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Augusto Dos Anjos - Obra Completa (Nao Esta Tao Completa Assim)

Augusto Dos Anjos - Obra Completa (Nao Esta Tao Completa Assim)

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Sections

  • O MORCEGO
  • PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
  • IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
  • SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO
  • VERSOS A UM CÃO
  • O DEUS-VERME
  • DEBAIXO DO TAMARINDO
  • BUDISMO MODERNO
  • SONHO DE UM MONISTA
  • MATER ORIGINALIS
  • O LUPANAR
  • IDEALISMO
  • ÚLTIMO CREDO
  • SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO
  • A UM CARNEIRO MORTO
  • VOZES DA MORTE
  • INSÂNIA DE UM SIMPLES
  • ASA DE CORVO
  • O MARTÍRIO DO ARTISTA
  • O MAR, A ESCADA E O HOMEM
  • RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ
  • A UM MASCARADO
  • VOZES DE UM TÚMULO
  • CONTRASTES
  • DEPOIS DA ORGIA
  • A ÁRVORE DA SERRA
  • VENCIDO
  • VANDALISMO
  • VERSOS ÍNTIMOS
  • VENCEDOR
  • ETERNA MÁGOA
  • O LAMENTO DAS COISAS
  • O MEU NIRVANA
  • CAPUT IMMORTALE
  • LOUVOR A UNIDADE
  • SUPREME CONVULSION
  • NATUREZA ÍNTIMA
  • A FLORESTA
  • GUERRA
  • ÚLTIMA VISIO
  • AOS MEUS FILHOS
  • O POETA DO HEDIONDO
  • A FOME E O AMOR
  • HOMO INFIMUS
  • MINHA FINALIDADE
  • NOLI ME TANGERE
  • O CANTO DOS PRESOS
  • VÍTIMA DO DUALISMO
  • AO LUAR
  • CANTO DA ONIPOTÊNCIA
  • ANSEIO (QUEM SOU EU...)
  • VERSOS A UM COVEIRO
  • TREVAS
  • AS MONTANHAS
  • APOCALIPSE
  • A NAU
  • O FIM DAS COISAS
  • A NOITE
  • A OBSESSÃO DO SANGUE
  • VOX VICTIMAE
  • AGONIA DE UM FILÓSOFO
  • O ÚLTIMO NÚMERO
  • SAUDADE
  • ABANDONADA
  • CETICISMO
  • OUVI, SENHORA
  • TRISTE REGRESSO
  • INFELIZ
  • N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS
  • NOIVADO
  • NO MEU PEITO ARDE
  • AMOR E RELIGIÃO
  • CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA
  • O COVEIRO
  • PECADORA
  • NO CLAUSTRO
  • IL TROVATORE
  • A LOUCA
  • PRIMAVERA
  • SENHORA, EU TRAJO O LUTO DO PASSADO
  • SOFREDORA
  • ECOS D’ALMA
  • AMOR E CRENÇA
  • ARIANA
  • TEMPOS IDOS
  • NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA
  • ADEUS, ADEUS, ADEUS! E, SUSPIRANDO
  • A AERONAVE
  • LIRIAL
  • A MINHA ESTRELA
  • A ESMOLA DE DULCE
  • AVE DOLOROSA
  • NIMBOS
  • O MAR
  • ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS...)
  • AURORA MORTA, FOGE!
  • NO CAMPO
  • CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA
  • CRAVO DE NOIVA
  • O BANDOLIM
  • ARA MALDITA
  • TREVA E LUZ
  • O TEMPLO DA DESCRENÇA
  • A PESTE
  • IDEAL
  • AFETOS
  • MARTÍRIO SUPREMO
  • SOMBRA IMORTAL
  • NOTURNO (PARA O VALE NOITAL..)
  • SEDUTORA
  • PELO MUNDO
  • E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA
  • O RISO
  • VAMOS, QUERIDA!
  • A UMA MÁRTIR
  • PELO MAR
  • PALLIDA LUNA
  • A MORTE DE VÊNUS
  • MÁRTIR DA FOME
  • SONHO DE AMOR
  • A ORGIA MATA A MOCIDADE
  • FESTIVAL
  • NOTURNO (CHOVE, LÁ FORA...)
  • E ELE MORREU
  • A DOR
  • O SONHO, A CRENÇA E O AMOR
  • MEDITANDO
  • PARA QUEM TEM NA VIDA
  • SONETO A FREDERICO NIETZCHE
  • O NEGRO
  • VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA
  • O ÉBRIO
  • O CANTO DA CORUJA
  • SENECTUDE PRECOCE
  • MYSTICA VISIO
  • NOME MALDITO
  • MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
  • UMA NOITE NO CAIRO
  • AS CISMAS DO DESTINO
  • A CARIDADE
  • OS DOENTES
  • À MESA
  • DUAS ESTROFES
  • MATER
  • GEMIDOS DE ARTE
  • A MERETRIZ
  • VERSOS DE AMOR

EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

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Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

Esta obra foi digitalizada, formatada, revisada e liberta das excludentes convenções do mercado pelo Coletivo Sabotagem. Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor.

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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......... 162 Versos de Amor ......................... 204 Viagem de um Vencido ...................................................................................................................................................................................................................................... 183 Gozo Insatisfeito .......................................................................................................................... 166 A Luva ......................................................123 Uma noite no Cairo .................................................................................................................. 155 Mater ........................................................................................ 129 A Caridade .............. 197 Quadras ..................................... 186 Insônia ......................... 170 A Vitória do Espírito ................. 195 Numa Forja ................................ 183 História de Um Vencido ................... 190 Mistérios de um Fósforo ............. 199 Tristezas de um Quarto Minguante . 168 Noite de um Visionário ....... 176 Ave Libertas ............................... 173 A Ilha de Cipango ........................................................................................ 155 Duas Estrofes ................................................. 205 Queixas Noturnas ............................................... 156 Gemidos de Arte ........................................................................128 As Cismas do Destino .................................................................................................................................. 184 Idealizações .......................... 180 Canto Íntimo ......................... 203 Vênus Morta .................................................. 157 A Meretriz .. 142 À Mesa ................................................................................... 179 Estrofes Sentidas .......................................... 200 Mãos .................................... 192 Ode ao Amor ........Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .. 182 Canto de Agonia ............... 209 Poema Negro .... 212 5 .. 175 Barcarola ............................. 141 Os Doentes ........................................................................

sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. Fazer o elogio do poeta. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. Sua personalidade singular ali se projeta. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. que é de todas a menos operante. pois. Teria sido um neurótico para uns. na verdade. compreendendo inclusive a estilística. e era aí. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Nalgum ponto. contudo. na chaga viva de sua consciência. isto é. não conhecemos sequer a nossa. Não me parece. desejosos de. ao menos. ed. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. em suas mensagens de angústia. um psicastênico para outros. É preciso. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. nesse estado de superexcitação. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. nos moldes da velha orientação impressionista. Gráfica Ouvidor. Nessa tentativa de interpretação psicológica. senão em mais de um. poder conhecer a árvore pelo fruto. segundo as síndromes patológicas revelados. paremos reverentes à porta do templo. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. entrava em crise espiritual. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. numa atitude de respeito e reflexão. 1962) 6 . Por conseguinte. quando. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. o eu fora do Eu. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. no que há de mais sutil e imponderável. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. RJ. Deste modo. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. que o não convencia de todo. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação.

Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. além mesmo da gravidez. Nem os que nasceram antes. Augusto não era um homem igual aos outros. a de Wilde. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. aos que se acomodam. no final. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. reduzir tudo a categorismo. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. todo o seu temperamento emocional. Ao que se sabe. a de Byron. choques emocionais. menos a de Byron. Explica-se deste modo. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. causada pela perda imprevista de um irmão querido. Juízo é coisa que todos julgam ter. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . nas modalidades do caráter. enfim. da inteligência. repetindo conceitos. Isto posto. sobre o seu caso clínico. igualmente inteligentes. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. Sem o concurso da causa primária. Por seu parentesco espiritual. estudante de medicina. que já era constitucionalmente quase louca. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. a de Nietzche. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura.for. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. o refinamento de suas faculdades morais. Assim como a mãe de Augusto. só ele dava a impressão de um desajustado. em relação com a casuística. sestros. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. com preocupações de grandeza e fidalguia. A mãe do poeta. não é possível interpretar a obra de um escritor. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. aos que se rebaixam para subir. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. Nietzche. tiques nervosos. de fundo genético. perturbou-a por muito tempo. que nada explica. por motivos vários. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. caracterizado por uma sensibilidade doentia. Obviamente. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. do sentimento. como é do gosto da crítica científica. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. a de Leopardi. Pai e irmãos passavam por normais. Byron. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. tem sido Augusto comparado a Leopardi. a partir de Lombroso. sobretudo quando provém da linha materna. E por curiosa coincidência. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. não há negar também a dos psicológicos. por vezes controvertidos. nem os que vieram depois. fobias. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. na classificação dos antropologistas do século passado. enfim.

começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. saído da roça. Coelho Rodrigues. O que há de singular nele não é. cuja vida corria sem obstáculos. que a metafísica estava morta. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. bradava para o conceituado mestre que o argüia. no último ano do século passado. conforme disse num soneto que não consta. o seu tipo de pássaro molhado. cinco anos após a sua morte. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. até o túmulo. sem afastar-se do lar. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. em sua linha tomista. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. para maior complicação de sua personalidade. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. Sílvio Romero. Muito cedo. que lançou em 1919. Era de fato um excêntrico. em contraste com a mocidade e a inteligência. a quietude da vida na província. ao invés de um estudante bisonho. como expressão do pensamento nacional. sofreu duros reveses. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. evolvia para o evolucionismo de Speneer. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. a sua própria vida sem problemas. sofregamente bebida nas academias. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. Falava nele o positivista que. Deste modo. na várzea do Paraíba. é a vocação que já revelava para o infortúnio. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. Alexandre dos Anjos. para aprazimento intelectual das elites. guiado apenas pela ilustração paterna. estavam a fazer dele um lírico. visto ter nascido poeta. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. O rapazinho de 16 anos. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. A paisagem bucólica da várzea. inspirado na natureza e no amor. a rigor. era um introvertido. Já em 1875. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco.Augusto com a sua personalidade psicológica. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. mas no final 8 . porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. em prefácio à segunda edição do Eu. com o título Eu e Outras Poesias. como uma fatalidade. aprendeu a ler e. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. segundo os primeiros retratos que temos dele. os quais o acompanhariam. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. Logo mais. A par disso. em Monólogos de uma Sombra. Com seu pai. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. do Eu. logo mais. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. em 1900. mas não era somente isso. Nada de admirar. dr.

Martins Júnior. aliás bem pouco lisonjeiro. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. como toda substância animada. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. dupla feição de filósofo e de poeta. que. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. introduziu entre nós a poesia científica. de que católico era sinônimo de burro. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. Os menos letrados. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. mas a origem simiesca do homem. desde Haller. de onde saiu formado em 1907. Desta forma. entre o mundo da forma e o mundo da razão. conciliada. Até no Piauí. José Américo de Almeida. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. adepto do positivismo. com a evolução da matéria e do espírito. o pensamento ao longe. Na Paraíba. que só cuidava de preocupações teológicas. a exemplo de Victor Hugo. Esquisitão que era. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. um século antes de Hugo. Aliás. já no seu ocaso. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. Ainda na fase preparatória de estudos. O beatério era o último reduto do catolicismo. nas concepções filosóficas de seus poemas. como uma velharia do século. Nas rodas que se faziam na Paraíba. ficava a escutar os companheiros. proceda ou não proceda. aliás. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. em seu livro Frases e Notas. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. Ao que parece. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. Laurindo Leão. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. emancipou-se dela intelectualmente. a velha Escolástica. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. confundidas ambas na unidade cósmica. em sua. está sujeita também ao processo da evolução. Augusto pouco falava.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. firmava-se o conceito. suportou a mais dura crise. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. isto é. Desses embates. ou mesmo. já lidos nos filósofos da natureza. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. Comte passou. Por todo o Nordeste. tentou o milagre de 9 . os intelectuais mais dotados. Embora educado na religião católica. faziam praça de livres pensadores. se o diabo é tão feio como o pintam.

ora transfigurado em sátiro vilíssimo. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. por força das sucessivas mutações da matéria. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. terso na linguagem. Da substância de todas as substâncias. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. trinta anos antes. É a sua confissão de f transformista. O aspecto conceptual do poema. Do cosmopolitismo das moneras.. Rimbaud escrevera Bateau ivre. enfim. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. A simbiose das coisas me equilibra. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. numa caminhada de 31 estâncias. que passou do reino vegetal para o animal. E assim continua.reduzir a um campo único a ciência e a arte. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. facilmente o identifica. Não sofre apenas a sua dor.. identifica-se na substância primeva. Quem já o leu uma vez. simultâneas. Não há. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. fundado na unidade cósmica. começa então o drama crucial da consciência. Em minha ignota mônada. a consciência 10 . naquela mesma idade em que. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. Integrado na sociedade. A saúde das forças subterrâneas. Vejamos. Aos 17 anos. Venho de outras eras. ampla. depois de infinitas transformações. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. até adquirir a forma humana. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. ora transfigurado em filósofo moderno. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. E é de mim que decorrem. “esse mineiro doido das origens”. Encontra-se.. chega aos seres mais complexos. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. já diferenciado na mônada. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. e—crente no tema. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. incomparável na forma musicada. Pólipo de recônditas reentrâncias. já desiludido. na larva que procede do caos telúrico. que é a derrota da humanidade. procedo Da escuridão do cósmico segredo.. 186 versos. nas duas composições uma coincidência de temas. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. todavia. como bem observa Cavalcanti Proença. A partir da monera. poema que abre o Eu e Outras Poesias. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. Larva do caos telúrico. como amostra.

entrega-se ao sacrifício. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. cuido não estar proferindo uma heresia. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. o que vale dizer. noção trivialíssima das funções orgânicas. em esconderijos apropriados. do ponto de vista metafísico. A mesma coisa. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. No fundo. dezenove séculos antes. manifestou o seu espanto. É a concepção monística. o vidente de Patmos: . Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. uma espécie de fogo que devora e não consome.No princípio era o Verbo. dentro do mundo fenomenal. diante das maravilhas do aparelho encefálico. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. A rigor. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. Nada obstante. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. A partir dai. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. assombrado com o não-ser. como está dito em Monólogos de uma Sombra. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. centro de toda a acuidade sensorial. natural de minha terra. sente o remorso a queimar-lhe a consciência.conspurcada de gozo malsão. que tinha os ouvidos totalmente tapados. No tocante à transformação da matéria. já havia dito. temos aí um transformismo metafísico. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. com sótão e porão. chamando a si. o sofrimento de toda a humanidade. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. numa espécie de solidariedade subjetiva. entendia o agregado abstrato da saudade. o remorso já acordado na caverna escura. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. no princípio era a força. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. no entanto. tantas vezes exaltada pelo poeta. ouvia mais que um tísico. Por alma. há que distinguir um pormenor. O próprio Augusto. que faz quase lembrar a reencarnação. conheci um sujeito. Por fim. Nesse estado d’alma. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. segundo querem os frenologistas. que a ele não interessava considerar.

procura penetrar o mistério da substância universal. impreca. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. uma natureza gasta. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. o lado malsão da vida. Nem por isso admite Deus. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. Profundissimamente hipocondríaco. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. filho do carbono e do amoníaco. fonte inesgotável de vida. sem problemas materiais: Eu. Já o verme . procura 12 . vermes. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Este ambiente me causa repugnância. desde a epigênese da infância. solta blasfêmias. causa-lhe repugnância.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. rasgar do mundo o velário espêsso. Custa crer que este soneto . Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. Sofro.. cadáveres e bocas necrófagas. Em tudo. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir.. A influência má dos signos do zodíaco. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. O próprio amor. admite o éter.este operário das ruínas. só serviu para adensar o clima de alucinação. Anda a espreitar meus olhos para roê-los.Fazer a luz do cérebro que pensa.Psicologia de um Vencido . No auge da inquietação. O mundo em que vive é um vasto hospital. dominado por um ceticismo acabrunhador. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. o éter cósmico. Por toda parte. onde não há lugar para a alegria. a matéria putrefata. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. E há-de deixar-me apenas os cabelos. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. Ao invés de fecundação do espírito. Querendo fugir a essas coisas. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Exausto da luta. Monstro de escuridão e rutilância. onde imperam sombras. que é o Deus materialista de Haeckel. na melhor das suposições.

com o poder de sua imaginação. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Até agora 13 . acompanham-no. Antes de mais nada. Grita a sua dor por toda parte e. coberto de desgraças. sente o desejo. O resultado de bilhões de raças Que. Mas o diabo não larga a sua presa. Com efeito. que ele denomina um sonho ladrão. O subconsciente o aturde. podia fazer dele um triste. no todo ou em parte. que os anos não carcomem. Depois disso. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. Tudo isso. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer.refúgio na inexistência espiritual. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. nem Haeckel compreenderam. tenta ir ao fundo da crença monística. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. A julgar pelos seus gemidos. que exulta triunfante: Gozo o prazer. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. evadido de si mesmo. Onde quer que se refugie. monstros terríveis. paralelamente. E para não capitular a esse apelo. a terrível moléstia que se atribui. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. E via em mim. não há homem que sofra mais. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. o Eu e Outras Poesias. uma desgraça na vida do poeta. Nenhum pintor. Algo de mais grave. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. a perda da crença e. como se supunha. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. diz ele. numa atitude mental de fuga à realidade. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. deve ter acontecido na sua juventude. com efeito. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. gasta imensas energias e enche de culminâncias. já cansado de escutar a natureza. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem.. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. Espera aí encontrar o seu nirvana. Por um instante.. em suas visões oníricas. E é nesta manumissão schopenhauriana. Há.

. Por suas próprias palavras. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Trata-se. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. no tocante a esse drama. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Iríamos a um país de eternas pazes. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. de uma paixão. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo.. pois. Por enquanto. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. inútil seria qualquer esforço. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. no capítulo do amor. Exatamente aí. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Por mais que procure fugir ao assunto.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. dada a ausência de biografia. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Por mais que Augusto negue o amor. que é o drama mais doloroso de sua consciência. Lembro-me bem.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. em . não pode ocultar que foi vítima dele. Gozei numa hora séculos de afagos. desespero virtual e não real. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 ... Ele próprio. sempre se revela.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. em mágoa. nunca foi chegado a santos. contrito. ao mesmo tempo que.extravasava desta forma o seu lamento: 19 .. Noite.. como é sabido. eu também vou passando Sonâmbulo. que não é das mais invocadas. surpreende com a invocação de Santa Francisca. E invejo o sofrimento desta Santa. O poeta. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.. confessa mais uma vez a sua culpa... Como um bemol ou como um sustenido.Insônia . Sonâmbulo. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada.Queixas Noturnas . Depois de embebedado deste vinho. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.santa. Sonâmbulo. como em . Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. mas no poema .

Como Elias. Minha alma sai agoniada. expressa a sua mágoa numa comovente unção. entre as estrelas flóreas. Em . como perseguido pela sinistra ceifeira. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. dormir primeiro. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. que não admite a vida espiritual. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. que parece se deixou levar por pressão da família. Da mãe. Ao vê-lo morto. Mãe. o ofício da agonia. A morte é o fim de tudo. num carro azul de glórias. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. não para ele. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. luta por fugir dela. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. Nem uma névoa no estrelado véu. entretanto. sem resolver a verdade interior. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Ao pai. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido..As Cismas do Destino . E porque a visão da morte não o deixa em sossego. pouco fala. apenas três vezes. quando a morte o olhar lhe vidra. Madrugada de treze de janeiro. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. Mas pareceu-me.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. mas para os que crêem há ainda uma esperança. entre estes monstros. sonhando. Rezo. ama-o até mesmo na atômica desordem..brada: 20 .

Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Nestas condições. não cria em Deus. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. Forma difusa da matéria imbele. 22 anos de idade. Já que não crê em Deus. Vivia um mundo à parte. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. Aqui. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente.. levava-o a recolher-se em si mesmo. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. cheio de imperfeições.. embora ansiasse por encontrá-lo. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. habitado por monstros humanos. Procura assim desoprimir o coração. Ao invés de ajustá-lo à realidade. E ainda.. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. Minha filosofia te repele. ardendo em indagações subjectivas. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. como em toda a obra. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. Acha Flósculo da Nóbrega. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Nada o consolava nesse estado de espírito. Por tua causa apodreci nas cruzes. as palavras também servem para ocultar o pensamento. devia ter na época. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. que Augusto era um cerebral. ponto final da última cena. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. Não me parece tenha razão 21 . tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo.. quando recebeu os 22 açoites da natureza. escravo do raciocínio frio.Morte.

de vez que ninguém o compreendia. em 1912. No fundo. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Nem ele próprio se conhecia. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. Fosse como ele diz. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. volta-se vez por outra contra a sociedade. como um sonâmbulo. que o acolhia com carinho. e a mim pergunto. Punha-se então a passear. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. no caso. ao contrário. que o 22 . ao redor da capela do engenho. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. mas no particular. que só repugnância lhe causava. o cérebro em fogo. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. conforme declarou nesta honesta confissão. Não que tenha recebido ofensas dela. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. noite a dentro. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. mas porque se sente um desajustado. Depois que o poeta deixou a Paraíba. nunca recebeu hostilidades. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. os de maior densidade emocional. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. um homem excluído do mundo. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Desta. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco.o ilustre intelectual paraibano. foram produzidos no Pau D’Arco. Era. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. torturado no sentimento do desamparo. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. Há. passos largos. contudo. Os seus melhores versos. Na luta em que Augusto se debate. De um modo geral. além de pouco. Ao contemplar esse ambiente. O que produziu no sul do País. tinha-se na conta de um doente. entrava em crise espiritual. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. A inspiração despertava com a dor. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. andar bamboleante. sua musa empalideceu à falta de ambiente. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia.

Essa real ou imaginária doença. que admirar chore um dia a crença perdida. como ele chamava. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. em Os Doentes. ansiado e contrafeito. em serenata. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. Era ali. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. “na urbe natal do Desconsolo”. o soneto Vandalismo. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. sob os seus pés. hosanas ao Senhor. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. aliada à descrença. Perdido o amor. atormenta-se com a idéia de que. Parece que desperta para a vida.próprio poeta confessava. perdeu também a crença. os acordes saudosos do coração. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. Depois disso. 23 . Lá para o fim do poema. Mais adiante. Eu bem sabia. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. como se já tivesse perdido o alento de viver. Em As Cismas do Destino. como um arrependido. pois. De início. à guisa de ácido resíduo. confessa-se minado pela tuberculose. imaginária cidade à margem do Paraíba. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. entra a descrever a cidade dos lázaros. Não há. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. fez dele um misantropo. Na ascensão barométrica da calma. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. eis que escuta. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. passa a chorar a sua dor e a alheia. numa emoção que comove. num desalento ainda maior. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. Já cansado do ceticismo. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. na terra onde pisava. onde os anjos cantavam. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado.

Assim é que. Santos Neto. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. na Academia Paraibana de Letras. Raul Machado. No final de contas. em serenatas. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. Dos outros. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. posto que. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos.. Sua obra. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. destaco Órris Soares. Ao contrário da incontinente afirmativa. muitas opiniões foram veiculadas. que se afundava a alma do poeta. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. chegou a dizer que Augusto não era poeta. Sabe-se como compunha. Não é. apenas como autor de um livro apologético. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura.. já na 27ª edição. ler. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. Templos de priscas e longínquas datas. pois. era apenas o meio de formular soluções. para ele. em gemidos de dor.Meu coração tem catedrais imensas. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. que não é biografia e não chega a ser estudo. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. João Lélis e De Castro e Silva. tenham bordejado na superfície do abismo em. A arte. João Lélis. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Álvaro de Carvalho. Flóscolo da Nóbrega. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Onde um nume de amor. gostar e não gostar é coisa que se não discute. quase todos. Canta a aleluia virginal das crenças. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. No desespero dos iconoclastas. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. este último. José Américo de Almeida. por exemplo. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. há sempre o que referir. Nesse decurso. Enfim. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. quando a aflição interior explodia em chamas 24 .

na época. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. com efeito. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. associado à vibração sonora. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. também 25 . duendes. Essa incompreensão a respeito de Augusto. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. de um a outro canto da sala. Seus versos. Em ter ficado sozinho. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. Órris Soares. disse que uma das suas forças. túmulos. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. em 1945. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. Foi então que recitou de inopino. insulado em sua própria grandeza. Euclides da Cunha. Muitas vezes. enquanto forjava mentalmente a composição. o sentimento parece ter outra dimensão. entrava disciplinada em seus versos. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. que não tenha fecundado a poesia nacional. Poe e Rimbaud. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. Neles. sobretudo da crítica provinciana. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. impressionam pelo poder da dialética. vermes. o outro 25 anos depois. Só depois de elaborada é que ia para o papel. reside justamente no termo técnico. sangue de vísceras dilaceradas. à primeira vista incompatível com a poesia. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Essa crítica. um em 1920. que pretende ser de interpretação psicológica. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. claro que avulta ainda mais o seu mérito. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. Por tudo isso. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. a densidade. num timbre especial de voz. No entanto. Cavalcanti Proença. Os versos espoucavam no momento da inspiração. lá fora. Em ambos. o que acabava de compor. como lamenta o crítico. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. a sua personalidade psicológica. olhar perdido no espaço.devoradoras. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. como em compasso de música. entre nós. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. figuras espectrais e outras visões sinistras. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. lábios crispados. essa linguagem. este na prosa. o que era. escarros. a passear a esmo. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica.

o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. num dos seus últimos sonetos. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. com efeito. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. na interpretação de um drama emocional. elogios ou restrições. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes.ficaram sem seguidores. Ou então. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. Não pode o critico ser ortodoxo. Com Verlaine. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. O anojamento de Álvaro de Carvalho. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. Nem por isso. é mais uma aversão de olfato alérgico. Com Baudelaire. no duelo da carne. de sentido mais profundo. Eis porque. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. nem tudo pode ter cabimento. pelas crises espirituais porque ambos passaram. a fim de atingir. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. Com Mallarmé. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. aparelhou. pela tristeza indefinível da alma. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. Mas é preciso notar que essa musa. mesmo doentia. Há. está em tempo de ser feita. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. neste ensaio de exegese literária. 26 . reconheça-se que essa poesia é humana. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. por isso mesmo poética. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. como se vê. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. não lhe tira o vigor da expressão verbal. que apenas transparece em linguagem evasiva.

Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. palavras raras e eruditas. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Honesto em tudo. Augusto lembra Rimbaud. citado por Augusto Meyer. como neste exemplo: 27 . em quem se acumulam. Vez por outra. encontra-se em Roma. Súbito. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. sensações simples e cenestesias. de uma honestidade quase bravia. as mesmas figuras de linguagem. por sua natureza. Também no amor os dois se assemelham. Ouvindo isso. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. assentado sobre cacos de pote e urtigas. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. a idéia pura das coisas. visionário. Até nas aliterações e metáforas. Com Antero do Quental. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. havia acentuada tendência do poeta. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. Só com Rimbaud. De lá de fora. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. A mesma coisa ocorre com Augusto.através da sensação. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. temida pelo outro. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. vem o barulho das matracas. isso mesmo de passagem. na postura de um campônio rústico. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois.. É. Com Leopardi. um mês após a morte de Augusto. Não fica apenas aí o confronto. guardando o corpo do Divino Mestre.. na terra santa. “Na Eternidade. numa sexta-feira santa. desejada por um. no ar de minha terra. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. a filosofia da dor. foi José Américo de Almeida. os mesmos descuidos de metro e rima. pelo sentido da dor universal. desde a sua fase inicial. em termos de comparação. um grande medo toma conta do poeta. que dialoga com os elementos imponderáveis. em grupos prosternados. num artigo publicado em 1914. Segundo Delahaye. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. O único que mencionou Rimbaud. em tropos ousados.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. só nesse ponto dissimula o pensamento. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. de mistura com alucinações. crematismos. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. para a neologia e o vocábulo raro. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. Encontra-se. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto.

andou conspurcado de sensações súcubas. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. por causas várias. ilusão treda! O amor. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. Não sou capaz de amar mulher alguma. a julgar pelos seus lamentos. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. vítima de injustiças humanas.. é inútil. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. Em cada um deles. onde se casou com uma nativa da Abissínia. E como não 28 . segundo é fama. que era o seu anseio máximo. é verdade. como Tântalo. uma diferença de fundo entre os dois poetas. homens de bem cheios de nobres intenções. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. exacerbava-a. poeta. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. à beira da água. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. um suave concerto espiritual na natureza. A toda boca que o não prova engana. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava.. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. embora tenham se casado e tido filhos. em busca do paraíso terrestre. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. Depois desse fato. na Bélgica. o bem e o mal caminhando juntos. Rimbaud. largou-se para a África. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. sente-se que há um complexo de culpa. . é improfícuo..”. provo-a. Há. Ninguém sofre mais do que ele. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Augusto sentia-se puro. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. Descasco-a. chupo-a. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. em suma. Motivos escabrosos. é como a cana azeda. mas que o levaram ao resultado conhecido. filha legítima de sua alma. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. No tempo de jovem. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. contudo. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração.

entre a voz do sentimento e a da razão. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. deixava-se ficar no interior da concha. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. onde não faltavam o ranger de dentes. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . beleza. dessa conversão ao materialismo. Por curioso paradoxo. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. Foi a partir daí. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Não raras vezes. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. tudo quanto desperta a alma. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. cor. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. Mesmo assim.espécie de autobiografia moral. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. som. chegaríamos por certo ao pai Homero que. revolta-se contra o mundo. do qual se considerava prisioneiro. Augusto vai irredento até o fim. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. perdia-se no estado de dúvida. os mistérios da natureza. isto é. luz. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo.Une Saison en Enfer . o que recebe influências supera o modelo de inspiração. contra a sociedade. quando muito. martelada em versos magníficos e candentes. Há muitas espécies de conversões em literatura. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. isto é. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. A vida.pode reformar o mundo. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. porém. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. como fontes de inspiração. Neste passo. segundo apregoam os fundibulários da crítica. mas nem isso acredito tenha havido. Possuído do demônio da dúvida. a criação. depois que perdeu a ilusão dos homens. o amor. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. imitação. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. contra a sua grei. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. silvos de labaredas e suspiros de empestados. perfume. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. conforme confissão feita a Mário de Alencar. sem preencher esse vácuo. numa reação inócua. Um problema sempre gera outro. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. tudo quanto eleva os sentidos. Tais similitudes valeriam. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. 29 . Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe.. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio.

a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. Todos nós. Convém. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. porquanto Deus é princípio e é fim. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. quando não proferida por modo vulgar e chulo. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. Os oradores. todavia. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. Ao cabo do bombardeio oratório. em torrentes de eloqüência. Vale mencionar. a meu ver. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. que se veja na blasfêmia. Se há Deus. Isso mostra que ele. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. proclamou que Deus não existe. com raríssimas exceções. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. um pedido de socorro. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. se sucediam na tribuna. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. como ninguém ainda se entendesse. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. Alguns críticos. 30 . heresia maior que a do poeta quando. Se o Cristo não vem em seu auxílio. Ora. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. Apurada a eleição e com base no resultado. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. se não há Deus. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. em meio a tantas emoções extravasadas. supria-se do mais no magistério particular. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo.Enredado em idéias preconcebidas. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. a essência dos Evangelhos. na realidade. outros negando. é. tal como Rimbaud. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. no desespero de tantos sofrimentos. É o que há. resolveu o presidente submeter a questão a votos. é questão que não deve ser formulada. via de regra. Na prática. uns afirmando. No meio em que viveu era querido e admirado. afetando melindres de devotos. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. aceitar as imperfeições do mundo. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. viram nisso o pecado da blasfêmia. mas os que o seguem desconhecem. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. se manifesta ainda escravo do batismo. nas Alterosas. a propósito. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó.

No tempo de meu Pai. E como era sincero e honesto. através dos séculos. como se vê. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. sob estes galhos. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. como uma caixa derradeira. 31 . o sacrifício da linda moça Polixena.atormentado por visões escatológicas. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. De outras vezes. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. explodiu em As Cismas do Destino. coisa que não cabe na boca de um ateu. virtudes que cultivava com extremado zelo. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Por outro lado. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. vem de muito longe. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina.Debaixo do Tamarindo. por mãos de seu filho Pirro. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Como uma vela fúnebre de cera. A denominação. desde Tales de Mileto. Voltando à pátria da homogeneidade. dá à alma a denominação de sombra. os filósofos iônios. Abraçada com a própria Eternidade. De inflexões mentais sua obra anda cheia. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. entendiam a alma. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. começa o poema “Sou uma Sombra.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto .

que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. virtualidade espiritual. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. para ele.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. em Leopoldina. que procede do éter cósmico.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. Mais poderia dizer agora. em briga com o dualismo. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. tal como se apresenta. até mesmo num grão de areia. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. era uma mônada. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. acrescenta. até que morre numa cidade das Alterosas. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. perdendo-se novamente no enleio cósmico. Até Deus. nas composições que vão até o fim do livro. assaltado de alucinações. da substância de todas as substâncias. a 12 de novembro de 1914. aos 30 anos de idade. É a substância primeva. na Federação das Academias de Letras do Brasil. em soluços quase humanos. as formas microscópicas do mundo. larva do caos telúrico. Assim vai. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. Daí por diante. !" Este trabalho. 32 . mas com o que ai está me contento. como entidade eterna. vacilante na ciência fria. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. Choram ainda dentro dele. desde o declínio das crenças mitológicas. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. mas dentro da alma aflita Via Deus . Fala como um crente da cegueira da criatura humana. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. tal como a entendiam os filósofos iônios. isto é. sua intimidade numenal. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. Que outros. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador.

numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. entretanto. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. R. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. dos Anjos e D. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. 33 . Tenho insônia raras vezes. Conservo de memória tudo quanto produzo. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. Sofre de insônia. da chamada vida física. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. o que não impede.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Engenho Pau d'Arco. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Eu. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Córdula C. Rio de Janeiro. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. presumo. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. de abusar um pouco do café.

TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Monstro de escuridão e rutilância. desde a epigênese da infância. Produndissimamente hipocondríaco. Fecho o ferrolho E olho o teto. Ao meu quarto me recolho. Meu Deus! E este morcego! E. E vejo-o ainda. e à vida em geral declara guerra. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Sofro. filho do carbono e do amoníaco. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Este ambiente me causa repugnância. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. “Vou mandar levantar outra parede. Esforços faço. Chego A tocá-lo. Anda a espreitar meus olhos para roê-los.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Minh’alma se concentra. Já o verme -.” -. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. igual a um olho. E há de deixar-me apenas os cabelos.. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça.. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Ergo-me a tremer.. agora.. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. A influência má dos signos do zodíaco.Digo.

. e quase morta. mínima. tênue. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos.. Chega em seguida às cordas da laringe. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Tísica. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. quando sonha. Quebra a força centrípeta que a amarra. e depois. Riem as meretrizes no Cassino. Mas. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. Que. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. em desintegrações maravilhosas. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. Delibera... raquítica. Anoitece. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. À noite. de repente. Deixa circunferências de peçonha. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 .A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas.

Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros .. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Agregado infeliz de sangue e cal. Tragicamente anônimo. Que poder embriológico fatal Destruiu. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . feto esquecido. Fruto rubro de carne agonizante.. com a sinergia de um gigante. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. E.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Em que lugar irás passar a infância. Realizavam-se os partos mais obscuros. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. em letras garrafais. em vez de achar a luz que os Céus inflama.

afaga-a.. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. pelos séculos adiante. acode-a A escala dos latidos ancestrais. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. E vive em contubérnio com a bactéria. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. E irás assim.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. arrima-a. Livre das roupas do antropomorfismo. Janta hidrópicos. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 ..Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Suficientíssima é. Verme -. em que tu dormes. Almoça a podridão das drupas agras. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. Na superabundância ou na miséria. para provar A incógnita alma.. ampara-a. Cão! -. Filho da teleológica matéria.é o seu nome obscuro de batismo. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Ah! Para ele é que a carne podre fica..

e. portanto. como uma caixa derradeira. Como uma vela fúnebre de cera.. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também.. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Guarda. de amplos agasalhos. Dr. Voltando à pátria da homogeneidade.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. esta árvore. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . sob estes galhos.corte Minha singularíssima pessoa.. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. esta tesoura. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome.

como quem tudo repele.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. Alheio ao velho cálculo dos dias. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. -. um dia. Por trás dos ermos túmulos. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. com uma ânsia sibarita.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta... Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. Na guturalidade do meu brado. por toda a pro-dinâmica infinita. Como um pagão no altar de Proserpina.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. mas dentro da alma aflita Via Deus -. com o esqueleto ao lado. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo.

como um gado vivo.. talvez. Oh! Mãe original das outras formas.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. autônoma e sem normas. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Todas as noites. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Como quase impalpável gelatina. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo. Onde os bandalhos. Dentro do ângulo diedro da parede. vede: É o grande bebedeouro coletivo. mísera e mofina. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Em que é mister que o gênero humano entre. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Nos estados prodrômicos da vida.. Ah! De ti foi que. nesta rede. moços do mundo.

IDEALISMO Falas de amor. É a morte. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo.. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. é o pneuma . para o amor sagrado. O mundo fique imaterializado -. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. Creio.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. É. é o ego sum qui sum . se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . perante a evolução imensa.. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. como o filósofo mais crente. Amo o coveiro -.

. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. Era tarde! Fazia muito frio. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Pelas monotonias siderais. como os sonhos dos selvagens.. À meia-noite. Mas. caixas cranianas. com a alma às escuras. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . improficuamente. nele. Comi meus olhos crus no cemitério.. e. Vaguei um século. talvez as Musas. Cinzas. se hoje volto assim.. cartilagens Oriundas.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. inclusas. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. subi talvez às máximas alturas.

Depois da morte. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. para o Futuro. Se fosses Deus. Pelo muito que em vida nos amamos. Tu. pois. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. Na multiplicidade dos teus ramos. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Eu. tuas sementes! E assim. selvas. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. Tamarindo de minha desventura. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão.fontes de perdão -. reunidos. vales. com o envelhecimento da nervura. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. no Dia de Juízo. porém. trilhos.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. inda teremos filhos! 43 . glebas. em diferentes Florestas.

Perseguido por todos os reveses. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Na orgia heliogabálica do mundo.. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. asa De mau agouro que. Como os Goncourts. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza..a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . É meu destino viver junto a esa asa. à categoria Das organizações liliputianas. na hierarquia Das formas vivas. Como a cinza que vive junto à brasa. Apraz-me. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. nos doze meses..INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas.. É-me grato adstringir-me. Ter o destino de uma larva fria. Ganem todos os vícios de uma vez. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo.

à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. em desalento. conquanto ainda hoje em dia. mamífero inferior. aos soluços. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. violento. rasga o papel. com os dedos brutos Para falar. puxa e repuxa a língua.. o Hércules.. “À luz da epicurista ataraxia. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . a mim.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. o Homem. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. É como o paralítico que. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. “Homem. Ouvindo a Escada e o Mar.

Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. em minha cama. Que a mim somente cabe o furto feito.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. afetava Susceptibilidade de menina: “-. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Que ela absolutamente não furtava. Em sucessivas atuações nefastas. agora. como cruéis e hórridas hastas. ralhava. após tudo perdido. Sinhá-Mocinha. Ele hoje vê que. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. não fora ela! --“ E maldizia a sina.. mas eu. Vejo. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares.Não. hipócrita. então.. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava.. Tu só furtaste a moeda. minha ama. entretanto. Eu furtei mais.. Furtaste a moeda só. minha Mãe. o ouro que brilha. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas.

. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. Hoje.o brilho Destes meus olhos apagou!.. do que este que palmilho E que me assombra. igual a um porco.a mãe comum -. num festim. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. É noite. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. Hás de engolir. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse.. à noite.. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . E tu mesmo. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta..A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. porém... Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. após a árdua e atra refrega. aos reais convivas.. e. Assim Tântalo.

e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. para amenizar as dores tuas.. Irei também. O que o homem ama e o que o homem abomina. o Ódio e a Carnificina. para onde fores. Às alegrias juntam-se as tristezas. meu Pai?! Que mão sombria. Eu. trilhando as mesmas ruas. pois. Deus. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. Pai. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. Tu. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . O Amor e a Paz. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!. é justo.. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -.. e o ângulo reto.. gemendo. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. e sendo justo.

Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. sonhando. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. entre as estrelas flóreas.. cuidei que ele dormia. Nem uma névoa no estrelado véu. o ofício da agonia. Mas pareceu-me. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Mãe.. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza.. Como Elias. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . E a marcha das moléculas regulam. num carro azul de glórias. Rezo. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos.

DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza.. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho.Meu pai.. possui minh’alma!. olhando a pátria serra.. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . Caiu aos golpes do machado bronco.. sôfrega e ansiosa.Disse -. pois. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. no junquilho. pai.. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. -. enfim. É preciso cortá-la. Para que eu tenha uma velhice calma! -..As árvores.. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. numa rogativa: “Não mate a árvore. Livre deste cadeado de peçonha. meu pai. Apraz-me. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros..e ajoelhou-se. meu filho. para que eu viva!” E quando a árvore. Esta árvore. meu filho.

Ah! Tu somente ainda és igual a mim.. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. Foi este mundo que me fez tão triste. Continua a comer teu milho alpiste. não tens mais! E pois. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Olha a atmosfera livre. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. Tu nunca mais verás a liberdade!. desde o mais prístino mito. preto e amarelo. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. bruto. o amplo éter belo. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo.. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Pões-te a assobiar. mergulhou a cabeça no Infinito..VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. de à antiga rota Voar.. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda.

cismava Em meu destino!. ególatra céptico. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas.. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. em serenatas. na diuturna discórdia. Noite alta...ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros.. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Ante o telúrico recorte. Onde um nume de amor. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Canta a aleluia virginal das crenças. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . Templos de priscas e longínquas datas.

por fim. e doma Meu coração -.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. toma A adaga de aço. E não pôde domá-lo enfim ninguém.. entre feras. o gládio de aço. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . E qual mais pronto. veio um atleta. Somente a Ingratidão -. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. Meu coração triunfava nas arenas. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. sente invevitável Necessidade de também ser fera. Vieram todos. por fim. nesta terra miserável. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Mora. Toma um fósforo.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. amigo. Apedreja essa mão vil que te afaga.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem.. guerreiro. e. Veio depois um domador de hienas E outro mais. ao todo. uns cem. E à rutilância das espadas. Acende teu cigarro! o beijo. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. que. é a véspera do escarro.

nada há que traga Consolo à Mágoa.. No rudimentarismo do Desejo! 54 . do Orbe oriundos. A sucessividade dos segundos. a escutar. Da transcendência que se não realiza. Ouço. E é em suma. podendo mover milhões de mundos. em sons subterrâneos. Que.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. pancada por pancada. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. Quer resistir.. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. chorando. Sabe que sofre.. a que só ele assiste. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa... pois.. Da luz que não chegou a ser lampejo.

Parem as vidas. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . pensando. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. que os anos não carcomem. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. sincero Encontrei. num grito de emoção. afinal. me desencarcero. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. a animar o cosmos ermo. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. feito força. Oh! Nauta aflito do Subliminal. Como a última expressão da Dor sem termo. Morto o comércio físico nefando. Cesse a luz.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. De que. eu. Foi que eu.

"Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. feixe de mônadas bastardas. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. Dói-me ver. Em tua podridão a herança horrenda. a vista.. A dardejar relampejantes brilhos. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. Era.. a irmanar diamantes e hulhas. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. E o Homem — negro e heteróclito composto.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. Diafragmas. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . muito embora a alma te acenda. sem retumbância. pois. sem gritos.. numa alta aclamação. arpões. "Com essa intuição monística dos gênios. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. ao sol posto. Onde a alva flama psíquica trabalha. há inúmeros milênios. o ouvido. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos.. o olfato e o gosto! Carne. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. e. decompondo-se.

Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. para mim que a Natureza escuto. no Mundo. opondo-se à Inércia.. é a essência pura.O PÂNTANO Podem vê-lo. na noite escura. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. à espera de quem passa Para abrir-lhe. E o nada do meu homem interior! 57 . a porta. meus semelhantes! Mas. Que produz muita vez. É a síntese. Tragicamente. é o transunto. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. sem dor. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. e. Este pântano é o túmulo absoluto. às escâncaras.. A convulsão meteórica do vento.

Volvas à antiga inexistência calma!. que ainda haveres De atingir. em conjugação com a terra nua. um dia. como o gérmen de outros seres. Vence o granito.. Reconcentrando-se em si mesma. E hás de crescer. causa do Mundo. tanto Que. ainda algum dia. é natural. entanto. porventura.A UM GÉRMEN Começaste a existir. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. Antes o Nada.. em realidade.. oh! gérmen. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. O espanto Convulsiona os espíritos. Teu desenvolvimento continua! Antes. geléia humana. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. "Menos interiormente me conheça?!" 58 .. geléia crua. no teu silêncio. deprimindo-o . não progridas E em retrogradações indefinidas. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. e. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela.

no seu arcano. . Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço..A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. os elementos broncos. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. é inquietude. Bracejamentos de álamos selvagens... . E a coorte Das raças todas. trancada num disfarce.. é ânsia. Como um convite para estranhas viagens. É a Natureza que. nele. é o instinto horrendo De subir. traçando arcos de ogivas..As ambições que se fizeram troncos. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva.. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens.. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. Vivem só. na ordem cósmica. São absolutamente negativas! Araucárias.Todas as hermenêuticas sondagens.. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. descendo A irracionalidade primitiva.. é transporte..

Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . ancoradouro Dos desgraçados. E. saúde dos seres que se fanam. À humana comoção impondo-a... ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.. sol do cérebro. Dói-lhe.. Que o sarcófago. acérrima e latente. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. Riqueza da alma. inteira.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. oh! Dor. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. sem convulsão que me alvorece. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. psíquico tesouro. em suma... assim. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda..

A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira..ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio .. pois.. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Minha continuidade emocional! 61 . para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. Benditos vós. pois. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Expressões do universo radioativo.. Ions emanados do meu próprio ideal. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. Dai-me asas. Dai-me alma. para o último remígio. Haveis de ser no mundo subjetivo.. ) Com o vosso catalítico prestígio. em épocas futuras. que.

Emoções extraordinárias sinto.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. então.. Subitamente a cerebral coréa Pára.. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. as mãos.. O cosmos sintético da Idéa Surge. A espaços As cabeças. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 .. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. A carne é fogo. os pés e os braços Tombara. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. Eu sinto. Arranco do meu crânio as nebulosas. A alma arde.

O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. ávida. Hebdômadas hostis Passam.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. Sangram-te os olhos. aumenta. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. enquanto as almas se confrangem. Teu coração se desagrega. No desembestamento que os arrasta. os dois Representam. entretanto. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. criatura cega. Realidade geográfica infeliz. Receando outras mandíbulas a esbangem.. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 .. Rugindo. e. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. Excrescência de terra singular. o alfa e o omega Amarguram-te. carne sem luz. Os dentes antropófagos que rangem. na superfície do planeta. tragando a ambiência vasta. na ânsia voraz que. Deixa a tua alegria aos seres brutos. Porque. Superexcitadíssimos. Montão de estercorária argila preta. ris! Fruto injustificável dentre os frutos.

de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 .. soluçando. homens felizes. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou.. Que força alguma inibitória acalma. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. o Inferno. aparelhou. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo.. sou maior que Dante. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. Sob pena. a Ciência. E trago em mim. O Amor. Da dor humana.. a Glória. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. mordem-se. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou.

Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. Existo Como o cancro. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres... Teço a infâmia. urdo o crime. à luz de fantástica ribalta. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. È a saudade dos erros satisfeitos.. cresto o sonho.. ontem. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. a alardear bárbaros sons abstrusos. Entoado asperamente. Uiva. a exigir que os sãos enfermem. Que. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos. (Hoje.O CANTO DOS PRESOS Troa. O epitalâmio da Suprema Falta. em voz muito alta. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. não cabendo mais dentro dos peitos. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal.

Ceva-se em minha carne. minha alma.. transmudado em rutilância fria. à noite. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. como um corvo. O Infinitésimo e o Indeterminado. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. dona. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . Criação a um tempo escura e cor-de-rosa.. apreendo. o Infinito se levanta À luz do luar. Transponho ousadamente o átomo rude E. ausculto.. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. enfim. Nos paroxismos da hiperestesia. por fim. invado. Feita dos mais variáveis elementos. agarro..VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. o Céu e o Inferno absorvo. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro.

Siva.. Como a luz que arde.. Tifon. Eu. E acima deles. Laquesis. projetado muito além da História. arder.. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Sentia dos fenômenos o fim. como a luz do amanhecer. num monturo.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. como um astro. Átropos. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. aos trismos Da epilepsia horrenda.. virgem.

e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que.. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. tenta transpor o Ideal. E. rábido. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. A estrutura de um mundo superior! Alta noite... Branda.Trilhões de células vencidas. esse mundo incoerente. Nutrindo uma efeméride inferior.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. às apalpadelas e às escuras. Roem-na amarguras Talvez humanas. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.. Grita em meu grito.. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . neste ergástulo das vidas Danadamente. entanto.. a soluçar de dor?! -. nas minhas formas carcomidas.. a afagar tantas feridas. Folhas e frutos. Hão de encontrar as gerações futuras Só. alarga-se em meu hausto. nem mesmo ao ronco Do furacão que. remoinha.) Quem sou eu. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU..

Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. ateando da alma o ocíduo lume. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. Penetro a essência plásmica infinita. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. aliando Buda ao sibarita. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração.. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. em cisma abismadora absorto. Sou eu que.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. -. Apreendo. desconforto E ataraxia. sânie e perfume.. em que me inundo. hirto. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. -. Massa palpável e éter. feto vivo e aborto.

nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque.. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá.Tal é. rádios e úmeros. crânios. cérebros. na abismal sustância informe.. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. infinita como os próprios números. cinco.. Porque. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. quatro. em fúlgidos letreiros. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. somente em. -. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. sem complicados silogismos. dois. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . Reduzir carnes podres a algarismos. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. por hipótese. três..

a alma. perscruta O puerpério geológico interior. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Estacionadas. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. amam jazer. Quem sabe. na natureza espiritual. e dize-me. afinal. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. íngremes. alma. oh! delumbrada alma. em contrações de dor. Por um abortamento de mecânica. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. me semente. Qual é. De onde rebenta. recalcados. assim. porventura. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas.

. que o Éter indica.. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. em noite aziaga e ignota. A íngreme cordoalha úmida fica. Espião da cataclísmica surpresa. Pára e. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. subjugue-as ou difarce-as. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. alçando o hirto esporão guerreiro.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. da Massa. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação.. integérrima. derrota Na atual força. pelo orbe adiante. E eu só. se as Tem. o último a ser. derrubadas. Zarpa.. É a subversão universal que ameaça A Natureza. e.. sonha! Mágoas. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos.. a amarra agarrada à âncora. babando. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . Federações sidéricas quebradas.

VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. ainda depois da morte. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. em que arde o Ser. Em convulsivas contorções sensuais. ao cabo do último milênio. E quando. Sôfrego.. Arrancar. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Dentro dos ossos. adstrito à ciência grave. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. num triunfo surpreendente. Tragicamente.. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. vazio! 73 . Para a perpetuação da Espécie forte. que ela encheu. Os nossos esqueletos descarnados. cave. e. Haurindo o gás sulfídrico das covas. o dolo sáxeo.

com um berro bárbaro de gozo. A água transubstancia-se. Horrível! O osso Frontal em fogo. fora. antes do almoço.. Disse.. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. Somente. Na mão dos açougueiros. mancha a gleba. E.. Viu vísceras vermelhas pelo chão. Extraordinariamente atordoadora. Ia talvez morrer. há instantes. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. E amou. vendo sangue. Olhou-se no espelho.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter... Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada... Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso.. eis que viu. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. iguais a espiões que acordam cedo. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. Era tão moço.

Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!... ante obras tais. reconheço O império da substância universal ! 75 . Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. E em tudo igual a Goethe. Rasgo dos mundos o velário espesso... E... Leio o obsoleto Rig-Veda. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. No mar de humana proliferação. me não consolo.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!..

Hirta. resignado. atro e subterrâneo. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. em meio. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. E o coração me rasga atroz. Era de vê-lo. A Idéia estertorava-se. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. E assim afeito às mágoas e ao tormento. estranho ao mundo. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Porque eu hoje só vivo da descrença. imensa.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. Para dar vida à dor e ao sofrimento. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Se acende o círio triste da Saudade. Fora da sucessão. ao meu lado.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Eu a bendigo da descrença. imóvel.. 76 . No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. Tragicamente de si mesmo oriundo. Parecia dIzer-me: "É tarde. Mas que no entanto me alimenta a vida. P’ra iluminar-me a alma descontente. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente.

Ah.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. e então sereno. entre o medo que o meu Ser aterra.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. volvi ao ceticismo. de ilusões tão bela. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. eu creio em ti. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . Da Igreja .a Grande Mãe . Hoje ela habita a erma soledade. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. Cansado de lutar no mundo insano.Todas se foram num festivo bando. Fraco que sou.Oh! Deus.o exorcismo Terrível me feriu. desgraçado réu. Onde a dúvida ergueu altar profano. sombras cor-de-rosa . seu olhar magoado. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. gárrulos voando . em fundo misticismo: . CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. Fugazes sonhos. Não sei se viva p’ra morrer na terra. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo.

Eterno pegureiro caminhando. amei. SENHORA Ouvi. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. Minh’alma levo aflita à Eternidade. triste pela vida afora. Sombrio e mudo e glacial. pálidas agora. E que tornou-o assim. triste e descrido. Morreram todas. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. Tristes fanaram redolentes rosas. Cansado de chorar pelas estradas. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. Revolvo as cinzas de passadas eras. Quando a morte matar meus dissabores. langorosas. Todas murcharam. de amor ferido. tristes. senhora. num mês de tantas flores.MÁGOAS Quando nasci. Exausto de pisar mágoas pisadas. Ouvi. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. todas sem olores. Desfeitas todas num guaiar dorido. senhora. senhora. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI.

Esconde à Natureza o sofrimento. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. venceu batalhas. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. Oh! Tu. No sepulcro da loura virgem bela. Alma arrancada do prazer do mundo. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Alma viúva das paixões da vida. Apaixonou-se d’uma virgem bela. E fica no teu ermo entristecida. Cantaste e riste. Ao chegar. Louco vivia. Altivo lutador. Era o soldado. mas a fronte aureolada. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. coração amargurado. e o pesar negro e profundo. olímpica e singela! E partiu. enamorado dela. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. 79 . na estrada da existência em fora. pendeu triste e desmaiada. Vivia alegre o vate apaixonado. Mas a Pátria chamou-o. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Tu que. um tresloucado. E voltou.

E rompe a orquestra sepulcral da morte. ardentes . a brisa respondia. Quando da vida. Vinha rompendo a aurora majestosa. pálidos. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. no eternal soluço. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Hoje rolando nos umbrais marmóreos.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. funéreos. soturnais. São minhas crenças divinais. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. Era o supremo beijo de noivado! 80 . silentes. Fora no campo pássaros trinavam.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Há de chegar. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Desliza então a lúgubre coorte. Chegara enfim o dia desejado. E a mesma frase o noivo repetia. Ambos unidos soluçara um beijo.

Em luta co’a natura sempiterna. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Assim a turba inconsciente passa. 81 . A morte me será vingança eterna. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. E espuma e ruge a cólera entranhada. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Espumando e rugindo em marulhada. Já que do mundo não vinguei-me em vida. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. Aí existe a mágoa em sua essência. E onde a vida borbulha e o sangue medra. Dores que ferem corações de pedra. Mas se das minhas dores ao calvário. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. No delírio. porém.

Morrera um dia desvairado. bonecos de formoso busto. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Tu’alma ri-se descuidosamente. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Foste do amor o mártir sacrossanto. bom Papá." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. estulto. Somente assim festejarei teus anos. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. num abraço de ternura santa. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Quantos. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Jóias. Su’alma livre para o Céu se alara. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Irmão querido. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. dão-te enganos. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Enquanto outros que podem. Pois se da Religião fizeste culto.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre.

presa.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. amigo verdadeiro. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Bela. Do fado. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. divina. Balbuciou. esta mulher de grã beleza. No entanto. A chama cruel que arrasta os corações. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Moldada pela mão da Natureza. palpitantes. tomando a enxada gravemente. mornos. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. aveludado. Dançavam-lhe no colo perfumado. Do destino fatal. Tornou-se a pecadora vil. Os seios brancos. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado.

Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. Eleonora. No sigilo das rezas misteriosas. úmidas arcadas. addio! 84 . Ai! não. Subindo pelo Azul da Inspiração. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. mavioso.Addio. addio. Que guardam pér’las de funéreas rosas. Que guardam cinzas de ilusões passadas. desnudas. . não acordeis. pouco a pouco. Assim canta também meu coração. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. os sons esmorecendo. dolente. Repercute. Trovador torturado e angustioso. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. E à noute quando rezam na clausura. E as mesmas portas impassíveis.

Primavera. O cabelo revolto em desalinho. . Num sepulcro de rosas e de flores.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: .Arca cerúlea de ilusões etéreas. os teus fulgores.coração saudoso. a desgraçada estulta. Chora.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . gargalha. o triste outono. Vai morta em vida assim pelo caminho. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. No sudário de mágoa sepultada. Eu sei a sua história. soluça . Canta. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada.a veste desgrenhada. para guardar a mágoa oculta. Na auréola azul dos dias teus risonhos. Da desdita ferida pelo espinho. .O segredo d’um peito torturado E hoje. tão moça e já desventurada. Moça. Primavera gentil dos meus amores! 85 . Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. porém. Arca sagrada de cerúleos sonhos.

Também como ela não sucumbe a Crença. É minha sina perenal. tristonha . que vivo atrelado ao desalento. Mas não queiras saber nunca. eu trajo o luto do passado. ela não cansa. Sonâmbulo da dor angustiado. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. Foi outrora do riso abençoado.avança! E eu. Senhora. Muita gente infeliz assim não pensa. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Salve-te a glória no futuro . portanto. Sirva-te a crença de fanal bendito. 86 . delirante e vário. não busques saber por que. Voltam sonhos nas asas da Esperança. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. túm’lo do prazer finado. Também espero o fim do meu tormento. O berço onde as venturas se embalaram.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. risonha. ergue o teu grito.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.

Quem me dera morrer então risonho.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Chora . santíssima. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Sombra perdida lá do meu Passado. Tenta às vezes. Bela na Dor. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Mas volta logo um negro desconforto. Quando o rosário de seu pranto rola. porém. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. sublime na Descrença.

Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. ama. Dorme talvez. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. Estende o teu olhar à Natureza. pois. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. crê em Deus. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. nevada.. mimosa. Rendilhando-lhe o colo de sultana. As níveas pomas do candor da rosa. Essa sublime adoração do crente. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 .AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. púbere. a fronte triste. O amor é a hóstia que bendiz a Crença.. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. e. Enquanto o amante pálido. a seu lado Medita. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Na altura Imensa. Branca.

Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. lânguida e bela.Quero abraçar o meu passado morto. . Dos romeiros saudosos da desgraça.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. E na choça a lamúria que traspassa O coração. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . dos proscritos. o meu Passado. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. A procissão dos tristes. . Tem pena dessas cinzas que ficaram. Vai Corina mendiga e esfarrapada. além. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. porém. Entre todos. coveiro. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. A romaria eterna dos aflitos. Eu vivo dessas crenças que passaram. A alma saudosa pelo amor vibrada. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! .TEMPOS IDOS Não enterres.

Sulcando o espaço. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Saí deixando morta a minha amada. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Fitando o abismo sepulcral dos mares. Cheia da luz do cintilar de um astro. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. adeus. adeus! E. 90 . Voa. Auroreando a humana consciência. apenas restam mágoas. Perto. ADEUS. suspirando. Vencendo o azul que ante si s’erguera. se eleva em busca do infinito. Hermeto Lima Adeus. É como um despertar de estranho mito. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. devassando a terra. Para mim no mundo Tudo acabou-se.ADEUS. ADEUS! E.eu disse. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência.

estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. Minh’alma que de longe a acompanhava. com ela Negras sombras também foram chegando.Vai-te. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. onde não pousa a desventura. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Se eu sou o orvalho eterno que te chora. Lá onde nunca chegue esta saudade. Mas a noute chegou.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. triste. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. tristonho lírio. Disse. irmã pálida da Aurora. Estrela esmaecida do Martírio. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. Viu o adeus que do Céu ela enviava. . Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. E eu disse .LIRIAL Por que choras assim. Envolto da tristeza no delírio. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora .A sombra deste afeto estiolado.

perdão. E eu balbucio trêmula balada: . E na atitude do Crucificado. Estendo à Dulce a mão.então. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. dai-me u’a esmola . A praça estava cheia. Puro de crime. a minha bem amada.. A esmola dum carinho apetecido. O olhar azul pregado n’amplidão.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. E ela fita-me. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. Vítima augusta de indelével falso. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. o olhar enlanguescido. Morre-me a voz.. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. isento de pecado. por entre a dolorosa estrada.o criminoso .e estertorada A minha voz soluça num gemido. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. Pedir a Dulce. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. E dos lábios de Dulce cai um beijo. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. o algoz . Depois. a fé perdida. e eu gemo o último harpejo. 92 .Senhora.

Empenhada na sanha dos abutres. E hás de tombar um dia em mágoas lentas.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre .. acolhe-me. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me.crença Perdida . E as trevas moram. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. Há perfumes d’amor . assassino.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 .segue a trilha que te traça O Destino. e. Lá. obumbra-me em teu seio. Gênio das trevas lúgubres.. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. E a alma me ofusca e o peito me maltrata. Num desespero rábido. onde d’água raso O olhar não trago. ave negra da Desgraça.. acolhe-me N’asa da Morte redentora.. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça.

num mar de esp’rança. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Treme na treva a púrpura da tarde. Reflete a luz do sol que já não arde. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Quando vos vejo. Banhando a fria solidão das fragas. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . dentre a escura Treva do oceano. O MAR O mar é triste como um cemitério. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Que o céu reflete. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. sem nenhuma Nuvem sequer. sem bruma Que a transparência tolde. Mas quando o céu é límpido. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. só descanta. a vida é qual risonho Batel. e a alma é a Flâmula do sonho. Abismados na bruma enegrecida. Os nimbos das procelas desta vida. então.

1902 95 . foge . Anseios d’alma aqui se perdem. Adeus oh! Dia escuro. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. lá nos espaços. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco .1902 AURORA MORTA.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco .ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. Nem vibra a corda que a saudade esconde. é dor.) Nessas paragens desoladas. Hoje é trevas.. o meu único Norte. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. meu Futuro.o Sol que as almas doura! Fugiu. E eu ergo preces que ninguém responde. FOGE! Aurora morta. Aurora morta.. O grande Sol de afeto . Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. e em si a Luz consoladora Do amor . Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. quem dera Voar est’alma a ti.. Cantarias do amor a primavera.. Ascende à Claridade. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. é desengano. Dia do meu Passado! Irrompe. oh! Minha Mágoa. agita as tuas asas. Triste criança virginal. Agora.

E há. Pendem e caem . despertando sonhos. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta.1902 96 . Sonorizando os sonhos já passados. Quando. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. as águas límpidas alvejam Com cristais.. à dolente Unção da noute. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . Chora a corrente múrmura.a Louca tenebrosa.. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . emergindo às trevas que a negrejam. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. No alto. Branca. chorando enfloram. no teu riso de anjos encantados. e. Ah! num delíquio de ventura louca. Bendito o riso assim que se desata .Cítara suave dos apaixonados.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. entretanto. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata.NO CAMPO Tarde. ao luar. nitente. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados.

P'ra desvendar os seus segredos santos. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. eterna noctâmbula do Amor. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. Derramam a urna dum perfume vário. Eu. Também envolta num sudário — a Dor. E a lua é como um pálido sacrário. sacrossantos. Pau d'Arco -1902. 97 . toda a cálida Mística essência desse alampadário. se duas eu tivera. Ah! como a branca e merencórea lua. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Flor dos mistérios d'alma. que a virgem chora. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. Se evolarn castos. virginais aromas De essência estranha. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. noctâmbulo da Dor e da Saudade. é como os prantos Níveos.

e ilusões acordas. sonhar novas idades. a lua é triste e calma. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . E vais aos poucos soluçando mágoas. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . bandolim do Fado. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. Ali. soluças. Que desespero insano me apavora! Aqui. Um dia morto da Ilusão às bordas. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria..INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Teu canto. pompeia a luz da branca aurora.Quero Correr em busca do Futuro. Tanto que cantas. vindo de profundas fráguas.Quero partir em busca do Passado. Quando alta noute. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Tanto que gemes. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. chora um ocaso sepultado. Choras. ..

à voz de Lúcia. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. grave e lenta. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. E beijei-te.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. E eu vi os seios teus virem inconhos . E Lúcia disse à bruma lutulenta: . O sol. O céu tremia em seu trevoso flanco. cindindo os céus risonhos.Foge. E eu quis beijar-te o lábio redolente. mas eis que neste enleio. Quiseste-me beijar a ara do peito. tu vinhas a cindir os ares. Caíste morta ao celestial preceito. Meiga. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. agora. também ria! 99 . Fulgia a bruma para sempre. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. NA ETÉREA LIMPIDEZ. caindo dos altares. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta.ARA MALDITA Como um'ave. qual hóstia. Na etérea limpidez de um sonho branco. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. Tocando n'ara negra o níveo seio.. E. e como Lúcia. alegre e rubro..

ante o branco estendal das madrugadas. eis que emerges. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. em banho ideal de amor te inundas. ao ver-te nua. E. Sentes o peito em ânsias revoltadas. E a rasgar.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. urnas de Sonho. Flores mortas da Aurora. Mas. Longe das sombras aurorais e amadas. e. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. luminosa. o Mundo se concentre. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio.o círio Da Quimera Falaz. Diluis teu peito em sensações profundas. Agora. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas.A colunata êxul do Sonho Morto . E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . a Virgem Mãe dos céus escampos. Que beija a terra e que abençoa os campos.ei-lo que avisto. Nua. Que. E em mim como no Templo. E a lua. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . Em mim como no Templo a Angústia se condensa. e. a rasgar o lúrido sacrário. o túmulo da Crença. em bando. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 .

semeando a Morte. ela. como o sol . Como o Cristo sagrado dos altares. entre esplendores.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. formosa. Quero-te assim . santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência. Plena de graça... enquanto Vai devastando o coração das casas. formosa entre as formosas. A alma diluída em eterais cismares. tudo! Quando Ela passa... .. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .O sol a segue.A PESTE Filha da raiva de Jeová . e a Peste ri-se.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. Colmado o seio de virentes flores.É o castigo de Deus que passa mudo! . No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. tudo chora. Embaladas no albor da adolescência.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta..e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas.Fúlgido foco de escaldantes brasas . Etéreo como as Wilis vaporosas. 101 . E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e.

pátria da Aurora exilada do Sonho! . insânia. assim. Açucena de Deus.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos.... lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. pelo mundo.. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. Eu venho arrependido. penseroso e pasmo. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. o meu Sonho morreu! Perdão. eis-me a teus pés. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia.. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu... E para mim. ah! ninguém me responde. insânia. Chegou a Noite. meu anjo. a teus pés.. Como o santo levita dos Martírios. . perdoa o teu vencido.. pois.dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina.Irei agora.CÍTARA MÍSTICA Cantas.

sem Calvário. supremos. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. Em ânsia de repouso. Turificando a languidez dum seio! O amor.. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 ... Mas. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. e. Onde nunca gemeu o humano passo. no Inferno do Gozo. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. . seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. que da Desgraça veio Maldito seja. porém. Banhou-me o peito.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. Por um Cocito ardente e luxurioso.. Da Messalina fria no regaço.

. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo...SOMBRA IMORTAL . no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora. E estavas morta. lá dos braços hercúleos.. também da Dor.E tu velas. . eu vi. . Como um'alma de mãe. mulher. e a saudade da infância... desvalida e nua! E o olhar perdi. a sós. E vi-te triste...Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. Sombra de gelo que me apaga a febre.. eu que te almejo. estes dardos acúleos Caíam. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti. a noute é tumbal. Ah! que um dia da Vida. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua.. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância..Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância.. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.

Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas. Pérolas e ouro pela serrania. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. e é noute de fatais abrolhos.. virginal.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 .. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Bendita a Santa do Carinho..imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. O roble altivo entreteceu4e um ninho.. e no Santo harpejo. Choras. inata! E. tu. Branca bem como empalecido arminho. E um canto vai morrer no vale fundo.. Uma pantera foi se ajoelhando. e. o seio branco. Que canto é este. entanto. chegando. no negror me abrasa. Somente tristes os teus olhos vejo. profundo?! Rumores santos.. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz.. ajoelhando à imagem do Carinho.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . Chegaste.. Alva d'aurora. te acolheu a mata.. Que luz é esta que das brumas vasa. Alvorejando em arrebol de prata. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora.

Já Vésper. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas.. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. no Alto.. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. Fria como um crepúsculo da Judéia. mórbidos encantos. e lânguida... Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Triste como um soluço de Dalila. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma.PELO MUNDO Ânsias que pungem. Qual rosa branca que ao tufão vacila. 106 .

.Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos.. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso .O RISO "Ri. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .. sonolento e tardo. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. Na Via-Látea fria do Nirvana.A hora dos tristes e dos descontentes. QUERIDA! Vamos. os gaturamos Num recesso de névoa.quem mede-o?! . Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Silfos morriam. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. clown da Sorte . Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende.Ele.Fogo sagrado nos festins da Morte .. coração. que ao frio alvor da Mágoa Humana. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . adormecida.o voltairesco clown . No ar. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas.Eterno fogo. e a todo o seu assédio. Riso. querida! Já é Ave-Maria .

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. Vibra.) Chove. NOTURNO (CHOVE.. batendo em todas as retinas. LÁ FORA.. Desencadeados. A incandescência irial dos candelabros.. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. De encontro ás torres e de encontro aos muros. Surge agora a Lua. violentos. O dia Foge. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. E em meio ás refrações verdes e hialinas.. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria..FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. Os passos mal seguros Trêmulo movo. vão bater. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. diante do vulto dos conventos. Os ventos. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . Saio de casa.. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. mas meus movimentos Susto. Negro.

Que há muito tempo não cantava lá. Já que perdi a última batalha! E.. os vermes vis. enquanto o Tédio a carne me trabalha... mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo..E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.. E hoje. . Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu.. Primavera. poetas. verão. outono. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. inverno! 113 . Diluiu o silêncio em litanias. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno.Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa..

e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. e o travo há de sentir. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. Ela. Gemem poetas .pássaros da Noute! 114 .. onde. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. ela. Aqui é o Campo-Santo. Carpem na sombra pássaros ascetas. abraçado às campas dos poetas. ao noturno açoute.. Pare chorando nesta Terra Santa. enxuto o olhar. e quando passa.A DOR Chama-se a Dor. .Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. inda altiva. enxuta A face. E se cantar como a Saudade canta. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada.

E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . a crença e o amor. e morrem os vermes que o consomem. assomem Descrenças. nada há que o abata e o vença! Por isso.O SONHO. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. poeta. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. surjam tédios na Descrença. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. Luta. o sonho. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. eu penso na Ventura! E o pensamento. A CRENÇA E O AMOR O sonho. Vence. e por fim. na Suprema Altura Sinto.

Construíste de ilusões um mundo diferente. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 .PARA QUEM TEM NA VIDA. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. profundo. e.. Foi-te mister sondar a substância das cousas . homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. estudares.. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. pois. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. nada achaste. auríferos tesouros.... De que te serviu... por fim.. para penetrar o mistério das lousas. por fim. Tesouros reais. Feito no decurso de dois minutos.

santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido.. .. ela subiu. Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. São dois colossos. dois gigantes mudos. . Embora oculta. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços.. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . em ânsias. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.O NEGRO Oh! Negro. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze..ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 .. no entanto..

ver Se nesta ânsia suprema de beber.Se ao menos voasse! . Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. Implora a Deus como a um fetiche vago. ira-o morrer também. . O Sol ardia.E o horror começa! Rasga As vestes. e não vê por onde fuja. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. ela seria morta.Quer fugir.. quantos também deixei. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . como eu. como eu..O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 .Novo Sileno.Era o suplício!.. Nisto. . Trás de mim.. Buscava Em verdes nuanças de miragens. na atra estrada que trilhei.. Mas eu não contarei nunca a ninguém.. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . foram buscar a Glória E que. ouve o canto aziago da coruja! . Saiu. Daí a pouco.. Quantos também..

ele a morrer. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. Assim como uma casa abandonada.. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas. de repente. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste.. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. vivia.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica.Foi saudade? Foi dor? . Sei que na infância nunca tive auroras..SENECTUDE PRECOCE Envelheci.... E afora disto. a alma serena.. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho. Não há quem nele um só tremor denote! . Mas." Pau d'Arco -1905 119 . pressentindo a lousa.. diz ao povo: "É pena! .Continua a cantar. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. Por isso..Aqui ainda havia alguma cousa.. Olha essa neve pura! .

o vulto ia a meu lado E desde então.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. Bem como tu. E eu me elevava. Da tribo alegre que povoa os ares.. Dizes Tudo que sentes.. não andei mais sozinho! Abraçou-me. Para onde eu ia..Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim.. Diz que ele não morreu. A múmia de um herói do tempo de Ísis. em Tebas .. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 .. E. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. diz que ele é vivo. inda com o braço altivo.. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. . sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. persuadido fica do que diz.a tumbal cidade. Não mentes.. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado.

triste e sem cantar.. Teve sede e fome. assim. quando Eu. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. aos tropeços. ia. A percorrer desertos e desertos. à tarde. de saudades me despedaçando De novo. assombrado.. com medo do Infinito. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo.O tamarindo reverdeça ainda. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E.. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. morrer. Existo! . assim como o de Jesus Cristo. onde.. A lua continue sempre a nascer! 121 .E apesar disto. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. antes de viver! Meu corpo. amigos. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. Saiu aos tombos.. pois. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. Nada se altere em sua marcha infinda . Por toda a parte. como um cão covarde. E..

Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 . Ah! Basta isto. Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai. água e albumina.A LÁGRIMA .A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina..O farmacêutico me obtemperou. .

Pólipo de recônditas reentrâncias. Amo o esterco. Larva de caos telúrico.. possuo uma arma -. sem bramânicas tesouras. Como um dorso de azêmola passiva. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra.. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Amarguradamente se me antolha. Do cosmopolitismo das moneras. A podridão me serve de Evangelho. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos.O metafisicismo de Abidarma -E trago. 123 . sem dispêndio algum de vírus. vibra A alma dos movimentos rotatórios.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social.. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. Não conheço o acidente da Senectus -... simultâneas.. E é de mim que decorrem. À luz do americano plenilúnio. ampla. Em minha ignota mônada.Esta universitária sanguessuga Que produz.

Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Raio X. luzem. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. a boca. Sonoridade potencial dos seres. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. Aí vem sujo. Como quem se submete a uma charqueada. iguais a fogos passageiros. amanhã.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. em síntese. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. 124 . magnetismo misterioso. quebrando estéreis normas. o Homem. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. -. A vida fenomênica das Formas. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. Com a cara hirta. ondulação aérea. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. causa ubíqua de gozo. já nos últimos momentos. Fonte de repulsões e de prazeres. E apenas encontrou na idéia gasta. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. abdômen. Quimiotaxia. O horror dessa mecânica nefasta. a coçar chagas plebéias. O coração. Ao clarão tropical da luz danada. bestas agrestes. Que.

Uivando. Sôfrego. em lúbricos arroubos. ébrio de vício. Sentindo o odor das carnações abstêmias.. Negra paixão congênita. E após tantas vigílias. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Suas artérias hírcicas latejam. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. Do seu zooplasma ofídico resulta. pelos cenóbios?!. à noite. em suas clélulas vilíssimas.. brincam.. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. Toda a sensualidade da simbiose. E à noite. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. Como que. fazendo um s. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Numa glutonaria hedionda.. bastarda... Num suicídio graduado. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. igual à luz que o ar acomete. Como no babilônico sansara . Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. No sombrio bazer domeretrício. Brancas bacantes bêbadas o beijam. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. o monstro as vítimas aguarda.. vai gozar. E até os membros da família engulham.. À guisa de um faquir. consumir-se. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. No horror de sua anômala nevrose. 125 . E explode.

Mas muitas vezes. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. A asa negra das moscas o horroriza. Abranda as rochas rígidas.. em rembrandtescas telas várias. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. se estende Dentro da noite má. com os candeeiros apagados. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Essa necessidade de horroroso. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. E de su’alma na caverna escura. quando a noite avança. Reconhecendo. Que tateando nas tênebras. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. Acorda. As alucinações tácteis pululam..Macbeths da patológica vigília. Hirto. Assim também. esculpindo a humana mágoa. Mostrando. observa a ciência crua.. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Na própria ânsia dionísica do gozo.. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. bêbedo de sono. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Somente a Arte. A família alarmada dos remorsos.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Sente que megatérios o estrangulam. Numa coreografia de danados. Quando o prazer barbaramente a ataca.

a desintegre. Há-de ferir-me as auditivas portas. Continua o martírio das criaturas: -. Prostituído talvez.O ferido que a hostil gleba atra escarva. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento.. -. sem que. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. entanto. E. Da luz da lua aos pálidos venábulos. -. Executando. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. em suas bases. Era a canção da Natureza exausta. até que minha efêmera cabeça. Julgava ouvir monótonas corujas.E reduz.. entre daveiras sujas. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Na produção do sangue humano imenso. ouvindo estes vocábulos. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo.O homicídio nas vielas mais escuras.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. À condição de uma planície alegre.

Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Os mastins negros vão ladrando à lua. Vaga no espaço um silfo solitário. conversando. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica.. Dorme soturna a natureza sábia. exposto ao luar. discutindo. um saltimbanco da Ásia. O céu claro e produndo Fulgura. Tonto do vinho. A rua é triste.. na mais próxima planície.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando.... Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . Embaixo. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Num quiosque em festa alegre turba grita.. A Lua cheia Está sinistra. das pirâmides o quedo E atro perfil. Apenas como um velho stradivário.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. O Cairo é de uma formosura arcaica. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. Resplandece a celeste superfície. Convulso e roto. no apogeu da fúria.

indo em direção à casa do Agra. parodiando saraus cínicos. Pensava no Destino. Uivava dentro do eu . com a boca aberta. Atravessando uma estação deserta. Assombrado com a minha sombra magra. então. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. 129 . à luz de áureos reflexos. Mas. O trabalho genésico dos sexos. Ponte Buarque de Macedo. Profundamente lúbrica e revolta. Mostrando as carnes.. Apregoando e alardeando a cor nojenta. Lembro-me bem. A matilha espantada dos instintos! Era como se.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. de asfalto rijo.. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Dançavam. Eu vi. a irritar-me os globos oculares. Fazendo à noite os homens do Futuro. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Copiava a polidez de um crânio alvo. na alma da cidade. O calçamento Sáxeo. Livres de microscópios e escalpelos. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Eu. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. atro e vidrento. A ponte era comprida. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. E aprofundando o raciocínio obscuro.

Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. E. No ardor desta letal tórrida zona. 130 . A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. ainda na placenta. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. Deus me castigava! Por toda a parte. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. como um réu confesso. Ah! Com certeza. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. É bem possível que eu umdia cegue.Fetos magros. na ígnea crosta do Cruzeiro. Ninguém compreendia o meu soluço. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. pelo menos. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes.

Não! Não era o meu cuspo. aos poucos. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. cujas caudais meus beiços regam. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. Que. de tal arte. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Benditas sejam todas essas glândulas. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Eu bem sabia. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. quotidianamente. quatro. Arrebatada pelos aneurismas. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Na ascensão barométrica da calma. em minha boca. Sob a forma de mínimas camândulas. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. 131 . A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. cinco. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Que eu. ansiado e contrafeito. à guisa de ácido resíduo.E até ao fim. para não cuspir por toda a parte. estranha. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. três. Ia engolindo. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo.

Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. sem pudicícia. A companhia dos ladrões da noite. da cor de um doente de icterícia. Siva e Arimã. Perpetravam-se os atos mais funestos. estava ali. para hipnotizar-me! Em tudo. a rir. Mas um lampião. Ninguém. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. Rodopiavam. lembrava ante o meu rosto. Davam pancadas no adro das igrejas. Nessa hora de monólogos sublimes. com as brancas tíbias tortas. o In e os trasgos. maior talvez que Vinci. Imitando o barulho dos engasgos. A camisa vermelha dos incestos. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Iluminava. de certo. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. À anatomia mínima da caspa. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Com a força visualística do lince. ali posto De propósito. a espiar-me. Vai pela escuridão pensando crimes. Buscando uma taverna que os açoite. E o luar. Um sugestionador olho. os duendes.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Livres do acre fedor das carnes mortas. então.

Cansados de viver na paz de Buda. Na atra dissoluçào que tudo inverte. E o meu sonho crescia nosilâncio. distingo-a. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. em que. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Todos os personagens da tragédia. Como bolhas febris de água. 133 . A pedra dura. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. e vence-O.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. E a palavra embrulhar-se na laringe. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca.

A planta que a canícula ígnea torra. sobre o meu caso Vi que. Um conjunto de gosmas amarelas. No meu temperamento de covarde! Mas. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. igual a um amniota subterrâneo. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. 134 . E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . refletindo. Aquela humanidade parasita. Fabricavam destarte os bastodermas. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. Os bêbedos alvares que me olhavam. aflita. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. a sós. E apesar de já não ser assim tão tarde. Iam depois dormir nos lupanares Onde. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. na glória da concupiscência. berrava. na dor forte do vômito. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Como um bicho inferior.

Nessas perquisições que não têm pausa. Ao pensar nas pessoas que perdera. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. por tua causa. Fazer da parte abstrada do Universo. pior que o remorso do assassino. Reboou. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Rolam sem eficácia os amuletos. num fundo de caverna. Numa impressionadora voz interna. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. embora o homem te aceite. o eco particular do meu Destino.e. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. Forma difusa da matéria embele. numa ânsia rara. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. ponto final da última cena. em tudo imerso.Prostituição ou outro qualquer nome. nas catedrais mais ricas. 135 . tal qual. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. a morte é ingrata. Minha filosofia te repele. Minha morada equilibrada e firme! Nisto.. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte.. como um cordão. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças.

Mesmo ainda assim. sondas A estéril terra.Jamais. A formação molecular da mirra. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. magro homem. em síntese. e a hialina lâmpada oca. se divide. 136 . onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. antes Fosses. a refletir teus semelhantes. com a bronca enxada árdega. espirra. o cordeiro simbólico da Páscoa. por vezes. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. E se. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. Trazes. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. não como és. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. estriada. fora Mister que. para que a Dor perscrutes.

as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. Onde morreu o chefe da família.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. 137 . O tecido da roupa que se gasta. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. O achatamento ignóbil das cabeças. As projeções flamívomas que ofuscam. Que ainda degrada os povos hotentotes. As aves moças que perderam a asa. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. O Amor e a Fome. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. -. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. A cristalização da massa térrea. Na sangueira concreta dos massacres. A mentira meteórica do arco-íris. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. O fogão apagado de uma casa. Como uma pincelada rembrandtesca. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. sem mortalha.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. Os terremotos que. As pálpebras inchadas na vigília. Deixa os homens deitados. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. a fera ultriz que o fojo Entra. as nódoas mais espessas. abalando os solos. O antagonismo de Tífon e Osíris. Lembram paióis de pólvora explodindo. à espera que a mansa vítima o entre.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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Benigna água. No Alto. Além jazia os pés da serra. Em cuja álgida unção. sobre as hortas. olhando os campos Circunjacentes. a ameixa. a abóbora. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. branda e beatífica. Criando as superstições de minha terra. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. Apenas eu compreendo. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. magnânima e magnífica. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. o urro Reboava. como as ervas. de errante rio. alto e hórrido. 143 .Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. Meu ser estacionava. em quaisquer horas. A Paraíba indígena se lava! A manga. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. satisfeito. a amêndoa.

Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Alucinado. entre estrépitos e estouros. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Adivinhando o frio que há nas lousas. Reboando pelos séculos vindouros. Restos repugnantíssimos de bílis. a existência Numa bacia autômata de barro. Estas não cospem sangue. aos bocados. O ruído de uma tosse hereditária.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. OH! desespero das pessoas tísicas. como inúmeros soldados. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. dores não recebem. 144 . Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. Um português cansado e incompreensível. Vômitos impregnados de ptialina. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Cortanto as raízes do último vocábulo. os micróbios assanhados Passearem. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem.

hoje. naquele instante. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. Pelas algentes Ruas. a água. em sonhos mórbidos. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. resfriando-vos o rosto. Onde a Resignação os braços cruza. É a alfândega. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Saía. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. Nos ardores danados da febre hética. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. com efeito. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. magras mulheres. Consoante a minha concepção vesânica. A mágoa gaguejada de um cretino.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. no Amazonas. com o vexame de uma fusa. me acorda. 145 . Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis.

espantada. Jazem. adstrito à étnica escória. como um lúgubre ciclone. tendo o horror no rosto impresso. entregue a vísceras glutonas. acordando na desgraça. por fim. sem difíceis nuanças dúbias. E agora. Ah! Tudo. todas as inúbias.. Viu toda a podridão de sua raça. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos.. A civilização entrou na taba Em que ele estava. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. diante a xantocróide raça loura. A carcaça esquecida de um selvagem.Fedia. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema.. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. Na tumba de Iracema!. Desterrado na sua própria terra. caladas. Recebeu. De repente. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. Com uma clarividência aterradora.. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . 146 .

A peçonha inicial de onde nascemos. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. Todos os vocativos dos blasfemos. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. rolando sobre o lixo. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica.: o homem e o ofídio. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. 147 .Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. No horror daquela noite monstruosa. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. E eu. Maldiziam. ex. com voz estentorosa. roído pelos medos.

reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. como Cristo. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa .E. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Consubstanciar-me todo com a imundície. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. o anelo instável De. Sem diferenciação de espécie alguma. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. na terráquea superfície. como um homem doido que se enforca. por epigênese. Tentava. porém. cansado. Anelava ficar um dia. em suma. 148 . era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. Eu voltarei. perante a cova. às vezes. Reduzido à plastídula homogênea.

alva. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. Acordavam os bairros da luxúria. As prostitutas. e as mãos. Quase que escangalhada pelo vício.. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. 149 . e.. até que. quando o éreis. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. entre oscilantes chamas. a saraiva Caindo.. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. Se extenuavam nas camas. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. Mas. com violência. à-toa. derreada de cansaço. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. De certo... vítima última da insânia. Uma. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. para além.. embalde. no horizonte. doentes de hematúria. ignóbil. Nem tínheis. análoga era. Estendestes ao mundo. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. agora. virgem fostes.

Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. A racionalidade dessa mosca. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. 150 . porém. Sentia. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. A consciência terrível desse inseto! Regougando. argots e aljâmias. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados.De vós o mundo é farto. E hoje. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Como uma associação de monopólio. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. na craniana caixa tosca. no chão frio da igreja. Como quem nada encontra que o perturbe. que a sociedade vos enxota. inquieto.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Eu pensava nas coisas que perecem. eu. E estais velha! -.

Absorvia com gáudio absinto. escorraçando a festa. O ar ambiente cheirava a ácido acético. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. roubada à humana coorte Morre de fome.Aquilo era uma negra eucaristia. Apareceu. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. como Ugolino. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. estriges voam. Já podre.A estática fatal das paixões cegas. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. sobre a palha espessa. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. E o cemitério. Sem ter. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. em que eu entrei adrede. assim inchado. Vem para aqui. Rugindo fundamente nos neurônios. palpável. À falta idiossincrásica de escrúpulo. Pela degradação dos que o povoam. Quanta gente. após baixar ao caos budista. O fácies do morfético assombrava! -. com o ar de quem empesta. nesta hora. E a ébria turba que escaras sujas masca. nos braços de um canalha 151 . de repente. Mas.

Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. como quem salta. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Todos os meus cabelos se arrepiaram. Num prato de hospital. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. ao clarão de alguns archotes. cheio de vermes. Pisando. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Comendo carne humana. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. À sodomia indigna dos moscardos. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. Vendo passar com as túnicas obscuras. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. entre fardos. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. iguais a irmãs de caridade.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Na impaciência do estômago vazio. a camisa suada. a alma aos arrancos.

Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. No frio matador das madrugadas. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . em vez de hiena ou lagarta. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. trazendo-me ao sol claro. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. O benefício de uma cova fresca. às vezes. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Manhã. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. E eis-me a absorver a luz de fora. déspota e sem normas. Absorve. Uma sobrevivência de Sidarta. Proporcionando-me o prazer inédito. Os raios caloríficos da aurora. após a noite de seis meses.Como indenização dos meus serviços. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Dentro da filogênese moderna. De quem possui um sol dentro de casa. Como o íncola do pólo ártico.

com os pés atolados no Nirvana. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. Eu sentia nascer-me n’alma. em colônias fluídas. Vinha da original treva noturna. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. oh! Morte... O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. Igual a um parto. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. Acompanhava.. tudo a extenuar-se Estava. entanto. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. em vão teu ódio exerces! Mas. A gestação daquele grande feto. a meu ver. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. numa furna. O Espaço abstrato que não morre Cansara. com um prazer secreto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 .A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. O ar que.. corre. Hirto de espanto. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro.

À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. E agora. Apenas com uma diferença triste.. como eu. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. não existes mais! 155 . Ai! Como Os que. Coisa hedionda! Corro. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova.. Rodeado pelas moscas repugnantes. têm carne. Como! E pois que a Razão me não reprime. bela como um brinco. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Antegozando a ensangüentada presa. Com a diferença que Lisboa existe E tu. É a hora De comer.. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. amigo.. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa.

Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. entre dores. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. O Sol virá das épocas sadias. a atmosfera se encherá de aromas.. um novo Ser. Relembrarás chorando o que eu te disse.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. Há de crescer. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. E o antigo leão. sujo de sangue. No lábio róseo a grande teta farta -. haurindo amplo deleite. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . comparo. quanto a mim. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. Clara.. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. Do que essa pequenina sanguessuga. à amostra. oh! Mãe. que te esgotou as pomas.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. sem pretensões. nas vitrinas. Assim.

Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. também gira e redemoinham. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. eu vivo pelos matos. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. Beber a acre e estagnada água do charco. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . as tesouras Brônzeas. Por causa disto. roendo a substância córnea de unha. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. com que guarda meus sapatos. haurindo o tépido ar sereno. Tais quais. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Magro. maior do que Laplace.. Os pães -. nos fortes fulcros.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. numa ininterrupta Adesão. mordendo glabros talos..

pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. apalpa a úlcera cancerosa. Beija a peçonha. Com a flexibilidade de um molusco. Úmido. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. cheio de chamusco. Dorme num leito de feridas. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. no agudo grau da última crise. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. E eu vou andando. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. goza O lodo.

E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen..Augusto . largando pêlos. pelo ar. fustigue. em vez do nome -. Ladra furiosa a tribo dos podengos.. corte. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. Eu. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. A terra cheira. De árvore em árvore e de galho em galho. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. bolem Nas árvores. quero. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. queime. Nos terrenos baixos.. no árdego trabalho.. Com a rapidez duma semicolcheia. O ar cheira. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 .. Os ventos vagabundos batem. depois de morrer. Em grandes semicírculos aduncos.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. salta. morda!. No chão coleia a lagartixa.. Entrançados. depois de tanta Tristeza. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto.

Trôpega e antiga. Viveu. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. em vez de flores. Nédios. O aziago ar morto a morte Fede. Amontoadas em grossos feixes rijos. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. À dura luz do sol resplandecente. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Aqui. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. outrora. sem conchego nobre. como exóticos pintores. Por saibros e por cem côncavos vales. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Pintam caretas verdes nas taperas. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. Como pela avenida das Mappales. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. As lagartixas. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Quantas flores! Agora. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. dos esconderijos. Na bruta dispersão de vítreos cacos. Une todas as coisas do Universo! 160 . Como um anel enorme de aliança. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. batendo a cauda. Os musgos. Urram os bois. O lodo obscuro trepa-se nas portas.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol.

Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. A lamparina quando falta o azeite Morre. Grito. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. Julgo ver este Espírito sublime.E assim pensando. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. como quem raspa a sarna. Só. sem pai que me ame.. arrebentando a horrenda calma.. aqui. é o óbolo obscuro.. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. da mesma forma que o homem morre. De pé.. Que por vezes me absorve. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. com a misericórdia de um tijolo!.. Súbito.. à luz da consciência infame. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. À carbonização dos próprios ossos! 161 .

Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. Com as mãos chagadas. funcionária dos instintos. espremendo os peitos. ébria e lasciva.. urna de ovos mortos. à luz do olhar protervo. por fim. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. à lua. Entre farraparias e esplendores..A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. Sente. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. O Vício estruge. em contorções sombrias. recebe. Reduzidos. Bramando. Lúbrica. E a mulher. de cabelos ruivos. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. através os meus sentidos. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. em coréas doudas. hórridos uivos Na mesma esteira pública. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. alta noite. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. a arquivar credos desfeitos. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. a âmbulas moles. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. como o estepe. 162 . hirta. Espicaça-a a ignomínia. aliando. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. Ouvem-se os brados Da danação carnal.

.... bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. filha do inferno. E a dor profunda da incapacidade Que.Chão de onde unia só planta não rebenta. já morta essencialmente.. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. Na óptica abreviatura de um reflexo. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Mais que a vaga incoercível na água oceânea... aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. E a Carne que.. É o hino Da matéria incapaz. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. em cada humana nebulosa. Ei-la. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. Fulgia. de bruços. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório.

das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. hírcica. Pudera progredir. momentaneamente luz fecunda. Na homofagia hedionda que o consome.. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis.. Saem da infância embrionária e erguem-se. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 .. Numa cenografia de diorama. Como o .... decerto. Que. adstrito a inferior plasma inconsútil.O atavismo das raças sibaritas.. radiando. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora... adultos. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços.. rubros. Irradiava-se-lhe. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. impune... do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. ânsia De perfeição. e a estraga Na delinqüência . como aborto inútil. Ficou rolando. Mas que. talvez... sonhos de culminância. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. Libertos da ancestral modorra calma.

.............................. oca................. Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos....................................................... ....................... ........................................... ao trágico ditame.............................................. ............. ................................................ ................................................................................ ......................... Mordeu-lhe a boca e o rosto............................................................................................... ....... 165 ....................... ............................. Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E...................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia......... .................................... Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto......................................................... .................. ................Sugando a seiva da árvore a que se une! ............ condenada.......................................

Descasco-a. Como Mársias -. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. conheço o seu conteúdo. enfim. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . Imponderabilíssima e impalpável.. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. poeta. por experiência. o observas. entretanto. oposto a mim. do egoísta Modo de ver. pois. Para que. é substância fluida. em ânsias.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. Diverso é. Cuida. É assim como o ar que a gente pega e cuida. consoante o qual. provo-a. amo Mas certo. Oposto ideal ao meu ideal conservas.. Porque o amor. atenta a orelha cauta. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Quis saber que era o amor. E hoje que. este o amor não é que. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. É Espírito. é como a cana azeda. o ponto outro de vista Consoante o qual. A toda a boca que o não prova engana. Pudera eu ter.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. ilusão treda! O amor. chupo-a. é éter. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. tal como eu o estou amando. observo o amor. enfim. Integralmente desfibrado e mole. o egoísta amor este é que acinte Amas. eu que idolatro o estudo.

. Entendi. no quadrilátero da alcova. olhando o céu que além se expande: ".. 167 . .. Trabalharei assim dias inteiros.A maldade do mundo é muito grande.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito.. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. trabalhar contente. contra ele. em ânsias. a tumbal janela E diz. Que importa que. os monstros zombeteiros. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. trágico e maldito. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto... abre.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. opresso. com o seu grande grito. Sem ter uma alma só que me idolatre. que devia. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. Como Vulcano. E só. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. depois disso.

E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . Batem-lhe os nervos. sacudindo-o todo.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". Sobre a cidade geme a chuva. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.

Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. Que forma a coerência do ser vivo.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. num canto de carro. e erguia. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Como um cara. E a cimalha minúscula das ervas. 169 . O reino mineral americano Dormia. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. por ver-vos. A essa hora. banhava minhas tíbias. E não haver quem. nas telúrias reservas. lhe entregue. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. Recebiam os cuspos do desprezo. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. e absorve em cada viagem Minh’alma -. alto. recebendo injúrias. Rua Direita. Com os ligamentos glóticos precisos. sob os pés do orgulho humano.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. oh! céu.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. íntegra.Dizia. Cortanto o melanismo da epiderme.

Com a abundância de um geyser deletério. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. O vibrião. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. com a símplice sarcode. com o ar horrível. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. Onde minhas moléculas sofriam. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . Pela alta frieza intrínseca.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. o ancilóstomo. me pediam. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. em diástoles de guerra. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. Pareciam talvez meu epitáfio. úmida e fresca. Mais tristes que as elegais de Propércio.

rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. Era uma viúva. a viúva. E pelas catacumbas desprezadas. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. . A Lua encheu o espaço sem limites E. Parou em frente da mesquita morta. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. ampla e brilhante. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. Eternamente aberta ao sol e à chuva. o passo constrangendo.. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. funeral mesquita. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. e o olhar errante. foi transpondo a porta.. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita.Um vento frio começou gemendo. Uma vez. Mochos vagavam como sentinelas. Súbito alguém.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. Feras rompiam tolos e balseiros. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Em passo lento. dentro. nos altares esboroados.

Além. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. Fora. entretanto. contra ela. Morria a noite. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. E sobre o corpo da viúva exangue. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. Como uma exposição de carnes vivas.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. E raivosas. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. entanto. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. arremetendo. infernais ardendo Todas as feras. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas .

Rica. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. Atravessando os ares bruscamente.. brilha A árvore da perpétua maravilha. afetando a forma de um losango. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. trêmulo. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. num enleio doce.... Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. em plena podridão. Verde.. em luz perpétua. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. pela vez primeira.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. entre assombros. quem diante duma cordilheira. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. Assim. A saudade interior que há no meu peito. no meio. tenho alucinações de toda a sorte. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Qual num sonho arrebatado fosse.. 173 ... ostentando amplo floral risonho. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. Na ilha encantada de Cipango tombo... ao sol. Da qual. exata. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Pára.

E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 .. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Banhei-me na água de risonhos lagos.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa. Passa o seu enterro!. Gozei numa hora séculos de afagos... Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha.. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe.. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro... E finalmente me cobri de flores. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. A tarde morre.. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.

. em reflexos. em lúcido véu.globo de louça Surgiu. Vagueia um poeta num barco. outro cai. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. nas Águas. de cima. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Espelham-se os esplendores Do céu. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. O Céu. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. esse vai Para o túmulo que o cobre. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Vai uma onda. Se um cai.. as esconda.BARCAROLA Cantam nautas. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. A Lua . outro se ergue e sonha. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . Quem as esconda. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco.

Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas..E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz... poeta da Morte!" . porém. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. "Mas nunca mais. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição. forte. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. "Viajeiro da Extrema-Unção.. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma.. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia..

Oh! Liberdade. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Essa luz etereal bendita e calma. A Liberdade assoma majestosa. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. A República rola-lhe nos ombros. Vós. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. pois. e. Não! que esse ideal puro. Manchar não pode as aras da República. Fulgente do valor da vossa glória. esplendorosa. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. oh Pátria. Da liberdade ao toque alvissareiro. E ali do despotismo entre os escombros. fazei que destes brilhos. . Como um Tritão. Caia do santuário lá da História. Da República a nova sublimada. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 .Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. oh! Redentora d'alma. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. levando ao mundo inteiro. risonho. Que apouca o triunfo e que se chama sangue.

ao matinal assomo. Uma montanha que se desmorona. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. E. nas oliveiras.. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. à luz das minhas frases. 178 .ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. cantam óperas inteiras. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . vendo o horror dos meus destroços. Estremecendo em suas próprias bases. Aves de várias cores e de várias Espécies. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. O amor reduz-nos a uniformes placas. Passa um rebanho de carneiros dóceis. Na área em que estou.Mas hoje. desvairado. Além.. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis.

À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . à frente dele.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta.Observo então a condição tristonha Da Humanidade.. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. à nitidez real dos aspectos. heroicamente. Tal qual ela é. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. E quando a Dor me dói. sinto um violento Rancor da Vida . Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. ébria de fumo e de ópio.. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. demonstrando-a. Da observação nos elevados montes Prefiro. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas.

Passo longos dias. De lá. erra. Muito longe. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. a esmo. em sonhos. em sonhos erra.CANTO ÍNTIMO Meu amor. se duvidas. Muito longe. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. Vem cá. Que o amor abriu no meu peito. olha estas feridas. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . dos grandes espaços.

Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. agonia! . sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . agonia. Neve da minha dor. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. uma nuvem que corre. ontem. Neve que me embala como um berço divino. murmura: .. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. experimento O mais profundo e abalador atrito. amor e frio. ... a sós. vendo-a. Numa prece de amor. neve. o louco. prece que ainda Entre saudades rezo.. Agonia de amar.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. oração. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. Delícia que ainda gozo. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia.. e o sofrimento De minha mocidade.. Frio que me assassina. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço.. agonia bendita! .Diz e morre-lhe a voz.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. quanto mais me desespero. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. triste. Sem um domingo ao menos de repouso. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. Mas. num volutuoso assomo. abraça a sombra e. escuridão e eterna claridade. Fazer parar a máquina do instinto. Amor.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei.. numa delícia infinda. Caminha e vai. agonia.

e o trabalho . Rasgando.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. Por seis horas seu braço empenhado na luta. A terra escalda: é um forno. foi aos poucos se arrastando. E o Velho veio para o labor cotidiano.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. acende O pó. a superfície bruta. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. mordendo a atra terra infecunda.. funéreo 182 ..Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! .. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. oito vezes. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. lúgubre e só. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. Triste. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. E em tudo que o rodeava. do agro solo. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado.. Fez reboar pelo solo. Mas o braço cansou! Trabalhou. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo.

. ele pisasse os trilhos. louco. avistando uma frondosa tília Julgou. Caminhava. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. avistar a Árvore da Esperança. o Velho caminhava. Num instante viu tudo. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 .. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros.. flutua! Ninguém o vê. sozinho.. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços.. tombando. Quis fazer um esforço .. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. a família! Não morreria. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. bêbado de miragem.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. a rugir-lhe aos pés. e compreendendo tudo. ninguém o acalenta. os filhos. pois! Somente morreria Se da Vida. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. E amplo. onde arde e floresce a Crença.o último esforço.. o peito arqueou-se. a flux d'água. e o braço Pendeu exangue. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. era a turba trovadora Que assim cantava. o precipício estava. e a sonhar. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. o cansaço Empolgara-o. Nem viu que era chegado o termo da viagem.. o acalenta. a toa.

alvas. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. e o meu pesar se eleva E chora e sangra.. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa.. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. Subindo á majestade do Infinito. pompeiam (triste maldição!) . . A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. a Sombra . E há no meu peito . Na majestade dum condor bendito.Asas de corvo pelo coração. aos astrais desígnios. Atros.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva.. dourando as névoas dos espaços.ocaso nunca visto. ígneo. mudo. E a Noite emerge. e. mudo..condensada treva A sombra desce. volaterizadas. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. fulvos. mudo.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja.. Negras. Descem os nimbos. Raios flamejam e fuzilam ígneos. sangrento O sol. luminosas. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas.eis tudo! E no meu peito .. rubro. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . Além.

há-de Alva.hóstia da Aurora.. A Mágoa ferve e estua. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. a lesma.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. se erguer. Ah! Como tu. A alma se abate. Vésper me encanta. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. III De novo. O leão. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. curvo ao seu destino. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. entre esplendores. lodo. E corno a Aurora . de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. a Aurora. como tombou outrora. se. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. como se esses raios N'alma caindo. de que serve. assassino Ébrio de fogo. o tigre. ciclópico. e hás de ser após as chamas. em plena e fulva reverberação. Sírius me deslumbra. se. em vão na luz do sol te inflamas. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. Como Herculanum foi após as chamas. Hoje de novo. ontem moribundo.. em lodo tudo acaba.o Sol . 185 . E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. o mastodonte. se tornassem ferros?! IV Poeta. Fantástico.

pelas escarpas. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. banha As serranias duma luz estranha. como abutres Medonhos... Ergue. Então.. E foi deixando essas funéreas. Vésper me encanta. Medonhas valas. Canto.. onde. de ossos.. E arrasta os coraç5es pela Descrença. Iluminando as serranias. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . de ilusões te nutres. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. e minh'alma cobre-se de flores .Fera rendida à música divina. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. e. a Lua que no céu se espalha. pois poeta...Arrasta as almas pela Escuridão. Pelos rochedos. Como recordação da festa diurna. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. Sírius me deslumbra. pelas penedias. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. frias. foi valas funerais deixando.. sobe ao pedestal.

Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. triunfalmente... Depois de embebedado deste vinho.. nos céus altos. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. sonâmbulo.. eu também vou passando Sonâmbulo.INSÔNIA Noite. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. A dispersão dos sonhos vagos reuno. sonâmbulo. Mas. 187 . Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. em mágoa..Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha... E invejo o sofrimento desta Santa.. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.

Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. o funerário. Atro dragão da escura noite.... Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. batendo na alma. porém. por exemplo. Cercado destas árvores. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. as flores. os corimbos.. O Sol. hedionda.Vagueio pela Noite decaída. Agora. equilibrando-se na esfera. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. Em que o Tédio. Estou alegre. Aqui. neste silêncio e neste mato. em mágoa imerso. Com o olhar a verde periferia abarco. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. As árvores. Recordam santos nos seus próprios nichos. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . estronda Como um grande trovão extraordinário.

o arquitetural e íntegro aspecto 189 . barro. a esvaziar báquicos odres: . "Na tua clandestina e erma alma vasta. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. "Onde nenhuma lâmpada se acende. harto. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. amorfo e lúrido. E o que depois fica e depois Resta é um ou. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. Olho-o ainda. por outra.Mucosa nojentíssima de pus. os beiços na ânfora ínfima. Mergulho. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. e na ínfima ânfora. é mais de um.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. irrupto. Presto. síntese má da podridão. Olho-o. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. por epigênese geral. através ovóide e hialino Vidro. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta ."Cinza. Dois são. "Miniatura alegórica do chão. ébrio. Todos os organismos são oriundos. De onde. aparece. certo. Risco-o Depois. porque um. "Onde os ventres maternos ficam podres.

. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. na terra instável. Em que todos os seres se resolvem! 190 . é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. Move todos os meus nervos vibráteis. Migalha de albumina semifluida. Vida. sou eu. Se escapa. Depois. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes..Zooplasma pequeníssimo e plebeu. ora. Então. o que nele Morre. cósmico zero. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . sois vós. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. sozinho. Na síntese acrobática de um salto. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. que. muito alto. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. é o céu abscôndito do Nada. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. dentre as tênebras. do meu espírito.Do mundo o mesmo inda e. como nunca outro homem viu. mônada vil. Sob a morfologia de um moinho. em segredo. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero.

Adeus! Que eu veio enfim.. De onde quimicamente tu derivas. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas.. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. E eis-me outro fósforo a riscar.

192 .. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. E em tudo estruge a tua dúlia . Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! .. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. Ora.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . tangendo tiorbas em volatas. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. . Sinos além bimbalham. Retroa o sino. E.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios.. davas brandindo em seva e insana Fúria. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. chora e se lamenta e vibra. Amor.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. Cantas a Vida que sangrando matas. medras Nalma de cada virgem. vezes. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. lembras. Troa o conúbio dos amores velhos . Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. .. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora.

fosforeando. Eis o motivo porque fiz esta ode. esse poder terrível. eis-me de ti cativo! Cativaste-me.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. quando Entre estrias de estrelas. e eis o motivo. Irene. beija os áureos pés dos ídolos. pois. impassível! Esta de amor ode queixosa. . Quedo. Cativo. aos astros.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Irene. Irene.Essa dominação aterradora . Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. Entre timbales e anafis estrídulos. Assim. sonhei-a. 193 . ontem.

Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. irritado. Dentro. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. bruta. E eu nervoso. tinir. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. erguido do pó. Trinta e seis graus à sombra. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. Inopinadamente 194 . Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. berrar. Quase com febre. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. Da qual. ao meio-dia.

Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte.O ígneo jato vulcânico Que.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. A ouvir todo esse cosmos potencial. . Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. afinal. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão.

Assim como Jesus. divina. perdeste a ciência.. Morreu-te a redolência. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. Eu quero o meu Calvário .. Embala-me em teus braços! 196 . Aperta-me em teu peito. De lírios e boninas Um veludíneo leito. Aperta-me em teu peito. oh! morena .Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena.QUADRAS Embala-me em teus braços. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. E dá-me assim.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei.

. Aumentam-se-me então os grandes medos. Dói-me a cabeça. Tenho 300 quilos no epigastro. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho. duas.Uma.. 3 de maio. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . Vista. quatro. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. No bruto horror que me arrebata. em suma. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que.Uma. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. através do vidro azul. embora a lua o aclare. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. e.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E.. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! .ª-feira. 6. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. A conta recomeço... em ânsias: . E aos tombos. três. quando a noite cresce. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo.... Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me.

Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Meu tormento é infindo.. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.. E o amontoamento dos lençóis desmancho.."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Súbito me ergo. por exemplo. Por muito tempo rolo no tapete. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Cinco lençóis balançam numa corda. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Acho-me.... Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Tal urna planta aquática submersa.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida ..vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. .. Ponho o chapéu num gancho. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. Mas aquilo mortalhas me recorda.. . A lua é morta. A luz fulge abundante 198 . Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . O suor me ensopa..Sucede a uma tontura outra tontura. numa festa. Tomba uma torre sobre a minha testa.

Côncavo. numa última cobiça. Babujada por baixos beiços brutos. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . No húmus feraz. A ouvir. De mim diverso. o céu. longe do pão com que me nutres Nesta hora. passei o dia inquieto. Broncos e feios. Entretanto. no ato da entrega Do mato verde. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. feliz. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. em diâmetro. Vários reptis cortam os campos. observa A universal criação. cheia de adubos. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. hierática.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. a terra resfolega Estrumada. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. radiante e estriado.

vão cheirar. Outras. Assinalados pelo mancinismo. Umas. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos.. a farpas de rochedo Completamente iguais. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Mãos adúlteras.. pituitárias Olfativas... a delinqüentes natos. E à noite. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. às da neve. negras. em sangue. tentáculos sutis. Mãos que adquiriram olhos.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. 200 . ás dos cristais. Monstruosíssimas mãos. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. Pertencentes talvez.

plangente. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria .. Opalescência trágica da lua! Tu.Tufos de goivo em conchas de esmeralda. oh Quimera. Guarda a saudade que levou do Mame. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. E como um nume de pesar. Rola a violeta santa dos teus olhos . Pareces reviver a antiga Ofélia. .VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero. Sonho abraçar-te. Mas neste sonho. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. pálida camélia.a Carne. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura.. langue e seminua.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros.

de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. como num chão profundo. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres.. enquanto eu tropeçava sobre os paus. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. No desespero de não serem grandes! 202 . análogo ao peã de márcios brados. era só O ocaso sistemático de pó.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. num ruidoso borborinho Bruto. Eu procurava. E. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho.. Cruzes na estrada. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Aves com frio. com uma vela acesa. na escuridão. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Aprazia-me assim. uivando hoffmânnicos dizeres. Choravam. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. O feto original. com soluços quase humanos. Convulsionando Céus. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar.

Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. Brilhava. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Noite alta. uma voz 203 . Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. frias como lousas. Mas das árvores. A abstinência e a luxúria. Fluía. horrenda e monótona. vingadora. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. assim. de onde se vê o Homem de rastros. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Como o protesto de uma raça invicta.Vinha-me á boca. me tornara A assembléia belígera malsã. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. perdido no Cosmos. com a sidérica lanterna. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. na ânsia dos párias. Maior que o olhar que perseguiu Caim. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. ao colher simples gardênia.

ovário. Na prisão milenária dos subsolos. isto é. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. diante do Homem. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir.. Crânio. Para erguer. porque. entres Na química genésica dos ventres. a espiar enigmas. Se hoje.. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. do Equador aos pólos. Tragicamente. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. com a febre mais bravia. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. tão profunda. Porque em todas as coisas. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. pois. amanhã píncaros galgas. arvoredos desterrados. afinal. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. Rasgando avidamente o húmus malsão. iceberg.Tão grande. obscuro. oh! filho dos terráqueos limos. Nós. na ânsia cósmica. em suma. enquanto Deus. Para esconder-se nessa esfinge grande. Não trabalham. choramos. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Rimos. montanha. árvore. que.

a erguer-me. alheio ao mundanário ruído. desgraçadamente magro. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. naquela noite de ânsia e inferno. Eu. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. A voz cavernosíssima de Deus. astro decrépito. Eu fora. a escalar Céus e apogeus. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 .As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. em destroços. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana.

Para pintá-lo. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. arrancado das prisões carnais. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. rolando dos últimos degraus. Viver na luz dos astros imortais. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. pela boca.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. Na ânsia incoercível de roubar a luz. quero até rompê-las! Quero. em coalhos. armado de arcabuz. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito.. entre estes monstros. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem.. 206 . no combate. Minh'alma sai agoniada. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. é o prélio enorme. As minhas roupas. E muitas vezes a agonia é tanta Que.

o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. em suma. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão.esta arca. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto.. a água que bebo. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração .. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. é improfícuo.. faz mal. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. E é tudo: o pão que como. Seja este. é inútil. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força.. A bênção matutina que recebo. enfim. E tombe para sempre nessas lutas.

rio Sinistramente. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres.. Como que. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. A Morte. Sai para assassinar o mundo inteiro. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. a 1 de Janeiro. à meia-noite. estudo.. Mas de repente. e a mim pergunto. na vertigem: -. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. ouvindo um grande estrondo. come... abrindo todos os jazigos. Corro. sozinho. -..Faminta e atra mulher que. Intimamente sei que não me iludo. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 .esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Então meu desvario se renova. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. em trajes pretos e amarelos. numa cova..

Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. Por tua causa apodreci nas cruzes. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam.. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. acorda em berros Acorda. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma.. Quis ver o que era. Eu desafio. e após gritar a última injúria. e quando vi o que era.. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. canalha.. e de declínio Em declínio. Deixa-te estar. Perante a qual meus olhos se extasiam. Com as longas fardas rubras. Como as estalactites da caverna. como a gula de uma fera. Vi que era pó. É Sexta-feira Santa. desta cova escura. em grupos prosternados.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. que em mim dorme.. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Amarrado no horror de tua rede.. Tu não és minha mãe. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta.

Roma estremece! Além. quieta.. O vento entoa cânticos de morte. Como as chagas da morféia O medo.. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. Na molécula e no átomo. A desagregação da minha Idéia Aumenta. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. somente eu.. no ar de minha terra. Na Eternidade. Dentro da igreja de São Pedro. A árvore dorme Eu. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta.Um esqueleto.. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . Desperto. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. vendo-o. As luzes funerais arquejam fracas. O céu dorme. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. e a gente.

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