EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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................................................ 186 Insônia .................................................................. 155 Mater ...................... 156 Gemidos de Arte ... 200 Mãos .......................... 183 Gozo Insatisfeito ................................................ 184 Idealizações ................... 170 A Vitória do Espírito .................................................. 199 Tristezas de um Quarto Minguante ...... 195 Numa Forja ........................................... 204 Viagem de um Vencido .....................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ..................................................................................... 157 A Meretriz ......................... 173 A Ilha de Cipango ........................................................................................................................................................................................... 168 Noite de um Visionário ................................................................................. 190 Mistérios de um Fósforo .................................................. 175 Barcarola ................................................................................................................................................. 179 Estrofes Sentidas ........................................................... 209 Poema Negro ....... 166 A Luva . 162 Versos de Amor ........ 129 A Caridade .................. 192 Ode ao Amor .............................................................................. 197 Quadras .................. 205 Queixas Noturnas ......... 176 Ave Libertas .............. 155 Duas Estrofes ....................................... 203 Vênus Morta ...... 183 História de Um Vencido ....... 180 Canto Íntimo ...............123 Uma noite no Cairo .. 141 Os Doentes ......................................................................................................128 As Cismas do Destino ..................................................................................................................... 142 À Mesa ...................................................................... 212 5 ......... 182 Canto de Agonia ....................................................................................................................

Gráfica Ouvidor. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. na chaga viva de sua consciência. Deste modo. Não me parece. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. isto é. no que há de mais sutil e imponderável. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. e era aí. na verdade. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. RJ. senão em mais de um. pois. Sua personalidade singular ali se projeta. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. segundo as síndromes patológicas revelados. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. Por conseguinte. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. É preciso. numa atitude de respeito e reflexão. Nessa tentativa de interpretação psicológica. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. ao menos. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Teria sido um neurótico para uns. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. compreendendo inclusive a estilística. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. em suas mensagens de angústia. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. o eu fora do Eu. entrava em crise espiritual. ed. desejosos de. nos moldes da velha orientação impressionista. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. contudo. que o não convencia de todo. 1962) 6 . nesse estado de superexcitação. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. quando. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. Nalgum ponto. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. poder conhecer a árvore pelo fruto. Fazer o elogio do poeta. um psicastênico para outros. paremos reverentes à porta do templo. não conhecemos sequer a nossa. que é de todas a menos operante. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano.

que já era constitucionalmente quase louca. aos que se rebaixam para subir. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. fobias. enfim. tem sido Augusto comparado a Leopardi. Juízo é coisa que todos julgam ter. A mãe do poeta. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. por vezes controvertidos. nas modalidades do caráter. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. aos que se acomodam. todo o seu temperamento emocional. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. a de Nietzche. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. nem os que vieram depois. Assim como a mãe de Augusto. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . causada pela perda imprevista de um irmão querido. a de Wilde. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. na classificação dos antropologistas do século passado. de fundo genético. Ao que se sabe. perturbou-a por muito tempo. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. Obviamente. E por curiosa coincidência. do sentimento. o refinamento de suas faculdades morais. como é do gosto da crítica científica. reduzir tudo a categorismo. não há negar também a dos psicológicos. da inteligência. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. a de Byron. igualmente inteligentes. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. Byron. Nem os que nasceram antes. Nietzche. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. além mesmo da gravidez. sobre o seu caso clínico. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. sestros. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. não é possível interpretar a obra de um escritor. caracterizado por uma sensibilidade doentia. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. Pai e irmãos passavam por normais. menos a de Byron. tiques nervosos. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. que nada explica. enfim.for. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. no final. choques emocionais. sobretudo quando provém da linha materna. a de Leopardi. estudante de medicina. com preocupações de grandeza e fidalguia. só ele dava a impressão de um desajustado. Augusto não era um homem igual aos outros. por motivos vários. em relação com a casuística. Isto posto. Por seu parentesco espiritual. Sem o concurso da causa primária. Explica-se deste modo. repetindo conceitos. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. a partir de Lombroso. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e.

começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. para maior complicação de sua personalidade. em prefácio à segunda edição do Eu. os quais o acompanhariam. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. em Monólogos de uma Sombra. Sílvio Romero. inspirado na natureza e no amor. Deste modo. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. Alexandre dos Anjos. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. Nada de admirar. estavam a fazer dele um lírico. segundo os primeiros retratos que temos dele. A par disso. como uma fatalidade. guiado apenas pela ilustração paterna. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. que a metafísica estava morta. ao invés de um estudante bisonho. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. saído da roça. A paisagem bucólica da várzea. cinco anos após a sua morte. sofregamente bebida nas academias. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. Muito cedo. bradava para o conceituado mestre que o argüia. para aprazimento intelectual das elites. o seu tipo de pássaro molhado. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. O que há de singular nele não é. O rapazinho de 16 anos. aprendeu a ler e. Coelho Rodrigues. mas no final 8 . Já em 1875. sem afastar-se do lar. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. cuja vida corria sem obstáculos. mas não era somente isso. que lançou em 1919. a quietude da vida na província. visto ter nascido poeta. em sua linha tomista. Com seu pai. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. em 1900. logo mais. do Eu. com o título Eu e Outras Poesias. no último ano do século passado. dr. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. em contraste com a mocidade e a inteligência. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. era um introvertido. a rigor. Falava nele o positivista que. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. como expressão do pensamento nacional. na várzea do Paraíba. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. sofreu duros reveses. até o túmulo. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. a sua própria vida sem problemas. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. Logo mais. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”.Augusto com a sua personalidade psicológica. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. conforme disse num soneto que não consta. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. Era de fato um excêntrico. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. evolvia para o evolucionismo de Speneer.

um século antes de Hugo. já no seu ocaso. suportou a mais dura crise. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. em seu livro Frases e Notas. Os menos letrados. emancipou-se dela intelectualmente. Até no Piauí. a velha Escolástica. adepto do positivismo. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. já lidos nos filósofos da natureza. Nas rodas que se faziam na Paraíba. Desta forma. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. Ainda na fase preparatória de estudos. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. O beatério era o último reduto do catolicismo. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. proceda ou não proceda. ou mesmo. Esquisitão que era. Desses embates. em sua. conciliada. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. Aliás. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. nas concepções filosóficas de seus poemas. isto é. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. tentou o milagre de 9 . de onde saiu formado em 1907. introduziu entre nós a poesia científica. como toda substância animada. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. se o diabo é tão feio como o pintam. Comte passou. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Na Paraíba. aliás bem pouco lisonjeiro. desde Haller. mas a origem simiesca do homem. faziam praça de livres pensadores. Ao que parece. dupla feição de filósofo e de poeta. Martins Júnior. os intelectuais mais dotados. aliás. ficava a escutar os companheiros. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. o pensamento ao longe. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. com a evolução da matéria e do espírito. que. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. Laurindo Leão. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. de que católico era sinônimo de burro. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. Por todo o Nordeste. está sujeita também ao processo da evolução. como uma velharia do século. Embora educado na religião católica. a exemplo de Victor Hugo. José Américo de Almeida. que só cuidava de preocupações teológicas. confundidas ambas na unidade cósmica. firmava-se o conceito. entre o mundo da forma e o mundo da razão. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. Augusto pouco falava.

Vejamos. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. Quem já o leu uma vez. numa caminhada de 31 estâncias. até adquirir a forma humana. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. Larva do caos telúrico. na larva que procede do caos telúrico. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. Da substância de todas as substâncias. Rimbaud escrevera Bateau ivre. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. A partir da monera. todavia. Não há. Integrado na sociedade. E assim continua.. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Do cosmopolitismo das moneras. como bem observa Cavalcanti Proença. A saúde das forças subterrâneas. Encontra-se. E é de mim que decorrem. identifica-se na substância primeva. já desiludido. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. já diferenciado na mônada. facilmente o identifica. A simbiose das coisas me equilibra. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. que passou do reino vegetal para o animal.. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. e—crente no tema. depois de infinitas transformações. Em minha ignota mônada. fundado na unidade cósmica. trinta anos antes. Não sofre apenas a sua dor. 186 versos. O aspecto conceptual do poema. ampla. Venho de outras eras. terso na linguagem.. por força das sucessivas mutações da matéria. como amostra.. ora transfigurado em sátiro vilíssimo.reduzir a um campo único a ciência e a arte. que é a derrota da humanidade. ora transfigurado em filósofo moderno. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. Aos 17 anos. começa então o drama crucial da consciência. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. enfim. procedo Da escuridão do cósmico segredo. É a sua confissão de f transformista. Pólipo de recônditas reentrâncias. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. chega aos seres mais complexos. incomparável na forma musicada. a consciência 10 . “esse mineiro doido das origens”. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. poema que abre o Eu e Outras Poesias. simultâneas. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. nas duas composições uma coincidência de temas. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. naquela mesma idade em que. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora.

no entanto. com sótão e porão. o sofrimento de toda a humanidade. entrega-se ao sacrifício. Nada obstante. como está dito em Monólogos de uma Sombra. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. o vidente de Patmos: . Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. natural de minha terra. Por alma. cuido não estar proferindo uma heresia. o que vale dizer. centro de toda a acuidade sensorial. uma espécie de fogo que devora e não consome. A partir dai. no princípio era a força. já havia dito. dezenove séculos antes. A mesma coisa. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. É a concepção monística. que a ele não interessava considerar. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. temos aí um transformismo metafísico. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . O próprio Augusto. diante das maravilhas do aparelho encefálico. que tinha os ouvidos totalmente tapados. Nesse estado d’alma. numa espécie de solidariedade subjetiva.conspurcada de gozo malsão. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. No fundo. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. segundo querem os frenologistas. dentro do mundo fenomenal. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. há que distinguir um pormenor. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. Por fim.No princípio era o Verbo. ouvia mais que um tísico. o remorso já acordado na caverna escura. assombrado com o não-ser. noção trivialíssima das funções orgânicas. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. em esconderijos apropriados. entendia o agregado abstrato da saudade. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. No tocante à transformação da matéria. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. conheci um sujeito. tantas vezes exaltada pelo poeta. chamando a si. manifestou o seu espanto. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. A rigor. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. do ponto de vista metafísico. que faz quase lembrar a reencarnação. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas.

na melhor das suposições. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. o éter cósmico. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. Exausto da luta. cadáveres e bocas necrófagas. procura penetrar o mistério da substância universal. uma natureza gasta. o lado malsão da vida. No auge da inquietação. filho do carbono e do amoníaco. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. Custa crer que este soneto . rasgar do mundo o velário espêsso.Psicologia de um Vencido .tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. fonte inesgotável de vida. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. só serviu para adensar o clima de alucinação. A influência má dos signos do zodíaco. onde imperam sombras. Sofro. Este ambiente me causa repugnância. a matéria putrefata. Já o verme . Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. desde a epigênese da infância. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. Profundissimamente hipocondríaco. procura 12 . que é o Deus materialista de Haeckel.. O próprio amor. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. E há-de deixar-me apenas os cabelos. dominado por um ceticismo acabrunhador. Querendo fugir a essas coisas.Fazer a luz do cérebro que pensa. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. Por toda parte. sem problemas materiais: Eu. Em tudo. onde não há lugar para a alegria.este operário das ruínas. Ao invés de fecundação do espírito. admite o éter. causa-lhe repugnância. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Nem por isso admite Deus. vermes. solta blasfêmias. impreca.. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. servindo de pasto a uma civilização corrompida. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. O mundo em que vive é um vasto hospital. Monstro de escuridão e rutilância.

Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. podia fazer dele um triste. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. evadido de si mesmo. com efeito. O subconsciente o aturde. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. Com efeito. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. nem Haeckel compreenderam. Tudo isso. já cansado de escutar a natureza. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. deve ter acontecido na sua juventude. o Eu e Outras Poesias. em suas visões oníricas. Espera aí encontrar o seu nirvana. gasta imensas energias e enche de culminâncias. diz ele. Há. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. não há homem que sofra mais.. E para não capitular a esse apelo. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. a terrível moléstia que se atribui. seria capaz de executar o quadro de suas aflições.. tenta ir ao fundo da crença monística. Até agora 13 . Por um instante. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. que os anos não carcomem. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. acompanham-no. paralelamente. que ele denomina um sonho ladrão. Onde quer que se refugie. coberto de desgraças. que exulta triunfante: Gozo o prazer. Mas o diabo não larga a sua presa. com o poder de sua imaginação. E via em mim. O resultado de bilhões de raças Que. Depois disso. como se supunha. Nenhum pintor. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. numa atitude mental de fuga à realidade. Grita a sua dor por toda parte e. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. Antes de mais nada. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. uma desgraça na vida do poeta. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. no todo ou em parte. Algo de mais grave. E é nesta manumissão schopenhauriana. a perda da crença e. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça.refúgio na inexistência espiritual. sente o desejo. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. A julgar pelos seus gemidos. monstros terríveis. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme.

dada a ausência de biografia. .. Por mais que Augusto negue o amor. no capítulo do amor. pois. no tocante a esse drama. Exatamente aí. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Iríamos a um país de eternas pazes. não pode ocultar que foi vítima dele.. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Por enquanto. Por mais que procure fugir ao assunto. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Lembro-me bem. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. inútil seria qualquer esforço. em . Gozei numa hora séculos de afagos.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. desespero virtual e não real. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Trata-se. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Ele próprio.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor.. sempre se revela. que é o drama mais doloroso de sua consciência. Por suas próprias palavras. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. de uma paixão.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

.extravasava desta forma o seu lamento: 19 .referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada..santa. Noite. em mágoa. Sonâmbulo. O poeta. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. Sonâmbulo. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. eu também vou passando Sonâmbulo. como em . Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. Como um bemol ou como um sustenido. como é sabido. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. nunca foi chegado a santos.Queixas Noturnas .. contrito. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido.Insônia . Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. E invejo o sofrimento desta Santa.... Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Depois de embebedado deste vinho. ao mesmo tempo que. mas no poema . que não é das mais invocadas. confessa mais uma vez a sua culpa. surpreende com a invocação de Santa Francisca.

apenas três vezes. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei.brada: 20 . Da mãe. Como Elias. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. pouco fala. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. expressa a sua mágoa numa comovente unção. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. luta por fugir dela. Ao pai. A morte é o fim de tudo. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido.. entretanto. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. sonhando. Minha alma sai agoniada. Mãe. não para ele. Rezo. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. que não admite a vida espiritual. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. o ofício da agonia. como perseguido pela sinistra ceifeira. mas para os que crêem há ainda uma esperança. Mas pareceu-me.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. dormir primeiro. sem resolver a verdade interior. que parece se deixou levar por pressão da família. Em . Ao vê-lo morto. entre estes monstros. ama-o até mesmo na atômica desordem. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Madrugada de treze de janeiro. quando a morte o olhar lhe vidra.As Cismas do Destino . Nem uma névoa no estrelado véu. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. como referiu vagamente em As Cismas do Destino.. num carro azul de glórias. entre as estrelas flóreas.

Acha Flósculo da Nóbrega.. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. devia ter na época. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. embora ansiasse por encontrá-lo. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. Ao invés de ajustá-lo à realidade. Forma difusa da matéria imbele. não cria em Deus. Vivia um mundo à parte. Nada o consolava nesse estado de espírito. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada.. ponto final da última cena. E ainda. Aqui. Procura assim desoprimir o coração.. habitado por monstros humanos. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. Minha filosofia te repele. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. ardendo em indagações subjectivas. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes.Morte. Já que não crê em Deus. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. 22 anos de idade. Por tua causa apodreci nas cruzes. que Augusto era um cerebral. Não me parece tenha razão 21 . E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. quando recebeu os 22 açoites da natureza. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. como em toda a obra. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. escravo do raciocínio frio. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade.. levava-o a recolher-se em si mesmo. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. as palavras também servem para ocultar o pensamento. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. cheio de imperfeições. Nestas condições.

como um sonâmbulo. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. volta-se vez por outra contra a sociedade. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. que só repugnância lhe causava. Era. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. que o acolhia com carinho. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. Nem ele próprio se conhecia. entrava em crise espiritual. um homem excluído do mundo. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. ao contrário. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Na luta em que Augusto se debate. no caso. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. além de pouco. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. noite a dentro. ao redor da capela do engenho. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.o ilustre intelectual paraibano. Fosse como ele diz. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. mas porque se sente um desajustado. os de maior densidade emocional. Não que tenha recebido ofensas dela. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. Punha-se então a passear. em 1912. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. Desta. Depois que o poeta deixou a Paraíba. O que produziu no sul do País. conforme declarou nesta honesta confissão. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. andar bamboleante. mas no particular. De um modo geral. de vez que ninguém o compreendia. Ao contemplar esse ambiente. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. e a mim pergunto. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. sua musa empalideceu à falta de ambiente. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. No fundo. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. tinha-se na conta de um doente. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. passos largos. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. nunca recebeu hostilidades. foram produzidos no Pau D’Arco. Os seus melhores versos. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. Há. A inspiração despertava com a dor. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. o cérebro em fogo. contudo. torturado no sentimento do desamparo. que o 22 .

Em As Cismas do Destino. imaginária cidade à margem do Paraíba. Já cansado do ceticismo. numa emoção que comove. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. como se já tivesse perdido o alento de viver. atormenta-se com a idéia de que. sob os seus pés.próprio poeta confessava. pois. De início. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Mais adiante. os acordes saudosos do coração. 23 . eis que escuta. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. confessa-se minado pela tuberculose. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. Não há. como ele chamava. aliada à descrença. Na ascensão barométrica da calma. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. como um arrependido. Era ali. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Perdido o amor. perdeu também a crença. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. passa a chorar a sua dor e a alheia. hosanas ao Senhor. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. fez dele um misantropo. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. Essa real ou imaginária doença. Depois disso. Eu bem sabia. num desalento ainda maior. à guisa de ácido resíduo. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Parece que desperta para a vida. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. ansiado e contrafeito. “na urbe natal do Desconsolo”. que admirar chore um dia a crença perdida. entra a descrever a cidade dos lázaros. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. na terra onde pisava. onde os anjos cantavam. em Os Doentes. o soneto Vandalismo. em serenata. Lá para o fim do poema. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua.

Álvaro de Carvalho. Santos Neto. era apenas o meio de formular soluções. Nesse decurso. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Onde um nume de amor. Flóscolo da Nóbrega.. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. chegou a dizer que Augusto não era poeta. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. ler. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. há sempre o que referir. No final de contas. José Américo de Almeida. Raul Machado. Enfim. quase todos. que se afundava a alma do poeta. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas.. já na 27ª edição. Ao contrário da incontinente afirmativa. No desespero dos iconoclastas. em gemidos de dor. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Não é. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. Dos outros. apenas como autor de um livro apologético. Assim é que. que não é biografia e não chega a ser estudo. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. por exemplo.Meu coração tem catedrais imensas. na Academia Paraibana de Letras. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. posto que. Templos de priscas e longínquas datas. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. gostar e não gostar é coisa que se não discute. este último. A arte. João Lélis. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. tenham bordejado na superfície do abismo em. para ele. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. destaco Órris Soares. Sabe-se como compunha. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. João Lélis e De Castro e Silva. em serenatas. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. muitas opiniões foram veiculadas. Sua obra. Canta a aleluia virginal das crenças. pois.

essa linguagem. entrava disciplinada em seus versos. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. disse que uma das suas forças. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. Foi então que recitou de inopino. sobretudo da crítica provinciana. impressionam pelo poder da dialética. vermes. Por tudo isso. Neles. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. túmulos. na época. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. que pretende ser de interpretação psicológica. Essa crítica. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. este na prosa. lá fora. como lamenta o crítico. como em compasso de música. sangue de vísceras dilaceradas. o sentimento parece ter outra dimensão. a densidade. associado à vibração sonora. Cavalcanti Proença. o que acabava de compor. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. claro que avulta ainda mais o seu mérito. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. No entanto. escarros. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. Em ter ficado sozinho. o que era. Os versos espoucavam no momento da inspiração. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. olhar perdido no espaço. Órris Soares. Em ambos. reside justamente no termo técnico. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. lábios crispados. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. à primeira vista incompatível com a poesia. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. de um a outro canto da sala. a sua personalidade psicológica. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. insulado em sua própria grandeza. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. com efeito. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. duendes. o outro 25 anos depois. num timbre especial de voz. a passear a esmo. que não tenha fecundado a poesia nacional. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. enquanto forjava mentalmente a composição. Seus versos. figuras espectrais e outras visões sinistras. Só depois de elaborada é que ia para o papel. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. Euclides da Cunha. Poe e Rimbaud. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. entre nós. um em 1920. Muitas vezes. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. também 25 . Essa incompreensão a respeito de Augusto.devoradoras. em 1945. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética.

O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Eis porque. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Nem por isso. Com Verlaine. Mas é preciso notar que essa musa. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. 26 . Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Ou então. como se vê. reconheça-se que essa poesia é humana. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. no duelo da carne. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. é mais uma aversão de olfato alérgico. Com Baudelaire. Há. na interpretação de um drama emocional. que apenas transparece em linguagem evasiva. elogios ou restrições. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. Com Mallarmé. pela tristeza indefinível da alma. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. de sentido mais profundo. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. aparelhou. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual.ficaram sem seguidores. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. a fim de atingir. por isso mesmo poética. não lhe tira o vigor da expressão verbal. nem tudo pode ter cabimento. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. O anojamento de Álvaro de Carvalho. Não pode o critico ser ortodoxo. com efeito. está em tempo de ser feita. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. neste ensaio de exegese literária. num dos seus últimos sonetos. mesmo doentia. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. pelas crises espirituais porque ambos passaram. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta.

num artigo publicado em 1914. desde a sua fase inicial. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. assentado sobre cacos de pote e urtigas. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Augusto lembra Rimbaud. palavras raras e eruditas. encontra-se em Roma. Também no amor os dois se assemelham. só nesse ponto dissimula o pensamento. havia acentuada tendência do poeta. a idéia pura das coisas. de mistura com alucinações.através da sensação. de uma honestidade quase bravia. guardando o corpo do Divino Mestre. um mês após a morte de Augusto. vem o barulho das matracas. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. como neste exemplo: 27 .” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. temida pelo outro. a filosofia da dor. Segundo Delahaye. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. citado por Augusto Meyer. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. Até nas aliterações e metáforas. por sua natureza. foi José Américo de Almeida. “Na Eternidade. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. Encontra-se. De lá de fora. Com Antero do Quental. para a neologia e o vocábulo raro. na terra santa. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. sensações simples e cenestesias. em tropos ousados. crematismos. no ar de minha terra. É. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. Com Leopardi. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. Vez por outra. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. A mesma coisa ocorre com Augusto. um grande medo toma conta do poeta. Súbito. em grupos prosternados. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. visionário. O único que mencionou Rimbaud. Ouvindo isso. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. Só com Rimbaud. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano.. isso mesmo de passagem. em termos de comparação. que dialoga com os elementos imponderáveis. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. em quem se acumulam. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Não fica apenas aí o confronto. na postura de um campônio rústico. numa sexta-feira santa. as mesmas figuras de linguagem. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira.. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. desejada por um. os mesmos descuidos de metro e rima. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. Honesto em tudo. pelo sentido da dor universal. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam.

largou-se para a África. como Tântalo. embora tenham se casado e tido filhos. E como não 28 . filha legítima de sua alma. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. uma diferença de fundo entre os dois poetas. na Bélgica. Rimbaud.”. andou conspurcado de sensações súcubas. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. ilusão treda! O amor. é como a cana azeda. contudo. homens de bem cheios de nobres intenções. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. segundo é fama. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. a julgar pelos seus lamentos. Descasco-a. um suave concerto espiritual na natureza. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. Ninguém sofre mais do que ele. onde se casou com uma nativa da Abissínia. é improfícuo.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. No tempo de jovem. mas que o levaram ao resultado conhecido. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua.. Depois desse fato. é inútil. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. sente-se que há um complexo de culpa. poeta. Em cada um deles. é verdade. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Augusto sentia-se puro. em busca do paraíso terrestre. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. por causas várias. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava.. em suma. Há. Motivos escabrosos. que era o seu anseio máximo. exacerbava-a. provo-a. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. à beira da água. chupo-a. Não sou capaz de amar mulher alguma. . Nem há mulher talvez capaz de amar-me.. vítima de injustiças humanas. A toda boca que o não prova engana. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. o bem e o mal caminhando juntos.

numa reação inócua. som. Augusto vai irredento até o fim. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. chegaríamos por certo ao pai Homero que. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. onde não faltavam o ranger de dentes. porém. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. luz. Por curioso paradoxo. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. depois que perdeu a ilusão dos homens. Tais similitudes valeriam. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. beleza. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. o amor. do qual se considerava prisioneiro. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. quando muito. Foi a partir daí. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. isto é. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. 29 . os mistérios da natureza. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. contra a sociedade. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta.pode reformar o mundo. dessa conversão ao materialismo. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Há muitas espécies de conversões em literatura. entre a voz do sentimento e a da razão. cor. conforme confissão feita a Mário de Alencar.. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. Um problema sempre gera outro. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. mas nem isso acredito tenha havido. a criação. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. isto é. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. perfume. segundo apregoam os fundibulários da crítica. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. revolta-se contra o mundo.espécie de autobiografia moral. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. deixava-se ficar no interior da concha. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. silvos de labaredas e suspiros de empestados. tudo quanto desperta a alma. contra a sua grei. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. Possuído do demônio da dúvida. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida.Une Saison en Enfer . Não raras vezes. sem preencher esse vácuo. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. A vida. Neste passo. como fontes de inspiração. Mesmo assim. martelada em versos magníficos e candentes. perdia-se no estado de dúvida. tudo quanto eleva os sentidos. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. imitação.

É o que há. a essência dos Evangelhos. viram nisso o pecado da blasfêmia. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. a meu ver. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. aceitar as imperfeições do mundo. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. que se veja na blasfêmia. em torrentes de eloqüência. Convém. Se o Cristo não vem em seu auxílio. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. Os oradores. afetando melindres de devotos. se não há Deus. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo.Enredado em idéias preconcebidas. a propósito. 30 . alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. No meio em que viveu era querido e admirado. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. como ninguém ainda se entendesse. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. é questão que não deve ser formulada. Isso mostra que ele. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. Ao cabo do bombardeio oratório. é. no desespero de tantos sofrimentos. uns afirmando. se manifesta ainda escravo do batismo. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. mas os que o seguem desconhecem. um pedido de socorro. resolveu o presidente submeter a questão a votos. Apurada a eleição e com base no resultado. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. via de regra. proclamou que Deus não existe. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. Alguns críticos. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. em meio a tantas emoções extravasadas. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. se sucediam na tribuna. Todos nós. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. porquanto Deus é princípio e é fim. nas Alterosas. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. todavia. quando não proferida por modo vulgar e chulo. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. Vale mencionar. na realidade. outros negando. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. com raríssimas exceções. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. Ora. heresia maior que a do poeta quando. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. supria-se do mais no magistério particular. tal como Rimbaud. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. Na prática. Se há Deus.

31 . A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. E como era sincero e honesto.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . Só muito raramente soltava uma blasfêmia. coisa que não cabe na boca de um ateu. entendiam a alma. através dos séculos.atormentado por visões escatológicas. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. desde Tales de Mileto. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Como uma vela fúnebre de cera.Debaixo do Tamarindo. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. Abraçada com a própria Eternidade. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. como se vê. como uma caixa derradeira. por mãos de seu filho Pirro. dá à alma a denominação de sombra. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. os filósofos iônios. A denominação. virtudes que cultivava com extremado zelo. Por outro lado. começa o poema “Sou uma Sombra. sob estes galhos. No tempo de meu Pai. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. o sacrifício da linda moça Polixena. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. explodiu em As Cismas do Destino. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. Voltando à pátria da homogeneidade. De inflexões mentais sua obra anda cheia. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. vem de muito longe. De outras vezes. Mandando ao céu o fumo de um cigarro.

para ele. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. sua intimidade numenal. É a substância primeva. mas dentro da alma aflita Via Deus . que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. da substância de todas as substâncias. nas composições que vão até o fim do livro. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. em soluços quase humanos. em Leopoldina. vacilante na ciência fria. aos 30 anos de idade. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. até mesmo num grão de areia. isto é. tal como se apresenta. perdendo-se novamente no enleio cósmico. que procede do éter cósmico. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. as formas microscópicas do mundo. Choram ainda dentro dele. como entidade eterna. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. tal como a entendiam os filósofos iônios.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. Assim vai. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. Daí por diante. Até Deus. a 12 de novembro de 1914. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. desde o declínio das crenças mitológicas. 32 . até que morre numa cidade das Alterosas. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. em briga com o dualismo.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. Mais poderia dizer agora. na Federação das Academias de Letras do Brasil. Que outros. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. acrescenta. era uma mônada. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. larva do caos telúrico. assaltado de alucinações. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. mas com o que ai está me contento. !" Este trabalho. virtualidade espiritual.

São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Sofre de insônia. Conservo de memória tudo quanto produzo. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Córdula C. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. de abusar um pouco do café. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. presumo. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. R. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. Rio de Janeiro.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. 33 . Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. Tenho insônia raras vezes. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. entretanto. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. o que não impede. da chamada vida física. dos Anjos e D. Engenho Pau d'Arco. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. Eu.

Este ambiente me causa repugnância. Monstro de escuridão e rutilância. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. E há de deixar-me apenas os cabelos. A influência má dos signos do zodíaco. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. igual a um olho. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. filho do carbono e do amoníaco. E vejo-o ainda. Fecho o ferrolho E olho o teto. Já o verme -. Produndissimamente hipocondríaco. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Esforços faço.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Sofro.. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Minh’alma se concentra. agora.. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. desde a epigênese da infância. e à vida em geral declara guerra. “Vou mandar levantar outra parede.Digo. Ao meu quarto me recolho.. Chego A tocá-lo..” -. Ergo-me a tremer. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. Meu Deus! E este morcego! E.

Deixa circunferências de peçonha. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. quando sonha. Em qualquer parte onde a cabeça ponha.. e quase morta. À noite. Quebra a força centrípeta que a amarra. raquítica. Chega em seguida às cordas da laringe. Tísica. Que. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases.. Mas.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas.. mínima. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Anoitece. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Delibera. de repente. em desintegrações maravilhosas. tênue. Riem as meretrizes no Cassino. e depois.. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 .

Realizavam-se os partos mais obscuros.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Que poder embriológico fatal Destruiu. com a sinergia de um gigante.. em letras garrafais. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Em que lugar irás passar a infância. Fruto rubro de carne agonizante.. Tragicamente anônimo. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. E. Agregado infeliz de sangue e cal. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. em vez de achar a luz que os Céus inflama. feto esquecido.

Na superabundância ou na miséria. Almoça a podridão das drupas agras. Suficientíssima é. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. para provar A incógnita alma. Cão! -. afaga-a. ampara-a. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência.. em que tu dormes. pelos séculos adiante. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 .. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Ah! Para ele é que a carne podre fica. Verme -. E vive em contubérnio com a bactéria. Filho da teleológica matéria. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a.é o seu nome obscuro de batismo.. Livre das roupas do antropomorfismo. arrima-a. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea.. Janta hidrópicos. E irás assim.

DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. Voltando à pátria da homogeneidade. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. esta árvore. como uma caixa derradeira. Dr.. esta tesoura. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo.corte Minha singularíssima pessoa. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . portanto.. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. Como uma vela fúnebre de cera. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se.. Guarda. sob estes galhos. de amplos agasalhos. e.

como quem tudo repele.. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. por toda a pro-dinâmica infinita.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . um dia. mas dentro da alma aflita Via Deus -. com uma ânsia sibarita. Na guturalidade do meu brado. com o esqueleto ao lado. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. Como um pagão no altar de Proserpina. -. Por trás dos ermos túmulos.. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. Alheio ao velho cálculo dos dias. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta.

nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.. talvez. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Em que é mister que o gênero humano entre. mísera e mofina. autônoma e sem normas. Onde os bandalhos. Nos estados prodrômicos da vida. Como quase impalpável gelatina. Todas as noites. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Dentro do ângulo diedro da parede.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. nesta rede. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. como um gado vivo. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. Oh! Mãe original das outras formas.. vede: É o grande bebedeouro coletivo. moços do mundo. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Ah! De ti foi que.

Creio. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. É a morte. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous .Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. É. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. como o filósofo mais crente. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra.. é o pneuma . Amo o coveiro -.. O mundo fique imaterializado -. para o amor sagrado. é o ego sum qui sum . O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. perante a evolução imensa. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui.IDEALISMO Falas de amor.

Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. cartilagens Oriundas... nele. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. com a alma às escuras. Era tarde! Fazia muito frio. Pelas monotonias siderais. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. como os sonhos dos selvagens. improficuamente. Comi meus olhos crus no cemitério. se hoje volto assim. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. À meia-noite. talvez as Musas. Vaguei um século. Mas.. caixas cranianas. subi talvez às máximas alturas. e. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . Cinzas. inclusas.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão..

Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. Na multiplicidade dos teus ramos. trilhos. Tamarindo de minha desventura. inda teremos filhos! 43 .fontes de perdão -. porém. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. para o Futuro.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. pois. com o envelhecimento da nervura. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. em diferentes Florestas. glebas. no Dia de Juízo. reunidos. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. Depois da morte. Tu. Se fosses Deus. Pelo muito que em vida nos amamos. tuas sementes! E assim. Eu. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. vales. selvas.

.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 .. à categoria Das organizações liliputianas. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Ter o destino de uma larva fria. Ganem todos os vícios de uma vez. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. Apraz-me. asa De mau agouro que. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. Como os Goncourts.. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -.. Como a cinza que vive junto à brasa. É meu destino viver junto a esa asa. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Perseguido por todos os reveses. Na orgia heliogabálica do mundo. É-me grato adstringir-me. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. na hierarquia Das formas vivas. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. nos doze meses.

conquanto ainda hoje em dia. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. a mim. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. em desalento. o Homem. com os dedos brutos Para falar. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor.. “À luz da epicurista ataraxia.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto.. rasga o papel. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. puxa e repuxa a língua. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . É como o paralítico que. o Hércules. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. Ouvindo a Escada e o Mar. aos soluços. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. mamífero inferior. “Homem. violento.

porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . hipócrita. agora.Não. Que a mim somente cabe o furto feito. o ouro que brilha.. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. Ele hoje vê que.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. após tudo perdido. mas eu. Eu furtei mais... então. Tu só furtaste a moeda. ralhava. minha ama. Sinhá-Mocinha. Vejo. afetava Susceptibilidade de menina: “-. minha Mãe. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. Que ela absolutamente não furtava. Furtaste a moeda só. entretanto. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. em minha cama. como cruéis e hórridas hastas.. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. não fora ela! --“ E maldizia a sina. Em sucessivas atuações nefastas.

à noite. porém. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta.. após a árdua e atra refrega. É noite.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos.a mãe comum -. Hoje. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse.o brilho Destes meus olhos apagou!. Hás de engolir... Assim Tântalo. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. do que este que palmilho E que me assombra.. aos reais convivas. e.. E tu mesmo. igual a um porco.... a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. num festim. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -.

O Amor e a Paz. o Ódio e a Carnificina. Eu. O que o homem ama e o que o homem abomina. pois. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. e sendo justo. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. Deus.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . gemendo. para onde fores.. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. trilhando as mesmas ruas. meu Pai?! Que mão sombria. Às alegrias juntam-se as tristezas. para amenizar as dores tuas. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!.. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. Tu. Irei também. Pai.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores... e o ângulo reto. é justo.

Rezo. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. cuidei que ele dormia. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. E a marcha das moléculas regulam. Como Elias. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. Mas pareceu-me. sonhando. o ofício da agonia... assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. num carro azul de glórias. entre as estrelas flóreas.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Nem uma névoa no estrelado véu. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Mãe. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o.. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra..

olhando a pátria serra. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. Para que eu tenha uma velhice calma! -. Livre deste cadeado de peçonha. Apraz-me..DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa..Disse -.As árvores.. pai.e ajoelhou-se. enfim. Esta árvore. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa... meu filho. possui minh’alma!. para que eu viva!” E quando a árvore. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. É preciso cortá-la.. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. Caiu aos golpes do machado bronco. -..Meu pai. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. meu filho. sôfrega e ansiosa. meu pai.. pois. numa rogativa: “Não mate a árvore. no junquilho.

Olha a atmosfera livre. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. bruto. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. mergulhou a cabeça no Infinito. de à antiga rota Voar. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Continua a comer teu milho alpiste. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. desde o mais prístino mito. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. Tu nunca mais verás a liberdade!.. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. o amplo éter belo.. preto e amarelo. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Foi este mundo que me fez tão triste. não tens mais! E pois.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Pões-te a assobiar...

Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas... me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu.. Canta a aleluia virginal das crenças.. ególatra céptico. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Ante o telúrico recorte. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. na diuturna discórdia. em serenatas. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. Noite alta. cismava Em meu destino!. Templos de priscas e longínquas datas.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. Onde um nume de amor.

VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. veio um atleta. E à rutilância das espadas. e doma Meu coração -. e. Acende teu cigarro! o beijo. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . Se a alguém causa inda pena a tua chaga. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. Toma um fósforo. uns cem. que. Apedreja essa mão vil que te afaga.. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. guerreiro. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Mora. é a véspera do escarro. por fim. nesta terra miserável. sente invevitável Necessidade de também ser fera. amigo.. E não pôde domá-lo enfim ninguém. E qual mais pronto. Meu coração triunfava nas arenas. Vieram todos. o gládio de aço.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. Somente a Ingratidão -. Veio depois um domador de hienas E outro mais. ao todo. por fim. entre feras. toma A adaga de aço.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem.

E é em suma. podendo mover milhões de mundos. No rudimentarismo do Desejo! 54 . jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou.. chorando. em sons subterrâneos.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. A sucessividade dos segundos. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste.. do Orbe oriundos. nada há que traga Consolo à Mágoa. Ouço. Da transcendência que se não realiza.. Sabe que sofre. pois.. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. pancada por pancada. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. Que. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. a que só ele assiste. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. a escutar. Quer resistir. Da luz que não chegou a ser lampejo.. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada..

De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. a animar o cosmos ermo. eu. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Parem as vidas. Cesse a luz. Foi que eu. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . afinal. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. sincero Encontrei. me desencarcero. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. feito força. Morto o comércio físico nefando. num grito de emoção. De que. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Como a última expressão da Dor sem termo. que os anos não carcomem. pensando.

Dói-me ver.. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. "Com essa intuição monística dos gênios.. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. o ouvido. sem gritos. e. Onde a alva flama psíquica trabalha. o olfato e o gosto! Carne. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. A dardejar relampejantes brilhos. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 .APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. a vista. muito embora a alma te acenda. decompondo-se. feixe de mônadas bastardas. Era. Diafragmas. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. há inúmeros milênios. a irmanar diamantes e hulhas. Em tua podridão a herança horrenda. ao sol posto... arpões. pois. sem retumbância. E o Homem — negro e heteróclito composto. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. numa alta aclamação.

e. meus semelhantes! Mas. na noite escura. à espera de quem passa Para abrir-lhe. Este pântano é o túmulo absoluto. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga.O PÂNTANO Podem vê-lo. para mim que a Natureza escuto.. sem dor. E o nada do meu homem interior! 57 . Tragicamente. às escâncaras. opondo-se à Inércia. é a essência pura. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. a porta. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. É a síntese.. no Mundo. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. A convulsão meteórica do vento. Que produz muita vez. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. é o transunto.

... e. é natural. Antes o Nada. não progridas E em retrogradações indefinidas. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. no teu silêncio. ainda algum dia. um dia. O espanto Convulsiona os espíritos. geléia crua. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. entanto. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . que ainda haveres De atingir. E hás de crescer. oh! gérmen. em realidade. Volvas à antiga inexistência calma!. Teu desenvolvimento continua! Antes.. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. deprimindo-o . Reconcentrando-se em si mesma. como o gérmen de outros seres. causa do Mundo. em conjugação com a terra nua. porventura. Vence o granito. tanto Que.A UM GÉRMEN Começaste a existir. geléia humana.

Vivem só. trancada num disfarce. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante.. . na ordem cósmica. São absolutamente negativas! Araucárias. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. É a Natureza que.As ambições que se fizeram troncos... que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. é o instinto horrendo De subir. os elementos broncos. é transporte. no seu arcano.. Como um convite para estranhas viagens.Todas as hermenêuticas sondagens..A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. descendo A irracionalidade primitiva. Bracejamentos de álamos selvagens. traçando arcos de ogivas. . é inquietude... Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. é ânsia. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço.. nele... E a coorte Das raças todas.

. Dói-lhe..... sol do cérebro. inteira. Riqueza da alma. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. À humana comoção impondo-a. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 ..O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. assim. oh! Dor. E.. em suma. ancoradouro Dos desgraçados. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. saúde dos seres que se fanam. sem convulsão que me alvorece. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. Que o sarcófago. acérrima e latente. psíquico tesouro. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas.

pois. Minha continuidade emocional! 61 . para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. Haveis de ser no mundo subjetivo. em épocas futuras... Benditos vós.. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira.. Dai-me asas.. que.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. pois. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . ) Com o vosso catalítico prestígio. Ions emanados do meu próprio ideal. Dai-me alma. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Expressões do universo radioativo. para o último remígio.

Eu sinto. O cosmos sintético da Idéa Surge. A alma arde. então.. os pés e os braços Tombara. as mãos. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. A espaços As cabeças. Subitamente a cerebral coréa Pára..A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos.. Emoções extraordinárias sinto. Arranco do meu crânio as nebulosas. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 .. A carne é fogo. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto.

criatura cega. os dois Representam. Teu coração se desagrega. Porque.. Montão de estercorária argila preta. Sangram-te os olhos. tragando a ambiência vasta. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. ris! Fruto injustificável dentre os frutos.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. Excrescência de terra singular. No desembestamento que os arrasta. na superfície do planeta. o alfa e o omega Amarguram-te. entretanto. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. Realidade geográfica infeliz. Receando outras mandíbulas a esbangem. Rugindo. enquanto as almas se confrangem. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 .. Os dentes antropófagos que rangem. Superexcitadíssimos. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. carne sem luz. e. ávida. Hebdômadas hostis Passam. na ânsia voraz que. aumenta. Deixa a tua alegria aos seres brutos.

Que força alguma inibitória acalma. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas..MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. mordem-se. Sob pena. homens felizes. soluçando.. O Amor. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Da dor humana. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. a Ciência. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. aparelhou. o Inferno. a Glória. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . Ai! Não toqueis em minhas faces verdes.. sou maior que Dante.. E trago em mim. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante.

Entoado asperamente. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração.. não cabendo mais dentro dos peitos.. Teço a infâmia. à luz de fantástica ribalta. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. O epitalâmio da Suprema Falta. Existo Como o cancro.O CANTO DOS PRESOS Troa. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere.. (Hoje. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. a exigir que os sãos enfermem. a alardear bárbaros sons abstrusos. em voz muito alta. Que. ontem. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. cresto o sonho. È a saudade dos erros satisfeitos. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 .. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Uiva. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. urdo o crime.

ausculto. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. Ceva-se em minha carne. minha alma. invado..VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. enfim. dona. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. Transponho ousadamente o átomo rude E. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando.. à noite.. agarro. por fim. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. o Infinito se levanta À luz do luar. O Infinitésimo e o Indeterminado.. transmudado em rutilância fria. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . apreendo. como um corvo. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. Feita dos mais variáveis elementos. o Céu e o Inferno absorvo. Nos paroxismos da hiperestesia.

. Sentia dos fenômenos o fim.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. num monturo. Laquesis. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo.. Como a luz que arde. projetado muito além da História. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. aos trismos Da epilepsia horrenda. como a luz do amanhecer. Siva. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . E acima deles. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. como um astro. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória.. virgem. arder. Tifon. Átropos. Eu..

entanto. nem mesmo ao ronco Do furacão que. neste ergástulo das vidas Danadamente.. Grita em meu grito. alarga-se em meu hausto.. remoinha.. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU.... A estrutura de um mundo superior! Alta noite..MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. Nutrindo uma efeméride inferior. E. a soluçar de dor?! -. Roem-na amarguras Talvez humanas. às apalpadelas e às escuras. tenta transpor o Ideal. Hão de encontrar as gerações futuras Só.) Quem sou eu. Branda. nas minhas formas carcomidas. a afagar tantas feridas. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser.Trilhões de células vencidas. rábido. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 .. Folhas e frutos. esse mundo incoerente.

Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Apreendo. Massa palpável e éter. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. ateando da alma o ocíduo lume.. Penetro a essência plásmica infinita. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. -.. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. hirto. sânie e perfume. Sou eu que. em cisma abismadora absorto. desconforto E ataraxia. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. feto vivo e aborto.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. aliando Buda ao sibarita. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. -. em que me inundo.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos.

Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. Porque.Tal é. crânios. três. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. cérebros.. Reduzir carnes podres a algarismos.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. infinita como os próprios números. em fúlgidos letreiros. sem complicados silogismos.. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. somente em.. dois.. quatro. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. rádios e úmeros. por hipótese. na abismal sustância informe. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. -. cinco.

Por um abortamento de mecânica. Estacionadas. porventura. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. amam jazer. e dize-me. Qual é. afinal. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. De onde rebenta. oh! delumbrada alma. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. me semente.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. a alma. recalcados. na natureza espiritual. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . perscruta O puerpério geológico interior. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. assim. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. em contrações de dor. Quem sabe. íngremes. alma.

pelo orbe adiante. Zarpa. É a subversão universal que ameaça A Natureza. se as Tem. derrota Na atual força. o último a ser. derrubadas. sonha! Mágoas. babando. e. que o Éter indica... subjugue-as ou difarce-as.. Federações sidéricas quebradas... integérrima. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. Pára e. E eu só. da Massa.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica.. A íngreme cordoalha úmida fica. a amarra agarrada à âncora. Espião da cataclísmica surpresa. em noite aziaga e ignota. alçando o hirto esporão guerreiro. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 .

invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Dentro dos ossos. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. vazio! 73 . ao cabo do último milênio. em que arde o Ser. que ela encheu. Sôfrego.. num triunfo surpreendente. cave. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Em convulsivas contorções sensuais. Os nossos esqueletos descarnados. E quando. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. o dolo sáxeo. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Haurindo o gás sulfídrico das covas. Arrancar. Para a perpetuação da Espécie forte. adstrito à ciência grave. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. e. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto.. Tragicamente. ainda depois da morte.

Viu vísceras vermelhas pelo chão. Somente. fora.. E. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa.. Era tão moço. E amou. mancha a gleba. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante.. Na mão dos açougueiros. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. vendo sangue.. eis que viu. com um berro bárbaro de gozo. Extraordinariamente atordoadora.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. Olhou-se no espelho. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Horrível! O osso Frontal em fogo.. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. Ia talvez morrer. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. há instantes. antes do almoço. Disse.. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . A água transubstancia-se. iguais a espiões que acordam cedo...

No mar de humana proliferação.. Leio o obsoleto Rig-Veda.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!... Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. E. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada.. Rasgo dos mundos o velário espesso. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep.. me não consolo.. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias.. ante obras tais. E em tudo igual a Goethe. reconheço O império da substância universal ! 75 ..

ao meu lado. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. E à dor e ao sofrimento eterno afeito.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte.. Fora da sucessão. Hirta. E assim afeito às mágoas e ao tormento. Parecia dIzer-me: "É tarde. Porque eu hoje só vivo da descrença. P’ra iluminar-me a alma descontente. A Idéia estertorava-se. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. resignado. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Mas que no entanto me alimenta a vida. Tragicamente de si mesmo oriundo. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Para dar vida à dor e ao sofrimento. E o coração me rasga atroz. imensa. atro e subterrâneo. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. estranho ao mundo. Se acende o círio triste da Saudade. Era de vê-lo. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Eu a bendigo da descrença. 76 . imóvel. em meio.

a Grande Mãe .ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. sombras cor-de-rosa . Fugazes sonhos. volvi ao ceticismo.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado.Oh! Deus. seu olhar magoado. Fraco que sou. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Hoje ela habita a erma soledade.o exorcismo Terrível me feriu. Cansado de lutar no mundo insano. Não sei se viva p’ra morrer na terra. Onde a dúvida ergueu altar profano. Ah. entre o medo que o meu Ser aterra. de ilusões tão bela. Da Igreja . gárrulos voando . e então sereno. eu creio em ti. desgraçado réu. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. em fundo misticismo: .Todas se foram num festivo bando. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste.

Morreram todas. amei. Todas murcharam. senhora. senhora.MÁGOAS Quando nasci. Exausto de pisar mágoas pisadas. pálidas agora. Cansado de chorar pelas estradas. triste e descrido. Quando a morte matar meus dissabores. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. senhora. de amor ferido. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. todas sem olores. tristes. Desfeitas todas num guaiar dorido. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. num mês de tantas flores. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. SENHORA Ouvi. Revolvo as cinzas de passadas eras. Minh’alma levo aflita à Eternidade. Ouvi. Tristes fanaram redolentes rosas. langorosas. E que tornou-o assim. Sombrio e mudo e glacial. triste pela vida afora. Eterno pegureiro caminhando. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas.

Ao chegar. Mas a Pátria chamou-o. Louco vivia. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. No sepulcro da loura virgem bela. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. venceu batalhas. olímpica e singela! E partiu. Altivo lutador. um tresloucado. Vivia alegre o vate apaixonado. Alma arrancada do prazer do mundo. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. 79 . pendeu triste e desmaiada. Alma viúva das paixões da vida.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. Tu que. Oh! Tu. na estrada da existência em fora. Era o soldado. coração amargurado. E voltou. Cantaste e riste. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. E fica no teu ermo entristecida. mas a fronte aureolada. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Esconde à Natureza o sofrimento. e o pesar negro e profundo. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. enamorado dela.

Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Ambos unidos soluçara um beijo. Chegara enfim o dia desejado. Fora no campo pássaros trinavam. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. E rompe a orquestra sepulcral da morte. pálidos. E a mesma frase o noivo repetia. Quando da vida. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Vinha rompendo a aurora majestosa. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. no eternal soluço.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. funéreos. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. silentes. Era o supremo beijo de noivado! 80 . NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Desliza então a lúgubre coorte. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. ardentes . soturnais. a brisa respondia. São minhas crenças divinais. Há de chegar.

81 . Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. E espuma e ruge a cólera entranhada. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Aí existe a mágoa em sua essência. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Em luta co’a natura sempiterna. Dores que ferem corações de pedra. Mas se das minhas dores ao calvário. No delírio. E onde a vida borbulha e o sangue medra. A morte me será vingança eterna. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Espumando e rugindo em marulhada. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. porém. Assim a turba inconsciente passa. Já que do mundo não vinguei-me em vida.

" CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. dão-te enganos. bom Papá.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Jóias. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Foste do amor o mártir sacrossanto. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. num abraço de ternura santa. Enquanto outros que podem. Irmão querido. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Morrera um dia desvairado. bonecos de formoso busto. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Tu’alma ri-se descuidosamente. Somente assim festejarei teus anos. Quantos. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Pois se da Religião fizeste culto. Su’alma livre para o Céu se alara. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. estulto.

esta mulher de grã beleza. Balbuciou. Dançavam-lhe no colo perfumado. Tornou-se a pecadora vil. Moldada pela mão da Natureza. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. mornos. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. presa. aveludado. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . tomando a enxada gravemente. Do fado. Do destino fatal.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. amigo verdadeiro. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. No entanto. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Os seios brancos. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. A chama cruel que arrasta os corações. Bela. divina. palpitantes. tinha ido ver a sepultura De um ente caro.

E as mesmas monjas sempre tristurosas. . No sigilo das rezas misteriosas. Que guardam pér’las de funéreas rosas. Repercute. Subindo pelo Azul da Inspiração. pouco a pouco. E à noute quando rezam na clausura. Que guardam cinzas de ilusões passadas. addio.Addio. Eleonora.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. os sons esmorecendo. addio! 84 . E as mesmas portas impassíveis. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Ai! não. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. dolente. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. desnudas. Assim canta também meu coração. Trovador torturado e angustioso. não acordeis. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. mavioso. úmidas arcadas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais.

A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Moça. porém. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Num sepulcro de rosas e de flores. Eu sei a sua história. O cabelo revolto em desalinho.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . os teus fulgores. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. tão moça e já desventurada.coração saudoso. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. para guardar a mágoa oculta. Vai morta em vida assim pelo caminho. Arca sagrada de cerúleos sonhos. o triste outono.a veste desgrenhada. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. gargalha. Canta. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. soluça .Arca cerúlea de ilusões etéreas. Chora.O segredo d’um peito torturado E hoje. Primavera. Da desdita ferida pelo espinho. . a desgraçada estulta. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. . No sudário de mágoa sepultada.

E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Sirva-te a crença de fanal bendito. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Voltam sonhos nas asas da Esperança.avança! E eu. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. Salve-te a glória no futuro . Senhora. portanto. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. O berço onde as venturas se embalaram. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. 86 . túm’lo do prazer finado. eu trajo o luto do passado. Muita gente infeliz assim não pensa. Sonâmbulo da dor angustiado. Também como ela não sucumbe a Crença. risonha. ergue o teu grito. Também espero o fim do meu tormento. não busques saber por que. que vivo atrelado ao desalento. tristonha .Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. Mas não queiras saber nunca. Foi outrora do riso abençoado. delirante e vário. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. ela não cansa. É minha sina perenal.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora.

Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Mas volta logo um negro desconforto. Quem me dera morrer então risonho. Sombra perdida lá do meu Passado.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. santíssima.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Tenta às vezes. Bela na Dor. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. sublime na Descrença. Chora . porém. Quando o rosário de seu pranto rola.

Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. a seu lado Medita.. Dorme talvez. a fronte triste. nevada.. Essa sublime adoração do crente. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Enquanto o amante pálido. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. Na altura Imensa. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. Branca. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. As níveas pomas do candor da rosa. ama. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Estende o teu olhar à Natureza. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. e. crê em Deus. pois. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. mimosa. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . púbere. O amor é a hóstia que bendiz a Crença.

o meu Passado. porém. Eu vivo dessas crenças que passaram. coveiro. além.Quero abraçar o meu passado morto. Vai Corina mendiga e esfarrapada.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. A romaria eterna dos aflitos. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. Entre todos. Tem pena dessas cinzas que ficaram. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. lânguida e bela. Dos romeiros saudosos da desgraça.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . . e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. dos proscritos. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. A alma saudosa pelo amor vibrada. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . E na choça a lamúria que traspassa O coração. A procissão dos tristes. .TEMPOS IDOS Não enterres.

um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. adeus! E. Hermeto Lima Adeus. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. suspirando. Vencendo o azul que ante si s’erguera. Voa. ADEUS. 90 . apenas restam mágoas. se eleva em busca do infinito. Saí deixando morta a minha amada. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. adeus. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. É como um despertar de estranho mito. Sulcando o espaço. Fitando o abismo sepulcral dos mares. devassando a terra. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Perto.eu disse. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência.ADEUS. Cheia da luz do cintilar de um astro. ADEUS! E. Auroreando a humana consciência. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! .

Mas a noute chegou. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. tristonho lírio. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. triste. Envolto da tristeza no delírio. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. E eu disse .LIRIAL Por que choras assim. Disse. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Estrela esmaecida do Martírio. irmã pálida da Aurora. Lá onde nunca chegue esta saudade. onde não pousa a desventura. Minh’alma que de longe a acompanhava.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. com ela Negras sombras também foram chegando. Viu o adeus que do Céu ela enviava. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A.Vai-te. .A sombra deste afeto estiolado. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora .

Pedir a Dulce. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. 92 .e estertorada A minha voz soluça num gemido. a minha bem amada. A praça estava cheia. E ela fita-me. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso.então. o algoz . perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. Vítima augusta de indelével falso. perdão.. por entre a dolorosa estrada. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. E dos lábios de Dulce cai um beijo. E eu balbucio trêmula balada: . como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. Estendo à Dulce a mão. o olhar enlanguescido. E na atitude do Crucificado. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. isento de pecado.Senhora.o criminoso . A esmola dum carinho apetecido. dai-me u’a esmola . Depois. a fé perdida. O olhar azul pregado n’amplidão. Puro de crime. Morre-me a voz.. e eu gemo o último harpejo.A PRAÇA ESTAVA CHEIA.

Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me.. acolhe-me. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. Há perfumes d’amor ..AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres.crença Perdida . nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . acolhe-me N’asa da Morte redentora. ave negra da Desgraça. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. e. E as trevas moram.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. Num desespero rábido.. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. obumbra-me em teu seio. Empenhada na sanha dos abutres. Lá.segue a trilha que te traça O Destino.. Gênio das trevas lúgubres. assassino. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. onde d’água raso O olhar não trago.

Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. Mas quando o céu é límpido. Banhando a fria solidão das fragas. e a alma é a Flâmula do sonho. só descanta. O MAR O mar é triste como um cemitério. sem nenhuma Nuvem sequer. então. Abismados na bruma enegrecida. a vida é qual risonho Batel. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Reflete a luz do sol que já não arde. Que o céu reflete. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Quando vos vejo. Treme na treva a púrpura da tarde. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Os nimbos das procelas desta vida. sem bruma Que a transparência tolde. dentre a escura Treva do oceano. num mar de esp’rança. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Que o guia e o leva ao porto da bonança.

E eu ergo preces que ninguém responde.) Nessas paragens desoladas. e em si a Luz consoladora Do amor .. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. quem dera Voar est’alma a ti. Aurora morta. é desengano.. Cantarias do amor a primavera. Anseios d’alma aqui se perdem. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Agora. oh! Minha Mágoa..eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . Nem vibra a corda que a saudade esconde.1902 AURORA MORTA. lá nos espaços. Adeus oh! Dia escuro. Triste criança virginal.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. agita as tuas asas. é dor. FOGE! Aurora morta.1902 95 .ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. Dia do meu Passado! Irrompe. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora.. O grande Sol de afeto . foge .o Sol que as almas doura! Fugiu. Hoje é trevas. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. o meu único Norte. Ascende à Claridade. meu Futuro. num Pálio auroral de Luz deslumbradora.

os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. Ah! num delíquio de ventura louca. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. Bendito o riso assim que se desata . Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. à dolente Unção da noute. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Branca.NO CAMPO Tarde. nitente.Cítara suave dos apaixonados. Chora a corrente múrmura. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Quando. chorando enfloram. despertando sonhos. ao luar. E há. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .. No alto. entretanto.a Louca tenebrosa. as águas límpidas alvejam Com cristais.1902 96 . Sonorizando os sonhos já passados. no teu riso de anjos encantados.. Pendem e caem . Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. e. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . emergindo às trevas que a negrejam.

P'ra desvendar os seus segredos santos. Derramam a urna dum perfume vário. Eu.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. Se evolarn castos. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. Ah! como a branca e merencórea lua. Também envolta num sudário — a Dor. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. se duas eu tivera. Flor dos mistérios d'alma. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. sacrossantos. 97 . Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. é como os prantos Níveos. E a lua é como um pálido sacrário. eterna noctâmbula do Amor. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. que a virgem chora. toda a cálida Mística essência desse alampadário. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. Pau d'Arco -1902. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. virginais aromas De essência estranha. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. noctâmbulo da Dor e da Saudade.

E vais aos poucos soluçando mágoas. Um dia morto da Ilusão às bordas. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. .. Ali. e ilusões acordas. Tanto que gemes. Teu canto.Quero partir em busca do Passado. soluças. bandolim do Fado. Que desespero insano me apavora! Aqui. vindo de profundas fráguas. chora um ocaso sepultado. pompeia a luz da branca aurora. Tanto que cantas. sonhar novas idades. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. Quando alta noute.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: .. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. a lua é triste e calma. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas.Quero Correr em busca do Futuro. Choras.

à voz de Lúcia. E beijei-te. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. tu vinhas a cindir os ares. e como Lúcia.ARA MALDITA Como um'ave. caindo dos altares. E eu quis beijar-te o lábio redolente. Meiga. mas eis que neste enleio. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se.Foge.. Quiseste-me beijar a ara do peito. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. NA ETÉREA LIMPIDEZ. O céu tremia em seu trevoso flanco. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. também ria! 99 . O sol. Fulgia a bruma para sempre. Tocando n'ara negra o níveo seio. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. E eu vi os seios teus virem inconhos . Caíste morta ao celestial preceito.. Na etérea limpidez de um sonho branco. cindindo os céus risonhos. qual hóstia. alegre e rubro. agora. E. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. grave e lenta.

em banho ideal de amor te inundas. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . e. a Virgem Mãe dos céus escampos. Longe das sombras aurorais e amadas. Que beija a terra e que abençoa os campos.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. o Mundo se concentre. E em mim como no Templo. Flores mortas da Aurora. e. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. urnas de Sonho. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. Nua. o túmulo da Crença. eis que emerges. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . Em mim como no Templo a Angústia se condensa. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! .o círio Da Quimera Falaz. ao ver-te nua. ante o branco estendal das madrugadas. E a lua. Que.ei-lo que avisto. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. E. Diluis teu peito em sensações profundas. Agora. Sentes o peito em ânsias revoltadas.A colunata êxul do Sonho Morto . luminosa. a rasgar o lúrido sacrário. em bando. Mas. E a rasgar.

101 .. entre esplendores. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim.É o castigo de Deus que passa mudo! . tudo chora.O sol a segue. ela.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. Etéreo como as Wilis vaporosas..A PESTE Filha da raiva de Jeová . Todos dizem co'os olhos para a Sorte .Fúlgido foco de escaldantes brasas . como o sol .e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. Colmado o seio de virentes flores. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta.. enquanto Vai devastando o coração das casas. tudo! Quando Ela passa. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. formosa. Plena de graça. . Quero-te assim . e a Peste ri-se. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. Como o Cristo sagrado dos altares.. semeando a Morte.. formosa entre as formosas. A alma diluída em eterais cismares.. Embaladas no albor da adolescência.

E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria... lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. eis-me a teus pés.CÍTARA MÍSTICA Cantas. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios ... perdoa o teu vencido. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. .. insânia. Chegou a Noite. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho.. a teus pés. insânia.. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . Eu venho arrependido. pátria da Aurora exilada do Sonho! . assim. E para mim. Açucena de Deus. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. ah! ninguém me responde.Irei agora. o meu Sonho morreu! Perdão.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina.. penseroso e pasmo.. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia.. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. pelo mundo.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. meu anjo. pois. Como o santo levita dos Martírios.

Onde nunca gemeu o humano passo. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . Da Messalina fria no regaço.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. supremos. Em ânsia de repouso. Por um Cocito ardente e luxurioso. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões.. . como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. porém. e. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor.. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Turificando a languidez dum seio! O amor. Mas. no Inferno do Gozo.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo.. que da Desgraça veio Maldito seja. sem Calvário. Banhou-me o peito.. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário.

. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti.. Sombra de gelo que me apaga a febre. estes dardos acúleos Caíam.. Como um'alma de mãe. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua.. E estavas morta. a noute é tumbal. eu que te almejo.SOMBRA IMORTAL .. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. . lá dos braços hercúleos. a sós. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena. Ah! que um dia da Vida..E tu velas. mulher.. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. e a saudade da infância.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo.. ..Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . desvalida e nua! E o olhar perdi... eu vi. também da Dor.. E vi-te triste.

Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. Branca bem como empalecido arminho. te acolheu a mata. o seio branco. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 .imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. e é noute de fatais abrolhos. virginal. inata! E. E um canto vai morrer no vale fundo. e. Alva d'aurora. chegando.. Somente tristes os teus olhos vejo. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. O roble altivo entreteceu4e um ninho. Pérolas e ouro pela serrania. ajoelhando à imagem do Carinho. entanto. Bendita a Santa do Carinho.. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora.. profundo?! Rumores santos. Choras.. tu. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Que canto é este. e no Santo harpejo. Que luz é esta que das brumas vasa.. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. Uma pantera foi se ajoelhando..NOTURNO (PARA O VALE NOITAL.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol ... Alvorejando em arrebol de prata.. Chegaste. no negror me abrasa.

Triste como um soluço de Dalila. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Qual rosa branca que ao tufão vacila. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. e lânguida. Fria como um crepúsculo da Judéia. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma.. Já Vésper... Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas.PELO MUNDO Ânsias que pungem. 106 . Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. no Alto. mórbidos encantos..

que ao frio alvor da Mágoa Humana. clown da Sorte . Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .Eterno fogo. adormecida. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso ... Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Riso. querida! Já é Ave-Maria . Silfos morriam..O RISO "Ri. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. sonolento e tardo.Ele.Fogo sagrado nos festins da Morte . QUERIDA! Vamos. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. e a todo o seu assédio.. No ar.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. os gaturamos Num recesso de névoa.quem mede-o?! . E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.A hora dos tristes e dos descontentes. Na Via-Látea fria do Nirvana. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .o voltairesco clown . coração.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria.. De encontro ás torres e de encontro aos muros. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. LÁ FORA. E em meio ás refrações verdes e hialinas.. O dia Foge. violentos.. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . Saio de casa. Surge agora a Lua. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. NOTURNO (CHOVE..) Chove.. batendo em todas as retinas.. vão bater. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. Os ventos. A incandescência irial dos candelabros. Os passos mal seguros Trêmulo movo. diante do vulto dos conventos. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. Negro. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. Desencadeados. mas meus movimentos Susto. Vibra.

E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. Primavera. ... já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.. os vermes vis. enquanto o Tédio a carne me trabalha. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas... poetas. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões.. inverno! 113 . verão. E hoje. Já que perdi a última batalha! E. Que há muito tempo não cantava lá.. outono. Diluiu o silêncio em litanias.

Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. Gemem poetas . E se cantar como a Saudade canta.. Ela. onde. enxuta A face..pássaros da Noute! 114 . inda altiva. ela. Aqui é o Campo-Santo. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. Pare chorando nesta Terra Santa. e quando passa. ao noturno açoute. e o travo há de sentir. enxuto o olhar. . Carpem na sombra pássaros ascetas. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. abraçado às campas dos poetas. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza.A DOR Chama-se a Dor.

Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. eu penso na Ventura! E o pensamento. surjam tédios na Descrença. e morrem os vermes que o consomem. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. na Suprema Altura Sinto. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. assomem Descrenças. poeta. a crença e o amor. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . e por fim. nada há que o abata e o vença! Por isso. A CRENÇA E O AMOR O sonho. Vence.O SONHO. Luta. o sonho.

profundo. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações.. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . para penetrar o mistério das lousas... estudares. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. nada achaste. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. auríferos tesouros.. por fim. por fim. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. De que te serviu...Construíste de ilusões um mundo diferente. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E.. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. pois. e.. Foi-te mister sondar a substância das cousas . O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia.PARA QUEM TEM NA VIDA. Tesouros reais. Feito no decurso de dois minutos. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois.

. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . .santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda... no entanto. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. ela subiu. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 .. em ânsias..O NEGRO Oh! Negro. . E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. Embora oculta.. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. São dois colossos. dois gigantes mudos.

.E o horror começa! Rasga As vestes.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!.. .. O Sol ardia.Novo Sileno.. Nisto. Buscava Em verdes nuanças de miragens. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Daí a pouco. foram buscar a Glória E que. Trás de mim... como eu. . ira-o morrer também. na atra estrada que trilhei. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. Implora a Deus como a um fetiche vago. Mas eu não contarei nunca a ninguém.Era o suplício!. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . Quantos também. ver Se nesta ânsia suprema de beber. e não vê por onde fuja.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. ouve o canto aziago da coruja! . como eu. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. ela seria morta.. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. quantos também deixei.Quer fugir.. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . Saiu.Se ao menos voasse! .

Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes.. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. Mas. a alma serena. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. Assim como uma casa abandonada. de repente. Não há quem nele um só tremor denote! . Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas..Continua a cantar..Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. Por isso. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste.Foi saudade? Foi dor? ..Aqui ainda havia alguma cousa.." Pau d'Arco -1905 119 .. vivia. pressentindo a lousa.. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. E afora disto. ele a morrer.SENECTUDE PRECOCE Envelheci. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. Sei que na infância nunca tive auroras.... Olha essa neve pura! . diz ao povo: "É pena! .

. E. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. não andei mais sozinho! Abraçou-me.a tumbal cidade. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. persuadido fica do que diz.. Não mentes. Diz que ele não morreu. E eu me elevava. Dizes Tudo que sentes.. Bem como tu. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. em Tebas ..Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. . sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares..MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado.. Para onde eu ia.. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . A múmia de um herói do tempo de Ísis. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i.. o vulto ia a meu lado E desde então. inda com o braço altivo. Da tribo alegre que povoa os ares. diz que ele é vivo.

morrer. assim como o de Jesus Cristo. A lua continue sempre a nascer! 121 . assombrado. de saudades me despedaçando De novo. pois. antes de viver! Meu corpo. amigos.. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. Existo! . quando Eu. Saiu aos tombos. à tarde. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. com medo do Infinito. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver.O tamarindo reverdeça ainda.. Nada se altere em sua marcha infinda . ia. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me.. onde. A percorrer desertos e desertos.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. triste e sem cantar..E apesar disto. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos.. assim. aos tropeços. como um cão covarde.. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. Por toda a parte. Teve sede e fome. E.

água e albumina.. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.A LÁGRIMA .A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. Ah! Basta isto. .O farmacêutico me obtemperou. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .

.O metafisicismo de Abidarma -E trago.. A podridão me serve de Evangelho. vibra A alma dos movimentos rotatórios. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. ampla. Amo o esterco. 123 . Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. sem dispêndio algum de vírus. simultâneas..OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra.. Larva de caos telúrico. procedo Da escuridão do cósmico segredo. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. possuo uma arma -. Pólipo de recônditas reentrâncias. Em minha ignota mônada. À luz do americano plenilúnio. Amarguradamente se me antolha.Esta universitária sanguessuga Que produz. Como um dorso de azêmola passiva. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. E é de mim que decorrem.. Não conheço o acidente da Senectus -.. Do cosmopolitismo das moneras. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. sem bramânicas tesouras.

causa ubíqua de gozo. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. O espólio dos seus dedos peçonhentos. amanhã.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Fonte de repulsões e de prazeres. Raio X. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. Que. quebrando estéreis normas. A vida fenomênica das Formas. magnetismo misterioso. abdômen. Como quem se submete a uma charqueada. em síntese. Ao clarão tropical da luz danada. O coração. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. bestas agrestes. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. já nos últimos momentos. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. ondulação aérea. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. E apenas encontrou na idéia gasta. -. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. a coçar chagas plebéias. a boca. iguais a fogos passageiros.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. luzem. Sonoridade potencial dos seres. O horror dessa mecânica nefasta. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Com a cara hirta. o Homem. Aí vem sujo. 124 . Quimiotaxia.

brincam. E à noite. fazendo um s. Como que. No horror de sua anômala nevrose.. consumir-se. Uivando.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. E após tantas vigílias. Numa glutonaria hedionda. Como no babilônico sansara . Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Brancas bacantes bêbadas o beijam. vai gozar. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome... E explode.. 125 . Negra paixão congênita. pelos cenóbios?!. ébrio de vício. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. E até os membros da família engulham. bastarda.. No sombrio bazer domeretrício. Sôfrego. Toda a sensualidade da simbiose. Sentindo o odor das carnações abstêmias. À guisa de um faquir.. Num suicídio graduado. o monstro as vítimas aguarda. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece.. Do seu zooplasma ofídico resulta. igual à luz que o ar acomete. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. à noite. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Suas artérias hírcicas latejam. em lúbricos arroubos.. em suas clélulas vilíssimas. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão.

Mas muitas vezes. Essa necessidade de horroroso. Hirto. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. esculpindo a humana mágoa... Sente que megatérios o estrangulam. observa a ciência crua. Na própria ânsia dionísica do gozo. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. bêbedo de sono. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Somente a Arte. Quando o prazer barbaramente a ataca.Macbeths da patológica vigília. E de su’alma na caverna escura.. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. se estende Dentro da noite má. Abranda as rochas rígidas. A asa negra das moscas o horroriza. As alucinações tácteis pululam. Acorda. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Reconhecendo. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . Que tateando nas tênebras. Fazendo ultra-epiléticos esforços.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Assim também. A família alarmada dos remorsos.. com os candeeiros apagados. em rembrandtescas telas várias. Numa coreografia de danados. Mostrando. quando a noite avança. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende.

-.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. Era a canção da Natureza exausta. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. entre daveiras sujas. Na produção do sangue humano imenso. ouvindo estes vocábulos. Executando. Há-de ferir-me as auditivas portas. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. sem que. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . E.. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. À condição de uma planície alegre. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. Prostituído talvez. Da luz da lua aos pálidos venábulos. -. Julgava ouvir monótonas corujas.O homicídio nas vielas mais escuras. a desintegre.E reduz. até que minha efêmera cabeça.O ferido que a hostil gleba atra escarva.. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. em suas bases. Continua o martírio das criaturas: -. entanto.

no apogeu da fúria. um saltimbanco da Ásia. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito... exposto ao luar. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Vaga no espaço um silfo solitário. Convulso e roto. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita..... Embaixo. Num quiosque em festa alegre turba grita.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. O Cairo é de uma formosura arcaica. Os mastins negros vão ladrando à lua. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. Tonto do vinho. Apenas como um velho stradivário. na mais próxima planície. Resplandece a celeste superfície. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. conversando. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. A Lua cheia Está sinistra. das pirâmides o quedo E atro perfil. O céu claro e produndo Fulgura. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Dorme soturna a natureza sábia. discutindo. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. A rua é triste.

Uivava dentro do eu . E aprofundando o raciocínio obscuro.. Livres de microscópios e escalpelos. com a boca aberta. Profundamente lúbrica e revolta. Pensava no Destino.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. A ponte era comprida. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. E a minha sombra enorme enchia a ponte. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade.. Assombrado com a minha sombra magra. atro e vidrento. Mostrando as carnes. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. parodiando saraus cínicos. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. O calçamento Sáxeo. Atravessando uma estação deserta. indo em direção à casa do Agra. O trabalho genésico dos sexos. 129 . Eu vi. na alma da cidade. Mas. Copiava a polidez de um crânio alvo. então. de asfalto rijo. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Fazendo à noite os homens do Futuro. Ponte Buarque de Macedo. Apregoando e alardeando a cor nojenta. a irritar-me os globos oculares. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Lembro-me bem. Dançavam. à luz de áureos reflexos. Eu.

na ígnea crosta do Cruzeiro. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca.Fetos magros. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. No ardor desta letal tórrida zona. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. 130 . Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. pelo menos. Deus me castigava! Por toda a parte. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. E. Ninguém compreendia o meu soluço. como um réu confesso. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. É bem possível que eu umdia cegue. Ah! Com certeza. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. ainda na placenta.

seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. aos poucos. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Arrebatada pelos aneurismas. estranha. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Não! Não era o meu cuspo. para não cuspir por toda a parte. Que eu. quotidianamente. Sob a forma de mínimas camândulas. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. Eu bem sabia. cinco. Que. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Ia engolindo. ansiado e contrafeito. Na ascensão barométrica da calma. quatro. à guisa de ácido resíduo. Benditas sejam todas essas glândulas. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. em minha boca.E até ao fim. de tal arte. três. 131 . cujas caudais meus beiços regam.

E o luar. a rir. Livres do acre fedor das carnes mortas. À anatomia mínima da caspa. maior talvez que Vinci. da cor de um doente de icterícia.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Um sugestionador olho. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. Nessa hora de monólogos sublimes. a espiar-me. ali posto De propósito. Imitando o barulho dos engasgos. sem pudicícia. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. com as brancas tíbias tortas. Buscando uma taverna que os açoite. então. Siva e Arimã. Perpetravam-se os atos mais funestos. A camisa vermelha dos incestos. os duendes. Davam pancadas no adro das igrejas. lembrava ante o meu rosto. para hipnotizar-me! Em tudo. A companhia dos ladrões da noite. Rodopiavam. de certo. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Vai pela escuridão pensando crimes. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Mas um lampião. estava ali. o In e os trasgos. Com a força visualística do lince. Ninguém. Iluminava. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco.

Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Cansados de viver na paz de Buda. 133 . em que. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. A pedra dura. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. distingo-a. e vence-O. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. E a palavra embrulhar-se na laringe. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Todos os personagens da tragédia. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. E o meu sonho crescia nosilâncio. Como bolhas febris de água. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia.

medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo.A planta que a canícula ígnea torra. No meu temperamento de covarde! Mas. na glória da concupiscência. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. Um conjunto de gosmas amarelas. Aquela humanidade parasita. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. igual a um amniota subterrâneo. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. refletindo. aflita. Iam depois dormir nos lupanares Onde. 134 . Fabricavam destarte os bastodermas. sobre o meu caso Vi que. a sós. na dor forte do vômito. berrava. Como um bicho inferior. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. E apesar de já não ser assim tão tarde. Os bêbedos alvares que me olhavam. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens .

Ao pensar nas pessoas que perdera. ponto final da última cena. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Rolam sem eficácia os amuletos. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. o eco particular do meu Destino. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. Minha filosofia te repele.Prostituição ou outro qualquer nome.e. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. Reboou. pior que o remorso do assassino. numa ânsia rara. como um cordão. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. Fazer da parte abstrada do Universo. num fundo de caverna. em tudo imerso. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. nas catedrais mais ricas. 135 . A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. por tua causa. a morte é ingrata. tal qual. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças.. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. Forma difusa da matéria embele. Numa impressionadora voz interna. Nessas perquisições que não têm pausa.. embora o homem te aceite.

Jamais. e a hialina lâmpada oca. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. para que a Dor perscrutes. sondas A estéril terra. não como és. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. com a bronca enxada árdega. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. em síntese. por vezes. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. 136 . por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. Mesmo ainda assim. espirra. antes Fosses. Trazes. magro homem. E se. A formação molecular da mirra. se divide. estriada. fora Mister que. o cordeiro simbólico da Páscoa. a refletir teus semelhantes.

Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. A mentira meteórica do arco-íris. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. sem mortalha.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. a fera ultriz que o fojo Entra. O achatamento ignóbil das cabeças. O tecido da roupa que se gasta. Os terremotos que. as nódoas mais espessas. 137 . O antagonismo de Tífon e Osíris. O Amor e a Fome. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. O fogão apagado de uma casa. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. -. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. à espera que a mansa vítima o entre. Na sangueira concreta dos massacres. abalando os solos. As aves moças que perderam a asa. Deixa os homens deitados. As pálpebras inchadas na vigília. Onde morreu o chefe da família. Lembram paióis de pólvora explodindo. Que ainda degrada os povos hotentotes. As projeções flamívomas que ofuscam. Como uma pincelada rembrandtesca. A cristalização da massa térrea.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. branda e beatífica. alto e hórrido. magnânima e magnífica. 143 . Apenas eu compreendo.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. satisfeito. Benigna água. A Paraíba indígena se lava! A manga. Além jazia os pés da serra. como as ervas. a abóbora. olhando os campos Circunjacentes. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. de errante rio. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. Meu ser estacionava. em quaisquer horas. o urro Reboava. sobre as hortas. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. No Alto. Em cuja álgida unção. a amêndoa. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. a ameixa. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. Criando as superstições de minha terra.

OH! desespero das pessoas tísicas. como inúmeros soldados. Um português cansado e incompreensível. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. 144 . Reboando pelos séculos vindouros. Cortanto as raízes do último vocábulo. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. aos bocados. dores não recebem. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. O ruído de uma tosse hereditária. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Vômitos impregnados de ptialina. Estas não cospem sangue. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Alucinado. entre estrépitos e estouros. os micróbios assanhados Passearem. Restos repugnantíssimos de bílis. Adivinhando o frio que há nas lousas. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. a existência Numa bacia autômata de barro.

com o vexame de uma fusa. em sonhos mórbidos. com efeito. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. É a alfândega. magras mulheres. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. Nos ardores danados da febre hética. Consoante a minha concepção vesânica. Saía. a água. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. A mágoa gaguejada de um cretino. no Amazonas. Pelas algentes Ruas. me acorda. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. hoje. resfriando-vos o rosto. naquele instante. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. 145 . Onde a Resignação os braços cruza.

E agora. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. Recebeu. diante a xantocróide raça loura. 146 . adstrito à étnica escória. todas as inúbias. Com uma clarividência aterradora. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. Viu toda a podridão de sua raça. De repente. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Jazem. A carcaça esquecida de um selvagem.. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. como um lúgubre ciclone. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos.. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. tendo o horror no rosto impresso. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . caladas. acordando na desgraça. por fim. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio.. sem difíceis nuanças dúbias. entregue a vísceras glutonas. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. espantada. Na tumba de Iracema!. A civilização entrou na taba Em que ele estava. Ah! Tudo..Fedia. Desterrado na sua própria terra.

As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. Todos os vocativos dos blasfemos. rolando sobre o lixo. A peçonha inicial de onde nascemos. com voz estentorosa. Maldiziam. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. ex. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. 147 . Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos.: o homem e o ofídio. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. E eu. roído pelos medos. No horror daquela noite monstruosa.

como um homem doido que se enforca. porém. na terráquea superfície. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . cansado. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. Anelava ficar um dia. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. Reduzido à plastídula homogênea. o anelo instável De. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. como Cristo. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Consubstanciar-me todo com a imundície. Eu voltarei. às vezes. por epigênese. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. Sem diferenciação de espécie alguma. perante a cova. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Tentava. 148 . A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. em suma.E.

até que. quando o éreis. virgem fostes. Estendestes ao mundo. vítima última da insânia. 149 . Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. derreada de cansaço. agora. à-toa. a saraiva Caindo. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. Uma.. Nem tínheis. para além. doentes de hematúria.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. com violência. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. alva. As prostitutas. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. e. ignóbil. embalde. entre oscilantes chamas.. análoga era. Quase que escangalhada pelo vício. Acordavam os bairros da luxúria. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre.. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. no horizonte.. Mas. De certo. e as mãos... O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. Se extenuavam nas camas.

Como uma associação de monopólio. argots e aljâmias. Como quem nada encontra que o perturbe.De vós o mundo é farto. Sentia. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. que a sociedade vos enxota. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. porém. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. A consciência terrível desse inseto! Regougando. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. E hoje. na craniana caixa tosca. eu. 150 . Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. E estais velha! -. Eu pensava nas coisas que perecem. inquieto. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. no chão frio da igreja. A racionalidade dessa mosca. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces.

nos braços de um canalha 151 . Vem para aqui. E a ébria turba que escaras sujas masca. como Ugolino. após baixar ao caos budista. com o ar de quem empesta. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. em que eu entrei adrede. À falta idiossincrásica de escrúpulo. estriges voam. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. roubada à humana coorte Morre de fome. palpável. O fácies do morfético assombrava! -. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca.A estática fatal das paixões cegas. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. assim inchado.Aquilo era uma negra eucaristia. Mas. Quanta gente. sobre a palha espessa. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. Apareceu. O ar ambiente cheirava a ácido acético. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. E o cemitério. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Sem ter. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. escorraçando a festa. nesta hora. de repente. Já podre. Rugindo fundamente nos neurônios. Absorvia com gáudio absinto. Pela degradação dos que o povoam.

Comendo carne humana. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Todos os meus cabelos se arrepiaram. ao clarão de alguns archotes. como quem salta. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. À sodomia indigna dos moscardos. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Pisando. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. a camisa suada. entre fardos. Na impaciência do estômago vazio. Vendo passar com as túnicas obscuras. iguais a irmãs de caridade. Ao pegar num milhão de miolos gastos. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. a alma aos arrancos. Num prato de hospital.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. cheio de vermes. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos.

Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. Proporcionando-me o prazer inédito. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. E eis-me a absorver a luz de fora. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Os raios caloríficos da aurora. Como o íncola do pólo ártico. trazendo-me ao sol claro. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. Absorve. às vezes. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. De quem possui um sol dentro de casa. Uma sobrevivência de Sidarta. Manhã. Dentro da filogênese moderna. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 .Como indenização dos meus serviços. déspota e sem normas. após a noite de seis meses. O benefício de uma cova fresca. em vez de hiena ou lagarta. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. No frio matador das madrugadas.

O Espaço abstrato que não morre Cansara. Hirto de espanto. Acompanhava... numa furna. com os pés atolados no Nirvana. com um prazer secreto. em colônias fluídas.. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. a meu ver. Igual a um parto.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. Eu sentia nascer-me n’alma. A gestação daquele grande feto. Vinha da original treva noturna. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. tudo a extenuar-se Estava. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. corre. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. oh! Morte. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo.. entanto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . em vão teu ódio exerces! Mas. O ar que.

E agora..À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Rodeado pelas moscas repugnantes. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. não existes mais! 155 . Como! E pois que a Razão me não reprime. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. bela como um brinco. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. como eu. Coisa hedionda! Corro. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Antegozando a ensangüentada presa. É a hora De comer. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Com a diferença que Lisboa existe E tu. amigo. têm carne. Apenas com uma diferença triste. Ai! Como Os que... Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa..

Relembrarás chorando o que eu te disse. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. À sombra dos sicômoros eternos! 156 .Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. O Sol virá das épocas sadias. haurindo amplo deleite.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. sujo de sangue. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos.. à amostra. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. entre dores. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. oh! Mãe. quanto a mim. Do que essa pequenina sanguessuga. Assim. um novo Ser. No lábio róseo a grande teta farta -. E o antigo leão. Há de crescer. que te esgotou as pomas. a atmosfera se encherá de aromas. nas vitrinas. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. sem pretensões.. comparo. Clara.

O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. roendo a substância córnea de unha. haurindo o tépido ar sereno. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes.. Beber a acre e estagnada água do charco. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. com que guarda meus sapatos. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!.. numa ininterrupta Adesão. as tesouras Brônzeas. eu vivo pelos matos. mordendo glabros talos. também gira e redemoinham. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. maior do que Laplace. Tais quais.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. Os pães -. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Magro. Por causa disto. não prendi minha existência?! Por que Jeová. nos fortes fulcros.

Com a flexibilidade de um molusco. cheio de chamusco.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Dorme num leito de feridas. Úmido. E eu vou andando. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. apalpa a úlcera cancerosa. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Beija a peçonha. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. no agudo grau da última crise. goza O lodo.

quero. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Em grandes semicírculos aduncos. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário.. corte.. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. depois de morrer. largando pêlos. fustigue. em vez do nome -.. morda!. queime.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. bolem Nas árvores. De árvore em árvore e de galho em galho.. Com a rapidez duma semicolcheia. pelo ar. Eu. salta. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. no árdego trabalho. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. depois de tanta Tristeza. Entrançados. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas.. Nos terrenos baixos. Ladra furiosa a tribo dos podengos. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . A terra cheira. Os ventos vagabundos batem. No chão coleia a lagartixa. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos.Augusto . O ar cheira..

unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Quantas flores! Agora. Une todas as coisas do Universo! 160 . As lagartixas. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. dos esconderijos. Como um anel enorme de aliança. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Na bruta dispersão de vítreos cacos. Por saibros e por cem côncavos vales. sem conchego nobre. Urram os bois. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. como exóticos pintores. Pintam caretas verdes nas taperas. Aqui. Nédios. Viveu. outrora. À dura luz do sol resplandecente. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Amontoadas em grossos feixes rijos. batendo a cauda. em vez de flores. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Trôpega e antiga. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Os musgos. O aziago ar morto a morte Fede. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Como pela avenida das Mappales. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente.

com a misericórdia de um tijolo!. aqui. Súbito... Só.. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. Julgo ver este Espírito sublime. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. Que por vezes me absorve. arrebentando a horrenda calma.E assim pensando... trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. como quem raspa a sarna. da mesma forma que o homem morre. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. sem pai que me ame. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. De pé. Grito. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. À carbonização dos próprios ossos! 161 . e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. é o óbolo obscuro. à luz da consciência infame. A lamparina quando falta o azeite Morre..

hirta. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. Reduzidos. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. hórridos uivos Na mesma esteira pública. a arquivar credos desfeitos. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. Ouvem-se os brados Da danação carnal. como o estepe. Sente. urna de ovos mortos. espremendo os peitos. Com as mãos chagadas. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. a âmbulas moles. à luz do olhar protervo. alta noite.. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. recebe. por fim. funcionária dos instintos. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. à lua. O Vício estruge. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. 162 . ébria e lasciva. Bramando. através os meus sentidos. de cabelos ruivos. em coréas doudas. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. Entre farraparias e esplendores. Espicaça-a a ignomínia.. aliando. E a mulher. Lúbrica. em contorções sombrias.

Na óptica abreviatura de um reflexo. em cada humana nebulosa. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início.Chão de onde unia só planta não rebenta. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. de bruços.. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . filha do inferno. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente... E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza.. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. E a Carne que.. Ei-la. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido.. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada.. Fulgia. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. já morta essencialmente. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. E a dor profunda da incapacidade Que. É o hino Da matéria incapaz..

rubros. adstrito a inferior plasma inconsútil. e a estraga Na delinqüência . Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . ânsia De perfeição. como aborto inútil. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora..... A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis... talvez.. Que.. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. Numa cenografia de diorama. sonhos de culminância. Pudera progredir.. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.O atavismo das raças sibaritas. radiando.. hírcica. Saem da infância embrionária e erguem-se. adultos... Mas que. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. momentaneamente luz fecunda. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. decerto. Libertos da ancestral modorra calma. Como o ... Ficou rolando. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. impune. Irradiava-se-lhe. Na homofagia hedionda que o consome.

...................... condenada............................ 165 ..................................................................................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia...............................................Sugando a seiva da árvore a que se une! ......... Mordeu-lhe a boca e o rosto................... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos.................. .. ao trágico ditame... .................................................................... ....................................................... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto............... oca................. ........ ......................... .................................. ......................................................................................................... ......................................................................... .............................................. ................ ............................................... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E.

Cuida. enfim. chupo-a. E hoje que. Porque o amor. provo-a. é éter. poeta. ilusão treda! O amor. o egoísta amor este é que acinte Amas. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. Integralmente desfibrado e mole. Imponderabilíssima e impalpável. consoante o qual. A toda a boca que o não prova engana.. este o amor não é que. por experiência. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. Diverso é. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . conheço o seu conteúdo. atenta a orelha cauta. entretanto. É assim como o ar que a gente pega e cuida. do egoísta Modo de ver. enfim. o ponto outro de vista Consoante o qual. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. é como a cana azeda. eu que idolatro o estudo. tal como eu o estou amando. é substância fluida. o observas. Oposto ideal ao meu ideal conservas. Quis saber que era o amor. Para que. Pudera eu ter. É Espírito. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. observo o amor. amo Mas certo. em ânsias. Descasco-a..o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Como Mársias -. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. oposto a mim.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. pois.

.. contra ele.. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. opresso. no quadrilátero da alcova. Trabalharei assim dias inteiros. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. . Que importa que.. Sem ter uma alma só que me idolatre. com o seu grande grito. trabalhar contente. a tumbal janela E diz. E só. Como Vulcano. trágico e maldito. os monstros zombeteiros. olhando o céu que além se expande: ".A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. 167 . em ânsias.. que devia. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. depois disso.. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. abre.A maldade do mundo é muito grande. Entendi. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente.

sacudindo-o todo.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . Sobre a cidade geme a chuva. Batem-lhe os nervos. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.

íntegra. num canto de carro. 169 . O reino mineral americano Dormia. nas telúrias reservas.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. sob os pés do orgulho humano. lhe entregue. Com os ligamentos glóticos precisos. e erguia. alto. E a cimalha minúscula das ervas. A essa hora. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. banhava minhas tíbias. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Como um cara. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. E não haver quem. oh! céu. e absorve em cada viagem Minh’alma -. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. recebendo injúrias. Rua Direita.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. por ver-vos. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. Que forma a coerência do ser vivo. Recebiam os cuspos do desprezo. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia.Dizia. Cortanto o melanismo da epiderme.

Onde minhas moléculas sofriam. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. o ancilóstomo.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. O motor teleológico da Vida Parara! Agora.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. Mais tristes que as elegais de Propércio. Pareciam talvez meu epitáfio. com a símplice sarcode. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. O vibrião. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Pela alta frieza intrínseca. me pediam. Com a abundância de um geyser deletério. com o ar horrível. em diástoles de guerra. úmida e fresca.

a viúva. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. Eternamente aberta ao sol e à chuva. Parou em frente da mesquita morta. Mochos vagavam como sentinelas.Um vento frio começou gemendo. Era uma viúva. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Feras rompiam tolos e balseiros. Súbito alguém. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . . Os astros mortos refulgiam vivos E a noite.. Em passo lento. ampla e brilhante. nos altares esboroados. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. foi transpondo a porta. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. A Lua encheu o espaço sem limites E. E pelas catacumbas desprezadas. se desenrolava A esteira astral da retração etérea.. dentro. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. e o olhar errante. funeral mesquita. Uma vez.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. o passo constrangendo.

O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. Como uma exposição de carnes vivas. Fora. entretanto. entanto. contra ela. arremetendo. E raivosas. E sobre o corpo da viúva exangue. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. Além. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . infernais ardendo Todas as feras.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. Morria a noite.

ao sol. Assim. Pára.. afetando a forma de um losango. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. pela vez primeira. 173 ... E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. em luz perpétua.. Qual num sonho arrebatado fosse. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. ostentando amplo floral risonho. em plena podridão. Da qual.. Atravessando os ares bruscamente.. trêmulo. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. Rica. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. no meio. num enleio doce.. brilha A árvore da perpétua maravilha. exata.. entre assombros. tenho alucinações de toda a sorte. quem diante duma cordilheira. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. Verde. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. A saudade interior que há no meu peito. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos... Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. Na ilha encantada de Cipango tombo.

Passa o seu enterro!..Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem.. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Gozei numa hora séculos de afagos.. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.... A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. A tarde morre.. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Banhei-me na água de risonhos lagos. E finalmente me cobri de flores.. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.

. O Céu. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. nas Águas.globo de louça Surgiu. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Quem as esconda. outro se ergue e sonha. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. em lúcido véu. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . Vagueia um poeta num barco. A Lua . Espelham-se os esplendores Do céu. Vai uma onda.. de cima. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. Se um cai. as esconda. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. outro cai.BARCAROLA Cantam nautas. esse vai Para o túmulo que o cobre. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. em reflexos.

"O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . poeta da Morte!" .. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis.. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo... forte. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. "Viajeiro da Extrema-Unção..Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. porém. "Mas nunca mais. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê.

Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. Essa luz etereal bendita e calma. e. A República rola-lhe nos ombros. Fulgente do valor da vossa glória. risonho. oh! Redentora d'alma. fazei que destes brilhos. Não! que esse ideal puro. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. E ali do despotismo entre os escombros. Manchar não pode as aras da República. . A Liberdade assoma majestosa. Caia do santuário lá da História. Vós. esplendorosa.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. Oh! Liberdade. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. Da liberdade ao toque alvissareiro. oh Pátria. Como um Tritão. levando ao mundo inteiro. Da República a nova sublimada. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. pois. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 .AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Que apouca o triunfo e que se chama sangue.

ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. nas oliveiras. vendo o horror dos meus destroços. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. O amor reduz-nos a uniformes placas. cantam óperas inteiras. Uma montanha que se desmorona. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. E. à luz das minhas frases. desvairado. Estremecendo em suas próprias bases.Mas hoje. ao matinal assomo. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . Aves de várias cores e de várias Espécies. Na área em que estou. Além.. Passa um rebanho de carneiros dóceis.. 178 .

Da observação nos elevados montes Prefiro. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. Tal qual ela é. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. demonstrando-a. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. heroicamente. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. à nitidez real dos aspectos.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. à frente dele. sinto um violento Rancor da Vida . E quando a Dor me dói.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. ébria de fumo e de ópio. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime.. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 ..

Muito longe. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. a esmo. De lá. dos grandes espaços. Muito longe.CANTO ÍNTIMO Meu amor. em sonhos erra. olha estas feridas. erra. Passo longos dias. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. em sonhos. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. se duvidas. Que o amor abriu no meu peito. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. Vem cá.

Delícia que ainda gozo.. . Neve da minha dor. prece que ainda Entre saudades rezo. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. o louco. neve. ontem. Amor. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro... agonia bendita! .Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei.Misto de infinita mágoa e de crença infinita.. triste. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . Agonia de amar.Diz e morre-lhe a voz. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. Fazer parar a máquina do instinto.. Numa prece de amor. experimento O mais profundo e abalador atrito. escuridão e eterna claridade. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Mas. e o sofrimento De minha mocidade. Neve que me embala como um berço divino. murmura: . oração. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. quanto mais me desespero. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. a sós. abraça a sombra e.. agonia! . agonia.. Caminha e vai. Sem um domingo ao menos de repouso. uma nuvem que corre.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. numa delícia infinda. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. amor e frio. vendo-a. Frio que me assassina. num volutuoso assomo.. agonia. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor.

. Por seis horas seu braço empenhado na luta. E o Velho veio para o labor cotidiano. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. do agro solo. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. E em tudo que o rodeava.. funéreo 182 . Mas o braço cansou! Trabalhou. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. e o trabalho . e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . A terra escalda: é um forno. Fez reboar pelo solo. acende O pó. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. lúgubre e só. foi aos poucos se arrastando.. Triste. oito vezes. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. Rasgando. a superfície bruta.. mordendo a atra terra infecunda.

o Velho caminhava.o último esforço. avistando uma frondosa tília Julgou. Num instante viu tudo.. e o braço Pendeu exangue.. a toa.. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. louco.. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. e compreendendo tudo. flutua! Ninguém o vê. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. ele pisasse os trilhos. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. a flux d'água. o peito arqueou-se. e a sonhar. ninguém o acalenta. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. onde arde e floresce a Crença.. era a turba trovadora Que assim cantava. o precipício estava. Caminhava. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. a família! Não morreria.. tombando. o cansaço Empolgara-o. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. bêbado de miragem. Nem viu que era chegado o termo da viagem. a rugir-lhe aos pés. os filhos. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito.. pois! Somente morreria Se da Vida. Quis fazer um esforço . o acalenta. E amplo. sozinho.. avistar a Árvore da Esperança.

Negras. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. Na majestade dum condor bendito.ocaso nunca visto. mudo. Atros. e. pompeiam (triste maldição!) . mudo. Raios flamejam e fuzilam ígneos. luminosas. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. Trazem no peito o branco das manhãs 184 ..Asas de corvo pelo coração. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme.. fulvos. alvas. Descem os nimbos. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. rubro...Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. a Sombra . Além. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. ígneo.condensada treva A sombra desce. E a Noite emerge. E há no meu peito . . aos astrais desígnios. mudo.. sangrento O sol. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. dourando as névoas dos espaços.eis tudo! E no meu peito . volaterizadas. Subindo á majestade do Infinito. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas..

como tombou outrora. Fantástico. Sírius me deslumbra. ciclópico. Ah! Como tu. curvo ao seu destino. a lesma.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. O leão. Hoje de novo. em vão na luz do sol te inflamas. se. lodo. se tornassem ferros?! IV Poeta. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. entre esplendores. em lodo tudo acaba. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. se. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. a Aurora. o mastodonte..hóstia da Aurora. e hás de ser após as chamas. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. como se esses raios N'alma caindo. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. A Mágoa ferve e estua. Como Herculanum foi após as chamas. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. o tigre. há-de Alva. A alma se abate. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. 185 . E corno a Aurora . assassino Ébrio de fogo. Vésper me encanta. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba.o Sol . ontem moribundo. em plena e fulva reverberação. se erguer.. III De novo. de que serve. Mais em meu peito uma ilusão se enterra.

Vésper me encanta.Arrasta as almas pela Escuridão. frias. de ossos. E foi deixando essas funéreas. Então. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar.. foi valas funerais deixando. como abutres Medonhos.. a Lua que no céu se espalha. Iluminando as serranias. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. Canto. sobe ao pedestal.Fera rendida à música divina. e... pois poeta. E arrasta os coraç5es pela Descrença. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. Sírius me deslumbra. banha As serranias duma luz estranha. Ergue. Como recordação da festa diurna. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. onde. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. Pelos rochedos... de ilusões te nutres. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes.. pelas escarpas. Medonhas valas. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. pelas penedias.. e minh'alma cobre-se de flores .

187 . sonâmbulo..Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. E invejo o sofrimento desta Santa. Mas. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim... Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. eu também vou passando Sonâmbulo. nos céus altos. triunfalmente. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! .INSÔNIA Noite... Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. A dispersão dos sonhos vagos reuno... Depois de embebedado deste vinho. em mágoa. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. sonâmbulo..

hedionda.. batendo na alma. as flores. Aqui. em mágoa imerso. Cercado destas árvores. Atro dragão da escura noite. Agora. O Sol. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos.. por exemplo. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. Estou alegre.Vagueio pela Noite decaída.. porém.. estronda Como um grande trovão extraordinário. o funerário. As árvores. Com o olhar a verde periferia abarco. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Em que o Tédio. equilibrando-se na esfera. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. Recordam santos nos seus próprios nichos. neste silêncio e neste mato. os corimbos.

MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. os beiços na ânfora ínfima.Mucosa nojentíssima de pus. E o que depois fica e depois Resta é um ou. Olho-o. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. "Na tua clandestina e erma alma vasta. porque um. Todos os organismos são oriundos."Cinza. por outra. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. é mais de um. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . "Miniatura alegórica do chão. Presto. a esvaziar báquicos odres: . e na ínfima ânfora. através ovóide e hialino Vidro. harto. "Onde os ventres maternos ficam podres. por epigênese geral. Olho-o ainda. "Onde nenhuma lâmpada se acende. síntese má da podridão. Risco-o Depois. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . aparece. amorfo e lúrido. Dois são. De onde. certo. barro. ébrio. Mergulho. irrupto.

atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. sois vós. sozinho. Migalha de albumina semifluida. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Vida. Se escapa. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. Em que todos os seres se resolvem! 190 . De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. Na síntese acrobática de um salto. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. que.. dentre as tênebras.. Depois. muito alto. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. cósmico zero.Do mundo o mesmo inda e. o que nele Morre. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. Então. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. mônada vil. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. como nunca outro homem viu. do meu espírito. na terra instável. Move todos os meus nervos vibráteis. é o céu abscôndito do Nada. em segredo. sou eu. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Sob a morfologia de um moinho. ora.

Adeus! Que eu veio enfim.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. E eis-me outro fósforo a riscar. De onde quimicamente tu derivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 ... E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.

. vezes. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! .. Retroa o sino. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. medras Nalma de cada virgem.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. davas brandindo em seva e insana Fúria. tangendo tiorbas em volatas. . lembras.. Cantas a Vida que sangrando matas. chora e se lamenta e vibra. E. 192 . Troa o conúbio dos amores velhos . Ora.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem..Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . E em tudo estruge a tua dúlia . Sinos além bimbalham. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. . Amor.

193 . Assim.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. Cativo. . Irene. aos astros.Essa dominação aterradora . Irene. Eis o motivo porque fiz esta ode. ontem. beija os áureos pés dos ídolos. sonhei-a. Quedo. Irene. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. esse poder terrível. e eis o motivo. impassível! Esta de amor ode queixosa. fosforeando. pois. Entre timbales e anafis estrídulos. quando Entre estrias de estrelas.

provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. Quase com febre. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. erguido do pó. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. ao meio-dia. tinir. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. berrar. bruta. Da qual.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. irritado. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. Trinta e seis graus à sombra. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. E eu nervoso. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Inopinadamente 194 . num sardonismo doloroso De ingênita amargura. Dentro.

Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. A ouvir todo esse cosmos potencial.O ígneo jato vulcânico Que. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. .Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . afinal. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão.

Eu quero o meu Calvário . Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. E dá-me assim. Morreu-te a redolência.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena.QUADRAS Embala-me em teus braços. Aperta-me em teu peito. oh! morena ...Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. Assim como Jesus. perdeste a ciência. De lírios e boninas Um veludíneo leito. Aperta-me em teu peito. divina. Embala-me em teus braços! 196 . De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios.

Vista.. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. através do vidro azul. em ânsias: . Dói-me a cabeça. quatro.. Aumentam-se-me então os grandes medos. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. três. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! .. E aos tombos. Tenho 300 quilos no epigastro. No bruto horror que me arrebata. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. e. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. quando a noite cresce. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . 6. embora a lua o aclare.Uma.. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. em suma. 3 de maio.. duas. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha... Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. tonta Sinto a cabeça e a conta perco.ª-feira. A conta recomeço.Uma..

Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida ."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas.. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela.Sucede a uma tontura outra tontura. E o amontoamento dos lençóis desmancho. Por muito tempo rolo no tapete. Acho-me.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse... A lua é morta.... A luz fulge abundante 198 . Cinco lençóis balançam numa corda. Mas aquilo mortalhas me recorda.. Meu tormento é infindo. O suor me ensopa. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. por exemplo. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. Súbito me ergo. Ponho o chapéu num gancho... . . Elevam-se fumaças Do engenho enorme. numa festa. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos .. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Tomba uma torre sobre a minha testa. Tal urna planta aquática submersa. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza.

cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. hierática. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. Broncos e feios. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. No húmus feraz. passei o dia inquieto. radiante e estriado. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. Babujada por baixos beiços brutos. De mim diverso. em diâmetro. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. numa última cobiça. cheia de adubos. o céu. feliz. a terra resfolega Estrumada. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. Vários reptis cortam os campos. Entretanto. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. A ouvir. no ato da entrega Do mato verde. longe do pão com que me nutres Nesta hora. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . Côncavo. observa A universal criação.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças.

pituitárias Olfativas.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. tentáculos sutis. Mãos que adquiriram olhos. às da neve. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas.. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. Umas. Monstruosíssimas mãos.. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. a farpas de rochedo Completamente iguais. Pertencentes talvez. Mãos adúlteras. negras. E à noite. ás dos cristais. vão cheirar. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. Outras.. 200 . em sangue. Assinalados pelo mancinismo. a delinqüentes natos..

Rola a violeta santa dos teus olhos . Mas neste sonho. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. Sonho abraçar-te. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria ..Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. E como um nume de pesar.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura.. oh Quimera. . Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Opalescência trágica da lua! Tu. Pareces reviver a antiga Ofélia. langue e seminua.a Carne.Tufos de goivo em conchas de esmeralda. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . pálida camélia. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. plangente. Guarda a saudade que levou do Mame. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura.

Aprazia-me assim. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite.. O feto original.. Convulsionando Céus. Choravam. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. Eu procurava. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. No desespero de não serem grandes! 202 . almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. como num chão profundo. num ruidoso borborinho Bruto. era só O ocaso sistemático de pó. enquanto eu tropeçava sobre os paus. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. E. Cruzes na estrada. Aves com frio. com uma vela acesa. com soluços quase humanos. na escuridão. uivando hoffmânnicos dizeres. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. análogo ao peã de márcios brados.

de onde se vê o Homem de rastros. Fluía. A abstinência e a luxúria.Vinha-me á boca. Brilhava. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. Noite alta. uma voz 203 . Mas das árvores. Como o protesto de uma raça invicta. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. horrenda e monótona. Maior que o olhar que perseguiu Caim. ao colher simples gardênia. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. me tornara A assembléia belígera malsã. assim. vingadora. perdido no Cosmos. com a sidérica lanterna. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. frias como lousas. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. na ânsia dos párias.

com a febre mais bravia. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . isto é. iceberg. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. pois. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. árvore. oh! filho dos terráqueos limos. montanha. Na prisão milenária dos subsolos. entres Na química genésica dos ventres. diante do Homem. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. afinal. Rimos. em suma.. Nós. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. a espiar enigmas. Crânio. arvoredos desterrados. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Rasgando avidamente o húmus malsão. amanhã píncaros galgas. Para esconder-se nessa esfinge grande. choramos. ovário. Não trabalham. enquanto Deus. Tragicamente. Porque em todas as coisas. obscuro. na ânsia cósmica. Se hoje. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. Para erguer. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. porque. que. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto.Tão grande. tão profunda.. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. do Equador aos pólos.

Eu fora. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. em destroços. a escalar Céus e apogeus. a erguer-me. alheio ao mundanário ruído. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. desgraçadamente magro.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. astro decrépito. naquela noite de ânsia e inferno. Eu. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . A voz cavernosíssima de Deus.

206 . ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida.. Viver na luz dos astros imortais. As minhas roupas. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. é o prélio enorme. entre estes monstros. em coalhos. pela boca. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta.. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. E muitas vezes a agonia é tanta Que. armado de arcabuz. Para pintá-lo. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. rolando dos últimos degraus. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. no combate. arrancado das prisões carnais. quero até rompê-las! Quero. Minh'alma sai agoniada. Na ânsia incoercível de roubar a luz. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta.

esta arca. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. enfim. faz mal. é inútil..O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força.. Seja este. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. é improfícuo. A bênção matutina que recebo. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . a água que bebo. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. E tombe para sempre nessas lutas. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. E é tudo: o pão que como.. em suma..

... Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. e a mim pergunto... Sai para assassinar o mundo inteiro. Então meu desvario se renova. A Morte. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino..Faminta e atra mulher que. sozinho. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . numa cova. Intimamente sei que não me iludo.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. estudo. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. -. na vertigem: -. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. Como que. abrindo todos os jazigos. a 1 de Janeiro. à meia-noite. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. Corro. Mas de repente. em trajes pretos e amarelos. rio Sinistramente. come. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. ouvindo um grande estrondo.

A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. e após gritar a última injúria. como a gula de uma fera. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. desta cova escura.. Vi que era pó. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. acorda em berros Acorda.. Por tua causa apodreci nas cruzes. Quis ver o que era. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. canalha.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. e quando vi o que era. Eu desafio. Tu não és minha mãe. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo.. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam.. Como as estalactites da caverna.. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . É Sexta-feira Santa. e de declínio Em declínio. Deixa-te estar. que em mim dorme. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. em grupos prosternados. Perante a qual meus olhos se extasiam.. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. Amarrado no horror de tua rede. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Com as longas fardas rubras.

Dentro da igreja de São Pedro. O céu dorme.Um esqueleto. Roma estremece! Além. Desperto.. O vento entoa cânticos de morte. As luzes funerais arquejam fracas. Na Eternidade. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. Como as chagas da morféia O medo.. e a gente. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. A desagregação da minha Idéia Aumenta. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. somente eu. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. no ar de minha terra.. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores.. quieta. A árvore dorme Eu. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. vendo-o. Na molécula e no átomo. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo.