EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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................................... 176 Ave Libertas .... 179 Estrofes Sentidas ............................................................................................... 183 Gozo Insatisfeito ....... 170 A Vitória do Espírito ............................................................ 205 Queixas Noturnas ................................................................. 200 Mãos ......... 168 Noite de um Visionário ...................................................................... 166 A Luva ................................................................ 190 Mistérios de um Fósforo ................................. 129 A Caridade ............................................................................................................... 212 5 .......... 204 Viagem de um Vencido ................................................................................................ 209 Poema Negro ............................................................................................................................................................................................................................ 192 Ode ao Amor ........................................................................................................................................................128 As Cismas do Destino ................................... 180 Canto Íntimo ........... 173 A Ilha de Cipango ..................................................................................... 195 Numa Forja .............................................. 197 Quadras .. 155 Mater ......................................... 186 Insônia .................................... 203 Vênus Morta ..............................123 Uma noite no Cairo .......................... 156 Gemidos de Arte .......... 157 A Meretriz ............ 184 Idealizações ...........Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ........................................................ 183 História de Um Vencido ........... 142 À Mesa ..................... 162 Versos de Amor ......... 182 Canto de Agonia ... 155 Duas Estrofes ....................................... 141 Os Doentes .. 175 Barcarola ...................................................................................................... 199 Tristezas de um Quarto Minguante .

Gráfica Ouvidor. contudo. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. nesse estado de superexcitação. senão em mais de um. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. desejosos de. um psicastênico para outros. ed. nos moldes da velha orientação impressionista. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. RJ. quando. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. É preciso. pois. Nessa tentativa de interpretação psicológica. Sua personalidade singular ali se projeta. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. poder conhecer a árvore pelo fruto. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. que é de todas a menos operante. entrava em crise espiritual. 1962) 6 . ao menos. na verdade. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. paremos reverentes à porta do templo. na chaga viva de sua consciência. no que há de mais sutil e imponderável. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. e era aí. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. numa atitude de respeito e reflexão. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. isto é. Por conseguinte. segundo as síndromes patológicas revelados. Teria sido um neurótico para uns. compreendendo inclusive a estilística. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. não conhecemos sequer a nossa. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. em suas mensagens de angústia. Não me parece. Nalgum ponto. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. o eu fora do Eu. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. Fazer o elogio do poeta. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. que o não convencia de todo. Deste modo.

de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. Sem o concurso da causa primária. do sentimento. aos que se rebaixam para subir. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. enfim. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. causada pela perda imprevista de um irmão querido. Obviamente. Explica-se deste modo. sobretudo quando provém da linha materna. Byron. choques emocionais.for. todo o seu temperamento emocional. que já era constitucionalmente quase louca. nas modalidades do caráter. o refinamento de suas faculdades morais. Augusto não era um homem igual aos outros. como é do gosto da crítica científica. a de Byron. tem sido Augusto comparado a Leopardi. por vezes controvertidos. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. nem os que vieram depois. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . não é possível interpretar a obra de um escritor. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. da inteligência. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. reduzir tudo a categorismo. tiques nervosos. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. A mãe do poeta. na classificação dos antropologistas do século passado. estudante de medicina. não há negar também a dos psicológicos. além mesmo da gravidez. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. caracterizado por uma sensibilidade doentia. só ele dava a impressão de um desajustado. Isto posto. Assim como a mãe de Augusto. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. Ao que se sabe. Por seu parentesco espiritual. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. sestros. fobias. menos a de Byron. E por curiosa coincidência. que nada explica. Nem os que nasceram antes. em relação com a casuística. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. a partir de Lombroso. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. aos que se acomodam. Nietzche. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. a de Wilde. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. Juízo é coisa que todos julgam ter. a de Nietzche. por motivos vários. com preocupações de grandeza e fidalguia. enfim. no final. a de Leopardi. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. sobre o seu caso clínico. igualmente inteligentes. repetindo conceitos. perturbou-a por muito tempo. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. Pai e irmãos passavam por normais. de fundo genético.

conforme disse num soneto que não consta. que a metafísica estava morta. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. Coelho Rodrigues. sofreu duros reveses. sofregamente bebida nas academias. bradava para o conceituado mestre que o argüia. visto ter nascido poeta. para aprazimento intelectual das elites. a rigor. Nada de admirar. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. mas não era somente isso. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. Logo mais. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. do Eu. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. em sua linha tomista. segundo os primeiros retratos que temos dele. estavam a fazer dele um lírico. mas no final 8 . sem afastar-se do lar. Muito cedo. cuja vida corria sem obstáculos. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. dr. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente.Augusto com a sua personalidade psicológica. cinco anos após a sua morte. ao invés de um estudante bisonho. evolvia para o evolucionismo de Speneer. em contraste com a mocidade e a inteligência. aprendeu a ler e. para maior complicação de sua personalidade. A par disso. guiado apenas pela ilustração paterna. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. inspirado na natureza e no amor. até o túmulo. que lançou em 1919. logo mais. saído da roça. O rapazinho de 16 anos. O que há de singular nele não é. Com seu pai. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. no último ano do século passado. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. Deste modo. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. na várzea do Paraíba. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. Era de fato um excêntrico. a quietude da vida na província. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. como uma fatalidade. Já em 1875. o seu tipo de pássaro molhado. em prefácio à segunda edição do Eu. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. Falava nele o positivista que. Sílvio Romero. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. era um introvertido. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. com o título Eu e Outras Poesias. em Monólogos de uma Sombra. como expressão do pensamento nacional. Alexandre dos Anjos. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. A paisagem bucólica da várzea. a sua própria vida sem problemas. os quais o acompanhariam. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. em 1900.

em seu livro Frases e Notas. que só cuidava de preocupações teológicas. confundidas ambas na unidade cósmica. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. Os menos letrados. como toda substância animada. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. O beatério era o último reduto do catolicismo. com a evolução da matéria e do espírito. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. Aliás. introduziu entre nós a poesia científica. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Ao que parece. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. já no seu ocaso. adepto do positivismo. conciliada. Augusto pouco falava. dupla feição de filósofo e de poeta. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. proceda ou não proceda. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. de que católico era sinônimo de burro. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. José Américo de Almeida. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. mas a origem simiesca do homem. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. o pensamento ao longe. Embora educado na religião católica. Até no Piauí. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. Desta forma. Desses embates. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. Esquisitão que era. emancipou-se dela intelectualmente. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. firmava-se o conceito. ou mesmo. desde Haller. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. já lidos nos filósofos da natureza. Comte passou. um século antes de Hugo. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. ficava a escutar os companheiros. suportou a mais dura crise. Ainda na fase preparatória de estudos. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. Na Paraíba. aliás bem pouco lisonjeiro. entre o mundo da forma e o mundo da razão. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. faziam praça de livres pensadores. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. Laurindo Leão. a exemplo de Victor Hugo. a velha Escolástica. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. como uma velharia do século. aliás. que. em sua. se o diabo é tão feio como o pintam. os intelectuais mais dotados. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. tentou o milagre de 9 . de onde saiu formado em 1907. Nas rodas que se faziam na Paraíba. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. está sujeita também ao processo da evolução. Por todo o Nordeste. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. Martins Júnior. nas concepções filosóficas de seus poemas. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. isto é.

trinta anos antes. Em minha ignota mônada. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. Rimbaud escrevera Bateau ivre. como bem observa Cavalcanti Proença. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. Larva do caos telúrico. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. a consciência 10 . Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. começa então o drama crucial da consciência. vibra A alma dos movimentos rotatórios. fundado na unidade cósmica. todavia. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. E é de mim que decorrem. já diferenciado na mônada. Não há. por força das sucessivas mutações da matéria. sempre a evoluir em movimentos rotatórios.. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. É a sua confissão de f transformista. facilmente o identifica. terso na linguagem. simultâneas. identifica-se na substância primeva. “esse mineiro doido das origens”. Quem já o leu uma vez. Do cosmopolitismo das moneras. Não sofre apenas a sua dor. ora transfigurado em filósofo moderno. O aspecto conceptual do poema. depois de infinitas transformações. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra.reduzir a um campo único a ciência e a arte. A saúde das forças subterrâneas. Integrado na sociedade. procedo Da escuridão do cósmico segredo.. E assim continua.. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. como amostra. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. naquela mesma idade em que. chega aos seres mais complexos. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. e—crente no tema. que passou do reino vegetal para o animal. poema que abre o Eu e Outras Poesias. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. Da substância de todas as substâncias. Venho de outras eras. Pólipo de recônditas reentrâncias. que é a derrota da humanidade.. Vejamos. ampla. A simbiose das coisas me equilibra. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. numa caminhada de 31 estâncias. já desiludido. na larva que procede do caos telúrico. A partir da monera. Aos 17 anos. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. enfim. incomparável na forma musicada. até adquirir a forma humana. Encontra-se. nas duas composições uma coincidência de temas. 186 versos. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora.

E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. o sofrimento de toda a humanidade. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. do ponto de vista metafísico. o remorso já acordado na caverna escura. manifestou o seu espanto. que faz quase lembrar a reencarnação. tantas vezes exaltada pelo poeta. ouvia mais que um tísico. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. dezenove séculos antes. o que vale dizer. numa espécie de solidariedade subjetiva. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. uma espécie de fogo que devora e não consome. O próprio Augusto. entrega-se ao sacrifício. o vidente de Patmos: . dentro do mundo fenomenal. no entanto. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. É a concepção monística. chamando a si. já havia dito. noção trivialíssima das funções orgânicas. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. no princípio era a força. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. que tinha os ouvidos totalmente tapados. natural de minha terra. temos aí um transformismo metafísico. A rigor.No princípio era o Verbo. diante das maravilhas do aparelho encefálico. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. entendia o agregado abstrato da saudade. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. centro de toda a acuidade sensorial. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. conheci um sujeito. A partir dai. respondeu-me que por todo o casco da cabeça.conspurcada de gozo malsão. Nesse estado d’alma. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. No tocante à transformação da matéria. há que distinguir um pormenor. No fundo. A mesma coisa. que a ele não interessava considerar. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. assombrado com o não-ser. segundo querem os frenologistas. como está dito em Monólogos de uma Sombra. com sótão e porão. cuido não estar proferindo uma heresia. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. Nada obstante. em esconderijos apropriados. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Por fim. Por alma. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista.

Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. admite o éter. O próprio amor. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Custa crer que este soneto . fonte inesgotável de vida. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. impreca. causa-lhe repugnância. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. filho do carbono e do amoníaco. solta blasfêmias. No auge da inquietação. o lado malsão da vida. dominado por um ceticismo acabrunhador. Querendo fugir a essas coisas. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. onde imperam sombras. O mundo em que vive é um vasto hospital. sem problemas materiais: Eu. procura 12 . Nem por isso admite Deus. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor.Psicologia de um Vencido .tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. Sofro. a matéria putrefata. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. A influência má dos signos do zodíaco.. Ao invés de fecundação do espírito. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. Em tudo.este operário das ruínas. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. só serviu para adensar o clima de alucinação. cadáveres e bocas necrófagas. rasgar do mundo o velário espêsso. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. E há-de deixar-me apenas os cabelos. Profundissimamente hipocondríaco. uma natureza gasta. Este ambiente me causa repugnância. onde não há lugar para a alegria. vermes. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. desde a epigênese da infância.. Exausto da luta. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir.Fazer a luz do cérebro que pensa. servindo de pasto a uma civilização corrompida. na melhor das suposições. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. procura penetrar o mistério da substância universal. Já o verme . o éter cósmico. Monstro de escuridão e rutilância. Por toda parte. que é o Deus materialista de Haeckel.

Antes de mais nada. gasta imensas energias e enche de culminâncias. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. tenta ir ao fundo da crença monística. já cansado de escutar a natureza. com o poder de sua imaginação. Até agora 13 . coberto de desgraças. Algo de mais grave. evadido de si mesmo. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. O subconsciente o aturde. não há homem que sofra mais. como se supunha. que os anos não carcomem. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. sente o desejo. numa atitude mental de fuga à realidade. em suas visões oníricas. acompanham-no. Mas o diabo não larga a sua presa. monstros terríveis. com efeito. o Eu e Outras Poesias.refúgio na inexistência espiritual. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. Espera aí encontrar o seu nirvana. Depois disso.. nem Haeckel compreenderam. Tudo isso.. A julgar pelos seus gemidos. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Nenhum pintor. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. no todo ou em parte. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. uma desgraça na vida do poeta. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. Onde quer que se refugie. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. podia fazer dele um triste. a terrível moléstia que se atribui. diz ele. que exulta triunfante: Gozo o prazer. a perda da crença e. Há. Grita a sua dor por toda parte e. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. O resultado de bilhões de raças Que. paralelamente. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. Por um instante. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. E para não capitular a esse apelo. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. E é nesta manumissão schopenhauriana. E via em mim. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. que ele denomina um sonho ladrão. deve ter acontecido na sua juventude. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. Com efeito.

dada a ausência de biografia. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Ele próprio. pois. desespero virtual e não real. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . Por mais que procure fugir ao assunto. não pode ocultar que foi vítima dele. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. inútil seria qualquer esforço. que é o drama mais doloroso de sua consciência. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Por enquanto. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. de uma paixão.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato...A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. no tocante a esse drama. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Exatamente aí. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor.. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. no capítulo do amor. Iríamos a um país de eternas pazes. em . Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. Por mais que Augusto negue o amor. Trata-se. Por suas próprias palavras. . Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. Lembro-me bem. sempre se revela. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Gozei numa hora séculos de afagos.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

em mágoa. Como um bemol ou como um sustenido. surpreende com a invocação de Santa Francisca.. confessa mais uma vez a sua culpa. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. Noite.santa. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. contrito.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. Sonâmbulo. E invejo o sofrimento desta Santa. ao mesmo tempo que. eu também vou passando Sonâmbulo. que não é das mais invocadas. Depois de embebedado deste vinho.. nunca foi chegado a santos. O poeta. mas no poema .. Sonâmbulo. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse... como é sabido. como em .extravasava desta forma o seu lamento: 19 . Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha..Queixas Noturnas .Insônia . Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.

sem resolver a verdade interior. não para ele. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. entre as estrelas flóreas. como perseguido pela sinistra ceifeira. Madrugada de treze de janeiro. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. A morte é o fim de tudo.As Cismas do Destino . sonhando. Ao vê-lo morto. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. o ofício da agonia. Da mãe. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. pouco fala. num carro azul de glórias. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. Como Elias. Nem uma névoa no estrelado véu. Minha alma sai agoniada. ama-o até mesmo na atômica desordem. quando a morte o olhar lhe vidra. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. Mas pareceu-me.brada: 20 . mas para os que crêem há ainda uma esperança. que não admite a vida espiritual. Em . expressa a sua mágoa numa comovente unção. dormir primeiro. Rezo. Mãe.. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. Ao pai. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. apenas três vezes. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. entre estes monstros. luta por fugir dela. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. entretanto.. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. que parece se deixou levar por pressão da família.

Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente.. Ao invés de ajustá-lo à realidade. Procura assim desoprimir o coração. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. Vivia um mundo à parte. habitado por monstros humanos. embora ansiasse por encontrá-lo. escravo do raciocínio frio. ponto final da última cena.. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. Não me parece tenha razão 21 . em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. levava-o a recolher-se em si mesmo. não cria em Deus. que Augusto era um cerebral. Por tua causa apodreci nas cruzes. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. Nestas condições. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista.. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Aqui. Forma difusa da matéria imbele. Já que não crê em Deus. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino.Morte. Acha Flósculo da Nóbrega. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. as palavras também servem para ocultar o pensamento. como em toda a obra. devia ter na época. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. ardendo em indagações subjectivas. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. Nada o consolava nesse estado de espírito. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. 22 anos de idade. quando recebeu os 22 açoites da natureza. cheio de imperfeições. E ainda.. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Minha filosofia te repele.

toda a mágoa do seu espírito vem à tona. noite a dentro. um homem excluído do mundo. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. como um sonâmbulo. contudo. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. ao contrário. que o 22 . mas porque se sente um desajustado. o cérebro em fogo. Na luta em que Augusto se debate. nunca recebeu hostilidades. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. e a mim pergunto. De um modo geral. foram produzidos no Pau D’Arco. Depois que o poeta deixou a Paraíba. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. de vez que ninguém o compreendia. A inspiração despertava com a dor. os de maior densidade emocional. que só repugnância lhe causava. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. em 1912. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. conforme declarou nesta honesta confissão. Há. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Nem ele próprio se conhecia. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. O que produziu no sul do País. No fundo. entrava em crise espiritual. Não que tenha recebido ofensas dela. além de pouco. volta-se vez por outra contra a sociedade. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. sua musa empalideceu à falta de ambiente. Fosse como ele diz. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. torturado no sentimento do desamparo. passos largos. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. no caso. Os seus melhores versos. andar bamboleante. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho.o ilustre intelectual paraibano. mas no particular. que o acolhia com carinho. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Era. Punha-se então a passear. ao redor da capela do engenho. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. Desta. tinha-se na conta de um doente. Ao contemplar esse ambiente. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo.

Não há. Eu bem sabia. sob os seus pés. como se já tivesse perdido o alento de viver. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. na terra onde pisava. onde os anjos cantavam. hosanas ao Senhor. em Os Doentes. como ele chamava. em serenata. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. Na ascensão barométrica da calma. Depois disso. 23 . levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. “na urbe natal do Desconsolo”. Mais adiante. Já cansado do ceticismo. num desalento ainda maior. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. como um arrependido. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. aliada à descrença. ansiado e contrafeito. Em As Cismas do Destino. que admirar chore um dia a crença perdida. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. numa emoção que comove. pois. fez dele um misantropo. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. atormenta-se com a idéia de que. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. à guisa de ácido resíduo. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. confessa-se minado pela tuberculose. o soneto Vandalismo. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. os acordes saudosos do coração. Lá para o fim do poema. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Era ali. Parece que desperta para a vida. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. De início. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. eis que escuta. Perdido o amor. entra a descrever a cidade dos lázaros. Essa real ou imaginária doença. imaginária cidade à margem do Paraíba.próprio poeta confessava. perdeu também a crença. passa a chorar a sua dor e a alheia.

Nesse decurso. há sempre o que referir. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. para ele. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. em serenatas. A arte. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. Assim é que. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. Santos Neto. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. Dos outros. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Ao contrário da incontinente afirmativa. Flóscolo da Nóbrega. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. que se afundava a alma do poeta. Não é. Templos de priscas e longínquas datas.. Onde um nume de amor. Raul Machado. João Lélis. posto que. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. João Lélis e De Castro e Silva. Álvaro de Carvalho. No final de contas. Sua obra. em gemidos de dor. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. já na 27ª edição. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Sabe-se como compunha. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. Enfim. pois. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. chegou a dizer que Augusto não era poeta. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. tenham bordejado na superfície do abismo em. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. Canta a aleluia virginal das crenças. era apenas o meio de formular soluções. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . apenas como autor de um livro apologético. na Academia Paraibana de Letras. por exemplo.. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. muitas opiniões foram veiculadas. quase todos. ler. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. que não é biografia e não chega a ser estudo. este último. José Américo de Almeida. No desespero dos iconoclastas. destaco Órris Soares.Meu coração tem catedrais imensas.

Cavalcanti Proença. Só depois de elaborada é que ia para o papel. que pretende ser de interpretação psicológica. disse que uma das suas forças. sangue de vísceras dilaceradas. entre nós. de um a outro canto da sala. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. figuras espectrais e outras visões sinistras. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. essa linguagem. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. escarros. com efeito. Muitas vezes. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. na época. impressionam pelo poder da dialética. reside justamente no termo técnico. Foi então que recitou de inopino. a passear a esmo. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. Os versos espoucavam no momento da inspiração. Neles. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. como em compasso de música. que não tenha fecundado a poesia nacional. a densidade.devoradoras. túmulos. associado à vibração sonora. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. a sua personalidade psicológica. Órris Soares. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Poe e Rimbaud. como lamenta o crítico. Em ambos. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. também 25 . sobretudo da crítica provinciana. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. No entanto. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. Essa incompreensão a respeito de Augusto. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. Em ter ficado sozinho. em 1945. um em 1920. Euclides da Cunha. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. lá fora. vermes. lábios crispados. claro que avulta ainda mais o seu mérito. num timbre especial de voz. o que acabava de compor. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. duendes. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. olhar perdido no espaço. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. o que era. este na prosa. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. à primeira vista incompatível com a poesia. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. Seus versos. enquanto forjava mentalmente a composição. Por tudo isso. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. Essa crítica. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. insulado em sua própria grandeza. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. o sentimento parece ter outra dimensão. entrava disciplinada em seus versos. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. o outro 25 anos depois.

tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. pelas crises espirituais porque ambos passaram. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Eis porque. está em tempo de ser feita. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto.ficaram sem seguidores. Com Baudelaire. Mas é preciso notar que essa musa. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. com efeito. Há. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. nem tudo pode ter cabimento. que apenas transparece em linguagem evasiva. Ou então. de sentido mais profundo. elogios ou restrições. no duelo da carne. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. O anojamento de Álvaro de Carvalho. é mais uma aversão de olfato alérgico. Nem por isso. Com Mallarmé. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. como se vê. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. por isso mesmo poética. pela tristeza indefinível da alma. mesmo doentia. na interpretação de um drama emocional. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. reconheça-se que essa poesia é humana. neste ensaio de exegese literária. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Não pode o critico ser ortodoxo. 26 . a fim de atingir. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Com Verlaine. num dos seus últimos sonetos. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. aparelhou. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos.

só nesse ponto dissimula o pensamento. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. vem o barulho das matracas. citado por Augusto Meyer.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. desejada por um.. sensações simples e cenestesias. de uma honestidade quase bravia. Encontra-se. isso mesmo de passagem. um grande medo toma conta do poeta. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. na postura de um campônio rústico. A mesma coisa ocorre com Augusto.através da sensação. em grupos prosternados. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema.. a idéia pura das coisas. Só com Rimbaud. palavras raras e eruditas. por sua natureza. havia acentuada tendência do poeta. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. as mesmas figuras de linguagem. em termos de comparação. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. Também no amor os dois se assemelham. desde a sua fase inicial. Ouvindo isso. assentado sobre cacos de pote e urtigas. de mistura com alucinações. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. como neste exemplo: 27 . Segundo Delahaye. que dialoga com os elementos imponderáveis. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. os mesmos descuidos de metro e rima. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. encontra-se em Roma. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. Vez por outra. guardando o corpo do Divino Mestre. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. em tropos ousados. um mês após a morte de Augusto. visionário. Augusto lembra Rimbaud. foi José Américo de Almeida. De lá de fora. em quem se acumulam. Súbito. Até nas aliterações e metáforas. pelo sentido da dor universal. Com Antero do Quental. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. temida pelo outro. O único que mencionou Rimbaud. Com Leopardi. numa sexta-feira santa. num artigo publicado em 1914. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. para a neologia e o vocábulo raro. Não fica apenas aí o confronto. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. É. no ar de minha terra. a filosofia da dor. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. na terra santa. Honesto em tudo. crematismos. “Na Eternidade.

A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. A toda boca que o não prova engana. Há. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. Em cada um deles. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. é verdade. é como a cana azeda.. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. Motivos escabrosos. em busca do paraíso terrestre. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. como Tântalo. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. E como não 28 . As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. na Bélgica. uma diferença de fundo entre os dois poetas. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. é inútil. sente-se que há um complexo de culpa. Augusto sentia-se puro. segundo é fama. provo-a. em suma. filha legítima de sua alma. embora tenham se casado e tido filhos. Descasco-a. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Rimbaud. exacerbava-a. onde se casou com uma nativa da Abissínia. andou conspurcado de sensações súcubas. à beira da água. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. ilusão treda! O amor. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. chupo-a. Ninguém sofre mais do que ele. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. . Depois desse fato. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. a julgar pelos seus lamentos.. No tempo de jovem. largou-se para a África. por causas várias. o bem e o mal caminhando juntos. vítima de injustiças humanas.. poeta. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. que era o seu anseio máximo. Não sou capaz de amar mulher alguma. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. é improfícuo.”. um suave concerto espiritual na natureza.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. mas que o levaram ao resultado conhecido. homens de bem cheios de nobres intenções. contudo.

deixava-se ficar no interior da concha. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. contra a sociedade. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. Neste passo. numa reação inócua. silvos de labaredas e suspiros de empestados. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. Por curioso paradoxo. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época.. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . 29 . e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. tudo quanto desperta a alma. conforme confissão feita a Mário de Alencar. contra a sua grei. depois que perdeu a ilusão dos homens. perdia-se no estado de dúvida. Tais similitudes valeriam. dessa conversão ao materialismo. A vida. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. o amor. Há muitas espécies de conversões em literatura. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. como fontes de inspiração. Não raras vezes. Um problema sempre gera outro. Foi a partir daí. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. chegaríamos por certo ao pai Homero que. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. sem preencher esse vácuo. luz. mas nem isso acredito tenha havido. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. imitação. a criação. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. entre a voz do sentimento e a da razão. isto é. perfume. onde não faltavam o ranger de dentes. beleza. som.pode reformar o mundo.espécie de autobiografia moral. revolta-se contra o mundo. martelada em versos magníficos e candentes. Mesmo assim.Une Saison en Enfer . do qual se considerava prisioneiro. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. os mistérios da natureza. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. tudo quanto eleva os sentidos. quando muito. isto é. cor. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. segundo apregoam os fundibulários da crítica. porém. Possuído do demônio da dúvida. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Augusto vai irredento até o fim. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta.

como ninguém ainda se entendesse. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. via de regra. uns afirmando. Ora. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. é. a propósito. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. se sucediam na tribuna. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. nas Alterosas. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. proclamou que Deus não existe. 30 . a essência dos Evangelhos. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. resolveu o presidente submeter a questão a votos. tal como Rimbaud. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. a meu ver. com raríssimas exceções. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. mas os que o seguem desconhecem.Enredado em idéias preconcebidas. Todos nós. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. Isso mostra que ele. No meio em que viveu era querido e admirado. heresia maior que a do poeta quando. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. viram nisso o pecado da blasfêmia. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. porquanto Deus é princípio e é fim. quando não proferida por modo vulgar e chulo. Se há Deus. aceitar as imperfeições do mundo. Apurada a eleição e com base no resultado. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. na realidade. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. Ao cabo do bombardeio oratório. que se veja na blasfêmia. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. Os oradores. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. é questão que não deve ser formulada. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. outros negando. um pedido de socorro. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. se não há Deus. Na prática. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. todavia. em meio a tantas emoções extravasadas. É o que há. afetando melindres de devotos. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. supria-se do mais no magistério particular. Vale mencionar. no desespero de tantos sofrimentos. Alguns críticos. Convém. se manifesta ainda escravo do batismo. Se o Cristo não vem em seu auxílio. em torrentes de eloqüência. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias.

sob estes galhos. explodiu em As Cismas do Destino. dá à alma a denominação de sombra. Por outro lado.Debaixo do Tamarindo. coisa que não cabe na boca de um ateu. virtudes que cultivava com extremado zelo. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. como se vê. desde Tales de Mileto. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. A denominação. Como uma vela fúnebre de cera. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. De inflexões mentais sua obra anda cheia. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. Voltando à pátria da homogeneidade. vem de muito longe. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Abraçada com a própria Eternidade. por mãos de seu filho Pirro. os filósofos iônios. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. começa o poema “Sou uma Sombra. No tempo de meu Pai. o sacrifício da linda moça Polixena. através dos séculos. De outras vezes. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. E como era sincero e honesto. como uma caixa derradeira.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . não se pode dizer fosse ele um materialista ético. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. entendiam a alma. 31 . Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina.atormentado por visões escatológicas.

as formas microscópicas do mundo. tal como se apresenta. era uma mônada. nas composições que vão até o fim do livro. na Federação das Academias de Letras do Brasil. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. Choram ainda dentro dele. mas com o que ai está me contento. da substância de todas as substâncias. Até Deus. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. Mais poderia dizer agora. em briga com o dualismo. 32 . Assim vai. até que morre numa cidade das Alterosas. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. para ele.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. a 12 de novembro de 1914. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. Que outros. isto é. !" Este trabalho. acrescenta. tal como a entendiam os filósofos iônios. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. É a substância primeva. vacilante na ciência fria. em soluços quase humanos. que procede do éter cósmico. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. Daí por diante. assaltado de alucinações. mas dentro da alma aflita Via Deus . mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. perdendo-se novamente no enleio cósmico. virtualidade espiritual. em Leopoldina. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. sua intimidade numenal. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. desde o declínio das crenças mitológicas. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. até mesmo num grão de areia. larva do caos telúrico. como entidade eterna. aos 30 anos de idade. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel.

Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Engenho Pau d'Arco. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. Eu. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. Córdula C. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. R. presumo. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Sofre de insônia. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. entretanto. de abusar um pouco do café. Conservo de memória tudo quanto produzo. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. 33 . dos Anjos e D. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. da chamada vida física. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. Tenho insônia raras vezes. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. o que não impede. Rio de Janeiro.

Anda a espreitar meus olhos para roê-los. A influência má dos signos do zodíaco. E vejo-o ainda. Monstro de escuridão e rutilância. desde a epigênese da infância.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Esforços faço. “Vou mandar levantar outra parede. Produndissimamente hipocondríaco. Sofro. igual a um olho. agora.. Já o verme -. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Ergo-me a tremer.. Meu Deus! E este morcego! E. Chego A tocá-lo.” -.. Este ambiente me causa repugnância. e à vida em geral declara guerra. E há de deixar-me apenas os cabelos. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu.. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Fecho o ferrolho E olho o teto. filho do carbono e do amoníaco. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Ao meu quarto me recolho. Minh’alma se concentra.Digo. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça.

Anoitece.. e quase morta. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Riem as meretrizes no Cassino. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. tênue.. Chega em seguida às cordas da laringe.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. raquítica.. Tísica. Mas. Quebra a força centrípeta que a amarra. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Que. em desintegrações maravilhosas. quando sonha.. de repente. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Deixa circunferências de peçonha. mínima. Delibera. À noite. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. e depois.

Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão.. Fruto rubro de carne agonizante. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Que poder embriológico fatal Destruiu. Em que lugar irás passar a infância. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 .Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. com a sinergia de um gigante. feto esquecido. Agregado infeliz de sangue e cal.. em letras garrafais. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Realizavam-se os partos mais obscuros. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Tragicamente anônimo. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. E. a feder?! Ah! Possas tu dormir.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros .

Ah! Para ele é que a carne podre fica.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. Janta hidrópicos. para provar A incógnita alma. Filho da teleológica matéria.é o seu nome obscuro de batismo... avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes.. Verme -. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. Na superabundância ou na miséria. Almoça a podridão das drupas agras. Suficientíssima é.. E vive em contubérnio com a bactéria. afaga-a. pelos séculos adiante.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Cão! -. arrima-a. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. em que tu dormes. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. acode-a A escala dos latidos ancestrais. E irás assim. ampara-a. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Livre das roupas do antropomorfismo. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 .

esta tesoura.corte Minha singularíssima pessoa. Dr. Como uma vela fúnebre de cera. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. portanto. esta árvore. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. sob estes galhos.. como uma caixa derradeira. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 .. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Guarda. de amplos agasalhos. Voltando à pátria da homogeneidade. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. e..DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai.

com uma ânsia sibarita. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. por toda a pro-dinâmica infinita. um dia. Como um pagão no altar de Proserpina. como quem tudo repele. Alheio ao velho cálculo dos dias. Por trás dos ermos túmulos. -.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. Na guturalidade do meu brado.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. mas dentro da alma aflita Via Deus -. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta...essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. com o esqueleto ao lado.

Ah! De ti foi que. Dentro do ângulo diedro da parede. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.. mísera e mofina. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Nos estados prodrômicos da vida. Como quase impalpável gelatina. Onde os bandalhos. como um gado vivo. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. nesta rede. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Oh! Mãe original das outras formas. autônoma e sem normas. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. vede: É o grande bebedeouro coletivo. talvez. Em que é mister que o gênero humano entre.. Todas as noites. moços do mundo. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste.

é o pneuma .Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. como o filósofo mais crente. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 .este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . O mundo fique imaterializado -. perante a evolução imensa.. É. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. É a morte. é o ego sum qui sum . é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio.IDEALISMO Falas de amor. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Creio. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. para o amor sagrado. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui.. Amo o coveiro -. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando.

Cinzas. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. como os sonhos dos selvagens. À meia-noite. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente.. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. Comi meus olhos crus no cemitério. caixas cranianas.. Mas. Pelas monotonias siderais.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. nele. se hoje volto assim. talvez as Musas. inclusas. e... Vaguei um século. com a alma às escuras. improficuamente. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . subi talvez às máximas alturas. cartilagens Oriundas. Era tarde! Fazia muito frio. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo.

para o Futuro.fontes de perdão -. no Dia de Juízo. Se fosses Deus.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. vales. pois. Eu. em diferentes Florestas. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. Tamarindo de minha desventura. Na multiplicidade dos teus ramos. glebas. Pelo muito que em vida nos amamos. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. inda teremos filhos! 43 . Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. selvas. Depois da morte. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. trilhos. com o envelhecimento da nervura. reunidos. porém. tuas sementes! E assim. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Tu. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão.

. nos doze meses.. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . Ter o destino de uma larva fria. Apraz-me. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. É-me grato adstringir-me. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Ganem todos os vícios de uma vez. Como a cinza que vive junto à brasa.. Perseguido por todos os reveses. à categoria Das organizações liliputianas. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. Como os Goncourts.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. na hierarquia Das formas vivas. Na orgia heliogabálica do mundo. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde.. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. asa De mau agouro que. É meu destino viver junto a esa asa.

. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . “Homem. Ouvindo a Escada e o Mar. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. rasga o papel. com os dedos brutos Para falar.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. conquanto ainda hoje em dia. a mim. violento. o Hércules. “À luz da epicurista ataraxia. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. puxa e repuxa a língua. É como o paralítico que. aos soluços. mamífero inferior. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda.. em desalento. o Homem.

Furtaste a moeda só.. Vejo. Que ela absolutamente não furtava. o ouro que brilha. agora. Tu só furtaste a moeda. como cruéis e hórridas hastas. minha Mãe. não fora ela! --“ E maldizia a sina. então. entretanto.Não. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. Eu furtei mais. afetava Susceptibilidade de menina: “-. Que a mim somente cabe o furto feito.. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. em minha cama. minha ama.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. após tudo perdido. hipócrita. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. Ele hoje vê que. Em sucessivas atuações nefastas. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. Sinhá-Mocinha.. ralhava. mas eu.. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas.

os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho.. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. do que este que palmilho E que me assombra. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -.. após a árdua e atra refrega.. É noite. aos reais convivas. E tu mesmo.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. Hás de engolir. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse.a mãe comum -. e.. Hoje. Assim Tântalo. num festim.... Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . à noite. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos..o brilho Destes meus olhos apagou!. porém. igual a um porco.

Eu. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. o Ódio e a Carnificina. trilhando as mesmas ruas. Irei também. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Deus. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. O que o homem ama e o que o homem abomina.... Tu. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. para amenizar as dores tuas. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. Pai.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom.. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. gemendo. Às alegrias juntam-se as tristezas.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. O Amor e a Paz. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. para onde fores. meu Pai?! Que mão sombria. pois. é justo. e o ângulo reto. e sendo justo. Deus não havia de magoar-te assim! 48 .

cuidei que ele dormia.. Como Elias.. Mas pareceu-me. Mãe. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. sonhando. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o.. o ofício da agonia.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Nem uma névoa no estrelado véu. num carro azul de glórias. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. entre as estrelas flóreas. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. E a marcha das moléculas regulam. Rezo.. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra.

. Livre deste cadeado de peçonha. Caiu aos golpes do machado bronco. numa rogativa: “Não mate a árvore. possui minh’alma!.. meu filho.Disse -...As árvores. olhando a pátria serra. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. Para que eu tenha uma velhice calma! -. Esta árvore. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. pai.. sôfrega e ansiosa.. -. no junquilho. meu pai. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza.. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 .e ajoelhou-se. Apraz-me. para que eu viva!” E quando a árvore. pois. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa.. meu filho. enfim. É preciso cortá-la.Meu pai.

o amplo éter belo. Olha a atmosfera livre. mergulhou a cabeça no Infinito. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Pões-te a assobiar. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. preto e amarelo. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. Foi este mundo que me fez tão triste. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Continua a comer teu milho alpiste. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. não tens mais! E pois. bruto. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 ..VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo.. de à antiga rota Voar.. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Tu nunca mais verás a liberdade!. desde o mais prístino mito..

Noite alta. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas.. cismava Em meu destino!. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. Templos de priscas e longínquas datas. Ante o telúrico recorte. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros.. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . E erguendo os gládios e brandindo as hastas.. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Onde um nume de amor.. Canta a aleluia virginal das crenças. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. na diuturna discórdia. ególatra céptico. em serenatas.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu.

VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. E não pôde domá-lo enfim ninguém. Somente a Ingratidão -. o gládio de aço. Apedreja essa mão vil que te afaga. e doma Meu coração -. sente invevitável Necessidade de também ser fera. entre feras. por fim. que. é a véspera do escarro. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. E qual mais pronto. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . por fim. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Veio depois um domador de hienas E outro mais. guerreiro. ao todo.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. e. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. veio um atleta.. Vieram todos.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. nesta terra miserável. Toma um fósforo. toma A adaga de aço. Meu coração triunfava nas arenas. amigo.. E à rutilância das espadas. Acende teu cigarro! o beijo. uns cem. Mora.

. No rudimentarismo do Desejo! 54 . é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. podendo mover milhões de mundos.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. pois. Que. Da luz que não chegou a ser lampejo. chorando.. a escutar. pancada por pancada. A sucessividade dos segundos.. E é em suma. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. do Orbe oriundos. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. Da transcendência que se não realiza... Ouço. Quer resistir. em sons subterrâneos. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. a que só ele assiste. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos.. Sabe que sofre. nada há que traga Consolo à Mágoa.

Cesse a luz. Parem as vidas. Como a última expressão da Dor sem termo. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. afinal. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . Foi que eu. num grito de emoção. sincero Encontrei. feito força. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. me desencarcero. Oh! Nauta aflito do Subliminal. eu. Morto o comércio físico nefando. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. a animar o cosmos ermo. que os anos não carcomem. De que. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. pensando.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana.

APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto.. há inúmeros milênios. sem gritos. pois. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. "Com essa intuição monística dos gênios. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. ao sol posto. Onde a alva flama psíquica trabalha. o ouvido. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. Era. o olfato e o gosto! Carne. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. feixe de mônadas bastardas. arpões.. numa alta aclamação. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. e. a vista.. E o Homem — negro e heteróclito composto. a irmanar diamantes e hulhas. sem retumbância. Diafragmas. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos.. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. Dói-me ver. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . decompondo-se. muito embora a alma te acenda. A dardejar relampejantes brilhos. Em tua podridão a herança horrenda.

sem dor. Que produz muita vez. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. Tragicamente. A convulsão meteórica do vento.. para mim que a Natureza escuto. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. é o transunto. é a essência pura. e. no Mundo. meus semelhantes! Mas. na noite escura.O PÂNTANO Podem vê-lo. Este pântano é o túmulo absoluto. E o nada do meu homem interior! 57 . às escâncaras. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. a porta. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. à espera de quem passa Para abrir-lhe. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. É a síntese. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga.. opondo-se à Inércia.

entanto. um dia. como o gérmen de outros seres. é natural. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. e.. Reconcentrando-se em si mesma. Volvas à antiga inexistência calma!.. E hás de crescer. Teu desenvolvimento continua! Antes. não progridas E em retrogradações indefinidas. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água.. no teu silêncio. Antes o Nada. geléia humana. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . Vence o granito. deprimindo-o . geléia crua. O espanto Convulsiona os espíritos. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. em conjugação com a terra nua. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente.. em realidade. que ainda haveres De atingir. tanto Que. ainda algum dia. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. oh! gérmen. porventura. causa do Mundo.A UM GÉRMEN Começaste a existir.

Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço.. São absolutamente negativas! Araucárias... Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . Vivem só. nele. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora.As ambições que se fizeram troncos. é o instinto horrendo De subir.. descendo A irracionalidade primitiva.. no seu arcano.Todas as hermenêuticas sondagens. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. É a Natureza que.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. na ordem cósmica.. é transporte. traçando arcos de ogivas. Bracejamentos de álamos selvagens. os elementos broncos. Como um convite para estranhas viagens... E a coorte Das raças todas. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante.. trancada num disfarce. é inquietude. é ânsia. . .. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva.

Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas.. Que o sarcófago. Riqueza da alma. inteira. sol do cérebro.. Dói-lhe.. sem convulsão que me alvorece. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. E. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato... acérrima e latente.. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. saúde dos seres que se fanam. ancoradouro Dos desgraçados. psíquico tesouro. em suma. À humana comoção impondo-a. oh! Dor. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. assim. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam..

Expressões do universo radioativo. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio .. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. Haveis de ser no mundo subjetivo. Ions emanados do meu próprio ideal. pois. ) Com o vosso catalítico prestígio. Dai-me asas.. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. em épocas futuras. Minha continuidade emocional! 61 . Dai-me alma. que.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante.. Benditos vós. pois. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. para o último remígio. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea....

as mãos. os pés e os braços Tombara. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 ... A espaços As cabeças. Eu sinto. A carne é fogo.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. Subitamente a cerebral coréa Pára.. então. Arranco do meu crânio as nebulosas. A alma arde. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração.. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. Emoções extraordinárias sinto. O cosmos sintético da Idéa Surge.

carne sem luz..A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. Receando outras mandíbulas a esbangem. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Superexcitadíssimos. Teu coração se desagrega. na ânsia voraz que. entretanto. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . criatura cega. o alfa e o omega Amarguram-te. tragando a ambiência vasta. e. Rugindo. Porque. No desembestamento que os arrasta. aumenta. Realidade geográfica infeliz.. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Hebdômadas hostis Passam. Sangram-te os olhos. na superfície do planeta. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. os dois Representam. Deixa a tua alegria aos seres brutos. Montão de estercorária argila preta. enquanto as almas se confrangem. Excrescência de terra singular. Os dentes antropófagos que rangem. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. ávida.

Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. aparelhou.. Que força alguma inibitória acalma. mordem-se. O Amor. a Ciência. sou maior que Dante. o Inferno. E trago em mim.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. a Glória.. soluçando.. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. homens felizes.. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. Sob pena. Da dor humana. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou.

Existo Como o cancro. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 ..O CANTO DOS PRESOS Troa. a alardear bárbaros sons abstrusos. Uiva. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. (Hoje. Entoado asperamente. em voz muito alta. ontem. não cabendo mais dentro dos peitos. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. O epitalâmio da Suprema Falta. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. Que. È a saudade dos erros satisfeitos.. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância.. à luz de fantástica ribalta. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal.. Teço a infâmia. urdo o crime. a exigir que os sãos enfermem. cresto o sonho. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta.

pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. como um corvo. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. Nos paroxismos da hiperestesia. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. ausculto. minha alma. Transponho ousadamente o átomo rude E.. por fim. à noite.. agarro. apreendo.. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . o Infinito se levanta À luz do luar. invado. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. enfim. transmudado em rutilância fria. Feita dos mais variáveis elementos. Ceva-se em minha carne.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. o Céu e o Inferno absorvo.. dona. O Infinitésimo e o Indeterminado.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -.

E acima deles. como um astro. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. projetado muito além da História. num monturo.. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Tifon. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. Laquesis. Sentia dos fenômenos o fim. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto.. Átropos.. aos trismos Da epilepsia horrenda. arder. Siva. virgem.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. Eu. como a luz do amanhecer. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam.. Como a luz que arde. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo.

neste ergástulo das vidas Danadamente. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. E. Nutrindo uma efeméride inferior... A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei..MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. Branda..) Quem sou eu.. remoinha. tenta transpor o Ideal.. Hão de encontrar as gerações futuras Só. alarga-se em meu hausto.. nem mesmo ao ronco Do furacão que. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser..Trilhões de células vencidas. Grita em meu grito. às apalpadelas e às escuras. rábido. nas minhas formas carcomidas. Roem-na amarguras Talvez humanas. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . a soluçar de dor?! -. Folhas e frutos. esse mundo incoerente. a afagar tantas feridas. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. entanto.

Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. Penetro a essência plásmica infinita. sânie e perfume. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. em cisma abismadora absorto. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. Sou eu que.. feto vivo e aborto. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . em que me inundo. Apreendo. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. ateando da alma o ocíduo lume. -. hirto. -.. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. desconforto E ataraxia. aliando Buda ao sibarita. Massa palpável e éter.

nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. dois. cinco. infinita como os próprios números. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . três. crânios. quatro.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. somente em. Porque. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá.. Reduzir carnes podres a algarismos. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. -. por hipótese.Tal é. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. cérebros. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias.. sem complicados silogismos. em fúlgidos letreiros... rádios e úmeros. na abismal sustância informe. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu.

amam jazer. íngremes.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. porventura. Por um abortamento de mecânica. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. Estacionadas. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. Qual é. oh! delumbrada alma. me semente. na natureza espiritual. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Quem sabe. perscruta O puerpério geológico interior. alma. e dize-me. a alma. afinal. em contrações de dor. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. assim. De onde rebenta. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. recalcados.

É a subversão universal que ameaça A Natureza. E eu só. Espião da cataclísmica surpresa. derrota Na atual força. derrubadas. subjugue-as ou difarce-as. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. integérrima. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. babando. Pára e. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 .. em noite aziaga e ignota. a amarra agarrada à âncora. alçando o hirto esporão guerreiro... A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. A íngreme cordoalha úmida fica.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. pelo orbe adiante. e.. sonha! Mágoas. Zarpa... da Massa. o último a ser. Federações sidéricas quebradas. que o Éter indica. se as Tem.

vazio! 73 . cave. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Sôfrego. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. o dolo sáxeo. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Dentro dos ossos. E quando. ainda depois da morte. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Em convulsivas contorções sensuais. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. que ela encheu.. Haurindo o gás sulfídrico das covas. Tragicamente. ao cabo do último milênio. Os nossos esqueletos descarnados. Arrancar. adstrito à ciência grave. num triunfo surpreendente. em que arde o Ser. e. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. Para a perpetuação da Espécie forte. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados..

. Na mão dos açougueiros. Viu vísceras vermelhas pelo chão. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Era tão moço. Olhou-se no espelho. Horrível! O osso Frontal em fogo. E. mancha a gleba. E amou. Somente. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios.. iguais a espiões que acordam cedo. há instantes. com um berro bárbaro de gozo. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . antes do almoço. Ia talvez morrer.. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. A água transubstancia-se. fora. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou... vendo sangue. Disse. eis que viu.. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter.. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante.. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. Extraordinariamente atordoadora.

E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada.. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. No mar de humana proliferação. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. reconheço O império da substância universal ! 75 . Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador..VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.. Leio o obsoleto Rig-Veda. E em tudo igual a Goethe. ante obras tais.. me não consolo. E.... dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. Rasgo dos mundos o velário espesso.

No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. imensa. E o coração me rasga atroz.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa.. 76 . P’ra iluminar-me a alma descontente. ao meu lado. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Eu a bendigo da descrença. Tragicamente de si mesmo oriundo. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. A Idéia estertorava-se. em meio. imóvel. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. E assim afeito às mágoas e ao tormento. Parecia dIzer-me: "É tarde. Era de vê-lo. atro e subterrâneo. Para dar vida à dor e ao sofrimento. estranho ao mundo. Porque eu hoje só vivo da descrença. Fora da sucessão. Se acende o círio triste da Saudade. resignado. Mas que no entanto me alimenta a vida. Hirta.

Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. Ah. Não sei se viva p’ra morrer na terra. sombras cor-de-rosa . Onde a dúvida ergueu altar profano. Fraco que sou. e então sereno. em fundo misticismo: . gárrulos voando . de ilusões tão bela. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. desgraçado réu.a Grande Mãe .Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. eu creio em ti. entre o medo que o meu Ser aterra. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. Fugazes sonhos. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. seu olhar magoado. Hoje ela habita a erma soledade.o exorcismo Terrível me feriu. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . Cansado de lutar no mundo insano.Oh! Deus. Da Igreja . mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. volvi ao ceticismo. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam.Todas se foram num festivo bando.

Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. langorosas. de amor ferido.MÁGOAS Quando nasci. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . E que tornou-o assim. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Exausto de pisar mágoas pisadas. amei. Tristes fanaram redolentes rosas. Eterno pegureiro caminhando. Sombrio e mudo e glacial. Morreram todas. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. num mês de tantas flores. Desfeitas todas num guaiar dorido. Cansado de chorar pelas estradas. pálidas agora. SENHORA Ouvi. Ouvi. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. tristes. senhora. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Todas murcharam. triste e descrido. Revolvo as cinzas de passadas eras. triste pela vida afora. Quando a morte matar meus dissabores. todas sem olores. senhora. senhora. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI.

venceu batalhas. Vivia alegre o vate apaixonado. Era o soldado. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Louco vivia. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Tu que. pendeu triste e desmaiada. enamorado dela. Mas a Pátria chamou-o. No sepulcro da loura virgem bela.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. E voltou. e o pesar negro e profundo. um tresloucado. Ao chegar. mas a fronte aureolada. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Altivo lutador. Apaixonou-se d’uma virgem bela. coração amargurado. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Esconde à Natureza o sofrimento. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. olímpica e singela! E partiu. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. na estrada da existência em fora. Oh! Tu. E fica no teu ermo entristecida. Alma viúva das paixões da vida. Cantaste e riste. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. Alma arrancada do prazer do mundo. 79 .

Há de chegar. silentes. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Fora no campo pássaros trinavam. ardentes . pálidos. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Ambos unidos soluçara um beijo. no eternal soluço.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. São minhas crenças divinais. Vinha rompendo a aurora majestosa. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. funéreos. Resvalando nas sombras dos ciprestes. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Desliza então a lúgubre coorte. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. a brisa respondia.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Quando da vida. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. soturnais. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Chegara enfim o dia desejado. E a mesma frase o noivo repetia.

Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. No delírio. 81 . Já que do mundo não vinguei-me em vida. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Assim a turba inconsciente passa. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. E espuma e ruge a cólera entranhada. E onde a vida borbulha e o sangue medra. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Espumando e rugindo em marulhada. Mas se das minhas dores ao calvário. Aí existe a mágoa em sua essência. Em luta co’a natura sempiterna. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. A morte me será vingança eterna. Dores que ferem corações de pedra. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. porém.

E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Enquanto outros que podem. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . bom Papá. Foste do amor o mártir sacrossanto. Su’alma livre para o Céu se alara. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Pois se da Religião fizeste culto. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Quantos. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Morrera um dia desvairado. estulto. Jóias. Irmão querido. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. num abraço de ternura santa. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. dão-te enganos. Tu’alma ri-se descuidosamente. bonecos de formoso busto. Somente assim festejarei teus anos.

que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . presa. Moldada pela mão da Natureza. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. A chama cruel que arrasta os corações. Tornou-se a pecadora vil. aveludado. Dançavam-lhe no colo perfumado. Do destino fatal. tomando a enxada gravemente. mornos. Balbuciou. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. palpitantes. tinha ido ver a sepultura De um ente caro.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. Bela. esta mulher de grã beleza. Do fado. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. amigo verdadeiro. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. divina. Os seios brancos. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. No entanto.

Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. os sons esmorecendo.Addio. úmidas arcadas. . addio! 84 . Repercute. Eleonora. No sigilo das rezas misteriosas. Ai! não. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. Subindo pelo Azul da Inspiração. Trovador torturado e angustioso. não acordeis. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. Assim canta também meu coração. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. E à noute quando rezam na clausura. mavioso. addio. Que guardam pér’las de funéreas rosas. desnudas. E as mesmas portas impassíveis. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Que guardam cinzas de ilusões passadas. pouco a pouco. dolente. E as mesmas monjas sempre tristurosas.

Arca sagrada de cerúleos sonhos. o triste outono. a desgraçada estulta. gargalha. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. os teus fulgores. para guardar a mágoa oculta.coração saudoso. Moça. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. Chora. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. Primavera. No sudário de mágoa sepultada.a veste desgrenhada. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Canta.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . soluça . . Num sepulcro de rosas e de flores. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Eu sei a sua história.Arca cerúlea de ilusões etéreas.O segredo d’um peito torturado E hoje. . Vai morta em vida assim pelo caminho. tão moça e já desventurada. Da desdita ferida pelo espinho. porém.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . O cabelo revolto em desalinho.

O berço onde as venturas se embalaram. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. Voltam sonhos nas asas da Esperança. risonha. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. delirante e vário. Muita gente infeliz assim não pensa. Também espero o fim do meu tormento. tristonha . eu trajo o luto do passado. portanto. ela não cansa.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Salve-te a glória no futuro . Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Foi outrora do riso abençoado. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Também como ela não sucumbe a Crença. Sonâmbulo da dor angustiado. não busques saber por que. É minha sina perenal. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Sirva-te a crença de fanal bendito.avança! E eu. que vivo atrelado ao desalento.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Senhora. ergue o teu grito. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. 86 . Mas não queiras saber nunca. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. túm’lo do prazer finado. Vão-se sonhos nas asas da Descrença.

porém. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. santíssima. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Tenta às vezes. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Mas volta logo um negro desconforto. sublime na Descrença.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Bela na Dor. Sombra perdida lá do meu Passado. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Chora . Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Quem me dera morrer então risonho. Quando o rosário de seu pranto rola. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola.

ama.. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. Branca. Estende o teu olhar à Natureza.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. As níveas pomas do candor da rosa. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. púbere. Na altura Imensa. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . nevada. O amor é a hóstia que bendiz a Crença.. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. crê em Deus. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Enquanto o amante pálido. e. pois. a seu lado Medita. Essa sublime adoração do crente. Dorme talvez. mimosa. a fronte triste. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si.

Tem pena dessas cinzas que ficaram. coveiro. . dos proscritos. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . porém.TEMPOS IDOS Não enterres. A procissão dos tristes. Vai Corina mendiga e esfarrapada. Entre todos. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. A romaria eterna dos aflitos. além. lânguida e bela. E na choça a lamúria que traspassa O coração. . o meu Passado. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça.Quero abraçar o meu passado morto. Dos romeiros saudosos da desgraça. A alma saudosa pelo amor vibrada. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . Eu vivo dessas crenças que passaram.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade.

um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Cheia da luz do cintilar de um astro. adeus.eu disse.ADEUS. Hermeto Lima Adeus. Saí deixando morta a minha amada. Para mim no mundo Tudo acabou-se. É como um despertar de estranho mito. ADEUS. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. apenas restam mágoas. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. Perto. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Voa. suspirando. se eleva em busca do infinito. Auroreando a humana consciência. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. Vencendo o azul que ante si s’erguera. adeus! E. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . 90 . Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. devassando a terra. Sulcando o espaço. ADEUS! E. Fitando o abismo sepulcral dos mares.

E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Estrela esmaecida do Martírio. triste. onde não pousa a desventura. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . . Viu o adeus que do Céu ela enviava.Vai-te. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. com ela Negras sombras também foram chegando. E eu disse . Lá onde nunca chegue esta saudade. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. Disse. Envolto da tristeza no delírio. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Se eu sou o orvalho eterno que te chora.LIRIAL Por que choras assim. Minh’alma que de longe a acompanhava. irmã pálida da Aurora. e a estrela foi p’ra o Céu subindo.A sombra deste afeto estiolado. Mas a noute chegou. tristonho lírio.

92 . Depois. a minha bem amada. E ela fita-me. o algoz . Estendo à Dulce a mão.. E eu balbucio trêmula balada: . perdão.o criminoso . O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. A esmola dum carinho apetecido. Morre-me a voz. o olhar enlanguescido. e eu gemo o último harpejo.e estertorada A minha voz soluça num gemido. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão.. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. a fé perdida. isento de pecado.então. Vítima augusta de indelével falso. E na atitude do Crucificado. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. O olhar azul pregado n’amplidão. E dos lábios de Dulce cai um beijo. por entre a dolorosa estrada. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. Puro de crime. Pedir a Dulce. dai-me u’a esmola .A PRAÇA ESTAVA CHEIA. A praça estava cheia.Senhora.

Lá. E hás de tombar um dia em mágoas lentas... ave negra da Desgraça.crença Perdida . E as trevas moram. obumbra-me em teu seio. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. onde d’água raso O olhar não trago. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. Há perfumes d’amor . nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . acolhe-me. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses.segue a trilha que te traça O Destino. e. Num desespero rábido. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . assassino. Gênio das trevas lúgubres. Empenhada na sanha dos abutres. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES... acolhe-me N’asa da Morte redentora.

Abismados na bruma enegrecida. sem nenhuma Nuvem sequer. Banhando a fria solidão das fragas. Os nimbos das procelas desta vida. Reflete a luz do sol que já não arde.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. e a alma é a Flâmula do sonho. sem bruma Que a transparência tolde. num mar de esp’rança. Quando vos vejo. então. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Mas quando o céu é límpido. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Que o céu reflete. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Treme na treva a púrpura da tarde. só descanta. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. O MAR O mar é triste como um cemitério. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. dentre a escura Treva do oceano. a vida é qual risonho Batel. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza.

Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. e em si a Luz consoladora Do amor . FOGE! Aurora morta... Aurora morta. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. Adeus oh! Dia escuro. é dor. Agora. meu Futuro.1902 AURORA MORTA. lá nos espaços. agita as tuas asas. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. O grande Sol de afeto . é desengano.o Sol que as almas doura! Fugiu. Ascende à Claridade.) Nessas paragens desoladas. E eu ergo preces que ninguém responde. quem dera Voar est’alma a ti.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano.1902 95 . Nem vibra a corda que a saudade esconde. foge .. Cantarias do amor a primavera.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. o meu único Norte. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. Hoje é trevas.. oh! Minha Mágoa. Triste criança virginal.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. Anseios d’alma aqui se perdem. Dia do meu Passado! Irrompe. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco .

e.Cítara suave dos apaixonados. despertando sonhos. Quando. Branca. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. no teu riso de anjos encantados. nitente. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . as águas límpidas alvejam Com cristais. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .NO CAMPO Tarde. Pendem e caem . ao luar. à dolente Unção da noute. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata.a Louca tenebrosa. E há. Chora a corrente múrmura. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados... emergindo às trevas que a negrejam. Bendito o riso assim que se desata . No alto. chorando enfloram. Sonorizando os sonhos já passados.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas.1902 96 . entretanto. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Ah! num delíquio de ventura louca.

PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. virginais aromas De essência estranha. é como os prantos Níveos. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. Pau d'Arco -1902. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. P'ra desvendar os seus segredos santos. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Se evolarn castos. E a lua é como um pálido sacrário. Eu. se duas eu tivera. Ah! como a branca e merencórea lua. toda a cálida Mística essência desse alampadário. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Flor dos mistérios d'alma. que a virgem chora. 97 . Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. sacrossantos. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. eterna noctâmbula do Amor. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. Derramam a urna dum perfume vário. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Também envolta num sudário — a Dor. noctâmbulo da Dor e da Saudade.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva.

.Quero Correr em busca do Futuro. Um dia morto da Ilusão às bordas. Tanto que cantas. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . Que desespero insano me apavora! Aqui. a lua é triste e calma.. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas.. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Tanto que gemes.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Ali. pompeia a luz da branca aurora. Quando alta noute. Choras. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. E vais aos poucos soluçando mágoas. bandolim do Fado. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Teu canto. sonhar novas idades. vindo de profundas fráguas. soluças.Quero partir em busca do Passado. e ilusões acordas. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. chora um ocaso sepultado.

Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia.ARA MALDITA Como um'ave. Meiga.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. qual hóstia. à voz de Lúcia. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. cindindo os céus risonhos. Tocando n'ara negra o níveo seio. caindo dos altares. também ria! 99 .. agora.. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. E eu quis beijar-te o lábio redolente. alegre e rubro. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. mas eis que neste enleio. E beijei-te. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . O sol. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. NA ETÉREA LIMPIDEZ. Caíste morta ao celestial preceito. tu vinhas a cindir os ares. E. O céu tremia em seu trevoso flanco. E eu vi os seios teus virem inconhos . Na etérea limpidez de um sonho branco. grave e lenta. e como Lúcia. Fulgia a bruma para sempre. Quiseste-me beijar a ara do peito. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que.Foge.

E.ei-lo que avisto. Mas. Agora. Longe das sombras aurorais e amadas. urnas de Sonho. o Mundo se concentre. Flores mortas da Aurora. em bando. o túmulo da Crença. E em mim como no Templo. E a rasgar. Que beija a terra e que abençoa os campos. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. E a lua. luminosa. e. a rasgar o lúrido sacrário. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. ante o branco estendal das madrugadas. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! .TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas.A colunata êxul do Sonho Morto . e. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. em banho ideal de amor te inundas. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. ao ver-te nua. eis que emerges. a Virgem Mãe dos céus escampos. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. Nua. Que.o círio Da Quimera Falaz. Sentes o peito em ânsias revoltadas. Diluis teu peito em sensações profundas.

tudo chora.Fúlgido foco de escaldantes brasas .e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.. .. como o sol . Etéreo como as Wilis vaporosas. formosa entre as formosas. ela. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. semeando a Morte. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim.. Embaladas no albor da adolescência... e a Peste ri-se. enquanto Vai devastando o coração das casas. Colmado o seio de virentes flores.É o castigo de Deus que passa mudo! .a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta.A PESTE Filha da raiva de Jeová .O sol a segue. entre esplendores. Como o Cristo sagrado dos altares.. Plena de graça.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. tudo! Quando Ela passa. formosa. A alma diluída em eterais cismares. 101 . Quero-te assim .

Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. perdoa o teu vencido. pátria da Aurora exilada do Sonho! .. Como o santo levita dos Martírios. a teus pés. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. meu anjo. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. insânia.CÍTARA MÍSTICA Cantas. eis-me a teus pés. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia.. E para mim.... É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . Chegou a Noite.. . ah! ninguém me responde. pelo mundo. penseroso e pasmo. assim.... o meu Sonho morreu! Perdão.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. Eu venho arrependido.. pois.Irei agora. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. insânia. Açucena de Deus.

Da Messalina fria no regaço. Por um Cocito ardente e luxurioso. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário.. Banhou-me o peito. no Inferno do Gozo. Onde nunca gemeu o humano passo. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. e. porém. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. supremos. que da Desgraça veio Maldito seja.. Em ânsia de repouso.. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. Turificando a languidez dum seio! O amor. sem Calvário. .. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Mas.

no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. também da Dor. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta... ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 .. . Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. a noute é tumbal.. e a saudade da infância.. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. . E estavas morta. E vi-te triste.. lá dos braços hercúleos. Como um'alma de mãe. a sós.. Ah! que um dia da Vida. Sombra de gelo que me apaga a febre. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. desvalida e nua! E o olhar perdi. eu que te almejo... eu vi.SOMBRA IMORTAL . estes dardos acúleos Caíam.. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo.E tu velas.. mulher..

Choras. Alva d'aurora. virginal. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Que canto é este. Uma pantera foi se ajoelhando. e no Santo harpejo.. inata! E.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. e.. chegando. no negror me abrasa. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. tu. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Pérolas e ouro pela serrania. Bendita a Santa do Carinho. o seio branco. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora..NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. Branca bem como empalecido arminho. e é noute de fatais abrolhos. te acolheu a mata.. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto.. ajoelhando à imagem do Carinho. E um canto vai morrer no vale fundo. Chegaste... Alvorejando em arrebol de prata. Somente tristes os teus olhos vejo. Que luz é esta que das brumas vasa.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . O roble altivo entreteceu4e um ninho. profundo?! Rumores santos. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.. entanto..

Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma.. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa.. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. e lânguida. Fria como um crepúsculo da Judéia. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas.. Triste como um soluço de Dalila. 106 . no Alto. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Já Vésper.PELO MUNDO Ânsias que pungem. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos.. mórbidos encantos. Qual rosa branca que ao tufão vacila. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos.

A hora dos tristes e dos descontentes. coração. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas.Fogo sagrado nos festins da Morte . Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . querida! Já é Ave-Maria .o voltairesco clown . os gaturamos Num recesso de névoa. Silfos morriam.. adormecida. clown da Sorte . tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso .. sonolento e tardo. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.O RISO "Ri. e a todo o seu assédio. No ar. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho.Eterno fogo.Ele.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. QUERIDA! Vamos. Na Via-Látea fria do Nirvana. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. que ao frio alvor da Mágoa Humana. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana..quem mede-o?! . Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . Riso..

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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Surge agora a Lua. Os ventos. vão bater.. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer.. violentos. Os passos mal seguros Trêmulo movo.) Chove.. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. diante do vulto dos conventos. mas meus movimentos Susto. Negro. Saio de casa. LÁ FORA.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão.. O dia Foge. De encontro ás torres e de encontro aos muros. E em meio ás refrações verdes e hialinas. A incandescência irial dos candelabros.. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. Desencadeados. Vibra. NOTURNO (CHOVE.. batendo em todas as retinas. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível.

enquanto o Tédio a carne me trabalha.. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.. outono. verão. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo.. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. Diluiu o silêncio em litanias. Que há muito tempo não cantava lá. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. .E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. poetas. Primavera.. inverno! 113 .. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões..Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. E hoje. os vermes vis. Já que perdi a última batalha! E. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu..

Pare chorando nesta Terra Santa..pássaros da Noute! 114 . ela. . aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. Aqui é o Campo-Santo. ao noturno açoute. Carpem na sombra pássaros ascetas. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. onde. inda altiva. Gemem poetas . abraçado às campas dos poetas. Ela. enxuto o olhar.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. e quando passa.. e o travo há de sentir. E se cantar como a Saudade canta.A DOR Chama-se a Dor. enxuta A face. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza.

Vence.O SONHO. na Suprema Altura Sinto. assomem Descrenças. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . o sonho. eu penso na Ventura! E o pensamento. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. poeta. e morrem os vermes que o consomem. a crença e o amor. Luta. surjam tédios na Descrença. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. A CRENÇA E O AMOR O sonho. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. nada há que o abata e o vença! Por isso. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. e por fim.

Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. e. por fim. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade... pois. estudares.PARA QUEM TEM NA VIDA. por fim.. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. profundo.. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. Tesouros reais. nada achaste. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. De que te serviu.. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. para penetrar o mistério das lousas. Feito no decurso de dois minutos... Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. auríferos tesouros. Foi-te mister sondar a substância das cousas ..Construíste de ilusões um mundo diferente. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo.

.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 ..as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. dois gigantes mudos.O NEGRO Oh! Negro. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto. Embora oculta. São dois colossos. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos... o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.. .santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. em ânsias. ela subiu. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra .. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. no entanto.

em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava.E o horror começa! Rasga As vestes. quantos também deixei. Implora a Deus como a um fetiche vago. Trás de mim. . Saiu. ela seria morta. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . como eu. na atra estrada que trilhei... Nisto. ver Se nesta ânsia suprema de beber.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!.Quer fugir.. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Daí a pouco. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. ira-o morrer também.. Quantos também. foram buscar a Glória E que. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício..Se ao menos voasse! .. O Sol ardia. e não vê por onde fuja. ouve o canto aziago da coruja! . Mas eu não contarei nunca a ninguém. Buscava Em verdes nuanças de miragens.Era o suplício!..Novo Sileno.. . como eu.

Foi saudade? Foi dor? .. Sei que na infância nunca tive auroras. Olha essa neve pura! .SENECTUDE PRECOCE Envelheci.. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes..Aqui ainda havia alguma cousa.. Por isso. Mas. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. Assim como uma casa abandonada. pressentindo a lousa. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. a alma serena.. Não há quem nele um só tremor denote! . E afora disto. de repente.. diz ao povo: "É pena! . Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. vivia..Continua a cantar. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. ele a morrer..." Pau d'Arco -1905 119 ..

. Diz que ele não morreu. o vulto ia a meu lado E desde então. diz que ele é vivo.. E eu me elevava. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares.. inda com o braço altivo... Não mentes.a tumbal cidade. . A múmia de um herói do tempo de Ísis.. Bem como tu.. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 ..MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. persuadido fica do que diz.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. E. Para onde eu ia. em Tebas . não andei mais sozinho! Abraçou-me. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. Dizes Tudo que sentes. Da tribo alegre que povoa os ares.

onde. como um cão covarde. A percorrer desertos e desertos. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. morrer. Existo! . Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. amigos. A lua continue sempre a nascer! 121 .. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. antes de viver! Meu corpo. pois. à tarde. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver.. de saudades me despedaçando De novo. Nada se altere em sua marcha infinda . Teve sede e fome. Saiu aos tombos. E. quando Eu. Por toda a parte. com medo do Infinito.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. assim. aos tropeços. assim como o de Jesus Cristo. assombrado. triste e sem cantar.... a sofrer E acostumado a assim sofrer existo.E apesar disto.. ia. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me.O tamarindo reverdeça ainda.

porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .A LÁGRIMA . água e albumina. Ah! Basta isto.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. .O farmacêutico me obtemperou. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 ... Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina.

Pólipo de recônditas reentrâncias. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. 123 .. ampla. Como um dorso de azêmola passiva.O metafisicismo de Abidarma -E trago. procedo Da escuridão do cósmico segredo...Esta universitária sanguessuga Que produz. Do cosmopolitismo das moneras. A podridão me serve de Evangelho. vibra A alma dos movimentos rotatórios. sem dispêndio algum de vírus. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. simultâneas.. E é de mim que decorrem. Em minha ignota mônada. Amarguradamente se me antolha. Amo o esterco.. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. À luz do americano plenilúnio.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Não conheço o acidente da Senectus -. Larva de caos telúrico. possuo uma arma -. sem bramânicas tesouras. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha..

Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. causa ubíqua de gozo. Raio X. Fonte de repulsões e de prazeres. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. luzem. amanhã. já nos últimos momentos. a coçar chagas plebéias. ondulação aérea. Aí vem sujo. Que. A vida fenomênica das Formas. quebrando estéreis normas. -. a boca. Com a cara hirta. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. magnetismo misterioso. em síntese. Ao clarão tropical da luz danada. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. 124 . E apenas encontrou na idéia gasta. O coração. abdômen. iguais a fogos passageiros. Sonoridade potencial dos seres. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. o Homem. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. O horror dessa mecânica nefasta. Como quem se submete a uma charqueada.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Quimiotaxia. bestas agrestes.

consumir-se. fazendo um s. À guisa de um faquir.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. Sentindo o odor das carnações abstêmias. Num suicídio graduado. E explode. Como que.. Toda a sensualidade da simbiose.. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. brincam. E à noite. Negra paixão congênita. ébrio de vício. Suas artérias hírcicas latejam. igual à luz que o ar acomete.. E após tantas vigílias. Numa glutonaria hedionda.. em lúbricos arroubos. Brancas bacantes bêbadas o beijam. 125 .. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo.. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Sôfrego. bastarda.. o monstro as vítimas aguarda. Do seu zooplasma ofídico resulta. vai gozar. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. E até os membros da família engulham. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. em suas clélulas vilíssimas. No sombrio bazer domeretrício.. Como no babilônico sansara . No horror de sua anômala nevrose. Uivando. pelos cenóbios?!. à noite.

.. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Abranda as rochas rígidas. Numa coreografia de danados. em rembrandtescas telas várias. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Mostrando. Na própria ânsia dionísica do gozo. Reconhecendo. com os candeeiros apagados. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 .Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. observa a ciência crua. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Mas muitas vezes. Quando o prazer barbaramente a ataca. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. E de su’alma na caverna escura. quando a noite avança. A asa negra das moscas o horroriza. bêbedo de sono.Macbeths da patológica vigília. Que tateando nas tênebras. Sente que megatérios o estrangulam. esculpindo a humana mágoa. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. A família alarmada dos remorsos. Acorda. se estende Dentro da noite má.. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. As alucinações tácteis pululam. Hirto. Essa necessidade de horroroso. Somente a Arte. Assim também. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova..

Prostituído talvez. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. em suas bases. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . Há-de ferir-me as auditivas portas. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. Era a canção da Natureza exausta. -. sem que. Da luz da lua aos pálidos venábulos. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. a desintegre.O homicídio nas vielas mais escuras. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. entre daveiras sujas.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. entanto.O ferido que a hostil gleba atra escarva. -.. Julgava ouvir monótonas corujas. ouvindo estes vocábulos. À condição de uma planície alegre. Continua o martírio das criaturas: -.E reduz. Na produção do sangue humano imenso. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo.. até que minha efêmera cabeça. Executando. E.

. exposto ao luar. conversando. das pirâmides o quedo E atro perfil.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. A Lua cheia Está sinistra. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 .Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. na mais próxima planície. O céu claro e produndo Fulgura.. Apenas como um velho stradivário. um saltimbanco da Ásia.. Vaga no espaço um silfo solitário. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Os mastins negros vão ladrando à lua. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. Convulso e roto.. Dorme soturna a natureza sábia. Resplandece a celeste superfície. Tonto do vinho. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. no apogeu da fúria. Num quiosque em festa alegre turba grita. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia.. A rua é triste. discutindo.. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. O Cairo é de uma formosura arcaica. Embaixo.

a irritar-me os globos oculares. Livres de microscópios e escalpelos. A matilha espantada dos instintos! Era como se. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Dançavam. Copiava a polidez de um crânio alvo. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Assombrado com a minha sombra magra. Mostrando as carnes.. O trabalho genésico dos sexos. Uivava dentro do eu . O calçamento Sáxeo. indo em direção à casa do Agra. Fazendo à noite os homens do Futuro. A ponte era comprida. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Ponte Buarque de Macedo. Eu vi. Atravessando uma estação deserta.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Eu. então. E a minha sombra enorme enchia a ponte.. parodiando saraus cínicos. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. na alma da cidade. 129 . Profundamente lúbrica e revolta. E aprofundando o raciocínio obscuro. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . com a boca aberta. Lembro-me bem. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. de asfalto rijo. Pensava no Destino. Mas. atro e vidrento. à luz de áureos reflexos.

Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. E. como um réu confesso. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. ainda na placenta. Deus me castigava! Por toda a parte. Ninguém compreendia o meu soluço. Ah! Com certeza. pelo menos. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. No ardor desta letal tórrida zona. na ígnea crosta do Cruzeiro. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. 130 . Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. É bem possível que eu umdia cegue.Fetos magros.

a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. cinco. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Benditas sejam todas essas glândulas. estranha. de tal arte. ansiado e contrafeito. Que. Arrebatada pelos aneurismas. para não cuspir por toda a parte. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava.E até ao fim. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. à guisa de ácido resíduo. quotidianamente. Sob a forma de mínimas camândulas. em minha boca. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. Ia engolindo. 131 . quatro. aos poucos. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. Eu bem sabia. cujas caudais meus beiços regam. Na ascensão barométrica da calma. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Não! Não era o meu cuspo. três. Que eu.

Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. ali posto De propósito. Livres do acre fedor das carnes mortas. Rodopiavam. A companhia dos ladrões da noite. então. lembrava ante o meu rosto. para hipnotizar-me! Em tudo. Iluminava. Perpetravam-se os atos mais funestos. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Mas um lampião. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Vai pela escuridão pensando crimes. E o luar. Siva e Arimã. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. Nessa hora de monólogos sublimes. maior talvez que Vinci. Ninguém. a rir. Com a força visualística do lince. Buscando uma taverna que os açoite. sem pudicícia. os duendes. A camisa vermelha dos incestos. a espiar-me. À anatomia mínima da caspa. o In e os trasgos. com as brancas tíbias tortas. estava ali. de certo. Um sugestionador olho. da cor de um doente de icterícia. Imitando o barulho dos engasgos. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Davam pancadas no adro das igrejas.

Todos os personagens da tragédia. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. distingo-a. E a palavra embrulhar-se na laringe. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. em que. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. e vence-O. Como bolhas febris de água. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. 133 . Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Cansados de viver na paz de Buda. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. A pedra dura. E o meu sonho crescia nosilâncio.

a sós. Como um bicho inferior. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. 134 . E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Os bêbedos alvares que me olhavam. na dor forte do vômito. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . No meu temperamento de covarde! Mas. Um conjunto de gosmas amarelas. Iam depois dormir nos lupanares Onde. aflita. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. igual a um amniota subterrâneo. Fabricavam destarte os bastodermas.A planta que a canícula ígnea torra. sobre o meu caso Vi que. na glória da concupiscência. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. Aquela humanidade parasita. refletindo. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. berrava. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. E apesar de já não ser assim tão tarde.

em tudo imerso. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. num fundo de caverna. Ao pensar nas pessoas que perdera. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. numa ânsia rara. o eco particular do meu Destino. embora o homem te aceite. ponto final da última cena. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres.e.Prostituição ou outro qualquer nome. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Nessas perquisições que não têm pausa. tal qual. Forma difusa da matéria embele. pior que o remorso do assassino. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. Reboou. Fazer da parte abstrada do Universo. por tua causa. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. 135 . na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal.. a morte é ingrata. Numa impressionadora voz interna. Minha filosofia te repele. Rolam sem eficácia os amuletos. como um cordão. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter.. nas catedrais mais ricas.

magro homem. com a bronca enxada árdega. em síntese. se divide. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. e a hialina lâmpada oca. sondas A estéril terra. por vezes. fora Mister que. E se. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. antes Fosses.Jamais. para que a Dor perscrutes. o cordeiro simbólico da Páscoa. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. 136 . Mesmo ainda assim. A formação molecular da mirra. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. não como és. a refletir teus semelhantes. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. estriada. espirra. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. Trazes.

A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. Que ainda degrada os povos hotentotes. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. sem mortalha. O Amor e a Fome. As pálpebras inchadas na vigília. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. as nódoas mais espessas. As projeções flamívomas que ofuscam. Onde morreu o chefe da família. à espera que a mansa vítima o entre. Lembram paióis de pólvora explodindo. Os terremotos que. Deixa os homens deitados. O fogão apagado de uma casa. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. abalando os solos. A cristalização da massa térrea. O tecido da roupa que se gasta. -. O achatamento ignóbil das cabeças. Na sangueira concreta dos massacres.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. O antagonismo de Tífon e Osíris.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. As aves moças que perderam a asa. Como uma pincelada rembrandtesca. 137 . a fera ultriz que o fojo Entra. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. A mentira meteórica do arco-íris. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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alto e hórrido. Apenas eu compreendo. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. No Alto. Meu ser estacionava. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. Em cuja álgida unção. olhando os campos Circunjacentes. sobre as hortas. Criando as superstições de minha terra.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. de errante rio. branda e beatífica. Além jazia os pés da serra. a amêndoa. a ameixa. 143 . o urro Reboava. magnânima e magnífica. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. A Paraíba indígena se lava! A manga. como as ervas. a abóbora. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. Benigna água. em quaisquer horas. satisfeito.

OH! desespero das pessoas tísicas. Um português cansado e incompreensível. Adivinhando o frio que há nas lousas. como inúmeros soldados. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. dores não recebem. Restos repugnantíssimos de bílis. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. os micróbios assanhados Passearem. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Alucinado. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Estas não cospem sangue. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Reboando pelos séculos vindouros. aos bocados. O ruído de uma tosse hereditária. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. Vômitos impregnados de ptialina. Cortanto as raízes do último vocábulo. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. entre estrépitos e estouros. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. 144 . a existência Numa bacia autômata de barro. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca.

naquele instante. magras mulheres. Onde a Resignação os braços cruza. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. hoje. Nos ardores danados da febre hética. me acorda. com o vexame de uma fusa. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. no Amazonas. É a alfândega. a água.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. Saía. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. Pelas algentes Ruas. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. resfriando-vos o rosto. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. A mágoa gaguejada de um cretino. Consoante a minha concepção vesânica. 145 . com efeito. em sonhos mórbidos.

como um lúgubre ciclone.. tendo o horror no rosto impresso. A carcaça esquecida de um selvagem. diante a xantocróide raça loura. Recebeu. 146 . Jazem. por fim. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra.. Viu toda a podridão de sua raça. A civilização entrou na taba Em que ele estava. E agora. Na tumba de Iracema!. caladas. entregue a vísceras glutonas.Fedia. todas as inúbias. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. Desterrado na sua própria terra. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século.. adstrito à étnica escória. acordando na desgraça.. De repente. espantada. Ah! Tudo. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. sem difíceis nuanças dúbias. Com uma clarividência aterradora.

Maldiziam. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. ex. 147 .Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. roído pelos medos. Todos os vocativos dos blasfemos. E eu. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. A peçonha inicial de onde nascemos.: o homem e o ofídio. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. No horror daquela noite monstruosa. rolando sobre o lixo. com voz estentorosa. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser.

Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. como Cristo. às vezes. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde.E. Reduzido à plastídula homogênea. em suma. o anelo instável De. Anelava ficar um dia. como um homem doido que se enforca. Tentava. cansado. porém. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . Consubstanciar-me todo com a imundície. Sem diferenciação de espécie alguma. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. na terráquea superfície. por epigênese. Eu voltarei. perante a cova. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. 148 .

.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. doentes de hematúria. Nem tínheis. para além. no horizonte. e. vítima última da insânia. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. 149 . Não tínheis ainda essa erupção cutânea. virgem fostes. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. Acordavam os bairros da luxúria. Estendestes ao mundo.. Uma. embalde. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto.. alva.. Quase que escangalhada pelo vício. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. agora. a saraiva Caindo. ignóbil. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia.. derreada de cansaço. De certo. até que. Se extenuavam nas camas.. As prostitutas. entre oscilantes chamas. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. quando o éreis. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. Mas. análoga era. e as mãos. à-toa. com violência.

no chão frio da igreja. Como quem nada encontra que o perturbe. inquieto. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. E estais velha! -. Sentia. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras.De vós o mundo é farto. porém. que a sociedade vos enxota. eu. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. A consciência terrível desse inseto! Regougando. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. argots e aljâmias. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. na craniana caixa tosca. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Eu pensava nas coisas que perecem. 150 .Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. E hoje. A racionalidade dessa mosca. Como uma associação de monopólio.

Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. À falta idiossincrásica de escrúpulo. nesta hora. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Já podre. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. escorraçando a festa. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis.A estática fatal das paixões cegas. como Ugolino. Sem ter. após baixar ao caos budista. sobre a palha espessa. roubada à humana coorte Morre de fome. Pela degradação dos que o povoam. Quanta gente. Rugindo fundamente nos neurônios. Absorvia com gáudio absinto. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. O fácies do morfético assombrava! -. E a ébria turba que escaras sujas masca. O ar ambiente cheirava a ácido acético. com o ar de quem empesta. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. de repente. Vem para aqui. Mas. E o cemitério.Aquilo era uma negra eucaristia. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. assim inchado. estriges voam. palpável. nos braços de um canalha 151 . em que eu entrei adrede. Apareceu.

Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . À sodomia indigna dos moscardos. como quem salta. a camisa suada. cheio de vermes. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Todos os meus cabelos se arrepiaram. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Comendo carne humana. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Pisando. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. Num prato de hospital. Ao pegar num milhão de miolos gastos. a alma aos arrancos. Vendo passar com as túnicas obscuras.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. iguais a irmãs de caridade. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. entre fardos. Na impaciência do estômago vazio. ao clarão de alguns archotes.

Os raios caloríficos da aurora. Uma sobrevivência de Sidarta. O benefício de uma cova fresca. De quem possui um sol dentro de casa. em vez de hiena ou lagarta.Como indenização dos meus serviços. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. trazendo-me ao sol claro. Dentro da filogênese moderna. No frio matador das madrugadas. Proporcionando-me o prazer inédito. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. às vezes. Absorve. após a noite de seis meses. Manhã. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. No céu calamitoso de vingança Desagregava. E eis-me a absorver a luz de fora. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . déspota e sem normas. Como o íncola do pólo ártico. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas.

O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. em vão teu ódio exerces! Mas. tudo a extenuar-se Estava. Eu sentia nascer-me n’alma. a meu ver. em colônias fluídas. oh! Morte.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. O ar que. A gestação daquele grande feto. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto.. numa furna. com os pés atolados no Nirvana. com um prazer secreto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . Hirto de espanto. Igual a um parto. Acompanhava. corre. Vinha da original treva noturna.. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. entanto.. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. O Espaço abstrato que não morre Cansara. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia..

À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Apenas com uma diferença triste. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. não existes mais! 155 . É a hora De comer. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Coisa hedionda! Corro. como eu. bela como um brinco. E agora. Como! E pois que a Razão me não reprime.. Antegozando a ensangüentada presa. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa.. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. amigo. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Rodeado pelas moscas repugnantes. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco.. Ai! Como Os que.. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. têm carne.

sem pretensões. E o antigo leão. Assim. um novo Ser. Relembrarás chorando o que eu te disse. No lábio róseo a grande teta farta -. Há de crescer. Do que essa pequenina sanguessuga..MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. que te esgotou as pomas.. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. a atmosfera se encherá de aromas. sujo de sangue. Clara. comparo. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. entre dores. haurindo amplo deleite. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. nas vitrinas. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. à amostra.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. O Sol virá das épocas sadias. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. oh! Mãe. quanto a mim.

Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. numa ininterrupta Adesão. nos fortes fulcros. Tais quais.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. Os pães -. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . as tesouras Brônzeas. maior do que Laplace. Por causa disto. com que guarda meus sapatos. também gira e redemoinham. mordendo glabros talos. haurindo o tépido ar sereno. Magro. roendo a substância córnea de unha. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes..GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Tenho estremecimentos indecisos E sinto.. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. eu vivo pelos matos. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Beber a acre e estagnada água do charco.

Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Beija a peçonha. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. E eu vou andando. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. goza O lodo. Úmido. cheio de chamusco. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Dorme num leito de feridas. Com a flexibilidade de um molusco. no agudo grau da última crise. apalpa a úlcera cancerosa. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Subtraída à hediondez de ínfimo casco.

morda!. Nos terrenos baixos. corte. no árdego trabalho. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Entrançados.. De árvore em árvore e de galho em galho. pelo ar. queime. salta. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. Os ventos vagabundos batem.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. depois de morrer. depois de tanta Tristeza. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Eu. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto.. fustigue. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. Com a rapidez duma semicolcheia. em vez do nome -.. No chão coleia a lagartixa. quero.. Ladra furiosa a tribo dos podengos.Augusto . O ar cheira. A terra cheira. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 .. bolem Nas árvores. Em grandes semicírculos aduncos.. largando pêlos. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas.

Une todas as coisas do Universo! 160 . dos esconderijos. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Como um anel enorme de aliança. À dura luz do sol resplandecente. batendo a cauda. Amontoadas em grossos feixes rijos. As lagartixas. Pintam caretas verdes nas taperas. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. outrora. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Viveu. Aqui. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. O lodo obscuro trepa-se nas portas. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Como pela avenida das Mappales. Nédios. O aziago ar morto a morte Fede. Urram os bois. Trôpega e antiga.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Por saibros e por cem côncavos vales. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Os musgos. Na bruta dispersão de vítreos cacos. sem conchego nobre. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Quantas flores! Agora. em vez de flores. como exóticos pintores.

Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. Súbito. sem pai que me ame.. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir.. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. Grito. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. Que por vezes me absorve.. como quem raspa a sarna. é o óbolo obscuro. com a misericórdia de um tijolo!. da mesma forma que o homem morre. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. A lamparina quando falta o azeite Morre. arrebentando a horrenda calma. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. Julgo ver este Espírito sublime. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada... Só. aqui. à luz da consciência infame.E assim pensando. À carbonização dos próprios ossos! 161 . De pé..

. a arquivar credos desfeitos. por fim. à luz do olhar protervo. recebe. 162 . Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. Espicaça-a a ignomínia. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. em contorções sombrias. através os meus sentidos. Sente. urna de ovos mortos. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta.. à lua. hirta. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. ébria e lasciva. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. aliando. Ouvem-se os brados Da danação carnal. Bramando. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. hórridos uivos Na mesma esteira pública. a âmbulas moles. Lúbrica. alta noite. funcionária dos instintos. O Vício estruge. de cabelos ruivos. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Entre farraparias e esplendores. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. espremendo os peitos. E a mulher. Reduzidos. em coréas doudas. Com as mãos chagadas. como o estepe. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude.

Na óptica abreviatura de um reflexo.Chão de onde unia só planta não rebenta. E a dor profunda da incapacidade Que. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala... E a Carne que. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. em cada humana nebulosa.. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos.. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos.... Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. Fulgia. É o hino Da matéria incapaz. filha do inferno. já morta essencialmente. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . Ei-la. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório.. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. de bruços.

Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. e a estraga Na delinqüência . adstrito a inferior plasma inconsútil. Mas que.O atavismo das raças sibaritas. Numa cenografia de diorama.. ânsia De perfeição.. Irradiava-se-lhe.. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 ... decerto. Libertos da ancestral modorra calma. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. sonhos de culminância. adultos... impune.. radiando. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. como aborto inútil.. hírcica. momentaneamente luz fecunda.. rubros.. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia.. Ficou rolando. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Saem da infância embrionária e erguem-se. talvez. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. Como o . Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. Na homofagia hedionda que o consome. Que.. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.. Pudera progredir.

...................................................... ......................................................................................................................................... condenada................................ ......... Mordeu-lhe a boca e o rosto..... ..................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E....... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos............................................................................................................................ ...... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto..................................... . .............................................................................................................................................................. ............. ao trágico ditame................... ......................... ............................................... 165 ........... oca..Sugando a seiva da árvore a que se une! ............ .................... ................

não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Para que. E hoje que. Integralmente desfibrado e mole. A toda a boca que o não prova engana. Porque o amor. pois. conheço o seu conteúdo.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. do egoísta Modo de ver. Como Mársias -. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . amo Mas certo. consoante o qual. enfim. este o amor não é que. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. o egoísta amor este é que acinte Amas. Oposto ideal ao meu ideal conservas. Cuida. atenta a orelha cauta. é éter. chegando à última calma Meu podre coração roto não role.. enfim. Quis saber que era o amor. eu que idolatro o estudo. é substância fluida. Descasco-a. observo o amor.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. É Espírito. por experiência. é como a cana azeda. entretanto. chupo-a. Imponderabilíssima e impalpável. É assim como o ar que a gente pega e cuida. poeta. Diverso é. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. tal como eu o estou amando. em ânsias. o ponto outro de vista Consoante o qual.. provo-a. Pudera eu ter. o observas. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. oposto a mim. ilusão treda! O amor.

Sem ter uma alma só que me idolatre. olhando o céu que além se expande: ". Entendi... no quadrilátero da alcova. Como Vulcano.A maldade do mundo é muito grande. opresso. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Trabalharei assim dias inteiros. a tumbal janela E diz. trabalhar contente. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. Que importa que.. trágico e maldito.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. com o seu grande grito. . em ânsias. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora.. os monstros zombeteiros. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto... horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. E só. abre. 167 . depois disso. que devia. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. contra ele.

sacudindo-o todo. Batem-lhe os nervos.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . Sobre a cidade geme a chuva. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.

Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Rua Direita. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. nas telúrias reservas. Recebiam os cuspos do desprezo. e absorve em cada viagem Minh’alma -. sob os pés do orgulho humano. banhava minhas tíbias. Que forma a coerência do ser vivo. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. Cortanto o melanismo da epiderme.Dizia. recebendo injúrias. alto. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. 169 . Com os ligamentos glóticos precisos. e erguia. lhe entregue. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. O reino mineral americano Dormia.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. íntegra. E não haver quem.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. num canto de carro. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. por ver-vos.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. oh! céu. Como um cara. A essa hora. E a cimalha minúscula das ervas.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três.

Pareciam talvez meu epitáfio. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. Onde minhas moléculas sofriam. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. com a símplice sarcode. O vibrião. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. em diástoles de guerra.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. úmida e fresca. me pediam. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. Pela alta frieza intrínseca. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. Mais tristes que as elegais de Propércio. o ancilóstomo. Com a abundância de um geyser deletério. com o ar horrível.

Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. . E pelas catacumbas desprezadas. funeral mesquita. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Feras rompiam tolos e balseiros. A Lua encheu o espaço sem limites E. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Eternamente aberta ao sol e à chuva. a viúva. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. ampla e brilhante. nos altares esboroados. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. o passo constrangendo. Mochos vagavam como sentinelas. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. Era uma viúva. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. foi transpondo a porta. dentro.. e o olhar errante. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Súbito alguém. Parou em frente da mesquita morta. Uma vez.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo..Um vento frio começou gemendo. Em passo lento.

entretanto. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. infernais ardendo Todas as feras. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. arremetendo. contra ela. Como uma exposição de carnes vivas. E raivosas. Morria a noite. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. entanto. E sobre o corpo da viúva exangue. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . Além. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 .Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. Fora. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea.

A saudade interior que há no meu peito. ao sol. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. num enleio doce... À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. 173 . em plena podridão. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. Verde. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. exata. entre assombros. afetando a forma de um losango. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. Assim. Da qual. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. em luz perpétua. quem diante duma cordilheira. Rica.. Na ilha encantada de Cipango tombo. tenho alucinações de toda a sorte. Atravessando os ares bruscamente. Pára.. trêmulo. Qual num sonho arrebatado fosse. pela vez primeira. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. no meio.... ostentando amplo floral risonho.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia.. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas... passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. brilha A árvore da perpétua maravilha.

Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. E finalmente me cobri de flores.. A tarde morre. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.. Passa o seu enterro!. Banhei-me na água de risonhos lagos....Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem.. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa.. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Gozei numa hora séculos de afagos.

de cima. Quem as esconda. outro cai. as esconda. esse vai Para o túmulo que o cobre. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Se um cai... em lúcido véu. em reflexos. Vagueia um poeta num barco. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . nas Águas. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Espelham-se os esplendores Do céu. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. Vai uma onda.globo de louça Surgiu. outro se ergue e sonha. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco.BARCAROLA Cantam nautas. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. A Lua . O Céu.

"O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.... Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . poeta da Morte!" . porém. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "Viajeiro da Extrema-Unção. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. forte...E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. "Mas nunca mais.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar.

pois. Da República a nova sublimada. A República rola-lhe nos ombros. oh Pátria. e. Manchar não pode as aras da República. Oh! Liberdade. esplendorosa. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Essa luz etereal bendita e calma. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. . A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Caia do santuário lá da História. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. E ali do despotismo entre os escombros. risonho. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Como um Tritão. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Da liberdade ao toque alvissareiro. Fulgente do valor da vossa glória. fazei que destes brilhos. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. oh! Redentora d'alma. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. levando ao mundo inteiro. A Liberdade assoma majestosa. Não! que esse ideal puro. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. Vós.

sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. à luz das minhas frases. 178 . Além. Na área em que estou. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. Aves de várias cores e de várias Espécies. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor.Mas hoje. Passa um rebanho de carneiros dóceis. E. desvairado. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. O amor reduz-nos a uniformes placas.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. vendo o horror dos meus destroços.. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. ao matinal assomo. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . Estremecendo em suas próprias bases. Uma montanha que se desmorona. cantam óperas inteiras. nas oliveiras.. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio.

demonstrando-a. Tal qual ela é. Da observação nos elevados montes Prefiro.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. à nitidez real dos aspectos. E quando a Dor me dói. heroicamente. A inanidade da Ilusão demonstro Mas.Observo então a condição tristonha Da Humanidade... construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. à frente dele. ébria de fumo e de ópio. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. sinto um violento Rancor da Vida . Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E.

erra. Muito longe. De lá. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Vem cá. dos grandes espaços.CANTO ÍNTIMO Meu amor. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. se duvidas. olha estas feridas. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. em sonhos erra. Passo longos dias. a esmo. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Que o amor abriu no meu peito. Muito longe. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. em sonhos.

Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. quanto mais me desespero. Numa prece de amor. neve. triste. Neve que me embala como um berço divino. Mas.. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita.. e o sofrimento De minha mocidade. Delícia que ainda gozo. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia..Misto de infinita mágoa e de crença infinita. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. experimento O mais profundo e abalador atrito.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. murmura: . abraça a sombra e. numa delícia infinda. ontem. escuridão e eterna claridade.. agonia.Diz e morre-lhe a voz. Caminha e vai. prece que ainda Entre saudades rezo. agonia! . a sós. oração. Sem um domingo ao menos de repouso. Neve da minha dor. agonia bendita! . Agonia de amar. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. amor e frio. agonia. Frio que me assassina. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro..CANTO DE AGONIA Agonia de amor. Amor. o louco.. vendo-a. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. . Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. num volutuoso assomo.. Fazer parar a máquina do instinto.. uma nuvem que corre.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve.

mordendo a atra terra infecunda. funéreo 182 . foi aos poucos se arrastando.. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo.. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. e o trabalho . oito vezes. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. Rasgando. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. Mas o braço cansou! Trabalhou.. Fez reboar pelo solo.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. E o Velho veio para o labor cotidiano. Triste. lúgubre e só.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. E em tudo que o rodeava. A terra escalda: é um forno. acende O pó. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo.. do agro solo. Por seis horas seu braço empenhado na luta. a superfície bruta. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje.

e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. Num instante viu tudo. louco. flutua! Ninguém o vê. Nem viu que era chegado o termo da viagem. e o braço Pendeu exangue. o precipício estava... enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. era a turba trovadora Que assim cantava.. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. a rugir-lhe aos pés. a toa.o último esforço. ele pisasse os trilhos. Caminhava. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. a flux d'água. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. bêbado de miragem. a família! Não morreria. Quis fazer um esforço . pois! Somente morreria Se da Vida. o acalenta. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. avistar a Árvore da Esperança. ninguém o acalenta... no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 .. sozinho. tombando. avistando uma frondosa tília Julgou. o peito arqueou-se.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. o cansaço Empolgara-o. e compreendendo tudo.. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. onde arde e floresce a Crença. os filhos.. e a sonhar. E amplo. o Velho caminhava.

santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. Subindo á majestade do Infinito. e o meu pesar se eleva E chora e sangra.. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas..ocaso nunca visto. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . Descem os nimbos. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. Negras. E a Noite emerge. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. aos astrais desígnios. E há no meu peito .IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. mudo. Raios flamejam e fuzilam ígneos. alvas. luminosas..condensada treva A sombra desce. Atros. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. ígneo.. volaterizadas. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. Na majestade dum condor bendito.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. sangrento O sol. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa.Asas de corvo pelo coração. mudo. . fulvos. e. Além. rubro. dourando as névoas dos espaços. mudo. a Sombra .. pompeiam (triste maldição!) ..eis tudo! E no meu peito .

como tombou outrora. em vão na luz do sol te inflamas.o Sol . Mais em meu peito uma ilusão se enterra. Como Herculanum foi após as chamas. O leão. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. Vésper me encanta. ciclópico. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. Sírius me deslumbra. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. ontem moribundo. o mastodonte. se tornassem ferros?! IV Poeta. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. se. A alma se abate. lodo.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. a Aurora. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. Ah! Como tu. e hás de ser após as chamas.hóstia da Aurora. curvo ao seu destino.. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. assassino Ébrio de fogo. A Mágoa ferve e estua. III De novo. E corno a Aurora . Fantástico. se. em lodo tudo acaba. de que serve. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. há-de Alva. 185 . o tigre. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. a lesma. Hoje de novo.. como se esses raios N'alma caindo. se erguer. em plena e fulva reverberação. entre esplendores.

foi valas funerais deixando. Medonhas valas. frias. Ergue. e. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. Como recordação da festa diurna. Canto. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. Pelos rochedos. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Vésper me encanta.. E foi deixando essas funéreas. pelas penedias. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem.. pois poeta...Arrasta as almas pela Escuridão. Iluminando as serranias. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. a Lua que no céu se espalha. de ossos. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 .. sobe ao pedestal. de ilusões te nutres.. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. Então. Sírius me deslumbra. pelas escarpas. e minh'alma cobre-se de flores . um pedestal de tanta Treva e dor tanta. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. E arrasta os coraç5es pela Descrença. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores... como abutres Medonhos. onde.Fera rendida à música divina. banha As serranias duma luz estranha.

Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. E invejo o sofrimento desta Santa.. Mas. Depois de embebedado deste vinho. eu também vou passando Sonâmbulo. triunfalmente.INSÔNIA Noite. sonâmbulo... Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.. A dispersão dos sonhos vagos reuno. em mágoa.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo.. nos céus altos... sonâmbulo.. 187 . Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.

os corimbos. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. As árvores.. Aqui. Agora. em mágoa imerso. Atro dragão da escura noite. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Recordam santos nos seus próprios nichos. porém. batendo na alma. Com o olhar a verde periferia abarco. estronda Como um grande trovão extraordinário.. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . o funerário.. por exemplo. equilibrando-se na esfera. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. hedionda. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Cercado destas árvores. O Sol. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera.Vagueio pela Noite decaída. as flores. neste silêncio e neste mato.. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Estou alegre. Em que o Tédio.

"Miniatura alegórica do chão."Cinza. e na ínfima ânfora. Olho-o. síntese má da podridão. certo. ébrio. por epigênese geral. Mergulho. aparece.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. "Na tua clandestina e erma alma vasta. Risco-o Depois. E o que depois fica e depois Resta é um ou. irrupto. Todos os organismos são oriundos. porque um.Mucosa nojentíssima de pus. os beiços na ânfora ínfima. barro. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . De onde. harto. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. amorfo e lúrido. Dois são. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. a esvaziar báquicos odres: . "Onde os ventres maternos ficam podres. através ovóide e hialino Vidro. Olho-o ainda. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . Presto. é mais de um. por outra. "Onde nenhuma lâmpada se acende.

dentre as tênebras. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó.. Migalha de albumina semifluida. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. Move todos os meus nervos vibráteis. Na síntese acrobática de um salto. o que nele Morre. sois vós. mônada vil. que. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Depois. sozinho. é o céu abscôndito do Nada. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. Então. sou eu.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. muito alto. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota.. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. cósmico zero. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. do meu espírito.Do mundo o mesmo inda e. como nunca outro homem viu. Em que todos os seres se resolvem! 190 . E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Sob a morfologia de um moinho. em segredo. ora. na terra instável. Se escapa. Vida.

E eis-me outro fósforo a riscar.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.. Adeus! Que eu veio enfim. De onde quimicamente tu derivas.. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .

Ora. Retroa o sino. lembras. davas brandindo em seva e insana Fúria. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras.... Cantas a Vida que sangrando matas. tangendo tiorbas em volatas.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. Sinos além bimbalham. . chora e se lamenta e vibra. medras Nalma de cada virgem.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. E em tudo estruge a tua dúlia . Troa o conúbio dos amores velhos . quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. . Amor. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. 192 .dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. E. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos.. vezes.

sonhei-a.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Entre timbales e anafis estrídulos. Irene. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. Eis o motivo porque fiz esta ode.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. 193 . esse poder terrível. Irene. Assim. impassível! Esta de amor ode queixosa. pois. ontem. .Essa dominação aterradora . quando Entre estrias de estrelas. beija os áureos pés dos ídolos. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. fosforeando. Quedo. Irene. e eis o motivo. aos astros. Cativo.

Quase com febre. Inopinadamente 194 . ao meio-dia. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. Da qual. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. E eu nervoso.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. Dentro. erguido do pó. Trinta e seis graus à sombra. irritado. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. bruta. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. tinir. berrar.

Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. afinal. A ouvir todo esse cosmos potencial. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. . em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte.O ígneo jato vulcânico Que. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência.

Aperta-me em teu peito.QUADRAS Embala-me em teus braços. Aperta-me em teu peito.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. Embala-me em teus braços! 196 ..Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena.. oh! morena . divina. E dá-me assim. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Morreu-te a redolência. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. perdeste a ciência. De lírios e boninas Um veludíneo leito. Assim como Jesus. Eu quero o meu Calvário .

6. quatro.. duas.. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. três.. Tenho 300 quilos no epigastro. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. quando a noite cresce. 3 de maio. Dói-me a cabeça. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste.. No bruto horror que me arrebata. Vista. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. e. E aos tombos. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo.ª-feira. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra... A conta recomeço. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar.. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . em suma.. através do vidro azul.Uma. embora a lua o aclare.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. Aumentam-se-me então os grandes medos. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que.Uma. em ânsias: . Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo.

Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . numa festa. A luz fulge abundante 198 . Por muito tempo rolo no tapete. Tal urna planta aquática submersa. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. E o amontoamento dos lençóis desmancho. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram".Sucede a uma tontura outra tontura. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Ponho o chapéu num gancho.. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Mas aquilo mortalhas me recorda.. Cinco lençóis balançam numa corda. . Meu tormento é infindo. A lua é morta.. Tomba uma torre sobre a minha testa. Acho-me. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim...vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Súbito me ergo..Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida .. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. por exemplo..aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.. O suor me ensopa.. .

A ouvir. Côncavo. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. observa A universal criação. feliz. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 .E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. Broncos e feios. No húmus feraz. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. passei o dia inquieto. radiante e estriado. Entretanto. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. Babujada por baixos beiços brutos. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. hierática. longe do pão com que me nutres Nesta hora. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. a terra resfolega Estrumada. numa última cobiça. cheia de adubos. no ato da entrega Do mato verde. o céu. Vários reptis cortam os campos. De mim diverso. em diâmetro. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos.

a farpas de rochedo Completamente iguais. Monstruosíssimas mãos. a delinqüentes natos. negras.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. E à noite. Assinalados pelo mancinismo. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. 200 . Umas. Pertencentes talvez. Mãos que adquiriram olhos. pituitárias Olfativas. Mãos adúlteras. às da neve. em sangue. vão cheirar... quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos.. Outras. tentáculos sutis. ás dos cristais. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis..

langue e seminua. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Opalescência trágica da lua! Tu.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. Pareces reviver a antiga Ofélia. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. Rola a violeta santa dos teus olhos . Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria .Tufos de goivo em conchas de esmeralda.. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. Sonho abraçar-te. E como um nume de pesar. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. pálida camélia. . Guarda a saudade que levou do Mame. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Mas neste sonho. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros.a Carne.. plangente. oh Quimera. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 .

. Aprazia-me assim. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. na escuridão. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. Choravam.. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. análogo ao peã de márcios brados. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. como num chão profundo. Cruzes na estrada. enquanto eu tropeçava sobre os paus. com soluços quase humanos. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. E. era só O ocaso sistemático de pó. Convulsionando Céus. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. com uma vela acesa. uivando hoffmânnicos dizeres. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. No desespero de não serem grandes! 202 .VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. num ruidoso borborinho Bruto. Eu procurava. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. O feto original. Aves com frio.

Maior que o olhar que perseguiu Caim. de onde se vê o Homem de rastros. Brilhava. ao colher simples gardênia. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. vingadora. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Fluía. horrenda e monótona. perdido no Cosmos. Noite alta. Mas das árvores. A abstinência e a luxúria.Vinha-me á boca. com a sidérica lanterna. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. na ânsia dos párias. assim. uma voz 203 . frias como lousas. me tornara A assembléia belígera malsã. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Como o protesto de uma raça invicta. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio.

do Equador aos pólos. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. obscuro. porque. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar.. árvore. ovário. entres Na química genésica dos ventres. em suma. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. amanhã píncaros galgas. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 .. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Porque em todas as coisas. Para erguer. pois.Tão grande. Para esconder-se nessa esfinge grande. montanha. Rimos. tão profunda. na ânsia cósmica. Na prisão milenária dos subsolos. isto é. diante do Homem. que. Crânio. iceberg. choramos. Se hoje. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. com a febre mais bravia. Tragicamente. afinal. Não trabalham. oh! filho dos terráqueos limos. Nós. enquanto Deus. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Rasgando avidamente o húmus malsão. a espiar enigmas. arvoredos desterrados.

A voz cavernosíssima de Deus. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. Eu. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. a escalar Céus e apogeus.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. desgraçadamente magro. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . alheio ao mundanário ruído. naquela noite de ânsia e inferno. astro decrépito. a erguer-me. Eu fora. em destroços.

é o prélio enorme. em coalhos. armado de arcabuz. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. Para pintá-lo. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Na ânsia incoercível de roubar a luz. Viver na luz dos astros imortais. rolando dos últimos degraus. Minh'alma sai agoniada. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. quero até rompê-las! Quero. E muitas vezes a agonia é tanta Que.. As minhas roupas. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. no combate. 206 . era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. pela boca. entre estes monstros. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta.. arrancado das prisões carnais. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem.

. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. em suma. faz mal. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . A bênção matutina que recebo. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. Seja este. é improfícuo. é inútil... O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. E tombe para sempre nessas lutas. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me.esta arca. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. E é tudo: o pão que como. a água que bebo.. enfim. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força.

come. na vertigem: -..POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. a 1 de Janeiro. em trajes pretos e amarelos. rio Sinistramente. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho... vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -.. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. A Morte. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 .esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. à meia-noite. Então meu desvario se renova.. -. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me.. ouvindo um grande estrondo. estudo. Corro. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra.Faminta e atra mulher que. Sai para assassinar o mundo inteiro. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. Mas de repente. Intimamente sei que não me iludo.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. numa cova. e a mim pergunto. sozinho. abrindo todos os jazigos. Como que. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas.

Quis ver o que era... Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. que em mim dorme. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. e quando vi o que era. Com as longas fardas rubras. como a gula de uma fera.. Amarrado no horror de tua rede. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre... e após gritar a última injúria. Por tua causa apodreci nas cruzes. Vi que era pó. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. Como as estalactites da caverna. Perante a qual meus olhos se extasiam. em grupos prosternados. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. e de declínio Em declínio. É Sexta-feira Santa. desta cova escura.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza.. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Deixa-te estar. Eu desafio. acorda em berros Acorda. canalha. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Tu não és minha mãe.

O vento entoa cânticos de morte.Um esqueleto. Na Eternidade. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. A árvore dorme Eu. no ar de minha terra. Dentro da igreja de São Pedro. As luzes funerais arquejam fracas... quieta. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . Como as chagas da morféia O medo.. e a gente. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. A desagregação da minha Idéia Aumenta.. vendo-o. Na molécula e no átomo. somente eu. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. Roma estremece! Além. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. O céu dorme. Desperto. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta.