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Augusto Dos Anjos - Obra Completa (Nao Esta Tao Completa Assim)

Augusto Dos Anjos - Obra Completa (Nao Esta Tao Completa Assim)

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Sections

  • O MORCEGO
  • PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
  • IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
  • SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO
  • VERSOS A UM CÃO
  • O DEUS-VERME
  • DEBAIXO DO TAMARINDO
  • BUDISMO MODERNO
  • SONHO DE UM MONISTA
  • MATER ORIGINALIS
  • O LUPANAR
  • IDEALISMO
  • ÚLTIMO CREDO
  • SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO
  • A UM CARNEIRO MORTO
  • VOZES DA MORTE
  • INSÂNIA DE UM SIMPLES
  • ASA DE CORVO
  • O MARTÍRIO DO ARTISTA
  • O MAR, A ESCADA E O HOMEM
  • RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ
  • A UM MASCARADO
  • VOZES DE UM TÚMULO
  • CONTRASTES
  • DEPOIS DA ORGIA
  • A ÁRVORE DA SERRA
  • VENCIDO
  • VANDALISMO
  • VERSOS ÍNTIMOS
  • VENCEDOR
  • ETERNA MÁGOA
  • O LAMENTO DAS COISAS
  • O MEU NIRVANA
  • CAPUT IMMORTALE
  • LOUVOR A UNIDADE
  • SUPREME CONVULSION
  • NATUREZA ÍNTIMA
  • A FLORESTA
  • GUERRA
  • ÚLTIMA VISIO
  • AOS MEUS FILHOS
  • O POETA DO HEDIONDO
  • A FOME E O AMOR
  • HOMO INFIMUS
  • MINHA FINALIDADE
  • NOLI ME TANGERE
  • O CANTO DOS PRESOS
  • VÍTIMA DO DUALISMO
  • AO LUAR
  • CANTO DA ONIPOTÊNCIA
  • ANSEIO (QUEM SOU EU...)
  • VERSOS A UM COVEIRO
  • TREVAS
  • AS MONTANHAS
  • APOCALIPSE
  • A NAU
  • O FIM DAS COISAS
  • A NOITE
  • A OBSESSÃO DO SANGUE
  • VOX VICTIMAE
  • AGONIA DE UM FILÓSOFO
  • O ÚLTIMO NÚMERO
  • SAUDADE
  • ABANDONADA
  • CETICISMO
  • OUVI, SENHORA
  • TRISTE REGRESSO
  • INFELIZ
  • N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS
  • NOIVADO
  • NO MEU PEITO ARDE
  • AMOR E RELIGIÃO
  • CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA
  • O COVEIRO
  • PECADORA
  • NO CLAUSTRO
  • IL TROVATORE
  • A LOUCA
  • PRIMAVERA
  • SENHORA, EU TRAJO O LUTO DO PASSADO
  • SOFREDORA
  • ECOS D’ALMA
  • AMOR E CRENÇA
  • ARIANA
  • TEMPOS IDOS
  • NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA
  • ADEUS, ADEUS, ADEUS! E, SUSPIRANDO
  • A AERONAVE
  • LIRIAL
  • A MINHA ESTRELA
  • A ESMOLA DE DULCE
  • AVE DOLOROSA
  • NIMBOS
  • O MAR
  • ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS...)
  • AURORA MORTA, FOGE!
  • NO CAMPO
  • CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA
  • CRAVO DE NOIVA
  • O BANDOLIM
  • ARA MALDITA
  • TREVA E LUZ
  • O TEMPLO DA DESCRENÇA
  • A PESTE
  • IDEAL
  • AFETOS
  • MARTÍRIO SUPREMO
  • SOMBRA IMORTAL
  • NOTURNO (PARA O VALE NOITAL..)
  • SEDUTORA
  • PELO MUNDO
  • E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA
  • O RISO
  • VAMOS, QUERIDA!
  • A UMA MÁRTIR
  • PELO MAR
  • PALLIDA LUNA
  • A MORTE DE VÊNUS
  • MÁRTIR DA FOME
  • SONHO DE AMOR
  • A ORGIA MATA A MOCIDADE
  • FESTIVAL
  • NOTURNO (CHOVE, LÁ FORA...)
  • E ELE MORREU
  • A DOR
  • O SONHO, A CRENÇA E O AMOR
  • MEDITANDO
  • PARA QUEM TEM NA VIDA
  • SONETO A FREDERICO NIETZCHE
  • O NEGRO
  • VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA
  • O ÉBRIO
  • O CANTO DA CORUJA
  • SENECTUDE PRECOCE
  • MYSTICA VISIO
  • NOME MALDITO
  • MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
  • UMA NOITE NO CAIRO
  • AS CISMAS DO DESTINO
  • A CARIDADE
  • OS DOENTES
  • À MESA
  • DUAS ESTROFES
  • MATER
  • GEMIDOS DE ARTE
  • A MERETRIZ
  • VERSOS DE AMOR

EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

Esta obra foi digitalizada, formatada, revisada e liberta das excludentes convenções do mercado pelo Coletivo Sabotagem. Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor.

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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..................................................................................... 162 Versos de Amor ........................ 141 Os Doentes ....................................................................... 179 Estrofes Sentidas ........ 205 Queixas Noturnas ................................................................................................................................................................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .................................................. 156 Gemidos de Arte ............................................................ 190 Mistérios de um Fósforo .............................................................................. 170 A Vitória do Espírito ............... 209 Poema Negro ........ 197 Quadras ...... 168 Noite de um Visionário ................................................... 173 A Ilha de Cipango ...................... 186 Insônia ............................ 155 Duas Estrofes ....... 184 Idealizações ...................... 200 Mãos .......... 192 Ode ao Amor ................................................................................... 166 A Luva ..................................... 203 Vênus Morta ..............128 As Cismas do Destino ................................... 175 Barcarola .... 212 5 .............................................. 195 Numa Forja ..................................... 142 À Mesa ..................................................................... 180 Canto Íntimo ..... 204 Viagem de um Vencido ..................123 Uma noite no Cairo ........................................................ 182 Canto de Agonia ................................ 176 Ave Libertas ... 183 Gozo Insatisfeito ...................................................................................... 129 A Caridade ................................................................... 183 História de Um Vencido ....................... 155 Mater ......................................................................................................................... 157 A Meretriz ................ 199 Tristezas de um Quarto Minguante ...................................................................................................................................................................

o eu fora do Eu. paremos reverentes à porta do templo. compreendendo inclusive a estilística. Por conseguinte. no que há de mais sutil e imponderável. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. um psicastênico para outros. ao menos. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. senão em mais de um. na chaga viva de sua consciência. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. pois. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. segundo as síndromes patológicas revelados. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. que o não convencia de todo. desejosos de. Gráfica Ouvidor. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. não conhecemos sequer a nossa. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. Teria sido um neurótico para uns. poder conhecer a árvore pelo fruto. entrava em crise espiritual. Não me parece. nos moldes da velha orientação impressionista. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. Deste modo. que é de todas a menos operante. Nessa tentativa de interpretação psicológica. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. numa atitude de respeito e reflexão. quando. É preciso. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. ed.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. isto é. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. RJ. e era aí. nesse estado de superexcitação. na verdade. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. Nalgum ponto. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. Fazer o elogio do poeta. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. 1962) 6 . em suas mensagens de angústia. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. contudo. Sua personalidade singular ali se projeta. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens.

só ele dava a impressão de um desajustado. por vezes controvertidos. Sem o concurso da causa primária. aos que se rebaixam para subir. em relação com a casuística. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. Assim como a mãe de Augusto. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. por motivos vários. que já era constitucionalmente quase louca. Augusto não era um homem igual aos outros. no final. a de Leopardi. Obviamente. Isto posto. além mesmo da gravidez. que nada explica. de fundo genético. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. tem sido Augusto comparado a Leopardi. enfim. Explica-se deste modo. E por curiosa coincidência. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. com preocupações de grandeza e fidalguia. Por seu parentesco espiritual. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. fobias. o refinamento de suas faculdades morais. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. nem os que vieram depois. a de Byron. a de Nietzche. caracterizado por uma sensibilidade doentia.for. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. A mãe do poeta. causada pela perda imprevista de um irmão querido. menos a de Byron. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. Byron. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. tiques nervosos. igualmente inteligentes. Pai e irmãos passavam por normais. não é possível interpretar a obra de um escritor. estudante de medicina. nas modalidades do caráter. perturbou-a por muito tempo. repetindo conceitos. como é do gosto da crítica científica. sobre o seu caso clínico. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. sobretudo quando provém da linha materna. Ao que se sabe. enfim. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. aos que se acomodam. sestros. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. a de Wilde. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. na classificação dos antropologistas do século passado. da inteligência. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. do sentimento. choques emocionais. todo o seu temperamento emocional. a partir de Lombroso. Nem os que nasceram antes. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. não há negar também a dos psicológicos. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. reduzir tudo a categorismo. Nietzche. Juízo é coisa que todos julgam ter.

quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. bradava para o conceituado mestre que o argüia. O rapazinho de 16 anos. que a metafísica estava morta. em sua linha tomista. em 1900. com o título Eu e Outras Poesias. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. do Eu. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba.Augusto com a sua personalidade psicológica. cuja vida corria sem obstáculos. em prefácio à segunda edição do Eu. é a vocação que já revelava para o infortúnio. os quais o acompanhariam. Logo mais. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. guiado apenas pela ilustração paterna. conforme disse num soneto que não consta. O que há de singular nele não é. em contraste com a mocidade e a inteligência. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. Muito cedo. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. em Monólogos de uma Sombra. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. evolvia para o evolucionismo de Speneer. a sua própria vida sem problemas. visto ter nascido poeta. como expressão do pensamento nacional. Era de fato um excêntrico. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. para maior complicação de sua personalidade. ao invés de um estudante bisonho. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. no último ano do século passado. saído da roça. mas no final 8 . segundo os primeiros retratos que temos dele. Falava nele o positivista que. a quietude da vida na província. era um introvertido. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. aprendeu a ler e. para aprazimento intelectual das elites. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. Deste modo. Alexandre dos Anjos. que lançou em 1919. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. A paisagem bucólica da várzea. logo mais. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. o seu tipo de pássaro molhado. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. estavam a fazer dele um lírico. cinco anos após a sua morte. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. sem afastar-se do lar. como uma fatalidade. na várzea do Paraíba. sofreu duros reveses. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. A par disso. dr. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. Coelho Rodrigues. Sílvio Romero. Já em 1875. Com seu pai. a rigor. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. até o túmulo. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. Nada de admirar. inspirado na natureza e no amor. sofregamente bebida nas academias. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. mas não era somente isso.

que. nas concepções filosóficas de seus poemas. ficava a escutar os companheiros.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. Os menos letrados. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. José Américo de Almeida. a velha Escolástica. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. confundidas ambas na unidade cósmica. Ainda na fase preparatória de estudos. proceda ou não proceda. Laurindo Leão. Martins Júnior. Ao que parece. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. aliás. introduziu entre nós a poesia científica. isto é. Até no Piauí. Na Paraíba. conciliada. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. o pensamento ao longe. Por todo o Nordeste. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. dupla feição de filósofo e de poeta. firmava-se o conceito. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. ou mesmo. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. suportou a mais dura crise. está sujeita também ao processo da evolução. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Desses embates. Embora educado na religião católica. já lidos nos filósofos da natureza. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. já no seu ocaso. entre o mundo da forma e o mundo da razão. com a evolução da matéria e do espírito. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. se o diabo é tão feio como o pintam. Augusto pouco falava. como toda substância animada. faziam praça de livres pensadores. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. mas a origem simiesca do homem. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. Esquisitão que era. tentou o milagre de 9 . não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. O beatério era o último reduto do catolicismo. desde Haller. aliás bem pouco lisonjeiro. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. que só cuidava de preocupações teológicas. emancipou-se dela intelectualmente. Desta forma. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. de onde saiu formado em 1907. como uma velharia do século. um século antes de Hugo. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. a exemplo de Victor Hugo. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. os intelectuais mais dotados. Comte passou. em sua. em seu livro Frases e Notas. adepto do positivismo. de que católico era sinônimo de burro. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Nas rodas que se faziam na Paraíba. Aliás. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica.

186 versos. trinta anos antes. Vejamos. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. até adquirir a forma humana.. depois de infinitas transformações. ampla. Da substância de todas as substâncias. fundado na unidade cósmica. A simbiose das coisas me equilibra. A saúde das forças subterrâneas. Aos 17 anos. E assim continua. facilmente o identifica. começa então o drama crucial da consciência. naquela mesma idade em que. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. Não sofre apenas a sua dor. poema que abre o Eu e Outras Poesias. como amostra. A partir da monera. Do cosmopolitismo das moneras. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. O aspecto conceptual do poema. E é de mim que decorrem. e—crente no tema. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. Encontra-se. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. Não há. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. enfim. incomparável na forma musicada. Venho de outras eras. “esse mineiro doido das origens”. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. que passou do reino vegetal para o animal. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. identifica-se na substância primeva. Quem já o leu uma vez. todavia. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. por força das sucessivas mutações da matéria.reduzir a um campo único a ciência e a arte. já desiludido. terso na linguagem. procedo Da escuridão do cósmico segredo.. É a sua confissão de f transformista. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. a consciência 10 . Pólipo de recônditas reentrâncias. já diferenciado na mônada.. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. Em minha ignota mônada. como bem observa Cavalcanti Proença. na larva que procede do caos telúrico. chega aos seres mais complexos. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. simultâneas. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. ora transfigurado em filósofo moderno. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. vibra A alma dos movimentos rotatórios.. Rimbaud escrevera Bateau ivre. Larva do caos telúrico. que é a derrota da humanidade. Integrado na sociedade. numa caminhada de 31 estâncias. nas duas composições uma coincidência de temas.

Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. entendia o agregado abstrato da saudade. entrega-se ao sacrifício. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. do ponto de vista metafísico. como está dito em Monólogos de uma Sombra. A rigor. noção trivialíssima das funções orgânicas. segundo querem os frenologistas. A mesma coisa.conspurcada de gozo malsão. com sótão e porão. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. natural de minha terra. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. dentro do mundo fenomenal. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. Por fim. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. Por alma. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . No tocante à transformação da matéria. o remorso já acordado na caverna escura. no entanto. Nada obstante. o que vale dizer. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. diante das maravilhas do aparelho encefálico. conheci um sujeito. chamando a si. temos aí um transformismo metafísico. cuido não estar proferindo uma heresia. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. assombrado com o não-ser. já havia dito. No fundo. numa espécie de solidariedade subjetiva. tantas vezes exaltada pelo poeta. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. que faz quase lembrar a reencarnação. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. manifestou o seu espanto. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. uma espécie de fogo que devora e não consome. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. A partir dai. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade.No princípio era o Verbo. ouvia mais que um tísico. há que distinguir um pormenor. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. no princípio era a força. É a concepção monística. o sofrimento de toda a humanidade. que a ele não interessava considerar. centro de toda a acuidade sensorial. o vidente de Patmos: . que tinha os ouvidos totalmente tapados. em esconderijos apropriados. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. Nesse estado d’alma. O próprio Augusto. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. dezenove séculos antes. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências.

Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. Em tudo. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. a matéria putrefata. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. solta blasfêmias. causa-lhe repugnância. sem problemas materiais: Eu. só serviu para adensar o clima de alucinação. Mas como é preciso preencher um claro na consciência.Fazer a luz do cérebro que pensa. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. procura 12 . Este ambiente me causa repugnância. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. Nem por isso admite Deus.Psicologia de um Vencido . impreca. desde a epigênese da infância. na melhor das suposições. Custa crer que este soneto . Por toda parte. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras.este operário das ruínas. E há-de deixar-me apenas os cabelos. servindo de pasto a uma civilização corrompida. filho do carbono e do amoníaco. No auge da inquietação. cadáveres e bocas necrófagas. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida.. Já o verme .. Ao invés de fecundação do espírito. vermes. O mundo em que vive é um vasto hospital. onde não há lugar para a alegria. O próprio amor. admite o éter. Profundissimamente hipocondríaco.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. onde imperam sombras. A influência má dos signos do zodíaco. fonte inesgotável de vida. Querendo fugir a essas coisas. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Monstro de escuridão e rutilância. Sofro. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. uma natureza gasta. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. que é o Deus materialista de Haeckel. dominado por um ceticismo acabrunhador. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. rasgar do mundo o velário espêsso. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. o lado malsão da vida. Exausto da luta. o éter cósmico. procura penetrar o mistério da substância universal.

E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. numa atitude mental de fuga à realidade. A julgar pelos seus gemidos. uma desgraça na vida do poeta. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. evadido de si mesmo. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. Grita a sua dor por toda parte e. Por um instante. Algo de mais grave. deve ter acontecido na sua juventude. nem Haeckel compreenderam. gasta imensas energias e enche de culminâncias. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. monstros terríveis. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. O subconsciente o aturde. E para não capitular a esse apelo. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe.refúgio na inexistência espiritual. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. com efeito. Há. diz ele. Depois disso. Até agora 13 . Espera aí encontrar o seu nirvana. acompanham-no. em suas visões oníricas. coberto de desgraças. paralelamente. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista... Tudo isso. Antes de mais nada. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. como se supunha. sente o desejo. que exulta triunfante: Gozo o prazer. já cansado de escutar a natureza. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. a perda da crença e. Mas o diabo não larga a sua presa. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. E via em mim. podia fazer dele um triste. com o poder de sua imaginação. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. o Eu e Outras Poesias. E é nesta manumissão schopenhauriana. no todo ou em parte. Onde quer que se refugie. que ele denomina um sonho ladrão. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. Com efeito. Nenhum pintor. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. tenta ir ao fundo da crença monística. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. O resultado de bilhões de raças Que. não há homem que sofra mais. a terrível moléstia que se atribui. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. que os anos não carcomem.

Trata-se. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. no capítulo do amor. Gozei numa hora séculos de afagos. Exatamente aí. dada a ausência de biografia.. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. desespero virtual e não real. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Iríamos a um país de eternas pazes. em .. inútil seria qualquer esforço. não pode ocultar que foi vítima dele. no tocante a esse drama.. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. de uma paixão. que é o drama mais doloroso de sua consciência. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Ele próprio. Lembro-me bem. Por mais que Augusto negue o amor. sempre se revela. pois. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. Por enquanto. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Por suas próprias palavras. Por mais que procure fugir ao assunto. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. .

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

santa. Como um bemol ou como um sustenido. como em .Insônia . O poeta. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.. confessa mais uma vez a sua culpa.extravasava desta forma o seu lamento: 19 . surpreende com a invocação de Santa Francisca. como é sabido. mas no poema . Sonâmbulo..referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada.. em mágoa. nunca foi chegado a santos. ao mesmo tempo que. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. E invejo o sofrimento desta Santa..Queixas Noturnas . Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido.. Depois de embebedado deste vinho. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Noite. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.. contrito. Sonâmbulo. que não é das mais invocadas. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. eu também vou passando Sonâmbulo.

De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. dormir primeiro. quando a morte o olhar lhe vidra. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. que não admite a vida espiritual. pouco fala. não para ele. mas para os que crêem há ainda uma esperança. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. Minha alma sai agoniada. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada.. luta por fugir dela. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. Nem uma névoa no estrelado véu. Mãe. sonhando. como perseguido pela sinistra ceifeira. o ofício da agonia. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Madrugada de treze de janeiro. expressa a sua mágoa numa comovente unção. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. que parece se deixou levar por pressão da família. ama-o até mesmo na atômica desordem. entre estes monstros. Da mãe.. A morte é o fim de tudo.As Cismas do Destino . como referiu vagamente em As Cismas do Destino. entretanto. Em . cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Como Elias. Ao pai. Ao vê-lo morto. entre as estrelas flóreas. apenas três vezes. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. Mas pareceu-me. Rezo.brada: 20 . sem resolver a verdade interior. num carro azul de glórias.

Vivia um mundo à parte. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. que Augusto era um cerebral.. não cria em Deus. ardendo em indagações subjectivas. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte.. Nada o consolava nesse estado de espírito. embora ansiasse por encontrá-lo.Morte. Forma difusa da matéria imbele. levava-o a recolher-se em si mesmo. como em toda a obra. Já que não crê em Deus. 22 anos de idade. devia ter na época. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”.. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. as palavras também servem para ocultar o pensamento. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. ponto final da última cena. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Aqui. habitado por monstros humanos. Acha Flósculo da Nóbrega. Minha filosofia te repele. Nestas condições. Procura assim desoprimir o coração. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. Ao invés de ajustá-lo à realidade. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Não me parece tenha razão 21 . Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade.. quando recebeu os 22 açoites da natureza. Por tua causa apodreci nas cruzes. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. escravo do raciocínio frio. cheio de imperfeições. E ainda.

na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. volta-se vez por outra contra a sociedade. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. mas porque se sente um desajustado. no caso. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. nunca recebeu hostilidades. noite a dentro. contudo. Os seus melhores versos. e a mim pergunto. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. torturado no sentimento do desamparo. Depois que o poeta deixou a Paraíba. sua musa empalideceu à falta de ambiente. um homem excluído do mundo. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. que o acolhia com carinho. Punha-se então a passear. os de maior densidade emocional. que o 22 . tinha-se na conta de um doente. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. como um sonâmbulo. que só repugnância lhe causava. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. Na luta em que Augusto se debate. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Nem ele próprio se conhecia. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência.o ilustre intelectual paraibano. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. de vez que ninguém o compreendia. ao contrário. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. No fundo. De um modo geral. passos largos. além de pouco. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. Era. Fosse como ele diz. mas no particular. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. em 1912. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. entrava em crise espiritual. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. O que produziu no sul do País. Não importa que tenha morrido de pneumonia. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. Há. foram produzidos no Pau D’Arco. Não que tenha recebido ofensas dela. andar bamboleante. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. o cérebro em fogo. A inspiração despertava com a dor. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. Ao contemplar esse ambiente. ao redor da capela do engenho. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. conforme declarou nesta honesta confissão. Desta. via na sociedade a representação da humanidade sofredora.

levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. onde os anjos cantavam.próprio poeta confessava. Parece que desperta para a vida. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. confessa-se minado pela tuberculose. Depois disso. sob os seus pés. entra a descrever a cidade dos lázaros. num desalento ainda maior. pois. Mais adiante. “na urbe natal do Desconsolo”. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Na ascensão barométrica da calma. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. ansiado e contrafeito. Era ali. na terra onde pisava. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Essa real ou imaginária doença. que admirar chore um dia a crença perdida. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. hosanas ao Senhor. os acordes saudosos do coração. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. atormenta-se com a idéia de que. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. Perdido o amor. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. como ele chamava. aliada à descrença. Em As Cismas do Destino. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. à guisa de ácido resíduo. em serenata. Já cansado do ceticismo. eis que escuta. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. perdeu também a crença. Não há. como se já tivesse perdido o alento de viver. passa a chorar a sua dor e a alheia. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. fez dele um misantropo. o soneto Vandalismo. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. De início. Lá para o fim do poema. numa emoção que comove. como um arrependido. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. imaginária cidade à margem do Paraíba. Eu bem sabia. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. 23 . em Os Doentes.

Não é. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. destaco Órris Soares. já na 27ª edição. quase todos. Ao contrário da incontinente afirmativa.. em serenatas. tenham bordejado na superfície do abismo em. por exemplo. que se afundava a alma do poeta. em gemidos de dor. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. posto que. João Lélis. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. muitas opiniões foram veiculadas. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. No final de contas. A arte. José Américo de Almeida. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Sua obra. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. Dos outros. Assim é que. Nesse decurso. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . apenas como autor de um livro apologético. Álvaro de Carvalho. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. Santos Neto. Onde um nume de amor. Templos de priscas e longínquas datas. Sabe-se como compunha. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Flóscolo da Nóbrega. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. que não é biografia e não chega a ser estudo. este último. chegou a dizer que Augusto não era poeta. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo.Meu coração tem catedrais imensas. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. na Academia Paraibana de Letras. para ele. Raul Machado. Canta a aleluia virginal das crenças. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. ler. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. gostar e não gostar é coisa que se não discute. há sempre o que referir. No desespero dos iconoclastas. Enfim. João Lélis e De Castro e Silva. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. pois.. era apenas o meio de formular soluções. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria.

duendes. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. sobretudo da crítica provinciana. entre nós. Euclides da Cunha. à primeira vista incompatível com a poesia. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. um em 1920. Muitas vezes. Órris Soares. Em ter ficado sozinho. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. que não tenha fecundado a poesia nacional. na época. Por tudo isso. este na prosa. Essa incompreensão a respeito de Augusto. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. certa preocupação inclusive dos simbolistas. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. essa linguagem. reside justamente no termo técnico. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. também 25 . em 1945. Só depois de elaborada é que ia para o papel. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. a sua personalidade psicológica. enquanto forjava mentalmente a composição. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Foi então que recitou de inopino. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. associado à vibração sonora. o que era. túmulos. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. No entanto. o sentimento parece ter outra dimensão. insulado em sua própria grandeza. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. entrava disciplinada em seus versos. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Os versos espoucavam no momento da inspiração. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. como em compasso de música. escarros. lá fora. a densidade. Essa crítica. figuras espectrais e outras visões sinistras. de um a outro canto da sala. Seus versos. Neles. num timbre especial de voz.devoradoras. Cavalcanti Proença. com efeito. disse que uma das suas forças. Poe e Rimbaud. lábios crispados. o outro 25 anos depois. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. que pretende ser de interpretação psicológica. sangue de vísceras dilaceradas. o que acabava de compor. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. olhar perdido no espaço. vermes. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. impressionam pelo poder da dialética. Em ambos. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. claro que avulta ainda mais o seu mérito. a passear a esmo. como lamenta o crítico. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética.

Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. 26 . Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. Eis porque. Ou então. com efeito. mesmo doentia. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. que apenas transparece em linguagem evasiva. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. Há. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Mas é preciso notar que essa musa. não lhe tira o vigor da expressão verbal. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. por isso mesmo poética. pela tristeza indefinível da alma. elogios ou restrições. é mais uma aversão de olfato alérgico. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. Não pode o critico ser ortodoxo. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. na interpretação de um drama emocional.ficaram sem seguidores. neste ensaio de exegese literária. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. Nem por isso. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Com Verlaine. num dos seus últimos sonetos. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. O anojamento de Álvaro de Carvalho. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. como se vê. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. reconheça-se que essa poesia é humana. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. no duelo da carne. nem tudo pode ter cabimento. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. a fim de atingir. Com Mallarmé. está em tempo de ser feita. de sentido mais profundo. Com Baudelaire. pelas crises espirituais porque ambos passaram. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. aparelhou.

De lá de fora. na terra santa. Com Antero do Quental. Segundo Delahaye. pelo sentido da dor universal. desde a sua fase inicial. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. Ouvindo isso. Com Leopardi. O único que mencionou Rimbaud. isso mesmo de passagem. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. A mesma coisa ocorre com Augusto. para a neologia e o vocábulo raro. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. assentado sobre cacos de pote e urtigas. sensações simples e cenestesias. Encontra-se. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. a filosofia da dor. como neste exemplo: 27 . É. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. desejada por um. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. guardando o corpo do Divino Mestre. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. visionário. encontra-se em Roma. palavras raras e eruditas. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. temida pelo outro. em termos de comparação. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. Súbito. num artigo publicado em 1914. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. que dialoga com os elementos imponderáveis. de mistura com alucinações. Honesto em tudo. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Também no amor os dois se assemelham. citado por Augusto Meyer.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. um mês após a morte de Augusto. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. “Na Eternidade. os mesmos descuidos de metro e rima. numa sexta-feira santa. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. em grupos prosternados. crematismos. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. foi José Américo de Almeida. por sua natureza.. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. a idéia pura das coisas. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. Só com Rimbaud. em tropos ousados. em quem se acumulam. um grande medo toma conta do poeta. vem o barulho das matracas. Não fica apenas aí o confronto. no ar de minha terra.. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. Vez por outra. só nesse ponto dissimula o pensamento. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. Augusto lembra Rimbaud.através da sensação. Até nas aliterações e metáforas. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. as mesmas figuras de linguagem. havia acentuada tendência do poeta. de uma honestidade quase bravia. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. na postura de um campônio rústico.

homens de bem cheios de nobres intenções. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. andou conspurcado de sensações súcubas. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. No tempo de jovem. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. provo-a. embora tenham se casado e tido filhos.. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. filha legítima de sua alma. contudo. é verdade. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. é como a cana azeda. um suave concerto espiritual na natureza. E como não 28 . Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. como Tântalo. que era o seu anseio máximo. à beira da água. exacerbava-a. poeta. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. a julgar pelos seus lamentos. Nem há mulher talvez capaz de amar-me.”. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. mas que o levaram ao resultado conhecido. Em cada um deles. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. vítima de injustiças humanas. é improfícuo. segundo é fama. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. largou-se para a África. uma diferença de fundo entre os dois poetas. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. Depois desse fato.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. Não sou capaz de amar mulher alguma. sente-se que há um complexo de culpa. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Motivos escabrosos. é inútil. Ninguém sofre mais do que ele. Descasco-a. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. A toda boca que o não prova engana.. por causas várias. onde se casou com uma nativa da Abissínia. em suma.. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. na Bélgica. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. Augusto sentia-se puro. ilusão treda! O amor. em busca do paraíso terrestre. Há. chupo-a. Rimbaud. . o bem e o mal caminhando juntos.

contra a sua grei.pode reformar o mundo. 29 . som. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. silvos de labaredas e suspiros de empestados. perdia-se no estado de dúvida. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. segundo apregoam os fundibulários da crítica.Une Saison en Enfer . e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. tudo quanto eleva os sentidos. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. dessa conversão ao materialismo. martelada em versos magníficos e candentes. os mistérios da natureza. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. revolta-se contra o mundo. Foi a partir daí. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. o amor. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. imitação. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. isto é. depois que perdeu a ilusão dos homens. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. Por curioso paradoxo. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. Há muitas espécies de conversões em literatura. tudo quanto desperta a alma. A vida. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. porém. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. perfume. Tais similitudes valeriam. como fontes de inspiração. mas nem isso acredito tenha havido. do qual se considerava prisioneiro. conforme confissão feita a Mário de Alencar. cor. a criação.. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. numa reação inócua. Neste passo. deixava-se ficar no interior da concha. chegaríamos por certo ao pai Homero que. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. Um problema sempre gera outro. Augusto vai irredento até o fim. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Mesmo assim. sem preencher esse vácuo. luz. onde não faltavam o ranger de dentes. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. quando muito. contra a sociedade. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. entre a voz do sentimento e a da razão. Possuído do demônio da dúvida. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. isto é.espécie de autobiografia moral. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. Não raras vezes. beleza. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe.

levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. Alguns críticos. viram nisso o pecado da blasfêmia. um pedido de socorro. é. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. proclamou que Deus não existe. que se veja na blasfêmia. todavia. No meio em que viveu era querido e admirado. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. a essência dos Evangelhos. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. aceitar as imperfeições do mundo. resolveu o presidente submeter a questão a votos. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. no desespero de tantos sofrimentos. Isso mostra que ele. tal como Rimbaud. com raríssimas exceções.Enredado em idéias preconcebidas. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. Convém. outros negando. É o que há. a propósito. como ninguém ainda se entendesse. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. Todos nós. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. a meu ver. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. é questão que não deve ser formulada. supria-se do mais no magistério particular. via de regra. se manifesta ainda escravo do batismo. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. heresia maior que a do poeta quando. na realidade. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. em meio a tantas emoções extravasadas. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. se não há Deus. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. afetando melindres de devotos. 30 . porquanto Deus é princípio e é fim. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. mas os que o seguem desconhecem. Apurada a eleição e com base no resultado. Ao cabo do bombardeio oratório. se sucediam na tribuna. uns afirmando. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. Na prática. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. Os oradores. Se o Cristo não vem em seu auxílio. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. nas Alterosas. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. Ora. em torrentes de eloqüência. Se há Deus. quando não proferida por modo vulgar e chulo. Vale mencionar.

Abraçada com a própria Eternidade. virtudes que cultivava com extremado zelo.Debaixo do Tamarindo. os filósofos iônios.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . Mandando ao céu o fumo de um cigarro. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. desde Tales de Mileto. explodiu em As Cismas do Destino. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. sob estes galhos. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. coisa que não cabe na boca de um ateu. vem de muito longe. 31 . como se vê. como uma caixa derradeira. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. Por outro lado. E como era sincero e honesto. o sacrifício da linda moça Polixena. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. No tempo de meu Pai. Voltando à pátria da homogeneidade. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. De outras vezes. começa o poema “Sou uma Sombra. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. A denominação. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. Como uma vela fúnebre de cera. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. De inflexões mentais sua obra anda cheia. por mãos de seu filho Pirro. dá à alma a denominação de sombra. entendiam a alma. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina.atormentado por visões escatológicas. através dos séculos.

virtualidade espiritual. tal como se apresenta. em briga com o dualismo. da substância de todas as substâncias. acrescenta.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. Até Deus. desde o declínio das crenças mitológicas. as formas microscópicas do mundo. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. vacilante na ciência fria. como entidade eterna. assaltado de alucinações. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. perdendo-se novamente no enleio cósmico. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. É a substância primeva. Mais poderia dizer agora. Assim vai. em Leopoldina. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. mas dentro da alma aflita Via Deus . larva do caos telúrico. para ele. 32 . tal como a entendiam os filósofos iônios. até mesmo num grão de areia. Daí por diante. na Federação das Academias de Letras do Brasil. aos 30 anos de idade. isto é. Choram ainda dentro dele. em soluços quase humanos. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. sua intimidade numenal. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. mas com o que ai está me contento. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. nas composições que vão até o fim do livro. a 12 de novembro de 1914. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. Que outros. até que morre numa cidade das Alterosas. era uma mônada. que procede do éter cósmico. !" Este trabalho.

comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Rio de Janeiro. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. de abusar um pouco do café. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. 33 . Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. Eu. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. presumo. entretanto. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. Tenho insônia raras vezes. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. o que não impede. da chamada vida física. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Conservo de memória tudo quanto produzo. Córdula C. dos Anjos e D. Engenho Pau d'Arco. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. R. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Sofre de insônia. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade.

agora. Fecho o ferrolho E olho o teto.. Sofro.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. E há de deixar-me apenas os cabelos. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. A influência má dos signos do zodíaco.. igual a um olho. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Minh’alma se concentra.. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. E vejo-o ainda. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. “Vou mandar levantar outra parede.Digo.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. e à vida em geral declara guerra.” -. Monstro de escuridão e rutilância. Já o verme -. Chego A tocá-lo. Esforços faço. Meu Deus! E este morcego! E. Ergo-me a tremer. Ao meu quarto me recolho. Este ambiente me causa repugnância. desde a epigênese da infância. Produndissimamente hipocondríaco.. filho do carbono e do amoníaco. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco.

em desintegrações maravilhosas. de repente. e quase morta.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas.. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Delibera. À noite. Quebra a força centrípeta que a amarra.. e depois. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Que. raquítica. Mas. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 .. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe.. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Deixa circunferências de peçonha. Anoitece. Riem as meretrizes no Cassino. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. Tísica. tênue. mínima. quando sonha. Chega em seguida às cordas da laringe.

. em letras garrafais. Agregado infeliz de sangue e cal. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Que poder embriológico fatal Destruiu. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . a feder?! Ah! Possas tu dormir. E. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Fruto rubro de carne agonizante. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. com a sinergia de um gigante. feto esquecido. Tragicamente anônimo. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Em que lugar irás passar a infância. Realizavam-se os partos mais obscuros. Meus olhos liam! No húmus dos monturos..IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros .

rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 .. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. afaga-a. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. Almoça a podridão das drupas agras.. arrima-a. Filho da teleológica matéria. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Livre das roupas do antropomorfismo. E irás assim. Cão! -. Na superabundância ou na miséria. Suficientíssima é. ampara-a. Verme -.. Janta hidrópicos. para provar A incógnita alma.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. em que tu dormes. pelos séculos adiante. Ah! Para ele é que a carne podre fica. E vive em contubérnio com a bactéria.é o seu nome obscuro de batismo..

como uma caixa derradeira. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje... Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Voltando à pátria da homogeneidade. portanto. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. e. de amplos agasalhos.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai.corte Minha singularíssima pessoa.. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. Como uma vela fúnebre de cera. esta tesoura. Dr. sob estes galhos. Guarda. esta árvore. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 .

essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia.. Como um pagão no altar de Proserpina. com uma ânsia sibarita. como quem tudo repele.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 .. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. com o esqueleto ao lado. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. por toda a pro-dinâmica infinita. Alheio ao velho cálculo dos dias. mas dentro da alma aflita Via Deus -. Por trás dos ermos túmulos. -. um dia. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. Na guturalidade do meu brado.

vede: É o grande bebedeouro coletivo. Ah! De ti foi que. Oh! Mãe original das outras formas. Nos estados prodrômicos da vida. Dentro do ângulo diedro da parede. moços do mundo.. Onde os bandalhos. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. talvez. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Todas as noites. Como quase impalpável gelatina. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. autônoma e sem normas. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . nesta rede.. como um gado vivo. mísera e mofina. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Em que é mister que o gênero humano entre.

De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Amo o coveiro -..IDEALISMO Falas de amor.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira..este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. É. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. perante a evolução imensa. É a morte. é o ego sum qui sum . é o pneuma . O mundo fique imaterializado -. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. Creio. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. como o filósofo mais crente. para o amor sagrado. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 .

penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. com a alma às escuras. Vaguei um século. talvez as Musas. Era tarde! Fazia muito frio. e. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. caixas cranianas.. Pelas monotonias siderais.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. cartilagens Oriundas.. Cinzas. improficuamente. inclusas.. subi talvez às máximas alturas. Mas. À meia-noite.. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . nele. se hoje volto assim. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. como os sonhos dos selvagens. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. Comi meus olhos crus no cemitério.

tuas sementes! E assim.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. inda teremos filhos! 43 . com o envelhecimento da nervura. vales. selvas. Tu. para o Futuro. reunidos. pois.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. em diferentes Florestas. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. trilhos.fontes de perdão -. no Dia de Juízo. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. Pelo muito que em vida nos amamos. Eu. glebas. Na multiplicidade dos teus ramos. Tamarindo de minha desventura. Depois da morte. porém. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. Se fosses Deus. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço.

adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. à categoria Das organizações liliputianas.. É-me grato adstringir-me. Apraz-me.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. Na orgia heliogabálica do mundo. asa De mau agouro que. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas.. É meu destino viver junto a esa asa. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Perseguido por todos os reveses.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . Como os Goncourts. Ter o destino de uma larva fria.. na hierarquia Das formas vivas.. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. nos doze meses. Ganem todos os vícios de uma vez. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. Como a cinza que vive junto à brasa.

puxa e repuxa a língua. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem.. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. “À luz da epicurista ataraxia.. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. o Hércules. a mim. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . conquanto ainda hoje em dia. É como o paralítico que. mamífero inferior. com os dedos brutos Para falar. em desalento. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. aos soluços. rasga o papel. “Homem. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. o Homem. violento. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. Ouvindo a Escada e o Mar. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR.

após tudo perdido. o ouro que brilha. Furtaste a moeda só. Vejo. Tu só furtaste a moeda.. minha ama. agora. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. então. afetava Susceptibilidade de menina: “-. não fora ela! --“ E maldizia a sina. Eu furtei mais. Em sucessivas atuações nefastas.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. em minha cama... hipócrita. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama.. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas.Não. Ele hoje vê que. minha Mãe. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . entretanto. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. como cruéis e hórridas hastas. Que a mim somente cabe o furto feito. mas eu. Que ela absolutamente não furtava. Sinhá-Mocinha. ralhava. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas.

.. E tu mesmo. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. porém. Hoje. aos reais convivas. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos.a mãe comum -.. após a árdua e atra refrega.. Hás de engolir. num festim. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. igual a um porco. É noite. Assim Tântalo. do que este que palmilho E que me assombra. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta... Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . e.. à noite. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos..o brilho Destes meus olhos apagou!.

é justo. pois. trilhando as mesmas ruas. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes.. Pai. Eu. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. O que o homem ama e o que o homem abomina. O Amor e a Paz. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . Às alegrias juntam-se as tristezas... para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Tu. meu Pai?! Que mão sombria. Deus. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. para amenizar as dores tuas. o Ódio e a Carnificina. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. para onde fores.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom.. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. e o ângulo reto. Irei também. e sendo justo. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. gemendo.

sonhando. Como Elias... Mãe. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. o ofício da agonia. num carro azul de glórias. Nem uma névoa no estrelado véu. cuidei que ele dormia. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Mas pareceu-me. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Rezo. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. entre as estrelas flóreas.. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. E a marcha das moléculas regulam.

O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. Esta árvore. Livre deste cadeado de peçonha. pai.. olhando a pátria serra..e ajoelhou-se. para que eu viva!” E quando a árvore. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa.. pois... meu pai. meu filho.. possui minh’alma!. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. Para que eu tenha uma velhice calma! -. É preciso cortá-la.. sôfrega e ansiosa. numa rogativa: “Não mate a árvore. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho.As árvores. Apraz-me..DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. no junquilho. meu filho.Disse -. Caiu aos golpes do machado bronco. enfim. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. -.Meu pai.

Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. de à antiga rota Voar. Olha a atmosfera livre.. Continua a comer teu milho alpiste. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 .VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Foi este mundo que me fez tão triste.. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. Tu nunca mais verás a liberdade!. não tens mais! E pois. o amplo éter belo. desde o mais prístino mito. preto e amarelo. mergulhou a cabeça no Infinito. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar.. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. Pões-te a assobiar.. bruto. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda.

a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. Canta a aleluia virginal das crenças. Noite alta. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. Ante o telúrico recorte.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. em serenatas.. cismava Em meu destino!. Templos de priscas e longínquas datas. ególatra céptico. Onde um nume de amor. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas.. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. na diuturna discórdia... E erguendo os gládios e brandindo as hastas. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 .

. e doma Meu coração -. Vieram todos. Acende teu cigarro! o beijo. Meu coração triunfava nas arenas.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. toma A adaga de aço. Apedreja essa mão vil que te afaga. E à rutilância das espadas. é a véspera do escarro. Mora.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. ao todo. e. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. uns cem. amigo. nesta terra miserável. por fim. Toma um fósforo. Somente a Ingratidão -. veio um atleta. sente invevitável Necessidade de também ser fera.. que. E não pôde domá-lo enfim ninguém. A mão que afaga é a mesma que apedreja. entre feras. o gládio de aço. guerreiro. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . Veio depois um domador de hienas E outro mais. E qual mais pronto. por fim.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem.

Sabe que sofre. podendo mover milhões de mundos. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. No rudimentarismo do Desejo! 54 .ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. nada há que traga Consolo à Mágoa. pois. em sons subterrâneos.. Quer resistir. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. pancada por pancada.. a escutar. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. a que só ele assiste.. E é em suma.. Da transcendência que se não realiza. Ouço. Que. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. Da luz que não chegou a ser lampejo. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida.. chorando. A sucessividade dos segundos. do Orbe oriundos.

Cesse a luz. Oh! Nauta aflito do Subliminal. num grito de emoção.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . pensando. Parem as vidas. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. Morto o comércio físico nefando. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. eu. afinal. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. feito força. sincero Encontrei. Como a última expressão da Dor sem termo. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. me desencarcero. Foi que eu. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. De que. a animar o cosmos ermo. que os anos não carcomem.

há inúmeros milênios. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. Em tua podridão a herança horrenda. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. muito embora a alma te acenda.. numa alta aclamação. Diafragmas. pois. ao sol posto. "Com essa intuição monística dos gênios. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação... feixe de mônadas bastardas. decompondo-se. a irmanar diamantes e hulhas. Onde a alva flama psíquica trabalha. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . sem retumbância. E o Homem — negro e heteróclito composto. arpões. e. A dardejar relampejantes brilhos.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto.. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. a vista. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. Dói-me ver. o olfato e o gosto! Carne. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. Era. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. sem gritos. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. o ouvido.

à espera de quem passa Para abrir-lhe. sem dor. às escâncaras. é o transunto. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. E o nada do meu homem interior! 57 .. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. Este pântano é o túmulo absoluto. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. É a síntese.O PÂNTANO Podem vê-lo. e. Que produz muita vez. para mim que a Natureza escuto.. a porta. A convulsão meteórica do vento. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. Tragicamente. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. no Mundo. é a essência pura. opondo-se à Inércia. meus semelhantes! Mas. na noite escura.

porventura. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. Vence o granito. e. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. O espanto Convulsiona os espíritos.. geléia crua. E hás de crescer. causa do Mundo. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. Antes o Nada. em conjugação com a terra nua. no teu silêncio. entanto. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. como o gérmen de outros seres. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. Reconcentrando-se em si mesma. Volvas à antiga inexistência calma!. em realidade. tanto Que. um dia. deprimindo-o . geléia humana. ainda algum dia. oh! gérmen. Teu desenvolvimento continua! Antes.A UM GÉRMEN Começaste a existir. que ainda haveres De atingir.. é natural.. não progridas E em retrogradações indefinidas..

A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. Bracejamentos de álamos selvagens. traçando arcos de ogivas. É a Natureza que.. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. os elementos broncos. Como um convite para estranhas viagens. E a coorte Das raças todas.. é transporte.. Vivem só.. na ordem cósmica. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. nele.As ambições que se fizeram troncos. São absolutamente negativas! Araucárias.. é o instinto horrendo De subir. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . trancada num disfarce. . descendo A irracionalidade primitiva...Todas as hermenêuticas sondagens... . é ânsia. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva.. é inquietude. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. no seu arcano.

sem convulsão que me alvorece. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 .O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte.... Dói-lhe. saúde dos seres que se fanam. Que o sarcófago. sol do cérebro.. oh! Dor.. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. inteira. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. À humana comoção impondo-a. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. psíquico tesouro. em suma. Riqueza da alma. acérrima e latente.. assim. ancoradouro Dos desgraçados. E.. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda.

) Com o vosso catalítico prestígio. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito.. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o .ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . Benditos vós. que.. Dai-me alma. em épocas futuras. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Haveis de ser no mundo subjetivo. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea.. pois. Ions emanados do meu próprio ideal.. pois. Minha continuidade emocional! 61 . Dai-me asas. para o último remígio. Expressões do universo radioativo...

. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. então. A alma arde. A espaços As cabeças. O cosmos sintético da Idéa Surge. as mãos.. Emoções extraordinárias sinto. Arranco do meu crânio as nebulosas. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. A carne é fogo..A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. Eu sinto. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. Subitamente a cerebral coréa Pára. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 .. os pés e os braços Tombara.

Hebdômadas hostis Passam. na superfície do planeta. No desembestamento que os arrasta. tragando a ambiência vasta. e.. Excrescência de terra singular. ávida. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Realidade geográfica infeliz. os dois Representam. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Rugindo. Superexcitadíssimos. aumenta. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. carne sem luz. criatura cega.. Teu coração se desagrega. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Deixa a tua alegria aos seres brutos. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Porque. Sangram-te os olhos. o alfa e o omega Amarguram-te. enquanto as almas se confrangem. na ânsia voraz que.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. Montão de estercorária argila preta. Os dentes antropófagos que rangem. entretanto. Receando outras mandíbulas a esbangem. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim.

. aparelhou. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Que força alguma inibitória acalma. a Glória. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. sou maior que Dante. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. soluçando. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. mordem-se. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . o Inferno. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou.. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. homens felizes. E trago em mim. a Ciência. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. Da dor humana.. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. Sob pena. O Amor.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível..

Entoado asperamente... Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. em voz muito alta.. urdo o crime. O epitalâmio da Suprema Falta. não cabendo mais dentro dos peitos.. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . Uiva. à luz de fantástica ribalta. cresto o sonho. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. È a saudade dos erros satisfeitos. Existo Como o cancro. Teço a infâmia. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. a alardear bárbaros sons abstrusos. a exigir que os sãos enfermem. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Que.O CANTO DOS PRESOS Troa. (Hoje. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. ontem.

enfim.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. por fim. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . Transponho ousadamente o átomo rude E.. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão.. Nos paroxismos da hiperestesia. como um corvo. o Céu e o Inferno absorvo. dona. transmudado em rutilância fria. agarro. Feita dos mais variáveis elementos. ausculto. invado. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. Ceva-se em minha carne. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa... O Infinitésimo e o Indeterminado. à noite. apreendo. minha alma. o Infinito se levanta À luz do luar.

aos trismos Da epilepsia horrenda.. Tifon. como a luz do amanhecer. Laquesis. Átropos. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 .. projetado muito além da História. arder. Eu. Siva. como um astro. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. Sentia dos fenômenos o fim. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto.. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória.. virgem. Como a luz que arde. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. E acima deles. num monturo.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta.

Hão de encontrar as gerações futuras Só. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. E.Trilhões de células vencidas. a soluçar de dor?! -.. Grita em meu grito. rábido. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser... nas minhas formas carcomidas.. A estrutura de um mundo superior! Alta noite... ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. entanto. esse mundo incoerente. a afagar tantas feridas. às apalpadelas e às escuras. neste ergástulo das vidas Danadamente. nem mesmo ao ronco Do furacão que. Branda.) Quem sou eu. tenta transpor o Ideal.. Nutrindo uma efeméride inferior. remoinha.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. Roem-na amarguras Talvez humanas. Folhas e frutos. alarga-se em meu hausto.. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.

REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. -. Massa palpável e éter. em cisma abismadora absorto. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. -. Penetro a essência plásmica infinita. feto vivo e aborto. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. sânie e perfume. hirto. ateando da alma o ocíduo lume.. Sou eu que. em que me inundo.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que.. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. Apreendo. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. aliando Buda ao sibarita. desconforto E ataraxia.

rádios e úmeros. em fúlgidos letreiros. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . quatro.. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque.. -.Tal é. por hipótese. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. Reduzir carnes podres a algarismos. Porque. cérebros. dois.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. A aritmética hedionda dos coveiros! Um.. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. crânios. cinco. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado.. somente em. na abismal sustância informe. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. três. sem complicados silogismos. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. infinita como os próprios números.

Qual é.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. afinal. na natureza espiritual. Por um abortamento de mecânica. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. perscruta O puerpério geológico interior. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. alma. Estacionadas. De onde rebenta. amam jazer. Quem sabe. me semente. íngremes. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. e dize-me. recalcados. porventura. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . assim. oh! delumbrada alma. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. em contrações de dor. a alma.

E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . É a subversão universal que ameaça A Natureza. integérrima. Zarpa. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. em noite aziaga e ignota. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos.... Espião da cataclísmica surpresa. o último a ser. a amarra agarrada à âncora. sonha! Mágoas. Federações sidéricas quebradas. que o Éter indica. babando. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. Pára e. pelo orbe adiante. e. da Massa..APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. E eu só. se as Tem. derrota Na atual força.. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda.. A íngreme cordoalha úmida fica. subjugue-as ou difarce-as. derrubadas. alçando o hirto esporão guerreiro.

Para a perpetuação da Espécie forte. ao cabo do último milênio. adstrito à ciência grave. cave. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. Haurindo o gás sulfídrico das covas. Os nossos esqueletos descarnados. vazio! 73 . Dentro dos ossos. num triunfo surpreendente. em que arde o Ser. Sôfrego.. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo.. o dolo sáxeo. Em convulsivas contorções sensuais.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. e. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. ainda depois da morte. Arrancar. E quando. que ela encheu. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Tragicamente.

Extraordinariamente atordoadora. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso.. iguais a espiões que acordam cedo. fora. E amou. Disse. Somente. Horrível! O osso Frontal em fogo.. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. com um berro bárbaro de gozo. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Ia talvez morrer. Olhou-se no espelho. Viu vísceras vermelhas pelo chão. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. E. vendo sangue. A água transubstancia-se... agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. eis que viu.. mancha a gleba. Era tão moço... antes do almoço. há instantes. Na mão dos açougueiros.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter..

percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. ante obras tais.. reconheço O império da substância universal ! 75 . E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. E.. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada.. Rasgo dos mundos o velário espesso. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. No mar de humana proliferação.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. E em tudo igual a Goethe. me não consolo..... dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. Leio o obsoleto Rig-Veda. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador.

Para dar vida à dor e ao sofrimento. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Hirta. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Porque eu hoje só vivo da descrença. E à dor e ao sofrimento eterno afeito.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. A Idéia estertorava-se. Mas que no entanto me alimenta a vida. resignado. imóvel. imensa.. Se acende o círio triste da Saudade. em meio. E o coração me rasga atroz. Era de vê-lo. 76 . Parecia dIzer-me: "É tarde. atro e subterrâneo.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Tragicamente de si mesmo oriundo. estranho ao mundo. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. P’ra iluminar-me a alma descontente. E assim afeito às mágoas e ao tormento. Fora da sucessão. ao meu lado. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Eu a bendigo da descrença. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio.

Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . Ah.o exorcismo Terrível me feriu. Onde a dúvida ergueu altar profano.a Grande Mãe . mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. Da Igreja . Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Não sei se viva p’ra morrer na terra. eu creio em ti. de ilusões tão bela. Fugazes sonhos. desgraçado réu. Cansado de lutar no mundo insano. Hoje ela habita a erma soledade. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. sombras cor-de-rosa . O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. volvi ao ceticismo. seu olhar magoado.Todas se foram num festivo bando.Oh! Deus.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. gárrulos voando . em fundo misticismo: . e então sereno. entre o medo que o meu Ser aterra. Fraco que sou.

Cansado de chorar pelas estradas. senhora. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Sombrio e mudo e glacial. Desfeitas todas num guaiar dorido. Quando a morte matar meus dissabores. Ouvi. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. de amor ferido. senhora. num mês de tantas flores. Exausto de pisar mágoas pisadas. langorosas. senhora. Minh’alma levo aflita à Eternidade. tristes. SENHORA Ouvi. triste pela vida afora. todas sem olores. triste e descrido. pálidas agora. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Revolvo as cinzas de passadas eras. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Morreram todas. Tristes fanaram redolentes rosas.MÁGOAS Quando nasci. Eterno pegureiro caminhando. amei. E que tornou-o assim. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Todas murcharam.

Dos canhões ao ribombo e das metralhas. e o pesar negro e profundo. Alma arrancada do prazer do mundo. na estrada da existência em fora. E voltou. Tu que. coração amargurado. olímpica e singela! E partiu.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. Louco vivia. enamorado dela. Oh! Tu. mas a fronte aureolada. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Altivo lutador. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. um tresloucado. No sepulcro da loura virgem bela. 79 . Alma viúva das paixões da vida. venceu batalhas. E fica no teu ermo entristecida. Esconde à Natureza o sofrimento. Mas a Pátria chamou-o. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. pendeu triste e desmaiada. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Ao chegar. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Era o soldado. Vivia alegre o vate apaixonado. Cantaste e riste.

Ambos unidos soluçara um beijo. Chegara enfim o dia desejado. ardentes . Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. E rompe a orquestra sepulcral da morte. soturnais.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Era o supremo beijo de noivado! 80 . a brisa respondia. Há de chegar. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. São minhas crenças divinais. Desliza então a lúgubre coorte. Resvalando nas sombras dos ciprestes. funéreos.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. no eternal soluço. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. Quando da vida. silentes. Fora no campo pássaros trinavam. pálidos. E a mesma frase o noivo repetia. Vinha rompendo a aurora majestosa. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam.

Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. porém. E espuma e ruge a cólera entranhada. A morte me será vingança eterna. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Aí existe a mágoa em sua essência. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Mas se das minhas dores ao calvário. No delírio. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Em luta co’a natura sempiterna. E onde a vida borbulha e o sangue medra. Dores que ferem corações de pedra. Já que do mundo não vinguei-me em vida. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Espumando e rugindo em marulhada. Assim a turba inconsciente passa. 81 . da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente.

Foste do amor o mártir sacrossanto. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Enquanto outros que podem. bom Papá. num abraço de ternura santa. Irmão querido. Pois se da Religião fizeste culto. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Su’alma livre para o Céu se alara. Tu’alma ri-se descuidosamente. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. dão-te enganos. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. bonecos de formoso busto. Jóias. estulto. Morrera um dia desvairado. Somente assim festejarei teus anos. Quantos. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração.

palpitantes. Do destino fatal. presa. esta mulher de grã beleza. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. divina. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Bela. Dançavam-lhe no colo perfumado. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. tomando a enxada gravemente. A chama cruel que arrasta os corações. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . Os seios brancos. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. Do fado. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. aveludado. mornos. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Tornou-se a pecadora vil. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. Balbuciou. Moldada pela mão da Natureza.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. No entanto. amigo verdadeiro.

não acordeis. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Repercute. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Assim canta também meu coração. Que guardam cinzas de ilusões passadas. Trovador torturado e angustioso. E as mesmas monjas sempre tristurosas. . dolente. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. addio. úmidas arcadas. mavioso. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. pouco a pouco.Addio. os sons esmorecendo. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. Ai! não. E à noute quando rezam na clausura. addio! 84 . Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. E as mesmas portas impassíveis. Eleonora. No sigilo das rezas misteriosas. Subindo pelo Azul da Inspiração. Que guardam pér’las de funéreas rosas.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. desnudas.

Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . Moça. os teus fulgores. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. . Primavera gentil dos meus amores! 85 . para guardar a mágoa oculta.a veste desgrenhada. Canta. Arca sagrada de cerúleos sonhos. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Chora. No sudário de mágoa sepultada. porém. soluça . . Num sepulcro de rosas e de flores.Arca cerúlea de ilusões etéreas. a desgraçada estulta. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. Vai morta em vida assim pelo caminho.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Da desdita ferida pelo espinho. o triste outono. Primavera.O segredo d’um peito torturado E hoje.coração saudoso. Eu sei a sua história. O cabelo revolto em desalinho. Na auréola azul dos dias teus risonhos. gargalha. tão moça e já desventurada.

A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Sirva-te a crença de fanal bendito. Também como ela não sucumbe a Crença. Voltam sonhos nas asas da Esperança. No entanto o mundo é uma ilusão completa. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. portanto.avança! E eu. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. Sonâmbulo da dor angustiado. eu trajo o luto do passado. Mas não queiras saber nunca. ela não cansa. não busques saber por que. Muita gente infeliz assim não pensa. Foi outrora do riso abençoado. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. O berço onde as venturas se embalaram. ergue o teu grito. Salve-te a glória no futuro . Também espero o fim do meu tormento. risonha. que vivo atrelado ao desalento. Senhora. tristonha . Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. 86 . túm’lo do prazer finado. delirante e vário. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. É minha sina perenal.

santíssima. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Bela na Dor. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Quando o rosário de seu pranto rola. Quem me dera morrer então risonho. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 .SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. sublime na Descrença. Chora . Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Sombra perdida lá do meu Passado. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Mas volta logo um negro desconforto. Tenta às vezes. porém.

num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. Na altura Imensa.. púbere. Estende o teu olhar à Natureza. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. Branca. nevada. crê em Deus. O amor é a hóstia que bendiz a Crença.. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Essa sublime adoração do crente. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. a seu lado Medita. As níveas pomas do candor da rosa. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. mimosa. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Enquanto o amante pálido. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. e. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. a fronte triste.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Dorme talvez. pois. ama. Rendilhando-lhe o colo de sultana.

e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. A procissão dos tristes. E na choça a lamúria que traspassa O coração. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça.Quero abraçar o meu passado morto.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. A alma saudosa pelo amor vibrada. . Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. Dos romeiros saudosos da desgraça. .A Stella Matutina da Desgraça! 89 . o meu Passado. coveiro. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . Eu vivo dessas crenças que passaram. Vai Corina mendiga e esfarrapada. A romaria eterna dos aflitos. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. porém. além.TEMPOS IDOS Não enterres. Tem pena dessas cinzas que ficaram. dos proscritos. lânguida e bela. Entre todos.

eu disse. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. É como um despertar de estranho mito. apenas restam mágoas. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. Cheia da luz do cintilar de um astro. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. adeus. Voa. se eleva em busca do infinito. Fitando o abismo sepulcral dos mares. ADEUS! E. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. Vencendo o azul que ante si s’erguera. suspirando. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Auroreando a humana consciência. Perto. 90 . Saí deixando morta a minha amada. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. adeus! E. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Hermeto Lima Adeus. devassando a terra.ADEUS. Sulcando o espaço. ADEUS.

Se eu sou o orvalho eterno que te chora. com ela Negras sombras também foram chegando.Vai-te. Estrela esmaecida do Martírio. tristonho lírio. Viu o adeus que do Céu ela enviava. Disse. Envolto da tristeza no delírio. Mas a noute chegou. Lá onde nunca chegue esta saudade. irmã pálida da Aurora. onde não pousa a desventura. .A sombra deste afeto estiolado. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. e a estrela foi p’ra o Céu subindo.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza.LIRIAL Por que choras assim. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Minh’alma que de longe a acompanhava. E eu disse . Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. triste.

por entre a dolorosa estrada. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. E dos lábios de Dulce cai um beijo. e eu gemo o último harpejo. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão... isento de pecado.Senhora. E eu balbucio trêmula balada: . E ela fita-me. Vítima augusta de indelével falso. A esmola dum carinho apetecido. O olhar azul pregado n’amplidão. Estendo à Dulce a mão. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. Puro de crime. E na atitude do Crucificado.e estertorada A minha voz soluça num gemido. Pedir a Dulce. o olhar enlanguescido.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. Depois. A praça estava cheia. perdão. a fé perdida. 92 .então. a minha bem amada. dai-me u’a esmola . Morre-me a voz. o algoz .o criminoso .

segue a trilha que te traça O Destino. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . acolhe-me N’asa da Morte redentora.. E as trevas moram. onde d’água raso O olhar não trago. acolhe-me.crença Perdida . obumbra-me em teu seio. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. Gênio das trevas lúgubres. ave negra da Desgraça. assassino..AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. e. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. Há perfumes d’amor .. Empenhada na sanha dos abutres.. Lá. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. Num desespero rábido.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora.

Que o guia e o leva ao porto da bonança. Que o céu reflete. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. então. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Os nimbos das procelas desta vida. num mar de esp’rança. dentre a escura Treva do oceano. Quando vos vejo. Abismados na bruma enegrecida. Treme na treva a púrpura da tarde. Banhando a fria solidão das fragas. a vida é qual risonho Batel. Mas quando o céu é límpido. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. e a alma é a Flâmula do sonho. só descanta. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. O MAR O mar é triste como um cemitério. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. sem bruma Que a transparência tolde. Reflete a luz do sol que já não arde. sem nenhuma Nuvem sequer.

O grande Sol de afeto . num Pálio auroral de Luz deslumbradora. é dor.. é desengano..ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. Dia do meu Passado! Irrompe. Adeus oh! Dia escuro. agita as tuas asas. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora.) Nessas paragens desoladas.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . FOGE! Aurora morta. Cantarias do amor a primavera.1902 95 . meu Futuro. o meu único Norte. E eu ergo preces que ninguém responde. Aurora morta. Triste criança virginal. Agora. quem dera Voar est’alma a ti. Nem vibra a corda que a saudade esconde.. e em si a Luz consoladora Do amor . longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. Hoje é trevas. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. Ascende à Claridade. Anseios d’alma aqui se perdem.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. oh! Minha Mágoa. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano.o Sol que as almas doura! Fugiu.1902 AURORA MORTA.. lá nos espaços. foge .

Sonorizando os sonhos já passados. No alto.1902 96 . as águas límpidas alvejam Com cristais. à dolente Unção da noute. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . E há. Bendito o riso assim que se desata . Quando. as flores também choram Num chuveiro de pétalas.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas.. Branca. Chora a corrente múrmura. e. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. no teu riso de anjos encantados. entretanto. nitente. despertando sonhos. Pendem e caem .NO CAMPO Tarde. Ah! num delíquio de ventura louca. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. chorando enfloram. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. emergindo às trevas que a negrejam.Cítara suave dos apaixonados.a Louca tenebrosa.. ao luar. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados.

Se evolarn castos. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. 97 .CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. Eu. Flor dos mistérios d'alma. Também envolta num sudário — a Dor. é como os prantos Níveos. que a virgem chora. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. toda a cálida Mística essência desse alampadário. eterna noctâmbula do Amor. se duas eu tivera. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Ah! como a branca e merencórea lua. virginais aromas De essência estranha. P'ra desvendar os seus segredos santos. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. Pau d'Arco -1902. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. sacrossantos. noctâmbulo da Dor e da Saudade. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. Derramam a urna dum perfume vário. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. E a lua é como um pálido sacrário.

Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Ali. Que desespero insano me apavora! Aqui. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. Tanto que gemes. pompeia a luz da branca aurora. Teu canto. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. soluças. Um dia morto da Ilusão às bordas.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Tanto que cantas. e ilusões acordas..Quero Correr em busca do Futuro. chora um ocaso sepultado. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. vindo de profundas fráguas.. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Quando alta noute. sonhar novas idades. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: .Quero partir em busca do Passado. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . . a lua é triste e calma. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. Choras. bandolim do Fado. E vais aos poucos soluçando mágoas.

grave e lenta. à voz de Lúcia. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . NA ETÉREA LIMPIDEZ. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. Fulgia a bruma para sempre. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. O céu tremia em seu trevoso flanco... Caíste morta ao celestial preceito. O sol.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. Quiseste-me beijar a ara do peito. qual hóstia. Na etérea limpidez de um sonho branco. E beijei-te. Meiga. e como Lúcia. também ria! 99 . E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. cindindo os céus risonhos. caindo dos altares. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. mas eis que neste enleio.ARA MALDITA Como um'ave. E eu vi os seios teus virem inconhos . tu vinhas a cindir os ares. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. agora. E. Tocando n'ara negra o níveo seio.Foge. E eu quis beijar-te o lábio redolente. alegre e rubro.

E em mim como no Templo. a rasgar o lúrido sacrário. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. em bando. Longe das sombras aurorais e amadas. Sentes o peito em ânsias revoltadas. ao ver-te nua. luminosa.A colunata êxul do Sonho Morto . E a lua. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . e. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . Nua. Que beija a terra e que abençoa os campos. o Mundo se concentre. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. Agora.o círio Da Quimera Falaz. Diluis teu peito em sensações profundas.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. eis que emerges. ante o branco estendal das madrugadas. E a rasgar. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. Mas. E.ei-lo que avisto. Flores mortas da Aurora. e. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. Que. a Virgem Mãe dos céus escampos. urnas de Sonho. o túmulo da Crença. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . em banho ideal de amor te inundas.

Etéreo como as Wilis vaporosas. tudo! Quando Ela passa. Colmado o seio de virentes flores. formosa. tudo chora.A PESTE Filha da raiva de Jeová .. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.Fúlgido foco de escaldantes brasas . ela.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. A alma diluída em eterais cismares. Quero-te assim . E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. enquanto Vai devastando o coração das casas..e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. Como o Cristo sagrado dos altares. Embaladas no albor da adolescência.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. formosa entre as formosas.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. semeando a Morte. como o sol . . e a Peste ri-se.É o castigo de Deus que passa mudo! . entre esplendores. Plena de graça.. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .. 101 . De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e.. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência..O sol a segue.

insânia. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. eis-me a teus pés.. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. . Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. Eu venho arrependido. o meu Sonho morreu! Perdão. Chegou a Noite. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. pelo mundo.. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. assim.. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. Como o santo levita dos Martírios. meu anjo. ah! ninguém me responde.CÍTARA MÍSTICA Cantas... pátria da Aurora exilada do Sonho! . perdoa o teu vencido.. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . a teus pés. E para mim.. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo.. pois. insânia. penseroso e pasmo.Irei agora... para onde Me levar o Destino abatido e tristonho.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. Açucena de Deus.

sem Calvário. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Turificando a languidez dum seio! O amor.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário.. Banhou-me o peito. Onde nunca gemeu o humano passo.. e. . Por um Cocito ardente e luxurioso.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. Em ânsia de repouso.. supremos. Da Messalina fria no regaço. no Inferno do Gozo. porém. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. Mas. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício.. que da Desgraça veio Maldito seja. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões.

eu vi. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. também da Dor.... Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. E estavas morta. . Sombra de gelo que me apaga a febre.SOMBRA IMORTAL . E vi-te triste. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. desvalida e nua! E o olhar perdi.. a sós... . Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. mulher.E tu velas....Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . a noute é tumbal. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. estes dardos acúleos Caíam. eu que te almejo. Ah! que um dia da Vida.. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. Como um'alma de mãe. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. e a saudade da infância..Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais.. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. lá dos braços hercúleos.

tu.. Somente tristes os teus olhos vejo. O roble altivo entreteceu4e um ninho. Que canto é este. e no Santo harpejo. Alvorejando em arrebol de prata.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa.. Bendita a Santa do Carinho... entanto...) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . Que luz é esta que das brumas vasa. e é noute de fatais abrolhos. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz.. Branca bem como empalecido arminho. chegando. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. e.. inata! E. Pérolas e ouro pela serrania. te acolheu a mata. no negror me abrasa. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. Alva d'aurora. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Uma pantera foi se ajoelhando.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. profundo?! Rumores santos.. E um canto vai morrer no vale fundo. virginal. ajoelhando à imagem do Carinho. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. Chegaste. Choras. o seio branco.

. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa.. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. 106 ..PELO MUNDO Ânsias que pungem. Fria como um crepúsculo da Judéia. no Alto. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. mórbidos encantos. Já Vésper. Triste como um soluço de Dalila. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. Qual rosa branca que ao tufão vacila. e lânguida..

QUERIDA! Vamos. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . adormecida. Na Via-Látea fria do Nirvana. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho..Ele. Silfos morriam. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .quem mede-o?! .Fogo sagrado nos festins da Morte .A hora dos tristes e dos descontentes. coração. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. que ao frio alvor da Mágoa Humana. sonolento e tardo. clown da Sorte .. e a todo o seu assédio. No ar. os gaturamos Num recesso de névoa. Riso.. querida! Já é Ave-Maria .O RISO "Ri..o voltairesco clown .Eterno fogo. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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. Surge agora a Lua. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. Desencadeados. Os passos mal seguros Trêmulo movo. batendo em todas as retinas. Negro. vão bater. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. mas meus movimentos Susto.. De encontro ás torres e de encontro aos muros. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros.) Chove. Os ventos. LÁ FORA. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. diante do vulto dos conventos. NOTURNO (CHOVE. Vibra. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. A incandescência irial dos candelabros. Saio de casa. E em meio ás refrações verdes e hialinas. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. O dia Foge.... violentos..

.. poetas. outono. Primavera.. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu.. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. inverno! 113 .. Diluiu o silêncio em litanias. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. .Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. Já que perdi a última batalha! E. E hoje. Que há muito tempo não cantava lá... os vermes vis. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. enquanto o Tédio a carne me trabalha. verão.

pássaros da Noute! 114 . Gemem poetas . e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. ela. Pare chorando nesta Terra Santa. . e o travo há de sentir.A DOR Chama-se a Dor. ao noturno açoute. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. enxuto o olhar. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. Aqui é o Campo-Santo. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. abraçado às campas dos poetas. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. onde. inda altiva. enxuta A face. Ela.. e quando passa. E se cantar como a Saudade canta. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra.. Carpem na sombra pássaros ascetas.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra.

E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . Luta. a crença e o amor. eu penso na Ventura! E o pensamento. assomem Descrenças.O SONHO. e morrem os vermes que o consomem. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. surjam tédios na Descrença. na Suprema Altura Sinto. poeta. A CRENÇA E O AMOR O sonho. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. Vence. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. e por fim. nada há que o abata e o vença! Por isso. o sonho. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura.

nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo... Foi-te mister sondar a substância das cousas . auríferos tesouros. profundo. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade.. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia.. para penetrar o mistério das lousas. Feito no decurso de dois minutos. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade.. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. estudares.Construíste de ilusões um mundo diferente. por fim. De que te serviu. e. pois.. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações.PARA QUEM TEM NA VIDA. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. Tesouros reais. nada achaste... por fim. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois.

em ânsias..ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . dois gigantes mudos. ela subiu... Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. Embora oculta. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. São dois colossos. . o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. no entanto..as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze.. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra .O NEGRO Oh! Negro.. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. .

A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!.. Daí a pouco.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava.Novo Sileno. .Quer fugir. ira-o morrer também.Se ao menos voasse! . Mas eu não contarei nunca a ninguém.Era o suplício!.E o horror começa! Rasga As vestes... e não vê por onde fuja. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que... ouve o canto aziago da coruja! . O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Buscava Em verdes nuanças de miragens. ver Se nesta ânsia suprema de beber. quantos também deixei. Implora a Deus como a um fetiche vago. Saiu. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta.. na atra estrada que trilhei. . Quantos também. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . como eu. Nisto.. Trás de mim. como eu. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . O Sol ardia. foram buscar a Glória E que.. ela seria morta.

E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. E afora disto... eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. pressentindo a lousa. Não há quem nele um só tremor denote! .. Olha essa neve pura! .SENECTUDE PRECOCE Envelheci.Continua a cantar.. Mas. a alma serena. de repente. vivia.Aqui ainda havia alguma cousa. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas.." Pau d'Arco -1905 119 . ele a morrer. Sei que na infância nunca tive auroras. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. diz ao povo: "É pena! . Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica.. Por isso..Foi saudade? Foi dor? .. Assim como uma casa abandonada.. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste..

sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. não andei mais sozinho! Abraçou-me.. persuadido fica do que diz. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. E eu me elevava. em Tebas . E. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . diz que ele é vivo. .. Não mentes. Bem como tu. A múmia de um herói do tempo de Ísis. Dizes Tudo que sentes.. Diz que ele não morreu.a tumbal cidade.. Para onde eu ia.. inda com o braço altivo.. Da tribo alegre que povoa os ares.. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado.. o vulto ia a meu lado E desde então.

antes de viver! Meu corpo. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. ia.O tamarindo reverdeça ainda.. Teve sede e fome.E apesar disto. triste e sem cantar. A percorrer desertos e desertos.. A lua continue sempre a nascer! 121 . Por toda a parte. com medo do Infinito. aos tropeços.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. assim como o de Jesus Cristo. à tarde. de saudades me despedaçando De novo.. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E.. onde. como um cão covarde. morrer. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. Existo! . Nada se altere em sua marcha infinda .. assim. assombrado.. amigos. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. pois. quando Eu. E. Saiu aos tombos. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo.

.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina.O farmacêutico me obtemperou.A LÁGRIMA . Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 . . Ah! Basta isto.. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . água e albumina.

.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. A podridão me serve de Evangelho. simultâneas. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. Larva de caos telúrico. vibra A alma dos movimentos rotatórios.O metafisicismo de Abidarma -E trago. Amo o esterco. Amarguradamente se me antolha. E é de mim que decorrem. Não conheço o acidente da Senectus -. Como um dorso de azêmola passiva. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. sem dispêndio algum de vírus.. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Pólipo de recônditas reentrâncias. possuo uma arma -. 123 . Do cosmopolitismo das moneras.Esta universitária sanguessuga Que produz. sem bramânicas tesouras. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. À luz do americano plenilúnio... A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. ampla. Em minha ignota mônada... procedo Da escuridão do cósmico segredo. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos.

Aí vem sujo. causa ubíqua de gozo. a coçar chagas plebéias.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. já nos últimos momentos. Raio X. Fonte de repulsões e de prazeres. abdômen. amanhã. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Ao clarão tropical da luz danada. bestas agrestes. Sonoridade potencial dos seres. quebrando estéreis normas. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. O coração. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. A vida fenomênica das Formas. em síntese.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. ondulação aérea. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Quimiotaxia. a boca. O horror dessa mecânica nefasta. E apenas encontrou na idéia gasta. Como quem se submete a uma charqueada. iguais a fogos passageiros. Com a cara hirta. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. magnetismo misterioso. o Homem. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. 124 . luzem. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. -. Que. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor.

Negra paixão congênita.. ébrio de vício. À guisa de um faquir.. Do seu zooplasma ofídico resulta. Num suicídio graduado. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. Sentindo o odor das carnações abstêmias. em suas clélulas vilíssimas. No horror de sua anômala nevrose. Sôfrego. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. E após tantas vigílias. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Como que. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. fazendo um s. E até os membros da família engulham. brincam. pelos cenóbios?!. igual à luz que o ar acomete.. vai gozar. E explode. Uivando.. Como no babilônico sansara .. à noite. bastarda. Toda a sensualidade da simbiose. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come... E à noite. Numa glutonaria hedionda. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. Suas artérias hírcicas latejam. Brancas bacantes bêbadas o beijam. o monstro as vítimas aguarda. No sombrio bazer domeretrício. 125 .. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. consumir-se. em lúbricos arroubos.

Macbeths da patológica vigília. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. Reconhecendo. A família alarmada dos remorsos. As alucinações tácteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam. Essa necessidade de horroroso. Abranda as rochas rígidas. Quando o prazer barbaramente a ataca. Numa coreografia de danados. quando a noite avança. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. esculpindo a humana mágoa. com os candeeiros apagados. Acorda. se estende Dentro da noite má. Mostrando.. Na própria ânsia dionísica do gozo. Que tateando nas tênebras. A asa negra das moscas o horroriza. em rembrandtescas telas várias. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . Somente a Arte. observa a ciência crua... E de su’alma na caverna escura. Hirto. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Mas muitas vezes. Assim também. Fazendo ultra-epiléticos esforços.. bêbedo de sono.

. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento.. Julgava ouvir monótonas corujas. Continua o martírio das criaturas: -. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria.O ferido que a hostil gleba atra escarva. À condição de uma planície alegre. -. Na produção do sangue humano imenso. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. ouvindo estes vocábulos. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 .E reduz. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. entre daveiras sujas. sem que. Prostituído talvez. -. Da luz da lua aos pálidos venábulos. em suas bases. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. Há-de ferir-me as auditivas portas. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo.O homicídio nas vielas mais escuras. E. a desintegre. até que minha efêmera cabeça. Executando. Era a canção da Natureza exausta. entanto.

Num quiosque em festa alegre turba grita.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. conversando. Embaixo. na mais próxima planície. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. A Lua cheia Está sinistra. discutindo. Dorme soturna a natureza sábia... Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia.. Os mastins negros vão ladrando à lua. A rua é triste. Resplandece a celeste superfície. exposto ao luar. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Tonto do vinho. O céu claro e produndo Fulgura.. Convulso e roto. no apogeu da fúria. Vaga no espaço um silfo solitário. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. das pirâmides o quedo E atro perfil. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita.. um saltimbanco da Ásia. O Cairo é de uma formosura arcaica. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Apenas como um velho stradivário..

Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Lembro-me bem. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Eu. Copiava a polidez de um crânio alvo. de asfalto rijo. Mas. E a minha sombra enorme enchia a ponte. então. a irritar-me os globos oculares. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. Livres de microscópios e escalpelos. O trabalho genésico dos sexos.. Uivava dentro do eu . Atravessando uma estação deserta. Dançavam. O calçamento Sáxeo.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Fazendo à noite os homens do Futuro. Profundamente lúbrica e revolta. à luz de áureos reflexos. 129 . atro e vidrento. Ponte Buarque de Macedo. A ponte era comprida. Apregoando e alardeando a cor nojenta. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Mostrando as carnes. indo em direção à casa do Agra. E aprofundando o raciocínio obscuro. com a boca aberta. Pensava no Destino.. A matilha espantada dos instintos! Era como se. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Assombrado com a minha sombra magra. na alma da cidade. parodiando saraus cínicos. Eu vi.

A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Ninguém compreendia o meu soluço. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. Ah! Com certeza. pelo menos. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. No ardor desta letal tórrida zona. E. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. ainda na placenta. 130 . Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. Deus me castigava! Por toda a parte. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. É bem possível que eu umdia cegue. como um réu confesso. na ígnea crosta do Cruzeiro.Fetos magros.

ansiado e contrafeito. 131 . Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. três. Que. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Não! Não era o meu cuspo. quatro. para não cuspir por toda a parte. cujas caudais meus beiços regam. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Arrebatada pelos aneurismas. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. cinco. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. quotidianamente. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. em minha boca. à guisa de ácido resíduo. Benditas sejam todas essas glândulas. aos poucos. Na ascensão barométrica da calma. Sob a forma de mínimas camândulas. de tal arte. estranha. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Que eu. Eu bem sabia. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo.E até ao fim. Ia engolindo.

da cor de um doente de icterícia. ali posto De propósito. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. com as brancas tíbias tortas. Buscando uma taverna que os açoite. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Iluminava. Davam pancadas no adro das igrejas. Mas um lampião. os duendes. Nessa hora de monólogos sublimes. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . estava ali. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Imitando o barulho dos engasgos. À anatomia mínima da caspa. para hipnotizar-me! Em tudo. E o luar. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. então. Ninguém. sem pudicícia. A camisa vermelha dos incestos. Livres do acre fedor das carnes mortas. Rodopiavam. a espiar-me. Um sugestionador olho. maior talvez que Vinci. Siva e Arimã. a rir. de certo. o In e os trasgos. lembrava ante o meu rosto. A companhia dos ladrões da noite.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Perpetravam-se os atos mais funestos. Vai pela escuridão pensando crimes. Com a força visualística do lince.

Na atra dissoluçào que tudo inverte. Todos os personagens da tragédia. em que. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. e vence-O. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. A pedra dura. E a palavra embrulhar-se na laringe. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. 133 . Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. E o meu sonho crescia nosilâncio. Cansados de viver na paz de Buda. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. distingo-a.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. Como bolhas febris de água.

refletindo. 134 .A planta que a canícula ígnea torra. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. No meu temperamento de covarde! Mas. E apesar de já não ser assim tão tarde. na glória da concupiscência. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. Iam depois dormir nos lupanares Onde. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Os bêbedos alvares que me olhavam. igual a um amniota subterrâneo. Um conjunto de gosmas amarelas. Aquela humanidade parasita. berrava. aflita. na dor forte do vômito. Fabricavam destarte os bastodermas. sobre o meu caso Vi que. a sós. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. Como um bicho inferior. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens .

Nessas perquisições que não têm pausa. como um cordão. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. embora o homem te aceite. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter..e. pior que o remorso do assassino. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Forma difusa da matéria embele. por tua causa. Ao pensar nas pessoas que perdera. numa ânsia rara. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. nas catedrais mais ricas. Numa impressionadora voz interna. num fundo de caverna. o eco particular do meu Destino. Fazer da parte abstrada do Universo.. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. em tudo imerso. Minha filosofia te repele. 135 . na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. ponto final da última cena. Minha morada equilibrada e firme! Nisto.Prostituição ou outro qualquer nome. tal qual. Rolam sem eficácia os amuletos. Reboou. a morte é ingrata.

Mesmo ainda assim. estriada. em síntese. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. fora Mister que. Trazes. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. com a bronca enxada árdega. não como és. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. por vezes. se divide. sondas A estéril terra.Jamais. E se. e a hialina lâmpada oca. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. para que a Dor perscrutes. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. espirra. antes Fosses. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. o cordeiro simbólico da Páscoa. a refletir teus semelhantes. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. magro homem. A formação molecular da mirra. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. 136 .

A mentira meteórica do arco-íris. As projeções flamívomas que ofuscam. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. as nódoas mais espessas. abalando os solos. O Amor e a Fome. Que ainda degrada os povos hotentotes. Deixa os homens deitados. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. Lembram paióis de pólvora explodindo. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. -. O antagonismo de Tífon e Osíris. Os terremotos que. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. O achatamento ignóbil das cabeças. 137 . As pálpebras inchadas na vigília.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. Na sangueira concreta dos massacres. Onde morreu o chefe da família. A cristalização da massa térrea. As aves moças que perderam a asa.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. à espera que a mansa vítima o entre. Como uma pincelada rembrandtesca. O tecido da roupa que se gasta. O fogão apagado de uma casa. a fera ultriz que o fojo Entra. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. sem mortalha.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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143 . com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. a amêndoa. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. a ameixa. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. satisfeito. Meu ser estacionava. alto e hórrido. de errante rio. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. olhando os campos Circunjacentes. Em cuja álgida unção. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. branda e beatífica. Benigna água. Além jazia os pés da serra.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. magnânima e magnífica. Criando as superstições de minha terra. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. Apenas eu compreendo. como as ervas. a abóbora. A Paraíba indígena se lava! A manga. o urro Reboava. sobre as hortas. No Alto. em quaisquer horas.

Vômitos impregnados de ptialina. OH! desespero das pessoas tísicas. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Restos repugnantíssimos de bílis. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. entre estrépitos e estouros. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. Alucinado. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Estas não cospem sangue. 144 . dores não recebem. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. os micróbios assanhados Passearem. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. Cortanto as raízes do último vocábulo. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Adivinhando o frio que há nas lousas. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. Reboando pelos séculos vindouros. a existência Numa bacia autômata de barro. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. como inúmeros soldados. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. aos bocados. O ruído de uma tosse hereditária. Um português cansado e incompreensível.

hoje. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. É a alfândega. Pelas algentes Ruas. magras mulheres. no Amazonas.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. A mágoa gaguejada de um cretino. me acorda. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. com efeito. Onde a Resignação os braços cruza. Consoante a minha concepção vesânica. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. resfriando-vos o rosto. com o vexame de uma fusa. Saía. Nos ardores danados da febre hética. 145 . a água. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. naquele instante. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. em sonhos mórbidos.

adstrito à étnica escória.Fedia. tendo o horror no rosto impresso. A civilização entrou na taba Em que ele estava. Desterrado na sua própria terra... caladas. Com uma clarividência aterradora. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. Jazem. Ah! Tudo.. Viu toda a podridão de sua raça. acordando na desgraça. diante a xantocróide raça loura. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas.. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. como um lúgubre ciclone. De repente. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . 146 . entregue a vísceras glutonas. todas as inúbias. espantada. E agora. A carcaça esquecida de um selvagem. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. sem difíceis nuanças dúbias. Recebeu. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Na tumba de Iracema!. por fim. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio.

Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. ex. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. Todos os vocativos dos blasfemos. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha.: o homem e o ofídio. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. roído pelos medos. E eu. rolando sobre o lixo. Maldiziam. No horror daquela noite monstruosa. com voz estentorosa. 147 . A peçonha inicial de onde nascemos. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua.

na terráquea superfície. cansado. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Eu voltarei. perante a cova. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. como Cristo. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. porém. o anelo instável De. Anelava ficar um dia. Tentava. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico.E. às vezes. por epigênese. Sem diferenciação de espécie alguma. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. como um homem doido que se enforca. 148 . Consubstanciar-me todo com a imundície. Reduzido à plastídula homogênea. em suma. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . Menor que o anfióxus e inferior à tênia.

derreada de cansaço. no horizonte. a saraiva Caindo..Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. 149 . e. Não tínheis ainda essa erupção cutânea.. Estendestes ao mundo. As prostitutas. Uma. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. com violência. ignóbil. alva. à-toa. entre oscilantes chamas. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido.. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. Mas. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. quando o éreis.. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. vítima última da insânia. Acordavam os bairros da luxúria. doentes de hematúria. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. agora. virgem fostes.. embalde. Quase que escangalhada pelo vício. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. e as mãos. até que. De certo. Se extenuavam nas camas. análoga era. para além. Nem tínheis..

Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. porém. na craniana caixa tosca. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. argots e aljâmias. E hoje. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos.De vós o mundo é farto. no chão frio da igreja. A consciência terrível desse inseto! Regougando. Sentia. eu. Como quem nada encontra que o perturbe. inquieto. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. Como uma associação de monopólio. que a sociedade vos enxota. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. A racionalidade dessa mosca.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Eu pensava nas coisas que perecem. 150 . Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. E estais velha! -.

O ar ambiente cheirava a ácido acético. como Ugolino. Absorvia com gáudio absinto. estriges voam. E a ébria turba que escaras sujas masca. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. Vem para aqui. roubada à humana coorte Morre de fome. nesta hora. Rugindo fundamente nos neurônios. nos braços de um canalha 151 . Sem ter. de repente. Apareceu. O fácies do morfético assombrava! -. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. após baixar ao caos budista. Mas. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. À falta idiossincrásica de escrúpulo. em que eu entrei adrede. escorraçando a festa. Já podre. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho.A estática fatal das paixões cegas. Pela degradação dos que o povoam. E o cemitério. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. sobre a palha espessa. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. Quanta gente.Aquilo era uma negra eucaristia. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. com o ar de quem empesta. assim inchado. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. palpável.

vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Ao pegar num milhão de miolos gastos. À sodomia indigna dos moscardos. ao clarão de alguns archotes. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Todos os meus cabelos se arrepiaram. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . iguais a irmãs de caridade. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Vendo passar com as túnicas obscuras. como quem salta. Pisando. Comendo carne humana.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. a alma aos arrancos. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. a camisa suada. cheio de vermes. Na impaciência do estômago vazio. Num prato de hospital. entre fardos.

Manhã. após a noite de seis meses. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito.Como indenização dos meus serviços. E eis-me a absorver a luz de fora. No céu calamitoso de vingança Desagregava. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. às vezes. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. Absorve. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . Proporcionando-me o prazer inédito. O benefício de uma cova fresca. Os raios caloríficos da aurora. Dentro da filogênese moderna. Uma sobrevivência de Sidarta. em vez de hiena ou lagarta. déspota e sem normas. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Como o íncola do pólo ártico. No frio matador das madrugadas. trazendo-me ao sol claro. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. De quem possui um sol dentro de casa.

. com um prazer secreto. entanto. numa furna. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. Vinha da original treva noturna. Igual a um parto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . Eu sentia nascer-me n’alma. Acompanhava.. A gestação daquele grande feto. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. O Espaço abstrato que não morre Cansara. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. a meu ver. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. oh! Morte. O ar que.. corre. Hirto de espanto. em colônias fluídas. tudo a extenuar-se Estava. em vão teu ódio exerces! Mas.. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. com os pés atolados no Nirvana. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto.

Como! E pois que a Razão me não reprime. amigo. têm carne... Ai! Como Os que. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. bela como um brinco.. É a hora De comer. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. não existes mais! 155 . Com a diferença que Lisboa existe E tu. Coisa hedionda! Corro. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Apenas com uma diferença triste. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. como eu.. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. E agora. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Rodeado pelas moscas repugnantes.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Antegozando a ensangüentada presa.

sujo de sangue. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. à amostra. a atmosfera se encherá de aromas. entre dores.. Clara. E o antigo leão.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. Assim. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. haurindo amplo deleite. Do que essa pequenina sanguessuga. Há de crescer. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. quanto a mim. que te esgotou as pomas. No lábio róseo a grande teta farta -. sem pretensões. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. O Sol virá das épocas sadias. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. comparo. Relembrarás chorando o que eu te disse. nas vitrinas.. um novo Ser. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. oh! Mãe. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. À sombra dos sicômoros eternos! 156 .

filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. haurindo o tépido ar sereno. eu vivo pelos matos. nos fortes fulcros. com que guarda meus sapatos. maior do que Laplace. Por causa disto. Beber a acre e estagnada água do charco. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Tais quais. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. também gira e redemoinham. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. roendo a substância córnea de unha. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Os pães -. Magro. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. as tesouras Brônzeas. mordendo glabros talos.. numa ininterrupta Adesão. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 ..

Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. no agudo grau da última crise. Beija a peçonha. E eu vou andando. apalpa a úlcera cancerosa. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Dorme num leito de feridas. goza O lodo. Úmido. cheio de chamusco. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Subtraída à hediondez de ínfimo casco.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Com a flexibilidade de um molusco. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região.

Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. No chão coleia a lagartixa.. Com a rapidez duma semicolcheia.. Em grandes semicírculos aduncos. no árdego trabalho. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos.. De árvore em árvore e de galho em galho. Nos terrenos baixos. A terra cheira. fustigue. bolem Nas árvores. corte. salta. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. depois de morrer.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. largando pêlos. queime. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . em vez do nome -. Eu. pelo ar.Augusto . Entrançados. quero.. depois de tanta Tristeza. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto.. O ar cheira. morda!. Os ventos vagabundos batem. Ladra furiosa a tribo dos podengos..

III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. em vez de flores. O aziago ar morto a morte Fede. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Urram os bois. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. batendo a cauda. Na bruta dispersão de vítreos cacos. As lagartixas. Como pela avenida das Mappales. Pintam caretas verdes nas taperas. Os musgos. como exóticos pintores. sem conchego nobre. À dura luz do sol resplandecente. dos esconderijos. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Amontoadas em grossos feixes rijos. outrora. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Quantas flores! Agora. Por saibros e por cem côncavos vales. Como um anel enorme de aliança. Une todas as coisas do Universo! 160 . Aqui. Viveu. Nédios. Trôpega e antiga. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha.

. Que por vezes me absorve. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. com a misericórdia de um tijolo!.. como quem raspa a sarna. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada.. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. À carbonização dos próprios ossos! 161 . Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. Grito. é o óbolo obscuro. arrebentando a horrenda calma.. Julgo ver este Espírito sublime. sem pai que me ame.. da mesma forma que o homem morre. A lamparina quando falta o azeite Morre. à luz da consciência infame.E assim pensando. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. Súbito. aqui. Só. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre.. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. De pé.

à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Reduzidos. Com as mãos chagadas. Entre farraparias e esplendores. hirta. a âmbulas moles. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. aliando. espremendo os peitos. em contorções sombrias. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. de cabelos ruivos. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. ébria e lasciva. à lua. em coréas doudas. E a mulher. Ouvem-se os brados Da danação carnal. por fim. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta.. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. através os meus sentidos. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. alta noite. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. O Vício estruge. funcionária dos instintos. à luz do olhar protervo. Espicaça-a a ignomínia.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. 162 . recebe. a arquivar credos desfeitos. hórridos uivos Na mesma esteira pública. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. urna de ovos mortos. Sente. Bramando. Lúbrica.. como o estepe.

Mais que a vaga incoercível na água oceânea.. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. É o hino Da matéria incapaz. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se.. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início... Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. Ei-la. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. Na óptica abreviatura de um reflexo.. em cada humana nebulosa. E a Carne que. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. de bruços.Chão de onde unia só planta não rebenta.. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. já morta essencialmente.. Fulgia. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. filha do inferno. E a dor profunda da incapacidade Que. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório.. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 .

Mas que. adstrito a inferior plasma inconsútil.. Que. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo..... Libertos da ancestral modorra calma. Saem da infância embrionária e erguem-se... Ficou rolando. talvez. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. rubros. hírcica... impune. ânsia De perfeição. radiando. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. momentaneamente luz fecunda. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora.. como aborto inútil. Como o . Irradiava-se-lhe. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia... decerto. Na homofagia hedionda que o consome. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços.. adultos. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.. Pudera progredir. sonhos de culminância. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . e a estraga Na delinqüência .O atavismo das raças sibaritas. Numa cenografia de diorama.

............................................. .................................. .............. ....................................................................... . Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E...... ..................................... ............Sugando a seiva da árvore a que se une! .................................................................... condenada................ Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos..... Mordeu-lhe a boca e o rosto................................................................................................. ............................................................................. ...................................................... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto............ 165 .................... .............................. ao trágico ditame.................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia................................................... ................. oca.... ....................................................

é como a cana azeda. É assim como o ar que a gente pega e cuida. consoante o qual. o egoísta amor este é que acinte Amas. por experiência. Descasco-a. observo o amor. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. Como Mársias -. pois. em ânsias. Imponderabilíssima e impalpável. entretanto. É Espírito. A toda a boca que o não prova engana. Porque o amor. Oposto ideal ao meu ideal conservas. provo-a. este o amor não é que. é éter. Integralmente desfibrado e mole. é substância fluida.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. o ponto outro de vista Consoante o qual. conheço o seu conteúdo. Para que. o observas. chupo-a. enfim. Pudera eu ter. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 .. amo Mas certo. E hoje que.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. tal como eu o estou amando. eu que idolatro o estudo. oposto a mim.. poeta. do egoísta Modo de ver. atenta a orelha cauta. ilusão treda! O amor. Quis saber que era o amor. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. Diverso é. enfim. Cuida.

contra ele. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. que devia. no quadrilátero da alcova. Entendi. em ânsias. a tumbal janela E diz. Sem ter uma alma só que me idolatre. Como Vulcano. E só.. . trabalhar contente. Trabalharei assim dias inteiros.. abre. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. com o seu grande grito. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Que importa que. 167 . Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. trágico e maldito.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. os monstros zombeteiros. olhando o céu que além se expande: ".A maldade do mundo é muito grande. depois disso.... Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. opresso..

sacudindo-o todo.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . Batem-lhe os nervos. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. Sobre a cidade geme a chuva.

Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Que forma a coerência do ser vivo.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. oh! céu. O reino mineral americano Dormia. lhe entregue. por ver-vos. alto. E a cimalha minúscula das ervas. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. A essa hora. íntegra.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. nas telúrias reservas. e absorve em cada viagem Minh’alma -. e erguia. Com os ligamentos glóticos precisos. recebendo injúrias. banhava minhas tíbias. Cortanto o melanismo da epiderme. num canto de carro. Rua Direita. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. Recebiam os cuspos do desprezo. Como um cara. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. E não haver quem. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma.Dizia. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. 169 . sob os pés do orgulho humano.

em diástoles de guerra. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. Com a abundância de um geyser deletério. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. com o ar horrível. Mais tristes que as elegais de Propércio. O vibrião.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . úmida e fresca. com a símplice sarcode. O motor teleológico da Vida Parara! Agora.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. o ancilóstomo. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. Pareciam talvez meu epitáfio. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Onde minhas moléculas sofriam. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. Pela alta frieza intrínseca. me pediam.

Uma vez. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. ampla e brilhante. A Lua encheu o espaço sem limites E. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. Feras rompiam tolos e balseiros. o passo constrangendo. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. E pelas catacumbas desprezadas.. Eternamente aberta ao sol e à chuva. e o olhar errante.Um vento frio começou gemendo. Mochos vagavam como sentinelas. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. nos altares esboroados.. . Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. Súbito alguém. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Em passo lento. funeral mesquita. dentro. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. foi transpondo a porta.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. Era uma viúva. a viúva. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Parou em frente da mesquita morta.

O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. contra ela. Como uma exposição de carnes vivas. Morria a noite. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. Fora. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 .Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. E sobre o corpo da viúva exangue. Além. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. arremetendo. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . E raivosas. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. infernais ardendo Todas as feras. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. entretanto. entanto. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos.

num enleio doce. quem diante duma cordilheira. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos... Rica. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. ao sol. 173 . Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Pára.... À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. afetando a forma de um losango. Da qual. em plena podridão. tenho alucinações de toda a sorte. Qual num sonho arrebatado fosse. exata. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. brilha A árvore da perpétua maravilha. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. em luz perpétua. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. trêmulo. Verde. Assim. no meio.... Atravessando os ares bruscamente. entre assombros. pela vez primeira. A saudade interior que há no meu peito. ostentando amplo floral risonho... E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. Na ilha encantada de Cipango tombo.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia.

Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha.. Gozei numa hora séculos de afagos.. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. E finalmente me cobri de flores. A tarde morre. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 .. Passa o seu enterro!. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. Banhei-me na água de risonhos lagos.. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem... Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa.

Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. esse vai Para o túmulo que o cobre. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. as esconda. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . em reflexos.BARCAROLA Cantam nautas. em lúcido véu.globo de louça Surgiu. outro se ergue e sonha. Vagueia um poeta num barco. nas Águas. Se um cai.. Vai uma onda. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. O Céu.. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Espelham-se os esplendores Do céu. Quem as esconda. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. outro cai. A Lua . de cima.

E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. "Mas nunca mais. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. poeta da Morte!" . "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre.... Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. forte. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.. "Viajeiro da Extrema-Unção.. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. porém. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê..

levando ao mundo inteiro. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. oh Pátria. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Manchar não pode as aras da República. Caia do santuário lá da História. A Liberdade assoma majestosa. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Da República a nova sublimada. Oh! Liberdade. fazei que destes brilhos. esplendorosa. E ali do despotismo entre os escombros. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Vós. Como um Tritão. Essa luz etereal bendita e calma. Da liberdade ao toque alvissareiro. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . A República rola-lhe nos ombros. e. pois. oh! Redentora d'alma.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. Não! que esse ideal puro. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. risonho. Fulgente do valor da vossa glória. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. .

178 . vendo o horror dos meus destroços. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . Além. Passa um rebanho de carneiros dóceis. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. E.Mas hoje. à luz das minhas frases. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis.. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. Uma montanha que se desmorona. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. ao matinal assomo. O amor reduz-nos a uniformes placas. Estremecendo em suas próprias bases. Aves de várias cores e de várias Espécies. desvairado.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos.. Na área em que estou. cantam óperas inteiras. nas oliveiras.

À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. à nitidez real dos aspectos. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. à frente dele. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. ébria de fumo e de ópio. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair.. heroicamente.Observo então a condição tristonha Da Humanidade.. Tal qual ela é. demonstrando-a. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. E quando a Dor me dói. Da observação nos elevados montes Prefiro. sinto um violento Rancor da Vida .

dos grandes espaços. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. a esmo. em sonhos.CANTO ÍNTIMO Meu amor. Muito longe. Vem cá. Passo longos dias. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . olha estas feridas. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. erra. De lá. se duvidas. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Que o amor abriu no meu peito. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. Muito longe. em sonhos erra.

Mas. Caminha e vai. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. numa delícia infinda. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. Numa prece de amor. ontem. uma nuvem que corre. vendo-a. murmura: . e o sofrimento De minha mocidade.. Sem um domingo ao menos de repouso. agonia. neve.. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . escuridão e eterna claridade. Amor. num volutuoso assomo.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei.. Fazer parar a máquina do instinto.. agonia bendita! . e cansado e morrendo O Viajeiro vai. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito... Neve da minha dor.CANTO DE AGONIA Agonia de amor.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Frio que me assassina.. agonia! . triste. prece que ainda Entre saudades rezo. o louco.. a sós. . morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. amor e frio. quanto mais me desespero.Diz e morre-lhe a voz. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. Neve que me embala como um berço divino. Delícia que ainda gozo. experimento O mais profundo e abalador atrito. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. agonia. oração. Agonia de amar. abraça a sombra e.

e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. Por seis horas seu braço empenhado na luta. lúgubre e só. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. foi aos poucos se arrastando... desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. a superfície bruta. do agro solo. mordendo a atra terra infecunda. e o trabalho . trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. oito vezes.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. funéreo 182 . alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. A terra escalda: é um forno. Triste. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo.. Rasgando. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. E em tudo que o rodeava. Fez reboar pelo solo.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. Mas o braço cansou! Trabalhou. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. acende O pó.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto.. E o Velho veio para o labor cotidiano.

ninguém o acalenta.. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. Num instante viu tudo. e a sonhar. era a turba trovadora Que assim cantava. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. louco. e compreendendo tudo. bêbado de miragem..o último esforço. Nem viu que era chegado o termo da viagem. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. flutua! Ninguém o vê. avistando uma frondosa tília Julgou... E amplo. Quis fazer um esforço .. tombando. a família! Não morreria.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto.. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. o peito arqueou-se. a rugir-lhe aos pés. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. os filhos. o cansaço Empolgara-o. o acalenta. a toa... Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. o Velho caminhava. o precipício estava. a flux d'água. ele pisasse os trilhos. Caminhava. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. pois! Somente morreria Se da Vida. onde arde e floresce a Crença. e o braço Pendeu exangue. avistar a Árvore da Esperança. sozinho.

condensada treva A sombra desce. volaterizadas..Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. dourando as névoas dos espaços. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. Trazem no peito o branco das manhãs 184 ... E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. luminosas.ocaso nunca visto. e. rubro. aos astrais desígnios. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. ígneo.. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. E a Noite emerge. alvas. Além. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. Descem os nimbos.eis tudo! E no meu peito . mudo. mudo. Raios flamejam e fuzilam ígneos. fulvos. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa.. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. Subindo á majestade do Infinito.Asas de corvo pelo coração. sangrento O sol. a Sombra . mudo. . Negras. Na majestade dum condor bendito.. pompeiam (triste maldição!) . Atros. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. E há no meu peito .

dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. Vésper me encanta. Como Herculanum foi após as chamas. Fantástico. A alma se abate. Ah! Como tu.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. em lodo tudo acaba. O leão. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. entre esplendores. a lesma. o mastodonte. se. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. A Mágoa ferve e estua. em vão na luz do sol te inflamas. como se esses raios N'alma caindo. em plena e fulva reverberação. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. ontem moribundo. o tigre. a Aurora. assassino Ébrio de fogo. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. curvo ao seu destino... Mais em meu peito uma ilusão se enterra. de que serve. se tornassem ferros?! IV Poeta. e hás de ser após as chamas. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. ciclópico.hóstia da Aurora. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. lodo. Sírius me deslumbra. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. Hoje de novo. se erguer. 185 . e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. III De novo. há-de Alva. E corno a Aurora . como tombou outrora. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. se. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas.o Sol .

e. sobe ao pedestal. Como recordação da festa diurna..Arrasta as almas pela Escuridão. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. Canto. de ilusões te nutres. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. pois poeta. frias.. Vésper me encanta. pelas penedias.. Ergue. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 ... Sírius me deslumbra. Iluminando as serranias. a Lua que no céu se espalha. banha As serranias duma luz estranha. onde. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. como abutres Medonhos. Então. E arrasta os coraç5es pela Descrença. E foi deixando essas funéreas... Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. Medonhas valas. foi valas funerais deixando. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. pelas escarpas..Fera rendida à música divina. de ossos. Pelos rochedos. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. e minh'alma cobre-se de flores . Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas.

em mágoa... nos céus altos. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. triunfalmente. E invejo o sofrimento desta Santa. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! ..Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. A dispersão dos sonhos vagos reuno... Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. 187 . logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. sonâmbulo. eu também vou passando Sonâmbulo. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Depois de embebedado deste vinho..INSÔNIA Noite. sonâmbulo. Mas. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta...

contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. O Sol. os corimbos. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . neste silêncio e neste mato. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera.. por exemplo. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. As árvores. batendo na alma. Em que o Tédio. Recordam santos nos seus próprios nichos. em mágoa imerso. Agora.. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. o funerário... Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. hedionda. equilibrando-se na esfera. estronda Como um grande trovão extraordinário. Atro dragão da escura noite. Cercado destas árvores. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. as flores. Aqui. porém.Vagueio pela Noite decaída. Com o olhar a verde periferia abarco. Estou alegre.

A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. amorfo e lúrido. E o que depois fica e depois Resta é um ou. Presto. Olho-o. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . "Onde nenhuma lâmpada se acende. síntese má da podridão. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. por outra. harto.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. aparece. certo. a esvaziar báquicos odres: . De onde. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. Risco-o Depois. "Miniatura alegórica do chão."Cinza. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . e na ínfima ânfora. "Onde os ventres maternos ficam podres. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. Dois são. através ovóide e hialino Vidro. barro. Todos os organismos são oriundos. Mergulho. ébrio. é mais de um.Mucosa nojentíssima de pus. por epigênese geral. porque um. Olho-o ainda. irrupto. os beiços na ânfora ínfima. "Na tua clandestina e erma alma vasta. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo.

atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. dentre as tênebras. ora. Migalha de albumina semifluida. mônada vil. em segredo. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Move todos os meus nervos vibráteis. que. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . Então. como nunca outro homem viu.. o que nele Morre. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. sou eu.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. sozinho. cósmico zero. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Em que todos os seres se resolvem! 190 . do meu espírito. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. sois vós. Depois. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó.Do mundo o mesmo inda e. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. muito alto. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Se escapa. Vida. Sob a morfologia de um moinho. na terra instável. Na síntese acrobática de um salto. é o céu abscôndito do Nada..

Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.. E eis-me outro fósforo a riscar.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. De onde quimicamente tu derivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.. Adeus! Que eu veio enfim.

192 . e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. Retroa o sino.. Cantas a Vida que sangrando matas.. E em tudo estruge a tua dúlia . desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. Sinos além bimbalham. Amor. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. E. chora e se lamenta e vibra. davas brandindo em seva e insana Fúria. medras Nalma de cada virgem.. Troa o conúbio dos amores velhos .As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . tangendo tiorbas em volatas.. vezes. Ora. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. .dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . lembras. .

impassível! Esta de amor ode queixosa. quando Entre estrias de estrelas. Irene. e eis o motivo.Essa dominação aterradora . Assim. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. Irene. aos astros. fosforeando. Entre timbales e anafis estrídulos. beija os áureos pés dos ídolos. Irene. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. pois.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Cativo. sonhei-a. ontem. esse poder terrível. Quedo. 193 . Eis o motivo porque fiz esta ode. .E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja.

a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. Inopinadamente 194 .NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. irritado. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. Trinta e seis graus à sombra. bruta. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. E eu nervoso. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. Da qual. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. berrar. ao meio-dia. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. Dentro. erguido do pó. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. Quase com febre. tinir.

Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. afinal. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte.O ígneo jato vulcânico Que.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. A ouvir todo esse cosmos potencial. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. . Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia.

Assim como Jesus.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Eu quero o meu Calvário . oh! morena . Morreu-te a redolência. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. E dá-me assim.. perdeste a ciência.QUADRAS Embala-me em teus braços. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. divina. Embala-me em teus braços! 196 .. De lírios e boninas Um veludíneo leito. Aperta-me em teu peito. Aperta-me em teu peito.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei.

em suma. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que.ª-feira. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. Tenho 300 quilos no epigastro... Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. Vista. em ânsias: . Aumentam-se-me então os grandes medos. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .Uma. Dói-me a cabeça. quando a noite cresce. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha.. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. tonta Sinto a cabeça e a conta perco.Uma. A conta recomeço.. 6. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. No bruto horror que me arrebata.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. duas. 3 de maio. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. embora a lua o aclare. através do vidro azul.. E aos tombos.. quatro... e. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. três. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo.

."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram"..Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida .. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Por muito tempo rolo no tapete. Mas aquilo mortalhas me recorda. numa festa. . Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela.. Cinco lençóis balançam numa corda. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa.. Súbito me ergo.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse.. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. por exemplo. Ponho o chapéu num gancho..Sucede a uma tontura outra tontura. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Tal urna planta aquática submersa. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.. O suor me ensopa. Tomba uma torre sobre a minha testa. . Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.. E o amontoamento dos lençóis desmancho. Meu tormento é infindo. A lua é morta. Acho-me.. A luz fulge abundante 198 . Elevam-se fumaças Do engenho enorme.

cheia de adubos. o céu. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. Vários reptis cortam os campos. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. no ato da entrega Do mato verde. De mim diverso. Broncos e feios. observa A universal criação. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. a terra resfolega Estrumada. hierática. A ouvir. Babujada por baixos beiços brutos. em diâmetro. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. numa última cobiça. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . radiante e estriado.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. feliz. passei o dia inquieto. Côncavo. Entretanto. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. longe do pão com que me nutres Nesta hora. No húmus feraz.

quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. pituitárias Olfativas. vão cheirar. Pertencentes talvez. em sangue.. Mãos adúlteras. Assinalados pelo mancinismo. Umas. a farpas de rochedo Completamente iguais. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Mãos que adquiriram olhos..MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. a delinqüentes natos. às da neve.. Monstruosíssimas mãos. ás dos cristais.. Outras. 200 . tentáculos sutis. negras. E à noite. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela.

Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . Mas neste sonho. plangente. E como um nume de pesar. Guarda a saudade que levou do Mame. . oh Quimera. Opalescência trágica da lua! Tu.. pálida camélia. langue e seminua.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Pareces reviver a antiga Ofélia.a Carne.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda..Tufos de goivo em conchas de esmeralda. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Sonho abraçar-te. Rola a violeta santa dos teus olhos . No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros.

Convulsionando Céus. com soluços quase humanos. era só O ocaso sistemático de pó.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Aprazia-me assim. Cruzes na estrada. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. No desespero de não serem grandes! 202 . enquanto eu tropeçava sobre os paus. Aves com frio. análogo ao peã de márcios brados. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. uivando hoffmânnicos dizeres. como num chão profundo. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. O feto original. Choravam. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. na escuridão. com uma vela acesa.. Eu procurava. num ruidoso borborinho Bruto.. E. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho.

perdido no Cosmos. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Fluía. Noite alta. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Maior que o olhar que perseguiu Caim. na ânsia dos párias. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. assim. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. Mas das árvores. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Brilhava. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. com a sidérica lanterna. me tornara A assembléia belígera malsã.Vinha-me á boca. ao colher simples gardênia. frias como lousas. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. de onde se vê o Homem de rastros. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. Como o protesto de uma raça invicta. vingadora. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. horrenda e monótona. uma voz 203 . A abstinência e a luxúria.

a espiar enigmas. Para erguer. isto é. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. arvoredos desterrados.. Porque em todas as coisas. Na prisão milenária dos subsolos. afinal. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. tão profunda. na ânsia cósmica. oh! filho dos terráqueos limos. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. entres Na química genésica dos ventres. montanha. com a febre mais bravia. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Nós. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. diante do Homem. Rasgando avidamente o húmus malsão. árvore. Para esconder-se nessa esfinge grande. obscuro. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. Não trabalham. ovário. Se hoje.. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. iceberg. porque. amanhã píncaros galgas. Crânio. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar.Tão grande. Tragicamente. do Equador aos pólos. Rimos. que. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. pois. enquanto Deus. choramos. em suma.

A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . Eu.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. Eu fora. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. desgraçadamente magro. alheio ao mundanário ruído. A voz cavernosíssima de Deus. a escalar Céus e apogeus. a erguer-me. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. naquela noite de ânsia e inferno. em destroços. astro decrépito. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque.

QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. armado de arcabuz.. As minhas roupas. pela boca. Viver na luz dos astros imortais. E muitas vezes a agonia é tanta Que. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. quero até rompê-las! Quero. 206 . Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra.. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Para pintá-lo. Minh'alma sai agoniada. entre estes monstros. Na ânsia incoercível de roubar a luz. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. em coalhos. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. arrancado das prisões carnais. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. é o prélio enorme. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. rolando dos últimos degraus. no combate.

E tombe para sempre nessas lutas. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. é inútil. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Seja este. é improfícuo. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. em suma. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. a água que bebo.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. enfim. faz mal. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. E é tudo: o pão que como. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 ..esta arca. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração .... Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. A bênção matutina que recebo.

. A Morte. Então meu desvario se renova.. abrindo todos os jazigos. numa cova. estudo. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. sozinho...Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. na vertigem: -. Sai para assassinar o mundo inteiro. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -.. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. à meia-noite. em trajes pretos e amarelos.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. Mas de repente. Corro. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. -. Intimamente sei que não me iludo. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. e a mim pergunto. ouvindo um grande estrondo. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . come. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra.Faminta e atra mulher que. Como que. rio Sinistramente.. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. a 1 de Janeiro. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho.

. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. Com as longas fardas rubras. canalha. desta cova escura.. como a gula de uma fera. Vi que era pó. Eu desafio. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança... vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Por tua causa apodreci nas cruzes. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. e quando vi o que era. Como as estalactites da caverna. Perante a qual meus olhos se extasiam. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. que em mim dorme. Quis ver o que era. Tu não és minha mãe. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. em grupos prosternados. É Sexta-feira Santa. e após gritar a última injúria. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam.. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos.. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. Deixa-te estar. e de declínio Em declínio. acorda em berros Acorda. Amarrado no horror de tua rede.

Roma estremece! Além. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. Dentro da igreja de São Pedro. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. Como as chagas da morféia O medo. Na molécula e no átomo. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. A desagregação da minha Idéia Aumenta.. A árvore dorme Eu. quieta. As luzes funerais arquejam fracas. Na Eternidade. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta..Um esqueleto. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. no ar de minha terra. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. e a gente. somente eu. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo.. O vento entoa cânticos de morte. Desperto. vendo-o.. O céu dorme.

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