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Augusto Dos Anjos - Obra Completa (Nao Esta Tao Completa Assim)

Augusto Dos Anjos - Obra Completa (Nao Esta Tao Completa Assim)

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Sections

  • O MORCEGO
  • PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
  • IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
  • SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO
  • VERSOS A UM CÃO
  • O DEUS-VERME
  • DEBAIXO DO TAMARINDO
  • BUDISMO MODERNO
  • SONHO DE UM MONISTA
  • MATER ORIGINALIS
  • O LUPANAR
  • IDEALISMO
  • ÚLTIMO CREDO
  • SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO
  • A UM CARNEIRO MORTO
  • VOZES DA MORTE
  • INSÂNIA DE UM SIMPLES
  • ASA DE CORVO
  • O MARTÍRIO DO ARTISTA
  • O MAR, A ESCADA E O HOMEM
  • RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ
  • A UM MASCARADO
  • VOZES DE UM TÚMULO
  • CONTRASTES
  • DEPOIS DA ORGIA
  • A ÁRVORE DA SERRA
  • VENCIDO
  • VANDALISMO
  • VERSOS ÍNTIMOS
  • VENCEDOR
  • ETERNA MÁGOA
  • O LAMENTO DAS COISAS
  • O MEU NIRVANA
  • CAPUT IMMORTALE
  • LOUVOR A UNIDADE
  • SUPREME CONVULSION
  • NATUREZA ÍNTIMA
  • A FLORESTA
  • GUERRA
  • ÚLTIMA VISIO
  • AOS MEUS FILHOS
  • O POETA DO HEDIONDO
  • A FOME E O AMOR
  • HOMO INFIMUS
  • MINHA FINALIDADE
  • NOLI ME TANGERE
  • O CANTO DOS PRESOS
  • VÍTIMA DO DUALISMO
  • AO LUAR
  • CANTO DA ONIPOTÊNCIA
  • ANSEIO (QUEM SOU EU...)
  • VERSOS A UM COVEIRO
  • TREVAS
  • AS MONTANHAS
  • APOCALIPSE
  • A NAU
  • O FIM DAS COISAS
  • A NOITE
  • A OBSESSÃO DO SANGUE
  • VOX VICTIMAE
  • AGONIA DE UM FILÓSOFO
  • O ÚLTIMO NÚMERO
  • SAUDADE
  • ABANDONADA
  • CETICISMO
  • OUVI, SENHORA
  • TRISTE REGRESSO
  • INFELIZ
  • N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS
  • NOIVADO
  • NO MEU PEITO ARDE
  • AMOR E RELIGIÃO
  • CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA
  • O COVEIRO
  • PECADORA
  • NO CLAUSTRO
  • IL TROVATORE
  • A LOUCA
  • PRIMAVERA
  • SENHORA, EU TRAJO O LUTO DO PASSADO
  • SOFREDORA
  • ECOS D’ALMA
  • AMOR E CRENÇA
  • ARIANA
  • TEMPOS IDOS
  • NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA
  • ADEUS, ADEUS, ADEUS! E, SUSPIRANDO
  • A AERONAVE
  • LIRIAL
  • A MINHA ESTRELA
  • A ESMOLA DE DULCE
  • AVE DOLOROSA
  • NIMBOS
  • O MAR
  • ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS...)
  • AURORA MORTA, FOGE!
  • NO CAMPO
  • CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA
  • CRAVO DE NOIVA
  • O BANDOLIM
  • ARA MALDITA
  • TREVA E LUZ
  • O TEMPLO DA DESCRENÇA
  • A PESTE
  • IDEAL
  • AFETOS
  • MARTÍRIO SUPREMO
  • SOMBRA IMORTAL
  • NOTURNO (PARA O VALE NOITAL..)
  • SEDUTORA
  • PELO MUNDO
  • E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA
  • O RISO
  • VAMOS, QUERIDA!
  • A UMA MÁRTIR
  • PELO MAR
  • PALLIDA LUNA
  • A MORTE DE VÊNUS
  • MÁRTIR DA FOME
  • SONHO DE AMOR
  • A ORGIA MATA A MOCIDADE
  • FESTIVAL
  • NOTURNO (CHOVE, LÁ FORA...)
  • E ELE MORREU
  • A DOR
  • O SONHO, A CRENÇA E O AMOR
  • MEDITANDO
  • PARA QUEM TEM NA VIDA
  • SONETO A FREDERICO NIETZCHE
  • O NEGRO
  • VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA
  • O ÉBRIO
  • O CANTO DA CORUJA
  • SENECTUDE PRECOCE
  • MYSTICA VISIO
  • NOME MALDITO
  • MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
  • UMA NOITE NO CAIRO
  • AS CISMAS DO DESTINO
  • A CARIDADE
  • OS DOENTES
  • À MESA
  • DUAS ESTROFES
  • MATER
  • GEMIDOS DE ARTE
  • A MERETRIZ
  • VERSOS DE AMOR

EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

Esta obra foi digitalizada, formatada, revisada e liberta das excludentes convenções do mercado pelo Coletivo Sabotagem. Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor.

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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... 156 Gemidos de Arte .................................. 155 Duas Estrofes ....................... 186 Insônia ..... 142 À Mesa ....................... 184 Idealizações ........................................ 183 História de Um Vencido .................. 180 Canto Íntimo .................................. 166 A Luva ....... 155 Mater ................... 168 Noite de um Visionário ....................... 183 Gozo Insatisfeito ...................................... 175 Barcarola ............................................................................. 190 Mistérios de um Fósforo ............................................................................................................................................................ 141 Os Doentes .......................................................................................................................................................... 179 Estrofes Sentidas ................................... 192 Ode ao Amor .... 129 A Caridade .................... 182 Canto de Agonia ......................... 157 A Meretriz .............128 As Cismas do Destino .... 205 Queixas Noturnas ............Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .......... 204 Viagem de um Vencido ................................................................. 197 Quadras ........................................................................................................................... 170 A Vitória do Espírito ............................ 200 Mãos .......... 212 5 ................................................ 199 Tristezas de um Quarto Minguante ............................................. 195 Numa Forja .......... 209 Poema Negro .....................................................................................................123 Uma noite no Cairo ................................................................................................................................................................................................................................ 162 Versos de Amor .......................................................................... 203 Vênus Morta ......................... 176 Ave Libertas ................................................................ 173 A Ilha de Cipango ..........................

proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. Por conseguinte. Deste modo. paremos reverentes à porta do templo. senão em mais de um. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. Não me parece. É preciso. quando. Nessa tentativa de interpretação psicológica. e era aí. no que há de mais sutil e imponderável. nesse estado de superexcitação. compreendendo inclusive a estilística. numa atitude de respeito e reflexão. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. um psicastênico para outros. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. em suas mensagens de angústia. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. 1962) 6 . Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. Fazer o elogio do poeta. não conhecemos sequer a nossa. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. contudo. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. poder conhecer a árvore pelo fruto. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Teria sido um neurótico para uns. Sua personalidade singular ali se projeta. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. que o não convencia de todo. ao menos. pois. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. desejosos de. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. nos moldes da velha orientação impressionista. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. isto é. RJ. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. na verdade. ed. o eu fora do Eu. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. Nalgum ponto. Gráfica Ouvidor. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. segundo as síndromes patológicas revelados. na chaga viva de sua consciência. entrava em crise espiritual. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. que é de todas a menos operante. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado.

Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. Assim como a mãe de Augusto. por motivos vários. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. aos que se rebaixam para subir. E por curiosa coincidência. Nem os que nasceram antes. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. Augusto não era um homem igual aos outros. igualmente inteligentes. a de Nietzche. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. aos que se acomodam. no final. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. nas modalidades do caráter. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. em relação com a casuística. fobias. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. sobre o seu caso clínico. com preocupações de grandeza e fidalguia. na classificação dos antropologistas do século passado. só ele dava a impressão de um desajustado. Por seu parentesco espiritual. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. Pai e irmãos passavam por normais. Sem o concurso da causa primária. enfim. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. além mesmo da gravidez. a de Leopardi. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. Byron. Isto posto. por vezes controvertidos. causada pela perda imprevista de um irmão querido. estudante de medicina. do sentimento. repetindo conceitos. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. Obviamente. A mãe do poeta. menos a de Byron. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. perturbou-a por muito tempo. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . ficou desajustada da mente pelo resto da vida. Nietzche. que nada explica. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. que já era constitucionalmente quase louca. Juízo é coisa que todos julgam ter. reduzir tudo a categorismo. Ao que se sabe. não há negar também a dos psicológicos. Explica-se deste modo. sestros. enfim. nem os que vieram depois. choques emocionais. a partir de Lombroso. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. da inteligência. sobretudo quando provém da linha materna. caracterizado por uma sensibilidade doentia. como é do gosto da crítica científica. o refinamento de suas faculdades morais. todo o seu temperamento emocional. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. a de Byron. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. não é possível interpretar a obra de um escritor.for. tiques nervosos. a de Wilde. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. tem sido Augusto comparado a Leopardi. de fundo genético.

Nada de admirar. até o túmulo. ao invés de um estudante bisonho. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. Deste modo. do Eu. cinco anos após a sua morte. o seu tipo de pássaro molhado. sem afastar-se do lar. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. no último ano do século passado. logo mais. O rapazinho de 16 anos. Com seu pai. na várzea do Paraíba. Muito cedo. Falava nele o positivista que. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. aprendeu a ler e. A par disso. Era de fato um excêntrico. em prefácio à segunda edição do Eu. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. era um introvertido. os quais o acompanhariam. inspirado na natureza e no amor. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. O que há de singular nele não é. como expressão do pensamento nacional. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. guiado apenas pela ilustração paterna. visto ter nascido poeta. cuja vida corria sem obstáculos. que a metafísica estava morta. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. mas no final 8 . saído da roça. Sílvio Romero. para maior complicação de sua personalidade. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. que lançou em 1919. Logo mais. com o título Eu e Outras Poesias. é a vocação que já revelava para o infortúnio. segundo os primeiros retratos que temos dele. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. em Monólogos de uma Sombra. estavam a fazer dele um lírico. a sua própria vida sem problemas. sofreu duros reveses. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. Alexandre dos Anjos. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. mas não era somente isso. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. em contraste com a mocidade e a inteligência. conforme disse num soneto que não consta. bradava para o conceituado mestre que o argüia. em 1900. dr. sofregamente bebida nas academias. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. Coelho Rodrigues.Augusto com a sua personalidade psicológica. em sua linha tomista. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. a rigor. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. Já em 1875. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. a quietude da vida na província. para aprazimento intelectual das elites. evolvia para o evolucionismo de Speneer. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. A paisagem bucólica da várzea. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. como uma fatalidade. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer.

mas a origem simiesca do homem. Nas rodas que se faziam na Paraíba. faziam praça de livres pensadores. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Comte passou. entre o mundo da forma e o mundo da razão. Augusto pouco falava. ou mesmo. desde Haller. conciliada. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. Laurindo Leão. Por todo o Nordeste. em seu livro Frases e Notas. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. os intelectuais mais dotados.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. proceda ou não proceda. de que católico era sinônimo de burro. dupla feição de filósofo e de poeta. emancipou-se dela intelectualmente. aliás bem pouco lisonjeiro. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. firmava-se o conceito. como uma velharia do século. Até no Piauí. O beatério era o último reduto do catolicismo. como toda substância animada. Ao que parece. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. que só cuidava de preocupações teológicas. Desses embates. confundidas ambas na unidade cósmica. já no seu ocaso. aliás. Embora educado na religião católica. tentou o milagre de 9 . ficava a escutar os companheiros. o pensamento ao longe. já lidos nos filósofos da natureza. Esquisitão que era. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. Martins Júnior. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. isto é. Na Paraíba. de onde saiu formado em 1907. a velha Escolástica. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. que. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. nas concepções filosóficas de seus poemas. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. suportou a mais dura crise. adepto do positivismo. com a evolução da matéria e do espírito. Os menos letrados. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. está sujeita também ao processo da evolução. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. introduziu entre nós a poesia científica. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. um século antes de Hugo. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. se o diabo é tão feio como o pintam. José Américo de Almeida. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. Ainda na fase preparatória de estudos. em sua. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. Desta forma. a exemplo de Victor Hugo. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. Aliás.

a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. ora transfigurado em filósofo moderno. E é de mim que decorrem. Vejamos. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. como amostra. ampla.. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos.. Rimbaud escrevera Bateau ivre. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. vibra A alma dos movimentos rotatórios. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. Não sofre apenas a sua dor.reduzir a um campo único a ciência e a arte. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. O aspecto conceptual do poema. simultâneas. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Da substância de todas as substâncias. fundado na unidade cósmica. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. A simbiose das coisas me equilibra. E assim continua. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. Integrado na sociedade. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. trinta anos antes. enfim. por força das sucessivas mutações da matéria. na larva que procede do caos telúrico. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. Não há. É a sua confissão de f transformista. Em minha ignota mônada. começa então o drama crucial da consciência. que é a derrota da humanidade. até adquirir a forma humana. todavia. poema que abre o Eu e Outras Poesias. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. facilmente o identifica. Encontra-se. A saúde das forças subterrâneas... numa caminhada de 31 estâncias. como bem observa Cavalcanti Proença. 186 versos. A partir da monera. Do cosmopolitismo das moneras. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. Aos 17 anos. “esse mineiro doido das origens”. naquela mesma idade em que. Larva do caos telúrico. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. Venho de outras eras. nas duas composições uma coincidência de temas. Quem já o leu uma vez. já diferenciado na mônada. depois de infinitas transformações. identifica-se na substância primeva. já desiludido. e—crente no tema. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. chega aos seres mais complexos. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. incomparável na forma musicada. a consciência 10 . Pólipo de recônditas reentrâncias. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. que passou do reino vegetal para o animal. terso na linguagem. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra.

Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. entrega-se ao sacrifício. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. há que distinguir um pormenor. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. dezenove séculos antes. que tinha os ouvidos totalmente tapados. natural de minha terra. ouvia mais que um tísico. uma espécie de fogo que devora e não consome. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. chamando a si. o sofrimento de toda a humanidade.conspurcada de gozo malsão. Por alma. segundo querem os frenologistas. A rigor. no entanto. no princípio era a força. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. tantas vezes exaltada pelo poeta. Nesse estado d’alma. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. O próprio Augusto. que a ele não interessava considerar. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. com sótão e porão. temos aí um transformismo metafísico. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. em esconderijos apropriados. dentro do mundo fenomenal. do ponto de vista metafísico. entendia o agregado abstrato da saudade. diante das maravilhas do aparelho encefálico. o vidente de Patmos: . o que vale dizer. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. como está dito em Monólogos de uma Sombra. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. No tocante à transformação da matéria. já havia dito. Por fim. que faz quase lembrar a reencarnação. manifestou o seu espanto. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. o remorso já acordado na caverna escura. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. numa espécie de solidariedade subjetiva. assombrado com o não-ser. No fundo. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. centro de toda a acuidade sensorial. A partir dai.No princípio era o Verbo. A mesma coisa. Nada obstante. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. É a concepção monística. noção trivialíssima das funções orgânicas. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. cuido não estar proferindo uma heresia. conheci um sujeito. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa.

Profundissimamente hipocondríaco. Monstro de escuridão e rutilância. E há-de deixar-me apenas os cabelos. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. O próprio amor. que é o Deus materialista de Haeckel. impreca. procura 12 . que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. Ao invés de fecundação do espírito. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. desde a epigênese da infância. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. Sofro. servindo de pasto a uma civilização corrompida. procura penetrar o mistério da substância universal. Este ambiente me causa repugnância. causa-lhe repugnância.. onde imperam sombras. na melhor das suposições. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. fonte inesgotável de vida. só serviu para adensar o clima de alucinação. vermes. No auge da inquietação. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. a matéria putrefata. sem problemas materiais: Eu. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. o éter cósmico.este operário das ruínas. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. Exausto da luta. o lado malsão da vida. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco.Psicologia de um Vencido . onde não há lugar para a alegria. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. filho do carbono e do amoníaco. Em tudo.. rasgar do mundo o velário espêsso. O mundo em que vive é um vasto hospital. Por toda parte. cadáveres e bocas necrófagas. Querendo fugir a essas coisas. dominado por um ceticismo acabrunhador. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Nem por isso admite Deus.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. admite o éter. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. Mas como é preciso preencher um claro na consciência.Fazer a luz do cérebro que pensa. A influência má dos signos do zodíaco. uma natureza gasta. solta blasfêmias. Custa crer que este soneto . Já o verme .

deve ter acontecido na sua juventude. Por um instante. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. Até agora 13 . como se já tivesse despido a carcaça da matéria. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. uma desgraça na vida do poeta. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo.. Mas o diabo não larga a sua presa. no todo ou em parte. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. com efeito. Espera aí encontrar o seu nirvana. como se supunha. Com efeito. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. que ele denomina um sonho ladrão. monstros terríveis. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. diz ele. Depois disso. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. Algo de mais grave. a perda da crença e.. E é nesta manumissão schopenhauriana. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. tenta ir ao fundo da crença monística. A julgar pelos seus gemidos. E para não capitular a esse apelo. em suas visões oníricas. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. paralelamente.refúgio na inexistência espiritual. O subconsciente o aturde. acompanham-no. Tudo isso. Grita a sua dor por toda parte e. Onde quer que se refugie. já cansado de escutar a natureza. gasta imensas energias e enche de culminâncias. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. E via em mim. o Eu e Outras Poesias. com o poder de sua imaginação. nem Haeckel compreenderam. Há. a terrível moléstia que se atribui. que os anos não carcomem. Nenhum pintor. Antes de mais nada. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. coberto de desgraças. que exulta triunfante: Gozo o prazer. O resultado de bilhões de raças Que. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. podia fazer dele um triste. numa atitude mental de fuga à realidade. sente o desejo. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. evadido de si mesmo. não há homem que sofra mais.

que é o drama mais doloroso de sua consciência. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Por mais que procure fugir ao assunto. Exatamente aí. pois.. Lembro-me bem. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. no tocante a esse drama. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. de uma paixão. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Gozei numa hora séculos de afagos. no capítulo do amor. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. Iríamos a um país de eternas pazes. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Por mais que Augusto negue o amor. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 .A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. . Ele próprio. em . inútil seria qualquer esforço. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. não pode ocultar que foi vítima dele. Por suas próprias palavras. desespero virtual e não real. Por enquanto. dada a ausência de biografia. sempre se revela. Trata-se. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra...

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Queixas Noturnas . mas no poema . Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. ao mesmo tempo que. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.santa. O poeta.. nunca foi chegado a santos. Noite.. como em . surpreende com a invocação de Santa Francisca. em mágoa. como é sabido.. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha.extravasava desta forma o seu lamento: 19 . Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido.Insônia .referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada.. E invejo o sofrimento desta Santa. contrito. eu também vou passando Sonâmbulo. confessa mais uma vez a sua culpa. Depois de embebedado deste vinho. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.. Como um bemol ou como um sustenido.. Sonâmbulo. Sonâmbulo. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. que não é das mais invocadas. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes.

Minha alma sai agoniada.As Cismas do Destino . o ofício da agonia. que não admite a vida espiritual. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. como perseguido pela sinistra ceifeira. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. entre as estrelas flóreas. Mas pareceu-me. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. que parece se deixou levar por pressão da família. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. dormir primeiro. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. expressa a sua mágoa numa comovente unção. Ao pai. Como Elias.. Mãe. sem resolver a verdade interior. pouco fala. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei.brada: 20 . ama-o até mesmo na atômica desordem. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. entre estes monstros. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. num carro azul de glórias. Madrugada de treze de janeiro. A morte é o fim de tudo. quando a morte o olhar lhe vidra. Ao vê-lo morto.. Rezo. mas para os que crêem há ainda uma esperança. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Nem uma névoa no estrelado véu. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. luta por fugir dela. não para ele.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. sonhando. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. Da mãe. apenas três vezes. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Em . entretanto.

Nestas condições. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. Ao invés de ajustá-lo à realidade. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. como em toda a obra. habitado por monstros humanos.Morte. devia ter na época. escravo do raciocínio frio. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. Forma difusa da matéria imbele.. as palavras também servem para ocultar o pensamento.. levava-o a recolher-se em si mesmo. Acha Flósculo da Nóbrega. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. 22 anos de idade. Já que não crê em Deus. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Procura assim desoprimir o coração. Por tua causa apodreci nas cruzes. quando recebeu os 22 açoites da natureza. ardendo em indagações subjectivas. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito.. Vivia um mundo à parte. Não me parece tenha razão 21 . em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. embora ansiasse por encontrá-lo. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. que Augusto era um cerebral. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada.. cheio de imperfeições. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. ponto final da última cena. Minha filosofia te repele. não cria em Deus. E ainda. Aqui. Nada o consolava nesse estado de espírito.

volta-se vez por outra contra a sociedade. tinha-se na conta de um doente. Os seus melhores versos. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. mas porque se sente um desajustado. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. De um modo geral. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Na luta em que Augusto se debate. passos largos. no caso. o cérebro em fogo. Punha-se então a passear. que o acolhia com carinho. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. Há. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. Fosse como ele diz. torturado no sentimento do desamparo. um homem excluído do mundo. andar bamboleante. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. ao redor da capela do engenho. os de maior densidade emocional. Nem ele próprio se conhecia. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. contudo. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. noite a dentro. sua musa empalideceu à falta de ambiente. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. A inspiração despertava com a dor. O que produziu no sul do País. No fundo. Desta. Era. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. como um sonâmbulo. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. de vez que ninguém o compreendia. que o 22 . Ao contemplar esse ambiente. além de pouco. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. conforme declarou nesta honesta confissão. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. em 1912. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. foram produzidos no Pau D’Arco.o ilustre intelectual paraibano. nunca recebeu hostilidades. entrava em crise espiritual. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. mas no particular. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. e a mim pergunto. Não que tenha recebido ofensas dela. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. Depois que o poeta deixou a Paraíba. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. ao contrário. que só repugnância lhe causava.

23 . como se já tivesse perdido o alento de viver. atormenta-se com a idéia de que. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. Parece que desperta para a vida. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. fez dele um misantropo. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. passa a chorar a sua dor e a alheia. perdeu também a crença. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Na ascensão barométrica da calma. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. que admirar chore um dia a crença perdida. aliada à descrença. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. em Os Doentes. pois. Essa real ou imaginária doença. eis que escuta. o soneto Vandalismo. Não há. entra a descrever a cidade dos lázaros. Perdido o amor. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. como um arrependido. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza.próprio poeta confessava. “na urbe natal do Desconsolo”. imaginária cidade à margem do Paraíba. Mais adiante. à guisa de ácido resíduo. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. Já cansado do ceticismo. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. hosanas ao Senhor. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. os acordes saudosos do coração. ansiado e contrafeito. De início. Lá para o fim do poema. Em As Cismas do Destino. Eu bem sabia. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. como ele chamava. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. numa emoção que comove. sob os seus pés. em serenata. na terra onde pisava. Era ali. Depois disso. num desalento ainda maior. onde os anjos cantavam. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. confessa-se minado pela tuberculose.

ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. Não é. No desespero dos iconoclastas. já na 27ª edição. quase todos. Santos Neto. que se afundava a alma do poeta. João Lélis e De Castro e Silva. No final de contas. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. apenas como autor de um livro apologético. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. José Américo de Almeida. Dos outros. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Sabe-se como compunha.. Enfim. há sempre o que referir. Álvaro de Carvalho. em gemidos de dor. tenham bordejado na superfície do abismo em. ler. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. João Lélis. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. posto que. para ele.Meu coração tem catedrais imensas. que não é biografia e não chega a ser estudo. este último. Onde um nume de amor. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. A arte. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. na Academia Paraibana de Letras. Ao contrário da incontinente afirmativa. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. Canta a aleluia virginal das crenças. por exemplo. chegou a dizer que Augusto não era poeta. Templos de priscas e longínquas datas. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Sua obra. Raul Machado. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. muitas opiniões foram veiculadas. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso.. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. era apenas o meio de formular soluções. pois. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Assim é que. Nesse decurso. destaco Órris Soares. Flóscolo da Nóbrega. em serenatas.

tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. a sua personalidade psicológica. de um a outro canto da sala. Seus versos. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. na época. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. túmulos. Essa incompreensão a respeito de Augusto. duendes. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. Foi então que recitou de inopino. Cavalcanti Proença. Só depois de elaborada é que ia para o papel. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. o que acabava de compor. este na prosa. Em ambos. que não tenha fecundado a poesia nacional. entrava disciplinada em seus versos. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico.devoradoras. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. certa preocupação inclusive dos simbolistas. enquanto forjava mentalmente a composição. impressionam pelo poder da dialética. a passear a esmo. entre nós. a densidade. lábios crispados. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Poe e Rimbaud. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. num timbre especial de voz. Em ter ficado sozinho. lá fora. o sentimento parece ter outra dimensão. Órris Soares. olhar perdido no espaço. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. como em compasso de música. que pretende ser de interpretação psicológica. reside justamente no termo técnico. Por tudo isso. à primeira vista incompatível com a poesia. Muitas vezes. sangue de vísceras dilaceradas. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. vermes. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. o outro 25 anos depois. associado à vibração sonora. Neles. um em 1920. com efeito. insulado em sua própria grandeza. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. o que era. em 1945. Euclides da Cunha. figuras espectrais e outras visões sinistras. escarros. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. disse que uma das suas forças. Os versos espoucavam no momento da inspiração. essa linguagem. como lamenta o crítico. sobretudo da crítica provinciana. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. claro que avulta ainda mais o seu mérito. Essa crítica. No entanto. também 25 .

Mas é preciso notar que essa musa. a fim de atingir. Eis porque. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. Nem por isso. 26 . de sentido mais profundo. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Com Verlaine. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. Com Mallarmé. pelas crises espirituais porque ambos passaram. O anojamento de Álvaro de Carvalho. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. não lhe tira o vigor da expressão verbal. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja.ficaram sem seguidores. no duelo da carne. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. reconheça-se que essa poesia é humana. na interpretação de um drama emocional. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. neste ensaio de exegese literária. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. Não pode o critico ser ortodoxo. nem tudo pode ter cabimento. com efeito. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. num dos seus últimos sonetos. aparelhou. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Com Baudelaire. como se vê. Há. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. Ou então. é mais uma aversão de olfato alérgico. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. elogios ou restrições. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. mesmo doentia. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. que apenas transparece em linguagem evasiva. por isso mesmo poética. pela tristeza indefinível da alma. está em tempo de ser feita. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto.

como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. só nesse ponto dissimula o pensamento. vem o barulho das matracas. encontra-se em Roma. a idéia pura das coisas. Até nas aliterações e metáforas. um mês após a morte de Augusto. para a neologia e o vocábulo raro. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. na terra santa. isso mesmo de passagem. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. no ar de minha terra. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. um grande medo toma conta do poeta. em grupos prosternados. A mesma coisa ocorre com Augusto. as mesmas figuras de linguagem. De lá de fora. Segundo Delahaye. foi José Américo de Almeida. desde a sua fase inicial. que dialoga com os elementos imponderáveis. Só com Rimbaud. Súbito. Ouvindo isso. sensações simples e cenestesias. em tropos ousados. palavras raras e eruditas. Com Antero do Quental. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. Honesto em tudo. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. “Na Eternidade. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. visionário. citado por Augusto Meyer. por sua natureza. desejada por um. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. temida pelo outro.. num artigo publicado em 1914. crematismos. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia.. em termos de comparação. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. pelo sentido da dor universal. em quem se acumulam. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. Vez por outra. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor.através da sensação. É. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. Não fica apenas aí o confronto. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. os mesmos descuidos de metro e rima. na postura de um campônio rústico. Augusto lembra Rimbaud. assentado sobre cacos de pote e urtigas. O único que mencionou Rimbaud. de mistura com alucinações. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Também no amor os dois se assemelham. havia acentuada tendência do poeta. numa sexta-feira santa. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. como neste exemplo: 27 . E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. Encontra-se. de uma honestidade quase bravia. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. guardando o corpo do Divino Mestre. a filosofia da dor. Com Leopardi.

contudo. provo-a. uma diferença de fundo entre os dois poetas. é verdade. à beira da água. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. chupo-a. E como não 28 . sente-se que há um complexo de culpa. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. por causas várias.. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. é como a cana azeda. em busca do paraíso terrestre. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. Descasco-a. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. segundo é fama.”. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. A toda boca que o não prova engana. um suave concerto espiritual na natureza. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. mas que o levaram ao resultado conhecido. largou-se para a África. Há. Augusto sentia-se puro. filha legítima de sua alma. como Tântalo. Depois desse fato. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração.. é inútil. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. homens de bem cheios de nobres intenções. Motivos escabrosos. que era o seu anseio máximo. Rimbaud. na Bélgica. . é improfícuo. exacerbava-a. Ninguém sofre mais do que ele. Em cada um deles. No tempo de jovem. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. vítima de injustiças humanas. Não sou capaz de amar mulher alguma. a julgar pelos seus lamentos. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. ilusão treda! O amor. onde se casou com uma nativa da Abissínia.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. em suma.. embora tenham se casado e tido filhos. poeta. andou conspurcado de sensações súcubas. o bem e o mal caminhando juntos.

mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. como fontes de inspiração. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. silvos de labaredas e suspiros de empestados. Não raras vezes. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. Foi a partir daí. entre a voz do sentimento e a da razão. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. Mesmo assim. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. porém. a criação. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual.espécie de autobiografia moral. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. isto é. luz. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. revolta-se contra o mundo. tudo quanto eleva os sentidos. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. mas nem isso acredito tenha havido. quando muito. onde não faltavam o ranger de dentes. numa reação inócua. martelada em versos magníficos e candentes. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. sem preencher esse vácuo. segundo apregoam os fundibulários da crítica. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. contra a sociedade. tudo quanto desperta a alma. Augusto vai irredento até o fim. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo.pode reformar o mundo.. perdia-se no estado de dúvida. som. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. do qual se considerava prisioneiro. contra a sua grei. Por curioso paradoxo. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. os mistérios da natureza. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. dessa conversão ao materialismo. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. perfume. 29 . cor. Neste passo. isto é. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. conforme confissão feita a Mário de Alencar. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. Possuído do demônio da dúvida. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. imitação. chegaríamos por certo ao pai Homero que. Há muitas espécies de conversões em literatura. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. deixava-se ficar no interior da concha. Tais similitudes valeriam. Um problema sempre gera outro. depois que perdeu a ilusão dos homens. o amor. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. A vida. beleza.Une Saison en Enfer .

viram nisso o pecado da blasfêmia. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. quando não proferida por modo vulgar e chulo. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. Apurada a eleição e com base no resultado. Vale mencionar. Ora. em meio a tantas emoções extravasadas. Convém. Isso mostra que ele. no desespero de tantos sofrimentos. tal como Rimbaud. heresia maior que a do poeta quando. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. nas Alterosas. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. se manifesta ainda escravo do batismo. Os oradores. em torrentes de eloqüência. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. como ninguém ainda se entendesse. Se o Cristo não vem em seu auxílio. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Ao cabo do bombardeio oratório. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. a essência dos Evangelhos. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. que se veja na blasfêmia. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. uns afirmando. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. resolveu o presidente submeter a questão a votos. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. se sucediam na tribuna. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. No meio em que viveu era querido e admirado. É o que há. Alguns críticos. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. via de regra. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. um pedido de socorro. porquanto Deus é princípio e é fim. a meu ver. 30 . mas os que o seguem desconhecem. Na prática. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. proclamou que Deus não existe. outros negando. Se há Deus. a propósito.Enredado em idéias preconcebidas. é questão que não deve ser formulada. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. é. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. Todos nós. afetando melindres de devotos. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. se não há Deus. na realidade. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. supria-se do mais no magistério particular. aceitar as imperfeições do mundo. todavia. com raríssimas exceções.

A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. A denominação. 31 . depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje.atormentado por visões escatológicas.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . sob estes galhos. através dos séculos. dá à alma a denominação de sombra. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. por mãos de seu filho Pirro. vem de muito longe. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. virtudes que cultivava com extremado zelo. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. De inflexões mentais sua obra anda cheia. os filósofos iônios. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. como uma caixa derradeira. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. Como uma vela fúnebre de cera. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. o sacrifício da linda moça Polixena. Voltando à pátria da homogeneidade. explodiu em As Cismas do Destino. começa o poema “Sou uma Sombra. No tempo de meu Pai. coisa que não cabe na boca de um ateu. De outras vezes. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Abraçada com a própria Eternidade. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. Por outro lado.Debaixo do Tamarindo. E como era sincero e honesto. desde Tales de Mileto. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. como se vê. entendiam a alma.

Que outros. acrescenta. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. era uma mônada. É a substância primeva. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. para ele. aos 30 anos de idade. Assim vai. isto é. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. assaltado de alucinações. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. Até Deus. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. nas composições que vão até o fim do livro. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. mas dentro da alma aflita Via Deus . tal como se apresenta. !" Este trabalho. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. em briga com o dualismo. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. em Leopoldina. até mesmo num grão de areia. desde o declínio das crenças mitológicas. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. Mais poderia dizer agora. Choram ainda dentro dele. a 12 de novembro de 1914. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. na Federação das Academias de Letras do Brasil. virtualidade espiritual.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. tal como a entendiam os filósofos iônios. como entidade eterna. até que morre numa cidade das Alterosas. larva do caos telúrico. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. Daí por diante. que procede do éter cósmico. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. as formas microscópicas do mundo. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. mas com o que ai está me contento. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. em soluços quase humanos. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. 32 . sua intimidade numenal. perdendo-se novamente no enleio cósmico. da substância de todas as substâncias. vacilante na ciência fria.

33 . de abusar um pouco do café. Tenho insônia raras vezes. Córdula C. Sofre de insônia. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. dos Anjos e D. R. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. o que não impede. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. presumo. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. Rio de Janeiro. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Conservo de memória tudo quanto produzo. da chamada vida física. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Eu. Engenho Pau d'Arco. entretanto. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. comecei a produzir muito antes dos 9 anos.

Chego A tocá-lo. Ao meu quarto me recolho. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . e à vida em geral declara guerra.Digo. Sofro. Ergo-me a tremer.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Meu Deus! E este morcego! E. igual a um olho.. Este ambiente me causa repugnância.. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Anda a espreitar meus olhos para roê-los.” -. Esforços faço. Produndissimamente hipocondríaco. desde a epigênese da infância. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Já o verme -. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Monstro de escuridão e rutilância. Fecho o ferrolho E olho o teto. E vejo-o ainda. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Minh’alma se concentra. A influência má dos signos do zodíaco. “Vou mandar levantar outra parede. filho do carbono e do amoníaco. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite... vede: Na bruta ardência orgânica dasede. E há de deixar-me apenas os cabelos. agora.

Chega em seguida às cordas da laringe. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 .A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. Delibera. e quase morta. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. Que. Anoitece. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Mas.. tênue. Quebra a força centrípeta que a amarra. Tísica.. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. e depois. raquítica. de repente.. quando sonha.. Deixa circunferências de peçonha. mínima. À noite. Riem as meretrizes no Cassino. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. em desintegrações maravilhosas.

Fruto rubro de carne agonizante. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Que poder embriológico fatal Destruiu. Em que lugar irás passar a infância.. Agregado infeliz de sangue e cal.. em letras garrafais. Tragicamente anônimo.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. em vez de achar a luz que os Céus inflama. com a sinergia de um gigante. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . E.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Realizavam-se os partos mais obscuros. feto esquecido.

arrima-a.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. acode-a A escala dos latidos ancestrais.. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. Filho da teleológica matéria. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . ampara-a. E irás assim. para provar A incógnita alma. Verme -. Livre das roupas do antropomorfismo..é o seu nome obscuro de batismo. E vive em contubérnio com a bactéria. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. Na superabundância ou na miséria. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. afaga-a. Ah! Para ele é que a carne podre fica. Almoça a podridão das drupas agras.. pelos séculos adiante.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. em que tu dormes. Janta hidrópicos.. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Cão! -. Suficientíssima é.

esta tesoura. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Como uma vela fúnebre de cera. Voltando à pátria da homogeneidade. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . de amplos agasalhos. sob estes galhos. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai.corte Minha singularíssima pessoa. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Guarda. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. portanto.. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. como uma caixa derradeira. esta árvore. e. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração.. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri.. Dr.

.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. com uma ânsia sibarita. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. um dia. por toda a pro-dinâmica infinita. -. com o esqueleto ao lado. Na guturalidade do meu brado.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. Como um pagão no altar de Proserpina. Por trás dos ermos túmulos. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. como quem tudo repele. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. Alheio ao velho cálculo dos dias. mas dentro da alma aflita Via Deus -..

O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Nos estados prodrômicos da vida. Ah! De ti foi que. Todas as noites.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. como um gado vivo. Em que é mister que o gênero humano entre. talvez. moços do mundo. Onde os bandalhos. Oh! Mãe original das outras formas. vede: É o grande bebedeouro coletivo. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. mísera e mofina. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. autônoma e sem normas. Como quase impalpável gelatina.. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 .. nesta rede. Dentro do ângulo diedro da parede. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar.

é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . perante a evolução imensa. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. é o ego sum qui sum . para o amor sagrado. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. como o filósofo mais crente. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. Amo o coveiro -.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous .IDEALISMO Falas de amor. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. É a morte. É. O mundo fique imaterializado -. é o pneuma . Creio.. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando..

Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. com a alma às escuras. e. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. se hoje volto assim. Vaguei um século. À meia-noite. Pelas monotonias siderais.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. Mas. caixas cranianas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 .. cartilagens Oriundas. como os sonhos dos selvagens. Comi meus olhos crus no cemitério. Era tarde! Fazia muito frio.. subi talvez às máximas alturas. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. nele. talvez as Musas. improficuamente. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. inclusas... Cinzas.

com o envelhecimento da nervura. em diferentes Florestas. Eu. para o Futuro. reunidos. glebas. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. pois. vales. trilhos. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. selvas. porém. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. Se fosses Deus.fontes de perdão -. no Dia de Juízo.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. tuas sementes! E assim. Na multiplicidade dos teus ramos. inda teremos filhos! 43 . meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Tu. Tamarindo de minha desventura. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. Pelo muito que em vida nos amamos. Depois da morte.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -.

Como os Goncourts. É meu destino viver junto a esa asa. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas.. Apraz-me. Ter o destino de uma larva fria. na hierarquia Das formas vivas. Como a cinza que vive junto à brasa. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. Ganem todos os vícios de uma vez. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros.. Perseguido por todos os reveses. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas..a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . à categoria Das organizações liliputianas. É-me grato adstringir-me. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa.. nos doze meses. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. asa De mau agouro que. Na orgia heliogabálica do mundo.

puxa e repuxa a língua. “À luz da epicurista ataraxia. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. o Homem. a mim. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. “Homem. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. o Hércules.. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. conquanto ainda hoje em dia. aos soluços. com os dedos brutos Para falar. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . em desalento. Ouvindo a Escada e o Mar. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. violento. É como o paralítico que.. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. rasga o papel. mamífero inferior.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto.

Que a mim somente cabe o furto feito. Que ela absolutamente não furtava. Em sucessivas atuações nefastas. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. Ele hoje vê que... Furtaste a moeda só. então. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. entretanto. Tu só furtaste a moeda. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas.. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. após tudo perdido. Eu furtei mais. afetava Susceptibilidade de menina: “-. mas eu. como cruéis e hórridas hastas. agora. minha ama.Não. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. em minha cama.. minha Mãe. ralhava.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. hipócrita. o ouro que brilha. Sinhá-Mocinha. não fora ela! --“ E maldizia a sina. Vejo.

Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. e. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 .o brilho Destes meus olhos apagou!.. porém. igual a um porco.... à noite. Assim Tântalo. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. E tu mesmo. Hoje. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. após a árdua e atra refrega.. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. num festim. do que este que palmilho E que me assombra... a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. aos reais convivas. Hás de engolir.a mãe comum -.. É noite.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos.

. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. meu Pai?! Que mão sombria. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. Tu. para amenizar as dores tuas. O que o homem ama e o que o homem abomina. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. o Ódio e a Carnificina. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. gemendo. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. e o ângulo reto.. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. e sendo justo. é justo.. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. para onde fores. O Amor e a Paz. trilhando as mesmas ruas. Irei também. Deus. Eu..CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. pois. Às alegrias juntam-se as tristezas. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . Pai.

. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei.. sonhando. cuidei que ele dormia. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Rezo..SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Como Elias. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. entre as estrelas flóreas. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.. Mãe. Mas pareceu-me. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. o ofício da agonia. num carro azul de glórias. E a marcha das moléculas regulam. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Nem uma névoa no estrelado véu.

meu pai.. Para que eu tenha uma velhice calma! -. possui minh’alma!.. É preciso cortá-la. pois...DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. pai. numa rogativa: “Não mate a árvore.e ajoelhou-se.. meu filho.Disse -. Caiu aos golpes do machado bronco. no junquilho.Meu pai. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 .As árvores. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. enfim. olhando a pátria serra. para que eu viva!” E quando a árvore. meu filho.. sôfrega e ansiosa. Apraz-me. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. Livre deste cadeado de peçonha. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza... -. Esta árvore.

Ah! Tu somente ainda és igual a mim. de à antiga rota Voar.. Olha a atmosfera livre.. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. Pões-te a assobiar. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. não tens mais! E pois. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. desde o mais prístino mito.. mergulhou a cabeça no Infinito.. bruto. Continua a comer teu milho alpiste. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. o amplo éter belo. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Tu nunca mais verás a liberdade!. Foi este mundo que me fez tão triste. preto e amarelo. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha.

na diuturna discórdia. Ante o telúrico recorte. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos.. Noite alta. Templos de priscas e longínquas datas. cismava Em meu destino!. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Canta a aleluia virginal das crenças. em serenatas.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. Onde um nume de amor... a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu.. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. ególatra céptico.

. Mora. e. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. Acende teu cigarro! o beijo. amigo. e doma Meu coração -. toma A adaga de aço.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. Meu coração triunfava nas arenas. guerreiro. por fim. E não pôde domá-lo enfim ninguém. ao todo. que.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. uns cem. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. E qual mais pronto. é a véspera do escarro. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . o gládio de aço. por fim. veio um atleta. nesta terra miserável. Apedreja essa mão vil que te afaga. Vieram todos. Toma um fósforo. entre feras.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão -.. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. E à rutilância das espadas. Veio depois um domador de hienas E outro mais. A mão que afaga é a mesma que apedreja. sente invevitável Necessidade de também ser fera.

pois. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. No rudimentarismo do Desejo! 54 .. podendo mover milhões de mundos. em sons subterrâneos. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme.. pancada por pancada.. Ouço. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou.. Da transcendência que se não realiza. a escutar. nada há que traga Consolo à Mágoa. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. chorando. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. do Orbe oriundos. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. E é em suma. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. Quer resistir. A sucessividade dos segundos.. Que. a que só ele assiste.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo.. Sabe que sofre. Da luz que não chegou a ser lampejo.

me desencarcero. Como a última expressão da Dor sem termo. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Parem as vidas. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. sincero Encontrei. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. a animar o cosmos ermo. num grito de emoção. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. afinal.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. De que. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. que os anos não carcomem. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Foi que eu. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . eu. Morto o comércio físico nefando. feito força. pensando. Cesse a luz. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer.

APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. Era. "Com essa intuição monística dos gênios. decompondo-se. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une.. e. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha.. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . há inúmeros milênios. pois. arpões. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas.. numa alta aclamação. o olfato e o gosto! Carne. a vista.. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. Onde a alva flama psíquica trabalha. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. Dói-me ver. Diafragmas. A dardejar relampejantes brilhos. sem retumbância. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. feixe de mônadas bastardas. a irmanar diamantes e hulhas. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. o ouvido. sem gritos. muito embora a alma te acenda. Em tua podridão a herança horrenda. E o Homem — negro e heteróclito composto. ao sol posto.

A convulsão meteórica do vento. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. a porta. e. à espera de quem passa Para abrir-lhe. Tragicamente. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. Que produz muita vez. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. meus semelhantes! Mas. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça.. opondo-se à Inércia. às escâncaras. é o transunto. na noite escura. Este pântano é o túmulo absoluto. sem dor. E o nada do meu homem interior! 57 .. no Mundo. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura.O PÂNTANO Podem vê-lo. para mim que a Natureza escuto. É a síntese. é a essência pura.

ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. no teu silêncio. em conjugação com a terra nua.. deprimindo-o . Vence o granito. oh! gérmen. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia.A UM GÉRMEN Começaste a existir. entanto. Volvas à antiga inexistência calma!. Antes o Nada. Reconcentrando-se em si mesma. e. O espanto Convulsiona os espíritos. um dia. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. porventura. tanto Que. é natural. ainda algum dia. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. como o gérmen de outros seres.. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. que ainda haveres De atingir. Teu desenvolvimento continua! Antes. não progridas E em retrogradações indefinidas.. geléia humana. causa do Mundo.. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. em realidade. E hás de crescer. geléia crua.

.. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. Como um convite para estranhas viagens. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. E a coorte Das raças todas. Bracejamentos de álamos selvagens. descendo A irracionalidade primitiva.. . é inquietude.Todas as hermenêuticas sondagens.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!... Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. É a Natureza que. é o instinto horrendo De subir.. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens... Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora.. nele. traçando arcos de ogivas. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . trancada num disfarce. é transporte.As ambições que se fizeram troncos. Vivem só. São absolutamente negativas! Araucárias. . no seu arcano. é ânsia. na ordem cósmica. os elementos broncos..

.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. Dói-lhe. saúde dos seres que se fanam. em suma.. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. oh! Dor. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor.. psíquico tesouro. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te.. E. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. Que o sarcófago. À humana comoção impondo-a. inteira. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . acérrima e latente. sem convulsão que me alvorece.. sol do cérebro. ancoradouro Dos desgraçados. assim. Riqueza da alma...

pois. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Minha continuidade emocional! 61 . Haveis de ser no mundo subjetivo.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. em épocas futuras. ) Com o vosso catalítico prestígio. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . pois. que.. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. para o último remígio. Benditos vós. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o .. Ions emanados do meu próprio ideal. Expressões do universo radioativo.... Dai-me asas. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea.. Dai-me alma.

Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas.. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. A carne é fogo. então. Subitamente a cerebral coréa Pára. Eu sinto.. O cosmos sintético da Idéa Surge. os pés e os braços Tombara.. A espaços As cabeças. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . A alma arde. Arranco do meu crânio as nebulosas. Emoções extraordinárias sinto. as mãos.. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração.

na ânsia voraz que. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. carne sem luz. Hebdômadas hostis Passam. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Os dentes antropófagos que rangem. tragando a ambiência vasta. Sangram-te os olhos. Receando outras mandíbulas a esbangem. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. criatura cega. Realidade geográfica infeliz. Excrescência de terra singular. Rugindo. enquanto as almas se confrangem. e... Teu coração se desagrega. ávida. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. os dois Representam. aumenta. Montão de estercorária argila preta. No desembestamento que os arrasta. na superfície do planeta. Superexcitadíssimos. Porque. o alfa e o omega Amarguram-te. Deixa a tua alegria aos seres brutos. entretanto. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 .A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E.

Sob pena. homens felizes. sou maior que Dante. O Amor. E trago em mim.. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Que força alguma inibitória acalma.. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes.. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 .. Da dor humana. aparelhou.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. o Inferno. mordem-se. soluçando. a Ciência. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. a Glória. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo.

não cabendo mais dentro dos peitos. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. urdo o crime.. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere.O CANTO DOS PRESOS Troa. em voz muito alta.. a alardear bárbaros sons abstrusos. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. à luz de fantástica ribalta. ontem. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. (Hoje. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. È a saudade dos erros satisfeitos. a exigir que os sãos enfermem.. Teço a infâmia. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Entoado asperamente. Que. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. Uiva. O epitalâmio da Suprema Falta. Existo Como o cancro. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância.. cresto o sonho. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 .

de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. como um corvo. à noite.. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 .Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. minha alma. apreendo.. por fim.. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. o Infinito se levanta À luz do luar. o Céu e o Inferno absorvo. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. Feita dos mais variáveis elementos. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. O Infinitésimo e o Indeterminado. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. enfim. agarro. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. Nos paroxismos da hiperestesia. ausculto. Transponho ousadamente o átomo rude E. transmudado em rutilância fria. invado. dona.. Ceva-se em minha carne.

A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . aos trismos Da epilepsia horrenda. arder.. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. Tifon. virgem. Átropos. Laquesis. Eu. projetado muito além da História. como a luz do amanhecer. num monturo. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória.. Como a luz que arde.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. como um astro. Sentia dos fenômenos o fim. Siva.. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam.. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. E acima deles.

Grita em meu grito..MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. nas minhas formas carcomidas. rábido.. entanto. Branda. Folhas e frutos. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. a afagar tantas feridas. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. alarga-se em meu hausto.. a soluçar de dor?! -.) Quem sou eu... E. remoinha. nem mesmo ao ronco Do furacão que. Roem-na amarguras Talvez humanas.Trilhões de células vencidas.. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. esse mundo incoerente.. às apalpadelas e às escuras. neste ergástulo das vidas Danadamente. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. tenta transpor o Ideal. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser.. Hão de encontrar as gerações futuras Só. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . Nutrindo uma efeméride inferior.

Apreendo. em que me inundo. sânie e perfume. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos.. -. Massa palpável e éter. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. Sou eu que.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. ateando da alma o ocíduo lume. -. Penetro a essência plásmica infinita.. hirto. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. aliando Buda ao sibarita.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. feto vivo e aborto. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. desconforto E ataraxia. em cisma abismadora absorto. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 .REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia.

infinita como os próprios números. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. rádios e úmeros. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias.. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque.. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . três.Tal é. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. cérebros. cinco.. na abismal sustância informe.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. Porque.. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. por hipótese. dois. em fúlgidos letreiros. Reduzir carnes podres a algarismos. -. sem complicados silogismos. crânios. quatro. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. somente em.

oh! delumbrada alma. recalcados. alma. amam jazer. assim. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. íngremes. e dize-me. perscruta O puerpério geológico interior. Qual é. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. porventura. me semente. Estacionadas. Por um abortamento de mecânica. a alma. Quem sabe. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . De onde rebenta. afinal. em contrações de dor. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. na natureza espiritual.

e. derrubadas.. subjugue-as ou difarce-as. A íngreme cordoalha úmida fica. sonha! Mágoas. da Massa. a amarra agarrada à âncora..APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. E eu só. babando. alçando o hirto esporão guerreiro. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. derrota Na atual força. em noite aziaga e ignota. Espião da cataclísmica surpresa.. que o Éter indica. É a subversão universal que ameaça A Natureza. pelo orbe adiante. o último a ser. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos.... Federações sidéricas quebradas. Pára e. integérrima. se as Tem. Zarpa. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega.

adstrito à ciência grave. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. ao cabo do último milênio.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Tragicamente. vazio! 73 . aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial.. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. Sôfrego. Os nossos esqueletos descarnados. ainda depois da morte. Para a perpetuação da Espécie forte. num triunfo surpreendente. Arrancar. em que arde o Ser. cave. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Haurindo o gás sulfídrico das covas. que ela encheu. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. o dolo sáxeo. Dentro dos ossos. Em convulsivas contorções sensuais.. e. E quando.

O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. eis que viu. A água transubstancia-se.. Horrível! O osso Frontal em fogo. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada.. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. Disse. fora.. Ia talvez morrer.. Somente... Olhou-se no espelho. há instantes. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. Era tão moço. Na mão dos açougueiros. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. com um berro bárbaro de gozo. vendo sangue. Extraordinariamente atordoadora. mancha a gleba.. Viu vísceras vermelhas pelo chão. antes do almoço.. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. iguais a espiões que acordam cedo. E amou. E.

.. Rasgo dos mundos o velário espesso.. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. me não consolo. Leio o obsoleto Rig-Veda. E..... ante obras tais. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. reconheço O império da substância universal ! 75 . percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. E em tudo igual a Goethe.. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. No mar de humana proliferação.

estranho ao mundo. em meio. A Idéia estertorava-se. imóvel. 76 .O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Eu a bendigo da descrença. atro e subterrâneo.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. E o coração me rasga atroz. P’ra iluminar-me a alma descontente. Se acende o círio triste da Saudade. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. imensa. Era de vê-lo. resignado. Para dar vida à dor e ao sofrimento. Mas que no entanto me alimenta a vida. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. Tragicamente de si mesmo oriundo. ao meu lado. E assim afeito às mágoas e ao tormento. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Fora da sucessão. Parecia dIzer-me: "É tarde. Porque eu hoje só vivo da descrença. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Hirta. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente..

sombras cor-de-rosa . Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 .Oh! Deus. entre o medo que o meu Ser aterra. gárrulos voando . O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam.Todas se foram num festivo bando. Ah. Da Igreja . Fraco que sou.a Grande Mãe . Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Hoje ela habita a erma soledade. seu olhar magoado.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. Cansado de lutar no mundo insano. eu creio em ti.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste.o exorcismo Terrível me feriu. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. Não sei se viva p’ra morrer na terra. Fugazes sonhos. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. em fundo misticismo: . desgraçado réu. e então sereno. Onde a dúvida ergueu altar profano. volvi ao ceticismo. de ilusões tão bela.

Quando a morte matar meus dissabores. Sombrio e mudo e glacial. triste pela vida afora. de amor ferido. pálidas agora. Eterno pegureiro caminhando. Desfeitas todas num guaiar dorido. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Exausto de pisar mágoas pisadas. E que tornou-o assim. triste e descrido. Tristes fanaram redolentes rosas. senhora. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. amei. tristes. Morreram todas. Cansado de chorar pelas estradas. SENHORA Ouvi. senhora. langorosas. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. num mês de tantas flores. todas sem olores. senhora. Revolvo as cinzas de passadas eras. Todas murcharam. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. Ouvi.MÁGOAS Quando nasci. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 .

Tu que. e o pesar negro e profundo. Ao chegar. mas a fronte aureolada. pendeu triste e desmaiada. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. Alma viúva das paixões da vida. Era o soldado. um tresloucado. Oh! Tu. E voltou.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. No sepulcro da loura virgem bela. Altivo lutador. na estrada da existência em fora. Mas a Pátria chamou-o. enamorado dela. Esconde à Natureza o sofrimento. Apaixonou-se d’uma virgem bela. E fica no teu ermo entristecida. venceu batalhas. Louco vivia. coração amargurado. Vivia alegre o vate apaixonado. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Cantaste e riste. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. 79 . olímpica e singela! E partiu. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Alma arrancada do prazer do mundo.

São minhas crenças divinais. pálidos. a brisa respondia. funéreos. Chegara enfim o dia desejado. Quando da vida. Desliza então a lúgubre coorte. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. silentes. E rompe a orquestra sepulcral da morte.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Vinha rompendo a aurora majestosa. ardentes . Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. E a mesma frase o noivo repetia. no eternal soluço. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Ambos unidos soluçara um beijo. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Fora no campo pássaros trinavam. soturnais. Há de chegar.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Quando há de ser!? E os pássaros falavam.

porém. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Dores que ferem corações de pedra. Espumando e rugindo em marulhada. A morte me será vingança eterna. Em luta co’a natura sempiterna. Mas se das minhas dores ao calvário. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Aí existe a mágoa em sua essência.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. E espuma e ruge a cólera entranhada. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. 81 . Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. E onde a vida borbulha e o sangue medra. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Assim a turba inconsciente passa. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. No delírio.

Morrera um dia desvairado. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. bom Papá. bonecos de formoso busto. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Quantos." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Su’alma livre para o Céu se alara. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Foste do amor o mártir sacrossanto.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Enquanto outros que podem. Tu’alma ri-se descuidosamente. Pois se da Religião fizeste culto. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Somente assim festejarei teus anos. Jóias. Irmão querido. dão-te enganos. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. estulto. num abraço de ternura santa.

aveludado. divina. esta mulher de grã beleza. Bela. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. presa. tomando a enxada gravemente. Do fado. Do destino fatal. palpitantes. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. A chama cruel que arrasta os corações. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Dançavam-lhe no colo perfumado. Tornou-se a pecadora vil. Os seios brancos. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. Moldada pela mão da Natureza. No entanto.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Balbuciou. mornos. amigo verdadeiro.

NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Trovador torturado e angustioso. mavioso. addio. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. não acordeis. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. addio! 84 . Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Ai! não. dolente. pouco a pouco. Que guardam cinzas de ilusões passadas. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. desnudas. Eleonora. E as mesmas monjas sempre tristurosas. Subindo pelo Azul da Inspiração. Assim canta também meu coração. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. Que guardam pér’las de funéreas rosas. E as mesmas portas impassíveis. Repercute.Addio. . os sons esmorecendo. No sigilo das rezas misteriosas. úmidas arcadas. E à noute quando rezam na clausura. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas.

Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá.Arca cerúlea de ilusões etéreas. Primavera. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. o triste outono. Primavera gentil dos meus amores! 85 .O segredo d’um peito torturado E hoje. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Canta.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . tão moça e já desventurada. Num sepulcro de rosas e de flores. porém.coração saudoso. . Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. a desgraçada estulta. os teus fulgores. para guardar a mágoa oculta. Arca sagrada de cerúleos sonhos. O cabelo revolto em desalinho. Vai morta em vida assim pelo caminho. . Eu sei a sua história. Moça. Da desdita ferida pelo espinho. soluça .a veste desgrenhada. Chora. No sudário de mágoa sepultada. gargalha.

Também espero o fim do meu tormento. tristonha . O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. É minha sina perenal. túm’lo do prazer finado.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. delirante e vário. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Mas não queiras saber nunca. ela não cansa. ergue o teu grito. 86 . eu trajo o luto do passado. Salve-te a glória no futuro . Sirva-te a crença de fanal bendito. que vivo atrelado ao desalento. Senhora.avança! E eu. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Também como ela não sucumbe a Crença. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Sonâmbulo da dor angustiado. Foi outrora do riso abençoado.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Voltam sonhos nas asas da Esperança. Muita gente infeliz assim não pensa. portanto. risonha. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. O berço onde as venturas se embalaram. não busques saber por que.

SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Chora . porém. sublime na Descrença. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Tenta às vezes. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Bela na Dor. Quem me dera morrer então risonho. Sombra perdida lá do meu Passado. Mas volta logo um negro desconforto. Quando o rosário de seu pranto rola. santíssima.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto.

Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. crê em Deus. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Estende o teu olhar à Natureza. Dorme talvez. Essa sublime adoração do crente. Na altura Imensa. e.. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. nevada. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. pois. As níveas pomas do candor da rosa.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Rendilhando-lhe o colo de sultana. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. Enquanto o amante pálido. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. mimosa. púbere. a seu lado Medita. ama. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si.. a fronte triste. Branca. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana.

e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. A procissão dos tristes. coveiro. Eu vivo dessas crenças que passaram. . Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça.Quero abraçar o meu passado morto. além. Dos romeiros saudosos da desgraça. lânguida e bela. A romaria eterna dos aflitos. . ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. dos proscritos. E na choça a lamúria que traspassa O coração. Entre todos. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. Vai Corina mendiga e esfarrapada.TEMPOS IDOS Não enterres. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . Tem pena dessas cinzas que ficaram. porém. A alma saudosa pelo amor vibrada. o meu Passado.

Cheia da luz do cintilar de um astro. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Sulcando o espaço. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos.eu disse. devassando a terra. Vencendo o azul que ante si s’erguera. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. suspirando. Para mim no mundo Tudo acabou-se. apenas restam mágoas. se eleva em busca do infinito. ADEUS! E. É como um despertar de estranho mito. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. Auroreando a humana consciência. Fitando o abismo sepulcral dos mares. ADEUS. adeus. Hermeto Lima Adeus.ADEUS. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Saí deixando morta a minha amada. 90 . adeus! E. Perto. Voa.

P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. onde não pousa a desventura. . Minh’alma que de longe a acompanhava. irmã pálida da Aurora. Estrela esmaecida do Martírio. com ela Negras sombras também foram chegando. Se eu sou o orvalho eterno que te chora.LIRIAL Por que choras assim. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Disse. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça.Vai-te. tristonho lírio. Envolto da tristeza no delírio. Viu o adeus que do Céu ela enviava.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. Mas a noute chegou. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade.A sombra deste afeto estiolado. triste. E eu disse . E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Lá onde nunca chegue esta saudade.

O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. E dos lábios de Dulce cai um beijo... Puro de crime. 92 . A esmola dum carinho apetecido. Pedir a Dulce. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele.o criminoso . Vítima augusta de indelével falso. Estendo à Dulce a mão. o algoz . a fé perdida. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. E todo o dia eu vou como um perdido De dor.e estertorada A minha voz soluça num gemido. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. A praça estava cheia.Senhora. E eu balbucio trêmula balada: . por entre a dolorosa estrada. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. E ela fita-me. dai-me u’a esmola . o olhar enlanguescido. E na atitude do Crucificado.então. isento de pecado. O olhar azul pregado n’amplidão.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. Depois. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. Morre-me a voz. e eu gemo o último harpejo. a minha bem amada. perdão.

Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me.. obumbra-me em teu seio. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES.segue a trilha que te traça O Destino. Há perfumes d’amor . assassino. acolhe-me. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. acolhe-me N’asa da Morte redentora. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . ave negra da Desgraça... Num desespero rábido..crença Perdida . e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. E as trevas moram. E hás de tombar um dia em mágoas lentas.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. e. Lá. onde d’água raso O olhar não trago. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Empenhada na sanha dos abutres. Gênio das trevas lúgubres.

Banhando a fria solidão das fragas. Treme na treva a púrpura da tarde. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. sem bruma Que a transparência tolde.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Mas quando o céu é límpido. Os nimbos das procelas desta vida. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. dentre a escura Treva do oceano. Reflete a luz do sol que já não arde. então. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Que o céu reflete. sem nenhuma Nuvem sequer. Quando vos vejo. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. e a alma é a Flâmula do sonho. Abismados na bruma enegrecida. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. só descanta. a vida é qual risonho Batel. num mar de esp’rança. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. O MAR O mar é triste como um cemitério.

O grande Sol de afeto .ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS.. FOGE! Aurora morta. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. Adeus oh! Dia escuro. Ascende à Claridade.. foge . Aurora morta. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. lá nos espaços.1902 95 . Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Triste criança virginal. Dia do meu Passado! Irrompe. é dor.. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz.o Sol que as almas doura! Fugiu. quem dera Voar est’alma a ti. oh! Minha Mágoa. Cantarias do amor a primavera. agita as tuas asas. E eu ergo preces que ninguém responde.. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora.) Nessas paragens desoladas.1902 AURORA MORTA. o meu único Norte. Agora. meu Futuro. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. Nem vibra a corda que a saudade esconde. Anseios d’alma aqui se perdem. Hoje é trevas.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. é desengano. e em si a Luz consoladora Do amor .

nitente.1902 96 .Cítara suave dos apaixonados. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios.a Louca tenebrosa. E há. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . as águas límpidas alvejam Com cristais. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. No alto.. Bendito o riso assim que se desata . Sonorizando os sonhos já passados. Chora a corrente múrmura. Pendem e caem . no teu riso de anjos encantados. entretanto.NO CAMPO Tarde. Branca. chorando enfloram. ao luar. emergindo às trevas que a negrejam. Ah! num delíquio de ventura louca.. à dolente Unção da noute. as flores também choram Num chuveiro de pétalas.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. e. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Quando. despertando sonhos. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta.

Pau d'Arco -1902. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. é como os prantos Níveos. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. 97 . E a lua é como um pálido sacrário. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. Também envolta num sudário — a Dor. eterna noctâmbula do Amor. Flor dos mistérios d'alma. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. noctâmbulo da Dor e da Saudade. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. Se evolarn castos. Voga a lua na etérea imensidade! Ela.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. P'ra desvendar os seus segredos santos. virginais aromas De essência estranha. toda a cálida Mística essência desse alampadário. se duas eu tivera. Eu. Ah! como a branca e merencórea lua. sacrossantos. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. que a virgem chora. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Derramam a urna dum perfume vário.

Tanto que gemes. Ali.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Choras.Quero partir em busca do Passado. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. sonhar novas idades. vindo de profundas fráguas. a lua é triste e calma. pompeia a luz da branca aurora. . chora um ocaso sepultado.. Quando alta noute. E vais aos poucos soluçando mágoas. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. e ilusões acordas. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Tanto que cantas. Teu canto. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Que desespero insano me apavora! Aqui.Quero Correr em busca do Futuro. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: .. bandolim do Fado. soluças. Um dia morto da Ilusão às bordas.

qual hóstia. Caíste morta ao celestial preceito.Foge. agora. e como Lúcia. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . grave e lenta. Fulgia a bruma para sempre. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. Tocando n'ara negra o níveo seio..ARA MALDITA Como um'ave. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. tu vinhas a cindir os ares. NA ETÉREA LIMPIDEZ. caindo dos altares. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. O céu tremia em seu trevoso flanco. cindindo os céus risonhos. O sol. Na etérea limpidez de um sonho branco. E eu vi os seios teus virem inconhos . Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. mas eis que neste enleio. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. também ria! 99 . à voz de Lúcia.. E. E beijei-te.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. E eu quis beijar-te o lábio redolente. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. alegre e rubro. Meiga. Quiseste-me beijar a ara do peito.

o círio Da Quimera Falaz. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . E. o túmulo da Crença. Mas. ante o branco estendal das madrugadas. eis que emerges.ei-lo que avisto. Longe das sombras aurorais e amadas. o Mundo se concentre. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. Agora. urnas de Sonho. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário.A colunata êxul do Sonho Morto . á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. a Virgem Mãe dos céus escampos. Flores mortas da Aurora. e. em bando. E a rasgar.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . luminosa. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. em banho ideal de amor te inundas. Sentes o peito em ânsias revoltadas. e. Nua. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . a rasgar o lúrido sacrário. ao ver-te nua. Que. Que beija a terra e que abençoa os campos. Diluis teu peito em sensações profundas. E a lua. E em mim como no Templo.

Todos dizem co'os olhos para a Sorte . como o sol . entre esplendores.O sol a segue. semeando a Morte. Colmado o seio de virentes flores. A alma diluída em eterais cismares. formosa entre as formosas. Etéreo como as Wilis vaporosas.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. Como o Cristo sagrado dos altares. . E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. formosa. tudo chora. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim...É o castigo de Deus que passa mudo! . e a Peste ri-se. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. tudo! Quando Ela passa. Embaladas no albor da adolescência. Quero-te assim .Fúlgido foco de escaldantes brasas . Plena de graça.. ela...A PESTE Filha da raiva de Jeová .. enquanto Vai devastando o coração das casas.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. 101 .

a teus pés.. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste.Irei agora. eis-me a teus pés.CÍTARA MÍSTICA Cantas.. . Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. Chegou a Noite. pois. pelo mundo. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. assim. Eu venho arrependido. Como o santo levita dos Martírios. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria.. perdoa o teu vencido. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 .. insânia.. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. meu anjo. o meu Sonho morreu! Perdão.. Açucena de Deus. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios .Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. ah! ninguém me responde. E para mim.. penseroso e pasmo. insânia... lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido.. pátria da Aurora exilada do Sonho! .

sem Calvário.. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço..Amor que é mirra e que é sagrado nardo.. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. Em ânsia de repouso. Onde nunca gemeu o humano passo. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. Da Messalina fria no regaço. Turificando a languidez dum seio! O amor. Banhou-me o peito. Mas. supremos.. . no Inferno do Gozo.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. porém. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. Por um Cocito ardente e luxurioso. e. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. que da Desgraça veio Maldito seja.

ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. desvalida e nua! E o olhar perdi. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância.. eu vi.SOMBRA IMORTAL .E tu velas.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. E vi-te triste. E estavas morta.. eu que te almejo. estes dardos acúleos Caíam... num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. mulher. e a saudade da infância. também da Dor... nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. lá dos braços hercúleos.. a sós. . O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. Sombra de gelo que me apaga a febre. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. Como um'alma de mãe..... Ah! que um dia da Vida. a noute é tumbal.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. . Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua..

chegando. Alvorejando em arrebol de prata.. Somente tristes os teus olhos vejo. ajoelhando à imagem do Carinho.. no negror me abrasa. E um canto vai morrer no vale fundo.. Que luz é esta que das brumas vasa. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Choras. e.. Alva d'aurora. te acolheu a mata. virginal. Que canto é este.. Uma pantera foi se ajoelhando. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. inata! E. Branca bem como empalecido arminho.. Bendita a Santa do Carinho.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. Pérolas e ouro pela serrania. e é noute de fatais abrolhos. tu. O roble altivo entreteceu4e um ninho.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. Chegaste.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . entanto. e no Santo harpejo. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho.. profundo?! Rumores santos... o seio branco. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.

. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Triste como um soluço de Dalila. Já Vésper. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa.. mórbidos encantos. no Alto. Qual rosa branca que ao tufão vacila. e lânguida. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas.. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. Fria como um crepúsculo da Judéia. 106 ..PELO MUNDO Ânsias que pungem. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos.

os gaturamos Num recesso de névoa..Fogo sagrado nos festins da Morte ..o voltairesco clown . adormecida. sonolento e tardo.Eterno fogo. Riso. clown da Sorte . que ao frio alvor da Mágoa Humana.A hora dos tristes e dos descontentes.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos.quem mede-o?! . coração. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. e a todo o seu assédio. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Na Via-Látea fria do Nirvana. QUERIDA! Vamos. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. querida! Já é Ave-Maria .O RISO "Ri.. Silfos morriam. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .Ele. No ar.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. A incandescência irial dos candelabros. Os ventos.. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão... batendo em todas as retinas. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . Surge agora a Lua..) Chove. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. O dia Foge. Saio de casa. Os passos mal seguros Trêmulo movo. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros.. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. LÁ FORA. Vibra. De encontro ás torres e de encontro aos muros. Negro. mas meus movimentos Susto. E em meio ás refrações verdes e hialinas. vão bater. NOTURNO (CHOVE. violentos.. Desencadeados. diante do vulto dos conventos.

.. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. poetas. Já que perdi a última batalha! E. enquanto o Tédio a carne me trabalha. Que há muito tempo não cantava lá.... Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. Diluiu o silêncio em litanias. verão. . outono.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. os vermes vis. Primavera...Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. inverno! 113 . E hoje.

. Ela. abraçado às campas dos poetas. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora.A DOR Chama-se a Dor. E se cantar como a Saudade canta. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra.. enxuta A face. enxuto o olhar. ao noturno açoute. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. Aqui é o Campo-Santo.. ela. inda altiva. e o travo há de sentir. Carpem na sombra pássaros ascetas. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra.pássaros da Noute! 114 . Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. Gemem poetas . e quando passa. Pare chorando nesta Terra Santa. onde.

no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. surjam tédios na Descrença. Vence. a crença e o amor. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . eu penso na Ventura! E o pensamento. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. Luta. e morrem os vermes que o consomem. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. assomem Descrenças. na Suprema Altura Sinto. nada há que o abata e o vença! Por isso. o sonho.O SONHO. poeta. e por fim. A CRENÇA E O AMOR O sonho.

Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo.. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. Feito no decurso de dois minutos. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E.PARA QUEM TEM NA VIDA.. profundo.. nada achaste.. e.. Tesouros reais. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . auríferos tesouros. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. por fim.. para penetrar o mistério das lousas. por fim.Construíste de ilusões um mundo diferente.. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. estudares. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. pois. De que te serviu.. Foi-te mister sondar a substância das cousas .

São dois colossos.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda.. ela subiu.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . dois gigantes mudos. . Embora oculta. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te.. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.. . Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido.. no entanto.O NEGRO Oh! Negro. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra .. em ânsias. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze.

foram buscar a Glória E que. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Implora a Deus como a um fetiche vago. . Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . ver Se nesta ânsia suprema de beber.. Saiu. na atra estrada que trilhei. Buscava Em verdes nuanças de miragens.Novo Sileno. como eu.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. ira-o morrer também. .. O Sol ardia.. Mas eu não contarei nunca a ninguém.Se ao menos voasse! .Era o suplício!. Quantos também.. Nisto.. ela seria morta. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. quantos também deixei. como eu.Quer fugir. Daí a pouco.. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. ouve o canto aziago da coruja! .E o horror começa! Rasga As vestes. e não vê por onde fuja. Trás de mim. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que... uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 .

Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas.. ele a morrer.Foi saudade? Foi dor? . Assim como uma casa abandonada. Sei que na infância nunca tive auroras.. E afora disto..Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. de repente.. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. a alma serena. Olha essa neve pura! ." Pau d'Arco -1905 119 ..Aqui ainda havia alguma cousa. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes.. diz ao povo: "É pena! . Mas. vivia. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade..SENECTUDE PRECOCE Envelheci.. pressentindo a lousa.. Por isso.. Não há quem nele um só tremor denote! . E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste.Continua a cantar.

. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. E. diz que ele é vivo.... persuadido fica do que diz.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. Diz que ele não morreu. o vulto ia a meu lado E desde então.. em Tebas . Não mentes. Bem como tu. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado.. .. A múmia de um herói do tempo de Ísis. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim.a tumbal cidade. Para onde eu ia. Da tribo alegre que povoa os ares. inda com o braço altivo. Dizes Tudo que sentes. não andei mais sozinho! Abraçou-me.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz.. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. E eu me elevava.

E. morrer.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe... A percorrer desertos e desertos.. amigos. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. pois. Nada se altere em sua marcha infinda . de saudades me despedaçando De novo.. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. Existo! .E apesar disto. antes de viver! Meu corpo. triste e sem cantar. assim como o de Jesus Cristo. assim. Saiu aos tombos. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me.. onde. aos tropeços. à tarde. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. ia. A lua continue sempre a nascer! 121 . quando Eu. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. Por toda a parte.. com medo do Infinito.O tamarindo reverdeça ainda. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. como um cão covarde. Teve sede e fome. assombrado.

. . Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.A LÁGRIMA . porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.. Ah! Basta isto.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. água e albumina.O farmacêutico me obtemperou. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .

. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. Do cosmopolitismo das moneras. E é de mim que decorrem. Amarguradamente se me antolha.. Como um dorso de azêmola passiva. À luz do americano plenilúnio..OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Amo o esterco. Larva de caos telúrico. ampla. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. 123 . vibra A alma dos movimentos rotatórios. possuo uma arma -. Pólipo de recônditas reentrâncias. A podridão me serve de Evangelho.O metafisicismo de Abidarma -E trago. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. sem bramânicas tesouras.. sem dispêndio algum de vírus. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Não conheço o acidente da Senectus -... simultâneas. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana.Esta universitária sanguessuga Que produz. Em minha ignota mônada.

causa ubíqua de gozo. em síntese. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Aí vem sujo. iguais a fogos passageiros. magnetismo misterioso. já nos últimos momentos. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. Ao clarão tropical da luz danada. O horror dessa mecânica nefasta. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. Quimiotaxia. E apenas encontrou na idéia gasta. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. Fonte de repulsões e de prazeres. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. a coçar chagas plebéias. Que. Raio X. ondulação aérea. o Homem. Sonoridade potencial dos seres. 124 . a boca. bestas agrestes. O espólio dos seus dedos peçonhentos.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. luzem. -. amanhã. quebrando estéreis normas. Com a cara hirta. O coração. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. Como quem se submete a uma charqueada. A vida fenomênica das Formas. abdômen.

Uivando. em lúbricos arroubos. E após tantas vigílias. em suas clélulas vilíssimas. Sôfrego. Brancas bacantes bêbadas o beijam.. E explode. pelos cenóbios?!. Numa glutonaria hedionda. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. Como que.. o monstro as vítimas aguarda. consumir-se. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. ébrio de vício. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. E até os membros da família engulham. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. No sombrio bazer domeretrício. Toda a sensualidade da simbiose.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. 125 . Como no babilônico sansara . Do seu zooplasma ofídico resulta. No horror de sua anômala nevrose. Negra paixão congênita. fazendo um s. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece.. Sentindo o odor das carnações abstêmias.. brincam. À guisa de um faquir. bastarda.. Suas artérias hírcicas latejam.. vai gozar. à noite.. igual à luz que o ar acomete. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. Num suicídio graduado.. E à noite.

Macbeths da patológica vigília. Reconhecendo. E de su’alma na caverna escura. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. As alucinações tácteis pululam.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. Essa necessidade de horroroso. Hirto. Fazendo ultra-epiléticos esforços.. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Abranda as rochas rígidas. Na própria ânsia dionísica do gozo. Mostrando. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna.. em rembrandtescas telas várias. Somente a Arte. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. A asa negra das moscas o horroriza. com os candeeiros apagados. Sente que megatérios o estrangulam. bêbedo de sono. esculpindo a humana mágoa. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Que tateando nas tênebras. observa a ciência crua. se estende Dentro da noite má.. Assim também. Quando o prazer barbaramente a ataca. A família alarmada dos remorsos. Acorda. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 .. quando a noite avança. Mas muitas vezes. Numa coreografia de danados.

Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. até que minha efêmera cabeça. sem que. Executando. entanto.E reduz.O homicídio nas vielas mais escuras. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra.. -. Há-de ferir-me as auditivas portas. a desintegre. Prostituído talvez. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. em suas bases. Era a canção da Natureza exausta. Continua o martírio das criaturas: -. -. ouvindo estes vocábulos.. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . À condição de uma planície alegre. Na produção do sangue humano imenso.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Julgava ouvir monótonas corujas. entre daveiras sujas. E. Da luz da lua aos pálidos venábulos. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo.

no apogeu da fúria.. exposto ao luar.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. Convulso e roto.. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. discutindo. Apenas como um velho stradivário.. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Resplandece a celeste superfície. O céu claro e produndo Fulgura. Num quiosque em festa alegre turba grita. conversando. Dorme soturna a natureza sábia. na mais próxima planície. Vaga no espaço um silfo solitário.. Tonto do vinho..Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . A Lua cheia Está sinistra. das pirâmides o quedo E atro perfil. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia.. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. um saltimbanco da Ásia. Os mastins negros vão ladrando à lua. O Cairo é de uma formosura arcaica. A rua é triste. Embaixo. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica.

a irritar-me os globos oculares.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Copiava a polidez de um crânio alvo. atro e vidrento. A matilha espantada dos instintos! Era como se. com a boca aberta. 129 . na alma da cidade. Pensava no Destino. parodiando saraus cínicos. Profundamente lúbrica e revolta. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. E aprofundando o raciocínio obscuro. O calçamento Sáxeo. de asfalto rijo. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia.. Assombrado com a minha sombra magra. Fazendo à noite os homens do Futuro. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. então. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Mostrando as carnes.. Mas. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Lembro-me bem. Ponte Buarque de Macedo. A ponte era comprida. à luz de áureos reflexos. Eu. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Uivava dentro do eu . E a minha sombra enorme enchia a ponte. O trabalho genésico dos sexos. Dançavam. indo em direção à casa do Agra. Atravessando uma estação deserta. Eu vi. Livres de microscópios e escalpelos.

Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. Ah! Com certeza. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. 130 . Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. No ardor desta letal tórrida zona. ainda na placenta. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse.Fetos magros. Ninguém compreendia o meu soluço. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. pelo menos. Deus me castigava! Por toda a parte. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. como um réu confesso. É bem possível que eu umdia cegue. na ígnea crosta do Cruzeiro. E.

Que eu. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. para não cuspir por toda a parte. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. 131 . Que.E até ao fim. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. ansiado e contrafeito. à guisa de ácido resíduo. Arrebatada pelos aneurismas. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Na ascensão barométrica da calma. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Benditas sejam todas essas glândulas. Eu bem sabia. estranha. Ia engolindo. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. cinco. quatro. Sob a forma de mínimas camândulas. quotidianamente. aos poucos. em minha boca. Não! Não era o meu cuspo. três. cujas caudais meus beiços regam. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. de tal arte.

Imitando o barulho dos engasgos. então. Siva e Arimã. E o luar. ali posto De propósito. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Perpetravam-se os atos mais funestos. estava ali. Um sugestionador olho. Vai pela escuridão pensando crimes. lembrava ante o meu rosto. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Mas um lampião. maior talvez que Vinci. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Buscando uma taverna que os açoite. À anatomia mínima da caspa. Com a força visualística do lince. de certo.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Iluminava. a espiar-me. da cor de um doente de icterícia. A companhia dos ladrões da noite. Livres do acre fedor das carnes mortas. Ninguém. os duendes. com as brancas tíbias tortas. sem pudicícia. para hipnotizar-me! Em tudo. A camisa vermelha dos incestos. Davam pancadas no adro das igrejas. a rir. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. Rodopiavam. o In e os trasgos. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Nessa hora de monólogos sublimes.

Todos os personagens da tragédia. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. distingo-a. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. A pedra dura. 133 . Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. em que.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Como bolhas febris de água. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Cansados de viver na paz de Buda. e vence-O. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. E a palavra embrulhar-se na laringe. E o meu sonho crescia nosilâncio.

E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. Iam depois dormir nos lupanares Onde. Um conjunto de gosmas amarelas. na dor forte do vômito. Como um bicho inferior. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. sobre o meu caso Vi que.A planta que a canícula ígnea torra. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. 134 . Os bêbedos alvares que me olhavam. E apesar de já não ser assim tão tarde. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. Aquela humanidade parasita. na glória da concupiscência. Fabricavam destarte os bastodermas. a sós. berrava. aflita. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. igual a um amniota subterrâneo. No meu temperamento de covarde! Mas. refletindo.

. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. o eco particular do meu Destino.e. ponto final da última cena. 135 . Minha filosofia te repele. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. nas catedrais mais ricas.Prostituição ou outro qualquer nome. num fundo de caverna. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. embora o homem te aceite. Rolam sem eficácia os amuletos. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. Nessas perquisições que não têm pausa. em tudo imerso. como um cordão. tal qual. Fazer da parte abstrada do Universo. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. numa ânsia rara. Reboou.. pior que o remorso do assassino. Ao pensar nas pessoas que perdera. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Forma difusa da matéria embele. por tua causa. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. a morte é ingrata. Numa impressionadora voz interna.

E se. por vezes. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. fora Mister que. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. para que a Dor perscrutes. magro homem. Mesmo ainda assim. não como és. em síntese. antes Fosses. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. 136 . estriada. espirra. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. a refletir teus semelhantes. sondas A estéril terra. Trazes. A formação molecular da mirra. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga.Jamais. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. o cordeiro simbólico da Páscoa. e a hialina lâmpada oca. se divide. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. com a bronca enxada árdega.

à espera que a mansa vítima o entre.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. Como uma pincelada rembrandtesca.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. As pálpebras inchadas na vigília. Lembram paióis de pólvora explodindo. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. Que ainda degrada os povos hotentotes. O achatamento ignóbil das cabeças. as nódoas mais espessas. abalando os solos. O fogão apagado de uma casa. As aves moças que perderam a asa. A cristalização da massa térrea. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. Na sangueira concreta dos massacres. sem mortalha. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. O Amor e a Fome. Os terremotos que. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. 137 . Deixa os homens deitados. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. As projeções flamívomas que ofuscam. O antagonismo de Tífon e Osíris. Onde morreu o chefe da família. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. A mentira meteórica do arco-íris. O tecido da roupa que se gasta. -. a fera ultriz que o fojo Entra.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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Criando as superstições de minha terra.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. Em cuja álgida unção. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. como as ervas. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. a ameixa. No Alto. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. em quaisquer horas. Meu ser estacionava. alto e hórrido. magnânima e magnífica. 143 . Apenas eu compreendo. o urro Reboava. a amêndoa. de errante rio. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. sobre as hortas. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. branda e beatífica. olhando os campos Circunjacentes. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. satisfeito. A Paraíba indígena se lava! A manga. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. a abóbora. Benigna água. Além jazia os pés da serra.

Alucinado. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. O ruído de uma tosse hereditária. entre estrépitos e estouros. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Vômitos impregnados de ptialina. a existência Numa bacia autômata de barro. Um português cansado e incompreensível. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Cortanto as raízes do último vocábulo. dores não recebem. Estas não cospem sangue. aos bocados. 144 . os micróbios assanhados Passearem. Restos repugnantíssimos de bílis. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. Adivinhando o frio que há nas lousas. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. como inúmeros soldados.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. OH! desespero das pessoas tísicas. Reboando pelos séculos vindouros.

onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. Saía. hoje. É a alfândega. A mágoa gaguejada de um cretino. Consoante a minha concepção vesânica. Onde a Resignação os braços cruza. com o vexame de uma fusa. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. a água. com efeito. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Nos ardores danados da febre hética. me acorda. Pelas algentes Ruas. magras mulheres. naquele instante. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. em sonhos mórbidos. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. no Amazonas.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. 145 . como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. resfriando-vos o rosto. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes.

tendo o horror no rosto impresso.. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. Viu toda a podridão de sua raça. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . Ah! Tudo. Jazem. sem difíceis nuanças dúbias. A carcaça esquecida de um selvagem.. por fim. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. acordando na desgraça. como um lúgubre ciclone. diante a xantocróide raça loura. caladas. todas as inúbias. Recebeu.Fedia. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. A civilização entrou na taba Em que ele estava. adstrito à étnica escória. E agora. Na tumba de Iracema!. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. De repente.. Desterrado na sua própria terra. espantada. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. 146 .. entregue a vísceras glutonas. Com uma clarividência aterradora. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra.

E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. roído pelos medos. 147 .: o homem e o ofídio. E eu. Todos os vocativos dos blasfemos. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Maldiziam. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. A peçonha inicial de onde nascemos. rolando sobre o lixo. No horror daquela noite monstruosa. ex. com voz estentorosa.

Consubstanciar-me todo com a imundície. às vezes. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. perante a cova. Sem diferenciação de espécie alguma. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Reduzido à plastídula homogênea. Tentava. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. em suma.E. por epigênese. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Anelava ficar um dia. na terráquea superfície. Eu voltarei. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. cansado. como Cristo. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. como um homem doido que se enforca. porém. 148 . veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. o anelo instável De. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável.

. Nem tínheis. Se extenuavam nas camas. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. Quase que escangalhada pelo vício. alva.. 149 . análoga era. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. e. quando o éreis. ignóbil.. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. e as mãos. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. Estendestes ao mundo. Mas. De certo.. virgem fostes. a saraiva Caindo. para além. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. doentes de hematúria. vítima última da insânia. à-toa.. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. até que. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. As prostitutas. Uma. com violência. no horizonte. Acordavam os bairros da luxúria. agora. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. entre oscilantes chamas.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. derreada de cansaço.. embalde.

eu. A racionalidade dessa mosca. 150 . no chão frio da igreja. argots e aljâmias. E hoje.De vós o mundo é farto. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. inquieto. que a sociedade vos enxota. Sentia. A consciência terrível desse inseto! Regougando. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. Eu pensava nas coisas que perecem. na craniana caixa tosca. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. porém. E estais velha! -. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. Como uma associação de monopólio. Como quem nada encontra que o perturbe.

Mas. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. À falta idiossincrásica de escrúpulo. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. Vem para aqui. nesta hora. assim inchado. O ar ambiente cheirava a ácido acético. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. estriges voam. Quanta gente.A estática fatal das paixões cegas. com o ar de quem empesta. nos braços de um canalha 151 . uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. O fácies do morfético assombrava! -. E o cemitério. Apareceu. sobre a palha espessa. como Ugolino. Pela degradação dos que o povoam. de repente. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. em que eu entrei adrede. Absorvia com gáudio absinto. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. escorraçando a festa. Sem ter. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas.Aquilo era uma negra eucaristia. após baixar ao caos budista. palpável. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. E a ébria turba que escaras sujas masca. roubada à humana coorte Morre de fome. Rugindo fundamente nos neurônios. Já podre.

transgredindo a igualitária regra Da Natureza. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. a alma aos arrancos. Comendo carne humana. iguais a irmãs de caridade. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Ao pegar num milhão de miolos gastos. entre fardos. Na impaciência do estômago vazio. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Num prato de hospital. cheio de vermes. ao clarão de alguns archotes. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Todos os meus cabelos se arrepiaram. a camisa suada. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Vendo passar com as túnicas obscuras.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Pisando. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. À sodomia indigna dos moscardos. como quem salta.

No frio matador das madrugadas. Dentro da filogênese moderna. O benefício de uma cova fresca. após a noite de seis meses. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Como o íncola do pólo ártico. trazendo-me ao sol claro. E eis-me a absorver a luz de fora. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. De quem possui um sol dentro de casa. Absorve. às vezes. Uma sobrevivência de Sidarta. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. déspota e sem normas. em vez de hiena ou lagarta. Proporcionando-me o prazer inédito. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava.Como indenização dos meus serviços. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. Manhã. Os raios caloríficos da aurora.

Igual a um parto. com um prazer secreto.. Hirto de espanto. oh! Morte. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. entanto. corre. tudo a extenuar-se Estava. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro.. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . com os pés atolados no Nirvana. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. em vão teu ódio exerces! Mas. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte.. em colônias fluídas. Eu sentia nascer-me n’alma.. O ar que. A gestação daquele grande feto. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. Vinha da original treva noturna. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. a meu ver. O Espaço abstrato que não morre Cansara. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. numa furna. Acompanhava.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. o vagido de uma outra Humanidade! E eu.

Rodeado pelas moscas repugnantes. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. Apenas com uma diferença triste. têm carne.. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Coisa hedionda! Corro. não existes mais! 155 .À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. amigo. como eu. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Antegozando a ensangüentada presa. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. E agora. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Como! E pois que a Razão me não reprime.. bela como um brinco... com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. Ai! Como Os que. É a hora De comer.

Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. que te esgotou as pomas. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo.. haurindo amplo deleite. Clara. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. Relembrarás chorando o que eu te disse. E o antigo leão. nas vitrinas. O Sol virá das épocas sadias. oh! Mãe. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. entre dores. sujo de sangue. Assim. comparo.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. Há de crescer. um novo Ser. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . sem pretensões.. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. à amostra. quanto a mim. No lábio róseo a grande teta farta -.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. a atmosfera se encherá de aromas. Do que essa pequenina sanguessuga.

haurindo o tépido ar sereno. nos fortes fulcros. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. mordendo glabros talos. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Por causa disto. numa ininterrupta Adesão. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. as tesouras Brônzeas. também gira e redemoinham.. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. Tais quais. Magro. Beber a acre e estagnada água do charco. roendo a substância córnea de unha. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Os pães -. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 .GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. maior do que Laplace.. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. eu vivo pelos matos.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. com que guarda meus sapatos.

Úmido. Dorme num leito de feridas. cheio de chamusco. apalpa a úlcera cancerosa. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. goza O lodo. Beija a peçonha. Com a flexibilidade de um molusco. Subtraída à hediondez de ínfimo casco.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . E eu vou andando. no agudo grau da última crise. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja.

Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . Nos terrenos baixos. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. O ar cheira.. depois de morrer. Os ventos vagabundos batem. bolem Nas árvores.. Em grandes semicírculos aduncos. De árvore em árvore e de galho em galho. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. Com a rapidez duma semicolcheia. depois de tanta Tristeza. salta. largando pêlos. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. queime. No chão coleia a lagartixa.Augusto . em vez do nome -. pelo ar.. fustigue. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas..E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda.. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. no árdego trabalho. morda!. A terra cheira. Ladra furiosa a tribo dos podengos. Entrançados. Eu.. quero. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. corte. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto.

À dura luz do sol resplandecente. em vez de flores. Quantas flores! Agora. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Por saibros e por cem côncavos vales. como exóticos pintores. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. outrora. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Aqui. Na bruta dispersão de vítreos cacos. Como um anel enorme de aliança. Trôpega e antiga. Pintam caretas verdes nas taperas. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. sem conchego nobre. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Amontoadas em grossos feixes rijos. O aziago ar morto a morte Fede. As lagartixas. Como pela avenida das Mappales. Os musgos. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. batendo a cauda. Viveu. dos esconderijos. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. Urram os bois. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Une todas as coisas do Universo! 160 . Nédios.

Julgo ver este Espírito sublime. Que por vezes me absorve. com a misericórdia de um tijolo!. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. Grito. da mesma forma que o homem morre. arrebentando a horrenda calma. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo.. A lamparina quando falta o azeite Morre. Só. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. como quem raspa a sarna. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. à luz da consciência infame.. é o óbolo obscuro.. De pé. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. aqui. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir.. Súbito... À carbonização dos próprios ossos! 161 .E assim pensando. sem pai que me ame.

E a mulher.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. Com as mãos chagadas. à lua. espremendo os peitos. funcionária dos instintos. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. a âmbulas moles. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. em contorções sombrias. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. urna de ovos mortos. à luz do olhar protervo. Bramando. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Sente. através os meus sentidos. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. por fim. Entre farraparias e esplendores. ébria e lasciva. recebe. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. a arquivar credos desfeitos. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. aliando. hórridos uivos Na mesma esteira pública. como o estepe. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. O Vício estruge.. Ouvem-se os brados Da danação carnal.. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. Reduzidos. 162 . alta noite. Lúbrica. em coréas doudas. Espicaça-a a ignomínia. hirta. de cabelos ruivos.

em cada humana nebulosa... Ei-la. já morta essencialmente. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos.. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. E a Carne que. Na óptica abreviatura de um reflexo. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente.Chão de onde unia só planta não rebenta. E a dor profunda da incapacidade Que. filha do inferno... bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala.. de bruços. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. É o hino Da matéria incapaz.. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. Fulgia. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 ..

. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias.O atavismo das raças sibaritas. momentaneamente luz fecunda. Numa cenografia de diorama. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Irradiava-se-lhe. Pudera progredir. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Que. Saem da infância embrionária e erguem-se. rubros.. sonhos de culminância.. Mas que. hírcica. adstrito a inferior plasma inconsútil.. e a estraga Na delinqüência . ânsia De perfeição. decerto.. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas.. impune. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. talvez... Como o .. Ficou rolando. radiando.... Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. adultos. Na homofagia hedionda que o consome. Libertos da ancestral modorra calma. como aborto inútil.. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 ..

.. Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto... condenada........... .................................................................... .................................Sugando a seiva da árvore a que se une! ..................................................................... ....................................................... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E............................................................ ............................................................................ Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos................................. ........................... ........... ............... .... Mordeu-lhe a boca e o rosto....... oca........................ 165 . ..... ............................................................................................................................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia.......................... ao trágico ditame...... ................................................................................

oposto a mim. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. atenta a orelha cauta. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. enfim. chupo-a. conheço o seu conteúdo. Como Mársias -. consoante o qual. Quis saber que era o amor. eu que idolatro o estudo. É assim como o ar que a gente pega e cuida. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Imponderabilíssima e impalpável. o observas. A toda a boca que o não prova engana. Oposto ideal ao meu ideal conservas. Cuida. provo-a. Porque o amor..VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. o egoísta amor este é que acinte Amas. Para que. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. Integralmente desfibrado e mole. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. observo o amor. do egoísta Modo de ver. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. entretanto. é substância fluida.. E hoje que. pois. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . amo Mas certo. por experiência. É Espírito. ilusão treda! O amor. poeta. Descasco-a.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. este o amor não é que. enfim. tal como eu o estou amando. Pudera eu ter. o ponto outro de vista Consoante o qual. é como a cana azeda. Diverso é. é éter. em ânsias.

contra ele. E só. com o seu grande grito. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. olhando o céu que além se expande: ". opresso.A maldade do mundo é muito grande. 167 .. trágico e maldito. a tumbal janela E diz. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos.. os monstros zombeteiros. depois disso. no quadrilátero da alcova. Sem ter uma alma só que me idolatre. Trabalharei assim dias inteiros. trabalhar contente. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente.. abre.. Como Vulcano. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Que importa que. em ânsias. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito.. Entendi. que devia. ..A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto.

Sobre a cidade geme a chuva. Batem-lhe os nervos. sacudindo-o todo.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 .

É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. Cortanto o melanismo da epiderme. oh! céu. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. íntegra. sob os pés do orgulho humano. banhava minhas tíbias.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. E não haver quem. A essa hora. lhe entregue.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. E a cimalha minúscula das ervas. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. nas telúrias reservas. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. e erguia. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. 169 . Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. recebendo injúrias. O reino mineral americano Dormia.Dizia.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Que forma a coerência do ser vivo. por ver-vos. e absorve em cada viagem Minh’alma -. Como um cara. alto. Rua Direita. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. Recebiam os cuspos do desprezo. num canto de carro. Com os ligamentos glóticos precisos.

Onde minhas moléculas sofriam. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. o ancilóstomo. em diástoles de guerra. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. Pareciam talvez meu epitáfio. O vibrião. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. com a símplice sarcode. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. me pediam. Com a abundância de um geyser deletério.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . Mais tristes que as elegais de Propércio. com o ar horrível. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. Pela alta frieza intrínseca. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. úmida e fresca.

Em passo lento. Feras rompiam tolos e balseiros. Parou em frente da mesquita morta. funeral mesquita. o passo constrangendo. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . se desenrolava A esteira astral da retração etérea. .. Uma vez. dentro. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Súbito alguém. Era uma viúva. Eternamente aberta ao sol e à chuva. foi transpondo a porta. nos altares esboroados. Mochos vagavam como sentinelas. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. A Lua encheu o espaço sem limites E. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. e o olhar errante.Um vento frio começou gemendo.. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. ampla e brilhante.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. a viúva. E pelas catacumbas desprezadas.

por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. infernais ardendo Todas as feras. entanto. Como uma exposição de carnes vivas. Morria a noite. Além. E sobre o corpo da viúva exangue. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. arremetendo. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. Fora. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . contra ela. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . as panteras todas Avançam para a viúva desvalida.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. entretanto. E raivosas.

num enleio doce. quem diante duma cordilheira. Pára. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Da qual. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. entre assombros.. no meio. trêmulo. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos.. pela vez primeira. A saudade interior que há no meu peito. Atravessando os ares bruscamente... afetando a forma de um losango. Na ilha encantada de Cipango tombo. ao sol... tenho alucinações de toda a sorte. Verde. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. 173 ... ostentando amplo floral risonho. Assim. em luz perpétua. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Rica..A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. Qual num sonho arrebatado fosse. exata.. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. em plena podridão. brilha A árvore da perpétua maravilha.

. Banhei-me na água de risonhos lagos. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha.. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe.. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 .. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro... Passa o seu enterro!. A tarde morre. E finalmente me cobri de flores... Gozei numa hora séculos de afagos. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem.

de cima. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. Quem as esconda. outro cai. Espelham-se os esplendores Do céu. Vagueia um poeta num barco. outro se ergue e sonha. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores.globo de louça Surgiu. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 .. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco.. O Céu. nas Águas. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. em lúcido véu. Se um cai. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. as esconda. em reflexos. Vai uma onda. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. A Lua . esse vai Para o túmulo que o cobre.BARCAROLA Cantam nautas.

"Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis.. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. poeta da Morte!" . porém. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . forte.. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. "Mas nunca mais. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.. "Viajeiro da Extrema-Unção..E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo...

Manchar não pode as aras da República. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Da liberdade ao toque alvissareiro. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Vós.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. levando ao mundo inteiro. Não! que esse ideal puro. A República rola-lhe nos ombros. Oh! Liberdade. E ali do despotismo entre os escombros. Da República a nova sublimada. Caia do santuário lá da História. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. pois. Essa luz etereal bendita e calma. e. oh! Redentora d'alma. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. Fulgente do valor da vossa glória. . oh Pátria. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. fazei que destes brilhos. A Liberdade assoma majestosa. risonho. esplendorosa.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. Como um Tritão. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria.

A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. Aves de várias cores e de várias Espécies. desvairado. Além. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. Passa um rebanho de carneiros dóceis. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos.Mas hoje. Na área em que estou. nas oliveiras. Uma montanha que se desmorona.. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . O amor reduz-nos a uniformes placas. ao matinal assomo. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma.. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. E.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. vendo o horror dos meus destroços. 178 . à luz das minhas frases. Estremecendo em suas próprias bases. cantam óperas inteiras.

. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. E quando a Dor me dói.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. heroicamente. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. Da observação nos elevados montes Prefiro.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. demonstrando-a. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . ébria de fumo e de ópio. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. à nitidez real dos aspectos. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. Tal qual ela é. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. à frente dele. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. sinto um violento Rancor da Vida .. A inanidade da Ilusão demonstro Mas.

Vem cá. em sonhos erra. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . erra. Que o amor abriu no meu peito. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. Muito longe. De lá.CANTO ÍNTIMO Meu amor. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. dos grandes espaços. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. a esmo. olha estas feridas. se duvidas. em sonhos. Passo longos dias. Muito longe.

até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. uma nuvem que corre. o louco.. amor e frio. a sós. quanto mais me desespero. escuridão e eterna claridade. abraça a sombra e.. agonia. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. experimento O mais profundo e abalador atrito. Mas.Diz e morre-lhe a voz.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Frio que me assassina.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. prece que ainda Entre saudades rezo. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro.. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. Amor... triste. . Caminha e vai. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. Neve que me embala como um berço divino. neve. vendo-a.. Sem um domingo ao menos de repouso. e o sofrimento De minha mocidade. oração. murmura: . Agonia de amar. Numa prece de amor. Neve da minha dor. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . agonia. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. num volutuoso assomo. agonia! . Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Fazer parar a máquina do instinto. agonia bendita! .CANTO DE AGONIA Agonia de amor. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. numa delícia infinda.. Delícia que ainda gozo.. ontem.

. foi aos poucos se arrastando. Mas o braço cansou! Trabalhou.. Fez reboar pelo solo. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando.. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. a superfície bruta. E em tudo que o rodeava. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo.. funéreo 182 . oito vezes. e o trabalho . Por seis horas seu braço empenhado na luta. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. lúgubre e só. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. A terra escalda: é um forno. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. mordendo a atra terra infecunda. acende O pó. E o Velho veio para o labor cotidiano. Rasgando. Triste. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. do agro solo.

Caminhava.. o acalenta.o último esforço. bêbado de miragem. onde arde e floresce a Crença. louco. pois! Somente morreria Se da Vida.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito.. e compreendendo tudo.. o precipício estava.. a família! Não morreria. e a sonhar. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços.. tombando. flutua! Ninguém o vê. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. a flux d'água. E amplo. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. sozinho.. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. Nem viu que era chegado o termo da viagem. os filhos.. o cansaço Empolgara-o. e o braço Pendeu exangue. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. a rugir-lhe aos pés. avistando uma frondosa tília Julgou. avistar a Árvore da Esperança. ninguém o acalenta. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. a toa. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. Num instante viu tudo. o Velho caminhava. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . ele pisasse os trilhos. o peito arqueou-se. era a turba trovadora Que assim cantava. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor.. Quis fazer um esforço . enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver.

volaterizadas.ocaso nunca visto. E a Noite emerge. mudo. a Sombra . pompeiam (triste maldição!) .condensada treva A sombra desce. mudo.Asas de corvo pelo coração.. ígneo. E há no meu peito . sangrento O sol. Trazem no peito o branco das manhãs 184 .eis tudo! E no meu peito . Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. Subindo á majestade do Infinito.. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. . Na majestade dum condor bendito.. rubro. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada.. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. fulvos.. Atros. Raios flamejam e fuzilam ígneos.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. luminosas. Descem os nimbos. e..IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. dourando as névoas dos espaços. mudo. alvas. Negras. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. Além. aos astrais desígnios. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas.

185 .o Sol . se tornassem ferros?! IV Poeta. o tigre.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. se. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. assassino Ébrio de fogo. se. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. A alma se abate. a Aurora. Sírius me deslumbra.. em vão na luz do sol te inflamas. ontem moribundo. se erguer. Hoje de novo. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. de que serve. como se esses raios N'alma caindo. A Mágoa ferve e estua. e hás de ser após as chamas. em plena e fulva reverberação. III De novo. Ah! Como tu.hóstia da Aurora. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Como Herculanum foi após as chamas. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. em lodo tudo acaba. lodo.. o mastodonte. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. a lesma. há-de Alva. curvo ao seu destino. O leão. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. E corno a Aurora . ciclópico. Vésper me encanta. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. entre esplendores. Fantástico. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. como tombou outrora. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol.

. pelas penedias. Vésper me encanta.Arrasta as almas pela Escuridão. Pelos rochedos. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. sobe ao pedestal. E arrasta os coraç5es pela Descrença. a Lua que no céu se espalha.. pelas escarpas.. banha As serranias duma luz estranha. e.Fera rendida à música divina. Então. de ossos. pois poeta. como abutres Medonhos. Como recordação da festa diurna. um pedestal de tanta Treva e dor tanta.. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. Ergue. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. frias. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. onde. Medonhas valas.. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. e minh'alma cobre-se de flores . Iluminando as serranias. Sírius me deslumbra.. E foi deixando essas funéreas.. foi valas funerais deixando. Canto. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 .. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. de ilusões te nutres.

INSÔNIA Noite.. Mas. nos céus altos.. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . eu também vou passando Sonâmbulo. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo... sonâmbulo. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. 187 . Depois de embebedado deste vinho. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. em mágoa..Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. E invejo o sofrimento desta Santa.. sonâmbulo. triunfalmente.. A dispersão dos sonhos vagos reuno. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse..

porém. o funerário. hedionda. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. os corimbos. Com o olhar a verde periferia abarco. as flores. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Aqui. Agora. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato.Vagueio pela Noite decaída. Em que o Tédio. por exemplo. neste silêncio e neste mato. Estou alegre. Atro dragão da escura noite. equilibrando-se na esfera. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . Cercado destas árvores. em mágoa imerso. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. Recordam santos nos seus próprios nichos.. O Sol.... As árvores. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. batendo na alma. estronda Como um grande trovão extraordinário.

"Miniatura alegórica do chão. De onde. por outra. Risco-o Depois. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. síntese má da podridão.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . Mergulho. através ovóide e hialino Vidro. Presto. Dois são. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. certo. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . e na ínfima ânfora. harto. Olho-o. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. Olho-o ainda. os beiços na ânfora ínfima.Mucosa nojentíssima de pus. porque um. a esvaziar báquicos odres: . barro. amorfo e lúrido. irrupto. aparece. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. "Na tua clandestina e erma alma vasta. E o que depois fica e depois Resta é um ou. "Onde nenhuma lâmpada se acende. "Onde os ventres maternos ficam podres. ébrio. Todos os organismos são oriundos. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo."Cinza. é mais de um. por epigênese geral.

sozinho. em segredo. é o céu abscôndito do Nada. o que nele Morre. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero.Do mundo o mesmo inda e.. Vida. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. na terra instável. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . sois vós. muito alto. como nunca outro homem viu.. Na síntese acrobática de um salto. sou eu. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. Então. que. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Move todos os meus nervos vibráteis. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. Sob a morfologia de um moinho. do meu espírito. Depois. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. Em que todos os seres se resolvem! 190 . Migalha de albumina semifluida. cósmico zero. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. dentre as tênebras. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. mônada vil. Se escapa. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. ora.

Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.. Adeus! Que eu veio enfim. E eis-me outro fósforo a riscar. De onde quimicamente tu derivas.. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.

. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. Sinos além bimbalham.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. 192 .. Amor. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . Cantas a Vida que sangrando matas. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. chora e se lamenta e vibra. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. medras Nalma de cada virgem. lembras. vezes. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. davas brandindo em seva e insana Fúria. Ora. Troa o conúbio dos amores velhos .ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. . tangendo tiorbas em volatas. Retroa o sino.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. E. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. E em tudo estruge a tua dúlia ..Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça .. .

Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. Irene. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. quando Entre estrias de estrelas. impassível! Esta de amor ode queixosa.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. aos astros.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. sonhei-a. Irene. e eis o motivo. Quedo. Eis o motivo porque fiz esta ode. Assim. beija os áureos pés dos ídolos. esse poder terrível. Entre timbales e anafis estrídulos. 193 .Essa dominação aterradora . Irene. ontem. . pois. fosforeando. Cativo.

bruta. berrar. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. Quase com febre. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. Trinta e seis graus à sombra. irritado. Inopinadamente 194 .NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. ao meio-dia. tinir. erguido do pó. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. Da qual. E eu nervoso. Dentro.

Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. afinal. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante.O ígneo jato vulcânico Que. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. A ouvir todo esse cosmos potencial. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. . Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia.

Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei.QUADRAS Embala-me em teus braços. Eu quero o meu Calvário . Embala-me em teus braços! 196 . Aperta-me em teu peito.. De lírios e boninas Um veludíneo leito. divina. Aperta-me em teu peito. oh! morena . De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. E dá-me assim. Morreu-te a redolência. Assim como Jesus. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. perdeste a ciência..

.. três. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me.ª-feira.. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. E aos tombos. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. Aumentam-se-me então os grandes medos. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste.. 6. quatro. em ânsias: .. A conta recomeço. através do vidro azul. Vista. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. Dói-me a cabeça. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! .Uma. e. 3 de maio. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra.Uma. No bruto horror que me arrebata. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E.. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. Tenho 300 quilos no epigastro. embora a lua o aclare. em suma. duas.. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .. quando a noite cresce. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha.

.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida .aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Mas aquilo mortalhas me recorda. Acho-me. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim.. Ponho o chapéu num gancho.. numa festa. A lua é morta. E o amontoamento dos lençóis desmancho.. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . . Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.. por exemplo.. Vêm-me á imaginação sonhos dementes. A luz fulge abundante 198 ."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Por muito tempo rolo no tapete. Tomba uma torre sobre a minha testa.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. Tal urna planta aquática submersa. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. .. O suor me ensopa. Súbito me ergo.. Meu tormento é infindo.. Cinco lençóis balançam numa corda..Sucede a uma tontura outra tontura. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela.

A ouvir. Vários reptis cortam os campos. radiante e estriado. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. hierática. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. a terra resfolega Estrumada. cheia de adubos. Côncavo. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. o céu. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 .E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. De mim diverso. Entretanto. no ato da entrega Do mato verde. longe do pão com que me nutres Nesta hora. numa última cobiça. feliz. Babujada por baixos beiços brutos. Broncos e feios. observa A universal criação. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. No húmus feraz. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. em diâmetro. passei o dia inquieto.

tentáculos sutis. às da neve. pituitárias Olfativas. vão cheirar.. Assinalados pelo mancinismo. a farpas de rochedo Completamente iguais. Mãos que adquiriram olhos. ás dos cristais. em sangue. negras. 200 .. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. Outras. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Monstruosíssimas mãos.. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis.. a delinqüentes natos. E à noite. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. Pertencentes talvez. Mãos adúlteras. Umas.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais.

No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. plangente. oh Quimera. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. E como um nume de pesar. Mas neste sonho. Guarda a saudade que levou do Mame. Rola a violeta santa dos teus olhos . de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . pálida camélia. langue e seminua. Opalescência trágica da lua! Tu. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda.a Carne. Pareces reviver a antiga Ofélia. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes.Tufos de goivo em conchas de esmeralda.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero... . Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Sonho abraçar-te.

Convulsionando Céus. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. análogo ao peã de márcios brados. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. na escuridão. enquanto eu tropeçava sobre os paus. E. num ruidoso borborinho Bruto. como num chão profundo.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. No desespero de não serem grandes! 202 . A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. era só O ocaso sistemático de pó. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. uivando hoffmânnicos dizeres. Choravam. Aprazia-me assim. com uma vela acesa... Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. com soluços quase humanos. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Eu procurava. O feto original. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Cruzes na estrada. Aves com frio. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres.

horrenda e monótona. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral.Vinha-me á boca. Maior que o olhar que perseguiu Caim. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. Fluía. Noite alta. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. vingadora. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. A abstinência e a luxúria. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. perdido no Cosmos. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Mas das árvores. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. ao colher simples gardênia. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. frias como lousas. Como o protesto de uma raça invicta. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. me tornara A assembléia belígera malsã. na ânsia dos párias. assim. uma voz 203 . de onde se vê o Homem de rastros. Brilhava. com a sidérica lanterna. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância.

Rimos. Para esconder-se nessa esfinge grande. tão profunda. a espiar enigmas. Se hoje. na ânsia cósmica. Não trabalham.. diante do Homem. amanhã píncaros galgas. isto é. entres Na química genésica dos ventres. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. oh! filho dos terráqueos limos. que.. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. choramos. montanha. Porque em todas as coisas. com a febre mais bravia. enquanto Deus. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. pois. obscuro.Tão grande. Nós. Tragicamente. Na prisão milenária dos subsolos. do Equador aos pólos. Para erguer. iceberg. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. ovário. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. Crânio. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. afinal. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. em suma. Rasgando avidamente o húmus malsão. árvore. arvoredos desterrados. porque.

A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . naquela noite de ânsia e inferno. desgraçadamente magro. Eu fora. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. A voz cavernosíssima de Deus. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. alheio ao mundanário ruído. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. a escalar Céus e apogeus. astro decrépito. em destroços. Eu. a erguer-me.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir.

armado de arcabuz. Para pintá-lo. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. pela boca. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. 206 . quero até rompê-las! Quero. As minhas roupas. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. no combate. rolando dos últimos degraus. em coalhos.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. E muitas vezes a agonia é tanta Que. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. Minh'alma sai agoniada.. entre estes monstros. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. Na ânsia incoercível de roubar a luz. Viver na luz dos astros imortais. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada.. arrancado das prisões carnais. é o prélio enorme.

. E tombe para sempre nessas lutas. a água que bebo. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. enfim. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. em suma. faz mal. é inútil. é improfícuo. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã.esta arca. E é tudo: o pão que como. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto... Seja este. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão.. A bênção matutina que recebo. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração .

Intimamente sei que não me iludo. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. em trajes pretos e amarelos. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. à meia-noite. Corro. Sai para assassinar o mundo inteiro.. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. Mas de repente. ouvindo um grande estrondo. e a mim pergunto.....POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. -. Então meu desvario se renova. estudo. abrindo todos os jazigos. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino..Faminta e atra mulher que. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. a 1 de Janeiro. come. A Morte.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. rio Sinistramente. Como que. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. sozinho. numa cova. na vertigem: -.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.

velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. e de declínio Em declínio. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma.. Perante a qual meus olhos se extasiam. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Deixa-te estar. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. desta cova escura.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio.. Por tua causa apodreci nas cruzes. que em mim dorme. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre... acorda em berros Acorda. Tu não és minha mãe. Amarrado no horror de tua rede. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. canalha. Quis ver o que era. Eu desafio. em grupos prosternados. e quando vi o que era.. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. Vi que era pó. Com as longas fardas rubras. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança.. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. e após gritar a última injúria. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . É Sexta-feira Santa. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. como a gula de uma fera. Como as estalactites da caverna.

Roma estremece! Além. e a gente. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa.Um esqueleto. somente eu. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. O vento entoa cânticos de morte.. As luzes funerais arquejam fracas. Como as chagas da morféia O medo. A árvore dorme Eu. Desperto. Na Eternidade. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. vendo-o.. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. quieta. Na molécula e no átomo. O céu dorme. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas.. Dentro da igreja de São Pedro. A desagregação da minha Idéia Aumenta. no ar de minha terra. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 .. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema.

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