de um país
equacionamento das mais graves questões nacionais. presente condenado e lastimado e de um país futuro de-
Nesta prática, operavam mecanismos de constituição e sejado é que se constitui a importância da educação co-
validação da campanha educacional. Divergências eram mo espécie de chave mágica que viabilizará a passagem
relativizadas ou mesmo apagadas na generalidade das do pesiade10 paira o sonho. ~ e se tespaço é que se ins-
proclamações em que o civismo era o campo consensual creve Io entusia.smo peki educaçf 20 de que a ABE é ao
Marta Maria Chagas ile Carvalho I ' "'"la e a Replíhfica
r
reformadores se credenciam como colaboradores indis-
mesmo tempo conseqüência e principal foco de irradia- pensáveis e eficientes na invenção e no aprimoramento
ção. de dispositivos de dominação.
No discurso cívico da ABE, a figura de um brasi-
A Associação Brasileira de Educação foi uma
leiro doente e indolente, apático e degenerado, alegoriza dessas organizações. Nela um grupo de intelectuais se
os males do país. Transformar essa espécie de Jeca Tatu auto-representou como elite que deveria dirigir através
em brasileiro laborioso, disciplinado, saudável e produ-
da educação o processo de transformação do país. Sua
tivo era o que se esperava da escola. prática constituiu como objetos de intervenção política
As práticas discursivas das organizações cívico-na-
a ignorância, o vício, a doença e a indolência das popu-
cionalistas que proliferam no país nos anos 10 e 20 têm
lações brasileiras. E, no processo de debates desencadea-
merecido pouca atenção dos historiadores. Interpretado do nas Conferências Nacionais, tal prática credenciou os
como palavrório vazio, ausência .de ideologia, ritual es- agentes e as técnicas de intervenção preconizadas. A
vaziado, o discurso cívico não é analisado enquanto
ABE funcionou assim como instância de organização e
prática. Com isto, perde-se a possibilidade de identificar credenciamento de reformadores sociais, produzindo um
não somente estratégias organizacionais de grupos inte- espaço de ação política - o do técnico - que seria
ressados em ampliar seu campo de atuação, -como tarn-
gradativamente alargado no interior da burocracia es-
bém os objetos de intervenção constituídos por tais es- tatal, principalmente a partir de 1930. Mas funcionou
tratégias. É muito tênue a diferença entre a prática também como instância de disseminação de um saber
dessas organizações cívicas e a que caracterizou as asso-
sobre o social, de marcada configuração autoritária, em
ciações de profissionais como médicos, educadores, en- que o povo brasileiro é figurado como matéria informe
genheiros e higienistas que na década de 20 se organi- e plasmável pela ação de uma elite que projetava confor-
zaram através de inúmeros congressos e conferências em
má-lo a seus anseios de Ordem e Progresso.
tomo de questões eleitas como pontos privilegiados de
A implantação de hábitos de trabalho e o cultivo
intervenção. Nelas, inúmeros rituais conformavam tais da operosidade como valor cívico eram pontos essenciais
questões como causas cívicas, validando objetos e técni-
da "grande reforma de costumes" referida por Lourenço
cas de intervenção e credenciando seus agentes. Nesta Filho. Segundo ele, deveria ajustar os homens a "novas
situação é qlue se dái a montagem de diversos disposi-
condições e valores de vida". O ajustamento dependia de
tivos de coritrole, ordenação, regulação e produção do
uma remodelação e reestruturação do aparelho escolar.
cotidiano diis popukições pobres. O reformador social
. - - - -.- Mas dependia também do que Gustavo Lessa entendia
- cuja presenp marcante na década de 20 só recente-
como "organização da resistência" na cidade invadida pela
mente tem sido registrada e analisada - tem nessas or-
fábrica. Referindo-se a Londres, dizia ele em 1930:
ganizações o seu lugar de emergência. Nelas é que tais
''H6 mais de um século, quando a cidade começou a se veriam necessariamente incorporar-se ao que se pre-
industrializar, nela despertaram os mesmos valores que conizava como educação integral, em oposição ao que
hoje vemos afluir no Rio de Janeiro: miséria em vasta se entendia por instrução pura e simples. Amplamente
escala, superlotação nas habitações, facilidade de contá- forjada por rituais de constituição de corpos saudáveis e
gios em doenças, degradação dos padrões de moralidade.
de mentes e corações disciplinados, a educação cívica era
Mas a raça inglesa soube suscitar então os leaders enér-
garantia de que a educação não viesse a tomar-se fator de
gicos que ela tem produzido em todas as emergências,
não s6 religiosos como leigos. Foi-se organizando a desestabilização social. Porque a instrução pura e sim-
resistência, foram-se constituindo inúmeras sociedades ples era, como a entendia Heitor Lyra da Silva, "uma
pri-vadas para lutar contra a miséria física e moral... arma" e, "como toda arma", "perigosa". Colocá-la nas
Está claro que os males não foram extintos, mas opôs- mãos da população requeria medidas que preparassem
se à sua violenta invasão a muralha de aço da solidarie- quem a recebesse "para manejá-la benfazejamente para si
dade humana." ("O papel dos grupos familiares na edu- e para os outros." (Missão Educacional) Educação do
cação") sentimento, dos gestos, do corpo e da mente, assim se
diferenciava a educação integral preconizada da instrução
A remodelação e a reestruturação do sistema esco- pura e simples, arma perigosa. Era esse poder disci-
lar era tema dos debates que se constituíram como obje- plinador atribuído à educação prescrita que fazia com que
tivo central da ABE, com vistas h formulação e imple- a questão da organização do trabalho no país -tema que
mentação de uma política nacional de educação. Mas a avulta, como já se viu no primeiro capítulo, nas avalia-
organização da resistência nos termos descritos por ções que a geração de 20 faz da República instituída -
Gustavo Lessa era o que definia a atuação da entidade no dependesse fundamentalmentedos recursos educacionais.
Rio de Janeiro. Nesta espécie de cruzada moral, inú- O tema da organização do trabalho é sempre referi-
meros rituais cívicos, propostos como iniciativas que do no discurso da ABE como questão incontroversa, cu-
expandiam o raio de influência da escola na moralização ja estrita nomeação é dotada da magia da argumentação
dos costumes da cidade, absorviam os intelectuais enga- irrecusável na defesa da importância da educação.
jados na ABE. Cuidados com a formação cívica apare- Embora seja por isso difícil precisar o que se entendia
ciam a eles como garantia do "trabalho metódico, ade- pela formulação, é possível afirmar que significava um
quado, remunerador e salutar", de "disciplina consciente conjunto de dispositivos que distribuem, integram, di-
e voluntária e não apenas automática e apavorada", co-: namizam, aparecendo com referenciais diversos. Referi-
mo também da "ordem sem necessidade do emprego da da h escola, a expressão designa medidas de racionaliza-
força e de medidas restritivas ou supressivas da liber- ção do trabalho escolar sob o modelo da fábrica, tais co-
dade." (Solução de um problema vital) Tais cuidados de- mo: tecnificação do ensino, orientação profissional,
-

Marta Maria C h a ~ a de
s Car.11alho I
I
A Escola e a República

testes de aptidões, rapidez, precisão, maximização dos niente; o homem que está doente e vai contaminar seus
resultados escolares etc. Designa também o funciona- camaradas para dirigi-lo ao dispensário; o homem sem
mento da escola na hierarquização dos papéis sociais, teto, e facilitar-lhe a casa decente para sua família; o
formando elites condutoras e povo produtivo. Referida homem que se quer instruir e, para tanto lhe dar os
ao país, a expressão designa um conjunto de disposi- meios; o homem que desejasse aproveitar seus momen-
tivos de integração nacional (como os propostos pelo tos de folga e lhe propiciar um jardim." (ihidem)
Club dos Bandeirantes do Brasil) e de distribuição orde-
nada das populações por diversas atividades produtivas. Representando seu papel como o de "conduzir
Referida às populações pobres, aparece como disciplina- homens", os engenheiros deveriam ser "os bons irmãos
mento, pela distribuição regrada das populações em es- dos jovens operários e, por isso, velar não só pela
paços adequados, pela regulamentação controlada do la- higiene do corpo, suas vestes, seus costumes, como
zer e do trabalho. Nesta acepção, englobava medidas pelas funções morais." (ibidem)
destinadas a atenuar conflitos de classe e a aumentar a A referência ao tema traduziu-se, em alguns casos,
produtividade do trabalhador, envolvendo questões de na valorização dos métodos da chamada pedagogia mo-
saúde e de moral, com o objetivo de adequar a vida co- derna enquanto possibilidade de realização, no meio es-
tidiana do operário às exigências do trabalho industrial, colar, das novas máximas organizadoras do trabalho in-
na ordem capitalista. dustrial. A idéia de que aqueles métodos permitiriam
O tema deve sua circulação na ABE à predominân- conseguir melhores resultados com menos esforços, à
cia de engenheiros. Defendendo medidas de organização semelhança dessas máximas, determinou o crivo princi-
do trabalho de que seriam os executores, eles se auto-re- pal de valorização das inovações pedagógicas: sua maior
presentavam como "desejosos do bem moral e material eficiência comparativamente à chamada pedagogia tradi-
dos seus auxiliares" (leia-se "operãrios", mas, ao mesmo cional. Providências como testes, organização de classes
tempo, "cuidadosos da finalidade dos empreendimentos homogêneas, atendimento aos interesses e habilidades
entregues à sua dbqão." (O Mundo Contemporâneo e a individuais dos alunos era, dessa perspectiva, valo-
Engenharia) O trabalho organizador do engenheiro impli- rizadas. Lourenço Filho, por exemplo, em artigo de
cava observação rninudente e apontava para um grande 1929 sobre "A Escola Nova", apontava duas tendências
número de providências que extrapolavam a vida no inte- principais na pedagogia moderna, referindo-se a uma de-
rior da fábrica. O engenheiro deveria las como "taylorismo na escola": abrangendo "ino-

"notar o homem que está fatigado ou mal empregado,


para lhe dar um trabalho menos penoso ou mais conve-
,
1 vações ou sistemas que visam a dar m: iior rendimento
escolar do ponto de vi!sta da orlganizaçãc das classes ou
cursos", esta tendência encararia a escola "como a pro-
dução das modernas indústrias, que deve ser rápida, pre- significava não somente prescrever normas de organiza-
cisa, com perdas mínimas de energia e pessoal". As ção das atividades escolares, mas também postular um re-
propostas pedagógicas de Claparède, por exemplo, eram gramento do aluno, evitando que seu interesse no proces-
interpretadas como reflexo da "necessidade de classifi- so de a p r e n d i e m se transformasse em paU.áo, p ~ c í -
cação menos empírica dos alunos", decorrente da dificul- pio "intempestivo" de "escolhas caprichosas" (ibidem).
dade que no ensino escolar comum representava a "hete- Incorporando expectativas de racionalização do trabalho
rogeneidade da classe entregue a um só professor". Para industrial, a valorização da educação, quando vinculada à
Claparède, segundo Lourenço Filho, não seria apenas crença nas virtudes dos novos mktodos pedagógicos, visa-
necessário respeitar a diferenciação quantitativa: "O va a que a escola organizasse a atividade do aluno em
menino não é só mais capaz ou menos capaz em relação moldes fabris: "No momento em que o mundo proclama
à idade. Cada criança apresenta capacidades específicas: é métodos de organização do trabalho como fator essencial
observadora ou reflexiva; intelectual ou técnica". Disto da prosperidade econômica", escrevia o mesmo Barbosa
decorreria a "correspondente necessidade de especializa- de Oliveira, a educação moderna se instituis dando a esse
ção do trabalho e conseqüente classificação escolar". A trabalho, "desde os primeiros passos do aluno, uma dire-
escola sob medida de Claparède seria a expressão desta triz segura para a 'racionalização' unanimemente prescrita
necessidade, propondo-se não somente a hierarquizar, em todos os ramos da atividade humana." (A Escola
mas a diferençar também. Regional)
A concepção da escola como meio a ser organizado O tema da organização do trabalho estava também
por máximas similares às da racionalização do trabalho associado a projetos de reestruturação do sistema escolar
industrial não significou apenas valorização de providên- que melhor assegurassem a homogeneização e disci-
cias do tipo aludido. Tal concepção também funcionou plinamento das populações. Ganha aquí relevo o tema
como crivo de avaliação do alcance pedagógico de pro- da formação das elites diretoras. Embora o discurso dos
postas mais globais que visavam a redefinir o processo entusiastas da educação fosse eivado de referências às
mesmo do ensino, a natureza da relação professor-aluno. populações pobres, que cumpria regenerar pela edu-
Valorizando a liberdade do educando, Barbosa de Oliveka, cação, o debate promovido pela ABE voltou-se priori-
por exemplo, prescrevia-lhe limites, de modo que ela tariamente para questões relativas ao ensino secundário
não resultasse em "um esforço inútil e um tempo perdi- e superior. Se este deveria ser a usina onde seriam pro-
do". Para ele, o trabalho infantil nas escolas deveria ser duzidos programas de vida para o país, como queria
organizado de modo a "guiar a liberdade para que o máxi- Vicente Licínio Cardoso, aquele deveria formar "diri-
mo de frutos" fosse "obtido com um mínimo de tempo e gentes de menor visão e de maiores massas", como
esforço perdidos." ( A Unijicação da Escola Normal) Isto propunha Alba Caiíizares Nascimento, em resposta ao
64 MOItu Maria Cha,qu.\ C/C Cur.i.ullro A Esc.010 e a Repl;hlic.a
I

I inquérito sobre o ensino secundário promovido pela 1 máxima "O homem certo no lugar certo" significava não

jl:;
1I
ABE em 1928. A ênfase no papel formativo da escola
secundária - que foi a tônica das críticas, tão correntes
no período, do caráter exclusivamente propedêutico des-
ta escola - era modulada pelo interesse de homo-
I
1
1
a adequação do trabalhador a uma determinada ocupação
industrial, mas expectativas quanto a uma distribuição
''racional" da população pelas atividades rurais e urbanas.
Assim pensada, a questão traduzia-se na valorização da
lili geneizar uma mentalidade nos seus bancos, asseguran- chamada Escola Regional. Nesta acepção, o tema tinha
I h
do-se com isto uma ação concertada dessas elites sobre I conotações românticas de idealização utópica da vida

Ii ! +
toda a sociedade. Uma razão similar explica a impo*- campesm. Imagens da honradez, da simplicidade, da
I
tia que assume a questão da formação dos professores, saúde figuravam virtudes rurais, por oposição idílica a
propostos como "organizadores da alma popular". representações da cidade como vício, conupção e insalu-
Assegurar sua homogeneidade ideológica era questão bridade. A escola rural era uma espécie de antídoto larga-
I 1 central nos debates promovidos pela ABE. Poder-se-ia mente receitado contra o "congestionamento das cidades"
j I propor, como foi o caso de Barbosa de Oliveira, que a e "o pauperismo urbano com seus perniciosos efeitos."
Escola ~ o r m a passasse
l a ser criada, mantida e admi- (A Educação Rural) Abrir-se ao influxo da vida campestre
nistrada pelo Governo Federal, de modo a garantir que a era o que se propunha como recurso disciplinar da escola
I formação do professor numa única orientação rural. Quanto à escola adaptada ao meio urbano, era co-
I doutrinária assegurasse o trabalho homogeneizador da mum a expectativa de que viesse "combater, ou pelo
I escola primária. Oa poder-se-ia rejeitar tal proposta, Co- menos atenuar em seus efeitos morais, essa vida tumul-
1 mo o fez a Segunda Conferência, tentando preservar a tuosa, corrosiva, ávida de prazeres", com os recursos
I
autonomia estadual e aprovando a realização de um ator- oferecidos pela moderna pedagogia. (A Escola Ativa
do entre os governos estaduais e Federal que assentasse nos Centros Urbanos)
um "plano de educação moral teórica e prática em todas
'
1
A regionalização como instrumento de alteração
I : as escolas normais brasileiras, integrando as mesmas fi- do que Femando Magalhães entendia por "distribuição
nalidades humanas e nacionais." i hais da Segunda humana desordenada" não poderia, entretanto, compro-
Conferência Nacional de Educação) O que importava era meter a função homogeneizadora da escola. No progra-
assegurar que "um espírito comum, um estado de ânimo ma nacionalista a ela reservado, era necessfio conciliar
nacional" impregnasse, pela ação dess;es "orga nizadores as vantagens da regionalização com o que se propunha
;I da alma popular", o trabalho escolar. #I Como função essencial da escola primária: "a +orno-
'(I i 6 h ~ O tema da organização do trabalhc3 condenisava tam- geneização necessária dos indivíduos como membros de
bém expectativas de fixação do homemI ao camym,"orga- uma comunhão nacional", na formulação de Lourenço
I nizando" desta forma as populações. Nesta a<:epção, a I Filho. A escola de civismo deveria garantir a unidade
I
- -- -
Marta Mar-ia Chagas de Car-rall ?sc.olcr e 0 K~>p~l)lihllc~~ 67
-
política do país inculcando "em todas as crianças bra- modulou-se principalmente como resistencia moraii-
sileiras idéias e sentimentos necessários à pr6pria exis- zadora ao mal urbano. Pregações, festas pedagógicas,
tência da nacionalidade." (A Uniformização do Ensino comemorações cívicas, controle do lazer por procedi-
no Brasil) mentos vários, constituição de Círculos de Pais destina-
A nostalgia romântica da sociedade agrária que per- dos a ampliar o raio de influência da escola, medidas de
passa o discurso dos apologistas da escola rural não era proteção a Infância - tais iniciativas tinham como de-
partilhada por todos os organizadores da ABE. Para o nominador comum o empenho na moralização dos cos-
grupo de Vicente Licínio Cardoso e Ferdinando tumes citadinos. A elas somente se contrapuiiham as
Labouriau, a cidade não se apresentava como signo da promovidas pela Seção do Ensino Superior do
dissolução, mas, ao contrário, como emblema do Departamento carioca da ABE - seção em que se
Progresso. Foi, entretanto, aquela nostalgia que impn- aglutinava o grupo de Labouriau -em que a tônica era
miu sua marca-na atuação da ABE na cidade do Rio de a promoção de cursos e conferências de alta cultura, nu-
Janeiro. Essa nostalgia não deve iludir: ao formular-se ma tentativa de demonstração prática da viabilidade do
como valorização de determinados comportamentos, fun- ensino universitário no país. Mas a presença de expres-
cionava como proposta de disciplinamento adequada ao sivo número de militantes católicos na Associação deu
mundo da fábrica. Idealizações utópicas das virtudes à entidade o caráter de resistência moral referido. É por
moralizadoras da vida campestre equivalem, desta pers- isso interessante reter a especificidade do caráter que esse
pectiva, aos signos futuristas de dinamismo com que se grupo dava à sua atuação.
enaltecia o modo de vida moderno de que a cidade é o Em julho de 1929, Femando Magalhães, líder do
palco. O bucolismo era encenado articulando projeto de grupo católico sediado na ABE carioca, submete ao
disciplinamento das populações urbanas sob o molde das Conselho Diretor da Associação um projeto de organi-
virtudes "higiênicas" de que o trabalhador rural idealizado zaçáo social cometido por D. Amélia de Rezende Mar-
era o protótipo. Asseio, Temperança, Laboriosidade - tins, a ser desenvolvido como Ação Social Brasileira. A
virtudes higiênicas que, nessas idealizações, somente a autora já fizera sentir sua presença no círculo da ABE
vida rural poderia propiciar - eram virtudes capazes de propondo, em 1927, na Primeira Conferência Nacional
produzir corpos e mentes disciplinados no mundo da de Educação, que o ensino religioso fundado na doutrina
fábrica. Equivaliam, como se disse, aos signos moderni- católica integrasse o programa das escolas oficiais.
zadores com que um novo ritmo de vida era proposto, Mais tarde, em 1931, D. Amélia também seria a res-
ritmo de que a máquina era a metáfora e o modelo a re- ponsável pela área social da Liga de Defesa Nacional, a
gular o cotidiano das populações urbanas. convite do mesmo Fernando Magalhães, então presi-
A atuação da ABE na cidade do Rio de Janeiro dente do órgão. D. Amélia, contudo, não integrava os
I

68 Marta Maria Chagas de Carvalho

órgãos diretores da Associação, nem se destacava como de modo que um enunciado como "As mães não sabem
sócia atuante. que divertimentos proporcionar aos rapazes para afastá-
Submetido à apreciação do Conselho, o projeto foi 10s das mesas de jogo, dos bilhares públicos, do +et,
agraciado com um voto de apoio à idéia "generosa e do mau cinema, de tudo mais que não preciso citar, de
útil". A maior parte do Conselho subscreveu, em agosto todas as diversões, enfim, verdadeiras escolas do vício..."
de 1929, os estatutos da Ação Social Brasileira, sociedade coexiste com "... as sarjetas continuam cheias de folhas
civil gor eles instituída com sede no Rio de Janeiro, e papéis que vão entupir os ralos com a primeira chu-
"tendo por objetivo coordenar e desenvolver toda a Ação va", "é impraticáve1.e esfalfante, a meu ver, para o pro-
Social no Brasil, aproveitando, auxiliando, ampliando e fessorado daqui, com o nosso clima deprimente, levar
completando as iniciativas já existentes, especialmente turmas de alunos a visitar fábricas, museus, jardins zoo-
em benefício da educação e da assistência". lógicos, observatórios etc." e "Os literatos enchem as
Mesmo que se tenha em conta uma provável con- nossas livrarias de uma literatura perversa" ou, ainda, "A
descendência do Conselho às boas intenções de D. Ação Social terá em vista ampliar sempre os seus fins,
Amélia, o projeto referido interessa aqui por hiperbolizar cuidará da questão dos prisioneiros, onde o problema não
o tipo de redução de cunho moralista operada na identifi- estiver ainda resolvido, e auxiliará, por exemplo, com
cação do que é nomeado questão social e na constituição seusfilms, as Academias Superiores de Ciências e Artes
concomitante de um campo de ação educacional, per- e também a Saúde Pública".
mitindo elucidar o significado das práticas da ABE na Na dispersão desses objetivos, configura-se uma
cidade do Rio de Janeiro. proliferação de questões que estariam a exigir solução ur-
Montado como enumeração e exemplos de ação gente, segundo D. Amélia. A organização da Ação Social
benemérita, o documento pretendia estar apresentando Brasileira pretendia superar a situação de impotência em
uma solução global para a chamada questão social. que se encontravam as senhoras beneficentes:
Curiosamente, entretanto, justapunha sugestões de di-
vertimentos "sociais" e "populares", com os quais D. "As festas de caridade caíram em desuso, ninguém mais
Amélia, apaziguando sua aflição de observadora preocu- se interessa por essas miscelâneas, que dão um trabalho
pada, esperava solucionar o ócio inoperante do operhio insano para serem organizadas e estão irremediavel-
e a dissolução dos costumes da alta sociedade. Desl mente sujeitas à mais severa crítica. Os chás já estão
maneira, a leitura do projeto produz um efeito de incor cansando, muita gente deles se esquiva, e muita gente
gruência, na medida em que não obedece a um princípi lamenta não poder fizer outro tanto. A festa da flor já
hierárquico de ordenação e adequação discursivas: I está muito explorada, apresentando grandes desvanta-
Amélia dispõe seu texto quase que por livre associaçãc gens, e vai caindo, pela sua repetição, na antipatia do
Murro MatYa Chagas de Car.\.crllro ,-\ Esc.01~c u Rc~/>ríhli(.tt 71

público, que se enerva de ter que parar, em seu cami- na A.B.E., como nas escolas, como nas demais obras
nho, e abrir a carteira. As tômbolas e as quermesses já sociais de caráter particular, como em instituiçóes de
fizeram seu tempo e hoje s6 dão resultado em centros caridade... A A.B.E., que reúne a nata da nossa intelecm-
menores. O que resta para fazer viver as obras sociais?" alidade, está no seu papel, levantando planos soberbos,
que já se vão realizando aos poucos. (...) Mas o que pre-
Em sua falta de coesão e efeito ridículo, o docu- ga a Associação Brasileira de Educação tem que ser reali-
zado em grande escala. É o que pretende fazer a Ação
mento de D. Amélia exibe-se à leitura como espécie de
Social Brasileira..."
rata de um bom tom discursivo presente nos mecanis-
mos de censura de discursos mais elaborados. Nestes, a
disposição do que se diz prevê adequação à recepção, im- Atribuindo à ABE finalidade similar à do seu pro-
. pedindo que, nesta, a "verdade" do discurso possa ser
jeto - que pretendia propor meios mais eficientes que
comprometido ao evidenciar-se em sua mera particulari- chás, quermesses, tômbolas, rifas, festas da flor e ativi-
dade. Desta maneira, espécie de lapso discursivo cuja inép- dades congêneres na prestação de serviços de benemerên-
cia faz ver o recalcado de outros discursos mais elabora- cia - D. Amélia evidenciava o caráter de obra assisten-
dos, o documento de D. Amélia permite ler o que se cial que, segundo ela, algumas de suas integrantes em-
pretendia apto. Por seu caráter de coisa secundária, ex- prestavam à Associação. Suas palavras confmam im-
plicita seus limites não só de coisa mal feita e mal con- pressão, que fica da leitura das atas do Conselho
seguida mas, principalmente, os limites dos vários ele- Diretor, dos Boletins da ABE e da revista Schola, órgão
mentos de que se apropria e que, articulados sem inép- oficial da Associação em 1930-1931, de que a atuação
cia, constituíam a justa medida, o tom certo e veros- de um grupo significativo de mulheres na entidade se
símil do bom senso educacional. fez como ação assistencial.
Na apresentação que fez do projeto ao Conselho, Prosseguindo sua exposição ao Conselho, D.
D. AmClia de Rezende Martins iniciava atribuindo 2 Amélia encarregava-se de interpretar algumas das inicia-
Associação Brasileira de Educação o caráter de organiza- tivas da Associação, apresentando uma leitura possível
ção de fmalidade similar 2 da que pretendia criar de uma dessas iniciativas: seu compromisso com a
chamada questão social.
"O empreendimento que apresento ao vosso estudo não
é mais uma fundação para cuidar das mesmas coisas de "A A.B.E., por exemplo, guiará a educação social do
que já se ocupam algumas das nossas organiz:ações so- operariado, pelo seu Círculo de Pais: a Ação Social
ciais, entre as quais avulta, com brilho intenso, a Brasileira proporcionará um teto aos infelizes que ve-
-LnlLnm
A.B.E. (...) As Senhoras são as mesmas que LMUCUIXUII getam nas favelas, em casas de caixas de querosene,
Marta.Maria Clmgus (/e Car.isa/ h o, A Escola e a Kepúhlrca

cobertas de folhas de zinco, verdadeiros aglomerados de longe". Era necessário, por isso, reunir forças num mo-
tocas ignóbeis, torpes espeluncas, verdadeiros antros de mento em que "o mundo, convulsionado pelo espírito de
miséria física e moral, onde pululam as crianças en- desordem, sente o angustioso desejo de organização7'.Era
fezadas e imundas ... O Círculo de Pais, em boa hora preciso, dizia enfeixando Mussolini na ordem do discur-
lembrado pela A.B.E. e posto em prática por muitas es- so, imitá-lo: "pelo seu prestígio pessoal, diretamente en-
colas do Distrito Federal, acordará nos pais de família caminha toda a atividade, toda a iniciativa italiana". Por
os seus deveres para com os filhos, interessa-10s-á nos isso, propunha que se cuidasse de "nossa organização so-
trabalhos escolares, tomando prestigiados os profes- cial antes que o descalabro, que nos ameaça, chegue a
sores. Poderemos, entretanto, acreditar que o Círculo de ponto de perturbar a nossa vida econômica, como está
Pais proporcionará ocupação aos filhos para as horas de sucedendo em outras terras, com as greves sucessivas".
lazer? Pais e mães têm seus dias tomados pelas ocu- Era necessário, por isso, antecipar-se ao "perigo": "Se
pações que Ihes garantem a subsistência, e o que farão temos levantes gastamos nos de dinheiro para sufocá-
as crianças fora do horário escolar? Será essa a hora, 10s". Seria "mais fácil prevenir do que remediar".
será esse o lugar da Ação Social Brasileira, que propor- Calculando que a diferença entre a obra caritativa
cionará diversões inocentes, jogos recreativos e instru- que se antecipava ao perigo e a repressão armada era,
tivos ou brinquedos profissionais, organizando, tam- talvez, apenas uma questão de economia doméstica do
bém, para os operários, o que lhes distrairá o espírito, país. D. Arnélia deslocava abruptamente o referencial de
afastando-os das tavemas, uma vez terminadas as horas seu discurso para a enumeração de "descalabros" de todo
de serviço, o que se dá ainda com o sol de fora."
tipo: crianças gritando pelas mas e quebrando vidraças;
varredores que não sabem o seu serviço; crianças da alta
Voltada para obra caritativa que objetivava contem-
sociedade sem diversões interessantes; moças de boa
plar o operariado com formas outras de lazer, desviando-o
família que se degradam a cada dia; adolescentes que se per-
da tavema e quantos outros espaços perniciosos hou-
vesse, à proposta de D. Arnélia não faltava o interesse de dem nas mesas de jogo ou na cocaína; operários que tro-
realizar tanta obra com a finalidade de evitar o que temia cam a família pela tavema; crianças a dizer inconveniên-
como iminente acirramento da questão social: "Não cias e a sujar calçadas; vitrines, postais e manequins, "tudo
temos ainda organizada entre nós a questão social". exposto com o maior atrevimento"; filmes imorais;
Parecia-lhe que, em outros países, havia "tanta pertur- artistas perversos; professores que ganham menos que
bação" porque não teriam acordado "em tempo para cuidar porteiros; tarjetas postais imorais que vêm da Espanha;
de problema tão temeroso" antes que este se avolumasse lares desfeitos; escolas sem material didático adequado;
demais. A questão se lhe afigurava como "um circos de cavalinhos com palhaços repugnantes... Contra
formigueiro que atacamos aqui e ele irrompe mais tão proliferante perigo, D. Amélia propunha um rol de
!
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Mar:ta Mu1.i~Cl~ugasde Gari-alho A Escola e a Repúhlic~~

medidas do tipo: ccpublicaçãode jogos escolares, instm-


tivos e recreativos, e de livros de caráter educativos em
geral", "publicação de revista para a mocidade escolar";
"museu escolar"; "cinema escolar e instmtivo"; "centro
de investigação pedagógica, científico e artístico"; "di-
versões para crianças e mocidade, para operários e suas
famíiias"; "exercícios de educação física pela ginástica e
jogos esportivos"; "música por artistas, amadores e crian-
ças"; "cursos de artes plásticas"; "comemorações das
datas nacionais e festas tradicionais"; "feira de diver-
sões"; "colônias de férias"; "vida ao ar livre"; "banhos de
mar"; "práticas higiênicas" e "todos os ramos das obras
sociais, educacionais e de assistência ".
Tais prescrições são risíveis, apresentando-se co-
mo amontoado heteróclito. Não são inocentes: na sua
minuciosa insignificância, evidenciam forte expectativa
de disciplinamento abrangente do cotidiano, na medida
em que se exibem como recursos de controle da ocu-
pação do tempo livre do operário e do ócio da "alta so-
ciedade", no espaço da cidade.
Reordenação do espaço e redistribuição do tempo,
intervenção no cotidiano, as receitas de D. Amélia não
dispensavam o recurso sensibilizador, persuasivo, de
gosto naturalista, que constituía o operariado como ani-
malidade e seu modo de vida como sujeira, doença e ví-
cio. Erradicar "formigueiros pululantes", "torpes es-
peluncas", "antros de miséria física e moral", "tocas
ignóbeis", "infelizes que vegetam nas favelas", "crian-
ças enfezadas e imundas" era a missão que se propunha
à beneficência sem dispensar, evidentemente, o concur-
Mar.ta Maria Chagas de Ca~.,-alho A Escola e a República

so da escola e da polícia. Operando por justa oposição Gustave Le Bon, entendia-se a educação como mecanis-
de referências e por sua livre associação, o discurso de mo de fazer passar atos do domínio do consciente para o
D. Améiia produz um efeito de expansão do significado do inconsciente.
dessas imagens para a cidade como um todo. Prisioneiro O valor educativo das festas era, por exemplo, en-
do imaginário naturalista, o discurso opera uma inter- fatizado por Lourenço Filho que, na qualidade de Diretor
pretação em que toda a sociedade é contaminada pela su- da Instrução míbiica do Ceará, determinava em instru-
jeira, pela doença e pelo vício. Nela, a imoralidade da ção aos professores:
alta sociedade aparece como sintoma da contaminação da
sujeira e da doença operária. A imoralidade dos cos-
"As simples comemorações, as festas s6 valem pelo
tumes citadinos passa a ser, desta maneira, o ponto de
caráter educativo de que se revistam, isto é, pela in-
incidência principal do "projeto de organização social"
fluência que possam ter sobre a alma infantil, antes de
de Amélia de Rezende Martins. Proporcionar bons "di-
vertimentos.populares" fornecendo "exemplos de traba-
lho, de educação e de moral" e organizar "divertimentos
. tudo, e pela influência que possam ter sobre o meio so-
cial em que funcionar a escola".
sociais" para os filhos da "alta sociedade" eram, neste
sentido, medidas que se equivaliam na tentativa de "evi- Educando "pela representação ou evocação de fatos
tar que nos de dinheiro corram para dominar levantes e dignos de ser imitados", as festas forneciam às crianças
rios de sangue brasileiro encharquem nosso solo". "oportunidade para gravar, indelevelmente, muitas lições
Nas iniciativas que marcaram a presença da ABE proveitosas". Nelas, a criança começaria a "sentir o efeito
na cidade do Rio de Janeiro na década de 20, evidencia-se da sançáo social sobre seus atos, pelos aplausos ou sinais
propósito similar ao de D. Amélia: o de tomar mais de enfado e de crítica que percebe: sente que há um públi-
abrangente e eficiente a ação escolar no disciplinamento co, um conjunto de pessoas que louvam ou reprovam".
do cotidiano citadino. Tais iniciativas, de que são exem- Em muitos casos, as festas poderiam "ter também uma
plares as Semanas de Educação dos anos 20, consisti- influência direta sobre o espírito dos pais". Quando isto
ram em práticas comemorativas diversas que foram não ocorresse, as festas teriam pelo menos influência indi-
montadas como celebração de condutas ideais na escola, reta sobre eles, "elevando a escola e o papel do professor".
no lar, no trabalho, postulando a necessidade da Higie- Como lições vividas, pelas quais o aluno teria o
ne, da Aplicação, do Devotarnento, da Ordem. maior interesse, as comemorações festivas, como as
A eficiência pedagógica das comemorações festi- Semanas de Educação, eram incorporadas na prática do cír-
vas escolares era, no círculo educacional, a razão de culo da ABE ao repert6rio de medidas inovadoras com que
existência de tais práticas, uma vez que, na esteira de se pretendia assegurar maior eficiência ao trabalho escolar.
Murra Maria Chagas de Car.i.alho A Escola e a Replíhlica

A introdução de inovações pedagógicas não era signos de progresso inscritos no corpo que conhece o
dissociável dos padrões de etiqueta que modulavam a vi- movimento adequado e útil para cada ato. Preceitos de
da social da ABE. Frequentar ou preferir conferências higiene eram divulgados em palestras e folhetos ou cons-
sobre modernos métodos de ensino, visitar exposições tituídos, ainda, pelo incentivo à organização de Pelotões
pedagógicas, participar de palestras nas quais se re- de Saúde, em preceitos cívicos de bom comportamento.
latavam inúmeras viagens ao Exterior, recepcionar O escotismo -fusão exemplar de vida saudável e mora-
visitantes estrangeiros, manter correspondência com or- lizada -era iniciativa que contava com todo o apoio da
ganizações internacionais, promover espetáculos eram ABE.
acontecimentos sociais equivalentes aos inúmeros Dar publicidade a modelos de comportamento esta-
jantares promovidos pela ABE no Jockey Club Rio ou belecendo-se padrões que incidiam sobre a vida familiar,
aos muitos chás dançantes e sessões festivas incluídos as relações de trabalho e o lazer no cotidiano urbano foi
nos programas das Conferências Nacionais. o denominador comum das práticas comemorativas da
A programação das Semanas de Educação na déca- ABE carioca. Nelas, como um museu, os objetos ex-
da de 20 consagrava a cada dia um tipo de celebração: do postos são ações modelares. Seu campo de recorte, a
Mestre, do Lar, do Trabalho, da Saúde, da Fratemidade e pluralidade dos comportamentos humanos. A coleção
outros arquétipos. Assim, palestras, festas, prêmios, exposta, um conjunto restrito de comportamentos tipi-
competições, inaugurações, exposições eram organiza- ficados. O efeito geral dessas práticas é, assim, a ex-
dos em diversas, escolas e locais públicos, cultuando posição de ações exemplares de uma noma da excelên-
signos de autoridade e hierarquia e ritualizando, no es- cia.
petáculo cívico, modelos de comportamento exemplar. A exposição de ações exemplares dá-se como pro-
Valores burgueses encenados como normas disciplinado- gramação de festividades, como roteiros de visitações a
ras do corpo e do espírito sacralizavam o Lar, a Escola, objetos oferecidos em espetáculo. A ação pode ser dire-
o Mestre, o Dever, a Saúde, fazendo dessas essências tamente exposta - é o caso, por exemplo, da mon-
objetos de comemoração programados para dias inteiros. tagem de espetáculos de ginástica, de que participam
A formação de hábitos saudáveis era objeto de atenções crianças de diversas escolas - ou indiretamente expos-
especiais. A saúde não era somente um dos temas pre- ta, quando se tematiza, em discursos dados em espetácu-
feridos das preleções cívicas nas festividades, como tarn- lo, o que é agir bem na escola, no trabalho ou no lar.
bém objeto de celebração em inúmeras competições As ações expostas à visitação nas programações festivas
esportivas oferecidas em espetáculos como modelos exem- promovidas pela Associação são construídas como obje-
plares de comportamento. O esporte e a vida saudável tos exemplares pela abstração de todo elemento particu-
simbolizavam a energia, o vigor, a força, a operosidade, larizante que as possa relativizar enquanto comporta-
Mcri.to Mar-ia Cllagas cle Ccrr.iscrllr o

mento simplesmente possível e/ou desejável em deter-


minada situação e/ou sob certas condições. Sua referên-
cia ao vivido dá-se como operação de confinamento do
cotidiano em espaços idealizados: o Lar, a Escola, o
Trabalho, objetivados e expostos também, no caso, co-
mo sínteses ideais das ações que harmonicamente os
constituem. A operação é hábil: o espectador eventual-
mente cativo dos modelos oferecidos é instado ao locali-
zar-se num desses espaços, neles encontrando a cena in-
dispensável para o sentido de suas ações. Constituídos INDICAÇÕES PARA LEITURA
como lugares de inclusão do indivíduo, o Lar, a Escola
e o Trabalho o são, também, pela mesma operação, co-
mo instâncias excludentemente formadoras do social.
Produz-se uma representação do social como idealidade
reguladora: lugares sociais têm sua configuração deli-
neada idealmente, de modo que neles possam ser situa- No trabalho de Femando de Azevedo, A Cultura
dos os indivíduos particulares, como adequação a um Brasileira, citado na bibliografia, podem-se obter muitas
tipo, e de modo que outros lugares - como a rua ou o informações sobre a história educacional republicana.
botequim, por exemplo - sejam expurgados de repre- Seu relato sobre o movimento educacional nos anos 20
sentação que simultaneamente os inclui. é especialmente interessante na medida em que também
é o depoimento de um protagonista dos episódios relata-
dos.
No livro de Casemiro dos Reis Filho, A Edu-
cação e a Ilusão Liberal, São Paulo, Cortez, 1981, que
trata da educação pública no Estado de São Paulo no
período 1890-1896, a ação reformadora de Caetano de
Campos é amplamente examinada.
Os textos de Caetano de Campos referidos neste
trabalho podem ser encontrados em Um Retrospecto, de
João Lourenço Rodrigues, citado na bibliografia. Sobre
as iniciativas dos republicanos, os trabalhos de Camicn