Augusto Dos Anjos - Obra Completa (Nao Esta Tao Completa Assim)

EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

Para ter acesso a outros títulos libertos das irresponsáveis convenções do mercado, acesse:

WWW . SAB OTA GE M . C J B . NET

Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

Esta obra foi digitalizada, formatada, revisada e liberta das excludentes convenções do mercado pelo Coletivo Sabotagem. Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor.

2

ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

3

Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

4

....................................... 186 Insônia .............. 205 Queixas Noturnas ......... 173 A Ilha de Cipango ... 200 Mãos .........................................................................................................123 Uma noite no Cairo .................. 197 Quadras ................... 183 Gozo Insatisfeito .. 190 Mistérios de um Fósforo .. 179 Estrofes Sentidas ................................................... 209 Poema Negro ........................................... 162 Versos de Amor ..................... 176 Ave Libertas ............................................. 203 Vênus Morta ................................... 212 5 ........................................................... 141 Os Doentes .......Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ............ 157 A Meretriz ............................................................128 As Cismas do Destino ......... 183 História de Um Vencido ..................................... 184 Idealizações ........................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 204 Viagem de um Vencido ...................... 142 À Mesa ................................................................................. 129 A Caridade . 166 A Luva ................................... 168 Noite de um Visionário .............................................. 155 Duas Estrofes ...................................................... 180 Canto Íntimo ....... 199 Tristezas de um Quarto Minguante ...................................................................................................... 175 Barcarola ........... 156 Gemidos de Arte .......................................... 170 A Vitória do Espírito ............... 155 Mater ................. 182 Canto de Agonia ..................................................................................................................................................................................................... 195 Numa Forja ......................................... 192 Ode ao Amor ............................................................

é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. ao menos. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. isto é. Nessa tentativa de interpretação psicológica. senão em mais de um. entrava em crise espiritual. Não me parece. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. que o não convencia de todo. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. no que há de mais sutil e imponderável. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. RJ. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. numa atitude de respeito e reflexão. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. não conhecemos sequer a nossa. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Gráfica Ouvidor. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. quando. compreendendo inclusive a estilística. Fazer o elogio do poeta. poder conhecer a árvore pelo fruto. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. na chaga viva de sua consciência. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. nos moldes da velha orientação impressionista. e era aí. Deste modo. contudo. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. segundo as síndromes patológicas revelados. Sua personalidade singular ali se projeta. desejosos de. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. o eu fora do Eu. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. pois. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. nesse estado de superexcitação. Nalgum ponto. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. na verdade. Por conseguinte. ed. em suas mensagens de angústia. Teria sido um neurótico para uns. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. 1962) 6 . paremos reverentes à porta do templo. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. um psicastênico para outros. É preciso. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. que é de todas a menos operante. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação.

Pai e irmãos passavam por normais. a de Leopardi. não é possível interpretar a obra de um escritor. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. não há negar também a dos psicológicos. por vezes controvertidos. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. caracterizado por uma sensibilidade doentia. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. Ao que se sabe. o refinamento de suas faculdades morais. na classificação dos antropologistas do século passado. sobretudo quando provém da linha materna. enfim. reduzir tudo a categorismo. aos que se rebaixam para subir. enfim. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. fobias. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. Isto posto. igualmente inteligentes. sestros. Sem o concurso da causa primária. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. Nem os que nasceram antes. a de Byron. choques emocionais. causada pela perda imprevista de um irmão querido. por motivos vários. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. repetindo conceitos. nem os que vieram depois. aos que se acomodam. Assim como a mãe de Augusto. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. além mesmo da gravidez. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. tiques nervosos. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. a de Wilde. Byron. Por seu parentesco espiritual. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. da inteligência. como é do gosto da crítica científica. E por curiosa coincidência.for. com preocupações de grandeza e fidalguia. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . no final. nas modalidades do caráter. A mãe do poeta. a partir de Lombroso. que nada explica. só ele dava a impressão de um desajustado. Juízo é coisa que todos julgam ter. em relação com a casuística. perturbou-a por muito tempo. a de Nietzche. todo o seu temperamento emocional. Nietzche. Augusto não era um homem igual aos outros. Explica-se deste modo. que já era constitucionalmente quase louca. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. do sentimento. estudante de medicina. tem sido Augusto comparado a Leopardi. sobre o seu caso clínico. Obviamente. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. menos a de Byron. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. de fundo genético.

Augusto com a sua personalidade psicológica. na várzea do Paraíba. em 1900. Sílvio Romero. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. sem afastar-se do lar. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. como expressão do pensamento nacional. logo mais. sofreu duros reveses. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. O rapazinho de 16 anos. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. Falava nele o positivista que. em sua linha tomista. mas não era somente isso. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. saído da roça. dr. Logo mais. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. bradava para o conceituado mestre que o argüia. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. Deste modo. estavam a fazer dele um lírico. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. Com seu pai. A par disso. em contraste com a mocidade e a inteligência. A paisagem bucólica da várzea. Alexandre dos Anjos. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. para aprazimento intelectual das elites. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. Já em 1875. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. a sua própria vida sem problemas. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. guiado apenas pela ilustração paterna. os quais o acompanhariam. em Monólogos de uma Sombra. era um introvertido. do Eu. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. aprendeu a ler e. a quietude da vida na província. que a metafísica estava morta. é a vocação que já revelava para o infortúnio. sofregamente bebida nas academias. visto ter nascido poeta. Nada de admirar. segundo os primeiros retratos que temos dele. ao invés de um estudante bisonho. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. com o título Eu e Outras Poesias. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. Coelho Rodrigues. Muito cedo. como uma fatalidade. cinco anos após a sua morte. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. evolvia para o evolucionismo de Speneer. em prefácio à segunda edição do Eu. que lançou em 1919. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. mas no final 8 . Era de fato um excêntrico. conforme disse num soneto que não consta. inspirado na natureza e no amor. o seu tipo de pássaro molhado. até o túmulo. para maior complicação de sua personalidade. O que há de singular nele não é. cuja vida corria sem obstáculos. no último ano do século passado. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. a rigor. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa.

confundidas ambas na unidade cósmica. Aliás. adepto do positivismo. proceda ou não proceda. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. Laurindo Leão. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. isto é. dupla feição de filósofo e de poeta. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. emancipou-se dela intelectualmente. Desta forma. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. que só cuidava de preocupações teológicas. um século antes de Hugo. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. introduziu entre nós a poesia científica. Martins Júnior. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Comte passou. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. já lidos nos filósofos da natureza. Embora educado na religião católica. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. como toda substância animada. com a evolução da matéria e do espírito. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. de que católico era sinônimo de burro. aliás bem pouco lisonjeiro. Ao que parece. nas concepções filosóficas de seus poemas. ou mesmo. suportou a mais dura crise. entre o mundo da forma e o mundo da razão. aliás. de onde saiu formado em 1907. os intelectuais mais dotados. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Até no Piauí. está sujeita também ao processo da evolução. O beatério era o último reduto do catolicismo. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. faziam praça de livres pensadores. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. tentou o milagre de 9 . que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. mas a origem simiesca do homem. se o diabo é tão feio como o pintam. Por todo o Nordeste. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. Desses embates. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. José Américo de Almeida. Ainda na fase preparatória de estudos. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. Esquisitão que era. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. desde Haller. que. como uma velharia do século. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. a exemplo de Victor Hugo. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. a velha Escolástica. Augusto pouco falava. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. firmava-se o conceito. ficava a escutar os companheiros. o pensamento ao longe. já no seu ocaso. Nas rodas que se faziam na Paraíba. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. em sua. Na Paraíba. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. Os menos letrados. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. em seu livro Frases e Notas. conciliada.

A partir da monera. Rimbaud escrevera Bateau ivre. como amostra. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. a consciência 10 . sempre a evoluir em movimentos rotatórios. O aspecto conceptual do poema. que passou do reino vegetal para o animal. É a sua confissão de f transformista. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. fundado na unidade cósmica. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Não há. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. simultâneas. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. E é de mim que decorrem. Integrado na sociedade. e—crente no tema. Venho de outras eras. numa caminhada de 31 estâncias. Do cosmopolitismo das moneras. E assim continua. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Encontra-se. A simbiose das coisas me equilibra. chega aos seres mais complexos. “esse mineiro doido das origens”. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. vibra A alma dos movimentos rotatórios. até adquirir a forma humana. que é a derrota da humanidade. nas duas composições uma coincidência de temas. já diferenciado na mônada. começa então o drama crucial da consciência. A saúde das forças subterrâneas.. Pólipo de recônditas reentrâncias. enfim. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. incomparável na forma musicada. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. depois de infinitas transformações. ampla. como bem observa Cavalcanti Proença.. já desiludido. Da substância de todas as substâncias. Vejamos. Em minha ignota mônada. todavia. naquela mesma idade em que.. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. na larva que procede do caos telúrico. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. por força das sucessivas mutações da matéria. Quem já o leu uma vez. poema que abre o Eu e Outras Poesias.. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. ora transfigurado em sátiro vilíssimo.reduzir a um campo único a ciência e a arte. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. facilmente o identifica. Não sofre apenas a sua dor. Larva do caos telúrico. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. identifica-se na substância primeva. terso na linguagem. trinta anos antes. 186 versos. ora transfigurado em filósofo moderno. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. Aos 17 anos. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”.

com sótão e porão. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. como está dito em Monólogos de uma Sombra. Nada obstante. o sofrimento de toda a humanidade. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. entendia o agregado abstrato da saudade. o remorso já acordado na caverna escura. assombrado com o não-ser. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. natural de minha terra. No fundo.conspurcada de gozo malsão. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. Por alma. A rigor.No princípio era o Verbo. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. Por fim. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. temos aí um transformismo metafísico. segundo querem os frenologistas. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. no entanto. É a concepção monística. chamando a si. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Nesse estado d’alma. diante das maravilhas do aparelho encefálico. o vidente de Patmos: . Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. A partir dai. tantas vezes exaltada pelo poeta. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. centro de toda a acuidade sensorial. manifestou o seu espanto. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. conheci um sujeito. numa espécie de solidariedade subjetiva. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. dentro do mundo fenomenal. No tocante à transformação da matéria. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. dezenove séculos antes. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. O próprio Augusto. que faz quase lembrar a reencarnação. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. noção trivialíssima das funções orgânicas. A mesma coisa. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. há que distinguir um pormenor. o que vale dizer. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . em esconderijos apropriados. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. no princípio era a força. entrega-se ao sacrifício. já havia dito. que a ele não interessava considerar. cuido não estar proferindo uma heresia. do ponto de vista metafísico. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. ouvia mais que um tísico. uma espécie de fogo que devora e não consome. que tinha os ouvidos totalmente tapados.

Nem por isso admite Deus. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. o lado malsão da vida. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. sem problemas materiais: Eu. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. uma natureza gasta. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. cadáveres e bocas necrófagas. filho do carbono e do amoníaco. procura 12 .Psicologia de um Vencido . fonte inesgotável de vida. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. causa-lhe repugnância. Monstro de escuridão e rutilância. A influência má dos signos do zodíaco. impreca. solta blasfêmias.. Sofro. na melhor das suposições. Já o verme . Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. vermes. E há-de deixar-me apenas os cabelos. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. rasgar do mundo o velário espêsso. servindo de pasto a uma civilização corrompida. No auge da inquietação. Por toda parte. Em tudo.. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. só serviu para adensar o clima de alucinação. Profundissimamente hipocondríaco. procura penetrar o mistério da substância universal. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. admite o éter. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Querendo fugir a essas coisas. onde não há lugar para a alegria.este operário das ruínas. Exausto da luta. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. O próprio amor. desde a epigênese da infância. Ao invés de fecundação do espírito. onde imperam sombras. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. O mundo em que vive é um vasto hospital. o éter cósmico. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. dominado por um ceticismo acabrunhador. que é o Deus materialista de Haeckel. Este ambiente me causa repugnância.Fazer a luz do cérebro que pensa. Custa crer que este soneto . a matéria putrefata.

Onde quer que se refugie. com o poder de sua imaginação. Antes de mais nada. E via em mim. O resultado de bilhões de raças Que.refúgio na inexistência espiritual. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Mas o diabo não larga a sua presa. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer.. nem Haeckel compreenderam. Tudo isso. Por um instante. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. que os anos não carcomem. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana.. acompanham-no. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. Espera aí encontrar o seu nirvana. Depois disso. como se supunha. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. Algo de mais grave. tenta ir ao fundo da crença monística. numa atitude mental de fuga à realidade. gasta imensas energias e enche de culminâncias. Com efeito. Grita a sua dor por toda parte e. E para não capitular a esse apelo. o Eu e Outras Poesias. Há. evadido de si mesmo. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. já cansado de escutar a natureza. paralelamente. diz ele. no todo ou em parte. Até agora 13 . a terrível moléstia que se atribui. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. E é nesta manumissão schopenhauriana. uma desgraça na vida do poeta. que ele denomina um sonho ladrão. O subconsciente o aturde. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. coberto de desgraças. que exulta triunfante: Gozo o prazer. a perda da crença e. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. deve ter acontecido na sua juventude. A julgar pelos seus gemidos. com efeito. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. em suas visões oníricas. podia fazer dele um triste. Nenhum pintor. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. sente o desejo. não há homem que sofra mais. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. monstros terríveis.

Ele próprio. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. no tocante a esse drama. Por mais que procure fugir ao assunto. Gozei numa hora séculos de afagos. pois. sempre se revela. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor.. Por suas próprias palavras. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . em . Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. desespero virtual e não real. Por enquanto.. dada a ausência de biografia. Por mais que Augusto negue o amor. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. de uma paixão. não pode ocultar que foi vítima dele. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. no capítulo do amor. . Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Iríamos a um país de eternas pazes. Exatamente aí. Lembro-me bem. inútil seria qualquer esforço. que é o drama mais doloroso de sua consciência. Trata-se..

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

15

Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

16

E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

17

Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

O poeta. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. que não é das mais invocadas.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada.. surpreende com a invocação de Santa Francisca.Insônia . Como um bemol ou como um sustenido. Depois de embebedado deste vinho. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.Queixas Noturnas . confessa mais uma vez a sua culpa. Sonâmbulo. ao mesmo tempo que. como é sabido. contrito. em mágoa.. eu também vou passando Sonâmbulo.. Sonâmbulo. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes.. Noite. nunca foi chegado a santos. E invejo o sofrimento desta Santa.extravasava desta forma o seu lamento: 19 .santa. mas no poema .. como em ..

Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. luta por fugir dela. ama-o até mesmo na atômica desordem. entre estes monstros.brada: 20 . Minha alma sai agoniada. entretanto. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. que parece se deixou levar por pressão da família. Como Elias. como perseguido pela sinistra ceifeira. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Da mãe. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. entre as estrelas flóreas. Mãe.As Cismas do Destino . em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição.. não para ele. dormir primeiro. Nem uma névoa no estrelado véu. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. que não admite a vida espiritual. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Madrugada de treze de janeiro. quando a morte o olhar lhe vidra. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. sonhando.. Em . mas para os que crêem há ainda uma esperança. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. apenas três vezes. Mas pareceu-me. pouco fala. sem resolver a verdade interior. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. A morte é o fim de tudo. Ao pai. Ao vê-lo morto. Rezo. o ofício da agonia. expressa a sua mágoa numa comovente unção. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. num carro azul de glórias.

levava-o a recolher-se em si mesmo. habitado por monstros humanos. Nada o consolava nesse estado de espírito. ardendo em indagações subjectivas. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. Não me parece tenha razão 21 . que Augusto era um cerebral. Nestas condições. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. não cria em Deus. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. Minha filosofia te repele. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente...Morte. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Forma difusa da matéria imbele. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. ponto final da última cena. cheio de imperfeições. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. as palavras também servem para ocultar o pensamento. quando recebeu os 22 açoites da natureza. Por tua causa apodreci nas cruzes. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé.. escravo do raciocínio frio. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. embora ansiasse por encontrá-lo. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. Acha Flósculo da Nóbrega. Ao invés de ajustá-lo à realidade.. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. E ainda. Aqui. Vivia um mundo à parte. Já que não crê em Deus. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. devia ter na época. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. como em toda a obra. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. 22 anos de idade. Procura assim desoprimir o coração. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes.

conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. O que produziu no sul do País. Punha-se então a passear. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. De um modo geral. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. Há. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. Os seus melhores versos. entrava em crise espiritual. Nem ele próprio se conhecia. os de maior densidade emocional. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. mas porque se sente um desajustado. Não que tenha recebido ofensas dela. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. e a mim pergunto. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. um homem excluído do mundo. o cérebro em fogo. ao contrário. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. contudo. andar bamboleante. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. torturado no sentimento do desamparo. como um sonâmbulo. Não importa que tenha morrido de pneumonia. de vez que ninguém o compreendia. Depois que o poeta deixou a Paraíba. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. que o 22 . Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Desta. No fundo. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. noite a dentro. Na luta em que Augusto se debate. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. ao redor da capela do engenho. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. Fosse como ele diz. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. tinha-se na conta de um doente. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. volta-se vez por outra contra a sociedade. no caso. em 1912. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. Era.o ilustre intelectual paraibano. sua musa empalideceu à falta de ambiente. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. A inspiração despertava com a dor. conforme declarou nesta honesta confissão. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. além de pouco. mas no particular. nunca recebeu hostilidades. Ao contemplar esse ambiente. que só repugnância lhe causava. que o acolhia com carinho. foram produzidos no Pau D’Arco. passos largos.

ansiado e contrafeito. à guisa de ácido resíduo. Eu bem sabia. Não há. numa emoção que comove. como se já tivesse perdido o alento de viver. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. Lá para o fim do poema. como ele chamava. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. os acordes saudosos do coração. Mais adiante. o soneto Vandalismo. Depois disso. num desalento ainda maior. aliada à descrença. atormenta-se com a idéia de que. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Na ascensão barométrica da calma. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. passa a chorar a sua dor e a alheia. em Os Doentes. De início. Perdido o amor. entra a descrever a cidade dos lázaros. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. pois. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. fez dele um misantropo. Era ali. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. que admirar chore um dia a crença perdida. 23 . deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. em serenata. Em As Cismas do Destino.próprio poeta confessava. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. sob os seus pés. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. confessa-se minado pela tuberculose. na terra onde pisava. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. Parece que desperta para a vida. Essa real ou imaginária doença. onde os anjos cantavam. eis que escuta. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. hosanas ao Senhor. perdeu também a crença. imaginária cidade à margem do Paraíba. como um arrependido. “na urbe natal do Desconsolo”. Já cansado do ceticismo. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde.

que não é biografia e não chega a ser estudo. chegou a dizer que Augusto não era poeta. Enfim.Meu coração tem catedrais imensas. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. já na 27ª edição.. A arte. ler. No final de contas. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. em gemidos de dor. Dos outros. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. No desespero dos iconoclastas. na Academia Paraibana de Letras. que se afundava a alma do poeta. João Lélis e De Castro e Silva. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. para ele. há sempre o que referir. pois. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. Onde um nume de amor. Templos de priscas e longínquas datas. Sua obra. posto que. Ao contrário da incontinente afirmativa. Nesse decurso. em serenatas. este último. quase todos. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Flóscolo da Nóbrega. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. José Américo de Almeida. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. era apenas o meio de formular soluções. Álvaro de Carvalho. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. muitas opiniões foram veiculadas. Santos Neto. Raul Machado. João Lélis. por exemplo. Sabe-se como compunha. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. Assim é que. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Canta a aleluia virginal das crenças. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. Não é. apenas como autor de um livro apologético. destaco Órris Soares.. tenham bordejado na superfície do abismo em. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas.

o sentimento parece ter outra dimensão. Muitas vezes. Por tudo isso. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. como em compasso de música. olhar perdido no espaço. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. Foi então que recitou de inopino. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. entrava disciplinada em seus versos. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. claro que avulta ainda mais o seu mérito. associado à vibração sonora. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. à primeira vista incompatível com a poesia. Essa crítica. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Seus versos. a densidade. o outro 25 anos depois. essa linguagem. impressionam pelo poder da dialética. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. duendes. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. também 25 . seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. em 1945.devoradoras. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. um em 1920. Em ambos. sobretudo da crítica provinciana. Neles. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. Poe e Rimbaud. Só depois de elaborada é que ia para o papel. na época. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. Essa incompreensão a respeito de Augusto. Os versos espoucavam no momento da inspiração. a sua personalidade psicológica. que não tenha fecundado a poesia nacional. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. com efeito. Euclides da Cunha. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. vermes. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. num timbre especial de voz. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. enquanto forjava mentalmente a composição. insulado em sua própria grandeza. que pretende ser de interpretação psicológica. de um a outro canto da sala. Em ter ficado sozinho. Cavalcanti Proença. figuras espectrais e outras visões sinistras. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. Órris Soares. sangue de vísceras dilaceradas. lábios crispados. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. como lamenta o crítico. No entanto. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. escarros. reside justamente no termo técnico. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. o que era. este na prosa. disse que uma das suas forças. entre nós. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. túmulos. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. o que acabava de compor. a passear a esmo. lá fora.

Não pode o critico ser ortodoxo. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Há. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. por isso mesmo poética. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. com efeito. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. Com Mallarmé. na interpretação de um drama emocional. Com Verlaine. Mas é preciso notar que essa musa. Ou então. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. neste ensaio de exegese literária. Eis porque. de sentido mais profundo. Nem por isso. nem tudo pode ter cabimento. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. pela tristeza indefinível da alma. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. O anojamento de Álvaro de Carvalho. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. que apenas transparece em linguagem evasiva. elogios ou restrições. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. a fim de atingir. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. reconheça-se que essa poesia é humana. está em tempo de ser feita. aparelhou. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. como se vê. no duelo da carne. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. é mais uma aversão de olfato alérgico. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos.ficaram sem seguidores. num dos seus últimos sonetos. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. Com Baudelaire. 26 . tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. mesmo doentia. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. pelas crises espirituais porque ambos passaram. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação.

os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. crematismos. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. A mesma coisa ocorre com Augusto. pelo sentido da dor universal. que dialoga com os elementos imponderáveis. na terra santa. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. Não fica apenas aí o confronto. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. para a neologia e o vocábulo raro. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. palavras raras e eruditas. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. em quem se acumulam. É. as mesmas figuras de linguagem. Ouvindo isso. em grupos prosternados. havia acentuada tendência do poeta. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. visionário. guardando o corpo do Divino Mestre. numa sexta-feira santa. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. Encontra-se. desde a sua fase inicial. Até nas aliterações e metáforas. citado por Augusto Meyer. em termos de comparação. por sua natureza. só nesse ponto dissimula o pensamento. Augusto lembra Rimbaud. um mês após a morte de Augusto. um grande medo toma conta do poeta. de mistura com alucinações. em tropos ousados. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. foi José Américo de Almeida. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. a idéia pura das coisas. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. Segundo Delahaye.. temida pelo outro. O único que mencionou Rimbaud. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. quando a cristandade parecia pura sobre a terra.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. Súbito. na postura de um campônio rústico. “Na Eternidade. no ar de minha terra. num artigo publicado em 1914. Com Leopardi. sensações simples e cenestesias. Com Antero do Quental. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. De lá de fora. a filosofia da dor..através da sensação. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. como neste exemplo: 27 . Honesto em tudo. desejada por um. Também no amor os dois se assemelham. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. Só com Rimbaud. os mesmos descuidos de metro e rima. vem o barulho das matracas. isso mesmo de passagem. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. encontra-se em Roma. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. assentado sobre cacos de pote e urtigas. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Vez por outra. de uma honestidade quase bravia.

é inútil. E como não 28 . depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. a julgar pelos seus lamentos. é verdade. por causas várias. contudo. um suave concerto espiritual na natureza. poeta. sente-se que há um complexo de culpa. Não sou capaz de amar mulher alguma. é como a cana azeda.. provo-a. Em cada um deles. No tempo de jovem. embora tenham se casado e tido filhos.. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. na Bélgica. filha legítima de sua alma. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. o bem e o mal caminhando juntos. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. ilusão treda! O amor. largou-se para a África. Descasco-a. chupo-a. como Tântalo. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava.. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. homens de bem cheios de nobres intenções. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. Motivos escabrosos. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. . tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. uma diferença de fundo entre os dois poetas. Ninguém sofre mais do que ele. é improfícuo.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. vítima de injustiças humanas.”. à beira da água. A toda boca que o não prova engana. onde se casou com uma nativa da Abissínia. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. em busca do paraíso terrestre. segundo é fama. Rimbaud. exacerbava-a. que era o seu anseio máximo. mas que o levaram ao resultado conhecido. Augusto sentia-se puro. Depois desse fato. andou conspurcado de sensações súcubas. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. Há. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. em suma. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede.

Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. Mesmo assim. Foi a partir daí. Possuído do demônio da dúvida. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. segundo apregoam os fundibulários da crítica. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. depois que perdeu a ilusão dos homens. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . sem preencher esse vácuo. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. os mistérios da natureza. isto é. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. imitação. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. do qual se considerava prisioneiro. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. dessa conversão ao materialismo. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. quando muito. Por curioso paradoxo. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. tudo quanto desperta a alma. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Há muitas espécies de conversões em literatura. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Augusto vai irredento até o fim. entre a voz do sentimento e a da razão. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. numa reação inócua. luz. onde não faltavam o ranger de dentes. perfume. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. conforme confissão feita a Mário de Alencar. Tais similitudes valeriam. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. isto é. Neste passo. perdia-se no estado de dúvida. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo.Une Saison en Enfer .. mas nem isso acredito tenha havido. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. revolta-se contra o mundo. a criação. A vida. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. Um problema sempre gera outro. como fontes de inspiração.espécie de autobiografia moral. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. o amor. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. deixava-se ficar no interior da concha. beleza. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta.pode reformar o mundo. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. silvos de labaredas e suspiros de empestados. martelada em versos magníficos e candentes. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. 29 . Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. porém. som. chegaríamos por certo ao pai Homero que. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. contra a sociedade. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Não raras vezes. contra a sua grei. cor. tudo quanto eleva os sentidos.

levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. na realidade. como ninguém ainda se entendesse. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência.Enredado em idéias preconcebidas. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. Alguns críticos. viram nisso o pecado da blasfêmia. uns afirmando. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. Convém. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. Ao cabo do bombardeio oratório. Se o Cristo não vem em seu auxílio. Todos nós. No meio em que viveu era querido e admirado. se não há Deus. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. é questão que não deve ser formulada. se sucediam na tribuna. em torrentes de eloqüência. mas os que o seguem desconhecem. em meio a tantas emoções extravasadas. a meu ver. se manifesta ainda escravo do batismo. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. nas Alterosas. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. com raríssimas exceções. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. tal como Rimbaud. 30 . a propósito. Apurada a eleição e com base no resultado. heresia maior que a do poeta quando. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. via de regra. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. outros negando. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. que se veja na blasfêmia. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. no desespero de tantos sofrimentos. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. Isso mostra que ele. Se há Deus. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. Na prática. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. Ora. resolveu o presidente submeter a questão a votos. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. aceitar as imperfeições do mundo. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. porquanto Deus é princípio e é fim. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. supria-se do mais no magistério particular. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. Os oradores. a essência dos Evangelhos. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. Vale mencionar. afetando melindres de devotos. todavia. quando não proferida por modo vulgar e chulo. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. é. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. É o que há. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. proclamou que Deus não existe. um pedido de socorro.

atormentado por visões escatológicas. 31 . começa o poema “Sou uma Sombra.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . E como era sincero e honesto. sob estes galhos. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. desde Tales de Mileto. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. explodiu em As Cismas do Destino. através dos séculos. A denominação. entendiam a alma. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Como uma vela fúnebre de cera. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. virtudes que cultivava com extremado zelo. No tempo de meu Pai. De outras vezes. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. coisa que não cabe na boca de um ateu. por mãos de seu filho Pirro. vem de muito longe. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Abraçada com a própria Eternidade. como se vê.Debaixo do Tamarindo. Por outro lado. Voltando à pátria da homogeneidade. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. como uma caixa derradeira. De inflexões mentais sua obra anda cheia. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. o sacrifício da linda moça Polixena. dá à alma a denominação de sombra. os filósofos iônios.

ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. em Leopoldina. assaltado de alucinações. aos 30 anos de idade. era uma mônada. desde o declínio das crenças mitológicas. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. Mais poderia dizer agora. larva do caos telúrico. como entidade eterna. as formas microscópicas do mundo. a 12 de novembro de 1914. Que outros. Assim vai. virtualidade espiritual. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. para ele. sua intimidade numenal. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. Até Deus. que procede do éter cósmico. isto é. tal como a entendiam os filósofos iônios. em soluços quase humanos. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. na Federação das Academias de Letras do Brasil.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. Daí por diante. nas composições que vão até o fim do livro. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. da substância de todas as substâncias. até que morre numa cidade das Alterosas. mas com o que ai está me contento. em briga com o dualismo. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. acrescenta. perdendo-se novamente no enleio cósmico. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. tal como se apresenta. mas dentro da alma aflita Via Deus . Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. até mesmo num grão de areia. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. É a substância primeva. vacilante na ciência fria. Choram ainda dentro dele. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. 32 . conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. !" Este trabalho.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma.

comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. de abusar um pouco do café. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. presumo. Engenho Pau d'Arco. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. R. dos Anjos e D. 33 . Tenho insônia raras vezes. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. Córdula C. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. Rio de Janeiro. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. o que não impede. Conservo de memória tudo quanto produzo. da chamada vida física.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Eu. entretanto. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Sofre de insônia. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos.

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Meu Deus! E este morcego! E. E vejo-o ainda. Já o verme -. A influência má dos signos do zodíaco. filho do carbono e do amoníaco. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça.” -. “Vou mandar levantar outra parede. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho..Digo. Chego A tocá-lo. Ergo-me a tremer. Esforços faço. igual a um olho. desde a epigênese da infância. Ao meu quarto me recolho. Fecho o ferrolho E olho o teto.. Este ambiente me causa repugnância.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. E há de deixar-me apenas os cabelos. Na frialdade inorgânica da terra! 34 .este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. Minh’alma se concentra. Produndissimamente hipocondríaco. e à vida em geral declara guerra. Sofro.. Monstro de escuridão e rutilância.. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. agora.

raquítica. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Mas. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. À noite. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. tênue. Quebra a força centrípeta que a amarra. Riem as meretrizes no Cassino..A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. Chega em seguida às cordas da laringe. Delibera.. Anoitece. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. mínima. Que. de repente. e depois. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. quando sonha. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe.. Tísica.. em desintegrações maravilhosas. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . Deixa circunferências de peçonha. e quase morta.

. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. com a sinergia de um gigante. Realizavam-se os partos mais obscuros.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Que poder embriológico fatal Destruiu. Fruto rubro de carne agonizante.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Agregado infeliz de sangue e cal. em letras garrafais. feto esquecido. Tragicamente anônimo. em vez de achar a luz que os Céus inflama. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. E.. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Em que lugar irás passar a infância. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911.

Livre das roupas do antropomorfismo. Na superabundância ou na miséria.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a..VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. acode-a A escala dos latidos ancestrais.. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Ah! Para ele é que a carne podre fica. E vive em contubérnio com a bactéria. E irás assim. Janta hidrópicos. pelos séculos adiante. ampara-a.. Filho da teleológica matéria. Suficientíssima é. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência.é o seu nome obscuro de batismo. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. Almoça a podridão das drupas agras. arrima-a.. afaga-a. Verme -. Cão! -. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. para provar A incógnita alma. em que tu dormes.

e.. Como uma vela fúnebre de cera. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo.. Voltando à pátria da homogeneidade. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. como uma caixa derradeira.corte Minha singularíssima pessoa. sob estes galhos. Dr. esta tesoura. de amplos agasalhos.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. Guarda. esta árvore.. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. portanto.

A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. como quem tudo repele.. Como um pagão no altar de Proserpina. Alheio ao velho cálculo dos dias. por toda a pro-dinâmica infinita. -. mas dentro da alma aflita Via Deus -. com uma ânsia sibarita. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. com o esqueleto ao lado. Por trás dos ermos túmulos. um dia.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta.. Na guturalidade do meu brado. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia.

Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . talvez. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. vede: É o grande bebedeouro coletivo. Todas as noites. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Oh! Mãe original das outras formas. Ah! De ti foi que. moços do mundo. autônoma e sem normas. Nos estados prodrômicos da vida. nesta rede. Como quase impalpável gelatina. como um gado vivo. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.. Em que é mister que o gênero humano entre.. Dentro do ângulo diedro da parede. Onde os bandalhos.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. mísera e mofina.

IDEALISMO Falas de amor. perante a evolução imensa. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. é o pneuma . se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. como o filósofo mais crente. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . O mundo fique imaterializado -. é o ego sum qui sum .. É. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . É a morte. Creio. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. para o amor sagrado. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui.. Amo o coveiro -.

. se hoje volto assim. caixas cranianas. com a alma às escuras. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. Cinzas..O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. inclusas. talvez as Musas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . Pelas monotonias siderais. Mas... À meia-noite. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. cartilagens Oriundas. como os sonhos dos selvagens. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. subi talvez às máximas alturas. Comi meus olhos crus no cemitério. nele. Vaguei um século. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. improficuamente. Era tarde! Fazia muito frio. e.

fontes de perdão -. Se fosses Deus. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. tuas sementes! E assim. com o envelhecimento da nervura. Tamarindo de minha desventura. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. em diferentes Florestas. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. para o Futuro. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. pois. Na multiplicidade dos teus ramos. inda teremos filhos! 43 . selvas. Eu. Pelo muito que em vida nos amamos. vales. Tu. porém. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. Depois da morte. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. reunidos. trilhos. no Dia de Juízo. glebas.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo.

. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. Ganem todos os vícios de uma vez. Ter o destino de uma larva fria. Apraz-me. Na orgia heliogabálica do mundo... à categoria Das organizações liliputianas..INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. Como a cinza que vive junto à brasa. asa De mau agouro que. Como os Goncourts. nos doze meses. É-me grato adstringir-me.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . É meu destino viver junto a esa asa. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. na hierarquia Das formas vivas. Perseguido por todos os reveses.

já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. com os dedos brutos Para falar. Ouvindo a Escada e o Mar. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. É como o paralítico que. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. “Homem. violento. rasga o papel. puxa e repuxa a língua. o Hércules. o Homem. “À luz da epicurista ataraxia.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. mamífero inferior.. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. conquanto ainda hoje em dia. em desalento.. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. a mim. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. aos soluços. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora.

Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. Ele hoje vê que. Tu só furtaste a moeda.. minha Mãe. Sinhá-Mocinha. Eu furtei mais.. Em sucessivas atuações nefastas. após tudo perdido. em minha cama.. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. Que a mim somente cabe o furto feito. então. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Vejo. afetava Susceptibilidade de menina: “-. como cruéis e hórridas hastas.Não. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. minha ama. não fora ela! --“ E maldizia a sina. ralhava.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. Furtaste a moeda só. o ouro que brilha. Que ela absolutamente não furtava. mas eu. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. hipócrita. entretanto. agora..

igual a um porco. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. É noite. do que este que palmilho E que me assombra. num festim..o brilho Destes meus olhos apagou!.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos.a mãe comum -. à noite. Assim Tântalo. Hoje. e.. após a árdua e atra refrega. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . Hás de engolir.. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos.. E tu mesmo... porém... aos reais convivas. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo.

Tu. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. O que o homem ama e o que o homem abomina. pois. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores.. Às alegrias juntam-se as tristezas.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. trilhando as mesmas ruas. Eu. Pai. meu Pai?! Que mão sombria. e sendo justo. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te.. gemendo. para amenizar as dores tuas. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério.. e o ângulo reto. é justo. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. para onde fores. Deus. O Amor e a Paz. Irei também. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. o Ódio e a Carnificina..

Mãe. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. sonhando.. Mas pareceu-me. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Nem uma névoa no estrelado véu. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei.. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam.. E a marcha das moléculas regulam. num carro azul de glórias. o ofício da agonia.. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. entre as estrelas flóreas. Rezo. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. cuidei que ele dormia. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Como Elias.

sôfrega e ansiosa. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. enfim.e ajoelhou-se.. -.. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. Apraz-me. É preciso cortá-la. para que eu viva!” E quando a árvore.As árvores. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. meu filho. pois. olhando a pátria serra. Livre deste cadeado de peçonha.. no junquilho. possui minh’alma!. meu pai..Disse -. Caiu aos golpes do machado bronco. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 .. Para que eu tenha uma velhice calma! -..DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter... não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho.Meu pai. numa rogativa: “Não mate a árvore. Esta árvore. meu filho. pai.

Foi este mundo que me fez tão triste. Tu nunca mais verás a liberdade!. de à antiga rota Voar. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu.. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. não tens mais! E pois.. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . preto e amarelo. Olha a atmosfera livre. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. mergulhou a cabeça no Infinito. Continua a comer teu milho alpiste.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade.. bruto. o amplo éter belo.. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. Pões-te a assobiar. desde o mais prístino mito.

E erguendo os gládios e brandindo as hastas.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. cismava Em meu destino!.. Onde um nume de amor. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. Templos de priscas e longínquas datas. ególatra céptico. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas.. na diuturna discórdia. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. Ante o telúrico recorte. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu.. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte.. Canta a aleluia virginal das crenças. em serenatas. Noite alta.

uns cem. o gládio de aço. E não pôde domá-lo enfim ninguém. e. Vieram todos. ao todo. Apedreja essa mão vil que te afaga.. e doma Meu coração -. é a véspera do escarro. toma A adaga de aço. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. guerreiro.. Toma um fósforo. por fim. E à rutilância das espadas. E qual mais pronto. Meu coração triunfava nas arenas. amigo. veio um atleta. Somente a Ingratidão -. Mora. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. por fim.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. A mão que afaga é a mesma que apedreja. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. sente invevitável Necessidade de também ser fera. entre feras. que.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. Veio depois um domador de hienas E outro mais. nesta terra miserável. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . Acende teu cigarro! o beijo.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem.

o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. No rudimentarismo do Desejo! 54 ... Da luz que não chegou a ser lampejo.. em sons subterrâneos. A sucessividade dos segundos.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo.. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. Que. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. Quer resistir. Da transcendência que se não realiza. a que só ele assiste.. E é em suma.. nada há que traga Consolo à Mágoa. pois. pancada por pancada. chorando. do Orbe oriundos. Ouço. podendo mover milhões de mundos. Sabe que sofre. a escutar.

Foi que eu. sincero Encontrei. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . Oh! Nauta aflito do Subliminal. Cesse a luz.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. que os anos não carcomem. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Morto o comércio físico nefando. feito força. num grito de emoção. eu. afinal. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. De que. me desencarcero. Parem as vidas. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. pensando. Como a última expressão da Dor sem termo. a animar o cosmos ermo. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer.

há inúmeros milênios.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação.. Onde a alva flama psíquica trabalha. muito embora a alma te acenda. "Com essa intuição monística dos gênios. ao sol posto. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. E o Homem — negro e heteróclito composto. Era. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. e. numa alta aclamação. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. Dói-me ver.. o olfato e o gosto! Carne. a irmanar diamantes e hulhas. decompondo-se. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. a vista. pois.. Em tua podridão a herança horrenda. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. arpões. feixe de mônadas bastardas. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . sem retumbância. Diafragmas.. sem gritos. o ouvido. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. A dardejar relampejantes brilhos.

na noite escura. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo.. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. meus semelhantes! Mas. à espera de quem passa Para abrir-lhe. E o nada do meu homem interior! 57 .O PÂNTANO Podem vê-lo. Que produz muita vez. opondo-se à Inércia. é o transunto. Este pântano é o túmulo absoluto. é a essência pura. para mim que a Natureza escuto. no Mundo. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. às escâncaras. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. A convulsão meteórica do vento. e.. Tragicamente. sem dor. É a síntese. a porta.

porventura. geléia humana. O espanto Convulsiona os espíritos. E hás de crescer. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. oh! gérmen. geléia crua. em conjugação com a terra nua. como o gérmen de outros seres. e. ainda algum dia. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo.. que ainda haveres De atingir. Teu desenvolvimento continua! Antes. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. em realidade. deprimindo-o .. causa do Mundo. no teu silêncio. Volvas à antiga inexistência calma!..A UM GÉRMEN Começaste a existir. um dia. não progridas E em retrogradações indefinidas. Antes o Nada. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . é natural. tanto Que. entanto. Reconcentrando-se em si mesma. Vence o granito. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia..

Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 .. é ânsia..Todas as hermenêuticas sondagens. é o instinto horrendo De subir.. é transporte..A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!... Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. São absolutamente negativas! Araucárias.. Bracejamentos de álamos selvagens. . é inquietude.. os elementos broncos. . É a Natureza que. trancada num disfarce. na ordem cósmica. no seu arcano. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. descendo A irracionalidade primitiva.. Vivem só. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. traçando arcos de ogivas.. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. nele.As ambições que se fizeram troncos. Como um convite para estranhas viagens. E a coorte Das raças todas.

É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. E... inteira. oh! Dor. Que o sarcófago. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor.. sem convulsão que me alvorece. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.. saúde dos seres que se fanam. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . psíquico tesouro. Riqueza da alma. ancoradouro Dos desgraçados. Dói-lhe... em suma. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. sol do cérebro. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas.. À humana comoção impondo-a. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. acérrima e latente. assim.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte.

para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. Expressões do universo radioativo. Dai-me alma. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o .. Haveis de ser no mundo subjetivo... Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. em épocas futuras. para o último remígio.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. pois. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Benditos vós. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Dai-me asas. que. ) Com o vosso catalítico prestígio.. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . pois. Minha continuidade emocional! 61 .. Ions emanados do meu próprio ideal.

sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. Arranco do meu crânio as nebulosas. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. os pés e os braços Tombara. O cosmos sintético da Idéa Surge.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos.. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas.. as mãos. A carne é fogo.. Emoções extraordinárias sinto. então. Subitamente a cerebral coréa Pára. A alma arde. A espaços As cabeças. Eu sinto..

. na superfície do planeta. o alfa e o omega Amarguram-te. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Sangram-te os olhos. criatura cega. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. No desembestamento que os arrasta. Montão de estercorária argila preta.. aumenta. Porque. Rugindo. na ânsia voraz que.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. os dois Representam. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. carne sem luz. Deixa a tua alegria aos seres brutos. ávida. Os dentes antropófagos que rangem. entretanto. Receando outras mandíbulas a esbangem. Teu coração se desagrega. Superexcitadíssimos. Realidade geográfica infeliz. enquanto as almas se confrangem. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. tragando a ambiência vasta. Hebdômadas hostis Passam. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. e. Excrescência de terra singular.

soluçando. Que força alguma inibitória acalma.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. mordem-se. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . a Ciência. Da dor humana.. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. Sob pena. aparelhou. o Inferno. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se.. E trago em mim. homens felizes.. O Amor. a Glória.. sou maior que Dante.

engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . Existo Como o cancro. O epitalâmio da Suprema Falta.. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. Uiva. Entoado asperamente.. a alardear bárbaros sons abstrusos. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. cresto o sonho. ontem. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. à luz de fantástica ribalta. Que.. a exigir que os sãos enfermem. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. urdo o crime. não cabendo mais dentro dos peitos. (Hoje. em voz muito alta. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. Teço a infâmia. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração.O CANTO DOS PRESOS Troa. È a saudade dos erros satisfeitos..

Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. dona. O Infinitésimo e o Indeterminado. como um corvo. apreendo. transmudado em rutilância fria.. ausculto. o Infinito se levanta À luz do luar. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão.. enfim. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. Transponho ousadamente o átomo rude E. minha alma. o Céu e o Inferno absorvo. Nos paroxismos da hiperestesia..VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . à noite. por fim. invado. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. Feita dos mais variáveis elementos.. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. Ceva-se em minha carne. agarro.

e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. como a luz do amanhecer. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. Sentia dos fenômenos o fim. projetado muito além da História. como um astro. arder. aos trismos Da epilepsia horrenda. virgem.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. Laquesis. Tifon. Átropos... Eu. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . num monturo.. Como a luz que arde. E acima deles. Siva.. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam.

a afagar tantas feridas. remoinha. às apalpadelas e às escuras. entanto.Trilhões de células vencidas.. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. Folhas e frutos. Roem-na amarguras Talvez humanas. alarga-se em meu hausto.. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. E. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. nas minhas formas carcomidas. rábido. esse mundo incoerente..MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. nem mesmo ao ronco Do furacão que. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 ... sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. Branda. tenta transpor o Ideal. Nutrindo uma efeméride inferior.. Grita em meu grito.) Quem sou eu. Hão de encontrar as gerações futuras Só. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. neste ergástulo das vidas Danadamente.. a soluçar de dor?! -..

Sou eu que. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. hirto. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. desconforto E ataraxia. Apreendo. em cisma abismadora absorto. em que me inundo.. -.. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. Penetro a essência plásmica infinita. aliando Buda ao sibarita.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. feto vivo e aborto. sânie e perfume. ateando da alma o ocíduo lume. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. -. Massa palpável e éter. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos.

na abismal sustância informe. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética.. Porque. cérebros.. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. rádios e úmeros. infinita como os próprios números. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. Reduzir carnes podres a algarismos. por hipótese. somente em. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu.Tal é. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. em fúlgidos letreiros. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. dois.. crânios. -. sem complicados silogismos. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . quatro. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. três. cinco. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá..VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros.

De onde rebenta. íngremes. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. Estacionadas. e dize-me. afinal. perscruta O puerpério geológico interior. alma. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. amam jazer. Qual é. a alma.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. recalcados. Por um abortamento de mecânica. em contrações de dor. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. me semente. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Quem sabe. oh! delumbrada alma. assim. na natureza espiritual. porventura. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 .

E eu só. sonha! Mágoas.. e. É a subversão universal que ameaça A Natureza.. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. integérrima. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . pelo orbe adiante. Federações sidéricas quebradas.. que o Éter indica. A íngreme cordoalha úmida fica. se as Tem. a amarra agarrada à âncora.. Espião da cataclísmica surpresa. Zarpa. derrota Na atual força. babando. subjugue-as ou difarce-as.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. Pára e.. em noite aziaga e ignota. derrubadas. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. o último a ser. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega.. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. alçando o hirto esporão guerreiro. da Massa.

em que arde o Ser. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. ao cabo do último milênio. que ela encheu. Os nossos esqueletos descarnados. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Para a perpetuação da Espécie forte. E quando.. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. Tragicamente. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. Dentro dos ossos. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. adstrito à ciência grave. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. Haurindo o gás sulfídrico das covas. cave. e. Sôfrego. Arrancar. ainda depois da morte. Em convulsivas contorções sensuais. vazio! 73 . o dolo sáxeo.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. num triunfo surpreendente..

. E. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. antes do almoço.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. Olhou-se no espelho. E amou. Ia talvez morrer. Somente. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. fora. eis que viu.. Disse. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. A água transubstancia-se.. Era tão moço. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso.... iguais a espiões que acordam cedo. vendo sangue. com um berro bárbaro de gozo. há instantes. mancha a gleba. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . Na mão dos açougueiros... A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. Viu vísceras vermelhas pelo chão. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. Extraordinariamente atordoadora. Horrível! O osso Frontal em fogo.

Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!... No mar de humana proliferação... ante obras tais... me não consolo. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. E em tudo igual a Goethe.. reconheço O império da substância universal ! 75 . O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. Leio o obsoleto Rig-Veda.. E. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. Rasgo dos mundos o velário espesso. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino.

Porque eu hoje só vivo da descrença. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. imóvel. Para dar vida à dor e ao sofrimento. ao meu lado. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. A Idéia estertorava-se. Mas que no entanto me alimenta a vida. atro e subterrâneo. Era de vê-lo.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. E o coração me rasga atroz. P’ra iluminar-me a alma descontente. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. imensa. Eu a bendigo da descrença. resignado. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. 76 . Hirta.. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Parecia dIzer-me: "É tarde. Se acende o círio triste da Saudade. Tragicamente de si mesmo oriundo. Fora da sucessão.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. E assim afeito às mágoas e ao tormento. estranho ao mundo. em meio.

Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 .ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Hoje ela habita a erma soledade.Oh! Deus. Ah. Não sei se viva p’ra morrer na terra. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Cansado de lutar no mundo insano. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. Fraco que sou. Fugazes sonhos. seu olhar magoado. volvi ao ceticismo.a Grande Mãe . eu creio em ti. Da Igreja . em fundo misticismo: . gárrulos voando . De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. de ilusões tão bela. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. desgraçado réu.Todas se foram num festivo bando. Onde a dúvida ergueu altar profano. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. entre o medo que o meu Ser aterra.o exorcismo Terrível me feriu. sombras cor-de-rosa . e então sereno.

langorosas. Cansado de chorar pelas estradas. E que tornou-o assim. Exausto de pisar mágoas pisadas. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. amei. de amor ferido. Quando a morte matar meus dissabores. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Tristes fanaram redolentes rosas. Morreram todas. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. senhora. Todas murcharam. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. num mês de tantas flores. SENHORA Ouvi. Eterno pegureiro caminhando. senhora. Revolvo as cinzas de passadas eras.MÁGOAS Quando nasci. Desfeitas todas num guaiar dorido. triste pela vida afora. tristes. senhora. triste e descrido. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Ouvi. todas sem olores. Sombrio e mudo e glacial. pálidas agora. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI.

Tu que. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. mas a fronte aureolada. Louco vivia. Era o soldado. Oh! Tu. Vivia alegre o vate apaixonado. venceu batalhas. olímpica e singela! E partiu. um tresloucado. Cantaste e riste. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. E fica no teu ermo entristecida. enamorado dela. na estrada da existência em fora. No sepulcro da loura virgem bela. Altivo lutador. Esconde à Natureza o sofrimento. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. coração amargurado. 79 . INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. pendeu triste e desmaiada. Mas a Pátria chamou-o. Alma viúva das paixões da vida. Ao chegar. E voltou. Alma arrancada do prazer do mundo. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. e o pesar negro e profundo. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Apaixonou-se d’uma virgem bela.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta.

Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. no eternal soluço. silentes. Fora no campo pássaros trinavam. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. funéreos. Há de chegar. ardentes . Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Quando da vida. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. a brisa respondia. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Chegara enfim o dia desejado. Vinha rompendo a aurora majestosa. Ambos unidos soluçara um beijo. E a mesma frase o noivo repetia.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. pálidos. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. soturnais. Desliza então a lúgubre coorte. São minhas crenças divinais. Resvalando nas sombras dos ciprestes. E rompe a orquestra sepulcral da morte.

E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. 81 . Espumando e rugindo em marulhada. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. E espuma e ruge a cólera entranhada. Mas se das minhas dores ao calvário. Em luta co’a natura sempiterna. No delírio. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. porém. E onde a vida borbulha e o sangue medra. Assim a turba inconsciente passa. Aí existe a mágoa em sua essência. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. A morte me será vingança eterna.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Dores que ferem corações de pedra. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida.

Mostrar-te o afeto que meu peito sente. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Foste do amor o mártir sacrossanto. dão-te enganos. Morrera um dia desvairado. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. num abraço de ternura santa. bom Papá. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Pois se da Religião fizeste culto. Irmão querido. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Tu’alma ri-se descuidosamente. Enquanto outros que podem. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. bonecos de formoso busto. Somente assim festejarei teus anos. Su’alma livre para o Céu se alara. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Quantos. estulto. Jóias. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente.

palpitantes. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. presa. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. divina.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. Balbuciou. Moldada pela mão da Natureza. Do destino fatal. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. esta mulher de grã beleza. mornos. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. A chama cruel que arrasta os corações. Bela. Do fado. No entanto. Tornou-se a pecadora vil. Os seios brancos. tomando a enxada gravemente. amigo verdadeiro. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . aveludado. Dançavam-lhe no colo perfumado.

os sons esmorecendo. Trovador torturado e angustioso. Assim canta também meu coração. No sigilo das rezas misteriosas.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. dolente. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. desnudas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. addio! 84 . E à noute quando rezam na clausura. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Repercute. Ai! não. Subindo pelo Azul da Inspiração.Addio. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. úmidas arcadas. E as mesmas portas impassíveis. addio. Que guardam pér’las de funéreas rosas. mavioso. Eleonora. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. não acordeis. . mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. Que guardam cinzas de ilusões passadas. pouco a pouco. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas.

Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso .a veste desgrenhada. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Chora. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada.Arca cerúlea de ilusões etéreas. gargalha. Vai morta em vida assim pelo caminho. . Moça. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. a desgraçada estulta. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Arca sagrada de cerúleos sonhos. Na auréola azul dos dias teus risonhos. . para guardar a mágoa oculta. Primavera.coração saudoso. Eu sei a sua história. tão moça e já desventurada. o triste outono. soluça .O segredo d’um peito torturado E hoje. O cabelo revolto em desalinho. os teus fulgores. Da desdita ferida pelo espinho. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Canta. No sudário de mágoa sepultada. Num sepulcro de rosas e de flores.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. porém.

avança! E eu. O berço onde as venturas se embalaram. Sonâmbulo da dor angustiado. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. Sirva-te a crença de fanal bendito. Também espero o fim do meu tormento. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Senhora.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. ergue o teu grito. não busques saber por que. Também como ela não sucumbe a Crença. 86 . EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Muita gente infeliz assim não pensa. delirante e vário. portanto. Salve-te a glória no futuro . risonha. que vivo atrelado ao desalento. É minha sina perenal. tristonha . túm’lo do prazer finado. Foi outrora do riso abençoado. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. ela não cansa. eu trajo o luto do passado. Mas não queiras saber nunca. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. Voltam sonhos nas asas da Esperança. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. No entanto o mundo é uma ilusão completa.

santíssima. porém. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Chora . Sombra perdida lá do meu Passado. Quem me dera morrer então risonho. Mas volta logo um negro desconforto. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . sublime na Descrença. Quando o rosário de seu pranto rola. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Tenta às vezes. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Bela na Dor. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola.

. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. mimosa. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Branca. e. Essa sublime adoração do crente. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Na altura Imensa.. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Estende o teu olhar à Natureza. a seu lado Medita. nevada. crê em Deus. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. ama. pois. púbere. a fronte triste. Dorme talvez. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Enquanto o amante pálido. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. As níveas pomas do candor da rosa.

o meu Passado. A alma saudosa pelo amor vibrada. Vai Corina mendiga e esfarrapada. . Tem pena dessas cinzas que ficaram. porém.A Stella Matutina da Desgraça! 89 .Quero abraçar o meu passado morto. . ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. Dos romeiros saudosos da desgraça. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. além. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. E na choça a lamúria que traspassa O coração.TEMPOS IDOS Não enterres. A procissão dos tristes. A romaria eterna dos aflitos. coveiro. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. lânguida e bela. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . Entre todos. dos proscritos. Eu vivo dessas crenças que passaram.

E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. apenas restam mágoas. Auroreando a humana consciência. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. adeus! E. se eleva em busca do infinito. ADEUS! E. Vencendo o azul que ante si s’erguera. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Hermeto Lima Adeus. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Fitando o abismo sepulcral dos mares. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. Voa. Sulcando o espaço. É como um despertar de estranho mito. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. devassando a terra. Cheia da luz do cintilar de um astro. Saí deixando morta a minha amada. Perto. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! .eu disse. suspirando. 90 .ADEUS. ADEUS. adeus.

Se eu sou o orvalho eterno que te chora. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. Lá onde nunca chegue esta saudade. triste. onde não pousa a desventura. com ela Negras sombras também foram chegando.A sombra deste afeto estiolado.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. E eu disse .Vai-te. Disse. Estrela esmaecida do Martírio. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Viu o adeus que do Céu ela enviava. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Envolto da tristeza no delírio. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. . Minh’alma que de longe a acompanhava. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa.LIRIAL Por que choras assim. tristonho lírio. Mas a noute chegou. irmã pálida da Aurora.

perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. a fé perdida.o criminoso .Senhora. Vítima augusta de indelével falso.. Estendo à Dulce a mão. a minha bem amada. Morre-me a voz. A praça estava cheia. E na atitude do Crucificado. perdão.e estertorada A minha voz soluça num gemido. e eu gemo o último harpejo. E ela fita-me. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. o olhar enlanguescido. isento de pecado. o algoz . O olhar azul pregado n’amplidão.. Pedir a Dulce. A esmola dum carinho apetecido. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso.então. Puro de crime. dai-me u’a esmola . E dos lábios de Dulce cai um beijo. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. por entre a dolorosa estrada.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. Depois. E eu balbucio trêmula balada: . 92 . E todo o dia eu vou como um perdido De dor.

ave negra da Desgraça. onde d’água raso O olhar não trago.crença Perdida . assassino.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora.segue a trilha que te traça O Destino. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. obumbra-me em teu seio. Lá.. Num desespero rábido.. E as trevas moram. e. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. Há perfumes d’amor . acolhe-me N’asa da Morte redentora. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata.. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . Gênio das trevas lúgubres. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. acolhe-me. Empenhada na sanha dos abutres. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora.

NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Os nimbos das procelas desta vida. O MAR O mar é triste como um cemitério. Quando vos vejo. Que o céu reflete. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Mas quando o céu é límpido. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. e a alma é a Flâmula do sonho. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. sem nenhuma Nuvem sequer. só descanta. então. num mar de esp’rança. Reflete a luz do sol que já não arde. Banhando a fria solidão das fragas. dentre a escura Treva do oceano. a vida é qual risonho Batel. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Treme na treva a púrpura da tarde. sem bruma Que a transparência tolde. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Abismados na bruma enegrecida. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 .

Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. lá nos espaços. oh! Minha Mágoa. FOGE! Aurora morta. Ascende à Claridade..o Sol que as almas doura! Fugiu. num Pálio auroral de Luz deslumbradora.. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. E eu ergo preces que ninguém responde. foge . longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Agora. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . Triste criança virginal. Cantarias do amor a primavera. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. e em si a Luz consoladora Do amor . Dia do meu Passado! Irrompe.. agita as tuas asas.1902 AURORA MORTA. Aurora morta.. Adeus oh! Dia escuro. Hoje é trevas. Nem vibra a corda que a saudade esconde.) Nessas paragens desoladas. Anseios d’alma aqui se perdem.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. O grande Sol de afeto . Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . é dor.1902 95 . é desengano.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. quem dera Voar est’alma a ti. meu Futuro. o meu único Norte.

ao luar. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Ah! num delíquio de ventura louca. Chora a corrente múrmura.Cítara suave dos apaixonados. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . as flores também choram Num chuveiro de pétalas. à dolente Unção da noute. entretanto. e. Sonorizando os sonhos já passados. chorando enfloram.NO CAMPO Tarde. Bendito o riso assim que se desata . as águas límpidas alvejam Com cristais.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. E há. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. nitente... Branca. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. despertando sonhos. Quando. No alto. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. Pendem e caem . os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta.a Louca tenebrosa. emergindo às trevas que a negrejam. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados.1902 96 . no teu riso de anjos encantados.

97 . que a virgem chora. é como os prantos Níveos.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. noctâmbulo da Dor e da Saudade. se duas eu tivera. Eu. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. eterna noctâmbula do Amor. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. Se evolarn castos. toda a cálida Mística essência desse alampadário. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. virginais aromas De essência estranha. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Pau d'Arco -1902. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. sacrossantos. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Derramam a urna dum perfume vário. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. Também envolta num sudário — a Dor. P'ra desvendar os seus segredos santos. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. Flor dos mistérios d'alma. E a lua é como um pálido sacrário. Ah! como a branca e merencórea lua.

bandolim do Fado. Choras. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. Tanto que gemes.. vindo de profundas fráguas. pompeia a luz da branca aurora.Quero Correr em busca do Futuro. Tanto que cantas. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas.Quero partir em busca do Passado.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. . Teu canto. E vais aos poucos soluçando mágoas. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. Que desespero insano me apavora! Aqui. Ali. e ilusões acordas. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . soluças. chora um ocaso sepultado.. sonhar novas idades. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. a lua é triste e calma. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Um dia morto da Ilusão às bordas. Quando alta noute. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas.

Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. também ria! 99 .Foge. NA ETÉREA LIMPIDEZ. Meiga. agora. grave e lenta. à voz de Lúcia. O céu tremia em seu trevoso flanco. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . E eu vi os seios teus virem inconhos .Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. mas eis que neste enleio. Na etérea limpidez de um sonho branco. Quiseste-me beijar a ara do peito. O sol. tu vinhas a cindir os ares.ARA MALDITA Como um'ave. Caíste morta ao celestial preceito. e como Lúcia. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. Tocando n'ara negra o níveo seio. qual hóstia. E beijei-te.. E eu quis beijar-te o lábio redolente. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente.. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. alegre e rubro. Fulgia a bruma para sempre. caindo dos altares. cindindo os céus risonhos. E.

eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . e. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. o Mundo se concentre. Que beija a terra e que abençoa os campos. E em mim como no Templo.ei-lo que avisto. luminosa. E a lua. Que. eis que emerges. urnas de Sonho. a rasgar o lúrido sacrário. Mas. em banho ideal de amor te inundas. Agora. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. Diluis teu peito em sensações profundas. ante o branco estendal das madrugadas.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. o túmulo da Crença. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . Nua. a Virgem Mãe dos céus escampos. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. e. Sentes o peito em ânsias revoltadas. E. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . E a rasgar. Longe das sombras aurorais e amadas.o círio Da Quimera Falaz.A colunata êxul do Sonho Morto . ao ver-te nua. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. Flores mortas da Aurora. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. em bando.

A PESTE Filha da raiva de Jeová . ... ela.O sol a segue. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. Etéreo como as Wilis vaporosas. entre esplendores. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. como o sol . 101 . enquanto Vai devastando o coração das casas. Quero-te assim . santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. Embaladas no albor da adolescência. Colmado o seio de virentes flores. Como o Cristo sagrado dos altares. A alma diluída em eterais cismares.. tudo! Quando Ela passa. formosa entre as formosas.É o castigo de Deus que passa mudo! .e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. formosa. Plena de graça. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.Fúlgido foco de escaldantes brasas ..o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. e a Peste ri-se.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. tudo chora. semeando a Morte..

Eu venho arrependido. pátria da Aurora exilada do Sonho! .Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste.. E para mim. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. pois. ah! ninguém me responde... Como o santo levita dos Martírios. perdoa o teu vencido.. assim. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. insânia.. Açucena de Deus. o meu Sonho morreu! Perdão. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu.. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios .. meu anjo. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 ... insânia. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. penseroso e pasmo.Irei agora. a teus pés.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. Chegou a Noite. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. eis-me a teus pés.. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. pelo mundo. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. .CÍTARA MÍSTICA Cantas.

e. supremos..Amor que é mirra e que é sagrado nardo.. Por um Cocito ardente e luxurioso. Em ânsia de repouso. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. no Inferno do Gozo. que da Desgraça veio Maldito seja. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Banhou-me o peito.. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. .AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . Mas.. Turificando a languidez dum seio! O amor. Onde nunca gemeu o humano passo. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. Da Messalina fria no regaço. sem Calvário. porém.

E estavas morta. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua.... a sós. lá dos braços hercúleos.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais.. Sombra de gelo que me apaga a febre. eu que te almejo. estes dardos acúleos Caíam... mulher. e a saudade da infância. E vi-te triste. a noute é tumbal.. Ah! que um dia da Vida. .Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo.. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. .. eu vi. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. Como um'alma de mãe.. desvalida e nua! E o olhar perdi. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti.E tu velas. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância.SOMBRA IMORTAL . também da Dor. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora...

Alvorejando em arrebol de prata. inata! E. E um canto vai morrer no vale fundo.. virginal. tu.. entanto. ajoelhando à imagem do Carinho. Alva d'aurora. no negror me abrasa. Branca bem como empalecido arminho. Choras. Bendita a Santa do Carinho..) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol .. o seio branco. Uma pantera foi se ajoelhando.. Somente tristes os teus olhos vejo. e no Santo harpejo.. e. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. e é noute de fatais abrolhos. chegando. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . profundo?! Rumores santos.. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. Chegaste. te acolheu a mata..NOTURNO (PARA O VALE NOITAL.. Que luz é esta que das brumas vasa. O roble altivo entreteceu4e um ninho.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Pérolas e ouro pela serrania. Que canto é este. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz.

E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Fria como um crepúsculo da Judéia. Já Vésper. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. 106 . Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. mórbidos encantos.. e lânguida. Triste como um soluço de Dalila. no Alto. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros.PELO MUNDO Ânsias que pungem. Qual rosa branca que ao tufão vacila.. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas.. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma..

No ar. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . Silfos morriam. querida! Já é Ave-Maria . Na Via-Látea fria do Nirvana.o voltairesco clown .O RISO "Ri. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. clown da Sorte .. os gaturamos Num recesso de névoa. sonolento e tardo.Eterno fogo..A hora dos tristes e dos descontentes.Ele. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos.. e a todo o seu assédio. QUERIDA! Vamos. que ao frio alvor da Mágoa Humana. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso .. Riso.Fogo sagrado nos festins da Morte . coração. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .quem mede-o?! . Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. adormecida. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

108

PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

109

A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

110

SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

111

O dia Foge... NOTURNO (CHOVE. Vibra. Saio de casa. Desencadeados. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. Negro. De encontro ás torres e de encontro aos muros. violentos. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. LÁ FORA. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível.) Chove. batendo em todas as retinas.. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. Os ventos.. mas meus movimentos Susto. Os passos mal seguros Trêmulo movo. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. E em meio ás refrações verdes e hialinas. vão bater. Surge agora a Lua.. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 .. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. diante do vulto dos conventos. A incandescência irial dos candelabros.

inverno! 113 . os sapos Encontrem nele pábulo eviterno.. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. poetas. Que há muito tempo não cantava lá.... . E hoje.. Primavera. Diluiu o silêncio em litanias. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.. enquanto o Tédio a carne me trabalha.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu.. outono. Já que perdi a última batalha! E.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. os vermes vis. verão.

O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. onde.pássaros da Noute! 114 . inda altiva. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber... enxuta A face. . Carpem na sombra pássaros ascetas. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. Pare chorando nesta Terra Santa. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. Gemem poetas . enxuto o olhar. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. ela. Ela. ao noturno açoute. e quando passa. abraçado às campas dos poetas. Aqui é o Campo-Santo.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. e o travo há de sentir. E se cantar como a Saudade canta.A DOR Chama-se a Dor.

a crença e o amor. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. eu penso na Ventura! E o pensamento. A CRENÇA E O AMOR O sonho. surjam tédios na Descrença. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. nada há que o abata e o vença! Por isso. poeta. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. o sonho. na Suprema Altura Sinto.O SONHO. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. Luta. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . e morrem os vermes que o consomem. Vence. assomem Descrenças. e por fim.

estudares. pois. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. e. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade.. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. De que te serviu. auríferos tesouros.. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . por fim. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. para penetrar o mistério das lousas. por fim. profundo. Feito no decurso de dois minutos...Construíste de ilusões um mundo diferente. nada achaste. Tesouros reais. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade.. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações.PARA QUEM TEM NA VIDA.. Foi-te mister sondar a substância das cousas ...

. .. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. em ânsias. ela subiu. dois gigantes mudos. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. no entanto. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto. São dois colossos..ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 .as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. ..santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda.O NEGRO Oh! Negro.. Embora oculta.

Quer fugir. O Sol ardia. como eu. Quantos também. e não vê por onde fuja.. Nisto.Se ao menos voasse! . foram buscar a Glória E que. ela seria morta. Saiu. ira-o morrer também.. Mas eu não contarei nunca a ninguém.Era o suplício!. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. Implora a Deus como a um fetiche vago.Novo Sileno.. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta...O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. Trás de mim. ver Se nesta ânsia suprema de beber.. Buscava Em verdes nuanças de miragens. como eu. . A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. quantos também deixei. ouve o canto aziago da coruja! .E o horror começa! Rasga As vestes.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . Daí a pouco.. .. na atra estrada que trilhei.

ele a morrer...Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. Assim como uma casa abandonada.. diz ao povo: "É pena! .." Pau d'Arco -1905 119 .. E afora disto. pressentindo a lousa. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho.Foi saudade? Foi dor? .. Olha essa neve pura! .. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste. Mas. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina.SENECTUDE PRECOCE Envelheci. a alma serena.Continua a cantar. vivia. Sei que na infância nunca tive auroras..Aqui ainda havia alguma cousa. Por isso.. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes.. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. Não há quem nele um só tremor denote! . de repente.

. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 ... diz que ele é vivo. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. Não mentes. em Tebas .. E. E eu me elevava. .Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. inda com o braço altivo. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i.. persuadido fica do que diz. Da tribo alegre que povoa os ares. Diz que ele não morreu.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado.. A múmia de um herói do tempo de Ísis. Para onde eu ia. Dizes Tudo que sentes. o vulto ia a meu lado E desde então. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares.. Bem como tu.a tumbal cidade.. não andei mais sozinho! Abraçou-me.

apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. de saudades me despedaçando De novo.O tamarindo reverdeça ainda. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. amigos. Existo! . assim. Nada se altere em sua marcha infinda . Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. assombrado. assim como o de Jesus Cristo. E. Por toda a parte.. onde. antes de viver! Meu corpo.. A percorrer desertos e desertos.E apesar disto. triste e sem cantar. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. à tarde. morrer. ia. aos tropeços. pois.. com medo do Infinito. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos.. quando Eu.. Saiu aos tombos.. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. como um cão covarde. A lua continue sempre a nascer! 121 . Teve sede e fome. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo.

Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.. .. água e albumina.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 . Ah! Basta isto.O farmacêutico me obtemperou.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina.A LÁGRIMA . porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .

Pólipo de recônditas reentrâncias. Amo o esterco.O metafisicismo de Abidarma -E trago.. procedo Da escuridão do cósmico segredo. possuo uma arma -. 123 . Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Como um dorso de azêmola passiva. ampla. simultâneas.. À luz do americano plenilúnio.. sem dispêndio algum de vírus. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social..OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Larva de caos telúrico. Não conheço o acidente da Senectus -. E é de mim que decorrem. sem bramânicas tesouras.Esta universitária sanguessuga Que produz.. vibra A alma dos movimentos rotatórios. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. A podridão me serve de Evangelho.. Do cosmopolitismo das moneras. Amarguradamente se me antolha. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. Em minha ignota mônada.

abdômen. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. magnetismo misterioso. causa ubíqua de gozo. o Homem. E apenas encontrou na idéia gasta. 124 . Como quem se submete a uma charqueada. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. iguais a fogos passageiros. Raio X. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. -. a coçar chagas plebéias. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. O coração. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. O horror dessa mecânica nefasta. Que. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. quebrando estéreis normas. já nos últimos momentos. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. A vida fenomênica das Formas. Aí vem sujo. amanhã.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. em síntese. luzem. Fonte de repulsões e de prazeres. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Sonoridade potencial dos seres. Com a cara hirta. Quimiotaxia. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. bestas agrestes. Ao clarão tropical da luz danada. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. ondulação aérea. a boca.

No horror de sua anômala nevrose.. E até os membros da família engulham. Toda a sensualidade da simbiose. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. Sentindo o odor das carnações abstêmias. E explode. em lúbricos arroubos. Brancas bacantes bêbadas o beijam. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. brincam. No sombrio bazer domeretrício. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. pelos cenóbios?!. 125 . E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo.. Negra paixão congênita. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. consumir-se. Como no babilônico sansara . À guisa de um faquir. ébrio de vício.. Num suicídio graduado. bastarda..A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come... em suas clélulas vilíssimas. igual à luz que o ar acomete. vai gozar. Uivando. Suas artérias hírcicas latejam. fazendo um s. E à noite.. Como que. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. o monstro as vítimas aguarda. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. à noite. Sôfrego. E após tantas vigílias. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Do seu zooplasma ofídico resulta. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece.. Numa glutonaria hedionda.

Somente a Arte. Essa necessidade de horroroso. quando a noite avança. Que tateando nas tênebras. E de su’alma na caverna escura. Mostrando. bêbedo de sono.. Quando o prazer barbaramente a ataca. Abranda as rochas rígidas.. Reconhecendo. esculpindo a humana mágoa. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. Acorda.Macbeths da patológica vigília. Hirto. em rembrandtescas telas várias. Mas muitas vezes. observa a ciência crua.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta... E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Numa coreografia de danados. com os candeeiros apagados. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Sente que megatérios o estrangulam. A asa negra das moscas o horroriza. As alucinações tácteis pululam. A família alarmada dos remorsos. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . se estende Dentro da noite má. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. Assim também. Na própria ânsia dionísica do gozo.

Da luz da lua aos pálidos venábulos. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética.E reduz. -. entanto.. sem que.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. Julgava ouvir monótonas corujas. À condição de uma planície alegre. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. Continua o martírio das criaturas: -. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. Executando. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. em suas bases.O homicídio nas vielas mais escuras. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Há-de ferir-me as auditivas portas.. E. a desintegre. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Era a canção da Natureza exausta. entre daveiras sujas. -. Na produção do sangue humano imenso. Prostituído talvez. até que minha efêmera cabeça. ouvindo estes vocábulos.

Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. no apogeu da fúria. O céu claro e produndo Fulgura. A rua é triste. Apenas como um velho stradivário.. das pirâmides o quedo E atro perfil. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. na mais próxima planície. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Tonto do vinho.... exposto ao luar. Vaga no espaço um silfo solitário. Convulso e roto. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. O Cairo é de uma formosura arcaica. discutindo. Os mastins negros vão ladrando à lua. conversando. um saltimbanco da Ásia. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Dorme soturna a natureza sábia. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. Embaixo.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. Num quiosque em festa alegre turba grita.. A Lua cheia Está sinistra. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -.. Resplandece a celeste superfície.

Uivava dentro do eu . a irritar-me os globos oculares. O trabalho genésico dos sexos.. O calçamento Sáxeo.. com a boca aberta. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Profundamente lúbrica e revolta. parodiando saraus cínicos. Mostrando as carnes. então. de asfalto rijo. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Pensava no Destino. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. E a minha sombra enorme enchia a ponte. indo em direção à casa do Agra. Eu. Atravessando uma estação deserta.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Ponte Buarque de Macedo. Eu vi. Dançavam. Livres de microscópios e escalpelos. Mas. Assombrado com a minha sombra magra. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Apregoando e alardeando a cor nojenta. 129 . Fazendo à noite os homens do Futuro. Copiava a polidez de um crânio alvo. na alma da cidade. E aprofundando o raciocínio obscuro. atro e vidrento. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. Lembro-me bem. à luz de áureos reflexos. A ponte era comprida.

ainda na placenta. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. na ígnea crosta do Cruzeiro. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. 130 . É bem possível que eu umdia cegue. E. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. pelo menos.Fetos magros. Ninguém compreendia o meu soluço. No ardor desta letal tórrida zona. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. Deus me castigava! Por toda a parte. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Ah! Com certeza. como um réu confesso.

Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Ia engolindo. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. três. ansiado e contrafeito. Sob a forma de mínimas camândulas. estranha. de tal arte. cujas caudais meus beiços regam. Que. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. cinco. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Na ascensão barométrica da calma. aos poucos. Não! Não era o meu cuspo. quatro. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. em minha boca. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Eu bem sabia. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Arrebatada pelos aneurismas. para não cuspir por toda a parte. Que eu.E até ao fim. 131 . à guisa de ácido resíduo. quotidianamente. Benditas sejam todas essas glândulas.

meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. E o luar. os duendes. Com a força visualística do lince. Ninguém. o In e os trasgos. Imitando o barulho dos engasgos. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Um sugestionador olho. maior talvez que Vinci. para hipnotizar-me! Em tudo. Siva e Arimã. a espiar-me. com as brancas tíbias tortas. Livres do acre fedor das carnes mortas. Vai pela escuridão pensando crimes. sem pudicícia. Buscando uma taverna que os açoite. a rir. Rodopiavam. A companhia dos ladrões da noite. de certo. então. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Perpetravam-se os atos mais funestos. estava ali. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. Davam pancadas no adro das igrejas.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. Mas um lampião. lembrava ante o meu rosto. Nessa hora de monólogos sublimes. ali posto De propósito. A camisa vermelha dos incestos. À anatomia mínima da caspa. da cor de um doente de icterícia. Iluminava. Embriões de mundos que não progrediram! 132 .

Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. 133 . Todos os personagens da tragédia. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. distingo-a. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. em que. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. A pedra dura. Como bolhas febris de água. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. e vence-O. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. E a palavra embrulhar-se na laringe. E o meu sonho crescia nosilâncio. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Cansados de viver na paz de Buda.

aflita. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. a sós. 134 . No meu temperamento de covarde! Mas. Os bêbedos alvares que me olhavam. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. E apesar de já não ser assim tão tarde. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. na glória da concupiscência. Fabricavam destarte os bastodermas.A planta que a canícula ígnea torra. Como um bicho inferior. berrava. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. Iam depois dormir nos lupanares Onde. Aquela humanidade parasita. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. na dor forte do vômito. igual a um amniota subterrâneo. sobre o meu caso Vi que. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . Um conjunto de gosmas amarelas. refletindo.

numa ânsia rara. o eco particular do meu Destino. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. ponto final da última cena. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. pior que o remorso do assassino. Numa impressionadora voz interna.Prostituição ou outro qualquer nome. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. a morte é ingrata.e.. 135 .. Rolam sem eficácia os amuletos. nas catedrais mais ricas. Fazer da parte abstrada do Universo. tal qual. por tua causa. embora o homem te aceite. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Forma difusa da matéria embele. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. como um cordão. Nessas perquisições que não têm pausa. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. Reboou. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. em tudo imerso. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. Ao pensar nas pessoas que perdera. Minha filosofia te repele. num fundo de caverna.

saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. sondas A estéril terra. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. e a hialina lâmpada oca. com a bronca enxada árdega. por vezes. não como és. antes Fosses. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. o cordeiro simbólico da Páscoa. espirra. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. E se. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga.Jamais. fora Mister que. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. A formação molecular da mirra. magro homem. Mesmo ainda assim. a refletir teus semelhantes. estriada. 136 . se divide. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. Trazes. em síntese. para que a Dor perscrutes.

O fogão apagado de uma casa. A cristalização da massa térrea.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. As projeções flamívomas que ofuscam. O antagonismo de Tífon e Osíris. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. Deixa os homens deitados. Que ainda degrada os povos hotentotes. a fera ultriz que o fojo Entra. sem mortalha. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. As pálpebras inchadas na vigília. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. à espera que a mansa vítima o entre. As aves moças que perderam a asa. A mentira meteórica do arco-íris. Na sangueira concreta dos massacres. O Amor e a Fome. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. -. Lembram paióis de pólvora explodindo. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. abalando os solos. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. as nódoas mais espessas. 137 . Como uma pincelada rembrandtesca. O tecido da roupa que se gasta. Onde morreu o chefe da família. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. Os terremotos que. O achatamento ignóbil das cabeças.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

138

O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

139

Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

140

A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

141

OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

142

branda e beatífica. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. Em cuja álgida unção. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. em quaisquer horas. olhando os campos Circunjacentes. sobre as hortas. satisfeito. como as ervas. 143 . com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. a amêndoa. A Paraíba indígena se lava! A manga. Criando as superstições de minha terra. Além jazia os pés da serra. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. Meu ser estacionava. o urro Reboava. No Alto. a ameixa. Benigna água.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. a abóbora. Apenas eu compreendo. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. magnânima e magnífica. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. de errante rio. alto e hórrido.

Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. Adivinhando o frio que há nas lousas. Alucinado. como inúmeros soldados. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. os micróbios assanhados Passearem. OH! desespero das pessoas tísicas. Vômitos impregnados de ptialina. a existência Numa bacia autômata de barro. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. dores não recebem. Cortanto as raízes do último vocábulo. Estas não cospem sangue. 144 . Restos repugnantíssimos de bílis. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. aos bocados. Um português cansado e incompreensível. O ruído de uma tosse hereditária. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. Reboando pelos séculos vindouros. entre estrépitos e estouros.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles.

urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. em sonhos mórbidos. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. É a alfândega. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Saía. resfriando-vos o rosto. Onde a Resignação os braços cruza. no Amazonas. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Nos ardores danados da febre hética. hoje. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. me acorda. naquele instante. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. A mágoa gaguejada de um cretino. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Pelas algentes Ruas.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. magras mulheres. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. 145 . Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. com o vexame de uma fusa. com efeito. a água. Consoante a minha concepção vesânica.

. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. A civilização entrou na taba Em que ele estava. acordando na desgraça.Fedia. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. caladas. Jazem. Na tumba de Iracema!. 146 . Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. Viu toda a podridão de sua raça. adstrito à étnica escória. entregue a vísceras glutonas. A carcaça esquecida de um selvagem. Ah! Tudo. sem difíceis nuanças dúbias. diante a xantocróide raça loura. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. por fim. Com uma clarividência aterradora.. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. De repente. Recebeu. tendo o horror no rosto impresso.. todas as inúbias. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. como um lúgubre ciclone. E agora.. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. Desterrado na sua própria terra. espantada. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo .

Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. ex. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. com voz estentorosa. E eu.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. Todos os vocativos dos blasfemos. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua.: o homem e o ofídio. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. rolando sobre o lixo. Maldiziam. 147 . roído pelos medos. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. A peçonha inicial de onde nascemos. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. No horror daquela noite monstruosa.

Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Eu voltarei. em suma. na terráquea superfície. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . 148 . com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. Tentava. Sem diferenciação de espécie alguma. porém. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Consubstanciar-me todo com a imundície. por epigênese. Anelava ficar um dia. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. como Cristo. Reduzido à plastídula homogênea. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã.E. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. o anelo instável De. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. como um homem doido que se enforca. cansado. às vezes. perante a cova.

entre oscilantes chamas. derreada de cansaço. ignóbil. virgem fostes. e. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. Uma. De certo. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. até que. Nem tínheis. As prostitutas. vítima última da insânia. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. agora. com violência. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre.. 149 . Quase que escangalhada pelo vício. Estendestes ao mundo. alva... Se extenuavam nas camas.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia.. análoga era. Acordavam os bairros da luxúria. à-toa. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. para além. embalde.. a saraiva Caindo. no horizonte. Mas.. doentes de hematúria. e as mãos. quando o éreis.

De vós o mundo é farto. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. que a sociedade vos enxota. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. Como uma associação de monopólio. E hoje. Eu pensava nas coisas que perecem. porém. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. argots e aljâmias. eu. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. no chão frio da igreja. A racionalidade dessa mosca. Como quem nada encontra que o perturbe. E estais velha! -. 150 . A consciência terrível desse inseto! Regougando. na craniana caixa tosca. Sentia. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. inquieto. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras.

Absorvia com gáudio absinto. Sem ter. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. E o cemitério.A estática fatal das paixões cegas. roubada à humana coorte Morre de fome. Vem para aqui. Quanta gente. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. em que eu entrei adrede. nos braços de um canalha 151 . Dá-me a impressão de um boulevard que fede. assim inchado. após baixar ao caos budista. escorraçando a festa.Aquilo era uma negra eucaristia. de repente. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. como Ugolino. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. Pela degradação dos que o povoam. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. Mas. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. À falta idiossincrásica de escrúpulo. palpável. estriges voam. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Apareceu. nesta hora. sobre a palha espessa. O ar ambiente cheirava a ácido acético. com o ar de quem empesta. O fácies do morfético assombrava! -. E a ébria turba que escaras sujas masca. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. Rugindo fundamente nos neurônios. Já podre.

à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. À sodomia indigna dos moscardos. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. a camisa suada.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. a alma aos arrancos. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. cheio de vermes. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Pisando. Vendo passar com as túnicas obscuras. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Na impaciência do estômago vazio. iguais a irmãs de caridade. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Comendo carne humana. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Todos os meus cabelos se arrepiaram. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Num prato de hospital. ao clarão de alguns archotes. como quem salta. entre fardos.

déspota e sem normas. No céu calamitoso de vingança Desagregava. trazendo-me ao sol claro. em vez de hiena ou lagarta. E eis-me a absorver a luz de fora. Dentro da filogênese moderna. Proporcionando-me o prazer inédito. Absorve. Como o íncola do pólo ártico. Uma sobrevivência de Sidarta. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda.Como indenização dos meus serviços. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Manhã. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. O benefício de uma cova fresca. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. após a noite de seis meses. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. De quem possui um sol dentro de casa. No frio matador das madrugadas. às vezes. Os raios caloríficos da aurora. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências.

oh! Morte. corre. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. A gestação daquele grande feto. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. O Espaço abstrato que não morre Cansara. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. numa furna..A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. entanto.. em colônias fluídas.. tudo a extenuar-se Estava. Eu sentia nascer-me n’alma. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. Acompanhava. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. em vão teu ódio exerces! Mas. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . com os pés atolados no Nirvana. a meu ver.. com um prazer secreto. Igual a um parto. O ar que. Vinha da original treva noturna. Hirto de espanto. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo.

.. bela como um brinco. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. É a hora De comer. como eu. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. amigo. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. Rodeado pelas moscas repugnantes. Apenas com uma diferença triste. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. têm carne. Coisa hedionda! Corro. Como! E pois que a Razão me não reprime.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago.. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. E agora. Ai! Como Os que. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta.. Antegozando a ensangüentada presa. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. não existes mais! 155 .

haurindo amplo deleite. Clara. que te esgotou as pomas. comparo.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. um novo Ser. Há de crescer. sem pretensões. No lábio róseo a grande teta farta -.. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. nas vitrinas.. Relembrarás chorando o que eu te disse. quanto a mim. à amostra. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. E o antigo leão. Assim. sujo de sangue.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. Do que essa pequenina sanguessuga. entre dores. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. oh! Mãe. O Sol virá das épocas sadias. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. a atmosfera se encherá de aromas. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos.

O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. com que guarda meus sapatos. também gira e redemoinham. Tenho estremecimentos indecisos E sinto.. Magro. nos fortes fulcros. numa ininterrupta Adesão.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. as tesouras Brônzeas. haurindo o tépido ar sereno.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. maior do que Laplace. Os pães -. roendo a substância córnea de unha. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 .. eu vivo pelos matos. Beber a acre e estagnada água do charco. Tais quais. não prendi minha existência?! Por que Jeová. mordendo glabros talos. Por causa disto.

Dorme num leito de feridas. Com a flexibilidade de um molusco. apalpa a úlcera cancerosa. cheio de chamusco.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Beija a peçonha. Úmido. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. no agudo grau da última crise. goza O lodo. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. E eu vou andando.

queime.. largando pêlos. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Eu. depois de tanta Tristeza. salta. pelo ar. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. Entrançados. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. corte. Os ventos vagabundos batem. No chão coleia a lagartixa. Com a rapidez duma semicolcheia. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. Nos terrenos baixos. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. depois de morrer.. fustigue... Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . Em grandes semicírculos aduncos. em vez do nome -. no árdego trabalho. bolem Nas árvores. quero. O ar cheira. A terra cheira.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda.Augusto . De árvore em árvore e de galho em galho. morda!... Ladra furiosa a tribo dos podengos. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos.

Amontoadas em grossos feixes rijos. Como pela avenida das Mappales. Viveu. Pintam caretas verdes nas taperas. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Como um anel enorme de aliança. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Une todas as coisas do Universo! 160 . O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Trôpega e antiga. outrora. batendo a cauda. em vez de flores. como exóticos pintores. Na bruta dispersão de vítreos cacos. As lagartixas. dos esconderijos.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Nédios. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Por saibros e por cem côncavos vales. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. O aziago ar morto a morte Fede. sem conchego nobre. À dura luz do sol resplandecente. Quantas flores! Agora. Os musgos. Urram os bois. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Aqui.

Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares.. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite.E assim pensando. aqui. A lamparina quando falta o azeite Morre. como quem raspa a sarna. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. De pé.. Só. arrebentando a horrenda calma.. é o óbolo obscuro. da mesma forma que o homem morre. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. Julgo ver este Espírito sublime.. À carbonização dos próprios ossos! 161 . Súbito. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. sem pai que me ame. com a misericórdia de um tijolo!. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime.. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. Que por vezes me absorve. Grito.. à luz da consciência infame.

a âmbulas moles. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. a arquivar credos desfeitos. Com as mãos chagadas. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. espremendo os peitos. 162 . excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. ébria e lasciva. Reduzidos. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. recebe. hirta.. funcionária dos instintos. alta noite. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. à luz do olhar protervo. Sente.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. à lua. em coréas doudas. em contorções sombrias. como o estepe. E a mulher. Bramando. urna de ovos mortos. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. de cabelos ruivos. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta.. Ouvem-se os brados Da danação carnal. Espicaça-a a ignomínia. aliando. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. O Vício estruge. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Entre farraparias e esplendores. por fim. hórridos uivos Na mesma esteira pública. Lúbrica. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. através os meus sentidos.

de bruços. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. Ei-la. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente.. E a Carne que. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. E a dor profunda da incapacidade Que. já morta essencialmente.. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. Fulgia. filha do inferno. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. Na óptica abreviatura de um reflexo.... Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 .. É o hino Da matéria incapaz. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos.Chão de onde unia só planta não rebenta. em cada humana nebulosa.. Mais que a vaga incoercível na água oceânea..

adultos. Na homofagia hedionda que o consome. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. Libertos da ancestral modorra calma.. Como o . Mas que. Pudera progredir... do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. Saem da infância embrionária e erguem-se. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 ... adstrito a inferior plasma inconsútil. e a estraga Na delinqüência . Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. como aborto inútil. ânsia De perfeição. Numa cenografia de diorama.. radiando. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.O atavismo das raças sibaritas.. momentaneamente luz fecunda. talvez. rubros. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. decerto. sonhos de culminância.. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas.. impune.... Ficou rolando.. Irradiava-se-lhe.. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Que. hírcica.

.............. ......... ......... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos.................. 165 .............................................................. .. ......................... ..................................... oca.... condenada.... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia.............................................................. Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E.................................................................................................Sugando a seiva da árvore a que se une! ................. Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto.............................................................. ....................................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto............................ .................................................................................................................... ao trágico ditame................. ................................................................................................ ............ .............

Cuida. entretanto. eu que idolatro o estudo. Descasco-a. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. amo Mas certo. Integralmente desfibrado e mole. o ponto outro de vista Consoante o qual. conheço o seu conteúdo. E hoje que. Imponderabilíssima e impalpável. É assim como o ar que a gente pega e cuida. Oposto ideal ao meu ideal conservas. consoante o qual. A toda a boca que o não prova engana. Quis saber que era o amor. por experiência. atenta a orelha cauta. Diverso é. tal como eu o estou amando. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . É Espírito. enfim. Como Mársias -. o egoísta amor este é que acinte Amas. pois. provo-a. este o amor não é que. Para que..o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. ilusão treda! O amor. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. do egoísta Modo de ver. é substância fluida.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. Porque o amor. oposto a mim. é éter. é como a cana azeda. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante.. em ânsias. o observas. enfim. observo o amor. chupo-a. poeta. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. Pudera eu ter.

. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. que devia. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. Como Vulcano. Entendi. Sem ter uma alma só que me idolatre. 167 . os monstros zombeteiros.A maldade do mundo é muito grande. E só. no quadrilátero da alcova. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. Que importa que..A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. opresso. Trabalharei assim dias inteiros. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. olhando o céu que além se expande: ". trabalhar contente... em ânsias. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. a tumbal janela E diz.. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. trágico e maldito. contra ele... abre. depois disso. com o seu grande grito.

Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". sacudindo-o todo. Batem-lhe os nervos. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. Sobre a cidade geme a chuva. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 .

sob os pés do orgulho humano. íntegra. banhava minhas tíbias. Como um cara. Que forma a coerência do ser vivo. num canto de carro. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. por ver-vos.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. O reino mineral americano Dormia. alto. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. 169 .ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. A essa hora. lhe entregue.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. Cortanto o melanismo da epiderme. Rua Direita. Recebiam os cuspos do desprezo. E a cimalha minúscula das ervas. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. e erguia. e absorve em cada viagem Minh’alma -. E não haver quem. oh! céu.Dizia.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. nas telúrias reservas. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. Com os ligamentos glóticos precisos. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. recebendo injúrias.

Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. Com a abundância de um geyser deletério. me pediam. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. em diástoles de guerra. Pela alta frieza intrínseca. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . Onde minhas moléculas sofriam. Pareciam talvez meu epitáfio. úmida e fresca. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. Mais tristes que as elegais de Propércio.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. o ancilóstomo. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. O vibrião. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. com a símplice sarcode. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. com o ar horrível. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio.

Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. a viúva.. . dentro. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. o passo constrangendo. Mochos vagavam como sentinelas. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. nos altares esboroados. Uma vez. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. Feras rompiam tolos e balseiros. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas.. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. funeral mesquita. e o olhar errante. Eternamente aberta ao sol e à chuva. A Lua encheu o espaço sem limites E. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Parou em frente da mesquita morta. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Súbito alguém. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Era uma viúva. E pelas catacumbas desprezadas. Em passo lento. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta.Um vento frio começou gemendo. ampla e brilhante. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. foi transpondo a porta.

Além. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. arremetendo. Fora. infernais ardendo Todas as feras. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. entanto. E sobre o corpo da viúva exangue. Como uma exposição de carnes vivas. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. E raivosas. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. entretanto. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . contra ela. Morria a noite.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras.

Na ilha encantada de Cipango tombo... Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. pela vez primeira. A saudade interior que há no meu peito... no meio. Atravessando os ares bruscamente. em luz perpétua.. Qual num sonho arrebatado fosse. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. Verde..A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. quem diante duma cordilheira. Rica. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. 173 . Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. Pára. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. trêmulo. entre assombros. Da qual. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. tenho alucinações de toda a sorte. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. em plena podridão. brilha A árvore da perpétua maravilha. afetando a forma de um losango. ao sol. ostentando amplo floral risonho. num enleio doce.... partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Assim. exata.. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango.

.... A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. A tarde morre. Gozei numa hora séculos de afagos. Banhei-me na água de risonhos lagos.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 .. Passa o seu enterro!. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa... O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe.. E finalmente me cobri de flores. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.

a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco.. Espelham-se os esplendores Do céu. de cima. outro se ergue e sonha. Quem as esconda. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados..globo de louça Surgiu. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. outro cai. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. as esconda. nas Águas. esse vai Para o túmulo que o cobre. em reflexos. Se um cai. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . em lúcido véu. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Vagueia um poeta num barco. A Lua . O Céu.BARCAROLA Cantam nautas. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. Vai uma onda.

. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 .. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre.. forte.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz.. "Viajeiro da Extrema-Unção. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. "Mas nunca mais. poeta da Morte!" . porém..Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas.

E ali do despotismo entre os escombros. oh! Redentora d'alma.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Não! que esse ideal puro. oh Pátria. Da liberdade ao toque alvissareiro. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. e. . Manchar não pode as aras da República. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Como um Tritão.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. esplendorosa. levando ao mundo inteiro. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. fazei que destes brilhos. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. A Liberdade assoma majestosa. Fulgente do valor da vossa glória. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Da República a nova sublimada. Caia do santuário lá da História. Essa luz etereal bendita e calma. Oh! Liberdade. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. risonho. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Vós. pois. A República rola-lhe nos ombros. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura.

E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. Na área em que estou. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. O amor reduz-nos a uniformes placas. Uma montanha que se desmorona.. ao matinal assomo. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. cantam óperas inteiras. Estremecendo em suas próprias bases. desvairado. Além.Mas hoje. Aves de várias cores e de várias Espécies. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia.. E. vendo o horror dos meus destroços. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo .ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. 178 . à luz das minhas frases. Passa um rebanho de carneiros dóceis. nas oliveiras.

. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. Da observação nos elevados montes Prefiro. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. Tal qual ela é. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 .Observo então a condição tristonha Da Humanidade. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. sinto um violento Rancor da Vida . heroicamente. demonstrando-a.. à nitidez real dos aspectos. à frente dele. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. ébria de fumo e de ópio. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. E quando a Dor me dói. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime.

Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Muito longe. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando.CANTO ÍNTIMO Meu amor. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Vem cá. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. erra. De lá. em sonhos erra. se duvidas. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. em sonhos. olha estas feridas. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. Passo longos dias. dos grandes espaços. Muito longe. Que o amor abriu no meu peito. a esmo.

agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. uma nuvem que corre. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . Frio que me assassina. Amor... agonia... prece que ainda Entre saudades rezo. e o sofrimento De minha mocidade... Caminha e vai. neve. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. num volutuoso assomo. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. Neve que me embala como um berço divino. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. amor e frio. ontem. triste. a sós. Agonia de amar. . Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Sem um domingo ao menos de repouso. agonia! . Fazer parar a máquina do instinto.. numa delícia infinda. agonia bendita! . e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. agonia.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Mas. vendo-a. experimento O mais profundo e abalador atrito. murmura: . quanto mais me desespero.. o louco. Delícia que ainda gozo.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. Numa prece de amor. abraça a sombra e. escuridão e eterna claridade. Neve da minha dor.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. oração.Diz e morre-lhe a voz.

Por seis horas seu braço empenhado na luta. A terra escalda: é um forno. lúgubre e só. Fez reboar pelo solo. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. e o trabalho . a superfície bruta. E em tudo que o rodeava.. oito vezes.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. mordendo a atra terra infecunda.. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. acende O pó.. Rasgando. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. E o Velho veio para o labor cotidiano. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. funéreo 182 .HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. foi aos poucos se arrastando. Triste. Mas o braço cansou! Trabalhou. do agro solo.. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí.

a toa. o acalenta..Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. tombando. pois! Somente morreria Se da Vida. avistando uma frondosa tília Julgou. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. e compreendendo tudo. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. o Velho caminhava.. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. bêbado de miragem.. e a sonhar.. Nem viu que era chegado o termo da viagem. Caminhava. era a turba trovadora Que assim cantava. a rugir-lhe aos pés. o precipício estava.. os filhos. Num instante viu tudo. a família! Não morreria. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor.o último esforço.. o peito arqueou-se. e o braço Pendeu exangue. a flux d'água.. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. E amplo. flutua! Ninguém o vê.. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. sozinho. onde arde e floresce a Crença. Quis fazer um esforço . ninguém o acalenta. ele pisasse os trilhos. avistar a Árvore da Esperança. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. o cansaço Empolgara-o. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. louco.

mudo. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa.. volaterizadas. Além. a Sombra . aos astrais desígnios. E a Noite emerge. sangrento O sol. Subindo á majestade do Infinito. mudo. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. Atros. rubro.ocaso nunca visto. fulvos..IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja.eis tudo! E no meu peito .Asas de corvo pelo coração. dourando as névoas dos espaços. Raios flamejam e fuzilam ígneos. Descem os nimbos. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme.. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . ígneo. . alvas. e. Na majestade dum condor bendito. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada.. E há no meu peito .. luminosas.condensada treva A sombra desce. pompeiam (triste maldição!) . mudo. Negras. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro..

III De novo. O leão. se erguer. assassino Ébrio de fogo. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo.o Sol . lodo. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra.. se. o tigre. em plena e fulva reverberação. a lesma. há-de Alva. se.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. ciclópico. em vão na luz do sol te inflamas. Vésper me encanta. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. como se esses raios N'alma caindo. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. A Mágoa ferve e estua. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. ontem moribundo. Ah! Como tu. 185 . o mastodonte. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Hoje de novo. Como Herculanum foi após as chamas. de que serve. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. Fantástico. e hás de ser após as chamas. Sírius me deslumbra. como tombou outrora.hóstia da Aurora. em lodo tudo acaba.. se tornassem ferros?! IV Poeta. curvo ao seu destino. A alma se abate. entre esplendores. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. E corno a Aurora . a Aurora. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve.

Pelos rochedos. banha As serranias duma luz estranha. a Lua que no céu se espalha. Sírius me deslumbra. Iluminando as serranias. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. e minh'alma cobre-se de flores . Canto. E arrasta os coraç5es pela Descrença. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. de ossos. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes.Fera rendida à música divina. Medonhas valas. como abutres Medonhos. frias. E foi deixando essas funéreas.. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem.. pelas escarpas. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. pois poeta. Vésper me encanta. de ilusões te nutres. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. um pedestal de tanta Treva e dor tanta.. Ergue. onde. e. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. Então. foi valas funerais deixando.. sobe ao pedestal. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . Como recordação da festa diurna. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. pelas penedias...Arrasta as almas pela Escuridão...

sonâmbulo. eu também vou passando Sonâmbulo... Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo...Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha.. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. nos céus altos.. Mas. E invejo o sofrimento desta Santa.. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . sonâmbulo.INSÔNIA Noite. Depois de embebedado deste vinho. A dispersão dos sonhos vagos reuno. triunfalmente. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. 187 . Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.. em mágoa.

estronda Como um grande trovão extraordinário. por exemplo. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . o funerário. Em que o Tédio. Com o olhar a verde periferia abarco. Aqui. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. As árvores. Cercado destas árvores. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de.Vagueio pela Noite decaída. porém. em mágoa imerso. Recordam santos nos seus próprios nichos. os corimbos. Agora. hedionda. batendo na alma.. Atro dragão da escura noite... O Sol. equilibrando-se na esfera.. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. neste silêncio e neste mato. as flores. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Estou alegre.

"Miniatura alegórica do chão. "Onde nenhuma lâmpada se acende. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo.Mucosa nojentíssima de pus. porque um. Mergulho. é mais de um. por epigênese geral. irrupto. "Onde os ventres maternos ficam podres.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. Risco-o Depois. certo."Cinza. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. amorfo e lúrido. aparece. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . De onde. E o que depois fica e depois Resta é um ou. Presto. a esvaziar báquicos odres: . "Na tua clandestina e erma alma vasta. ébrio. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. Todos os organismos são oriundos. por outra. através ovóide e hialino Vidro. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . Olho-o ainda. e na ínfima ânfora. Olho-o. barro. harto. síntese má da podridão. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. Dois são. os beiços na ânfora ínfima.

. sou eu. Migalha de albumina semifluida. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. Vida. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. na terra instável. Se escapa. o que nele Morre. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. do meu espírito.. muito alto. como nunca outro homem viu. Depois. Em que todos os seres se resolvem! 190 . Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. é o céu abscôndito do Nada. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . mônada vil. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. ora. dentre as tênebras. que. é todo aquele Que vem de um ventre inchado.Do mundo o mesmo inda e. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. sois vós. Sob a morfologia de um moinho. cósmico zero. Move todos os meus nervos vibráteis. Então. em segredo. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. sozinho. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. Na síntese acrobática de um salto.

Adeus! Que eu veio enfim.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas.. E eis-me outro fósforo a riscar. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.. De onde quimicamente tu derivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .

E em tudo estruge a tua dúlia ... quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. Sinos além bimbalham. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. 192 .Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça .. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. Cantas a Vida que sangrando matas..Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. Troa o conúbio dos amores velhos . lembras. Retroa o sino. Amor. . davas brandindo em seva e insana Fúria. medras Nalma de cada virgem. vezes. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. . Ora.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. chora e se lamenta e vibra. E. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. tangendo tiorbas em volatas. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! .

Eis o motivo porque fiz esta ode. 193 . Quedo. quando Entre estrias de estrelas. beija os áureos pés dos ídolos. ontem.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. aos astros.Essa dominação aterradora . Assim. pois.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. e eis o motivo. Irene. Irene. Irene. Cativo. impassível! Esta de amor ode queixosa. sonhei-a. Entre timbales e anafis estrídulos. esse poder terrível. . fosforeando. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. eis-me de ti cativo! Cativaste-me.

NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. Inopinadamente 194 . num sardonismo doloroso De ingênita amargura. erguido do pó. irritado. ao meio-dia. Trinta e seis graus à sombra. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. berrar. bruta. Da qual. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. E eu nervoso. Dentro. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. tinir. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. Quase com febre.

afinal. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. A ouvir todo esse cosmos potencial.O ígneo jato vulcânico Que. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . . Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão.

Aperta-me em teu peito.. Assim como Jesus. perdeste a ciência. De lírios e boninas Um veludíneo leito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Embala-me em teus braços! 196 . divina. E dá-me assim. Morreu-te a redolência. Eu quero o meu Calvário .. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. oh! morena . Aperta-me em teu peito.QUADRAS Embala-me em teus braços.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei.

. em ânsias: .Uma. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre.ª-feira.. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. duas. Aumentam-se-me então os grandes medos.Uma. em suma. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. 6.. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. quando a noite cresce.. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. e. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra... quatro. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho.. embora a lua o aclare. três. No bruto horror que me arrebata. Vista. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. através do vidro azul. A conta recomeço. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. Tenho 300 quilos no epigastro. Dói-me a cabeça. 3 de maio. E aos tombos. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! ..TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me.

. Tomba uma torre sobre a minha testa. . por exemplo. . Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Tal urna planta aquática submersa. E o amontoamento dos lençóis desmancho.. Por muito tempo rolo no tapete. Súbito me ergo. Mas aquilo mortalhas me recorda. Elevam-se fumaças Do engenho enorme.. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas.. A lua é morta.Sucede a uma tontura outra tontura. numa festa. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Meu tormento é infindo. Cinco lençóis balançam numa corda. Ponho o chapéu num gancho.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.. Acho-me. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. A luz fulge abundante 198 ..vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida ...."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". O suor me ensopa.

Broncos e feios. feliz. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. longe do pão com que me nutres Nesta hora. Côncavo. Vários reptis cortam os campos. radiante e estriado. cheia de adubos. No húmus feraz. De mim diverso. em diâmetro. passei o dia inquieto. a terra resfolega Estrumada. Entretanto. no ato da entrega Do mato verde.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. numa última cobiça. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. hierática. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. Babujada por baixos beiços brutos. A ouvir. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. o céu. observa A universal criação. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 .

Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. pituitárias Olfativas. Outras. Pertencentes talvez. 200 . em sangue. E à noite.. vão cheirar. tentáculos sutis.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. Umas. a delinqüentes natos. Assinalados pelo mancinismo. Mãos adúlteras. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. negras. às da neve. ás dos cristais.. Monstruosíssimas mãos. Mãos que adquiriram olhos. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. a farpas de rochedo Completamente iguais...

Tufos de goivo em conchas de esmeralda. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. plangente. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. Rola a violeta santa dos teus olhos . Mas neste sonho. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . oh Quimera. Opalescência trágica da lua! Tu. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. pálida camélia. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. E como um nume de pesar. .. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Pareces reviver a antiga Ofélia. Guarda a saudade que levou do Mame. Sonho abraçar-te. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria ..a Carne. langue e seminua. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços.

Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. com soluços quase humanos. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. análogo ao peã de márcios brados. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. na escuridão. Aprazia-me assim. O feto original.. Cruzes na estrada. E. Choravam. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. num ruidoso borborinho Bruto. Aves com frio. enquanto eu tropeçava sobre os paus. era só O ocaso sistemático de pó.. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. Eu procurava. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. Convulsionando Céus. como num chão profundo. No desespero de não serem grandes! 202 . com uma vela acesa. uivando hoffmânnicos dizeres. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho.

Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. perdido no Cosmos. me tornara A assembléia belígera malsã.Vinha-me á boca. uma voz 203 . o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. A abstinência e a luxúria. frias como lousas. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. Maior que o olhar que perseguiu Caim. Brilhava. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. na ânsia dos párias. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. ao colher simples gardênia. assim. com a sidérica lanterna. Mas das árvores. de onde se vê o Homem de rastros. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. vingadora. horrenda e monótona. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. Como o protesto de uma raça invicta. Fluía. Noite alta.

Rimos. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. em suma. iceberg. Nós. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. oh! filho dos terráqueos limos. pois. a espiar enigmas. ovário. montanha. amanhã píncaros galgas. Porque em todas as coisas. Crânio. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. Na prisão milenária dos subsolos. arvoredos desterrados. Para erguer. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. com a febre mais bravia. afinal. Rasgando avidamente o húmus malsão. na ânsia cósmica.. Não trabalham. diante do Homem. Para esconder-se nessa esfinge grande. árvore. que. Tragicamente. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. isto é. tão profunda. choramos. entres Na química genésica dos ventres.. obscuro. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. porque. do Equador aos pólos. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. enquanto Deus. Se hoje.Tão grande.

Reproduzida pelos arvoredos! Agora. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. a escalar Céus e apogeus. alheio ao mundanário ruído. Eu fora. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. desgraçadamente magro. naquela noite de ânsia e inferno. em destroços. Eu. a erguer-me. A voz cavernosíssima de Deus. astro decrépito.

. Na ânsia incoercível de roubar a luz. E muitas vezes a agonia é tanta Que. pela boca. quero até rompê-las! Quero. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. em coalhos. As minhas roupas. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra.. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. Minh'alma sai agoniada. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. no combate. rolando dos últimos degraus. é o prélio enorme. entre estes monstros. Para pintá-lo. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. armado de arcabuz. 206 . arrancado das prisões carnais. Viver na luz dos astros imortais.

o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. faz mal. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . enfim. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão.. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. E é tudo: o pão que como. em suma. é inútil. Seja este. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 .esta arca. E tombe para sempre nessas lutas..O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. a água que bebo. A bênção matutina que recebo. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto.. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem.. é improfícuo.

Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco.. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. Intimamente sei que não me iludo.. em trajes pretos e amarelos. Corro. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me.Faminta e atra mulher que. come. sozinho.. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. Como que. A Morte. ouvindo um grande estrondo. Mas de repente. a 1 de Janeiro.. Sai para assassinar o mundo inteiro.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. numa cova.. e a mim pergunto. Então meu desvario se renova. abrindo todos os jazigos. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. na vertigem: -. estudo. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. à meia-noite. rio Sinistramente.. -.

Quis ver o que era. Perante a qual meus olhos se extasiam. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre.. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. e após gritar a última injúria. Com as longas fardas rubras. e quando vi o que era. como a gula de uma fera. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Tu não és minha mãe. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. que em mim dorme.. Por tua causa apodreci nas cruzes. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. em grupos prosternados. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. Eu desafio. canalha. Vi que era pó.. e de declínio Em declínio.. desta cova escura. Deixa-te estar..E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. É Sexta-feira Santa. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. acorda em berros Acorda. Como as estalactites da caverna. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma.. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Amarrado no horror de tua rede. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam.

Desperto. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. Na Eternidade. Como as chagas da morféia O medo. vendo-o.. quieta. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . A árvore dorme Eu.. Na molécula e no átomo. O vento entoa cânticos de morte. Roma estremece! Além. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. O céu dorme. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. e a gente.. no ar de minha terra. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores.. A desagregação da minha Idéia Aumenta. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema.Um esqueleto. As luzes funerais arquejam fracas. somente eu. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. Dentro da igreja de São Pedro. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful