EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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........ 166 A Luva .................................................................... 157 A Meretriz ............... 179 Estrofes Sentidas .......................... 195 Numa Forja ................................................................................ 142 À Mesa ... 173 A Ilha de Cipango ........ 180 Canto Íntimo ................ 192 Ode ao Amor .....................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .............................. 212 5 ........................................ 190 Mistérios de um Fósforo ....................................................................................... 182 Canto de Agonia .. 156 Gemidos de Arte .............. 203 Vênus Morta .......... 155 Mater ........................................... 199 Tristezas de um Quarto Minguante ...... 162 Versos de Amor ................................................................................................................................. 176 Ave Libertas ............................... 170 A Vitória do Espírito ............................................. 200 Mãos ............................................................................. 197 Quadras ................................................................................................................................................................. 183 História de Um Vencido ......... 155 Duas Estrofes ..................................... 141 Os Doentes .......................................... 204 Viagem de um Vencido ....................................................................................................................................................................................... 209 Poema Negro . 129 A Caridade ...................................................................123 Uma noite no Cairo ......... 205 Queixas Noturnas ............................................................... 184 Idealizações ......................................................................................... 168 Noite de um Visionário ... 183 Gozo Insatisfeito .......................................................................................................................... 186 Insônia ......................................... 175 Barcarola ............128 As Cismas do Destino ......................

acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. na verdade. Por conseguinte. pois. isto é. o eu fora do Eu. e era aí. contudo. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. Sua personalidade singular ali se projeta. não conhecemos sequer a nossa. ed. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. em suas mensagens de angústia. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. Teria sido um neurótico para uns. 1962) 6 . não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. compreendendo inclusive a estilística. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. RJ. entrava em crise espiritual. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. na chaga viva de sua consciência. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. poder conhecer a árvore pelo fruto. no que há de mais sutil e imponderável. quando. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. paremos reverentes à porta do templo. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Deste modo. Gráfica Ouvidor. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. nesse estado de superexcitação. que o não convencia de todo. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. nos moldes da velha orientação impressionista. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. Não me parece. um psicastênico para outros.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. Nalgum ponto. que é de todas a menos operante. desejosos de. ao menos. senão em mais de um. numa atitude de respeito e reflexão. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. Nessa tentativa de interpretação psicológica. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. Fazer o elogio do poeta. É preciso. segundo as síndromes patológicas revelados.

quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. aos que se acomodam. estudante de medicina. por vezes controvertidos. Juízo é coisa que todos julgam ter. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. Byron. só ele dava a impressão de um desajustado. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. do sentimento. a de Nietzche. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. repetindo conceitos. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. Nem os que nasceram antes. sobretudo quando provém da linha materna. por motivos vários. em relação com a casuística. tem sido Augusto comparado a Leopardi. Ao que se sabe. Sem o concurso da causa primária. E por curiosa coincidência. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. Obviamente. nas modalidades do caráter. caracterizado por uma sensibilidade doentia. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. a de Leopardi. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. aos que se rebaixam para subir. Augusto não era um homem igual aos outros. com preocupações de grandeza e fidalguia. perturbou-a por muito tempo. que nada explica. nem os que vieram depois. igualmente inteligentes. reduzir tudo a categorismo. além mesmo da gravidez. a partir de Lombroso. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. causada pela perda imprevista de um irmão querido. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. como é do gosto da crítica científica. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. Nietzche. que já era constitucionalmente quase louca. no final. sestros. tiques nervosos. o refinamento de suas faculdades morais. da inteligência. não há negar também a dos psicológicos. a de Wilde. sobre o seu caso clínico. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. menos a de Byron. Isto posto. enfim. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos.for. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. na classificação dos antropologistas do século passado. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . Explica-se deste modo. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. enfim. não é possível interpretar a obra de um escritor. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. fobias. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. A mãe do poeta. Pai e irmãos passavam por normais. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. de fundo genético. choques emocionais. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. Assim como a mãe de Augusto. Por seu parentesco espiritual. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. a de Byron. todo o seu temperamento emocional.

Falava nele o positivista que. até o túmulo. saído da roça. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. para aprazimento intelectual das elites. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. como uma fatalidade.Augusto com a sua personalidade psicológica. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. o seu tipo de pássaro molhado. a sua própria vida sem problemas. A par disso. em 1900. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. ao invés de um estudante bisonho. Nada de admirar. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. estavam a fazer dele um lírico. Muito cedo. em Monólogos de uma Sombra. era um introvertido. Alexandre dos Anjos. segundo os primeiros retratos que temos dele. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. Com seu pai. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. mas no final 8 . sofregamente bebida nas academias. em sua linha tomista. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. O que há de singular nele não é. Era de fato um excêntrico. para maior complicação de sua personalidade. que a metafísica estava morta. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. guiado apenas pela ilustração paterna. logo mais. conforme disse num soneto que não consta. Deste modo. dr. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. inspirado na natureza e no amor. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. no último ano do século passado. visto ter nascido poeta. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. cuja vida corria sem obstáculos. a rigor. aprendeu a ler e. em prefácio à segunda edição do Eu. que lançou em 1919. é a vocação que já revelava para o infortúnio. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. Coelho Rodrigues. evolvia para o evolucionismo de Speneer. Já em 1875. sofreu duros reveses. A paisagem bucólica da várzea. cinco anos após a sua morte. em contraste com a mocidade e a inteligência. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. na várzea do Paraíba. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. O rapazinho de 16 anos. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. sem afastar-se do lar. a quietude da vida na província. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. como expressão do pensamento nacional. do Eu. bradava para o conceituado mestre que o argüia. com o título Eu e Outras Poesias. os quais o acompanhariam. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. Logo mais. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. Sílvio Romero. mas não era somente isso. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função.

desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. proceda ou não proceda. que. confundidas ambas na unidade cósmica. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. Os menos letrados. conciliada. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. ficava a escutar os companheiros. Na Paraíba. nas concepções filosóficas de seus poemas. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. se o diabo é tão feio como o pintam. Ao que parece. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. introduziu entre nós a poesia científica. ou mesmo. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. mas a origem simiesca do homem. faziam praça de livres pensadores. O beatério era o último reduto do catolicismo. como uma velharia do século. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. a velha Escolástica. suportou a mais dura crise. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. Aliás. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. emancipou-se dela intelectualmente. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. firmava-se o conceito. os intelectuais mais dotados. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. em sua. com a evolução da matéria e do espírito. aliás bem pouco lisonjeiro. que só cuidava de preocupações teológicas. Desta forma. como toda substância animada. entre o mundo da forma e o mundo da razão. José Américo de Almeida. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. aliás. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. o pensamento ao longe. a exemplo de Victor Hugo. em seu livro Frases e Notas. Até no Piauí. Nas rodas que se faziam na Paraíba. Por todo o Nordeste. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. já no seu ocaso. Augusto pouco falava. Ainda na fase preparatória de estudos. tentou o milagre de 9 . não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. Desses embates. Martins Júnior. um século antes de Hugo. está sujeita também ao processo da evolução. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. de que católico era sinônimo de burro. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. Comte passou. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. Embora educado na religião católica. Laurindo Leão. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. Esquisitão que era. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. isto é. de onde saiu formado em 1907. adepto do positivismo. já lidos nos filósofos da natureza. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. desde Haller. dupla feição de filósofo e de poeta.

e—crente no tema. na larva que procede do caos telúrico. já diferenciado na mônada. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. Pólipo de recônditas reentrâncias. até adquirir a forma humana. Larva do caos telúrico. fundado na unidade cósmica. identifica-se na substância primeva. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. A saúde das forças subterrâneas. E assim continua. facilmente o identifica. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. como amostra. Encontra-se. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. que passou do reino vegetal para o animal. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos.. chega aos seres mais complexos. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Aos 17 anos. ora transfigurado em filósofo moderno. depois de infinitas transformações.. Não há. Quem já o leu uma vez. Venho de outras eras. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. A simbiose das coisas me equilibra. É a sua confissão de f transformista. começa então o drama crucial da consciência. a consciência 10 . Vejamos. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. O aspecto conceptual do poema. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. trinta anos antes. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. simultâneas. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. 186 versos. Em minha ignota mônada. ampla. nas duas composições uma coincidência de temas. por força das sucessivas mutações da matéria. numa caminhada de 31 estâncias. naquela mesma idade em que. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. já desiludido. Da substância de todas as substâncias. todavia. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. E é de mim que decorrem. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. procedo Da escuridão do cósmico segredo. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. Rimbaud escrevera Bateau ivre. terso na linguagem. poema que abre o Eu e Outras Poesias. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. Integrado na sociedade.. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. vibra A alma dos movimentos rotatórios. incomparável na forma musicada. “esse mineiro doido das origens”. enfim. A partir da monera.. Do cosmopolitismo das moneras.reduzir a um campo único a ciência e a arte. como bem observa Cavalcanti Proença. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. que é a derrota da humanidade. Não sofre apenas a sua dor.

manifestou o seu espanto. do ponto de vista metafísico. como está dito em Monólogos de uma Sombra. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. que a ele não interessava considerar. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. segundo querem os frenologistas. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. Por alma. noção trivialíssima das funções orgânicas. No fundo. uma espécie de fogo que devora e não consome. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. A partir dai. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . entrega-se ao sacrifício. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. o que vale dizer. o vidente de Patmos: . Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. assombrado com o não-ser. dentro do mundo fenomenal. A rigor. cuido não estar proferindo uma heresia. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. há que distinguir um pormenor. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. No tocante à transformação da matéria. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. numa espécie de solidariedade subjetiva. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. natural de minha terra. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. dezenove séculos antes. centro de toda a acuidade sensorial.conspurcada de gozo malsão. ouvia mais que um tísico. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. conheci um sujeito. temos aí um transformismo metafísico. A mesma coisa. tantas vezes exaltada pelo poeta. Por fim. O próprio Augusto. entendia o agregado abstrato da saudade. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. Nesse estado d’alma. com sótão e porão. chamando a si. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista.No princípio era o Verbo. diante das maravilhas do aparelho encefálico. É a concepção monística. Nada obstante. já havia dito. o sofrimento de toda a humanidade. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. no entanto. o remorso já acordado na caverna escura. que tinha os ouvidos totalmente tapados. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. que faz quase lembrar a reencarnação. no princípio era a força. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. em esconderijos apropriados.

. Mas como é preciso preencher um claro na consciência.. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Sofro.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Ao invés de fecundação do espírito. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Custa crer que este soneto . perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir.Fazer a luz do cérebro que pensa. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. cadáveres e bocas necrófagas. Profundissimamente hipocondríaco. A influência má dos signos do zodíaco. o éter cósmico. o lado malsão da vida. dominado por um ceticismo acabrunhador. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. só serviu para adensar o clima de alucinação. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. a matéria putrefata. O próprio amor. causa-lhe repugnância. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. admite o éter. No auge da inquietação. Exausto da luta. Monstro de escuridão e rutilância. procura penetrar o mistério da substância universal. procura 12 .Psicologia de um Vencido . Por toda parte. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. onde não há lugar para a alegria. Em tudo. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. O mundo em que vive é um vasto hospital. Este ambiente me causa repugnância. sem problemas materiais: Eu. vermes. E há-de deixar-me apenas os cabelos. onde imperam sombras. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. Querendo fugir a essas coisas. impreca. que é o Deus materialista de Haeckel. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. Já o verme . desde a epigênese da infância. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. rasgar do mundo o velário espêsso. fonte inesgotável de vida. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. uma natureza gasta. Nem por isso admite Deus.este operário das ruínas. na melhor das suposições. solta blasfêmias. filho do carbono e do amoníaco.

Algo de mais grave. acompanham-no. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. coberto de desgraças.. O resultado de bilhões de raças Que. uma desgraça na vida do poeta. gasta imensas energias e enche de culminâncias. em suas visões oníricas. Espera aí encontrar o seu nirvana. O subconsciente o aturde. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. a perda da crença e. Até agora 13 . De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. não há homem que sofra mais. que exulta triunfante: Gozo o prazer. E para não capitular a esse apelo. com o poder de sua imaginação. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. monstros terríveis. no todo ou em parte. Há. E via em mim. sente o desejo. Com efeito. com efeito. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. Mas o diabo não larga a sua presa. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. seria capaz de executar o quadro de suas aflições.. Por um instante. que os anos não carcomem. tenta ir ao fundo da crença monística. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer.refúgio na inexistência espiritual. o Eu e Outras Poesias. como se supunha. já cansado de escutar a natureza. Tudo isso. A julgar pelos seus gemidos. a terrível moléstia que se atribui. que ele denomina um sonho ladrão. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. evadido de si mesmo. Nenhum pintor. Onde quer que se refugie. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. Grita a sua dor por toda parte e. nem Haeckel compreenderam. E é nesta manumissão schopenhauriana. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. numa atitude mental de fuga à realidade. deve ter acontecido na sua juventude. paralelamente. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Depois disso. Antes de mais nada. diz ele. podia fazer dele um triste.

. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. Por mais que procure fugir ao assunto.. Trata-se. no capítulo do amor. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Por mais que Augusto negue o amor. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. desespero virtual e não real. que é o drama mais doloroso de sua consciência.. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Por suas próprias palavras. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. não pode ocultar que foi vítima dele. pois. de uma paixão. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. inútil seria qualquer esforço. Iríamos a um país de eternas pazes. sempre se revela. em . dada a ausência de biografia. no tocante a esse drama. Exatamente aí. . Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Ele próprio. Lembro-me bem. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Gozei numa hora séculos de afagos. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Por enquanto.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Sonâmbulo. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. mas no poema ..referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. Noite. surpreende com a invocação de Santa Francisca. confessa mais uma vez a sua culpa. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. ao mesmo tempo que.Queixas Noturnas . Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. eu também vou passando Sonâmbulo. contrito. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim..Insônia . em mágoa. Depois de embebedado deste vinho. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. E invejo o sofrimento desta Santa.. Como um bemol ou como um sustenido. nunca foi chegado a santos. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. Sonâmbulo.santa.. O poeta.extravasava desta forma o seu lamento: 19 ... como em . que não é das mais invocadas. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. como é sabido.

Ao pai. Da mãe. dormir primeiro.As Cismas do Destino . como referiu vagamente em As Cismas do Destino. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. Madrugada de treze de janeiro. pouco fala. Nem uma névoa no estrelado véu. não para ele.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio.. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. que não admite a vida espiritual. luta por fugir dela. entre estes monstros. Mãe. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Ao vê-lo morto. entre as estrelas flóreas. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. mas para os que crêem há ainda uma esperança. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. como perseguido pela sinistra ceifeira. quando a morte o olhar lhe vidra. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. sonhando.. Rezo. Mas pareceu-me. Minha alma sai agoniada. entretanto. o ofício da agonia. Em . ama-o até mesmo na atômica desordem. sem resolver a verdade interior. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. A morte é o fim de tudo. num carro azul de glórias. Como Elias. expressa a sua mágoa numa comovente unção.brada: 20 . apenas três vezes. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. que parece se deixou levar por pressão da família.

Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino.. as palavras também servem para ocultar o pensamento. como em toda a obra. cheio de imperfeições. escravo do raciocínio frio. Nada o consolava nesse estado de espírito. devia ter na época. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. E ainda. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama.. Procura assim desoprimir o coração. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. que Augusto era um cerebral. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. 22 anos de idade. Forma difusa da matéria imbele. Já que não crê em Deus. Vivia um mundo à parte. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente.. Nestas condições.Morte. Por tua causa apodreci nas cruzes. Aqui. quando recebeu os 22 açoites da natureza. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Não me parece tenha razão 21 . Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. ponto final da última cena. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. não cria em Deus. habitado por monstros humanos. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Minha filosofia te repele. Acha Flósculo da Nóbrega. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. embora ansiasse por encontrá-lo. levava-o a recolher-se em si mesmo. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. Ao invés de ajustá-lo à realidade. ardendo em indagações subjectivas. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade.. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes.

e a mim pergunto. foram produzidos no Pau D’Arco. entrava em crise espiritual. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. além de pouco. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. Depois que o poeta deixou a Paraíba. Nem ele próprio se conhecia. Ao contemplar esse ambiente. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. em 1912. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. que o acolhia com carinho. Desta. um homem excluído do mundo. ao contrário. sua musa empalideceu à falta de ambiente. contudo. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. Fosse como ele diz. andar bamboleante. mas no particular. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana.o ilustre intelectual paraibano. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. Não que tenha recebido ofensas dela. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. no caso. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. os de maior densidade emocional. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. Punha-se então a passear. De um modo geral. volta-se vez por outra contra a sociedade. que só repugnância lhe causava. conforme declarou nesta honesta confissão. nunca recebeu hostilidades. Há. tinha-se na conta de um doente. ao redor da capela do engenho. Era. Na luta em que Augusto se debate. passos largos. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. A inspiração despertava com a dor. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. de vez que ninguém o compreendia. que o 22 . noite a dentro. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. Não importa que tenha morrido de pneumonia. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. Os seus melhores versos. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. No fundo. o cérebro em fogo. mas porque se sente um desajustado. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. O que produziu no sul do País. como um sonâmbulo. torturado no sentimento do desamparo. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes.

em Os Doentes. onde os anjos cantavam. à guisa de ácido resíduo. 23 . entra a descrever a cidade dos lázaros. como se já tivesse perdido o alento de viver. pois. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. “na urbe natal do Desconsolo”. aliada à descrença. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres.próprio poeta confessava. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. Essa real ou imaginária doença. num desalento ainda maior. hosanas ao Senhor. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. os acordes saudosos do coração. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. como um arrependido. Em As Cismas do Destino. Mais adiante. eis que escuta. Parece que desperta para a vida. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. perdeu também a crença. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. Eu bem sabia. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. como ele chamava. numa emoção que comove. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. confessa-se minado pela tuberculose. Já cansado do ceticismo. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. atormenta-se com a idéia de que. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. Na ascensão barométrica da calma. Depois disso. fez dele um misantropo. Era ali. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. Perdido o amor. que admirar chore um dia a crença perdida. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. De início. o soneto Vandalismo. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. passa a chorar a sua dor e a alheia. Não há. na terra onde pisava. imaginária cidade à margem do Paraíba. ansiado e contrafeito. sob os seus pés. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. Lá para o fim do poema. em serenata.

Assim é que. No final de contas. Canta a aleluia virginal das crenças. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. A arte. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. quase todos. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor.. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. em serenatas. Dos outros. Enfim. há sempre o que referir. Flóscolo da Nóbrega. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. Raul Machado. na Academia Paraibana de Letras. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. ler. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. que não é biografia e não chega a ser estudo. este último. Santos Neto. João Lélis e De Castro e Silva. posto que. Sabe-se como compunha. gostar e não gostar é coisa que se não discute. que se afundava a alma do poeta. tenham bordejado na superfície do abismo em.. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. Álvaro de Carvalho. José Américo de Almeida. No desespero dos iconoclastas. destaco Órris Soares. Ao contrário da incontinente afirmativa. Onde um nume de amor. chegou a dizer que Augusto não era poeta. para ele. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. em gemidos de dor. apenas como autor de um livro apologético. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. João Lélis. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . já na 27ª edição. pois.Meu coração tem catedrais imensas. Não é. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. era apenas o meio de formular soluções. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. muitas opiniões foram veiculadas. Nesse decurso. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Sua obra. Templos de priscas e longínquas datas. por exemplo. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso.

como lamenta o crítico. entrava disciplinada em seus versos. em 1945. que não tenha fecundado a poesia nacional. duendes. certa preocupação inclusive dos simbolistas.devoradoras. escarros. Por tudo isso. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. o que era. lábios crispados. Neles. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. à primeira vista incompatível com a poesia. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. Essa crítica. Em ter ficado sozinho. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. enquanto forjava mentalmente a composição. Em ambos. olhar perdido no espaço. figuras espectrais e outras visões sinistras. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. sangue de vísceras dilaceradas. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. o sentimento parece ter outra dimensão. reside justamente no termo técnico. a sua personalidade psicológica. vermes. Foi então que recitou de inopino. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. de um a outro canto da sala. claro que avulta ainda mais o seu mérito. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. Os versos espoucavam no momento da inspiração. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. associado à vibração sonora. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. entre nós. a densidade. Cavalcanti Proença. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. um em 1920. túmulos. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. Órris Soares. Essa incompreensão a respeito de Augusto. este na prosa. impressionam pelo poder da dialética. o que acabava de compor. Muitas vezes. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. lá fora. a passear a esmo. como em compasso de música. sobretudo da crítica provinciana. No entanto. disse que uma das suas forças. Só depois de elaborada é que ia para o papel. Poe e Rimbaud. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. Euclides da Cunha. Seus versos. também 25 . seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. o outro 25 anos depois. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. na época. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. num timbre especial de voz. insulado em sua própria grandeza. que pretende ser de interpretação psicológica. essa linguagem. com efeito.

como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Eis porque. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. aparelhou. Não pode o critico ser ortodoxo. neste ensaio de exegese literária. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Mas é preciso notar que essa musa. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Com Mallarmé. no duelo da carne. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. na interpretação de um drama emocional. reconheça-se que essa poesia é humana. pelas crises espirituais porque ambos passaram. num dos seus últimos sonetos. mesmo doentia. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. que apenas transparece em linguagem evasiva. a fim de atingir. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. nem tudo pode ter cabimento. Nem por isso. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Com Verlaine. Há. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. não lhe tira o vigor da expressão verbal. pela tristeza indefinível da alma. com efeito. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. Com Baudelaire. é mais uma aversão de olfato alérgico. de sentido mais profundo. elogios ou restrições. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. O anojamento de Álvaro de Carvalho. por isso mesmo poética. como se vê. 26 . Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual.ficaram sem seguidores. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. está em tempo de ser feita. Ou então.

havia acentuada tendência do poeta. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. numa sexta-feira santa. Honesto em tudo. guardando o corpo do Divino Mestre. um grande medo toma conta do poeta. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. só nesse ponto dissimula o pensamento. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém.. no ar de minha terra. em tropos ousados. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. Não fica apenas aí o confronto. Também no amor os dois se assemelham. um mês após a morte de Augusto. os mesmos descuidos de metro e rima. palavras raras e eruditas. em termos de comparação. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. Vez por outra. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. por sua natureza. assentado sobre cacos de pote e urtigas. isso mesmo de passagem. A mesma coisa ocorre com Augusto. de uma honestidade quase bravia. de mistura com alucinações. temida pelo outro. encontra-se em Roma. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. a idéia pura das coisas. Com Antero do Quental. como neste exemplo: 27 . Augusto lembra Rimbaud. em quem se acumulam. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. Súbito. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. na postura de um campônio rústico. Segundo Delahaye. em grupos prosternados.através da sensação. Até nas aliterações e metáforas. desde a sua fase inicial. sensações simples e cenestesias. Ouvindo isso. “Na Eternidade. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Só com Rimbaud. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. as mesmas figuras de linguagem. Encontra-se. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. desejada por um. foi José Américo de Almeida. É. a filosofia da dor. na terra santa. citado por Augusto Meyer. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. para a neologia e o vocábulo raro. O único que mencionou Rimbaud. que dialoga com os elementos imponderáveis. vem o barulho das matracas.. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. De lá de fora. visionário. crematismos. pelo sentido da dor universal.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. Com Leopardi. num artigo publicado em 1914.

poeta. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. mas que o levaram ao resultado conhecido. filha legítima de sua alma. Rimbaud. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. Augusto sentia-se puro. é improfícuo. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. chupo-a. vítima de injustiças humanas.. largou-se para a África. ilusão treda! O amor. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. A toda boca que o não prova engana. que era o seu anseio máximo. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. a julgar pelos seus lamentos. é inútil. Motivos escabrosos. é verdade. Há. homens de bem cheios de nobres intenções. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. sente-se que há um complexo de culpa. por causas várias.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. Ninguém sofre mais do que ele. em busca do paraíso terrestre. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. embora tenham se casado e tido filhos. provo-a. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. segundo é fama. o bem e o mal caminhando juntos. andou conspurcado de sensações súcubas. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. um suave concerto espiritual na natureza. é como a cana azeda. Em cada um deles.. em suma. Não sou capaz de amar mulher alguma. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. contudo. Descasco-a. E como não 28 . como Tântalo. uma diferença de fundo entre os dois poetas. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. onde se casou com uma nativa da Abissínia. Depois desse fato. na Bélgica. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto.”. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. No tempo de jovem. exacerbava-a. à beira da água. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. .. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas.

que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. os mistérios da natureza. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . imitação. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Um problema sempre gera outro. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. numa reação inócua. revolta-se contra o mundo. beleza. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. som. tudo quanto eleva os sentidos. Há muitas espécies de conversões em literatura. Não raras vezes. Mesmo assim. Tais similitudes valeriam. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. perdia-se no estado de dúvida. entre a voz do sentimento e a da razão.espécie de autobiografia moral.Une Saison en Enfer . A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. Possuído do demônio da dúvida. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. o amor. A vida.. mas nem isso acredito tenha havido. Por curioso paradoxo. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. porém. depois que perdeu a ilusão dos homens. como fontes de inspiração. cor. segundo apregoam os fundibulários da crítica. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud.pode reformar o mundo. Foi a partir daí. conforme confissão feita a Mário de Alencar. isto é. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. a criação. silvos de labaredas e suspiros de empestados. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Neste passo. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. quando muito. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. contra a sociedade. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. martelada em versos magníficos e candentes. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. 29 . tudo quanto desperta a alma. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. perfume. Augusto vai irredento até o fim. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. luz. do qual se considerava prisioneiro. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. sem preencher esse vácuo. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. deixava-se ficar no interior da concha. dessa conversão ao materialismo. chegaríamos por certo ao pai Homero que. onde não faltavam o ranger de dentes. isto é. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. contra a sua grei. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor.

via de regra. Se há Deus. a essência dos Evangelhos. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. Ora. Na prática. em torrentes de eloqüência. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. tal como Rimbaud. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. um pedido de socorro. se manifesta ainda escravo do batismo. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. Todos nós. Ao cabo do bombardeio oratório. a propósito. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. na realidade. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. com raríssimas exceções. 30 .Enredado em idéias preconcebidas. Se o Cristo não vem em seu auxílio. porquanto Deus é princípio e é fim. a meu ver. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. como ninguém ainda se entendesse. em meio a tantas emoções extravasadas. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. se sucediam na tribuna. resolveu o presidente submeter a questão a votos. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. proclamou que Deus não existe. No meio em que viveu era querido e admirado. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. É o que há. que se veja na blasfêmia. no desespero de tantos sofrimentos. Apurada a eleição e com base no resultado. Os oradores. mas os que o seguem desconhecem. outros negando. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. Convém. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. uns afirmando. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. heresia maior que a do poeta quando. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. viram nisso o pecado da blasfêmia. aceitar as imperfeições do mundo. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. nas Alterosas. Vale mencionar. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. quando não proferida por modo vulgar e chulo. afetando melindres de devotos. Alguns críticos. todavia. se não há Deus. é questão que não deve ser formulada. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. supria-se do mais no magistério particular. Isso mostra que ele. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. é.

31 . coisa que não cabe na boca de um ateu.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . virtudes que cultivava com extremado zelo. De outras vezes. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. entendiam a alma. No tempo de meu Pai. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. Como uma vela fúnebre de cera. por mãos de seu filho Pirro. explodiu em As Cismas do Destino. Por outro lado. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. A denominação. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. sob estes galhos. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia.atormentado por visões escatológicas. dá à alma a denominação de sombra. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. como uma caixa derradeira. desde Tales de Mileto. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas.Debaixo do Tamarindo. E como era sincero e honesto. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. De inflexões mentais sua obra anda cheia. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. os filósofos iônios. através dos séculos. o sacrifício da linda moça Polixena. Voltando à pátria da homogeneidade. Abraçada com a própria Eternidade. vem de muito longe. começa o poema “Sou uma Sombra. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. como se vê.

mais dotados de inteligência e espírito de penetração. para ele. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. vacilante na ciência fria. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. Choram ainda dentro dele. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. 32 . isto é. larva do caos telúrico. tal como se apresenta. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. como entidade eterna. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. em soluços quase humanos. É a substância primeva. tal como a entendiam os filósofos iônios. em Leopoldina. as formas microscópicas do mundo. Assim vai. era uma mônada. em briga com o dualismo. !" Este trabalho. acrescenta. perdendo-se novamente no enleio cósmico. Mais poderia dizer agora. sua intimidade numenal. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. aos 30 anos de idade. a 12 de novembro de 1914. assaltado de alucinações. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. que procede do éter cósmico. Que outros. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. Até Deus. Daí por diante. na Federação das Academias de Letras do Brasil.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. mas dentro da alma aflita Via Deus . virtualidade espiritual. nas composições que vão até o fim do livro. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. até mesmo num grão de areia. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. até que morre numa cidade das Alterosas. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. mas com o que ai está me contento. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. da substância de todas as substâncias. desde o declínio das crenças mitológicas.

Sofre de insônia. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. entretanto. Córdula C. Eu. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. R. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. presumo. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. Tenho insônia raras vezes. Engenho Pau d'Arco. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. de abusar um pouco do café. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. Rio de Janeiro. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. o que não impede. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. Conservo de memória tudo quanto produzo. 33 . chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. dos Anjos e D. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. da chamada vida física. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir.

TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite.. filho do carbono e do amoníaco. Meu Deus! E este morcego! E. Ergo-me a tremer.. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . igual a um olho. Fecho o ferrolho E olho o teto. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. Sofro...” -. Já o verme -. “Vou mandar levantar outra parede. Este ambiente me causa repugnância.Digo.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. agora. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Esforços faço. Monstro de escuridão e rutilância. Chego A tocá-lo. desde a epigênese da infância. Ao meu quarto me recolho. Minh’alma se concentra. A influência má dos signos do zodíaco. E há de deixar-me apenas os cabelos. Produndissimamente hipocondríaco. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. e à vida em geral declara guerra. E vejo-o ainda. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça.

e quase morta. quando sonha. Mas. tênue. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes.. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. raquítica. Chega em seguida às cordas da laringe. Delibera. em desintegrações maravilhosas. Anoitece. Deixa circunferências de peçonha. mínima. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo.. Que.. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. de repente. Riem as meretrizes no Cassino.. À noite. Quebra a força centrípeta que a amarra. e depois. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Tísica. Em qualquer parte onde a cabeça ponha.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas.

Que poder embriológico fatal Destruiu.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Realizavam-se os partos mais obscuros. em letras garrafais. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Em que lugar irás passar a infância. Tragicamente anônimo.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. feto esquecido.. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Fruto rubro de carne agonizante. Agregado infeliz de sangue e cal.. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. com a sinergia de um gigante. em vez de achar a luz que os Céus inflama. E. a feder?! Ah! Possas tu dormir.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea.. Ah! Para ele é que a carne podre fica. E vive em contubérnio com a bactéria. arrima-a. Livre das roupas do antropomorfismo. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Filho da teleológica matéria. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 .Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Suficientíssima é.. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. afaga-a. E irás assim. pelos séculos adiante. para provar A incógnita alma. Cão! -. Verme -.é o seu nome obscuro de batismo. ampara-a. Almoça a podridão das drupas agras. Janta hidrópicos.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. em que tu dormes. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo... Na superabundância ou na miséria.

corte Minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração.. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. sob estes galhos. e. Voltando à pátria da homogeneidade. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. esta tesoura. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. Dr. como uma caixa derradeira. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 .DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai.. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. de amplos agasalhos. portanto. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. esta árvore.. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. Guarda. Como uma vela fúnebre de cera.

mas dentro da alma aflita Via Deus -. com o esqueleto ao lado. um dia. Como um pagão no altar de Proserpina. Na guturalidade do meu brado. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. Por trás dos ermos túmulos. por toda a pro-dinâmica infinita. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . Alheio ao velho cálculo dos dias. com uma ânsia sibarita.. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. -. como quem tudo repele. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta.. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.

Dentro do ângulo diedro da parede. Ah! De ti foi que. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Nos estados prodrômicos da vida. Oh! Mãe original das outras formas. Todas as noites. vede: É o grande bebedeouro coletivo. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. como um gado vivo. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . talvez.. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Como quase impalpável gelatina.. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. autônoma e sem normas. mísera e mofina. moços do mundo. Onde os bandalhos. Em que é mister que o gênero humano entre.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. nesta rede.

se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra... Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous .IDEALISMO Falas de amor. É. Amo o coveiro -. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . como o filósofo mais crente. Creio. é o pneuma . perante a evolução imensa. para o amor sagrado. é o ego sum qui sum . O mundo fique imaterializado -.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. É a morte. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira.

Pelas monotonias siderais. talvez as Musas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . Era tarde! Fazia muito frio. Vaguei um século. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam... com a alma às escuras. Cinzas. cartilagens Oriundas. como os sonhos dos selvagens. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente.. subi talvez às máximas alturas. À meia-noite. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. Mas.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. Comi meus olhos crus no cemitério. caixas cranianas. nele. e. improficuamente. se hoje volto assim. inclusas. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério..

Na multiplicidade dos teus ramos. selvas. vales. inda teremos filhos! 43 . tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. em diferentes Florestas. Tamarindo de minha desventura. no Dia de Juízo. porém. Se fosses Deus. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. pois. Depois da morte. com o envelhecimento da nervura. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. Eu.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. Tu.fontes de perdão -. trilhos. glebas. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. tuas sementes! E assim. reunidos. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Pelo muito que em vida nos amamos. para o Futuro. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -.

Ter o destino de uma larva fria. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. É meu destino viver junto a esa asa. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. à categoria Das organizações liliputianas. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. Perseguido por todos os reveses..INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. Apraz-me.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. Ganem todos os vícios de uma vez. Como a cinza que vive junto à brasa. Na orgia heliogabálica do mundo. Como os Goncourts. asa De mau agouro que.. nos doze meses. É-me grato adstringir-me.. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. na hierarquia Das formas vivas..

conquanto ainda hoje em dia. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. a mim. aos soluços. o Homem.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. “À luz da epicurista ataraxia. em desalento. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. É como o paralítico que.. “Homem. com os dedos brutos Para falar. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. violento. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. rasga o papel. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. Ouvindo a Escada e o Mar. o Hércules. mamífero inferior.. puxa e repuxa a língua.

agora. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. Sinhá-Mocinha..DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. Que a mim somente cabe o furto feito. em minha cama. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. o ouro que brilha. minha ama. Eu furtei mais. como cruéis e hórridas hastas. Furtaste a moeda só. minha Mãe. Em sucessivas atuações nefastas. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas.. ralhava. então. não fora ela! --“ E maldizia a sina.. Que ela absolutamente não furtava. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. afetava Susceptibilidade de menina: “-. Vejo. entretanto. Ele hoje vê que. Tu só furtaste a moeda.Não. mas eu. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 .. hipócrita. após tudo perdido.

. do que este que palmilho E que me assombra. e. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. num festim. E tu mesmo. aos reais convivas. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. porém.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos... que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. à noite. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. É noite.. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo... igual a um porco. após a árdua e atra refrega. Assim Tântalo... Hás de engolir. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 .a mãe comum -. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos.o brilho Destes meus olhos apagou!. Hoje.

Deus. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!.. para amenizar as dores tuas.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. para onde fores. Tu. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -.. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. Eu. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. meu Pai?! Que mão sombria. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. gemendo. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. trilhando as mesmas ruas. O que o homem ama e o que o homem abomina. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. e o ângulo reto. e sendo justo.. O Amor e a Paz. pois.. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. é justo. Pai. Às alegrias juntam-se as tristezas. o Ódio e a Carnificina. Irei também.

E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Mãe. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. num carro azul de glórias. E a marcha das moléculas regulam. Nem uma névoa no estrelado véu. Rezo.. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam.. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . entre as estrelas flóreas. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Mas pareceu-me. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra.. Como Elias..SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. sonhando. o ofício da agonia. cuidei que ele dormia.

meu pai.. Apraz-me. enfim.e ajoelhou-se.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. sôfrega e ansiosa..Disse -. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros.. Para que eu tenha uma velhice calma! -... meu filho. numa rogativa: “Não mate a árvore. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa.. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. Esta árvore. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. -. possui minh’alma!. É preciso cortá-la. pai. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 .As árvores. olhando a pátria serra. no junquilho. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho.Meu pai... meu filho. Livre deste cadeado de peçonha. para que eu viva!” E quando a árvore. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. pois. Caiu aos golpes do machado bronco.

O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha.. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. Pões-te a assobiar. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. de à antiga rota Voar. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. Tu nunca mais verás a liberdade!... Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. desde o mais prístino mito. bruto. Olha a atmosfera livre. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Continua a comer teu milho alpiste. mergulhou a cabeça no Infinito. preto e amarelo. Foi este mundo que me fez tão triste.. o amplo éter belo. não tens mais! E pois.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo.

na diuturna discórdia.. Noite alta. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. Canta a aleluia virginal das crenças. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu.. em serenatas.. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos.. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. Ante o telúrico recorte. ególatra céptico. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Templos de priscas e longínquas datas. cismava Em meu destino!. Onde um nume de amor.

toma A adaga de aço. Apedreja essa mão vil que te afaga. Acende teu cigarro! o beijo.. é a véspera do escarro. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. entre feras. Somente a Ingratidão -. veio um atleta. o gládio de aço. Toma um fósforo. uns cem. Meu coração triunfava nas arenas. E não pôde domá-lo enfim ninguém. nesta terra miserável. por fim. E à rutilância das espadas. amigo. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 .VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Veio depois um domador de hienas E outro mais. sente invevitável Necessidade de também ser fera. Mora. e.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. e doma Meu coração -. guerreiro. E qual mais pronto. por fim. Vieram todos. A mão que afaga é a mesma que apedreja. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. ao todo.. que.

podendo mover milhões de mundos. pancada por pancada. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. Ouço. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. Sabe que sofre. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos.. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. Da luz que não chegou a ser lampejo. Que. pois. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme.. Da transcendência que se não realiza. Quer resistir. nada há que traga Consolo à Mágoa.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo... E é em suma.. chorando. do Orbe oriundos. a escutar. a que só ele assiste. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. No rudimentarismo do Desejo! 54 .. A sucessividade dos segundos. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. em sons subterrâneos.

pensando. Foi que eu. feito força.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Cesse a luz. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Parem as vidas. eu. num grito de emoção. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Como a última expressão da Dor sem termo. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. me desencarcero. sincero Encontrei. afinal. a animar o cosmos ermo. Morto o comércio físico nefando. De que. que os anos não carcomem.

a vista. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. e. o olfato e o gosto! Carne. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. muito embora a alma te acenda. Diafragmas. pois. o ouvido. sem gritos. A dardejar relampejantes brilhos. a irmanar diamantes e hulhas. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros... Dói-me ver. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha.. Onde a alva flama psíquica trabalha. E o Homem — negro e heteróclito composto. arpões. numa alta aclamação. "Com essa intuição monística dos gênios. feixe de mônadas bastardas. decompondo-se. sem retumbância. Era. há inúmeros milênios. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto.. ao sol posto. Em tua podridão a herança horrenda. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos.

a porta. É a síntese. sem dor. meus semelhantes! Mas. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. Que produz muita vez. Tragicamente. opondo-se à Inércia. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. para mim que a Natureza escuto..O PÂNTANO Podem vê-lo. A convulsão meteórica do vento. E o nada do meu homem interior! 57 . é a essência pura. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. e. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. no Mundo. é o transunto. na noite escura. à espera de quem passa Para abrir-lhe.. Este pântano é o túmulo absoluto. às escâncaras.

Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. deprimindo-o . geléia humana. é natural. Vence o granito. que ainda haveres De atingir. em realidade. Antes o Nada.. Reconcentrando-se em si mesma. um dia. não progridas E em retrogradações indefinidas.. Volvas à antiga inexistência calma!. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. geléia crua. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. no teu silêncio. oh! gérmen. entanto. O espanto Convulsiona os espíritos. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água... causa do Mundo. porventura. Teu desenvolvimento continua! Antes. E hás de crescer. ainda algum dia. como o gérmen de outros seres. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. tanto Que. "Menos interiormente me conheça?!" 58 .A UM GÉRMEN Começaste a existir. em conjugação com a terra nua. e. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela.

nele. é ânsia. é transporte... é inquietude.. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante... descendo A irracionalidade primitiva. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. E a coorte Das raças todas. . Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue.. os elementos broncos. Vivem só. É a Natureza que.. Bracejamentos de álamos selvagens. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço.Todas as hermenêuticas sondagens. traçando arcos de ogivas. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. São absolutamente negativas! Araucárias...As ambições que se fizeram troncos. é o instinto horrendo De subir. . trancada num disfarce.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. Como um convite para estranhas viagens.. no seu arcano. na ordem cósmica. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens.

É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. Dói-lhe.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte.. Que o sarcófago. inteira.. oh! Dor. sol do cérebro. E. psíquico tesouro. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. acérrima e latente.. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 .. À humana comoção impondo-a. assim.. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. em suma. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te.. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.. Riqueza da alma. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. ancoradouro Dos desgraçados. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. saúde dos seres que se fanam. sem convulsão que me alvorece.

Haveis de ser no mundo subjetivo. Expressões do universo radioativo..ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante... Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . que. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. Benditos vós. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito.. em épocas futuras. pois.. Dai-me alma. para o último remígio. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . Minha continuidade emocional! 61 . Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Ions emanados do meu próprio ideal. pois. ) Com o vosso catalítico prestígio. Dai-me asas.

A espaços As cabeças. então. A carne é fogo. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. Subitamente a cerebral coréa Pára.. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . A alma arde. os pés e os braços Tombara. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração.. O cosmos sintético da Idéa Surge.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa.. Emoções extraordinárias sinto. as mãos. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. Eu sinto. Arranco do meu crânio as nebulosas..

na ânsia voraz que. Excrescência de terra singular. Rugindo. Teu coração se desagrega. Superexcitadíssimos. os dois Representam. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . enquanto as almas se confrangem. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Montão de estercorária argila preta. ávida. carne sem luz. Os dentes antropófagos que rangem. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. Sangram-te os olhos. na superfície do planeta..A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E.. Receando outras mandíbulas a esbangem. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Porque. aumenta. Hebdômadas hostis Passam. Deixa a tua alegria aos seres brutos. criatura cega. Realidade geográfica infeliz. tragando a ambiência vasta. entretanto. o alfa e o omega Amarguram-te. No desembestamento que os arrasta. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. e.

a Ciência. homens felizes. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas.. a Glória. O Amor. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. E trago em mim. soluçando.. mordem-se.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. aparelhou.. o Inferno. Sob pena. Da dor humana. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. Que força alguma inibitória acalma. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. sou maior que Dante..

O epitalâmio da Suprema Falta.. Uiva. Teço a infâmia. a alardear bárbaros sons abstrusos. Entoado asperamente. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta.. Que. à luz de fantástica ribalta. (Hoje. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. não cabendo mais dentro dos peitos. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. em voz muito alta. urdo o crime. Existo Como o cancro. a exigir que os sãos enfermem. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância.. cresto o sonho. È a saudade dos erros satisfeitos. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 .. ontem. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos.O CANTO DOS PRESOS Troa.

por fim. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. transmudado em rutilância fria. à noite. Nos paroxismos da hiperestesia. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 .. invado... pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. Ceva-se em minha carne. o Infinito se levanta À luz do luar. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. minha alma. agarro. como um corvo. O Infinitésimo e o Indeterminado. ausculto. Transponho ousadamente o átomo rude E.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. o Céu e o Inferno absorvo. dona. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa.. Feita dos mais variáveis elementos. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. enfim. apreendo.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando.

e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. como um astro. Como a luz que arde. como a luz do amanhecer. num monturo. Eu.. E acima deles. Átropos. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. aos trismos Da epilepsia horrenda. Siva. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. virgem. Laquesis. Sentia dos fenômenos o fim. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. projetado muito além da História.. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 ... defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. arder. Tifon.

sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. Nutrindo uma efeméride inferior. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.. remoinha. Hão de encontrar as gerações futuras Só. entanto..MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. nem mesmo ao ronco Do furacão que. às apalpadelas e às escuras.. neste ergástulo das vidas Danadamente. E. Branda. Folhas e frutos.. alarga-se em meu hausto.) Quem sou eu. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . a soluçar de dor?! -. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. nas minhas formas carcomidas.. rábido.. a afagar tantas feridas. tenta transpor o Ideal. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser.. Grita em meu grito.Trilhões de células vencidas. esse mundo incoerente.. Roem-na amarguras Talvez humanas. A estrutura de um mundo superior! Alta noite.

Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. -. em cisma abismadora absorto.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. sânie e perfume. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. em que me inundo. Apreendo. Penetro a essência plásmica infinita. Sou eu que. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. -. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo.. hirto. feto vivo e aborto. ateando da alma o ocíduo lume. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 .Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que.. aliando Buda ao sibarita. Massa palpável e éter. desconforto E ataraxia.

quatro. Reduzir carnes podres a algarismos. em fúlgidos letreiros.. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . por hipótese. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. -. dois. sem complicados silogismos. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque... três. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. na abismal sustância informe.. infinita como os próprios números. rádios e úmeros. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. somente em. Porque.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. cérebros. crânios. cinco.Tal é. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias.

a alma. alma.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. Qual é. assim. Por um abortamento de mecânica. na natureza espiritual. recalcados. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . me semente. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. afinal. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. Quem sabe. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. oh! delumbrada alma. íngremes. Estacionadas. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. porventura. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. De onde rebenta. e dize-me. em contrações de dor. perscruta O puerpério geológico interior. amam jazer.

APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. integérrima. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. Zarpa. Pára e. a amarra agarrada à âncora. subjugue-as ou difarce-as. alçando o hirto esporão guerreiro. o último a ser. Espião da cataclísmica surpresa.. se as Tem. que o Éter indica. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . e.. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. É a subversão universal que ameaça A Natureza. babando.. Federações sidéricas quebradas. em noite aziaga e ignota. A íngreme cordoalha úmida fica. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação.. derrota Na atual força.. derrubadas.. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. pelo orbe adiante. E eu só. sonha! Mágoas. da Massa.

invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. cave. em que arde o Ser. que ela encheu. E quando. Tragicamente.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. ainda depois da morte. e. o dolo sáxeo. Os nossos esqueletos descarnados. num triunfo surpreendente.. Haurindo o gás sulfídrico das covas. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados.. Para a perpetuação da Espécie forte. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. Dentro dos ossos. Arrancar. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. adstrito à ciência grave. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. ao cabo do último milênio. vazio! 73 . Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Em convulsivas contorções sensuais. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. Sôfrego.

agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. mancha a gleba. E... Na mão dos açougueiros. há instantes. fora. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. vendo sangue. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . A água transubstancia-se. antes do almoço... Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. iguais a espiões que acordam cedo. com um berro bárbaro de gozo. E amou.. Viu vísceras vermelhas pelo chão.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter... Horrível! O osso Frontal em fogo. eis que viu. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Olhou-se no espelho. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. Extraordinariamente atordoadora.. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. Era tão moço. Disse. Somente. Ia talvez morrer.

ante obras tais. E... me não consolo. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. No mar de humana proliferação.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!.. Leio o obsoleto Rig-Veda. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep.. Rasgo dos mundos o velário espesso. E em tudo igual a Goethe... reconheço O império da substância universal ! 75 ..

Fora da sucessão. Porque eu hoje só vivo da descrença. E assim afeito às mágoas e ao tormento. imóvel.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. imensa. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Para dar vida à dor e ao sofrimento. P’ra iluminar-me a alma descontente. ao meu lado.. atro e subterrâneo. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. Mas que no entanto me alimenta a vida. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. estranho ao mundo. Hirta. Eu a bendigo da descrença. Se acende o círio triste da Saudade. E o coração me rasga atroz. resignado. Era de vê-lo. E à dor e ao sofrimento eterno afeito.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. A Idéia estertorava-se. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. Tragicamente de si mesmo oriundo. 76 . Parecia dIzer-me: "É tarde. em meio.

desgraçado réu. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . Fugazes sonhos. eu creio em ti.Oh! Deus. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. volvi ao ceticismo.Todas se foram num festivo bando. em fundo misticismo: . O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Fraco que sou. entre o medo que o meu Ser aterra.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo.a Grande Mãe . Cansado de lutar no mundo insano. Da Igreja . Hoje ela habita a erma soledade. de ilusões tão bela. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. Não sei se viva p’ra morrer na terra. e então sereno. seu olhar magoado. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. gárrulos voando . De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. Onde a dúvida ergueu altar profano.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores.o exorcismo Terrível me feriu. sombras cor-de-rosa . Ah.

Quando a morte matar meus dissabores. tristes. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Morreram todas. senhora. langorosas. triste e descrido. Tristes fanaram redolentes rosas. Eterno pegureiro caminhando. SENHORA Ouvi. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . todas sem olores. Cansado de chorar pelas estradas. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. senhora. num mês de tantas flores. triste pela vida afora. senhora. de amor ferido.MÁGOAS Quando nasci. Ouvi. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Revolvo as cinzas de passadas eras. E que tornou-o assim. amei. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Todas murcharam. Sombrio e mudo e glacial. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. pálidas agora. Exausto de pisar mágoas pisadas. Desfeitas todas num guaiar dorido.

Ao chegar. olímpica e singela! E partiu. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. Vivia alegre o vate apaixonado. um tresloucado. Altivo lutador. Oh! Tu. pendeu triste e desmaiada. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. E fica no teu ermo entristecida. Mas a Pátria chamou-o. coração amargurado. Louco vivia.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. Cantaste e riste. No sepulcro da loura virgem bela. e o pesar negro e profundo. enamorado dela. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. venceu batalhas. Apaixonou-se d’uma virgem bela. na estrada da existência em fora. Alma arrancada do prazer do mundo. Esconde à Natureza o sofrimento. Alma viúva das paixões da vida. 79 . mas a fronte aureolada. Era o soldado. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Tu que. E voltou.

Ambos unidos soluçara um beijo. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. no eternal soluço. Fora no campo pássaros trinavam. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Desliza então a lúgubre coorte. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Chegara enfim o dia desejado. Quando da vida.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. pálidos. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. funéreos.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. São minhas crenças divinais. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. a brisa respondia. E a mesma frase o noivo repetia. Há de chegar. Vinha rompendo a aurora majestosa. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. ardentes . silentes. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. soturnais. E rompe a orquestra sepulcral da morte.

No delírio. 81 . A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. E onde a vida borbulha e o sangue medra. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Aí existe a mágoa em sua essência. Dores que ferem corações de pedra. porém. Espumando e rugindo em marulhada. Em luta co’a natura sempiterna. Mas se das minhas dores ao calvário. Assim a turba inconsciente passa.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. E espuma e ruge a cólera entranhada. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. A morte me será vingança eterna. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida.

AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Enquanto outros que podem. Somente assim festejarei teus anos. bom Papá. Irmão querido. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. dão-te enganos. estulto. Quantos. Su’alma livre para o Céu se alara. Jóias. num abraço de ternura santa. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. bonecos de formoso busto. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Pois se da Religião fizeste culto. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Tu’alma ri-se descuidosamente. Morrera um dia desvairado. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Foste do amor o mártir sacrossanto.

tomando a enxada gravemente. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. amigo verdadeiro. Do fado. esta mulher de grã beleza. aveludado. A chama cruel que arrasta os corações. presa. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Dançavam-lhe no colo perfumado. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Os seios brancos. palpitantes. divina. tinha ido ver a sepultura De um ente caro.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. No entanto. Do destino fatal. Balbuciou. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Tornou-se a pecadora vil. Bela. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. mornos. Moldada pela mão da Natureza.

E à noute quando rezam na clausura. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. E as mesmas monjas sempre tristurosas. mavioso. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. Que guardam pér’las de funéreas rosas. Trovador torturado e angustioso. úmidas arcadas. os sons esmorecendo. não acordeis.Addio. Eleonora. addio. dolente. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. . E as mesmas portas impassíveis. No sigilo das rezas misteriosas. addio! 84 . lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. desnudas. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. pouco a pouco. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. Ai! não. Assim canta também meu coração. Que guardam cinzas de ilusões passadas.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Repercute. Subindo pelo Azul da Inspiração.

coração saudoso. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. O cabelo revolto em desalinho. gargalha. Da desdita ferida pelo espinho. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. tão moça e já desventurada. No sudário de mágoa sepultada. para guardar a mágoa oculta. Arca sagrada de cerúleos sonhos. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. a desgraçada estulta. . soluça . Primavera. .a veste desgrenhada. Chora. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende.Arca cerúlea de ilusões etéreas. porém. Num sepulcro de rosas e de flores. Canta. o triste outono. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso .A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Vai morta em vida assim pelo caminho. Na auréola azul dos dias teus risonhos. os teus fulgores. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Moça. Eu sei a sua história.O segredo d’um peito torturado E hoje.

não busques saber por que. túm’lo do prazer finado. Voltam sonhos nas asas da Esperança. 86 . EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Muita gente infeliz assim não pensa. ergue o teu grito. Mas não queiras saber nunca. É minha sina perenal. Foi outrora do riso abençoado.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. ela não cansa. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. tristonha . Sonâmbulo da dor angustiado. delirante e vário. Também como ela não sucumbe a Crença. Salve-te a glória no futuro . que vivo atrelado ao desalento. Sirva-te a crença de fanal bendito. O berço onde as venturas se embalaram. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. risonha. Senhora.avança! E eu. eu trajo o luto do passado. Também espero o fim do meu tormento.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. portanto. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não.

Bela na Dor.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. sublime na Descrença.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Quem me dera morrer então risonho. Quando o rosário de seu pranto rola. Sombra perdida lá do meu Passado. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. porém. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Tenta às vezes. Mas volta logo um negro desconforto. Chora . Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. santíssima. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 .

Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. a fronte triste. Dorme talvez. a seu lado Medita. Essa sublime adoração do crente. púbere.. nevada. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. As níveas pomas do candor da rosa. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Enquanto o amante pálido. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. mimosa. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. e. pois. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Rendilhando-lhe o colo de sultana. crê em Deus. Estende o teu olhar à Natureza. ama. Branca..

. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. A romaria eterna dos aflitos. além. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. coveiro. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. Eu vivo dessas crenças que passaram. porém. dos proscritos. E na choça a lamúria que traspassa O coração. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. A alma saudosa pelo amor vibrada. Dos romeiros saudosos da desgraça. .A Stella Matutina da Desgraça! 89 .Quero abraçar o meu passado morto. Entre todos. o meu Passado.TEMPOS IDOS Não enterres. lânguida e bela.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. Vai Corina mendiga e esfarrapada. A procissão dos tristes. Tem pena dessas cinzas que ficaram. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça.

Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. Cheia da luz do cintilar de um astro. ADEUS. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. adeus. Hermeto Lima Adeus. ADEUS! E. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. Auroreando a humana consciência. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. É como um despertar de estranho mito. apenas restam mágoas. Fitando o abismo sepulcral dos mares. 90 .ADEUS. adeus! E. suspirando. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Perto. Vencendo o azul que ante si s’erguera.eu disse. Saí deixando morta a minha amada. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. Voa. se eleva em busca do infinito. devassando a terra. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Sulcando o espaço.

triste. Mas a noute chegou. irmã pálida da Aurora. Disse.LIRIAL Por que choras assim. Lá onde nunca chegue esta saudade. tristonho lírio. Envolto da tristeza no delírio.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. . P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça.A sombra deste afeto estiolado. Estrela esmaecida do Martírio. Minh’alma que de longe a acompanhava. Viu o adeus que do Céu ela enviava. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. com ela Negras sombras também foram chegando. onde não pousa a desventura. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 .Vai-te. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. E eu disse . E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora .

Estendo à Dulce a mão.Senhora. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. o algoz . E dos lábios de Dulce cai um beijo.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. e eu gemo o último harpejo. A praça estava cheia. perdão. Vítima augusta de indelével falso. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. a fé perdida. E ela fita-me.o criminoso . dai-me u’a esmola . o olhar enlanguescido. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. a minha bem amada. A esmola dum carinho apetecido. Pedir a Dulce. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. O olhar azul pregado n’amplidão. Morre-me a voz. E eu balbucio trêmula balada: .. E na atitude do Crucificado.então. 92 . E todo o dia eu vou como um perdido De dor. por entre a dolorosa estrada. Depois.e estertorada A minha voz soluça num gemido. Puro de crime. isento de pecado..

E as trevas moram. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata.. assassino. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. ave negra da Desgraça. onde d’água raso O olhar não trago. Lá. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES.. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . e. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.. acolhe-me N’asa da Morte redentora. Num desespero rábido.segue a trilha que te traça O Destino. obumbra-me em teu seio. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres..venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. Gênio das trevas lúgubres.crença Perdida . acolhe-me. Empenhada na sanha dos abutres. Há perfumes d’amor .AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses.

Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Os nimbos das procelas desta vida. Quando vos vejo.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Reflete a luz do sol que já não arde. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. num mar de esp’rança. Que o céu reflete. Mas quando o céu é límpido. Banhando a fria solidão das fragas. e a alma é a Flâmula do sonho. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. Treme na treva a púrpura da tarde. Que o guia e o leva ao porto da bonança. O MAR O mar é triste como um cemitério. então. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. a vida é qual risonho Batel. sem nenhuma Nuvem sequer. dentre a escura Treva do oceano. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. sem bruma Que a transparência tolde. só descanta. Abismados na bruma enegrecida.

..) Nessas paragens desoladas. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. Adeus oh! Dia escuro. E eu ergo preces que ninguém responde. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. FOGE! Aurora morta. Anseios d’alma aqui se perdem.. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. Aurora morta. O grande Sol de afeto . lá nos espaços.. quem dera Voar est’alma a ti. Cantarias do amor a primavera. Ascende à Claridade. Dia do meu Passado! Irrompe. agita as tuas asas. é dor. Triste criança virginal. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela.1902 95 . o meu único Norte.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. foge . Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Nem vibra a corda que a saudade esconde. Hoje é trevas. e em si a Luz consoladora Do amor . oh! Minha Mágoa. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E.o Sol que as almas doura! Fugiu. é desengano. Agora.1902 AURORA MORTA. meu Futuro.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS.

Ah! num delíquio de ventura louca.Cítara suave dos apaixonados. despertando sonhos.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco ... Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. à dolente Unção da noute. entretanto. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. Bendito o riso assim que se desata . no teu riso de anjos encantados. No alto.a Louca tenebrosa. nitente. e.NO CAMPO Tarde. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Pendem e caem . úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Branca. chorando enfloram. Chora a corrente múrmura. Quando.1902 96 . emergindo às trevas que a negrejam. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Sonorizando os sonhos já passados. ao luar. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. E há. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. as águas límpidas alvejam Com cristais.

CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Se evolarn castos. P'ra desvendar os seus segredos santos. noctâmbulo da Dor e da Saudade. sacrossantos. Também envolta num sudário — a Dor. Eu. 97 . E a lua é como um pálido sacrário. toda a cálida Mística essência desse alampadário. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. eterna noctâmbula do Amor. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. Pau d'Arco -1902. Derramam a urna dum perfume vário. Ah! como a branca e merencórea lua. Flor dos mistérios d'alma. que a virgem chora. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. é como os prantos Níveos. se duas eu tivera. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. virginais aromas De essência estranha. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras.

Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. sonhar novas idades. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. vindo de profundas fráguas. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. . Tanto que gemes. bandolim do Fado. E vais aos poucos soluçando mágoas. Tanto que cantas. e ilusões acordas. Que desespero insano me apavora! Aqui. Teu canto. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões.Quero Correr em busca do Futuro. a lua é triste e calma. Quando alta noute.Quero partir em busca do Passado.. Ali. soluças. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. Choras. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. chora um ocaso sepultado. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . Um dia morto da Ilusão às bordas. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. pompeia a luz da branca aurora..

caindo dos altares.Foge.. qual hóstia. também ria! 99 . cindindo os céus risonhos. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. mas eis que neste enleio.ARA MALDITA Como um'ave. E eu quis beijar-te o lábio redolente. Meiga. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. tu vinhas a cindir os ares. E. O céu tremia em seu trevoso flanco. E eu vi os seios teus virem inconhos .Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. E beijei-te. Tocando n'ara negra o níveo seio. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. Na etérea limpidez de um sonho branco. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. alegre e rubro. Quiseste-me beijar a ara do peito.. O sol. grave e lenta. à voz de Lúcia. agora. NA ETÉREA LIMPIDEZ. Fulgia a bruma para sempre. Caíste morta ao celestial preceito. e como Lúcia. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente.

Mas.o círio Da Quimera Falaz. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . Longe das sombras aurorais e amadas. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . Diluis teu peito em sensações profundas. e. Flores mortas da Aurora. E. o Mundo se concentre. luminosa. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. Que beija a terra e que abençoa os campos.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. em banho ideal de amor te inundas. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. urnas de Sonho. ante o branco estendal das madrugadas. E a lua. e. E a rasgar. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! .A colunata êxul do Sonho Morto . Nua. Que. ao ver-te nua. em bando. o túmulo da Crença. Sentes o peito em ânsias revoltadas. a Virgem Mãe dos céus escampos. Agora. E em mim como no Templo. eis que emerges. a rasgar o lúrido sacrário.ei-lo que avisto. Em mim como no Templo a Angústia se condensa.

De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. tudo chora. formosa. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. Plena de graça.É o castigo de Deus que passa mudo! . Etéreo como as Wilis vaporosas... Como o Cristo sagrado dos altares. Colmado o seio de virentes flores. . Quero-te assim . entre esplendores. 101 . enquanto Vai devastando o coração das casas. ela..A PESTE Filha da raiva de Jeová .O sol a segue. semeando a Morte. tudo! Quando Ela passa. A alma diluída em eterais cismares. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. Embaladas no albor da adolescência. como o sol . formosa entre as formosas.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. e a Peste ri-se.. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.Fúlgido foco de escaldantes brasas .o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim...e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas.

. o meu Sonho morreu! Perdão.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina.. .. meu anjo. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . pelo mundo. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. Eu venho arrependido. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido... Como o santo levita dos Martírios. pois. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia.. insânia. insânia. ah! ninguém me responde. penseroso e pasmo. eis-me a teus pés. a teus pés. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . pátria da Aurora exilada do Sonho! . Chegou a Noite.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. assim.CÍTARA MÍSTICA Cantas. E para mim. perdoa o teu vencido... Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho.Irei agora.. Açucena de Deus..

. sem Calvário.. Da Messalina fria no regaço. no Inferno do Gozo. porém. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. Onde nunca gemeu o humano passo. Turificando a languidez dum seio! O amor. que da Desgraça veio Maldito seja. e. supremos.. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. Banhou-me o peito. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 .AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Em ânsia de repouso. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões.. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Mas. Por um Cocito ardente e luxurioso. .

E vi-te triste. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. e a saudade da infância... . no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. a sós.. também da Dor. mulher. Como um'alma de mãe. lá dos braços hercúleos...SOMBRA IMORTAL . E estavas morta. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. . nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta.. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. estes dardos acúleos Caíam.. Sombra de gelo que me apaga a febre.E tu velas. eu que te almejo.... num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo.. eu vi.. Ah! que um dia da Vida. a noute é tumbal.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. desvalida e nua! E o olhar perdi. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais.

inata! E.. Uma pantera foi se ajoelhando. Pérolas e ouro pela serrania. Chegaste... No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Branca bem como empalecido arminho. te acolheu a mata. Choras. entanto.. o seio branco.. e.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. Alva d'aurora. Que canto é este.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol .. e é noute de fatais abrolhos. no negror me abrasa.. Que luz é esta que das brumas vasa. ajoelhando à imagem do Carinho. profundo?! Rumores santos. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. O roble altivo entreteceu4e um ninho. e no Santo harpejo. Alvorejando em arrebol de prata.. tu. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho.. Bendita a Santa do Carinho. chegando. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. E um canto vai morrer no vale fundo. Somente tristes os teus olhos vejo. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . virginal.

Já Vésper.PELO MUNDO Ânsias que pungem. e lânguida. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros.. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Qual rosa branca que ao tufão vacila. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa... mórbidos encantos. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. 106 . Fria como um crepúsculo da Judéia. no Alto. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. Triste como um soluço de Dalila.. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas.

que ao frio alvor da Mágoa Humana. Na Via-Látea fria do Nirvana.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. Silfos morriam.quem mede-o?! . QUERIDA! Vamos. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.Eterno fogo. sonolento e tardo. No ar. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . Riso. e a todo o seu assédio.Fogo sagrado nos festins da Morte .. clown da Sorte ...o voltairesco clown .. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.A hora dos tristes e dos descontentes. adormecida.O RISO "Ri. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . os gaturamos Num recesso de névoa. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. querida! Já é Ave-Maria . Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. coração. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende.Ele.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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Os ventos.. Saio de casa. NOTURNO (CHOVE. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. vão bater.. violentos. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. mas meus movimentos Susto. E em meio ás refrações verdes e hialinas. Vibra. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. batendo em todas as retinas. Desencadeados. O dia Foge. A incandescência irial dos candelabros.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão.. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. De encontro ás torres e de encontro aos muros. diante do vulto dos conventos. Surge agora a Lua.. Os passos mal seguros Trêmulo movo.) Chove.. LÁ FORA. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. Negro. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus..

Já que perdi a última batalha! E. verão.. E hoje. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. os vermes vis.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. inverno! 113 ... outono. . já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa... Que há muito tempo não cantava lá. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo..E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. Primavera. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. Diluiu o silêncio em litanias. enquanto o Tédio a carne me trabalha. poetas..

e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. Aqui é o Campo-Santo. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada.A DOR Chama-se a Dor. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. enxuto o olhar. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. ao noturno açoute. e quando passa. abraçado às campas dos poetas. Pare chorando nesta Terra Santa. Ela. Carpem na sombra pássaros ascetas. onde. Gemem poetas .Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. E se cantar como a Saudade canta. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. inda altiva. e o travo há de sentir. .. enxuta A face. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. ela..pássaros da Noute! 114 .

no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . na Suprema Altura Sinto. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. a crença e o amor. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. Luta. eu penso na Ventura! E o pensamento. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. nada há que o abata e o vença! Por isso. A CRENÇA E O AMOR O sonho. poeta. assomem Descrenças. e por fim. surjam tédios na Descrença. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. e morrem os vermes que o consomem. o sonho. Vence.O SONHO.

profundo... Foi-te mister sondar a substância das cousas . Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade.. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia.. e.. Tesouros reais. nada achaste. estudares. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade.PARA QUEM TEM NA VIDA. De que te serviu. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E.. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 .. para penetrar o mistério das lousas. auríferos tesouros. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo.. por fim. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. por fim. pois.Construíste de ilusões um mundo diferente. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. Feito no decurso de dois minutos.

. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra .. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze.. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. . E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.. no entanto. em ânsias. São dois colossos..ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. Embora oculta.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. . ela subiu. dois gigantes mudos..O NEGRO Oh! Negro.

. Quantos também. Trás de mim. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . O Sol ardia. foram buscar a Glória E que.E o horror começa! Rasga As vestes. como eu.. ver Se nesta ânsia suprema de beber.Se ao menos voasse! . Buscava Em verdes nuanças de miragens. Daí a pouco. ouve o canto aziago da coruja! . Mas eu não contarei nunca a ninguém. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava .O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!.Quer fugir... e não vê por onde fuja. Saiu. . O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . . A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício.. quantos também deixei. como eu.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. na atra estrada que trilhei. Nisto. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.. Implora a Deus como a um fetiche vago.Era o suplício!.. ira-o morrer também.Novo Sileno. ela seria morta..

. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. diz ao povo: "É pena! . Mas. Por isso.Aqui ainda havia alguma cousa..Continua a cantar.SENECTUDE PRECOCE Envelheci. pressentindo a lousa. de repente. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina.. Sei que na infância nunca tive auroras. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas.. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.. a alma serena... Olha essa neve pura! .. E afora disto. ele a morrer. vivia. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica.Foi saudade? Foi dor? .." Pau d'Arco -1905 119 .. Assim como uma casa abandonada. Não há quem nele um só tremor denote! .

em Tebas . Não mentes.. Para onde eu ia.. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . . sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. E eu me elevava. diz que ele é vivo. persuadido fica do que diz. inda com o braço altivo. A múmia de um herói do tempo de Ísis. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. Da tribo alegre que povoa os ares.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado.a tumbal cidade. não andei mais sozinho! Abraçou-me.. Diz que ele não morreu. Bem como tu. o vulto ia a meu lado E desde então. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. E... Dizes Tudo que sentes....

à tarde.. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. Por toda a parte. ia. morrer. de saudades me despedaçando De novo..E apesar disto. Teve sede e fome. onde. A lua continue sempre a nascer! 121 . Saiu aos tombos. assim como o de Jesus Cristo. triste e sem cantar. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo.. assombrado. pois. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. A percorrer desertos e desertos. como um cão covarde.O tamarindo reverdeça ainda. amigos... Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. quando Eu. assim. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. antes de viver! Meu corpo. Nada se altere em sua marcha infinda . aos tropeços. E. Existo! . com medo do Infinito. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E..NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe.

A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. Ah! Basta isto.O farmacêutico me obtemperou.. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.. .A LÁGRIMA . água e albumina.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 . porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .

. vibra A alma dos movimentos rotatórios.. Não conheço o acidente da Senectus -. sem bramânicas tesouras. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. Larva de caos telúrico. sem dispêndio algum de vírus. simultâneas... Amo o esterco.O metafisicismo de Abidarma -E trago. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. Amarguradamente se me antolha. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. ampla. Pólipo de recônditas reentrâncias. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. procedo Da escuridão do cósmico segredo.Esta universitária sanguessuga Que produz. À luz do americano plenilúnio. E é de mim que decorrem.. 123 . A podridão me serve de Evangelho. possuo uma arma -..OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Como um dorso de azêmola passiva. Em minha ignota mônada. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. Do cosmopolitismo das moneras. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras.

O coração. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. causa ubíqua de gozo. a boca. quebrando estéreis normas. Quimiotaxia. E apenas encontrou na idéia gasta. Aí vem sujo. o Homem. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. Raio X. -. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. ondulação aérea. amanhã. 124 . já nos últimos momentos. magnetismo misterioso. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. Com a cara hirta. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. O horror dessa mecânica nefasta. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. a coçar chagas plebéias.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. Ao clarão tropical da luz danada. luzem. Fonte de repulsões e de prazeres. Sonoridade potencial dos seres. Como quem se submete a uma charqueada. em síntese. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. bestas agrestes. O espólio dos seus dedos peçonhentos. abdômen. A vida fenomênica das Formas. Que. iguais a fogos passageiros.

Num suicídio graduado. Sentindo o odor das carnações abstêmias. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. o monstro as vítimas aguarda. bastarda. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. E após tantas vigílias. Brancas bacantes bêbadas o beijam. Negra paixão congênita. Numa glutonaria hedionda. em suas clélulas vilíssimas. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão.. Uivando. Como no babilônico sansara .. brincam. Sôfrego. Suas artérias hírcicas latejam. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. E explode. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. consumir-se. à noite. Como que. No horror de sua anômala nevrose.. No sombrio bazer domeretrício. À guisa de um faquir. E até os membros da família engulham... Do seu zooplasma ofídico resulta. fazendo um s. ébrio de vício.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo.. em lúbricos arroubos. vai gozar. igual à luz que o ar acomete. E à noite. Toda a sensualidade da simbiose. pelos cenóbios?!.. 125 ..

Hirto. Mostrando. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna.. E de su’alma na caverna escura. As alucinações tácteis pululam. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . Na própria ânsia dionísica do gozo. Mas muitas vezes.. A família alarmada dos remorsos. Somente a Arte. observa a ciência crua. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. Quando o prazer barbaramente a ataca.. Assim também. bêbedo de sono. Que tateando nas tênebras. com os candeeiros apagados.Macbeths da patológica vigília. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura.. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. A asa negra das moscas o horroriza. Essa necessidade de horroroso. Acorda. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Reconhecendo. em rembrandtescas telas várias. Sente que megatérios o estrangulam. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Abranda as rochas rígidas. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. esculpindo a humana mágoa. quando a noite avança. se estende Dentro da noite má. Fazendo ultra-epiléticos esforços.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Numa coreografia de danados.

sem que. entre daveiras sujas. a desintegre. Continua o martírio das criaturas: -.O homicídio nas vielas mais escuras. E. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. Prostituído talvez. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. entanto. Julgava ouvir monótonas corujas. até que minha efêmera cabeça. ouvindo estes vocábulos.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Na produção do sangue humano imenso. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . Da luz da lua aos pálidos venábulos. Executando. Era a canção da Natureza exausta.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. -. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética.. -.E reduz. em suas bases. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. Há-de ferir-me as auditivas portas. À condição de uma planície alegre. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria..

A rua é triste. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. O Cairo é de uma formosura arcaica. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. das pirâmides o quedo E atro perfil. Embaixo.. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Tonto do vinho.. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. Convulso e roto. A Lua cheia Está sinistra. Num quiosque em festa alegre turba grita. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. no apogeu da fúria.. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. Apenas como um velho stradivário. exposto ao luar. Vaga no espaço um silfo solitário.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. Dorme soturna a natureza sábia. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. Resplandece a celeste superfície.. na mais próxima planície... um saltimbanco da Ásia. discutindo. O céu claro e produndo Fulgura. conversando. Os mastins negros vão ladrando à lua.

Mas. Lembro-me bem.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Assombrado com a minha sombra magra. Ponte Buarque de Macedo. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Pensava no Destino. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia.. O calçamento Sáxeo. E aprofundando o raciocínio obscuro. Fazendo à noite os homens do Futuro. atro e vidrento. A ponte era comprida. Atravessando uma estação deserta. de asfalto rijo. com a boca aberta. Dançavam. à luz de áureos reflexos. Profundamente lúbrica e revolta. Eu vi. Eu. Apregoando e alardeando a cor nojenta. na alma da cidade. E a minha sombra enorme enchia a ponte. 129 . então. Mostrando as carnes. parodiando saraus cínicos. Uivava dentro do eu . Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. indo em direção à casa do Agra. Livres de microscópios e escalpelos.. Copiava a polidez de um crânio alvo. a irritar-me os globos oculares. O trabalho genésico dos sexos.

Ninguém compreendia o meu soluço. 130 . Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. na ígnea crosta do Cruzeiro. E. É bem possível que eu umdia cegue. Ah! Com certeza. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Deus me castigava! Por toda a parte. ainda na placenta. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. pelo menos. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte.Fetos magros. No ardor desta letal tórrida zona. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. como um réu confesso. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou.

cinco. em minha boca. de tal arte. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. estranha. Que. Que eu. aos poucos. Sob a forma de mínimas camândulas. Arrebatada pelos aneurismas. ansiado e contrafeito. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Não! Não era o meu cuspo. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. três. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. quatro. para não cuspir por toda a parte. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Eu bem sabia. quotidianamente. à guisa de ácido resíduo. Ia engolindo. cujas caudais meus beiços regam. Na ascensão barométrica da calma. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. 131 . cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Benditas sejam todas essas glândulas.E até ao fim. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo.

Vai pela escuridão pensando crimes. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. com as brancas tíbias tortas. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Siva e Arimã. a espiar-me. de certo. da cor de um doente de icterícia. ali posto De propósito. A companhia dos ladrões da noite. E o luar. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Imitando o barulho dos engasgos. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. Perpetravam-se os atos mais funestos. Buscando uma taverna que os açoite. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. Davam pancadas no adro das igrejas. lembrava ante o meu rosto. o In e os trasgos. Rodopiavam. sem pudicícia.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. maior talvez que Vinci. Com a força visualística do lince. Um sugestionador olho. À anatomia mínima da caspa. a rir. então. Iluminava. os duendes. estava ali. Nessa hora de monólogos sublimes. Ninguém. A camisa vermelha dos incestos. Livres do acre fedor das carnes mortas. Mas um lampião. para hipnotizar-me! Em tudo.

Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. A pedra dura. em que. e vence-O. Na atra dissoluçào que tudo inverte. distingo-a. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. E a palavra embrulhar-se na laringe. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Cansados de viver na paz de Buda. E o meu sonho crescia nosilâncio. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. Como bolhas febris de água. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Todos os personagens da tragédia. 133 .Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge.

134 . na dor forte do vômito. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. No meu temperamento de covarde! Mas. igual a um amniota subterrâneo. refletindo. a sós.A planta que a canícula ígnea torra. Como um bicho inferior. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. na glória da concupiscência. sobre o meu caso Vi que. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Os bêbedos alvares que me olhavam. Iam depois dormir nos lupanares Onde. Aquela humanidade parasita. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Fabricavam destarte os bastodermas. Um conjunto de gosmas amarelas. berrava. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. aflita. E apesar de já não ser assim tão tarde.

Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. o eco particular do meu Destino. ponto final da última cena. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. num fundo de caverna. como um cordão.e. Fazer da parte abstrada do Universo. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. numa ânsia rara. embora o homem te aceite. por tua causa. Reboou. 135 . Nessas perquisições que não têm pausa. pior que o remorso do assassino. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. Forma difusa da matéria embele. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Minha filosofia te repele.Prostituição ou outro qualquer nome. Ao pensar nas pessoas que perdera.. tal qual. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. em tudo imerso. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. Rolam sem eficácia os amuletos. Numa impressionadora voz interna. a morte é ingrata.. nas catedrais mais ricas.

espirra. A formação molecular da mirra. não como és. o cordeiro simbólico da Páscoa.Jamais. antes Fosses. se divide. estriada. Mesmo ainda assim. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. para que a Dor perscrutes. em síntese. Trazes. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. fora Mister que. 136 . Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. com a bronca enxada árdega. E se. a refletir teus semelhantes. magro homem. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. e a hialina lâmpada oca. sondas A estéril terra. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. por vezes.

Como uma pincelada rembrandtesca. abalando os solos. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. Os terremotos que. Onde morreu o chefe da família. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. As aves moças que perderam a asa.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. -. à espera que a mansa vítima o entre. A mentira meteórica do arco-íris. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. 137 . Que ainda degrada os povos hotentotes. sem mortalha. Lembram paióis de pólvora explodindo. O Amor e a Fome. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. O fogão apagado de uma casa. As pálpebras inchadas na vigília. Deixa os homens deitados. O tecido da roupa que se gasta. as nódoas mais espessas. A cristalização da massa térrea. O achatamento ignóbil das cabeças. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. Na sangueira concreta dos massacres. As projeções flamívomas que ofuscam. a fera ultriz que o fojo Entra.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. O antagonismo de Tífon e Osíris.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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em quaisquer horas.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. Em cuja álgida unção. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. a ameixa. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. satisfeito. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. sobre as hortas. Criando as superstições de minha terra. Apenas eu compreendo. No Alto. Além jazia os pés da serra. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. como as ervas. olhando os campos Circunjacentes. 143 . A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. A Paraíba indígena se lava! A manga. branda e beatífica. a amêndoa. Benigna água. Meu ser estacionava. o urro Reboava. de errante rio. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. alto e hórrido. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. magnânima e magnífica. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. a abóbora.

Estas não cospem sangue. Alucinado. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Cortanto as raízes do último vocábulo. Vômitos impregnados de ptialina. como inúmeros soldados. a existência Numa bacia autômata de barro. O ruído de uma tosse hereditária. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Um português cansado e incompreensível. Restos repugnantíssimos de bílis. OH! desespero das pessoas tísicas. Adivinhando o frio que há nas lousas. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. entre estrépitos e estouros. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. 144 . os micróbios assanhados Passearem.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. dores não recebem. aos bocados. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Reboando pelos séculos vindouros. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca.

Saía. hoje. com efeito. Pelas algentes Ruas. É a alfândega. com o vexame de uma fusa. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. A mágoa gaguejada de um cretino. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. em sonhos mórbidos. resfriando-vos o rosto. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. no Amazonas. a água. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. naquele instante. magras mulheres. Nos ardores danados da febre hética.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. Consoante a minha concepção vesânica. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. 145 . onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. Onde a Resignação os braços cruza. me acorda.

O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . 146 . A carcaça esquecida de um selvagem. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. Desterrado na sua própria terra. Com uma clarividência aterradora. acordando na desgraça. como um lúgubre ciclone.. espantada.Fedia. Ah! Tudo. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. caladas.. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas.. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. sem difíceis nuanças dúbias. todas as inúbias. Viu toda a podridão de sua raça. tendo o horror no rosto impresso. Jazem. E agora. por fim. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. Recebeu. adstrito à étnica escória. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. A civilização entrou na taba Em que ele estava.. entregue a vísceras glutonas. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Na tumba de Iracema!. De repente. diante a xantocróide raça loura.

roído pelos medos. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. 147 . ex.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. com voz estentorosa. A peçonha inicial de onde nascemos. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. No horror daquela noite monstruosa. Maldiziam. Todos os vocativos dos blasfemos. rolando sobre o lixo. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra.: o homem e o ofídio. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. E eu.

às vezes. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. porém. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. Anelava ficar um dia. cansado.E. Sem diferenciação de espécie alguma. 148 . na terráquea superfície. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . Tentava. o anelo instável De. Consubstanciar-me todo com a imundície. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. por epigênese. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. em suma. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. como Cristo. como um homem doido que se enforca. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. perante a cova. Eu voltarei. Reduzido à plastídula homogênea.

. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. Mas. Acordavam os bairros da luxúria. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. Estendestes ao mundo. virgem fostes. à-toa.. a saraiva Caindo.. vítima última da insânia. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. agora.. doentes de hematúria. ignóbil. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. com violência.. embalde. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. Quase que escangalhada pelo vício. para além.. entre oscilantes chamas. até que. Nem tínheis. Se extenuavam nas camas. no horizonte. Uma. e as mãos. quando o éreis. As prostitutas. análoga era. De certo. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. derreada de cansaço. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. alva. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. 149 . e.

A consciência terrível desse inseto! Regougando.De vós o mundo é farto. Sentia. na craniana caixa tosca. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. Como quem nada encontra que o perturbe. E estais velha! -. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. argots e aljâmias. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. eu. inquieto. Como uma associação de monopólio. E hoje. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. no chão frio da igreja. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. A racionalidade dessa mosca. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. que a sociedade vos enxota. 150 . Eu pensava nas coisas que perecem. porém. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras.

Apareceu. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. escorraçando a festa. Absorvia com gáudio absinto. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. Vem para aqui. O ar ambiente cheirava a ácido acético. nos braços de um canalha 151 . Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Quanta gente. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas.A estática fatal das paixões cegas.Aquilo era uma negra eucaristia. Já podre. Rugindo fundamente nos neurônios. em que eu entrei adrede. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. sobre a palha espessa. nesta hora. Mas. roubada à humana coorte Morre de fome. de repente. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. À falta idiossincrásica de escrúpulo. O fácies do morfético assombrava! -. Sem ter. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. Pela degradação dos que o povoam. como Ugolino. E o cemitério. após baixar ao caos budista. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. estriges voam. E a ébria turba que escaras sujas masca. palpável. com o ar de quem empesta. assim inchado.

Num prato de hospital. cheio de vermes. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. a camisa suada. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. entre fardos. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. À sodomia indigna dos moscardos. Comendo carne humana.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Ao pegar num milhão de miolos gastos. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. ao clarão de alguns archotes. Vendo passar com as túnicas obscuras. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . a alma aos arrancos. iguais a irmãs de caridade. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Todos os meus cabelos se arrepiaram. Pisando. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Na impaciência do estômago vazio. como quem salta.

Dentro da filogênese moderna. Como o íncola do pólo ártico. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. O benefício de uma cova fresca. No céu calamitoso de vingança Desagregava. déspota e sem normas. Proporcionando-me o prazer inédito. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. De quem possui um sol dentro de casa. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . E eis-me a absorver a luz de fora. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. Uma sobrevivência de Sidarta. Absorve. Manhã. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. Os raios caloríficos da aurora. em vez de hiena ou lagarta. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam.Como indenização dos meus serviços. No frio matador das madrugadas. às vezes. após a noite de seis meses. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. trazendo-me ao sol claro.

com os pés atolados no Nirvana. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia..A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . numa furna. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. Igual a um parto. O Espaço abstrato que não morre Cansara. em colônias fluídas. entanto. a meu ver. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. Acompanhava. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. tudo a extenuar-se Estava. corre. oh! Morte.. em vão teu ódio exerces! Mas. Vinha da original treva noturna. O ar que. Eu sentia nascer-me n’alma. A gestação daquele grande feto.. Hirto de espanto. com um prazer secreto.. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto.

Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. não existes mais! 155 . Ai! Como Os que. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. amigo..À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa.. têm carne. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Apenas com uma diferença triste. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. bela como um brinco. Antegozando a ensangüentada presa. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!.. Rodeado pelas moscas repugnantes. como eu. Coisa hedionda! Corro. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. É a hora De comer.. Como! E pois que a Razão me não reprime. E agora. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também.

há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. comparo. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . E o antigo leão. Há de crescer. Do que essa pequenina sanguessuga. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. a atmosfera se encherá de aromas. O Sol virá das épocas sadias. sem pretensões. que te esgotou as pomas. um novo Ser. Relembrarás chorando o que eu te disse.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta.. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. Assim.. haurindo amplo deleite. à amostra. entre dores. quanto a mim. nas vitrinas. oh! Mãe. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. Clara. No lábio róseo a grande teta farta -. sujo de sangue.

não prendi minha existência?! Por que Jeová. Magro.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. as tesouras Brônzeas. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . também gira e redemoinham. com que guarda meus sapatos. eu vivo pelos matos.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. mordendo glabros talos. Beber a acre e estagnada água do charco. haurindo o tépido ar sereno. numa ininterrupta Adesão. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. nos fortes fulcros.. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Por causa disto. Os pães -.. roendo a substância córnea de unha. maior do que Laplace. Tais quais.

goza O lodo. Subtraída à hediondez de ínfimo casco.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Dorme num leito de feridas. Úmido. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. apalpa a úlcera cancerosa. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Beija a peçonha. Com a flexibilidade de um molusco. no agudo grau da última crise. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. cheio de chamusco. E eu vou andando.

corte. queime. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. Ladra furiosa a tribo dos podengos.. largando pêlos. Entrançados. pelo ar. A câmara nupcial de cada ovário Se abre.. salta. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. Com a rapidez duma semicolcheia. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. no árdego trabalho. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos.. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. bolem Nas árvores. em vez do nome -.. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . A terra cheira. Os ventos vagabundos batem. depois de morrer. O ar cheira. No chão coleia a lagartixa. morda!.. Eu. depois de tanta Tristeza. fustigue. quero.. De árvore em árvore e de galho em galho.Augusto . Nos terrenos baixos. Em grandes semicírculos aduncos.

Como pela avenida das Mappales. O lodo obscuro trepa-se nas portas.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. batendo a cauda. Amontoadas em grossos feixes rijos. Quantas flores! Agora. sem conchego nobre. Une todas as coisas do Universo! 160 . Urram os bois. Como um anel enorme de aliança. Nédios. outrora. Na bruta dispersão de vítreos cacos. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. As lagartixas. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. O aziago ar morto a morte Fede. Aqui. Por saibros e por cem côncavos vales. Viveu. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Pintam caretas verdes nas taperas. Trôpega e antiga. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. dos esconderijos. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. À dura luz do sol resplandecente. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. como exóticos pintores. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Os musgos. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. em vez de flores. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança.

. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. à luz da consciência infame. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. arrebentando a horrenda calma. Só. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. como quem raspa a sarna. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. Grito. sem pai que me ame. Súbito. A lamparina quando falta o azeite Morre.. é o óbolo obscuro. De pé. Julgo ver este Espírito sublime. Que por vezes me absorve... aqui. da mesma forma que o homem morre. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime... com a misericórdia de um tijolo!. À carbonização dos próprios ossos! 161 .E assim pensando.

à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. de cabelos ruivos.. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. a âmbulas moles.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. como o estepe. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. à lua. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. hórridos uivos Na mesma esteira pública. recebe. funcionária dos instintos. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. através os meus sentidos. em contorções sombrias. por fim. Com as mãos chagadas. aliando. O Vício estruge. Entre farraparias e esplendores. Reduzidos. Sente. Espicaça-a a ignomínia. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. Bramando. ébria e lasciva. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. Ouvem-se os brados Da danação carnal. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. urna de ovos mortos. alta noite. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. a arquivar credos desfeitos. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. Lúbrica. à luz do olhar protervo. E a mulher. em coréas doudas.. espremendo os peitos. 162 . hirta.

E a dor profunda da incapacidade Que. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. já morta essencialmente.. em cada humana nebulosa. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada.. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. E a Carne que.. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório.Chão de onde unia só planta não rebenta. É o hino Da matéria incapaz. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. filha do inferno... E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza.. Ei-la. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. Na óptica abreviatura de um reflexo. de bruços.. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. Fulgia.. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos.

do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. adstrito a inferior plasma inconsútil. hírcica. Numa cenografia de diorama.. rubros. como aborto inútil. Irradiava-se-lhe. impune.. Como o .. decerto. Libertos da ancestral modorra calma.. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. ânsia De perfeição. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.. adultos. Saem da infância embrionária e erguem-se.. Mas que. Que. Ficou rolando. Pudera progredir.. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias.O atavismo das raças sibaritas. momentaneamente luz fecunda. e a estraga Na delinqüência .. Na homofagia hedionda que o consome. sonhos de culminância.... Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . radiando. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. talvez....

..................................... ao trágico ditame................................................................................. . .............. 165 .................................. ........................... ......................................... ............................................................... ... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto........... oca.....................................Sugando a seiva da árvore a que se une! .............. .............. . . ......................................................................... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos...................... .................................................. Mordeu-lhe a boca e o rosto.............................................. Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E.............................................................. condenada.................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia...........................................................................................

E hoje que. É assim como o ar que a gente pega e cuida. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. em ânsias. é éter. enfim. amo Mas certo. provo-a. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. é substância fluida. Oposto ideal ao meu ideal conservas. o ponto outro de vista Consoante o qual. A toda a boca que o não prova engana. Quis saber que era o amor. poeta. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante.. enfim. o observas.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. ilusão treda! O amor. Integralmente desfibrado e mole. oposto a mim. Como Mársias -. é como a cana azeda. do egoísta Modo de ver. Porque o amor. Diverso é. consoante o qual. conheço o seu conteúdo. chupo-a. atenta a orelha cauta. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Cuida. Imponderabilíssima e impalpável. o egoísta amor este é que acinte Amas. por experiência. Pudera eu ter. Para que. eu que idolatro o estudo. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. entretanto. tal como eu o estou amando. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 .. observo o amor.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. este o amor não é que. É Espírito. pois. Descasco-a.

trágico e maldito.. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. abre..O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso.. que devia. no quadrilátero da alcova. Sem ter uma alma só que me idolatre. Que importa que. opresso. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Como Vulcano. os monstros zombeteiros. depois disso. Trabalharei assim dias inteiros. olhando o céu que além se expande: ". com o seu grande grito.. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. a tumbal janela E diz. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. em ânsias.. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto.A maldade do mundo é muito grande. contra ele. Entendi.. . E só. 167 . trabalhar contente.

Sobre a cidade geme a chuva.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". Batem-lhe os nervos. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . sacudindo-o todo. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.

e absorve em cada viagem Minh’alma -. Rua Direita. Com os ligamentos glóticos precisos. por ver-vos. oh! céu. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. sob os pés do orgulho humano. alto. Que forma a coerência do ser vivo. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. O reino mineral americano Dormia. lhe entregue. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. num canto de carro. 169 . nas telúrias reservas. íntegra. Como um cara. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. A essa hora. E não haver quem. Recebiam os cuspos do desprezo. E a cimalha minúscula das ervas. Cortanto o melanismo da epiderme. banhava minhas tíbias. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. e erguia. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias.Dizia. recebendo injúrias. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões.

lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Com a abundância de um geyser deletério. Pareciam talvez meu epitáfio. Pela alta frieza intrínseca. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. em diástoles de guerra. com a símplice sarcode. úmida e fresca.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. Mais tristes que as elegais de Propércio. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. O vibrião. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. com o ar horrível. o ancilóstomo. me pediam. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . O motor teleológico da Vida Parara! Agora. Onde minhas moléculas sofriam. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos.

Parou em frente da mesquita morta. Súbito alguém. e o olhar errante. dentro. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 .Um vento frio começou gemendo.. ampla e brilhante. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Uma vez. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. Era uma viúva. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. funeral mesquita. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Eternamente aberta ao sol e à chuva. . o passo constrangendo. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. Em passo lento. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Mochos vagavam como sentinelas. a viúva. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Feras rompiam tolos e balseiros. A Lua encheu o espaço sem limites E.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta.. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. foi transpondo a porta. nos altares esboroados. E pelas catacumbas desprezadas.

As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. entretanto. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. arremetendo. Como uma exposição de carnes vivas.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. entanto. E sobre o corpo da viúva exangue. Fora. Além. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. contra ela. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. Morria a noite. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. infernais ardendo Todas as feras. E raivosas. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea.

Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. afetando a forma de um losango.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. entre assombros. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. 173 . ostentando amplo floral risonho. Atravessando os ares bruscamente.. trêmulo. no meio. brilha A árvore da perpétua maravilha. Na ilha encantada de Cipango tombo. Assim.. em luz perpétua.. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos.. quem diante duma cordilheira. Qual num sonho arrebatado fosse. exata. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. Rica. em plena podridão. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. pela vez primeira. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Verde... passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos... tenho alucinações de toda a sorte.. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. ao sol. Pára. Da qual. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz.. num enleio doce. A saudade interior que há no meu peito. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango.

O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe.. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Gozei numa hora séculos de afagos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa....... A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. E finalmente me cobri de flores.. Banhei-me na água de risonhos lagos. A tarde morre. Passa o seu enterro!.

de cima. Vagueia um poeta num barco.globo de louça Surgiu. outro cai. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Quem as esconda. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. as esconda. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Se um cai. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta.. esse vai Para o túmulo que o cobre. Espelham-se os esplendores Do céu. em lúcido véu. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 .BARCAROLA Cantam nautas. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. outro se ergue e sonha. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. Vai uma onda. A Lua . nas Águas.. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. O Céu. em reflexos.

"Mas nunca mais. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.. porém. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo... poeta da Morte!" . "Viajeiro da Extrema-Unção.. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . forte. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis.. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma.

AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. A República rola-lhe nos ombros. Não! que esse ideal puro. E ali do despotismo entre os escombros. Fulgente do valor da vossa glória. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Da República a nova sublimada. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Manchar não pode as aras da República. Caia do santuário lá da História. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. . Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Vós. Essa luz etereal bendita e calma. Da liberdade ao toque alvissareiro. levando ao mundo inteiro. fazei que destes brilhos. oh Pátria.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. A Liberdade assoma majestosa. e. Como um Tritão. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Oh! Liberdade. oh! Redentora d'alma. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. risonho. esplendorosa. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. pois.

Aves de várias cores e de várias Espécies. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. E. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. vendo o horror dos meus destroços.. desvairado. cantam óperas inteiras. O amor reduz-nos a uniformes placas. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. à luz das minhas frases.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. 178 . Na área em que estou. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia.Mas hoje. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. Passa um rebanho de carneiros dóceis. Além. Estremecendo em suas próprias bases. Uma montanha que se desmorona. nas oliveiras.. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . ao matinal assomo.

ébria de fumo e de ópio. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. Da observação nos elevados montes Prefiro. E quando a Dor me dói. demonstrando-a. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. A inanidade da Ilusão demonstro Mas.. heroicamente.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. Tal qual ela é. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. à nitidez real dos aspectos. sinto um violento Rancor da Vida . à frente dele. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila.. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime.

a esmo. Vem cá.CANTO ÍNTIMO Meu amor. em sonhos erra. erra. se duvidas. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. Muito longe. dos grandes espaços. olha estas feridas. Muito longe. Que o amor abriu no meu peito. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. em sonhos. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Passo longos dias. De lá.

. Amor. uma nuvem que corre. numa delícia infinda. Caminha e vai. escuridão e eterna claridade. murmura: .. ontem. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. agonia. a sós. .. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 .Misto de infinita mágoa e de crença infinita. agonia. agonia bendita! .. Frio que me assassina. vendo-a. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho.. abraça a sombra e. Neve que me embala como um berço divino..Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. Numa prece de amor. agonia! .Diz e morre-lhe a voz. amor e frio. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. Fazer parar a máquina do instinto. Agonia de amar.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. Mas. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. e o sofrimento De minha mocidade. triste. Neve da minha dor. experimento O mais profundo e abalador atrito.. o louco. num volutuoso assomo. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. oração. prece que ainda Entre saudades rezo. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. Delícia que ainda gozo. quanto mais me desespero. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Sem um domingo ao menos de repouso. neve. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia..

e o trabalho . e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. Rasgando. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. Por seis horas seu braço empenhado na luta.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . funéreo 182 . Triste... nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. Fez reboar pelo solo. foi aos poucos se arrastando... E em tudo que o rodeava. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. do agro solo. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. A terra escalda: é um forno.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. mordendo a atra terra infecunda. E o Velho veio para o labor cotidiano. a superfície bruta. oito vezes. acende O pó. Mas o braço cansou! Trabalhou. lúgubre e só. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado.

alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . sozinho. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. a família! Não morreria. pois! Somente morreria Se da Vida. os filhos.. avistando uma frondosa tília Julgou. ele pisasse os trilhos. a flux d'água.. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. onde arde e floresce a Crença. a rugir-lhe aos pés.o último esforço. e o braço Pendeu exangue. tombando. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. bêbado de miragem. E amplo. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito... louco. o precipício estava. Caminhava. a toa. era a turba trovadora Que assim cantava. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. Quis fazer um esforço .. e compreendendo tudo. o acalenta. ninguém o acalenta. flutua! Ninguém o vê. o peito arqueou-se.. e a sonhar.. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. o Velho caminhava. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. o cansaço Empolgara-o. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor.. Num instante viu tudo. Nem viu que era chegado o termo da viagem. avistar a Árvore da Esperança.

mudo. dourando as névoas dos espaços..condensada treva A sombra desce. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. alvas. luminosas.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva.Asas de corvo pelo coração. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. mudo. volaterizadas. Negras.ocaso nunca visto. aos astrais desígnios. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. Atros. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. a Sombra .eis tudo! E no meu peito . Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. mudo. E a Noite emerge. e. fulvos.. ígneo. E há no meu peito . Além. pompeiam (triste maldição!) ... Descem os nimbos. . rubro.. Subindo á majestade do Infinito. Na majestade dum condor bendito. Raios flamejam e fuzilam ígneos. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. sangrento O sol.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja..

A Mágoa ferve e estua. O leão. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. E corno a Aurora . e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. ciclópico. entre esplendores. há-de Alva. o mastodonte. Vésper me encanta. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. de que serve. se. a lesma. Fantástico.. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. lodo. em plena e fulva reverberação. curvo ao seu destino.o Sol . e hás de ser após as chamas. se. como se esses raios N'alma caindo. assassino Ébrio de fogo. A alma se abate. o tigre. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. 185 . como tombou outrora. Como Herculanum foi após as chamas. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. se erguer. a Aurora. Sírius me deslumbra.hóstia da Aurora. em vão na luz do sol te inflamas. III De novo. Hoje de novo. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. ontem moribundo. se tornassem ferros?! IV Poeta. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. em lodo tudo acaba. Ninguém se exime dessa lei imensa Que.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. Ah! Como tu..

.. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. Então.. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. frias. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte.. e minh'alma cobre-se de flores . Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte.. pelas penedias. Como recordação da festa diurna. e. pois poeta. Ergue. como abutres Medonhos. Iluminando as serranias. onde.. Vésper me encanta.Arrasta as almas pela Escuridão. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. Sírius me deslumbra. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 .. sobe ao pedestal. de ilusões te nutres. foi valas funerais deixando. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. Medonhas valas. E arrasta os coraç5es pela Descrença. Canto.. Pelos rochedos. pelas escarpas. banha As serranias duma luz estranha. E foi deixando essas funéreas. de ossos. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores.Fera rendida à música divina. a Lua que no céu se espalha.

Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.. triunfalmente... A dispersão dos sonhos vagos reuno. sonâmbulo. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . Depois de embebedado deste vinho. eu também vou passando Sonâmbulo.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha.. nos céus altos.. E invejo o sofrimento desta Santa. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.INSÔNIA Noite. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. sonâmbulo. Mas. em mágoa.. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta.. 187 .. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo.

Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera.Vagueio pela Noite decaída. Estou alegre. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. Recordam santos nos seus próprios nichos. Em que o Tédio. hedionda. as flores. por exemplo. O Sol. Agora. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. neste silêncio e neste mato. As árvores. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida... Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . o funerário. Aqui. em mágoa imerso. Cercado destas árvores. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. batendo na alma. Atro dragão da escura noite. estronda Como um grande trovão extraordinário.. equilibrando-se na esfera.. Com o olhar a verde periferia abarco. porém. os corimbos. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá.

Olho-o. "Onde os ventres maternos ficam podres. Mergulho. De onde. Risco-o Depois. amorfo e lúrido. Olho-o ainda. "Miniatura alegórica do chão."Cinza. aparece. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. certo. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. Todos os organismos são oriundos. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. E o que depois fica e depois Resta é um ou. a esvaziar báquicos odres: . ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . e na ínfima ânfora. harto. "Na tua clandestina e erma alma vasta. por outra. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. através ovóide e hialino Vidro.Mucosa nojentíssima de pus. Presto. porque um. síntese má da podridão. "Onde nenhuma lâmpada se acende. ébrio. por epigênese geral. é mais de um. barro. os beiços na ânfora ínfima. irrupto. Dois são. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo.

Move todos os meus nervos vibráteis. é o céu abscôndito do Nada. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos.. como nunca outro homem viu. Se escapa.. Em que todos os seres se resolvem! 190 . na terra instável. que. Migalha de albumina semifluida. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . dentre as tênebras.Do mundo o mesmo inda e. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. do meu espírito. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. muito alto. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. o que nele Morre. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. mônada vil. sois vós. sozinho. cósmico zero. Na síntese acrobática de um salto. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. sou eu. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. ora. Depois. Sob a morfologia de um moinho. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Então. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. Vida. em segredo.

.. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. Adeus! Que eu veio enfim. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. De onde quimicamente tu derivas. E eis-me outro fósforo a riscar.

. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. Sinos além bimbalham. Retroa o sino. 192 . vezes.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . E em tudo estruge a tua dúlia . davas brandindo em seva e insana Fúria... Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. Troa o conúbio dos amores velhos . Cantas a Vida que sangrando matas. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. tangendo tiorbas em volatas. Ora. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. medras Nalma de cada virgem..dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. chora e se lamenta e vibra. .ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem.. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. E. Amor. lembras. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma.

esse poder terrível.Essa dominação aterradora . Cativo. aos astros. e eis o motivo.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. beija os áureos pés dos ídolos.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. 193 . quando Entre estrias de estrelas. Irene. fosforeando. sonhei-a. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. ontem. Eis o motivo porque fiz esta ode. Assim. Irene. Entre timbales e anafis estrídulos. . impassível! Esta de amor ode queixosa. Quedo. pois. Irene.

Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. bruta. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. Dentro. Quase com febre. Trinta e seis graus à sombra. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. tinir. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. Da qual. Inopinadamente 194 . Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. berrar. E eu nervoso. ao meio-dia. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. irritado. erguido do pó. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor.

Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. afinal. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. A ouvir todo esse cosmos potencial. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca.O ígneo jato vulcânico Que. .Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 .

. Assim como Jesus. Aperta-me em teu peito. Eu quero o meu Calvário .Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. Embala-me em teus braços! 196 . Aperta-me em teu peito. perdeste a ciência.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. oh! morena . De lírios e boninas Um veludíneo leito.. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios.QUADRAS Embala-me em teus braços. E dá-me assim. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. divina. Morreu-te a redolência.

Dói-me a cabeça. Vista. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. três. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. e.ª-feira.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. No bruto horror que me arrebata. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! .. E aos tombos. através do vidro azul. quatro. Aumentam-se-me então os grandes medos. 3 de maio. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste.. A conta recomeço. em suma. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. quando a noite cresce.. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. em ânsias: .Uma..Uma. embora a lua o aclare. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha.. 6. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre.. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . tonta Sinto a cabeça e a conta perco. Tenho 300 quilos no epigastro. duas. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho...

Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse... Acho-me.. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Ponho o chapéu num gancho. por exemplo. . Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Meu tormento é infindo. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.. A luz fulge abundante 198 . O suor me ensopa.. Tal urna planta aquática submersa.Sucede a uma tontura outra tontura. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . A lua é morta. Cinco lençóis balançam numa corda. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram.."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". E o amontoamento dos lençóis desmancho.. Mas aquilo mortalhas me recorda. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. Por muito tempo rolo no tapete. . Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida .. Súbito me ergo. numa festa.. Tomba uma torre sobre a minha testa..

radiante e estriado. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. cheia de adubos. passei o dia inquieto. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. a terra resfolega Estrumada. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. hierática. Broncos e feios. De mim diverso. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. longe do pão com que me nutres Nesta hora. Babujada por baixos beiços brutos. Vários reptis cortam os campos.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. o céu. em diâmetro. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. numa última cobiça. feliz. observa A universal criação. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. Entretanto. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. A ouvir. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . no ato da entrega Do mato verde. No húmus feraz. Côncavo.

negras. a delinqüentes natos. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. Monstruosíssimas mãos. Umas. vão cheirar. Mãos que adquiriram olhos. Assinalados pelo mancinismo. Outras. Pertencentes talvez. a farpas de rochedo Completamente iguais. em sangue. 200 ..MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais.. às da neve. Mãos adúlteras. E à noite... Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. ás dos cristais. tentáculos sutis. pituitárias Olfativas. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos.

Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes.a Carne.. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Sonho abraçar-te. E como um nume de pesar. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Mas neste sonho. Opalescência trágica da lua! Tu. langue e seminua. Pareces reviver a antiga Ofélia.Tufos de goivo em conchas de esmeralda.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . Guarda a saudade que levou do Mame. pálida camélia. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . plangente. . oh Quimera.. Rola a violeta santa dos teus olhos . No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços.

Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. com soluços quase humanos. E. análogo ao peã de márcios brados.. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. O feto original. como num chão profundo. Aves com frio. Eu procurava. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. uivando hoffmânnicos dizeres. era só O ocaso sistemático de pó. enquanto eu tropeçava sobre os paus. Cruzes na estrada. Choravam.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. No desespero de não serem grandes! 202 . Aprazia-me assim. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Convulsionando Céus. num ruidoso borborinho Bruto. com uma vela acesa.. na escuridão. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim.

a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. vingadora. frias como lousas. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. na ânsia dos párias. Como o protesto de uma raça invicta. Fluía. perdido no Cosmos. Brilhava. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. uma voz 203 . de onde se vê o Homem de rastros. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. Noite alta. A abstinência e a luxúria. assim. me tornara A assembléia belígera malsã. Maior que o olhar que perseguiu Caim. com a sidérica lanterna. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Mas das árvores.Vinha-me á boca. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. horrenda e monótona. ao colher simples gardênia. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu.

tão profunda. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. Porque em todas as coisas. amanhã píncaros galgas. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. isto é. Rimos.Tão grande. pois. Para erguer. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Para esconder-se nessa esfinge grande. Se hoje. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. enquanto Deus. árvore. afinal. iceberg. Na prisão milenária dos subsolos. porque. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . com a febre mais bravia.. Tragicamente. choramos. oh! filho dos terráqueos limos. arvoredos desterrados. Nós. montanha. na ânsia cósmica. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. diante do Homem. ovário. Não trabalham. Rasgando avidamente o húmus malsão. em suma. Crânio. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar.. a espiar enigmas. que. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. entres Na química genésica dos ventres. do Equador aos pólos. obscuro.

Reproduzida pelos arvoredos! Agora. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. naquela noite de ânsia e inferno. a escalar Céus e apogeus. A voz cavernosíssima de Deus. alheio ao mundanário ruído. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. desgraçadamente magro. em destroços. Eu.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . astro decrépito. Eu fora. a erguer-me.

armado de arcabuz. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. entre estes monstros. E muitas vezes a agonia é tanta Que. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. no combate.. arrancado das prisões carnais. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. As minhas roupas. Para pintá-lo. quero até rompê-las! Quero. 206 . A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. rolando dos últimos degraus. pela boca. Minh'alma sai agoniada. é o prélio enorme.. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. em coalhos. Viver na luz dos astros imortais. Na ânsia incoercível de roubar a luz.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio.

esta arca. enfim. E tombe para sempre nessas lutas. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. é inútil. a água que bebo. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 .O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça.. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. Seja este. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão... A bênção matutina que recebo. E é tudo: o pão que como.. é improfícuo. em suma. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. faz mal. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã.

. A Morte. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. Como que. Sai para assassinar o mundo inteiro. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 .. abrindo todos os jazigos. a 1 de Janeiro. Mas de repente. em trajes pretos e amarelos.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.Faminta e atra mulher que.. Intimamente sei que não me iludo. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. e a mim pergunto.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. à meia-noite. -.. estudo. come. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. numa cova... sozinho. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. Então meu desvario se renova. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. rio Sinistramente. na vertigem: -. ouvindo um grande estrondo. Corro. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas.

que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. Tu não és minha mãe.. Como as estalactites da caverna. desta cova escura. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. e após gritar a última injúria. em grupos prosternados.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. que em mim dorme. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Vi que era pó. Quis ver o que era. Deixa-te estar. É Sexta-feira Santa. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. acorda em berros Acorda. Perante a qual meus olhos se extasiam. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. e de declínio Em declínio. Com as longas fardas rubras. canalha. como a gula de uma fera.. Amarrado no horror de tua rede. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos.. Eu desafio... Por tua causa apodreci nas cruzes.. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. e quando vi o que era. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano.

. somente eu. Como as chagas da morféia O medo.. Roma estremece! Além. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Na molécula e no átomo. no ar de minha terra. vendo-o. Dentro da igreja de São Pedro. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. Desperto.. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . Na Eternidade. e a gente. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. O céu dorme. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. O vento entoa cânticos de morte. quieta. As luzes funerais arquejam fracas. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. A desagregação da minha Idéia Aumenta. A árvore dorme Eu.Um esqueleto..

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