EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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...........123 Uma noite no Cairo ........ 212 5 ................................ 162 Versos de Amor ................... 168 Noite de um Visionário ................................................. 180 Canto Íntimo .......................................................................................................................................... 166 A Luva ............................................................................................................................................. 204 Viagem de um Vencido ...................................... 141 Os Doentes .................................. 200 Mãos ................... 175 Barcarola . 183 Gozo Insatisfeito .......... 205 Queixas Noturnas ....................................................................... 195 Numa Forja ............. 173 A Ilha de Cipango ................................. 183 História de Um Vencido ........................................................................ 203 Vênus Morta .............................. 157 A Meretriz ............................................................................................................................................ 192 Ode ao Amor ................................................................................. 155 Mater .... 209 Poema Negro ..........128 As Cismas do Destino ......................................................... 142 À Mesa ...... 179 Estrofes Sentidas .................................................................. 197 Quadras ................... 156 Gemidos de Arte ................................................................................................................................................................................................ 129 A Caridade ..................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ..................... 182 Canto de Agonia ........................................................................................... 190 Mistérios de um Fósforo ................. 199 Tristezas de um Quarto Minguante ........ 176 Ave Libertas . 170 A Vitória do Espírito ...................................................... 184 Idealizações ..... 155 Duas Estrofes .................................................................................................... 186 Insônia ...........

Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. o eu fora do Eu. não conhecemos sequer a nossa. contudo. É preciso. compreendendo inclusive a estilística. na chaga viva de sua consciência. entrava em crise espiritual. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. poder conhecer a árvore pelo fruto. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. Por conseguinte. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. numa atitude de respeito e reflexão. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. Nessa tentativa de interpretação psicológica. nos moldes da velha orientação impressionista. em suas mensagens de angústia. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. no que há de mais sutil e imponderável. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. segundo as síndromes patológicas revelados. paremos reverentes à porta do templo. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. Sua personalidade singular ali se projeta. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. Nalgum ponto. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. Fazer o elogio do poeta. que o não convencia de todo. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. e era aí. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. ao menos. isto é. senão em mais de um. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. nesse estado de superexcitação. um psicastênico para outros. na verdade. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. Gráfica Ouvidor. quando. ed. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. que é de todas a menos operante. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. Não me parece. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. RJ. desejosos de.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. 1962) 6 . pois. Teria sido um neurótico para uns. Deste modo. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava.

com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . repetindo conceitos. o refinamento de suas faculdades morais. E por curiosa coincidência. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. A mãe do poeta. nem os que vieram depois. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. não há negar também a dos psicológicos. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda.for. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. todo o seu temperamento emocional. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. caracterizado por uma sensibilidade doentia. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. como é do gosto da crítica científica. igualmente inteligentes. que nada explica. em relação com a casuística. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. na classificação dos antropologistas do século passado. só ele dava a impressão de um desajustado. aos que se rebaixam para subir. sobre o seu caso clínico. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. que já era constitucionalmente quase louca. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. a de Byron. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. com preocupações de grandeza e fidalguia. reduzir tudo a categorismo. tem sido Augusto comparado a Leopardi. no final. Explica-se deste modo. Por seu parentesco espiritual. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. da inteligência. Sem o concurso da causa primária. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. além mesmo da gravidez. tiques nervosos. Pai e irmãos passavam por normais. Assim como a mãe de Augusto. sestros. choques emocionais. a de Nietzche. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. Augusto não era um homem igual aos outros. de fundo genético. por motivos vários. Nietzche. perturbou-a por muito tempo. por vezes controvertidos. menos a de Byron. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. estudante de medicina. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. Obviamente. causada pela perda imprevista de um irmão querido. não é possível interpretar a obra de um escritor. nas modalidades do caráter. Byron. aos que se acomodam. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. sobretudo quando provém da linha materna. Ao que se sabe. a partir de Lombroso. a de Wilde. enfim. Juízo é coisa que todos julgam ter. fobias. do sentimento. enfim. Nem os que nasceram antes. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. Isto posto. a de Leopardi. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta.

O rapazinho de 16 anos. segundo os primeiros retratos que temos dele. estavam a fazer dele um lírico. no último ano do século passado. bradava para o conceituado mestre que o argüia. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. para aprazimento intelectual das elites. Coelho Rodrigues. em sua linha tomista. guiado apenas pela ilustração paterna. A paisagem bucólica da várzea. conforme disse num soneto que não consta. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. a sua própria vida sem problemas. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. a rigor. mas no final 8 . entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. em prefácio à segunda edição do Eu. do Eu. em contraste com a mocidade e a inteligência. Alexandre dos Anjos. aprendeu a ler e. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. para maior complicação de sua personalidade. visto ter nascido poeta. evolvia para o evolucionismo de Speneer. em Monólogos de uma Sombra. os quais o acompanhariam. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. em 1900.Augusto com a sua personalidade psicológica. Muito cedo. mas não era somente isso. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. cinco anos após a sua morte. Era de fato um excêntrico. como uma fatalidade. sem afastar-se do lar. logo mais. saído da roça. dr. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. Deste modo. Nada de admirar. ao invés de um estudante bisonho. inspirado na natureza e no amor. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. cuja vida corria sem obstáculos. que a metafísica estava morta. a quietude da vida na província. Com seu pai. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. era um introvertido. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. Logo mais. O que há de singular nele não é. o seu tipo de pássaro molhado. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. até o túmulo. que lançou em 1919. Falava nele o positivista que. com o título Eu e Outras Poesias. Sílvio Romero. na várzea do Paraíba. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. Já em 1875. A par disso. como expressão do pensamento nacional. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. sofreu duros reveses. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. sofregamente bebida nas academias.

de onde saiu formado em 1907. entre o mundo da forma e o mundo da razão. Augusto pouco falava. se o diabo é tão feio como o pintam. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. O beatério era o último reduto do catolicismo. introduziu entre nós a poesia científica. a velha Escolástica. aliás. Embora educado na religião católica. um século antes de Hugo. em sua. desde Haller. ou mesmo. proceda ou não proceda. dupla feição de filósofo e de poeta. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. como uma velharia do século. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. que. emancipou-se dela intelectualmente. como toda substância animada. que só cuidava de preocupações teológicas. aliás bem pouco lisonjeiro. Nas rodas que se faziam na Paraíba. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Desta forma. Aliás. conciliada. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. com a evolução da matéria e do espírito. está sujeita também ao processo da evolução. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. ficava a escutar os companheiros. Na Paraíba. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. Comte passou. Ao que parece. Até no Piauí. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. suportou a mais dura crise. Ainda na fase preparatória de estudos. firmava-se o conceito. em seu livro Frases e Notas. tentou o milagre de 9 . Desses embates. mas a origem simiesca do homem. a exemplo de Victor Hugo. faziam praça de livres pensadores. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. adepto do positivismo.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. Martins Júnior. já lidos nos filósofos da natureza. Os menos letrados. de que católico era sinônimo de burro. o pensamento ao longe. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. isto é. confundidas ambas na unidade cósmica. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. os intelectuais mais dotados. Por todo o Nordeste. nas concepções filosóficas de seus poemas. já no seu ocaso. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. José Américo de Almeida. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. Esquisitão que era. Laurindo Leão. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico.

. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche.. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. Da substância de todas as substâncias. Quem já o leu uma vez. poema que abre o Eu e Outras Poesias. começa então o drama crucial da consciência. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. que passou do reino vegetal para o animal. Venho de outras eras. por força das sucessivas mutações da matéria. Vejamos. depois de infinitas transformações. fundado na unidade cósmica. terso na linguagem. É a sua confissão de f transformista. chega aos seres mais complexos. como amostra. nas duas composições uma coincidência de temas. simultâneas. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. A simbiose das coisas me equilibra. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. E assim continua. Pólipo de recônditas reentrâncias. trinta anos antes. Integrado na sociedade. Rimbaud escrevera Bateau ivre. Em minha ignota mônada. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. 186 versos. identifica-se na substância primeva. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. Não sofre apenas a sua dor. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. vibra A alma dos movimentos rotatórios. “esse mineiro doido das origens”. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. Aos 17 anos. Não há. todavia. numa caminhada de 31 estâncias. O aspecto conceptual do poema. naquela mesma idade em que. que é a derrota da humanidade. A saúde das forças subterrâneas. na larva que procede do caos telúrico. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. ora transfigurado em filósofo moderno. enfim. Encontra-se. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. a consciência 10 . mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. como bem observa Cavalcanti Proença. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. já desiludido. procedo Da escuridão do cósmico segredo.. Do cosmopolitismo das moneras. facilmente o identifica. até adquirir a forma humana.reduzir a um campo único a ciência e a arte. e—crente no tema. A partir da monera. já diferenciado na mônada. ampla. incomparável na forma musicada.. Larva do caos telúrico. E é de mim que decorrem. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra.

Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. entendia o agregado abstrato da saudade. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. o remorso já acordado na caverna escura. numa espécie de solidariedade subjetiva. centro de toda a acuidade sensorial. cuido não estar proferindo uma heresia. Nada obstante. natural de minha terra. em esconderijos apropriados. o vidente de Patmos: . A partir dai. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. chamando a si. manifestou o seu espanto.No princípio era o Verbo. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. no entanto. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. que faz quase lembrar a reencarnação. A rigor. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. É a concepção monística. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. noção trivialíssima das funções orgânicas. dentro do mundo fenomenal. A mesma coisa.conspurcada de gozo malsão. do ponto de vista metafísico. diante das maravilhas do aparelho encefálico. dezenove séculos antes. temos aí um transformismo metafísico. há que distinguir um pormenor. segundo querem os frenologistas. assombrado com o não-ser. conheci um sujeito. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. o sofrimento de toda a humanidade. No tocante à transformação da matéria. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. ouvia mais que um tísico. Nesse estado d’alma. o que vale dizer. Por alma. como está dito em Monólogos de uma Sombra. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. O próprio Augusto. Por fim. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. No fundo. tantas vezes exaltada pelo poeta. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. entrega-se ao sacrifício. com sótão e porão. que a ele não interessava considerar. já havia dito. que tinha os ouvidos totalmente tapados. uma espécie de fogo que devora e não consome. no princípio era a força.

Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. filho do carbono e do amoníaco. Sofro. sem problemas materiais: Eu. cadáveres e bocas necrófagas. Custa crer que este soneto . desde a epigênese da infância. dominado por um ceticismo acabrunhador. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. procura penetrar o mistério da substância universal. admite o éter. o éter cósmico. onde não há lugar para a alegria. impreca.Psicologia de um Vencido . Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. Profundissimamente hipocondríaco. No auge da inquietação. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras.este operário das ruínas. Exausto da luta. Por toda parte. onde imperam sombras. A influência má dos signos do zodíaco. O mundo em que vive é um vasto hospital. o lado malsão da vida. Este ambiente me causa repugnância. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Em tudo.. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Nem por isso admite Deus. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. Já o verme .. Monstro de escuridão e rutilância. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. rasgar do mundo o velário espêsso.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. que é o Deus materialista de Haeckel. Ao invés de fecundação do espírito. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. causa-lhe repugnância. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. E há-de deixar-me apenas os cabelos. uma natureza gasta. solta blasfêmias. na melhor das suposições. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. procura 12 . a matéria putrefata. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. só serviu para adensar o clima de alucinação. vermes. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. O próprio amor.Fazer a luz do cérebro que pensa. fonte inesgotável de vida. Querendo fugir a essas coisas.

Por um instante.. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. gasta imensas energias e enche de culminâncias. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. que os anos não carcomem. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. sente o desejo. a perda da crença e. coberto de desgraças. E é nesta manumissão schopenhauriana. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. O resultado de bilhões de raças Que. Há. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. que ele denomina um sonho ladrão. Depois disso. Mas o diabo não larga a sua presa. Espera aí encontrar o seu nirvana. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. E para não capitular a esse apelo. paralelamente. deve ter acontecido na sua juventude. Até agora 13 . Com efeito. A julgar pelos seus gemidos. monstros terríveis. numa atitude mental de fuga à realidade. o Eu e Outras Poesias. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. Algo de mais grave. O subconsciente o aturde. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. E via em mim. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. como se supunha. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Grita a sua dor por toda parte e. podia fazer dele um triste. uma desgraça na vida do poeta.. Nenhum pintor. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. no todo ou em parte.refúgio na inexistência espiritual. acompanham-no. evadido de si mesmo. não há homem que sofra mais. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. já cansado de escutar a natureza. Tudo isso. nem Haeckel compreenderam. tenta ir ao fundo da crença monística. que exulta triunfante: Gozo o prazer. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. Onde quer que se refugie. em suas visões oníricas. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. com o poder de sua imaginação. a terrível moléstia que se atribui. Antes de mais nada. com efeito. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. diz ele. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo.

Ele próprio. no capítulo do amor.. Por mais que Augusto negue o amor. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Gozei numa hora séculos de afagos. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. que é o drama mais doloroso de sua consciência. Trata-se. Por mais que procure fugir ao assunto. Por enquanto. em . Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Por suas próprias palavras. Lembro-me bem. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária..esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. . no tocante a esse drama. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. sempre se revela. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. Exatamente aí. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. não pode ocultar que foi vítima dele. Iríamos a um país de eternas pazes. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. desespero virtual e não real. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . inútil seria qualquer esforço. de uma paixão. pois. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. dada a ausência de biografia.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor..

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

. como em .. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.. nunca foi chegado a santos. mas no poema . Noite.Insônia . Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. em mágoa. Sonâmbulo.. Como um bemol ou como um sustenido. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido.santa. Depois de embebedado deste vinho. como é sabido. surpreende com a invocação de Santa Francisca. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.. E invejo o sofrimento desta Santa..referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Sonâmbulo.Queixas Noturnas . confessa mais uma vez a sua culpa. ao mesmo tempo que. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha.extravasava desta forma o seu lamento: 19 . O poeta. que não é das mais invocadas. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. contrito. eu também vou passando Sonâmbulo.

Madrugada de treze de janeiro. Nem uma névoa no estrelado véu. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. pouco fala. quando a morte o olhar lhe vidra. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. A morte é o fim de tudo. Minha alma sai agoniada. sem resolver a verdade interior.. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. entre estes monstros. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição.. entretanto. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. luta por fugir dela. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. Como Elias. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai.As Cismas do Destino . Em . dormir primeiro. o ofício da agonia. Mas pareceu-me. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. mas para os que crêem há ainda uma esperança. entre as estrelas flóreas. num carro azul de glórias. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. expressa a sua mágoa numa comovente unção. sonhando. apenas três vezes. que não admite a vida espiritual. Da mãe. Rezo. como perseguido pela sinistra ceifeira. Ao pai. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. Mãe. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. não para ele. que parece se deixou levar por pressão da família. Ao vê-lo morto.brada: 20 . ama-o até mesmo na atômica desordem. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio.

Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. como em toda a obra. Minha filosofia te repele. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Vivia um mundo à parte. Por tua causa apodreci nas cruzes. E ainda. Nestas condições. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. escravo do raciocínio frio.Morte. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. habitado por monstros humanos. 22 anos de idade. ponto final da última cena. levava-o a recolher-se em si mesmo. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”.. as palavras também servem para ocultar o pensamento. Já que não crê em Deus. embora ansiasse por encontrá-lo. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. Aqui. Ao invés de ajustá-lo à realidade. ardendo em indagações subjectivas. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade.. Acha Flósculo da Nóbrega. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Procura assim desoprimir o coração. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. Nada o consolava nesse estado de espírito. quando recebeu os 22 açoites da natureza. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. Não me parece tenha razão 21 . desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. cheio de imperfeições. não cria em Deus. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. que Augusto era um cerebral. Forma difusa da matéria imbele.. devia ter na época..

foram produzidos no Pau D’Arco. passos largos. Era. Nem ele próprio se conhecia. O que produziu no sul do País. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. conforme declarou nesta honesta confissão. De um modo geral. tinha-se na conta de um doente. o cérebro em fogo. volta-se vez por outra contra a sociedade. ao contrário. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. Há.o ilustre intelectual paraibano. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. no caso. sua musa empalideceu à falta de ambiente. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. em 1912. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. Ao contemplar esse ambiente. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. Depois que o poeta deixou a Paraíba. A inspiração despertava com a dor. Os seus melhores versos. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. de vez que ninguém o compreendia. mas porque se sente um desajustado. que o acolhia com carinho. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. contudo. andar bamboleante. noite a dentro. Desta. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. que o 22 . um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. Não que tenha recebido ofensas dela. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. mas no particular. além de pouco. Na luta em que Augusto se debate. entrava em crise espiritual. No fundo. nunca recebeu hostilidades. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. como um sonâmbulo. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Não importa que tenha morrido de pneumonia. os de maior densidade emocional. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. torturado no sentimento do desamparo. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. que só repugnância lhe causava. e a mim pergunto. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. um homem excluído do mundo. Punha-se então a passear. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. ao redor da capela do engenho. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. Fosse como ele diz. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade.

os acordes saudosos do coração. como ele chamava. hosanas ao Senhor. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. à guisa de ácido resíduo. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. Lá para o fim do poema. imaginária cidade à margem do Paraíba. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. aliada à descrença. ansiado e contrafeito. 23 . Parece que desperta para a vida. numa emoção que comove. Era ali. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. sob os seus pés. entra a descrever a cidade dos lázaros. num desalento ainda maior. fez dele um misantropo. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. como se já tivesse perdido o alento de viver. Mais adiante. “na urbe natal do Desconsolo”. Perdido o amor. confessa-se minado pela tuberculose. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. Em As Cismas do Destino. Já cansado do ceticismo. De início. como um arrependido. pois. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce.próprio poeta confessava. Essa real ou imaginária doença. passa a chorar a sua dor e a alheia. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Não há. em Os Doentes. Na ascensão barométrica da calma. Depois disso. Eu bem sabia. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. perdeu também a crença. o soneto Vandalismo. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. eis que escuta. em serenata. na terra onde pisava. que admirar chore um dia a crença perdida. onde os anjos cantavam. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. atormenta-se com a idéia de que. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. Flóscolo da Nóbrega. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. tenham bordejado na superfície do abismo em. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Onde um nume de amor. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . João Lélis. apenas como autor de um livro apologético.. Não é. em gemidos de dor. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. pois. muitas opiniões foram veiculadas. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. era apenas o meio de formular soluções. Ao contrário da incontinente afirmativa. Raul Machado. Sua obra. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. para ele. ler. Enfim. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. Canta a aleluia virginal das crenças. Nesse decurso. posto que. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Álvaro de Carvalho.Meu coração tem catedrais imensas. em serenatas. Sabe-se como compunha. João Lélis e De Castro e Silva. A arte. por exemplo. já na 27ª edição. Assim é que. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. chegou a dizer que Augusto não era poeta. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. na Academia Paraibana de Letras. No desespero dos iconoclastas. há sempre o que referir. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. Dos outros. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. destaco Órris Soares. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. quase todos. este último.. que se afundava a alma do poeta. que não é biografia e não chega a ser estudo. Templos de priscas e longínquas datas. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Santos Neto. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. José Américo de Almeida. No final de contas.

tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. este na prosa. em 1945. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. que pretende ser de interpretação psicológica. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. o que acabava de compor. olhar perdido no espaço. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Em ambos. duendes. impressionam pelo poder da dialética. que não tenha fecundado a poesia nacional. claro que avulta ainda mais o seu mérito. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. à primeira vista incompatível com a poesia. lá fora. enquanto forjava mentalmente a composição. figuras espectrais e outras visões sinistras. Em ter ficado sozinho. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. escarros. Só depois de elaborada é que ia para o papel. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. de um a outro canto da sala. num timbre especial de voz. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. Poe e Rimbaud. Seus versos. vermes. Cavalcanti Proença. disse que uma das suas forças. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Essa incompreensão a respeito de Augusto. com efeito. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. No entanto. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. Os versos espoucavam no momento da inspiração. Euclides da Cunha. como em compasso de música. a passear a esmo. sangue de vísceras dilaceradas. lábios crispados. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. Órris Soares. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. como lamenta o crítico. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. túmulos. o sentimento parece ter outra dimensão. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição.devoradoras. o outro 25 anos depois. Essa crítica. reside justamente no termo técnico. associado à vibração sonora. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. a sua personalidade psicológica. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. Muitas vezes. insulado em sua própria grandeza. Neles. essa linguagem. a densidade. também 25 . na época. entrava disciplinada em seus versos. um em 1920. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. sobretudo da crítica provinciana. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. o que era. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. Foi então que recitou de inopino. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. entre nós. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. Por tudo isso.

na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. mesmo doentia. pela tristeza indefinível da alma. como se vê. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Ou então. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. neste ensaio de exegese literária. Com Baudelaire. O anojamento de Álvaro de Carvalho. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. por isso mesmo poética. Nem por isso. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. na interpretação de um drama emocional. pelas crises espirituais porque ambos passaram. não lhe tira o vigor da expressão verbal. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. Há. a fim de atingir. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. de sentido mais profundo. Eis porque.ficaram sem seguidores. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Com Verlaine. com efeito. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. é mais uma aversão de olfato alérgico. aparelhou. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. Não pode o critico ser ortodoxo. num dos seus últimos sonetos. que apenas transparece em linguagem evasiva. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Mas é preciso notar que essa musa. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. elogios ou restrições. 26 . numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. reconheça-se que essa poesia é humana. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. nem tudo pode ter cabimento. Com Mallarmé. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. está em tempo de ser feita. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. no duelo da carne.

Encontra-se. por sua natureza. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. só nesse ponto dissimula o pensamento. Segundo Delahaye. Com Leopardi. na postura de um campônio rústico.através da sensação. num artigo publicado em 1914. na terra santa. em tropos ousados. guardando o corpo do Divino Mestre. Honesto em tudo. Com Antero do Quental. de mistura com alucinações. sensações simples e cenestesias. em termos de comparação. Vez por outra. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. encontra-se em Roma. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. Ouvindo isso. um mês após a morte de Augusto. um grande medo toma conta do poeta. temida pelo outro. É. em quem se acumulam. foi José Américo de Almeida. Augusto lembra Rimbaud.. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. para a neologia e o vocábulo raro. no ar de minha terra. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. de uma honestidade quase bravia. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. Só com Rimbaud. em grupos prosternados. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. havia acentuada tendência do poeta. as mesmas figuras de linguagem. visionário. “Na Eternidade. A mesma coisa ocorre com Augusto. desde a sua fase inicial. a idéia pura das coisas. Também no amor os dois se assemelham. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. Súbito. Não fica apenas aí o confronto. citado por Augusto Meyer. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. pelo sentido da dor universal. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. isso mesmo de passagem. palavras raras e eruditas. desejada por um. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. vem o barulho das matracas. crematismos. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte.. a filosofia da dor. como neste exemplo: 27 . De lá de fora. os mesmos descuidos de metro e rima.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. assentado sobre cacos de pote e urtigas. numa sexta-feira santa. O único que mencionou Rimbaud. que dialoga com os elementos imponderáveis. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. Até nas aliterações e metáforas. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase.

Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor.. vítima de injustiças humanas. onde se casou com uma nativa da Abissínia. em suma. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. Descasco-a. segundo é fama.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir.. chupo-a. mas que o levaram ao resultado conhecido. . largou-se para a África. filha legítima de sua alma. ilusão treda! O amor. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Rimbaud. é improfícuo.. exacerbava-a. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. o bem e o mal caminhando juntos. Não sou capaz de amar mulher alguma. que era o seu anseio máximo. a julgar pelos seus lamentos. por causas várias. um suave concerto espiritual na natureza. Em cada um deles. à beira da água.”. Há. poeta. Depois desse fato. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. embora tenham se casado e tido filhos. provo-a. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. é como a cana azeda. No tempo de jovem. em busca do paraíso terrestre. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. na Bélgica. como Tântalo. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. Motivos escabrosos. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. uma diferença de fundo entre os dois poetas. é verdade. sente-se que há um complexo de culpa. Augusto sentia-se puro. andou conspurcado de sensações súcubas. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. contudo. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. homens de bem cheios de nobres intenções. é inútil. A toda boca que o não prova engana. E como não 28 . A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Ninguém sofre mais do que ele.

como Camões na de Petrarca e de Vergílio. Augusto vai irredento até o fim. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. numa reação inócua. deixava-se ficar no interior da concha. A vida. segundo apregoam os fundibulários da crítica. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. depois que perdeu a ilusão dos homens. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. entre a voz do sentimento e a da razão. contra a sociedade.. do qual se considerava prisioneiro. como fontes de inspiração. perfume. chegaríamos por certo ao pai Homero que. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. a criação. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. Possuído do demônio da dúvida. 29 . sem preencher esse vácuo. conforme confissão feita a Mário de Alencar. martelada em versos magníficos e candentes. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Foi a partir daí. Tais similitudes valeriam. isto é. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. Por curioso paradoxo. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. tudo quanto desperta a alma. silvos de labaredas e suspiros de empestados. Um problema sempre gera outro. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais.pode reformar o mundo. cor. Neste passo. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. isto é. contra a sua grei. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . beleza. quando muito. luz. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. revolta-se contra o mundo. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. perdia-se no estado de dúvida. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. mas nem isso acredito tenha havido. os mistérios da natureza. som.Une Saison en Enfer . o amor. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida.espécie de autobiografia moral. tudo quanto eleva os sentidos. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Mesmo assim. Não raras vezes. onde não faltavam o ranger de dentes. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. dessa conversão ao materialismo. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. porém. imitação. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. Há muitas espécies de conversões em literatura. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare.

sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. supria-se do mais no magistério particular. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. Ora. heresia maior que a do poeta quando. Vale mencionar. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. é. É o que há. proclamou que Deus não existe. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. se não há Deus. uns afirmando. resolveu o presidente submeter a questão a votos. outros negando. na realidade. mas os que o seguem desconhecem. quando não proferida por modo vulgar e chulo. Se o Cristo não vem em seu auxílio. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. aceitar as imperfeições do mundo. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. afetando melindres de devotos. porquanto Deus é princípio e é fim. é questão que não deve ser formulada. se manifesta ainda escravo do batismo. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. que se veja na blasfêmia. como ninguém ainda se entendesse. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. a essência dos Evangelhos. a propósito.Enredado em idéias preconcebidas. em torrentes de eloqüência. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. Apurada a eleição e com base no resultado. Se há Deus. todavia. Todos nós. Convém. a meu ver. Alguns críticos. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. com raríssimas exceções. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. tal como Rimbaud. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. via de regra. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. No meio em que viveu era querido e admirado. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. nas Alterosas. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. no desespero de tantos sofrimentos. Isso mostra que ele. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. Ao cabo do bombardeio oratório. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. um pedido de socorro. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. em meio a tantas emoções extravasadas. 30 . Os oradores. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. se sucediam na tribuna. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. viram nisso o pecado da blasfêmia. Na prática.

e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. os filósofos iônios. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. Como uma vela fúnebre de cera.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . virtudes que cultivava com extremado zelo. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. A denominação. esta árvore de amplos agasalhos Guarda.Debaixo do Tamarindo. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. sob estes galhos. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. começa o poema “Sou uma Sombra. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. desde Tales de Mileto. como uma caixa derradeira. através dos séculos. 31 . coisa que não cabe na boca de um ateu. No tempo de meu Pai.atormentado por visões escatológicas. Voltando à pátria da homogeneidade. De outras vezes. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Abraçada com a própria Eternidade. explodiu em As Cismas do Destino. por mãos de seu filho Pirro. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. entendiam a alma. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. como se vê. E como era sincero e honesto. vem de muito longe. o sacrifício da linda moça Polixena. dá à alma a denominação de sombra. Por outro lado. De inflexões mentais sua obra anda cheia. Só muito raramente soltava uma blasfêmia.

Que outros. 32 . nas composições que vão até o fim do livro. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. acrescenta. virtualidade espiritual. em briga com o dualismo. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. em soluços quase humanos. como entidade eterna. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. as formas microscópicas do mundo. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. que procede do éter cósmico. a 12 de novembro de 1914. Assim vai. mas dentro da alma aflita Via Deus . desde o declínio das crenças mitológicas. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. aos 30 anos de idade. É a substância primeva. era uma mônada. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. da substância de todas as substâncias. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. Choram ainda dentro dele. tal como se apresenta. até que morre numa cidade das Alterosas. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. assaltado de alucinações. Daí por diante. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. mas com o que ai está me contento. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. Até Deus. para ele.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. na Federação das Academias de Letras do Brasil. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. tal como a entendiam os filósofos iônios. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. isto é. !" Este trabalho. larva do caos telúrico. vacilante na ciência fria. Mais poderia dizer agora. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. perdendo-se novamente no enleio cósmico. até mesmo num grão de areia. sua intimidade numenal. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. em Leopoldina. mais dotados de inteligência e espírito de penetração.

vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. da chamada vida física. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Sofre de insônia. presumo. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. Eu. R. Engenho Pau d'Arco. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. dos Anjos e D. Tenho insônia raras vezes. o que não impede. entretanto. 33 . de abusar um pouco do café. Córdula C. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Rio de Janeiro. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Conservo de memória tudo quanto produzo. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir.

Esforços faço. igual a um olho. Meu Deus! E este morcego! E. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. “Vou mandar levantar outra parede.. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau.” -.. Já o verme -. Fecho o ferrolho E olho o teto. Minh’alma se concentra.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Ergo-me a tremer. A influência má dos signos do zodíaco. E vejo-o ainda. Este ambiente me causa repugnância. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. filho do carbono e do amoníaco. Chego A tocá-lo. Monstro de escuridão e rutilância. Sofro.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite... Ao meu quarto me recolho. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . agora. E há de deixar-me apenas os cabelos. Produndissimamente hipocondríaco. desde a epigênese da infância. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. e à vida em geral declara guerra.Digo.

raquítica. Delibera. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Mas.. Chega em seguida às cordas da laringe. quando sonha. À noite. e quase morta. tênue. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Riem as meretrizes no Cassino. Tísica. Anoitece.. Quebra a força centrípeta que a amarra. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. Deixa circunferências de peçonha. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. de repente. e depois... Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Que. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. em desintegrações maravilhosas. mínima. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 .

E. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Fruto rubro de carne agonizante. Em que lugar irás passar a infância. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . em letras garrafais. Realizavam-se os partos mais obscuros. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. com a sinergia de um gigante. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Meus olhos liam! No húmus dos monturos.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. feto esquecido. Tragicamente anônimo..Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Agregado infeliz de sangue e cal.. Que poder embriológico fatal Destruiu.

Ah! Para ele é que a carne podre fica. Livre das roupas do antropomorfismo. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . arrima-a. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Almoça a podridão das drupas agras. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. pelos séculos adiante. em que tu dormes.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Cão! -. Suficientíssima é.. Filho da teleológica matéria. E irás assim..é o seu nome obscuro de batismo.. ampara-a. Na superabundância ou na miséria. Janta hidrópicos. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. E vive em contubérnio com a bactéria.. para provar A incógnita alma. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. afaga-a. Verme -.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes.

esta árvore. Guarda. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. de amplos agasalhos. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome.corte Minha singularíssima pessoa. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se.. como uma caixa derradeira.. sob estes galhos. Dr. Como uma vela fúnebre de cera.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Voltando à pátria da homogeneidade. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. e. esta tesoura. portanto..

Alheio ao velho cálculo dos dias. por toda a pro-dinâmica infinita. Na guturalidade do meu brado. Por trás dos ermos túmulos. mas dentro da alma aflita Via Deus -. com uma ânsia sibarita.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. -. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. com o esqueleto ao lado. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. como quem tudo repele. Como um pagão no altar de Proserpina..essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia.. um dia.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 .

nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. moços do mundo. Nos estados prodrômicos da vida. vede: É o grande bebedeouro coletivo. talvez. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Todas as noites. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . como um gado vivo. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. nesta rede. Oh! Mãe original das outras formas. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Ah! De ti foi que.. Em que é mister que o gênero humano entre. Onde os bandalhos.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. Dentro do ângulo diedro da parede. mísera e mofina. autônoma e sem normas. Como quase impalpável gelatina. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo..

IDEALISMO Falas de amor. O mundo fique imaterializado -. para o amor sagrado. É. Amo o coveiro -. como o filósofo mais crente. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando.. é o ego sum qui sum . Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. é o pneuma . na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. Creio.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous .. É a morte. perante a evolução imensa. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum.

subi talvez às máximas alturas. caixas cranianas. nele. se hoje volto assim.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. cartilagens Oriundas. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. Vaguei um século. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. como os sonhos dos selvagens. inclusas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 .. talvez as Musas. Mas.. À meia-noite. com a alma às escuras. improficuamente. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Comi meus olhos crus no cemitério.. Era tarde! Fazia muito frio. e. Pelas monotonias siderais.. Cinzas. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio.

Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -.fontes de perdão -.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. tuas sementes! E assim. Depois da morte. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. Se fosses Deus. trilhos. reunidos.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. para o Futuro. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. vales. em diferentes Florestas. inda teremos filhos! 43 . Tu. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. Eu. Na multiplicidade dos teus ramos. Tamarindo de minha desventura. no Dia de Juízo. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. Pelo muito que em vida nos amamos. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. pois. porém. com o envelhecimento da nervura. selvas. glebas.

É meu destino viver junto a esa asa. à categoria Das organizações liliputianas.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . asa De mau agouro que. Na orgia heliogabálica do mundo.. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza.. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. Perseguido por todos os reveses. Como a cinza que vive junto à brasa... Ter o destino de uma larva fria.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas. nos doze meses. É-me grato adstringir-me. na hierarquia Das formas vivas. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Ganem todos os vícios de uma vez. Apraz-me. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Como os Goncourts.

em desalento. conquanto ainda hoje em dia. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. rasga o papel. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda.. o Hércules. com os dedos brutos Para falar. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. a mim. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. “Homem. “À luz da epicurista ataraxia. É como o paralítico que. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. o Homem. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. aos soluços. violento.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. puxa e repuxa a língua. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 .. mamífero inferior. Ouvindo a Escada e o Mar.

Ele hoje vê que. o ouro que brilha. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas.. em minha cama. minha Mãe. Que ela absolutamente não furtava. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. afetava Susceptibilidade de menina: “-. como cruéis e hórridas hastas. Vejo. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Em sucessivas atuações nefastas. após tudo perdido. entretanto. ralhava. agora. minha ama. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. não fora ela! --“ E maldizia a sina. Que a mim somente cabe o furto feito. Sinhá-Mocinha.. mas eu... Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. Eu furtei mais. então. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas.Não. Tu só furtaste a moeda. Furtaste a moeda só. hipócrita.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram.

que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse.o brilho Destes meus olhos apagou!. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta... Assim Tântalo. após a árdua e atra refrega. É noite.. Hoje. e. à noite. igual a um porco.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. num festim... Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . do que este que palmilho E que me assombra.a mãe comum -. porém. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. aos reais convivas. Hás de engolir.... E tu mesmo.

Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. Eu. e o ângulo reto. pois.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. é justo. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . Pai. o Ódio e a Carnificina. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te.. gemendo. Tu. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. e sendo justo. O que o homem ama e o que o homem abomina. trilhando as mesmas ruas. Deus. meu Pai?! Que mão sombria.. Às alegrias juntam-se as tristezas.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso.. O Amor e a Paz. para amenizar as dores tuas.. para onde fores. Irei também.

como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. sonhando. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos.. entre as estrelas flóreas. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Nem uma névoa no estrelado véu. Como Elias.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Mãe. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Rezo. Mas pareceu-me. o ofício da agonia. cuidei que ele dormia.. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. E a marcha das moléculas regulam.. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido.. num carro azul de glórias. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra.

.... O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. -. Para que eu tenha uma velhice calma! -. sôfrega e ansiosa. Livre deste cadeado de peçonha.. meu pai.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. possui minh’alma!. numa rogativa: “Não mate a árvore. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. Apraz-me..e ajoelhou-se. meu filho.Disse -. no junquilho. para que eu viva!” E quando a árvore. enfim.As árvores. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . Esta árvore..Meu pai. É preciso cortá-la. pois.. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. pai. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. meu filho. Caiu aos golpes do machado bronco. olhando a pátria serra.

mergulhou a cabeça no Infinito. preto e amarelo. de à antiga rota Voar. não tens mais! E pois. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Pões-te a assobiar. desde o mais prístino mito. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha.. Tu nunca mais verás a liberdade!.. bruto. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Foi este mundo que me fez tão triste. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu.. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. Continua a comer teu milho alpiste.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. o amplo éter belo. Olha a atmosfera livre.. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu.

. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. Noite alta. em serenatas. na diuturna discórdia. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. ególatra céptico.. Onde um nume de amor. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Templos de priscas e longínquas datas.. Canta a aleluia virginal das crenças. cismava Em meu destino!. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 .. Ante o telúrico recorte.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava.

E qual mais pronto. Mora.. A mão que afaga é a mesma que apedreja. que. Acende teu cigarro! o beijo. e.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. Veio depois um domador de hienas E outro mais. e doma Meu coração -. E à rutilância das espadas. E não pôde domá-lo enfim ninguém. sente invevitável Necessidade de também ser fera. nesta terra miserável. entre feras. é a véspera do escarro. Vieram todos. toma A adaga de aço. ao todo. guerreiro. Toma um fósforo. o gládio de aço.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Meu coração triunfava nas arenas. Somente a Ingratidão -.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem.. por fim. veio um atleta. uns cem. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . por fim. Apedreja essa mão vil que te afaga. amigo. Se a alguém causa inda pena a tua chaga.

E é em suma.. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. podendo mover milhões de mundos. Sabe que sofre. Que. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme.. pois. Da transcendência que se não realiza. No rudimentarismo do Desejo! 54 . pancada por pancada. Da luz que não chegou a ser lampejo.. A sucessividade dos segundos. a escutar. em sons subterrâneos. chorando. Quer resistir. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos.. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. nada há que traga Consolo à Mágoa. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. a que só ele assiste.. Ouço. do Orbe oriundos.. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

feito força. Morto o comércio físico nefando. num grito de emoção. sincero Encontrei. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. a animar o cosmos ermo. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. De que. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. que os anos não carcomem. me desencarcero.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. Parem as vidas. pensando. eu. afinal. Como a última expressão da Dor sem termo. Cesse a luz. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Foi que eu.

e. muito embora a alma te acenda. decompondo-se. pois. sem retumbância. E o Homem — negro e heteróclito composto. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. Em tua podridão a herança horrenda. Onde a alva flama psíquica trabalha. sem gritos. há inúmeros milênios.. a irmanar diamantes e hulhas. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade.. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. numa alta aclamação. arpões.. A dardejar relampejantes brilhos.. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. Diafragmas. Era. o olfato e o gosto! Carne. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. ao sol posto. "Com essa intuição monística dos gênios. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. a vista.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . Dói-me ver. o ouvido. feixe de mônadas bastardas.

na noite escura. Tragicamente. A convulsão meteórica do vento. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. E o nada do meu homem interior! 57 . meus semelhantes! Mas. no Mundo.. opondo-se à Inércia.O PÂNTANO Podem vê-lo.. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. Este pântano é o túmulo absoluto. às escâncaras. para mim que a Natureza escuto. e. Que produz muita vez. é o transunto. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. é a essência pura. sem dor. à espera de quem passa Para abrir-lhe. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. É a síntese. a porta. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho.

. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. tanto Que. geléia humana. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. é natural. oh! gérmen. geléia crua. um dia. entanto.. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. Reconcentrando-se em si mesma. em conjugação com a terra nua. causa do Mundo. no teu silêncio. Vence o granito. Volvas à antiga inexistência calma!. como o gérmen de outros seres. O espanto Convulsiona os espíritos. E hás de crescer. e. não progridas E em retrogradações indefinidas. Teu desenvolvimento continua! Antes. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. em realidade. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. deprimindo-o . o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. porventura. Antes o Nada. que ainda haveres De atingir. ainda algum dia... "Menos interiormente me conheça?!" 58 .A UM GÉRMEN Começaste a existir.

. É a Natureza que. no seu arcano. traçando arcos de ogivas.. é inquietude. é o instinto horrendo De subir.. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. Como um convite para estranhas viagens... é transporte.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!.Todas as hermenêuticas sondagens.. descendo A irracionalidade primitiva. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 ... é ânsia. trancada num disfarce.. os elementos broncos. E a coorte Das raças todas. Vivem só. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. na ordem cósmica. nele. . Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço.As ambições que se fizeram troncos.. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. Bracejamentos de álamos selvagens. São absolutamente negativas! Araucárias..

Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam.. inteira. Riqueza da alma. oh! Dor. sem convulsão que me alvorece. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor.. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. saúde dos seres que se fanam.. assim... psíquico tesouro. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. Dói-lhe. em suma.. acérrima e latente. E. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande.. sol do cérebro. À humana comoção impondo-a. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. ancoradouro Dos desgraçados. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. Que o sarcófago.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte.

. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito... Benditos vós. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Dai-me alma. pois.. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. que.. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . pois. em épocas futuras. Minha continuidade emocional! 61 . Dai-me asas. Expressões do universo radioativo. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. ) Com o vosso catalítico prestígio. para o último remígio.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante.. Haveis de ser no mundo subjetivo. Ions emanados do meu próprio ideal.

.. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. então. O cosmos sintético da Idéa Surge. Arranco do meu crânio as nebulosas. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. Subitamente a cerebral coréa Pára. A alma arde.. as mãos. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 .A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. A carne é fogo. Eu sinto. os pés e os braços Tombara.. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. A espaços As cabeças. Emoções extraordinárias sinto.

Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. entretanto. os dois Representam. na superfície do planeta. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Rugindo. Teu coração se desagrega.. enquanto as almas se confrangem.. No desembestamento que os arrasta. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. carne sem luz. aumenta. e. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. o alfa e o omega Amarguram-te. Montão de estercorária argila preta.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. na ânsia voraz que. Excrescência de terra singular. Sangram-te os olhos. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. tragando a ambiência vasta. criatura cega. Porque. Realidade geográfica infeliz. Os dentes antropófagos que rangem. Hebdômadas hostis Passam. Deixa a tua alegria aos seres brutos. Receando outras mandíbulas a esbangem. ávida. Superexcitadíssimos.

aparelhou. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. Da dor humana. o Inferno. homens felizes. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. E trago em mim. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. mordem-se. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. O Amor. sou maior que Dante. Sob pena. a Glória. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante... soluçando. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. a Ciência...MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. Que força alguma inibitória acalma.

amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. O epitalâmio da Suprema Falta. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. Que. Teço a infâmia.. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres.. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . cresto o sonho.. à luz de fantástica ribalta. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. em voz muito alta. Entoado asperamente. (Hoje. a alardear bárbaros sons abstrusos. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos.O CANTO DOS PRESOS Troa. ontem. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. Uiva. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. È a saudade dos erros satisfeitos. a exigir que os sãos enfermem. Existo Como o cancro.. não cabendo mais dentro dos peitos. urdo o crime. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere.

dona. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro.. ausculto. Feita dos mais variáveis elementos.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. transmudado em rutilância fria. o Infinito se levanta À luz do luar. enfim. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. invado. o Céu e o Inferno absorvo.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. Nos paroxismos da hiperestesia. minha alma. O Infinitésimo e o Indeterminado. como um corvo.. agarro. à noite.. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. Ceva-se em minha carne. Transponho ousadamente o átomo rude E.. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. apreendo. por fim. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 .

A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. Siva. Eu. aos trismos Da epilepsia horrenda. num monturo.. como a luz do amanhecer.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. como um astro.. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair.. E acima deles. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. Tifon. Átropos. Sentia dos fenômenos o fim. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Como a luz que arde. projetado muito além da História. Laquesis. virgem. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam.. arder.

entanto.. nas minhas formas carcomidas. Roem-na amarguras Talvez humanas. a soluçar de dor?! -. remoinha. neste ergástulo das vidas Danadamente. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. E. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. a afagar tantas feridas.. Grita em meu grito. Folhas e frutos. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. rábido. nem mesmo ao ronco Do furacão que.. Nutrindo uma efeméride inferior...MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. alarga-se em meu hausto.. tenta transpor o Ideal. Branda..Trilhões de células vencidas. Hão de encontrar as gerações futuras Só.) Quem sou eu.. esse mundo incoerente. às apalpadelas e às escuras. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.

.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. feto vivo e aborto. sânie e perfume. em que me inundo. desconforto E ataraxia.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . ateando da alma o ocíduo lume. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. Apreendo. Penetro a essência plásmica infinita. em cisma abismadora absorto. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. -. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. Sou eu que.. -. Massa palpável e éter. aliando Buda ao sibarita. hirto.

quatro. Reduzir carnes podres a algarismos. cinco. crânios.. em fúlgidos letreiros. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. por hipótese. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. infinita como os próprios números.Tal é. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. rádios e úmeros. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. três.... na abismal sustância informe. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. -. somente em. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. sem complicados silogismos. Porque. A aritmética hedionda dos coveiros! Um.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. dois. cérebros. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias.

AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. afinal. Quem sabe. porventura. íngremes. Estacionadas. em contrações de dor. amam jazer. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. De onde rebenta. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. a alma. Por um abortamento de mecânica. oh! delumbrada alma. perscruta O puerpério geológico interior. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. me semente. alma. Qual é. assim. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . recalcados. na natureza espiritual. e dize-me.

A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. Espião da cataclísmica surpresa. É a subversão universal que ameaça A Natureza. a amarra agarrada à âncora. se as Tem. A íngreme cordoalha úmida fica. Pára e. Federações sidéricas quebradas.. o último a ser. em noite aziaga e ignota.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. que o Éter indica. babando.. e. da Massa. derrubadas. alçando o hirto esporão guerreiro. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. integérrima. E eu só. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação.. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda.. sonha! Mágoas. subjugue-as ou difarce-as.. Zarpa.. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. derrota Na atual força. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . pelo orbe adiante.

VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Em convulsivas contorções sensuais. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Arrancar. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. num triunfo surpreendente. Tragicamente. Sôfrego. que ela encheu. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Haurindo o gás sulfídrico das covas. E quando. ainda depois da morte. ao cabo do último milênio. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. vazio! 73 . e.. o dolo sáxeo. cave. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. adstrito à ciência grave. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. em que arde o Ser. Dentro dos ossos. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. Os nossos esqueletos descarnados. Para a perpetuação da Espécie forte..

Na mão dos açougueiros. antes do almoço. há instantes.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter.. E. E amou. mancha a gleba. Olhou-se no espelho. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios.. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. Era tão moço. com um berro bárbaro de gozo. Somente. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . fora. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. Horrível! O osso Frontal em fogo. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. iguais a espiões que acordam cedo. Disse. Viu vísceras vermelhas pelo chão.... vendo sangue. Ia talvez morrer. A água transubstancia-se. Extraordinariamente atordoadora. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou... eis que viu. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso..

O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.. me não consolo.... dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. ante obras tais. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. Leio o obsoleto Rig-Veda... E.. reconheço O império da substância universal ! 75 .VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. E em tudo igual a Goethe. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias.. Rasgo dos mundos o velário espesso. No mar de humana proliferação. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada.

Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. resignado. imóvel. Hirta. Parecia dIzer-me: "É tarde. E o coração me rasga atroz. Tragicamente de si mesmo oriundo. E assim afeito às mágoas e ao tormento. em meio. Era de vê-lo. Eu a bendigo da descrença. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. atro e subterrâneo. P’ra iluminar-me a alma descontente. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. Mas que no entanto me alimenta a vida. Porque eu hoje só vivo da descrença. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Para dar vida à dor e ao sofrimento. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. A Idéia estertorava-se. Fora da sucessão. 76 .O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. ao meu lado. imensa. Se acende o círio triste da Saudade.. estranho ao mundo.

Onde a dúvida ergueu altar profano.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. eu creio em ti. volvi ao ceticismo.Todas se foram num festivo bando. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 .o exorcismo Terrível me feriu. em fundo misticismo: .Oh! Deus. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. Não sei se viva p’ra morrer na terra. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. Cansado de lutar no mundo insano. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. Da Igreja . gárrulos voando . entre o medo que o meu Ser aterra. Hoje ela habita a erma soledade. Fraco que sou.a Grande Mãe . Fugazes sonhos. desgraçado réu. seu olhar magoado. sombras cor-de-rosa . e então sereno. Ah. de ilusões tão bela.

Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Ouvi. pálidas agora. senhora. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. SENHORA Ouvi. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. Morreram todas. Exausto de pisar mágoas pisadas. Eterno pegureiro caminhando. senhora. Revolvo as cinzas de passadas eras. num mês de tantas flores. Desfeitas todas num guaiar dorido. Quando a morte matar meus dissabores. amei. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Cansado de chorar pelas estradas. Tristes fanaram redolentes rosas. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. todas sem olores. triste pela vida afora. senhora. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. langorosas. Todas murcharam. tristes. de amor ferido.MÁGOAS Quando nasci. triste e descrido. E que tornou-o assim. Minh’alma levo aflita à Eternidade. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Sombrio e mudo e glacial.

Vivia alegre o vate apaixonado. um tresloucado. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Esconde à Natureza o sofrimento. E voltou. Apaixonou-se d’uma virgem bela. pendeu triste e desmaiada. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. coração amargurado. Alma arrancada do prazer do mundo. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. mas a fronte aureolada. Tu que. Cantaste e riste. Altivo lutador. enamorado dela. Louco vivia. Oh! Tu. na estrada da existência em fora. 79 . e o pesar negro e profundo. Alma viúva das paixões da vida. Ao chegar. No sepulcro da loura virgem bela. olímpica e singela! E partiu. Mas a Pátria chamou-o.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. Era o soldado. E fica no teu ermo entristecida. venceu batalhas. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida.

N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Quando da vida. E a mesma frase o noivo repetia. E rompe a orquestra sepulcral da morte. no eternal soluço. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Ambos unidos soluçara um beijo. Era o supremo beijo de noivado! 80 . soturnais. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Há de chegar. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Vinha rompendo a aurora majestosa. Fora no campo pássaros trinavam. Hoje rolando nos umbrais marmóreos. ardentes . São minhas crenças divinais. Chegara enfim o dia desejado. Resvalando nas sombras dos ciprestes. silentes. funéreos.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Desliza então a lúgubre coorte. pálidos. a brisa respondia.

Mas se das minhas dores ao calvário. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Em luta co’a natura sempiterna. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. E espuma e ruge a cólera entranhada. porém. 81 . Já que do mundo não vinguei-me em vida. Espumando e rugindo em marulhada. Assim a turba inconsciente passa. Dores que ferem corações de pedra. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. No delírio. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. A morte me será vingança eterna. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. E onde a vida borbulha e o sangue medra.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Aí existe a mágoa em sua essência.

Enquanto outros que podem. Tu’alma ri-se descuidosamente.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Quantos. bonecos de formoso busto. bom Papá. Irmão querido. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Foste do amor o mártir sacrossanto. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Pois se da Religião fizeste culto. dão-te enganos. Su’alma livre para o Céu se alara. num abraço de ternura santa. estulto. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. Jóias. Somente assim festejarei teus anos. Morrera um dia desvairado. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou.

amigo verdadeiro. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Bela. presa. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . Do destino fatal. aveludado. Dançavam-lhe no colo perfumado. Os seios brancos. Tornou-se a pecadora vil. divina. No entanto. Balbuciou. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Do fado. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. Moldada pela mão da Natureza. tomando a enxada gravemente.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. A chama cruel que arrasta os corações. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. mornos. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. esta mulher de grã beleza. palpitantes.

mavioso. não acordeis. dolente. desnudas. Que guardam pér’las de funéreas rosas. úmidas arcadas. E as mesmas portas impassíveis. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Repercute. Subindo pelo Azul da Inspiração.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. . Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. Que guardam cinzas de ilusões passadas. E à noute quando rezam na clausura. pouco a pouco. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. No sigilo das rezas misteriosas. addio. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Eleonora. Ai! não. os sons esmorecendo. Trovador torturado e angustioso. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. Assim canta também meu coração.Addio. addio! 84 .

coração saudoso. porém. . Da desdita ferida pelo espinho.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . para guardar a mágoa oculta. Num sepulcro de rosas e de flores. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. Arca sagrada de cerúleos sonhos. Chora. No sudário de mágoa sepultada. Canta.Arca cerúlea de ilusões etéreas. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Na auréola azul dos dias teus risonhos.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Vai morta em vida assim pelo caminho. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Eu sei a sua história. soluça .a veste desgrenhada. Primavera. . PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. O cabelo revolto em desalinho. o triste outono. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Moça. gargalha. tão moça e já desventurada. a desgraçada estulta. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada.O segredo d’um peito torturado E hoje. os teus fulgores.

Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. Salve-te a glória no futuro . ela não cansa. Sonâmbulo da dor angustiado. Muita gente infeliz assim não pensa. risonha. túm’lo do prazer finado. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. Voltam sonhos nas asas da Esperança. É minha sina perenal. Senhora. 86 . E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. portanto. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. O berço onde as venturas se embalaram. Foi outrora do riso abençoado.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.avança! E eu. Também espero o fim do meu tormento. que vivo atrelado ao desalento. Também como ela não sucumbe a Crença. eu trajo o luto do passado. ergue o teu grito. Sirva-te a crença de fanal bendito.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. Mas não queiras saber nunca. não busques saber por que. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. tristonha . delirante e vário. No entanto o mundo é uma ilusão completa.

Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. sublime na Descrença. Chora . Sombra perdida lá do meu Passado. Mas volta logo um negro desconforto. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Quem me dera morrer então risonho. Bela na Dor. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Quando o rosário de seu pranto rola. santíssima.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . porém. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Tenta às vezes.

a seu lado Medita. e. ama.. Dorme talvez. pois. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Essa sublime adoração do crente. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. mimosa. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. a fronte triste. nevada. As níveas pomas do candor da rosa. Estende o teu olhar à Natureza. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. Branca. crê em Deus. Na altura Imensa. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . púbere.. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Enquanto o amante pálido.

Dos romeiros saudosos da desgraça. A procissão dos tristes.A Stella Matutina da Desgraça! 89 .Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. E na choça a lamúria que traspassa O coração. além. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. Eu vivo dessas crenças que passaram. . e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. lânguida e bela. coveiro. Vai Corina mendiga e esfarrapada. A alma saudosa pelo amor vibrada. Entre todos. Tem pena dessas cinzas que ficaram. o meu Passado. porém. . não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. A romaria eterna dos aflitos.TEMPOS IDOS Não enterres. dos proscritos. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! .Quero abraçar o meu passado morto.

apenas restam mágoas. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. suspirando. ADEUS! E. ADEUS.eu disse. adeus. Hermeto Lima Adeus. Fitando o abismo sepulcral dos mares. Vencendo o azul que ante si s’erguera. devassando a terra. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência.ADEUS. Auroreando a humana consciência. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. se eleva em busca do infinito. É como um despertar de estranho mito. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Sulcando o espaço. Voa. Cheia da luz do cintilar de um astro. Saí deixando morta a minha amada. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. adeus! E. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Perto. 90 .

Vai-te. com ela Negras sombras também foram chegando. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Envolto da tristeza no delírio. Estrela esmaecida do Martírio. Mas a noute chegou. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. Viu o adeus que do Céu ela enviava.A sombra deste afeto estiolado.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. irmã pálida da Aurora. E eu disse . triste. onde não pousa a desventura. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. . E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora .LIRIAL Por que choras assim. Lá onde nunca chegue esta saudade. tristonho lírio. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. Minh’alma que de longe a acompanhava. Disse. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A.

Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. por entre a dolorosa estrada. Pedir a Dulce. o olhar enlanguescido. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. perdão. Estendo à Dulce a mão.Senhora. Depois. a fé perdida. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. A praça estava cheia. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola..e estertorada A minha voz soluça num gemido. Puro de crime. E ela fita-me. A esmola dum carinho apetecido.. 92 .A PRAÇA ESTAVA CHEIA. o algoz .o criminoso . Morre-me a voz. a minha bem amada. Vítima augusta de indelével falso. E dos lábios de Dulce cai um beijo. dai-me u’a esmola . isento de pecado. O olhar azul pregado n’amplidão. e eu gemo o último harpejo. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. E na atitude do Crucificado.então. E eu balbucio trêmula balada: . Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão.

segue a trilha que te traça O Destino. Num desespero rábido. e. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. Lá. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. Empenhada na sanha dos abutres. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 .. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. acolhe-me... e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. E as trevas moram. Gênio das trevas lúgubres. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora.. assassino.crença Perdida . Leva-me o esp’rito dessa luz que mata.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . onde d’água raso O olhar não trago. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. acolhe-me N’asa da Morte redentora. Há perfumes d’amor . ave negra da Desgraça. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. obumbra-me em teu seio.

Mas quando o céu é límpido.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Quando vos vejo. Treme na treva a púrpura da tarde. num mar de esp’rança. Que o céu reflete. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. dentre a escura Treva do oceano. Banhando a fria solidão das fragas. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. O MAR O mar é triste como um cemitério. Abismados na bruma enegrecida. então. a vida é qual risonho Batel. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . sem nenhuma Nuvem sequer. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Os nimbos das procelas desta vida. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. sem bruma Que a transparência tolde. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Reflete a luz do sol que já não arde. só descanta. e a alma é a Flâmula do sonho.

esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz.1902 95 . Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . foge . Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. Agora. O grande Sol de afeto . num Pálio auroral de Luz deslumbradora. Aurora morta. Cantarias do amor a primavera... Triste criança virginal. lá nos espaços. Dia do meu Passado! Irrompe. Nem vibra a corda que a saudade esconde..1902 AURORA MORTA. agita as tuas asas. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. Ascende à Claridade. quem dera Voar est’alma a ti. Adeus oh! Dia escuro. oh! Minha Mágoa. FOGE! Aurora morta.) Nessas paragens desoladas. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco .. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. E eu ergo preces que ninguém responde. Hoje é trevas. é dor. Anseios d’alma aqui se perdem. é desengano. e em si a Luz consoladora Do amor . Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. meu Futuro.o Sol que as almas doura! Fugiu. o meu único Norte.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS.

. e. E há. Pendem e caem . Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. despertando sonhos. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Sonorizando os sonhos já passados. entretanto. Ah! num delíquio de ventura louca.NO CAMPO Tarde. à dolente Unção da noute. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. no teu riso de anjos encantados. No alto. as águas límpidas alvejam Com cristais. Bendito o riso assim que se desata . chorando enfloram. emergindo às trevas que a negrejam. Um arroio canta pela umbrosa Estrada.a Louca tenebrosa. Chora a corrente múrmura. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. nitente. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata.. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. ao luar. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Branca. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam.Cítara suave dos apaixonados.1902 96 . Quando.

P'ra desvendar os seus segredos santos. noctâmbulo da Dor e da Saudade. Ah! como a branca e merencórea lua. Derramam a urna dum perfume vário. Também envolta num sudário — a Dor. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. eterna noctâmbula do Amor. é como os prantos Níveos. se duas eu tivera. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Se evolarn castos. sacrossantos. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Pau d'Arco -1902. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. E a lua é como um pálido sacrário. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. toda a cálida Mística essência desse alampadário. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. Eu.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. 97 . Flor dos mistérios d'alma. virginais aromas De essência estranha. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. que a virgem chora. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja.

É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. . a lua é triste e calma. Quando alta noute.. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado.. Tanto que cantas. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. sonhar novas idades.Quero Correr em busca do Futuro. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . Teu canto. Que desespero insano me apavora! Aqui. vindo de profundas fráguas. Tanto que gemes.Quero partir em busca do Passado. Ali. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . e ilusões acordas. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Choras. soluças. chora um ocaso sepultado.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Um dia morto da Ilusão às bordas. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. bandolim do Fado. pompeia a luz da branca aurora. E vais aos poucos soluçando mágoas. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria.

Caíste morta ao celestial preceito. Na etérea limpidez de um sonho branco.. cindindo os céus risonhos. E Lúcia disse à bruma lutulenta: .Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. à voz de Lúcia. agora. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta.ARA MALDITA Como um'ave. qual hóstia. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. E eu vi os seios teus virem inconhos . E beijei-te. E eu quis beijar-te o lábio redolente. E. Fulgia a bruma para sempre. caindo dos altares.Foge. alegre e rubro. Meiga. grave e lenta. tu vinhas a cindir os ares. Tocando n'ara negra o níveo seio. mas eis que neste enleio. NA ETÉREA LIMPIDEZ. O sol. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. Quiseste-me beijar a ara do peito. e como Lúcia.. O céu tremia em seu trevoso flanco. também ria! 99 .

E em mim como no Templo. o Mundo se concentre.o círio Da Quimera Falaz. e. E. Longe das sombras aurorais e amadas. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . E a lua. Sentes o peito em ânsias revoltadas. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. Agora. em banho ideal de amor te inundas. Mas. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . luminosa. ante o branco estendal das madrugadas.ei-lo que avisto. a rasgar o lúrido sacrário. Em mim como no Templo a Angústia se condensa.A colunata êxul do Sonho Morto . Nua. Que beija a terra e que abençoa os campos. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. e. em bando. eis que emerges. o túmulo da Crença. Flores mortas da Aurora. Que. E a rasgar. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . a Virgem Mãe dos céus escampos. urnas de Sonho. Diluis teu peito em sensações profundas. ao ver-te nua.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas.

O sol a segue. Quero-te assim . Etéreo como as Wilis vaporosas. semeando a Morte.A PESTE Filha da raiva de Jeová .. Plena de graça..Fúlgido foco de escaldantes brasas .. como o sol .a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. tudo! Quando Ela passa. 101 .. tudo chora. e a Peste ri-se. enquanto Vai devastando o coração das casas. Como o Cristo sagrado dos altares. formosa entre as formosas. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. ela.É o castigo de Deus que passa mudo! .o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo.. . Embaladas no albor da adolescência.. entre esplendores. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e. Colmado o seio de virentes flores. formosa. A alma diluída em eterais cismares.

. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios .CÍTARA MÍSTICA Cantas. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . penseroso e pasmo. meu anjo. insânia. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. . Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. pelo mundo. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. perdoa o teu vencido. assim... Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.Irei agora. Como o santo levita dos Martírios. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. o meu Sonho morreu! Perdão.. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. Açucena de Deus. ah! ninguém me responde.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos... E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. E para mim. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. a teus pés.. eis-me a teus pés. pois. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia... insânia. Chegou a Noite. Eu venho arrependido.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina.. pátria da Aurora exilada do Sonho! .

Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. Banhou-me o peito.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. que da Desgraça veio Maldito seja. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. e. . sem Calvário. Da Messalina fria no regaço. supremos.. porém. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Mas.. Onde nunca gemeu o humano passo.. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço.. no Inferno do Gozo. Em ânsia de repouso. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. Turificando a languidez dum seio! O amor. Por um Cocito ardente e luxurioso.

a noute é tumbal. eu que te almejo. E estavas morta.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. ...Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . lá dos braços hercúleos.. desvalida e nua! E o olhar perdi. também da Dor. Como um'alma de mãe. eu vi. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora.. . Ah! que um dia da Vida.. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.E tu velas. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo... me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. e a saudade da infância.. mulher.. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. E vi-te triste...SOMBRA IMORTAL .. a sós. estes dardos acúleos Caíam. Sombra de gelo que me apaga a febre.

Uma pantera foi se ajoelhando. Que luz é esta que das brumas vasa. Branca bem como empalecido arminho.. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto.. Bendita a Santa do Carinho. Pérolas e ouro pela serrania. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. Alva d'aurora. Que canto é este. inata! E. chegando.. E um canto vai morrer no vale fundo.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa.. e no Santo harpejo.. entanto.. e. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Choras.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol .. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. o seio branco. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. profundo?! Rumores santos.. e é noute de fatais abrolhos. Alvorejando em arrebol de prata. Chegaste. O roble altivo entreteceu4e um ninho. no negror me abrasa. te acolheu a mata. tu.. Somente tristes os teus olhos vejo. virginal. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. ajoelhando à imagem do Carinho.

. Qual rosa branca que ao tufão vacila. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. Já Vésper. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. mórbidos encantos. no Alto.. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. e lânguida. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas... Fria como um crepúsculo da Judéia. Triste como um soluço de Dalila.PELO MUNDO Ânsias que pungem. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. 106 . Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas.

Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. No ar..Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. Riso. e a todo o seu assédio. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . os gaturamos Num recesso de névoa.quem mede-o?! .A hora dos tristes e dos descontentes. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.Fogo sagrado nos festins da Morte . que ao frio alvor da Mágoa Humana.. coração.o voltairesco clown .Ele. Na Via-Látea fria do Nirvana.O RISO "Ri. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. QUERIDA! Vamos. sonolento e tardo.. querida! Já é Ave-Maria . Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . Silfos morriam. adormecida..Eterno fogo. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. clown da Sorte . Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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O dia Foge. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. De encontro ás torres e de encontro aos muros. Surge agora a Lua.) Chove. LÁ FORA.. Os passos mal seguros Trêmulo movo. Vibra. violentos. vão bater. mas meus movimentos Susto. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. E em meio ás refrações verdes e hialinas. Saio de casa.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram.. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria.. Desencadeados. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. batendo em todas as retinas. A incandescência irial dos candelabros.. NOTURNO (CHOVE. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . Os ventos. Negro. diante do vulto dos conventos...

enquanto o Tédio a carne me trabalha. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas.. inverno! 113 ... Que há muito tempo não cantava lá.. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. os vermes vis. verão. poetas. E hoje. .. outono. Já que perdi a última batalha! E.. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu.. Diluiu o silêncio em litanias. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. Primavera.

E se cantar como a Saudade canta.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. enxuta A face. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. e quando passa. Gemem poetas . ao noturno açoute. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. inda altiva.. Pare chorando nesta Terra Santa. onde. enxuto o olhar. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. e o travo há de sentir. ela. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. Carpem na sombra pássaros ascetas. abraçado às campas dos poetas. Ela. Aqui é o Campo-Santo. .pássaros da Noute! 114 . enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber.A DOR Chama-se a Dor..

O SONHO. Luta. poeta. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. eu penso na Ventura! E o pensamento. e por fim. surjam tédios na Descrença. assomem Descrenças. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. A CRENÇA E O AMOR O sonho. na Suprema Altura Sinto. o sonho. e morrem os vermes que o consomem. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. Vence. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. a crença e o amor. nada há que o abata e o vença! Por isso.

profundo.PARA QUEM TEM NA VIDA. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade.. nada achaste.Construíste de ilusões um mundo diferente. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia.. Tesouros reais. Foi-te mister sondar a substância das cousas .. por fim. e. auríferos tesouros. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. Feito no decurso de dois minutos... Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 ... para penetrar o mistério das lousas. estudares. por fim. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. pois. De que te serviu. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações..

. Embora oculta. São dois colossos. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto..O NEGRO Oh! Negro. . ela subiu.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. dois gigantes mudos. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.. em ânsias..ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 . E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . . Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze.. no entanto. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos.

Se ao menos voasse! .. O Sol ardia. ver Se nesta ânsia suprema de beber. quantos também deixei. ela seria morta..Novo Sileno. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . ouve o canto aziago da coruja! . foram buscar a Glória E que..Era o suplício!. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. como eu. como eu. Quantos também. . Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta.. Implora a Deus como a um fetiche vago.. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Nisto.E o horror começa! Rasga As vestes. ira-o morrer também.Quer fugir.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. Daí a pouco.. e não vê por onde fuja. Mas eu não contarei nunca a ninguém..O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. . na atra estrada que trilhei. Saiu. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . Buscava Em verdes nuanças de miragens. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.. Trás de mim.

Foi saudade? Foi dor? .. Assim como uma casa abandonada. Mas. E afora disto. vivia. Sei que na infância nunca tive auroras. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina.... diz ao povo: "É pena! . Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes....Continua a cantar. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. Olha essa neve pura! . ele a morrer.SENECTUDE PRECOCE Envelheci. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas.Aqui ainda havia alguma cousa. a alma serena. Por isso. de repente. Não há quem nele um só tremor denote! ... E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste.." Pau d'Arco -1905 119 .Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. pressentindo a lousa. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.

.. Bem como tu. A múmia de um herói do tempo de Ísis.. persuadido fica do que diz. Para onde eu ia.. em Tebas .. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. não andei mais sozinho! Abraçou-me.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. Dizes Tudo que sentes. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i.. diz que ele é vivo. . E eu me elevava. inda com o braço altivo... Não mentes. Da tribo alegre que povoa os ares.a tumbal cidade. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. Diz que ele não morreu.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. E. o vulto ia a meu lado E desde então. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 .

.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. pois. assombrado. como um cão covarde. assim. antes de viver! Meu corpo. aos tropeços.. com medo do Infinito. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. Nada se altere em sua marcha infinda . assim como o de Jesus Cristo.. ia. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. A percorrer desertos e desertos.E apesar disto. Saiu aos tombos. quando Eu.O tamarindo reverdeça ainda. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. Existo! . Por toda a parte. E. de saudades me despedaçando De novo. morrer. triste e sem cantar. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. à tarde... amigos. onde. A lua continue sempre a nascer! 121 . Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias.. Teve sede e fome. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo.

Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.O farmacêutico me obtemperou. .A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. água e albumina.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. Ah! Basta isto.. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .A LÁGRIMA ..

A podridão me serve de Evangelho. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. procedo Da escuridão do cósmico segredo.. sem bramânicas tesouras. simultâneas. Amo o esterco. possuo uma arma -. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. À luz do americano plenilúnio. 123 . Em minha ignota mônada. Pólipo de recônditas reentrâncias. vibra A alma dos movimentos rotatórios. sem dispêndio algum de vírus. Do cosmopolitismo das moneras. E é de mim que decorrem. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. Amarguradamente se me antolha.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social... Não conheço o acidente da Senectus -. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. Larva de caos telúrico. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Como um dorso de azêmola passiva.. ampla..Esta universitária sanguessuga Que produz.O metafisicismo de Abidarma -E trago..

amanhã.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. ondulação aérea. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. A vida fenomênica das Formas. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. Raio X. a coçar chagas plebéias. Com a cara hirta.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Aí vem sujo. quebrando estéreis normas. abdômen. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. O coração. magnetismo misterioso. Como quem se submete a uma charqueada. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. o Homem. -. Quimiotaxia. bestas agrestes. E apenas encontrou na idéia gasta. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. já nos últimos momentos. causa ubíqua de gozo. Ao clarão tropical da luz danada. Fonte de repulsões e de prazeres. luzem. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Que. O horror dessa mecânica nefasta. Sonoridade potencial dos seres. em síntese. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. iguais a fogos passageiros. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. 124 . a boca.

Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. em suas clélulas vilíssimas. à noite. igual à luz que o ar acomete. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. em lúbricos arroubos. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. pelos cenóbios?!. fazendo um s. Negra paixão congênita.. E à noite. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. E após tantas vigílias. Uivando. E até os membros da família engulham.. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. bastarda. Toda a sensualidade da simbiose.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come... À guisa de um faquir. Suas artérias hírcicas latejam. E explode. Sôfrego. Sentindo o odor das carnações abstêmias. Como que.. Como no babilônico sansara .. vai gozar.. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. Brancas bacantes bêbadas o beijam. No sombrio bazer domeretrício. o monstro as vítimas aguarda. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Do seu zooplasma ofídico resulta. brincam. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. ébrio de vício. Numa glutonaria hedionda. consumir-se. No horror de sua anômala nevrose. 125 . Num suicídio graduado..

Sente que megatérios o estrangulam. Quando o prazer barbaramente a ataca. Fazendo ultra-epiléticos esforços.. bêbedo de sono. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. Mas muitas vezes. A asa negra das moscas o horroriza. se estende Dentro da noite má. Mostrando. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Reconhecendo.Macbeths da patológica vigília.. Acorda. E de su’alma na caverna escura.. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. Que tateando nas tênebras. em rembrandtescas telas várias.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. A família alarmada dos remorsos. observa a ciência crua. com os candeeiros apagados. Numa coreografia de danados. Hirto. Abranda as rochas rígidas. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 .. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Essa necessidade de horroroso. esculpindo a humana mágoa. Assim também. Na própria ânsia dionísica do gozo. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. As alucinações tácteis pululam. quando a noite avança. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Somente a Arte.

. a desintegre. em suas bases. Era a canção da Natureza exausta.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . Continua o martírio das criaturas: -.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. -. Da luz da lua aos pálidos venábulos. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. sem que. Na produção do sangue humano imenso. entanto. Julgava ouvir monótonas corujas. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria.. Há-de ferir-me as auditivas portas. ouvindo estes vocábulos. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. até que minha efêmera cabeça. -. entre daveiras sujas. E. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres.O homicídio nas vielas mais escuras. Executando. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. À condição de uma planície alegre. Prostituído talvez.E reduz.

No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. Apenas como um velho stradivário. discutindo. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. Embaixo. A rua é triste... na mais próxima planície. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Os mastins negros vão ladrando à lua. O Cairo é de uma formosura arcaica. conversando. Tonto do vinho. O céu claro e produndo Fulgura. exposto ao luar.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. Convulso e roto. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. um saltimbanco da Ásia. Dorme soturna a natureza sábia. das pirâmides o quedo E atro perfil.. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Num quiosque em festa alegre turba grita. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. A Lua cheia Está sinistra. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres.... E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Resplandece a celeste superfície. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. no apogeu da fúria.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. Vaga no espaço um silfo solitário.

Mas. atro e vidrento. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . parodiando saraus cínicos. Livres de microscópios e escalpelos. Eu. então. O calçamento Sáxeo.. Uivava dentro do eu . Fazendo à noite os homens do Futuro. Copiava a polidez de um crânio alvo. Mostrando as carnes. Assombrado com a minha sombra magra. Profundamente lúbrica e revolta. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Atravessando uma estação deserta. a irritar-me os globos oculares. Eu vi. indo em direção à casa do Agra.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. A ponte era comprida. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Ponte Buarque de Macedo. Dançavam. Apregoando e alardeando a cor nojenta. A matilha espantada dos instintos! Era como se. na alma da cidade. Lembro-me bem. E aprofundando o raciocínio obscuro. O trabalho genésico dos sexos. 129 .. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. de asfalto rijo. com a boca aberta. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. à luz de áureos reflexos. Pensava no Destino. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia.

Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. na ígnea crosta do Cruzeiro. No ardor desta letal tórrida zona. E. Ah! Com certeza.Fetos magros. Deus me castigava! Por toda a parte. pelo menos. ainda na placenta. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. 130 . O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. como um réu confesso. É bem possível que eu umdia cegue. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. Ninguém compreendia o meu soluço. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos.

seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Não! Não era o meu cuspo. Que eu. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Benditas sejam todas essas glândulas. Eu bem sabia.E até ao fim. à guisa de ácido resíduo. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. quotidianamente. 131 . três. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. Que. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Sob a forma de mínimas camândulas. Na ascensão barométrica da calma. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. quatro. Ia engolindo. Arrebatada pelos aneurismas. cujas caudais meus beiços regam. de tal arte. para não cuspir por toda a parte. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. aos poucos. ansiado e contrafeito. estranha. cinco. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. em minha boca. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota.

os duendes. Vai pela escuridão pensando crimes. ali posto De propósito. para hipnotizar-me! Em tudo. Mas um lampião. a espiar-me. E o luar. Iluminava. maior talvez que Vinci. Livres do acre fedor das carnes mortas. de certo. Siva e Arimã. Um sugestionador olho. Com a força visualística do lince. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Davam pancadas no adro das igrejas. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. A companhia dos ladrões da noite. Ninguém. Imitando o barulho dos engasgos. Nessa hora de monólogos sublimes. Perpetravam-se os atos mais funestos. À anatomia mínima da caspa. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Rodopiavam. a rir. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . estava ali. então. A camisa vermelha dos incestos. sem pudicícia. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. com as brancas tíbias tortas. Buscando uma taverna que os açoite. da cor de um doente de icterícia. o In e os trasgos. lembrava ante o meu rosto.

Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. A pedra dura. e vence-O. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Como bolhas febris de água. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. em que. E a palavra embrulhar-se na laringe. Todos os personagens da tragédia. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. 133 . E o meu sonho crescia nosilâncio.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. distingo-a. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Na atra dissoluçào que tudo inverte. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Cansados de viver na paz de Buda.

134 . E apesar de já não ser assim tão tarde. refletindo. igual a um amniota subterrâneo. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. na glória da concupiscência. berrava. No meu temperamento de covarde! Mas. Um conjunto de gosmas amarelas. Como um bicho inferior. sobre o meu caso Vi que. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. aflita. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . na dor forte do vômito. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. Fabricavam destarte os bastodermas. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. Iam depois dormir nos lupanares Onde. a sós. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Aquela humanidade parasita.A planta que a canícula ígnea torra. Os bêbedos alvares que me olhavam.

Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. num fundo de caverna. Forma difusa da matéria embele. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. como um cordão.Prostituição ou outro qualquer nome.e. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. ponto final da última cena. Minha filosofia te repele. 135 . Rolam sem eficácia os amuletos. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. numa ânsia rara. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. pior que o remorso do assassino. o eco particular do meu Destino.. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. Fazer da parte abstrada do Universo. nas catedrais mais ricas. em tudo imerso. Numa impressionadora voz interna. a morte é ingrata. Nessas perquisições que não têm pausa. Ao pensar nas pessoas que perdera. Reboou. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. embora o homem te aceite. por tua causa. tal qual..

Trazes. a refletir teus semelhantes. para que a Dor perscrutes. magro homem. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. fora Mister que. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. antes Fosses. por vezes. espirra. com a bronca enxada árdega. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. o cordeiro simbólico da Páscoa. 136 . seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. não como és. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. e a hialina lâmpada oca. A formação molecular da mirra. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. estriada. E se. Mesmo ainda assim. em síntese.Jamais. se divide. sondas A estéril terra. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas.

O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. O Amor e a Fome. Os terremotos que. Deixa os homens deitados. O fogão apagado de uma casa. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. O achatamento ignóbil das cabeças. A mentira meteórica do arco-íris. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. As pálpebras inchadas na vigília. O fogo-fátuo que ilumina os ossos.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. à espera que a mansa vítima o entre. Onde morreu o chefe da família. Que ainda degrada os povos hotentotes. Lembram paióis de pólvora explodindo. abalando os solos. sem mortalha. As projeções flamívomas que ofuscam. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. A cristalização da massa térrea. O tecido da roupa que se gasta. as nódoas mais espessas. Como uma pincelada rembrandtesca. -. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. O antagonismo de Tífon e Osíris. a fera ultriz que o fojo Entra. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. As aves moças que perderam a asa.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. 137 . Na sangueira concreta dos massacres.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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Em cuja álgida unção. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. Criando as superstições de minha terra.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. a amêndoa. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. 143 . sobre as hortas. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. Além jazia os pés da serra. Benigna água. branda e beatífica. magnânima e magnífica. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. Apenas eu compreendo. em quaisquer horas. como as ervas. de errante rio. No Alto. alto e hórrido. A Paraíba indígena se lava! A manga. olhando os campos Circunjacentes. satisfeito. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. a ameixa. o urro Reboava. Meu ser estacionava. a abóbora.

a existência Numa bacia autômata de barro. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Vômitos impregnados de ptialina. Reboando pelos séculos vindouros. 144 . os micróbios assanhados Passearem. Um português cansado e incompreensível. Restos repugnantíssimos de bílis. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. aos bocados. dores não recebem. O ruído de uma tosse hereditária. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. como inúmeros soldados. OH! desespero das pessoas tísicas. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. entre estrépitos e estouros. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Alucinado. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. Adivinhando o frio que há nas lousas. Estas não cospem sangue. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Cortanto as raízes do último vocábulo. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar.

a água. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. Nos ardores danados da febre hética. me acorda. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. Consoante a minha concepção vesânica. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. com o vexame de uma fusa. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Onde a Resignação os braços cruza. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. naquele instante. A mágoa gaguejada de um cretino. resfriando-vos o rosto. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. com efeito. Saía. magras mulheres. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. hoje. em sonhos mórbidos. Pelas algentes Ruas. É a alfândega. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. no Amazonas. 145 .Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se.

. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. Ah! Tudo. E agora. Jazem. Recebeu. sem difíceis nuanças dúbias. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. A civilização entrou na taba Em que ele estava. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. acordando na desgraça.. Desterrado na sua própria terra. entregue a vísceras glutonas. Na tumba de Iracema!. por fim. tendo o horror no rosto impresso. como um lúgubre ciclone. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. Com uma clarividência aterradora. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. De repente. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. adstrito à étnica escória.. diante a xantocróide raça loura. Viu toda a podridão de sua raça. caladas. A carcaça esquecida de um selvagem.Fedia.. espantada. 146 . todas as inúbias.

Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. No horror daquela noite monstruosa. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. com voz estentorosa. roído pelos medos. rolando sobre o lixo. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. A peçonha inicial de onde nascemos. Todos os vocativos dos blasfemos. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. 147 . Como que havia na ânsia de conforto De cada ser.: o homem e o ofídio. E eu. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. ex. Maldiziam.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos.

às vezes. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. 148 . Eu voltarei. Tentava. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. em suma. na terráquea superfície. Sem diferenciação de espécie alguma. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. o anelo instável De. porém. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. por epigênese. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. Reduzido à plastídula homogênea. Consubstanciar-me todo com a imundície. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha.E. perante a cova. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . cansado. como Cristo. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Anelava ficar um dia. como um homem doido que se enforca. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde.

Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. análoga era. no horizonte... e as mãos. Quase que escangalhada pelo vício. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. e. 149 .. Acordavam os bairros da luxúria. Estendestes ao mundo. a saraiva Caindo.. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. derreada de cansaço. Se extenuavam nas camas. entre oscilantes chamas. para além. Nem tínheis. vítima última da insânia. Não tínheis ainda essa erupção cutânea.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. embalde. alva. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. Mas. com violência. à-toa. até que. ignóbil. agora.. De certo. Uma. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre.. virgem fostes. doentes de hematúria. quando o éreis. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. As prostitutas.

no chão frio da igreja. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. E hoje. que a sociedade vos enxota. inquieto. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. na craniana caixa tosca. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. argots e aljâmias. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. Eu pensava nas coisas que perecem. A racionalidade dessa mosca.De vós o mundo é farto. Como uma associação de monopólio. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. E estais velha! -. porém. eu. 150 . A consciência terrível desse inseto! Regougando. Como quem nada encontra que o perturbe. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. Sentia. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces.

escorraçando a festa. nos braços de um canalha 151 . Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. de repente. após baixar ao caos budista. O ar ambiente cheirava a ácido acético. O fácies do morfético assombrava! -. Absorvia com gáudio absinto. Quanta gente. como Ugolino. Rugindo fundamente nos neurônios. palpável. E o cemitério. E a ébria turba que escaras sujas masca. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. sobre a palha espessa. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. com o ar de quem empesta. Mas. nesta hora. Vem para aqui. À falta idiossincrásica de escrúpulo. roubada à humana coorte Morre de fome. Apareceu. em que eu entrei adrede. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. assim inchado. Sem ter. Já podre. Pela degradação dos que o povoam.A estática fatal das paixões cegas. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. estriges voam. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas.Aquilo era uma negra eucaristia. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas.

entre fardos. Todos os meus cabelos se arrepiaram. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. como quem salta. ao clarão de alguns archotes. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Num prato de hospital. Vendo passar com as túnicas obscuras. Comendo carne humana. a alma aos arrancos. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. cheio de vermes. À sodomia indigna dos moscardos. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. a camisa suada. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. iguais a irmãs de caridade. Pisando. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Na impaciência do estômago vazio.

Os raios caloríficos da aurora. déspota e sem normas. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Como o íncola do pólo ártico. Manhã. em vez de hiena ou lagarta. Absorve. Uma sobrevivência de Sidarta. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. Proporcionando-me o prazer inédito. No frio matador das madrugadas. De quem possui um sol dentro de casa. Dentro da filogênese moderna. após a noite de seis meses. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. trazendo-me ao sol claro. E eis-me a absorver a luz de fora. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . O benefício de uma cova fresca. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito.Como indenização dos meus serviços. às vezes.

. com um prazer secreto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . em vão teu ódio exerces! Mas. Eu sentia nascer-me n’alma. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. entanto. Vinha da original treva noturna. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. numa furna.. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. Igual a um parto. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. a meu ver. tudo a extenuar-se Estava.. Acompanhava. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. Hirto de espanto. O Espaço abstrato que não morre Cansara. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. oh! Morte. A gestação daquele grande feto. com os pés atolados no Nirvana. em colônias fluídas. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia.. O ar que. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. corre.

Com a diferença que Lisboa existe E tu. Apenas com uma diferença triste.. Antegozando a ensangüentada presa. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. como eu. têm carne.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. E agora. Ai! Como Os que. não existes mais! 155 . Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. amigo. bela como um brinco.. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Como! E pois que a Razão me não reprime. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. É a hora De comer. Rodeado pelas moscas repugnantes.. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais.. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Coisa hedionda! Corro.

Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. que te esgotou as pomas. Do que essa pequenina sanguessuga. oh! Mãe. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. sujo de sangue. comparo.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. quanto a mim. O Sol virá das épocas sadias. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. entre dores. Clara. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. Relembrarás chorando o que eu te disse. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. Assim. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. sem pretensões. Há de crescer. à amostra. No lábio róseo a grande teta farta -. um novo Ser. nas vitrinas.. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . haurindo amplo deleite. a atmosfera se encherá de aromas. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo.. E o antigo leão.

maior do que Laplace. haurindo o tépido ar sereno. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. mordendo glabros talos. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . Tenho estremecimentos indecisos E sinto.. Os pães -. as tesouras Brônzeas. nos fortes fulcros. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. roendo a substância córnea de unha. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. numa ininterrupta Adesão. Tais quais.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. com que guarda meus sapatos.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. não prendi minha existência?! Por que Jeová. eu vivo pelos matos. também gira e redemoinham. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Beber a acre e estagnada água do charco. Por causa disto. Magro. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava..

Úmido. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . apalpa a úlcera cancerosa. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. cheio de chamusco. E eu vou andando.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. goza O lodo. Com a flexibilidade de um molusco. no agudo grau da última crise. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Dorme num leito de feridas. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. Beija a peçonha.

Nos terrenos baixos. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho.. Ladra furiosa a tribo dos podengos. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . Entrançados. A terra cheira. Em grandes semicírculos aduncos. Os ventos vagabundos batem. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto..Augusto ..E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. fustigue. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. Eu. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. A câmara nupcial de cada ovário Se abre.. em vez do nome -. De árvore em árvore e de galho em galho... O ar cheira. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. bolem Nas árvores. No chão coleia a lagartixa. depois de tanta Tristeza. Com a rapidez duma semicolcheia. no árdego trabalho. quero. corte. queime. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. pelo ar. salta. depois de morrer. largando pêlos. morda!.

Na bruta dispersão de vítreos cacos. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Amontoadas em grossos feixes rijos. O aziago ar morto a morte Fede.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Por saibros e por cem côncavos vales. Os musgos. Quantas flores! Agora. Urram os bois. Aqui. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Nédios. em vez de flores. Como pela avenida das Mappales. O lodo obscuro trepa-se nas portas. dos esconderijos. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Viveu. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. sem conchego nobre. Une todas as coisas do Universo! 160 . como exóticos pintores. Como um anel enorme de aliança. Trôpega e antiga. outrora. batendo a cauda. Pintam caretas verdes nas taperas. As lagartixas. À dura luz do sol resplandecente.

A lamparina quando falta o azeite Morre.. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. Súbito. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada.. arrebentando a horrenda calma.. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. aqui. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. com a misericórdia de um tijolo!. como quem raspa a sarna.. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. Que por vezes me absorve. sem pai que me ame. Só.. da mesma forma que o homem morre. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha.E assim pensando. À carbonização dos próprios ossos! 161 . De pé. é o óbolo obscuro. Grito.. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. à luz da consciência infame. Julgo ver este Espírito sublime.

Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. Com as mãos chagadas. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. a âmbulas moles. aliando. hirta. à lua.. urna de ovos mortos. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. ébria e lasciva. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. a arquivar credos desfeitos. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. E a mulher. hórridos uivos Na mesma esteira pública. Ouvem-se os brados Da danação carnal. Sente. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. funcionária dos instintos. de cabelos ruivos. O Vício estruge. Entre farraparias e esplendores. por fim. espremendo os peitos. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. através os meus sentidos. Espicaça-a a ignomínia. Reduzidos. como o estepe. Bramando. Lúbrica. recebe. em coréas doudas. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude.. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. à luz do olhar protervo. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. 162 .A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. em contorções sombrias. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. alta noite.

Fulgia. em cada humana nebulosa. E a Carne que. Ei-la. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala.. Na óptica abreviatura de um reflexo. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. já morta essencialmente. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. de bruços. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. É o hino Da matéria incapaz. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 .Chão de onde unia só planta não rebenta. E a dor profunda da incapacidade Que..... Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. filha do inferno.. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente...

Na homofagia hedionda que o consome. Mas que. Libertos da ancestral modorra calma. talvez. Ficou rolando. hírcica. e a estraga Na delinqüência . do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia... adultos. adstrito a inferior plasma inconsútil. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.. rubros. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 .. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços.. sonhos de culminância.... como aborto inútil.O atavismo das raças sibaritas. Como o . Que. Pudera progredir. Saem da infância embrionária e erguem-se. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. impune... Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. radiando. Numa cenografia de diorama... das veias E em torrencialidades quentes e úmidas.. decerto. Irradiava-se-lhe. ânsia De perfeição. momentaneamente luz fecunda. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora..

.................................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto..................... condenada...................................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia.......... ......................... ... ................... ................................................. ........................ ......................................................... ........................................... ........... 165 .................... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos......Sugando a seiva da árvore a que se une! ..................................................... ............................................................................................................................. Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto............................. ao trágico ditame..... ......... ..... oca.................................................... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E.......................................................................................

. Porque o amor. poeta. oposto a mim. por experiência. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. É assim como o ar que a gente pega e cuida. amo Mas certo. conheço o seu conteúdo. provo-a.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. enfim. É Espírito. Para que. pois. tal como eu o estou amando. é substância fluida. observo o amor. em ânsias. consoante o qual. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. enfim. Diverso é. Quis saber que era o amor. Como Mársias -. atenta a orelha cauta. chupo-a. Integralmente desfibrado e mole. Descasco-a.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. do egoísta Modo de ver. o ponto outro de vista Consoante o qual. o egoísta amor este é que acinte Amas. E hoje que. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. ilusão treda! O amor. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. é éter. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . entretanto. o observas. é como a cana azeda. este o amor não é que. eu que idolatro o estudo.. A toda a boca que o não prova engana. Pudera eu ter. Oposto ideal ao meu ideal conservas. Imponderabilíssima e impalpável. Cuida. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo.

Como Vulcano. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. abre. Que importa que. depois disso. . que devia. Trabalharei assim dias inteiros. 167 . Entendi. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. opresso. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. os monstros zombeteiros. no quadrilátero da alcova.. contra ele. com o seu grande grito..A maldade do mundo é muito grande. em ânsias.. a tumbal janela E diz. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito.. Sem ter uma alma só que me idolatre. trágico e maldito.. trabalhar contente.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. olhando o céu que além se expande: ".. E só. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!.

Batem-lhe os nervos. sacudindo-o todo. Sobre a cidade geme a chuva.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.

E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. recebendo injúrias. e erguia.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Rua Direita. nas telúrias reservas. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Recebiam os cuspos do desprezo. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. por ver-vos. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. Cortanto o melanismo da epiderme. lhe entregue. oh! céu. O reino mineral americano Dormia. sob os pés do orgulho humano.Dizia. 169 . Que forma a coerência do ser vivo. e absorve em cada viagem Minh’alma -. Como um cara. íntegra. num canto de carro. alto. E não haver quem. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. E a cimalha minúscula das ervas. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. banhava minhas tíbias. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. A essa hora. Com os ligamentos glóticos precisos.

com o ar horrível. Onde minhas moléculas sofriam.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . com a símplice sarcode. Pela alta frieza intrínseca. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. em diástoles de guerra. úmida e fresca. Mais tristes que as elegais de Propércio. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. o ancilóstomo. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. me pediam. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. O vibrião. Com a abundância de um geyser deletério. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. Pareciam talvez meu epitáfio.

e o olhar errante. Súbito alguém. Mochos vagavam como sentinelas. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. funeral mesquita. o passo constrangendo. Em passo lento.Um vento frio começou gemendo. dentro. . Uma vez. A Lua encheu o espaço sem limites E. Parou em frente da mesquita morta. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. nos altares esboroados. se desenrolava A esteira astral da retração etérea.. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. foi transpondo a porta. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso.. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Era uma viúva. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Feras rompiam tolos e balseiros. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . ampla e brilhante. a viúva.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. E pelas catacumbas desprezadas. Eternamente aberta ao sol e à chuva. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos.

entanto. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. E raivosas. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. infernais ardendo Todas as feras. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. Como uma exposição de carnes vivas.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. contra ela. Fora. Morria a noite. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. entretanto.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. Além. E sobre o corpo da viúva exangue. arremetendo. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas.

Pára. Assim. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. entre assombros. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. ao sol.. Verde. afetando a forma de um losango.. em luz perpétua. Na ilha encantada de Cipango tombo. num enleio doce. Da qual. exata. ostentando amplo floral risonho.. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas.. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. 173 . no meio. pela vez primeira. Rica.. A saudade interior que há no meu peito. brilha A árvore da perpétua maravilha.. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos.. Qual num sonho arrebatado fosse. trêmulo. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que..A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. tenho alucinações de toda a sorte. quem diante duma cordilheira. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. Atravessando os ares bruscamente... em plena podridão. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos.

Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha...Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem... A tarde morre. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe.. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Passa o seu enterro!. E finalmente me cobri de flores. Gozei numa hora séculos de afagos... Banhei-me na água de risonhos lagos. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 .

Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . outro se ergue e sonha.globo de louça Surgiu. Quem as esconda.. nas Águas. em lúcido véu. esse vai Para o túmulo que o cobre. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores.. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Vagueia um poeta num barco. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. Se um cai. as esconda. Vai uma onda. A Lua . Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Espelham-se os esplendores Do céu. de cima.BARCAROLA Cantam nautas. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. outro cai. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. O Céu. em reflexos.

... Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. porém. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. forte.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. "Viajeiro da Extrema-Unção. poeta da Morte!" ... choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. "Mas nunca mais. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz.

Fulgente do valor da vossa glória. E ali do despotismo entre os escombros. oh Pátria. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. Da liberdade ao toque alvissareiro. Manchar não pode as aras da República. esplendorosa. . Essa luz etereal bendita e calma. Vós. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. fazei que destes brilhos. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. A Liberdade assoma majestosa. risonho. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Oh! Liberdade. Da República a nova sublimada.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. e. Caia do santuário lá da História. A República rola-lhe nos ombros. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . oh! Redentora d'alma. Não! que esse ideal puro. Como um Tritão. pois.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. levando ao mundo inteiro.

Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. à luz das minhas frases. E. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. cantam óperas inteiras.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Além.. Estremecendo em suas próprias bases. Uma montanha que se desmorona. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. vendo o horror dos meus destroços. ao matinal assomo. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. Aves de várias cores e de várias Espécies. Na área em que estou. nas oliveiras. Passa um rebanho de carneiros dóceis. 178 . sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. desvairado.. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. O amor reduz-nos a uniformes placas.Mas hoje.

Observo então a condição tristonha Da Humanidade. Da observação nos elevados montes Prefiro.. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta.. Tal qual ela é. sinto um violento Rancor da Vida . à nitidez real dos aspectos. heroicamente. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. ébria de fumo e de ópio. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. à frente dele. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. E quando a Dor me dói.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. demonstrando-a. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas.

Muito longe. Muito longe. em sonhos.CANTO ÍNTIMO Meu amor. Que o amor abriu no meu peito. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . a esmo. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. se duvidas. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Vem cá. De lá. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. erra. em sonhos erra. dos grandes espaços. Passo longos dias. olha estas feridas. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando.

até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. agonia! .. Fazer parar a máquina do instinto. a sós.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. numa delícia infinda. agonia bendita! . .. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. Frio que me assassina. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito.. agonia.. escuridão e eterna claridade. num volutuoso assomo. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . agonia. quanto mais me desespero.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. Agonia de amar. ontem. murmura: . Mas. experimento O mais profundo e abalador atrito. vendo-a. uma nuvem que corre. amor e frio. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia... o louco. Caminha e vai. abraça a sombra e. Numa prece de amor. triste. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. Sem um domingo ao menos de repouso. neve. Neve que me embala como um berço divino.. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. e o sofrimento De minha mocidade. Delícia que ainda gozo. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. oração.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Neve da minha dor. prece que ainda Entre saudades rezo.. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho.Diz e morre-lhe a voz. Amor.

e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. a superfície bruta.. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano.. e o trabalho . do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje.. mordendo a atra terra infecunda. E em tudo que o rodeava. Fez reboar pelo solo. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. do agro solo. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo.. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. funéreo 182 . Por seis horas seu braço empenhado na luta.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . foi aos poucos se arrastando. lúgubre e só. A terra escalda: é um forno. oito vezes. Triste. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. acende O pó. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. E o Velho veio para o labor cotidiano. Mas o braço cansou! Trabalhou. Rasgando. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado.

pois! Somente morreria Se da Vida. a rugir-lhe aos pés. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. louco. onde arde e floresce a Crença. Nem viu que era chegado o termo da viagem. E amplo.. e a sonhar. o peito arqueou-se. sozinho.o último esforço. avistar a Árvore da Esperança. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. e o braço Pendeu exangue. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija.. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. a família! Não morreria. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos.. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. a toa.. flutua! Ninguém o vê. era a turba trovadora Que assim cantava. o Velho caminhava. ele pisasse os trilhos.. o cansaço Empolgara-o.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. Caminhava. ninguém o acalenta. a flux d'água.. e compreendendo tudo. bêbado de miragem. tombando. os filhos. o acalenta. o precipício estava. Quis fazer um esforço . E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. Num instante viu tudo. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços... avistando uma frondosa tília Julgou.

Negras. e. fulvos. Na majestade dum condor bendito.condensada treva A sombra desce.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva.. E há no meu peito . a Sombra . dourando as névoas dos espaços. . No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. rubro. mudo.Asas de corvo pelo coração. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. pompeiam (triste maldição!) . santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro.ocaso nunca visto. ígneo. alvas. e o meu pesar se eleva E chora e sangra.. sangrento O sol. Atros. Raios flamejam e fuzilam ígneos. Subindo á majestade do Infinito.. Além. mudo..eis tudo! E no meu peito . aos astrais desígnios. volaterizadas. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. Descem os nimbos. E a Noite emerge. luminosas.. Trazem no peito o branco das manhãs 184 .. mudo. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme.

e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. a lesma. em plena e fulva reverberação. O leão. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. E corno a Aurora . como tombou outrora.hóstia da Aurora. Mais em meu peito uma ilusão se enterra.. de que serve. ciclópico. III De novo. Sírius me deslumbra.. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. se erguer. em lodo tudo acaba. curvo ao seu destino. Ah! Como tu. se. Hoje de novo. o mastodonte. há-de Alva. em vão na luz do sol te inflamas. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. 185 . assassino Ébrio de fogo. entre esplendores. a Aurora. A Mágoa ferve e estua. Fantástico. se. Como Herculanum foi após as chamas.o Sol . Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. se tornassem ferros?! IV Poeta. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. o tigre. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. ontem moribundo. como se esses raios N'alma caindo. e hás de ser após as chamas. lodo. A alma se abate. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. Vésper me encanta.

Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. Canto. E foi deixando essas funéreas. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 .. Pelos rochedos.. onde. pelas penedias. banha As serranias duma luz estranha. pelas escarpas.. E arrasta os coraç5es pela Descrença. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar.. como abutres Medonhos. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte.. Sírius me deslumbra. frias. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem.. Ergue. e minh'alma cobre-se de flores . Iluminando as serranias. foi valas funerais deixando. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar.. Vésper me encanta. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. de ossos. Medonhas valas. Como recordação da festa diurna. a Lua que no céu se espalha. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. e. de ilusões te nutres.. Então. pois poeta. um pedestal de tanta Treva e dor tanta.Arrasta as almas pela Escuridão.Fera rendida à música divina. sobe ao pedestal. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço.

E invejo o sofrimento desta Santa.. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. eu também vou passando Sonâmbulo. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. 187 . Depois de embebedado deste vinho.. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! .. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. em mágoa... Mas.. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. triunfalmente.. nos céus altos.INSÔNIA Noite.Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. A dispersão dos sonhos vagos reuno. sonâmbulo. sonâmbulo..

o funerário. as flores.. neste silêncio e neste mato. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. os corimbos. Aqui. Agora. em mágoa imerso. hedionda. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Recordam santos nos seus próprios nichos. Com o olhar a verde periferia abarco. Cercado destas árvores. por exemplo. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . porém. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. Estou alegre. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá.. equilibrando-se na esfera. batendo na alma. estronda Como um grande trovão extraordinário. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. As árvores. Em que o Tédio. Atro dragão da escura noite.Vagueio pela Noite decaída. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida.. O Sol..

é mais de um. por outra. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. Presto. Risco-o Depois. barro. "Na tua clandestina e erma alma vasta. Mergulho. através ovóide e hialino Vidro. e na ínfima ânfora. harto. irrupto. "Onde nenhuma lâmpada se acende. Olho-o ainda. porque um. Todos os organismos são oriundos. por epigênese geral. "Onde os ventres maternos ficam podres. Dois são. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. amorfo e lúrido. "Miniatura alegórica do chão. E o que depois fica e depois Resta é um ou. síntese má da podridão. a esvaziar báquicos odres: . "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. Olho-o."Cinza. De onde.Mucosa nojentíssima de pus. os beiços na ânfora ínfima. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . ébrio.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . certo. aparece. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo.

Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. o que nele Morre. como nunca outro homem viu. cósmico zero. Migalha de albumina semifluida. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. em segredo. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Em que todos os seres se resolvem! 190 . De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. Vida. do meu espírito. Então. Depois. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. muito alto. mônada vil. sou eu. sozinho. é todo aquele Que vem de um ventre inchado.Do mundo o mesmo inda e. Sob a morfologia de um moinho. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. que. na terra instável.. sois vós. ora. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Se escapa. é o céu abscôndito do Nada. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. Move todos os meus nervos vibráteis. Na síntese acrobática de um salto. dentre as tênebras..

Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas.. Adeus! Que eu veio enfim. E eis-me outro fósforo a riscar. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .. De onde quimicamente tu derivas.

medras Nalma de cada virgem.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. lembras.. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham.. .As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. E. 192 . tangendo tiorbas em volatas. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . Sinos além bimbalham. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . vezes..Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. Troa o conúbio dos amores velhos .. Amor. Retroa o sino. Cantas a Vida que sangrando matas. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. chora e se lamenta e vibra. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras. . bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. Ora.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. davas brandindo em seva e insana Fúria. E em tudo estruge a tua dúlia .

fosforeando. Entre timbales e anafis estrídulos. quando Entre estrias de estrelas. Quedo. esse poder terrível. Cativo. beija os áureos pés dos ídolos. sonhei-a. pois. Irene. Assim. Irene. e eis o motivo. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. .Essa dominação aterradora . Eis o motivo porque fiz esta ode. ontem. 193 . eis-me de ti cativo! Cativaste-me. aos astros.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Irene.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. impassível! Esta de amor ode queixosa.

Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. Da qual. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. tinir. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. berrar. Quase com febre. Trinta e seis graus à sombra. bruta. erguido do pó. E eu nervoso. irritado. Dentro. ao meio-dia. Inopinadamente 194 . provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. num sardonismo doloroso De ingênita amargura.

afinal. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. A ouvir todo esse cosmos potencial. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. . em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 .O ígneo jato vulcânico Que. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca.

divina. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. Aperta-me em teu peito. E dá-me assim. oh! morena . De lírios e boninas Um veludíneo leito. Assim como Jesus. Embala-me em teus braços! 196 . perdeste a ciência.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. Morreu-te a redolência.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena.. Eu quero o meu Calvário .. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Aperta-me em teu peito.QUADRAS Embala-me em teus braços.

.. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. através do vidro azul.. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. Dói-me a cabeça. No bruto horror que me arrebata. quando a noite cresce. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. duas. 3 de maio. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. E aos tombos. Tenho 300 quilos no epigastro. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. três.Uma. Vista. Aumentam-se-me então os grandes medos. embora a lua o aclare.ª-feira.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .... Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo.Uma. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me.. em ânsias: . quatro. A conta recomeço.. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. 6. e. em suma. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo.

"Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Ponho o chapéu num gancho.. Cinco lençóis balançam numa corda.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. O suor me ensopa. Vêm-me á imaginação sonhos dementes...Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . Por muito tempo rolo no tapete. Tal urna planta aquática submersa. . Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. Acho-me. A luz fulge abundante 198 . A lua é morta. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. . Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. por exemplo. Tomba uma torre sobre a minha testa.. E o amontoamento dos lençóis desmancho. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Súbito me ergo.. numa festa. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Meu tormento é infindo... Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela.Sucede a uma tontura outra tontura.. Mas aquilo mortalhas me recorda.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse...

Vários reptis cortam os campos. em diâmetro. Babujada por baixos beiços brutos. numa última cobiça. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . Côncavo. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. no ato da entrega Do mato verde. No húmus feraz. cheia de adubos. De mim diverso. Broncos e feios. A ouvir. passei o dia inquieto. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. Entretanto. hierática. feliz. longe do pão com que me nutres Nesta hora. observa A universal criação.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. o céu. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. a terra resfolega Estrumada. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. radiante e estriado.

. ás dos cristais. E à noite. em sangue. Mãos adúlteras. Monstruosíssimas mãos. vão cheirar.. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. a farpas de rochedo Completamente iguais. 200 . pituitárias Olfativas.. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Assinalados pelo mancinismo.. Outras. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. tentáculos sutis. Pertencentes talvez. Mãos que adquiriram olhos. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. Umas. negras.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. às da neve. a delinqüentes natos.

Rola a violeta santa dos teus olhos . E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. plangente. pálida camélia. oh Quimera..a Carne. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura.. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. Sonho abraçar-te. Opalescência trágica da lua! Tu.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. langue e seminua. Pareces reviver a antiga Ofélia. .Tufos de goivo em conchas de esmeralda. Mas neste sonho. E como um nume de pesar. Guarda a saudade que levou do Mame.

almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. com soluços quase humanos. E. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. O feto original.. Aves com frio. análogo ao peã de márcios brados. Eu procurava. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Cruzes na estrada. Convulsionando Céus. com uma vela acesa. era só O ocaso sistemático de pó. num ruidoso borborinho Bruto. uivando hoffmânnicos dizeres. como num chão profundo. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. enquanto eu tropeçava sobre os paus. Choravam. No desespero de não serem grandes! 202 . Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. Aprazia-me assim.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite.. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. na escuridão.

o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. A abstinência e a luxúria. uma voz 203 . vingadora. perdido no Cosmos. horrenda e monótona. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio.Vinha-me á boca. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. com a sidérica lanterna. ao colher simples gardênia. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Fluía. na ânsia dos párias. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. de onde se vê o Homem de rastros. Como o protesto de uma raça invicta. Noite alta. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. assim. me tornara A assembléia belígera malsã. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Mas das árvores. frias como lousas. Maior que o olhar que perseguiu Caim. Brilhava.

oh! filho dos terráqueos limos. pois. a espiar enigmas. enquanto Deus. Se hoje. Para esconder-se nessa esfinge grande. na ânsia cósmica. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. árvore. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras.. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. choramos. em suma. diante do Homem. do Equador aos pólos. com a febre mais bravia. Porque em todas as coisas. Rasgando avidamente o húmus malsão. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. porque. Nós. Tragicamente. Na prisão milenária dos subsolos. Para erguer. iceberg. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. isto é. obscuro. afinal. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar.Tão grande. que. entres Na química genésica dos ventres. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . amanhã píncaros galgas. montanha. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. ovário. Rimos. Crânio. tão profunda. arvoredos desterrados.. Não trabalham.

a escalar Céus e apogeus. em destroços. Eu. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. astro decrépito. Eu fora. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. alheio ao mundanário ruído. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . naquela noite de ânsia e inferno. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. desgraçadamente magro. A voz cavernosíssima de Deus. a erguer-me.

armado de arcabuz. E muitas vezes a agonia é tanta Que. pela boca. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. no combate. Para pintá-lo.. 206 .QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. As minhas roupas. em coalhos. é o prélio enorme. quero até rompê-las! Quero. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. entre estes monstros. Viver na luz dos astros imortais. Minh'alma sai agoniada. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta.. arrancado das prisões carnais. rolando dos últimos degraus. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. Na ânsia incoercível de roubar a luz. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada.

é improfícuo. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . faz mal. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . é inútil. a água que bebo. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. Seja este....esta arca. enfim. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. A bênção matutina que recebo. E tombe para sempre nessas lutas. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. em suma. E é tudo: o pão que como. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem..

a 1 de Janeiro. sozinho. rio Sinistramente. Sai para assassinar o mundo inteiro.. Corro. em trajes pretos e amarelos... -. numa cova. estudo. e a mim pergunto. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. abrindo todos os jazigos. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres.. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. na vertigem: -.Faminta e atra mulher que.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. ouvindo um grande estrondo. Mas de repente.. A Morte. come. Como que. Intimamente sei que não me iludo. à meia-noite. Então meu desvario se renova.. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 . E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho.

Deste-me fogo quanto eu tinha sede. É Sexta-feira Santa. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. que em mim dorme. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio.. e após gritar a última injúria. e de declínio Em declínio. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Amarrado no horror de tua rede. Com as longas fardas rubras. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. e quando vi o que era. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. como a gula de uma fera.. acorda em berros Acorda. Tu não és minha mãe. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. canalha. Vi que era pó. Por tua causa apodreci nas cruzes. em grupos prosternados. Deixa-te estar. Perante a qual meus olhos se extasiam. Quis ver o que era. Como as estalactites da caverna.. Eu desafio. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano.... desta cova escura. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam.

Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa.Um esqueleto. Na molécula e no átomo. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. e a gente. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. O vento entoa cânticos de morte. no ar de minha terra. Como as chagas da morféia O medo. Dentro da igreja de São Pedro. A árvore dorme Eu. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas.. vendo-o. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. Roma estremece! Além. quieta.. A desagregação da minha Idéia Aumenta. Desperto. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Na Eternidade.. O céu dorme.. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. somente eu. As luzes funerais arquejam fracas.

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