Mulheres, Sombras do Tempo, Vultos da Literatura

Desde os primórdios da humanidade, a imagem da mulher está presente na arte e nos esboços das palavras, porque ela é “um efeito deslumbrante da Natureza”1. Porém, ao longo dos tempos, são várias as facetas e as personalidades retratadas, e contrastam-se ideias e ideias, pois “a história da civilização da mulher, do seu desenvolvimento e da sua moralidade, anda sempre ligada aos factos do desenvolvimento da civilização e da moralidade dos povos”.2 A mulher, representada nos textos bíblicos, apresenta duas facetas, a primeira, mãe dócil e fiel esposa, que retrata a Virgem Maria, mas surge também uma mulher pecadora e perversa apresentada pela personagem de Eva, pois “a mulher - é o anjo e o diabo num só corpo”3. A imagem da mulher intocável e angelical permaneceu durante séculos, todavia tem vindo a alterar-se, cada vez mais surge “a sua representação escrava sem liberdade nem vontade, só destinada a saciar as paixões brutais dum senhor devasso (…) e em vez do amor, essa flor do sentimento pura e recatada, só apareceram a paixão instintiva e brutal, necessidade puramente física do animal que obedece à lei da reprodução, à devassidão e à poligamia.” 4 A literatura dos finais do século XIX e dos inícios do século XX tinha um carácter revolucionário, lutador e feminista. O único objectivo dos autores baseava-se em desnudar a realidade feminina que vivia como vítima da opressão masculina. As mesmas queriam ser tratadas de forma igual, tanto no domínio literário como no quotidiano. Assim, utilizavam nas suas obras protagonistas femininas
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SCHOPENHAUER, Arthur QUENTAL, Antero DUMAS, Alexandre QUENTAL, Antero

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que davam voz aos sentimentos, opiniões e perspectivas do mundo feminista. A Madame de Bovary surge na literatura por intermédio do escritor Gustave Flaubert que tem o intuito de demonstrar a veracidade da imperfeição reflectida no adultério cometido por Emma, cujas utopias são superiores à sociedade em que vivia, é então uma revolta individual contra o espírito do conformismo imposto, em que a moral supera todos os sentimentos e não há lugar para desejos. Este relato é considerado por muitos como pioneiro na literatura realista. Em Portugal, o bovarismo surge na obra de Agustina Bessa-Luís Vale Abraão, adaptada para filme por Manoel de Oliveira, proporcionando um conjunto de reflexões sobre o bovarismo e a condição da mulher no mundo. Nesta obra surge Ema, mulher transmontana de pulcritude ameaçadora que se deixa seduzir pela leitura flaubertiana. O seu gosto pela ostentação, as ilusões que tem na vida, o desejo que inspira aos homens, fazem-lhe valer o epíteto de "A Bovarinha". Apesar de ter conhecido três amantes, essas paixões consecutivas não a saciam, nem conseguem suster a crescente desilusão que habita no seu espírito, o que a leva a definirse como "um estado de alma em balouço". Apesar de “Ema conhecer o drama da Bovary, não se identificava com ele, mas fatalmente terminou como ela”5 e ambas colocam um término às suas vidas. O bovarismo não é só um termo exclusivamente literário. Este, com o avançar do tempo, passou a designar também uma categoria humana e a introduzir-se na linguagem corrente. A temática permanece na contemporaneidade, não só pela tenacidade da dificuldade da condição feminina na sociedade actual mas igualmente pela patologia que lhe está interligada: a antítese entre a realidade e a fantasia, a paixão e a insatisfação constante, aliadas a um sentimento profundo de solidão, reforçadas pelo mundo

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OLIVEIRA

mediático em que habita, que lhe proporciona uma perspectiva distorcida da realidade. As páginas dos livros são recheadas de histórias e personagem que “gritam” o seu desejo de liberdade, onde ecoam as esperanças de triunfarem. No romance As Meninas, Lygia Fagundes Telles, escritora reconhecida, dota uma das personagens femininas de pensamento crítico: “Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos”. Este “agora” é um processo de redescoberta, de construção, contínuo e intemporal. É a afirmação da mulher, esta que é a sombra de uma sociedade dominada pelo género masculino. Muitas vezes, o relato das mulheres oprimidas é feito com uma subjectiva crítica através do recurso ao epigrama profundo, onde se retrata o seu triste quotidiano. Em Memorial do Convento, para José Saramago o adultério é factor de sátira ao longo da obra. Critica a mulher porque “entre duas igrejas, foi encontrar-se com um homem”, ridiculariza “uns tantos maridos cucos” e não perdoa os frades que “içam as mulheres para dentro das celas e com elas se gozam”, não esquece os nobres e o próprio Rei, até porque considera que as freiras, especificamente a madre Paula de Odivelas, o recebem “nas suas camas”. D. Mª Ana é uma rainha insatisfeita de e amargurada, onde todos que os (sobre)vive num e matrimónio aparências, momentos frios

programados passados com o Rei tem como objectivo o milagre da sua fecundação, o que levou El-Rei a fazer o juramento de levantar um convento em Mafra, caso a concepção se sucedesse. E, assim, D. Maria Ana vive pressionada pela responsabilidade, pois a culpa de tal ainda não se ter sucedido é sua, pois esterilidade, como o narrador afirma ironicamente, não é da responsabilidade dos homens, aliás contam-se na Corte um número avultado de bastardos, o que

comprova a virilidade do Rei. Sujeita a um ambiente onde o estado e a Igreja ditavam os cânones da sociedade, é impedida de qualquer atitude contra os padrões do modelo de família exigidos. Esta caracterização da personagem da Rainha, alvo de culpa da tardia gravidez, é comum à de muitas mulheres de diversificadas gerações. No entanto, vagarosamente é feita uma reavaliação da condição das mesmas. O livro O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir é uma visão pormenorizada da tirania sofrida pelas mulheres, na qual aborda o feminismo contemporâneo. O livro determina um existencialismo feminista, que motiva uma revolução moral. Como existencialista, adoptou o princípio de Jean-Paul Sartre de que "a existência precede a essência" e, portanto, "não se nasce uma mulher, torna-se uma"6. A reconstrução do papel da mulher na história tem sido um desafio enfrentado pela teoria crítica feminista que procura ascender o perfil feminino, esbatido pelo tempo, no seio de uma cultura dominantemente marcada pelo paradigma masculino. O triunfo do movimento feminista possibilita o reconhecimento de que “hoje, a literatura feita por mulheres, adequa-se a um processo de reconstrução da categoria “mulher” (…) para a recuperação de experiências emudecidas pela tradição cultural dominante”7. Muitas mulheres de diversificadas gerações partilham a sombra da história. Mas, procuram incessantemente converter esta situação fazendo-se ouvir. Dar voz à mulher é pôr em evidência a forma como a mesma questiona os valores que definem o seu lugar na sociedade, assim, “a história das mulheres é, de certa forma, a história do modo como tomam a palavra”8. Nos últimos séculos, ainda que lentamente, o
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BEAUVOIR, Simone de SCHMIDT, Rita Teresinha DUBY, Georges e PERROT, Michelle

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grito das mulheres vai adquirindo maior importância graças ao impulso destas novas revoluções. Nunca houve uma preocupação em preservar a história das mulheres, as suas opiniões ficaram esquecidas pelo tempo, representando apenas suaves sombras. O espaço que ocupam nas estantes da literatura é reduzido, pois “a vida das mulheres é limitada de mais ou excessivamente secreta”, escreveu Margauerite Youcenar acerca da sua obra Memórias de Adriano, referindo-se ao facto de a personagem principal da sua narrativa não ser uma mulher. Nos anos sessenta, Moses Finley abordou o facto da personagem feminina estar apagada na sociedade da Antiga Roma num artigo que intitulou As mulheres silenciosas de Roma, realçando que as diversas vozes (cartas, poesia, esculturas, textos legais ou inscrições) a que o historiador podia recorrer relativamente à mulher romana eram de homens ou revelavam meramente ideais dos mesmos. Efectivamente, tal “silêncio” é difícil de quebrar, e portanto as fontes históricas: as imagens e discursos que temos das mulheres provêm mais do “olhar dos homens que governam a cidade, constroem a sua memória e gerem os seus arquivos”9 do que das próprias mulheres, excluídas da vida pública. A vida pública e social do ser feminino evolui todos os dias, devido às grandes obras que protagoniza, porém a igualdade mundial dos géneros ainda tem um longo percurso para percorrer. A literatura permitiu dar novos horizontes ao mundo feminino, alargar os conhecimentos relativamente ao mesmo, dar a conhecer a sua psicologia, adquirindo-lhe mais liberdade. Através de uma viagem atenta pelo universo da escrita, é possível observarem-se as suas representações. independente, Porém, algures ainda pelo que se tenha tornado mais mundo, habitam tantas mulheres

discriminadas, cujas vidas são tantas vezes limitadas por barreiras socioculturais, e são impedidas de demonstrar o seu verdadeiro “eu”. Pois, “enquanto o homem e a mulher não se reconhecerem como semelhantes, enquanto não se respeitarem como pessoas em que, do
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DUBY, Georges e PERROT, Michelle

ponto de vista social, política e económico, não há a menor diferença, os seres humanos estarão condenados a não verem o que têm de melhor: a sua liberdade”10 .

Maria Pires Cameira, nº 10, 8º ano

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BEAUVOIR, Simone