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Príncipios de Sociologia

Príncipios de Sociologia

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A sociedade começou a ser vista como um problema a ser compreendido e explicado na segunda metade do século XVIII, quando o franco

-suíço Jean-Jacques Rousseau escreveu seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1755 - veja a seção Textos complementares no fim do capítulo). Por essa época, a Inglaterra começava a ingressar na Revolução Industrial, que agravaria os problemas sociais entrevistos e denunciados por Rousseau. Logo depois, a Revolução Francesa (1789) abalaria a estabilidade europeia, revelando o caráter histórico - ou seja, transitório e não eterno - das sociedades. Foi nesse contexto de crise que nasceu a Sociologia, disciplina voltada para o estudo das relações sociais. Neste capítulo abordaremos algumas ideias dos fundadores da Sociologia e os fundamentos da nova ciência.

CAPÍTULO2 Princípios de Sociologia

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Observe e responda:

1. o que

estão fazendo as pessoas que aparecem na foto? como essa? Onde e quando? O que pretendiam as

2.
3.
26

Você já presenciou alguma manifestação pessoas que se manifestavam?

Pode-se dizer que a foto registra algum tipo de ação social? Por quê?

CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

I Os primeiros sociólogos
Nascido dez anos depois da Revolução Francesa, Augusto Comte (1798-1857) é tradicionalmente considerado o pai da Sociologia. Foi ele quem pela primeira vez usou essa palavra, em 1839, em seu Curso de Filosofia Positiva. Comte afirmava que a sociedade deveria ser considerada como um organismo vivo, cujas partes desempenham funções específicas que contribuem para manter o equilíbrio do todo. Ele atribuía particular importância à noção de consenso, ou seja, às ideias e crenças comuns, partilhadas por todas as pessoas de determinada sociedade, que seriam as responsáveis por manter a ordem nessa sociedade. Com seu "método positivo" de conhecimento, Comte procurou formular as leis gerais que regem a sociedade. Mas foi com Émile Durkheim (1858-1917) que a Sociologia passou a ser considerada uma ciência. Durkheim formulou os primeiros conceitos da nova ciência e demonstrou que os fatos sociais têm características próprias, devendo por isso ser estudados por meio de métodos diferentes dos empregados pelas outras ciências. de pensar" que podem ser reconhecidas pelo fato de exercerem uma "influência coercitiva sobre as consciências particulares". Ou seja, os fatos sociais têm existência própria e são capazes de obrigar ("influência coercitiva") as pessoas a se comportar desta ou daquela maneira. Evidentemente, nem sempre essa coerção pode ser percebida como tal. Em muitos casos, simplesmente nos comportamos como achamos que devemos nos comportar. Entretanto, por trás dessa aparente liberdade irrestrita existem hábitos, costumes coletivos, ou mesmo regras, que nós aceitamos como válidas e nos induzem a assumir certas atitudes. Vejamos como isso ocorre.

o poder coercitivo

dos fatos sociais

Um exemplo simples pode nos ajudar a entender esse conceito. Se um aluno chegasse à escola vestido com roupa de praia, certamente ficaria numa situação desconfortável: os colegas ririam dele, o professor lhe daria uma bronca e provavelmente o diretor o mandaria de volta para casa para pôr uma roupa adequada.

Durkheim e os fatos sociais
Durkheim pretendia fazer da Sociologia uma ciência tão racional e objetiva quanto a Física ou a Biologia. Mas, como fazer isso, se a Sociologia lida com seres humanos que mudam a todo momento, que têm sentimentos, emoções, ideias e vontade própria, ao contrário dos fenômenos físicos ou biológicos? Durkheim tentou resolver esse complexo problema postulando como princípio fundamental da Sociologia que os fatos sociais devem ser considerados como coisas, assim como uma reação química é uma "coisa" para um químico, isto é, algo objetivo, capaz de ser estudado, analisado, compreendido e explicado racionalmente. Os fatos sociais seriam, assim, coisas externas e objetivas, que não dependem da consciência individual das pessoas para existir. Os fatos sociais, dizia Durkheim, são "maneiras coletivas de agir ou

CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

Existe um modo de se vestir que é comum, que todos seguem (nesse caso, os alunos da escola). Isso não é estabelecido pelo indivíduo. Quando ele entrou no grupo, já existia tal norma e, quando ele sair, a norma provavelmente permanecerá. Quer a pessoa goste ou não, ver-se-á obrigada a seguir o costume geral. Se não o seguir, sofrerá uma punição (que pode ir, conforme o caso, da ridicularização e do isolamento até uma sanção penal). O modo de se vestir é um fato social. São fatos sociais também a língua, o sistema monetário, a religião, as leis e uma infinidade de outros fenômenos do mesmo tipo. De acordo com Durkheim, os fatos sociais são o modo de pensar, sentir e agir de um grupo social. Embora eles sejam exteriores às pessoas,

são introjetados pelo indivíduo e exercem sobre ele um poder coercitivo. (Procure o termo introjeção no Dicionário Básico de Sociologia, no fim do livro.) Resumindo, podemos dizer que, segundo Durkheim, os fatos sociais têm as seguintes características: • generalidade - o fato social é comum a todos os membros de um grupo ou à sua grande maioria; • exterioridade - o fato social é externo ao indivíduo, existe independentemente de sua vontade; • coercitividade - os indivíduos se sentem pressionados a seguir o comportamento estabelecido.

IA

contribuição de Max Weber
Na seção a seguir abordaremos um dos conceitos básicos da Sociologia Compreensiva de Max Weber: o de ação social. Quanto à contribuição de Karl Marx, aspectos dela serão estudados nos capítulos 5, 6 e 7.

Enquanto Durkheim trabalhava na França, na Alemanha destacou-se Max Weber (1864-1920), que defendia outro tipo de abordagem no estudo da sociedade. Para Weber, os métodos de investigação da Sociologia não deveriam seguir o caminho aberto pelas Ciências Naturais, como queria Durkheim. Isso porque os fatos humanos têm também uma dimensão subjetiva - formada pela consciência e pelas intenções das pessoas -, o que não ocorre com os fenômenos da natureza. Essa dimensão subjetiva, dizia ele, pode e deve ser compreendida e interpretada pela Sociologia. Na concepção de Weber, a Sociologia é uma disciplina interpretativa e não apenas descritiva. Para ele, não basta descrever as atitudes e relações estabelecidas entre os indivíduos em sociedade, mas é necessário também considerar e interpretar o sentido que as pessoas atribuem às suas próprias atitudes. Esse método interpretativo só pode ser aplicado ao comportamento humano e é ele que marca, segundo Weber, a diferença entre as Ciências Sociais e as Ciências da Natureza (veja o boxe da p. 29).

o conceito

de ação sociaL

Weber definia a Sociologia como "uma ciência voltada para a compreensão interpretativa da ação social e, por essa via, para sua explicação causal no seu transcurso e nos seus efeitos". Desse modo, o pensador alemão introduziu um novo ponto de partida para a Sociologia, um novo conceito sociológico, diverso da noção de fato social tal como foi proposta por Durkheim. Esse ponto de partida é a ação social dos indivíduos. Por ação social Weber entendia uma modalidade de conduta dotada de sentido e voltada para a ação de outras pessoas. Nem toda espécie de ação, dizia ele, constitui uma ação social. Por exemplo, não há contato social no fato de duas pessoas se cruzarem em uma rua. Nesse tipo de encontro casual não há propriamente ação social. Haveria apenas no caso de essas pessoas se cumprimentarem, ou de conversarem, ou de entrarem

28

CAPÍTULO2 Princípios de Sociologia

WEBER E O JlESPÍRITO DO CAPITALISMOJl
ax Weber aplicou sua Sociologia Compreensiva em diversos textos históricos. Um dos mais célebres é A ética protestante eo espírito do capitalismo. Nesse livro ele chamou a atenção para a relação entre uma ética que valorizava o trabalho árduo e o espírito de poupança, a ética calvinista, ou puritana - um ramo da religião protestante -, e o espírito racional da burguesia dos séculos XVI e XVII. Em seu estudo, Weber procurou destacar que as diferentes esferas da vida social têm vida própria (autônoma), mas se interinfIuenciam de forma constante. No estudo sobre a "ética protestante e o espírito do capitalismo", Weber procurava demonstrar a existência de uma íntima afinidade entre a ideia protestante de "vocação" e a contenção do impulso irracional para o lucro através da atividade metódica e racional, em busca do êxito econômico representado pela empresa. Por essa via, apresentava-se a ideia de que um determinado tiPo de orientação da conduta na esfera religiosa - a ética protestante - poderia ser encarado como uma causa do desenvolvimento da conduta racional em moldes capitalistas na esfera econômica. Levantar a ideia de que a ética protestante possa ser encarada como um componente causal significativo para o desenvolvimento do capitalismo moderno (entendido como tipo de orientação da ação econômica) implica sustentar que, na hipótese da sua ausência, o capitalismo não existiria na forma como o conhecemos. A contrapanida lógica disso é a hipótese de que, sempre que a ética religiosa de sociedades historicamente dadas tenha características significativamente diversas da protestante, isso deveria representar um obstáculo ao desenvolvimento de uma orientação da conduta econômica análoga à capitalista racional. No caso europeu verificava-se uma afinidade interna entre a orientação da conduta nas esferas religiosa e econômica, na medida em que ambas ensejavam um domínio racional sobre os impulsos irracionais e sobre o mundo, mas também pode haver uma tensão entre os sentidos das ações nessas duas esferas da existência. Weber estava preocupado com refutar a ideia de uma determinação das diversas esferas da vida social pela econômica Ao fazer isso, desenvolveu uma concepção que desempenha papel de extrema importância no seu esquema analítico: a de que, no processo que percorrem, as diversas esferas da existência - a econômica, a religiosa, a jurídica, a artística e assim por diante - são autônomas entre si, no sentido de que se articulam em cada momento e ao longo do tempo conforme à sua lógica interna específica Assim, não é possível encontrar a explicação do desenvolvimento de uma delas em termos do desenvolvimento de qualquer outra. O máximo que se pode fazer é buscar as afinidades e as tensões no modo como a orientação da conduta de vida (ou seja, da ação cotidiana de agentes individuais) se dá em esferas diferentes. Por essa via pode-se encontrar, ou não, uma conqruência entre os sentidos que os homens imprimem à sua ação em diferentes esferas da sua existência e expor essas descobertas a um tratamento causal.

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Adaptado de: COHN, Gabriel. Weber, 7. ed. São Paulo: Ática, 1999, p. 23-5, Coleção Grandes Cientistas Sociais.

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Os negodantes de tecidos, tela do pintor holandês Rembrandt van Rijn (1606-1669). Vestidas sobriamente, as pessoas representadas na tela encarnam o "espírito do capitalismo" nos termos de Weber: frugalidade, espírito de poupança, trabalho duro e sistemático, etc.

29

CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

em conflito, ou ainda no caso de ambas praticarem qualquer ato com significado próprio voltado para uma terceira pessoa. São ações sociais, por exemplo, um jogo de futebol, o contato amoroso entre duas pessoas, uma greve de trabalhadores, uma aula, um ato religioso, etc. Um desdobramento do conceito de ação social é o de relação social. Ele diz respeito a ações de diversas pessoas, ou agentes, dotadas de sentidos mutuamente relacionados. Nesse caso, a conduta dos agentes se orienta para sentidos compartilhados por todos. Por exemplo, as ações praticadas por pessoas no interior de uma família constituem uma relação social, pois há um

significado coletivo compartilhado por todos os membros da família. Esse significado orienta a ação de cada pessoa dessa família levando-a a cultivar certos valores aceitos por todos, como o respeito pelos pais, o afeto comum, o usufruto de bens como a casa onde moram, de seus utensílios, etc. A explicação sociológica em Weber - afirmam Maria Ligia Barbosa e Tania Quintaneiro em Um toque de clássicos - busca compreender e interpretar o sentido, o desenvolvimento e os efeitos da ação social. Compreender uma ação social é captar e interpretar sua conexão de sentido, que será mais ou menos evidente para o sociólogo.

PROBLEMAS DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
o decorrer do século XX, com o desenvolvimento da sociedade industrial e, logo depois, da sociedade pós-industrial, que se tornou cada vez mais complexa, a Sociologia ganhou novo impulso, passando a estudar e a explicar problemas com os quais até então não havia se defrontado. Assim, temas como exclusão social, desagregação familiar, disseminação das drogas, violência urbana, cidadania, minorias, globalização (veja o capítulo 3), crise ambiental (veja o boxe da p. 31) e outros representam desafios para os quais a Sociologia vem procurando respostas. Estas exigem uma análise científica da vida em sociedade que permita entender o presente e projetar o futuro. Nesse contexto, uma das preocupações da Sociologia contemporânea tem sido identificar os agentes sociais capazes de provocar mudanças importantes na sociedade. Por outro lado, os conhecimentos da Sociologia já não estão restritos aos sociólogos. De certo modo, muitas pessoas passaram a utilizá-Ios, embora nem sempre de forma consciente e rigorosa. Isso ocorre porque alguns procedimentos e técnicas de pesquisa social passaram a ser de domínio público. Pesquisas de opinião (ou de mercado), por exemplo, são utilizadas no lançamento de novos produtos, como automóveis ou apartamentos; na definição da plataforma política de um candidato a cargo público; no levantamento das taxas de popularidade de um governador ou presidente; e assim por diante. É por meio da pesquisa que o empresário, ao lançar seu produto, pode ficar sabendo quais e quantos serão seus compradores; o político, por sua vez, irá defender pontos de vista que antecipadamente sabe que interessam aos eleitores. Entretanto, o sociólogo não pode perder de vista a noção de relatividade dos fenômenos sociais e as formas pelas quais esses fenômenos ocorrem. A relatividade do fenômeno social pode ser percebida em diversas situações. Consideremos, por exemplo, o desemprego. Ele pode aumentar, caso sejam introduzidas novidades tecnológicas que afetem o mercado de trabalho, como novas máquinas. Mas pode diminuir, mesmo com a nova tecnologia, se a economia do país estiver em expansão.

30

CAPÍTULO 2 Princí pios de Sociologia

Você já ouviu falar do "efeito estufa"? Também conhecido como aquecimento global, o efeito estufa é o aumento exagerado da temperatura do planeta como resultado da emissão de certos gases, entre os quais o gás carbônico (C02), o metano e o óxido nitroso. Esses gases retêm o calor do Sol na atmosfera, impedindo que ele se disperse pelo espaço. Funcionam, assim, como as paredes de vidro de uma estufa, que deixam entrar a luz e o calor do sol, mas dificultam sua dispersão. O CO2 sozinho é responsável por 49% desse aquecimento. Ele é produzido sobretudo pela queima de combustíveis fósseis (petróleo e carvão mineral) realizada por fábricas e veículos automotores (automóveis, caminhões, etc.). O processo de aquecimento da atmosfera se tornou acelerado partir de meados do século XVIII, quando teve início, na Inglaterra, a Revolução Industrial (veja o capítulo 1). Com ela começou também a utilização em grande escala do carvão mineral como fonte de energia para alimentar as fábricas. No século XIX, a Segunda Revolução Industrial introduziu o petróleo como outra grande fonte de energia. Essa dependência em relação ao petróleo e ao carvão tem caracterizado a industrialização não só dos países capitalistas, mas também a dos países socialistas e continua até hoje. Em fevereiro de 2007, um grupo de trabalho da Organização das Nações Unidas (ONU)formado por 2 500 cientistas divulgou um estudo intitulado Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, sigla da expressão em inglês). Segundo o documento, o aquecimento da atmosfera e

a

as mudanças climáticas provocadas por ele atingiram hoje proporções alarmantes. Veja a seguir alguns efeitos dessas mudanças climáticas provocadas pelo efeito estufa. Em 2006, a calota gelada do Pala Norte estava 60 400 km2 (área equivalente a duas vezes o estado de Alagoas) menor do que era em anos anteriores. Segundo algumas previsões, o gelo do Ártico terá desaparecido totalmente até 2040. Os cientistas do IPCCcalculam que centenas de milhões de pessoas terão sua vida afetada em breve pelo derretimento das calotas polares e da neve do cume das montanhas. Esse derretimento pode elevar o nível do mar em cerca de 1,3 metro até 2080, provocando inundações em cidades costeiras como o Recife e o Rio de Janeiro. Na foz do rio Ganges, no oceano Índico, uma ilha habitada por 10 mil pessoas já desapareceu como resultado da elevação do nível das águas do mar.

Vamos pensar?
Procure debater este tema com seus alunos. Se possível, sugira que façam uma pesquisa em jornais, revistas, livros e internet e discuta com eles o resultado em sala de aula. Peça que respondam às seguintes questões:

1. 2. 3.

Em que consiste o efeito estufa e quais serão as suas consequências nos próximos anos, segundo o IPCC? Quais são os cinco países que mais lançam gases de efeito estufa na atmosfera? O que o Brasil vem fazendo para promover formas de energia limpa?

31

CAPÍTULO 2 Princípios de Sociologia

3

A objetividade na análise sociológica
Uma importante característica da observação científica é a objetividade. Diz-se que uma pessoa é objetiva quando ela é capaz de considerar um fenômeno sem ideias preconcebidas, sem que se deixe levar por razões pessoais e subjetivas. A objetividade consiste, portanto, em uma atitude de neutralidade do cientista em relação ao fenômeno ou objeto estudado. Também pode ser definida como a possibilidade de o cientista obter resultados sem que seus sentimentos pessoais estejam envolvidos. O problema, nesse caso, consiste em saber se o sociólogo pode manter realmente uma posição de neutralidade em relação aos fenômenos sociais que observa. De fato, a objetividade é mais difícil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas Ciências Exatas. Em Matemática, a soma de dois mais dois é igual a quatro, seja ela feita por um católico, um muçulmano ou um ateu. Em contrapartida, no estudo de si mesmos e da sociedade, os seres humanos podem se deixar influenciar por seus sentimentos, por ideias preconcebidas, pelas crenças que adotam, pelos valores que aceitam e pelos interesses do grupo social a que pertencem. Além disso, os cientistas sociais têm também maior dificuldade de submeter suas teses à experimentação. De fato, é muito difícil isolar grandes grupos de pessoas e induzi-los a mudanças para verificar seus resultados, como se faz, por exemplo, em Biologia ou em experiências de laboratório.

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CAPÍTULO2 Princípios de Sociologia

Durkheim e Marx
As dificuldades enfrentadas pela Sociologia em relação a essa exigência de objetividade nunca foram plenamente resolvidas. Para Durkheim, a objetividade científica só pode ser atingida em Sociologia caso o sociólogo não se envolva com os fatos estudados. Para isso, é preciso considerá-los corno coisas externas. Essa é a condição para que o sujeito do conhecimento (o sociólogo) se separe do objeto do conhecimento (os fatos sociais). Para Karl Marx, entretanto, essa separação é impossível, pois o cientista social está envolvido pelos fatos sociais desde que nasce. Mais ainda, o sociólogo, corno todo ser humano, é produto das relações sociais que o ligam a determinados grupos da sociedade. Na concepção marxista, a sociedade moderna está dividida em classes, corno a burguesia e o proletariado, que lutam incessantemente entre si. Assim, a luta de classes, as greves e as revoluções são resultado da divisão da sociedade em grupos antagônicos. Marx chegou mesmo a afirmar que a história da humanidade é a história da luta de classes. Durkheim tinha urna opinião diametralmente oposta: ele considerava que essas manifestações eram sintomas de urna espécie de "doença" da sociedade, que chamou de "anemia", Em seu entender, a ano mia seria caracterizada pela perda de regras ou de normas corretas de conduta social. Na base desse fenômeno haveria, portanto, um desregramento das relações entre o individuo e a sociedade. Urna das manifestações da ano mia seria o "antaqonismo entre o trabalho e o capital", ou seja, a luta de classes na sociedade industrial. Assim, enquanto Durkheim era um defensor da ordem social, das ideias de Marx surgiu urna Sociologia crítica, mais interessada nas mudanças e rupturas no interior da sociedade do que na preservação da ordem estabelecida. Para Marx e seus seguidores, o cientista social não deveria permanecer neutro diante dos conflitos sociais, mas assumir a defesa dos interesses do proletariado, classe que para eles seria a portadora das transformações sociais necessárias para o advento do socialismo (veja os capítulos 5, 6 e 7).

A objetividade em Max Weber
Max Weber discordava tanto de Durkheim quanto de Marx. Do primeiro, rejeitava a ideia de fato social considerado corno coisa externa às pessoas. Do segundo, opunha-se à ideia de compromisso com urna classe social. Para Weber, é necessário separar o conhecimento científico, resultado de urna investigação criteriosa, dos julgamentos morais, ou juízos de valor. Segundo ele, a ciência social não deve opinar se o fenômeno estudado é bom ou mau. Cabe ao cientista assumir urna posição de neutralidade: enquanto fizer ciência, o sociólogo deve deixar de lado suas preferências políticas e escolhas ideológicas e considerar as ações e processos sociais com base em urna posição de absoluta isenção e imparcialidade. Apesar dessas dificuldades e discordâncias, a Sociologia é perfeitamente capaz de analisar os fatos sociais com objetividade. É essa possibilidade que faz dela urna ciência. Oprimeiro passo para entender a Sociologia - assim corno qualquer outra ciência - é o conhecimento de seus conceitos básicos. Eles definem os fenômenos que fazem parte de seu campo de estudo e diferenciam a Sociologia das outras Ciências Sociais, pois cada urna delas tem seu próprio corpo de conceitos. Corno ciência, a Sociologia tern um duplo valor: pode aumentar o conhecimento que o ser humano tem de si mesmo e da sua sociedade, e pode contribuir para a solução de problemas que os atingem.

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CAPÍTULO2 Princípios de Sociologia

,...---.-_ivros sugeridos -------------------, L
• QUINTANEIRO, Tânia; BARBOSA,M. de Oliveira; OLNElRA, Márcia. Um toque de clássicos. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG,2002. • MENDRAS,Henri. O que é Sociologia? São Paulo: Manole, 2004. • SANTOS,Milton. Por uma outra globalização. 13. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

• DUPAS, Gilberto. Economia global e exclusão social. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

...----: Filmes sugeridos
• Longe do paraíso, de Todd Haynes, 2003. Mulher branca descobre que o marido é homossexual, apaixona-se por negro, mas
renuncia a esse amor diante da pressão dos habitantes conservadores da cidade onde mora, nos EUA.

• Norma Rae, de Martin Ritt, 1979. Em 1978, operários têxteis nos EUA se organizam para lutar por melhores condições
de vida e de trabalho.

• Meu nome é Joe, de Ken Loach, 1998. Desempregado alcoólatra se envolve com assistente
traficantes de drogas.

social e juntos enfrentam

• As invasões bárbaras, de Denys Arcand, 2004. Enquanto narra a lenta morte de um homem, o filme faz uma critica às
instituições dos países ricos. ao sol, de Fernando Leon de Aranoa, 2003. Sobre grupo de trabalhadores desempregados na Espanha

• Segunda-feira
contemporânea.

• Tiros em Columbine, de Michael Moore, 2002. No Colorado. EUA, dois estudantes
Documentário.

matam-doze

colegas e um professor.

• Uma verdade inconveniente,

de Davis Guggenheim, 2006. Documentário dos EUA, sobre o efeito estufa e a ameaça ambiental.

apresentado

por Al Gore, ex-vice-presidente

Para complementar o estudo do capítulo, assista a um ou mais dos filmes indicados e reflita sobre as seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas • Há referências, entre o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo?

no filme, à noção de fato social? Quais são elas e como aparecem no filme? a ação social nesse filme?

• Há referências ao conceito de ação social? Sob que formas se manifesta

• Há referências à noção de ano mia? Quaís são elas e como aparecem no filme?

Questões propostas

1. 2. 3. 4. 5.
34

Cite exemplos de dois fatos sociais que não sejam os apresentados suas características. Explique uma das contribuições conceituação de Sociologia.

no capítulo, explicando

de Durkheim para a análise dos fatos sociais e sua

Explique o conceito de ação social em Max Weber. Quais são as diferenças entre Durkheim e Weber em relação ao método em Sociologia? Qual é a diferença entre Marx e Weber a respeito da neutralidade do cientista social?

CAPÍTULO2 Princípios de Sociologia

TEXTO 1

A desigualdade segundo Rousseau
foi marcado na Europa ocidental pelo Iluminismo, movimento que se opunha ao absolutismo dos reis e ao misticismo religioso, valorizando a ciência e as "luzes da razão" contra a ignorância e o obscurantismo. Um dos maiores pensadores desse período foi o suíço lean-Iaccues Rousseau ( i 7 i 2- i 784), que viveu boa parte de sua vida na França. Seu pensamento teveforte influência entre alguns líderes da Revolução Francesa (i 789). No texto que você vai ler agora, escrito em i 755, Rousseau analisa as origens das desigualdades existentes na sociedade de sua época. Observe que ele se refere a um "estado natural" entre os seres humanos antes da formação da sociedade. Essa ideia de um estado de natureza era comum entre os pensadores da época. Segundo eles, a sociedade teria surgido quando, por razões de segurança, para proteger-se dos riscos que corriam diante da natureza hostil, as pessoas se reuniram e decidiram constituir-se em um Estado com governo próprio. Para Rousseau, esse momento está relacionado com o nascimento da propriedade privada e das desigualdades sociais. Eu concebo na espécie humana dois tipos de desigualdade: uma, que chamo natural ou física, porque foi estabeleci da pela natureza, e que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças corporais e das qualidades do espírito ou da alma; outra, a que se pode chamar de desigualdade moral ou política, pois que depende de uma espécie de convenção e foi estabelecida, ou ao menos autorizada, pelo consentimento dos homens. Consiste esta nos diferentes privilégios desfrutados por alguns em prejuízo dos demais, como o de serem mais ricos, mais respeitados, mais poderosos que estes, ou mesmo mais obedecidos. Não há por que perguntar qual é a fonte da desigualdade natural, já que a resposta se encontra enunciada na simples definição do termo. Ainda menos se pode procurar qualquer ligação essencial entre as duas desigualdades, porque seria indagar, em outros termos, se os que dirigem valem necessariamente mais que aqueles que obedecem, e se a força do corpo ou do espírito, a sabedoria ou a virtude, são sempre encontradas nos mesmos indivíduos na proporção do poder ou da riqueza [...]. O primeiro que, cercando um terreno, se lembrou de dizer: "Isto me pertence", e encontrou criaturas suficientemente simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassinatos, misérias e horrores teria poupado ao gênero humano aquele que, retirando as estacas ou entulhando o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: "Guardai-vos de escutar esse impostor! Estais perdidos se vos esqueceis de que os frutos a todos pertencem e de que terra não é de ninguém!". Porém, é por demais evidente que, àquela altura, as coisas já tinham chegado a ponto de não poderem mais durar como duravam: porque essa ideia de propriedade, dependendo de um sem-número de ideias anteriores, que não puderam nascer senão sucessivamente, não se formou de repente no espírito humano. Foi preciso conseguir muitos progressos, adquirir muita indústria e muitas luzes, transmiti-Ios e aumentá-Ios, antes de se chegar ao fim do estado natural. Retomemos, pois, as coisas de mais longe e tratemos de reunir sob um único ponto de vista essa lenta sucessão de acontecimentos e conhecimento na sua ordem mais natural. O primeiro sentimento do homem foi o da sua existência; o primeiro cuidado, o da sua conservação. Os produtos da terra lhe forneciam todos os auxílios necessários;' o instinto o levou a servir-se deles. A fome e outros apetites fizeram-no experimentar, alternadamente, diversas maneiras de existir, e houve um apetite que o convidou a perpetuar a própria espécie [...].
I

o século XVIII

~----------------------------------------------------------------------------~~
35

CAPÍTULO2 Princípios de Sociologia

Tal foi a condição do homem no começo; tal foi a vida de um animal, de início limitado às puras sensações, que aproveitava apenas os dons que a Natureza lhe oferecia, longe de sonhar em extrair-lhe algo. Todavia, cedo se apresentaram dificuldades e foi preciso aprender a vencê-Ias: a altura das árvores que o impedia de alcançar-lhe os frutos, a concorrência dos animais que deles buscavam nutrir-se, a ferocidade dos que pretendiam sua própria vida. Tudo isso o obrigava a exercitar o corpo; foi necessário fazer-se ágil, rápido na corrida, vigoroso no combate. [...] Contudo, é preciso assinalar que, uma vez começada a sociedade, as relações já estabelecidas entre os homens exigiam deles qualidades diferentes das que eles possuíam de sua constituição primitiva; que, começando a moralidade a introduzir-se nas ações humanas, e sendo cada qual, antes das leis, o único juiz e vingador das ofensas recebidas, a bondade conveniente ao estado natural puro não mais convinha à nascente sociedade; que se fazia preciso que as punições se tornassem mais severas, à medida que as oportunidades de ofender aumentavam de frequência, e que, devido ao terror da vingança, se fazia necessário o freio das leis. Assim, embora os homens tivessem se tornado menos tolerantes e a piedade natural tivesse sofrido alguma alteração, esse período do desenvolvimento das faculdades humanas, sustentando um justo meio-termo entre a indolência do estado primitivo e a petulante atividade de nosso amor-próprio, deve ter sido a época mais feliz e mais durável. Quanto mais nisto se pensa, mais se reconhece que esse estado era menos sujeito às re-

voluções, o melhor para o homem, do qual não deve ter ele saído senão em virtude de algum acaso funesto que, para o bem comum, jamais devia ter ocorrido. O exemplo dos selvagens, quase todos encontrados nesse ponto, parece confirmar que o gênero humano estava feito para nele permanecer sempre, que tal estado é a verdadeira juventude do mundo, e que todos os progressos posteriores foram, na aparência, passos na direção do aperfeiçoamento do indivíduo, mas, na realidade, no sentido da degradação da espécie humana. Enquanto os homens se contentaram com suas cabanas rústicas, enquanto se limitaram a costurar as vestes de pele com espinhos, a adornar-se de penas e conchas marinhas, a pintar o corpo com tintas de diversas cores, a aperfeiçoar e embelezar os arcos e as flechas, a talhar, com a ajuda de pedras cortantes, algumas canoas de pescadores ou alguns grosseiros instrumentos musicais [...], viveram livres, sãos, bons e felizes, tanto quanto o podiam ser por sua natureza, e continuaram a desfrutar entre si de um comércio independente. Mas, desde o instante em que um homem teve precisão da ajuda de outrem, desde que percebeu ser conveniente para um só ter alimentos para dois, a igualdade desapareceu, introduziu-se a propriedade, o trabalho tornou-se necessário e as vastas florestas se mudaram em campos risonhos que passaram a ser regados com o suor dos homens, e nos quais logo se viu a escravidão e se viu a miséria germinar e crescer com as colheitas.
Adaptado de: ROUSSEAU, jean-jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. In. ROUSSEAU. O contrato social e outros escritos. São Paulo: Cultrix, 1965. p. 46.7.

1---": Pense e responda --------------------1

1. 2. 3.

Em que consistem as duas desigualdades entre os seres humanos para Rousseau? Segundo Rousseau, como viviam os seres humanos antes de surgirem as desigualdades sociais? De que forma-teve início, de acordo com Rousseau, o processo que instalou as desigualdades sociais entre os seres humanos?

36

CAPÍTULO2 Princípios de Sociologia

TEXTO 2

o conceito

de consciência coletiva

Segundo Durkheim, "para que exista o fato social é preciso que pelos menos vários indivíduos tenham misturado suas ações, e que dessa combinação tenha surgido um produto novo ". Esse produto novo, constituído por formas coletivas de agir e pensar, se manifesta como uma realidade externa às pessoas. Ele é dotado de vida própria, não depende de um indivíduo ou outro. No texto a seguir, Durkheim aborda uma das expressões dessa realidade externa: a "consciência coletiva".

o conjunto de crenças e de sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade forma um sistema determinado que tem sua vida própria; pode-se chamá-Io de consciência coletiva ou comum. Sem dúvida, ela não tem por base um único órgão; ela é, por definição, dífusa em toda a extensão da sociedade; mas não tem menos caracteres específicos que a tornem uma realidade distinta. Com efeito, ela não depende das condições particulares em que se encontram os indivíduos; estes passam [ou seja, nascem, vivem e morrem); ela permanece. É a mesma no Norte e no Sul, nas grandes e nas pequenas cidades, nas mais diferentes profissões. Da mesma forma, não muda a cada geração mas, ao contrário, enlaça umas às outras as gerações sucessivas. Ela é portanto uma coisa inteiramente diferente das consciências particulares, ainda que não se realize senão nos indivíduos. Ela forma o tipo psíquico da sociedade, tipo que tem suas propriedades, suas condições de existência, seu modo de desenvolvimento, tal como os tipos individuais, ainda que de uma outra maneira. Assim sendo, tem o direito de ser designada por um termo especial. Aquele que empregamos acima não está isento por certo de ambiguidades. Como os termos coletivo e social são muitas vezes confundidos um com o outro, somos levados a crer que a consciência coletiva é toda a consciência social, ou seja, estende-se tanto quanto a vida psíquica da sociedade. Entretanto, sobretudo nas sociedades superiores, só ocupa uma parte muito restrita. As funções judiciárias, governamentais, científicas, industriais, em

uma palavra, todas as funções especiais são de ordem psíquica, posto que constituem sistemas de representação e de ações: entretanto estão evidentemente fora da consciência comum. Para evitar a confusão que se tem cometido, talvez fosse melhor criar uma expressão técnica que designasse especialmente o conjunto de similitudes sociais. Não obstante, como o emprego de um termo novo, quando não é absolutamente necessário, tem seus inconvenientes, reservamos a expressão mais usada de consciência coletiva ou comum, mas relembrando sempre o sentido restrito em que a empregamos. [...] Existe uma coesão social cuja causa está numa certa conformidade de todas as consciências particulares a um tipo comum a todas elas, que não é senão o tipo psíquico da sociedade. Nessas condições, não somente todos os membros do grupo são individualmente atraídos uns pelos outros porque se assemelham, mas são ligados também pela condição de existência desse tipo coletivo, ou seja, a sociedade que eles formam mediante sua reunião. Os cidadãos não apenas se querem e se procuram entre si de preferência aos estrangeiros, mas também amam sua pátria. Eles querem-na como a si mesmos, esforçamse para que ela sobreviva e prospere [...]. Inversamente, a sociedade toma providência para que eles apresentem todas essas semelhanças fundamentais porque isso é uma condição de sua coesão.
Adaptado de DURKHEIM, Émile. In. RODRIGUES, José Albertino. Durkheilll. 9. ed. São Paulo: Ática, 2005. p. 74-5. Coleção Grandes Cientistas Sociais.

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CAPÍTULO2 Princípios de Sociologia

r---"-_ Pense e responda
1.

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Que relação pode ser estabelecida entre os conceitos de fato social e de consciência coletiva formulados por Durkheim? O que Durkheim quer dizer ao falar de coesão social? Quais são as condições que possibilitam essa coesão?

2.

TEXTO 3

Weber e a ação social
Nem toda espécie de contato entre os homens é de caráter social, mas somente uma ação, com sentido próprio, dirigida para a ação de outros. Um choque de dois ciclistas, por exemplo, é um simples evento, como um fenômeno natural. Haveria ação social na tentativa dos ciclistas se desviarem, ou na briga ou considerações amistosas subsequentes ao choque. A ação social não é idêntica: a) nem a uma ação homogênea de muitos, b) nem a toda ação de alguém influenciada pela conduta de outros. a) Exemplo de ação homogênea: quando na rua, no início de uma chuva, muitas pessoas abrem seus guarda-chuvas, a ação de cada um não está orientada pela ação dos demais, mas a ação de todos, de um modo homogêneo, está impelida pela necessidade de se defender da chuva [nesse caso, não há ação social]. b) É conhecido que a ação do indivíduo é fortemente influenciada pela simples circunstância de estar no interior de uma "massa " de pessoas (por exemp Io, em um estádio de futebol). trata-se, pois, de uma ação condicionada pela massa. Esse mesmo tipo de ação pode se dar também num indivíduo por influência de uma massa dispersa (por intermédio da imprensa, por exemplo), percebida por esse indivíduo como proveniente da ação de muitos. [...]
L-

Nesses casos, um determinado acontecimento ou uma conduta humana pode provocar certas reações - alegria, raiva, entusiasmo, desespero, etc. - que não se dariam no indivíduo isolado. Uma ação desse tipo, determinada pelo simples fato de ser uma situação de massa, sem que exista uma relação dotada de significado entre o indivíduo e a massa, não se pode considerar como ação social na acepção do termo aqui adotada.

Tipos de ação social
A ação social, como toda ação, pode ser:
1. racional com relação afins: é a ação determi-

nada por expectativas no comportamento tanto de objetos do mundo exterior como de outras pessoas, e utilizando essas expectativas como "condições" ou "meios" para alcançar fins próprios racionalmente avaliados e perseguidos [a ação racional com relação a fins é aquela na qual uma pessoa planeja o que vai fazer para alcançar certos objetivos; por exemplo, alunos que estudam para passar de ano];
2. racional com relação a valores: é a ação deter-

minada pela crença consciente em valores éticos, estéticos, religiosos ou de qualquer outra natureza, independentemente de que ela venha a ter êxito [a ação racional com relação a valores não mede as consequências, mas tem por base certos
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CAPÍTULO2 Princípios de Sociologia

princípios. Por exemplo, alguém que dá tudo o que tem a uma instituição de caridade' sem se preocupar com o fato de que, agindo assim, possa cair na pobreza]; 3. afetiva: é a ação determinada por afetos e estados sentimentais [a ação afetiva envolve emoções, como na família, ou na relação entre a multidão e um ídolo, seja ele um cantor de rock ou um líder religioso]; 4. tradicional: é a ação determinada por um costume arraigado [a ação tradicional se baseia nos costumes e hábitos seguidos pelo grupo social; isso ocorre em situações nas quais a pessoa age de determinada forma porque seus pais ou avós agiam da mesma maneira]. A ação orientada racionalmente com relação a valores e a ação afetiva têm em comum o fato de que o sentido da ação não reside no resultado, mas na própria ação. Age afetivamente quem satisfaz sua necessidade atual de vingança, de prazer ou de entrega, de beatitude contemplativa ou de dar vazão a suas paixões do momento. Age de modo estritamente racional com relação a valores quem, sem considerar as consequências previsíveis, se comporta segundo suas convicções sobre o que o de-

ver, a dignidade, a beleza, a sabedoria religiosa, a piedade ou a importância de uma "causa" parece lhe ordenar. Age racionalmente com relação a fins aquele que orienta sua ação conforme o fim, avalia racionalmente os meios relativamente aos fins, os fins com relação às consequências implicadas e os diferentes fins possíveis entre si. A orientação racional com relação a valores pode estar em relação muito diversa no que diz respeito à ação racional com relação a fins. [Para uma pessoa que age racionalmente em relação a fins, a ação racional em relação a valores] é sempre irracional, acentuando-se esse caráter à medida que o valor que a move se eleve à significação de absoluto, porque quanto mais confere caráter absoluto ao valor próprio da ação, tanto menos reflete sobre as suas consequências. Raras vezes a ação, especialmente a social, está exclusivamente orientada por uma ou outra dessas modalidades [ou seja, na vida real, aspectos de um tipo de ação se misturam com aspectos de outras ações; Weber afirmava que, na vida social, essas ações nunca ocorrem de forma pura].
Adaptado de: WEBER, Max. Ação social e relação social. In. FORACCHI, Marialice e MARTINS, José de Souza (orgs.). Sociologia e sociedade. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1977. p. 139-42.

1-- ...• :

Pense e responda

1. 2. 3
e

Cite dois exemplos de cada um dos tipos de ação social analisados no texto e que não sejam citados por Weber. Quais são as diferenças entre a ação racional em relação a fins e a ação racional em relação a valores? A ação de um místico religioso, corno por exemplo Antônio Conselheiro, que atuou no sertão da Bahia reunindo milhares de sertanejos e provocando a Guerra de Canudos contra tropas do Exército (1896-1897), pertence mais à categoria de ação racional em relação a fins, ou às de ação afetiva, ação racional em relação a valores e ação tradicional? E a ação dos políticos no Brasil atual, corno você a classificaria nos termos de Weber?

4.

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