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Viver em sociedade

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Vimos no capítulo 1 que indivíduos criados fora da convivência humana, isolados da vida social desde a infância, não desenvolvem

comportamentos humanos. Para que isso ocorra necessário o convívio com o grupo. A partir dele é que os seres humanos se articulam e estabelecem formas de inieração, comunicação e cooperação. Esse processo de interação e adaptação da pessoa ao grupo social ao qual está ligada é conhecido como socialização. É por meio da socialização que o indivíduo assimila o comportamento social aprovado pelo grupo, aprendendo assim a ser parte integrante da sociedade. Dessa forma, a socialização consiste basicamente em um processo de aprendizagem. A criança torna-se socializada quando passa a ter um comportamento socialmente aceitável pelo grupo e aprende a se comunicar com os outros, interagindo com eles.

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CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

Observe e responda:

1. 2.

Segundo o que foi visto no capítulo 2 sobre a Sociologia Compreensiva de Max Weber, pode-se dizer que a foto registra uma ação (ou interação) social? Não podemos saber por que as moças estão rindo, mas podemos considerar a cena do ponto de vista sociológico. Para você, que significado sociológico pode ter esta cena?

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CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

1 I O papel

da socialização
A pessoa se socializa quando participa da vida em sociedade, assimila suas normas, valores e costumes e passa a se comportar segundo esses valores, normas e costumes. "O foco central do processo de socialização - afirmam os sociólogos Taleott Parsons e R. Bales - está na interiorização da cultura da sociedade na qual a criança nasce". Ou seja, a socialização é um processo pelo qual o mundo social, com seus significados, hábitos de vida e valores, penetra na mente da criança e passa a fazer parte de seu mundo interior. Isso significa que a socialização varia de sociedade para sociedade, ou mesmo de um grupo social para outro dentro da mesma sociedade. Pois certos valores, símbolos e significados sociais interiorizados por uma criança fazem parte apenas

Os seres humanos necessitam de seus semelhantes para sobreviver, comunicar-se, criar símbolos e formas de expressão cultural, perpetuar a espécie e se realizar plenamente como indivíduos. É na vida em grupo que as pessoas se tornam realmente humanos. A sociabilidade, capacidade natural da espécie humana para viver em sociedade, desenvolve-se pelo processo de socialização. Por meio da socialização a criança se integra pouco a pouco ao grupo em que nasceu, assimilando o conjunto de hábitos, regras e costumes característicos de seu grupo. Nas palavras dos sociólogos Brigitte Berger e Peter Berger, a socialização "é o processo pelo qual o individuo aprende a ser membro da sociedade".

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CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

da cultura do grupo ao qual ela pertence, ou da sociedade em que ela vive. O costume pelo qual as mulheres usam um véu para cobrir o rosto em lugares públicos, por exemplo, é urna das características de certas sociedades de maioria muçulmana do Oriente Médio. Em contraste com ele, saias curtas e decotes acentuados fazem parte dos hábitos das sociedades ocidentais. Essas diferenças entre os valores e costumes entre dois tipos de sociedade fazem parte da diversidade humana e devem ser consideradas corno características a serem analisadas, sem que sobre elas se queira estabelecer juízos de valor. Ou seja, não se trata de julgar se certos costumes são bons ou maus, mas de interpretá-los sociologicamente corno parte de culturas diferentes.

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TRIBOS NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO
e o advento de novas ..-Itecnologias de comunicação, o tempo histórico se acelerou e profundas transformações começaram a ocorrer em todas as esferas da sociedade (veja o boxe a seguir e leia o verbete globalização no Dicionário Básico de Sociologia, no fim do livro). Nesse contexto de rápidas mudanças, novas formas de sociabilidade emergem no século XXI. Nos grandes centros urbanos, o tribalismo se tornou uma das formas de expressão dos novos tipos de sociabilidade. (A palavra tribalismo está sendo aqui utilizada em sentido amplo, que ultrapassa o sentido comum, ligado à ideia de sociedades indígenas.) Exemplos desses novos grupos são os punks, os surfistas, os skinheads, as torcidas organizadas de futebol e as gangues da periferia urbana. Eles se reúnem em torno de afinidades ou interesses momentâneos, e se identificam por algum aspecto externo,

rom a globalização

como a indumentária, o corte de cabelo, ou por uma linguagem própria do grupo. Novas tribos também estão surgindo com base no desenvolvimento da informática e da rede de computadores. São as comunidades eletrônicas ou virtuais que habitam o ciberespaço e inauguram um novo tipo de sociabilidade. Esses grupos virtuais surgem como expressão de uma nova cultura (cibercultura), que nasce da união entre a sociabilidade pós-moderna e os avanços da microeletrônica. (A expressão pós-rnodernidade tem sido utilizada para designar a cultura contemporânea, em oposição à modernidade, que teve início no século XV e perdurou até a segunda metade do século XX. Procure mais informações no Dicionário Básico de Sociologia, no fim do livro.) Caóticas, desordenadas e sem nenhum controle externo, essas redes vão se desenvolvendo por todo o mundo e inaugurando um novo tipo de sociabilidade.

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CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

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A partir das últimas décadas do século XX, teve início no mundo um processo de transformações que levaram à abertura dos mercados, à intensificação do comércio mundial, à formação de blocos econômicos de países de uma mesma região e à circulação instantânea de capitais de um país para outro. Tudo isso foi acompanhado e estimulado por uma revolução liderada pela informática e pela ligando formação de redes de comunicação

da: as 447 pessoas mais ricas desses países têm uma renda equivalente

à de 2,8 bilhões
vêm

de pobres espalhados pelo mundo. Nos próprios países desenvolvidos, aumentando as desigualdades

entre ricos e

pobres. Segundo a economista Laura Tyson, da London Business School, um dos maiores problemas da globalização é a tendência, dominante nos países ricos, de crescimento da parcela do PIB (Produto Interno Bruto) relativa aos lucros, acompanhada da queda referente aos salários. Ela afirma que apenas os 10% mais ricos da população norte-americana têm se beneficiado com a globalização.

entre si os computadores de todo o mundo. A mais conhecida dessas redes é a internet. Para alguns estudiosos, o início desse processo, conhecido como globalização, foi marcado pela extinção da antiga União Soviética em 1991 e pelo surgimento da internet anos antes. A globalização causou um enorme impacto na economia mundial e também na vida cultural de diversos países. Considerado em seu conjunto, o mundo ficou mais rico. Entretanto, da riqueza, no que se refere à distribuição ela contribuiu para acentuar

Vamos pensar?
Outros aspectos da globalização não foram abordados pelo texto. Se você quiser complementar o estudo sobre o tema, uma boa sugestão de filme é

ainda mais as desigualdades entre os países ricos e os países pobres. Por exemplo: em 1960, as pessoas mais ricas do mundo, quase todas concentradas nos países desenvolvidos - Estados Unidos, Alemanha, Japão, Inglaterra, etc. -, ganhavam 30 vezes mais do que as mais pobres; em 2000, a diferença aumentou para 90 vezes. Mais chocante ain-

Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá, de Silvio Tendler, 2007 (veja a seção Filmes sugeridos no fim do capítulo). O livro Economia Global e exclusão social, de
Gilberto Dupas, editora Paz e Terra, também é uma boa fonte de pesquisa.

~~2

Contatos sociais: onde começa a interação
Ao dar uma aula, o professor entra em contato com seus alunos. O cliente e o vendedor de uma loja estabelecem contato na hora da venda de uma mercadoria. Duas pessoas conversando também participam de um contato social. A convivência humana pressupõe uma grande variedade de tipos de contatos sociais. Você mesmo pode se relacionar de diversas formas, a começar pela maneira

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CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

como adquiriu este livro ou pelos contatos sociais que manteve para chegar até a atual etapa de sua educação formal. O contato social está na origem da vida em sociedade. É o primeiro passo para que ocorra qualquer associação humana. Por meio dele, as pessoas estabelecem relações sociais, criando laços de identidade, formas de atuação e comportamento que são a base da constituição dos grupos sociais e da sociedade. Para alguns autores, como os sociólogos norte-americanos Park e Burgess, "o contato pode ser considerado o estágio inicial da interação social, preparatório para estágios posteriores". Já outros pensadores, mais próximos da definição de ação social formulada por Max Weber (veja o capítulo 2), afirmam que contato social é o encontro de pessoas que se relacionam umas com as outras em termos de atitudes e valores. Os contatos sociais podem ser primários ou secundários. Contatos sociais primários. São os contatos pessoais, diretos, e que têm uma forte base emocional, pois as pessoas envolvidas compartilham suas experiências individuais. São exemplos de contatos sociais primários: os familiares (entre pais e filhos, entre irmãos, entre marido e mulher); os de vizinhança; as relações sociais na escola, no clube, etc. As primeiras experiências do indivíduo se fazem com base em contatos sociais primários. Contatos sociais secundários. São os contatos impessoais, calculados, formais. Dois exem-

plos: O contato do passageiro com o cobrador do ônibus para pagar a passagem; o contato do cliente com o caixa do banco para descontar um cheque. São também considerados secundários os contatos impessoais mantidos por meio de carta, telefone, telegrama, e-mail, etc.

o lavrador

e o empresário

É importante destacar que as pessoas que têm a vida baseada mais em contatos primários desenvolvem personalidades diferentes daquelas que têm uma vida com predomínio de contatos secundários. A personalidade de um lavrador, por exemplo, é bem diversa da de um empresário urbano. O lavrador vive em geral num mundo comunitário, onde quase todas as pessoas se conhecem e executam as mesmas atividades. Mantém relações familiares e de vizinhança muito fortes e em sua comunidade há um padrão de comportamento bastante uniforme. Não há mudanças sociais significativas no decorrer de sua vida e ele viverá, provavelmente, da mesma forma que seus pais. Já o empresário estabelece um número mais amplo e complexo de contatos sociais: com seus empregados, seus clientes, sua família, seus vizinhos, com outros empresários, etc, A maior parte desses contatos é impessoal, formal e momentânea. O mundo do lavrador é estável, pouco se modifica com o tempo. Em contrapartida, o universo do empresário está em permanente mudança, sempre com novos desafios. Com a industrialização e

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CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

a consequente urbanização, diminuíram os grupos de contatos primários, pois na cidade predominam os contatos secundários. Nos grandes centros urbanos, as relações humanas tendem a ser mais fragmentadas, dinâmicas e impessoais, caracterizadas por um forte individualismo, pois a proximidade física não significa

necessariamente proximidade afetiva. Essa falta de afetividade reforça o individualismo e estimula os conflitos. Um exemplo disso são as brigas frequentes no trânsito, muitas delas com desfecho violento. No boxe a seguir, você vai conhecer uma forma de vida em que os contatos primários são privilegiados pelos individuos.

AMISHVIVEM SEM TV, CARRO E TELEFONE
ocê já assistiu ao filme A testemunha, de Peter Weir, com Harrison Ford no papel principal? Se não viu, leia as referências na seção Filmes sugeridos, no fim do capítulo, e vá correndo a uma locadora. Ele conta a história de um detetive estadunidense que, à procura de um criminoso, acaba descobrindo uma comunidade que vive como se estivesse no século XVII. Comunidades assim existem realmente nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Seus integrantes são conhecidos como amish. Uma delas fica a poucas horas de carro de Nova York. É uma comunidade rural de 20 mil pessoas que vivem sem telefone, energia elétrica, TVe seguem as mesmas tradições e crenças que cultivam há quatro séculos. Os amish são um grupo religioso cristão originado dos anabatistas, uma seita protestante surgida no século XVI, na região da Alemanha atual. Ele é composto por descendentes de alemães e suíços que migraram para os Estados Unidos a partir do século XVII. Atualmente, há comunidades amish espalhadas por cerca de quarenta estados norte-americanos. O estilo de vida dos amish traduz a simplicidade do grupo: a comida é sempre preparada em fogões a lenha, guardada em geladeiras movidas a gás; a roupa, lavada em máquinas antigas, algumas com mais de 20 anos. Nenhuma casa pode ter telefone, embora hoje uma decisão dos bispos tenha permitido seu uso nas comunidades, desde que estejam instalados em cabines distantes, algo como 50 metros do prédio principal. A maioria da população amish trabalha na agricultura e na pecuária. Nas estradas, deslocam-se em carroças e tratores puxados por animais. Vivem sem energia elétrica em casa (e, portanto, sem televisão, rádio, aparelhos de som ou computadores). Pacifistas, os homens jamais se alistam no Exército, e sempre usam barba depois que se casam. Vestemse, todos, com ternos pretos. As mulheres usam vestidos pretos com aventais coloridos, sem estampas ustão sempre com um capuz que cobre o cabelo preso. As crianças também usam roupas pretas efrequentam escolas amish, onde aprendem o básico das línguas inglesa e alemã, além de religião e matemática, o suficiente para ajudar no comércio. Tudo condensado em oito anos. Em setembro de 2006, uma escola amish no estado da Pensilvânia foi atacada por um homem armado, que matou cinco meninas de menos de doze anos. Depois da chacina, o homem, que não pertencia à comunidade amish, se suicidou.
Adaptado de Folha Online, 19.9.05, disponível em http:// wwwl.folha.uol.com.brlfolha/turismo/noticias/ult338u5289. shtml, acesso em 12.4.06, e http://noticias.uo1.com.brlultnot/ efe/2006/1 0/03/ultI807u31283.jhtm, acesso em 11.10.06.

Conduzindo suas carroças, dois casais amish participam do enterro de crianças assassinadas a tiros em comunidade amish da PensiLvânia, nos Estados Unidos, em fins de setembro de 2006.

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CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

3

I O ser humano em condições de isolamento
A ausência de contatos sociais caracteriza o pobres e criando grupos de indigentes despossuídos de bens materiais e privados de seus direitos mais elementares. Este é o caso dos sem-teto no Brasil (veja o boxe da página seguinte). Uma atitude de ordem individual que reforça o isolamento social de uma pessoa é a timidez. Segundo o sociólogo Karl Mannheim, a timidez, o preconceito e a desconfiança podem levar o indivíduo a um isolamento semelhante ao dos deficientes fisicos, muitas vezes segregados dentro de seu próprio grupo primário (veja o texto de Mannheim na seção Textos complementares no fim do capítulo). Isso porque o tímido tem dificuldade de se comunicar com o outro, de estabelecer laços de convivência e afinidade, o que, de certo modo, o deixa à margem da sociedade.

isolamento social. As comunidades amish nos Estados Unidos, por exemplo, vivem em situação de relativo isolamento social em relação à sociedade norte-americana. Trata-se, nesse caso, de um autoisolamento, pois os amish rejeitam os valores da sociedade industrial. Alguns sociólogos definem o isolamento social como um corte total ou parcial dos contatos e da comunicação com os outros. Ele pode envolver um indivíduo, um grupo, ou uma sociedade inteira em relação a outras sociedades. Em qualquer caso, existem mecanismos que reforçam esse isolamento. Entre eles, estão atitudes de ordem social e atitudes de ordem individual. As atitudes de ordem social podem envolver diferenças culturais, como as de costumes e hábitos de vida, entre dois grupos, ou a impossibilidade de comunicação em razão das diferenças de língua. Outra causa de isolamento podem ser vários tipos de preconceito (racial, religioso, de sexo, etc.). Um exemplo extremo de preconceito é o antissemitismo, ou seja, contra os judeus. Tal atitude foi especialmente violenta durante a Idade Média e assumiu proporções de genocídio entre 1933 e 1945 na Alemanha nazista, onde cerca de 6 milhões de judeus foram exterminados em campos de concentração. A África do Sul é outro exemplo de país onde, por várias décadas, imperou uma legislação que isolava os negros do convívio social com os brancos: o apartheid (palavra que quer dizer separação). Durante esse período, a minoria branca impôs à maioria negra uma série de restrições, que iam desde a proibição de casamentos inter -raciais até o isolamento dos negros em guetos demarcados e a atribuição a eles dos trabalhos mais penosos. Em ambos os exemplos, o isolamento social foi imposto a um grupo como resultado da intolerância e do mito da superioridade racial. Outras circunstâncias, entretanto, podem gerar novas formas de isolamento social. As desigualdades sociais, por exemplo, quando muito acentuadas, tendem a criar um verdadeiro apartheid social, separando ricos de

Convivio social e mudanças
As formas de convívio social são muito diversificadas, pois cada cultura, cada sociedade, tem suas regras particulares de convivência humana. Por outro lado, as condições de convivência podem se modificar sob o impacto das transformações sociais. A situação da mulher, por exemplo, mudou radicalmente ao longo das últimas décadas, tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo.

CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

QUEM SÃO OS SEM-TETO?
m países de grandes desigualdades sociais, como o Brasil, a extrema pobreza gera formas de segregação não declarada, que obrigam os grupos mais excluídos da sociedade a viver em condições de isolamento social. É o que ocorre, por exemplo, com os sem-teto. Diferentemente do que se pode pensar; os sem-teto vêm da cidade, ou melhor; das suas porções mais distantes, mais invisíveis. São moradores de cortiço que dividem quartos minúsculos na região central; fave/ados à beira da expulsão pelo poder público; donos de casas em loteamentos clandestinos sem água, luz ou esgoto; famt1ias inteiras que moram na casa dos pais ou parentes; ou habitantes da periferia que já não conseguem pagar o aluguel. Existem hoje 6,5 milhões de famaias sem-teto no país. Dessas, 1,2 milhão têm renda de até três salários mínimos e 3,6 milhões moram em casas de parentes ou amigos. Além disso, existem hoje 10,2 milhões de domicaias sem infraestrutura básica no Brasil e 1,7 milhão de habitações precárias. Os movimentos de sem-teto buscam cada vez mais "voltar à cidade", ocupando regiões centrais. Aqueles com mais anos de estrada, como os da Confederação Nacional de Associações de Moradores (Conam) e da União Nacional por Moradia Popular (UNMP) travam diariamente uma luta política, com atos, abaixo-assinados e projetos de lei, em busca de uma nova legislação que permita o direito global, total e irrestrito aos centros urbanos. O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) se propõe a promover a organização e a conscientização política em um espaço habitacional urbano diferenciado. Presente em três estados brasileiros - Pará, Pernambuco e São Paulo -, o MTST faz ocupações em terrenos e prédios ociosos (vazios, abandanados) para implantar seu projeto. A ideia é manter um espaço igualitário, onde os próprios moradores possam dar aula, administrar a comunidade e cuidar dos doentes. Uma grande horta comunitária proveria sustento aos desempregados, egrandes cooperativas garantiriam trabalho para quem precisa.
Adaptado de: VIANA, Natalia. Quem são os sem-teto? Caros Amigos, jan. 2003. Disponível em: http.z/www.pfilosofia.pop. com. brl04_miscelanea/04_04_caros_amigos/caros_amigos_ ll.htm. Acesso em 6.4.06.

I

Grupo de moradores de rua (sem-teto) ocupa espaço sob viaduto no bairro de Pinheiros, em São Paulo, 2006.

48

CAPÍTULO Viver em sociedade 3

Até o começo dos anos 1930, as mulheres não podiam votar no Brasil. Esse direito foi conquistado por elas em 1932. Da mesma forma, há cinquenta anos era difícil imaginar que as mulheres chegariam a ocupar altos cargos executivos em grandes empresas ou a governar nações, como é

o caso, entre outros, de Michelle Bachelet, eleita presidente do Chile para o período 2006-2010, Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanha por escolha do parlamento em novembro de 2005 e reeleita em 2009, e Pratibha Patil, eleita para Presidência da Índia em 2007.

Sem comunicação não há sociedade
meio de comunicação do ser humano é a linguagem. Por meio dela, os indivíduos atribuem significado aos sons articulados que emitem. Graças à linguagem, podemos transmitir pensamentos e sentimentos aos nossos semelhantes, assim como nossas experiências e descobertas às gerações futuras, fazendo com que os conhecimentos adquiridos não se percam. Veja no boxe a seguir o que pode acontecer quando essa forma básica de comunicação é suprimida do convívio social. Além da linguagem falada, o ser humano desenvolveu outras formas de comunicação ao longo da História. Um grande avanço ocorreu com o surgimento da escrita, na Mesopotâmia, por volta de 4000 a.C. Na China, as primeiras tentativas de escrita datam de 7000 a.C. Já na América, a escrita foi inventada pelos olmecas (no México atual), por volta de 900 a.C. A invenção

o principal

dos tipos móveis de impressão por Gutenberg, no século XV, foi outro passo importante (formas de impressão também foram inventadas na China vários séculos antes). Nos séculos XIX e XX assistimos à criação do telégrafo, do telefone, do rádio, do cinema, da televisão, do telex, da comunicação por satélite, do celular e da internet (outras formas certamente virão). Atualmente, fatos, ideias, sentimentos, atitudes e opiniões são transmitidos instantaneamente para milhões de pessoas na maior parte do planeta, graças a esses meios de comunicação. Por essa razão, já no fim dos anos 1960 o especialista em comunicação Marshall McLuhan (1911-1980) afirmava que o mundo contemporâneo é uma autêntica "aldeia global", pois os meios de comunicação de massa moldam hoje as ideias e opiniões de grupos cada vez maiores de individuos.

A COMUNICAÇÃO

É VITAL PARA OS SERES HUMANOS
mas que sob hipótese nenhuma falassem com elas ou perto delas. O experimento fracassou, porque todas as crianças morreram. Assim como a história de Victor de Aveyron, narrada no caPítulo 1, o fracassado experimento de Frederico II mostra que a comunicação é vital para a espécie humana e para o desenvolvimento da cultura.
Adaptado de: HORTON, Paul B. e HUNT, Chester L. Sociologia. São Paulo: McCraw-Híll do Brasil,
1980. p. 77.

perador do Sacro Império Romano-Germânico [região hoje ocupada em grande parte pela Alemanha). efetuou uma experiência para descobrir que idioma as crianças falariam quando crescessem, se jamais tivessem ouvido alguém falar: seria o hebraico [que então se julgava ser a língua mais antiga). o grego, o latim, ou a língua de seus pais? Deu instruções às amas e mães adotivas para que alimentassem as crianças e lhes dessem banho,

N

o século XIII, Frederico II [1194-1250). im-

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CAPÍTULO Viverem sociedade 3

Há mais de trinta anos, o canadense Marshall McLuhan, um dos principais precursores da teoria da comunicação, formulou o famoso conceito de "aldeia global': A "aldeia global" representava a transformação do mundo linear, especializado e visual - criado pela mídia impressa -, num mundo simultâneo e multissensorial - propiciado pela mídia eletrônica. Antes, era uma coisa atrás da outra, uma de cada vez. Hoje, é tudo ao mesmo tempo, em todo lugar. Na "aldeia global" tudo se fala, tudo se ouve. A internet criou um novo espaço para o pensamento, para o conhecimento e para a comunicação. Esse espaço não existe fisicamente, mas virtualmente. É o ciberespaço. O espaço virtual é formado por cada computador e por cada usuário conectado nessa imensa rede. Não há como escapar. O ciberespaço tomou conta do planeta. Engoliu todos nós - pessoas, máquinas e replicantes -, incor-

porando nossas virtudes e nossos defeitos. O ciberespaço deu vida à "aldeia global': Ele é a alma de um novo mundo em formação.
Adaptado de: GUIZZO, Érico. Internet. São Paulo: Ática, 1999. p. 41-2.

Pesquise e responda
Utilizando somente sites da internet, procure mais informações sobre MarshaU McLuhan e suas ideias sobre a "aldeia global". Caso não disponha de um computador, faça urna pesquisa sobre esse terna em livros, enciclopédias e revistas. Urna vez obtidas as informações, tente responder à pergunta: Você concorda com a ideia de que o mundo contemporâneo é urna aldeia global?

As migrações em massa de trabalhadores de uma região para outra do planeta em busca de melhores oportunidades de vida e de trabalho são uma das caracteristicas da globalização. Na foto, operários sul-coreanos que trabalham na França promovem manifestação por direitos trabalhistas diante da sede da multinacional Lafarge, em Paris, em setembro de 2007. Alguns deles seguram faixa com os dizeres: "Nós, trabalhadores coreanos, não somos escravos, somos humanos!".

50

CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

51 Da interação

à interatividade
quer parte do mundo; ela traduz, particularmente, uma qualidade técnica das chamadas "máquinas inteligentes". Em seu livro Cibercultura (1997), Pierre Lévy se refere a diferentes tipos de interatividade, que vão da mensagem linear à mensagem participativa. A mensagem linear se dá por intermédio de meios de comunicação como a imprensa, o rádio, a TV, o cinema e até as conferências eletrônicas. A mensagem participativa, por sua vez, é aquela que utiliza dispositivos como os videogames com um só participante, ou que envolve a comunicação em mundos virtuais, por meio de redes de computadores, onde ocorre a troca de informações contínuas. O que caracteriza a interatividade é a possibilidade de transformar, ao mesmo tempo, os envolvidos na comunicação em emissores e receptores, produtores e consumidores de mensagens.

Na sala de aula, professor e alunos estão em contato social, estabelecendo formas de comunicação entre eles e também entre aluno e aluno. Ao interagirem com o professor, os alunos modificam seu comportamento. Também o professor se modifica: sua explicação da matéria é diferente de uma turma para outra, pois pode precisar se deter num ponto que para uma classe mostra-se mais difícil do que para outra; pode mesmo mudar de opinião após uma discussão em classe. Portanto, o professor influencia os alunos e é influenciado por eles. Dizemos, então, que existe entre professor e alunos uma interação social. O aspecto mais importante da interação social é que ela modifica o comportamento dos indivíduos envolvidos, como resultado do contato e da comunicação que se estabelecem entre eles. Desse modo, o simples contato físico não é suficiente para que haja interação social. Por exemplo, se alguém se senta ao lado de outra pessoa num ônibus mas não conversa com ela, não há interação social. Os contatos sociais e a interação constituem condições indispensáveis à associação humana. Os indivíduos se socializam por meio dos contatos e da interação social. A interação social pode ocorrer entre uma pessoa e outra, entre uma pessoa e um grupo ou entre um grupo e outro. Veja o esquema a seguir.
pessoa pessoa grupo ••••• 1--------1...... •• •• pessoa

•.• grupo ••• grupo

A interação social supõe, assim, a existência de reciprocidade nas ações entre indivíduos (veja o conceito de ação social no capítulo 1). Entretanto, com o desenvolvimento dos meios de comunicação, novos tipos de contato social vêm se afirmando. Para explicá-los teoricamente, foi criado o conceito de interatividade. Entende-se por interatividade a troca simultânea de informações e o acesso imediato a qual-

51

CAPÍTULO3 Viver em sociedade

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ridos --------------------,
São Paulo: Martins Fontes, 2005. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. Coleção Primeiros Passos.

• DUBAR, Claude. A socialização: construção das identidades sociais e profissionais. • BORDENAVE, Juan. O que é comunicação.

• SINGER, Paul. Globalização e desemprego. São Paulo: Contexto, 2003. • DUPAS, Gilberto. Economia global e exclusão social. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

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Filmes

geridos
ou o apartheid na África do Sul.

• Denise está chamando, de Hal Salwen, 1995. Sobre grupo de jovens que só consegue se comunicar pela internet
pelo celular.

• Um grito de liberdade, de Richard Attenborough, • A testemunha,
Unidos.

1987. Líder negro enfrenta

de Peter Weir, 1985. Em busca de um assassino, policial se envolve com comunidade amish nos Estados no Sul dos

• Mississípi em chamas, de Alan Parker, 1988. Sobre os crimes da Ku Klux Klan contra afrodescendentes
Estados Unidos no começo dos anos 1960.

• Afraude, de James Dearden, 1999. Bancário inglês passa a especular na Bolsa de Bangcoc (Tailândia), provocando crise
financeira.

• Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá, de Sílvio Tendler, 2007. Documentário com o geógrafo
Milton Santos, no qual ele fala de seus estudos sobre a globalização, do ponto de vista dos países emergentes.

Para complementar o estudo do capítulo, assista a um ou mais dos filmes indicados e reflita sobre as seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas • Há referências, entre o enredo do filme e os conceitos vistos neste capítulo? Quais são elas e corno aparecem no filme? no filme?

no filme, à noção de comunicação?

• Há referências ao conceito de socialização? Sob que formas elas se manifestam • Há referências à questão do isolamento

social? Quais são elas e corno aparecem no filme? que conclusões vocês podem tirar delas?

• Há referências à globalização? Em caso afirmativo,

Questões propostas

1. 2.

Em que tipo de situação social vive um eremita? . Cite dois exemplos de ambientes ou de grupos que contribuem ativamente socialização do individuo. Cite dois exemplos de contatos primários e dois de contatos secundários. Cite um exemplo de interação social que ocorre na família. Explique a diferença entre interação social e interatividade. Qual a importância da televisão como meio de comunicação de massa? para a

3.
4.

5.
6.

52

CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

TEXTO 1

"Cárceres" sem grades
social pode ser imposto pela sociedade a uma pessoa ou a um grupo de pessoas por meio de diversos mecanismos. Um deles, como vimos, é a segregação - racial, religiosa, social, ou outra qualquer. O texto a seguir aborda mecanismos mais sutis de isolamento: os "cárceres" que cerceiam a liberdade e outros direitos fundamentais, negando-os ao grupo segregado. Alguns desses "cárceres" não têm grades, mas funcionam como verdadeiras prisões, nas quais se inspiram. Na longa história da humanidade, em centenas de países, milhares de pessoas foram encarceradas e submetidas a condições extremadas de maus-tratos. Os aprisionados mais comuns são os criminosos, aqueles que cometeram desde pequenos furtos até assassinatos. Mas há também aqueles que são encarcerados pelos chamados "crimes" de opinião - os presos políticos e os perseguidos por opção religiosa. A sociedade contemporânea também criou outros tipos de "encarcerados": são os idosos carentes recolhidos em asilos, sem o direito à individualidade e o de realizar escolhas. Há ainda os deficientes físicos, que, principalmente por razões de natureza socioeconômica, ficam presos em seus quartos. Também não são livres os doentes mentais e os doentes internados em hospitais por longos períodos, nem são livres as crianças abandonadas, recolhidas em creches e abrigos. A ideia do "cárcere" aplica-se igualmente às pessoas muito exploradas no seu trabalho, aquelas que vão para casa apenas para dormir, passando o restante de seu tempo em seus empregos, sem lazer, diversão e educação. Não seriam também prisioneiras as pessoas que transformaram suas casas em verdadeiras fortalezas para se defender dos invasores e sequestradores? E também é possível aplicar a metáfora da "prisão" às pessoas vítimas da ignorância, sem acesso à educação, impossibilitadas de romper com os limites intelectuais a que estão submetidas? Despojados de sua liberdade também estão povos como os palestinos, os curdos, os armênios e as mulheres de. países onde vigora o fundamentalismo muçulmano, vítimas de violências e guerras que impedem até mesmo sua saída dos locais de conflitos.
DIMENSTEIN, Gilberto e CIANSANTI, Álvaro César. Quebra-cabeça Brasil - Temas de cidadallia lia História do Brasil. São Paulo: Ática, 2003. p. 159.

o isolamento

Pense e responda 1. 2.
De acordo com os autores do texto, quais são os "encarcerados" criados pela sociedade contem porânea? Reflita sobre o seguinte trecho retirado do texto: "E também é possível aplicar a metáfora da 'prisão' às pessoas vítimas da ignorância, sem acesso à educação, impossibilitadas de romper com os limites intelectuais a que estão submetidas?".

53

CAPÍTULO3 Viler em sociedade

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TEXTO 2

o isolamento

social

Nascido em Budapeste, na Hungria, o sociólogo Karl Mannheim (1893-1947) viveu em um dos períodos mais conturbados do século XX, tendo dedicado boa parte de sua vida à elaboração da Sociologia do Conhecimento. No texto a seguir, ele analisa o fenômeno do isolamento social. é uma situação marginal na vida social. É uma situação que carece de contatos sociais. As formas mais simples de isolamento são criadas por barreiras naturais como as montanhas, os mares interiores, os oceanos ou os desertos. Tanto grupos como indivíduos podem ser isolados e, em ambos os casos, as consequências principais do isolamento são a individualização e o retardamento. Tanto os indivíduos quanto os grupos, quando excluídos do contato com outras pessoas ou grupos, tendem a [... ] percorrer seu próprio caminho; ajustam-se somente às suas condições particulares, sem trocar influências e impressões com outros indivíduos ou grupos. Como conseqüência da falta de contatos sociais, o indivíduo ou grupo desconhece a evolução das outras pessoas ou unidades sociais. Dessa maneira, emerge um fenômeno a que chamamos evolução desproporcional. O isolamento e a distância aumentam as diferenças originais e as individualizam. Pode-se observar como isso acontece em comunidades rurais que são isoladas por montanhas ou pântanos, como também em indivíduos que se afastam dos outros e se excluem. Tanto as primeiras como os últimos se tornam "peculiares".

o isolamento

Tipos de isolamento social
Distinguimos dois tipos principais de isolamento: isolamento espacial e isolamento orgânico. O isolamento espacial pode ser externo, isto é, uma privação forçada de contatos, como acontece quando alguém é expulso

de sua comunidade ou encarcerado. Como consequência, o indivíduo perderá a proteção do seu grupo. O comportamento antissocial e algumas vezes o desejo de vingança são uma consequência mental típica do confinarnento solitário, que é uma forma extrema de exclusão forçada. No início do século XIX, muitas pessoas bem-intencionadas, influenciadas por concepções morais e religiosas tradicionais, acreditavam que o isolamento e a solidão fortaleceriam o caráter dos fiéis e facilitariam sua conversão. Entretanto, as consequências, na maioria dos casos, eram estados mentais de melancolia, anorrnalídades sexuais, alucinações e, frequentemente, comportamento antissocial. A explicação para esse fato é simples: ajustamento às condições de prisioneiro, para a maioria dos indivíduos, implica torná-Ios desabítuados à sociedade e à vida social, e é justamente isso que causa as atitudes antissociais. Por isolamento orgânico, entendemos o isolamento que não é proyocado por uma imposição externa, mas por certos defeitos orgânicos do indivíduo, tais como a cegueira ou a surdez. A consequência essencial de tais deficiências é a falta de certas experiências comuns ao indivíduo sadio. O compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827) exprimiu isso muito bem quando afirmou: "Minha surdez obriga-me ao exílio". As consequências das deficiências orgânicas são muito semelhantes às de certos problemas psicossociais, como a timidez, a desconfiança, os sentimentos de inferioridade ou superioridade e o pedantismo. Essas

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CAPÍTULO3 Viver em sociedade

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distorções sociais, quando não são a consequência de um isolamento anterior, acabarão por criar um isolamento parcial. As consequências de tal falta de experiência farão com que o surdo, o cego e o tímido raramente sejam plenamente correspondidos por pessoas "normais". Farão com que eles estejam em posição de inferioridade em toda espécie de comunicação pública, com que se tornem céticos, desconfiados e irritadiços e, portanto, que tenham menos possibilidades de escolher amigos e companheiros entre as pessoas que lhes estão próximas. Pode-se falar em "falta de associação por escolha", e o resultado posterior disso é um número limitado de pessoas com as quais podem desenvolver potencial idades intelectuais. Tudo isso pode levar à resignação: o indivíduo pode perder a esperança de obter uma posição normal e um lugar na vida, ou tornar-se uma personalidade que aceita o seu papel de inferioridade imaginária. A timidez, em termos psicológicos, é uma espécie de isolamento parcial que decorre da incapacidade de reagir de forma adequada em certas esferas da vida. É geralmente consequência de um choque físico na infância. Na maioria das vezes, esse choque ocorre no momento exato em que a criança deixa a esfera das relações da família e da vizinhança para penetrar no universo dos contatos secundários. Uma espécie de trauma, uma lesão física, decorre desse passo, podendo resultar num desequilíbrio crônico de personalidade. [...] Outro tipo de isolamento parcial surge quando a habilidade normal em efetivar contatos sociais não consegue encontrar o ambiente apropriado para as respostas dadas. Para esse caso, podemos dar o exemplo dos solteirões - o celibato é por vezes consequência da timidez.
Adaptado de: MANNHEIM, KarL ln. CARDOSO, Fernando Henrique e IANNI, Octavio (orgs.) Homem e sociedade. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1965. p. 153-7.

1---- ...• :

Pense e responda
Quais são as principais características Como você vê o problema da timidez? do isolamento social?

1. 2.

TEXTO 3

o ser

humano massificado

Uma das grandes contradições da sociedade contemporânea consiste no fato de que a revolução tecnológica colocou nas mãos do ser humano meios de comunicação cada veZ mais sofisticados C redes de computadores, telefones celulares, etc.), mas isso não tem contribuído para o enriquecimento dos contatos sociais e das relações humanas. Pelo contrário, tem acentuado a tendência à solidão. Essa contradição é aqui analisada por Delfim Soares. O maior instrumento da globalização cultural na sociedade tecnológica tem sido certamente a expansão das redes de comuL-

nicação de massa. A abrangência, extensão e eficácia dessas redes estão na raiz das grandes transformações ocorridas na virada
~~.

55

CAPÍTULO 3 Viver em sociedade

do século XX. A redução do planeta a uma aldeia produziu uma verdadeira revolução espaço -tem poral. [... ] O convívio humano que resulta de contatos primários é a característica dominante das sociedades pouco industrializadas, das zonas rurais ou de pequenos grupos sociais. A industrialização e a urbanização estabeleceram um modo de vida no qual o contato primário, interpessoal, foi reduzido, favorecendo a generalização dos contatos secundários e das relações impessoais. Observa-se, assim, uma tendência inversa entre a formação de grandes aglomerados populacionais e o convívio humano. A instauração da sociedade de consumo e da sociedade de massa se constitui num marco decisivo para o surgimento de um ser humano massíficado. Nesse modelo social, o ser humano deixa de ser considerado pessoa e passa a ser encarado como máquina devoradora de produtos, ideias ou mercadorias. Não se consideram valores pessoais ou anseios individuais. Por um processo de condicionamento gradual irreversível, vão sendo determinados seus anseios, de acordo com as necessidades de reprodução do sistema. Sua personalidade vai se transformando e seu comportamento se adaptando no sentido de

atender aos objetivos dessa nova ordem. O ser humano deixa de ser um indivíduo e passa a ser apenas uma entidade numérica, parte de uma grande engrenagem, da qual é um simples objeto. A complexidade urbana, a generalização do anonimato, o surgimento da selva de pedra e a massifícação são alguns dos fatores que contribuem para a despersonalização dos indivíduos. Na sociedade pós-industrial, o contato em geral entre as pessoas é apenas físico; o significado das interações sociais fica reduzido a seus papéis sociais formais e suas funções profissionais. À medida que os contatos meramente formais se generalizam, expande-se o anonimato. O homem vive no meio da multidão, mas não convive com ninguém, como pessoa; a multidão nas ruas, o congestionamento no trânsito, a moradia em apartamentos superpostos, as turbas nos estádios esportivos e os enxames humanos nas praias são manifestações sociais frequentes. Nelas, raramente se verifica convívio humano; mesmo as relações mais íntimas são, muitas vezes, mero contato de objetos humanos e não relações interpessoais. Os indivíduos ~ão se encaram mais como pessoas, mas como objetos. Nesse contexto, cresce a sensação de solidão.
Adaptado de: SOARES, Delfim. Contratempo, agosto de 2002.

1---.: Pense e responda
Quais as principais diferenças de comportamento entre as pessoas que vivem numa sociedade tradicional e as que vivem nas sociedades pós-industriais?

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