CARLOS MENDOZA POTTELLÁ EDGARDO LANDER

VENEZUELA Temas Contemporâneos

HAYDÉE OCHOA HENRÍQUEZ MARGARITA LÓPEZ MAYA

VENEZUELA Temas Contemporâneos

Flávio Benedito (Org.)

São Paulo 2011
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VENEZUELA
Temas Contemporâneos

I. Apresentação II. Venezuela: conflito social em um contexto global, por Edgardo Lander III.Vigência do nacionalismo petroleiro venezuelano, por Carlos Mendoza Pottellá IV. O Caracaço, por Margarita López Maya V. Depois do Caracaço: protesto popular e luta hegemônica, por Margarita López Maya VI. A política de promoção da participação cidadã do governo de Hugo Chávez, por Haydée Ochoa Henríquez

Apêndice: I: O petróleo e a cultura venezuelana, por Carlos Mendoza Pottellá
(Entrevista concedida à Revista FLAMA - Liberación y Petróleo, número de abril/junho de 2011)

II: O caminho da Venezuela não pode ser nem neoliberalismo nem stalinismo, por Edgardo Lander
(Entrevista concedida a Hugo Prieto, em 7 de abril de 2011, Transnational Institute)

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APRESENTAÇÃO

A escassez, no Brasil, de bons trabalhos acadêmicos sobre o processo histórico pelo qual atravessa hoje a Venezuela ─ um processo marcado internamente por importantes transformações no âmbito da economia e da sociedade, e externamente pela recomposição do papel geopolítico do país no cenário regional e mundial ─ levou-nos a organizar este livro, desejando com ele alcançar o público interessado em geral e o de estudantes universitários em particular. Foi nosso propósito, desde o início, que o livro trouxesse um conjunto diversificado de interpretações, cujos temas coincidissem com aspectos fundamentais do processo de mudanças em curso. Para isso, reunimos então textos de renomados pesquisadores venezuelanos que, de perspectivas teóricas diferentes, analisam alguns dos elementos mais significativos da história de seu país nas últimas décadas. Esses elementos são: 1) os avanços e retrocessos na política nacional petroleira, cuja questão central não poderia ser outra senão a da maior ou menor capacidade de o Estado venezuelano gerir soberanamente a exploração de seu mais importante recurso natural; 2) a crise da assim conhecida democracia de Punto Fijo, estabelecida no final dos anos de 1950, e que, nas décadas seguintes, foi terreno para a construção de um pretenso excepcionalismo venezuelano; 3) a evolução dos movimentos sociais, cuja expressão mais dramática foi o Caracaço, de 1989 ─ uma explosão social na qual ficaram expostas todas as mazelas da sociedade venezuelana de então, e contra a qual se armou um dos mais violentos aparatos repressivos que a história do continente conheceu; 4) o advento das lutas em torno de uma nova hegemonia política, protagonizada hoje pelo movimento bolivariano de Hugo Chávez, que vem suscitando uma ampla gama de reações políticas e intelectuais, dentro e fora do país; e 5) os promitentes progressos que tem alcançado a sociedade venezuelana quanto ao exercício efetivo da democracia, em um contexto de crescente mobilização 4

e conscientização política das classes populares ─ quer graças quer a despeito do chavismo. A leitura dos textos levará os leitores a concordar que o rigor científico e a acuidade de análise com que cada um dos autores tratou os respectivos temas ─ sem, com isso, terem pretendido assumir uma postura intelectual "neutra" em relação a eles ─ constituem certamente o que de mais valioso traz esta coletânea. É desejo nosso, ainda, que outros temas igualmente importantes da história venezuelana fiquem reservados para uma publicação posterior, a aparecer o mais brevemente possível.

OS AUTORES:

Carlos Mendoza Pottellá é economista e professor aposentado da Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais da Universidade Central da Venezuela; atualmente, é assessor da presidência do Banco Central da Venezuela e diretor da Revista BCV; foi embaixador da Venezuela na Rússia e na Arábia Saudita, e desempenhou também a função de diretor da Petróleos de Venezuela. É autor de várias obras sobre a economia petroleira venezuelana, entre elas: El poder petrolero y la economía venezolana (1995). (Cf.: http://petroleovenezolano.blogspot.com/)

Edgardo Lander é professor titular de Ciências Sociais da Universidade Central da Venezuela e pesquisador associado do Transnational Institute. É membro do grupo de pesquisadores sobre Hegemonias e Emancipações do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO) e da junta editorial da Revista

Venezuelana de Economia e Ciências Sociais. Entre suas obras estão: Contribución a la crítica del marxismo realmente existente e La colonialidad del saber: Eurocentrismo y ciencias sociales.

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Haydée Ochoa Henríquez é formada em Administração, com mestrado em Empresas Públicas e doutorado em Estudos do Desenvolvimento, no CENDES (Universidade Central da Venezuela); é pesquisadora emérita da Universidade de Zúlia (Venezuela), no Centro de Estudos da Empresa, e coordena Pesquisa e Estudos Avançados na sede Zúlia da Universidade Bolivariana da Venezuela (UBV). Entre seus trabalhos está Venezuela: ¿más democracia o más populismo? Los consejos comunales y las disputas sobre la hegemonía democrática (coautora).

Margarita López Maya é historiadora e doutora em Ciências Sociais pela Universidade Central da Venezuela e professora do Centro de Estudos do Desenvolvimento (CENDES). Foi diretora da Revista Venezuelana de Economia e Ciências Sociais e membro do Comitê Diretivo do CLACSO. Em 2010, candidatou-se à Assembleia Nacional pelo partido Pátria Para Todos (PPT). É autora, entre outros, de La política venezolana en la era de Chávez. (Clases, polarización y conflicto), Del viernes negro al referendo revocatorio1, e Ideas para debatir el socialismo del siglo XXI.

(O organizador deste livro gostaria de registrar seu mais sincero agradecimento aos referidos autores, por permitirem a tradução e edição digital dos textos, tornando assim mais acessíveis os resultados de suas pesquisas e reflexões ao público leitor brasileiro.)

Flávio Benedito (USP-PPGHE)2

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O leitor interessado poderá encontrar esta obra, traduzida ao português, no site: http://pt.scribd.com/doc/45797400/LUTA-HEGEMONICA-NA-VENEZUELA-DA-CRISE-DO-PUNTOFIJISMOA-ASCENSAO-DE-HUGO-CHAVEZ-MARGARITA-LOPEZ-MAYA. 2 A tradução e a edição digital destes textos foram possíveis graças ao auxílio financeiro de uma bolsa de estudo concedida pelo CNPq, instituição à qual o organizador do livro agradece.

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VENEZUELA: CONFLITO SOCIAL EM UM CONTEXTO GLOBAL3

EDGARDO LANDER

Havendo escapado à terrível experiência dos governos militares das
décadas de 1970 e 1980, a Venezuela não teve de suportar a desmobilização política nem o abandono das práticas sociais democráticas, como aconteceu à maioria dos países da América Latina durante esse período. Por consequência, o país parece ter-se mostrado despreparado, depois, diante dos programas neoliberais promovidos pelos Estados Unidos como parte do chamado Consenso de Washington. Com efeito, os regimes autoritários do continente procuraram reestruturar os principais elementos da vida social para adaptar-se às novas exigências da economia global. As políticas de desregulamentação, de liberalização, de privatização, de redução da atividade estatal e de limitação de direitos sociais ─ que puderam ser apenas parcialmente implementadas nos Estados Unidos e na Europa ─ foram impostas sem restrições aos países latino-americanos, em alguns casos após toda a resistência ter sido esmagada pela repressão. O Chile representa a mais ampla e dolorosa experiência de "sucesso" desse tipo. O governo da Unidade Popular foi derrubado, o movimento popular ─ então bastante diverso ─ viu-se destroçado, as relações de poder entre os diferentes grupos sociais foram radicalmente alteradas, e uma mudança fundamental ocorreu na cultura política do país. Quando Michelle Bachelet, a quarta presidente da época pós-Pinochet (e segunda proveniente do Partido Socialista), foi empossada no início de 2006, as
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Texto original: Edgardo LANDER. "Venezuelan Social Conflict in a Global Context". In: ELLNER, S. & SALAS, M. T. Venezuela: Hugo Chávez and the Decline of an "Exceptional Democracy". Lanham, R&L Pub., 2007, pp. 16-32. (N. do Trad.)

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principais diretrizes das políticas econômicas neoliberais, estabelecidas pela ditadura militar, permaneciam firmemente em curso. As transições democráticas e os processos de descentralização e de reforma do Estado, levados a cabo na maioria dos países latino-americanos, ocorreram apenas após os regimes militares terem modificado o modelo econômico anterior de intervenção estatal. Igualmente, os novos governos civis não empreenderam alterações nas políticas básicas, cujos efeitos haviam sido a exclusão de vastos setores da população e uma concentração maior de poder e riqueza. Não é de surpreender, pois, que a democracia provoque hoje tão pouco entusiasmo em todo o continente, que partidos políticos encontremse em meio a crises, e que a população em geral espere pouco das eleições. Uma energia política maior, contudo, pode ser encontrada em movimentos como o dos zapatistas no México e dos sem-terra no Brasil, nas novas formas de luta por meio de bloqueios de tráfego na Argentina e nas mobilizações indígena-populares que paralisaram o Equador em 2000 e a Bolívia em 2000 e 2002 (CLACSO, 2000). Antes das eleições de 2002 no Brasil, Bolívia e Equador, somente na Venezuela ─ sob o governo de Hugo Chávez, alçado ao poder pelo pleito de 1998 ─ a política eleitoral havia desempenhado um papel importante no movimento de resistência ao neoliberalismo. Após os processos de transição para a democracia nos anos 1980 em toda a América Latina, apenas a longevidade das instituições políticas venezuelanas parecia algo inusitado. Entretanto, o processo político

venezuelano figurava estar fora de sincronia com o restante do continente: as Forças Armadas mostravam-se inquietas e rebeldes justamente quando, nos outros países, os militares retornavam à caserna. Já em 1982 (quando Hugo Chávez começou a organizar-se no interior das Forças Armadas), o desassossego dos militares, que estremeceria a democracia de Punto Fijo, estava ganhando forma. A eleição de Chávez, em dezembro de 1998, conduziu ao poder um líder determinado a se opor internamente ao neoliberalismo e a lutar internacionalmente contra a concentração de poder. Em contraste com os países do Cone Sul e de outras regiões da América Latina, o processo eleitoral na Venezuela não foi vítima do terror nem se submeteu a uma fase de transição. Mesmo ocorrendo duas tentativas de golpe de Estado em 1992, algumas explosões populares e declarações de conteúdo populista radical que 8

deram ensejo ao chavismo, de 1998 em diante o movimento permaneceu dentro dos limites institucionais da democracia, tendo havido sete eleições nacionais levadas a cabo ao longo de dois anos (Parker, 2001). Chávez despertou suspeita entre a maioria dos outros governantes do hemisfério; mas também suscitou esperança entre os movimentos populares do continente. Com Cuba excluída da participação em reuniões multilaterais do hemisfério, e dado o fato de Chávez ter chegado ao poder por eleições competitivas, o presidente venezuelano tornou-se, controvertidamente, o mais efetivo líder nacional a propugnar a resistência ao Consenso de Washington. Este texto explora três questões principais. Em primeiro lugar, apresentamos diversas hipóteses gerais sobre o contexto econômico e geopolítico global no qual o sistema político venezuelano tem funcionado ao longo das últimas décadas. Em segundo, discutimos algumas das condições particulares que ajudam a explicar a relativa estabilidade e sucesso das primeiras décadas da democracia venezuelana após 1958 e que deram origem à noção de excepcionalismo venezuelano. Por fim, descrevemos as condições que conduziram ao malogro dessa experiência e à extraordinária resistência popular que se opôs às tentativas de implantação das políticas de ajuste neoliberais no país durante os anos de 1990, e que levaram à eleição de Chávez à presidência da República em 1998.

O CONTEXTO GLOBAL
Durante o período do pós-guerra, especialmente na década de 1960, mudanças significativas na arena internacional promoveram uma relativa redistribuição de poder em favor dos setores menos privilegiados. A natureza bipolar da Guerra Fria permitiu um grau de liberdade favorável aos movimentos de libertação nacional, que triunfaram em várias regiões do mundo. Com respeito à distribuição de poder, o mundo tornou-se um tanto mais democrático. Na Europa Ocidental, o Estado de bem-estar social estabeleceuse firmemente e fez-se acompanhar de um movimento de democratização que atingiu todo o continente. Na América Latina, os regimes "oligárquicos" entraram em crise, e as lutas populares ─ através, muitas vezes, de alguma forma de populismo ─ atingiram níveis de participação e inclusão social

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maiores do que os até então conhecidos (exceto durante a Revolução Mexicana). A redução nas enormes lacunas de distribuição de renda e riqueza acompanhou essa mudança política (Cornia, 1999). No Ocidente europeu, a desigualdade declinou ao longo dos anos de 1950-1960 e na maior parte dos anos de 1970. Níveis mais baixos de desemprego e a expansão acelerada da seguridade social auxiliaram na redução das desigualdades. Nos Estados Unidos, a concentração de riqueza, medida em termos de proporção de riqueza em mãos do 1% mais rico da população, alcançou no seu pico do pós-guerra 37% em 1965, mas depois disso começou a declinar, com o 1% mais opulento contando com 22% dos bens em 1976 (Wolff, 1995). Na América Latina, a distribuição de renda melhorou nos anos de 1960 até à crise da dívida externa de 1982. Entre 1970 e 1982, a proporção da renda média dos 20% mais ricos em relação aos 20% mais pobres da população decresceu de 23 por 1 em 1970 para 18 por 1 em 1982 (UNDP, 1999: 39). Conquanto nenhuma mudança mais significativa na distribuição de renda tenha ocorrido na Venezuela durante esse período, as condições materiais da maioria da população melhoraram gradualmente, em grande parte como consequência da renda petroleira. As crescentes receitas provenientes do petróleo refletiram-se em um maior poder das nações exportadoras de petróleo do Terceiro Mundo frente às companhias e aos países consumidores, sobretudo após a fundação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em 1960. No início dos anos 70, a taxa de lucro das grandes corporações reduziuse ─ como Marx teria predito ─ como consequência de um acesso mais restrito às fontes de recursos, à mão de obra e a mercados em várias regiões do mundo. As políticas nacionalistas do Terceiro Mundo, no contexto de um mundo bipolar, somadas ao fortalecimento da organização dos trabalhadores, maiores impostos e uma mais ampla regulamentação do Estado impuseram freios à capacidade de expansão do setor privado. Os executivos das corporações globais sentiram-se ameaçados não apenas pelo comunismo e pelos lucros menores, mas também pela própria democracia, que parecia pôr em risco as sociedades liberais industrializadas. A Comissão Trilateral diagnosticou essa crise como sendo de "governabilidade" ─ isto é, de um excesso de democracia que precisava ser contido (Crozier, Huntington, e 10

Watanuki, 1975). Os conservadores propugnavam uma grande ofensiva em todos os níveis: militar, político, tecnológico e econômico. Os governos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher ergueram-se como líderes dessa contrarrevolução global (Quijano, 1996), adotando políticas militares agressivas contra governos "rebeldes" e movimentos populares em todo o mundo. A dívida externa, como manipulada por Washington, tornou-se uma arma política fundamental nessa estratégia global. As instituições financeiras multilaterais de Bretton Woods ampliaram suas funções e, ao mesmo tempo, impuseram um severo controle aos países que se mostraram incapazes de pagar a dívida e pareciam estar em dificuldades financeiras sérias. A concentração de poder e a capacidade de tomada de decisões pelas corporações transnacionais e seus governos atingiram de modo negativo a maioria da população mundial. Essa consolidação foi ainda mais longe com o estabelecimento de uma ordem jurídica global, de cunho liberal, e com o extremo fortalecimento das instituições supranacionais, como a Organização Mundial do Comércio (Wallach & Sforza, 1999). De consequências

particularmente importantes para a Venezuela foi a criação da Associação Internacional de Energia, fundada em resposta ao sucesso da OPEP em sua política de aumento dos preços internacionais do petróleo. A AIE teceu elogios às políticas para o setor petroleiro definidas por Margareth Thatcher em relação ao Mar do Norte, que eliminaram os royalties do petróleo e estabeleceram uma escala móvel de impostos ─ dois elementos fundamentais que mais tarde seriam incorporados à chamada abertura petroleira na Venezuela (Mommer, 2003). As companhias multinacionais procuraram recuperar a taxa de lucros através de fusões de empresas e de transformações em tecnologia e administração, segundo o propósito de diminuir os custos da força de trabalho e fortalecer a capacidade administrativa para impor seus interesses aos trabalhadores. Para alcançar tais objetivos, as corporações ampliaram a automatização das indústrias, introduziram novas tecnologias de comunicação, implementaram uma "flexibilização" do trabalho (fragmentando e transferindo de lugar diferentes fases do processo produtivo), e ampliaram a mobilidade do capital ─ todos esses, em suma, aspectos da globalização. Tanto os processos de desregulamentação estatal como as mudanças na legislação trabalhista, 11

ocorridas em todo o mundo, fizeram crescer o poder dos proprietários do capital, ao mesmo tempo em que limitaram a força dos trabalhadores (MacEwan, 1999: 59). Essa estratégia bem sucedida das corporações para a recuperação das taxas de lucro exigiu a ereção de fortes barreiras de proteção para as empresas capitalistas contra os alegados "excessos" de política democrática ─ regulamentação, impostos e outras medidas de políticas públicas que restringiriam a liberdade econômica defendida pela ideologia neoliberal. As estatísticas disponíveis indicam que o notável aumento da desigualdade na maioria dos países ─ quer considerados individualmente, quer em comparação uns com os outros ─ foi acompanhado pela referida concentração de poder e de capital ao longo das últimas duas ou três décadas (Cornia, 1999; 2000). A relação entre a renda média dos 20% da população mundial vivendo nos países mais ricos e a dos 20% vivendo nos países mais pobres passou de 30 por 1, em 1960, para 74 por 1, em 1997 (UNDP, 1999). De acordo com um estudo sobre 124 países, representando 94% da população mundial, a parcela da renda dos 20% mais ricos cresceu de 69%, em 1965, para 83% em 1990 (UNCTAD, 1997). Na Venezuela, esses padrões tornaramse evidentes após o colapso dos preços do petróleo e a desvalorização do bolívar, em 1983. A razão entre a renda dos 10% que possuíam as remunerações mais altas e os 10% de remunerações mais baixas passou de 12,5 por 1, em 1984, para 23,9 por 1, em 1991 (Lander, 1996b: 65). Seguindo as tendências mundiais, o índice crescente de

empobrecimento na Venezuela persistiu ao longo dos anos de 1990, acompanhado da irrupção de protestos populares. Desde 1990, cinquenta e cinco países ─ a maioria deles na África subsaariana, na Europa Oriental e na Comunidade dos Estados Independentes (CEI) ─ têm sofrido um declínio em sua renda per capita (UNDP, 1999). O aumento da desigualdade nos países "em transição" da Europa Oriental e da CEI é o maior já visto na história dessas nações (UNDP, 1999). A desigualdade também cresceu

significativamente na China, Indonésia, Tailândia e outros países do Sudeste Asiático que, em décadas anteriores, haviam alcançado um rápido crescimento e, ao mesmo tempo, tinham conseguido melhorar a distribuição de renda e reduzir os índices de pobreza (UNDP, 1999). O consumo médio de uma família 12

na África, ao final da década de 1990, era 20% menor do que fora 25 anos antes (UNDP, 1999). Além disso, na maioria dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a desigualdade de renda cresceu após 1980, sobretudo no Reino Unido, nos EUA e na Suécia (UNDP, 1999). Em toda a América Latina, a implementação de políticas de ajuste estrutural, realizada tanto por regimes autoritários como não autoritários, exacerbou as desigualdades sociais (Berry, 1997). A dívida externa conferiu aos credores e às organizações financeiras multilaterais um imenso poder sobre os governos dos países devedores. Os processos de democratização política que ocorriam em muitos deles acabaram por paulatinamente esvaziarse: as "recomendações" das organizações multilaterais tornaram-se mais importantes do que o anseio dos eleitores, da opinião pública e das decisões parlamentares. Sob tais condições, os Estados periféricos e semiperiféricos passaram a atuar mais como "uma espécie de subcontratante ou

concessionário" (Sousa Santos, 1998: 33) do que como representantes democráticos de nações soberanas. Segundo o discurso neoliberal, a combinação de restauração da democracia com crescimento econômico tornaria melhores as condições de vida de milhões de pessoas excluídas em todo o continente. Mas, considerando-se que nesses países as relações de poder não sofreram mudanças, essa melhoria não correspondeu a uma expectativa realista. Mesmo onde ocorrera certo crescimento sustentado e políticas de redução da pobreza haviam alcançado algum sucesso ─ como no caso do Chile ─ a distribuição de renda não se alterou. O crescimento econômico torna-se então cada vez menos distributivo se comparado a períodos anteriores (Morley, 2000; Janvry & Sadoulet, 1995: 15). Ao final dos anos de 1990, somente o Uruguai apresentava um avanço, desde o início dos anos de 1980, relativamente aos índices de pobreza e desigualdade social. Na Argentina democrática, a diferença de renda entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres da população aumentou de um fator de 15 para um de 24 entre os anos de 1991 e 1997 (Gambina, 1999). Em todos os países da América Latina, o desemprego ao final da década de 1990 era maior do que durante a crise da década de 1980 (Weller, 2000: 48), e havia uma tendência geral para empregos mais 13

precários e heterogêneos. As "reformas" da legislação trabalhista reduziram a proteção ao trabalho e o poder de negociação dos trabalhadores. Segundo cálculos da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de cada dez novos empregos criados na década de 1990, oito eram ocupações de qualidade inferior do setor informal (Ocampo, 1998). A segurança no trabalho viu-se diminuída, ao passo que cresceram os empregos temporários, que não eram amparados por acordos coletivos (CEPAL, 2000: 98-99). Ao mesmo tempo, um número menor de trabalhadores estava protegido por algum sistema de previdência social ou de seguro-desemprego (CEPAL, 2000: 101). A Venezuela não escapou a essas tendências, particularmente a da perda dos benefícios legais tradicionais (Ellner, 2003: 164-165). Assim, diante de um quadro de tantos aspectos negativos, é pouco surpreendente que a democracia e seus mecanismos eleitorais tenham atraído, até recentemente, pouco interesse na maioria dos países da região. As promessas eleitorais raramente coincidiam com a política oficial, e a resistência assumiu, então, amplamente uma forma extraparlamentar.

A DECOMPOSIÇÃO DO REGIME DE PUNTO FIJO4
A despeito da expressiva desigualdade social durante os primeiros anos do regime democrático instalado em 1958 e, sobretudo, no período de maior expansão da renda petroleira (1973-1978), o padrão de vida dos venezuelanos conheceu então uma certa melhora. Todos os indicadores sociais, relativos aos níveis de educação, padrões de saúde, expectativa de vida, acesso a moradia e serviços públicos, mortalidade infantil e emprego (incluindo níveis de emprego formal) registravam melhorias significativas. O emprego no setor público e uma importante expansão do acesso à educação ─ de todos os níveis, e particularmente a educação superior ─ conduziram a uma substancial
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Em 1958, ao fim da ditadura de Marcos Pérez Jiménez (1952-1958), foi assinado o assim chamado Pacto de Puntofijo (ou Punto Fijo), resultante de um acordo entre os partidos Ação Democrática (AD), Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (Copei) e União Republicana Democrática (URD), cujo propósito foi o de instaurar no país uma condição estável de constitucionalidade e de equilíbrio entre as forças políticas participantes do movimento cívico-militar que derrubara o ditador. No entanto, com a exclusão do Partido Comunista da Venezuela (PCV) ― que possuía expressiva influência no meio sindical ― e a posterior retirada da URD, o pacto tornou-se, na realidade, um meio de garantir a hegemonia bipartidária AD-Copei. A ascensão de Hugo Chávez, em 1999, assinala o fim desse bipartidarismo de quatro décadas. (N. do Trad.)

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mobilidade social. Houve, durante uma parte desse período, um progresso na distribuição de renda (Rodríguez, s.d.). Depois da derrota do movimento guerrilheiro nos anos de 1960, a Venezuela assumiu a posição de uma democracia exemplar ─ uma experiência amplamente considerada como bem sucedida, institucionalizada, estável e legítima. Padrões históricos de crescimento e de aumento dos preços do petróleo eram planejados e esperados para muitos anos. As classes média e superior não viam seus níveis crescentes de consumo nem seus modelos culturais cosmopolitas serem ameaçados por demandas populares, visto que a receita do Estado continuava a elevar-se. Uma ampliação dos gastos do Estado com educação, saúde e serviços públicos não dependia de tributação sobre a riqueza privada. Assim, os setores populares da sociedade venezuelana esperavam continuar seu movimento de ascensão social. Uma "moderna e integrada" sociedade parecia surgir como algo possível em um futuro não muito distante. Do mesmo modo, uma cultura política marcada pela "harmonia nacional" e suas correspondentes organizações partidárias multiclassistas alcançaram a condição de

hegemônicas. Tornou-se, então, dominante a imagem autocriada de uma sociedade inclusiva, igualitária e racialmente democrática; ao mesmo tempo, imperava o otimismo. A tese do excepcionalismo venezuelano ganhava forma. Em fins dos anos de 1970, essas tendências começaram a regredir. Um significativo declínio da renda petroleira por habitante e da renda per capita (Rodríguez, s. d.) prenunciava a crise da dívida externa e a desvalorização do bolívar em 1983. A crise financeira ocorreria mais tarde do que na maioria dos países latino-americanos, mas seu impacto político mostrou-se mais profundo em razão de as expectativas de crescimento econômico sustentado e de melhoria das condições de vida terem-se incorporado profundamente ao modo de pensar dos venezuelanos. A crise econômica, além disso, tornou-se mais prolongada, sendo acompanhada por uma contínua deterioração das condições de vida da maioria da população por mais de duas décadas. A renda per capita em 1997 era 8% menor do que em 1970. A renda do trabalhador, durante esse período, reduziu-se para aproximadamente a metade.

Concomitantemente, agravava-se o problema da má distribuição de renda. A participação do capital na renda, derivada da produção, cresceu em torno de 15%, acarretando com isso um substancial aumento do poder do capital em 15

relação ao trabalho (Rodríguez, s. d.). De acordo com algumas estimativas, a pobreza total no país praticamente dobrou entre 1984 e 1991, passando de 36% da população para 68% dela (Martel, 1993). O impacto negativo dessas mudanças sobre a cultura política dos venezuelanos foi profundo.

UMA SOCIEDADE DIVIDIDA
Uma sociedade cada vez mais dividida foi ganhando contornos nítidos na Venezuela. Formas históricas antigas e recentes de divisões e exclusões sociais, esquecidas pelo discurso político dominante e pela cultura política nacional, passaram agora a ser elementos da realidade difíceis de se ignorar. Como em outros lugares da América Latina, a segregação social tornou-se mais visível nas áreas urbanas. Um sentimento de insegurança generalizou-se por toda a população, constituindo "(...) uma emergente cultura da violência (...) muito diferente da cultura da tolerância e paz que predominou na sociedade venezuelana do passado" (Briceño León et alii, 1997: 213). Ao lado do desemprego, a segurança individual passou a ser vista pela população como um dos problemas mais sérios do país. Entre 1986 e 1996, o número de homicídios por 10.000 habitantes saltou de 13,4 para 56,0 ─ um aumento de 418%! ─ sendo a maioria das vítimas constituída por jovens do sexo masculino (San Juan, 1997: 232-233). Inúmeras ruas dos bairros de classe média e alta foram fechadas e "privatizadas"; grades e cercas elétricas surgiram em casas e prédios de apartamentos nessas áreas. A ameaça representada pela "classe perigosa" tornou-se um assunto central nos meios de comunicação ─ tratado não poucas vezes em tons racistas ─ exigindo que medidas drásticas fossem tomadas, incluindo-se a pena de morte ou a execução sumária pela polícia. Tais processos de exclusão, segregação e fragmentação levaram a uma decomposição socioeconômica ─ sobretudo nas cidades ─ bem como a uma decomposição dos mecanismos e formas tradicionais de socialização e integração social ─ particularmente, a família, a escola e o trabalho. Ao mesmo tempo, novos tipos de socialização alternativa surgiram para enfrentar o desafio de sobreviver em condições adversas extremas (Pedrazzini & Sánchez, 1992). Os benefícios trazidos pelo crescimento econômico do país, como saúde, educação, moradia, salários melhores e a perspectiva de ascensão 16

social, até então vistos pelos setores populares como algo realmente possível para um futuro melhor, mostravam-se agora inacessíveis. A pobreza e a exclusão deixaram de ser consideradas como fenômenos temporários de uma sociedade "em desenvolvimento", ou como condições transitórias que podiam ser superadas através do esforço individual. Tais condições, próprias de épocas de crise, foram-se tornando aspectos permanentes da sociedade venezuelana. Trata-se aqui não da exclusão de uma minoria ─ que pudesse ser classificada como "marginal" em relação ao conjunto da sociedade ─ mas das condições de vida e de reprodução cultural da imensa maioria da população. O resultado disso foi o desenvolvimento do que Ivez Pedrazzini e Magaly Sánchez chamaram de "a cultura da urgência". Segundo eles, passou a vigorar uma cultura prática de ação, na qual a economia informal, a ilegalidade, a ilegitimidade, a violência e a desconfiança da sociedade oficial são elementos comuns. Para Alejandro Moreno (1995), esse universo cultural diferente surge como um mundo da existência popular tido como outro ─ diverso da modernidade ocidental ─ organizado segundo uma estrutura familiar matriarcal, com diferentes concepções de tempo, trabalho e comunidade, bem como uma racionalidade de relações (voltada para a comunidade) distinta da

racionalidade abstrata da sociedade dominante. Esse contexto cultural é pouco compatível com o modelo de cidadania associado às democracias liberais do Ocidente. A legitimidade decrescente do sistema político, evidente desde o princípio dos anos de 1980, indicou à elite venezuelana a necessidade de reformar o Estado, de estrutura presidencialista e centralizada, e que se mostrava cada vez mais ineficiente, corrupto e incapaz de responder às demandas de uma sociedade mais complexa. Políticos de diversos matizes esposaram os objetivos de modernização e democratização, mais tarde entendidas implicitamente como descentralização. A Comissão Presidencial para a Reforma do Estado, criada em 1984, tornou o propósito de descentralização uma prioridade. Assim, enquanto a sociedade ia-se fragmentando, a ideia de promover mudanças institucionais para tornar o sistema político venezuelano mais descentralizado, mais democrático e participativo passou a dominar o debate político.

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Em uma sociedade cada vez mais caracterizada pelo apartheid social ─ que assumia a forma de uma severa exclusão econômica, de fissuras culturais e de identidades individuais e coletivas diferenciadas ─ as reformas políticoinstitucionais não podiam representar senão uma limitada e parcial contribuição à construção de um sistema político nacionalmente integrado. De um ponto de vista jurídico e institucional, eram necessários novos mecanismos efetivos de incorporação e participação. Além de medidas para descentralizar o Estado, essas reformas incluíam eleições diretas para prefeitos e governadores e promoveram o surgimento de novas lideranças locais e regionais, o que trouxe um ar renovado ao sistema político do país (López Maya & Lander, 1996: 174). Não obstante, o processo de exclusão econômica e social provou ser muito mais poderoso do que o efeito democratizante dessas reformas políticas. Assim, deparamo-nos com o aparente paradoxo de uma sociedade crescentemente dividida, mas cujo debate principal, promovido por sua elite política, centrava-se no tema da democratização institucional. Como, porém, esse debate não foi capaz de lidar com as determinantes estruturais e culturais da exclusão e da ilegitimidade política, aquilo que aparentava ser ideias profundamente enraizadas sobre democracia e sociedade teve de ser questionado. Os ideais da socialdemocracia e da democracia-cristã

(respectivamente, dos partidos Ação Democrática e Copei), que por décadas estiveram em posições diferentes no espectro político venezuelano, foram sendo permeados, durante a década de 1990, por novos significados derivados dos arcabouços ideológicos neoliberal e neoconservador. Um discurso antipolítico e antipartidário difundiu-se pelos meios de comunicação,

estabelecendo uma oposição maniqueísta entre o Estado (descrito como corrupto, ineficiente e clientelista) e uma mítica sociedade civil (que incluía os meios de comunicação), entendida como a síntese de todas as virtudes: criatividade, iniciativa, eficiência, honestidade e participação. O novo sujeito paradigmático dessa "democracia de cidadãos" que iria substituir a "democracia de partidos" era o cidadão-vizinho, concebido a partir da experiência das organizações de moradores dos bairros de classe média e alta dos grandes centros urbanos (Lander, 1996a: 55-56). A principal preocupação dessas organizações tem sido a defesa da propriedade e a proteção pessoal em relação aos perigos representados pelos setores 18

excluídos da

população.

O

horizonte normativo

para

tal

concepção

conservadora de democracia é o de uma sociedade apolítica, desprovida de debates ideológicos, e na qual os principais interesses do governo se voltam para a eficiência e a honestidade da administração, de tal forma que a participação e a tomada de decisões a respeito do bem coletivo sejam estritamente um assunto de âmbito local. A economia deve ser vigorosamente protegida das exigências "demagógicas e irresponsáveis" feitas em nome da democracia. Todas as políticas de conteúdo social e redistributivo adotadas pelo Estado caem sob suspeita de "populistas". As organizações sociais e políticas (partidos e sindicatos) que, em décadas anteriores, serviram de canais fundamentais de expressão para as demandas populares não apenas entraram em crise como também passaram a ser tratadas, no novo discurso político, como ilegítimas. Para esse modelo de cidadania, a imagem paradigmática é a do bairro de classe média e média-alta, com suas especialidades profissionais, acesso aos meios de comunicação, relações políticas pessoais e o uso da internet como um instrumento de organização. Em razão da crescente deslegitimação de todas as políticas públicas redistributivas e da maioria das políticas sociais, os setores desfavorecidos da população nacional possuíam poucas oportunidades de articulação e expressão de seus interesses. A esse modelo político caberia chamar ─ parafraseando Bonfil Batalla (1990) ─ de Venezuela imaginária, um modelo absolutamente apartado da Venezuela profunda ─ o da realidade cotidiana da maioria da população do país. A profunda fissura na sociedade venezuelana adquire uma expressão mais precisa na explosão social de fevereiro de 1989, conhecida como o Caracaço. Nas principais cidades do país, ocorreram saques em uma escala nunca antes vista na história da Venezuela. A ampla repressão militar que se desatou em resposta provocou a morte de centenas ─ se não milhares ─ de pessoas. Esses distúrbios populares constituíram o ponto de ruptura simbólico da legitimidade do regime democrático associado com o Pacto de Punto Fijo, iniciado em 1958 (López Maya & Gómez Calcaño, 1989). A ausência de uma oposição popular às tentativas de golpe de fevereiro e novembro de 1992 confirma a decomposição e a ilegitimidade crescente de um sistema político que havia sido considerado como um modelo para a América Latina. 19

O Caracaço coincidiu com a imposição ao país de rígidas medidas de política econômica pelas organizações financeiras multilaterais ─ medidas muito similares àquelas infligidas à maioria dos outros países do continente. Diante de uma grave crise das reservas internacionais, somada a deficits fiscais, comerciais e de balanço de pagamentos ─ e acrescida ainda de uma dívida externa impossível de ser paga nessas condições ─ o governo de Carlos Andrés Pérez (1989-1993) assinou uma Carta de intenções com o Fundo Monetário Internacional. Andrés Pérez comprometeu-se a levar a cabo uma política ortodoxa de ajuste estrutural, apesar de haver recorrido durante a campanha presidencial às imagens de abundância de seu primeiro governo (1974-1979). Esses acordos não foram submetidos à consulta parlamentar e se tornaram públicos apenas depois de haverem sido firmados (Lander 1996b: 5253). A significação dessa política de ajuste estrutural deve ser entendida como estando relacionada às tendências globais do capitalismo. Concomitantemente a uma ampla transferência de recursos para o capital financeiro e a medidas envolvendo abertura de mercado, privatizações e desregulamentação, o alcance das decisões em nível nacional a serem tomadas através de procedimentos democráticos viu-se drasticamente reduzido (Lander, 1996b: 66-68). Durante os três anos de implantação da política de ajuste estrutural, a distribuição regressiva de riqueza e de renda e os níveis de pobreza deram um preocupante salto qualitativo (Lander, 1996b: 63-66; Valecillos, 1992: 205). Indubitavelmente, as transformações no setor petroleiro foram as mais expressivas. Como resultado da crise do desenvolvimento do país após 1983, o Estado foi paulatinamente perdendo o controle sobre a exploração petrolífera (Mommer, 2003). A companhia estatal Petróleos da Venezuela S.A. (PDVSA) começou a impor seu próprio programa de administração, deixando de lado seu papel como uma empresa pública para ir-se tornando, cada vez mais, uma corporação transnacional adepta da agenda liberalizante das instituições econômicas multilaterais, como o Banco Mundial e o FMI. A companhia venezuelana alcançou êxito na reorientação de sua atividade ao pôr em prática as seguintes medidas: a) abertura do setor petroleiro ao investimento estrangeiro direto e limitação das possibilidades de participação do capital privado nacional; b) substituição da política de defesa dos preços da OPEP por uma política de atração dos mercados através da oferta de quantidades 20

crescentes de petróleo a preços mais baixos; c) descumprimento dos compromissos do país com a OPEP quanto às cotas de produção, e realização de um esforço contínuo para retirar a Venezuela dessa organização (ou tornála irrelevante); d) introdução (apesar de sua evidente inconstitucionalidade) de cláusulas para arbitração internacional sobre contratos assinados com investidores estrangeiros; e e) substituição do sistema de compensações especiais requerido das empresas privadas para exploração de recursos não renováveis com um regime liberal de índices de impostos similares aos de qualquer outra atividade econômica (Mommer, 1999: 70-98). Tudo isso se traduziu em uma significativa redução na capacidade do Estado de regular a atividade petroleira e na de participar dos ganhos proporcionados por esse setor. Tal política de ajuste estrutural demonstra que o sistema político venezuelano, juntamente com seus equivalentes em outros países da região, encontrou seu poder de tomada de decisões limitado por forças políticas e econômicas internacionais. Essa situação adversa muniu de um significado especial os slogans de Chávez relativos à autonomia nacional e popular, o que explica, em grande medida, o imenso apoio que lhe dá o povo e, igualmente, a forte resistência que sofre seu governo por parte dos setores da elite do país.

OPOSIÇÃO DA VENEZUELA À ALCA
Entre as inúmeras questões que têm suscitado desavenças entre os governos venezuelano e norte-americano (por exemplo, o Plano Colômbia, a OPEP, as relações econômicas e diplomáticas da Venezuela com os países do "eixo do mal", o papel de Washington no golpe de Estado de abril de 2002, etc.), a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) mostrou ser um dos pontos mais sensíveis quanto ao acirramento das confrontações. Enquanto avançavam as negociações e crescia a oposição popular em todo o continente, a posição da Venezuela foi-se tornando mais e mais crítica ao tratado. Na Terceira Cúpula das Américas, realizada em Quebec no mês de abril de 2001, pela primeira vez a declaração final não foi aprovada por unanimidade pelos chefes de Estado dos 34 países representados. A Venezuela levantou ressalvas em sua posição tanto sobre o programa de negociação da ALCA

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quanto sobre a definição de democracia, tida como exclusivamente democracia representativa. Outras críticas ao processo de negociação da ALCA foram ainda formuladas no Encontro Ministerial em Quito, em novembro de 2002, no qual exigiu-se transparência nas negociações e fez-se notar que a Constituição venezuelana (Artigo 73) requeria a convocação de um referendo nacional antes que uma decisão política dessa importância fosse tomada (Rosales Linares, 2002). Uma apreciação crítica global à ALCA foi apresentada na reunião da Comissão de Negociações Comerciais, em Puebla em abril de 2003. Em 2003, a oposição aos aspectos principais da ALCA já se havia estendido para além dos movimentos sociais, alcançando alguns governos da região. Em resposta a essa crescente resistência, os defensores da ALCA apresentaram, em Miami (novembro de 2003), a proposta de um tratado em dois níveis: o primeiro seria uma versão atenuada do tratado com todos os países participantes; apenas os países que desejassem assumir integralmente os compromissos da ALCA fariam parte do segundo nível. As negociações, no início de 2004 em Puebla (México), malograram sem que se chegasse a uma declaração final. A relutância do governo norte-americano em aceitar negociações sobre a questão dos grandes subsídios aos seus produtores agrícolas nacionais, ao passo que ele próprio insistia na abertura de mercados de outras nações do hemisfério, representou o principal obstáculo ao acordo. Reuniões informais em Buenos Aires, no começo de 2005, também não levaram a nenhum progresso. Em uma tentativa derradeira de salvar o plano da ALCA, o presidente George Bush buscou um acordo durante a Cúpula das Américas, em Mar del Plata (Argentina), em novembro de 2005. Os esforços de Bush viram-se frustrados diante da resistência popular, cujas amplas manifestações incluíram representantes de movimentos sociais de toda a América, além da forte oposição exercida pelos presidentes da Venezuela e das nações do MERCOSUL (Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina), que compareceram à cúpula. As negociações da ALCA pareciam finalmente sepultadas.

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CONCLUSÃO
O fenômeno político representado por Chávez deve ser entendido a partir da ruptura fundamental ─ tanto material como cultural ─ entre as elites e os setores populares da sociedade venezuelana, ruptura que se foi agravando durante os últimos governos. As políticas neoliberais da década de 1990 acentuaram a exclusão e as desigualdades no interior da nação. As expectativas geradas nos primeiros anos do regime democrático fundado em 1958 revelaram-se um patente malogro, e os avanços iniciais rumo a uma sociedade mais democrática sofreram um grave retrocesso. A palavra de maior importância nos discursos de Hugo Chávez ─ à qual, aliás, ele recorre insistentemente nos mais diversos contextos ─ é povo, um termo tomado no sentido de popular e nacional. Chávez frequentemente emprega a expressão "o soberano" como sinônimo de "o povo". Esse apelo reiterado ao popular e ao nacional (apelo no qual o presidente defende a soberania invocando os mitos de fundação da nação) tem suscitado interpretações e reações contrastantes entre os diversos setores da sociedade venezuelana. Para as classes média e média-alta e também para uma grande parcela de intelectuais do país, esse apelo à soberania é uma fonte de divisão e de animosidade, responsável por instigar a separação entre ricos e pobres. Daí resultaria a ameaça à estabilidade democrática, à segurança pessoal e à propriedade. Os padrões de consumo desses setores médio e alto, seus princípios e a estima da "boa vida global moderna" parecem mais próximos dos que prevalecem nos países centrais. Não surpreende, pois, que eles concordem com a caracterização que faz Washington do nacionalismo de Chávez como um anacronismo no mundo globalizado, ou como um retorno a posturas inviáveis e historicamente obsoletas de Terceiro Mundo. Em larga medida, os setores populares interpretam esse discurso em termos opostos aos dos setores mais altos. Em sua leitura do discurso chavista, as divisões na sociedade venezuelana e a exclusão a que está submetida a maioria da população não são simplesmente um produto das propostas de Chávez. Ao contrário, o reconhecimento que o chavismo faz do grande vazio que existe entre ricos e pobres e o constante apelo à maioria (o povo, o soberano) provocam um poderoso efeito integrador. Mesmo não tendo

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havido uma melhoria das condições materiais da maioria da população durante os primeiros cinco anos do governo de Chávez, o presidente continuou a ser uma figura popular entre os setores desprivilegiados, justamente porque seu discurso simbolicamente integrativo conseguiu cultivar um extraordinário sentido de se pertencer à sociedade. A invocação do nacional (e dos líderes fundadores da nação), longe de ser vista como um anacronismo, contribui para um poderoso sentido de identidade. Tem havido, no entanto, muito mais do que apenas um "mero" efeito integrador simbólico, como muitos pretendem desqualificá-lo. Para um grande número de desprivilegiados, novos níveis históricos de participação e organização foram alcançados e ─ o que talvez seja ainda mais significativo ─ o processo difuso de descolonização cultural parece ganhar espaço entre eles. As extensas experiências de mobilização e organização, bem como as expressivas transformações políticas e culturais envolvendo a maioria excluída da população, representam certamente as mais significativas mudanças na sociedade venezuelana de hoje. Vai além dos propósitos deste texto a pretensão de analisar o grau de consistência do discurso de Chávez, a relação entre seu discurso e as principais forças que favorecem as mudanças políticas e a orientação do governo, ou a viabilidade de suas propostas no contexto geopolítico global em que se insere a Venezuela. Contudo, podemos sugerir algumas ideias. Por diversas razões, muitas das expectativas materiais da população em relação ao governo de Chávez não se confirmaram. Apenas a partir de meados de 2003, com os amplos programas sociais conhecidos como missões ─ alfabetização, acesso ampliado à educação em todos os níveis, reforma agrária, programas de saúde comunitária, emprego e promoção de cooperativas ─ (programas, aliás, que se tornaram possíveis graças aos preços crescentes do petróleo no mercado mundial), é que, de fato, as coisas começaram a mudar. No que tange ao governo, suas maiores deficiências podem ser atribuídas à falta de um partido político realmente organizado e, também, à ausência de um projeto econômico e político que seja prático e viável para o país. Do mesmo modo, tem faltado ao governo um esforço político contínuo de construção de coalizões, voltadas a expandir a base de apoio do governo junto à classe média e a alguns setores da comunidade de negócios. A isso tudo deve-se acrescentar uma condução carente de 24

experiência ─ quando não corrupta ─ do aparato estatal, marcadamente frágil e ineficiente. Em muitas áreas do governo, é a improvisação que tem predominado. O declínio da economia mundial durante os primeiros anos do governo de Chávez tornou as coisas ainda piores. O discurso radical e de confrontação de Chávez, embora eficaz no que se refere a congregar o apoio popular, vem contribuindo para a profunda desconfiança da comunidade de negócios e das classes média e alta. Desde os últimos meses de 2001, essa retórica tem sido sistematicamente caracterizada pelos meios de comunicação e por amplos setores da oposição como sendo uma ameaça autoritária castrista-comunista à liberdade e à propriedade. Mesmo que a nova Constituição tenha outorgado um amplo papel à empresa privada e, do mesmo modo, tenha estabelecido garantias à propriedade privada (a palavra socialismo estava inicialmente ausente do discurso de Chávez), parcelas significativas desses setores têm levado muito a sério esses riscos. Em consequência, vem aumentando extraordinariamente o nível de organização e mobilização das classes média e alta. Uma intensa cruzada através dos meios de comunicação e da internet está contribuindo para a criação de altos níveis de inquietação, e mesmo de paranoia, em torno dos iminentes perigos representados pelas multidões de chavistas, que supostamente estariam prontas para tomar de assalto a vizinhança e saquear as casas. O sonho, longamente acalentado, de uma sociedade em que as classes média e alta pudessem continuar seu caminho rumo à cidadania global e à abundância do Primeiro Mundo, enquanto mantinha-se a submissão dos segmentos excluídos como garantia de legitimidade e estabilidade do poder delas, chegou finalmente a seu termo. O mito de uma verdadeira integração social e de uma genuína cidadania sem que ocorressem alterações significativas na distribuição de poder entre as classes tornou-se insustentável. Assim, minaram-se as bases do chamado excepcionalismo venezuelano. A celebrada democracia racial e social do país, tal como se expressava nas relações familiares e nos contatos informais em vários setores da sociedade, revelou-se uma superficialidade apenas. A exclusão social e as expressões depreciativas baseadas na raça e na classe social ─ antes publicamente raras, mas presentes nas conversas privadas e nas pilhérias cotidianas ─ atingiram o 25

status de um autêntico discurso político público, quando os setores excluídos mobilizaram-se e se recusaram a aceitar o lugar que lhes impunham na hierarquia social. Um outro mito ─ o de um país com uma cultura política de centro e centro-esquerda, sem tendências conservadoras ou de direita ─ também se esvaiu rapidamente. Foi nesse contexto de extrema polarização política e desconfiança mútua que grande parte dos setores de oposição procurou derrubar o governo pelos meios de que dispunham. Desse modo, muitos dos assim chamados setores democráticos oposicionistas exigiram reiteradamente que as forças armadas interviessem para depor Chávez. As tentativas de deposição falharam, mas a violência, a polarização política e a instabilidade tornaram-se mais graves. Em conclusão, duas questões são ainda dignas de nota no processo político atual da Venezuela. Primeiramente, Chávez e seu governo vêm dando uma importância renovada a alguns temas essenciais, que não podem ser postos de lado em nenhuma estratégia visando mudanças efetivas nem em debates sobre os desafios à construção de sociedades mais democráticas em nosso continente. Questões tais como soberania nacional, desenvolvimento autônomo, igualdade, integração social e a necessidade de a democracia participativa transcender as limitações da democracia representativa ganharam destaque. Nesse processo, Hugo Chávez tem sido alvo da desconfiança de grupos influentes por todo o continente. Talvez o que mais preocupe o governo dos EUA seja o fato de que o presidente venezuelano venha despertando interesse entre os setores populares na América Latina e, igualmente, que ele tenha demonstrado que eleições podem ─ em circunstâncias adequadas ─ ser empregadas para desafiar o Consenso de Washington, como ocorreu no caso da eleição de Evo Morales na Bolívia. Em segundo lugar, o contexto geopolítico global da atualidade, marcado pela nova estratégia norte-americana de segurança nacional e de "ataques preventivos" a inimigos em potencial, estabelece severas limitações às opções nacional-populares em todo o mundo. Isso lança uma profunda incerteza sobre o futuro do país. Irá Washington decidir que a Venezuela é um Estado perigoso e que pertence ao "eixo do mal"? Os EUA reagirão de acordo com sua estratégia de segurança? Esta

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possibilidade parece ser a esperança de setores majoritários da oposição venezuelana.

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VIGÊNCIA DO NACIONALISMO PETROLEIRO VENEZUELANO5

CARLOS MENDOZA POTTELLÁ

Na Venezuela, a exploração dos hidrocarbonetos (petróleo e gás, sobretudo), determinada historicamente pelos vínculos indissolúveis entre o Estado venezuelano e o capital petroleiro internacional, vê perdurar ainda em nossos dias todas as contradições próprias de sua origem e de sua condição de enclave. Mesmo hoje, os hidrocarbonetos continuam sendo o componente absolutamente majoritário do "setor externo" da economia nacional e o vetor fundamental das receitas de exportação do país. Continuam, também, sendo desenvolvidos em função da demanda dos mercados internacionais e a partir de uma indústria capital-intensiva, com uma acentuada dependência da tecnologia e de insumos do exterior e, por conseguinte, com relativamente escassos encadeamentos internos. Nos dias atuais, quando se opera uma mudança no rumo aceleradamente desnacionalizador imposto pela administração Caldera-Giusti6 (1994-1998), quando se realizam esforços por diversificar as fontes dos investimentos estrangeiros ─ com a incorporação de capitais russos, chineses, brasileiros, noruegueses, franceses, espanhóis, etc. ─ essa participação estrangeira continua a ser um dos elementos mais dinâmicos no

desenvolvimento da indústria petroleira, com um papel destacado na maioria dos novos projetos da Petróleos da Venezuela S.A. (PDVSA).

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Texto original: Vigencia del nacionalismo petrolero. Revista Venezolana de Economía y Ciencias Sociales, 2006, vol. 12, nº 1 (jan.-abr.), pp. 183-207. 6 Rafael Caldera foi, por duas vezes, presidente da República da Venezuela em 1969-1974 e 1994-1999, quando então foi sucedido por Hugo Chávez Frías. Durante o segundo mandato de Caldera, Luis E. Giusti presidiu à PDVSA (Petróleos de Venezuela S. A.), a grande empresa estatal petrolífera do país. (N. do Trad.)

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Essas condições reais penetram e determinam o sentido e conteúdo do conjunto de relações socioeconômicas e políticas estabelecidas em torno dos hidrocarbonetos venezuelanos e, de maneira particular, das políticas que o Estado venezuelano define sobre a matéria. Contudo, uma firme e clara vontade política nacionalista, como a demonstrada até agora pelo governo bolivariano de Hugo Chávez, pode, por exemplo, impedir que regressemos aos nefastos dias da abertura petroleira e da importação de custos e exportação de benefícios por via da "internacionalização". Assim, é neste quadro histórico de contradições que podemos encontrar a perspectiva necessária para analisar os trinta anos de um dos acontecimentos que constituem um marco histórico dessa política: a "nacionalização" petroleira. Referir-me a esse evento empregando aspas pode parecer uma caprichosa irreverência. Não obstante, com o recurso a esse sinal gráfico queremos apenas destacar nossa percepção particular ─ estudada e sustentada durante todos esses anos ─ sobre tal acontecimento e suas consequências. Percepção de uma realidade que muitos compatriotas vêm descobrindo e compreendendo melhor principalmente a partir dos golpes petroleiros de 2002 e 2003, mas que continua oculta para a maioria das pessoas, em virtude da pressão exercida pela poderosa matriz de opinião do poder petroleiro. Trata-se, com efeito, de que, em 1º de janeiro de 1976, iniciou-se um processo de desarticulação do sentimento e do movimento nacionalistas, que inspiraram as lutas de insignes pensadores venezuelanos e semearam sonhos de independência econômica plena, sonhos que várias gerações abrigaram desde os anos de 1920. Mas, trata-se também de que, para além da mera frustração intelectual do ideário nacionalista, nessa mesma data começa-se a pôr em execução uma das maiores e mais efetivas estratégias de que temos notícia em nossa história, orientada para a redução paulatina e progressiva da participação nacional nos benefícios do comércio do principal patrimônio coletivo venezuelano. Em meio a toda a pompa da "nacionalização", tem início o esforço de obliteração de todas as conquistas laboriosamente alcançadas, entre avanços e retrocessos, pela política petroleira de inspiração nacionalista durante o lapso de 1920 a 1973: primeiro, a eliminação do controle e da fiscalização total da 31

indústria por parte do Ministério de Minas e Hidrocarbonetos, e, depois, a degradação da regalía (royalty) e das taxas do Imposto sobre a Renda.7 A "antecipação da reversão" para o ano de 1976 resultou no completo malogro do caminho iniciado por Pérez Alfonso com a Corporação Venezuelana de Petróleo (CVP) e o principio de "sem mais concessões", caminho que, apoiado definitivamente na Lei sobre Bens sujeitos à Reversão, devia concluir-se em uma autêntica nacionalização no ano de 1983. Essa "antecipação" permitiu, entre outras coisas, estender a presença das transnacionais na indústria petroleira venezuelana para além da área concessionária, atingindo a área sedimentária do país que até então constituía a "reserva nacional" venezuelana, destinada a ser operada exclusivamente pela empresa petroleira estatal. A "antecipação" deu ensejo também a que se instalassem na cúpula de diretores da indústria "nacionalizada" os Creole-men e Shell-men nativos, verdadeiros e demoníacos "bebês de Rosemary", no melhor estilo de Roman Polansky: sujeitos que até 31 de dezembro de 1975 defenderam raivosamente os interesses de "suas" transnacionais petroleiras, e que agora, em 1º de janeiro de 1976, mudavam os trajes sem tocar na ideologia empresarial e nos vínculos com suas antigas casas matrizes. Constituíram-se em autênticos cônsules e protetores dos interesses dessas corporações, primeiramente dentro das novíssimas operadoras, e, em seguida, dentro da própria PDVSA. A avaliação do lapso de tempo decorrido desde então, pródigo de acontecimentos entre os quais ressalta o contínuo retrocesso das posições oficiais de defesa do interesse nacional, acrescido das exigências cada vez maiores do mercado petroleiro sobre a Venezuela e a consequente multiplicação, ao longo desses anos, de projetos de investimentos com escassa ou nenhuma rentabilidade para a Nação, cujas nefastas

consequências padecemos ainda hoje, nos leva a constatar que também em nossos dias, como em épocas anteriores, o grande capital internacional segue
7

Em particular, a taxa do Imposto sobre a Renda havia ascendido dos 9% iniciais, em 1943, aos 71%, em 1970, tendo alcançado um auge adicional com a implantação, em 1971, do Valor Fiscal de Exportação (VFE), carga adicional que se obtinha ao calcularem-se os impostos devidos pelos concessionários a partir de um valor que era 30% superior aos ínfimos preços "de realização" declarados para tais fins, os quais não eram senão o produto da "engenharia financeira" dessas companhias para minimizar seus pagamentos. Esse VFE também foi liquidado no fragor em meio ao qual se deu a abertura da "nacionalização".

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movendo as peças, dentro e fora do país, para neutralizar a manifesta vontade política nacionalista, expressa reiteradamente pelo atual governo desde 1999. Do mesmo modo, esse capital estrangeiro busca impor à indústria petroleira venezuelana relações e condições contratuais e políticas de tipo lesivo ao interesse nacional, como as que se firmaram desde 1976 e se tornaram uma realidade cada vez mais acentuada nas décadas de 1980 e 1990. Por esse motivo, hoje ─ como sempre ─ devem vigorar as exigências de transparência nas negociações que inevitavelmente se travam e se travarão com os centros do poder mundial. E hoje, mais do que nunca, quando os recursos petroleiros se revalorizaram, alcançando em termos reais os níveis de preços equivalentes ou próximos dos máximos históricos de princípios dos anos 1980, tendo ocorrido um salto histórico que coloca os preços em um piso mínimo de 50 dólares por barril, os venezuelanos devem manter-se alerta ante os cantos de sereia e distinguir com clareza o âmbito e os limites da verdadeira conveniência nacional na questão. Sobretudo, não devemos esquecer que, a despeito de contarmos com um número maior de rótulos nacionais quanto à procedência dos novos investimentos estrangeiros, o capital petroleiro, como qualquer outro capital, não tem pátria, e os padrões com que se medem sua eficiência e rentabilidade, na inexorável busca da maximização dos lucros, são sempre os mesmos, sejam eles capitais russos, chineses ou norte-americanos. E, precisamente, tendo-se em conta que, devido à proliferação de novos projetos e programas de investimento, continuamos obrigados a estabelecer vínculos com esses capitais, devemos fortalecer nossa capacidade de negociação. Ademais, a difícil situação a que nos conduziram os últimos trinta anos é tal que o país e sua liderança política e petroleira atual se encontram compelidos a reverter as consequências negativas ─ do presente e do futuro ─ dos programas e projetos implantados pela elite gerencial de mentalidade privatista que chefiou a empresa petroleira estatal entre 1976 e 2002. Essa camarilha impôs, de fato, o rumo da política petroleira venezuelana, passando por cima de decretos, leis e disposições dos poderes Executivo e Legislativo, contrariando abertamente os princípios que deram forma à política petroleira nos cinquenta e cinco anos anteriores a 1976, e constituindo um poder paralelo sem controle externo ─ um Estado dentro do Estado. Um "poder petroleiro", como demos de chamar, e que definimos da seguinte maneira: 33

"A consideração fundamental que devemos ter em conta na análise dessas circunstâncias é a de que se trata de um problema político, de um problema de relações de poder, no qual um grupo peculiar, integrado por fatores privados nacionais e estrangeiros vinculados ao negócio petroleiro e a cúpulas de gerentes da empresa pública, tem conseguido impor como verdades indiscutíveis um conjunto de postulados que mescla circunstâncias objetivas com uma dose considerável de falácia. Tais postulados formam parte de um programa definido, que tem como ideia norteadora a de expansão constante do negócio petroleiro ─

independentemente da pertinência macroeconômica e do rendimento fiscal dessa expansão ─ e a crescente privatização das atividades primárias e fundamentais dessa indústria. Esse conjunto de verdades estabelecidas, que parte de concepções hoje em voga sobre a incapacidade do Estado de gerir atividades produtivas, tem uma expressão particular, a saber: 1) a carga fiscal sobre a PDVSA é excessiva. PDVSA é a empresa petrolífera que mais paga impostos no mundo. Manter essa carga fiscal equivale a perpetuar o já fracassado modelo de rentismo parasitário e a continuar alimentando um Estado paternalista e ineficiente. 2) o controle "político" sobre a indústria constitui um óbice ao desenvolvimento eficiente de seus programas. As travas burocráticas impostas pelos diversos organismos controladores, executivos e legislativos, devem ser eliminadas em benefício da autonomia gerencial para executar eficientemente seus planos e programas. Este é o caminho para uma Venezuela produtiva. 3) o melhor destino da renda petroleira é o reinvestimento no próprio setor. Não existe nenhuma outra atividade econômica na Venezuela capaz de obter vantagens comparativas e competitivas similares. Cada dólar adicional investido na indústria petroleira gera, direta e indiretamente, efeitos multiplicadores no Produto Interno Bruto superiores ao de qualquer outra aplicação. 4) a Venezuela deve caminhar para uma mais estreita associação com seus clientes desenvolvidos e abandonar associações terceiro-mundistas e de "perdedores", como a OPEP. A OPEP não tem trazido benefícios ao país e,

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além disso, impõe restrições a um desenvolvimento que tornaria a Venezuela uma das maiores potências petrolíferas do mundo. 5) para desenvolver a imensa base de recursos petrolíferos da Venezuela, é preciso desmontar todo o aparato de regulação e fiscalização que pesa sobre essa atividade industrial, porque não é possível promover o desenvolvimento apenas com recursos internos, sendo necessário, portanto, atrair o capital petroleiro internacional com propostas de rentabilidade maior do que a oferecida em outros destinos" (Mendoza Pottellá, 1996). Estes postulados do poder petroleiro formaram o coração ideológico das políticas antinacionais impostas ao país sob o manto da abertura. Esse poder, embora já não controle hoje o Estado, está ainda bem vivo e em constante atividade, suficientemente forte para poder esgueirar-se pelos interstícios de contratos, associações e licitações, para propor cursos de política em matéria petroleira inconvenientes à nação venezuelana, e, acima de tudo, para forjar ― com o concurso dos meios de comunicação de massa sob seu controle ― matrizes de opinião favoráveis a seus muito particulares "interesses econômicos e políticos". Por todas essas razões, e pela crescente evidência de que no subsolo venezuelano repousa a que provavelmente é a maior acumulação de hidrocarbonetos do globo ─ que a converteria, obviamente, em presa estrategicamente cobiçada por todos os poderes mundiais ─ é imperativo hoje restituir a vigência das lutas travadas em defesa da justa e digna participação da Nação nos resultados da exploração de seu mais valioso patrimônio coletivo. Mais do que nunca, cumpre-nos hoje resgatar e restituir a verdade histórica, tão distorcida pelos manejos midiáticos impostos pelo poder petroleiro, para se alcançar uma visão exata da realidade contemporânea e das mais prováveis perspectivas futuras. Hoje ainda, e em que pese ao evidente fracasso e terríveis consequências das políticas de abertura e desnacionalização, o nacionalismo é para muitos venezuelanos, doutrinados na prédica do poder petroleiro, uma má palavra ─ uma perigosa expressão de atraso e de resistência à modernidade ─ que põe em risco a conveniente associação com nossos clientes, tradicionais ou não. Uma tal lavagem cerebral, aliás de sucesso, penetrou fundo em algumas camadas sociais, semeando dúvidas mesmo entre as próprias fileiras 35

nacionalistas, promovendo em algumas delas atitudes que pretendem "matizar" o impacto negativo das tropelias cometidas por esse poder durante os últimos trinta anos. Asseveramos que as atitudes contemporizadoras, que propendem a abrandar e relaxar a capacidade de defesa do interesse nacional, precisam ser combatidas, denunciadas e deslindadas para que se entenda o perigo que representam à Venezuela. Com esse fim em mente, apresentamos a seguir uma visão retrospectiva, ao modo de flashback cinematográfico, do processo que nos ocupa, empenhando-nos em avaliá-lo em sua verdadeira dimensão, livre dos embelezamentos com que se têm coberto todas suas feridas.

A ANTECIPAÇÃO DA REVERSÃO
A maioria dos políticos, jornalistas e estudiosos venezuelanos da política petroleira doméstica contemporânea consideram que a "nacionalização" petroleira de 1976 foi um acontecimento que mudou o rumo tradicional da indústria petrolífera venezuelana, e na qual se impôs claramente uma das duas vertentes antagônicas que pugnavam por definir os termos da política desse setor industrial. Desse ponto de vista, tratava-se do apogeu alcançado pela vertente nacionalista, que pretendia lançar suas raízes no decreto de Simón Bolívar de 1829 (sobre os direitos de mineração do jovem Estado colombiano) e na primeira Lei de Hidrocarbonetos, de Gumersindo Torres em 1920. Dessa maneira é possível traçar ─ e com frequência se tem feito isso ─ um encadeamento histórico dessa nacionalização para apresentá-la como ponto culminante das lutas de um setor da sociedade venezuelana pelos direitos da Nação a seus recursos de hidrocarbonetos. Assim encarada, a nacionalização de 1976 é contada como uma vitória no combate contra o crescente entreguismo dos sócios, advogados e gerentes nativos das corporações petroleiras internacionais.8 Em contraposição, relataremos essa história de outro ponto de vista ― aquele que vimos sustentando por todos esses anos (Mendoza Pottellá, 1985, passim).
8

Em editoriais e artigos da imprensa venezuelana, quando cumpriram-se no mês de agosto de 2005 os trinta anos de constituição da Petroven, a futura PDVSA, apresentou-se essa visão cor-de-rosa da história, louvando-se seus heróis, como o ministro de Minas e Hidrocarbonetos da época e o primeiro presidente da empresa ― justamente aqueles sujeitos que negociaram na "comissão de concordância" as indignas renúncias à soberania que aqui pretendemos denunciar.

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Em 1943, depois de um longo debate nacional e de minuciosas negociações com as corporações norte-americanas e inglesas (e tendo a "mediação" do Departamento de Estado norte-americano), foi assinado um convênio entre o governo do general Isaías Medina Angarita (1941-1945) e essas companhias. Em cumprimento desse convênio, promulgou-se a Lei de Hidrocarbonetos, vigente até ao ano de 2000. 9 Naquela época, as companhias estrangeiras concessionárias acolheram-se aos termos dessa lei para obter, em troca, uma extensão por quarenta anos dos direitos de prospecção, exploração e produção dos hidrocarbonetos nas áreas mantidas sob seu controle desde princípios do século XX. Porém, ficava também estabelecida então (embora ninguém pensasse nisso à época) a data de 1983 ― importante data para o futuro! ― como ano final dessas generosas concessões. Posteriormente, o governo de Marcos Pérez Jiménez (1952-1958) outorgou, entre 1956 e 1957, também por quarenta anos, de acordo com os termos da citada lei, aquelas que seriam definitivamente as últimas concessões que as corporações estrangeiras receberiam na Venezuela. Estas concessões chegaram a representar uma quinta parte do total concedido. Em 1961, por inspiração do doutor Juan Pablo Pérez Alfonso ― segundo a política petroleira orientada por seu Pentágono de Ação, que incluía entre outras coisas a criação da Corporação Venezuelana do Petróleo (CVP) e da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) ― o Congresso Nacional, ao promulgar a nova Constituição, estabeleceu a norma pela qual não seriam feitas mais concessões de hidrocarbonetos sem a aprovação por maioria qualificada (duas terças partes) do Congresso em sessão conjunta (art. 126). O império deste artigo constituiu-se na concretização da política de sem mais concessões, defendida por Pérez Alfonso. Em meados de 1971, o Congresso Nacional ― também alentado por Pérez Alfonso e enfrentando as ameaças das corporações petroleiras ― aprovou a Lei sobre Bens sujeitos à Reversão, segundo a qual ficavam totalmente identificados e quantificados os ativos da indústria petroleira que iriam ser revertidos à Nação ao final das concessões, assim como estabelecia9

Juan Pablo Pérez Alfonso fez sua primeira aparição pública nesta matéria ao dar seu voto de dissensão no Congresso, na época. Rómulo Betancourt satirizou a Lei resultante, chamando-a "lei-convênio", em alusão ao fato de que fora acordada previamente à sua apresentação ao Congresso e não admitia modificações.

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se a obrigação das concessionárias de mantê-los em plena capacidade operativa até ao momento de sua reversão em 1983 e de formar um fundo para garantia dessa manutenção. Em razão de tudo isso, 1983 revelou-se um ano transcendente, cuja importância começava a ser assumida com crescente consciência pelos venezuelanos já nas décadas precedentes de 1960 e 1970. Neste ano mítico, reverteriam à Nação, sem possibilidade de renovação e sem nenhuma indenização, 80% das concessões feitas às transnacionais petroleiras. Em outras palavras, a Venezuela passava a ser dona diretamente de 80% da indústria petroleira estabelecida em seu território. E, em 1996-1997, seriam revertidos os outros 20% concedidos por Pérez Jiménez. O ano de 1983 era, portanto, segundos os sonhos de então, o ano em que principiaria, com todo o ímpeto, o arranque definitivo do país rumo à liberdade econômica e ao desenvolvimento. Não obstante, a dinâmica tradicional da política petroleira internacional, marcada pela vontade das corporações de impor uma transição feita à sua imagem e semelhança, determinou que essa "reversão" ― disposta na Lei de Hidrocarbonetos de 1943 e completamente regulamentada pela Lei de Reversão de 1971 ― fosse antecipada para 1976. Em consequência disso, a nacionalização da indústria petroleira que ilustres venezuelanos tentaram conduzir em 1975, com o projeto de lei apresentado pela Comissão de Reversão10, designada pelo então presidente da República Carlos Andrés Pérez, foi frustrada pela posterior promulgação (com sensíveis modificações no projeto original) da Lei Orgânica que Reserva ao Estado a Indústria e o Comércio dos Hidrocarbonetos. Esta se viu convertida em seu oposto como resultado de um processo subterrâneo de ajustes e acordos, mediante o qual, por trás da pública conquista jurídicopolítica de expropriação das antigas concessionárias, promovia-se a

manutenção, modernização, ampliação e intensificação dos mecanismos de
10

Os membros desta comissão representavam quase todo o espectro político e social venezuelano da época. Discutiram-se vários projetos, em particular os dos partidos MEP e COPEI, centrando seus debates em temas como o montante da indenização, o lucro cessante e a possibilidade de constituição de empresas mistas para gerir as atividades reservadas ao Estado. Entre seus membros, destacavam-se personalidades como D.F. Maza Zavala, Gastón Parra Luzardo, Aníbal Martínez, Álvaro Silva Calderón, Radamés Larrazábal, Freddy Muñoz, Hugo Pérez La Salvia, Reinaldo Cervini, Celestino Armas, Luis Enrique Oberto, Rafael Tudela, Alfredo Paul Defino , Julio César Arreaza e Humberto Peñaloza.

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controle sobre os recursos petrolíferos venezuelanos por parte do capital transnacional, garantindo-lhe ainda o pleno retorno ― triunfantemente executado no início dos anos 1990, durante a euforia da abertura petroleira ― através da modificação do artigo 5º da Lei. Gastón Parra Luzardo (1998, 39-65) realizou uma detalhada descrição dos debates no seio da Comissão de Reversão, pondo em evidência as pressões da FEDECÁMARAS e da Agropet11 para alterar o projeto apresentado e inserir nele a referida modificação. As conclusões desse estudioso são claras e fundamentam a opinião que aqui defendemos: "(...) dava-se início, por parte do Executivo Nacional, ao caminho de concretizar uma 'nacionalização aparente', adulterando a essência de uma nacionalização integral, genuína, própria, tal como havia sido proposta pela Comissão de Reversão. Em consequência, a proposta do Executivo Nacional distorce a finalidade própria da nacionalização petroleira e, portanto, não corresponde em essência a um genuíno ato de soberania nacional (loc. cit., p. 42)". Desde os tempos da New York & Bermúdez, o destino dos hidrocarbonetos venezuelanos havia sido a resultante de uma relação dialética, com um constante movimento pendular, entre a harmonia e o conflito. Seus protagonistas ― o capital petroleiro internacional e o Estado venezuelano ― retesavam as cordas no momento de discutir as condições da associação, mas nunca chegavam a rompê-las. A "nacionalização" de 1976 não modificou as características tradicionais de tais relações e, por conseguinte, a permanente reivindicação nacional de uma justa participação nas atividades do petróleo foi, uma vez mais, defraudada. As grandes corporações petroleiras continuaram a receber os imoderados e crescentes benefícios provenientes do petróleo venezuelano. Sob o império dos interesses das corporações e com a cumplicidade de políticos e gerentes nativos ― dominados uns pelo fatalismo geopolítico e outros por sua formação e vinculações com as empresas transnacionais ― grandes contratos de assistência técnica e comercialização foram firmados por um governo tolerante às chantagens, e que havia aceitado inconfessáveis
11

A Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela (Fedecámaras, na sigla em espanhol) é a maior organização patronal do país. A Agropet é a Associação de Profissionais da Indústria Petroleira, Petroquímica e Carbonífera da Venezuela. (N. do Trad.)

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termos de negociação poucos dias antes da transferência formal da indústria petroleira às mãos do Estado. Assim, foi mantido e fortalecido o liame matrizfilial entre as ex-concessionárias e as nascentes "operadoras" nacionais. Esses contratos abrangiam toda a produção, refinamento e comércio de óleo cru e produtos venezuelanos; com isso, constituíram o modelo inicial do que seria a base de um novo ― deletério e inalcançável, ubíquo e eficaz ― sistema de preservação das relações de dependência do Estado nacional relativamente ao capital transnacional. À medida que esses gigantescos contratos iniciais iam servindo a seu propósito, com o oculto compromisso de multiplicar a "indenização devida" às antigas concessionárias, transferindo a elas mais de 7 bilhões de dólares entre 1976 e 1979, outros contratos e formas associativas proliferaram posteriormente como vasos capilares, estendendo-se a todas as atividades da indústria petroleira venezuelana, para continuar drenando ― pelos caminhos livres da assistência técnica, dos serviços tecnológicos, da "procura", do outsourcing12 e dos convênios de fornecimento a longo prazo ― porções consideráveis do que deveria ser a receita petroleira nacional. Essas porções iam sendo lançadas às mãos dos estrangeiros e de seus oportunistas e complacentes sócios nativos. Resumamos, pois. Foi desse modo que, em 1976, após serem muito vantajosamente indenizadas pela entrega de equipamentos, instalações e imóveis muitíssimo depreciados; após obterem certos contratos de assistência técnica que dissimulavam pagamentos adicionais injustificados e certos contratos de comercialização nos quais lhes eram concedidos substanciosos descontos e, também antes, um acordo secreto pelo qual recebiam garantias verbais (mas fielmente cumpridas) de participação em todos os futuros empreendimentos petroleiros no país ― após isso tudo, as grandes corporações internacionais renunciaram afinal às suas concessões. Gastón Parra Luzardo (1979, 120-129) fez uma minuciosa análise dos infames contratos de comercialização impostos pelas transnacionais para deixarem-se

12

"Procura", forma verbal da 3ª pessoa do presente de procurar, constitui, neste caso, um anglicismo: procurement, atividade de busca, compra, contratação e fornecimento de insumos materiais, maquinaria e processos tecnológicos no exterior. Outsourcing (forma preferida pelos gerentes nativos anglófonos à forma terceirização) ― a contratação de supostos serviços não básicos por empresas externas ― representou até 2003 um dos principais caminhos da PDVSA rumo à privatização de todas suas atividades, da prospecção à informática.

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"nacionalizar" e de sua conexão com a assinatura dos também leoninos contratos de assistência técnica.13 E para rematar o trabalho, as transnacionais deixaram, como meio de preservar seus interesses nas que seriam doravante "operadoras nacionais", um grupo de executivos "nativos" de sua confiança ― grupo que constituiu um autêntico cavalo de Tróia, que a partir dos anos 80 promoveu, sem rebuços, a privatização a todo vapor através das "aberturas", da internacionalização, dos convênios de associação, das associações estratégicas, do outsourcing e da felizmente frustrada proposta de vender parte do capital acionário da PDVSA. Suas atividades de evasão fiscal, de sabotagem do controle que o Ministério de Energia e Minas deveria exercer ― ministério que foi inicialmente colonizado por eles para ser, em seguida, desmantelado ― de recusa ao posterior controle da Controladoria Geral da República, com a formulação de orçamentos anuais artificialmente inflados e a violação dos compromissos internacionais assinados pelo país no âmbito da OPEP ― tudo isso teve início no próprio 1º de janeiro de 1976, no calor da execução de projetos conjuntos com suas antigas casas matrizes transnacionais, todos superdimensionados em seus custos, como a troca de padrão de refinamento em três das quatro grandes instalações do país14, as extensões de polidutos e gasodutos de tipo Sisor, Sumandes I e II, Nurgas15 e outros, como os megaprojetos da Faixa do Orinoco e o projeto gasífero Cristóvão Colombo, simplesmente inviáveis, mas com grandes ganhos para o poder petroleiro ao provocar significativos retrocessos legais e regulamentares em questões de soberania, controle e fiscalização pelo Estado venezuelano.

13

"(...) a redução na produção e exportação petroleira é um mecanismo de pressão exercido pelas transnacionais para obrigar o Estado a aceitar as condições impostas por elas através dos contratos de assistência técnica e de comercialização" (loc. cit., p. 120). "(...) É notório que o presidente da Exxon solicitou um desconto adicional de 1,25 dólares por barril, que, somado ao já concedido no primeiro contrato de comercialização (60 c/dólar), chega a um desconto de 1,85 dólares por barril. Porém, exigiu ainda mais: que a PDVSA aceite definitivamente a instalação do processo Flexicoking na refinaria de Amuay, com o que os técnicos venezuelanos não estão de acordo" (loc. cit., p. 121). 14 Ao nos referirmos negativamente a alguns desses projetos, como a troca do padrão de refinamento ou os meios de melhoramento dos óleos crus pesados, não estamos julgando a pertinência ou necessidade deles para o desenvolvimento e modernização da indústria, mas apenas os termos ruinosos para a Nação, segundo foram decididos nesses acordos. 15 SISOR (Sistema de Suministro Oriental) é o nome de um poliduto para derivados de petróleo. SUMANDES refere-se a Suministro a la Región de los Andes. NURGAS é um gasoduto, da rede que leva o gás do oriente ao ocidente do país.

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Quando, em 1976, concretizou-se a antecipação da "reversão", sete anos antes do prazo definido pela Lei de 1943, esse fato foi impropriamente denominado nacionalização petroleira. E até mesmo seus críticos, como Pérez Alfonso, aceitaram a expressão, acrescentando-lhe todavia o qualificativo de chucuta16, para enfatizar ao domínio a possibilidade da indústria "futura" petroleira de "regresso" das Tal

transnacionais

venezuelana.

possibilidade estava plasmada, como mencionamos, na disposição do artigo 5º da respectiva lei, que estabelecia a forma das empresas mistas como uma possibilidade a mais para o manejo das atividades que estariam reservadas ao Estado.17 Vistas de uma perspectiva contemporânea, podemos explicar melhor as circunstâncias ao reconhecer que, como já assinalamos, a nacionalização não foi outra coisa que a conclusão de um longo e conflituoso processo de esgotamento do padrão normativo das relações entre o Estado venezuelano e as companhias estrangeiras concessionárias; ou seja, o esgotamento do conjunto de estruturas legais e regulamentares no âmago das quais se davam essas relações. Esse conjunto legal e regulamentar constituiu-se em um modus vivendi elaborado ao longo de décadas por uma associação conflituosa, cujo elemento de sustentação residia na partilha da extraordinária renda provida pelo petróleo, materializada a cada momento nos instrumentos através dos quais o Estado participava dessa divisão. Como vimos sublinhando insistentemente, o Estado venezuelano, desde a primeira Lei de

Hidrocarbonetos de 1920 até à Lei sobre Bens sujeitos à Reversão de 1971, foi ampliando paulatinamente ― e por vezes com retrocessos ― sua capacidade de controle e fiscalização sobre as atividades das concessionárias, e com isso,
16

Chucuto [em espanhol] designa, na região oriental da Venezuela, o cachorro a que se corta o rabo. E aí reside o quid da questão: ninguém duvida de que um dobermann (de rabo cortado) seja um cão completo, e ademais feroz. O povo venezuelano também presumiu assim a nacionalização chucuta, ou seja, com um membro cortando e um risco deformador no futuro; mas nacionalização, ao fim e ao cabo ― uma mudança estrutural na ordem jurídica e política. Este foi um dos maiores êxitos alcançados pelos idealizadores do plano: desarticular o sentimento nacionalista que, ante a proximidade de 1983, punha em ebulição a população venezuelana. 17 "Em casos especiais e quando assim convenha ao interesse público, o Executivo Nacional ou os referidos órgãos poderão, no exercício de qualquer das atividades assinaladas, celebrar convênios de associação com órgãos privados, com uma participação tal que garanta o controle por parte do Estado e com uma duração determinada. Para a celebração desses convênios, será requerida a previa autorização das Câmaras em sessão conjunta, dentro das condições fixadas, desde que tenham sido devidamente informadas pelo Executivo nacional de todas as circunstâncias pertinentes".

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aumentando, ao menos em teoria, seu quinhão na partilha da riqueza petrolífera. Mas, esse processo ― por sua própria natureza, sujeita à avassaladora força de negociação e de embuste das corporações internacionais ― rumava para o esgotamento, ao tornar insustentável a abismal diferença entre os termos teóricos (ou seja, legais, que definiam a forma da partilha da renda) e a realidade. Em 1974, por exemplo, quando eram notórios os imensos lucros globais dos consórcios petroleiros, e a Creole Petroleum Corporation, filial venezuelana da Exxon, divulgava ter sido responsável por quase metade das receitas internacionais da matriz norte-americana (Rose, 1977), a divisão dos ganhos líquidos da atividade petroleira na Venezuela indicava teoricamente as incríveis proporções (oficialmente publicadas) de 95% para o Estado venezuelano e apenas 5% para as filiais transnacionais! Essas proporções eram irreais porque se baseavam em uma comparação não discriminada entre cifras liquidas e brutas, nas quais a "participação fiscal global" da Venezuela se relacionava com o ganho liquido das corporações, sendo que este era um produto da "engenharia financeira", projetada precisamente para eludir o pagamento de impostos através da dedução de custos que encobriam grandes "receitas", derivadas para filiais operativas de cada corporação, encarregadas do transporte, armazenamento, comercialização e refinamento do óleo cru. Cumpre lembrar, além disso, a incorporação como um custo, para os fins de declaração do Imposto sobre a Renda, dos pagamentos realizados a título de regalía. Salvador de la Plaza18 dedicou, em seu tempo, um grande esforço intelectual e político para demonstrar que a regalía petroleira era um direito soberano da Nação e que, como tal, não devia ser incluída nas contas das companhias para minimizar o pagamento de impostos. Contudo, como dizíamos, as circunstâncias se tornaram críticas para a manutenção do status quo petroleiro na Venezuela, à medida que se aproximava o ano de 1983, quando venceriam as concessões, e sem que nesses anos de 1973-1974 estivesse prevista uma alternativa clara para a

18

"O royalty é da nação", utilizando o anglicismo então em voga, foi a palavra de ordem principal da árdua e solitária luta de Salvador de la Plaza, exposta em vários de seus trabalhos, dois dos quais fazemos menção na Bibliografia, adiante.

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participação do capital petroleiro internacional nas atividades do setor posteriores à reversão. A indústria petroleira se encontrava então cercada, por um lado, pela norma constitucional que impedia a outorga de novas concessões e, por outro, pela vontade entreguista e paralisante dos governos de Rómulo Betancourt (1959-1964), Raúl Leoni (1964-1969) e Rafael Caldera (1969-1974), que, temerosos de provocar a ira imperial, converteram-se em presa fácil das pressões do poder petroleiro de então, e impediram o desenvolvimento da Corporação Venezuelana do Petróleo, forçando-a a um estado de ananismo durante os quinze anos de sua existência. O dilema tinha soluções divergentes, mas perfeitamente identificáveis: uma era a preparação do país para assumir plenamente o controle de sua indústria. Esta opção, defendida pelos setores de vanguarda do país, foi delineada em termos de uma possibilidade exequível por Juan Pablo Pérez Alfonso, quando postulou, em seu Pentágono de Ação, junto ao princípio de sem mais concessões, a criação e desenvolvimento da CVP. Porém, essa possibilidade foi posta de lado, ignorada e mesmo descaracterizada com a negociação, em 1970, de contratos de serviço, os quais eram (como o demonstraram oportunamente diversos analistas ― verbi gratia, Sader Pérez, 1972, 1974) efetivamente concessões disfarçadas para burlar o princípio constitucional. Assim o confessou publicamente Rómulo Betancourt: "Esta empresa [a CVP], não vem para competir com as empresas privadas. A própria modéstia do capital de trabalho que lhe destinamos indica quão limitados são seus fins e objetivos; mas, a Corporação Venezuelana do Petróleo deve ser e será o veículo de que se valha o Estado para outorgar, já não concessões, mas contratos de serviço e outras fórmulas de acordo, pois que muitas e muitas se estão empregando em vários países petroleiros, para desenvolver a exploração e produção de óleo negro no país" (29-05-1961). Não outorgamos concessões porque as muito ricas que existem, bem situadas, no centro e nas ribeiras do Lago de Maracaibo, estamos seguros de que vão ser pesquisadas e exploradas mediante contratos de serviço (29-6-1963) (Sader Pérez,1974, 12- 13).

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Petróleo e outros dados estatísticos (1969-1976) Participação fiscal total e lucros líquidos das concessionárias (milhões de bolívares e porcentagens)

Ano

Royalty Imposto sobre a renda

Outros impostos

Participação Fiscal Total

Lucros Líquidos

Relação PFT/LL

Receita Líquida % PFT/ Luc. conc.

1949 1954 1959

628 873 1.444

273 585 1.260

155 118 87

1.056 1.576 2.791

704 1.412 1.335

2 1 2

60 53 68

40 47 32

1960 1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975

1.503 1.552 1.703 1.731 2.557 2.564 2.531 2.663 2.715 2.722 2.875 2.836 2.796 4.005 9.821 7.828

1.071 1.217 1.462 1.544 2.251 2.323 2.260 2.752 2.754 2.751 3.270 4.653 5.558 9.341 29.750 21.965

66 54 60 56 54 50 45 45 44 53 55 57 57 43 71 65

2.639 2.823 3.225 3.331 4.862 4.937 4.836 5.460 5.513 5.526 6.200 7.546 8.411 13.389 39.642 29.858

1.283 1.477 1.694 1.679 2.457 2.638 2.504 2.514 2.653 2.264 1.739 2.247 1.266 2.665 2.286 1.815

2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 4 3 7 5 17 16

67 66 66 66 66 65 66 68 68 71 78 77 87 83 95 94

33 34 34 34 34 35 34 32 32 29 22 23 13 17 5 6

Fonte: Ministério de Minas e Hidrocarbonetos, MEM, PODE 1969-1975.

A segunda opção a que nos referimos era a propiciada pelas próprias companhias, seus porta-vozes no interior de Fedecámaras, seus gerentes nativos e os setores políticos e empresariais tradicionalmente aliados e beneficiários da associação dependente irrestrita. Os esforços desse conglomerado se voltaram para a busca de uma alternativa em conformidade com a preservação de sua participação privilegiada no negócio. Uma nova 45

fórmula de associação dependente com o capital transnacional que incorporasse algum verniz renovador era a solução mais "saudável" aos olhos geopolíticos de seus proponentes criollos. Assim, portanto, a "nacionalização", ponto culminante da política petroleira venezuelana, com todas suas contradições e deficiências, moldou efetivamente o estado de forças dessas duas posições, e não sendo uma exceção na tendência secular, viu também, nesta oportunidade, triunfar o partido da associação transnacional. O instrumento precípuo para a obtenção de tão paradoxal resultado da nacionalização foi, inicialmente, o conjunto de acordos assinados nos bastidores ― em uma secreta Comissão de Concordância ― enquanto eram discutidos publicamente na Comissão de Reversão os termos da Lei que Reserva ao Estado a Indústria e o Comércio dos Hidrocarbonetos. Desse modo, a nacionalização significou, em suma, o resultado de um novo pacote de leis-convênios ao estilo do pacto entre o governo de Medina Angarita e as companhias, pelo qual foi institucionalizado definitivamente o regime de concessões em 1943. Em outras palavras, com o fim da era concessionária não se passou a uma era de controle pleno da indústria petroleira pelo Estado, mas sim a uma nova modalidade de subordinação do Estado às transnacionais. Mais elástica e sutil, mais adaptada à evolução da realidade econômica e política contemporânea, ao preservar e aprofundar os traços essenciais da situação anterior, foi a seu modo um ajuste com os novos tempos, capaz de eliminar os sentimentos negativos que o velho sistema de concessões despertava: "No lugar da presença direta, prepotente e irritante dos donos estrangeiros, de seus acampamentos cercados, de seus sistemas exclusivos de segurança e de comunicação e de seus imensos ganhos, a 'assistência tecnológica' é negociada em minúsculos grupos de especialistas, às costas do público, do grosso do pessoal e mesmo do Congresso e dos organismos controladores. Além disso, os 'assessores' forâneos residentes no país tornam-se quase imperceptíveis, e muitos 'conselhos' e 'soluções' chegam por ondas invisíveis aos terminais de computador" (Mieres, 1981, 235). Olhando para trás, é possível constatar que uma saída como essa vinha sendo proposta e discutida desde fins dos anos 60 por pesquisadores 46

vinculados ao governo norte-americano e às transnacionais. Em particular, James Akins, czar energético de Nixon, depois embaixador na Arábia Saudita e assessor em assuntos petroleiros nesse país, expôs em um ensaio intitulado The Oil Crisis, This Time the Wolf is Here, as vantagens, para os interesses das companhias e do sistema em geral, de abrir uma válvula de escape à perigosa pressão que o nacionalismo vinha exercendo (Akins, 1973). Segundo ele, um grande número de funcionários das empresas petroleiras examinava a possibilidade de estabelecer um novo sistema de relações com os países produtores, pois a cada dia tornava-se mais evidente que o tempo das concessões se esgotara e, por conseguinte, "(...) uma nova e dramática oferta aos produtores poderia garantir a tranquilidade durante outra geração". E, especialmente, ao se referir à situação que se vivia no Oriente Médio diante das exigências de árabes e persas, concluía ele que não seria fácil, nem mesmo desejável, resistir às mudanças que ocorriam nesses tempos, porque "(...) [s]em importar o que possa resultar dos acordos existentes, as companhias continuarão a desempenhar um papel importante no transporte, refinamento e distribuição do petróleo, e é muito provável que também o façam na produção do petróleo durante os próximos dez anos". As reflexões de Akins passaram a formar parte do fundamento da estratégia principal formulada pelas grandes corporações petroleiras em suas relações com os países produtores ― como ficou demonstrado pelos acordos de participação e pelas nacionalizações parciais com as quais as corporações concordaram nos países do Oriente Médio. A Fundação Ford publicou, em 1974, as propostas de políticas relativamente à OPEP (elaboradas por um pesquisador ao qual já nos referimos, Gerard M. Brannon) como parte de um informe para o projeto de políticas energéticas dessa fundação, no qual eram aduzidos argumentos similares aos apresentados e popularizados por Akins: "As leis tributárias, mesmo desses países, são mais difíceis de alterar que os preços. Se os países produtores se assenhorearem efetivamente da produção petroleira, seu interesse estaria em continuar empregando a burocracia existente das companhias petroleiras para utilizá-la como administradores e técnicos de produção. A grande diferença estaria em que os países produtores poderiam fixar os preços e não teriam o recurso dos impostos para assegurar a 47

disciplina de preços contra os países particulares atraídos pela perspectiva de uma venda maior a um preço mais baixo" (Brannon, 1974, 168-169). Em concordância com essas propostas estratégicas, discutidas em seus cenáculos em datas muito anteriores às das publicações que estamos citando, as grandes corporações que operavam as indústrias petroleiras dos países às margens do Golfo Pérsico consideraram como uma saída viável ao crescente e perigoso nacionalismo árabe ― que já havia tido manifestações radicais na Argélia, Líbia e Iraque ― oferecer a assinatura de "acordos de participação", tipos de nacionalizações parciais, escalonadas e sobretudo negociadas, que permitissem às corporações continuar desempenhando um papel determinante nos negócios petroleiros da região.19 Com esse propósito, por exemplo, enviaram emissários a Teerã, em meados de 1972, com uma oferta única para esses países: torná-los proprietários, com prévia indenização às companhias de porções minoritárias do capital acionário das indústrias estabelecidas em cada um deles. Como resultado das negociações com os plenipotenciários da Arábia Saudita, Abu Dabi, Iraque, Irã, Kwait e Catar, é firmado em outubro de 1972 o Acordo Geral de Participação entre os países produtores do Golfo Pérsico e as companhias. Arábia Saudita e Abu Dabi aplicaram o acordo em dezembro desse mesmo ano: "Fixou-se uma participação inicial de 25%, que entraria em vigor em 1º de janeiro de 1973 e permaneceria constante até 31 de dezembro de 1977. A partir desta data, a porcentagem de participação iria aumentando até chegar a 51% em 1º de janeiro de 1982" (Anzola, 1975, 7). O Acordo Geral de Participação, limitado às operações de prospecção e produção, constituiu o primeiro grande ensaio de uma fórmula substitutiva ao regime concessionário. Nele estão prefiguradas todas as características que, com virtuosismo, ganhariam forma na nacionalização petroleira venezuelana e que iriam garantir a continuidade da relação de dependência que estamos
19

Pierre Terzian (1988, 129-190) traz uma detalhada descrição do conjunto de fatores e forças em pugna em torno do petróleo do Oriente Médio nas décadas de 1960 e 1970, com a emergência de um nacionalismo radical em um ambiente de alta sensibilidade dentro do conflito global leste-oeste, agravado pela presença direta da União Soviética na região, e de como isso foi enfrentado pelas grandes corporações e seus aliados através de uma afanosa busca por uma fórmula intermediária que assegurasse, à maneira de Il Gatopardo, o status quo dos grandes lucros e o controle de mercado por essas companhias e os governos de seus países.

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analisando. Além de serem ressarcidas (com o valor em livros) pelos ativos cedidos, as companhias obtiveram prioridade para comprar a proporção da produção que corresponderia desde então aos mencionados países a preços que foram ajustados em cada oportunidade. Na maioria dos acordos e nacionalizações parciais realizados no Oriente Médio a partir de então, os consórcios mantiveram intacto o controle sobre a comercialização

internacional, ao mesmo tempo que firmaram convênios de assessoria e assistência técnica.

ENTÃO, A "ABERTURA" COMEÇA ... EM 1976
Esta estratégia, ensaiada com êxito no Oriente Médio, tornou-se uma política concreta e foi executada ― com resultados igualmente excelentes para as companhias ― nas negociações que levaram à nacionalização da indústria petroleira na Venezuela. Em fins de 1973, em um ambiente acirrado pelo enfrentamento que se seguiu à aprovação da Lei de Bens sujeitos à Reversão, com membros da Câmara de Representantes do Congresso norte-americano clamando pelo envio de uma task force para deter os impulsos nacionalistas desatados, e, além disso, desenhando-se claramente a possibilidade de a Venezuela reduzir unilateralmente o prazo que começaria a vencer em 1983, começam a aparecer as "inesperadas" declarações de Keneth Wetherell, presidente da Shell venezuelana, e de Robert N. Dolph, da Creole: "À luz do que ocorre no mundo, é de supor que as relações entre as concessionárias e o governo possam mudar talvez muito antes de 1983. (Dolph) A empresa está disposta e preparada para examinar qualquer novo esquema de relações nas atividades petroleiras, a fim de cumprir com as aspirações e objetivos da nação venezuelana (Wetherell) (Rodríguez Galas & Yánez, 1977, 137-138, 144, 145).20

20

Segundo a mesma fonte (115), um ano antes, em outubro de 1972, J.J. de Liefde ― então presidente da Shell de Venezuela ― relativizava a importância do vencimento de quase todas as concessões de sua companhia em 1983, aludindo ao muito que esta tinha a oferecer ao país nos campos tecnológico e gerencial. Predição acertada ou primeiros indícios de uma estratégia longamente amadurecida?

49

Em cada uma dessas declarações in extenso, explicita-se o desejo das respectivas companhias de seguir cooperando com a Venezuela... mesmo depois das "transcendentes decisões que soberanamente tomem seu povo e seu governo em matéria petroleira". Iniciam-se nesse momento as negociações às ocultas, que, com o nome de concordância, deram sinal verde à "antecipação da reversão",

proporcionando às concessionárias, em contrapartida, gordas indenizações sobre ativos longamente depreciados, promovendo a assinatura dos já descritos contratos de assistência técnica e comercialização mediante os quais foram remunerados sobejamente o tão reclamado, quão imerecido, lucro cessante, e garantindo a permanência dessas corporações em todos os empreendimentos nacionalizadas.21 Em 1º de janeiro de 1976, começou a funcionar o esquema umbilical Shell-Maraven, Exxon-Lagoven, Mobil-Llanoven, Gulf-Meneven e assim sucessivamente, esquema que se manifestou expressamente ― além de nos referidos contratos ― também nos programas de troca de padrão de refinamento e nos "megaprojetos" da Faixa do Orinoco. As corporações tinham acesso, por essas novas vias, a áreas que antes lhes estavam interditas, uma vez que as companhias achavam-se limitadas às fronteiras de suas parcelas concessionárias. Desse modo ― insistimos ― a "abertura petroleira" tem início na Venezuela com a Lei que Reserva ao Estado a Indústria e o Comércio dos Hidrocarbonetos e, mais precisamente, com os contratos de assistência técnica e comercialização, que constituem o primeiro elo dessa abertura, através da qual se concretiza e aprofunda a participação transnacional no negócio petroleiro venezuelano. Entrincheiradas no privilegiado papel de assessores de tecnologia, sempre convidadas para todas as atividades de suas antigas filiais, e atuantes na comercialização da produção exportável de óleos crus e de derivados, as mais poderosas das antigas concessionárias mantiveram-se ativas e à espera de sua reinserção como protagonistas nas operações petroleiras do país. O valioso atalho para isso foram os contratos de serviço e de suas antigas filiais, agora ditas "operadoras"

21

Maza Zavala, Parra Luzardo, Mieres, Mendoza Pottellá (1977).

50

empresas mistas, permitidos pelo mencionado artigo 5º da Lei. Os primeiros pretextos e justificativas alegavam a complexidade tecnológica inerente ao desenvolvimento dos óleos crus da Faixa do Orinoco, a possibilidade de reativar difíceis campos marginais e a exploração de gás ao longo da costa de Paria. Concluído, portanto, o ciclo concessionário venezuelano, as relações entre o Estado proprietário do recurso e as transnacionais que o exploravam mudaram de forma, com a "nacionalização" da indústria, mas não de conteúdo, pois não só se mantiveram como se estenderam a campos inusitados. Os primeiros Contratos de Assistência Técnica e Comercialização foram acontecimentos paradigmáticos enquanto uma nova configuração dos vínculos Estado-corporações nos 24 anos que se seguiram até 1999, anos durante os quais essa configuração se desenvolveu e consolidou. Nos contratos, ganharam força os primeiros passos da abertura petroleira, visto que foi através deles que as empresas ― Exxon, Shell, Mobil e Gulf, sobretudo ― passaram a ter ingerência em espaços diferentes daqueles das antigas concessões, abrindo-se simultaneamente novas oportunidades para outras grandes corporações. "(...) A Exxon recebeu em torno de 510 milhões de dólares de compensação direta pela nacionalização da Creole Petroleum. Também obteve o direito de comprar petróleo a um preço que é negociado a cada trimestre. E, o que é mais importante, a companhia recebe agora pagamentos por cada barril de petróleo embarcado e refinado. Apesar de o governo venezuelano não consentir em publicar o montante de pagamentos, sabe-se que é muito generoso ― de fato, tão generoso que as alas liberais e de esquerda venezuelanas consideram-no uma verdadeira entrega. A Exxon também se recusa a especificar a importância dos pagamentos, mas R. H. Herman, vice-presidente de marketing da companhia, diz com um verdadeiro sorriso: 'Conseguimos um acordo razoável com a Venezuela e esperamos conseguir o mesmo com os sauditas'" (Rose, 1977). Foi assim, pois, que se deu o aludido processo de declínio da participação nacional no negócio petroleiro, constituindo-se a assim chamada abertura petroleira apenas o capítulo contemporâneo e mais agudo de uma política que teve sempre o mesmo espírito: a expropriação do patrimônio 51

coletivo em benefício do grande capital transnacional e das elites oportunistas criollas, cuja ponta de lança foi formada, até janeiro de 2003, pelas gerências de mentalidade privatista enquistadas nos postos de comando da empresa estatal. Com contratos desse tipo, iniciou-se a desmontagem do aparato de controle e fiscalização estruturado pelo Estado venezuelano ao longo de seis décadas. Neles foi consagrada, pela primeira vez, a renúncia da soberania tributária ao estabelecer uma fórmula automática para compensar toda intenção de aumentar as taxas do Imposto sobre a Renda vigentes na assinatura do contrato. Igualmente, pela primeira vez, renunciou-se à "imunidade de jurisdição", isto é, a competência exclusiva dos tribunais nacionais para dirimir qualquer litígio entre as partes, ao estabelecer ― em contravenção do artigo 127 da Constituição Nacional de 1961 ― a arbitragem internacional como meio de dar solução a desacordos entre as partes contratantes. Posteriormente, foram incorporadas novas áreas a esse processo de ampliação da participação estrangeira no negócio petroleiro venezuelano. Os programas de troca de padrão de refinamento e os "megaprojetos" da Faixa do Orinoco, foram, como dissemos, os cenários seguintes nos quais se desenrolaram os outros dramas do retrocesso da soberania estatal. Em seguida, surgiu o programa de aquisição de refinarias no exterior ― programa conhecido como internacionalização ― e que constitui destacado componente de uma estratégia oposta à política oficial, geralmente aceita apenas em aparência, de controle da produção como garantia para a defesa dos preços. Essa estratégia gerencial incorpora, em consequência, um claro viés antiOPEP, ao promover a expansão da produção através da ampliação da capacidade de refinamento, para cujo abastecimento não se contava com óleos crus suficientes. Tudo isso sem mencionar a imensa fraude que essas aquisições e posteriores operações significaram para a Nação ao converteremse em uma verdadeira drenagem de receitas nacionais para o exterior (Mendoza Pottellá, 1995; Boué, 1997; Ramírez Coronado, 2000). O Projeto Cristóvão Colombo, elaborado pretensamente para a exploração das jazidas gasíferas do norte de Paria por um consórcio formado por Shell, Exxon, Mitsubishi e Lagoven ― "diferido por 5 anos" primeiramente e 52

depois definitivamente

abandonado

por ser

inviável,

foi,

contudo,

o

empreendimento de maior êxito da gerência petroleira se considerado do ponto de vista de sua orientação para a desnacionalização total da indústria. Escudados na importância estratégica do projeto, conseguiram impor no Congresso Nacional a eliminação da forma dos Valores Fiscais de Exportação, que garantia níveis adequados de participação fiscal. Igualmente, e de modo sub-reptício, conseguiram uma determinação da Corte Suprema de Justiça por meio da qual foram derrogados os artigos 1º, 2º e 5º da Lei que Reserva ao Estado a Indústria do Gás Natural, e modificado o artigo 3º da Lei dos Hidrocarbonetos. Em si mesmo, o Projeto Cristóvão Colombo incorporava diminuições do Imposto sobre a Renda de 33% e uma expressa renúncia à soberania fiscal ao dispor o compromisso de Lagoven de compensar seus sócios estrangeiros na eventualidade de incrementos tributários determinados pelas autoridades nacionais. Com esse ensaio geral estava servido o banquete para os novos agentes da política desnacionalizadora: as associações estratégicas para a operação de campos inativos, supostamente "marginais", e os convênios de associação sob esquema de ganhos partilhados, vendidos com o bordão da "abertura". Mas, reiteremos: a realidade mostrou que, desde o princípio (ou seja, desde 1976), em cada escaramuça meritocrática por defender sua autonomia operativa em relação à Controladoria Geral da República, ao Banco Central e ao cada vez mais desvalido e colonizado Ministério de Energia e Minas, e por impor sua visão de "negócios" e de produção incremental a qualquer preço, em relação ao "rentismo estatista", em acontecimentos tais como a troca de padrão de refinamento, a internacionalização, os projetos de melhoramento dos óleos crus extrapesados e a entrega dos "campos marginais", restavam apenas fragmentos de soberania, de capacidade de controlar e fiscalizar e de preservar a jurisdição das leis e tribunais nacionais. Igualmente ― o que se pode constatar nas cifras apresentadas pela própria indústria ― restavam somente fragmentos da participação nacional em um negócio que, até 1999, foi controlado capilarmente, em todos seus interstícios, pelo poder econômico

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privado nacional e transnacional, que reservava para si sempre o melhor e mais gordo bocado (Mendoza Pottellá, 1995). A intenção do governo atual de mudar essa orientação nascida em 1976 ― intenção que se manifestou ao designar, em fevereiro de 2002, uma nova direção da PDVSA, disposta a revolver os mais recônditos recessos do segredo petroleiro que se ocultava por trás das "apresentações" de executivos e das "consolidações" de seus artífices contábeis ― foi um dos fatores desencadeadores do golpe petroleiro de abril de 2002. Os temores quanto à ação do governo levaram os executivos a utilizar, entre dezembro de 2002 e janeiro de 2003, todos os recursos (inclusive a chantagem terrorista) para impor sua versão de democracia, uma que fosse condizente com seus negócios e que não invocasse posturas nacionalistas, todas elas velhas, desbotadas, desajustadas, "rentistas" e ameaçadoras. Depois disso, o país vem tratando de recuperar-se do gigantesco dano ao patrimônio nacional causado pela sabotagem petroleira, cujas consequências negativas serão visíveis por vários anos ainda nesse setor industrial. O que, pois, nos leva hoje a reivindicar a necessidade de levantar novamente as bandeiras do nacionalismo petroleiro é a circunstância concreta de que atualmente os projetos continuam sendo formulados e os negócios sendo manejados e formalizados pelo capital petroleiro internacional. Já mencionamos como um traço positivo o propósito e a evidência concreta de se diversificarem as fontes dos investimentos estrangeiros. Também podemos sublinhar como sumamente positiva a política de vincular a produção de petróleo venezuelano ao fortalecimento da integração latinoamericana e caribenha. Contudo, quanto ao projeto, magnitude e sentido de seus planos de associação com esse capital petroleiro internacional, o setor público petroleiro ainda está em falta com a necessária ação de controle social de suas atividades. A proposta, defendida por setores políticos e sociais que apoiam o governo bolivariano, de constituir um Conselho de Estado para supervisionar os negócios energéticos e petroleiros do país, permanece ainda no limbo. No Ministério de Energia e Petróleo e na PDVSA, mantém-se ainda a mesma estrutura de segredo que imperava nas administrações anteriores. A caixa preta da PDVSA continua sendo obscura. A magnitude e impacto dos investimentos em algumas áreas de alto risco ecológico (como as zonas 54

úmidas de Monagas e do delta do Orinoco ou o golfo da Venezuela), os termos das licitações ou designações diretas, as decisões transcendentais tais como a liquidação da produção de Orimulsión22 e a migração dos convênios operativos para empresas mistas têm despertado a apreensão e as críticas de diversos analistas, posicionados no campo do nacionalismo petroleiro e na defesa de nosso habitat. Não se conhece outra resposta oficial a essas críticas que não seja o silêncio e o fato consumado. O debate é eludido, com a tradicional desculpa do seu caráter estratégico, das decisões envolvidas e de "não dar armas ao inimigo". Mas os venezuelanos já viram esse filme várias vezes..., submetidos por tantos anos à condição de desvalidos pelas camarilhas econômicas e políticas governantes, que os presumem incapazes de tomar decisões enquanto povo, por sua própria conta e risco, sobre questões de interesse estratégico e nacional, ainda mais quando essas decisões afetam positiva ou negativamente os interesses particulares desses grupos de poderosos. Por essa política comunicacional restritiva, o público venezuelano ainda não conhece cabalmente as contas dos negócios da chamada "abertura petroleira" durante a década final do século passado, e não existe uma informação adequada, detalhada e atualizada do assunto. Por exemplo, a "internacionalização" ― um dos maiores saques ao patrimônio público de que temos notícia ― ainda é defendida por seus mentores e pelos eternos crentes nas lendas douradas da meritocracia, apesar de o caráter fraudulento dessa política ter sido denunciado e demonstrado há já mais de dez anos ― e apesar de a indústria ser hoje dirigida por aqueles que se opuseram a essa “importação de custos e exportação de benefícios” (Ramírez Coronado, 2000, 28).
22

Orimulsión é uma emulsão de 70 partes de petróleo extrapesado em 30 partes de água, estabilizada com alguns surfactantes (aditivos químicos que permitem manter a condição de emulsão). Trata-se de um negócio de poucas perspectivas e mesmo negativo, pois o produto se destina a competir com o carvão, o que significa que tem por teto o preço deste, ao passo que, por seu turno, Orimulsión é um produto de tecnologia complexa e de altos custos. Seus rendimentos têm sido nulos ou negativos. Há, porém, quem o defenda, alegando haver margem de lucros, ou que se trata de petróleo bruto fora da cota determinada pela OPEP para a Venezuela e, portanto, que poderia ser produzido livremente; ou, ainda, que se trata de betume natural de muito pouca fluidez e de difícil operação por outros meios. O debate sobre o assunto é grande, mas a decisão do governo de Hugo Chávez foi de cancelar essa produção.

55

Mais uma vez, é preciso recordar que as magnitudes do negócio petroleiro são tais e de tão grandes implicações econômicas e políticas que é impossível deixar as decisões fundamentais nas mãos de grupos fechados de tecnocratas, negociantes e políticos ― quaisquer que tenham sido suas trajetórias e realizações nacionalistas. Porque não se trata apenas disso, visto que, com muita frequência, por ilusões o nacionalismo tem sido seduzido as que e são

descaracterizado

desenvolvimentistas,

como

despertadas pelo atual panorama do mercado petroleiro, no qual se desenha há dois anos um novo boom de preços, gerado pelas mudanças estruturais ocorridas nos fundamentos do mercado internacional, com um dramático crescimento da demanda (alimentada decisivamente pelos novos mercados, como a China e a Índia) que se confronta com uma relativa estagnação da oferta. De fato, os preços do petróleo, independentemente das baixas sazonais, das especulativas e das determinadas por movimentos de estoques, têm alcançado um novo piso estrutural, o qual, para os óleos crus marcadores internacionais Brent e WTI, parece situar-se em um nível próximo dos 50 dólares por barril e, de acordo com a relação tradicional, para a cesta venezuelana de óleo cru e produtos, encontrar-se-á em torno de um valor acima dos 40 dólares por barril. Este piso dá à Venezuela uma margem bastante confortável para cumprir as metas do orçamento público para 2006, calculado com bastante moderação sobre a base das receitas resultantes de um nível de produção apenas superior ao vigente hoje e um preço médio de 26 dólares por barril para a referida cesta. Tudo parece indicar que essas condições do mercado não se alterarão a médio prazo. Pois bem, com o ritmo atual e previsível de crescimento da economia nacional, essa disponibilidade de recursos comporta um conjunto de vantagens e de riscos para se traçar a política econômica. As vantagens se encontram certamente do lado da soberania nacional, da autonomia para tomar as decisões de gasto e investimento orçadas, e da possibilidade de diminuir substancialmente os níveis da dívida pública interna e externa. Situa-se também do lado da soberania nacional a possibilidade de alimentar a política de integração econômica e energética latino-americana e caribenha. Além disso, trata-se, nem mais nem menos, de pôr a Venezuela como eixo 56

energético de um dos pontos centrais do mundo multipolar ― a América Latina e o Caribe. Os riscos, por sua vez, localizam-se como sempre no lado das tentações a que fizemos menção, descritas desde 1930 por nosso primeiro economista, Alberto Adriani, e estudadas detalhadamente por seus colegas noruegueses nos anos 1970, que as caracterizam como o efeito Venezuela: a propensão ao gasto das receitas extraordinárias procedentes de uma renda mineira, acima da capacidade de absorção da capacidade nacional. De fato, a "impossível semeadura", a que se referia Juan Pablo Pérez Alfonso, prossegue sendo um dos sonhos nacionais e, em momentos de pletora petroleira, quando reluz mais intensa a riqueza nacional, é quando mais atentas devem estar as mentes e a capacidade analítica dos venezuelanos para resistir às tentações ruinosas, como as que sofremos durante o período da "Grande Venezuela" e do V Plano da Nação, estigmatizada com justiça por Pérez Alfonso como Plano de Destruição Nacional. Trinta anos depois, deparamo-nos com planejadores iludidos pela possibilidade de investir precipitadamente as receitas extraordinárias que o país está recebendo. As cifras que são anunciadas ― de bilhões de dólares anuais até 201023 ― são realmente funambulesca, insólitas e perigosas: a única possibilidade de se fazerem investimentos dessa magnitude é importando, total e imediatamente, os projetos, os insumos, a tecnologia, a gerência e a mão de obra qualificada necessária. A incapacidade estrutural do país para suportar semelhante afluxo forçado de tal nível de investimento ― se, de fato, ele fosse factível ― pode ser medida através dos dados que a imprensa forneceu em um único dia (12 de dezembro de 2005), sobre o não cumprimento das metas de construção de moradias no ano24, ou a necessidade de 5.000 novos engenheiros para poder executar os planos já em andamento de exploração da Faixa do Orinoco 25, ou os problemas de gestão e descumprimento dos compromissos assumidos, detectados no plano ferroviário pela Unidade de Avaliação da Presidência da República.26 Tudo isso sem considerar o caráter aleatório e extraordinário das receitas que financiariam tais investimentos e as conhecidas consequências do
23 24

El Universal, 25/11/2005, A22. El Universal, 12/12/2005, A22. 25 El Universal, 11/12/2005, A22. 26 El Universal, 12/12/2005, 1-14.

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efeito Venezuela, que padecemos desde os anos 1930 e que desde então vêm anulando as possibilidades de desenvolvimento de uma economia autônoma e autossustentada, independente da receita petroleira. Em suma, pois, devemos concluir que a reivindicação do nacionalismo petroleiro deve vir acompanhada de uma democratização real e efetiva do processo de tomada de decisões em tudo o que disser respeito à energia e ao petróleo, com absoluta transparência quanto à guarda e justa distribuição da imensa renda que esse setor produz, para as gerações de venezuelanos de hoje e de amanhã. O escrutínio público é, também, a única maneira de combater efetivamente a corrupção que se sabe existente, que tanto se condena e se promete erradicar, mas de cujos culpados e suas punições pouco ou nada se conhece. O controle social não pode permanecer transformado em uma palavra oca. Deve-se dar a ele um corpo físico, com autoridade, representatividade e institucionalidade. Em outras palavras, ele deve ser exercido por um órgão público dotado dos instrumentos e do poder profissional, moral e político suficientes para garantir a defesa do interesse nacional em todos seus aspectos e em todos os níveis.

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O CARACAÇO27
MARGARITA LÓPEZ MAYA

Em 27 de fevereiro de 1989, estourou na Venezuela uma revolta popular que alcançaria uma magnitude sem precedentes em sua história. Na capital e em quase todas as cidades principais e secundárias do país, realizaram-se barricadas, bloqueios de vias, incêndios de veículos, apedrejamento de estabelecimentos comercias, tiroteios e saques generalizados. A revolta durou cinco dias em Caracas e um pouco menos no resto do país. O saldo de perdas materiais e humanas foi altíssimo: as mortes, conservadoramente calculadas em quase 400, foram, na grande maioria, de gente pobre moradora da capital. A surpreendente e inusitada força deste acontecimento tem suscitado uma abundante produção acadêmica sobre seu significado. Mas essa literatura se ocupa principalmente de explicar as causas que levaram às ruas alguns setores pobres e médios venezuelanos, ao passo que vários aspectos da questão continuam sem atrair a atenção dos acadêmicos nem receber respostas satisfatórias. Por exemplo: por que ocorreu uma revolta popular durante um regime democrático? Por que esteve dirigida para objetivos como estabelecimentos comerciais e não para alvos políticos? Por que durou tanto tempo (5 dias em Caracas)? E por que os níveis de violência então alcançados somente têm relativa comparação com certos saques urbanos ocorridos durante diferentes episódios políticos da Venezuela do século XIX e as revoltas de 1935-36, ocorridas quando da morte do ditador Juan Vicente Gómez? Estas questões devem ser respondidas não só para uma melhor compreensão do processo sociopolítico venezuelano, mas também como uma contribuição ao esclarecimento desse tipo de revoltas em outras sociedades.
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Texto original: El Caracazo. In: MAYA, Margarita López. Del Viernes Negro al Referendo Revocatorio. Caracas: Alfadil, 2006, cap. 3.

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Neste estudo, descrevemos de forma detalhada o "Sacudón" ou Caracaço, com o objetivo de apresentar os fatos da maneira mais precisa possível, e assim porventura alcançar as respostas a essas importantes indagações. A informação factual procede das reportagens de vários jornais venezuelanos daqueles dias, bem como de depoimentos e entrevistas realizados com protagonistas ou testemunhas dos acontecimentos. O que emerge dessa informação é a debilidade de um conjunto de instituições que regulavam a vida político-institucional e diária dos venezuelanos ― uma debilidade que desempenhou um papel decisivo na natureza, extensão e duração da revolta.

SOBRE REVOLTAS POPULARES
A revolta popular dos dias de fevereiro e março de 1989, por suas formas de protesto e pela natureza predominantemente violenta das ações coletivas, recorda as revoltas populares do século XIX de algumas cidades latino-americanas (cf. Arrom e Ortoll, 1966), mas também as conhecidas revoltas provocadas por fome nas sociedades europeias, nos séculos de transição para a modernidade: barricadas, incêndios, apedrejamentos, tomada de ruas e estabelecimentos, saques com ou sem distribuição. Segundo a literatura especializada sobre revoltas urbanas, as ações do estilo das praticadas durante o Caracaço são próprias de sociedades pré-modernas, pois nas modernas a conflituosidade social se exterioriza sob a condição de atores organizados e a partir de um repertório de formas de protesto cuja natureza é, em geral, pacífica ou convencional e, em casos especiais, confrontacional. Mais recentemente, ao observar o fato bastante óbvio de que essas formas de protesto emergiram com inusitada força nas últimas duas décadas em muitas sociedades do planeta, John Walton e David Seddon (1994) construíram uma analogia entre a transição europeia para a modernidade e a situação presente de muitos países do Terceiro Mundo. Eles argumentam que em tais países as sociedades estão atravessando uma transição, que se caracteriza por ir de uma modernização paternalista ― que, dizem eles, na América Latina foi impulsionada pela mão do Estado desenvolvimentistapopulista ― a uma modernização liberal (ou neoliberal), conduzida pelas

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agências financeiras internacionais mediante a imposição de políticas orientadas pela doutrina neoliberal. Os setores populares dessas sociedades (da mesma forma como fizeram os ingleses pobres dos séculos XVII e XVIII) teriam elaborado na etapa moderno-paternalista uma economia moral, isto é, um código moral através do qual se relacionam com a economia, as autoridades e os ricos. Segundo esse código, os pobres sentem que possuem o direito, de um lado, de ser protegidos pelas autoridades em relação às inclemências do mercado, e, de outro, de obter os meios mínimos necessários para a sobrevivência. A virulência e a similitude em formas e tipos de ação do protesto atual, em comparação com o passado, se devem a que ― assim como outrora, quando as autoridades abandonaram o paternalismo para aplicar a doutrina do laissez-faire ― elas traíram o código moral que estava em vigor na relação entre o poder constituído e os pobres. Diversos artigos publicados na Venezuela, durante os anos 90, analisando o "Sacudón", sugerem que a revolta recebeu impulso de um conjunto de motivações e fatores entre os quais certamente deve-se incluir a traição a uma economia moral ou a algum conceito afim. Não obstante, Walton e Seddon reconhecem que, à parte as características especialmente violentas que a traição das autoridades à economia moral pode imprimir à mobilização popular, toda sociedade protesta de acordo com modelos que lhe são dados por sua história e por suas características institucionais. Por esse motivo, um estudo comparativo do Bogotaço colombiano de 1948, ou do Santiagaço argentino de 1993, ou mesmo dos protestos antiglobalização que vêm ocorrendo nos últimos anos em diversos países (como a própria revolta venezuelana de 1989), mostrará tanto similitudes quanto diferenças importantes em termos de atores, motivos e modalidades de protesto.28 Uma visão similar, embora com menos implicações evolucionistas, é o conceito utilizado por Francis Fox Piven e Richard Cloven do poder disruptivo da vida cotidiana que levam os pobres. Segundo seu enfoque, não se trata de que estes protestos ocorram por traição a uma economia moral, mas sim que o
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O Santiagaço foi uma revolta popular que estourou nas cidades da província argentina de Santiago de Estero, em dezembro de 1993. Ainda que seus motivos possam coincidir com o Caracaço venezuelano ― pois também representou um protesto contra um plano de ajuste macroeconômico ― foi iniciado por funcionários públicos que ocuparam, saquearam e queimaram a sede do governo, bem como a do legislativo e da justiça da província (cf. Lauffer e Spiguel,1999).

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poder de interromper violentamente a vida cotidiana dos pobres é praticamente o único recurso de que eles dispõem para exercer pressão sobre a autoridade em qualquer sociedade, e o empregam quando surgem estados de "terrível penúria que padecem (...) em tempos de ruptura social e esgotamento". Esses autores enfatizam que as modalidades violentas são um instrumento de poder, que é usado em situações extremas; mas também argumentam (como Walton e Seddon) que as características institucionais de uma sociedade são uma peça-chave para compreender-se em que ponto começa a revolta, por quais motivos algumas ações coletivas prevalecem sobre outras, e que razão explica o aparecimento de um grau maior de violência em alguns casos. A seguir, realizamos uma descrição detalhada dos acontecimentos que se desenrolaram ao longo dos dias 27 de fevereiro e seguintes, quando se patentearam, de maneira eloquente, a debilidade e a torpeza das respostas de muitas instituições que então regulavam a vida social e política dos venezuelanos. Na descrição há bastantes evidências tanto de que ocorreu uma traição à economia moral dos venezuelanos pobres, quanto de que o contexto institucional condicionou significativamente a natureza e as modalidades da revolta.

O 27 DE FEVEREIRO DE 1989
Durante o fim de semana de 25 e 26 de fevereiro de 1989, entrou em vigor em todo o país o aumento de 100% do preço da gasolina, segundo o estabelecido pela política de ajuste macroeconômico anunciada pelo governo do presidente Andrés Pérez, no dia 16. Passou a vigorar também o consequente aumento das tarifas do transporte coletivo. O Ministério de Transporte e Comunicações (MTC), seguindo os procedimentos institucionais habituais, informou previamente que havia chegado a um acordo com a Federação Nacional do Transporte (Fedetransporte). Segundo o acordo, deveriam ocorrer ajustes nas tarifas do transporte coletivo em 30%. Tais aumentos foram anunciados pela imprensa. Não obstante, a Central Única de Veículos Livres e Por Postos, afiliada à Federação, havia manifestado sua discordância quanto à proporção do aumento autorizado pelo governo, e no mesmo dia 27 seu presidente contradisse algumas declarações da

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Fedetransporte, dando a entender que a Central não iria exercer sua autoridade para fazer que seus afiliados acatassem o aumento (cf. El Nacional, 28-02-1989). De acordo com o noticiado por dois dos principais diários da capital, de circulação em todo o país ― o El Nacional e o El Universal ― em 27 de fevereiro, nas primeiras horas da manhã, começaram os protestos em alguns pontos nevrálgicos do transporte coletivo suburbano de Caracas. 29 No terminal do Novo Circo de Caracas, principal ponto de recepção dos que vêm dos subúrbios e cidades-dormitório, e nos pontos de parada do transporte coletivo para Caracas das cidades-dormitório de La Guaira, Cátia La Mar e Guarenas, antes das 6 horas da manhã, principiaram os protestos. Em todos esses casos, os motoristas de ônibus tentavam cobrar um aumento de tarifa acima do estabelecido pelo acordo com o MTC. Os usuários, em especial os estudantes, resistiram. A imprensa da capital relatou também que vários protestos contra o aumento das passagens haviam ocorrido desde cedo, nessa manhã, nas cidades principais de Barquisimeto, San Cristóbal, Mérida, Maracay, Barcelona e Porto La Cruz. Também em Maiquetia e Naiguatá do litoral central, Los Teques, Porto Ordaz e Maracaibo, embora nestes casos não se tenha precisado a hora de início. Da mesma forma, foram relatados princípios de distúrbios à tarde, em Valência, Carora, Acarigua e Cidade Guayana. Pela natureza da fonte que estamos utilizando, a descrição mais detalhada de como se desencadearam e evoluíram os fatos provém de Caracas e sua periferia. Esta descrição servirá para avaliar-se a revolta em seu caso mais extremo. Às 6 horas da manhã do dia 27, os estudantes do Instituto Universitário Politécnico Luis Caballero Mejías tomaram o terminal interurbano de rotas curtas do Novo Circo, em Caracas. Imediatamente, solidarizaram-se com a tomada os camelôs e trabalhadores do terminal. A princípio, houve acaloradas altercações entre estudantes e motoristas, depois reuniões com as autoridades do terminal, enquanto eram esperadas instruções do MTC. Mas as instruções não chegaram. Como modo de protestar, os estudantes se sentaram no chão, formando uma barreira humana, obstruindo a via de entrada do terminal.

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O que se segue é uma reconstrução dos fatos baseada principalmente nestes jornais.

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Tinham o recorte de jornal em que eram mostradas as tarifas oficiais, e denunciavam a flagrante violação delas por parte dos motoristas da rota Caracas-Guatire-Guarenas. Os estudantes também levavam o documento de passe estudantil e as instruções (editadas pelo Centro de Estudantes) sobre o que fazer se o passe não fosse aceito. Os motoristas alegavam cumprir ordens de seus superiores da Central Única, e por isso não acatavam o aumento oficial de 30% noticiado pela imprensa. Ademais, segundo um repórter do El Diario de Caracas, que chegou à cidade-dormitório de Guarenas por volta das sete e meia da manhã, já havia ali, por essa hora, dois veículos incendiados; e, então, começaram os saques no Centro Comercial Miranda. A polícia não contava com efetivos para enfrentar a situação, e não possuía gás lacrimogêneo; trazia apenas cartuchos, que utilizavam seletivamente contra os "malandros". Entre os jornalistas e cinegrafistas que faziam a cobertura, afirmou-se que existia em Guarenas, desde o fim de semana anterior, uma grande tensão, pois os moradores previam o desacato dos condutores ao aumento oficial da tarifa. Não obstante, o governo não tomou precauções especiais em tempo, visto que o comandante Rafael Galué García, da GN, foi enviado a essa cidade apenas de manhã. Por causa, em parte, do descomunal congestionamento de trânsito provocado pela revolta, o comandante chegou a Guarenas apenas no meio da manhã, com um contingente de cem guardas, quatro subalternos, dois oficiais e quatro veículos blindados com equipe para controlar desordens públicas. Encontrou a cidade já mergulhada em um protesto violento ― e somente 16 policiais, absolutamente subjugados pela situação. Todos os estabelecimentos comerciais, postos policiais e o terminal de transporte da cidade foram destruídos entre esse dia e o seguinte. Voltemos a Caracas: quando a multidão de Novo Circo, liderada pelos estudantes, sentiu-se forte em número, deslocou-se da Avenida Lecuna à Avenida Bolívar, à altura do Centro Simón Bolívar. Em frente ao busto do herói nacional ali levantado, começaram a construir barricadas para obstruir o trânsito, enquanto gritavam palavras de ordem contra o aumento dos preços de todos os bens e serviços. Com esta ação, bloquearam uma das principais artérias da cidade.

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Depois do meio-dia, outra multidão ― aparentemente vinda do mesmo protesto do terminal do Novo Circo, e formada principalmente por estudantes ― congregou-se em frente à Universidade Central da Venezuela (UCV). Solicitavam aos estudantes ucevistas que se juntassem ao protesto ― e era já um grupo bastante numeroso. Esta multidão protestava não só contra os aumentos das passagens, mas também contra as medidas econômicas aplicadas pelo governo de Pérez. Atravessaram veículos na via de acesso à Praça Venezuela e à Praça As Três Graças, interrompendo a circulação em outro ponto nevrálgico da cidade. Por volta das cinco horas da tarde, a Polícia Metropolitana (PM) apareceu e enfrentou os estudantes. Pelas duas horas da tarde, principiou a tomada da autoestrada Francisco Fajardo. A multidão veio do Parque Central, das imediações da UCV e de La Charneca, e em cada uma das intersecções da estrada eram colocados galhos de árvores, engradados de refrigerantes e qualquer objeto que pudesse impedir a passagem dos carros. Todo caminhão que se aproximava, e do qual se suspeitava que transportasse alimentos, era parado pelas pessoas; punham sem violência o motorista sob controle, retirava-se a carga, distribuíam-na e depois pediam ao motorista que pusesse atravessado o caminhão. A PM chegaria mais tarde, mas tinha ordem de não agir. Além disso, uma parte das pessoas do protesto do Novo Circo já se havia apossado da intersecção da Avenida Lecuna com a Avenida Forças Armadas. Ali, próximo da sede dos bombeiros do Distrito Federal, atearam fogo a um ônibus e não permitiram que os bombeiros se aproximassem para apagar o incêndio. Outro fio de fumaça, próximo à Roca Tarpeya, indicava um incêndio no morro que ladeia o entroncamento da Avenida Forças Armadas com a Nova Granada. Havia homens, mulheres, crianças e velhos que gritavam em protesto contra as medidas econômicas anunciadas pelo presidente Pérez. A PM chegou e fez disparos para o ar; em seguida, os policiais interromperam a ação e colocaram dois "camburões" à altura da Avenida Lecuna. No fim da tarde, uma estudante da UCV, Yulimar Reyes, morreu vítima de um disparo de escopeta em frente ao Parque Central. Por volta das seis horas da tarde, a combinação de tomada das artérias nevrálgicas da cidade pela multidão com as manifestações estudantis, o começo dos saques a estabelecimentos comerciais e a caminhões com 67

mantimentos, e a paralisação do transporte coletivo haviam tornado a cidade um autêntico caos. Outro fenômeno que se viu, então, desde cedo, foi a participação dos motociclistas da cidade no protesto popular. Em Caracas, trabalhavam milhares deles, percorrendo a cidade diariamente para comunicar entre si os diferentes agentes das atividades urbanas, em razão da ineficiência dos correios. Antes das nove horas da manhã, eles se haviam juntado ao protesto popular, e com seus veículos iam e vinham, de um lado a outro, levando manifestantes, transmitindo notícias das mobilizações que aconteciam, avisando sobre a aproximação de patrulhas, e resguardando com suas motocicletas as esquinas e transversais que desembocam nas avenidas principais. E, ao cair da tarde, milhares de pessoas se viram diante da necessidade de retornar a suas casas sem transporte coletivo, pois a essa altura o metrô de Caracas também já havia fechado seus portões. Assim, novas multidões tomaram as ruas para empreender o regresso a casa. Pelo caminho, iam adquirindo concretamente consciência da magnitude do protesto que se desenrolava; depois disso, muitos populares se incorporariam ao movimento. A descrição dos sucessos nas cidades circunvizinhas de Caracas, como as do litoral central ou dos Valles del Tuy e outras áreas do Estado de Miranda, demonstra que todos eles foram casos similares. Os protestos na cidade-porto de La Guaira, por exemplo, começaram antes do amanhecer, quando os motoristas tentaram cobrar uma tarifa acima da fixada pelo MTC, e os usuários se opuseram. O porto permaneceu paralisado desde esse dia. Em Cátia La Mar, pela mesma razão, uma multidão enfurecida apoderou-se de alguns imensos pneus, atravessou-os na Avenida O Exército e os queimou, deixando sem comunicação a avenida e os subúrbios populares que a rodeiam ― assim como as populações de Tacoa, Las Tunitas e outras do litoral central ― com Caracas. Em Macuto, manifestantes assaltaram um caminhão de mantimentos, enquanto uma comissão de estudantes dialogava com o presidente da Junta Administrativa do Conselho e a prefeita local. Em cidades importantes como Barquisimeto, capital do Estado de Lara e uma das mais populosas do país, a história se repete: iniciam-se os protestos estudantis contra o aumento do passe escolar, seguidos das queixas dos outros usuários; a situação se torna violenta e se espalha por toda a cidade. 68

Porém, diferentemente de Caracas, ao meio-dia o governador solicitou a saída para as ruas da Guarda Nacional. O presidente Pérez visitou a cidade à tarde para participar de uma reunião de empresários, mas, ao que parece, não se deu conta do que acontecia, ou então não deu importância ao caso. 30 Os saques na capital e em outras cidades intensificaram-se ao cair da noite, e prolongaram-se até o dia seguinte. Nessa noite, foram celebradas festas em alguns bairros populares da capital, com uísque, champanha e outras extravagâncias gastronômicas obtidas nos saques. Algumas notas de jornal indicam a ocorrência de saques na Avenida Andrés Bello, nomeadamente na Provedoria da Secretaria Central de Pessoal 31 e em seus depósitos, uma das maiores lojas de departamentos da cidade. Também em outras áreas, como Antímano, El Guarataro, Maripérez, El Paraíso,

Curamichate, Petare e a Intercomunal de El Valle. No centro de Caracas, nas proximidades das praças Miranda, Caracas e O'Leary, a multidão agia desenfreadamente. Para os lados da região leste, ocorreram nesse dia, ainda que em menor grau, saques em La Florida, na Avenida Rómulo Gallegos, em Chapellín, La California, Los Palos Grandes e Petare. Durante a madrugada, o Exército foi mandado para as ruas a fim de impor o controle militar da cidade.

DE 28 DE FEVEREIRO A 3 DE MARÇO
Depois da noite de saques nas áreas comerciais da capital, em seus subúrbios e em algumas cidades do interior, generalizou-se na terça-feira a rebelião por boa parte das urbes do país. Em Caracas, as principais avenidas foram tomadas por centenas de manifestantes, que destruíam portas e vitrinas e se apoderavam de tudo. Entre as palavras de ordem que eram ouvidas ou ficaram pichadas nas paredes e muros das ruas, exclamava-se: "O povo tem fome!", "O povo está furioso!", "Basta de mentiras!". Em alguns casos, empunhavam-se bandeiras e cantava-se o hino nacional, ao irromper nos estabelecimentos. As multidões impediram o trânsito, levantando grandes
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Em 1999, um de seus acompanhantes desse dia afirmou que Pérez sabia dos distúrbios, mas inclinou-se a vê-los como algo passageiro (Betancourt, em El Nacional, 21-02-1999). Pérez, em uma entrevista dez anos depois, afirmou que seus assistentes de confiança, incluindo os ministros da Defesa e das Relações Interiores, informaram-no reiteradamente de que nada fora do comum estava ocorrendo nesse dia. Somente tomou consciência da situação próximo da meia-noite, quando regressou a Caracas (UCV, documentário, 1999). 31 OCP, na sigla em espanhol. (N. do Trad.)

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fogueiras no meio das principais avenidas, e interromperam com elas todas as entradas da cidade. Foram relatados casos de especial enfurecimento contra estabelecimentos de imigrantes chineses, libaneses e portugueses, em razão do fato de serem eles considerados os responsáveis pela escassez (por açambarcamento de mantimentos) que havia ocorrido nas semanas anteriores. Algumas reportagens assinalam também que foram vistos grupos armados (alguns, inclusive, com uniformes de polícia e rostos ocultos por lenços) que chegavam com caminhões para levar mercadorias das lojas. Além dos estabelecimentos de comércio de alimentos, foram saqueadas lojas de eletrodomésticos, roupas, ferramentas e outros produtos. Na Avenida Andrés Bello não restou sequer um único estabelecimento intacto. Tampouco algum na Avenida Nova Granada. Nas avenidas San Martín e Lecuna, as portas metálicas ficaram destroçadas e o chão coberto de paus e pedras. Na Intercomunal de El Valle, nos Jardins del Valle, no Cemitério e no km 6 da Rodovia Pan-americana foram registrados grandes saques e tiroteios. A polícia ali reprimia com mais força e o Exército na rua disparava com fuzis automáticos (os conhecidos FAL). Além disso, verificou-se também o amotinamento dos reclusos de El Junquito e Los Flores de Cátia, que queimaram colchões e provocaram tumulto. Os doentes mentais do hospício de Cátia, em número de aproximadamente sessenta, foram liberados na tarde desse dia, e apenas cinco deles regressariam nos dias seguintes (Frasso, intervenção em fórum, 1999). As reportagens tendem a indicar que em boa parte desse dia a polícia foi menos severa ao reprimir e, por vezes, solidarizou-se com a população, participando das ações. Em Antímano, por exemplo, a PM, diante da incapacidade de controlar a situação, chegou a um acordo com os moradores, deixando entrar as mulheres e crianças nos estabelecimentos comerciais para saquear, enquanto os homens permaneciam no morro (onde ficam suas residências), nas barricadas, esperando as mercadorias. A situação foi muito semelhante nos subúrbios. A imprensa da capital informou, com alguns detalhes, sobre os saques em Maiquetía, La Guaira, Macuto, Naiguatá e Cátia La Mar. Nesse dia, os saques atingiram praticamente todas as cidades principais e secundárias do país. Com menos pormenores, mas com características similares, as descrições dos jornais se repetem: em Barinas, por exemplo, os mercados municipais, bem como alguns outros 70

estabelecimentos comerciais, foram assaltados por gente que protestava contra o alto custo de vida e a falta de medidas de proteção ao consumidor. O protesto começou com os estudantes da universidade, que incendiaram uma padaria; mais tarde as manifestações se generalizaram nos bairros populares, e tentou-se, sem êxito, incendiar uma sede do Comitê Executivo Seccional (CES) do partido Ação Democrática. Em Maracaibo, donas de casa, estudantes, trabalhadores e camelôs também protestavam contra o alto custo de vida. No centro da cidade, a multidão saqueou supermercados e lojas, e os motoristas do transporte coletivo paralisaram as atividades. Os distúrbios, enfim, se espalharam por toda a cidade, saqueando-se centros comerciais e veículos com alimentos. Na região oriental do país, na cidade de Barcelona, capital do Estado de Anzoátegui, os saques e distúrbios se deram com grande intensidade durante a manhã, embora pela tarde amainassem. Entretanto, em Porto La Cruz, capital turística do Estado, os distúrbios e saques persistiram por todo o dia, e a cidade teve de ser tomada pela GN. As empresas de transporte haviam aplicado um aumento de 100% às passagens, mas no transcurso do dia as autoridades regionais, após conversações, conseguiram que elas aceitassem limitar-se ao aumento oficial de 30%. Finalmente, em Porlamar, no Estado de Nova Esparta, as concessionárias dos postos de serviço de gasolina ameaçavam deixar sem combustível a ilha se não fosse feita uma revisão dos preços e da margem de lucros que os novos decretos determinavam. Entrementes, os estudantes da Universidade do Oriente nesse Estado (UDONova Esparta) protestaram contra o aumento da passagem no transporte, queimando pneus e impedindo o trânsito entre Porlamar e La Asunción. O governo, através do ministro das Relações Interiores, dirigiu-se pela primeira vez à população, pouco depois do meio-dia de terça-feira, para pedir calma e anunciar ― obviamente, de modo inoportuno ― que não permitiria violência. Esta alocução, contudo, provocou escasso efeito para tranquilizar ou frear as ações coletivas, pois o ministro, antes de terminar, sofreu um desmaio, o que fez com que o pronunciamento fosse suspenso uma vez, para se tentar de novo um par de horas mais tarde, sem que se desse à população explicações claras sobre o ocorrido. Assim, a sensação de incerteza política acabou por aumentar. Em seguida, pouco antes das seis horas da tarde, foi ao 71

ar em cadeia nacional dos meios de comunicação um pronunciamento do presidente Andrés Pérez, que em companhia dos membros de seu gabinete determinou a suspensão de um conjunto de garantias constitucionais e estabeleceu para os dias seguintes o estado de sítio, com o toque de recolher das seis horas da tarde às seis da manhã. Com o toque de recolher, a rebelião começou a ceder sob força de uma repressão atroz desatada sobre a população, sobretudo contra os moradores dos bairros populares de Caracas. Essa repressão já fora empregada em certas zonas da cidade durante o dia, e intensificou-se durante a noite e nos dias seguintes. As diferentes polícias e o Exército, em um desesperado e torpe intento de controlar a situação, atacaram furiosamente moradores e transeuntes nos bairros populares. Em 1º de março, na chamada escadaria de Mesuca, em Petare, o exército disparou contra a multidão, assassinando mais de vinte pessoas (Camuñas, intervenção em fórum, 1999). Na manhã deste dia, continuaram os saques e tiroteios em vários pontos de Caracas; contudo, mais do que multidões, haviam começado a agir grupos de delinquentes, muitas vezes armados. Por exemplo, relatou-se que na área 23 de Janeiro ― uma zona de bairro popular a oeste da cidade, a situação foi de terror por causa do confronto que estava ocorrendo entre o Exército e franco-atiradores que se haviam postado em terraços de alguns dos edifícios de residências populares. Os soldados, em sua maioria jovens inexperientes cuja idade girava em torno dos 18 anos, dispararam contra os edifícios com seus FAL, destroçando apartamentos e tirando a vida da população civil desarmada. Enquanto a rebelião prosseguia na capital, nas cidades do interior o toque de recolher e a militarização conseguiram reconduzir a situação à tranquilidade. No dia 1º, persistiram focos de agitação em Maracay e Maracaibo, mas Guarena, Mérida, Acarigua, Porto Ordaz, Carora e Barquisimeto foram noticiadas como estando sossegadas, embora com as atividades comerciais, escolares e de transporte paralisadas, além do espetáculo dos veículos militares (as tanquetas) percorrendo as artérias principais em meio aos escombros. As noites de 1º para 2 de março e de 2 para 3 foram um pesadelo que aterrorizou os setores populares de Caracas. Invasões policiais a residências e 72

tiroteios em algumas zonas periféricas, incêndios ocasionais e aparecimento de cadáveres jogados na rua ao fim do toque de recolher são algumas das histórias contadas. No dia 3, e com mais resolução no dia 4, sinais de uma volta à normalidade começam a insinuar-se: camelôs que saem às ruas, funcionários que começam a limpar, comerciantes que voltam para pôr novamente em ordem seus negócios. Entrementes, os cemitérios se enchiam de gente que esperava enterrar seus mortos. A imprensa continuou informando sobre a ação de franco-atiradores e a resposta dos soldados e da polícia, em bairros do oeste da cidade, conquanto já não houvesse mais saques. Em cidades principais e secundárias do país, relatou-se normalidade e o tímido recomeço das atividades urbanas para o dia 3. Em algumas cidades, como Maracaibo e São Felipe, reduziu-se ou suspendeu-se o toque de recolher na noite de 3 de março.

BALANÇO DAS PERDAS
Ao findar-se a semana e nos dias que se seguiram, procurou-se realizar alguns balanços de mortos, de feridos e de perdas materiais. Não obstante, até hoje as cifras são parciais e/ou carecem de confiabilidade. O ministro da Defesa informou oficialmente, pouco depois do Caracaço, que o governo reconhecia 277 mortos. A despeito disso, estudos posteriores chegaram a cifras maiores. Um estudo da lista do necrotério de Bello Monte, em Caracas, onde por lei deveriam ter entrada todos os falecidos em ruas ou hospitais da capital nesses dias, deu como resultado um total de 310 mortos (Briceño-León, 1990). Outro estudo posterior, usando as mesmas listas, contou 322 mortes (Centro de Estudos para a Paz, 1999). Estas cifras não incluem os mortos nas cidades do interior, nem os cadáveres da capital que nunca chegaram ao necrotério. Em 1992, o Comitê de Familiares das Vítimas de Fevereiro-Março de 1989 (Cofavic) e a Rede de Apoio pela Justiça e pela Paz, duas organizações de direitos humanos (a primeira, constituída em seguida às atrocidades cometidas pelos corpos de segurança durante aqueles acontecimentos, contava com as informações proporcionadas pelos familiares dos mortos ou

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desaparecidos daqueles dias) elaboraram uma lista de 396 mortos. Esta cifra é a que consideramos a mais próxima da realidade (Ochoa Antich, 1992). Entretanto, o chefe forense do necrotério de Bello Monte informou que os dois primeiros cadáveres chegaram a essa instituição em 27 de fevereiro, às dez horas da noite, um horário bastante tardio se levarmos em conta que a revolta começou antes das seis horas da manhã. Diversos funcionários dos centros de assistência afirmam que foram muito poucos os ingressos de mortos nesse dia, pois a maioria era de feridos, devidos a acidentes durante os saques. Por outro lado, um membro do gabinete executivo do governo de Pérez afirmou, em um fórum público realizado dez anos depois, que, quanto à manhã de 28, foi informado acerca de um total de 63 mortos, o que ― no caso de ser correta essa cifra ― representaria 15,9% do total de mortos segundo os números definitivos apresentados pelo Cofavic (Blanco, intervenção em fórum, 1999). Essas indicações, juntamente com as conclusões do estudo de BriceñoLeón sobre as características dos cadáveres, feitas a partir do estudo das listas do necrotério, bem como os quadros elaborados pelo Centro de Estudos para a Paz sobre a comissão do fato e localização anatômica das feridas por armas de fogo (também das mesmas listas) revelam que as mortes ocorreram principalmente a partir do dia 28, e que foram os corpos de segurança os principais responsáveis por elas. Segundo o estudo de Briceño-León (1990), 87% dos mortos eram homens, com idade média de 27 anos; 95% eram venezuelanos e 83% não tinham antecedentes criminais; 85,8% das mortes foram provocadas por armas de fogo, e 11,9% por causas não registradas. De acordo com a análise do Centro de Estudos para a Paz, da UCV (1999), de 266 cadáveres que mostravam feridas por armas de fogo, mais de 60% tinham recebido disparos localizados ou no tórax (35,71%) ou na cabeça (29,32%). Desses cadáveres, 211 haviam recebido um único disparo (79,2%), enquanto 39 haviam recebido dois (14,66%). Tratava-se, portanto, de execuções sumárias de uma população civil indefesa cujo delito principal fora o de estar nas ruas depois do toque de recolher. Sobre o número de feridos, as informações permitem apenas uma aproximação imperfeita. No dia 4 de março de 1989, o governo informou sobre 1009 feridos por forma violenta, dos quais 218 por armas brancas, e 604 por 74

cortes de vidro. Não obstante, somente o pronto-socorro do leste de Caracas ― o Pérez de León ― informou ter atendido 575 feridos. Em perdas materiais, o inventário oficial para as zonas críticas de Caracas, Petare e o Litoral Central registrou a destruição de 900 mercearias, 131 pequenos empórios, 60 supermercados, 95 lojas de materiais e ferramentas, 72 bazares e 850 negócios diversos. No Estado de Miranda (excluindo-se o que corresponde à zona metropolitana de Caracas), e nos de Arágua e Carabobo, informou-se que 784 estabelecimentos foram destruídos. A câmara de seguros calculou em relação aos estabelecimentos comerciais que estavam amparados por apólices que as perdas chegavam a 3,073 bilhões de bolívares. Para os não assegurados, calculou-se um montante similar. Uma porcentagem de 75% dos negócios afetados correspondeu a mercearias e outros pequenos comércios que serviam aos bairros das áreas periféricas. Informou-se também que 35% dos supermercados pertencentes a cadeias da área metropolitana foram afetados. Podemos considerar essas cifras apenas como aproximações insuficientes. As detenções durante o Caracaço alcançaram os milhares e seria necessária uma ampla investigação para a obtenção de cifras confiáveis. Quanto ao dia 1º de março, registraram-se ― segundo a imprensa ― em Porto Ordaz, cerca de 100 detidos; em Barquisimeto, mais de 500; em Carora, 20; em San Cristóbal, 300; nas cidades principais e secundárias do Estado de Arágua, 2000; em Cumaná, 200; em Valência, mais de 1800. Segundo uma lista elaborada pela Federação de Centros Universitários, foram mais de 100 os estudantes detidos em diferentes operações. Alguns detidos na Disip haviam sido espancados com tacos e canos durante os interrogatórios.

O CARACAÇO EM COMPARAÇÃO COM OS PROTESTOS DE 1935-36
A força disruptiva do Caracaço alcançou magnitude, violência e extensão tais que não permite compará-lo a nenhuma situação anterior na Venezuela, mas apenas a grandes revoltas populares de outros países da América Latina e do mundo. No entanto, ainda assim o Caracaço guarda 75

similitudes com a onda de protestos que sacudiu a Venezuela entre dezembro de 1935 e fevereiro de 1936, quando a morte do general Juan Vicente Gómez abriu uma estrutura de oportunidades políticas excepcional no contexto da sociedade de então. Em 17 de dezembro de 1935 morreu o general Gómez, em sua residência de Maracay, após haver exercido o poder, de maneira autoritária e personalista, por 27 anos. Conquanto tivesse tomado as precauções para decidir quem havia de sucedê-lo no exercício do poder ― designando então o general Eleazar López Contreras para o Ministério da Defesa ― a escassa legitimidade das instituições políticas e o tradicional uso da força, somados aos procedimentos personalistas em situações desse tipo, levantaram

imediatamente uma encarniçada luta pela sucessão entre os que atuavam no poder da época. Enquanto membros da família Gómez e homens fortes do regime, bem como aparentados e partidários do general López Contreras, buscavam apoderar-se da presidência, multidões urbanas surpreendentemente começaram a sair às ruas. Entre o dia 18 de dezembro e os eventos conhecidos como de 14 de fevereiro de 1936, as multidões estabeleceram uma forte relação com a autoridade emergente. Em um contexto caracterizado pela inexistência de canais de representação e mediação, mas, ao mesmo tempo, marcado por importantes transformações sociais, que vinham ocorrendo havia já vários anos, esta interação emergente foi a forma pela qual a política renasceu. Desde fins dos anos de 1910, uma incipiente economia petroleira, combinada a uma longa paz (segundo os parâmetros venezuelanos), vinha causando mudanças na sociedade rural do século XIX. Uma sociedade moderna e mais complexa se erigia; contudo, ela não tinha ainda, por essa época, meios institucionais para expressar-se politicamente. Mas, a inter-relação da autoridade e a multidão ― uma "política das ruas" ― tinha sua tradição, tanto na Espanha como em suas colônias, sendo praticada inclusive em algumas cidades latino-americanas do século XIX. Em 1935-36, esta política reviveu. Começando no dia 18 de dezembro, as multidões ― sob a liderança do movimento estudantil ― passaram a reunir-se nas praças públicas da capital e de outras cidades do país para discutir os fatos políticos que estavam ocorrendo. Na Praça Bolívar, de Caracas, puseram-se em frente às portas do 76

Governo do Distrito Federal exigindo de López Contreras ― recém-investido presidente da República, e que se achava na cidade de Maracay assistindo aos funerais de Gómez ― a destituição do general Velasco como governador da capital. Velasco era um dos homens mais representativos (e dos mais odiados) do regime moribundo, e López Contreras, dando um hábil e inteligente passo adiante em relação a seus rivais na luta pelo poder, aceitou a exigência dos caraquenhos e destituiu o governador. Era o dia 20. López Contreras entrou na cidade em meio à expectativa geral. Nessa tarde, em frente ao palácio presidencial, foi ele aclamado pelo povo. Tão logo se soube da morte de Gómez, estouraram também importantes distúrbios em diversas cidades do país. Semelhantemente ao que ocorrera diversas vezes no século XIX, o desaparecimento do caudilho principal de turno produziu um vazio de poder, o que era aproveitado pelas multidões para realizar uma série de ações de rua, entre as quais soíam não faltar os saques. Mas, apesar de os estabelecimentos comerciais estarem na mira do povo, como sempre havia acontecido no passado ― e, com efeito, ocorreram saques a lojas em Caracas, Maracaibo e outras cidades ― a maioria desses ataques esteve dirigida para as propriedades dos políticos que, naquele momento, haviam caído em desgraça. As casas e propriedades da família Gómez ou dos gomezistas eram o alvo principal das multidões. Estas ações foram toleradas, e até certo ponto aprovadas, pelo general López Contreras, que deu ordens precisas aos corpos de segurança para fazerem-se visíveis nos lugares em que ocorriam os saques, mas para cuidarem de não atacar ou infligir danos às pessoas. À medida que foi consolidando seu poder, o governo de López foi-se tornando menos tolerante com esse tipo de ação e, por conseguinte, a repressão foi aumentando. Como resposta, as multidões foram-se organizando, quer sob a liderança do movimento estudantil quer de outros movimentos sociopolíticos emergentes. Foram, dessa forma, modelando suas demandas no sentido da modernização política, replicando com violência somente quando eram reprimidas violentamente, como durante os acontecimentos de 14 de fevereiro de 1936. A situação no momento em que o Caracaço estourou guarda algumas similitudes, embora também apresente importantes diferenças. Vejamo-las.

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Um dos traços mais notáveis do Caracaço, na perspectiva de comparação com esses outros eventos, foi o de que, embora não existisse a incerteza, como em 1935, em torno da cabeça do poder ― pois Andrés Pérez havia sido eleito em dezembro com um relativamente forte apoio popular ― o que, de fato, ocorreu durante as primeiras 30 horas da rebelião foi a notável ausência do governo, em suas diferentes manifestações: não se fizeram presentes os funcionários encarregados do cumprimento dos acordos firmados com a Fedetransporte; as diferentes forças policiais ou não intervieram durante os primeiros protestos ou alegaram cumprir ordem de não intervir. A ausência mais surpreendente e determinante na forma e na dimensão que a rebelião assumiu foi a do Governo Nacional. Sua primeira aparição se deu após a uma hora da tarde do dia 28. Existem inúmeros depoimentos da época (e posteriores) que alegam a ignorância do Governo Nacional a respeito dos acontecimentos que se verificaram em Caracas e em parte significativa das cidades principais e secundárias do país durante todo o dia 27. Tanto o próprio ex-presidente Andrés Pérez, em diversas entrevistas, como alguns altos funcionários de seu governo (incluindo-se o ministro da Defesa) assinalam que o alto governo, mais do que não ter conhecimento, não se precaveu ou não avaliou adequadamente a gravidade da situação. Andrés Pérez e o ministro da Defesa Italo Del Valle Alliegro ausentaram-se ambos da capital, nesse dia, por causa de tarefas de rotina. Pérez insistiu (em uma entrevista concedida dez anos depois desses fatos) em que os membros de maior confiança de sua equipe ― inclusive os ministros da Defesa e das Relações Interiores ― o informaram repetidamente, ao longo do dia, que nada fora do habitual estava acontecendo. Em consequência, afirma, somente tomou conhecimento da situação à noite, quando então regressou a Caracas vindo de Barquisimeto (UCV, 1999). Na entrevista, Andrés Pérez deixa claro que, no momento de irromper o Caracaço, os canais regulares de inteligência do Estado não estavam funcionando. Porém, pode-se inferir também que nada de extraordinário era esperado pelo alto governo em termos de mal-estar social, apesar da dureza das medidas que haviam sido anunciadas e, igualmente, do fato de nesse dia 27 começar a vigorar o aumento das passagens. Isto põe em evidência um cálculo político extremamente deficiente, o que é corroborado ainda mais pela 78

negação, até aquele momento, de Pérez em aceitar que o Caracaço tivesse algo que ver com as políticas de ajuste que ele anunciara dez dias antes, ou mesmo com o aumento no transporte público. O ex-presidente afirma que o acontecido foi basicamente resultado de um problema de insubordinação da PM, que vinha ocorrendo desde antes de sua gestão e que era motivada por uma queixa dos policiais em relação aos seus superiores da GN. A PM não somente não controlou os primeiros focos de protesto, como chegou mesmo, em alguns casos, a estimulá-los. Este argumento, embora esclareça uma das dificuldades que Pérez e seu gabinete enfrentaram no dia 27, não é senão indício de uma das numerosas debilidades institucionais que convergiram nesse dia para provocar os trágicos resultados. Condizentemente, os altos dirigentes dos partidos políticos AD e Copei também afirmam não haver recebido informações sobre os protestos do dia 27, começando seus contatos com o governo somente na noite deste dia e no dia 28 pela manhã (Celli, intervenção em fórum, 1999). O governo, por sua vez, justifica não ter ido a público antes da tarde de 28 com a alegação de que tratava de conseguir o apoio de todas as forças políticas para decretar o estado de sítio e o toque de recolher. Isto revelou um comportamento muito distante do que ele havia demonstrado nos dias anteriores, quando procedeu aos anúncios oficiais do plano de ajustes com o FMI sem contar com apoios políticos básicos. Pérez nem sequer teve o apoio firme de seu próprio partido, que se achava dividido internamente. Não obstante, isso não pareceu incomodá-lo para realizar os anúncios do dia 16. A direção sindical, como seus pares dos partidos, também brilhou pela ausência nas ruas, e até mesmo demonstrou perplexidade diante do que acontecia. Mais ainda, uma vez postos diante da situação, os dirigentes sindicais foram incapazes de empreender qualquer ação que lhes permitisse intervir nos acontecimentos para controlar ou canalizar o descontentamento de alguns setores sociais. Os canais legítimos de representação e mediação estavam claramente decompostos. A extrema debilidade dessas instituições deixou abertas as portas para uma revolta sem controle. A desorientação do governo foi agravada posteriormente pela brutal repressão exercida pelos corpos policiais e militares, em especial na capital, embora em algumas regiões as autoridades estaduais ou locais tenham atuado com mais comedimento. O procedimento 79

extrainstitucional para controlar a revolta e fazer retornar a multidão a seus lares agravou a situação: as cifras de mortos e as características dos cadáveres a que fizemos menção acima falam por si só. Também neste aspecto, o Caracaço revelou quão funda era a deterioração institucional ― e a aprofundou.

COMO CONCLUSÃO
A rebelião popular de 27 de fevereiro de 1989 foi um protesto violento e de massas, perpetrada por uma sociedade que não contava com canais idôneos para fazer-se ouvir e ser atendida pelas instâncias do poder. Quando exteriorizou seu mal-estar contra a primeira manifestação concreta do pacote macroeconômico ― ou seja, o aumento das tarifas do transporte coletivo ― encontrou-se em um espaço público sem controles. A multidão se voltou então contra os estabelecimentos de comércio, como sempre havia feito no passado ao ocorrer um vazio de autoridade. Apesar disso, os populares não se dirigiram para as casas dos políticos depostos, porque não os havia. Se nessas horas incertas houvesse ocorrido um golpe de Estado, certamente essa multidão também teria rumado para tais casas. As Forças Armadas, representadas pela figura do ministro da Defesa, e o Alto Comando permaneceram fiéis ao regime de Andrés Pérez, permitindo-lhe sobreviver. A extrema disrupção da vida cotidiana nas urbes venezuelanas durante os dias do Caracaço pôde certamente ser motivada por um complexo de fatores, entre os quais se inclui como um dos componentes-chave a traição a uma economia moral. No entanto, foi a debilidade das instituições, projetadas no passado para conter e regular a ordem política e a vida cotidiana, o motivo que explica a extensão, a duração e a violência do protesto. Se os atores políticos e os sindicatos estivessem em sintonia com suas bases, decerto teriam podido prever as dificuldades que sobreviriam ao anúncio do pacote. Conquanto fosse altamente improvável que alguém pudesse predizer a magnitude da ira popular que se vinha represando, partidos e sindicatos íntegros necessariamente deveriam ter elaborado estratégias para opor-se e/ou negociar com o governo o modo como se aplicariam as medidas do pacote. Isto, por seu turno, teria dado às pessoas alguns canais de vazão de seu mal-

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estar, ou então alguma esperança de alterar os dramáticos efeitos que elas esperavam. Mas, ao contrário disso, as instituições de mediação estavam demasiado erodidas para serem capazes de atuar. Igualmente, as instituições governamentais mostraram todo tipo de debilidades. Se, ao começar o protesto, os funcionários correspondentes tivessem exercido sua autoridade para fazer que os sindicatos do transporte cumprissem os compromissos assumidos alguns dias antes; ou se a polícia tivesse intervindo imediatamente para controlar as manifestações violentas antes que elas se espalhassem, é provável que não atingissem a extensão e a intensidade que atingiram. O governo tampouco executou os procedimentos institucionais de tentar chegar a acordos com os diversos grupos de interesses afetados pelas medidas. Não parece que ele tenha avaliado as implicações de um plano de ajuste que poderia suscitar o temor em uma população empobrecida e, havia uma década, submetida à recessão econômica e à frustração sociopolítica. A democracia venezuelana revelou-se tão carente

de traços democráticos efetivos, e as instituições que regulam a vida diária tão faltas de consistência, que somente uma ação firme, rápida e profunda de mudanças político-institucionais poderia ter evitado o processo de

deslegitimação política que se desencadeou a partir de então, e que alguns anos mais tarde levaria a sociedade à crise e à transformação política.

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DEPOIS DO CARACAÇO: PROTESTO POPULAR E LUTA HEGEMÔNICA32

MARGARITA LÓPEZ MAYA

Desde meados dos anos 80, mas sobretudo depois do Caracaço, a Venezuela tem sido vista, tanto interna quanto externamente, como uma sociedade marcada pela incessante mobilização de sua população. Esta situação mudou profundamente a maneira como muitos percebiam antes essa sociedade. Em princípios dos anos 80, havia uma ideia generalizada segundo a qual os venezuelanos se achavam entre os cidadãos menos mobilizados da América Latina. Argumentava-se que sua sólida democracia, lubrificada pela renda petroleira do Estado, havia permitido que se estabelecessem e consolidassem canais de mediação e representação eficientes, que

conjuravam o conflito social pronunciado e/ou violento. Os venezuelanos eram "diferentes" do restante da América Latina, visto que pareciam ter superado a contínua turbulência sociopolítica de outras sociedades. Isto chegou a manifestar-se no mundo acadêmico com o aparecimento de certa literatura, que afirmava a condição de excepcionalidade da sociedade venezuelana em relação ao conjunto da América Latina. Não obstante, as duas últimas décadas contradisseram por completo tal asseveração e, do mesmo modo, obrigaram a que se revisse de uma nova perspectiva a política dos protestos de rua que se desenvolveu na Venezuela desde 1958.

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Texto original: Después del Caracazo: protesta popular y lucha hegemónica. In: MAYA, Margarita López. Del Viernes Negro al Referendo Revocatorio. Caracas: Alfadil, 2006, cap. 4.

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Neste texto, estudaremos o fenômeno do protesto popular venezuelano no contexto atual e a relação que ele guarda com o passado e com a luta de hegemonia que se tem travado. Partimos do pressuposto de que algumas das características relevantes deste tipo de protesto (como sua natureza, suas modalidades e motivações) refletem o processo de decomposição política e de desinstitucionalização do sistema de partidos que a sociedade sofreu desde a década de 90. Mas, ao mesmo tempo, elas evidenciam também estratégias racionais usadas por atores para assegurar a inclusão de seus interesses no processo político que se desenvolvia. Interessa-nos, ainda, indagar se esta utilização do protesto como arma política é de data recente, e se é certo o que alguns afirmam: que a sociedade venezuelana estava sossegada nas décadas anteriores. Para isso, fazemos uma investigação dos protestos de ontem e de hoje, comparamo-los e apresentamos algumas conclusões.

DEFINIÇÕES CONCEITUAIS
Entende-se por protesto popular a ação disruptiva desenvolvida por multidões, grupos e/ou atores dos setores populares, destinada a tornar público seu desacordo ou desavença com relação a normas, instituições, políticas, forças, autoridades e/ou condições sociais e políticas. O adjetivo popular, relativo ao que, em cada sociedade, se entende por povo, é utilizado por nós de uma maneira flexível, incluindo todo o universo social diverso do das classes dominantes ― e abrangendo especialmente os pobres e marginais. A natureza dos protestos pode ser classificada em três categorias, segundo uma elaboração de Sydney Tarrow (1989): protestos convencionais, confrontacionais e violentos. Como protestos convencionais, identificamos aqueles mais rotineiros e frequentemente legais; mas, no caso de não serem legais, não despertam entre os participantes, observadores e autoridades sentimentos de temor ou angústia. Classificam-se como confrontacionais os que, sem chegar a agressões físicas entre os antagonistas nem a danos a propriedades e bens, suscitam sentimentos de temor ou angústia. São exemplos deste tipo de protesto os fechamentos de vias, concentrações e marchas combativas sem permissão, e greves de fome. São protestos violentos os que provocam deterioração ou destruição de propriedades 83

públicas ou privadas e/ou danos à integridade física de pessoas participantes ou não do protesto. Esta visão do protesto popular segue basicamente o enfoque iniciado pelos historiadores ingleses da chamada escola britânica marxista (George Rudé, Eric J. Hobsbawm e Edward P. Thompson, entre outros), que, por um lado, demonstraram o caráter racional destas mobilizações, enquanto, por outro, resgataram a perspectiva a partir de baixo no estudo e interpretação do processo histórico-social e político. Adicionalmente, nossa análise reconhece também a influência da obra de sociólogos da corrente de política beligerante ou contestatária, como Charles Tilly e Sydney Tarrow, que desenvolveram sobre as formas e a natureza dos protestos alguns conceitos e reflexões bastante úteis para a análise dos fenômenos de protesto na Venezuela. Também foi importante para nossa análise a reflexão de Mainwaring e Scully (1995) sobre a institucionalização de sistemas de partidos. Segundo estes últimos autores, são sistemas de partidos institucionalizados os que cumprem quatro quesitos: estabilidade eleitoral, enraizamento social, legitimidade e organização. No caso venezuelano, observa-se o desmoronamento de um sistema que possuíra essas características, e que deixou em seu lugar uma situação que põe em evidência a desinstitucionalização do sistema de partidos, em particular, e do sistema político, em geral. Neste vazio, irrompe o protesto popular com o enérgico propósito de reconstruir os canais de acesso às autoridades. No que tange à sustentação empírica que respalda este capítulo, nosso estudo se baseia em dois bancos de dados computadorizados. O primeiro constitui a base de dados do Provea, a organização de direitos humanos a que já fizemos menção, que mantém desde fins de 1989 um registro anual da situação dos direitos humanos no país, entre eles o direito à manifestação pacífica, que aqui particularmente nos interessa. A base de dados do Provea é alimentada a partir de diversos jornais de cobertura nacional e regional, e sua informação primária ou unidade de informação são os eventos de protestos. O segundo constitui a base de dados El Bravo Pueblo (doravante BDEBP) ― sob a responsabilidade de uma equipe de pesquisadores da UCV (Margarita López Maya, Luis E. Lander y Keta Stephany), em versão digital no Centro de Documentação do Cendes-UCV ― com informações procedentes 84

principalmente do jornal El Nacional, um dos de maior circulação no país, estabelecido em Caracas e que manteve até fins do século uma posição política independente. Esta base de dados tem informações completas dos anos 80 e 90, e parciais de anos anteriores. A BDEBP, diferentemente da do Provea, possui como entradas ou unidades de informação os artigos de imprensa. Embora estes diferentes critérios dificultem o uso comparativo de suas informações, essas bases proporcionam um material qualitativo ― e, em alguns casos, também quantitativo ― muito valioso para uma investigação acerca das mobilizações nos anos recentes e para contrastar esse comportamento com o de anos anteriores ao Caracaço.

MAGNITUDE, NATUREZA E MOTIVAÇÃO DO PROTESTO EM ANOS RECENTES
De acordo com o Provea, nos 14 anos que vão de outubro de 1989 a setembro de 2003, ocorreram na Venezuela 12.889 manifestações, o que representa uma média de 2,52 manifestações diárias, incluindo todos os fins de semana, férias e dias feriados (cf. Quadro 6). É um número significativo, que cresce ainda mais quando se leva em consideração que nestas cifras não se incluem nem as greves legais nem as paralisações imprevistas, formas muito comuns de protesto na sociedade, mas que o Provea não considera como formas de manifestação. Nesta fonte, dois períodos de pico da série são ressaltados. O primeiro ocorreu entre 1991 e 1994, e o segundo entre 1999 e 2003. No período 19911994, desenrolou-se uma severa crise política cujos momentos mais dramáticos foram os golpes de Estado malogrados de fevereiro e novembro de 1992. A partir desses fatos, o governo de Andrés Pérez entrou em um processo acelerado de perda de apoios políticos, que atingiria seu ápice com a destituição do presidente pelo Congresso Nacional, em maio de 1993, quando a Corte Suprema de Justiça determinou que existiam méritos para instaurar-se processo contra ele por malversação de fundos públicos. Pérez foi substituído por um governo interino, a que presidiu o historiador Ramón J. Velásquez. Este jurista concluiu o período constitucional e foi, por sua vez, substituído pelo novo presidente, Rafael Caldera, eleito pelo pleito de dezembro de 1993. Durante 85

esses anos, observamos que a média diária dos protestos se elevou a 2,75 (novamente sem incluir as paralisações e greves). O segundo pico ocorreu entre 1999 e 2003, e corresponde aos primeiros anos do governo de Hugo Chávez. Este governo significou a emergência de uma nova elite com um projeto político alternativo para a Venezuela; concomitantemente, tem ele conhecido numerosas manifestações de massa, tanto de apoio como de repúdio. Neste caso, a média sobe a 3,5 protestos diários, o que se pode qualificar como um período de mobilização muito maior. Não obstante isso, desde o informe de 2001-2002, o Provea tem incorporado também os dados das paralisações de trabalhadores, o que amplia um pouco a média considerada.
Quadro 6: Protestos e notificações de protestos (1983-2002)
Anos Total de protestos Provea Out. 1983 a set. 1984 Out. 1984 a set. 1985 Out. 1985 a set. 1986 Out. 1986 a set. 1987 Out. 1987 a set. 1988 Out. 1988 a set. 1989 Out. 1989 a set. 1990 Out. 1990 a set. 1991 Out. 1991 a set. 1992 Out. 1992 a set. 1993 Out. 1993 a set. 1994 Out. 1994 a set. 1995 Out. 1995 a set. 1996 Out. 1996 a set. 1997 Out. 1997 a set. 1998 ------------675 546 873 1047 1099 581 628 632 422 Total de notificações BDEBP 283 157 191 124 121 225 156 220 159 185 190 176 245 197 186

86

Out. 1998 a set. 1999 Out. 1999 a set. 2000 Out. 2000 a set. 2001 Out. 2001 a set. 2002 Out. 2002 a set. 2003 TOTAL Média por período

855 1414 1312 1262 1543 12889 921

272 329 ------3416 201

Fonte: Provea, Situação dos Direitos Humanos (informes anuais), e BDEBP.

Por sua vez, a BDEBP, no mesmo Quadro 6, mostra-nos para os anos estudados um total de 3.416 notificações de protesto registradas em El Nacional, o que corresponde a 0,55 registro por dia. Esta base de dados também mostra alguns anos de pico, correspondendo o primeiro deles ao período de mudança do governo de Herrera Campíns para o de Lusinchi, envolvido nas turbulências provocadas pela Sexta-Feira Negra. Distingue-se pelo aumento de notificações (como revelam também os dados do Provea) o período anual correspondente ao Caracaço e (como o Provea) os primeiros anos do governo de Chávez. Relativamente à natureza desses protestos, observa-se no Quadro 7 a distribuição dos protestos notificados pela BDEBP, de acordo com a classificação já apresentada de protestos convencionais, confrontacionais e violentos. Quadro 7 : Natureza dos protestos (1983-2000)
Anos Total de notificações BDEBP Out. 1983 a set. 1984 Out. 1984 a set. 1985 Out. 1985 a set. 1986 283 157 191 164 105 154 57,9 66,9 80,6 98 40 33 34,6 25,5 17,3 21 12 4 7,4 7,6 2,1 convencionais % confrontacionais % violentos %

87

Out. 1986 a set. 1987 Out. 1987 a set. 1988 Out. 1988 a set. 1989 Out. 1989 a set. 1990 Out. 1990 a set. 1991 Out. 1991 a set. 1992 Out. 1992 a set. 1993 Out. 1993 a set. 1994 Out. 1994 a set. 1995 Out. 1995 a set. 1996 Out. 1996 a set. 1997 Out. 1997 a set. 1998 Out. 1998 a set. 1999 Out. 1999 a set. 2000 TOTAL Média por período

124 121 225 156 220 159 185 190 176 245 197 186 272 329 3416 201

72 81 86 51 111 16 45 54 61 45 84 79 42 153 1403 83

58,1 66,9 38,2 33,7 50,5 10,6 24,3 28,4 34,7 18,4 42,6 42,5 15,4 46,5

14 22 63 74 53 71 70 70 50 104 67 70 172 125 1196

11,3 18,2 28,0 47,4 24,1 44,7 37,8 36,8 28,4 42,4 34,0 37,6 63,2 38,0

38 18 76 31 56 72 70 66 65 96 46 37 58 51 817

30,6 14,9 33,8 19,9 25,5 45,3 37,8 34,7 36,9 39,2 23,4 19,9 21,3 15,5

41,3

70

34,8

48

23,9

Fonte: BDEBP

Chama a atenção como as notificações de protestos violentos, que nos primeiros anos da série constituíam menos de 10% do total, passam desde 1986 a ter sempre porcentagens de dois dígitos. Registram-se como períodos particularmente violentos os de 91-92 e 92-93 ― correspondentes à crise, já assinalada, do segundo governo de Andrés Pérez ― e o período de 95-96. Este segundo período diz respeito aos anos de aplicação do programa de ajuste macroeconômico conhecido como a Agenda Venezuela. Desde meados dos anos 90, constata-se uma tendência à diminuição percentual dos protestos violentos. Na BDEBP, como já foi mencionado, classifica-se como violento qualquer protesto que implique danos a bens e/ou agressões a pessoas, sem 88

identificar a responsabilidade pela violência. Entram, então, entre os classificados como violentos, os protestos reprimidos pelo Estado. O Provea, como organização vigilante dos direitos humanos, registra a cada ano (diferentemente da BDEBP) a informação sobre o número de mobilizações reprimidas. Em um trabalho anterior, tendo por base esta informação, pudemos estabelecer a relação entre a repressão e o aumento da violência nas manifestações (cf. López Maya, 2003). Com efeito, de acordo com o Provea, o segundo período constitucional do presidente Andrés Pérez (1989-1993) distinguiu-se pela intensidade da repressão aos protestos exercida pelo Estado. Um em cada três protestos foi reprimido e dele resultou um saldo altíssimo de mortos. Além da repressão atroz exercida durante o Caracaço, somente no ano de 1992, depois do fracassado golpe de Estado de 4 de fevereiro, foram registradas 26 mortes em manifestações inicialmente pacíficas (ou seja, nas quais seus atores exprimiam claramente a intenção de protestar por meios não violentos). Algumas mudanças no comportamento do Estado frente aos protestos começaram a manifestar-se durante o segundo governo de Caldera. Este governo assumiu uma postura menos repressiva em relação às mobilizações. Da mesma forma, a emergência de novos atores políticos nos governos regionais e locais determinou uma mudança nas atitudes das autoridades em seus diferentes níveis frente à manifestação pacífica. Diminuiu a criminalização em relação a ela ― presente desde os anos 60, quando foi associada à luta política pela via armada, e como tal era reprimida violentamente ― iniciando-se esforços para regulamentar o uso da repressão. Em meados desse período constitucional, a proporção de manifestações reprimidas havia diminuído para uma em cada seis. As mortes em manifestações públicas também diminuíram. Em 1996, nenhuma morte ocorreu. Da mesma forma, reduziu-se o uso de armas de fogo nas manifestações consideradas pacíficas. Com o governo de Chávez, o protesto começou a adquirir um status de maior reconhecimento e institucionalização. Um em cada 24 protestos foi reprimido em 1998-1999, um em cada 28 em 2000-2001, um em cada 25 em 2001-2002, e um em cada 36 em 2002-2003. O uso de armas de fogo em manifestações públicas diminui, e eleva-se sua proibição ao nível 89

constitucional. Nos cinco primeiros anos deste governo, cinco mortes ocorreram em manifestações de tipo pacífico.33 Este desenvolvimento contribuiu para uma diminuição da violência nos protestos, embora no último informe de 2002-2003 tenha-se observado uma subida da violência, que não está relacionada com a repressão, mas sim com a aguda confrontação política que se tem vivido desde o golpe de Estado de abril de 2002. As notificações de protesto classificadas como confrontacionais pela BDEBP aumentaram sua participação percentual no total dos protestos notificados a partir do período 1988-1989, ou seja, o ano do Caracaço. Até esse período, a média percentual de notificações que diziam respeito a protestos confrontacionais ― agressivos mas não violentos ― era de 21,4%. A partir de 1988-1989, os protestos deste tipo tornam-se mais evidentes ao alcançar uma média de 38,5% da totalidade de protestos notificados até 2000. Na segunda metade da década de 1990, coincidindo com a diminuição dos protestos violentos, observamos um incremento mais significativo nas porcentagens de notificações de protestos confrontacionais. No último lustro da década, a porcentagem das notificações de protestos confrontacionais ascende a 43%. Por último, as notificações de protestos convencionais mostram um comportamento quase oposto ao do assinalado para os violentos. No princípio da série, suas porcentagens superam folgadamente a metade das notificações registradas, enquanto diminuem nos anos de turbulência política, para voltarem a um incremento de sua evidência depois de meados da década de 1990. A BDEBP classifica as notificações também de acordo com as motivações dos protestos. Para isso, são utilizados mais de 90 descritores. Neste exame, aglutinamo-los em dois grandes grupos. O primeiro congrega os descritores de natureza socioeconômica, isto é, todos os protestos motivados por condições materiais de vida. O segundo recolhe as motivações que se relacionam com direitos de natureza civil e política. Para facilitar as comparações, no Quadro 8, além dos totais absolutos, são apresentadas as porcentagens correspondentes. A última coluna reúne os dados de notificações
33

Os saldos de mortes por ações repressivas durante os dias do golpe de Estado (desfechado em 11 de abril de 2002) não foram contabilizados no informe correspondente do Provea. O saldo do dia 11 pela razão de não existir nessa data um informe confiável do ocorrido, e os dos dias seguintes pela razão de recair a responsabilidade de fato no governo de Pedro Carmona. No informe de 2002-2003, registram-se 4 mortes, mas 3 delas como resultado de ações repressivas a uma manifestação violenta.

90

cuja motivação não está claramente estabelecida. Neste Quadro 8, os totais não coincidem com os do Quadro 7, porque aqui se totalizam os motivos dos protestos e não as notificações. Em algumas das notificações, o protesto registrado tem mais de um motivo, e assim elas podem corresponder às duas categorias. QUADRO 8: MOTIVOS DOS PROTESTOS (1983-1999)
Anos Out. 1983 a set. 1984 Out. 1984 a set. 1985 Out. 1985 a set. 1986 Out. 1986 a set. 1987 Out. 1987 a set. 1988 Out. 1988 a set. 1989 Out. 1989 a set. 1990 Out. 1990 a set. 1991 Out. 1991 a set. 1992 Out. 1992 a set. 1993 Out. 1993 a set. 1994 Out. 1994 a set. 1995 Out. 1995 a set. 1996 Out. 1996 a set. 1997 Out. 1997 a set. 1998 Out. 1998 a set. 1999 Total 296 174 215 135 125 312 176 54 223 221 226 204 293 218 199 304 socioeconômicos % 253 151 198 71 86 233 149 42 127 159 175 142 241 178 149 195 85,5 86,8 92,1 52,6 68,8 71,5 84,7 77,8 57,0 71,9 77,4 69,6 82,3 81,7 74,9 64,1 civis e políticos 37 18 16 62 39 82 23 9 91 60 41 49 38 32 40 106 % 12,5 4,8 7,4 46,0 31,2 26,3 13,1 16,7 40,8 27,1 18,1 24,0 13,0 14,7 20,1 34,9 outro 6 5 1 2 0 7 4 3 5 2 10 13 14 8 10 3 % 2,0 2,9 0,5 1,5 0,0 2,2 2,3 5,6 2,2 0,9 4,4 6,4 4,8 3,7 5,0 1,0

Fonte: BDEBP

Pode-se observar que a imensa maioria dos protestos notificados possui motivações de natureza socioeconômica, ou seja, reivindicações salariais, descumprimento de contratos de trabalho, serviços, etc. Contudo, é digno de

91

nota o fato de que, em uns poucos anos específicos, os protestos motivados por demandas civis e políticas superam a terça parte do total registrado. Tais são os casos de 1986-87, 1987-88, 1991-92 e 1998-99. Conquanto uma explicação cabal das razões desses comportamentos esteja além dos propósitos deste capítulo, a informação empírica constatada assinala que esses comportamentos correspondem a períodos de agitação política particularmente alta. No período de 1986 a 1988, por exemplo, ocorreram mobilizações significativas por reformas políticas, especialmente dirigidas para a descentralização do poder. Estas manifestações contribuíram para criar um clima que ensejou a materialização dos protestos recolhidos pela Copre, e que conduziram à aprovação de leis de descentralização. No período 1991-1992, ocorreu o golpe de Estado de 4 de fevereiro, e o período 1998-1999 correspondeu ao primeiro ano do governo de Chávez, com toda a mobilização em torno do processo constituinte. Para observarmos com mais detalhes essas motivações, dividimos cada grupo em três subgrupos. O primeiro ― subgrupo A ― dos protestos de natureza socioeconômica, é formado pelos protestos que se centram nas condições e direitos para a produção como, por exemplo, as mobilizações por petições de terra, por subsídios, por crédito, contra impostos, etc. O segundo ― subgrupo B ― aglomera motivações relacionadas com demandas de serviços públicos: protestos por saúde, educação, água, transporte, etc. O subgrupo C reúne todas as motivações que giram em torno das rendas: salários, contratos coletivos, aposentadorias, trabalho, etc. O segundo grupo, que recolhe as motivações referentes aos direitos de natureza civil e política, compreende também um subgrupo A, formado pelas motivações relacionadas com os direitos humanos: maus tratos, mortes, repressão, etc.; um subgrupo B, que reúne protestos por direitos civis, como justiça, liberdade de expressão, leis, regulamentos, etc.; e um subgrupo C, que abrange as motivações mais diretamente políticas, como fraudes eleitorais, democratização, autonomia, corrupção, etc. No quadro seguinte, são reunidas as motivações dos protestos notificados de acordo com as porcentagens desta reclassificação:

92

QUADRO 9: MOTIVOS DOS PROTESTOS POR SUBGRUPOS (1983-1999)
Anos TOTAL Out. 1983 a set. 1984 Out. 1984 a set. 1985 Out. 1985 a set. 1986 Out. 1986 a set. 1987 Out. 1987 a set. 1988 Out. 1988 a set. 1989 Out. 1989 a set. 1990 Out. 1990 a set. 1991 Out. 1991 a set. 1992 Out. 1992 a set. 1993 Out. 1993 a set. 1994 Out. 1994 a set. 1995 Out. 1995 a set. 1996 Out. 1996 a set. 1997 Out. 1997 a set. 1998 Out. 1998 a set. 1999 253 151 198 71 86 223 149 42 127 159 175 142 241 178 149 195 Socioeconômicos A% 7,5 12,6 11,1 1,4 29,1 32,7 10,7 26,2 18,9 26,4 25,7 7,8 26,6 21,9 20,1 18,5 B% 25,3 30,5 20,7 42,3 27,9 34,5 44,3 54,8 48,8 26,4 48,6 50,0 34,0 36,0 24,2 33,3 C% 67,2 57,0 68,2 56,3 43,0 32,7 45,0 19,0 32,3 47,2 25,7 42,3 39,4 42,1 55,7 48,2 TOTAL 37 18 16 62 39 82 23 9 91 60 41 49 38 32 40 106 Civis e políticos A% 56,8 33,3 56,3 85,5 64,1 70,6 30,4 44,4 57,1 45,0 80,5 57,1 65,8 59,4 50,0 47,2 B% 21,6 16,7 12,5 6,5 23,1 18,3 21,7 11,1 7,7 16,7 14,6 22,4 10,5 31,3 27,5 14,2 C% 21,6 50,0 37,5 8,1 12,8 8,5 47,8 44,4 35,2 38,3 4,9 20,4 23,7 9,4 22,5 38,7

Fonte: BDEBP

Vemos como entre os protestos com motivações socioeconômicas, as demandas predominantes são aquelas agrupadas em C e B, isto é, as que se relacionam com níveis de renda e serviços públicos, respectivamente. Ambas somadas sempre superam a porcentagem de 70% do total de motivações socioeconômicas notificadas. Dos 16 períodos que aparecem no quadro, em 11 as motivações de renda predominam. Entre as notificações de protestos de motivação civil e política, é o subgrupo A ― dos direitos humanos ― que 93

compreende, entre outros descritores, os de repressão, agressão, invasão, morte, vida, violência, recrutamento ― o que predomina em 13 dos 16 períodos registrados. Em 11 deles, este subgrupo contabiliza mais da metade das notificações motivadas por razões civis e políticas. Em síntese, estes anos recentes se caracterizaram por intensos protestos, os quais, desde 1989 (segundo o Provea), superam em média duas mobilizações diárias, incluindo domingos e dias feriados, e sem contar as paralisações de operários, que são um dos protestos majoritários dos venezuelanos ― e que esta base de dados somente registra como manifestação a partir do informe anual de 2001-2002. Os protestos violentos, a partir de meados dos anos 80, passam a ter porcentagens de dois dígitos nos dados da BDEBP. Apesar disso, tenderam a diminuir em fins dos anos 90, o que se relaciona com uma mudança na atitude do Estado frente a esse direito. Os protestos de natureza confrontacional, que antes do Caracaço eram menos de um quarto do total de notificações, superam após esse acontecimento a terça parte do total, e tendem a fazer-se mais evidentes nos anos recentes, chegando mesmo a 43% no segundo lustro da década de 90. Isso tudo aponta para uma sociedade em que as relações de poder estão em transformação. As motivações predominantes nesta série têm relação com

remunerações e demandas de serviços públicos, embora ao final a evidência das demandas civis e políticas tenda a aumentar. Entre os protestos de motivações civis e políticas predominam os que exigem respeito aos direitos humanos básicos de cidadania, tais como a vida, a dignidade humana e a integridade física.

UMA

VISÃO

SOBRE

OS

PROTESTOS

DE

DÉCADAS

ANTERIORES
Avaliamos a seguir quão novas são as características dos protestos desses anos recentes em comparação com as do passado, contrastando-as através de informações empíricas de anos anteriores para situá-las em um contexto mais amplo. Porém, devemos começar por revisar algumas interpretações que foram realizadas sobre as mobilizações e protestos populares nos anos anteriores ao Caracaço. 94

A suposta passividade das massas tem sido considerada por Juan Carlos Rey ― um dos politólogos de maior reconhecimento acadêmico na Venezuela ― como uma das condições básicas que permitiram ao sistema político venezuelano fundado em 1958 funcionar de maneira eficaz nas décadas anteriores aos anos que consideramos acima. Em janeiro de 1958, foi derrubada a ditadura do general Marcos Pérez Jiménez, iniciando-se um regime de governos democráticos visto como modelo na região latinoamericana. Carlos Rey argumentou, pouco depois do Caracaço, que a lógica da democracia venezuelana implicava o fortalecimento de grandes e poucas organizações partidárias, estruturadas vertical e autoritariamente. Através da relação estabelecida entre elas ― relação própria de um jogo, mas não de soma-zero (no qual o que se dá a um necessariamente se tira a outro) ― buscaram, de 1958 em diante, a estabilidade política, o que se alcançou com notável êxito. Os signatários dos pactos constitutivos da democracia venezuelana temiam a ocorrência ― se as demandas do povo não fossem canalizadas através dessas organizações ― de um transbordamento cujo resultado seria o fim do sistema, ou então, seu descontrole. Esse jogo foi possível graças à renda petroleira do Estado. Assim, pois, a democracia venezuelana ― segundo Rey ― implicava a desmobilização e não participação das massas. A partir dos dados expostos acima, parece ser lícito afirmar que esse quadro efetivamente mudou. Moisés Naím e Ramón Piñango (1984) declararam, por sua vez, que "(...) as primeiras décadas da democracia apresentam uma surpreendente ausência de conflitos abertos permanentes". Afirmavam que o conflito aberto não aparecia como fator determinante na dinâmica da sociedade, e processos que, em outros países, provocaram grandes traumas, na Venezuela haviam sido superados sem maiores turbulências sociais. Apontavam como exemplos a pacificação da insurgência armada nos anos de 1970 e a paz operária da democracia de Puntofijo. Steve Ellner (1995) assinala que, embora essas interpretações tenham fundamentos históricos que as sustentem, exagerá-las tem levado a conclusões sobre características da sociedade venezuelana que se mostram errôneas ou pouco precisas. No caso das mobilizações ― a que chamamos de política das ruas ― essas afirmações pareceram querer indicar que elas foram, 95

até meados dos anos de 1980, mobilizações de pouca frequência e mesmo pouco relevantes para a dinâmica da sociedade. Igualmente, afirmou-se que os protestos das décadas iniciais da democracia de 1958 eram mais

ideologicamente motivados, menos relacionados com condições imediatas de vida, e de menor intensidade e conflituosidade que na década e meia que acabamos de estudar (Escobar, entrevista, 1997). Quão correto é isso? ― cumpre indagar. A seguir apresentamos o exame de alguns anos dessas décadas. A BDEBP possui coligidas informações sobre protestos na Venezuela de diversos anos do período democrático, de 1958 em diante. Aproveitando esse acervo de informações, tomamos dois anos de cada década (entre os anos de 1958 e 1999), com o propósito de comparar algumas das características das mobilizações nesse tempo. Interessa-nos examinar em que medida elas foram diferentes entre si quanto à frequência, ou mais precisamente quanto à sua evidência na imprensa, assim como quanto à natureza e aos motivos dos protestos. Os anos escolhidos não correspondem a critérios elaborados, pois a BDEBP não tem ainda informação completa do período. Procuramos tomar de cada década um ano eleitoral e um segundo ano qualquer. A seleção dos anos 1958 e 1959 obedeceu ao critério de serem, nessa década, os dois anos nos quais se instaurou o regime democrático no país. E na década de 1990, os escolhidos foram 1998 (ano eleitoral) e 1999 (primeiro ano do governo de Chávez). Insistimos no que afirmamos sobre esta base de dados: ela, por alimentar-se de notificações e não de eventos de protesto, mais do que ser quantitativamente precisa, proporciona uma estimativa da frequência e características dos protestos. Em contrário a convicções generalizadas (mesmo entre os que estudam as mobilizações populares dos anos recentes), ao revisar os anos selecionados, não encontramos diferenças apreciáveis quanto ao número de notificações registradas em relação aos anos considerados na primeira parte deste capítulo. Analisando os anos anteriores à década de 1980, e recordando a advertência a respeito da imprecisão quantitativa da informação desta base de dados, obtivemos que, em média, o número de notificações alcança um total de 356, muito acima da média de 210 que registramos no Quadro 6. Isto nos permite afirmar que, se avaliamos o período coberto na BDEBP da década de 96

1970, poderíamos estar diante de uma década que folgadamente supera a média de notificações das décadas posteriores. Por exemplo: para o ano de 1973, registram-se 843 notificações; para o ano de 1977, registram-se 744, e 561 para o ano de 1978. Estes dados contradizem inclusive aqueles autores que reconheceram a mobilização e os protestos como um fenômeno permanente da sociedade venezuelana. É o caso de Richard Hillman, que afirma estarem tanto os anos 60 como os 80 plenos de contínua turbulência civil, e somente os anos 70 terem vivido uma calma relativa. Foram esses os anos do chamado boom petroleiro, quando a crise vivida no Oriente Médio provocou uma alta dos preços do petróleo nos mercados internacionais, o que proporcionou anos de bonança fiscal para os países produtores.

Apresentamos a seguir um quadro (semelhante ao Quadro 7) para os dois anos escolhidos de cada década anterior aos anos 90, com a natureza dos protestos notificados, de acordo com a classificação da BDEBP: QUADRO 10: NATUREZA DOS PROTESTOS (vários anos)
Anos 1958 1959 1961 1963 1970 1973 1983 1989 1998 1999 Total 358 221 211 153 353 843 163 236 168 354 convencionais 230 133 132 55 22 431 148 80 77 43 % 64,3 60,2 62,6 36,0 6,2 51,1 90,8 33,9 45,8 12,2 confrontacionais 95 79 55 25 268 271 8 87 68 239 % 26,5 35,8 26,1 16,3 75,9 32,2 4,9 36,9 40,5 67,5 violentos 33 9 24 73 63 141 7 69 23 72 % 9,2 4,1 11,4 47,7 17,9 16,7 4,3 29,2 13,7 20,3

Fonte: BDEBP

Como se pode constatar, a ideia de que, em décadas anteriores, a natureza dos protestos e das mobilizações era menos conflituosa não passa de 97

uma ilusão. Embora nos anos iniciais da instauração da democracia os protestos violentos notificados sejam inferiores a 10% do total, eles aumentam nos anos 60 e 70, aparecendo o ano de 1963 como particularmente violento. Esse foi um ano eleitoral, e os grupos políticos comprometidos com a luta armada fizeram chamado à abstenção. A confrontação entre o governo de Rómulo Betancourt (1959-1964) e os grupos alçados em armas foi especialmente intensa e virulenta, o que constitui seguramente uma parte importante da explicação desse fenômeno. Os protestos de natureza confrontacional, nos anos selecionados, mostram flutuações erráticas. Em todo o caso, em razão da forma como foi construído o quadro (que toma em conta apenas dois anos de cada década), não é possível identificar tendências. Há, de qualquer modo, um par de anos (1959 e 1970) com porcentagens de protestos confrontacionais superiores a um terço do total. Somente uma avaliação de séries anuais ininterruptas e prolongadas, como a feita para o Quadro 7, nos permitiria identificar períodos contínuos de turbulência similares aos da segunda metade dos anos 1990, embora não se possa descartar a sua ocorrência efetiva. Finalmente, os protestos convencionais são majoritários em seis dos dez anos selecionados, e (como no Quadro 7) este tipo de protesto perde evidência nos anos de maior turbulência sociopolítica. Nos Quadros 11 e 12 são registrados os motivos dos protestos. O primeiro destes quadros apresenta (da mesma forma que o Quadro 8) os motivos agrupados em duas categorias amplas ― socioeconômicas e civilpolíticas ― para ressaltar a relação percentual entre ambas.

98

QUADRO 11: MOTIVOS DOS PROTESTOS (Vários anos)
Anos 1958 1959 1961 1963 1970 1973 1983 1989 1998 1999 Total 385 234 207 154 403 851 163 325 182 392 socioeconômicos % 193 128 134 37 292 580 134 250 142 246 50,1 54,7 64,7 24,0 72,5 68,2 82,2 76,9 78,0 62,8 civis e políticos 178 86 64 99 104 167 27 70 33 143 % 46,2 36,8 30,9 64,3 25,8 19,6 16,6 21,5 18,1 36,5 outro 14 20 9 18 7 104 2 5 7 3 % 3,6 8,5 4,3 11,7 1,7 12,2 1,2 1,5 3,8 0,8

Fonte: BDEBP

Neste quadro (como no Quadro 8), é possível observar-se que, exceto no ano de 1963, os protestos motivados por razões socioeconômicas predominam sobre os de motivos civis e políticos. Não obstante, esse predomínio para os primeiros anos do quadro (isto é, para o período anterior à Sexta-Feira Negra de 1983) não é tão pronunciado como para os anos posteriores ao fato. Enquanto que, para os primeiros seis anos do quadro (1958-1973), a porcentagem média das notificações com motivações socioeconômicas atinge 55,7% do total das notificações. Nos quatro anos finais do quadro (1983-1999), esta porcentagem se situa em 75%, quase 20 pontos mais alta. Isto é concordante com os dados do Quadro 8, que possui a série temporal ininterrupta de 1983 a 1999. Aí a porcentagem média das notificações de protestos motivados por razões socioeconômicas é de 74,3%. Neste Quadro 11, também se singulariza (como no Quadro 10) o ano de 1963 como um ano atípico. Neste, os protestos por motivações políticas e civis superam substancialmente os de caráter socioeconômico, corroborando sua relação com as razões de tensão política indicadas acima. 99

O Quadro 12 (similar ao Quadro 9) refina os critérios de classificação das motivações, subdividindo cada uma das duas categorias amplas do quadro anterior em três subgrupos. QUADRO 12: MOTIVOS DOS PROTESTOS POR SUBGRUPO (Vários anos)
Anos TOTAL 1958 1959 1961 1963 1970 1973 1983 1989 1998 1999 193 128 134 37 292 580 134 250 142 246 Socioeconômicos A% 10,4 6,3 16,4 2,7 4,8 8,6 16,4 29,2 25,4 16,7 B% 24,4 21,1 30,6 16,2 49,7 35,5 26,1 36,0 27,5 33,6 C% 65,3 72,7 53,0 81,0 45,5 55,9 57,5 34,8 47,2 44,7 TOTAL 178 86 64 99 104 167 27 70 33 143 Civis e políticos A% 30,0 50,0 29,7 12,1 27,9 49,7 81,5 75,7 60,6 41,3 B% 7,3 18,6 14,1 2,0 45,2 19,8 7,4 7,1 27,3 10,5 C% 60,7 31,4 56,3 85,9 26,9 30,5 11,1 17,1 12,1 48,3

Fonte: BDEBP

Neste Quadro 12 (da mesma maneira como assinalamos para o Quadro 9), verifica-se que entre as motivações socioeconômicas predominam as reunidas nos subgrupos B e C, ou seja, aquelas que se relacionam respectivamente com níveis de rendas e com serviços públicos. Ambas juntas sempre superam 80% do total de motivações socioeconômicas notificadas. Repete-se o predomínio das motivações por renda. Entre as notificações de protestos de motivação civil e política, o subgrupo C (de motivações propriamente políticas e que compreende entre outros descritores os de democracia, corrupção, eleições, político e autonomia) é predominante em três dos seis primeiros anos. Mostra-se aqui uma diferença quando se compara com as motivações dos anos 80, em que os direitos humanos tinham um claro protagonismo. 100

CONTINUIDADES E NOVIDADES DO PROTESTO POPULAR RECENTE
De acordo com nosso estudo, os protestos populares na Venezuela ― tão presentes na vida cotidiana da sociedade desde os anos 1980 ― revelamse um fenômeno bem menos inusitado do que muitas pessoas podem supor. As notificações de ações coletivas de protestos nos anos que tomamos para amostra das décadas anteriores indicam-nos que numericamente esses anos são similares ― quando não superiores em alguns casos ― à média anual que registramos para a última década e meia. Da mesma forma, salvo mudanças de ênfase, as motivações dos protestos também se repetem. A despeito disso, pudemos detectar algumas diferenças. Desde 1958, quando se instaura o sistema democrático representativo, e até inícios dos anos de 1970, encontramos um maior equilíbrio numérico entre os protestos motivados por demandas socioeconômicas e os provocados por motivações civis e políticas. A partir de então, o predomínio dos protestos socioeconômicos passa a ser avassalador sobre os do segundo tipo. Além do mais, nos primeiros anos do período democrático, entre os protestos motivados por razões civis e políticas, os relacionados com demandas estritamente políticas (reunidos no subgrupo C) têm uma evidência maior. Isso reflete o clima de turbulência política no qual se vivia, clima próprio de uma luta hegemônica, a cuja resolução se chegaria nos anos 70 em favor das forças signatárias do Pacto de Puntofijo. Nos informes mais recentes do Provea, observam-se indícios de que estamos em uma etapa semelhante: desde 2001 vêm aumentando (tanto em termos absolutos como relativos) os protestos politicamente motivados. Reconhece-se inclusive que muitos dos protestos que aparecem como motivados por demandas socioeconômicas têm, na realidade, um claro fundo político. Vivemos, pois, novamente, anos de luta hegemônica cuja solução está ainda por se ver. A solução da luta hegemônica nos anos 70 em favor dos atores de Puntofijo significou o fortalecimento da legitimidade do sistema e de seus principais atores. Esse estado de coisas, combinado à bonança petroleira daquela década, permite explicar, ao menos parcialmente, a percepção de paz social e harmonia mais ou menos generalizada que se tinha desses anos. Tal 101

percepção chegou mesmo, através de certa literatura do início dos anos 80, ao extremo de exprimir a imagem de uma Venezuela cuja sociedade estava livre de conflitos abertos. É nessa época, pois, que começam a surgir as interpretações acerca de uma pretensa excepcionalidade da sociedade venezuelana. Na BDEBP, observa-se que nos primeiros anos da década de 80 os protestos foram predominantemente convencionais, com cifras de um único dígito para os protestos violentos. Contudo, a partir de uma perspectiva histórica cronologicamente mais ampla, pode-se dizer que não era esta uma situação normal, mas sim que se tratava apenas de um breve período "de trégua". As situações não resolvidas de exclusão social e cultural de caráter histórico, somadas à deterioração das condições de vida das maiorias ― tão logo desapareceram os anos de bonança petroleira ― foram construindo o cenário para a irrupção de um novo ciclo de conflitos e de luta política. Entretanto, são efetivamente observáveis as mudanças no tipo das demandas políticas dos protestos recentes. Desde o massacre de El Amparo, e mais acentuadamente desde o Caracaço, a consciência pública deu um salto para frente em sua atenção a violações dos diversos direitos humanos. O protesto é um fenômeno permanente na sociedade venezuelana, e é um equívoco que distorce a análise o exagerar a suposta passividade de setores populares durante períodos prolongados, como sugere certa literatura. De fato, o que muda é a função do protesto na dinâmica social. Em períodos de luta hegemônica, a política das ruas intervém diretamente na confrontação com o poder estabelecido, e isso se expressa nas mudanças da natureza e das motivações do protesto. Ele se torna mais confrontacional e violento, e as motivações diretamente políticas adquirem maior relevância. Ao contrário disso, em períodos nos quais a hegemonia não está em disputa e quando são maiores a legitimidade e a estabilidade do sistema político, as ações coletivas de protesto por demandas socioeconômicas ocupam praticamente todo o espaço. São protestos menos confrontacionais e violentos. A capacidade de negociação dos atores em demanda é, igualmente, mais ampla. Mas, diferentemente dos anos 60 ― quando o protesto era criminalizado pelo próprio Estado e, em consequência, fortemente reprimido, provocando uma espiral de violência ― desde meados dos anos 80 e principalmente nos anos de governo de Chávez essa criminalização tem diminuído, e com ela a repressão. Por isso, 102

a luta hegemônica agora se expressa sobretudo mediante ações coletivas de natureza confrontacional. Na Venezuela, o Estado ― sendo financiado pela renda petroleira ― foi capaz de manter à margem o protesto político entre os anos 70 e meados dos 80. Sua eficiência em atalhar o conflito acabou por desarticular boa parte das tentativas de organização independente dos setores populares.

Frequentemente, o protesto foi apenas a antessala de negociações de cúpula entre dirigentes de sindicatos e grêmios com partidos políticos e instituições do Estado. Isso pode explicar o fato de que, conquanto fossem muitos os protestos, estes não conduziam a movimentos nem a organizações sociais. Com a contínua deterioração da economia e o processo de deslegitimação do sistema político (mais agudo em fins dos anos 80), essa situação se alterou de maneira irreversível. O protesto assumiu novamente um papel protagonista na luta política, e as demandas redistributivas já não podiam ser satisfeitas pelos mecanismos clientelistas e corporativos do passado. Estavam dadas, pois, as condições para se passar do protesto a uma dinâmica de movimentos e organizações sociais populares. Nos anos mais recentes, a este complexo processo se acrescentaram novos elementos. Desde o final do ano de 2001, emergiram novos atores na política das ruas. Setores das classes médias e altas também passaram a fazer uso dos espaços públicos na luta atual pela hegemonia na Venezuela. Este novo ingrediente tem fortalecido ainda mais a evidência do protesto, visto que seus atores contam com recursos econômicos poderosos, tais como os diversos meios privados de comunicação audiovisual e impressa, que compartilham e participam diretamente dos propósitos dessas mobilizações. Também esses setores têm diante de si o desafio de sua organização para melhorar e aprofundar a qualidade de sua relação com o Estado venezuelano e com a democracia.

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A POLÍTICA DE PROMOÇÃO DA PARTICIPAÇÃO CIDADÃ DO GOVERNO DE HUGO CHÁVEZ34

HAYDÉE OCHOA HENRÍQUEZ

INTRODUÇÃO
O conceito de participação cidadã é empregado, neste estudo, significando um processo no qual os cidadãos intervêm na administração pública em defesa de interesses coletivos ─ isto é, não se trata dos interesses individuais que, por direito, os cidadãos defendem frente ao Estado, mas sim de interesses que afetam a sociedade em conjunto. Também não se trata da participação que têm os indivíduos na sociedade, em suas comunidades, sem que afete diretamente o aparelho público. A intervenção dos cidadãos no aparato estatal pode ocorrer nas diferentes fases do processo de administração: nas decisões ─ em que a intervenção pode ser consultiva (com diversos níveis de influência) ou vinculatória; na execução das decisões e no processo de acompanhamento ou controle. Do mesmo modo, a participação pode ocorrer em qualquer dos níveis de governo: nacional, estadual (ou intermediário) e municipal (ou local). O tema da participação cidadã esteve presente, ainda que de modo incipiente, ao longo dos quarenta anos da democracia representativa na Venezuela (1958-1998), principalmente através de ações de organizações da sociedade. Contudo, passou a ter um papel relevante no processo de transformação que se desenrola na Venezuela desde 1999, com o governo de
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Texto original: La política de promoción de la participación ciudadana del gobierno de Chávez, por Haydée Ochoa Henríquez. Espacio Abierto Cuaderno Venezolano de Sociología Vol. 19 No. 4 (octubre-diciembre, 2010): 681 - 695.

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Hugo Chávez, como uma estratégia promovida pelo Estado para a construção de uma democracia participativa, ao lado da democracia representativa, que também é objeto de transformações ─ tanto pela incorporação de novas estratégias (o referendo revogatório do mandato, por exemplo), como por melhorias das condições eleitorais. A democracia participativa é uma estratégia-chave na construção de um projeto social alternativo ao capitalismo, e assim está sendo assumida ─ ao menos formalmente ─ pelo governo que a promove. A respeito disso, Mészáros (2009: 253), um autor reiteradamente citado por dirigentes do governo, assinala: "É inconcebível que se consiga tornar irreversível a ordem social alternativa sem a plena participação dos produtores associados na tomada de decisões em todos os níveis do controle político, cultural e econômico. Porque é a única maneira pela qual as grandes massas do povo podem adquirir uma posição firme e duradoura em sua sociedade, e identificar-se assim verdadeiramente com os objetivos e as modalidades da reprodução das condições de sua existência social, decidido esse povo não somente a defendê-las de todos os intentos restauradores, mas também a ampliar suas potencialidades positivas". A promoção da participação cidadã encontra-se plasmada pelo governo Chávez em diversos documentos oficiais, começando pela própria

Constituição, aprovada em 1999, na qual mais de 25 artigos se referem à participação como estratégia para dar impulso à democracia direta, questão na qual se avança incorporando o tema em muitas das leis que vêm sendo aprovadas ─ isto é, trata-se de uma política formalmente definida desde os primeiros dias de governo, adiantando-se sistematicamente na criação de condições institucionais. Como em toda política pública a prática difere das prescrições, propomonos neste trabalho a explorar as políticas de promoção da participação cidadã no governo de Hugo Chávez, e os avanços que têm sido feitos na prática.

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CONTEXTO NO QUAL SE PROMOVE A PARTICIPAÇÃO CIDADÃ NO GOVERNO CHÁVEZ
As críticas à democracia representativa, construída na Venezuela desde os fins da década de 1950, intensificaram-se durante os anos de 1980, no quadro da implantação de políticas neoliberais e de resistência a elas por parte da população ─ resistência que se expressou, sobretudo, na revolta conhecida como o Caracaço. As críticas se centraram principalmente nos limites que a democracia representativa demonstrava enquanto estratégia para gerar o bem-estar social das parcelas majoritárias da população. A busca de soluções se voltou para a ampliação dos espaços da democracia representativa quanto à escolha, em fins dos anos 1980, dos governadores dos estados, no contexto da política de descentralização político-territorial ao tempo da implantação dos princípios neoliberais. Apesar de o discurso que promoveu a descentralização ter aduzido em sua defesa o argumento da democratização e da eficiência, a prática demonstrou que foi pouco o progresso na incorporação ao poder daqueles que historicamente sempre estiveram à margem dele. Em nossa opinião, o que de fato ocorreu foi uma descentralização territorial do poder (Ochoa et alii, 2007) ─ ou seja, uma distribuição do poder entre os setores que historicamente já o detinham. A democracia participativa foi incorporada à Lei de descentralização "(...) como uma saudação à bandeira, ao deixar ao arbítrio dos governadores, agora eleitos por voto popular, a iniciativa de estratégias de participação dos cidadãos na administração pública, o que na prática caracterizou-se pela incorporação de alguns ensaios de participação consultiva, em nível restrito, com pouca continuidade e escasso potencial para a construção de uma democracia participativa" (Ochoa, 2008: 34). Paralelamente ─ e segundo um discurso de estímulo à participação ─ o Estado promoveu a atuação das organizações não governamentais. Tratou-se, nesse caso, da participação da população na execução de funções próprias do Estado sob a forma de autofinanciamento, o que implicava a cobrança de serviços por parte dessas organizações. Alegava-se a seu favor a necessidade 119

de romper o paternalismo estatal, o que ocultava o imperativo de responder às exigências do novo modelo de sociedade assumido pelo Estado, baseado nos critérios do neoliberalismo, entre cujos eixos mais importantes estava a redução do tamanho do aparelho estatal. Aqui é importante destacar que, na análise de qualquer processo no qual se encontre envolvido algum governo, deve-se considerar o tipo de sociedade que este promove, ao qual se articulam os critérios e ações postos em prática. Em outras palavras, a participação promovida durante os anos de 1990 pretendeu dar resposta às exigências dos princípios neoliberais. Segundo assinala Buxton (2003: 145), a descentralização e a reforma do regime eleitoral "(...) não conseguiram conter a hostilidade popular manifestada contra o sistema político. (...) Levando-se em conta que, em 1997, 67% dos venezuelanos ganhavam menos de 2 dólares por dia, é provável que a maioria nem sequer se importava com as reformas". Em fins da década de 1990, segundo CORDIPLAN (Cf. Ochoa, 2008:37), a situação era a seguinte: "(...) 80% de pobreza, 39% de pobreza extrema, 14% de indigentes, 15% de desemprego, 50% de emprego informal, 37% de desnutrição e 30% de evasão escolar". Em um tal cenário, ocorre o processo eleitoral no qual Hugo Chávez se apresenta como candidato à presidência da República, com um projeto alternativo ao neoliberalismo ─ projeto que será posto em prática já nos primeiros dias de seu governo.

A POLÍTICA DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ AO INÍCIO DO GOVERNO CHÁVEZ
Segundo Lander (2004: 1), no projeto alternativo, destacam-se "o popular, o nacional, a soberania, a equidade, a democracia participativa, a crítica ao 'capitalismo selvagem' e ao neoliberalismo, o repúdio ao mundo unipolar, e a prioridade das relações com os países do sul ─ em particular, os da América Latina". A democracia participativa apresenta-se como uma estratégia para se avançar no projeto alternativo. Promove-se a democracia participativa no interior da sociedade e no interior do aparelho público. O ponto de partida dessa promoção foi constituído, na prática, pelo projeto de uma nova Constituição, iniciado pela convocação de um referendo para decidir-se sobre a 120

convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da nova Constituição. Esse processo não teve, segundo alguns autores (Cf. Lander, 2004: 2), um debate político suficiente extenso, em razão tanto do escasso tempo dedicado aos trabalhos como da consideração em relação à oportunidade que o grande apoio a Chávez conferia. Em contraste com essa opinião, outros autores (Cf. García, 2003: 240) consideram que esse foi um processo no qual as organizações sociais "participaram ativamente da ANC, através de seminários, oficinas, mesas de comissão e declarações nos meios de comunicação social, entre outros". À parte as diferenças sobre o grau de participação, reconhece-se que a definição da nova Constituição ocorreu através de um processo participativo que contrasta claramente com as propostas de reforma constitucional dos anos 90, que foram realizadas a partir do Congresso Nacional sem a intervenção da sociedade. O resultado do processo recente é a nova Carta Magna, denominada Constituição da República Bolivariana da Venezuela (CRBV), aprovada em 1999, na qual se assentam as bases de uma nova política pública em todos os planos e da política de promoção da participação cidadã, definida pelo governo. O artigo 70 da nova Carta Magna estabelece o seguinte: "São meios de participação e protagonismo do povo em exercício de sua soberania no plano político: a eleição de cargos públicos, o referendo, a consulta popular, a revocatória do mandato, a iniciativa legislativa, constitucional e constituinte, a assembleia aberta e a assembleia de cidadãos e cidadãs, cujas decisões serão de caráter vinculatório, entre outros; e no plano social e econômico, as instâncias de atenção cidadã, a autogestão, a cogestão, as cooperativas em todas as suas formas, incluindo as de caráter financeiro, as caixas econômicas, a empresa comunitária e demais formas associativas guiadas pelos valores da mútua cooperação e da solidariedade. A lei estabelecerá as condições para o efetivo funcionamento dos meios de participação previstos neste artigo" (ANC, 1999). Mais do que a eleição de representantes e a revogação de mandatos, são criados meios de participação na administração pública, entre os quais se encontra a Assembleia de Cidadãos, que para alguns autores (Pérez, 2006) constitui "(...) o mandato mais transcendental e mais revolucionário, por suas consequências tanto teóricas como práticas". As decisões da Assembleia de 121

Cidadãos constituem um mandato para o Estado e para a própria sociedade, evidentemente dentro dos limites legais estabelecidos. Segundo Lander (2004: 2), talvez "(...) a mudança mais significativa da Constituição de 1999 em relação ao texto constitucional anterior (de 1961) se dá na ampla gama de novas formas de participação, as quais definem um regime político que combina as formas tradicionais da democracia

representativa liberal (separação dos poderes e eleição de autoridades executivas e legislativas nos níveis municipal, estadual e nacional) com formas de democracia direta, 'participativa e protagônica'". Ademais, a participação cidadã foi levada em consideração em várias das 49 leis aprovadas para avançar-se na adaptação do quadro jurídico ao novo projeto de sociedade. Paralelamente à criação de políticas formais em relação à participação cidadã, o governo promove na prática essa participação, procurando saldar de duas formas as dívidas sociais: 1) no contexto do Plano Bolívar 2000, o governo estimula a participação da população na execução de atividades para levar adiante o referido plano, o qual foi definido como "(...) um plano cívicomilitar que tem como finalidade ativar e orientar a recuperação e fortalecimento da Venezuela e atender as necessidades sociais do país" (MPD, citado por Ochoa e Rodríguez, 2003: 128). A primeira etapa desse plano tinha como propósito "(...) atender a população em situação de pobreza extrema, que não está assistida pelos programas sociais existentes; orientá-la sobre o uso e acesso aos serviços básicos, inseri-las em programas permanentes para que possa superar sua situação e reinserir-se socialmente, realizar um censo de problemas da população em situação de pobreza para dispor de um registro de beneficiários dos programas sociais, articular a rede de organizações sociais e integrar o conjunto dos cidadãos na execução, avaliação e controle das ações para atender a emergência social" (MPD, citado por Ochoa e Rodríguez, 2003: 129). O papel da população foi o de colaboração com os militares na execução do programa que permitiria pagar a dívida social ─ isto é, não havia uma participação nem na formulação de políticas nem no controle delas. 2) Também nessa primeira etapa, o governo promove a participação vinculada à necessidade de resolver problemas pontuais que constituem velhas dívidas sociais, com o estímulo que é imprimido às mesas técnicas de água e de

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energia35. Não obstante, não ocorreu nesse caso uma simples colaboração com o propósito de dar atenção a alguns problemas sociais ─ tal como ocorreu no Plano Bolívar 2000 ─ mas, como afirma Araya (2003: 17), "(...) [c]ombina-se a expressão de direitos e demandas dos cidadãos com um baixo nível de influência nas decisões. É um tipo de participação no qual as autoridades

públicas estabelecem canais e mecanismos para recolher opiniões da sociedade civil acerca de ações e políticas específicas, com o fim de velar pelo cumprimento adequado dos objetivos e regras do jogo preexistentes, embora não tivessem necessariamente um caráter vinculatório". No caso de que nos ocupamos, essa estratégia de participação, segundo Arconada (2004), é assumida pelo governo de Chávez desde seu início em 1999, e nela devem ser realizadas três tarefas: a) um censo, "(...) que não é uma mera contagem, mas uma 'radiografia' da situação da comunidade"; b) "A segunda etapa é a realização do plano ou esboço da comunidade (...), é um plano vivo, um plano falado (...), com uma legenda muito mais profusa, na qual está incorporada uma imensa quantidade de informação; e c) uma terceira tarefa, "que provavelmente é a tarefa central da Mesa Técnica de Água: o diagnósticoprojeto mediante o qual ─ uma vez identificado o problema ─ devem-se propor as soluções". A prática da participação nessa primeira etapa estava condicionada à necessidade de dar resposta àquilo que se vem chamando de dívida social. Em alguns casos, a participação estava restrita à colaboração na execução de programas governamentais; em outros, os cidadãos contribuíam com opiniões sobre suas condições de vida. As estratégias de participação estabelecidas pela Constituição não foram ativadas na que chamamos de primeira etapa da política de participação. Nela ocorrem pequenos progressos, mas se está longe de ações em relação à participação ativa em âmbito nacional, em todos os planos ─ como podemos interpretar a partir do mandato constitucional ao estabelecer a Assembleia de Cidadãos.

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As mesas técnicas de água tiveram sua origem em 1993, no governo de Aristóbulo Istúriz, político de esquerda, no município de Libertador, como uma estratégia para integrar as demandas de água com a oferta por parte da empresa criada pelo governo nacional para solucionar esse problema (Arconada, 2004).

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A SEGUNDA ETAPA DA POLÍTICA DE PARTICIPAÇÃO: OS CLPP
A aprovação da Lei dos Conselhos Locais de Planificação Pública (CLPP) marca, em nossa opinião, o início de uma segunda etapa da política de promoção da participação cidadã por parte do governo. A referida lei vinha sendo elaborada desde 2001, mas foi aprovada em 2002, "(...) justamente após o golpe de Estado que retirou, por 48 horas, Chávez do governo. A Lei dos CLPP constitui uma via para construir-se uma descentralização participativa com base no fortalecimento do município" (Ochoa, 2008). Os CLPP são, consoante o artigo 2º da Lei, "(...) o órgão encarregado da planificação integral do governo local" (AN, 2002)36. Previu-se no artigo 8º da Lei que os CLPP promoveriam "(...) a rede de conselhos paroquiais e comunais (...) cuja função será converter-se no centro principal da participação e protagonismo do povo na formulação, execução, controle e avaliação das políticas públicas, assim como viabilizar ideias e propostas para que a comunidade organizada as apresente ante o Conselho Local de Planificação Pública" (AN, 2002). A integração dos CLPP revela que a participação cidadã organizada é promovida sem exclusão, além do fato de que se trata de uma participação com capacidade para decidir e que se refere a um mandato em matéria de participação a ser posto em prática, em nível local, por todo o país. Com isso, de um ponto de vista democrático, fortalece-se o modelo de descentralização político-territorial, mesmo que em nível municipal ─ e não estadual, como previra a lei aprovada em fins dos anos de 1980. "A prática desvirtuou o modelo; as estratégias de evasão da lei por parte dos prefeitos, tanto os de oposição quanto os que apoiam o governo, são de diversos tipos: vão desde o de opor dificuldades à seleção de representantes, tendo como apoio diferenças
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Segundo a Lei, integram os CLPP: "1: um ou uma Presidente, que será o prefeito ou prefeita. 2. Os vereadores e vereadoras do município. 3. Os ou as Presidentes das Juntas Paroquiais. 4. O ou os representantes de organizações de moradores das paróquias, o ou os representantes, por setores, das organizações da sociedade organizada, e o ou os representantes das comunidades ou povos indígenas (onde os haja). Esses representantes serão eleitos, segundo dispõe o artigo 4º da Lei, em número igual à soma mais um dos integrantes mencionados nos números 1 a 3 deste artigo" (AN, 2002).

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na interpretação da lei, até o do uso de práticas clientelistas, que têm levado ao fracasso esse sistema local de democracia participativa" (Ochoa, 2008). Neste cenário em que emergem os obstáculos à formação dos CLPP e em que se intensificam os conflitos políticos provocados pela oposição a Chávez ─ conflitos entre os quais se incluem uma paralisação econômica e uma paralisação da indústria petroleira, promovida por sua tecnocracia ─ o governo conclama a população a organizar-se em defesa do projeto de transformação (através do qual se alcançou progresso na organização da sociedade), valendo-se das diversas estratégias existentes e da formação dos conselhos comunais, previstos como organização original pela Lei dos CLPP.

A TERCEIRA ETAPA DA POLÍTICA DE PARTICIPAÇÃO: A PROMOÇÃO DOS CONSELHOS COMUNAIS
No contexto anterior, marcado por ações para reformar-se a lei dos CLPP em 2006 (com o objetivo de regular os conselhos comunais), e faltando poucos meses para as eleições presidenciais (nas quais Chávez buscaria a reeleição), aprovou-se a Lei dos Conselhos Comunais. Esse último aspecto contextual levou alguns setores da oposição a considerar que se tratava de uma estratégia do presidente para ampliar sua popularidade. Conquanto não neguemos que, ao significar um salto na construção da democracia participativa, a regulação dos conselhos resultasse em um aumento da popularidade do governo, seria impróprio concordar com a alegação dos opositores de Chávez. Os números das eleições o demonstram: segundo o Conselho Nacional Eleitoral (CNE, 2008), Hugo Chávez obteve 62,84% dos votos, contra 36% de seu opositor mais votado. O propósito da Lei dos Conselhos Comunais, de 2006, é, segundo seu artigo 1º: "(...) criar, desenvolver e regular a formação, integração, organização e funcionamento dos conselhos comunais e sua relação com os órgãos do Estado, para a formulação, execução, controle e avaliação das políticas públicas" (AN, 2006). A lei define os conselhos comunais como "(...) instâncias de participação, articulação e integração entre as diversas organizações comunitárias, grupos sociais e os cidadãos, que permitam ao povo organizado exercer diretamente a administração das políticas públicas e projetos dirigidos 125

às necessidades e aspirações das comunidades na construção de uma sociedade baseada na equidade e justiça social. (AN, 2006). É um passo importante para que ─ como afirma Dussel (2006: 24) ─ as vontades congreguem "(...) seus objetivos, seus propósitos, seus fins estratégicos [e] alcancem (somando organicamente suas forças como uma 'vontade-vivercomum') maior potência". Os conselhos comunais são constituídos formalmente por comunidades de, no máximo, 400 famílias, que participam "(...) através de um sistema que dá capacidade de decisão, execução e controle sobre o destino da comunidade". Essa base populacional tem sido considerada por alguns autores (Cf. López, 2007) como uma restrição para a negociação. Como notam Bobbio (1996) e Sartori (2007), a participação direta enfrenta obstáculos em grupos grandes, não obstante ser necessário esclarecer que a capacidade de decisão é um problema mais político do que de tamanho dos grupos. Para que as comunidades participem das decisões, os conselhos comunais dispõem da Assembleia dos Cidadãos, que constitui, de acordo com a lei, a máxima instância de decisão e cujas decisões são vinculatórias para o Estado e a sociedade ─ evidentemente, nos limites legais estabelecidos. "Na Assembleia de Cidadãos, os membros da comunidade decidem sobre o destino dela, através do encontro entre aqueles que partilham em comum uma área geográfica, uma história, interesses, serviços públicos, necessidades e potencialidades de todo tipo. Essa instância de decisão tem, entre outras, a função de aprovar as normas de convivência da comunidade, seu plano de desenvolvimento e os projetos para seu benefício, além de definir a base populacional do Conselho Comunal e articular as diversas organizações, ao escolher os porta-vozes dos diferentes Comitês de Trabalho que integram o órgão executivo de cada Conselho Comunal" (Ochoa, 2008: 70). A participação dos conselhos comunais na execução de projetos é muito diferente da que era promovida pelo Estado neoliberal, que pressupunha o autofinanciamento das comunidades na resolução de seus problemas. Os conselhos comunais empregam recursos do Estado na solução de suas dificuldades. Em função dessa disposição da lei, foram reformadas em 2006 a Lei do Fundo Intergovernamental para a Descentralização (FIDES) e a Lei de

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Concessões Especiais (LAAE)37, com o propósito de que estas instituições concedessem 30% de seus recursos diretamente aos conselhos comunais. Tal estratégia é alvo de críticas daqueles que defendem o tipo de descentralização que repousa sobre os governos de nível subnacional. Quanto à capacidade de controle da administração pública pelos conselhos comunais, esse controle social é um direito de todos os cidadãos venezuelanos ─ e, além disso, é uma função ratificada pela lei dos conselhos comunais. Não é o caso apenas de intervenção no nível local, como se previu com os CLPP, mas sim de exercício ─ através dos conselhos comunais ─ da administração de políticas públicas, por cidadãos de velhas e novas organizações sociais, visando satisfazer suas necessidades e construir uma nova sociedade. Interpretamos administração em um sentido lato, como processo de decisões e execução, devendo-se isso tudo a que nos conselhos comunais a máxima instância organizativa é constituída pela Assembleia de Cidadãos. A promoção dos conselhos comunais deu um salto formal com a aprovação da Lei Orgânica dos Conselhos Comunais em fins de 2009: mais do que intentar resolver problemas surgidos no funcionamento dos conselhos comunais38, essas formas de organização social foram definidas como estratégicas na transição para o Socialismo do século XXI, aspecto contra o qual se tem dirigido a crítica à Lei pelos setores que se opõem ao projeto de transformações do país, imputando-a de anticonstitucional. O artigo 2º da referida lei define os conselhos comunais como "(...) instâncias de participação, articulação e integração (...) que permitem ao povo organizado exercer o governo comunitário e a administração direta das políticas públicas e projetos voltados às necessidades, potencialidades e aspirações das comunidades, na construção do novo modelo de sociedade socialista de igualdade, equidade e

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Ley de Asignaciones Especiales, em espanhol. (N. do Trad.) Um problema ─ aliás, considerado fundamental ─ que se pretende atacar é o do poder adquirido pelo Banco Comunal, o que se atribui ao fato de este ter forma jurídica acima da Assembleia de Cidadãos, enfraquecendo a participação popular, que deveria expressar-se na Assembleia de Cidadãos, cuja posição é a de máxima instância de decisões dos conselhos comunais. Por conseguinte, a nova lei elimina o Banco Comunal, deixando a administração financeira nas mãos de equipes definidas pela Assembleia de Cidadãos. Não obstante, preferimos considerar que o problema é explicado pela persistência de velhas práticas clientelistas na sociedade venezuelana, práticas mantidas em um quadro de escassa cultura de participação.

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justiça social" (AN, 2009). A igualdade, equidade e justiça social ─ que definem aqui o modelo socialista ─ são princípios estabelecidos pela atual Constituição, os quais assumem expressão no processo de promoção da participação através dos conselhos comunais. O fortalecimento da Assembleia de Cidadãos potencializa as estratégias de consulta que a Assembleia Nacional realiza mediante o assim chamado Parlamentarismo Social das Ruas para a formação das leis. Esse parlamentarismo amplia a participação popular no aparelho público no momento da elaboração das grandes políticas, necessidade que ainda está por ser satisfeita, embora se disponha de outras estratégias, como as consultas populares, o referendo e outras formas de participação política estabelecidas pela Constituição e de promoção das comunas.

QUARTA ETAPA: PROMOÇÃO DAS COMUNAS
A quarta etapa da política de promoção da participação cidadã é marcada pelo impulso que receberam as comunas, no contexto de lançamento do Socialismo do século XXI. Após um retumbante triunfo das forças políticas de apoio a Chávez nas eleições para os níveis subnacionais, o presidente propôs, em 2007, um projeto de reforma da Constituição, o qual, contudo, foi recusado por referendo. Este projeto contemplou as comunas como o "(...) núcleo espacial básico e indivisível do Estado Socialista Venezuelano, no qual os cidadãos e as cidadãs comuns terão o poder para construir sua própria geografia e sua própria história". À margem da referida recusa e no quadro legal existente, o governo promove as comunas, para as quais ele constituiu, em 2009, o Ministério do Poder Popular para as Comunas ─ hoje Ministério do Poder Popular para as Comunas e Proteção Social, definido formalmente como "(...) o órgão reitor das políticas públicas relacionadas com a promoção, formação, acompanhamento integral e financiamento dos projetos socioprodutivos, com o propósito de incidir na organização, criação e formação das comunas, orientado a fortalecer o Estado socialista, participativo, transformador das forças sociais e, sobretudo, humanista, como formas de organização social expressada em autogovernos (...)" (ONAPRE, 2010). A criação desse Ministério revela a importância que o

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governo atribui às comunas. Através do Ministério ganham impulso as funções acima indicadas ─ e, particularmente, o financiamento de numerosos projetos produtivos e comunitários para a melhoria da qualidade de vida das comunidades, como "(...) a construção de quadras esportivas, moradias, casas comunais, redes de eletricidade e vias públicas, entre outras obras projetadas pelos conselhos comunais" (Farías, 2009). As comunas formam permanentemente parte do discurso do presidente Chávez, para quem "(...) [a] comuna deve ser o espaço sobre o qual vamos parir o socialismo desde as bases, é uma criação popular, das massas, da nação; é um parto histórico, é o espaço no qual vamos engendrar e parir o socialismo desde pequeno, grão a grão: pedra por pedra, vai-se fazendo a montanha" (Chávez, 2009). Em um Alô, Presidente39, especialmente dedicado às comunas, Chávez "(...) instou a todos os organismos públicos, aos governos municipais e aos estaduais, a ser multiplicadores das ideias e do pensamento, e, sobretudo, a engrenar todas as políticas públicas e ações em função de consolidar as comunas" (Prensa Miraflores, 2009); e insiste que "(...) onde quer que o governo esteja realizando um projeto, deve formar-se uma comuna" (Chávez, 2009). Na prática, avança-se no apoio à criação de projetos que incluam vários conselhos comunais, o que representa importante passo para a formação de um espaço denominado comuna, que, ademais, constitui uma unidade histórica, econômica, política, cultural etc. Trata-se ─ como o governo tem proposto ─ de uma nova geometria do poder, que é objeto de debate e que prospera, e no qual se prevê a participação das comunidades organizadas nas decisões, execução e controle de políticas públicas sobre espaços muito maiores que os conselhos comunais. Se estes são o órgão de poder popular das comunidades, o conselho comunal seria o órgão de poder popular da comuna (Cañizales, 2009). A comuna é um projeto com poucas experiências, mas sobre o qual existe um importante debate. Marta Harnecker (2009), que tem acompanhado todo o processo participativo do país, adverte de que é necessário enfrentar alguns problemas ─ para os quais, de algum modo, o próprio Chávez tem chamado a atenção ─
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Programa dirigido pelo presidente da República, transmitido por rádio e TV todos os domingos, com uma duração de aproximadamente seis horas. É um dos programas de maior audiência no país.

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relativos à formação das comunas no país, e que representam obstáculos a esse projeto de participação promovido pelo governo. A advertência está centrada na criação de condições organizativas que respeitem a participação das bases para potenciar o socialismo. Neste sentido, a autora cita Chávez, quando este assinala que "(...) a comuna é uma criação popular, das massas". Assistimos, assim, à promoção das comunas como estratégia de participação popular na construção de uma sociedade socialista, nas diferentes dimensões da vida.

À MANEIRA DE CONCLUSÃO
É evidente que a participação cidadã é uma política do Estado venezuelano posta em prática desde o advento do governo de Hugo Chávez. É uma política estabelecida pela Constituição de 1999, mas que, na prática, vem sofrendo modificações em seu modelo, em um cenário de forte oposição ao projeto de transformação atual. Isso tem sido uma oportunidade para que se vá dando forma ao modelo, atrás do qual está a construção de uma democracia participativa e, ao mesmo tempo, a construção de uma sociedade de justiça social. Hoje, o modelo que se promove é o das comunas socialistas, que são espaços territoriais dirigidos pelo poder popular. Trata-se de um projeto que progride na prática, tendo-se consciência de que, mais do que decretá-lo, ele deve ser construído ─ diferentemente do que ocorria no passado recente, no qual importava mais a construção de políticas formais do que seu pregresso na realidade prática.

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APÊNDICE:

I)
O PETRÓLEO E A CULTURA VENEZUELANA

CARLOS MENDOZA POTTELLÁ

(Entrevista concedida à Revista FLAMA - Liberación y Petróleo, número de abril/junho de 2011)

REVISTA FLAMA: Como o Sr. crê que o petróleo ou a exploração petroleira tem influído na cultura venezuelana, e que efeitos ou danos o Sr. acredita que tenham sido provocados no imaginário coletivo do país pela concepção e importância de uma cultura rentista petroleira?

CMP: Esta pergunta se refere ao mundo e seus arredores... O petróleo tem sido tudo na vida dos venezuelanos do século XX, e corre-se o risco de continuar sendo a mesma coisa neste século XXI. A resposta a sua pergunta está em uma densa bibliografia que se inicia com Labor venezolanista, de Alberto Adriani, e que tem momentos importantes em outras obras como La cultura del petróleo, de Rodolfo Quintero, e Hundiéndonos en el excremento del Diablo, de Juan Pablo Pérez Alfonzo, bem como toda a obra de Salvador de la Plaza, apenas para citar alguns autores mais conhecidos. Pretender dar resposta a esta pergunta em poucas linhas seria realmente um atrevimento irresponsável. Contudo, ela nos dá a oportunidade de alertar sobre a necessidade de resgatar todo nosso acervo nessa matéria ─ posto de lado, aliás, precisamente pelos desígnios das metrópoles capitalistas e das grandes empresas transnacionais no quadro geral definido pelo assim chamado Consenso de Washington, que foi recebido 133

e aplicado com genuflexa complacência pelas elites governantes da Venezuela neste último quartel de século. Aproveito, por isso, para fazer algumas observações. É já um lugar-comum afirmar que a disponibilidade de uma renda, isto é, de uma receita não gerada pelas forças produtivas internas, mas surgida da existência, em nosso subsolo, de um produto escasso em nível mundial (conquanto absolutamente necessário para alimentar as economias do planeta) tem provocado os efeitos perniciosos que se associam ao conceito de cultura rentista. Não obstante, o uso abusivo do qualificativo rentista presta-se aos partidários do expansionismo petroleiro para que, em associação subordinada com o capital petroleiro transnacional, desacreditem a luta venezuelana por assegurar uma retribuição justa à venda de um patrimônio nacional e privilegiem uma suposta "mentalidade produtiva" que, paradoxalmente, consiste em "semear o petróleo no petróleo" e fazer-nos cada dia mais petroleiros, postergando sine die os sonhos de um desenvolvimento integral, autônomo e autossustentado, centrado nos esforços produtivos da população venezuelana nos setores agropecuários e industriais internos. Não duvido de que existam venezuelanos que considerem o caminho mais conveniente para o país o de insistir em nossa "vantagem comparativa", e que seria ótimo um destino como o de Porto Rico para acabar com a pobreza e o subdesenvolvimento. Por isso mesmo, é necessário colocar a discussão sobre o rentismo em um contexto integral, no qual sejam julgados os valores de independência, soberania e nacionalismo, juntamente com os objetivos de desenvolvimento humano e justiça social.

RF: Por que a Venezuela, apesar dos imensos recursos petrolíferos que sempre possuiu, é incapaz de dar um salto na questão da independência econômica, no desenvolvimento e na autonomia tecnológica? CMP: Durante mais de um século, o petróleo vem constituindo o coração do "setor externo da economia venezuelana". Com isso, fazemos referência, por um lado, à circunstância de que a indústria petroleira implantou-se em nosso país sob o impulso e o férreo controle do grande capital petroleiro anglo-norte134

americano; e, por outro lado, ao seu caráter de enclave, de feitoria colonial, geradora de imensos recursos provenientes da exportação de quase toda sua produção, sem conexões estruturais com o resto dos setores econômicos do país. As consequências negativas dessas condições têm sido motivo de intensa discussão e estudo desde a segunda década do século XX, quando nosso primeiro economista, Alberto Adriani, caracterizou-as e definiu a necessidade de utilizar os recursos advindos das exportações petroleiras no desenvolvimento dos setores produtivos internos ─ fundamentalmente, a agricultura e a indústria, elementos constituintes, para ele, do núcleo do que deveria ser uma economia geradora permanente de riquezas, em oposição ao caráter provisório de toda economia mineira e, em particular, da economia petroleira. Isso logo se converteu no conhecido lema de "semear o petróleo". A história venezuelana do século passado está encadeada aos reiterados mas sempre incompletos e falhos intentos de tornar realidade esse lema. Juan Pablo Pérez Alfonso caracterizou esse fracasso como "o semear impossível", aludindo entre outras coisas à disposição inconsequente dos recursos petroleiros que extravasavam a capacidade de absorção do aparato econômico nacional. Apesar das advertências de Adriani, a indústria petroleira continua sendo o "setor externo" da economia nacional, geradora de uma imensa capacidade de importação e, ao mesmo tempo, uma barreira intransponível para o desenvolvimento de uma indústria e uma agricultura autônomas e autossustentadas. Por tudo isso, "semear" o petróleo constitui um desafio que os venezuelanos ainda mantemos não resolvido. Lamentavelmente, ainda persistem no inconsciente nacional os sonhos do petróleo, alimentados pela confirmação de reservas que nos auguram uns 200 ou 400 anos entre os primeiros lugares no ranking mundial dos produtores do óleo. Nessas condições, é muito tentador entregar-se à preguiça do menor esforço e esperar, como as rãs tolas na água morna, para descobrir já tarde demais que a água está fervendo. RF: O Sr. acha conveniente que a estatal petroleira PDVSA se concentre em tantas atividades paralelas e externas à atividade central de indústria petroleira, atividades ligadas, por exemplo, ao setor educativo, produtivo e alimentício? Isso não poderia converter a PDVSA em um Estado paralelo? 135

CMP: Este é um problema de natureza organizativa do Estado. PDVSA é, antes de tudo, o ramo operativo da indústria petroleira, encarregada da administração do negócio. Como tal, recebe diretamente os fundos que a exportação de petróleo gera e, segundo o caso, os entrega em dólares ao Banco Central da Venezuela para que este crie os bolívares com os quais se move internamente a economia nacional, ou então os organismos, como o Fonden (Fundo de Desenvolvimento Nacional), para financiar projetos de investimento direto segundo as prioridades estabelecidas pelo Executivo Nacional. A utilização de recursos financeiros, espaços, infraestrutura e capacidades gerenciais para fins diversos dos da produção de petróleo é algo que se faculta ao Executivo e deve ser avaliada em cada caso, de acordo com seu êxito ou fracasso. Um dos critérios para essa avaliação deve ser, precisamente, o de que isso não afete a capacidade operativa da indústria em seu setor medular. Mas, isso não pode ser determinado a priori. Nem é o problema de se crer em sua conveniência: trata-se de um caminho escolhido para acelerar alguns projetos ─ de maneira fundamental, o de abastecimento de alimentos à população de menores recursos ─ que porventura não tenham o glamour das operações associadas ao uso de tecnologias de ponta nos processos de refinação ou de petroquímica, mas que constituem prioridades absolutas no contexto social contemporâneo. Uma vez que são decisões do Poder Executivo e se trata de tarefas que lhe são conferidas por uma comissão específica, isso não converte a PDVSA em um Estado dentro do Estado. Ao contrário: essa tendência existiu, de fato, no último quartel do século XX, quando as iniciativas de programas e projetos petroleiros para a liquidação do Ministério de Energia e Minas e a deterioração planejada da capacidade do Estado de perceber receitas fiscais foram engendradas pelas cúpulas de gerentes da empresa petroleira e, em seguida, consagradas pelo Executivo em cada oportunidade. RF: Em sua opinião, qual o papel que a política petroleira venezuelana deve desempenhar tendo em vista uma concreta integração da América Latina? Os povos de cada país devem participar dela? De que forma?

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CMP: Os hidrocarbonetos, em particular o petróleo, converteram-se, desde a segunda metade do século XX, na principal fonte energética ─ na verdade, base da matriz energética que rege o progresso social e econômico dos países do mundo, quer desenvolvidos quer em vias de desenvolvimento. O esgotamento das reservas mundiais comprovadas de petróleo, durante os últimos anos, somado ao afunilamento que representam as relações produçãoconsumo e oferta-demanda, leva-nos a voltar nosso interesse para o gás como um vértice importante da matriz energética. Neste sentido, a Venezuela possui uma vantagem comparativa tanto no contexto americano como no global. O atual balanço energético latino-americano, em sua estrutura e funcionamento, está dominado pelas energias fósseis não renováveis, e é bastante provável que, por um longo período, mantenha-se o predomínio do petróleo e do gás como fontes básicas. Daí o papel da Venezuela, que oferece seus recursos energéticos (petróleo e gás), por ser um país monoprodutor de

hidrocarbonetos. É óbvio que os hidrocarbonetos têm tido, nos últimos cem anos, um papel primordial de geoestratégia nas relações internacionais do mundo contemporâneo. Por isso, não é possível deixar de levá-lo em conta na hora de formular políticas de integração entre os povos da América Latina, tão necessitados agora de uma integração comercial regional aberta que nos coloque, unidos e homogêneos, diante dos grandes blocos comerciais e empresas mastodontes do comércio internacional globalizado. A América Latina, sem distinções políticas, religiosas, geográficas ou culturais de qualquer espécie, tem a imperiosa necessidade de fomentar uma integração de toda a região ─ e a Venezuela, enquanto país no qual confluem diversas características geopolíticas da região (pois é, ao mesmo tempo, caribenho e atlântico, como andino e amazônico), bem como por se encontrar entre a América do Sul e o Caribe, precisa unir seus esforços em prol dessa tão apregoada integração. Nessas circunstâncias, a Venezuela pode contribuir, de modo determinante nos processos de integração econômica, financeira, comercial e política latino-americana, para uma integração energética baseada em seus próprios recursos e em coordenação com os outros países produtores da região. Por ser o nosso país uma economia petroleira exportadora, é natural que use o petróleo como uma arma geoestratégica de integração regional. 137

RF: Agora que possuímos as maiores reservas de petróleo do mundo, como o Sr. vê o plano de estratégias para superar o caráter rentista da economia venezuelana? CMP: Aqui voltamos à segunda resposta, na qual tratei das dificuldades de superar o caráter rentista de nossa economia quando o país tem diante de si a tentação de continuar sendo petroleiro por mais 400 anos. Vale a pena insistir: a magnitude desses recursos é tal que extravasa nossa capacidade de gestão e de investimento autônomo a curto e médio prazo. A tentação petroleira é um risco evidente para a soberania nacional, pois é muito simples conseguir que os grandes capitais sejam derramados no país. Basta conceder-lhes condições favoráveis e garantias de aproveitamento privilegiado de nossos recursos. Em tais condições, definir estratégias para superar o rentismo apresenta-se como uma árdua tarefa, digna de Sísifo, cujo primeiro embate será contra o senso comum petroleiro, que nos leva a glorificar esse primeiro lugar que ocupamos no ranking, e afrouxa nossas defesas a ponto de considerar o nacionalismo como um discurso atrasado, indigno da pós-modernidade que nos envolve.

RF: Considerando a atual situação ecológica do mundo, quais políticas poderia a PDVSA ou o governo bolivariano implementar no que se refere à necessidade das energias alternativas e ao cuidado com o meio ambiente?

CMP: Em primeiro lugar, creio que é necessário promover uma campanha nacional de conscientização sobre os riscos das compulsões produtivistas petroleiras. Em seguida, acentuar a defesa da valorização do recurso petrolífero; dar prioridade ao desenvolvimento das reservas de gás natural e substituir, de modo acentuado, o consumo interno de hidrocarbonetos líquidos; desenvolver a pesquisa científica nacional para o aproveitamento dos recursos energéticos alternativos de que a nação dispõe nos campos geotérmicos, eólicos, nucleares e hidráulicos; e desenvolver vias e meios de transporte alternativos ao automóvel individual e às rodovias: trens, metrôs, trólebus.

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RF: Que futuro o Sr. prevê para a Venezuela e quais recomendações nos faria a partir de sua vasta experiência?

CMP: Como sabemos, a Venezuela conta com imensos recursos naturais, e não é preciso insistir nisso. O que importa, sobretudo, é encontrar a maneira de nos livrarmos dessa condenação ao rentismo parasitário e construir uma sociedade integralmente produtiva, autossustentada e centrada no

desenvolvimento de sua população; e, igualmente, saldar a imensa dívida social que hoje nos aflige com a pobreza e a marginalidade de uma tão grande parcela da sociedade. Porém, trata-se de uma tarefa de magnitudes históricas, de longo prazo, que exige um programa bem pensado de políticas econômicas e sociais definidas como produto de uma vontade política firme, que fuja às tentações facilistas e que convoque a população venezuelana a construir um país sustentado no desenvolvimento de suas próprias forças produtivas.

RF: Como se pode pensar a constituição de empresas mistas para a exploração petroleira no quadro do socialismo neste século XXI?

CMP: As empresas mistas não são outra coisa que uma estrutura de associação empresarial cuja utilização deve ser avaliada no seu contexto específico. Nos tempos da abertura petroleira, empreendida pela meritocracia de fins do século passado, essas e outras associações foram empregadas para ampliar a participação do capital transnacional na indústria petroleira venezuelana, outorgando condições lesivas ao patrimônio nacional e reforçando nossa dependência em relação às maiores corporações. Sua utilização no contexto atual faz parte de uma política de diversificação das fontes de capital e de tecnologia estrangeira necessárias ao desenvolvimento de atividades complexas e com altos níveis de investimento, como é evidentemente o caso das melhorias para processamento dos óleos crus extrapesados da Faixa do Orinoco. Em conclusão, o caráter útil ou perverso das empresas mistas dependerá dos fins para os quais elas serão empregadas ─ tal como um machado pode ser empregado para fins agrícolas ou fins criminosos.

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RF: A exploração da Faixa do Orinoco é concordante com a tese do socialismo no século XXI?

CMP: Do mesmo modo que na resposta anterior, digo que os recursos podem ser utilizados para fins opostos. Neste caso, trata-se precisamente da orientação que se queira dar a uma atividade econômica que possa servir de alicerce à construção de uma Venezuela mais justa e humana, soberana e senhora de seu destino, ou então transformar-nos em simples apêndice do grande capital transnacional. Os 21 países que aparecem envolvidos nos projetos atuais da Faixa do Orinoco contrastam com as corporações quase exclusivamente anglo-norte-americanas que participavam dos projetos da meritocracia defensora da abertura petroleira. RF: Qual sua opinião sobre a política posta em prática pela Nova PDVSA relativamente a sair dos ativos refinadores no exterior (como nos casos da Ruhr Oel, na Alemanha, e Citgo, nos Estados Unidos)? CMP: Desde 1994, eu venho denunciando publicamente o fiasco que tem sido o programa de compras de refinarias obsoletas e dilapidadas adotado pela meritocracia petroleira em 1989. Essas refinarias constituem um peso morto que vamos arrastando desde então, e mesmo quando há vontade política de abandonar um negócio tão ruim, isto não tem sido possível completamente, porque ninguém quer assumir os custos que o país suporta para manter essas instalações. Cito em seguida um texto escrito justamente em 1994, sobre o programa de aquisição de refinarias no exterior ─ a "internacionalização", como foi chamada: "Desde o início, [a "internacionalização"] apresenta-se como uma estratégia competitiva, para assegurar mercados aos óleos crus venezuelanos, como uma alternativa diante de um possível e pretendido colapso da OPEP. Uma estratégia voltada para o cliente desenvolvido, que liberte uma empresa ─ que se sente de Primeiro Mundo ─ das amarras terceiro-mundistas que aquela organização encarna. Igualmente, e como se evidencia no delineamento transcrito, propôs-se que possuir refinarias no exterior permitiria a adaptação 140

delas ─ por via de conversão profunda ─ ao processamento dos óleos crus cada vez mais pesados que constituem as reservas

remanescentes do país. De fato, afirmou-se que esse era um dos compromissos que sustentavam o convênio com a Veba Oel. Hoje, contudo, sabe-se que nada foi feito nesse sentido, pois não houve variação da gravidade API da dieta de tais refinarias e, o que é pior, nada será feito, porque o sócio estrangeiro considera inviáveis tais empreendimentos em condições de superabundância de óleos crus leves no mercado". (El poder petrolero y la economía venezolana. CMP, 1994)

Ainda hoje, as compras de óleo cru e produtos não venezuelanos no exterior constituem o item majoritário dos custos operacionais totais da PDVSA, representando assim uma hemorragia nas receitas que a indústria deveria gerar se não houvesse esse empecilho.

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II) O CAMINHO DA VENEZUELA NÃO PODE SER NEM NEOLIBERALISMO NEM STALINISMO
EDGARDO LANDER
(Entrevista concedida a Hugo Prieto, em 7 de abril de 2011, Transnational Institute)40

H.P.: O processo político venezuelano está tomado de uma contradição fundamental: a das reivindicações populares por participação democrática contrapostas às tendências à hierarquização da tomada de decisões e à concentração de poder. Desde 18 de dezembro41, vem-se delineando uma nova situação na Venezuela, marcada pela limitação da ação legislativa em razão da aprovação da Lei Habilitante e a reforma dos modos de proceder da Assembleia Nacional. Como o Sr. interpreta esses fatos?

E.L.: Todos esses desenvolvimentos efetivamente marcam um caminho para reduzir-se a esfera pública e o debate político. Em termos numéricos estritos, o governo atual perdeu as eleições de 26 de setembro de 2010. Se computarmos os votos obtidos pelo PPT (Partido Pátria para Todos) ─ um antigo aliado do governo, mas agora um partido de oposição ─ constata-se que a oposição alcançou 52% dos votos. Um outro problema é o de como a Assembleia Nacional era constituída. A nova lei eleitoral de 2009 limitou a representação proporcional e a

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Texto original: The Path for Venezuela can not be Neoliberalism or Stalinism. Apr 7th 2011, by Hugo Prieto - Transnational Institute. 41 Em dezembro de 2010, a Assembleia Nacional aprovou a Lei Habilitante que concede ao presidente Hugo Chávez o poder de governar por decreto ao longo de 18 meses, isto é, até junho de 2012. A medida foi considerada como "autocrática" por setores da oposição. Os grupos governistas veem no recurso uma necessidade para acelerar-se o processo de implantação do socialismo no país. (N. do Trad.)

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representação de minorias, além de modificar os distritos eleitorais. Isso levou a situações tais como a de Caracas, onde a oposição alcançou a maioria dos votos (por uma pequena margem), embora a maior parte dos deputados eleitos ainda pertença ao PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela). O sistema eleitoral, que podíamos considerar muito bom e digno de confiança, tornou-se enganoso, no sentido de que ele não representa genuinamente a vontade do eleitorado. Contudo, a realidade é que, com esses resultados, falta agora ao governo a maioria necessária para a aprovação das leis orgânicas e para a designação das altas autoridades públicas, como os juízes da Suprema Corte.

H.P.: Por que o governo está procurando negar essa realidade? E. L.: Há uma impressão generalizada nessa sociedade ─ não apenas entre os que estão na oposição, mas também entre aqueles que têm apoiado o processo de mudanças em todos esses anos ─ de que estamos em uma situação de deterioração, de que a oposição está ganhando terreno mesmo entre os setores populares, como podemos ver a partir dos resultados, por exemplo, nas áreas de Petare, La Vega e Caricuao. Esse fato não pode ser negado. Em dezembro, apareceram dois importantes documentos: o primeiro, de alguns líderes do PSUV, intitulado Uma proposta para a situação crítica atual da Revolução Bolivariana, traz, ao lado de uma reflexão crítica sobre alguns problemas, uma advertência sobre a falta de liderança coletiva e a ausência de debate e construção conjunta de propostas. O segundo, um editorial da Tribuna Popular (jornal oficial do Partido Comunista da Venezuela), tem como preocupação principal a falta de liderança coletiva do processo revolucionário. Isto é o que os comunistas estão dizendo. Se isso é dito publicamente ou não, o certo é que o apoio ao governo está diminuindo, e entre as organizações sociais e de apoio chavistas existe um claro sentimento de inquietação, bem como de necessidade de mudanças e de correção dos erros cometidos. A radicalização poderá seguir em diversas direções. Poder-se-ia propor, como alguns setores populares reivindicam, uma radicalização da democracia. Isso exigiria que se abrissem espaços de participação, lugares de debates e uma pluralidade de iniciativas por parte da sociedade venezuelana. Mas, o que 143

está acontecendo vai, antes, em outra direção: uma hierarquização mais aguda da tomada de decisões e uma concentração maior de poder. Isso leva a um beco sem saída, porque estão sendo colocando em primeiro lugar os interesses menores, de curto prazo, e priorizando-se o controle do governo e do Estado, o que porá em risco dois processos fundamentais: primeiro, o da construção de uma sociedade mais democrática através da participação e da edificação de novas hegemonias e de um modelo alternativo de sociedade; segundo, o da própria viabilidade e continuidade do processo de mudanças, visto que, havendo imposições vindas de cima, elas produzirão muito poucas transformações.

H.P.: Para onde essa situação nos levará?

E.L.: O pior que poderá ocorrer à Venezuela será uma situação em que se tenha de optar entre dois caminhos: stalinismo ou neoliberalismo. Se isso vier a ocorrer, estaremos em grandes apuros. As pessoas dizem, por exemplo, que a oposição não possui nenhum programa. Isso não é verdade: ela tem um programa, e ele se chama neoliberalismo. São as ideias de liberdade de comércio, de abertura aos investimentos estrangeiros, a provável privatização da PDVSA (a estatal petroleira). Todas essas coisas formam um pacote de medidas que não precisa ser inventado porque já existe. Por outro lado, nós ainda teremos de ver se é possível construir uma sociedade mais democrática, e se socialismo quer dizer necessariamente stalinismo.

H.P.: O que significa ser de esquerda hoje em dia?

E.L.: Os projetos socialistas e aqueles mais propriamente inspirados em Marx, nos séculos XIX e XX, estavam ligados à edificação de um socialismo de Estado e voltado para o desenvolvimento. A imaginação coletiva era profundamente monocultural e eurocêntrica, pois considerava-se

desenvolvimento como o uso das forças produtivas, ciência e tecnologia, e em que se punha a liberdade acima da necessidade. Hoje em dia, os desafios que se apresentam à esquerda possuem várias características em comum com o passado, porque nós estamos ainda 144

fundamentalmente envolvidos em uma luta por justiça e igualdade entre os seres humanos. Os Estados Unidos são um exemplo de país no qual os 2 ou 3% mais ricos da população se apropriam, cada vez mais, dos frutos do crescimento econômico, enquanto que para a maioria os salários continuam congelados há décadas. A agitação social e os protestos populares resultantes dessa situação explicam, em grande medida, a militarização do mundo. Isso não quer dizer impor uma igualdade absoluta, pois não seria algo democrático. Mas, quer dizer, sim, ter a igualdade como um valor permanente, estar comprometido em uma luta constante contra a desigualdade que a sociedade criou. Em minha opinião, ser de esquerda significa fundamentar a existência em uma ética de vida, e sobretudo procurar agir coletivamente. Precisamos preservar a natureza; do mesmo modo, temos necessidade de um reconhecimento radical da pluralidade de nosso mundo, de nossos povos, de nossas preocupações e nossas ações. Estes são os desafios: encontrar um equilíbrio entre igualdade e diversidade, ao mesmo tempo em que se preservem as condições que tornam possível a vida em nosso planeta. A radicalização deve ser também em relação à democracia participativa, essa democracia preventiva que o chavismo não apenas tem proclamado, mas também tem criado. Porém, deve-se perguntar: o que esses recentes atos do governo têm a ver com democracia? Repito: a radicalização pode seguir por caminhos muito diferentes. Este governo tem criado uma contradição ─ algumas vezes, entre seu discurso e sua prática, outras vezes, entre suas próprias práticas. E outras vezes ainda, entre o encorajamento que ele promove da organização popular e essa inusitada hierarquização da tomada de decisões. Na Venezuela, temos testemunhado processos grandiosos de

organização popular, desconhecidos até então na história de nosso país, e vemos hoje profundas transformações na cultura popular em termos de fortalecimento de seu poder, dando-se ao povo a força para intervir dignamente na construção de seu futuro. Esta é uma realidade do atual processo venezuelano. Mas ele, também, está em constante luta com a concentração de poder e a hierarquização das decisões. Os debates continuam, mas não raro as decisões chegam prontas do céu. Esse é um tipo de mundo esquizofrênico, e corre-se o risco de esvaziamento de toda a participação no processo. É o que 145

observamos na vetada lei da universidade, que se referia ao "modo de produção socialista", à construção de "uma sociedade socialista", a "uma pátria socialista bolivariana", como se empregar a palavra socialista bastasse para resolver o problema. Contudo, o socialismo não pode ser usado como um rótulo para se evitar o debate.

H.P.: Quais são as vantagens da democracia participativa em comparação com a democracia representativa?

E.L.: Há várias razões por que uma democracia representativa, por si só, sofra sérias limitações. Não obstante, nas sociedades hoje existem problemas que, por sua natureza, exigem mecanismos de representação para a tomada de decisões. Isso é inevitável, e exige uma esfera pública democrática que inclua importantes componentes, como os meios de comunicação, os debates e o parlamento. A democracia direta e participativa é, ao mesmo tempo, algo imensamente importante para aprofundar-se a democracia e para criarem-se contrapesos aos mecanismos que concentram poder, mecanismos esses que tendem a acompanhar a democracia representativa. A Constituição diz isso muito claramente: a democracia participativa não substitui a democracia representativa. Ao contrário, ambas fazem parte de um processo democrático muito mais profundo.

H.P.: O chavismo age como se a oposição fosse algo sem vida, como se ela estivesse fadada ao insucesso, e que, portanto, todos os erros e equívocos dos chavistas ─ bem como seus fracassos ─ são simplesmente dificuldades, e a oposição não tem possibilidade de voltar. O Sr. acredita nisso?

E.L.: Não acho que o governo acredite nisso, nem a oposição, nem ninguém, de fato. A razão pela qual existe uma tal inquietação dentro do chavismo é o reconhecimento da existência de problemas sérios. Devemos reconhecer os problemas e corrigi-los, quer sejam os das áreas de serviços públicos, quer sejam os de verticalismo e falta de uma democracia efetiva. Preferir não enxergar os problemas, ou tratá-los como invenções da oposição, e portanto mentir, é caminhar para um beco sem saída, cujo fim será um desastre. Se, a 146

partir daí, o Estado fechar os espaços de democracia ─ mesmo com o propósito de defender o governo ─ ele estará selando o fracasso do projeto, ele estará fracassando em transformar a sociedade e a democracia. Isso teria consequências devastadoras para o conjunto da América Latina, pois marcaria a volta da oposição e da direita.

FB

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