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Augusto Dos Anjos - Obra Completa (Nao Esta Tao Completa Assim)

Augusto Dos Anjos - Obra Completa (Nao Esta Tao Completa Assim)

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Sections

  • O MORCEGO
  • PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
  • IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
  • SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO
  • VERSOS A UM CÃO
  • O DEUS-VERME
  • DEBAIXO DO TAMARINDO
  • BUDISMO MODERNO
  • SONHO DE UM MONISTA
  • MATER ORIGINALIS
  • O LUPANAR
  • IDEALISMO
  • ÚLTIMO CREDO
  • SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO
  • A UM CARNEIRO MORTO
  • VOZES DA MORTE
  • INSÂNIA DE UM SIMPLES
  • ASA DE CORVO
  • O MARTÍRIO DO ARTISTA
  • O MAR, A ESCADA E O HOMEM
  • RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ
  • A UM MASCARADO
  • VOZES DE UM TÚMULO
  • CONTRASTES
  • DEPOIS DA ORGIA
  • A ÁRVORE DA SERRA
  • VENCIDO
  • VANDALISMO
  • VERSOS ÍNTIMOS
  • VENCEDOR
  • ETERNA MÁGOA
  • O LAMENTO DAS COISAS
  • O MEU NIRVANA
  • CAPUT IMMORTALE
  • LOUVOR A UNIDADE
  • SUPREME CONVULSION
  • NATUREZA ÍNTIMA
  • A FLORESTA
  • GUERRA
  • ÚLTIMA VISIO
  • AOS MEUS FILHOS
  • O POETA DO HEDIONDO
  • A FOME E O AMOR
  • HOMO INFIMUS
  • MINHA FINALIDADE
  • NOLI ME TANGERE
  • O CANTO DOS PRESOS
  • VÍTIMA DO DUALISMO
  • AO LUAR
  • CANTO DA ONIPOTÊNCIA
  • ANSEIO (QUEM SOU EU...)
  • VERSOS A UM COVEIRO
  • TREVAS
  • AS MONTANHAS
  • APOCALIPSE
  • A NAU
  • O FIM DAS COISAS
  • A NOITE
  • A OBSESSÃO DO SANGUE
  • VOX VICTIMAE
  • AGONIA DE UM FILÓSOFO
  • O ÚLTIMO NÚMERO
  • SAUDADE
  • ABANDONADA
  • CETICISMO
  • OUVI, SENHORA
  • TRISTE REGRESSO
  • INFELIZ
  • N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS
  • NOIVADO
  • NO MEU PEITO ARDE
  • AMOR E RELIGIÃO
  • CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA
  • O COVEIRO
  • PECADORA
  • NO CLAUSTRO
  • IL TROVATORE
  • A LOUCA
  • PRIMAVERA
  • SENHORA, EU TRAJO O LUTO DO PASSADO
  • SOFREDORA
  • ECOS D’ALMA
  • AMOR E CRENÇA
  • ARIANA
  • TEMPOS IDOS
  • NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA
  • ADEUS, ADEUS, ADEUS! E, SUSPIRANDO
  • A AERONAVE
  • LIRIAL
  • A MINHA ESTRELA
  • A ESMOLA DE DULCE
  • AVE DOLOROSA
  • NIMBOS
  • O MAR
  • ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS...)
  • AURORA MORTA, FOGE!
  • NO CAMPO
  • CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA
  • CRAVO DE NOIVA
  • O BANDOLIM
  • ARA MALDITA
  • TREVA E LUZ
  • O TEMPLO DA DESCRENÇA
  • A PESTE
  • IDEAL
  • AFETOS
  • MARTÍRIO SUPREMO
  • SOMBRA IMORTAL
  • NOTURNO (PARA O VALE NOITAL..)
  • SEDUTORA
  • PELO MUNDO
  • E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA
  • O RISO
  • VAMOS, QUERIDA!
  • A UMA MÁRTIR
  • PELO MAR
  • PALLIDA LUNA
  • A MORTE DE VÊNUS
  • MÁRTIR DA FOME
  • SONHO DE AMOR
  • A ORGIA MATA A MOCIDADE
  • FESTIVAL
  • NOTURNO (CHOVE, LÁ FORA...)
  • E ELE MORREU
  • A DOR
  • O SONHO, A CRENÇA E O AMOR
  • MEDITANDO
  • PARA QUEM TEM NA VIDA
  • SONETO A FREDERICO NIETZCHE
  • O NEGRO
  • VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA
  • O ÉBRIO
  • O CANTO DA CORUJA
  • SENECTUDE PRECOCE
  • MYSTICA VISIO
  • NOME MALDITO
  • MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
  • UMA NOITE NO CAIRO
  • AS CISMAS DO DESTINO
  • A CARIDADE
  • OS DOENTES
  • À MESA
  • DUAS ESTROFES
  • MATER
  • GEMIDOS DE ARTE
  • A MERETRIZ
  • VERSOS DE AMOR

EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

Esta obra foi digitalizada, formatada, revisada e liberta das excludentes convenções do mercado pelo Coletivo Sabotagem. Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor.

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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............................... 168 Noite de um Visionário . 199 Tristezas de um Quarto Minguante ........................................ 197 Quadras .................................. 141 Os Doentes ........................................................ 180 Canto Íntimo ........................................................... 179 Estrofes Sentidas .. 170 A Vitória do Espírito . 156 Gemidos de Arte .......... 183 Gozo Insatisfeito .....................................128 As Cismas do Destino .....................................................................................................................................123 Uma noite no Cairo ........................................... 176 Ave Libertas ............................................................................ 155 Mater ............................... 175 Barcarola ............................................................... 205 Queixas Noturnas .................................. 190 Mistérios de um Fósforo ............................................... 129 A Caridade ....... 184 Idealizações .............................. 173 A Ilha de Cipango ...................... 166 A Luva ...............................................................................................................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .............................................................................. 157 A Meretriz ................... 183 História de Um Vencido ....................................................................... 162 Versos de Amor .......................................................................... 209 Poema Negro ........................... 204 Viagem de um Vencido ................................................. 155 Duas Estrofes ...................... 142 À Mesa .. 192 Ode ao Amor ............................................................. 186 Insônia ....................................................................... 200 Mãos ................................................................................................. 212 5 ................................................................................................. 203 Vênus Morta ........................................................... 195 Numa Forja ... 182 Canto de Agonia ......................

INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. Nessa tentativa de interpretação psicológica. poder conhecer a árvore pelo fruto. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. quando. entrava em crise espiritual. e era aí. não conhecemos sequer a nossa. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. isto é. Nalgum ponto. o eu fora do Eu. numa atitude de respeito e reflexão. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. Por conseguinte. 1962) 6 . desejosos de. no que há de mais sutil e imponderável. ed. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. nos moldes da velha orientação impressionista. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. ao menos. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Fazer o elogio do poeta. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. Gráfica Ouvidor. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. em suas mensagens de angústia. RJ. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. pois. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. senão em mais de um. Não me parece. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. Teria sido um neurótico para uns. paremos reverentes à porta do templo. Sua personalidade singular ali se projeta. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. nesse estado de superexcitação. na verdade. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. segundo as síndromes patológicas revelados. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. contudo. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. que é de todas a menos operante. É preciso. que o não convencia de todo. na chaga viva de sua consciência. compreendendo inclusive a estilística. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. Deste modo. um psicastênico para outros.

na classificação dos antropologistas do século passado. no final. o refinamento de suas faculdades morais. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. a de Nietzche. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. que já era constitucionalmente quase louca. repetindo conceitos. Assim como a mãe de Augusto. enfim. Ao que se sabe. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. por vezes controvertidos. Explica-se deste modo. a de Wilde. A mãe do poeta. a de Leopardi. sobretudo quando provém da linha materna. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. sestros. nas modalidades do caráter. da inteligência. por motivos vários. a de Byron. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . todo o seu temperamento emocional. com preocupações de grandeza e fidalguia. além mesmo da gravidez. Nietzche. sobre o seu caso clínico. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. causada pela perda imprevista de um irmão querido. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. enfim. caracterizado por uma sensibilidade doentia. Nem os que nasceram antes. como é do gosto da crítica científica. reduzir tudo a categorismo. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. nem os que vieram depois. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. Byron. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. Obviamente. a partir de Lombroso. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. que nada explica. estudante de medicina. Por seu parentesco espiritual. fobias. tiques nervosos. aos que se rebaixam para subir. não há negar também a dos psicológicos. Pai e irmãos passavam por normais. menos a de Byron. igualmente inteligentes. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. Juízo é coisa que todos julgam ter. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. não é possível interpretar a obra de um escritor. em relação com a casuística.for. E por curiosa coincidência. do sentimento. choques emocionais. Sem o concurso da causa primária. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. perturbou-a por muito tempo. aos que se acomodam. Isto posto. Augusto não era um homem igual aos outros. só ele dava a impressão de um desajustado. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. de fundo genético. tem sido Augusto comparado a Leopardi. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido.

Era de fato um excêntrico. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. que a metafísica estava morta. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. a rigor. com o título Eu e Outras Poesias. mas não era somente isso. a quietude da vida na província. cinco anos após a sua morte. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. conforme disse num soneto que não consta. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. sofregamente bebida nas academias.Augusto com a sua personalidade psicológica. O rapazinho de 16 anos. no último ano do século passado. A paisagem bucólica da várzea. Coelho Rodrigues. logo mais. aprendeu a ler e. sem afastar-se do lar. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. do Eu. segundo os primeiros retratos que temos dele. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. ao invés de um estudante bisonho. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. em sua linha tomista. Falava nele o positivista que. dr. Já em 1875. A par disso. os quais o acompanhariam. Nada de admirar. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. que lançou em 1919. para maior complicação de sua personalidade. Sílvio Romero. sofreu duros reveses. em contraste com a mocidade e a inteligência. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. mas no final 8 . até o túmulo. Muito cedo. guiado apenas pela ilustração paterna. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. cuja vida corria sem obstáculos. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. como uma fatalidade. Com seu pai. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. estavam a fazer dele um lírico. em Monólogos de uma Sombra. em prefácio à segunda edição do Eu. saído da roça. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. para aprazimento intelectual das elites. o seu tipo de pássaro molhado. bradava para o conceituado mestre que o argüia. como expressão do pensamento nacional. evolvia para o evolucionismo de Speneer. Logo mais. na várzea do Paraíba. inspirado na natureza e no amor. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Deste modo. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. visto ter nascido poeta. O que há de singular nele não é. a sua própria vida sem problemas. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. Alexandre dos Anjos. em 1900. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. era um introvertido. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900.

com a evolução da matéria e do espírito. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Martins Júnior. por ver em tudo isso hipóteses visionárias.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. já no seu ocaso. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. firmava-se o conceito. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. já lidos nos filósofos da natureza. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. ficava a escutar os companheiros. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. proceda ou não proceda. os intelectuais mais dotados. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Os menos letrados. se o diabo é tão feio como o pintam. Esquisitão que era. Desta forma. isto é. O beatério era o último reduto do catolicismo. aliás. introduziu entre nós a poesia científica. de onde saiu formado em 1907. Augusto pouco falava. o pensamento ao longe. confundidas ambas na unidade cósmica. emancipou-se dela intelectualmente. que só cuidava de preocupações teológicas. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. tentou o milagre de 9 . como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. mas a origem simiesca do homem. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. faziam praça de livres pensadores. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. Embora educado na religião católica. a velha Escolástica. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. Nas rodas que se faziam na Paraíba. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. Ao que parece. conciliada. a exemplo de Victor Hugo. Laurindo Leão. Ainda na fase preparatória de estudos. Comte passou. Desses embates. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. que. nas concepções filosóficas de seus poemas. aliás bem pouco lisonjeiro. em sua. Até no Piauí. adepto do positivismo. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. em seu livro Frases e Notas. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. Na Paraíba. dupla feição de filósofo e de poeta. de que católico era sinônimo de burro. desde Haller. um século antes de Hugo. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. como uma velharia do século. José Américo de Almeida. como toda substância animada. está sujeita também ao processo da evolução. entre o mundo da forma e o mundo da razão. ou mesmo. Aliás. suportou a mais dura crise. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. Por todo o Nordeste. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola.

poema que abre o Eu e Outras Poesias. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos.. identifica-se na substância primeva. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. A partir da monera. O aspecto conceptual do poema. E é de mim que decorrem.. na larva que procede do caos telúrico. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. Em minha ignota mônada. a consciência 10 . Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Venho de outras eras. 186 versos. numa caminhada de 31 estâncias. Encontra-se. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. fundado na unidade cósmica. Integrado na sociedade. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. simultâneas.. Vejamos. e—crente no tema. A simbiose das coisas me equilibra. ampla. que é a derrota da humanidade. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. todavia. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Rimbaud escrevera Bateau ivre. A saúde das forças subterrâneas. depois de infinitas transformações. Aos 17 anos. Da substância de todas as substâncias. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. chega aos seres mais complexos. sempre a evoluir em movimentos rotatórios.. naquela mesma idade em que. como amostra. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. nas duas composições uma coincidência de temas. incomparável na forma musicada. começa então o drama crucial da consciência.reduzir a um campo único a ciência e a arte. por força das sucessivas mutações da matéria. E assim continua. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. como bem observa Cavalcanti Proença. enfim. Pólipo de recônditas reentrâncias. terso na linguagem. Não sofre apenas a sua dor. Larva do caos telúrico. Quem já o leu uma vez. “esse mineiro doido das origens”. já diferenciado na mônada. que passou do reino vegetal para o animal. já desiludido. Do cosmopolitismo das moneras. ora transfigurado em filósofo moderno. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Não há. até adquirir a forma humana. facilmente o identifica. É a sua confissão de f transformista. trinta anos antes. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche.

Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . em esconderijos apropriados. entrega-se ao sacrifício. chamando a si. cuido não estar proferindo uma heresia. natural de minha terra. A partir dai.No princípio era o Verbo. entendia o agregado abstrato da saudade. A rigor. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. Por alma. conheci um sujeito. noção trivialíssima das funções orgânicas. diante das maravilhas do aparelho encefálico. Nesse estado d’alma. centro de toda a acuidade sensorial. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. como está dito em Monólogos de uma Sombra. com sótão e porão. o que vale dizer. numa espécie de solidariedade subjetiva. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. uma espécie de fogo que devora e não consome. há que distinguir um pormenor. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. já havia dito. que a ele não interessava considerar. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. que faz quase lembrar a reencarnação. A mesma coisa. no entanto. assombrado com o não-ser. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. tantas vezes exaltada pelo poeta. O próprio Augusto. que tinha os ouvidos totalmente tapados. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. dentro do mundo fenomenal. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista.conspurcada de gozo malsão. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. temos aí um transformismo metafísico. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. do ponto de vista metafísico. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. no princípio era a força. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. É a concepção monística. ouvia mais que um tísico. Por fim. segundo querem os frenologistas. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. manifestou o seu espanto. No tocante à transformação da matéria. dezenove séculos antes. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. o sofrimento de toda a humanidade. No fundo. o vidente de Patmos: . Nada obstante. o remorso já acordado na caverna escura.

Por toda parte. Profundissimamente hipocondríaco. vermes. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. sem problemas materiais: Eu. A influência má dos signos do zodíaco. filho do carbono e do amoníaco. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. No auge da inquietação. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. impreca. Em tudo. causa-lhe repugnância.. servindo de pasto a uma civilização corrompida. E há-de deixar-me apenas os cabelos. dominado por um ceticismo acabrunhador. Monstro de escuridão e rutilância. que é o Deus materialista de Haeckel. fonte inesgotável de vida. Ao invés de fecundação do espírito. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. uma natureza gasta. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. o lado malsão da vida. solta blasfêmias. O mundo em que vive é um vasto hospital. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. Já o verme . inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido.Fazer a luz do cérebro que pensa. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Sofro. na melhor das suposições.Psicologia de um Vencido . Nem por isso admite Deus. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. admite o éter. procura penetrar o mistério da substância universal. Este ambiente me causa repugnância. o éter cósmico. Querendo fugir a essas coisas. desde a epigênese da infância. O próprio amor. procura 12 . Custa crer que este soneto . Exausto da luta. só serviu para adensar o clima de alucinação. rasgar do mundo o velário espêsso. cadáveres e bocas necrófagas. a matéria putrefata. onde não há lugar para a alegria.. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. onde imperam sombras. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se.este operário das ruínas.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir.

monstros terríveis. O subconsciente o aturde. O resultado de bilhões de raças Que. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. numa atitude mental de fuga à realidade. que os anos não carcomem.. Espera aí encontrar o seu nirvana. coberto de desgraças. acompanham-no. Tudo isso. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. evadido de si mesmo. a terrível moléstia que se atribui. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. tenta ir ao fundo da crença monística.. gasta imensas energias e enche de culminâncias. no todo ou em parte. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. sente o desejo. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. a perda da crença e. com efeito. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. Há. Mas o diabo não larga a sua presa. Algo de mais grave. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. nem Haeckel compreenderam. E via em mim. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. uma desgraça na vida do poeta. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. já cansado de escutar a natureza. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. Antes de mais nada. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. como se supunha. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. Onde quer que se refugie. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. Até agora 13 . deve ter acontecido na sua juventude. Depois disso.refúgio na inexistência espiritual. E para não capitular a esse apelo. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Com efeito. Por um instante. E é nesta manumissão schopenhauriana. A julgar pelos seus gemidos. paralelamente. com o poder de sua imaginação. não há homem que sofra mais. diz ele. que exulta triunfante: Gozo o prazer. que ele denomina um sonho ladrão. o Eu e Outras Poesias. Grita a sua dor por toda parte e. Nenhum pintor. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. podia fazer dele um triste. em suas visões oníricas.

Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . Lembro-me bem. de uma paixão. Iríamos a um país de eternas pazes. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida... Gozei numa hora séculos de afagos.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato.. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. no tocante a esse drama. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Por enquanto. não pode ocultar que foi vítima dele. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. que é o drama mais doloroso de sua consciência. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. sempre se revela. Por suas próprias palavras. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. em . Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Ele próprio. no capítulo do amor. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. pois. . Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Por mais que procure fugir ao assunto. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. dada a ausência de biografia. Por mais que Augusto negue o amor. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. desespero virtual e não real. inútil seria qualquer esforço. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Exatamente aí. Trata-se. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

nunca foi chegado a santos. contrito. E invejo o sofrimento desta Santa. Sonâmbulo. ao mesmo tempo que. como é sabido.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. confessa mais uma vez a sua culpa. Sonâmbulo.extravasava desta forma o seu lamento: 19 . como em . Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.santa..Insônia . Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. Noite. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.. O poeta. Como um bemol ou como um sustenido.. mas no poema ... eu também vou passando Sonâmbulo.Queixas Noturnas . em mágoa. Depois de embebedado deste vinho. surpreende com a invocação de Santa Francisca. que não é das mais invocadas.. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha.

Mãe.. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. sonhando. Madrugada de treze de janeiro. que parece se deixou levar por pressão da família. Mas pareceu-me. Como Elias. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. mas para os que crêem há ainda uma esperança. que não admite a vida espiritual. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. num carro azul de glórias. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. quando a morte o olhar lhe vidra. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. entre as estrelas flóreas. Minha alma sai agoniada. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. luta por fugir dela. A morte é o fim de tudo. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. E porque a visão da morte não o deixa em sossego.. Ao pai. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. ama-o até mesmo na atômica desordem. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. Rezo.brada: 20 . pouco fala. Da mãe. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. como perseguido pela sinistra ceifeira. expressa a sua mágoa numa comovente unção.As Cismas do Destino . Nem uma névoa no estrelado véu. dormir primeiro. apenas três vezes. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Em . entre estes monstros. entretanto.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. Ao vê-lo morto. não para ele. o ofício da agonia. sem resolver a verdade interior.

Minha filosofia te repele. Procura assim desoprimir o coração. habitado por monstros humanos. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Ao invés de ajustá-lo à realidade. como em toda a obra. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. ponto final da última cena. Não me parece tenha razão 21 . Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente.. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Já que não crê em Deus. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. Aqui. que Augusto era um cerebral. Por tua causa apodreci nas cruzes. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços.. escravo do raciocínio frio. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Vivia um mundo à parte. as palavras também servem para ocultar o pensamento.. Nestas condições. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo.. Acha Flósculo da Nóbrega. quando recebeu os 22 açoites da natureza. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras.Morte. levava-o a recolher-se em si mesmo. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. cheio de imperfeições. ardendo em indagações subjectivas. não cria em Deus. devia ter na época. Forma difusa da matéria imbele. Nada o consolava nesse estado de espírito. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. embora ansiasse por encontrá-lo. 22 anos de idade. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. E ainda.

não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. que o acolhia com carinho. o cérebro em fogo. noite a dentro. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. tinha-se na conta de um doente. De um modo geral. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. e a mim pergunto. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. foram produzidos no Pau D’Arco. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. A inspiração despertava com a dor. mas porque se sente um desajustado. Não que tenha recebido ofensas dela. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. nunca recebeu hostilidades. Era. de vez que ninguém o compreendia. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. como um sonâmbulo. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. além de pouco. passos largos. O que produziu no sul do País. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra.o ilustre intelectual paraibano. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. sua musa empalideceu à falta de ambiente. Ao contemplar esse ambiente. mas no particular. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Fosse como ele diz. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. os de maior densidade emocional. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. contudo. no caso. ao contrário. Desta. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. volta-se vez por outra contra a sociedade. Nem ele próprio se conhecia. ao redor da capela do engenho. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. andar bamboleante. Há. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. Punha-se então a passear. torturado no sentimento do desamparo. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. que só repugnância lhe causava. um homem excluído do mundo. que o 22 . Os seus melhores versos. em 1912. No fundo. entrava em crise espiritual. conforme declarou nesta honesta confissão. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. Depois que o poeta deixou a Paraíba. Na luta em que Augusto se debate.

fez dele um misantropo. os acordes saudosos do coração. que admirar chore um dia a crença perdida. passa a chorar a sua dor e a alheia. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Parece que desperta para a vida. 23 . imaginária cidade à margem do Paraíba. pois. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. Lá para o fim do poema. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. como se já tivesse perdido o alento de viver. hosanas ao Senhor. Na ascensão barométrica da calma. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. à guisa de ácido resíduo. “na urbe natal do Desconsolo”. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Essa real ou imaginária doença. ansiado e contrafeito. em serenata. entra a descrever a cidade dos lázaros. perdeu também a crença. eis que escuta. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. Eu bem sabia. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. Perdido o amor. De início. num desalento ainda maior. o soneto Vandalismo. numa emoção que comove. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. onde os anjos cantavam. na terra onde pisava. aliada à descrença. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. como um arrependido. Mais adiante. confessa-se minado pela tuberculose. Era ali. sob os seus pés.próprio poeta confessava. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. Depois disso. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. em Os Doentes. Já cansado do ceticismo. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. Em As Cismas do Destino. como ele chamava. atormenta-se com a idéia de que. Não há. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”.

muitas opiniões foram veiculadas. Flóscolo da Nóbrega. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. João Lélis. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. apenas como autor de um livro apologético. No desespero dos iconoclastas. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor.. ler. era apenas o meio de formular soluções. já na 27ª edição. que não é biografia e não chega a ser estudo. gostar e não gostar é coisa que se não discute. José Américo de Almeida. Templos de priscas e longínquas datas. Não é. pois. destaco Órris Soares. na Academia Paraibana de Letras. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. Nesse decurso. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. em gemidos de dor. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Canta a aleluia virginal das crenças. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. que se afundava a alma do poeta. Sua obra. quase todos. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Assim é que. Álvaro de Carvalho. para ele. No final de contas.. João Lélis e De Castro e Silva. Ao contrário da incontinente afirmativa.Meu coração tem catedrais imensas. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Sabe-se como compunha. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. Santos Neto. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. chegou a dizer que Augusto não era poeta. tenham bordejado na superfície do abismo em. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. em serenatas. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. posto que. há sempre o que referir. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. Raul Machado. A arte. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. por exemplo. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. Dos outros. Enfim. Onde um nume de amor. este último.

à margem das correntes estéticas do pensamento literário. Cavalcanti Proença. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. Euclides da Cunha. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. Por tudo isso. Neles. o que era. na época. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. num timbre especial de voz. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. associado à vibração sonora. vermes. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. um em 1920. a passear a esmo. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. este na prosa. claro que avulta ainda mais o seu mérito. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Só depois de elaborada é que ia para o papel. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. em 1945. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. à primeira vista incompatível com a poesia. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. que não tenha fecundado a poesia nacional. reside justamente no termo técnico. lá fora. com efeito. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. Em ter ficado sozinho. duendes. o sentimento parece ter outra dimensão. a densidade. como em compasso de música. olhar perdido no espaço. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. o que acabava de compor. o outro 25 anos depois. essa linguagem. também 25 . como lamenta o crítico. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. enquanto forjava mentalmente a composição. Órris Soares. disse que uma das suas forças. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta.devoradoras. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. Poe e Rimbaud. Essa incompreensão a respeito de Augusto. Os versos espoucavam no momento da inspiração. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. que pretende ser de interpretação psicológica. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. a sua personalidade psicológica. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. sangue de vísceras dilaceradas. sobretudo da crítica provinciana. Foi então que recitou de inopino. Essa crítica. No entanto. Em ambos. insulado em sua própria grandeza. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Seus versos. lábios crispados. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. entrava disciplinada em seus versos. figuras espectrais e outras visões sinistras. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. túmulos. de um a outro canto da sala. entre nós. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. impressionam pelo poder da dialética. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. escarros. Muitas vezes.

como se vê. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. é mais uma aversão de olfato alérgico. O anojamento de Álvaro de Carvalho. a fim de atingir. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. num dos seus últimos sonetos. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. pela tristeza indefinível da alma. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. no duelo da carne. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. Ou então. que apenas transparece em linguagem evasiva. elogios ou restrições. 26 . aparelhou. Eis porque. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. está em tempo de ser feita. Com Verlaine. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. reconheça-se que essa poesia é humana. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. pelas crises espirituais porque ambos passaram. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. não lhe tira o vigor da expressão verbal. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. de sentido mais profundo. mesmo doentia. Nem por isso. na interpretação de um drama emocional.ficaram sem seguidores. Não pode o critico ser ortodoxo. Há. Mas é preciso notar que essa musa. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. com efeito. Com Mallarmé. Com Baudelaire. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. neste ensaio de exegese literária. nem tudo pode ter cabimento. por isso mesmo poética.

sensações simples e cenestesias. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. na terra santa. Ouvindo isso. Também no amor os dois se assemelham. É. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. foi José Américo de Almeida. em grupos prosternados. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. Com Antero do Quental. assentado sobre cacos de pote e urtigas. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. as mesmas figuras de linguagem.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. havia acentuada tendência do poeta. visionário. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. numa sexta-feira santa. só nesse ponto dissimula o pensamento. Só com Rimbaud. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. Com Leopardi. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. vem o barulho das matracas. a filosofia da dor. em quem se acumulam. os mesmos descuidos de metro e rima. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. encontra-se em Roma. que dialoga com os elementos imponderáveis. de uma honestidade quase bravia. a idéia pura das coisas. palavras raras e eruditas. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. Segundo Delahaye. como neste exemplo: 27 . temida pelo outro. De lá de fora. guardando o corpo do Divino Mestre. O único que mencionou Rimbaud. ao pé de um muro carcomido pelo tempo.. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. de mistura com alucinações. um grande medo toma conta do poeta.através da sensação. citado por Augusto Meyer. Não fica apenas aí o confronto. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. no ar de minha terra. Súbito. em termos de comparação. na postura de um campônio rústico. Vez por outra. Até nas aliterações e metáforas. Augusto lembra Rimbaud. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. desde a sua fase inicial. crematismos. Encontra-se. “Na Eternidade. para a neologia e o vocábulo raro. isso mesmo de passagem. por sua natureza. Honesto em tudo. desejada por um.. num artigo publicado em 1914. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. pelo sentido da dor universal. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. um mês após a morte de Augusto. A mesma coisa ocorre com Augusto. em tropos ousados.

. . enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. a julgar pelos seus lamentos.. embora tenham se casado e tido filhos. é inútil. é improfícuo. Depois desse fato. A toda boca que o não prova engana. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. é como a cana azeda. No tempo de jovem. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. contudo. que era o seu anseio máximo. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. é verdade. na Bélgica. provo-a. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. mas que o levaram ao resultado conhecido. Ninguém sofre mais do que ele. poeta. homens de bem cheios de nobres intenções. um suave concerto espiritual na natureza.”. filha legítima de sua alma. Rimbaud. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. segundo é fama. uma diferença de fundo entre os dois poetas. largou-se para a África. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. à beira da água. por causas várias. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Augusto sentia-se puro. andou conspurcado de sensações súcubas. vítima de injustiças humanas. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. exacerbava-a. E como não 28 . o bem e o mal caminhando juntos. em busca do paraíso terrestre. chupo-a.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. Em cada um deles. em suma. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Não sou capaz de amar mulher alguma. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. sente-se que há um complexo de culpa. Motivos escabrosos. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine.. onde se casou com uma nativa da Abissínia. como Tântalo. Descasco-a. Há. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. ilusão treda! O amor.

tudo quanto eleva os sentidos. contra a sociedade. perdia-se no estado de dúvida. beleza. sem preencher esse vácuo. conforme confissão feita a Mário de Alencar. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. a criação. som. A vida. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. silvos de labaredas e suspiros de empestados. isto é. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Tais similitudes valeriam. quando muito. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. 29 .. do qual se considerava prisioneiro. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. martelada em versos magníficos e candentes. Não raras vezes. Um problema sempre gera outro. onde não faltavam o ranger de dentes. entre a voz do sentimento e a da razão. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. como fontes de inspiração. tudo quanto desperta a alma. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. chegaríamos por certo ao pai Homero que. segundo apregoam os fundibulários da crítica. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença.pode reformar o mundo. Neste passo. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Augusto vai irredento até o fim. isto é. numa reação inócua. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. os mistérios da natureza. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Há muitas espécies de conversões em literatura. luz. revolta-se contra o mundo. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. deixava-se ficar no interior da concha.espécie de autobiografia moral. Foi a partir daí. Mesmo assim. contra a sua grei. o amor. mas nem isso acredito tenha havido. dessa conversão ao materialismo.Une Saison en Enfer . Jamais desceu ao fundo de si mesmo. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. Possuído do demônio da dúvida. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. imitação. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Por curioso paradoxo. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. porém. depois que perdeu a ilusão dos homens. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. perfume. cor. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno .

um pedido de socorro. como ninguém ainda se entendesse. que se veja na blasfêmia. aceitar as imperfeições do mundo. Ao cabo do bombardeio oratório. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade.Enredado em idéias preconcebidas. Vale mencionar. é questão que não deve ser formulada. Convém. se manifesta ainda escravo do batismo. Alguns críticos. Se há Deus. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. a essência dos Evangelhos. Na prática. No meio em que viveu era querido e admirado. todavia. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. a meu ver. porquanto Deus é princípio e é fim. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. outros negando. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. Isso mostra que ele. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. uns afirmando. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. Ora. resolveu o presidente submeter a questão a votos. no desespero de tantos sofrimentos. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. heresia maior que a do poeta quando. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. com raríssimas exceções. a propósito. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. Os oradores. É o que há. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. se não há Deus. via de regra. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. é. proclamou que Deus não existe. Apurada a eleição e com base no resultado. viram nisso o pecado da blasfêmia. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. quando não proferida por modo vulgar e chulo. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. na realidade. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. Todos nós. supria-se do mais no magistério particular. se sucediam na tribuna. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. em meio a tantas emoções extravasadas. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. em torrentes de eloqüência. Se o Cristo não vem em seu auxílio. nas Alterosas. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. mas os que o seguem desconhecem. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. afetando melindres de devotos. 30 . tal como Rimbaud. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias.

nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. De inflexões mentais sua obra anda cheia. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . entendiam a alma. virtudes que cultivava com extremado zelo. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. como se vê. como uma caixa derradeira. explodiu em As Cismas do Destino. No tempo de meu Pai. vem de muito longe. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. E como era sincero e honesto. os filósofos iônios. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. De outras vezes. sob estes galhos. Voltando à pátria da homogeneidade. 31 .Debaixo do Tamarindo. coisa que não cabe na boca de um ateu. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. através dos séculos. desde Tales de Mileto. por mãos de seu filho Pirro. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. Como uma vela fúnebre de cera. o sacrifício da linda moça Polixena. Por outro lado. Abraçada com a própria Eternidade. começa o poema “Sou uma Sombra. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. A denominação. dá à alma a denominação de sombra. Mandando ao céu o fumo de um cigarro.atormentado por visões escatológicas. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje.

nas composições que vão até o fim do livro. da substância de todas as substâncias. Daí por diante.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. mas dentro da alma aflita Via Deus . em soluços quase humanos. desde o declínio das crenças mitológicas. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. isto é. acrescenta. larva do caos telúrico. Que outros. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. tal como se apresenta. a 12 de novembro de 1914. aos 30 anos de idade. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. vacilante na ciência fria. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. na Federação das Academias de Letras do Brasil. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. em briga com o dualismo. sua intimidade numenal. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. É a substância primeva. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. mas com o que ai está me contento. Mais poderia dizer agora. Choram ainda dentro dele. como entidade eterna. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. em Leopoldina. assaltado de alucinações. tal como a entendiam os filósofos iônios. até mesmo num grão de areia. !" Este trabalho. Até Deus. virtualidade espiritual. que procede do éter cósmico. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. era uma mônada. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. 32 . mais dotados de inteligência e espírito de penetração. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. perdendo-se novamente no enleio cósmico. para ele. até que morre numa cidade das Alterosas. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. Assim vai. as formas microscópicas do mundo.

presumo. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. de abusar um pouco do café. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. entretanto. o que não impede. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Engenho Pau d'Arco. Rio de Janeiro. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. R. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Eu. Tenho insônia raras vezes. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. 33 . numa atmosfera de rigorosíssima moralidade.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Sofre de insônia. Córdula C. Conservo de memória tudo quanto produzo. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. dos Anjos e D. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. da chamada vida física. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R.

. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Esforços faço. desde a epigênese da infância. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. “Vou mandar levantar outra parede. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu.. Já o verme -. Chego A tocá-lo. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Meu Deus! E este morcego! E. Ao meu quarto me recolho. E há de deixar-me apenas os cabelos. Produndissimamente hipocondríaco.. A influência má dos signos do zodíaco. E vejo-o ainda. filho do carbono e do amoníaco.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite.. Este ambiente me causa repugnância. Sofro. igual a um olho. Fecho o ferrolho E olho o teto. Na frialdade inorgânica da terra! 34 .Digo. Minh’alma se concentra. Monstro de escuridão e rutilância.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. e à vida em geral declara guerra.” -. agora. Ergo-me a tremer. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau.

. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 .. Delibera. em desintegrações maravilhosas. Mas.. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Anoitece. Chega em seguida às cordas da laringe. À noite. Que. Tísica. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. e depois. raquítica. Riem as meretrizes no Cassino. Quebra a força centrípeta que a amarra. e quase morta. mínima.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. Deixa circunferências de peçonha.. de repente. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. tênue. quando sonha. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases.

Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. com a sinergia de um gigante. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. a feder?! Ah! Possas tu dormir.. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. Fruto rubro de carne agonizante. em letras garrafais. Agregado infeliz de sangue e cal. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Que poder embriológico fatal Destruiu. E. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Tragicamente anônimo. feto esquecido.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial.. Em que lugar irás passar a infância. Realizavam-se os partos mais obscuros. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . em vez de achar a luz que os Céus inflama.

.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. para provar A incógnita alma. Cão! -. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . Verme -. Janta hidrópicos. E irás assim. Almoça a podridão das drupas agras. Livre das roupas do antropomorfismo.. Suficientíssima é. ampara-a. arrima-a. E vive em contubérnio com a bactéria. pelos séculos adiante.é o seu nome obscuro de batismo. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Filho da teleológica matéria. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. Ah! Para ele é que a carne podre fica. em que tu dormes. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. Na superabundância ou na miséria... afaga-a.

DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai.. e.corte Minha singularíssima pessoa. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. como uma caixa derradeira. portanto. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Guarda. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . de amplos agasalhos.. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. sob estes galhos. esta árvore. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Dr.. Voltando à pátria da homogeneidade. Como uma vela fúnebre de cera. esta tesoura.

Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. com o esqueleto ao lado. -.. Como um pagão no altar de Proserpina. com uma ânsia sibarita. Por trás dos ermos túmulos.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . um dia. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.. Na guturalidade do meu brado. mas dentro da alma aflita Via Deus -. como quem tudo repele. Alheio ao velho cálculo dos dias. por toda a pro-dinâmica infinita. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia.

Em que é mister que o gênero humano entre. como um gado vivo. talvez.. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . autônoma e sem normas. Todas as noites. Oh! Mãe original das outras formas. Nos estados prodrômicos da vida.. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. Dentro do ângulo diedro da parede. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Ah! De ti foi que. nesta rede. Onde os bandalhos. moços do mundo. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Como quase impalpável gelatina. mísera e mofina. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. vede: É o grande bebedeouro coletivo. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste.

é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio.IDEALISMO Falas de amor. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. É a morte. É. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. para o amor sagrado.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira.. perante a evolução imensa..este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . Creio. Amo o coveiro -. é o pneuma . O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. como o filósofo mais crente. O mundo fique imaterializado -. é o ego sum qui sum . E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que.

cartilagens Oriundas. caixas cranianas. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. inclusas. Mas. talvez as Musas. À meia-noite. Era tarde! Fazia muito frio. Vaguei um século. nele. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam.. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. Cinzas.. subi talvez às máximas alturas. improficuamente. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. como os sonhos dos selvagens. e. Pelas monotonias siderais.. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. se hoje volto assim. com a alma às escuras. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . Comi meus olhos crus no cemitério..

reunidos. no Dia de Juízo. glebas. Pelo muito que em vida nos amamos.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. Na multiplicidade dos teus ramos. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. Depois da morte. vales.fontes de perdão -. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Tamarindo de minha desventura. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. Eu. para o Futuro. trilhos. inda teremos filhos! 43 . Tu. porém. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. com o envelhecimento da nervura. pois. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. selvas. em diferentes Florestas. Se fosses Deus. tuas sementes! E assim.

Ganem todos os vícios de uma vez.. asa De mau agouro que. nos doze meses. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 .. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. na hierarquia Das formas vivas. Como a cinza que vive junto à brasa. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. É meu destino viver junto a esa asa. Como os Goncourts. Ter o destino de uma larva fria.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. É-me grato adstringir-me. à categoria Das organizações liliputianas. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde.. Apraz-me.. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. Perseguido por todos os reveses. Na orgia heliogabálica do mundo.

o Hércules. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . Ouvindo a Escada e o Mar. É como o paralítico que. com os dedos brutos Para falar. “À luz da epicurista ataraxia. em desalento. a mim. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. puxa e repuxa a língua. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. conquanto ainda hoje em dia. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. rasga o papel..O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. “Homem. o Homem. mamífero inferior. aos soluços.. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. violento. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR.

Sinhá-Mocinha. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas... minha ama. Que ela absolutamente não furtava. em minha cama. ralhava. Vejo. hipócrita. não fora ela! --“ E maldizia a sina. após tudo perdido. o ouro que brilha. Eu furtei mais. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. Que a mim somente cabe o furto feito. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. afetava Susceptibilidade de menina: “-. minha Mãe.. Tu só furtaste a moeda.. mas eu. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Furtaste a moeda só.Não. agora.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. entretanto. como cruéis e hórridas hastas. Ele hoje vê que. então. Em sucessivas atuações nefastas.

. igual a um porco. Assim Tântalo. Hoje. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos.o brilho Destes meus olhos apagou!. É noite.. Hás de engolir. aos reais convivas. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. porém..... do que este que palmilho E que me assombra. num festim.a mãe comum -... porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . E tu mesmo. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. e. após a árdua e atra refrega. à noite.

meu Pai?! Que mão sombria. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. para amenizar as dores tuas. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. gemendo.. Tu.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. O que o homem ama e o que o homem abomina.. Irei também. Às alegrias juntam-se as tristezas. Deus.. pois. Pai. e o ângulo reto. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso.. Eu. O Amor e a Paz. trilhando as mesmas ruas. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. e sendo justo. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. para onde fores. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. o Ódio e a Carnificina. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . é justo.

Mas pareceu-me. o ofício da agonia. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. sonhando. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam.. Mãe. num carro azul de glórias. Rezo. E a marcha das moléculas regulam. cuidei que ele dormia.. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Nem uma névoa no estrelado véu. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Como Elias.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro.. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos.. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . entre as estrelas flóreas.

As árvores. Esta árvore. no junquilho... Caiu aos golpes do machado bronco. meu filho. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. Apraz-me.e ajoelhou-se. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. pois. sôfrega e ansiosa.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. pai. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho.Meu pai. numa rogativa: “Não mate a árvore. Para que eu tenha uma velhice calma! -. -. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza... O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . meu pai..Disse -.. meu filho. Livre deste cadeado de peçonha... enfim. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. possui minh’alma!. É preciso cortá-la. para que eu viva!” E quando a árvore. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. olhando a pátria serra.

por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Pões-te a assobiar. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. de à antiga rota Voar. o amplo éter belo. preto e amarelo. desde o mais prístino mito. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda.. não tens mais! E pois. Foi este mundo que me fez tão triste.. mergulhou a cabeça no Infinito. bruto. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 .. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar.. Tu nunca mais verás a liberdade!. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Continua a comer teu milho alpiste. Olha a atmosfera livre. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo.

E erguendo os gládios e brandindo as hastas. em serenatas. Noite alta. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Canta a aleluia virginal das crenças. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. na diuturna discórdia. Templos de priscas e longínquas datas. cismava Em meu destino!.. Ante o telúrico recorte..ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava.. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . Onde um nume de amor. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros.. ególatra céptico.

Meu coração triunfava nas arenas. E não pôde domá-lo enfim ninguém. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. ao todo. Acende teu cigarro! o beijo. E qual mais pronto. por fim. veio um atleta. uns cem.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. toma A adaga de aço. entre feras. que. guerreiro. amigo. Apedreja essa mão vil que te afaga.. Somente a Ingratidão -. o gládio de aço. A mão que afaga é a mesma que apedreja.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma.. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . Toma um fósforo. é a véspera do escarro. e doma Meu coração -. Vieram todos. e. por fim.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. E à rutilância das espadas. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. sente invevitável Necessidade de também ser fera. nesta terra miserável. Veio depois um domador de hienas E outro mais. Mora.

Da luz que não chegou a ser lampejo. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. a que só ele assiste. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. do Orbe oriundos. A sucessividade dos segundos. E é em suma. em sons subterrâneos. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos.. Que.. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. Ouço.. chorando. No rudimentarismo do Desejo! 54 . Da transcendência que se não realiza. a escutar. Quer resistir... E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. pois. pancada por pancada. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. Sabe que sofre.. podendo mover milhões de mundos. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. nada há que traga Consolo à Mágoa.

me desencarcero. Oh! Nauta aflito do Subliminal. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. a animar o cosmos ermo. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . num grito de emoção. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Como a última expressão da Dor sem termo. eu. Foi que eu. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. feito força. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. sincero Encontrei. Morto o comércio físico nefando. afinal. Cesse a luz. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. De que.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. pensando. Parem as vidas. que os anos não carcomem.

"À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. a vista. "Com essa intuição monística dos gênios. a irmanar diamantes e hulhas. E o Homem — negro e heteróclito composto. pois.. há inúmeros milênios. feixe de mônadas bastardas. sem retumbância.. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. o ouvido. ao sol posto. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade.. arpões. Onde a alva flama psíquica trabalha.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. sem gritos.. o olfato e o gosto! Carne. A dardejar relampejantes brilhos. e. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. numa alta aclamação. decompondo-se. Diafragmas. Era. muito embora a alma te acenda. Em tua podridão a herança horrenda. Dói-me ver.

no Mundo. para mim que a Natureza escuto. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. a porta. à espera de quem passa Para abrir-lhe. às escâncaras. Que produz muita vez. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. é o transunto. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo..O PÂNTANO Podem vê-lo. meus semelhantes! Mas. na noite escura. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. A convulsão meteórica do vento. É a síntese. E o nada do meu homem interior! 57 . Este pântano é o túmulo absoluto. opondo-se à Inércia. sem dor. e.. Tragicamente. é a essência pura. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou.

"Quanto mais em mim mesma me aprofundo. é natural. O espanto Convulsiona os espíritos. deprimindo-o . ainda algum dia. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água.. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. no teu silêncio. geléia humana. como o gérmen de outros seres. Antes o Nada. oh! gérmen. não progridas E em retrogradações indefinidas. E hás de crescer. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. em realidade. entanto. Vence o granito. causa do Mundo.. porventura. que ainda haveres De atingir. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. geléia crua. em conjugação com a terra nua. Reconcentrando-se em si mesma. um dia. tanto Que. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. Volvas à antiga inexistência calma!... "Menos interiormente me conheça?!" 58 .A UM GÉRMEN Começaste a existir. e. Teu desenvolvimento continua! Antes.

Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. trancada num disfarce. é inquietude. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora.As ambições que se fizeram troncos. . é ânsia. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue.. descendo A irracionalidade primitiva. É a Natureza que.... traçando arcos de ogivas.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!.. é transporte. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. Como um convite para estranhas viagens. São absolutamente negativas! Araucárias.. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva.. .Todas as hermenêuticas sondagens... na ordem cósmica. Vivem só. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. E a coorte Das raças todas. os elementos broncos. nele. no seu arcano. Bracejamentos de álamos selvagens. é o instinto horrendo De subir. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 ..

. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . oh! Dor. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. saúde dos seres que se fanam.... À humana comoção impondo-a.. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. ancoradouro Dos desgraçados. sol do cérebro. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. em suma. sem convulsão que me alvorece. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. Riqueza da alma. psíquico tesouro. acérrima e latente. Dói-lhe. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. assim. Que o sarcófago. inteira. E. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam...O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte.

. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio .. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. em épocas futuras. Ions emanados do meu próprio ideal. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Benditos vós. ) Com o vosso catalítico prestígio. Minha continuidade emocional! 61 . Expressões do universo radioativo. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. para o último remígio. pois. Dai-me alma.. pois. que..ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. Dai-me asas. Haveis de ser no mundo subjetivo..

Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. A espaços As cabeças. então. as mãos.. Emoções extraordinárias sinto. Eu sinto. O cosmos sintético da Idéa Surge. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 .A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa.. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. A alma arde.. os pés e os braços Tombara. Arranco do meu crânio as nebulosas. A carne é fogo. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto.. Subitamente a cerebral coréa Pára.

Sangram-te os olhos. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. No desembestamento que os arrasta. enquanto as almas se confrangem.. carne sem luz. Rugindo. Montão de estercorária argila preta. Superexcitadíssimos. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. ávida.. criatura cega. tragando a ambiência vasta. na ânsia voraz que. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Excrescência de terra singular. o alfa e o omega Amarguram-te. entretanto. e. os dois Representam. Realidade geográfica infeliz. Porque. Hebdômadas hostis Passam. aumenta. Receando outras mandíbulas a esbangem. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . na superfície do planeta. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Os dentes antropófagos que rangem. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. Deixa a tua alegria aos seres brutos. Teu coração se desagrega.

soluçando. o Inferno. Sob pena.. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. a Ciência. aparelhou. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. mordem-se. homens felizes. E trago em mim.. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Que força alguma inibitória acalma. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . a Glória. Da dor humana. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante...MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. sou maior que Dante. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. O Amor. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou.

. não cabendo mais dentro dos peitos. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Que. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância.. (Hoje. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. Uiva. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. O epitalâmio da Suprema Falta. ontem. Existo Como o cancro.. a alardear bárbaros sons abstrusos. a exigir que os sãos enfermem. urdo o crime. à luz de fantástica ribalta. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . Entoado asperamente. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. cresto o sonho. Teço a infâmia.O CANTO DOS PRESOS Troa. È a saudade dos erros satisfeitos.. em voz muito alta.

por fim. O Infinitésimo e o Indeterminado. dona. à noite. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . minha alma.. como um corvo. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. o Céu e o Inferno absorvo. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. o Infinito se levanta À luz do luar.. invado. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. enfim. Transponho ousadamente o átomo rude E. ausculto. Feita dos mais variáveis elementos.. apreendo. Nos paroxismos da hiperestesia. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos.. transmudado em rutilância fria. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. agarro. Ceva-se em minha carne. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão.

Laquesis. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. Sentia dos fenômenos o fim.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta.. projetado muito além da História. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. como a luz do amanhecer. E acima deles. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . aos trismos Da epilepsia horrenda.. Átropos. num monturo. Eu. virgem. Tifon. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Como a luz que arde. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam.. arder. Siva. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória.. como um astro.

. Folhas e frutos.. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser.Trilhões de células vencidas. tenta transpor o Ideal. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.. a afagar tantas feridas. Hão de encontrar as gerações futuras Só. neste ergástulo das vidas Danadamente. esse mundo incoerente. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. nas minhas formas carcomidas.. Nutrindo uma efeméride inferior. rábido. às apalpadelas e às escuras.. alarga-se em meu hausto. Grita em meu grito.. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. a soluçar de dor?! -... nem mesmo ao ronco Do furacão que.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. Branda. E. remoinha.) Quem sou eu. entanto. Roem-na amarguras Talvez humanas.

Apreendo. -. ateando da alma o ocíduo lume. hirto. Massa palpável e éter. Sou eu que.. aliando Buda ao sibarita. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. Penetro a essência plásmica infinita.. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 .Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. -. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. em que me inundo. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. desconforto E ataraxia. sânie e perfume. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. feto vivo e aborto.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. em cisma abismadora absorto.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração.

por hipótese.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros... nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. Porque. somente em. sem complicados silogismos. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. Esoterismos Da Morte! Eu vejo.Tal é. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. dois. rádios e úmeros. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. na abismal sustância informe.. cérebros. -. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . quatro. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. Reduzir carnes podres a algarismos. em fúlgidos letreiros. infinita como os próprios números. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. cinco.. três. crânios. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética.

Quem sabe. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. perscruta O puerpério geológico interior. e dize-me. alma. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. a alma. porventura. afinal. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. oh! delumbrada alma. amam jazer. recalcados. na natureza espiritual. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . De onde rebenta. Qual é. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. me semente. em contrações de dor. assim. Estacionadas. íngremes.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. Por um abortamento de mecânica.

Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. se as Tem. Federações sidéricas quebradas.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica.. que o Éter indica. pelo orbe adiante. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. babando. Zarpa.. A íngreme cordoalha úmida fica. Pára e. e. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. em noite aziaga e ignota. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. derrota Na atual força. Espião da cataclísmica surpresa. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 .... E eu só. alçando o hirto esporão guerreiro. subjugue-as ou difarce-as. a amarra agarrada à âncora. É a subversão universal que ameaça A Natureza. o último a ser. da Massa. sonha! Mágoas. integérrima. derrubadas.. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda.

em que arde o Ser. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. E quando. ao cabo do último milênio. que ela encheu. cave. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. e. Para a perpetuação da Espécie forte. adstrito à ciência grave. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Haurindo o gás sulfídrico das covas. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. Os nossos esqueletos descarnados.. num triunfo surpreendente. Em convulsivas contorções sensuais. o dolo sáxeo. Arrancar. ainda depois da morte. Dentro dos ossos. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. Sôfrego. vazio! 73 . Tragicamente. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros..VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer.

. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. vendo sangue. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada.. Era tão moço. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 .. Olhou-se no espelho. Na mão dos açougueiros. há instantes. Extraordinariamente atordoadora.. E. fora. Viu vísceras vermelhas pelo chão. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. eis que viu. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. iguais a espiões que acordam cedo. mancha a gleba. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. com um berro bárbaro de gozo. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. antes do almoço. Ia talvez morrer. E amou. A água transubstancia-se.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter... Horrível! O osso Frontal em fogo.. Disse.. Somente. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante.

. Rasgo dos mundos o velário espesso. Leio o obsoleto Rig-Veda. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador.. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep... No mar de humana proliferação. ante obras tais.. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. E em tudo igual a Goethe. me não consolo.. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. E..VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. reconheço O império da substância universal ! 75 .. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!.

E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Para dar vida à dor e ao sofrimento. estranho ao mundo.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Porque eu hoje só vivo da descrença. ao meu lado. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Fora da sucessão. Eu a bendigo da descrença. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Tragicamente de si mesmo oriundo. Se acende o círio triste da Saudade. E o coração me rasga atroz. imóvel. atro e subterrâneo. E assim afeito às mágoas e ao tormento. Parecia dIzer-me: "É tarde. resignado. P’ra iluminar-me a alma descontente. 76 . em meio. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. imensa.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Mas que no entanto me alimenta a vida. Hirta. A Idéia estertorava-se. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. Era de vê-lo. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito.. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado.

Onde a dúvida ergueu altar profano. volvi ao ceticismo. entre o medo que o meu Ser aterra. Fugazes sonhos. sombras cor-de-rosa . Da Igreja . gárrulos voando . seu olhar magoado. eu creio em ti. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Hoje ela habita a erma soledade. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. e então sereno.Todas se foram num festivo bando. de ilusões tão bela. Ah. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. desgraçado réu. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Fraco que sou.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores.o exorcismo Terrível me feriu.Oh! Deus. em fundo misticismo: . Não sei se viva p’ra morrer na terra. Cansado de lutar no mundo insano.a Grande Mãe . mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo.

Todas murcharam. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade.MÁGOAS Quando nasci. todas sem olores. Sombrio e mudo e glacial. SENHORA Ouvi. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Cansado de chorar pelas estradas. triste e descrido. Quando a morte matar meus dissabores. num mês de tantas flores. senhora. senhora. Eterno pegureiro caminhando. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. de amor ferido. triste pela vida afora. senhora. Morreram todas. Desfeitas todas num guaiar dorido. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Exausto de pisar mágoas pisadas. Revolvo as cinzas de passadas eras. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . E que tornou-o assim. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. tristes. Ouvi. pálidas agora. amei. Tristes fanaram redolentes rosas. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. langorosas.

Esconde à Natureza o sofrimento. Tu que. E voltou. mas a fronte aureolada. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Altivo lutador. um tresloucado. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. venceu batalhas. Ao chegar. na estrada da existência em fora. Oh! Tu. olímpica e singela! E partiu. Alma viúva das paixões da vida. E fica no teu ermo entristecida. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Vivia alegre o vate apaixonado. coração amargurado. Era o soldado. Alma arrancada do prazer do mundo. Cantaste e riste. Louco vivia. enamorado dela. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. No sepulcro da loura virgem bela.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. 79 . Mas a Pátria chamou-o. Apaixonou-se d’uma virgem bela. pendeu triste e desmaiada. e o pesar negro e profundo. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida.

Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. pálidos. Chegara enfim o dia desejado. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Fora no campo pássaros trinavam. Há de chegar. funéreos. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Ambos unidos soluçara um beijo. silentes. ardentes . no eternal soluço.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. a brisa respondia. Desliza então a lúgubre coorte. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Vinha rompendo a aurora majestosa. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. E rompe a orquestra sepulcral da morte. soturnais. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Quando da vida. São minhas crenças divinais. E a mesma frase o noivo repetia.

A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Aí existe a mágoa em sua essência. E espuma e ruge a cólera entranhada. porém. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. A morte me será vingança eterna. No delírio. Assim a turba inconsciente passa. Em luta co’a natura sempiterna.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Dores que ferem corações de pedra. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. E onde a vida borbulha e o sangue medra. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. 81 . Mas se das minhas dores ao calvário. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Espumando e rugindo em marulhada.

" CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Quantos. Foste do amor o mártir sacrossanto. Su’alma livre para o Céu se alara. estulto. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Tu’alma ri-se descuidosamente. bonecos de formoso busto. num abraço de ternura santa. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 .AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Pois se da Religião fizeste culto. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Irmão querido. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Morrera um dia desvairado. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Somente assim festejarei teus anos. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. dão-te enganos. Jóias. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. bom Papá. Enquanto outros que podem.

Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. presa. Dançavam-lhe no colo perfumado. Do fado. tomando a enxada gravemente. Balbuciou. amigo verdadeiro. esta mulher de grã beleza. No entanto. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. aveludado. Bela. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. Os seios brancos. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . palpitantes. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. Do destino fatal. mornos.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. divina. Moldada pela mão da Natureza. A chama cruel que arrasta os corações. Tornou-se a pecadora vil.

Ai! não. mavioso. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. desnudas. Trovador torturado e angustioso. dolente. Assim canta também meu coração. E as mesmas monjas sempre tristurosas. E as mesmas portas impassíveis. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. No sigilo das rezas misteriosas. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais.Addio. Que guardam pér’las de funéreas rosas. pouco a pouco. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. Subindo pelo Azul da Inspiração. Repercute. E à noute quando rezam na clausura. os sons esmorecendo. addio! 84 . . Eleonora. úmidas arcadas. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. addio. não acordeis. Que guardam cinzas de ilusões passadas.

Primavera.O segredo d’um peito torturado E hoje. Vai morta em vida assim pelo caminho. . Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. o triste outono. No sudário de mágoa sepultada. tão moça e já desventurada. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso .A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Eu sei a sua história. porém. os teus fulgores. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Arca sagrada de cerúleos sonhos.coração saudoso. O cabelo revolto em desalinho. gargalha. Moça. soluça . .Arca cerúlea de ilusões etéreas.a veste desgrenhada. Canta. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Num sepulcro de rosas e de flores. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. para guardar a mágoa oculta. Da desdita ferida pelo espinho. Chora. a desgraçada estulta. Primavera gentil dos meus amores! 85 .

Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. ela não cansa. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Sirva-te a crença de fanal bendito. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Também espero o fim do meu tormento. É minha sina perenal. ergue o teu grito. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. Foi outrora do riso abençoado. risonha. eu trajo o luto do passado.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.avança! E eu. Mas não queiras saber nunca. Sonâmbulo da dor angustiado. 86 . que vivo atrelado ao desalento.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. túm’lo do prazer finado. Senhora. não busques saber por que. delirante e vário. O berço onde as venturas se embalaram. Também como ela não sucumbe a Crença. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. Salve-te a glória no futuro . Muita gente infeliz assim não pensa. Voltam sonhos nas asas da Esperança. No entanto o mundo é uma ilusão completa. tristonha . Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. portanto.

Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. sublime na Descrença.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Chora . Mas volta logo um negro desconforto. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Sombra perdida lá do meu Passado. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Quando o rosário de seu pranto rola. Tenta às vezes. Quem me dera morrer então risonho.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. porém. santíssima. Bela na Dor.

Na altura Imensa. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. púbere.. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. mimosa. pois. e. nevada. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . a seu lado Medita. Enquanto o amante pálido. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. As níveas pomas do candor da rosa. Essa sublime adoração do crente. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. crê em Deus. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza.. ama. Dorme talvez. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Estende o teu olhar à Natureza. a fronte triste. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Branca.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Rendilhando-lhe o colo de sultana.

A procissão dos tristes. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. . . dos proscritos. Tem pena dessas cinzas que ficaram. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. além. o meu Passado. lânguida e bela. Eu vivo dessas crenças que passaram. A romaria eterna dos aflitos. A alma saudosa pelo amor vibrada.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. Vai Corina mendiga e esfarrapada. coveiro. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. E na choça a lamúria que traspassa O coração. porém. Entre todos.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . Dos romeiros saudosos da desgraça.TEMPOS IDOS Não enterres.Quero abraçar o meu passado morto.

A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. apenas restam mágoas. Auroreando a humana consciência. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. 90 . adeus! E. Saí deixando morta a minha amada. Hermeto Lima Adeus. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Perto. adeus.eu disse. Voa. suspirando. devassando a terra. Cheia da luz do cintilar de um astro. ADEUS! E. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . É como um despertar de estranho mito. Para mim no mundo Tudo acabou-se. ADEUS. Vencendo o azul que ante si s’erguera. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares.ADEUS. Sulcando o espaço. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. se eleva em busca do infinito. Fitando o abismo sepulcral dos mares.

Minh’alma que de longe a acompanhava. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. Estrela esmaecida do Martírio. irmã pálida da Aurora. triste.A sombra deste afeto estiolado. Lá onde nunca chegue esta saudade.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. . Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. Mas a noute chegou. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. Viu o adeus que do Céu ela enviava.LIRIAL Por que choras assim. com ela Negras sombras também foram chegando. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça.Vai-te. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . Disse. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. tristonho lírio. E eu disse . Envolto da tristeza no delírio. onde não pousa a desventura. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim.

o olhar enlanguescido. E eu balbucio trêmula balada: . dai-me u’a esmola . perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. E dos lábios de Dulce cai um beijo. A praça estava cheia.Senhora. e eu gemo o último harpejo. Morre-me a voz. E ela fita-me. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. perdão. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. a minha bem amada.e estertorada A minha voz soluça num gemido. E na atitude do Crucificado. o algoz .. A esmola dum carinho apetecido. Pedir a Dulce.o criminoso . O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. Estendo à Dulce a mão. a fé perdida. isento de pecado.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. por entre a dolorosa estrada.então. Puro de crime. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. Depois. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. 92 .. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. Vítima augusta de indelével falso. O olhar azul pregado n’amplidão.

nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . Lá. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. acolhe-me..AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Há perfumes d’amor . e. obumbra-me em teu seio.. Empenhada na sanha dos abutres. assassino.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. E hás de tombar um dia em mágoas lentas... Num desespero rábido.segue a trilha que te traça O Destino. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. acolhe-me N’asa da Morte redentora. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. Gênio das trevas lúgubres. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. ave negra da Desgraça. onde d’água raso O olhar não trago. E as trevas moram.crença Perdida . na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata.

O MAR O mar é triste como um cemitério. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Que o céu reflete. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Quando vos vejo. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. a vida é qual risonho Batel. Reflete a luz do sol que já não arde. dentre a escura Treva do oceano. e a alma é a Flâmula do sonho. num mar de esp’rança. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Mas quando o céu é límpido. Os nimbos das procelas desta vida. Treme na treva a púrpura da tarde. sem nenhuma Nuvem sequer. então. sem bruma Que a transparência tolde. Banhando a fria solidão das fragas. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. só descanta. Abismados na bruma enegrecida. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor.

Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . meu Futuro.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. O grande Sol de afeto . Dia do meu Passado! Irrompe. Anseios d’alma aqui se perdem. o meu único Norte. lá nos espaços.1902 95 . e em si a Luz consoladora Do amor .. é dor. Ascende à Claridade. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Triste criança virginal. E eu ergo preces que ninguém responde.) Nessas paragens desoladas. foge ... Nem vibra a corda que a saudade esconde. Aurora morta. Agora. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. agita as tuas asas.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. é desengano. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano.o Sol que as almas doura! Fugiu.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. FOGE! Aurora morta. Adeus oh! Dia escuro. Cantarias do amor a primavera. quem dera Voar est’alma a ti..1902 AURORA MORTA. Hoje é trevas. oh! Minha Mágoa.

úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Pendem e caem . entretanto. nitente. E há. Ah! num delíquio de ventura louca. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos..1902 96 . Branca. Sonorizando os sonhos já passados.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata.NO CAMPO Tarde. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. à dolente Unção da noute. Bendito o riso assim que se desata . no teu riso de anjos encantados. Um arroio canta pela umbrosa Estrada.a Louca tenebrosa. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados.. chorando enfloram. despertando sonhos. as águas límpidas alvejam Com cristais. No alto. e. ao luar. Chora a corrente múrmura. emergindo às trevas que a negrejam. Quando.Cítara suave dos apaixonados. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .

toda a cálida Mística essência desse alampadário. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. é como os prantos Níveos. 97 . Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Ah! como a branca e merencórea lua. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. virginais aromas De essência estranha. eterna noctâmbula do Amor. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. se duas eu tivera. noctâmbulo da Dor e da Saudade. Flor dos mistérios d'alma. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. sacrossantos. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. Também envolta num sudário — a Dor. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. Pau d'Arco -1902. Se evolarn castos. Derramam a urna dum perfume vário. que a virgem chora. P'ra desvendar os seus segredos santos. Eu.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. E a lua é como um pálido sacrário. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras.

bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas.Quero partir em busca do Passado. e ilusões acordas. Tanto que cantas. a lua é triste e calma. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Quando alta noute. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Que desespero insano me apavora! Aqui. chora um ocaso sepultado.. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. Teu canto. Ali. Tanto que gemes. Choras. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. sonhar novas idades. soluças. bandolim do Fado.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. vindo de profundas fráguas.Quero Correr em busca do Futuro. Um dia morto da Ilusão às bordas. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: .. pompeia a luz da branca aurora. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. E vais aos poucos soluçando mágoas. .

E eu quis beijar-te o lábio redolente. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. grave e lenta. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. também ria! 99 . senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. Tocando n'ara negra o níveo seio. O sol. cindindo os céus risonhos. caindo dos altares. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. NA ETÉREA LIMPIDEZ.Foge. à voz de Lúcia. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. mas eis que neste enleio.ARA MALDITA Como um'ave. agora. E beijei-te. Quiseste-me beijar a ara do peito. tu vinhas a cindir os ares. Na etérea limpidez de um sonho branco..Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . O céu tremia em seu trevoso flanco. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. Meiga. Fulgia a bruma para sempre. alegre e rubro. Caíste morta ao celestial preceito. E. qual hóstia. e como Lúcia. E eu vi os seios teus virem inconhos ..

em bando.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. Diluis teu peito em sensações profundas. luminosa. e.o círio Da Quimera Falaz. a rasgar o lúrido sacrário.A colunata êxul do Sonho Morto . E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . E a rasgar. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. E a lua. Mas. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. em banho ideal de amor te inundas. a Virgem Mãe dos céus escampos. ao ver-te nua. Que. Nua. ante o branco estendal das madrugadas. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . E em mim como no Templo. Flores mortas da Aurora. Agora. eis que emerges. o túmulo da Crença. urnas de Sonho. Longe das sombras aurorais e amadas. E. Que beija a terra e que abençoa os campos.ei-lo que avisto. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. o Mundo se concentre. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. Sentes o peito em ânsias revoltadas. e.

Como o Cristo sagrado dos altares.. . ela. como o sol . Embaladas no albor da adolescência. A alma diluída em eterais cismares.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim.É o castigo de Deus que passa mudo! . tudo chora.O sol a segue.A PESTE Filha da raiva de Jeová .. Colmado o seio de virentes flores.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. Quero-te assim . santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. formosa entre as formosas... formosa. e a Peste ri-se. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .Fúlgido foco de escaldantes brasas . entre esplendores.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.. Etéreo como as Wilis vaporosas. semeando a Morte.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo.. Plena de graça. tudo! Quando Ela passa. 101 . enquanto Vai devastando o coração das casas.

Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos.. Açucena de Deus. eis-me a teus pés. pátria da Aurora exilada do Sonho! .Irei agora. a teus pés. Como o santo levita dos Martírios. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. Chegou a Noite. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. . E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . meu anjo. pelo mundo. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me.. insânia.. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. assim. perdoa o teu vencido. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 ... Eu venho arrependido. penseroso e pasmo. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.. o meu Sonho morreu! Perdão. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria.CÍTARA MÍSTICA Cantas.. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. pois.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. ah! ninguém me responde.. E para mim. insânia. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido...

. porém.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário..Amor que é mirra e que é sagrado nardo. que da Desgraça veio Maldito seja. Turificando a languidez dum seio! O amor. sem Calvário. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões.. e.. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. Da Messalina fria no regaço. . supremos. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. Banhou-me o peito. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. no Inferno do Gozo. Por um Cocito ardente e luxurioso. Mas. Onde nunca gemeu o humano passo. Em ânsia de repouso.

Ah! que um dia da Vida... E estavas morta. e a saudade da infância. também da Dor.. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância... mulher... eu vi. E vi-te triste.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 .. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua.SOMBRA IMORTAL .. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. Como um'alma de mãe. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora.E tu velas. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.. eu que te almejo.. estes dardos acúleos Caíam. desvalida e nua! E o olhar perdi. a noute é tumbal. Sombra de gelo que me apaga a febre. . nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. lá dos braços hercúleos. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância.. . a sós.

imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Que canto é este. O roble altivo entreteceu4e um ninho. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. E um canto vai morrer no vale fundo. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora.. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Uma pantera foi se ajoelhando. Choras..) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . chegando. Alvorejando em arrebol de prata.. inata! E. e no Santo harpejo... Bendita a Santa do Carinho...NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. e. tu. ajoelhando à imagem do Carinho. entanto. Alva d'aurora. Somente tristes os teus olhos vejo. virginal. Chegaste. e é noute de fatais abrolhos. o seio branco.. te acolheu a mata. profundo?! Rumores santos. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 .. no negror me abrasa. Branca bem como empalecido arminho. Pérolas e ouro pela serrania. Que luz é esta que das brumas vasa.

Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Já Vésper.. Triste como um soluço de Dalila. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas... Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. no Alto.PELO MUNDO Ânsias que pungem. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. Fria como um crepúsculo da Judéia. mórbidos encantos. e lânguida. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros.. 106 . E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. Qual rosa branca que ao tufão vacila.

e a todo o seu assédio. os gaturamos Num recesso de névoa.o voltairesco clown .. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . Riso. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . No ar..quem mede-o?! . QUERIDA! Vamos. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS.A hora dos tristes e dos descontentes. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . querida! Já é Ave-Maria .Fogo sagrado nos festins da Morte . clown da Sorte .Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos.. adormecida. sonolento e tardo.O RISO "Ri. Na Via-Látea fria do Nirvana. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. coração. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende.. que ao frio alvor da Mágoa Humana.Ele. Silfos morriam.Eterno fogo. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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batendo em todas as retinas. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. diante do vulto dos conventos. Os passos mal seguros Trêmulo movo. O dia Foge. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe.. Negro. violentos. Vibra. De encontro ás torres e de encontro aos muros.. Surge agora a Lua. NOTURNO (CHOVE. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram... Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. mas meus movimentos Susto.. E em meio ás refrações verdes e hialinas..) Chove. LÁ FORA. vão bater. Saio de casa. Os ventos. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. A incandescência irial dos candelabros. Desencadeados.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer.

mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu... E hoje.. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. outono. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. os vermes vis. Já que perdi a última batalha! E.. enquanto o Tédio a carne me trabalha. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.. Primavera. inverno! 113 .. poetas.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. verão. Que há muito tempo não cantava lá. Diluiu o silêncio em litanias. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu.. .

. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. enxuta A face. abraçado às campas dos poetas. enxuto o olhar. E se cantar como a Saudade canta. Ela. ao noturno açoute. Carpem na sombra pássaros ascetas. Pare chorando nesta Terra Santa. onde. e quando passa.. inda altiva. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. ela.pássaros da Noute! 114 . Gemem poetas . O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora.A DOR Chama-se a Dor. e o travo há de sentir.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. . e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. Aqui é o Campo-Santo.

que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. eu penso na Ventura! E o pensamento. e por fim. A CRENÇA E O AMOR O sonho.O SONHO. Vence. Luta. a crença e o amor. e morrem os vermes que o consomem. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. nada há que o abata e o vença! Por isso. poeta. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. surjam tédios na Descrença. o sonho. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. assomem Descrenças. na Suprema Altura Sinto.

Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. profundo..PARA QUEM TEM NA VIDA. pois. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . auríferos tesouros. por fim.. Foi-te mister sondar a substância das cousas .Construíste de ilusões um mundo diferente.. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. para penetrar o mistério das lousas. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. Feito no decurso de dois minutos. e. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E.. por fim. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia... De que te serviu. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. nada achaste. estudares.. Tesouros reais.. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905.

santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. dois gigantes mudos. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . Embora oculta. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra .. em ânsias. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.O NEGRO Oh! Negro. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido.... .. . Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. São dois colossos. ela subiu. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. no entanto.

. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. na atra estrada que trilhei. como eu. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.. .Era o suplício!. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . ouve o canto aziago da coruja! .Se ao menos voasse! . Buscava Em verdes nuanças de miragens.Quer fugir. Quantos também. e não vê por onde fuja. O Sol ardia. foram buscar a Glória E que. ira-o morrer também..E o horror começa! Rasga As vestes. ela seria morta.. ver Se nesta ânsia suprema de beber. . Nisto. quantos também deixei... A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício.Novo Sileno. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! .. Implora a Deus como a um fetiche vago. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . Trás de mim.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. como eu. Mas eu não contarei nunca a ninguém.. Daí a pouco. Saiu.

Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. Assim como uma casa abandonada. a alma serena.. ele a morrer. vivia. Por isso. Não há quem nele um só tremor denote! . Mas. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. diz ao povo: "É pena! ." Pau d'Arco -1905 119 . E afora disto.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica..Continua a cantar.. de repente.Foi saudade? Foi dor? .... Olha essa neve pura! . E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. Sei que na infância nunca tive auroras. pressentindo a lousa..SENECTUDE PRECOCE Envelheci..Aqui ainda havia alguma cousa. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste..

Para onde eu ia. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado.. E eu me elevava. Bem como tu. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. A múmia de um herói do tempo de Ísis. Dizes Tudo que sentes. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. o vulto ia a meu lado E desde então. .. em Tebas .. inda com o braço altivo. Da tribo alegre que povoa os ares..Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. não andei mais sozinho! Abraçou-me.. Não mentes.a tumbal cidade. persuadido fica do que diz.. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 ... diz que ele é vivo. E. Diz que ele não morreu.

de saudades me despedaçando De novo. E. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. triste e sem cantar. ia. antes de viver! Meu corpo. Existo! . morrer. assombrado. Saiu aos tombos... Por toda a parte. pois. com medo do Infinito. quando Eu. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo.. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. assim como o de Jesus Cristo.. Teve sede e fome.. como um cão covarde. A percorrer desertos e desertos..O tamarindo reverdeça ainda. amigos. aos tropeços. A lua continue sempre a nascer! 121 . onde. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. assim. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos.E apesar disto.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. à tarde. Nada se altere em sua marcha infinda .

. água e albumina. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 ..A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina.O farmacêutico me obtemperou. . porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.A LÁGRIMA .Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. Ah! Basta isto.

E é de mim que decorrem.Esta universitária sanguessuga Que produz.O metafisicismo de Abidarma -E trago.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Em minha ignota mônada. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos.. À luz do americano plenilúnio. sem bramânicas tesouras. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra.. Amo o esterco.. Pólipo de recônditas reentrâncias. Larva de caos telúrico.. vibra A alma dos movimentos rotatórios... os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. 123 . A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. ampla. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. Como um dorso de azêmola passiva. simultâneas. Do cosmopolitismo das moneras. possuo uma arma -. sem dispêndio algum de vírus. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. Amarguradamente se me antolha. Não conheço o acidente da Senectus -. A podridão me serve de Evangelho.

Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. -. Aí vem sujo. Que. O horror dessa mecânica nefasta. Raio X. em síntese. Sonoridade potencial dos seres. ondulação aérea. já nos últimos momentos. O coração. E apenas encontrou na idéia gasta. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. o Homem. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Fonte de repulsões e de prazeres. a coçar chagas plebéias. causa ubíqua de gozo. quebrando estéreis normas. luzem. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. Com a cara hirta. a boca. Quimiotaxia. A vida fenomênica das Formas. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Como quem se submete a uma charqueada. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. bestas agrestes. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Ao clarão tropical da luz danada.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. amanhã. iguais a fogos passageiros. 124 . magnetismo misterioso.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. abdômen.

Como no babilônico sansara . À guisa de um faquir. vai gozar. o monstro as vítimas aguarda.. Sentindo o odor das carnações abstêmias.. consumir-se. E até os membros da família engulham. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Sôfrego. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. E à noite. Suas artérias hírcicas latejam. Num suicídio graduado. ébrio de vício. Toda a sensualidade da simbiose. Do seu zooplasma ofídico resulta. brincam.. em suas clélulas vilíssimas... em lúbricos arroubos. igual à luz que o ar acomete. Brancas bacantes bêbadas o beijam.. à noite. Numa glutonaria hedionda. pelos cenóbios?!. Uivando. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Como que. 125 . E explode. fazendo um s. E após tantas vigílias. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. bastarda. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. No horror de sua anômala nevrose... Negra paixão congênita. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. No sombrio bazer domeretrício. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta.

Somente a Arte. Hirto.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Mas muitas vezes. Mostrando. quando a noite avança. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . As alucinações tácteis pululam. com os candeeiros apagados. Sente que megatérios o estrangulam. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Assim também.... As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. A asa negra das moscas o horroriza. bêbedo de sono. Essa necessidade de horroroso. se estende Dentro da noite má. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Na própria ânsia dionísica do gozo. Abranda as rochas rígidas. A família alarmada dos remorsos. em rembrandtescas telas várias. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Numa coreografia de danados.Macbeths da patológica vigília. Quando o prazer barbaramente a ataca. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna.. Que tateando nas tênebras. esculpindo a humana mágoa. Acorda. Reconhecendo. observa a ciência crua. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. E de su’alma na caverna escura. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova.

Na produção do sangue humano imenso. Executando.O ferido que a hostil gleba atra escarva. até que minha efêmera cabeça. entre daveiras sujas. À condição de uma planície alegre.O homicídio nas vielas mais escuras. a desintegre. Prostituído talvez. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Há-de ferir-me as auditivas portas. -. em suas bases. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. Continua o martírio das criaturas: -. Era a canção da Natureza exausta. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. ouvindo estes vocábulos. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. Da luz da lua aos pálidos venábulos.E reduz. entanto. sem que. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . E.. Julgava ouvir monótonas corujas. -.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra..

Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. conversando. A Lua cheia Está sinistra. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo... Dorme soturna a natureza sábia. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Num quiosque em festa alegre turba grita. Vaga no espaço um silfo solitário. A rua é triste. Tonto do vinho.. na mais próxima planície. no apogeu da fúria. exposto ao luar.. Convulso e roto.. das pirâmides o quedo E atro perfil. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Os mastins negros vão ladrando à lua. O Cairo é de uma formosura arcaica. discutindo. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita.. Resplandece a celeste superfície.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. um saltimbanco da Ásia. O céu claro e produndo Fulgura. Embaixo. Apenas como um velho stradivário. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -.

Profundamente lúbrica e revolta. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. de asfalto rijo. a irritar-me os globos oculares. Assombrado com a minha sombra magra. à luz de áureos reflexos. Uivava dentro do eu . Lembro-me bem. Dançavam. atro e vidrento. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. então.. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Pensava no Destino. Mas. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Mostrando as carnes. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. Eu. O trabalho genésico dos sexos. O calçamento Sáxeo.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Copiava a polidez de um crânio alvo. indo em direção à casa do Agra. Atravessando uma estação deserta. Apregoando e alardeando a cor nojenta. na alma da cidade. Eu vi. com a boca aberta. Ponte Buarque de Macedo. A ponte era comprida. Fazendo à noite os homens do Futuro. parodiando saraus cínicos. 129 .. Livres de microscópios e escalpelos. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. E aprofundando o raciocínio obscuro.

Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. É bem possível que eu umdia cegue. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca.Fetos magros. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. Deus me castigava! Por toda a parte. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. E. na ígnea crosta do Cruzeiro. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. como um réu confesso. Ah! Com certeza. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. ainda na placenta. Ninguém compreendia o meu soluço. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. 130 . pelo menos. No ardor desta letal tórrida zona.

cinco. de tal arte. cujas caudais meus beiços regam. três. Ia engolindo. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. estranha. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. em minha boca. Que eu. ansiado e contrafeito. Que. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. 131 . Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. quotidianamente. Na ascensão barométrica da calma. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Eu bem sabia. quatro. para não cuspir por toda a parte. Benditas sejam todas essas glândulas. Sob a forma de mínimas camândulas. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Não! Não era o meu cuspo. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Arrebatada pelos aneurismas. aos poucos. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. à guisa de ácido resíduo. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava.E até ao fim.

lembrava ante o meu rosto.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Perpetravam-se os atos mais funestos. Com a força visualística do lince. A camisa vermelha dos incestos. Um sugestionador olho. a espiar-me. À anatomia mínima da caspa. da cor de um doente de icterícia. Mas um lampião. com as brancas tíbias tortas. Ninguém. Nessa hora de monólogos sublimes. para hipnotizar-me! Em tudo. Iluminava. Livres do acre fedor das carnes mortas. Davam pancadas no adro das igrejas. maior talvez que Vinci. A companhia dos ladrões da noite. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. então. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Buscando uma taverna que os açoite. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. E o luar. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . a rir. Rodopiavam. de certo. Vai pela escuridão pensando crimes. estava ali. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Siva e Arimã. Imitando o barulho dos engasgos. os duendes. ali posto De propósito. o In e os trasgos. sem pudicícia.

E o meu sonho crescia nosilâncio. 133 . E a palavra embrulhar-se na laringe. distingo-a. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. A pedra dura. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. e vence-O. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. em que. Cansados de viver na paz de Buda. Todos os personagens da tragédia. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Como bolhas febris de água.

Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. na glória da concupiscência. E apesar de já não ser assim tão tarde. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Iam depois dormir nos lupanares Onde. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens .A planta que a canícula ígnea torra. Aquela humanidade parasita. igual a um amniota subterrâneo. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. 134 . jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. a sós. Um conjunto de gosmas amarelas. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. Os bêbedos alvares que me olhavam. refletindo. Como um bicho inferior. Fabricavam destarte os bastodermas. aflita. na dor forte do vômito. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. sobre o meu caso Vi que. No meu temperamento de covarde! Mas. berrava.

Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças.. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. 135 . nas catedrais mais ricas. como um cordão. Rolam sem eficácia os amuletos. Numa impressionadora voz interna. Minha filosofia te repele. pior que o remorso do assassino. em tudo imerso. Fazer da parte abstrada do Universo. Nessas perquisições que não têm pausa. embora o homem te aceite. Ao pensar nas pessoas que perdera. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres.e. tal qual.. o eco particular do meu Destino. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. ponto final da última cena.Prostituição ou outro qualquer nome. a morte é ingrata. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. Reboou. por tua causa. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. numa ânsia rara. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Forma difusa da matéria embele. num fundo de caverna. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter.

E se. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. Mesmo ainda assim. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. antes Fosses. 136 . A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. A formação molecular da mirra. a refletir teus semelhantes. sondas A estéril terra. e a hialina lâmpada oca. não como és. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. em síntese. para que a Dor perscrutes. estriada. Trazes. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. com a bronca enxada árdega. o cordeiro simbólico da Páscoa. magro homem. se divide. fora Mister que. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. por vezes. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. espirra.Jamais.

Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. A mentira meteórica do arco-íris. a fera ultriz que o fojo Entra. As projeções flamívomas que ofuscam. as nódoas mais espessas. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. à espera que a mansa vítima o entre. Que ainda degrada os povos hotentotes. abalando os solos. sem mortalha. Na sangueira concreta dos massacres. Lembram paióis de pólvora explodindo. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. O Amor e a Fome. O antagonismo de Tífon e Osíris. 137 . As pálpebras inchadas na vigília. Os terremotos que. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. Onde morreu o chefe da família. Deixa os homens deitados. O fogão apagado de uma casa. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. O achatamento ignóbil das cabeças. Como uma pincelada rembrandtesca. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. As aves moças que perderam a asa. A cristalização da massa térrea. -. O tecido da roupa que se gasta.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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Em cuja álgida unção. como as ervas.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. olhando os campos Circunjacentes. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. 143 . A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. em quaisquer horas. a ameixa. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. Meu ser estacionava. magnânima e magnífica. Benigna água. Criando as superstições de minha terra. o urro Reboava. Além jazia os pés da serra. branda e beatífica. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. a amêndoa. alto e hórrido. A Paraíba indígena se lava! A manga. sobre as hortas. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. Apenas eu compreendo. No Alto. a abóbora. satisfeito. de errante rio. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos.

Reboando pelos séculos vindouros. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Restos repugnantíssimos de bílis. a existência Numa bacia autômata de barro. Alucinado. aos bocados. Vômitos impregnados de ptialina. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. Estas não cospem sangue. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. entre estrépitos e estouros. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. os micróbios assanhados Passearem. OH! desespero das pessoas tísicas. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. dores não recebem. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Adivinhando o frio que há nas lousas. Cortanto as raízes do último vocábulo. 144 . O ruído de uma tosse hereditária. como inúmeros soldados. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Um português cansado e incompreensível.

Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. a água. naquele instante. em sonhos mórbidos. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. A mágoa gaguejada de um cretino. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Saía. resfriando-vos o rosto. magras mulheres. com o vexame de uma fusa. Consoante a minha concepção vesânica. Nos ardores danados da febre hética. com efeito. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. hoje. Onde a Resignação os braços cruza. É a alfândega. me acorda. 145 . Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. no Amazonas. Pelas algentes Ruas. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis.

Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. Recebeu. sem difíceis nuanças dúbias. Jazem. Com uma clarividência aterradora. todas as inúbias. entregue a vísceras glutonas. adstrito à étnica escória. A civilização entrou na taba Em que ele estava. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra..Fedia. Desterrado na sua própria terra. espantada... Na tumba de Iracema!. como um lúgubre ciclone. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. E agora. Ah! Tudo. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. 146 . caladas. Viu toda a podridão de sua raça. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. De repente.. por fim. acordando na desgraça. diante a xantocróide raça loura. tendo o horror no rosto impresso. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . A carcaça esquecida de um selvagem.

Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. roído pelos medos. Todos os vocativos dos blasfemos. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons.: o homem e o ofídio.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Maldiziam. 147 . No horror daquela noite monstruosa. E eu. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. ex. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. rolando sobre o lixo. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. com voz estentorosa. A peçonha inicial de onde nascemos. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas.

Menor que o anfióxus e inferior à tênia. como Cristo. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. em suma. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. porém. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. como um homem doido que se enforca. às vezes. 148 . da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Tentava. o anelo instável De. por epigênese. perante a cova. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Consubstanciar-me todo com a imundície. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Anelava ficar um dia. cansado. Eu voltarei. Sem diferenciação de espécie alguma. Reduzido à plastídula homogênea.E. na terráquea superfície.

Uma.. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. entre oscilantes chamas. à-toa.. análoga era. doentes de hematúria. a saraiva Caindo. Se extenuavam nas camas. alva. Mas.. As prostitutas. embalde.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. para além. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. Quase que escangalhada pelo vício. até que. quando o éreis. com violência. ignóbil. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. De certo.. no horizonte. 149 . Estendestes ao mundo. derreada de cansaço. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. Nem tínheis. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. e. vítima última da insânia. e as mãos. agora.. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia.. virgem fostes. Acordavam os bairros da luxúria.

Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos.De vós o mundo é farto. no chão frio da igreja. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. A consciência terrível desse inseto! Regougando. 150 . A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. Sentia. na craniana caixa tosca. eu. Como quem nada encontra que o perturbe. Como uma associação de monopólio. inquieto. E estais velha! -. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. argots e aljâmias. que a sociedade vos enxota. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. E hoje. A racionalidade dessa mosca. Eu pensava nas coisas que perecem. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. porém.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço.

Rugindo fundamente nos neurônios. roubada à humana coorte Morre de fome. após baixar ao caos budista. Sem ter. assim inchado. escorraçando a festa. sobre a palha espessa. palpável. com o ar de quem empesta. nos braços de um canalha 151 . Já podre. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Quanta gente. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. À falta idiossincrásica de escrúpulo.A estática fatal das paixões cegas. O fácies do morfético assombrava! -. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. estriges voam. em que eu entrei adrede. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. como Ugolino. nesta hora. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. Apareceu. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho.Aquilo era uma negra eucaristia. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Mas. Vem para aqui. E a ébria turba que escaras sujas masca. de repente. Absorvia com gáudio absinto. Pela degradação dos que o povoam. O ar ambiente cheirava a ácido acético. E o cemitério. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas.

Todos os meus cabelos se arrepiaram. ao clarão de alguns archotes. a camisa suada. Pisando. iguais a irmãs de caridade. cheio de vermes. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Comendo carne humana. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Vendo passar com as túnicas obscuras. transgredindo a igualitária regra Da Natureza.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. como quem salta. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Num prato de hospital. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . a alma aos arrancos. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. entre fardos. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Na impaciência do estômago vazio. À sodomia indigna dos moscardos. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca.

Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. De quem possui um sol dentro de casa. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Os raios caloríficos da aurora. Manhã. em vez de hiena ou lagarta. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. déspota e sem normas. Proporcionando-me o prazer inédito. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . No céu calamitoso de vingança Desagregava. E eis-me a absorver a luz de fora. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Dentro da filogênese moderna. Uma sobrevivência de Sidarta. após a noite de seis meses. Absorve. No frio matador das madrugadas. trazendo-me ao sol claro. às vezes. Como o íncola do pólo ártico. O benefício de uma cova fresca. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda.Como indenização dos meus serviços.

O Espaço abstrato que não morre Cansara. numa furna. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. em vão teu ódio exerces! Mas... vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral.. Acompanhava. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. com um prazer secreto. entanto. em colônias fluídas. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. tudo a extenuar-se Estava. O ar que. com os pés atolados no Nirvana. Vinha da original treva noturna. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. a meu ver.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz.. Igual a um parto. oh! Morte. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. Eu sentia nascer-me n’alma. Hirto de espanto. corre. A gestação daquele grande feto.

Coisa hedionda! Corro. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. E agora. Antegozando a ensangüentada presa. Como! E pois que a Razão me não reprime. Com a diferença que Lisboa existe E tu. É a hora De comer. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!.. têm carne. Apenas com uma diferença triste. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. amigo.. Ai! Como Os que. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa.. como eu. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. não existes mais! 155 .. bela como um brinco. Rodeado pelas moscas repugnantes.

Do que essa pequenina sanguessuga. que te esgotou as pomas. O Sol virá das épocas sadias. entre dores. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. a atmosfera se encherá de aromas.. à amostra. E o antigo leão. Há de crescer. comparo. nas vitrinas. Clara. No lábio róseo a grande teta farta -. haurindo amplo deleite. um novo Ser. quanto a mim.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. Assim. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. sujo de sangue.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta.. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. Relembrarás chorando o que eu te disse. sem pretensões. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. oh! Mãe.

também gira e redemoinham. numa ininterrupta Adesão. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Por causa disto. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. nos fortes fulcros. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . as tesouras Brônzeas. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. Os pães -.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes.. roendo a substância córnea de unha. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Tais quais. Magro. haurindo o tépido ar sereno. maior do que Laplace.. eu vivo pelos matos. mordendo glabros talos. com que guarda meus sapatos.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Beber a acre e estagnada água do charco.

apalpa a úlcera cancerosa. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Dorme num leito de feridas. cheio de chamusco. Beija a peçonha. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Úmido. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. Com a flexibilidade de um molusco. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . goza O lodo. no agudo grau da última crise. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. E eu vou andando.

Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Eu. A terra cheira. depois de morrer.. Nos terrenos baixos. No chão coleia a lagartixa. no árdego trabalho. O ar cheira. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. fustigue.. Com a rapidez duma semicolcheia. De árvore em árvore e de galho em galho. Ladra furiosa a tribo dos podengos. salta. depois de tanta Tristeza. morda!. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. em vez do nome -.Augusto . pelo ar. queime. quero. Os ventos vagabundos batem.. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 .E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. Entrançados.. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. corte. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos.. Em grandes semicírculos aduncos. largando pêlos. bolem Nas árvores.. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas.

Une todas as coisas do Universo! 160 . Como um anel enorme de aliança. como exóticos pintores. Viveu. Nédios. Aqui. outrora. em vez de flores. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Os musgos. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. dos esconderijos. batendo a cauda. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. O lodo obscuro trepa-se nas portas. As lagartixas. O aziago ar morto a morte Fede. Trôpega e antiga. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. Por saibros e por cem côncavos vales. Como pela avenida das Mappales. À dura luz do sol resplandecente. Quantas flores! Agora. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Urram os bois. Amontoadas em grossos feixes rijos. sem conchego nobre. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Pintam caretas verdes nas taperas. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Na bruta dispersão de vítreos cacos.

é o óbolo obscuro.. De pé. aqui. Súbito. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares.E assim pensando. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. como quem raspa a sarna.. à luz da consciência infame. da mesma forma que o homem morre.. Só. Que por vezes me absorve. A lamparina quando falta o azeite Morre. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime.. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. sem pai que me ame. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada.. arrebentando a horrenda calma.. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. Grito. com a misericórdia de um tijolo!. À carbonização dos próprios ossos! 161 . Julgo ver este Espírito sublime.

ébria e lasciva. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. Sente. funcionária dos instintos. através os meus sentidos. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que.. Reduzidos. alta noite. a arquivar credos desfeitos. 162 . em contorções sombrias. Ouvem-se os brados Da danação carnal. hórridos uivos Na mesma esteira pública. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. Com as mãos chagadas. E a mulher. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. aliando. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. O Vício estruge. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. como o estepe. Espicaça-a a ignomínia. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. a âmbulas moles. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. por fim. urna de ovos mortos. Bramando. de cabelos ruivos. espremendo os peitos. Lúbrica. recebe. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. Entre farraparias e esplendores. à lua. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. à luz do olhar protervo. em coréas doudas. hirta.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo.. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados.

filha do inferno.. Fulgia. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. de bruços.. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza.. já morta essencialmente. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. E a dor profunda da incapacidade Que. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala.. É o hino Da matéria incapaz. Ei-la.. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório... alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. em cada humana nebulosa.. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se.Chão de onde unia só planta não rebenta. E a Carne que. Na óptica abreviatura de um reflexo. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 .

Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia.. Como o . adstrito a inferior plasma inconsútil. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . sonhos de culminância.O atavismo das raças sibaritas. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. hírcica. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora... Que. Irradiava-se-lhe.. Mas que.. Saem da infância embrionária e erguem-se.. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis.. momentaneamente luz fecunda.. talvez. e a estraga Na delinqüência . impune... Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias.. Libertos da ancestral modorra calma. ânsia De perfeição. Numa cenografia de diorama. Na homofagia hedionda que o consome.. rubros. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo.. decerto.. Ficou rolando. adultos. como aborto inútil. Pudera progredir. radiando.

............................................ ......................................................................... ao trágico ditame.......................................................................... ..... Mordeu-lhe a boca e o rosto.... .............................................................................. .......... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia............... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E............................ .............................. condenada...Sugando a seiva da árvore a que se une! ......................... ................................. Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos.... 165 .......................................................... ............................. .............. ......................... ....................................................................................................... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto....................... oca......................................................................... ........

Porque o amor. é como a cana azeda. ilusão treda! O amor. enfim.. Quis saber que era o amor. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . A toda a boca que o não prova engana. eu que idolatro o estudo.. É Espírito. Oposto ideal ao meu ideal conservas. Pudera eu ter. Como Mársias -. consoante o qual. E hoje que. enfim.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. do egoísta Modo de ver. Diverso é. Cuida. atenta a orelha cauta. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. o observas. provo-a. oposto a mim. poeta.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. entretanto. conheço o seu conteúdo. o ponto outro de vista Consoante o qual. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. este o amor não é que. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. Para que. pois. É assim como o ar que a gente pega e cuida. o egoísta amor este é que acinte Amas. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. por experiência. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. observo o amor. é substância fluida. amo Mas certo. Descasco-a. Imponderabilíssima e impalpável. é éter. chupo-a. Integralmente desfibrado e mole. em ânsias. tal como eu o estou amando.

opresso.. .O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. a tumbal janela E diz. abre.. depois disso. contra ele. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. os monstros zombeteiros. Sem ter uma alma só que me idolatre. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. Como Vulcano. Entendi.. E só. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. que devia. Trabalharei assim dias inteiros. Que importa que. olhando o céu que além se expande: ".. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. no quadrilátero da alcova.. trágico e maldito. com o seu grande grito. trabalhar contente.A maldade do mundo é muito grande. 167 . em ânsias.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!..

E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 .Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. Sobre a cidade geme a chuva. Batem-lhe os nervos. sacudindo-o todo.

Recebiam os cuspos do desprezo. A essa hora. Com os ligamentos glóticos precisos. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. por ver-vos. Como um cara. recebendo injúrias.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias.Dizia. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. O reino mineral americano Dormia. oh! céu. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. 169 .este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. num canto de carro. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. Que forma a coerência do ser vivo. sob os pés do orgulho humano. e erguia. banhava minhas tíbias. e absorve em cada viagem Minh’alma -. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. lhe entregue.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. nas telúrias reservas. E não haver quem. íntegra. alto. E a cimalha minúscula das ervas. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. Rua Direita. Cortanto o melanismo da epiderme.

lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. me pediam. úmida e fresca. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. com a símplice sarcode. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. O vibrião. o ancilóstomo. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. em diástoles de guerra. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 .A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. Mais tristes que as elegais de Propércio. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. Pareciam talvez meu epitáfio. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. com o ar horrível. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. Pela alta frieza intrínseca. Com a abundância de um geyser deletério. Onde minhas moléculas sofriam.

dentro. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Súbito alguém. Parou em frente da mesquita morta. E pelas catacumbas desprezadas. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Feras rompiam tolos e balseiros.. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. ampla e brilhante. Mochos vagavam como sentinelas. Uma vez. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. Eternamente aberta ao sol e à chuva. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. A Lua encheu o espaço sem limites E. Em passo lento. funeral mesquita.. Era uma viúva. e o olhar errante. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . a viúva. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. foi transpondo a porta.Um vento frio começou gemendo. nos altares esboroados. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. . o passo constrangendo.

Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. E sobre o corpo da viúva exangue. contra ela. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . infernais ardendo Todas as feras. E raivosas.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. entanto. arremetendo. Fora. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. Como uma exposição de carnes vivas. Além. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. Morria a noite. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. entretanto.

Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz..A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. ostentando amplo floral risonho. num enleio doce. ao sol. Verde. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente.. em plena podridão.. Rica. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos.. exata. entre assombros.. tenho alucinações de toda a sorte. Atravessando os ares bruscamente. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos.. em luz perpétua. Na ilha encantada de Cipango tombo. Assim. pela vez primeira. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente.. no meio.. brilha A árvore da perpétua maravilha. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. afetando a forma de um losango. quem diante duma cordilheira.. 173 . Qual num sonho arrebatado fosse. A saudade interior que há no meu peito. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. Da qual. Pára. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos.. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. trêmulo.

Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. E finalmente me cobri de flores. Passa o seu enterro!..Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem.. A tarde morre. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos.. Banhei-me na água de risonhos lagos... O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe.. Gozei numa hora séculos de afagos...

BARCAROLA Cantam nautas. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. de cima. Vai uma onda..globo de louça Surgiu. nas Águas. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. esse vai Para o túmulo que o cobre. as esconda. Se um cai. O Céu. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. outro se ergue e sonha. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. em lúcido véu. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. em reflexos. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . A Lua . outro cai.. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. Quem as esconda. Vagueia um poeta num barco. Espelham-se os esplendores Do céu.

. porém.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou.. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. poeta da Morte!" . Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "Viajeiro da Extrema-Unção. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . "Mas nunca mais. forte.. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre...

pois. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Essa luz etereal bendita e calma. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. esplendorosa. oh Pátria. risonho. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. . oh! Redentora d'alma. Oh! Liberdade. levando ao mundo inteiro. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. E ali do despotismo entre os escombros. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. Da República a nova sublimada. Da liberdade ao toque alvissareiro.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Fulgente do valor da vossa glória. Caia do santuário lá da História. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Vós.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. e. Não! que esse ideal puro. A Liberdade assoma majestosa. Como um Tritão. fazei que destes brilhos. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Manchar não pode as aras da República. A República rola-lhe nos ombros.

ao matinal assomo. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. E. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. Estremecendo em suas próprias bases. Passa um rebanho de carneiros dóceis. O amor reduz-nos a uniformes placas. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. Uma montanha que se desmorona... Além. à luz das minhas frases. cantam óperas inteiras. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos.Mas hoje. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo .ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. 178 . Na área em que estou. vendo o horror dos meus destroços. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. desvairado. Aves de várias cores e de várias Espécies. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. nas oliveiras.

à frente dele. demonstrando-a. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E.. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . A inanidade da Ilusão demonstro Mas. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. ébria de fumo e de ópio. heroicamente.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. Da observação nos elevados montes Prefiro.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. à nitidez real dos aspectos. Tal qual ela é.. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. sinto um violento Rancor da Vida . E quando a Dor me dói. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta.

a esmo. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Muito longe. dos grandes espaços. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor.CANTO ÍNTIMO Meu amor. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Passo longos dias. erra. em sonhos erra. em sonhos. Muito longe. se duvidas. Vem cá. Que o amor abriu no meu peito. De lá. olha estas feridas.

Caminha e vai. Neve que me embala como um berço divino. agonia! .. agonia. Frio que me assassina. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . numa delícia infinda. Neve da minha dor. vendo-a. prece que ainda Entre saudades rezo.. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. experimento O mais profundo e abalador atrito. Agonia de amar. a sós.. . Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito.. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. Delícia que ainda gozo. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. amor e frio. escuridão e eterna claridade.Diz e morre-lhe a voz. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia.. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. neve. e o sofrimento De minha mocidade.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. agonia bendita! .. uma nuvem que corre. oração. Sem um domingo ao menos de repouso.. o louco. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor.CANTO DE AGONIA Agonia de amor.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Fazer parar a máquina do instinto. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. Amor. agonia. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. murmura: . Numa prece de amor. triste. ontem. quanto mais me desespero. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. Mas. num volutuoso assomo.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. abraça a sombra e..

Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . funéreo 182 . Mas o braço cansou! Trabalhou. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. Por seis horas seu braço empenhado na luta. Triste. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje.. Fez reboar pelo solo. acende O pó. oito vezes. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo.. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim... do agro solo. foi aos poucos se arrastando. lúgubre e só. e o trabalho . Rasgando. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. a superfície bruta. E o Velho veio para o labor cotidiano. A terra escalda: é um forno. E em tudo que o rodeava. mordendo a atra terra infecunda.

e compreendendo tudo. Caminhava. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto.. Nem viu que era chegado o termo da viagem. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . ele pisasse os trilhos. os filhos. a flux d'água.. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros..o último esforço. onde arde e floresce a Crença. era a turba trovadora Que assim cantava. e a sonhar.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. o Velho caminhava. a rugir-lhe aos pés. o precipício estava.. o peito arqueou-se. pois! Somente morreria Se da Vida.. avistando uma frondosa tília Julgou.. avistar a Árvore da Esperança. a toa. o acalenta. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. tombando. louco. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. Num instante viu tudo. flutua! Ninguém o vê. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. o cansaço Empolgara-o. ninguém o acalenta. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. bêbado de miragem. a família! Não morreria. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. Quis fazer um esforço . E amplo.. sozinho. e o braço Pendeu exangue..

dourando as névoas dos espaços. Negras. mudo. Subindo á majestade do Infinito. sangrento O sol. luminosas... A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. mudo.. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. ígneo.Asas de corvo pelo coração. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. pompeiam (triste maldição!) .Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. a Sombra .IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. Trazem no peito o branco das manhãs 184 .. Descem os nimbos. Raios flamejam e fuzilam ígneos. . rubro.. Além. E a Noite emerge.ocaso nunca visto. e. volaterizadas.. aos astrais desígnios. Atros.eis tudo! E no meu peito . santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. E há no meu peito . Na majestade dum condor bendito.condensada treva A sombra desce. mudo. fulvos. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. alvas.

Como Herculanum foi após as chamas. III De novo. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. ciclópico. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. Sírius me deslumbra. o tigre. se. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. ontem moribundo. há-de Alva. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. assassino Ébrio de fogo. E corno a Aurora . Mais em meu peito uma ilusão se enterra. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. se erguer. como se esses raios N'alma caindo. Fantástico. O leão. 185 . Ah! Como tu. se tornassem ferros?! IV Poeta. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. a lesma. A Mágoa ferve e estua. se. de que serve. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. Vésper me encanta.hóstia da Aurora. curvo ao seu destino. lodo. em plena e fulva reverberação. entre esplendores. Hoje de novo. A alma se abate. em lodo tudo acaba. o mastodonte. a Aurora..o Sol . e hás de ser após as chamas.. como tombou outrora. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. em vão na luz do sol te inflamas. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois.

sobe ao pedestal. pelas escarpas. Iluminando as serranias. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. e minh'alma cobre-se de flores . de ossos. E arrasta os coraç5es pela Descrença. Ergue.. pois poeta. Medonhas valas. como abutres Medonhos. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. Canto. Como recordação da festa diurna. pelas penedias. Sírius me deslumbra.Fera rendida à música divina. a Lua que no céu se espalha. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. E foi deixando essas funéreas. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. e. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar.. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . Então. banha As serranias duma luz estranha.Arrasta as almas pela Escuridão.. foi valas funerais deixando. Vésper me encanta. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. de ilusões te nutres.. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. frias.. Pelos rochedos. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. onde. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte....

INSÔNIA Noite. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. Depois de embebedado deste vinho. eu também vou passando Sonâmbulo. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. 187 .... E invejo o sofrimento desta Santa. Mas.. sonâmbulo.. triunfalmente. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. A dispersão dos sonhos vagos reuno. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. em mágoa. sonâmbulo. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. nos céus altos....

os corimbos.. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. por exemplo. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . Recordam santos nos seus próprios nichos. hedionda.. equilibrando-se na esfera. estronda Como um grande trovão extraordinário. batendo na alma. Agora. Cercado destas árvores. em mágoa imerso. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. O Sol. as flores. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. neste silêncio e neste mato. porém. Aqui. Estou alegre.Vagueio pela Noite decaída. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Atro dragão da escura noite. As árvores. Em que o Tédio. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá.. Com o olhar a verde periferia abarco.. o funerário. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de.

barro. "Onde nenhuma lâmpada se acende. Presto. De onde. Olho-o. os beiços na ânfora ínfima. "Onde os ventres maternos ficam podres. ébrio.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo."Cinza. por epigênese geral. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. porque um. Olho-o ainda. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. certo. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. síntese má da podridão. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. é mais de um. aparece. Mergulho. amorfo e lúrido. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. Risco-o Depois. irrupto. E o que depois fica e depois Resta é um ou. "Miniatura alegórica do chão. a esvaziar báquicos odres: . harto. Todos os organismos são oriundos. Dois são.Mucosa nojentíssima de pus. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . através ovóide e hialino Vidro. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . por outra. "Na tua clandestina e erma alma vasta. e na ínfima ânfora.

De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. Na síntese acrobática de um salto. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco.. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. cósmico zero. Sob a morfologia de um moinho.Do mundo o mesmo inda e. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. ora. Depois. é o céu abscôndito do Nada. sois vós. do meu espírito. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. sozinho. que. sou eu. em segredo. mônada vil. dentre as tênebras. muito alto. Move todos os meus nervos vibráteis. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Migalha de albumina semifluida. na terra instável.Zooplasma pequeníssimo e plebeu.. como nunca outro homem viu. Em que todos os seres se resolvem! 190 . Vida. o que nele Morre. Então. Se escapa. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota.

. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.. Adeus! Que eu veio enfim. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. E eis-me outro fósforo a riscar. De onde quimicamente tu derivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas.

chora e se lamenta e vibra. Troa o conúbio dos amores velhos .. davas brandindo em seva e insana Fúria.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. .Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. 192 . e toda a alma Enches de beijos de infinita calma.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . E. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. lembras. Ora..ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. Sinos além bimbalham. tangendo tiorbas em volatas. medras Nalma de cada virgem. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. Retroa o sino. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. E em tudo estruge a tua dúlia . bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas... Amor. vezes. Cantas a Vida que sangrando matas. . Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! .

eis-me de ti cativo! Cativaste-me.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. ontem. pois. fosforeando. Irene. impassível! Esta de amor ode queixosa. 193 . quando Entre estrias de estrelas. Irene. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. beija os áureos pés dos ídolos.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. Assim. sonhei-a. Cativo. aos astros. . Entre timbales e anafis estrídulos. esse poder terrível.Essa dominação aterradora . Quedo. Irene. e eis o motivo. Eis o motivo porque fiz esta ode.

Da qual. bruta. berrar. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. Trinta e seis graus à sombra. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. Dentro. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. E eu nervoso. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. Quase com febre. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. ao meio-dia. irritado. erguido do pó. tinir. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. Inopinadamente 194 . No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir.

A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. A ouvir todo esse cosmos potencial. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. .O ígneo jato vulcânico Que. afinal. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 .

divina.QUADRAS Embala-me em teus braços.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Eu quero o meu Calvário . Morreu-te a redolência. E dá-me assim. Aperta-me em teu peito..Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. Assim como Jesus. Aperta-me em teu peito. De lírios e boninas Um veludíneo leito. oh! morena . Embala-me em teus braços! 196 .. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. perdeste a ciência.

O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. e. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . Aumentam-se-me então os grandes medos.. em suma. 6. No bruto horror que me arrebata. duas. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . três. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. E aos tombos. tonta Sinto a cabeça e a conta perco.. Dói-me a cabeça.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E.. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo..Uma. 3 de maio. A conta recomeço. em ânsias: .ª-feira. embora a lua o aclare. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra.. Tenho 300 quilos no epigastro.Uma.. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. quando a noite cresce. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. através do vidro azul.. Vista. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre.. quatro.

Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. O suor me ensopa.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa... numa festa. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Cinco lençóis balançam numa corda. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse.. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas.. E o amontoamento dos lençóis desmancho. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram.. A luz fulge abundante 198 . Tomba uma torre sobre a minha testa. Meu tormento é infindo.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . Acho-me.. . A lua é morta.Sucede a uma tontura outra tontura. Mas aquilo mortalhas me recorda.. .. Ponho o chapéu num gancho.. Tal urna planta aquática submersa. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . por exemplo.."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Por muito tempo rolo no tapete. Súbito me ergo.

De mim diverso.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. cheia de adubos. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. o céu. a terra resfolega Estrumada. A ouvir. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. Côncavo. Babujada por baixos beiços brutos. longe do pão com que me nutres Nesta hora. No húmus feraz. no ato da entrega Do mato verde. Broncos e feios. em diâmetro. numa última cobiça. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. feliz. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. passei o dia inquieto. radiante e estriado. observa A universal criação. Vários reptis cortam os campos. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. hierática. Entretanto. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque.

em sangue. Monstruosíssimas mãos. Umas. Mãos adúlteras. Mãos que adquiriram olhos. a delinqüentes natos. às da neve.. tentáculos sutis..MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais... Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. a farpas de rochedo Completamente iguais. Outras. pituitárias Olfativas. E à noite. Pertencentes talvez. ás dos cristais. vão cheirar. Assinalados pelo mancinismo. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. negras. 200 .

Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda.. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros.Tufos de goivo em conchas de esmeralda. plangente. Guarda a saudade que levou do Mame.a Carne. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Mas neste sonho. Pareces reviver a antiga Ofélia. oh Quimera. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. pálida camélia. Sonho abraçar-te. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. E como um nume de pesar. Rola a violeta santa dos teus olhos . Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Opalescência trágica da lua! Tu. . E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 .. langue e seminua.

num ruidoso borborinho Bruto. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. E. era só O ocaso sistemático de pó. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. No desespero de não serem grandes! 202 . Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. na escuridão. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. uivando hoffmânnicos dizeres. com uma vela acesa. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. Aves com frio. com soluços quase humanos. Aprazia-me assim. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Cruzes na estrada.. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. enquanto eu tropeçava sobre os paus. análogo ao peã de márcios brados.. Eu procurava. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. como num chão profundo. O feto original. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. Convulsionando Céus. Choravam.

Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. de onde se vê o Homem de rastros. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. horrenda e monótona. Fluía. uma voz 203 . Noite alta. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. frias como lousas. A abstinência e a luxúria. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. ao colher simples gardênia. vingadora. perdido no Cosmos. me tornara A assembléia belígera malsã. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. Mas das árvores. Maior que o olhar que perseguiu Caim.Vinha-me á boca. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. assim. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. com a sidérica lanterna. Brilhava. na ânsia dos párias. Como o protesto de uma raça invicta. Onde Ormuzd guerreava com Arimã.

entres Na química genésica dos ventres. na ânsia cósmica.Tão grande. Porque em todas as coisas. arvoredos desterrados. Para esconder-se nessa esfinge grande. com a febre mais bravia. oh! filho dos terráqueos limos. choramos. Tragicamente. afinal. a espiar enigmas. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. iceberg. enquanto Deus. Rasgando avidamente o húmus malsão. obscuro. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. isto é. amanhã píncaros galgas. montanha. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. Se hoje. árvore. Não trabalham.. Para erguer.. em suma. pois. que. Crânio. tão profunda. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. diante do Homem. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. porque. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . do Equador aos pólos. Rimos. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. ovário. Na prisão milenária dos subsolos. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Nós.

a escalar Céus e apogeus. desgraçadamente magro. alheio ao mundanário ruído. Eu fora. Eu. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. astro decrépito.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. em destroços. naquela noite de ânsia e inferno. a erguer-me. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . A voz cavernosíssima de Deus.

Para pintá-lo. é o prélio enorme. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito..QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. rolando dos últimos degraus. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. pela boca. em coalhos.. E muitas vezes a agonia é tanta Que. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. Na ânsia incoercível de roubar a luz. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. quero até rompê-las! Quero. armado de arcabuz. 206 . arrancado das prisões carnais. As minhas roupas. entre estes monstros. Minh'alma sai agoniada. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Viver na luz dos astros imortais. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. no combate. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra.

Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Seja este. A bênção matutina que recebo. é inútil. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. E é tudo: o pão que como.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. E tombe para sempre nessas lutas. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 ... em suma. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. é improfícuo. faz mal. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. enfim..esta arca. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã.. a água que bebo.

.. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. em trajes pretos e amarelos. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. Mas de repente. à meia-noite. estudo.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. Sai para assassinar o mundo inteiro. Então meu desvario se renova. abrindo todos os jazigos. numa cova. sozinho. Intimamente sei que não me iludo. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 .POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça.. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. e a mim pergunto. -...Faminta e atra mulher que. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. come. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. a 1 de Janeiro. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Como que. A Morte. Corro.. na vertigem: -. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. ouvindo um grande estrondo. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. rio Sinistramente.

Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança.. Eu desafio. Com as longas fardas rubras.. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. em grupos prosternados. É Sexta-feira Santa. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Perante a qual meus olhos se extasiam. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. acorda em berros Acorda. Quis ver o que era. e após gritar a última injúria. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Deixa-te estar.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. canalha... e de declínio Em declínio. como a gula de uma fera. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. desta cova escura. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . Amarrado no horror de tua rede. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Vi que era pó.. Tu não és minha mãe. Como as estalactites da caverna.. que em mim dorme. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. Por tua causa apodreci nas cruzes. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. e quando vi o que era.

Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. Desperto.. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . Na Eternidade. e a gente. A árvore dorme Eu.. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. O céu dorme. no ar de minha terra. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. Como as chagas da morféia O medo. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. Roma estremece! Além.. A desagregação da minha Idéia Aumenta. As luzes funerais arquejam fracas.Um esqueleto. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Na molécula e no átomo. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta.. vendo-o. quieta. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. O vento entoa cânticos de morte. Dentro da igreja de São Pedro. somente eu.

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