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A sociedade humana

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Todos os dias, desde o momento em que desperta pela manhã até o instante em que, à noite, volta a adormecer, você

convive com outras pessoas. Seja em casa, com sua família, seja no trabalho, numa roda de amigos, no "bate-papo" informal, nos momentos de lazer. no cinema, no campo de futebol, na igreja, você está sempre rodeado de outros seres humanos. Mesmo estando sozinho, o simples ato de escovar os dentes envolve muitas outras pessoas: os químicos que elaboraram o creme dental, os operários que fabricaram a escova de dentes, os que fizeram a embalagem e assim por diante. Você nunca está inteiramente só. Você vive em sociedade, participa de grupos sociais e convive com muitas pessoas. Em uma palavra, você é um ser social.

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CAPÍTULO 1 A sociedade humana

. ~ . t.·

••.

Observe e responda:

1.

Observe a foto. Quem são as pessoas que aparecem nela? O que elas estão fazendo? O tema deste capítulo é a sociedade humana. Que relação pode ser estabelecida entre essa cena e o estudo da sociedade?

2. 3.

8

CAPÍTULO 1 A sociedade humana

1 I Somos todos

seres sociais
giões do planeta, como a Mesopotâmia (4000 a.C.), o Egito (3000 a.C.), a China (1700 a.C.) e a América Central, (900 a.C.) - datas aproximadas. Hoje, utilizamos também novas formas de comunicação (a internet. por exemplo), mas algumas das que foram criadas por nossos ancestrais mais remotos, como a linguagem, ainda continuam em vigor. A tendência do ser humano a viver em grupo pode ser comprovada de forma positiva pela experiência empírica, cotidiana: seja na escola, na família ou no país, fazemos parte de um conjunto mais amplo de pessoas, de um grupo social, ligado a um conjunto ainda maior, a sociedade em que vivemos (veja os capítulos 3 e 4). Mas há também outras formas de comprovar a necessidade da vida em grupo para o desenvolvimento do ser humano. Uma delas é a experiência de crianças que vivem entre animais e em situação de isolamento em relação a outros indivíduos da espécie humana. Vamos conhecer uma dessas experiências?

Desde as suas origens, há cerca de 190 mil anos, o homo sapiens sapiens, ou homo sapiens moderno, espécie à qual pertencemos, se constituiu por meio do grupo. Assim. como outros animais que vivem agrupados, os primeiros seres humanos só conseguiram sobreviver nas difíceis condições do mundo que os cercava porque contaram com o apoio e a solidariedade do grupo a que pertenciam. Essa dependência do indivíduo em relação ao grupo teve início, assim, no momento mesmo em que surgiram os primeiros seres humanos, e continua até hoje. Uma de suas características é a comunicabilidade humana, ou seja, a capacidade de o indivíduo se comunicar com seus semelhantes de forma a transmitir idéias, sentimentos, vontades, interesses, emoções. Essa capacidade evoluiu ao longo do tempo, passando de gestos e sinais à articulação de sons, ao desenvolvimento da linguagem, às primeiras manifestações artísticas - ainda no Período Paleolítico (190000 a.C.-8000 a.C.) - e à escrita, criada em diferentes épocas em diversas re-

CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Um caso intrigante
Em 1797, um menino seminu foi visto na floresta de Lacaune, na França. Mais tarde, foi registrado seu aparecimento no distrito de Aveyron. Descalço, apenas alguns farrapos de uma velha camisa (sinal de algum contato anterior com seres humanos) cobriam parte de seu corpo. Sempre que alguém se aproximava, ele fugia como um animal assustado. Era um menino de cerca de 12 anos. Seu corpo estava repleto de cicatrizes. Provavelmente abandonado na floresta aos 4 ou 5 anos, foi objeto de curiosidade e provocou discussões acaloradas, principalmente na França. Após sua captura, verificou-se que Victor (assim passou a ser chamado) não pronunciava nenhuma palavra e parecia não entender nada do que lhe falavam. Apesar do rigoroso inverno europeu, rejeitava roupas e também o uso de cama, preferindo dormir no chão. Locomovia-se apoiado nas mãos e nos pés, correndo como os animais quadrúpedes.

convenientemente à mesa, de se servir da quantidade necessária de água para beber, de levar certos objetos ao seu terapeuta; diverte-se ao empurrar um pequeno carrinho e começa a ler (veja a seção Filmes sugeridos no fim do capítulo). Cinco anos mais tarde, Victor já confeccionava pequenos objetos e podava as plantas da casa. Esses resultados pareciam confirmar a tese de Itard, segundo a qual os antigos hábitos selvagens do menino e sua aparente deficiência mental eram apenas e tão-somente resultado de uma vida afastada da sociedade. Com base nessa experiência, Itard formulou a hipótese de que a maior parte das deficiências intelectuais e sociais não é inata, mas tem sua origem na falta de socialização do indivíduo considerado deficiente e na ausência de comunicação com seus semelhantes, especialmente de comunicação verbal.

Como nos tornamos humanos?
Victor de Aveyron tornou-se um dos casos mais conhecidos de seres humanos criados em condições de liberdade em ambiente selvagem. Alguns médicos franceses afirmavam que o menino sofria de idiotia, uma deficiência mental grave. Segundo eles, teria sido essa a razão pela qual os pais o haviam abandonado. O psiquiatra Jean-Marie Gaspard Itard não concordava com a opinião dos colegas. Quais as consequências, perguntava ele, da privação do convivio social e da ausência absoluta de educação para a inteligência de um adolescente que viveu assim, separado de indivíduos de sua espécie? Itard acreditava que a situação de abandono e afastamento da sociedade é que explicava o comportamento diferente do menino. Discordava, assim, do diagnóstico de deficiência mental para o caso. A partir de então, Itard trabalhou diretamente na educação do menino. Sua experiência foi registrada no livro A educação de um homem selvagem, publicado em 1801. Nesse livro, Itard apresenta seu trabalho com o menino de Aveyron, descrevendo as etapas de sua educação: ele já é capaz de sentar-se

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CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Aproximando-se de uma visão sociológica, o pesquisador concluiu que o isolamento social prejudica a sociabilidade do indivíduo. Ora, a sociabilidade, ou seja, a capacidade de se comunicar e interagir com outros seres humanos, é o que torna possível a vida em sociedade.

Kamala e os lobos
Não seria, entretanto, o caso de Victor de Aveyron uma exceção? Bastaria esse exemplo para demonstrar que o ser humano é um animal social, que precisa viver em sociedade para se tornar verdadeiramente um ser humano?

o MITO

DE TARZAN
Como obras de ficção, os livros de Tarzan sempre atraíram o interesse de jovens leitores. Como fonte de conhecimento, entretanto, apresentam uma imagem falsa e deformada da África, criando um personagem mítico, distante da realidade. Como vimos, os indivíduos da espécie humana só se tornam verdadeiramente humanos por intermédio da convivêneia e da interação em um meio so~./ cial, ou seja, com seres de sua espécie. Como outras construções ideológicas, Tarzan contribuiu para difundir e legitimar os interesses imperialistas de dominação dos povos africanos entre os séculos XIX e XX.

ocomeço do século XX, o escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950) deu início à publicação de uma série de histórias cujo personagem central era um homem criado desde criança por grandes macacos na África. Filho de um casal de nobres ingleses mortos após o naufrágio do navio em que viajavam pela costa africana, seu nome era Iohn Greystoke. Os macacos que o criaram, porém, o chamavam de Tarzan. Sucesso imediato entre os leitores, Tarzan logo passou para as telas de cinema e para as histórias em quadrinhos, encantando sucessivas gerações. Nas histórias de Burroughs, Tarzan aprendeu a ler sozinho, com a ajuda apenas de um livro encontrado em uma cabana. Além disso, demonstrava sentimentos nobres e humanos e defendia valores semelhantes aos da sociedade em que viveu o escritor. Na verdade, o autor criou Tarzan segundo a imagem que tinha do homem europeu na época vitoriana. "civilizado", incapaz de atos de violência gratuita, justiceiro e ... "superior" aos africanos. Tratava-se, portanto, de uma construção ideológica que reproduzia as relações de dominação das potências europeias sobre os povos da África na época do imperialismo (séculos XIX e primeira metade do século XX). Por essa época, os líderes das potências europeias justificavam essa dominação afirmando que os europeus iam para a África difundir o que chamavam de "civilização" entre povos "bárbaros" e "atrasados".

N

Capa da edição italiana de uma das histórias em quadrinhos do personagem Tarzan, desenhada por Burne Hogarth.

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CAPÍTULO 1 A sociedade

humana

Vamos conhecer outra história. Em seu livro Estudos sociais, A. Xavier TeUes descreve o caso de duas meninas que viviam entre lobos numa caverna da Índia. Descobertas em 1921, a mais velha, que passou a ser chamada de Kamala, tinha oito anos; a outra, batizada de Amala, tinha apenas quatro anos. Confiadas a um asilo, passaram a ser observadas por estudiosos. A mais jovem não resistiu aos novos hábitos e logo morreu. Kamala, porém, ainda viveu oito anos. Ambas apresentavam hábitos alimentares bem diferentes dos nossos. Como fazem normalmente os animais, elas cheiravam a comida antes de tocá-la, dilaceravam alimentos com os dentes e faziam pouco uso das mãos para beber e comer. Tinham uma aguda sensibilidade auditiva e o olfato desenvolvido. Locomoviam-se de forma curvada, com as mãos apoiadas no chão, como fazem os quadrúpedes. Kamala levou seis anos para andar de forma ereta. Notou-se também que a menina não ficava à vontade na companhia de pessoas, preferindo o convívio com animais, que não se assustavam com sua presença e pareciam até entendê-la (adaptado de: TELLES,A. Xavier. Estudos sociais. São Paulo: Nacional, 1969. p. 115-6).

Assim como no caso do menino de Aveyron, a experiência das duas crianças criadas entre lobos na Índia mostra que os indivíduos só adquirem características realmente humanas quando convivem em sociedade com outros seres humanos, estabelecendo com eles relações sociais. Separadas entre si por mais de um século e afastadas uma da outra por milhares de quilõmetros, as experiências do menino de Aveyron e das crianças criadas com lobos na Índia deixam uma lição que não pode ser ignorada: sem o denso tecido das relações sociais simplesmente não há humanidade.

ReLações sociais
As relações entre os seres humanos que vivem em sociedade são chamadas de relações sociais. Elas constituem a base da sociedade (veja o boxe a seguir). Vale dizer que sem elas a sociedade não existiria. Essas relações supõem a existência de pessoas que interagem reciprocamente. Não são relações fixas e imutáveis. São relições dinâmicas que se transformam com as mudanças na sociedade, ao mesmo tempo que as estimulam e interferem nelas.

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Vamos pensar?

A sociedade é uma rede de relações entre indivíduos, entre grupos sociais e entre instituições [veja os capítulos 3, 4 e 9]. Por isso, podemos analisar a sociedade tanto no nível das relações entre indivíduos na sua vida cotidiana como no nível da forma ou estrutura de tais relações, posto que estas aparecem personificadas nos conceitos, normas e regras que regulam a conduta social. Mas tais estruturas experimentam mudanças: portanto, a sociedade deve ser estudada em seu desenvolvimento histórico e não como um simples grupo de gente ou um conjunto de instituições existentes num dado momento.
BOTTOMORE,Thomas. In: MARQUÊS, J., MOLLÁ, D., SALCEDO, S.

1.

O que quis dizer o autor ao afirmar que as relações sociais aparecem personificadas nos conceitos, normas e regras que regulam a conduta social? Cite algumas regras de conduta que personificam relações em uma sociedade. Por que o autor afirma que a sociedade deve ser estudada em seu desenvolvimento histórico?

2.

A sociedade atual. Rio de Janeiro: Salvat Editora do Brasil, 1979. p. 9.
Coleção Biblioteca Salvat de Grandes Temas.

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CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Victor de Aveyron aprendeu a andar, a comer, a se vestir e a fazer objetos por intermédio do contato com outras pessoas, ou seja, por intermédio de relações sociais. Mas não assimilou apenas as coisas práticas da vida. Ao estabelecer relações com outros seres humanos, aprendeu também a se comportar, a expressar sentimentos e a agir da mesma forma que as pessoas com as quais passou a conviver. Em urna palavra, ele

se socializou, ou seja, tornou-se um membro da sociedade. O estudo de corno os seres humanos se relacionam na vida social, das formas pelas quais interagem uns com os outros, estabelecendo regras e valores, das coisas que produzem e das trocas simbólicas no curso dessas relações constituem tarefa de um grupo de disciplinas reunidas sob o nome de Ciências Sociais. A Socioioqia é urna dessas disciplinas.

2

I A sociedade como objeto de estudo
O comportamento humano é complexo e diversificado. Cada indivíduo recebe influências do meio em que vive, forma-se de determinada maneira e age no contexto social de acordo com sua formação. O indivíduo aprende com o meio, mas também o transforma com suas ações. Assim, o ser humano não é um produto passivo do meio, mas constrói a si mesmo interagindo com o meio e modificando-o. Há comportamentos estritamente individuais - corno andar, respirar, dormir - que se originam na pessoa corno organismo biológico. São comportamentos estudados pelas Ciências Físicas e Biológicas. Já ações corno trabalhar, jogar vôlei ou futebol, fazer greve, participar de reuniões, assistir a aulas, estudar, casar-se, educar os filhos são comportamentos sociais, pois se desenvolvem por meio de interações no contexto da sociedade. Essas interações sociais Fl'ão podem ser plenamente explicadas pela Biologia ou pela Física. Para compreendê-Ias, estudá-Ias de forma sistemática e explicá-Ias foram criadas as Ciências Sociais. Elas pesquisam e estudam o ser humano corno ser social em suas várias formas de manifestação. O objeto de estudo das Ciências Sociais, portanto, são os seres humanos no contexto de suas relações sociais. O método empregado nesse estudo é o da investigação científica (veja o boxe a seguir).

CAPÍTULO 1 A sociedade humana

o MÉTODO

CIENTÍFICO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
ordenadas, necessários ao conhecimento do objeto de estudo em um nível de profundidade que não pode ser apreendido pela observação superficial do cotidiano. Trata-se de um processo racional, que utiliza conceitos, categorias de análise, hipóteses e outros recursos para chegar a um resultado, seja este a explicação de um fenômeno ou a formulação de leis que regem certos conjuntos de fenômenos. Tudo isso levou o pensador inglês K. Pearson a afirmar que ciência não são os fatos, mas o método com que são tratados". Os fatos são, na verdade, a matéria-prima com que trabalha a ciência.
fia

m geral, temos opiniões formadas sobre diversos assuntos. Por exemplo, se um pai castiga seu filho, somos levados a pensar que o menino transgrediu alguma regra, comportou-se mal ou tirou notas baixas na escola. Esse é um tipo de conhecimento que faz parte de nossas percepções cotidianas. Não constitui um conhecimento científico. Entretanto, essa mesma atitude do pai que castiga o filho pode ser objeto de análise da ciência. Para isso é preciso que seja aplicado a ela um método científico de investigação. Em ciência, a palavra método designa um conjunto de procedimentos, ou de atividades

E

Divisões das Ciências Sociais
Com o avanço do conhecimento da sociedade, tornou-se necessário dividir as Ciências Sociais em diversas áreas de conhecimento, de modo a facilitar a sistematização dos estudos e das pesquisas. Essa divisão abrange atualmente diversas disciplinas. Veja a seguir algumas delas. Sociologia - Estuda as relações sociais e as formas de associação, considerando as interações que ocorrem na vida em sociedade. A Sociologia envolve, portanto, o estudo da estrutura social, dos grupos e das relações sociais, da divisão da sociedade em classes e camadas, da mobilidade social, das instituições, das relações de trabalho, dos processos de cooperação, competição e conflito na sociedade, etc. Economia - Tem por objeto as atividades humanas ligadas à produção, circulação, distribuição e consumo de bens e serviços. Portanto, são fenômenos estudados pela Economia as atividades agrícolas e industriais, o comércio, o mercado financeiro (bancos, bolsas de valores, etc.), a distríbuição da renda, a política salarial, a produtividade das empresas, etc. Antropologia - Estuda a produção cultural, as semelhanças e as diferenças culturais entre os vanos agrupamentos humanos, assim como a origem e a evolução das culturas. São objetos de estudo da Antropologia os tipos de organização familiar, as religiões, a magia, os ritos de iniciação dos jovens, o casamento, etc. Ciência Política - Ocupa-se da distribuição de poder na sociedade, assim como da formação e do desenvolvimento das diversas formas de governo. Estuda também os partidos políticos, os mecanismos eleitorais, etc.

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CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Não existe uma divisão nítida entre essas disciplinas. Embora cada uma das Ciências Sociais esteja voltada preferencialmente para um aspecto

da realidade social, elas são complementares entre si e frequentemente atuam juntas para explicar os complexos fenômenos da vida em sociedade.

o MÉTODO

EM SOCIOLOGIA
lescentes preferem tal programa de televisão, enquanto tantos por cento de pessoas de idade entre 40 e 60 anos preferem outro. Pode-se ainda fazer uma diferenciação por sexo, ou utilizando quaisquer outros critérios. Já a análise qualitativa procura estabelecer conexões lógicas de causa e efeito entre os fenômenos, recorrendo à interpretação e utilizando ou não dados estatísticos. É o caso, por exemplo, da análise do sociólogo alemão Max Weber sobre a relação entre a religião calvinista - surgi da na Europa, no século XVI, durante o período conhecido como Riforma Protestante - e o "espírito do capitalismo", ou seja, o conjunto de valores, interesses e atitudes da burguesia, grupo social que liderou o processo de formação da sociedade capitalista. De fato, os valores da burguesia daquela época - que exaltavam o trabalho árduo, a poupança e a frugalidade - foram decisivos para a formação de uma economia baseada no comércio e na acumulação de dinheiro para ser investido na produção. Esse processo seria chamado por Karl Marx (1818-1883), outro pensador alemão, de acumulação primitiva de capital e estaria nas origens da sociedade capitalista moderna. Seja qual for o método de análise adotado pelo sociólogo, é importante considerar a observação do pensador francês Raymond Boudon. "O ponto de partida de qualquer pesquisa - quantitativa ou qualitativa - é geralmente uma pergunta do tipo por quê? - Por que o suicídio varia conforme as épocas e os lugares? Por que as pessoas decidem votar em tal candidato? Por que alguns casamentos terminam em divórcio? Por que há mais divórcios em certos países do que em outros?".

m Sociologia, o método científico utiliza diversas categorias de análise, como as de grupo social, classe, estratificação social, fato social, interação, estrutura social, instituição, etc. Também fazem parte dele, entre outros, instrumentos de análise como o estudo de caso, a análise comparativa, a análise quantitativa e a análise qualitativa. O estudo de caso é um tipo de instrumento metodológico no qual se aborda apenas uma unidade social (um "caso") - uma família, uma cidade, uma instituição, etc. -, que serve de base para a compreensão de fenômenos mais amplos. Assim, o estudo de uma família de camponeses do sertão de Pernambuco, por exemplo, pode oferecer ao sociólogo uma visão da sociedade rural dessa região em seu conjunto e não apenas dessa família em particular. A análise comparativa envolve procedimentos que levam o sociólogo a estabelecer relações de causa e efeito de certos grupos de fenômenos com base na comparação entre fenômenos diversos. Comparando uma família de camponeses que vive no meio rural com outra de operários da indústria em uma grande cidade, por exemplo, ele pode fazer o levantamento das semelhanças e das diferenças entre uma e outra. Com base nesses dados, ele pode identificar as causas de comportamentos, hábitos de vida, valores e tendências políticas de uma e de outra. A análise quantitativa, por sua vez, utiliza em larga escala dados estatísticos e numéricos. Muitas pesquisas de mercado servem de matéria-prima para análises quantitativas. Podemos analisar, por exemplo, certas preferências culturais entre diversas faixas etárias de uma população: tantos por cento de ado-

E

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CAPÍTULO 1 A sociedade

humana

41 A sociedade como problema
Como afirma o sociólogo Carlos B. Martins, "podemos entender a Sociologia como uma das manifestações do pensamento moderno. A evolução do pensamento científico, que vinha se constituindo desde Nicolau Copérnico [astrônomo polonês que viveu entre 1473 e 1543], passa a cobrir, com a Sociologia, uma nova área do conhecimento ainda não incorporada ao saber científico, ou seja, o mundo social. Surge posteriormente à constituição das ciências naturais e de diversas ciências sociais" (MARTINS,Carlos B. O que é Socioloqia. São Paulo: Nova CulturaljBrasiliense, 1986. p. 10, coleção Primeiros Passos). Dessa forma, comparada a outras ciências, a Sociologia nasceu tardiamente. Na citação que você acabou de ler, Carlos Martins se refere a outras ciências sociais anteriores à Sociologia. Uma delas é a Ciência Política, cujos precursores foram filósofos gregos, como Platão (427-347 a.C.), autor de A República, e Aristóteles (384-322 a.C.), que escreveu Política. Mais tarde, já no Renascimento, o pensador Nicolau Maquiavel (1468-1527) publicou Optincipe, livro geralmente considerado o marco da Ciência Política moderna (veja o boxe a seguir).

UM LIVRO-BOMBA
ocê sabe o significado da palavra maquiave1ico? Se procurar em um dicionário, vai encontrar algo como "procedimento astucioso, velhaco, traiçoeiro". O termo maquiavélico deriva do nome de Nicolau Maquiavel, cujo livro, O príncipe, escrito em 1514, provoca polêmicas ainda hoje. Ele foi escrito com um objetivo bem claro: dar conselhos a um príncipe sobre como proceder para unificar os pequenos estados em que a península ltálica estava dividida naquela época. Maquiavel queria que esse príncipe restaurasse a antiga grandeza do Império Romano, perdida em 476, após sucessivas invasões de povos germânicos. No livro, Maquiavel aconselhava o príncipe a não recuar diante de nenhum crime para conquistar esse objetivo. Em caso de necessidade, o príncipe deveria mentir ou mesmo destruir seus oponentes para conquistar e consolidar o poder. Por isso lhe é atribuída a frase "os fins justificam os meios", que na verdade ele nunca disse ou escreveu. Segundo o filósofo Renato )anine Ribeiro, o livro O prínciPe representa o rompi-

V

mento com um modo medieval de ver a política como extensão da moral. Para os autores da Idade Média, o "bom rei" era aquele que fazia o bem, seguindo os preceitos cristãos. Em oposição a eles, Maquiavel mostrou que os reis bem-sucedidos raramente seguiam a moral convencional e cristã. Seus argumentos punham fim à justificação religiosa para o poder político. Para ele, o que importava na ação política eram os resultados e não sua obediência a critérios morais estritos.

Retrato de Nicolau Maquiavel, óleo sobre tela do pintor Santi de Tito.

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CAPÍTULO 1 A sociedade humana

Esses três pensadores refletiram principalmente a respeito do poder político e das formas de organização do Estado. A sociedade aparece em suas obras quase corno um dado natural e não corno um conjunto dinâmico de relações e problemas a serem analisados e explicados.

A RevoLução IndustriaL
As primeiras reflexões mais sistemáticas sobre a sociedade só começaram a ser formuladas no momento em que ela se diversificou corno nunca anteriormente, com a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra por volta de 1750. Ela deu origem a novos grupos sociais - a burguesia e o proletariado - e à formação de um novo tipo de estrutura social: a sociedade capitalista. Nesse processo teve particular importância a Revolução Francesa (1789), que concorreu para a ascensão da burguesia ao poder e para dar maior visibilidade aos problemas e conflitos sociais. A Revolução Francesa mostrou que a sociedade estava dividida em grupos sociais antagônicos - a nobreza, a burguesia, os camponeses -, que as

relações entre esses grupos era de tensão e conflito e que o domínio exercido por qualquer um desses grupos não era eterno. Dessa forma, a sociedade aparecia corno um campo de forças em permanente tensão, corno um conjunto de relações conflituosas que poderiam levar a rupturas e mudanças radicais. A Revolução Industrial, por sua vez, introduziu a máquina a vapor no processo produtivo, reorganizou o trabalho manufatureiro de forma radical, destruiu o artesão independente, introduziu a fábrica moderna e criou urna nova classe de trabalhadores: o proletariado, ou classe operária, concentrado sobretudo em grandes unidades industriais. Esse processo provocou muitas mudanças, corno o crescimento das cidades, a concentração de centenas de milhares de trabalhadores em bairros industriais e a degradação das condições de vida do proletariado. Até o fim do século XIX, as jornadas de trabalho na indústria europeia giravam em torno de catorze ou dezesseis horas por dia. Não havia descanso remunerado, corno hoje, nem férias, nem aposentadoria.

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CAPÍTULO 1 A sociedade humana

As condições de trabalho na indústria e nas minas eram extremamente penosas, ocasionando muitos acidentes, que podiam provocar a morte ou mutilações nos trabalhadores. Não havia limite de idade para trabalhar, nem leis de proteção ao menor, de modo que mesmo crianças de até seis ou sete anos trabalhavam em funções perigosas. Além disso, as condições de vida e de moradia eram precárias. Não havia saneamento básico nos bairros proletários. As habitações eram pequenas, insalubres e nelas se aglomeravam muitas pessoas. Como observa Carlos Martins, "as ccnsequências da rápida industrialização e urbanização levadas a cabo pelo sistema capitalista foram tão visíveis quanto trágicas: aumento assustador da prostituição, do suicídio, do alcoolismo, do infanticídio, da criminalidade, da violência, de surtos de epidemias de tifo e cólera que dizimavam parte da população, etc." (MARTINS, Carlos B. op. cito p. 13-4). Nesse contexto, eclodiram movimentos de protesto e tentativas de organização da classe trabalhadora. Formaram-se, assim, os primeiros

sindicatos na Inglaterra e em outros países europeus. Ao mesmo tempo, apareceram pensadores que tentavam reformar o capitalismo ou promover uma revolução que levasse a classe trabalhadora ao poder. Entre estes últimos estava o alemão Karl Marx (1818-1883), autor de obras como o Manifesto do Partido Comunista (1848) e O capital (1857-1894).

Pensar o mundo novo
Como nota ainda Carlos Martins, com as mudanças ocasionadas na sociedade pela Revolução Industrial, diversos pensadores começaram a refletir sobre os novos fenômenos sociais: "A Sociologia constitui em certa medida uma resposta intelectual às novas situações colocadas pela Revolução Industrial". Foi só no século XIX - com Augusto Comte, Herbert Spencer, Gabriel Tarde e, principalmente, Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx - que a investigação dos fenômenos sociais ganhou um caráter verdadeiramente científico. Esse tema será abordado no capítulo 2.

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CAPÍTULO 1 A sociedade humana

.-------: Livros sugeridos
• MARTINS, Carlos B.

o que

é Sociologia. São Paulo: Nova Cultural/Brasíliense,

1986 (Coleção Primeiros Passos).

• TELLES,Maria L. Sociologia para jovens - iniciação à Sociologia. Petrópolis: Vozes, 2001.

r---"':

Filmes sugeridos
em urna cidade da Alemanha um jovem

• o garoto

selvagem, de François Truffaut. 1970. A história de Victor de Aveyron, menino capturado numa floresta francesa sem nunca ter tido contato com um ser humano.

• O enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog, 1974. Em 1828, foi encontrado que passara a vida trancado em um porão e não conseguia se comunicar.

• Greystoke, a lenda de Tarzan, de Hugh Hudson, 1984. Baseado nos romances de Edgar Rice Burroughs, conta a história
de um homem branco criado entre macacos na África.

• A guerra do fogo, de Hugh Hudson, 1981. Nos primórdios da humanidade,
do fogo.

grupos de hominídeos

disputam

a posse

• Danion, o processo da Revolução, de Andrzej Wajda, 1982. A luta de Danton contra Robespierre para colocar fim ao
Terror durante a Revolução Francesa.

• Maria Antonieta,

de Sofia Coppola, 2006. Sobre a rainha da França, mulher do rei Luís XVI à época da Revolução Francesa, e sua execução em 1793.

• Germinei, de Claude Berri, 1993. Sobre as condições de vida e de trabalho dos mineiros da França durante o século XIX.
Adaptação do romance homõnimo de Émile Zola.
• Oliver Twist, de Roman Polanski,

Industrial

na Inglaterra.

2005. A história de Oliver, um pequeno órfão, sobre o pano de fundo da Revolução Baseado no romance de Charles Dickens.

Para complementar o estudo do capítulo, assista a um ou mais dos filmes indicados e reflita sobre as seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas • Há referências, • Há referências • Há referências entre o enredo do filme e os conceitos estudados da Revolução Industrial? neste capítulo?

no filme, às consequências

Quais são elas e onde aparecem no filme?

à Revolução Francesa? Que conclusões são possíveis extrair do que se vê no filme? à necessidade da vida em sociedade para que o individuo se humanize? de certos conteúdos por parte

• O trabalho com filmes tem demonstrado resultados muito positivos para a compreensão dos alunos. Se for possível, proponha este exercício de reflexão em sala de aula.

- Questões propostas

1. 2. 3. 4. 5.

Você acredita que por meio de jornais e revistas é possível verificar exemplos de comportamentos sociais? Defina o conceito e o objeto das Ciências Sociais. Quais são os principais campos de interesse de cada disciplina em que se dividem as Ciências Sociais? De que forma a Revolução Industrial contribuiu para o surgimento da Sociologia corno ciência? Quais são as diferenças entre a análise comparativa, a análise quantitativa qualitativa em Sociologia? e a análise

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CAPlTULO 1 A sociedade humana

TEXTO 1

A Revolução Industrial e os trabalhadores
Iniciada na Inglaterra, a Revolução Industrial dos séculos XVIII eXIX modificou radicalmente a sociedade moderna. Ela inaugurou a indústria moderna, abriu caminho para o capitalismo industrial e subverteu as relações sociais. No texto a seguir, o historiador inglês E. P Thompson analisa suas consequências para o modo de vida da classe trabalhadora na Inglaterra. Comparadas com as vilas rurais, as condições gerais nas grandes cidades industriais eram mais repugnantes e inconvenientes. Nas vilas rurais, a água de um poço próximo ao cemitério podia ser impura, mas, pelo menos, seus habitantes não tinham de se levantar à noite para entrar numa fila diante da única bica que servia a várias ruas, nem tinham de pagar por ela, como acontecia nas cidades industriais. Nestas, os trabalhadores e suas famílias tinham de suportar o mau cheiro do lixo industrial e dos esgotos a céu aberto, enquanto seus filhos brincavam entre detritos e montes de esterco. [...] À medida que a Revolução Industrial avançava e surgiam as clássicas condições de superpopulação e de depravação nas grandes cidades em rápida expansão - inchadas pelos imigrantes -, a saúde da população urbana começou a se deteriorar. A taxa de mortalidade infantil, durante as três ou quatro primeiras décadas do século XIX foi muito mais alta nas novas cidades industriais - às vezes o dobro - do que nas áreas rurais. Segundo o Dr. Turner Thackrah, de leeds, "menos de 10% dos habitantes das grandes cidades gozam de perfeitas condições de saúde". [...] O Primeiro Relatório do Oficial Geral de Registros (1839) mostrou que aproximadamente 20% da taxa global de mortalidade se devia à tuberculose, uma doença associada à pobreza e à superpopulação, predominando tanto nas regiões rurais quanto nas urbanas. Das 92 mortes de trabalhadores adultos e jovens de uma fábrica de tecidos de lã de leeds, entre 1818 e 1827, pelo menos 52 foram atribuídas à tuberculose ou ao "definhamento". Nessa época, a taxa de mortalidade na faixa de O a 5 anos de idade chegava a 517 em mil nascidos vivos. [...] O trabalho infantil não era uma novidade. A criança era parte intrínseca da economia industrial e agrícola antes de 1780, e como tal permaneceu até ser resgatada pela escola. A forma predominante de trabalho infantil era a doméstica ou a praticada no seio da economia familiar. As crianças que mal sabiam andar podiam ser incumbidas de apanhar e carregar coisas. Um trabalhador dessa época recordava que começou a trabalhar "pouco depois de que iniciei a andar. [...] Minha mãe costumava bater o algodão sobre uma peneira de arame. Colocava-o, então, num recipiente marrom escuro, com uma espessa camada de espuma de sabão. Depois, dobrava minha roupa até a cintura e me colocava na tina para que eu pisasse sobre o algodão que jazia no fundo. [...] Esse processo prolongava-se até que o recipiente ficasse cheio e se tornava perigoso continuar ali dentro; colocavam, então, uma cadeira ao meu lado, e eu me agarrava ao seu encosto". O trabalho infantil estava profundamente arraigado nas atividades têxteis, despertando, com frequência, a inveja dos trabalhadores em ocupações onde as crianças não podiam trabalhar e aumentar o rendimento da família [...].

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CAPÍTULO 1 A sociedade

humana

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Antes do aparecimento da fábrica [sistema fabril], a produção manufatureira, de tipo industrial, era realizada em domicílio, onde toda a família trabalhava. Em 1806, um trabalhador previa que, com o triunfo do sistema fabril "todos os trabalhadores pobres serão arrancados de suas casas e levados para as fábricas, e ali não contarão com a ajuda e a vantagem da presença de suas famílias, que tinham em suas casas". De acordo com os padrões da época, a fábrica era uma novidade penosa e até mesmo brutal. As atividades domésticas eram mais variadas (e a monotonia é particularmente cruel para a criança). Em circunstâncias normais, o trabalho doméstico não se prolongava ininterruptamente, seguindo um ciclo de tarefas. Podemos supor, nesse caso, que havia uma introdução gradual ao trabalho que respeitava a capacidade e a idade da criança, intercalando-o com a entrega de mensagens, a colheita de amoras, a coleta de lenha e as brincadeiras. Acima de tudo, o trabalho em domicílio era desempenhado nos limites da economia familiar, sob o cuidado dos pais. [...] O crime do sistema fabril consistiu em herdar as piores feições do sistema doméstico, num contexto em que inexistiam as compensações do lar. Em casa, 'as condições da criança variavam de acordo com o temperamento dos pais ou do patrão e, de certa forma, seu trabalho era graduado de acordo com suas habilidades. Na fábrica, a maquinaria ditava as condições, a disciplina, a velocidade e a regularidade da jornada de trabalho, tornando-as equivalentes para o mais delicado e o mais forte. O dia de uma criança trabalhadora começava às cinco e meia da manhã. Levava para a fábrica apenas um pedaço de pão, seu único alimento até o meio-dia. O trabalho não terminava antes das sete ou oito horas da noite. No final da jornada, elas já estavam chorando ou adormecidas em pé, com as mãos sangrando por causa do atrito com os fios têxteis. Seus pais davam-lhes palmadas para mantê-Ias acordadas, enquanto os contramestres rondavam com correias. Nas fábricas rurais, dependentes da energia hidráulica, eram comuns os turnos à noite ou as jornadas de quatorze a dezesseis horas diárias, em épocas de muito trabalho.
Adaptado de: THOMPSON, E. P. Afonnação da classe operária inglesa. 3. ed. Rio de Janeiro, 2001. v. 11. p. 184-210.

f--

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= Pense

e responda

infantil foi um fenômeno comum aos países que ingressaram no capitalismo industrial. O Brasil de fins do século XIX e começo do século XXnão fugiu à regra. Atualmente, o trabalho infantil é uma realidade em várias regiões do Brasil. No capítulo 13 deste livro, abordamos esta questão com dados numéricos levantados pelo IBGE. Eram cerca de 5 milhões de menores trabalhadores em 2006. Qual a relação de seus alunos com o trabalho?

o trabalho

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€APÍlWr.o 1 A sociedade humana

TEXTO 2

Sociologia e sociedade industrial
que você vai ler agora, escrito pelo sociólogo alemão Ralph Dahrendod, analisa deforma crítica o conceito de sociedade industrial, muito em voga entre os sociólogos na segunda metade do século XX. Em sua crítica, Dahrendod aborda também o papel da Sociologia no mundo moderno. Depois de ler o texto, responda às questões propostas. A Revolução Industrial estava ainda em seus primeiros passos, mas já em fins do século XVIII alguns pensadores perceberam que estava em vias de aparecer uma nova sociedade em que a desigualdade humana seria considerada de um ponto de vista diferente do critério até então válido. A imposição da noção moderna da igualdade dos cidadãos no Estado e a formação de uma classe social fundada em sua posição econômica foram os estímulos fundamentais desta evolução intelectual que mais tarde desembocou na Sociologia científica. [...] A época da Revolução Industrial caracteriza-se pela queda daquele sistema privilegiado de desigualdade social, que designamos, de preferência, como ordem estamental [o autor se refere ao feudalismo, sistema vigente na Europa durante a Idade Média, anterior ao capitalismo. Veja o significado de estamento no Dicionário Básico de Sociologia no fim do livro]. No entanto, os pensadores do século XIX e começo do século XX perceberam que, com a queda da ordem estamental, não desapareceu a desigualdade entre os homens. Seu grande tema era a desigualdade como consequência da propriedade e do poder: a luta de classes e a sociedade que valoriza cada um segundo sua renda e posse. Hoje, entretanto, a imagem dominante sobre a estratificação social da sociedade industrial é caracterizada sobretudo por três aspectos: em primeiro lugar, fala-se de uma tendência ao nivelamento entre ricos e pobres. Argumenta-se quedesde a Revolução FranceL~~--

o texto

sa todos os homens gozam de um mesmo status fundamental: o de cidadão. Eliminaram-se na sociedade as diferenças de princípio entre os homens. As discrepâncias acidentais que ficaram já não são tão grandes como antes; a hierarquia na estratificação social se reduziu [sobre o conceito de estratíficação, veja o capítulo 9]. Em segundo lugar, encontramo-nos com uma forte concentração no campo médio dessa hierarquia reduzida [o autor se refere às classes médias]. Enquanto em todas as sociedades antigas a maioria dos homens se concentrava no estrato hierárquico inferior, uma imensa maioria ocupa hoje a posição média. [...] Quanto às diferenças restantes, podese afirmar, em terceiro lugar, que o indivíduo na sociedade industrial não se acha preso à sua posição social; pode mover-se livremente, descer e, sobretudo, subir de categoria [sobre mobilidade social, veja o capítulo 8]. Se não consegue ascender, seus filhos podem consegui-Io. [...] Na sociedade estamental a posição social do homem dependia de seu nascimento; na sociedade industrial do século XIX, o homem era o que tinha, isto é, sua situação social se determinava de acordo com suas rendas e posses. A sociedade industrial, em contrapartida, apoia-se sobre uma nova base de ordenação: agora o homem é o que ele consegue. A renda determina a situação social de cada um e as instituições do sistema educativo têm a missão de calibrar a capacidade de rendimento de cada indivíduo com o objetivo de dirigir
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CAPÍTULO 1 A sociedade humana

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cada um até a posição que lhe corresponde na sociedade. Todos têm idêntica oportunidade, uma vez que nem a origem nem a propriedade decidem hoje a situação social do indivíduo; a sociedade de consumo também conduz à eliminação da desigualdade. [Segundo essa concepção sociológica,] a sociedade industrial tem ainda uma quarta característica, que quase não falta nas análises sociológicas mais recentes e que é talvez a mais curiosa: na sociedade industrial desaparece o domínio do homem pelo homem, isto é, o instrumento mais eficaz de separação entre os de cima e os de baixo que aglutinava e desmembrava todas as sociedades antigas. Nesse sentido, hoje se fala muito da fábrica automática, na qual todas as relações de dominação se transformaram num programa de mecanismos dirigidos eletronicamente e onde ninguém dá ordens e ninguém obedece. [...] Dessa maneira, ninguém, na realidade, está por cima ou está subordinado; também no campo do poder e da servidão a sociedade industrial eliminou a desigualdade entre os homens. [...] O conceito de sociedade industrial [entendida como sociedade na qual vão desaparecendo as desigualdades sociais] contém um elemento de benévola generalização. Todas as diferenças particulares entre as distintas sociedades desaparecem dentro dele: as sociedades inglesa, norte-americana, alemã e francesa e logo também a soviética se fundem nele de um modo genérico, que promete a todos os países idêntica esperança [na época em que foi escrito este texto, a União Soviética era um país comunista, enquanto os Estados Unidos, a Alemanha e a França são países capitalistas. A União Soviética foi extinta em 1991. Veja as diferenças entre capitalismo e comunismo no capítulo 7]. Mas essas sociedades são, realmente, tão semelhantes? Não existiria uma falta de exatidão nesse conceito de sociedade industrial? Não seria ele uma tentativa de eliminar o problema das características particulares, e, menos agradáveis, da sociedade norte-americana, alemã ou russa? Não fica sem ser dito o fundamental, se nos aproximamos da realidade com essa inocente ideia geral da sociedade industrial? A Alemanha e a Inglaterra são sociedades industriais; mas a Inglaterra é a mãe da democracia liberal e a Alemanha é a mãe do moderno Estado autoritário [a referência é ao nazismo, regime totalitário que dominou a Alemanha entre 1933 e 1945]. Os Estados Unidos e a União Soviética são sociedades industriais e, sem dúvida, suas divergências caracterizam a nossa época. Estes não são problemas sociológicos? Parece-me que são até mesmo nossos problemas fundamentais. Mas, para resolvê-los, temos de nos liberar do mito idílico da sociedade industrial. Do mesmo modo, no que se refere a quaisquer sociedades determinadas, a sociedade industrial resulta num mito. Já não existe efetivamente a desigualdade entre os homens nas sociedades modernas? Ou, talvez, apenas se modificaram as formas dessa desigualdade? Não são também o tipo de carro, o lugar das férias, o estilo da habitação outros tantos símbolos efetivos e que deixam a marca da estratíficação social, como o eram os privilégios na sociedade estamentalz Não existem mais na sociedade atual os "de cima" e os "de baixo"? Admito que se trata de questões difíceis, que de maneira alguma podem ser respondidas com uma simples negação ou afirmação; mas creio poder afirmar que cada uma dessas perguntas nos revelaria um aspecto de nossa sociedade que não corresponde à imagem harmoniosa da sociedade industrial. [...] Por que razão, então, a tentativa constante de profetizar para um futuro próximo uma sociedade industrial justa e harmônica?

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CAPÍTULO 1 A sociedade humana

De que fontes se alimenta tal ciência? A quem ela serve? Aqui se nota claramente que a Sociologia moderna da sociedade industrial não é, na realidade, mais do que ideologia da camada burocrática e da pequena burguesia que denomina a si própria de "classe média" e que domina muitas sociedades modernas; camada a que também pertencem os próprios sociólogos [sobre o conceito de ideologia, ver o Dicionário Básico de Sociologia no fim do livro]. [...] Os manaqer: [gerentes e executivos] e os técnicos formam uma camada superior, uma classe dominante, a quem deve servir a ideologia harmônica da sociedade industrial. Pelo menos num ponto a moderna meritocracia de títulos e certificados continuou fielmente os

passos de seus antecessores: também necessita de uma ideologia que justifique a desigualdade. A Sociologia é a encarregada de oferecer essa ideologia com o mito da sociedade industrial. Não é uma casualidade que seja exatamente a Sociologia que procure esse reforço ideológico para a sociedade industrial. Os burocratas, manaqers e técnicos constituem um grupo dominante, "invisível", que evita cuidadosamente aparecer como tal. Necessitam, por isso, de uma ideologia o mais "neutra" possível, cujo caráter de justificação não seja patente a uma simples verificação, uma ideologia com a auréola da ciência.
Adaptado de: DAHRENDORF, Ralph. Sociologia e sociedade industrial. In. FORACCHI, Marialice e MARTINS, José de Souza (orgs.). Sociologia e sociedade. Rio de Janeiro: livros Técnicos e Científicos, 1977. p. 121-5.

I----tl:

Pense e responda
Qual é o principal objeto de crítica de Ralph Dahrendorf no texto que você acabou de ler? Cite um parágrafo em que esse objeto de crítica apareça claramente. O que o autor quis dizer com a frase: "a Sociologia moderna da sociedade industrial não é, na realidade, mais do que ideologia da camada burocrática e da pequena burguesia que denomina a si própria de 'classe média"'?

1.

2.

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