P. 1
Cavalieri Filho, Sergio - Programa de Sociologia Jur_dica

Cavalieri Filho, Sergio - Programa de Sociologia Jur_dica

5.0

|Views: 261|Likes:
Publicado porPriscilla Ferreira

More info:

Published by: Priscilla Ferreira on Sep 21, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

10/22/2015

pdf

text

original

PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

Edições anteriores Título até a 6ª edição: Você Conhece Sociologia Jurídica? 1ª edição – 1983 11ª edição – 2005 – 2ª tiragem 11ª edição – 2006 – 3ª tiragem

SERGIO CAVALIERI FILHO Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Professor da Universidade Estácio de Sá.

PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA
11ª edição revista e atualizada

Rio de Janeiro 2007

.

...................Conceito Sociológico do Direito ..................................... 209 Índice Alfabético-Remissivo ............................................................................................................................................................ 41 Capítulo VI .......... 195 Bibliografia ....Sistemas de Escolha dos Magistrados..... 163 Capítulo XIV ............................................................................... 97 Capítulo XI ................... 175 Capítulo XV .............Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica ..........Função Social do Direito ....................................... 1 Capítulo II ............. 185 Capítulo XVI ................................................................................................................... 31 Capítulo V ...................................... IX Capítulo I ............................................Razões Sociais das Garantias Constitucionais dos Magistrados .........................................................................Fontes do Direito ...........Direito e Anomia ...................................VII Apresentação ................................... 127 Capítulo XII ....... 57 Capítulo VII .................... 81 Capítulo X ...........Objeto da Sociologia Jurídica ......................................................O Método da Sociologia Jurídica .....................................................................................................................A Autonomia da Sociologia Jurídica como Ciência e suas Relações com Outras Ciências Sociais .......................... 149 Capítulo XIII ......................................................... 23 Capítulo IV ..........Fatores da Evolução do Direito .................................................................Importância do Estudo das Ciências Sociais e da Sociologia Jurídica em Especial ....................................................... 75 Capítulo IX ..................................................A Opinião Pública ........................................................................................................................................................................ 69 Capítulo VIII ........................................................................Aspectos Sócio-Jurídicos de Algumas Áreas do Sistema Jurídico Brasileiro ...............................Gênese do Direito..SUMÁRIO Abreviaturas e Siglas Usadas .........................................................................................Eficácia das Normas Jurídicas e seus Efeitos Sociais .. 217 ...................................................................................................................................... 211 Índice Sistemático .......................................... 11 Capítulo III ......................

Rev. EMERJ EUA ICEPS ICM INAMPS INPS IPI ISS OAB ob.-Lei ed. Ed. CDC CUT DAS DASP Dec. STF STM TRE TRT TSE artigo Código de Defesa do Consumidor Central Única dos Trabalhadores Divisão Anti-Seqüestro Departamento de Administração do Serviço Público Decreto Decreto-Lei edição Editora Escola de Magistratura do Rio de Janeiro Estados Unidos da América “International Center of Economic Penal Studies” Imposto sobre a Circulação de Mercadorias Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social Instituto Nacional de Previdência Social Imposto sobre Produtos Industrializados Instituto sobre Serviços Ordem dos Advogados do Brasil obra citada Organização das Nações Unidas página Pernambuco Professor Revista Supremo Tribunal Federal Superior Tribunal Militar Tribunal Regional Eleitoral Tribunais Regionais do Trabalho Tribunal Superior Eleitoral . PE Prof. Dec. ONU p.ABREVIATURAS E SIGLAS USADAS art. cit.

APRESENTAÇÃO Este trabalho foi escrito no início da década de 1980. estando agora em sua 11ª edição. por sua vez. Era preciso atualizar este trabalho. estará recompensado o esforço da sua revisão. não estarão aptos a aplicá-lo de forma a realizar a sua função social. O Jurídico se compõe de fato. perdese muitas vezes o sentido de sua finalidade social. Talvez tenha alcançado a sua finalidade porquanto a obra. não obstante despretensiosa.Você Conhece Sociologia Jurídica? . sob o título . entretanto. no exame diuturno da norma. nada mais do que a norma.Programa de Sociologia Jurídica. na aplicação da lei. . norma e valor indissociavelmente. aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum. inclusive uma nova Constituição que. valendo-me da feliz imagem de Antunes Varella. Se de alguma forma este trabalho continuar contribuindo para a melhor preparação dos nossos operadores do direito. A idéia de que o direito é norma. já que. tanto é assim que há norma expressa determinando ao juiz atender. todavia. já sofreu várias mudanças. ardorosamente defendida por Kelsen. o extraordinário Código de Defesa do Consumidor e o novo Código Civil. De lá para cá. o que procurei fazer agora sob o novo título . foi várias vezes reeditada. há muito está ultrapassada. não mudou: continua sendo uma tentativa de transmitir aos estudantes uma visão sociológica do direito.no propósito de facilitar o estudo dessa cadeira integrante do currículo do Curso de Direito da Universidade Estácio de Sá. O seu objetivo. “muita água correu debaixo das pontes do direito e inúmeros diplomas foram produzidos nas oficinas legislativas”. de sorte que se os operadores do direito não tiverem essa visão tridimensional do direito.

Fala-se em direito para indicar o conjunto sistemático de normas (constitucionais. Escola Teológica: origem da Escola Teológica. o conjunto de regras (leis. Escola Sociológica do Direito: origem e concepção sociológica do direito. à liberdade. como o direito à vida. por exemplo. administrativas etc. quando alguém diz que tem o direito a isso ou àquilo. Escola Racionalista ou Contratual: a concepção do direito do ponto de vista racionalista. à propriedade. É uma situação . Antes. No primeiro caso temos o Direito Objetivo. costumes) que preside à nossa vida em sociedade. No segundo. regulamentos. penais. à educação. para que depois possamos compreender a sua razão de ser e a função que desempenha na sociedade. a que conferem faculdades de agir. 1] exigir uma atuação alheia. a palavra direito indica o direito subjetivo de cada pessoa (física ou jurídica). é preciso dizer de que direito vamos tratar já que a palavra direito pode ser utilizada com significados diferentes.Capítulo I GÊNESE DO DIREITO Escola Jusnaturalista ou do Direito Natural: a origem do jusnaturalismo. porém. Escola Marxista: origem e concepção do direito. de fazer ou não fazer alguma coisa.) destinado a organizar a sociedade e disciplinar a conduta humana na convivência social. Costuma-se dizer que o Direito Objetivo é a norma de agir (norma agendi) e o direito subjetivo é a faculdade de agir (facultas agendi). estabelecer a sua fonte ou origem. civis. também chamado de Direito Positivo. à saúde e assim por diante. Essas normas são de direito objetivo porque vivem e sobrevivem fora e independentes das pessoas. **** Nossa primeira tarefa consiste em conhecer a gênese do Direito. Essa faculdade corresponde a espaços de liberdade ou a poderes para atuar ou [p. Escola Histórica do Direito. Mas também encontramos a palavra direito ligada ao direito de cada pessoa. ou seja.

que constituiriam o direito natural. sociólogos etc. até chegarmos àquela que mais se ajusta ao conteúdo da nossa matéria. Aristóteles. a fim de traçar-lhe o caminho a seguir e ditar-lhe a conduta a ser mantida. Sócrates. quando da criação. Em suma.. 1. 1. o criador teria inculcado em sua consciência um conjunto de princípios superiores. de modo a não permitir um entendimento uniforme até o Juízo Final. filósofos. plena e específica. e com minúscula quando indica o direito subjetivo. fazer um sucinto apanhado sobre as várias teorias ou escolas existentes. vale dizer. Seria como um sopro ético com que a Divindade bafejou a sua criação. esquecendo-se que pode ser ele enfocado através de pelo menos três aspectos diferentes. que a expôs eloqüentemente em sua obra. Platão etc. já que se trata de princípios imanentes ao próprio cosmos. permanentes. Por essas razões entendemos necessário. imutáveis. o mais entusiasta intérprete da filosofia grega entre os romanos. eternos. eternos e imutáveis. e base de todas as leis. . As principais características do direito natural seriam. portanto. o direito é um conjunto de idéias ou princípios superiores.jurídica subjetiva de vantagem a que o direito objetivo confere proteção direta. ponto de referência para se saber o que é justo ou injusto. ESCOLA JUSNATURALISTA OU DO DIREITO NATURAL Para os jusnaturalistas. como teremos oportunidade de assinalar. ao trazer à existência a criatura. outorgados ao homem pela divindade. teólogos. das regras que organizam a sociedade e disciplinam o comportamento social.1. A palavra Direito é normalmente escrita com letra maiúscula quando se refere ao Direito Objetivo. Origem do Jusnaturalismo A concepção do direito natural surge com os filósofos gregos . Em nosso estudo vamos tratar do Direito Objetivo.e foi adotada em Roma por Cícero. De .Heráclito. a estabilidade e a imutabilidade. Como nasce o Direito? Em tomo dessa questão existiu e ainda existe a mais acirrada controvérsia entre juristas. bom ou mau. antes de apresentarmos o enfoque da sociologia jurídica sobre a origem do Direito. A razão principal dessa controvérsia está no fato de cada qual procurar ver e conceituar o Direito pelo ângulo de visão de sua ciência. cuja origem estaria na Divindade. uniformes.

como por exemplo o decálogo que. mas escritas e outorgadas por Ele. É de instituição divina que não se possa propor ab-rogar essa lei e que não seja permitido derrogá-la. já que as primeiras leis não teriam sido simplesmente inspiradas por Deus. Manu. de origem quase legendária. conforme a natureza. 2] ra. permanentes e imutáveis. que foram os intermediários entre a Divindade e o povo no que diz respeito ao recebimento das primeiras leis. no entanto. para o qual existiriam três categorias de direito. baseado nas Escrituras e nas . hoje. eterna. No seu entender. lei única e eterna e imutável. como Moisés.. em todas as nações e para todos os tempos. mas sim. mas sim diretamente.. constante. foi escrito pelo próprio dedo de Jeová. Em suma.República: “Existe uma lei verdadei. Origem da Escola Teológica A Escola Teológica coexistiu com a Jusnaturalista durante toda a antigüidade. Em quase todos os povos antigos encontramos líderes político-religiosos. entregando-as ao homem para serem observadas.1. pois também concebe o direito como um conjunto de princípios eternos.. não muda por suas ordens nem por suas proibições os maus. por isso que coloca em destaque a origem divina do direito e o seu caráter permanente e imutável. ela será para todas as nações e para todos os tempos... a própria Divindade teria se empenhado em elaborar as primeiras leis. em duas tábuas de pedra. a origem do direito não estaria ligada apenas indiretamente à Divindade. que apela para o que devemos fazer. amanhã. ESCOLA TEOLÓGICA A Escola Teológica em muito se assemelha à Jusnaturalista. Sólon etc. difusa em todos. a saber: o direito divino. e entregue a Moisés. ontem. A concepção do direito se explana dentro do sistema filosófico de São Tomás de Aquino. que ela proíbe.. 2. não é diferente hoje nem será amanhã. Com o aparecimento do Cristianismo. ordenando-o. 2. ela não é diferente em Roma ou em Atenas. e que desvia do mal. o estudo do direito voltou a ser abrangido pela religião e continuou a ser considerado manifestação da vontade divina.. que. se não ordena nem proíbe em vão aos bons. reta razão. segundo a narração bíblica. entretanto. semideuses. sobre o Monte Sinai. Hamurabi.[p. “ Esse trecho de Cícero sintetiza com precisão a concepção jusnaturalista. Não é preciso procurar um Élio Sexto para comentar ou interpretar.

São Tomás de Aquino tratou de explicar que a primeira. Quanto ao direito natural.decisões dos Papas e de [p. divino ou terreno. John Locke. culminando com Jean Jacques Rousseau. só existe no espírito divino. O Direito positivo. duas são as categorias de direito. que em quase nada se diferencia do direito natural apregoado pelos gregos e romanos. autores de obras notáveis. lei natural e lei humana). como foi ilustrado por Daniel De Föe na conhecida história de Robinson Crusoé. publicada pela primeira vez em 1625). embora tenha como conteúdo a lei natural.1. O caráter permanente e imutável do direito decorreria do fato de ser a natureza racional do homem igual por toda a parte. do jusnaturalismo. decorreria do pacto social a que o homem fora levado a celebrar para viver em coletividade. [p. e a terceira. a saber: a do direito natural e a do Direito positivo. o direito natural. o célebre “contrato social” que serve de título a um dos livros mais famosos de Rousseau. continuaria sendo um conjunto de princípios permanentes. Para sair do isolamento.imutável diante de qualquer vontade divina ou humana. As relações dos homens em sociedade seriam disciplinadas pelas regras do direito positivo. não mais seria a divindade. em todos os tempos. 3. 4] . A origem desse direito. a segunda é existente entre os homens por intuição. por provir de Deus. mas sim a natureza racional do homem . a mais importante figura do liberalismo dessa época. Grotius (De Iure Belli ac Pacis. em conseqüência. e da qual decorreriam princípios que. ou órbitas jurídicas. neste ponto. por cujo intermédio aplicam-se os princípios da lei natural. ESCOLA RACIONALISTA OU CONTRATUAL Na Escola Racionalista ou Contratual agrupamos vários filósofos. A Concepção do Direito do Ponto de Vista Racionalista Para os racionalistas. fundando a sociedade através de um pacto. No início o homem teria sido isolado. por sua vez. entretanto. os homens tiveram a idéia de viver juntos. 3. a começar por H. Puffendorf. estáveis e imutáveis. Montesquieu (Espírito das Leis). autor da conhecida obra Contrato Social. e o direito humano. seguido por Thomas Hobbes (autor de o Leviathan). Thomasius. 3] Concílios. é produto dos homens. não se distinguindo. nenhum poder. Reunindo esses três tipos (lei divina. alcançaria mudar.

ao passo que em outras o número de palavras é ainda reduzido por causa da estagnação da vida social. decorrente das necessidades e usos do povo. quando o direito era considerado pura criação da razão humana. ao admitir que o direito natural tem origem na natureza racional do homem. como se vê. o Direito era um produto histórico. Esta escola. 5] . A formação do Direito seria tão natural e espontânea como a origem da linguagem. Embora se tenha pensado que a linguagem fora criada por Deus. sujeito a transformações progressivas. Em ocorrendo tal afastamento. como a linguagem. superior. Pela primeira vez. mas sim da consciência coletiva dos povos (Volks geist). não da divindade ou da razão. tal como há entre o espírito e o corpo. haveria entretanto uma íntima e estreita relação. e serve de fundamento para o segundo. A escola inicia as suas atividades em pleno apogeu do neo-humanismo. Também o Direito se constituíra naturalmente. essa escola rebelou-se contra a existência de um direito natural. ou era resultado de um acordo entre os homens. aquele conjunto de princípios imutáveis decorrente da razão. impõe-se a imediata reformulação do Direito positivo a fim de ajustá-lo aos imutáveis princípios do direito natural. 4.de Deus para a própria razão do homem. Em vez de indagar o que deveria ser o direito. a sombra e a realidade. Para ela. no final do século XVIII e começo do século XIX. a filosofia demonstrava que sua gênese. por força das necessidades e usos do povo. Equivale isso a dizer que o Direito positivo deve respeitar os princípios fundamentais do direito natural por lhe serem superiores. não podendo deles se afastar sem se tomar injusto e iníquo. o processo de sua formação foi gradativo e paulatino. visto que o primeiro é anterior. Inúmeros vocábulos surgem em uma língua à medida que vão se tornando mais complexas as relações sociais. formado gradativa e paulatinamente pelas tradições e costumes.Entre o direito natural. permanente e imutável. deslocou pela primeira vez a sua fonte . [p. tendo como principais protagonistas Gustavo Hugo e Frederico Charles de Savigny. ESCOLA HISTÓRICA DO DIREITO A Escola Histórica do Direito surgiu na Alemanha. passou a pesquisar como se formava nas sociedades. este último considerado o seu fundador. decorrente. e o Direito positivo.

fez seus estudos na Faculdade de Direito de Berlim. mas sim pela consciência nacional do povo. 5. p. nem revelado por Deus. com uma fonte emanadora do preceito jurídico e um órgão capaz de impor o cumprimento de suas prescrições. Como assinala Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito.política. de seus usos. Surge somente quando há uma sociedade . mais economistas do que juristas. foi neles que se inspirou para formar suas idéias sobre o direito. com a diferença essencial de que o Estado para ele é uma instituição . aplicando uma regra a uma situação preexistente. A escola mostrou que os fundamentos do direito se encontram na vida social. que incide sobre diferentes pessoas. foi afastar a concepção do direito natural. “é conquista definitiva da Escola Histórica a noção do caráter social dos fenômenos jurídicos. nem estabelecido arbitrariamente pela vontade dos homens. como se vê. jurídica e economicamente organizada. sujeito a permanente e natural evolução. nem pela razão. ainda que sejam em tudo desiguais. sendo igualmente filósofo. Seduzido pelos ensinamentos de Hegel. Fixa o Direito. o Direito pressupõe o Estado.Karl Marx e Friedrich Engels . 5. 276). expressão natural de sua evolução histórica. razão pela qual Marx o considerava a expressão do interesse da classe dominante. acima de tudo. ESCOLA MARXISTA A teoria marxista surgiu em meados do século XIX. que também une intimamente o Direito ao Estado. A grande preocupação da Escola Histórica. regra essa única.Seguindo essa linha de raciocínio.dois grandes reformadores sociais. Marx. Eram esses fundamentos que as teorias precedentes iam buscar na razão”. as relações econômicas que predominam em uma sociedade em certo momento histórico. entendia Savigny que.1. Origem e Concepção do Direito Para a teoria marxista. com seus dois elementos essenciais: continuidade e transformação. cada povo em cada época teria o seu próprio direito. [p. pelo que se esforçou em demonstrar que o direito era um produto histórico. Isso significa que o Direito apenas sanciona uma relação já existente. entretanto. costumes e tradições de todas as épocas passadas. em vez de um direito geral e universal. instrumento ideológico de dominação da burguesia sobre o proletariado. 6] Essa concepção do Direito deve muito a Regel. enunciada por dois pensadores alemães .

mas sim corrigi-la. quase divina. a proteção da saúde e da segurança públicas etc. É falso. já existiam regras disciplinadoras do relacionamento social. assume uma infinidade de funções que visam o bem-estar público: a distribuição da justiça. mas. Esse direito. sendo errônea a idéia de que. neste modesto trabalho. fazer críticas a qualquer das teorias examinadas. por exemplo. hostilizaram-se mesmo. o Estado é instrumento de pressão. Não é esta efetivamente a finalidade do Estado. Em tempo algum uma sociedade. Tal posição. desde que apareça a sociedade. a divulgação da instrução. manifestando-se essencialmente através dos costumes. não em Deus. pôde viver sem normas de conduta. que deve ser combatido por todos os meios e finalmente destruído. sobretudo o Estado moderno. em grande parte sentimental. ESCOLA SOCIOLÓGICA DO DIREITO A Sociologia e o Direito durante muito tempo ignoraram-se mutuamente. a fim de facilitar desde logo a compreensão de questões que oportunamente serão abordadas. que tem por missão manter a ordem e a paz na sociedade. O encontro entre as duas ciências ocorreu paulatinamente a partir de . por mais homogênea que tenha sido. Simplesmente porque existe moeda falsa não se deve acabar com a verdadeira. Se aqui ou acolá o Estado divorciou-se de suas verdadeiras finalidades. indiscutivelmente. apresenta caracteres particulares. fazendo-a voltar aos seus reais objetivos. Não tem valor igualmente o pressuposto de que haja um substrato eterno. Na síntese da teoria marxista. aí fatalmente encontraremos o Direito (ubi societas. e pelo apoio que a classe dirigente concedia aos capitalistas beneficiários desse regime. e que não existe direito nas sociedades chamadas primitivas. é explicada pelo espetáculo da miséria que grassava na época. o Estado. não existindo Direito sem Estado nem Estado sem Direito. o Direito tem origem. e por isso devendo ser combatido e destruído. entendemos necessárias algumas considerações sobre a teoria marxista. [p.eminentemente respeitável. ao passo que para Marx. muito antes da sociedade se organizar política e juridicamente. Não menos falsa e truncada é a afirmação de ser o Estado instrumento de pressão da classe dominante sobre a menos favorecida. que constitua o cerne essencial e perene do direito. ibi jus). afirmar que todo Direito emana do Estado. Embora não seja nosso propósito. mesmo antes de existir o Estado. Ao lado da manutenção da ordem estabelecida. Qualquer observador é capaz de constatar que muito antes de existir o Estado. nem na razão ou na consciência coletiva. é verdade. nem por isso deve-se eliminar a instituição. mas no Estado. sobretudo nas regiões industriais que Marx pôde conhecer. 7] 6. é direito.

6. [p. Além de Durkheim. práticas e condutas que refletem os seus costumes. normas de disciplinamento da vida em coletividade. A sociedade. é fonte criadora e área de ação do Direito. A razão disso é bastante simples: sendo o homem um ser social. A sua causa material está nas relações de vida. Depois da Segunda Guerra Mundial verificou-se uma ligação mais ativa e fecunda entre sociólogos e juristas. complexo de pessoas e coisas. o meio em que o Direito surge e se desenvolve. Origem e Concepção Sociológica do Direito Para a Escola Sociológica. seu foco de convergência. o Direito deve ser estabelecido à sua imagem. Sem ser jurista. Ele existe na sociedade. nos acontecimentos mais importantes para a vida social. cuja elaboração é lenta e espontânea da vida social. entendendo-se como tais os acontecimentos da vida em sociedade. merecem destaque Léon Duguit e Nordi Greco. o conjunto de normas que regulam a vida social.Principles of Sociology. Passando por vários autores. maneiras de agir. orientando a vida coletiva. refletindo os fatos sociais. Obrigados a viver necessariamente ao lado uns dos outros. entre os fundadores da Escola Sociológica. o Direito tem a sua origem nos fatos sociais. Esta organização pressupõe regras de comportamento que permitam a convivência social. mas sim filósofo. E o Direito não pode formar-se alheio a esses fatos por ser um fenômeno decorrente do próprio convívio do homem em sociedade. carecemos de regras de proceder. de pensar e de sentir. A sociedade humana é. portanto. justamente.1. sentimentos e cultura. . necessita de uma organização que. 8] Paulo Nader sintetiza com maestria essa visão sociológica: “Direito e sociedade são entidades congênitas e que se pressupõem. razão pela qual cada povo tem a sua história e seus fatos sociais. discipline a atividade dos indivíduos. quando foi publicada a obra de Herbert Spencer . conforme as suas peculiaridades. onde há um capítulo dedicado às leis. não pode viver isolado. provindo da consciência das relações entre os indivíduos. a quem coube o trabalho de fixar definitivamente as relações entre o direito e a sociologia. no entendimento de Émile Durkheim. ao mesmo tempo. A sociedade. pois a idéia do direito liga-se à idéia de conduta e de organização.1882. cuja história não passa de utopia. como Robinson Crusoé em sua ilha. Costumes diferentes implicam fatos sociais diferentes. que significam. O Direito é. Existindo em função da sociedade. coube-lhe o mérito de ter reconhecido e evidenciado a natureza eminentemente social do direito. valores. tradições. O Direito não tem existência em si próprio. culmina nos últimos anos do século XIX com Émile Durkheim.

teria o seu fim. uma relação dialética com a realidade social. cit. nem na consciência do povo. pp. O Direito foi democratizado quando passou a ter origem na sociedade.. e não da natureza física ou do mero psiquismo dos seres humanos. p. O que caracteriza a Escola Sociológica é. não haveria o direito sem sociedade. não como tendo origem em Deus. Mas a recíproca é também verdadeira: ubi jus. Saraiva. a ele tinham acesso os sábios. pois. Forense. pois o mundo do direito é o das relações entre os homens. 6/7). 25/26). Assevera o Mestre Miguel Reale: “O Direito não existe senão na sociedade e não pode ser concebido fora dela. 25). Direito é realidade da vida social. jamais poderia germinar em sua consciência a idéia do direito. O Direito tem. Em suma. mais especificamente. As normas do Direito são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo no grupo. Responsabilidade Civil do Produtor. Com efeito.. filósofos e juristas. o que permitiu que se afirmasse: “Não existe o direito e o fato. O Direito é a [p. Enquanto teve por fundamento a razão. Coimbra. normas ditadas pelas próprias necessidades e conveniências sociais. dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (Introdução ao Estudo do Direito. Uma de suas características é asocialidade. 21a ed. com os fatos que nela ocorrem. considerar o Direito. a sua qualidade de ser social” (Lições Preliminares de Direito. nem na razão. seria anárquica. segundo a forma exata de Sforza. A democratização do Direito pode ser apontada como uma das mais relevantes conseqüências da Escola Sociológica. 2). Se o homem não vivesse em sociedade. e nem ainda no Estado mas sim na sociedade. O Direito é para a Sociologia Jurídica uma ciência essencialmente social. a vinculação entre ambas é tal que um não pode existir sem o outro. ibi societas . Daí a veracidade de antigo brocado: ubi societas. ibi jus onde está a sociedade está o Direito. mas sim variáveis c em constante mudança. pp. Almedina. como o são os grupos onde se originam.onde está o Direito está a sociedade -. oriunda da sociedade e para a sociedade. sacerdotes e altas castas sociais a ele tinham acesso.exteriores ao indivíduo. 12a ed. nas inter-relações sociais. o fato e o direito existem enquanto coexistem” (João Calvão da Silva. p. Criado pelo homem. para corrigir a sua imperfeição. enquanto o Direito teve origem divina apenas os nobres. O acesso à Justiça passou a ser a sua . as relações sociais. Não são regras imutáveis e quase sagradas. o Direito representa o grande esforço para adaptar o necessidades de vida” (ob. pois. portanto. 1990. 9] grande coluna que sustenta a sociedade. Dignas de destaque as palavras do insigne Paulo Nader: “A sociedade sem o Direito não resistiria..

principal finalidade. é aquela que se concilia inteiramente com o conteúdo de nossa matéria. o Direito ganhou as ruas. como não poderia deixar de ser. razão pela qual serve-lhe de base doutrinária. 10] . as praças e fez-se linguagem de todo o povo. o povo passou a ter consciência dos seus direitos como aspecto da cidadania. A Escola Sociológica. [p.

que deita fora o resto do seu [p. nas inter-relações sociais. **** O Direito do ponto de vista sociológico é. Função compositiva do direito. abandonando uma coisa sua. uma peculiaridade da sociedade humana. É difícil praticarmos um ato que não tenha repercussão no mundo do direito.mas sim na própria sociedade. I. tampouco no Estado . Atividades de cooperação e de concorrência. 7. O conflito de interesse e sua composição. pp. critério autoritário. Características da atividade de concorrência.Capítulo II FUNÇÃO SOCIAL DO DIREITO A presença do direito na sociedade. nem na razão. pratica. 11] cigarro ou charuto. que apanha na praia a concha preciosa trazida pelas ondas. trata-se de uma ciência essencialmente social. A função social do Direito na atual ordem jurídica brasileira. 11/12). nem na consciência coletiva dos povos. embora ignore. a satio. não na Divindade. Como lembrou Ruggiero (Inst. e como tal tem sua origem. A PRESENÇA DO DIREITO NA SOCIEDADE Nem todos têm idéia de quanto o Direito se faz presente no meio social. de Direito Civil. o camponês que. conforme vimos no capítulo anterior. Função preventiva do direito. Por conseguinte. pratica uma ocupatio. semeando o seu campo. deixa cair algumas sementes sobre o campo vizinho. pois dá origem a uma figura de acessão. O banhista. de como está entrosado com quase tudo que se passa na sociedade. O fumante. vol. participando das mais simples às mais complexas relações sociais. critério da composição jurídica e suas características. adquirindo a propriedade duma res nullius. realiza um ato de derelicto. Critérios de composição de conflitos: composição voluntária. tomando o vizinho proprietário da semente lançada e dos seus eventuais frutos. . um fato social. um ato jurídico.

segundo a magistral lição de San Tiago Dantas. Atividades de Cooperação e de Concorrência As atividades humanas assumem formas múltiplas. entretanto. pelo restante de sua sobrevida. tudo aquilo que a vítima efetivamente perder e aquilo que deixar de ganhar em razão do acidente. realiza um contrato de compra e venda. Diariamente.1. O mesmo se diga do indivíduo que tem um prédio e. envolvendo danos emergentes e lucros cessantes. quando adquire uma simples caixa de fósforo no quiosque ou gêneros alimentícios no supermercado. propõe-se a ceder seu uso a outrem. E se por infelicidade ocorrer um acidente do qual resulte lesão ou morte para alguém. 12] em adquiri-las. Exemplo de atividade de cooperação é a do vendedor e a do comprador: o vendedor tem mercadorias para vender e o comprador tem interesse [p. Para bem compreendermos a função social do Direito. através do qual. o Metrô. um contrato de transporte. mediante o pagamento . isto é. não precisando usá-la para sua própria moradia ou instalação. a dona de casa. as suas características e o que podem gerar. 7. necessita delas. quando milhares de pessoas tomam o trem. mas todas elas. As primeiras caracterizam-se pela convergência de interesses. como a família e o Estado. até inconscientemente. econômicas ou não. Envolvem fins ou objetivos comuns. Um indivíduo desenvolve uma atividade qualquer. ou outro qualquer transporte público. Como se vê. temos antes que analisar as atividades que o indivíduo desenvolve na sociedade. e à medida que se empenha na realização dos seus interesses. será a transportadora obrigada a indenizar os prejuízos. quer se trate de relações entre indivíduos. coopera na realização dos interesses dos outros. o Direito invade e domina a vida social desde as mais humildes às mais solenes manifestações. quer se trate ainda de relações entre os próprios grupos. segundo as regras do direito.Tenha ou não consciência disso. Os interesses dos dois convergem para um ponto comum. a transportadora se obriga a levá-los incólumes ao ponto de destino. ônibus. podem ser reduzidas a dois tipos: atividades de cooperação e atividades de concorrência. quer entre o indivíduo e o grupo social. cooperando assim cada qual na realização do interesse do outro. Graficamente podem ser ilustradas assim: >. Por que o Direito se faz assim presente na sociedade? Qual é a sua função social? É o que procuramos responder neste capítulo. realizam. de que o outro diretamente se aproveita. mediante o simples pagamento da passagem.

uma concorrência. 8. de sorte que. Dois comerciantes. nunca se encontram. sem a interferência ou colaboração do outro. e surge o conflito. Na competição há uma disputa. O médico. em posição de competidor ou concorrente. A interação.de aluguel. coopera na realização do interesse do outro. uma visando a exclusão da outra. Nelas. o advogado e outros profissionais liberais desenvolvem este tipo de atividade em relação aos seus clientes. Outro exemplo encontramos em dois proprietários de prédios vizinhos: cada um pode usar sua propriedade como quiser. no sentido de que perseguem. fins semelhantes.. dois indivíduos. ainda que concorram entre si. Há reciprocidade de interesses entre o locador e o locatário. São concorrentes. sob muitos aspectos. Procura então o vendedor para devolver o material e receber de volta o valor pago. necessitando de um prédio para morar. à medida que cada qual desenvolve sua atividade. que os colocam. Graficamente podem ser ilustradas assim: =. esta forma revela atividades paralelas. Nesse momento rompe-se o perfeito equilíbrio que deveria haver na atividade de cooperação. desenvolvem atividades independentes. 7. verifica o comprador que há algum defeito que impede ou prejudica seu uso. 13] após pagar o preço e receber a mercadoria. propõe-se a pagar o aluguel pretendido pelo locador. Outro indivíduo. [p. 23). Características da Atividade de Concorrência Há paralelismo nas atividades de concorrência. independentemente. em que as partes procuram obter o que almejam. em que cada pessoa ou grupo procura reunir os melhores trunfos. Uma das grandes características da sociedade moderna. cit. por sua vez. se faz indiretamente e. para a consecução de seus objetivos. A interação se manifesta direta e positiva. ou para obter outra mercadoria em perfeito estado. mas este se recusa a atendê-lo. por exemplo. p. . nesta espécie. paralelas. um em relação ao outro. positiva (ob. já que não o possui. pois não convergem para um interesse comum. A lição de Paulo Nader bem sintetiza o que dissemos até aqui: “Na cooperação as pessoas estão movidas por um mesmo objetivo e valor e por isso conjugam o seu esforço. estabelecidos na mesma rua e no mesmo ramo de comércio. dão-nos um exemplo de atividade de concorrência: eles poderão explorar seu comércio indefinidamente sem entrar em choque. Na atividade de cooperação.2. O CONFLITO DE INTERESSE E A SUA COMPOSIÇÃO Tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência podem ocorrer conflitos de interesses. embora tenham objetivos idênticos.

estaremos diante de um conflito de atividades de concorrência. danifica os móveis. entretanto. Lembram-se dos proprietários de prédios vizinhos? Vimos que cada um pode usar seu imóvel como melhor lhe parecer: residir nele. coloca-o a par da situação. Cada qual poderá também usar seu imóvel como bem lhe convier. ou buscam a mediação da justiça. que seus produtos são de baixa qualidade. enquanto não transpuserem os limites daquilo que lhes é lícito. O condômino prejudicado [p. alugá-lo. Sobre o tema. é característico da atividade de concorrência. muito constante nas grandes cidades. Estará rompida a convergência de interesses existente no momento da celebração do contrato e. o caso de dois condôminos residentes no mesmo prédio. e com isso ganhar a clientela do outro. Suponhamos por exemplo que o proprietário do imóvel A nele instale uma fábrica que solta fumaça e fuligem. na verdade nada faz.. surge um conflito. apesar de concorrentes. ambos situados num bairro industrial e exercendo atividades lícitas. um no apartamento 201 e o outro no andar imediatamente superior. o imóvel do andar superior começa a apresentar vazamento no imóvel inferior: umedece as paredes. Se o proprietário do imóvel A mantiver em funcionamento sua fábrica. e o proprietário do imóvel B aí se estabeleça com uma lavanderia. mas este. prejudica o conforto dos que nele residem. ambos estarão em conflito. Podemos defini-lo como . dizendo. moral ou física. Pode um deles até vender mais barato que o outro. solicita-lhe uma providência.Pensemos agora no caso do inquilino que. a lavanderia do imóvel B não poderá funcionar. instalar-se comercialmente etc. Conflitos surgem igualmente nas atividades de concorrência. Paulo Nader pondera com propriedade: “O conflito se faz presente a partir do impasse quando os interesses em jogo não logram uma solução pelo diálogo e as partes recorrem à luta. no apartamento 301. ou oferecer melhores produtos. quando as partes vão além daquilo que lhes é lícito fazer no campo do seu próprio interesse. a despeito de insistentemente procurado pelo locador. continuarão em harmonia. estabelecidos na mesma rua com o mesmo gênero de comércio. Um belo dia. após firmar contrato de locação e alojar-se no imóvel. Este tipo de conflito. Consideremos. que a sua honestidade é questionável etc. Entre esses dois estabelecimentos comerciais. embora prometa resolver o problema. No momento porém em que o comerciante A resolver fazer uma concorrência indevida ou desleal ao comerciante B. onde há uma infinidade de condomínios. por exemplo. Aqueles dois comerciantes. a partir de então. por último. 14] procura o proprietário do imóvel superior por várias vezes. recusa-se a pagar os aluguéis convencionados.

mais se sujeita a novas formas de conflito e o resultado é o que hoje se verifica. O Direito só irá disciplinar as formas de cooperação e competição onde houver relação potencialmente conflituosa. . a colisão de interesses. p. Muita gente acredita que o Direito tem um caráter essencialmente repressivo. 25). À medida que cada um respeitar o disciplinamento estabelecido pelo Direito. tanto quanto possível. 9. algumas de suas qualidades” (ob. O que determina a natureza do conflito é a natureza da atividade. No conflito a interação é direta e negativa. tranqüilidade. tudo faz para evitar ou prevenir o conflito. cit. quebra o equilíbrio e a paz social. O Direito existe muito mais para prevenir do que para corrigir. os que se verificam na atividade de concorrência. cit. repetidamente citado: “O Direito está em função da vida social. evitará entrar em conflito com outrem na sociedade. vendedor e comprador. por sua vez. os que ocorrem na atividade de cooperação. o ordenamento jurídico toma possíveis os nexos de cooperação. [p. FUNÇÃO PREVENTIVA DO DIREITO O conflito gera o litígio e este. segundo valores de convivência que a própria sociedade elege.oposição de interesses. não conciliados pelas normas sociais.. simplicidade e concisão de suas regras. A sua finalidade é a de favorecer o amplo relacionamento entre as pessoas e os grupos sociais. muito mais para evitar que os conflitos ocorram do que para compô-los. Ao separar o lícito do ilícito. Quanto mais complexa a sociedade. Isto se faz mediante a exata definição do Direito. para todos. como alguém afirmou. e aí está a primeira e principal função social do Direito . enfim.prevenir conflitos: evitar.. quanto mais se desenvolve. O Direito previne conflitos através de um conveniente disciplinamento social. estabelecendo as limitações necessárias ao equilíbrio e à justiça nas relações.” Aduz que a função preventiva é exercida para “evitar desinteligências quanto aos direitos que cada parte julga ser portadora. podendo-se até dizer que lhe são imanentes. estabelecendo regras de conduta na sociedade: direitos e deveres para locador e locatário. A sociedade não tolera o estado litigioso porque necessita de ordem. 23). p. mas na realidade assim não é. em que o maior desafio não é o de como viver e sim o da convivência” (ob. Todos os conflitos que podem surgir na vida social são redutíveis a um desses tipos: conflitos de cooperação. que deve ter na clareza. entre pessoas ou grupos.” Conclui o prestigiado autor: “Os conflitos são fenômenos naturais à sociedade. que é uma das bases do progresso da sociedade. Por isso. equilíbrio em suas relações. e conflitos de concorrência. 15] Esse é também o entendimento de Paulo Nader.

maior também a necessidade de disciplina e organização. a colaboração. as desavenças. quanto mais complexas as relações sociais. pondera Paulo Nader. Ela se faz por um amplo relacionamento humano. e. Superar um conflito de interesses é aquilo que chamamos composição.O Direito. que vão reclamar soluções. 16] amor. Vivendo em ambiente comum. respeitar direitos e interesses dos outros. a intolerância. Suas normas são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo na sociedade. portanto. os conflitos seriam tão freqüentes de modo a tomar impossível a vida em coletividade. E como ocorrem! Basta entrar numa Vara de Família para se ter consciência dos conflitos que estão ocorrendo no lar. igualmente. cit. Se o indivíduo vivesse só. comportar-se.. de sangue. Pois bem: surgindo o conflito. acolá. porque nem todos na sociedade submetem-se à disciplina imposta pelo Direito. todas objetivando prevenir conflitos. o [p. pais. a discórdia. 25). o menor e mais forte grupo social. Sem essas normas de conduta. lamentavelmente. com inúmeras normas de direito disciplinando as relações dos cônjuges. . E aí está a segunda grande função social do Direito: compor conflitos. Quanto maior o relacionamento. Até mesmo na família. vejam só. Vivendo porém em grupo precisa limitar-se. maior será a possibilidade de conflito. é inevitável. A sociedade reclama que as coisas sejam repostas num ponto de equilíbrio em que possam permanecer.. Aqui é um vendedor que recebe o preço mas não quer entregar a coisa. FUNÇÃO COMPOSITIVA DO DIREITO A observância das normas previne muitas ocorrências. a sociedade não é simples aglomeração de pessoas. os membros ligados por vínculos de afeição. Os litígios surgidos criam para o homem as necessidades de segurança e de justiça” (ob. visando atender uma necessidade social. possuindo idênticos instintos e necessidades. que gera a amizade. alegrias e sofrimentos do homem. 10. é natural o aparecimento de conflitos sociais. mas o conflito. estes acabam por ocorrer. isolado. pois poderia viver e fazer o que bem entendesse. “Cenário de lutas. não necessitaria de regras de conduta. é uma ciência social. como vemos mais uma vez. p. um locatário que não quer pagar o aluguel e assim por diante. filhos etc. mas que promove. há que solucioná-lo.

a rigor. p. Surgindo o conflito. imediatamente. formas puras de composição voluntária. O Código de Processo Civil também estabelece uma audiência prévia de conciliação tanto no procedimento sumário (arts. Houve um conflito de interesses . CRITÉRIOS DE COMPOSIÇÃO DE CONFLITOS 1) Critério da composição voluntária.099/95) prevê expressamente (arts. 25). as partes discutem entre si e o resolvem da melhor maneira possível. substitui o livro defeituoso por outro perfeito. A mais moderna legislação processual no mundo todo tem estimulado a composição voluntária como forma de aliviar a sobrecarga do Judiciário. Esse é o sentido de toda composição. volta à livraria. quase sempre atentando para os próprios deveres e obrigações estatuídos pelas normas do direito. 17] conciliadores. por exemplo. por mais que se procure preveni-lo. 2) Critério autoritário. da qual poderão valer-se todas as pessoas capazes de contratar para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis. como já vimos. determinar a restauração da situação anterior ou aplicar penalidades de diferentes tipos” (Paulo Nader.o conciliador ou o árbitro. 11. é impossível. O estudante. então. O Critério da Composição Voluntária É aquele que se estabelece pelo mútuo acordo das partes. cit. conduzi da via de regra por [p.1. . A maneira de solucionar o conflito é. Temos ainda a Lei de Arbitragem (Lei nº 9. 3) Critério da composição jurídica. a Lei dos Juizados Especiais (Lei nº 9. seja para definir o titular do direito. Ao chegar em casa observa que lhe faltam algumas páginas. Não se pode evitar o conflito. uma vez que sempre contarão com a interferência de um terceiro . e determinar qual o que deve prevalecer e qual o que deve ser reprimido.Em que consiste a composição de um conflito? Não consiste em fazer desaparecer o conflito.307/96). todavia.resolvido por meio da composição voluntária. porque isso. 21 a 24) uma fase de conciliação. antes da causa ser submetida ao julgamento do juiz togado. 277/278) como no ordinário (art. colocar os dois interesses em antagonismo na balança. São.. reclama ao vendedor e este. entra numa livraria e compra um livro. ob. 331). No Brasil. A conciliação e a arbitragem não são. “O Direito apresenta solução de acordo com a natureza do caso. formas mistas que estimulam e valorizam a participação dos litigantes na composição do conflito. 11.

parentes. .3. Normalmente a autoridade lança mão do seu foro íntimo. disse. e aplicável a todos os casos que ocorrerem a [p. Estes dois critérios. empregados etc. Deve ter sido elaborado antes para poder ser aplicado ao conflito que ocorrer depois. Na sociedade de hoje o critério autoritário é ainda utilizado no meio familiar. O Critério Autoritário Por esse critério. entretanto. Senhor etc.2. saímos do domínio do puro autoritarismo e entramos no domínio do direito. são imperfeitos e insuficientes para resolver conflitos de interesses que surgem nas sociedades humanas. o poder de compor os conflitos de interesses que ocorrem entre os indivíduos que se encontram sob sua autoridade. O chefe da família muitas vezes tem de resolver os conflitos de interesses que surgem entre os seus membros. preferindo que seu filho. e implica em dizer que o critério aplicado preexiste ao conflito. para desempenhar a tarefa de compor conflitos. A anterioridade é o traço característico e fundamental da composição jurídica. alguns casos de composição tomaram-se famosos. lançando mão de soluções que vai buscar em seu foro íntimo. daquilo que a consciência lhe inspira. Todos por certo já ouvimos falar na justiça salomônica. Assim pôde constatar qual era a mãe verdadeira . São pois características do critério jurídico . Foi uma solução tirada por Salomão do seu foro íntimo e que. a publicidade e a universalidade. 18] partir de então. cabe ao chefe do grupo . ambas reclamando-a como filho.aquela que imediatamente se opôs à idéia.. 11. bem solucionou o conflito.a anterioridade. do próprio senso de Justiça. no caso. justamente aquele que mais nos interessa.. Graças à anterioridade.Rei. iria cortar a criança ao meio. quando estas atingem sua forma plenamente evoluída. vivo. Muito usado este critério nas sociedades antigas. O Critério da Composição Jurídica e suas Características A composição jurídica é sempre feita mediante um critério elaborado e enunciado anteriormente. É aí que se apresenta o terceiro critério. filhos. e na célebre fórmula usada pelo Rei para resolver um conflito entre duas mulheres que disputavam a mesma criança. dando uma metade para cada mulher. Cacique. O Rei Salomão mandou trazer uma espada com a qual.11. menos perfeitas. fosse entregue à falsa mãe.

revelado. uma posição harmônica do bem de cada um com o bem de todos” (ob. para que a composição seja jurídica. tem que ser realizada através de um critério anteriormente estabelecido e perfeitamente enunciado para conhecimento de todos. que na belíssima lição de Miguel Reale “não é a soma dos bens individuais. declarado pela autoridade que o elaborou. da produção das riquezas. que acabam por ocorrer não obstante toda prevenção exercida pelo direito. “O Direito. Modernamente a sua missão é muito mais ampla uma vez que lhe cabe.4.. 11. que podem ocorrer tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência. [p. o progresso das comunicações. em última instância.. Quer isto dizer que todos os conflitos idênticos que surgirem após a elaboração e divulgação do critério deverão se compor pelo mesmo critério. cit. pois isto implica a universalidade. o bem comum. diz Paulo Nader. 59). mas sim para todos os casos que se apresentarem com a mesma tipologia. na atualidade é um fator decisivo para o avanço social. tomando-o conhecido. Alguns autores preferem falar em generalidade em lugar de universalidade. A segunda é a de compor conflitos. p. . que atenda à universalidade dos casos que se apresentarem dentro do mesmo tipo. é a ordenação daquilo que cada homem pode realizar sem prejuízo do bem alheio. A Função Social do Direito na Atual Ordem Jurídica Brasileira Cumpre por último registrar que o Direito não desempenha apenas essas duas funções na sociedade. Por universalidade entende-se que o critério jurídico nunca pode ser cominado apenas para um determinado caso concreto. é necessário que se dê conhecimento do critério antes de sua aplicação. a rigor. da tecnologia. destacamos as duas principais funções que o Direito realiza na sociedade. Composição jurídica é somente aquela que obedece a um critério anteriormente elaborado e também previamente dado à publicidade. p. que o critério tenha sido elaborado antes do conflito. A primeira é a de prevenir conflitos. a elevação do nível cultural do povo. cit. Além de garantir o homem.O que se entende por publicidade? Não basta. Em suma. Concluindo. É preciso também que o critério tenha sido anunciado. 27). muito embora este último termo seja mais usado. promovendo ainda a formação de uma consciência nacional”(ob. favorece o desenvolvimento da ciência. Isto ele faz através do adequado disciplinamento das relações sociais. e isto ele faz através do critério jurídico. na composição jurídica. 19] nem a média do bem de todos. prover o bem comum.

Em outras palavras. 20] ao bem comum. mas atenua ou reduz o alcance desse princípio. Pode-se afirmar que a passagem do individualismo para o social é a característica essencial da evolução jurídica do nosso tempo. [p. ser exercido contra a finalidade social que a lei teve em mira quando o reconheceu e protegeu. 422 ao dispor que a liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. e que altera substancialmente o conteúdo da atividade contratual.100). A função social do Direito é consagrada no novo Código Civil no seu art. dos mais simples aos mais complexos. igualitária e solidária . por sua vez. menos individualista. Assim como o Código Civil de Napoleão foi fruto do liberalismo do século XVIII. Forense. III. . Quem contrata não mais contrata apenas com quem contrata. inaugurando um novo tempo no mundo negocial. verdadeiro cinto de segurança. a solidariedade e a harmonia coletiva. prestigia esta questão a ponto do seu grande coordenador. San Tiago Dantas assinala: “Pode-se dizer que. A Constituição de 1988. pois não poderá. 5°. XXII. 170. ao garantir o direito de propriedade.A atual ordem jurídica brasileira dá grande ênfase à função social do Direito. III. Temos ali uma cláusula geral a ser observada em todo e qualquer contrato. o que se concede ao indivíduo é uma proteção jurídica. No artigo 187 do novo Código Civil a função social do Direito é colocada como limite para o exercício de todo e qualquer direito. eis o abuso do direito” (Conflito de Vizinhança e sua Composição.. porque o Direito. contrata também com a sociedade. é o instrumento de organização social para atingir essa finalidade. 182. repita-se. cuja trilha foi seguida pelo nosso Código de 1916. enfim. hoje. o exercício de todo direito subjetivo está condicionado ao fim que a sociedade se propôs: a paz. mais do que um direito subjetivo. ressaltou que terá ela que cumprir a sua função social (arts. o jurista Miguel Reale. Exige dos contratantes uma postura mais humana. ter afirmado que a socialidade é uma das suas principais características.foi a grande motivação do novo Código Civil. a ordem. O novo Código Civil. p. quando presentes interesses metaindividuais ou interesse relativo à dignidade da pessoa humana” (enunciado n° 23). Valer-se do direito para colimar resultados contrários à sua instituição. em caso algum. além do qual se toma abusivo.o Direito como instrumento para a construção de uma sociedade mais justa. § 4°. 2a ed. Na jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal foi proposta a seguinte interpretação para esse dispositivo: “A função social do novo Código Civil não elimina o princípio da autonomia contratual. 186). ou pelo menos um direito subjetivo que não tem no arbítrio do titular a sua única medida. XXIII. a visão social do Direito .

indústria . caso em que será fixada uma justa indenização ao proprietário. com os exemplos citados. O que se evidencia. o § lº do art. em conjunto ou separadamente. 1. seu estado normal de servir ao ser humano. O imóvel urbano também tem que ser utilizado em conformidade com a sua potencialidade . como não poderia deixar de ser. mas a um princípio que modernamente alimenta toda a nossa ordem jurídica. 21] .. podendo ser encontrado um eloqüente exemplo disto no parágrafo quarto deste mesmo artigo 1. é que a socialidade não se resume a uma disposição abstrata. e estas nela houverem realizado. e não quando destinado a latifúndio improdutivo.228 do Código Civil: “O proprietário poderá ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área. comércio.Em conformidade com a Constituição.moradia. [p. Um imóvel rural só atende à sua finalidade social quando utilizado na produtividade compatível com sua potencialidade. por mais de cinco anos. na posse ininterrupta e de boa-fé. Ao falar em finalidade social o diploma civil refere-se ao destino social da coisa. de considerável número de pessoas. “O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais”.. obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante”. Também aqui a finalidade social opõe-se ao individualismo.e não para a especulação imobiliária.228 do novo Código Civil submete o exercício do direito de propriedade à sua função social.

23] 12. está ligado à idéia de organização e conduta. formulando um conceito que se enquadre na visão sociológica do Direito. então deve ser ele entendido como um conjunto de normas de conduta que disciplinam as relações sociais. como já ficou assentado. Características das normas de conduta: a obrigatoriedade e a sanção. Kant teria afirmado. não é tarefa simples. deve o estudante considerar todos os elementos dessa coisa. É fenômeno social. Origem das normas de conduta: a escola monista e a escola pluralista. seus requisitos. NORMAS DE CONDUTA Se o Direito. O . Conceito sociológico do direito. **** O Direito. Propomo-nos neste capítulo a explicitar a concepção do Direito como fato social. características.Capítulo III CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Normas de conduta. como já vimos. Conceituar. é fato social que se manifesta como uma das realidades observáveis na sociedade. Só assim poderá chegar perto da realidade na formulação do seu conceito.. a cultura. e então procurar fazer uma descrição de tudo isso. Antes de tentar conceituar qualquer coisa. arriscando-se aquele que se empenha em realizá-la a formular um conceito parcial. lançando mão dos vários princípios expostos nos capítulos anteriores. [pg. assim como a linguagem. que os “juristas ainda estão à procura de uma definição para o Direito”. como é sabido por todos. tais como prevenir e compor conflitos. finalidade etc. É o que procuraremos fazer com relação ao Direito. já no século XVII. Essa tarefa se toma ainda mais arriscada quando se trata do Direito. que surge das inter-relações sociais e se destina a satisfazer necessidades sociais. Provisoriedade e mutabilidade das normas de direito. a religião.

. é o Direito a única relação inteiramente determinada pela coexistência humana e que se exaure de homem para homem. de observância necessária. totalmente inócua se tomaria a disciplina por elas imposta.mundo do Direito é o mundo das relações entre os homens. Seria um tiro sem bala. com a garantia de que as partes nele envolvidas serão tratadas da mesma maneira. por exemplo. São também abstratas porque não se referem a casos concretos quando de sua elaboração.a sociedade e o indivíduo . o contrato celebrado entre A e B em determinado momento e em determinado lugar porque a individualidade dos comandos não é própria do Direito. o grupo versus o indivíduo e o grupo versus outro grupo. Não somente as relações que se travam entre o indivíduo e outro indivíduo são objeto do Direito.1. pois na conjugação desses dois elementos . o prévio conhecimento do critério a ser aplicado na composição dos conflitos e assegura igualdade de tratamento às partes. pois. mas sim qualquer hipótese de homicídio. Claro está que. sob pena de o Direito não atingir os seus objetivos. se a observância das normas jurídicas fosse facultativa. Portanto. não objetiva concretamente o caso de A matar B. cabendo à moral a disciplina de suas relações intrínsecas. Cuida. como já assinalado. Por isso são chamadas normas universais ou genéricas. o Direito da disciplina das relações extrínsecas do homem. 13. E nem poderia ser diferente. mas sim a casos hipoteticamente considerados. Assim.encontramos a sua razão de ser. [pg. A Obrigatoriedade Em regra são normas obrigatórias. mas também aquelas que se realizam entre o indivíduo versus o grupo. por exemplo. Não regula de forma direta. CARACTERÍSTICAS DAS NORMAS DE CONDUTA Trata-se de normas de conduta que se destinam a todos. Como tem sido assinalado por muitos autores. quando a norma do art. isto é. E isso permite. 24] 13. 121 do Código Penal incrimina a ação de matar. Sabe-se previamente como será resolvido um determinado tipo de conflito se e quando ocorrer. aplicáveis a todas as relações abrangíveis pelo seu escopo. O caráter de generalidade das normas do Direito faz que este tenha em vista apenas o que na sociedade acontece com mais freqüência. o Direito não se dirige a pessoas determinadas nem a relações consideradas individualmente.

Até mesmo no campo do direito contratual. 13. cria uma obrigação ou dever para outrem. No momento em que transgredimos qualquer dessas normas. Esquecemonos. elemento fundamental do Direito. por um movimento espiritual espontâneo realiza o ato enunciado pela norma. a noção do Direito está intimamente ligada à noção de obrigação. portanto. tudo que é oposto à obrigação. Como podem as pessoas inobservá-lo. p. talo nosso condicionamento social. do comportamento que encontra em si próprio a sua razão de existir. a rigor. Então.. em lugar de obrigatoriedade. na verdade. Pondera o festejado Miguel Reale que “a moral é o mundo da conduta espontânea. ou seja. Ninguém pode ser bom pela vio. Esta. Alguns autores.[pg. Só temos.2. 25] lência” (ob. Para o público em geral. da mesma forma que não sentimos certas imposições físicas. vantagem ou poder. visto ser posto por terceiros aquilo que juridicamente somos obrigados a cumprir. e vice-versa. Não é possível conceber-se o ato moral forçado. 44). onde muitos autores acreditam reinar a “autonomia da vontade” a coisa não é bem assim. A Sanção O Direito dirige-se a seres dotados de liberdade. O ato moral implica a adesão do espírito ao conteúdo da regra. A moral é incompatível com a força ou coação mesmo quando estas se manifestam juridicamente organizadas. a tal ponto que não lhe sentimos quase o peso. entretanto. que. embora à primeira vista possa parecer paradoxal.A obrigação é. em geral e por definição. regalia. preferem falar em coercibilidade da norma. essas normas correspondem à nossa maneira de pensar e sentir. e não uma obrigação. a palavra direito dá idéia de privilégio. tomou-se necessário estabelecer uma sanção. É também por isso que se tem afirmado (Kant foi o primeiro) ser a Moral autônoma e o Direito heterônomo. Dizemos “eu tenho direito a isso ou àquilo” para indicar algo que nos favoreça. Ocorre também que. para indicar que ela envolve a possibilidade jurídica de coação. liberdade. que agem comandados pela vontade. na exata medida em que o Direito nos confere um beneficio. moral autêntica quando o indivíduo. como a gravidade. Não percebemos que o Direito é sobretudo obrigação porque estamos habituados a obedecer a suas normas. cit. pois na realidade também ali essa autonomia move-se dentro de limites extremamente reduzidos. tomamos logo consciência da sua obrigatoriedade pois temos então que responder pelas conseqüências. é a principal diferença entre a norma jurídica e a regra moral. faculdade. entretanto. fruto da força ou da coação. .

É o prometimento de um mal. geradora do temor à pena. para todo aquele que descumprir uma norma de Direito. Para a sociologia jurídica. e pena é a sanção concretizada. empregando o poder coercitivo de que dispõe para punir o responsável pelo ilícito. exercendo constrangimento sobre a consciência. livrando a sociedade de sua conduta perniciosa. Tal coação é por Vanni (Lezioni di Filosofia del Diritto) vista como força psíquica do direito. É a chamada prevenção especial. entretanto. e a pena é fixada pelo juiz. no empenho de levá-la a respeitar o Direito. É a possibilidade de coação da qual a norma é acompanhada. assim como na obrigação de reparar o dano causado. havendo aqueles que entendem serem as normas de origem divina.o meio mais eficaz encontrado pela sociedade para tomar a norma jurídica de observância necessária. Há. logo no primeiro capítulo. Para uma minoria não basta a coação psicológica. e pena já é o próprio castigo imposto. acabando por transgredir as normas. faz com que a maioria se conduza dentro dos limites do Direito. que esta é uma questão discutida. Sobre o grupo social que deve estabelecer as normas de Direito. . Essa coação psicológica. frutos da razão. 26] 14. Para esses destina-se a coação física ou material. uma pequena diferença entre sanção e pena. a sanção é cominada pelo legislador. ORIGEM DAS NORMAS DE CONDUTA Já vimos. sanção é a pena abstratamente considerada. na esperança de não ser punida. embora na prática os autores e a própria lei não a considerem. ao passo que a pena exerce uma coação física ou material. em nosso entender. da consciência coletiva ou do Estado. através da qual consegue o Direito evitar a ocorrência de inumeráveis conflitos. as opiniões se dividem em duas escolas. que se dirige à vontade. É o remédio extremo usado contra uma minoria que não observa as normas. Por isso alguns teóricos chegam a definir o Direito como um sistema de sanções. A autoridade pública aplica a pena. [pg. não há como tergiversar: as normas de Direito emanam do grupo social. É a chamada prevenção geral. A obrigação não pode existir sem sanção. consistente em perda ou restrição de determinados bens. Sanção é a ameaça de punição para o transgressor da norma. outros. Sanção é a ameaça de castigo para o transgressor da norma. a sanção exerce uma coação psicológica sobre os indivíduos.

Os homens.1.14. está apto a criar normas de direito. Não é uma criação arbitrária. A nossa Assembléia Nacional. mesmo nas sociedades já política e juridicamente organizadas. que se encontra mais próxima das teorias de Hegel. compreende sociólogos e filósofos. p. muçulmano. 27] expressão pode outorgar-se normas de funcionamento que. adquirem o alcance de verdadeiras regras jurídicas. em fase adiantada do progresso. o principal adepto da doutrina pluralista é G.o Estado devidamente organizado -. Houve e ainda há direitos supranacionais e infranacionais que não emanam da competência dos órgãos da sociedade global. Segundo Henri Levy Brühl.o grupo político . como por exemplo o direito religioso de vários povos. o direito canônico. A Escola Monista Englobando quase todos os juristas. intervêm na sua criação. decretos-leis. e que ainda existem prescrições. Mas. catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. o nosso Governo. Inocêncio Galvão Telles. com freqüência criam Direito. considera que todo agrupamento de certa consistência ou [pg. A mais característica dessas instituições foi o direito mercantil (jus mercatorium). Há aí uma atividade racional. Henri Levy Brühl (Sociologia do Direito. sem dúvida. 14. bem sintetiza esta questão na lição que segue: “O Direito é necessário. A doutrina monista. mas não com relação à sociologia jurídica. ainda . que a defendeu em diversos trabalhos. 29) cita como exemplo de direito supranacional as instituições consuetudinárias profissionais. Marx e Kelsen. através de leis. que se difundiram em inúmeras regiões. regulamentos. pode ter sua razão de ser no que se refere à ciência do Direito. sendo igualmente ensinada pelos puristas clássicos. Um simples olhar sobre a vida social nos convence de que existiram prescrições jurídicas antes de a sociedade organizar-se em Estado.2. existe imprescindivelmente. judaico etc. Gurvitch. orientada no sentido da formação do Direito. nos termos que aos governantes se afiguram como os melhores para satisfazer as necessidades e exigências da vida. A Escola Pluralista A escola pluralista que. esta escola entende que apenas um tipo de grupo social. além de alguns juristas. além das que foram impostas pela autoridade política. muito divulgado na Idade Média e observado tão escrupulosamente quanto qualquer outra lei nacional. ultrapassando o caráter de simples regulamentos. sem considerar fronteiras entre Estados nem a nacionalidade dos interessados.

sendo originário do grupo. O mesmo acontece com hábitos. um dos mais destacados. E o grupo. Mudamos em nossa maneira de ser e [pg. mesmo assim haveríamos de constatar. onde há uma constante troca de influências recíprocas possibilitada em razão dos modernos meios de transporte e comunicação.tudo passa. Se o Direito emana do grupo social.que não houvesse esta criação racional e um pouco artificial. o outro lado do mundo toma conhecimento quase imediatamente. estáveis e imutáveis. vol. com concepções e visões diferentes da vida. embora muitas vezes nem se perceba a mudança. do jovem para o adulto. quando esse mesmo grupo se modifica constantemente? . Imaginemos agora o que se passa nos grupos modernos. Tal concepção. os jovens tornaram-se adultos. PROVISORIEDADE E MUTABILIDADE DAS NORMAS DE DIREITO Os defensores do direito natural. que contestávamos na juventude exatamente aquilo que agora pensamos e fazemos. Como pode o Direito. Foi assim que aconteceu noutros tempos sob a forma de costumes. 15. Já os filósofos gregos haviam chamado a atenção para essa permanente mutabilidade das coisas e do próprio homem. o Direito necessariamente brotaria como floração espontânea da sociedade. não pode ter maior estabilidade que o grupo. Assim é porque o próprio ser humano está em constante mudança: mudam os hábitos. do adolescente para o jovem. Heráclito. não se ajusta ao ponto de vista sociológico. as crianças tornaram-se jovens. entretanto. Daí a razão do eterno choque de gerações entre jovens e adultos. Se pudéssemos isolar um grupo por um período de dez ou vinte anos. pensamentos etc. e isso mostra o caráter necessário do Direito (Introdução ao Estudo do Direito. p. tudo está em constante transformação. da criança para o adolescente. do adulto para o velho. as mudanças nos grupos modernos são bem mais rápidas e constantes do que nos grupos primitivos. como é sabido. 9ª ed. afirmava: “Panta rei” . e vice-versa. sofre constantes modificações. 27). consideravam o direito um conjunto de princípios permanentes. tanto os que o concebiam como tendo origem na Divindade como aqueles que o entendiam fruto da razão. no fim desse tempo. conforme já assinalamos. que o grupo social havia sofrido profundas modificações: os adultos envelheceram.. moda etc. Livraria Petrony. Mal um fato ocorre aqui. que o considera produto social. permanecer imutável. costumes. Lisboa. Evidentemente. 28] queremos que os jovens de hoje se comportem como nós. I. tudo muda.

abstratas porque são elaboradas para casos hipoteticamente considerados. já sofreu mais de quatro dezenas de emendas. Aqui mesmo em nosso país profundas modificações foram feitas em nossa ordem jurídica para ajustá-la às novas realidades sociais decorrentes das transformações por que passamos nas últimas décadas. do ponto de vista sociológico. impostas pelo grupo social.. espera-se para breve um novo Código de Processo Penal e. p. seja de cooperação ou de concorrência. CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Juntando todas as características até aqui examinadas. razão pela qual. 16. objetivando prevenir e compor conflitos. formulamos o seguinte conceito de Direito: conjunto de normas de conduta. obrigatórias e mutáveis. coercitiva. destinadas a disciplinar as relações externas do indivíduo. impostas pelo grupo e não somente pelo Estado. 30] . o Código de Processo Civil sofreu uma série de alterações e outras precisam ser feitas com urgência. abstratas. [pg. sujeito a constantes modificações. Tivemos uma nova Constituição em 1988 que. quando não consegue impedir que ocorram. por derradeiro. cit. podem surgir conflitos e que o Direito se propõe [pg. Trata-se de normas universais porque se destinam a todos. assinalou Levy (ob. empenha-se em compô-los. universais. como já ficou demonstrado. mas sim essencialmente provisório. mudam-se também as normas de Direito. por sua vez. que em qualquer tipo de atividade realizada pelo indivíduo na sociedade. Tão incontestável é o caráter provisório do direito que alguns adeptos do direito natural conceberam uma noção que denominaram “direito natural de conteúdo variável”. prova de maneira clara que o Direito está sujeito a transformações contínuas. 29] primeiramente a preveni-los. A observação. não tem o Direito caráter estável ou perpétuo. Destaca-se.Mudando o grupo. pois o simples confronto com os diferentes sistemas jurídicos do passado ou dos países estrangeiros basta para dar idéia da prodigiosa diversidade das normas de direito aplicadas na superfície do globo. obrigatórias porque são de observância necessária. mutáveis porque sujeitas a constantes transformações. em 2002 entrou em vigor um novo Código Civil em relação ao qual já se fala em mudanças. 33). para não nos alongarmos.

FATORES ECONÔMICOS A estrutura econômica de uma sociedade reflete-se diretamente no seu ordenamento jurídico. Não são regras permanentes e inalteráveis. . Fatores culturais: concepção de cultura. com muita nitidez. Tal como a agulha magnética sob a ação de uma corrente elétrica.e o grupo está em permanente transformação. Vamos apenas destacar aqueles que. em sua concepção sociológica. a saber: os fatores econômicos. porque se originam no grupo social. Observa-se aqui. mas sim. são os principais. há fatores que agem sobre o Direito. não sendo possível. Inúmeros são pois os fatores sociais que concorrem para a evolução do Direito. examiná-las todos. Outros fatores sociais.[pg. Fatores políticos. políticos. tomando-o um produto de processos sociais (vide capítulo VIII). sendo o Direito uma decorrência das relações sociais. em nossa opinião. 17. da qual falava Siches. culturais e religiosos. fazendo-o oscilar. como vimos no capítulo anterior. neste modesto trabalho. Fatores religiosos. O sistema de propriedade. tudo o que agir sobre a sociedade produzirá reflexo também sobre o Direito. as formas de produ.Capítulo IV FATORES DA EVOLUÇÃO DO DIREITO Fatores econômicos: influência do fator econômico sobre o Direito Romano e sobre o Direito Moderno. a influência condicionante da sociedade sobre o Direito enquanto fato. é um produto de múltiplas influências sociais. sujeitas a constantes modificações. **** O Direito. 31] ção (indústria. Inicialmente pode-se dizer que. um produto da sociedade.

Influência do Fator Econômico sobre o Direito Romano Em Roma. assinala que “raças e nações as mais diferentes têm de sujeitar-se ao mesmo direito quando são iguais as relações econômicas nelas dominantes e que a nação sofre mutação radical do próprio direito quando. os costumes desses camponeses. cit. a sociedade inicialmente compunha-se de camponeses que viviam da lavoura. como observou Levy Brühl (ob. 17. p. afirma que “todo o desenvolvimento jurídico toma-se inexplicável se o isolam das forças econômicas. ainda que seguido de muito perto pelo político.agricultura etc. Tão marcante é a influência da economia sobre o Direito que alguns autores chegam a se posicionar no sentido de conceber o Direito como reflexo. o fator econômico é o que exerce uma influência mais decisiva.. possuem e comerciam. sua estrutura econômica se transforma”. Achille Loria (ob. Assim sendo. Nesse sentido. Ora. tinham que tirar da terra o seu sustento. p. que o Direito vai se modificando à medida que vai se alterando a estrutura econômica da sociedade. o resultado”. cit. A organização social tem o seu ponto básico de articulação no modo pelo qual os homens produzem. Para eles. embora não se possa negar que. as relações entre empregados e patrões . citado por Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. sem possibilidade de erro. Engels. da constituição econômica. Sem dúvida constitui exagero considerar o Direito reflexo exclusivo da constituição econômica.). eram os que mais convinham a agricultores. pp. Seligman. . o fator econômico era a mola mestra da história.tudo isso se reflete na ordem jurídica. Marx e F. Caracterizavam-se por forte concentração de poderes nas mãos do pater famílias e rígida disciplina doméstica. influenciando-a.. o fato econômico é a causa. na medida em que nos são acessíveis. 293). como por exemplo K. 80 e segs.). os demais fenômenos culturais não passando de simples reflexos superestruturais das forças genéticas armazenadas pelas relações econômicas de produção. criadores do materialismo histórico. com o crescimento da população. podemos afirmar. “que dedicou especial atenção às relações entre direito e economia”. a situação legal.1. entre as forças modeladoras do Direito. exclusivamente. 293).

os estrangeiros deixaram de ser tratados como inimigos e passaram a ser amigos. são transformações econômicas de repercussão imensa sobre o status pessoal em geral. entraram em contato com outros povos. e sobre a condição jurídica do homem trabalhador em particular. Surgiu uma nova classe. 32] não tinham qualquer iniciativa. Influência do Fator Econômico sobre o Direito Moderno Algo idêntico ao ocorrido em Roma desenvolveu-se quando da criação da grande indústria e do maquinismo. outro meio para libertar a mulher casada da autoridade do marido . A organização da família tomou-se menos rígida. Os demais membros [pg. nem autonomia. A burguesia ascendeu ao poder político. Tal direito estava perfeitamente adequado a uma sociedade de pequenos agricultores.Todos os membros do grupo doméstico estavam submetidos à autoridade do chefe. enriquecida pela posse de capitais mobiliários. Uniam-se todos em tomo do pater familias para a produção dos bens necessários à sobrevivência do grupo. passando a ser submetida ao controle da sociedade global e não mais exclusivamente ao pater familias. Essa modificação na estrutura econômica imediatamente repercutiu no direito. os agricultores romanos tomaram-se comerciantes. econômico etc. 244): “A própria instituição da escravidão. não importando idade ou situação social. indispensável no comércio. 17. Novos ramos do direito foram brotando no velho tronco do Direito Civil e aos poucos ganhando autonomia. Lançaram-se ao mar.” [pg.2. no fim do século XVII. industrial. Aí pelo III século antes de Cristo. o único dotado de capacidade jurídica. Encontrou-se um meio para liberar o filho da tirânica autoridade do pai . tais como o direito comercial.a emancipação. e operações foram inventadas para as quais o simples consentimento podia gerar obrigações. Aos poucos foram surgindo os grandes organismos econômicos. p. nacionais e multinacionais. multiplicaram-se os sistemas de manumissão de escravos. em decorrência do enfraquecimento correlativo dos proprietários de terras. o formalismo atenuou-se com a introdução da noção de boa-fé no direito. 33] . dedicaram-se com grande intensidade à compra e venda de mercadorias. Lembra Machado Neto (Sociologia Jurídica. sua substituição pelo servilismo durante o regime feudal e sua posterior superação pelo assalariado na moderna sociedade burguesa. acarretando isso tudo um tremendo abalo na ordem jurídica. do trabalho.o casamento sine manu.

a aquisição e o uso da propriedade. como já o fazia Kelsen. as relações dos Estados entre si.a sua dinâmica. sucessões. pelo seu aspecto normativo puro. voltamos a enfatizar que do ângulo sociológico em que nos situamos há uma nítida distinção entre o Direito e o Estado. ] . não foge à regra. longe de ser o responsável pela gênese do direito. é apenas um evento que exerce uma reação grave e imediata. Por isso já houve quem identificasse Estado e Direito (vide Teoria Marxista. principalmente no que diz respeito aos crimes contra o patrimônio. 310). 1949. A aparição do poder político. apresentam inegável repercussão econômica: o Direito Civil. do trabalho. este se realizando socialmente através daquele. monárquico. contratos. bem como o Direito Administrativo e o Direito Fiscal . tributário etc. bem como as funções e atribuições do Estado. Segundo o regime em que se vive. falimentares e a ordem econômica. direitos reais. Sem entrar em polêmica. embora ligada etimologicamente a polis (cidade). Ed. O próprio Direito Penal. na parte que se refere às obrigações. tanto na função e estrutura jurídicas.. como sobre o conteúdo do direito. a livre iniciativa comercial ou econômica. 18. como observou Nordi Greco (Sociologia Jurídica. A própria organização da família. o Direito Constitucional . veremos que é exatamente através da regulamentação jurídica que o Estado as exerce. o direito comercial. É que os juristas enfocam o direito exclusivamente pelo ângulo da ciência jurídica. modernamente é utilizada para designar a ciência e a arte de governar. p. abrangendo as relações entre o indivíduo e o Estado. apresentarão peculiaridades. que mantém maior distância do econômico. as relações entre empregados e patrões etc. FATORES POLÍTICOS A palavra política.Cumpre ainda assinalar que. Se bem examinarmos o conjunto de atribuições do Estado. o regime político de um país exerce influência direta sobre suas regras de Direito Público e até de Direito Privado. aristocrático. razão pela qual sua teoria foi tão mal compreendida pelos sociólogos. de maior ou menor rigidez. dependendo dos fatores políticos vigentes. assumirão aspectos variantes. Atalaya. [pg. na estrutura jurídica atual. primeiro capítulo) e ainda hoje é a perspectiva da maioria dos juristas em face do Estado. feudal ou democrático. Por essa razão.a estática do Estado. embora não se possa negar a proximidade em que se situam.

sendo ainda certo que outras estão em andamento. que significou a superação de uma questão social. com o que se fecha o ciclo revolucionário. político e econômico contra o qual a revolução se lançou. pois a revolução implica adesão social. Imbuído pelo chamado espírito revolucionário. refletindo as novas tendências políticas. A influência dos fatores políticos sobre o Direito toma-se mais patente no caso de revolução. que estabeleceu uma nova relação entre patrícios e plebeus. com a Declaração dos Direitos do Homem e a Legislação Napoleônica.. a segunda. 161). Se o movimento contraria o sistema de legalidade do Estado. A legitimidade do Direito criado baseiase no apoio popular. igualmente de grande repercussão social . cit. a Política e a Trabalhista. como lembrou Machado Neto (ob. do advento do fascismo e [pg. Mal concluída a tomada do poder pelo grupo revolucionário. assim foi em Roma com a Lei das XII Tábuas. p. em uma ideologia que se pretende implantar na organização social. de acordo com a filosofia preconizada. o grupo que destituiu os governantes e assume o poder deve iniciar o trabalho de reformulação social. surge um Direito novo.a reforma do Judiciário. “é um acontecimento político motivado pela insatisfação social quanto às instituições e regime vigentes. substituindo aquele que servia de sustentáculo normativo ao sistema social. decorrentes da vitória da revolução francesa. a quarta.. 1937. anota Paulo Nader. pois a luta revolucionária exige um novo instrumental jurídico capaz de dar validade e eficácia às transformações que visa a operar no quadro social” (ob. o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva arregimentou forças políticas para realizar profundas reformas constitucionais. Pressupõe idealismo. a quinta. 1891. Assim foi na Grécia com a Legislação de Sólon. A primeira resultou da revolução da independência. assim no mundo contemporâneo. das revoluções de 1930 e 1932. 1934. a terceira. traz no seu bojo a intenção de legitimar e justificar o poder. cit. A possibilidade de instauração de um novo Direito. 56). que se funda em novas concepções.O atual momento político brasileiro oferece eloqüente exemplo disto. assim no mundo medieval com a Magna Carta (1215). p. 1946. 35] do Estado Novo. 1967 e 1988. Tão logo chegou ao poder o Partido dos Trabalhadores. É com essa mudança efetiva que a revolução se completa. é básica. possui o poder de instituir uma nova ordem jurídica. e assim até mesmo no Brasil. como as da Previdência e a Tributária que afetarão muitos milhões de brasileiros. da república. Esse novo Direito. notadamente o Constitucional. Caracteriza-se por dupla ação: intelectual e de força. no que diz respeito às nossas constituições de 1824. da redemocratização do país . A revolução.

e o segundo. mas também nas suas instituições jurídicas. 36] .” 3) “Aparecimento das condições objetivas para o direito separar-se das normas sociais: o direito passa a ser a norma estatal por excelência. o impacto de uma tendência centralizadora. cit. O Que é Cultura? Há na mitologia grega um personagem. Cada povo tem sua peculiaridade. exerceu influência decisiva. A conquista da Grécia. sua tendência ou dom natural. em que o interesse dominante é o dos particulares. há influências recíprocas sobre o direito de cada um. por exemplo. 19. os fenícios pela navegação. a moral e as normas do trato vão aparecer como as formas específicas da socialização. [pg. pp. sobre o direito. a sexta. necessariamente. constataremos imediatamente a necessária harmonia existente entre a ordem jurídica e os fatores de cultura. não apenas nas artes e na literatura romanas. Dentre as principais conseqüências da atuação dos fatores políticos. e quando a cultura de um é colocada em contato com a de outro. destacamos as seguintes: 1) “O direito sofre. cit.. os hebreus pela religião. como é sabido por todos.. que bem ajuda nessa tarefa de conceituar a cultura. pela cultura. O direito evolui acompanhando a evolução cultural.” 19. Da norma indiferenciada passa-se à centralização jurisdicional e daí à centralização legislativa. 156). mencionados por Machado Neto (ob. p. da revolução de 1964.após a guerra que derrotou o fascismo no plano internacional. a última. lembrado por Machado Neto (ob.1. FATORES CULTURAIS Se compararmos o direito de uma sociedade culturalmente desenvolvida com o de outra inculta. da redemocratização do Estado Brasileiro.” 2) “Criam-se condições objetivas para o aparecimento gradativo da distinção entre direito público e privado: o primeiro como a regulamentação da conduta dos indivíduos naqueles pontos que mais de perto dizem respeito ao interesse coletivo ou estatal. quando esta é realizada diretamente pela sociedade e pelos diversos grupos sociais extra-estatais. Pois o direito de cada um desses povos reflete o aspecto cultural em que mais se desenvolveram. notabilizou-se pela arte. Roma pelo direito. a ponto de podermos afirmar ser ele o aspecto cultural de um povo. A Grécia. 305-306).

transmitindo-se a outras gerações como autêntica herança social. realidade somente possível graças ao progresso científico dos tempos modernos. ao passo que o isolamento retarda o progresso da cultura do povo. Com o seu desenvolvimento cultural conseguiu dominar as forças da natureza. o homem transformou pedra em machado. São conhecimentos que vão se formando. FATORES RELIGIOSOS Nos povos antigos. o rei dos deuses submeteu-o a cruel castigo. Numa definição simplista. em armas de defesa e ataque. por ele adquiridas em sua condição de membro da sociedade”. pois com base nos conhecimentos que adquiriu e desenvolveu. Indignado com a ousadia de Prometeu. ficando ele nu e desamparado na natureza. de posse do fogo divino. Para o homem nada restou. 37] emanavam da mesma . disciplinar a lavoura. tudo aquilo que lhes era necessário para a sobrevivência: dentes fortes e agudos. Foi então que Prometeu. levar ao infinito os seus conhecimentos. a ciência. a intercomunicação social é poderoso fator de formação e desenvolvimento cultural. capaz de transformar em utilidade. Epimeteu conseguiu para os animais. o direito e a religião [pg. o direito. o homem se tomaria um verdadeiro semideus. a música. “cultura é o conjunto de conhecimentos. onde um abutre vinha periodicamente devorar-lhe o fígado. de criatura passaria a criador. tudo aquilo em que colocasse as mãos. a técnica. pêlos abundantes. crenças. metais encontrados na natureza em máquinas e instrumentos agrícolas. destreza invulgar etc. espinhos. pele de animais em vestuário. um fenômeno cultural. a religião. Assim agira Zeus porque sabia que. domesticar os animais. jurídicas e de costumes. Praticamente se confundiam porque o poder. p. carapaças. cit. força descomunal. e de quaisquer outras aptidões do homem. criar a arte. gerando a estagnação e a imobilidade. artes. seus protegidos. com pena do homem. de regras morais. chifres pontiagudos. cascos resistentes. Cultura é isso. a filosofia. Nos tempos modernos. cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza. 13). subtraiu um archote do carro flamejante de Zeus e deu-o de presente à humanidade.. amigo dos homens. Falamos hoje em Direito Espacial. está no fato de surgirem novos ramos do Direito à medida que se expande o mundo cultural do povo. 20. A maior evidência de ser o Direito uma manifestação de cultura social. enfim. Nuclear.. acorrentando-o ao Cáucaso. das Telecomunicações etc. Na definição de Taylor. o direito não se diferenciava da religião. Na verdade assim foi. como ocorreu nas últimas décadas com a China.Quando da criação do mundo. citado por Hermes Lima (ob. a autoridade.

Hoje. repletas de rituais. divórcio. ainda hoje estão profundamente impregnados de religião. onde regras jurídicas e religiosas praticamente se confundem. sob o impacto de civilizações mais adiantadas. tal como entre os povos antigos. 20. quando da formação do Direito canônico. pode-se dizer. chefes militares. convertendo-o em ciência de iniciados. preceitos e proibições de ordem religiosa.o mundo profano do sagrado. e cercavam o direito de um formalismo terrível. ou entre o homem e o grupo. filiação. exercendo imensa influência sobre o povo. de um modo geral que a religião se ocupa com o foro íntimo.. jurista e sacerdote. portanto. não deixam de receber a influência constante dos fatores religiosos. inacessível ao povo. o direito disciplina as relações sociais que se travam entre o homem e o homem. o direito foi se separando da religião . Os primeiros intérpretes do direito foram os sacerdotes. com a consciência pessoal.1. processo e ritual. . Entretanto. Somente após um lento e prolongado processo de secularização. lei e tabu. pena e purgação do pecado. no que diz respeito a casamento. este partilhava do poder. a exemplo do que ocorre no Mundo Islâmico. Influência da Religião sobre o Direito Alguns sistemas jurídicos. a religião continuou exercendo largamente a sua influência. Quando o chefe político não era também o líder religioso. mesmo os sistemas jurídicos leigos. onde religião e direito não se confundem e a Igreja está separada do Estado. a religião se preocupa com as relações entre o homem e a divindade. transmitindo-se de pai para filho o monopólio de conhecer o direito. As legislações eram. Em alguns povos. Tinham a posse dos postos de comando (legisladores. e quase sempre estavam centralizados nas mãos da mesma pessoa. conselheiros). Como exemplo lembramos as transformações ocorridas no Direito romano. Tudo era conservado em segredo na mesma família. como os egípcios. Os sacerdotes contavam com a crença popular que os considerava inspirados pelos deuses. o que correspondia à posse também da riqueza e dos privilégios. ao passo que o direito trata do foro externo. Na Idade Média. código e livro sagrado. homens talhados para tal ofício pela natureza das ocupações que desempenhavam nas sociedades rudimentares. caldeus. hebreus. torna-se difícil distinguir legislador e profeta. crime e pecado.divindade. quando se defrontou com as idéias cristãs nos séculos III e IV de nossa era. estado jurídico da mulher etc.

culminando [pg. 38] com a criação de novas instituições. Nos dias atuais, os países onde predomina o protestantismo são bem mais liberais para com certos assuntos jurídicos do que aqueles onde predomina o catolicismo. O divórcio, por exemplo, foi aprovado no Brasil depois de longa e sistemática campanha contrária que a Igreja Católica lhe moveu. E até hoje não temos leis regulamentando o controle da natalidade em razão da acirrada oposição que setores conservadores religiosos lhe fazem.

20.2. Outros Fatores Sociais

Esses são os principais fatores sociais da evolução do Direito, mas como estes, muitos outros existem a exercer idêntica influência, pois, sendo o direito um fenômeno social, atuam sobre ele todos os fatores que atuam sobre a sociedade. O clima, o território, o número de habitantes, os recursos naturais, os grupos organizados, e a própria opinião pública despertada pela mídia a respeito de algum caso rumoroso, são outros tantos fatores da evolução do Direito. Serve-nos de bom exemplo o recente Estatuto do Desarmamento que, ao promulgá-lo, o Presidente Lula disse que essa nova lei “expressa a vontade unânime da sociedade”. Há, na realidade, a generalizada convicção de que a quantidade de armas em circulação, em poder da população, é causa direta dos altos índices de violência. Pelo menos a maioria dos homicídios não ocorreria se o agressor não estivesse armado, o que já não seria pouco. Em vinte anos (1979/1988) meio milhão de pessoas foram assassinadas no Brasil, segundo levantamento do Ministério da Justiça. Esse número de homicídios representa metade dos mortos nos oito anos de guerra Irã-Iraque, na década de 1980, e a sexta parte dos mortos na Guerra do Vietnã, um dos conflitos mais violentos do final do século XX. Entre os países que não enfrentam guerra civil, o Brasil detém o recorde de mortes por arma de fogo. Em termos absolutos, o estado mais violento é São Paulo, palco de 6.429 assassinatos entre janeiro e junho de 1999. Em seguida vem o Rio de Janeiro com 3.045 homicídios. Segundo o ex-ministro da Justiça Renan Calheiros, o Brasil é o campeão mundial em homicídios. Afirmou ele ainda que mais de 90% desses homicídios, em que criminosos e vítima não se conhecem, não são esclarecidos (O Globo, 18.07.2000). Entretanto, a aprovação da Lei do Desarmamento não foi nada fácil. O Presidente Fernando Henrique não conseguiu fazer andar o seu projeto de lei a respeito da matéria, mesmo depois de fazer do envio da mensagem ao Congresso uma festa pública e um compromisso. O Lobby contra o projeto, [pg. 39] organizado principalmente por fabricantes de armas e munição, foi mais forte. Para vencer essa resistência foi necessária uma grande

mobilização da opinião pública, para o que a mídia e as associações civis muito contribuíram, organizando e divulgando grandes manifestações em passeatas, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. A batalha, entretanto, não está ganha. A lei precisa ser regulamentada, e os lobistas das armas certamente voltarão à luta para tentar influir nessa etapa. E a regulamentação pode decidir a sorte da legislação. Como disse Rubem César Fernandes, diretor do Viva Rio, “é fácil a lei não pegar: basta todo mundo achar que a batalha já está ganha”. Com efeito, daqui a menos de dois anos haverá um referendo popular que decidirá sobre a proibição ao comércio de armas no país. Se a opinião pública não continuar informada e motivada tudo poderá retomar à estaca zero. Concluímos este capítulo com as palavras do saudoso e sábio Oscar Tenório, “a vida das normas jurídicas não é eterna; elaboradas para as relações dos homens em sociedade, têm o seu destino condicionado ao substractum social que elas disciplinam e ordenam” (Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, Borsoi, 1955, p. 64). As mudanças na sociedade mais cedo ou mais tarde refletem em mudanças na legislação em vigor ou em uma nova interpretação dada a normas anteriores. [pg. 40]

Capítulo V

FONTES DO DIREITO
Conceito de fonte e espécies: fontes materiais ou de produção; fontes formais ou de conhecimento. As fontes mais importantes do ponto de vista sociológico. O costume - conceito e elementos. Origem e expansão do costume. O papel do costume. Espécies de costume. A jurisprudência: o papel da jurisprudência em Roma e nas sociedades modernas; o papel da jurisprudência nas sociedades legalistas. Exemplos de jurisprudência transformada em lei. Relação entre a jurisprudência e o costume. A lei. Semelhança e distinção entre a lei e o costume. Sistema preferido - o costume ou a lei?

****
O tema relacionado às fontes do Direito é normalmente abordado por todas as obras de Introdução à Ciência do Direito, decorrendo daí a indagação: por que também examiná-lo num compêndio de Sociologia Jurídica? É que a Sociologia Jurídica, como já vimos, enfoca o Direito por aspecto próprio, peculiar - o fato social, e disso decorrem pontos de vista especiais com relação às suas fontes. Teremos oportunidade de ver que as principais fontes do Direito para a Sociologia Jurídica não são as mesmas para a Ciência do Direito, que o enfoca pelo aspecto normativo. Ademais, o exame do tema proposto ajudará o estudante a ver com mais clareza as distinções entre a Sociologia Jurídica e a Ciência Jurídica. 21. CONCEITOS E ESPÉCIES A palavra fonte etimologicamente (fons, fontis) está ligada a fenômenos da natureza, indicando a origem ou nascimento de um curso de água. [pg. 41] Em direito a palavra liga-se também à idéia de origem, nascimento, mas pode ser empregada em duas acepções diferentes: histórica ou documentária e dogmática.

No sentido histórico ou documentário, consideram-se fontes todos os dados ou elementos de qualquer natureza que nos tragam alguma informação sobre o direito e as instituições jurídicas presentes ou passadas. Assim, por exemplo, serão consideradas fontes: manuscritos antigos, papiros, inscrições, monumentos, material arqueológico, desde que forneçam informações sobre o direito. No sentido dogmático, o que nos interessa no momento, a palavra fonte designa a origem, a procedência, o elemento gerador, a causa de algo - neste caso, o direito. Quando falamos em fonte do Direito, portanto, estamos nos referindo a tudo quanto concorra para a sua existência, seu aparecimento e formação. Costuma-se classificar as fontes do Direito em materiais e formais. As fontes materiais são assim chamadas porque, na realidade, materialmente falando, são as responsáveis pela elaboração do Direito. A palavra material vem de matéria, substância, essência, razão pela qual é usada para indicar aquelas fontes que verdadeiramente têm substância de fonte. Se lhe examinarmos o conteúdo, veremos que o Direito é aí elaborado. Por isso as fontes materiais são também chamadas fontes substanciais ou de produção. As fontes formais, por sua vez, são assim chamadas porque de fonte só têm a forma; nada, porém, de conteúdo. Aparentemente o Direito tem origem nas fontes formais, mas na realidade elas apenas o tomam conhecido. Por isso são também chamadas fontes de conhecimento. Se pudéssemos usar uma figura nada ortodoxa, diríamos que o Direito é produzido nas fontes materiais e embalado e distribuído pelas fontes formais. Para o sociólogo, portanto, ao contrário do jurista, as fontes formais não passam de meios de exteriorização, ou de conhecimento do Direito elaborado pelas fontes materiais, as únicas que realmente merecem a designação de fonte.

22. FONTES MATERIAIS OU DE PRODUÇÃO

As fontes materiais podem ser: imediata (que está mais próxima) e mediata (mais distante). Fonte material imediata são os órgãos legiferantes do Estado, ou seja, aqueles que, segundo a ordem constitucional, têm a função de legislar, tanto no Poder Legislativo como no Executivo. Fonte mate- [pg. 42] rial mediata ou remota é a sociedade, pois, conforme ficou demonstrado na primeira parte deste trabalho, o Direito emana do grupo social. De acordo com a lição de Paulo Nader, “o Direito não é um produto arbitrário da vontade do legislador, mas uma criação que se lastreia no querer social. É a sociedade, como centro de relações de vida, como sede de acontecimentos que envolvem o homem, quem fornece ao legislador os

As fontes formais ou de conhecimento também se dividem em imediata e mediata.. cit. tomando-se conhecido. 23. Tão logo a sociedade elabora uma determinada forma ou regra de conduta. a Economia. pelos problemas que emergem na sociedade e que são condicionadas pelos chamados fatores do Direito. . e a mediata (a sociedade) já foi estudada em Sociologia Geral. claro que para o sociólogo a fonte material mais importante é a sociedade. o costume merece a preferência da sociologia jurídica porque constitui a primeira e principal manifestação do Direito criado pela sociedade. A principal (e única para alguns) fonte material é o Estado. como a Moral. as coisas não são bem assim. É a maneira pela qual o costume se exterioriza. Significa isto dizer que. O COSTUME . a expressão autêntica da consciência jurídica social. viva. Não vamos tratar neste trabalho das fontes materiais ou de produção. [pg. começando por aquela que merece a preferência da sociologia. 43] O elemento externo. 24. porque a imediata (órgãos legislativos) é matéria do Direito Constitucional. sendo a lei a mais importante fonte formal. Esta é a fonte primeira. indicando um comportamento idêntico pelos membros da comunidade. AS FONTES MAIS IMPORTANTES DO PONTO DE VISTA SOCIOLÓGICO Se o Direito é um fato ou produto social do grupo como grupo. exterioriza-a através do costume. os órgãos legislativos. Entre as fontes formais. uniformes e constantemente repetidos. Vamos pois nos ocupar apenas com as fontes formais. o próprio grupo humano.elementos necessários à formação das estruturas jurídicas. de natureza material. não bastando a repetição de atos diferentes. enfoca o Direito pelo aspecto normativo. 138). para haver costume. Já para o jurista que. é representado por uma série de atos semelhantes. como vimos. suprema. que essa repetição seja constante. p. sem a qual não haveria que falar em Direito. Como causa produtora do Direito. a Geografia entre outros” (ob. é preciso uniformidade na série de atos. as fontes materiais são constituídas pelos fatos sociais. sendo a primeira constituída pela lei e as outras pelos costumes e a jurisprudência. objetivo.CONCEITO E ELEMENTOS Há dois elementos constitutivos nas normas do direito consuetudinário: o externo e o interno.

[pg. ou de comportamentos exemplares (Miguel Reale. por estar convencida de que é a maneira correta. Com o correr do tempo a maioria do grupo passa a adotar aquela mesma forma de proceder. ob. com a consciência de que correspondem a uma necessidade jurídica. cit. praticada com regularidade e certa duração. Para elaborarmos agora o conceito de costume basta juntarmos os seus dois elementos. 24. difusa. de acordo com as condições sociais do grupo no qual se formou. mas algumas pegam. É principalmente sobre este segundo elemento que se funda a razão da obrigatoriedade do costume. Alguém no grupo se depara com um fato. de natureza psicológica. . é a convicção jurídica de que a observância dessa prática corresponde a uma necessidade de direito. é um Direito sem paternidade. É por isso que se diz que o Direito costumeiro é um Direito anônimo por excelência. praticada pela generalidade do grupo e não apenas por alguns dos seus membros. quase sempre em determinado meio sócio-profissional. ou com uma relação social que ainda não se encontra suficientemente disciplinada.. gradativa. não sendo suficiente a repetição eventual. isto é. Imagina então um meio de resolvê-la: tem uma idéia e a coloca em prática. p. e teremos: costume é a repetição constante e uniforme de determinados atos pelos membros de certa comunidade social.ininterrupta. que vai se consolidando em virtude das forças da imitação do hábito. necessária. 145). que a prática constante e uniforme seja também geral. por ser de necessidade jurídica. O elemento interno. adquirindo um caráter eminentemente histórico. ajustam-se e começam a se expandir. que atende às conveniências sociais. é a conduta social reiterada de forma constante e uniforme. Está formado o costume.1. 44] para suprir suas necessidades. espontânea. Trata-se de elemento subjetivo e consiste na consciência da obrigatoriedade da norma. Origem e Expansão do Costume Surge o costume de uma necessidade social. Vai sendo formado paulatinamente pela própria sociedade. Evolui no tempo e no espaço. Verifica-se assim que o costume é de formação livre. pois a coletividade só começa a ter um comportamento constante e uniforme quando intimamente convenci da de que esse comportamento é adequado às suas necessidades jurídicas. Em outras palavras. no convencimento íntimo de que a prática de tais atos representa uma necessidade coletiva. A maioria das idéias morrem no nascimento por não apresentarem qualquer inovação ou utilidade prática. e vai sendo transmitido por tradição oral.

nos quais o Direito se revela prevalentemente pelos costumes e pelos precedentes. entretanto. que reside no fato de ser elaborado pelo próprio [pg. bem como a Lei das XII Tábuas (apontadas como as primeiras leis escritas) são uma consolidação de usos e costumes dos povos da Babilônia e do Lácio. estando as normas desatualizadas. temos a tradição dos povos anglo-saxões . As nações latinas e germânicas adotam o sistema de tradição romana – civil law. Embora o papel dos costumes nos países da civil law não tenha a relevância que tem nos países da common law. um fato ainda não devidamente disciplinado. São positivas quando. não mais atendendo às necessidades sociais. O Papel do Costume Nas sociedades modernas. fundado no primado da Lei. doutrinadores e tratadistas. e desta forma vai criando o direito.2. um procedimento destinado a supri-lo. a sociedade vai paulatinamente deixando-as em desuso. Essas manifestações. determinando o que deve ser seguido e observado pelo grupo e distinguindo-o daquilo que deve ser evitado e não praticado. Mesmo depois do surgimento da legislação. 45] grupo. a primeira regulamentação da vida social foi feita através dos costumes. mesmo no sistema legalista.Já vimos que o costume manifesta-se exteriormente por atos. entretanto. Continua sendo elemento que condiciona os conceitos de bom e de mau. “o costume é uma força produtora do Direito em todas as fases do . a sociedade vai elaborando outras normas de comportamento destinadas a substituí-las. é o costume manifestar-se das duas maneiras: à medida que vão caindo em desuso as normas ineficazes. Ao lado desse sistema. O mais comum. o costume não perdeu completamente sua força. 24. que ainda não conheciam a lei. a sociedade cria uma regra. escritores. como do conhecimento geral. desta forma destruindo o direito. Segundo o próprio Clóvis Beviláqua. podem ser positivas e negativas ou omissivas. São negativas ou omissivas quando. Nas sociedades primitivas. ineficazes. base legislativa. toda a vida social estava alicerçada no costume. Miguel Reale observa que o Código do Rei Hamurabi. que constituem seu elemento objetivo. razão pela qual é acolhido pelos tribunais. Direito positivo escrito. existem dois tipos de ordenamento jurídico. Indiscutivelmente. ultrapassadas. em face de uma lacuna no ordenamento jurídico. é de se reconhecer que nem sempre isso foi assim.common law.

que a própria lei (Lei de Introdução ao Código Civil. A união estável. art. e Código de Processo Civil. foi um costume durante décadas na sociedade brasileira. 4°. 24. desempenhando destacado papel nas relações econômicas. introduz uma nova norma contrária às disposições legislativas. são praticados regularmente pela sociedade. modalidades de cheque especial. o desuso é espécie do gênero costume contra legem. Quer isto dizer que o legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. o que demonstra haver sempre lugar para o costume. art. Muitas das leis trabalhistas tiveram nestes costumes sua fonte por excelência. O cheque ouro. bem como o cartão de crédito. porque encontra respaldo na própria lei. Resulta da contradição existente entre a lei e as fontes reais do Direito. bancários. caindo em desuso. eram usos e costumes comerciais. são exemplos apropriados daquilo que afirmamos. Exemplo dessa espécie de costume é a chamada praxe forense: muitos atos praticados diariamente no foro não são expressamente regulamentados. Praeter legem é o costume que funciona como fonte supletiva. verde. antes de ser reconhecida pela Constituição. suprindo sua lacuna: está além da lei. ou faz os preceitos legais vigentes não serem aplicados. onde a lei nada dispôs. Neste caso. No entender de alguns juristas (Serpa Lopes). ou surgiu como complemento deste. Assinale-se. com recomendação à lei para facilitar a sua conversão em casamento. dando-lhe interpretação mais conforme às necessidades sociais”. antes de serem formalizados pelo legislador. realizam-se de acordo com costumes que servem de complemento à lei. 46] Contra legem é o costume que se opõe à lei.. quer para completá-lo. [pg. o costume deve ser observado e até exigido. praeter legem e contra legem. quer para corrigi-lo. azul etc. embora ainda não convertidos em lei. .desenvolvimento deste. 126) determina ao juiz lançar mão dos costumes quando a norma for lacunosa ou omissa. que não abrangeu aquele fato oriundo das interrelações sociais. por último. de acordo com a opinião dominante.3. Outros costumes. Secundum legem é o costume que serviu de apoio ao ditame legislativo regular. Em nosso próprio Direito positivo há inúmeros institutos que. praxes forenses etc. podemos distinguir três espécies: secundum legem. Espécies de Costume Tendo em vista as relações do costume com a lei.

Podemos resumir a controvérsia dizendo que. que se apresenta contra a lei. previsto no art. 47] que em todas as oportunidades as decisões foram semelhantes. entretanto. do ponto de vista puramente jurídico. tomando-a letra morta. assim. tomando-se letra morta. mas a revoga de fato. entretanto. pelo art. 229 do Código Penal. dando ensejo a que os motéis proliferassem amplamente. ainda que um preceito legal caia em desuso. Os costumes. porque não tem sido pacífica a interpretação de que o costume. Para o jurista. isto é. até os tribunais de segunda . Em lugar delas a sociedade consagrou outras normas de comportamento consuetudinário para atender às novas realidades. Ninguém desconhece que. São socialmente aceitos. em todos os sistemas jurídicos. É o fenômeno bem conhecido a que se deu o nome de extinção por desuso. Tais fatos. Coisa idêntica ocorre com os livros. fizeram desse artigo letra morta. No Brasil os órgãos judiciários são numerosos: desde os juízes de primeira instância. sem sombra de dúvida. após regular tramitação do processo. tipificam o crime de casa de prostituição. A JURISPRUDÊNCIA Um caso é levado à apreciação do Judiciário onde. não pode produzir o efeito de fazer-se substituir por uma norma consuetudinária oposta. Só para exemplo disto lembramos o caso dos motéis que. caracterizam o crime de escrito ou espetáculo obsceno. há muito caiu em desuso. Quer isso dizer que o costume só não revoga a lei no seu aspecto formal. mesmo contra a lei. temos que admitir a prevalência do costume. 234 e parágrafo único do Código Penal. guardaram o mesmo entendimento. deva ser sumariamente repelido. Por não corresponderem às necessidades recentes da sociedade. revistas e outros veículos de literatura pornográfica que pululam nas bancas. o costume contra a lei não pode prevalecer simplesmente porque uma lei só pode ser revogada por outra. tanto das comarcas do interior como das capitais. caíram em desuso.Essa questão tem gerado sérias controvérsias. Do ponto de vista sociológico. Tempos depois caso idêntico é submetido à decisão do Judiciário e. recebe uma decisão. 25. sendo certo [pg. existem inúmeras normas não mais aplicadas. Tal norma. Quando o legislador vem a revogá-la por outra lei. está apenas assinando o atestado de óbito. e com inúmeros filmes exibidos em nossos cinemas. Essas decisões reiteradas que emanam dos órgãos judiciários constituem a jurisprudência. entretanto. sucessivas vezes.

além de enumerar os elementos do processo. de Justiça) e os Tribunais Superiores. Os casos se repetiam. 148). e o jus gentium.. por sua vez.1. encaminhando as partes ao juiz.C. Era algo mais ou menos assim: “Porque Tício vendeu um escravo a Caio. elaborava uma fórmula escrita. aplicava a regra do pretor. . no meado do século II a. Nesse período. Cabia ao juiz apreciar as provas e aplicar a regra jurídica ao caso em concreto. Miguel Reale afirma: “Foi através da atividade dos juízes e dos pretores que os romanos. Exposto o problema. já que muitas vezes tinha que elaborar a regra jurídica a ser aplicada ao caso que lhe era apresentado. 4a ed. se fosse o caso de conceder ação.” O juiz. se não te parecer que deva pagar. o pretor elaborava a fórmula ou regra jurídica apenas apreciando o fato em tese. conforme a sua convicção sobre os fatos. concedendo ações em casos não contemplados pelo ius civile ou decidindo ele próprio contra o sistema vigente. absolve. 1962. 25. [pg. de caráter mais amplo” (ob. Modernamente a palavra jurisprudência designa o conjunto de decisões anteriores proferidas por juízes ou tribunais sobre casos idênticos. o que proporcionava ao pretor utilizar uma fórmula anteriormente elaborada para outro caso idêntico. o pretor ordenava ao juiz condenar ou absolver. p.. Inúmeros institutos jurídicos. destacando-se o Supremo Tribunal Federal. e assim. Como se vê. Ebert Chamoun (Inst. através da Lex Aebutia. construíram o jus civile. 123). 48] Com a sua incontestável autoridade. cit. o pretor. que se convencionou chamar direito pretoriano. tiveram origem nessa jurisprudência pretoriana. aos poucos. quem tinha uma pretensão ia ao pretor. conforme entendesse procedente ou não a pretensão do requerente. privativo dos romanos. segundo o magistério do Prof. Nessa fórmula.. p. extremamente fecundo como fonte de direito. sem procurar saber se estava ou não provado. ainda hoje existentes.instância (Tribunais de Alçada. foi utilizado durante o período clássico e originou-se da atividade do pretor. de Direito Romano. Conhecido como processo per formulas. após examinar as provas oferecidas pelas partes. primeiro. teve início um novo processo que substituiu as Legis Actiones. Papel da Jurisprudência em Roma Em Roma. espécie de magistrado e também em parte legislador. com o passar do tempo. foi se formando uma rica jurisprudência. condene Caio a pagar dez mil sestércios a Tício.

Novas hipóteses vão surgindo em decorrência das . não é [pg. por não existir uma norma particular na legislação. a Common Law é uma coleção de precedentes judiciários. mas tão-somente aplicar a lei ao caso concreto.” As fontes do Direito inglês são a Statute Law (direito legislado) e a Common Law (direito costumeiro). Nos sistemas codificados. por mais reiterada que seja a jurisprudência. isto é. a jurisprudência é apenas um roteiro ao lado da lei. do ponto de vista puramente jurídico. ainda que já constitua súmula do Supremo Tribunal Federal. esta é definida nos julgamentos. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Modernas Nas sociedades legalistas a jurisprudência desempenha papel secundário. como se sabe. já que todo Direito emana da lei. tem valor restrito. a força obrigatória reduzida em sua rigidez. O mesmo já não ocorre nas sociedades baseadas no direito consuetudinário. 49] verdade. Mesmo nos casos de ter o juiz que lançar mão da analogia. Para muitos juristas a jurisprudência nem seria fonte (formal) do Direito. que têm força obrigatória. donde a importância dos precedentes. Constantemente estão os juízes enfrentado hipóteses novas e decidindo casos não contidos no âmbito das normas existentes. mas simples meio de interpretação. a função do juiz é somente aplicar a lei ao caso concreto. Assim entendem porque não é função do juiz criar o Direito. Praticamente. 25. já que a lei é estática e a sociedade é dinâmica. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Legalistas Já vimos que. o que. entretanto. que não vai além de fixar um rumo. dos costumes ou princípios gerais do Direito.25. porque a norma que o juiz encontrou já estaria implicitamente contida no Direito positivo vigente e não daria origem a uma norma geral e obrigatória. Nesses países a jurisprudência constitui fonte viva do Direito. com o correr do tempo a norma vai se tomando desadequada.3. consagrar uma orientação. entendem os juristas não haver criação do Direito pela jurisprudência. não tem em princípio a força de obrigar o juiz a acatá-la em suas decisões. que todas as hipóteses estejam nela previstas no momento de sua elaboração. que o legislador tenha previsto todas as hipóteses e dado todas as respostas na lei. Tal posição pressupõe. Mesmo admitindo uma perfeita adequação entre a realidade social e a lei. sendo relevantíssimo o papel do juiz. Entre nós. o que é evidente na terminologia anglo-saxônica: diz-se judge made-law e a palavra justiça incorpora-se muitas vezes ao nome civil do juiz: “Mister Justice Smith.2.

pelo Código do Consumidor e pelo novo Código Civil. 4°) ordena-lhe formular uma regra jurídica para a hipótese e dar uma decisão. A jurisprudência. Em outras palavras. Quer isto dizer que o próprio legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. Os ingleses e americanos devem à essa colaboração legislativa da magistratura. passa a autoridade dos arestos. em muito comparável. dando-lhe condições de. 50] O papel criador da jurisprudência foi grandemente prestigiado pela Constituição de 1988. a partir do advogado. art. através de uma interpretação ora extensiva. art. Inúmeros são os casos em que os tribunais acabaram criando um Direito novo. exigindo o pronunciamento judicial. já que o juiz é obrigado a aplicar a norma que estabeleceria se fosse legislador. a lei é a concepção estática do direito. os alui. Desempenharam nesses casos. ao papel do pretor em Roma. exerce uma função de cooperador e modificador na obra legislativa. um papel positivamente criador. A técnica das cláusulas gerais adotada pelos Códigos do Consumidor e Civil ampliaram consideravelmente os poderes do juiz. dos costumes e princípios gerais do direito. embora aparentemente. ora restritiva. a jurisprudência cria Direito mesmo nos sistemas legalistas. Os princípios constitucionais provocaram uma nova visão interpretativa. boa parte dos princípios radicados na sua vida civil. necessário se faz invocar a autoridade do grande Rui Barbosa: “Ninguém ignora o papel da jurisprudência na evolução do Direito escrito. respeitado o ordenamento jurídico. não pode o juiz deixar de decidir alegando lacuna na lei: a própria lei (CPC. mutatis mutandis. . formular decisões mais justas e efetivas na composição dos conflitos de interesse. altera sensivelmente o Direito positivo.constantes transformações sociais.” [pg. à judge made-law. passando pelo juiz de 1º grau. obra sua. pois tomaram-se o filtro pelo qual passamos a reler toda a legislação infraconstitucional. lançando mão da analogia. tenham se limitado a aplicar as leis existentes. 126 e Lei de Introdução ao Código Civil. Isso tudo leva a concluir que. fixada nos textos. Sobre a letra. apenas na forma. Por outro lado. elaborado por muitas inteligências. na realidade social que está em constante mutação. ao passo que a jurisprudência é o direito dinâmico. os decompõe. em relação à essência do Direito. até chegar às Cortes Superiores. com base no fato concreto. a tal ponto que se fala normalmente na função pretoriana da jurisprudência. Inúmeras outras hipóteses de omissões e obscuridade na lei obrigam o juiz a construir. O juiz. deram novo sentido e alcance à ordem jurídica. que os infiltra. num determinado momento que amanhã poderá não mais corresponder à realidade. do ponto de vista sociológico. pela sua colaboração contínua. ajustando o Direito às novas realidades sociais. Nesse ponto.

como já enfatizado. no fundo. dos princípios a serem preservados (por exemplo. com base nos parâmetros estabelecidos na norma. O magistrado. é aquele que elabora a lei do caso concreto. 18. III. reconhece à jurisprudência o papel de fonte do Direito. assim conceituou a cláusula geral: “A cláusula geral é uma norma que impõe ao juiz o dever de. boa-fé) e dos fins a serem realizados (por exemplo. O juiz tem que formular a lei do caso concreto. o papel do juiz moderno não é mais apenas o de aplicar a lei ao caso concreto. estabelecem apenas uma moldura dentro da qual se desenham diferentes possibilidades interpretativas. “a boca da lei”. Se essa conduta estiver de acordo com a norma de dever. na realidade.. como ensinava a escola exegética. 927 e parágrafo único. 6. Em aula magna proferida na Escola da Magistratura do Rio de Janeiro . que é uma norma particular. se em desacordo. será então ilícita” (Revista EMERJ. e 51. 51] Esta é a lição do Mestre: “Se uma regra é. visto como ao juiz é dado armar de obrigatoriedade aquilo que declara ser de direito no caso concreto. a regra jurídica disciplinadora do fato e que. em suma. determinar previamente qual a norma de conduta que deveria ter sido observada naquele caso. cit. ela será considerada lícita. como é a da teoria tridimensional do Direito. fará então a avaliação da conduta em exame. [pg. Numa compreensão concreta da experiência jurídica. IV do Código do Consumidor. p. 187. a sua interpretação. isto é. fins econômicos ou sociais). À vista dos elementos do caso concreto. O relato da norma. com vistas à produção da solução adequada para o caso a ser resolvido. artigos 113. vol. o juiz deverá determinar o sentido da norma. p. uma vez transitada em julgado. aquilo que se diz ser o seu significado. 422. no momento de fazer a sua aplicação. . não há como negar à Jurisprudência a categoria de fonte do Direito. do alto da sua autoridade. 421.2003).EMERJ. Em função da regra que ele cria para aquela situação. É por isso que Miguel Reale. Na cláusula geral o juiz aplica a lei que encontra no Direito e não o direito que encontra na lei. a sentença passará a ser lei entre as partes. o seu entendimento em lei. não tem sentido continuar a apresentar a Jurisprudência ou o costume como fontes acessórias ou secundárias” (ob. que lhe confere competência para converter em sentença. Como se vê. n° 24. jurista de escol e um dos maiores juízes que passaram pelo Superior Tribunal de Justiça. o Ministro Ruy Rosado de Aguiar Junior. 931 do Código Civil).Cláusulas gerais (das quais são exemplos os artigos 4º. 169). apenas demarca uma moldura dentro da qual o juiz deverá encontrar a lei do caso concreto. fria e automaticamente. assim criada para aquele caso concreto. interpreta a norma legal situado numa estrutura de poder.

daquele que não se mantém neutro ideologicamente. sejam de formulação. para desafiar questão que somente pode ser decidida com critérios de hermenêutica que buscam formas de integração das lacunas. por corresponder a uma necessidade. Os precedentes são. incutindo ação política nos atos decisórios. esse papel criador do Direito desempenhado pela Jurisprudência não vai ao ponto de uma total independência dos ditames da lei. deve obediência à lei.Hoje. como querem os defensores do chamado direito alternativo. “como um pensador adjunto do legislador. mas sim do político. não cega como no passado. a excelência da partitura e a genialidade do compositor ficarão prejudicados se não houver talento do intérprete. sejam de valoração. preconizam a figura o juiz reformador. 33). ela não acompanhará a realidade social. Assim também acontece com a lei por mais avançada que ela se apresente. na feliz imagem de Ana Lúcia Sabadell. A toda evidência. com o contexto de conflitos de necessidades humanas no qual o direito está inserido” (Manual de Sociologia Jurídica. p. Muito embora possa e deva o juiz decidir com certa flexibilidade. acabou sendo encampado pelo legislador e transformado em . porque se preocupa com as condições do direito na realidade social. Isso acarretava uma série de problemas sociais. por exemplo. mas que se conscientiza do grau de injustiça que atinge economicamente camadas sociais e deve minorar a sorte dos pobres. como de regra acontece com todas as decisões judiciais.” Com efeito. um manancial que consolida determinada orientação.4. Por isso não mais se pode questionar que a lei não é a única fonte do Direito. ou seja. Essa nunca foi e nem será a função do juiz. 52] 25. tem que respeitar a moldura jurídica estabelecida na lei. Temos aqui uma escola jurídica de corte sociológico. Se não houver talento criador dos seus intérpretes (juízes e operadores do Direito). a pensão alimentícia só era devida após o trânsito em julgado da sentença. Exemplos de Jurisprudência Transformada em Lei Durante muito tempo. Ed. cuja importância como fonte se toma cada vez maior. razão pela qual a jurisprudência passou a entender ser a pensão devida a partir da citação inicial. indiscutivelmente. mas uma obediência inteligente. revela-se oportuna a sábia observação de Mário Moacyr Porto: “A lei não esgota o direito assim como a partitura não esgota a música. Revista dos Tribunais. impondo um regime de fome ao alimentando durante o curso do processo. Ao lado dela se posiciona a jurisprudência. Tal entendimento tomou-se tão reiterado que. muitas vezes indo além da própria disciplina positiva. Deve atuar. Com a finalidade de se alcançar a justiça social. [pg. por mais genial que tenha sido o legislador. mais do que nunca.

Conclui-se daí que a decisão do juiz é baseada nos costumes. que lhe era tão desfavorável. que dispunha . ipsi verbis. pelo acidente com o passageiro.. não em encontrar uma solução nova. desde que seu poder de aplicar inclui necessariamente o de interpretar. serve-lhe de substrato. 205-206). no artigo 735 do novo Código Civil. fazendo seu papel consistir. Relação entre a Jurisprudência e o Costume Sempre que o juiz é chamado a decidir um caso que não está claramente previsto em lei. foi transformada.lei. pp. conseqüentemente. encontram as normas já existentes no seio da sociedade. que não chamarei de criadora. porém certamente construtora” (ob. contar-se entre as fontes do direito. social e política.“A responsabilidade contratual do transportador. Algo idêntico ocorreu com os direitos da companheira. Vários dispositivos da atual lei das locações tiveram por fonte o entendimento jurisprudencial. o que evidencia que a jurisprudência constitui uma atividade verdadeiramente construtora e pode. desde que a posição do juiz não é a de um escravo ou de um autômato em face da lei. Razão assiste ao saudoso mestre Hermes Lima ao afirmar: “Entretanto. Sem dúvida. A sentença deverá refletir a opinião coletiva sobre o fato. não resta a menor dúvida que a jurisprudência exerce profunda influência no desenvolvimento do direito positivo. Inúmeras outras inovações e progressos jurídicos poderiam ser mencionados. cit. hoje lhe garante inúmeros direitos graças aos avanços introduzidos pela jurisprudência. A ambiência que cerca a espécie sub iudice. 53] interesses ou conveniências sociais.5. ele se conduz em função de certos princípios gerais estabelecidos.que a executou. Tal como os . A lei. porém o ajustamento da lei ao caso em questão está condicionado a uma estimativa de natureza pessoal e a uma apreciação. reconhecidos pela jurisprudência com base na sociedade de fato. Por isso costuma-se dizer que os juízes descobrem o direito. ambiência econômica. terá que encontrar uma solução compatível com os [pg. ele tem seus pontos objetivos de referência. Podemos afirmar que o direito é a lei aplicada mais o que ela recebeu do órgão Juiz ou Tribunal. mas em procurar a mais adequada às aspirações do meio que o cerca. mas exerce sobre ele uma pressão latente e irresistível. 25. Certo. o costume não lhe dita explicitamente a decisão. reflete-se necessariamente na obra do magistrado. o de tomar a lei adequada à espécie sobre que vai decidir. não é elidida por culpa de terceiro. contra o qual tem ação regressiva” -. A súmula 187 do Supremo Tribunal Federal.

Poderíamos dizer que lei é a regra social obrigatória emanada da autoridade a que.1.o direito. quer dizer. 10ª ed. o fato ou relação fática. através da qual o direito se exterioriza e se toma conhecido. p. Se a lei é liame. 54] mes têm origem nas necessidades sociais. Com efeito. no Estado. Costuma-se dizer que a lei é o tegumento do direito. Daí a razão de ser a lei considerada a fonte formal imediata do direito. o legislador. formas de exteriorização do direito. devem ter sensibilidade jurídica para encontrar e extrair.. A Lei. a lei é continente e o direito é conteúdo.é o fato social ou relação fática concreta a que a lei se reporta ou descreve e o conseqüente o efeito que a lei atribui à ocorrência fática. Em suma. ao Poder Executivo. que nos transmite o conhecimento do núcleo jurídico que a anima . ligação ou vínculo. decorrentes das necessidades sociais. em fato jurídico (gerador) ou relação jurídica (Curso de Direito Tributário. Semelhança e Distinção entre a Lei e o Costume Quanto ao conteúdo. ao elaborar a norma legal.[pg. em sentido jurídico. A função legislativa entre nós é conferida especialmente ao Poder Legislativo. a lei e o costume se assemelham. 54). cit. é conferido o poder de ditar regras de direito (ob. se reconhece a função legislativa. a sua forma escrita. a lei é a forma. A LEI A palavra lei vem de ligar. assim como os costu.antigos pretores romanos. em princípio. expressão da vontade do grupo. mas também. portanto. qual o antecedente e o conseqüente? O antecedente . sem aplicação prática. 26. Saraiva. do próprio ambiente social. deve estar atento às mesmas necessidades. portanto. Todo e qualquer órgão que dite norma genérica de conduta é legislativo em si. 83). diz que lei é toda norma jurídica oriunda dos órgãos da soberania. tanto a lei como o costume são regras de conduta. Diferem entretanto em muitos aspectos: . porque. transforma para seus fins. Nisto. Ruggiero. por sua vez. Ambos são. sob pena de fazer uma lei ineficaz. 26. obriga a agir. as normas a serem aplicadas em suas decisões. em certos casos.diz Ruy Barbosa Nogueira .. p. o que evidencia não ser possível tomar o termo “legislativo” em sentido restrito. segundo a constituição política do Estado. aos quais. porque este termo significa o poder de fazer lei em sentido formal.

Por isso as mais antigas leis conhecidas são os textos mesopotâmicos do segundo milênio a. precisas. rei da Babilônia. Nunca podemos saber com precisão quem. gradativa. sabemos exatamente quando foi elaborada. O processo de elaboração da lei. quando entrou em vigor e quando foi revogada. Para ele o costume. No seu entender. tende a se incrustar.. à medida que determinada conduta vai sendo aceita e reiterada pelo grupo. espontânea.C. preestabelecido. ardoroso defensor da codificação. a codificação dificultaria a evolução natural do Direito. o fundador [pg. Até então. dos quais o mais famoso é o Código de Hamurabi. O Decálogo hebraico (os dez mandamentos) é de alguns séculos mais tarde e as leis indianas de Manu datam do III século a. votação. Já quanto à lei. tomando-se mais difícil sua modificação. Em oposição se colocava Thibaut. toda a regulamentação da vida social foi feita através do costume. além de se adaptar mais facilmente . Eis aí outra razão pela qual o costume é anterior à lei: somente depois do surgimento da escrita. 2) Quanto ao processo de elaboração: O costume. no começo do século XIX. longe de ser mais flexível do que a lei. até chegar à publicação. Esta só veio a surgir quando a sociedade chegou ao estágio de organizar-se política e juridicamente. 3) Quanto à forma: O costume se exterioriza através de condutas reiteradas e é transmitido em regra por via oral.1) Quanto à origem: O costume. passando pela discussão. emana diretamente da sociedade. iniciando-se com um projeto. promulgação. é que se tomou possível a elaboração das primeiras leis. também já vimos. 55] da Escola Histórica. quando. Savigny. vai se formando paulatinamente. numa época relativamente recente da história humana. sanção. sustentava que o costume devia prevalecer sobre a lei por ser a expressão direta e pura das aspirações da coletividade nacional. é de formação livre. historicamente. e a lei de um órgão estatal.O Costume ou a Lei? Em torno dessa questão travou-se grande controvérsia na Alemanha. onde teve origem um determinado costume. como já vimos. partidário do direito consuetudinário. entretanto. entre dois juristas de escol. Sistema Preferido . é formal. criando o Estado. passa de pai para filho pela tradição. emperrando o seu desenvolvimento e tomando-o desadequado à realidade social.C. é anterior à lei. A lei se exterioriza por escrito e através de fórmulas rígidas.2. Por isso o costume. 26. A lei.

apresenta a grande vantagem de proporcionar um conhecimento mais rápido e oferecer maior segurança do que o costume. objeto de estudo da Ciência do Direito. Dessa controvérsia resultou que a maioria dos Estados modernos vive sob o regime da codificação. A Sociologia Jurídica só se preocupa com a eficácia da lei.às novas condições sociais (desde que o legislador esteja atento e disposto a isso). [pg. apenas alguns preferindo o direito consuetudinário. Já ficou assentado que a lei é. essencialmente. como veremos nos próximos capítulos. 56] .

Teoria tridimensional do direito: diferença entre a Sociologia Jurídica. p. 222). pelos instrumentos e métodos das ciências mais antigas. aquilo que se pretendia constituir em objetivo da nascente sociologia do direito. a ciência do direito e a filosofia do direito. **** 27. pois tem objeto próprio. a sociologia do direito se confundiria com a própria ciência do Direito. fugindo aos objetivos deste modesto trabalho. Na opinião de muitos sociólogos. quando muito constituindo uma de suas especialidades. foi bastante controvertida. A História do Direito. limitamo-nos [pg. A finalidade da Sociologia .Capítulo VI A AUTONOMIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COMO CIÊNCIA E SUAS RELAÇÕES COM OUTRAS CIÊNCIAS SOCIAIS Autonomia da Sociologia Jurídica. a sociologia jurídica seria parte integrante da Sociologia. Para outros. A eficácia. Muitos autores procuraram explicar. AUTONOMIA CIENTÍFICA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A questão da autonomia da Sociologia Jurídica. Entre os que pensam dessa última maneira podemos citar Edmond Jorion. por isso que se preocupa apenas com o direito como um fato social concreto. método e leis. 57] a afirmar que a autonomia da Sociologia Jurídica é hoje reconhecida. como acontece com toda ciência nova. e isso gerou controvérsias. 1961. a vigência e o fundamento. por exemplo. O ser e o dever ser. para quem a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina (De la Sociologie Juridique. os prós e contras das várias posições. Não se confunde o objeto da Sociologia Jurídica com o de qualquer outra ciência que também se relacione com o direito. Relação da Sociologia Jurídica com os demais ramos do direito. Sem nos estendermos sobre a controvérsia. integrante de uma superestrutura social. juristas em geral.

Saraiva. 4ª ed. Juntos vão formar uma síntese integradora. na maneira como descreve o relacionamento entre os três componentes do fenômeno jurídico. demográfico. Lições Preliminares de Direito. fornecendo subsídios para suas transformações. que assim pode ser resumida: Onde quer que haja um fenômeno jurídico.. Cada um desses três fatores se refere aos demais e por isso só alcança sentido em conjunto. A TEORIA TRIDIMENSIONAL DO DIREITO Quem elucidou essa questão melhor do que ninguém foi o genial Miguel Reale na sua teoria tridimensional do Direito. 58] Daí resulta que “o Direito não possui uma estrutura simplesmente factual. um valor. uma regra ou norma. mas coexistem numa unidade concreta. Título X. há. finalmente. sempre e necessariamente. valor e norma formam uma unidade fático-axiológica-normativa. ob. 12ª ed. mantém a Sociologia Jurídica íntimas relações com todas as ciências sociais. no tempo e no espaço. Ed. Tais elementos ou fatores (fato. porém. esses elementos ou fatores não só se exigem reciprocamente. o fato ao valor. geográfico. uma espécie de santíssima trindade do Direito. como se vê. Mais ainda. embora se tratando de uma ciência autônoma. como defendem os normativistas. É evidente. . com objeto próprio e inconfundível. Este congrega aqueles componentes. quando formam uma implicação dinâmica.. sob forma de regulamentação da vida social. de ordem técnica etc). Fato. uma verdadeira trilogia. mas atuam como elos de um processo. mas não em uma simples adição. normativa. um fato subjacente (fato econômico. como querem os sociólogos. 378). p. como proclamam os idealistas. A originalidade desse grande jurista brasileiro está. 28. 1965. cit. e. valor ou norma) não existem separados uns dos outros. [pg. 65). Essas visões são parciais e não revelam toda a dimensão do fenômeno jurídico. que confere determinada significação a esse fato. que. com as quais tem muito em comum. de tal modo que a vida do Direito resulta da integração dinâmica e dialética dos três elementos que a integram (Filosofia do Direito. inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. na qual cada fator é explicado pelos demais e pela totalidade do processo” (Paulo Nader. valorativa.. principalmente com a Ciência do Direito e Filosofia do Direito. que representa a relação ou medida que integra um daqueles elementos ao outro. p.Jurídica é estabelecer uma relação funcional entre a realidade social e as diferentes manifestações jurídicas.

Na correta visão de Reale, o Direito forma-se da seguinte maneira: um valor podendo ser mais de um - incide sobre um prisma (área dos fatos sociais) e se refrata em um leque de normas possíveis, competindo ao poder estatal escolher apenas uma, capaz de alcançar os fins procurados. Um valor pode desdobrar-se em vários dever-ser, cabendo ao Estado a escolha, a decisão; toda lei é uma opção entre vários caminhos; o fato nunca será isolado, mas um conjunto de circunstâncias. Na concepção do autor dessa teoria tridimensional, o Direito é uma realidade fático-axiológico-normativa, que se revela como produto histórico-cultural, dirigido à realização do bem comum. Apesar de sua natureza dinâmica, o Direito possui um núcleo resistente, uma constante axiológica, invariável no curso da história. Pois bem, esses três fatores inseparáveis do Direito - fato, norma e valor - vão constituir o objeto de três ciências distintas, embora afins: a Sociologia Jurídica, a Ciência do Direito e a Filosofia do Direito. A Sociologia Jurídica tem por objeto, como já ficou dito, o direito fato, a Ciência do Direito se preocupa com a norma, e a Filosofia do Direito dedica-se ao direito em seu aspecto valor.

28.1. Diferença entre a Sociologia Jurídica e a Ciência do Direito

O fato é o acontecimento social referido pelo Direito objetivo. São as relações sociais, fatos interindividuais que envolvem interesses básicos para a sociedade e que por isso enquadram-se dentro dos assuntos regulados pela ordem jurídica. Implica isto dizer que a Sociologia Jurídica descreve a realidade social do direito sem levar em conta sua normatividade. Preocupa-se com a existência do direito como produto ou fenômeno social, decorrente das inter-relações sociais, e não como foi concebido ou equacionado pelo legislador. A sociologia deve apenas relatar e registrar o fato sem se envolver com valores, ideologias ou normas. É tarefa do sociólogo descrever os fatos. [pg. 59] A norma consiste no padrão de comportamento social a ser adotado em cada caso. “Ao disciplinar uma conduta, o ordenamento jurídico dá aos fatos da vida social um modelo, uma fórmula de vivência coletiva” (Paulo Nader, ob. cit., p. 378). E esse é o campo da ciência do Direito. Estuda o Direito pelo seu aspecto normativo, isto é, o conjunto de leis e regras escritas e emanadas do Estado. À ciência do Direito interessa o conhecimento das normas jurídicas, que enunciam, não o que sucedeu ou como sucedeu, mas o que deve acontecer, já que o objeto do saber jurídico é o Direito, e o Direito é a norma, nada mais que a norma (Kelsen). A norma pode ser definida como um juízo hipotético destinado a expressar que fazer ou não fazer algo deve acompanhar-se de uma medida de coação por parte do Estado.

28.2. Distinção entre a Sociologia Jurídica e a Filosofia do Direito

À Filosofia do Direito, que objetiva o estudo do direito no seu aspecto valor, cabe determinar sua formação e desenvolvimento em relação aos elementos infra-estruturais da sociedade, ressaltando a dependência de suas modificações. Preocupa-se com correntes filosóficas e ideológicas, que conceberam o direito desta ou daquela forma, e com a escala de valoração jurídica dos bens existentes na sociedade. Valor é o elemento moral do Direito, a sua essência ética. Toda a obra humana é impregnada de sentido ou valor, e assim também ocorre com a sociedade. Tem ela uma escala de valores ligada à idéia de poder, importância, qualidade, estima, utilidade e necessidade material ou moral, acerca de condutas, posições, entendimentos e coisas, escala essa que vai se formando e se modificando de acordo com correntes ideológicas - pensamentos, idéias, opiniões - existentes em determinado momento e em determinada sociedade. Toda norma enuncia algo que deve ser, em virtude de ter sido reconhecido um valor como razão determinante de um comportamento declarado obrigatório. O valor confere determinada significação ao fato, inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. Houve tempo, por exemplo, que a liberdade foi o grande valor social que, por sua vez, deu causa ao liberalismo. O Direito brasileiro atual, principalmente a partir da Constituição de 1988, voltou a dar ênfase aos valores, o que tem conseguido alcançar por meio da consagração de princípios. Princípios são valores éticos, morais e sociais apreendidos pelo legislador e que, consagrados em um preceito, passam a ser instrumentos de interpretação de outros preceitos, enquanto [pg. 60] normas são regras de comportamento que estabelecem como deve ou não deve ser a conduta e as conseqüências que daí decorrem. Regras oferecem soluções enquanto que os princípios oferecem paradigmas, critérios para se encontrar a solução do caso concreto. Entre os superiores princípios (valores) consagrados na Constituição de 1988, merece especial destaque o da dignidade da pessoa humana, colocado como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1°, III). Temos hoje o que pode ser chamado de direito subjetivo constitucional à dignidade. Ao assim fazer, a Constituição colocou o Homem no vértice do ordenamento jurídico da Nação, fez dele a primeira e decisiva realidade, transformando os seus direitos no fio condutor de todos os ramos jurídicos, Isso é valor. E, ao inserir em seu texto normas que tutelam os valores humanos, a Constituição fez também estrutural transformação no conceito e valores dos direitos

individuais e sociais, o suficiente para permitir que a tutela desses direitos seja agora feita por aplicação direta de suas normas. No plano infraconstitucional, a legislação vem seguindo o mesmo caminho. O Código do Consumidor é uma lei principiológica, no qual foram consagrados os valores éticos e morais necessários à defesa do consumidor, entre os quais a boa-fé objetiva, princípio cardeal (arts. 4°, VIII; 51, IV), a transparência, a confiança, a informação, a segurança e outros. O novo Código Civil, como não poderia deixar de ser, pois foi coordenado pelo autor da teoria tridimensional do Direito, está todo comprometido com o resgate dos valores éticos, sociais e morais no Direito. A título de exemplificação, lembramos que a boa-fé é também o princípio cardeal desse novo Código, uma espécie de fio condutor de toda a sua estrutura. Não se trata, porém, da boa-fé meramente subjetiva - posição psicológica, intenção pura e destituída de má-fé, crença ou ignorância de uma pessoa -, porque isso a realidade demonstrou não ser suficiente nas relações sociais regidas pelo Direito, Dizem que o inferno está cheio de pessoas bem intencionadas. A boa-fé consagrada pelo novo Código como valor superior é a boa-fé objetiva ou normativa, assim entendida a conduta adequada, correta, leal, transparente, confiável e honesta que as pessoas devem empregar em todas as relações sociais. Três são as funções da boa-fé objetiva no novo Código Civil: a) fonte de deveres instrumentais dos contratos (art.422): quem contrata não contrata apenas o que contrata, contrata também lealdade, cooperação, transparência, informação etc. (tem-se dito que esse dispositivo é a porta de entrada da ética no nosso Direito); b) regra de interpretação dos negócios [pg. 61] jurídicos (art.113): todo e qualquer negócio jurídico deve ser interpretado pelo juiz de acordo com o princípio da boa-fé; c) limite ao exercício dos direitos subjetivos (art.187): nesta terceira hipótese a boa-fé representa o padrão ético de confiança e lealdade indispensável para a convivência social. As partes devem agir com lealdade e confiança recíprocas. Essa expectativa de um comportamento adequado por parte do outro é um comportamento indispensável na vida da relação. É um limite a ser respeitado no exercício de todo e qualquer direito subjetivo. Podemos afirmar que o Código do Consumidor e o novo Código Civil são uma reação ao liberalismo jurídico que predominou durante todo o século XX, principalmente em sua primeira metade, e que aos poucos afastou o Direito da ética, da moral, da eqüidade, dos valores transcendentais, tornando-o puro tecnicismo. Em suma, a Sociologia procura a existência; a Filosofia preocupa-se com a essência. “A Sociologia do Direito”, como observou Gurvitch, “dá ao jurista uma descrição objetiva da realidade social do direito, válida num dado meio social; a Filosofia do Direito lhe

dá um critério de valores jurídicos, que lhe ajuda em suas manifestações particulares para alcançar fins concretos” (Sociologia do Direito, p. 13). Embora cada uma funcione em seu setor específico, as duas ciências estão, entretanto, interligadas, pois o filósofo social necessita conhecer a realidade social que se faz presente nos trabalhos do sociólogo. “Quando se estuda Filosofia do Direito”, assinala Porto Carreiro (Introdução à Ciência do Direito, p. 78), “parte-se de uma base sociológica inafastável, cujo conhecimento é fornecido por aqueles que se dedicam ao estudo sociológico do Direito”.

29. A EFICÁCIA, A VIGÊNCIA E O FUNDAMENTO

As três dimensões pelas quais o Direito pode ser considerado (fato, norma e valor), segundo o próprio Miguel Reale (O Direito como Experiência, 1961, pp. 61 e 62), dão origem a três planos de problemas diferentes: o da eficácia, o da vigência e o do fundamento. A Sociologia Jurídica se preocupa com o primeiro - a eficácia; a Ciência do Direito, com o segundo - a vigência; e a Filosofia do Direito, com o terceiro - o fundamento.

29.1. A Eficácia

Ao afirmarmos que a Sociologia Jurídica preocupa-se com a eficácia do Direito, queremos enfatizar que constitui também objeto dessa discipli- [pg. 62] na saber se as normas jurídicas estão ou não adequadas às necessidades sociais. Quer dizer, primeiro a Sociologia Jurídica preocupa-se com os fatos sociais que repercutem na ordem jurídica, e com as relações que necessitam receber o disciplinamento do direito; uma vez elaborada a norma disciplinadora, empenha-se em saber se a referida norma atende ou não às necessidades sociais. Isso, como teremos oportunidade de ver, é da maior importância porque a norma, mesmo que no momento de sua elaboração esteja perfeitamente adequada à realidade social, com o correr do tempo pode se tomar ultrapassada, ineficaz, em razão da constante evolução social, tomando-se necessário reformulá-la.

29.2. A Vigência

A Ciência do Direito, por sua vez, preocupa-se não somente com a norma, como já vimos, mas também com a sua vigência. Enquanto a lei estiver em vigor, cabe ao jurista estudá-la, interpretá-la, comentá-la etc., ainda que se trate de lei já completamente

haverá campo apenas para a Sociologia Jurídica e para a Filosofia do Direito. Dependendo das correntes ideológicas ou filosóficas predominantes e dos fatos sociais existentes. por último. O fato social já existe: milhares de pessoas do mesmo sexo convivem sob o mesmo teto. Enquanto o grupo social estiver se organizando. finalmente. 149). em que ficar decidido: a forma de Estado é essa. sentimental e doméstica como se fossem casais. -. Discute-se a justificação dessa união. democrático. religiosas. apesar de não mais terem aplicação social: por exemplo. decidindo que forma de Estado e de governo vai adotar . 63] organização social e política vai estabelecer situação da família. a natureza do que é jurídico. Do exposto. Até lá é objeto da Ciência do Direito. seu conteúdo ético a seu mundo axiológico. o casamento será assim etc. que [pg. parece-nos resultar claro que a Ciência do Direito só tem razão de ser após o surgimento da primeira norma na sociedade. teremos esta ou aquela estrutura política e social. federado. No momento. que a Filosofia do Direito preocupa-se também com os fundamentos do Direito. a forma de governo é aquela. Recapitulando: primeiro ocorre o fato social. O Fundamento Ao afirmarmos. depois valoriza-se o fato e. sistemas de produção etc. republicano -.3. queremos dizer que constituem igualmente objeto dessa disciplina os problemas relacionados com o ideal do direito. Em alguns países o casamento de homossexuais já é permitido. 29. porém. o crime de perigo de contágio venéreo (art. o objeto da ciência do Direito. Ao estudarmos o Código Penal. 240) etc. A norma só deixa de ser vigente depois de expressa ou tacitamente revogada por outra. encontramos várias figuras típicas que ainda hoje são objeto de comentários dos autores (estão no Código). partilhando a vida sexual. Mas a norma legitimando essas situações não foi editada porque ainda está em debate o valor.desatualizada e em desuso.. por via de conseqüência.unitário. Serve como exemplo a união estável de homossexuais. questão que ainda aguarda definição jurídica. as suas conseqüências morais. mas no Brasil continua sendo objeto de acirrados debates. ainda que completamente afastada da realidade social. adultério (art. ele é normatizado. éticas. redução à condição análoga à de escravo (art. familiares e sociais. suas causas e seus princípios últimos. 130). investigando ainda as ideologias ou correntes de pensamento que acabaram prevalecendo e servindo de fundamento aos principais institutos jurídicos. Muitas já conseguiram a posse e guarda de crianças e até adotá-las como filhos. surge a norma e. como outrora se discutiu o .

As ciências sociais pertencem ao mundo do dever ser. cit. construindo bombas ou catedrais.concubinato. apenas servindo-se de uma lógica diversa. 64] gico. às condutas humanas em sociedade. Nessa perspectiva. Quando o sociólogo do direito se refere ao seu objeto. O homem é o único ser que participa das duas esferas básicas do mundo . liga determinado conseqüente: se alguém causar dano a outrem. O direito de que aqui se vai tratar . No mundo da natureza as coisas se passam mecanicamente. isto é. e assim por diante. observou Machado Neto (ob. A um antecedente liga-se indispensavelmente dado conseqüente: um corpo solto no espaço (antecedente) cai inexoravelmente (conseqüente). atua na esfera da liberdade. mas ao próprio direito vivo (ser). Como ser bioló. 266. se chover. É este que. 30. fica obrigado a repará-lo. isto é. No mundo do dever ser as coisas se passam segundo a vontade racional do homem. que decorrem da própria natureza. reconhecido como união estável pela Constituição de 1988. escolhendo os seus próprios caminhos.[pg. não às normas (dever ser). muitos autores procuram distinguir a Sociologia Jurídica da Ciência do Direito estabelecendo que a primeira é a ciência do ser e a segunda a do dever ser. a ética e o direito.é o mesmo com que o sociólogo já se habituara a conviver muito antes que os juristas ou os jusfilósofos fizessem a extraordinária descoberta do direito como conduta em interferência intersubjetiva. tal como a moral.. a dado antecedente.a conduta humana . está se referindo. em sua Teoria Pura do Direito. cuja conversão em casamento a lei deve facilitar (art. § 30).a física (o ser) e a moral (o dever ser). podemos estabelecer o seguinte quadro: DIREITO Sociologia Jurídica Ciência do Direito Filosofia do Direito Fato Norma Valor Eficácia Vigência Fundamento Ser Dever Ser Poder Ser . O mundo do ser é o das leis naturais. como ser moral. Sintetizando tudo o que até aqui ficou dito. O SER E O DEVER SER Desde Kelsen. entidade familiar. de nada vale a vontade do homem na tentativa de modificá-las mediante a formulação de leis racionais. 133). da consciência e da razão. está na realidade das coisas. a Sociologia Jurídica versará o mesmo objeto da ciência jurídica. até nossos dias. p. a terra fica molhada. escrevendo a sua história. e assumindo a responsabilidade pelos seus atos. sujeito às leis naturais.

já podemos compreender melhor os motivos da inconciliável controvérsia existente entre sociólogos. interessam os fatos passados simplesmente por não ser possível fazer história de fatos presentes. a fim de apurar a evolução sofrida pelo Direito. como já vimos. nos influenciam de tal forma. É que as duas possuem praticamente o mesmo objeto material .a vida social: para ambas o direito aparece como um fato social. o direito. a realidade atual. possibilitando a elaboração de normas ajustadas a essa realidade e aferindo a eficácia das já existentes. filósofos e juristas. 1970. que necessitam do disciplinamento jurídico. Os fatos presentes são a principal preocupação da Sociologia Jurídica porque cabe-lhes. com um aspecto diferente. a essa altura. 31. dever ser. cada qual. cada qual. Não se pode fazer história de fatos presentes. a Sociologia Jurídica e a História do Direito são. as três ciências ocupam-se do Direito. porque o presente inquestionavelmente influencia na visão dos fatos. oriundo inquestionavelmente da sociedade. eficácia. oriundo da instituição estatal. a ponto de. São os fatos presentes. o que lhes confere objeto próprio e autonomia. Historiar é narrar fatos notáveis ocorridos na vida dos povos tal como ocorreram. A HISTÓRIA DO DIREITO De todas as ciências jurídicas. até inconscientemente. À História do Direito. Sociologia do Direito.apesar de ser considerada inócua tal distinção por alguns autores (Nelson Nogueira Saldanha. mas no seu aspecto valor. e os últimos falam do seu aspecto normativo.[pg. e a História do Direito com os fatos passados . Os fatos passados só interessam à Sociologia Jurídica eventualmente para efeito de comparação. Cremos que. pp. aquelas que mantêm mais íntimas relações. como à História em geral. e não os passados. ser. fundamento. entretanto. em seu ângulo de visão. porém. 65] sentes. os segundos falam do mesmo fenômeno. posições políticas. . 37-38). Os primeiros falam do direito no seu aspecto fato. Todos estão certos. Correntes filosóficas. fazer a descrição da atual realidade social do direito. Entendemos que a principal distinção entre essas duas ciências está em que a Sociologia Jurídica preocupa-se por excelência com os fatos pre. com o máximo de fidelidade ao acontecido. por sua vez. poder ser.Como se vê. há muito tempo. inegavelmente. de vigência. todos têm razão. envolvimentos sociais etc.

ser fiel a eles o máximo possível. que as duas ciências se relacionam intimamente. é o objeto por excelência da nossa disciplina. Sucessões. como vai relatá-la? Que viu A esfaqueando B. assim [pg. Via de regra. por um lado. procurando enquadrá-la no sistema geral em que a história em si própria consiste. Por isso é necessário. Observa o autor. Trabalhista. Para Machado Neto (ob.Família. entretanto. mas como nos parecem ter ocorrido. momentos antes esfaqueado por C. RELAÇÃO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COM OS DEMAIS RAMOS DO DIREITO Se. Penal. fundamento sólido para suas induções. A segunda (História do Direito) detém-se na consideração de cada fenômeno sócio-jurídico individual. para fazer história. mantém constante intercâmbio de sugestões e de subsídios com todas as disciplinas especiais que pesquisam o direito sob outros ângulos. a narrar os fatos. pois o historiador do direito se abebera dos ensinamentos da Sociologia Jurídica. deixar que o tempo dispa os fatos de toda ideologia ou conotação interpretativa. 66] como o sociólogo do Direito se aproveita do inesgotável manancial da história das instituições jurídicas. uma coisa é o fato e outra a sua interpretação. não como ocorreram. como já vimos. isto é. Este é o fato. E. . O historiador tem que narrar fatos. E dessas inter-relações resultará para o estudante uma visão mais ampla. por outro está intimamente relacionada com todo o Direito . a principal diferença entre Sociologia Jurídica e História do Direito está em que a primeira pretende apanhar do fenômeno social jurídico o que sejam suas características genéricas: as leis gerais e as figuras típicas do comportamento jurídico da sociedade. como é sabido. e isso só é possível alcançar após o decurso de algum tempo. p. 32. o direito fato. é um estudo específico e possui ângulo próprio para examinar seu objeto. . completa e abrangente do Direito. Isso já é interpretação. De todo o exposto. E o fato social. Alguém passa por uma rua e vê uma pessoa tirando uma faca que estava cravada nas costas de outra. se a Sociologia Jurídica.em vez de nos limitarmos a narrar. passarmos também a interpretar. 129). pode-se concluir que. por um lado.. cit. Fiscal etc. que lhe dá maior força de penetração no sistema global da história jurídica. a Sociologia Jurídica tem autonomia como ciência. pois pode ser que A estivesse socorrendo B. se não quiser correr o risco de generalizar a partir de poucos exemplos empíricos.pela simples razão de ocorrerem na sociedade todos os fatos que repercutem nos mais variados ramos do Direito. por outro lado.

satélites artificiais e até de objetos “nãoidentificados”. de aviões. **** 33. As casas encheram-se de aparelhos eletrodomésticos. encheram-se de veículos dos mais variados tipos. Astronomia. em tão grande número e variedade que. Efeitos do progresso científico no mundo social.uma para a família e outra para os aparelhos. Matemática. os mais poderosos e velozes. se formos adquiri-los todos. O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO Na primeira metade do século XX as grandes potências mundiais deram grande importância ao estudo das ciências chamadas exatas. Importância da Sociologia Jurídica. permitindo ao homem penetrar no mundo do invisível . o ar. 69] O homem verdadeiramente adquiriu o dom da ubiqüidade. [p. As ruas. A importância das ciências sociais. precisaremos de duas casas . como dos gigantescos corpos celestes distantes milhões de anos luz. Disca o telefone e fala com alguém no outro lado do . de naves espaciais.tanto das minúsculas bactérias. Como resultado. investindo-se fabulosas somas no desenvolvimento de arrojados projetos quase impossíveis.Capítulo VII IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E DA SOCIOLOGIA JURÍDICA EM ESPECIAL O desenvolvimento científico. Todas as atenções foram voltadas para as pesquisas no campo da Física. o mar encheu-se de navios das mais variadas procedências. houve um progresso científico nunca dantes visto ou esperado! Inúmeros inventos e descobertas ocorreram. pois pode estar em vários lugares quase ao mesmo tempo. Química. outrora calmas e livres. bem como de submarinos e outros objetos destinados à navegação.

na Alemanha. rara. entra na internet e. O nosso D. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava sendo o lombo de animal. Para evitar-lhe problemas psíquicos. Isso demonstra que em quase quatro mil anos de história a humanidade nada progrediu no campo científico. uma vez feito isso. O único acontecimento isolado.com carruagens. Os monges. congelado. Não percebemos tanto o vulto das transformações porque ocorreram todas em nossos dias. acessa qualquer informação. Gutenberg levou dois anos para compor os tipos de sua primeira Bíblia. inventou o tipo móvel e apresentou a primeira prensa na Europa (a China e a Coréia já possuíam prensas). literalmente. uma impressora a laser de alta velocidade. Era a história de um indivíduo. tudo se transformou em nossa sociedade. um ourives da cidade de Mainz. O aparecimento da prensa fez mais pela cultura ocidental do que simplesmente introduzir uma forma mais veloz de reproduzir um livro. e fomos a elas nos acostumando gradativamente. mas. vê o que pretender. comanda operações de muitos milhões de dólares. Para termos idéia do progresso científico que houve em nossos dias e das transformações ocorridas. voltasse à nossa sociedade.mundo.[p. ocorreu por volta de 1450. acidentalmente. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava o mesmo. em outro continente. Na Europa e nos demais países civilizados também o transporte era o mesmo. compra o que quiser. põe-se em contato com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. seus descendentes tiveram que remontar em tomo dele o mundo em que viveu . não em cima de um tanque de guerra. Em conseqüência desse fantástico progresso científico. Pedro I proclamou a independência. Antes de Gutenberg. mas ainda em cima de um cavalo. toma café no Rio de Janeiro e janta em Nova Iorque. em comparação. 70] mente conseguiam fazer mais de uma por ano. A maioria das . por volta de 1700. teve condições de imprimir múltiplos exemplares. e assim por diante. Mas se um ancestral nosso. que morreu aí pelo ano de 1900. liga a televisão e vê o que está se passando. Até aquela época. que em geral eram encarregados de copiar a Bíblia. A prensa de Gutenberg era. Já houve até um filme que explorou esse motivo. de grande impacto cultural sobre a sociedade. nos Estados Unidos.000 anos antes de Cristo? O lombo de animal. Mil e oitocentos anos depois. ou até mesmo na Lua. nos dias de Cristo. quando Johann Gutenberg. naquele instante. e descongelado em 1976 num mundo totalmente diferente. Passaram a ser naturais. todos os livros eram copiados à mão. a vida fora comunitária e praticamente imutável. basta que atentemos para o seguinte: qual era o sistema de transporte mais rápido 2. O invento mudou a cultura ocidental para sempre. Dois mil anos depois. no qual viajava do Rio para São Paulo. não acreditaria no que veria: pensaria que estava em um outro mundo. roupas compridas etc. apesar do transcurso das gerações.

A explosão demográfica.” E quando o trem andou. Hoje. sonora. perdendo de vista seu objetivo. sem mapas confiáveis. como se sabe. deu origem a uma classe ex. porém. os homens voam a fantásticas velocidades. O mais impressionante de tudo é que a maioria dos inventos ocorreu de 50 anos para cá.” E não parou mesmo. o velho se pôs a gritar: “Essa coisa não vai mais parar. gerando novos planos na desigualdade social. agravou os problemas de trânsito.[p. por falta de uma ação . perdia terreno em seu próprio grupo.” Ao chegarmos perto do século XX. depois da Segunda Grande Guerra Mundial e da desintegração do átomo. dizendo repetidas vezes: “Essa coisa não vai andar. os inventos começaram a surgir: um descobriu a energia elétrica. EFEITOS DO PROGRESSO CIENTÍFICO NO MUNDO SOCIAL Enquanto as ciências chamadas exatas eram estudadas e pesquisadas. O primeiro trem andava à velocidade de 6 km por hora: era um espanto para a época. ainda mais desnorteado. 120 km etc. pôs-se a advertir os passageiros. outro a máquina a vapor. Um velho que se encontrava na estação. Como diz James Burke. em geral era quase impossível encontrar o caminho de volta. acarretando acidentes que matam e mutilam mais do que as guerras. um de meus autores favoritos: “Nesse mundo. choques ideológicos. Enquanto o homem se empenhava em conquistar a Lua. O que existia no mundo exterior era uma questão de ouvir dizer. resultando disto um descompasso entre o progresso científico e a evolução social. Muito poucas aventuravam-se para além das fronteiras da aldeia. as ciências sociais ficaram esquecidas. Desse desequilíbrio resultou que o progresso científico. a comunidade olhava para dentro. permitindo a formação de um clima propício a lutas de classes. dominando o espaço sideral. que é o próprio homem. 71] tremamente privilegiada em detrimento das demais. já de muito ultrapassaram a barreira do som. todas as experiências eram pessoais: os horizontes eram pequenos. e assim as rodas começaram a correr. aumento da criminalidade. porque de 6 km por hora. relegadas a segundo plano. não acompanharam o desenvolvimento científico e tecnológico. em vez de resolver os problemas sociais . em parte porque.sua razão de ser . a ponto de tomar impossível a vida em certos lugares. fluvial e até do mar. passou em pouco tempo a 60. trouxe poluição atmosférica. As instituições sociais. 34. outro ainda o motor a explosão.pessoas só conhecia aquilo que fora visto com os próprios olhos ou ouvido em relatos de terceiros. ao vê-lo. Criou superpotências capazes de dominar e destruir as demais.agravou-os ainda mais.

mas a cegonha. miséria. progresso. pesquisas e projetos desenvolvidos. A planificação da sociedade não é mais considerada incompatível com a democracia. Mais recentemente: F. empolgados pelos problemas decorrentes da aparente necessidade de controlar as massas. como foi feito com as ciências exatas. nem apenas um sonho dos marxistas ou fascistas. sob pena de tomar-se impossível a vida em coletividade. . A Crise do Direito (1955). A IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Houve o despertar da consciência para a importância das ciências sociais e a necessidade de estudá-las. A. Carlos Campos. destinados a preparar especialistas em planejamento e organização social. Quando a sociedade cresce desordenadamente toma-se um polvo gigantesco. inúmeras e extraordinárias obras foram escritas sobre o assunto. vinculado ao desenvolvimento social. tomou-se um fato irreversível. com inúmeros tentáculos ou segmentos. Tem que conhecer o que se passa em seu seio como temos que nos conhecer a nós mesmos. realizando-lhe os objetivos. Evaristo de Moraes Filho. Concluiu-se também ser necessário planejar o desenvolvimento social. segurança. Sociologia e Filosofia do Direito. Compreendeu-se tardiamente que o progresso científico deve ser integrado. liberdade. É hoje uma imposição da vida em coletividade. criaram-se cursos universitários específicos nesse fascinante ramo [p. visando o planejamento do próprio desenvolvimento. sério. Dentre os juristas e sociólogos que entre nós se têm dedicado ao assunto. Por isso. 72] do conhecimento humano. de Miranda Rosa lançou a notável Sociologia do Direito. L. já reinantes nos grandes centros socialmente mal organizados. A sociedade tem que caminhar para o autoconhecimento. 35. editado pela primeira vez em 1922. só nesta harmonia traz beneficio à humanidade. sem a qual não haverá organização. confusa e turbulenta. a ponto de um ex-presidente norte-americano afirmar que a mais perigosa sombra que ameaça a humanidade atualmente não é a bomba atômica. pesquisá-las. e A.preventiva. que editou em 1950 a obra intitulada O Problema de uma Sociologia do Direito. de algum tempo para cá tomou-se obrigatório o estudo das ciências sociais em quase todos os cursos superiores. destacamos: Euzébio de Queiroz Lima. e Orlando Gomes. abandono infantil. que escreveu o conhecido livro Princípios de Sociologia Jurídica. Provam isto os problemas sociais de violência. desenvolvê-las.

] trato. do original Sociologie du Droit.” E. Para interpretá-las. os conflitos que se travam . sob o título Sociologia Jurídica. obsoleta. Dos autores estrangeiros com obras traduzidas para o português. 36. Com efeito. o jurista toma contato. constituindo-se de fatos sociais. não sendo possível estudálo abstraindo-o da sociedade. enfim . Ao Juiz. Esses ajustes só alcançarão seus objetivos se o legislador estiver devidamente informado sobre aquilo que precisa mudar. numa sociedade determinada. caráter abs. as relações que necessitam de melhor disciplinamento. o elemento material isolado toma cor neutra e o elemento formal. sem desrespeitar as leis da hermenêutica. traduzido por Teruka Minamissawa.[p. e a Sociologia do Direito de Remi Levy Briihl. mais adiante.nenhum legislador tem condição de elaborar leis eficazes. pois fornece-lhe os elementos necessários à elaboração das leis. escoteiro. necessariamente. visto que. com a realidade social subjacente. Só por abstração se pode separar a forma do conteúdo. ora restritiva. O primeiro é a matéria prima da experiência jurídica. Não basta descrever os elementos formais da realidade jurídica composta das normas vigentes em determinado momento histórico. é preciso com freqüência ajustar a lei às novas realidades sociais. um dos nossos grandes juristas. em magistral tradução de Djacir Menezes. sem conhecer os fatos que estão ocorrendo no grupo. Orlando Gomes. no estudo do Direito Civil pátrio. bem colocou esta questão quando disse: “A realidade jurídica constitui-se de dois elementos fundamentais: o material e o formal. através de uma interpretação ora extensiva. O outro é formado de um conjunto de normas. Por outro lado. 1946. ou mesmo através da analogia. IMPORTÂNCIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A Sociologia Jurídica é da maior importância em primeiro lugar para o Legislador.a realidade social. Segundo Pugliatti. conhecendo-as. Eis por que.Machado Neto escreveu Sociologia Jurídica. em 1964. sendo a lei estática e a sociedade dinâmica. não podemos deixar de mencionar a Sociology of Law de Gurvitch. poderá. com o passar do tempo aquela acaba se tomando ultrapassada. a Sociologia Jurídica possibilita aplicar o Direito de modo compatível com as necessidades sociais. São inseparáveis. não nos ateremos ao método . E essa interpretação não pode circunscrever-se à qualificação dos fatos jurídicos ou à fixação das condições de validade da conduta do indivíduo no exercício dos direitos deferidos ou no cumprimento das obrigações impostas. fazer o Direito acompanhar as evoluções sociais. enfatiza: “O direito é um fenômeno social. A missão do jurista compreende a interpretação das leis que regem a sociedade. visto que.

Os legisladores poderão cumprir melhor sua função prevendo as tendências da legislação. tomando-se ineficazes e obsoletas. como para o estudante. Revela-lhes que o Direito não é somente um conjunto de normas estáticas. pp. 1971. à qual as normas deverão se ajustar sob pena de perderem a finalidade.preconizado pelos normativistas. frias. Para o advogado. alcançando a necessária adequação entre os fins sociais e as normas jurídicas que se destinam a realizá-los. se dermos a devida atenção à Sociologia Jurídica e progredirmos suficientemente em seu estudo. os governantes e juízes serão capazes de dar aplicação mais precisa às normas de direito que houverem sido editadas. Podemos concluir afirmando que. será possível evitar a improvisação em inúmeras questões administrativas e legislativas. Forense. 3a ed. mas também um fato. a realidade social dinâmica em permanente evolução. .. 14 e 16). o profissional do Direito. que devem ser aplicadas independentemente de qualquer finalidade ou objetivo. a Sociologia Jurídica proporciona uma visão mais ampla e real do fenômeno jurídico. mas sim ao dos que consideram o direito um fenômeno social e entendem que a ciência jurídica não se esgota na elaboração de uma teoria geral ou na técnica de logicar através de silogismos próprios de uma sentença judicial (Introdução ao Direito Civil.

Método é o caminho que se deve seguir para alcançar os objetivos de uma ciência. fenômenos que se repetem com freqüência no campo de uma ciência. o processo a ser aplicado para realizar suas finalidades. O pensamento de Georges Gurvitch. para então adotarmos o daquele que nos parece mais completo. O objeto da Sociologia Jurídica segundo Recaséns Siches. o objetivo que visa alcançar. vimos que o seu objeto é o direito fato. examinando a sua divisão interna. desde logo adiantar que em tomo desta questão não há perfeita concordância entre os autores. razão pela qual procuraremos expor o entendimento dos principais. o fim a que se propõe. A posição de Renato Treves. Vamos de ora em diante nos dedicar ao exame do objeto da Sociologia Jurídica. estabelecer seu método e conhecer suas leis. procuraremos precisar o que está contido no estudo do direito como fato. Em suma. porque disto depende uma boa compreensão quanto à razão prática dessa disciplina. Por objeto entende-se o campo específico de atuação de uma ciência. 75] . [p.Capítulo VIII OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA O entendimento de Émile Durkheim. entretanto. **** 37. Ao tratarmos da autonomia da Sociologia Jurídica. É preciso. O objeto da Sociologia Jurídica na concepção de Edmond Jorion. Vamos procurar agora explicitar esse objeto. Leis são aquelas regularidades. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA No estudo de toda ciência é da maior importância precisar seu objeto.

comunhão) com os fenômenos geradores do direito social. seria objeto da Sociologia Jurídica: a) investigar como as regras jurídicas se constituíram real e efetivamente. 89-94). isto é. dando ênfase especial ao estudo da soberania e das relações das diversas ordens jurídicas com o direito estatal. comunidade. Paris. bem como das necessidades que visam satisfazer.38. pp. a religião. . citado por Machado Neto. O ENTENDIMENTO DE ÉMILE DURKHEIM Para esse notável sociólogo francês. No segundo item procurar-se-ia saber dos resultados decorrentes da existência da norma. incluindo uma Tipologia Jurídica dos Grupos Particulares e uma Tipologia Jurídica das Sociedades Totais. No primeiro item teríamos o estudo das relações das formas de sociabilidade por interpenetração (massa. [p. bem como o estudo dos planos de profundidade do direito. No segundo item Gurvitch se serve de sua classificação dos grupos para estudar as relações do direito com cada tipo de agrupamento social.. b) o modo como as normas jurídicas funcionam na sociedade (Leçons de Sociologie. 39. b) Sociologia Diferencial do Direito. c) Sociologia Genética do Direito (ob. dos fatos sociais que as suscitam. a Sociologia Jurídica pode ser dividida. um dos fundadores da escola sociológica do direito. PUF. de afastamento ou mistas) com os fenômenos originários do direito interindividual. de acordo com as diversas abordagens metódicas de seu objeto. se está ou não sendo aplicada. 1950). cit. por outro. por um lado. o conhecimento e a psicologia coletiva. e a base ecológica da sociedade. em três itens: a) Sociologia Sistemática do Direito ou Microssociologia do Direito. e das formas de sociabilidade por interdependência (relações de aproximação. O PENSAMENTO DE GEORGES GURVITCH Segundo Gurvitch. a moral. 76] O último item trata das relações de interinfluência que se estabelecem entre o direito. se há ou não estrutura para isso etc. Somente quando as normas estão ajustadas aos fatos é que poderão atender aos objetivos para os quais foram elaboradas. No primeiro item estaria incluído o exame das causas que determinam o surgimento das regras jurídicas. a economia.

b) Exame dos efeitos que o Direito constituído causa na sociedade. o direito é. 77] Sociedade A Direito B . entretanto. d) Relação do Direito com outros fenômenos sociais (influência do Direito sobre a sociedade e vice-versa). no que. O segundo item cuida da influência conformadora ou condicionante do Direito sobre a sociedade. um fenômeno condicionado e condicionante da sociedade. O primeiro item proposto por Siches trata do direito como fenômeno condicionado pela sociedade. p. Em síntese. enquanto fato. propõe o seguinte quadro de tarefas para a Sociologia Jurídica: a) Observação e análise dos fatos. a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina. ao mesmo tempo. 211). encontra-se superado. Seu tratamento tipo lógico (reagrupamento. e) Definição pela Sociologia do Direito. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA SEGUNDO RECASÉNS SICHES O destacado professor espanhol. c) Estudo da gênese das regras jurídicas e de sua evolução. radicado no México. b) comparativos). data venia. tendo por objeto o fenômeno jurídico. negativos ou de interferência com outros fatores (Tratado de Sociologia. de seus próprios limites (De la Sociologie Juridique.40. O autor belga. Porto Alegre. classificação. estudos 41. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA NA CONCEPÇÃO DE EDMOND JORION Para Jorion. como já assinalamos. como produto resultante de um complexo de fatores sociais. representa o produto de processos sociais. 693). atribui à Sociologia Jurídica duas séries de temas: a) Estudo de como o direito. sejam eles positivos. p. Poderíamos ilustrar o entendimento de Siches mediante o seguinte quadro: [p. 1965.

poderíamos dizer que ocorre algo semelhante ao que se passa entre a sociedade e o indivíduo. escola. como tinta sintética. segundo o entendimento de Siches.No primeiro plano (linha A) figura a sociedade como fator condicionante do direito: é a sociedade que dá origem ao direito. De todos os fatores que atuam sobre o indivíduo. muitas outras pessoas terão que concorrer para a edição. Não teríamos com quem falar. em verdade. Escreve sobre um tema que reflete uma soma de conhecimentos adquiridos em livros. não podendo ser esquecidas as figuras da datilógrafa. de formação lenta e paulatina. dele dependemos grandemente para tudo.” Por outro lado. sendo. revistas. mudança cultural etc. papel. Até o livro sair publicado. Einstein e outros não passariam de um pajé ou cacique. Todo progresso. não fosse o social. Newton. é obra exclusiva do autor? Somos tão dependentes do social que nem poderíamos falar a língua que pretendêssemos. luz artificial etc. 78] O gênio não existiria. surge . Por isso. [p. terá que aprender a língua falada no meio social para onde vai. Aí a obra sai publicada com o nome do seu autor na capa. O próprio Newton afirmou: “Se vi mais longe foi porque estive sustentado em ombros de gigantes. a maior dificuldade de quem vai para um país diferente é a língua. patrimônio da cultura universal assimilado graças a uma pluralidade de inventos sociais. resultado de longa evolução histórica. pois deve mais à coletividade do que a si mesmo. Tomemos o exemplo de quem escreve um livro. sem dúvida o mais dominante é o sócio-cultural. haverá naquele livro? Começa que ele escreve em uma língua que não inventou.. Até costuma-se dizer que somos produto do meio porque. exclusivamente. o indivíduo exerce influência sobre o grupo. o Direito passa acondicionar o comportamento do grupo. fazendo-o surgir das inter-relações sociais. do editor. portanto. um produto manipulado pela sociedade. apesar de receber tanta influência condicionante do meio social. dos operários que manipularão as máquinas etc. uma vez constituído em normas de conduta e disciplinamento. na realidade. professores etc. Mas. no correr dos séculos. fontes de trabalho e inventos de outrem. se tivessem nascido em uma tribo indígena. No segundo plano (linha B) figura o Direito constituído exercendo influência condicionadora sobre a sociedade: é inegável que. Se quiser se comunicar. jornais. Ficaríamos alarmados se fôssemos pesquisar o que foi necessário. Para ilustrar as relações existentes entre a sociedade e o Direito. Em que medida o livro é produzido pelo seu autor? Quanto do autor em si. Para escrever depende o autor de uma série de recursos materiais. entretanto. para que ele pudesse estar escrevendo numa folha de papel e não em um papiro ou coisa semelhante.

o que é bom. elaborado pela sociedade. 79] d) mútuas correlações empíricas entre o Direito e outros produtos da cultura (religião. Como fato. No capítulo sobre os Fatores Sociais da Evolução do Direito. arte. subdividindo-o em uma série de novos temas. . entretanto.Os fatores constantes da realidade jurídica.). o indivíduo. todos resumíveis na questão da influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. que tem que disciplinar os novos fatos . mas sim o indivíduo. II .dado que a plenitude do ordenamento jurídico não permite tais vazios . ou melhor . por mais que condicione o indivíduo. fazendo-o evoluir.evolução milenar que durará enquanto existir a sociedade. [p. f) necessidades e fins da vida humana que estejam pressionando em dado momento. Quando erigido em norma de conduta. pois caso contrário seria a massificação. Essa reciprocidade de influência produz constantes modificações no direito fato.ainda não suficiente ou convenientemente reguladas. e) fenômenos de organização espontânea. é o Direito um produto social. Algo semelhante. a máquina a vapor. ocorre entre o Direito e a sociedade. não consegue a socialização integral de todos os indivíduos. Não foi a sociedade. Exercendo influência sobre o grupo. filosofia. ao qual nos reportamos. É que a sociedade. Siches dá maior ênfase ao primeiro item da sua proposição temática. técnica. o Direito passa a disciplinar as relações sociais. Certas zonas da personalidade não chegam a ser inteiramente socializadas. como já se disse. ao mesmo tempo que o Direito é condicionado. condicionando condutas. ficou evidenciada essa influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. que inventou o cálculo infinitesimal. O impulso criador da mudança cultural e do progresso social é.Os dados (variáveis) da matéria social: a) realidade de uma série de relações sociais não reguladas juridicamente. economia etc. operando elas o milagre da inovação. a lâmpada elétrica. b) tendências e correntes que ainda não obtiveram expressão normativa. a saber: I . também condiciona.na sociedade graças aos condutos da criação individual. e por sua vez no Direito norma. c) representações axiológicas das pessoas que integram o grupo. pois.

Os temas por ele propostos. o que evidencia a influência condicionadora do Direito sobre a sociedade. Trataremos também dos agentes do Direito na sociedade e sua função. em sua obra La Sociologia del Diritto (pp. [p. principalmente.42. além de mais compatíveis com o campo de atuação da Sociologia Jurídica. Veremos o que é eficácia. trataremos da opinião pública que. Por último. De todos os autores mencionados. quando a norma é eficaz e por quê. 80] . entendemos ser Renato Treves o que melhor colocou o problema relacionado com o objeto da Sociologia Jurídica. 23-25). envolvem os temas propostos pelos demais autores. razão pela qual vamos adotar essa classificação em nossos estudos daqui para frente. É preciso uma estrutura adequada de pessoal e material para aplicar a lei. que tipos de efeitos as normas podem produzir. sustenta que eles se agrupam. o que são efeitos. são também mais abrangentes. em três tipos de indagações: 1) estudo da eficácia das normas jurídicas e dos efeitos sociais que tais normas produzem. e. funciona como termômetro a indicar ao legislador as mudanças a serem feitas na lei e nas instituições sociais. praticamente. se atendida. sob pena de a lei não atingir os seus objetivos sociais. 3) estudo da opinião do público a respeito do direito e das instituições jurídicas. 2) estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições. ao analisar os assuntos que têm constituído o objeto da Sociologia Jurídica. A POSIÇÃO DE RENATO TREVES O ilustre professor italiano. quando teremos oportunidade de ver que não adianta ter leis e não aplicá-las.

81] Um contrato. é válido? Não. entendemos necessário lembrar que eficácia não é sinônimo de validade.Capítulo IX EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS E SEUS EFEITOS SOCIAIS A noção de validade e de eficácia. [p. examinar o primeiro item da classificação por ele sugeri da. efeito educativo da norma. Inicialmente. A NOÇÃO DE VALIDADE O que é necessário para que uma coisa seja válida? Esta pergunta. estabelecer as causas da ineficácia das leis e os tipos de efeitos que elas podem produzir e por quê. Eficácia da lei. eficácia do contrato. efeito transformador da norma. **** No capítulo anterior. Nossa tarefa será. Efeitos positivos da lei: de controle social. porque lhe falta um dos elementos. destacamos o entendimento do Prof. procurando definir a eficácia e os efeitos das normas jurídicas. o qual. da lei etc. . 43. no qual uma das partes é incapaz. dissemos. pela omissão da autoridade em aplicar a lei. nos dá a chave para encontrarmos o conceito de validade. em nosso entender. pois. após examinarmos o pensamento de vários autores sobre o objeto da Sociologia Jurídica.. Trata-se de conceitos que a todo momento se repetem no estudo do Direito: validade do ato. tomaremos como roteiro de ora em diante. Renato Treves. Efeitos negativos: pela ineficácia da lei. Efeitos da norma. pela falta de estrutura adequada à aplicação da lei. razão pela qual tomam-se imperativas algumas palavras a respeito. efeito conservador da norma. embora esta seja pressuposto daquela.

sendo. Por elementos essenciais entendem-se aqueles requisitos que constituem a própria essência ou substância da coisa. [p. é ela que estabelece os seus elementos essenciais. de o ato haver sido executado com a satisfação de todas as exigências legais. A invalidade. com falta de um de seus elementos. como sanção à inobservância dos requisitos essenciais impostos pela lei (Teoria Geral do Negócio Jurídico. Pois coisa semelhante ocorre no mundo jurídico. não alcançando os seus objetivos. cremos já poder agora tratar especificamente da eficácia da norma jurídica e dos seus efeitos. O ato nulo. ela jamais terá o prato desejado. cujos conceitos não divergem do que já ficou assentado. inválido. Faltando qualquer um desses. Tomemos. os efeitos essenciais do tipo. 82] . que nasceu defeituoso. A NOÇÃO DE EFICÁCIA Eficácia é uma conseqüência da validade: é a força do ato para produzir os efeitos desejados. sem os quais ela não existiria. 44. Só o ato válido. Quando queremos saber se uma coisa é válida ou não. no aspecto sociológico. o negócio é inválido. Faltando um deles. nulo. é aquela falta de idoneidade para produzir. não produz efeitos. Lembremos agora que a receita do negócio jurídico está na lei . 1970). ela será válida.Vemos assim que válido é aquilo que é feito com todos os seus elementos essenciais. manteiga. Se todos os seus elementos essenciais estiverem presentes. portanto. ineficaz. por força duradoura e irremovíve1.farinha. ovos. tem força para alcançar os seus objetivos. terão que estar revestidos de todos os seus elementos essenciais. o caso de uma dona-de-casa empenhada em fazer um prato especial. invariavelmente. Por isso é que se diz que “válido é aquilo que está revestido de todos os seus requisitos legais”. não tem força para tal. Com essas considerações preliminares. para Emílio Betti. Pode-se. revestido de todos os seus elementos essenciais. pois. Que é preciso para ela fazer esse prato especial? Que elementos deve utilizar? Ela vai à receita e lá encontra a discriminação dos elementos . Para que o ato ou negócio sejam válidos. concluir que a validade decorre. devemos examinar seus elementos. açúcar e as devidas proporções. porque faltou um dos seus elementos essenciais. para exemplo. Coimbra. vamos começar pelos efeitos. Por razões didáticas. são partes do todo.artigo 104 do Código Civil.

vazias de propósito. Poderão ser muito boas para outro lugar qualquer que tenha servido de inspiração ao legislador. a sociedade condiciona o direito fato. Em outras palavras. que realiza as suas finalidades. “O legislador não pode ser mero espectador do panorama social. não passando de um conjunto de estéreis formalidades.45. que atinge o alvo por que está ajustada ao fato.fornecer ao legislador os elementos necessários à elaboração dessa norma. A sociedade não espera pelo legislador. Toda norma produz efeitos. modificação ou alteração que a norma produza no mundo social. Se os fatos caminham normalmente à frente do . conclui-se que os efeitos envolvem um conceito amplo. como já vimos. pois sua própria existência já é um efeito. Deve ser a primeira preocupação do legislador . como teremos oportunidade de ver. ajustada às necessidades do grupo. para a sociedade à qual se destinam. abrangente. decorrentes até mesmo de sua própria existência. Nesse sentido é também a correta lição de Paulo Nader. Os efeitos podem ser positivos ou negativos. EFICÁCIA DA LEI Se eficácia.elaborar uma norma adequada à realidade social e a primeira tarefa da Sociologia Jurídica . dos reais problemas e conflitos que se travam na sociedade. só tem essa força quando está adequada às realidades sociais. Legislador que não tem conhecimento da realidade social. Como dizia Siches. Cabe ao legislador ajustar o Direito Positivo a essa realidade social. porém. EFEITOS DA NORMA São todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. moldando-o à sua imagem e semelhança. qualquer conseqüência. entretanto. Só aí ela penetra no mundo dos fatos e consegue dominá-los. nunca. por mais técnicas e eruditas que forem as leis que elaborar. eficácia é a adequação entre a norma e as suas finalidades sociais. sob pena de nunca elaborar lei eficaz. podemos então dizer que lei eficaz é aquela que tem força para realizar os efeitos sociais para os quais foi elaborada. genérico. não tem condições de fazer leis. Uma lei. por isso que neles estão incluídos todos os resultados produzidos pela norma. é a força do ato para produzir os seus efeitos. que não está a par do desenrolar dos fatos. Por conseguinte. Pelo que ficou dito. serão elas carentes de conteúdo. 46. é eficaz a norma que atinge os seus objetivos.

são os resultados contrários aos interesses da sociedade.. o estudo da influência condicionante do Direito constituído sobre a sociedade. Efeitos positivos são os resultados compatíveis com os interesses sociais. entre vários modelos possíveis de lei.[p. quando eficaz. como teremos oportunidade de ver. O Controle Social Quando tratamos da função social do Direito (no segundo capítulo). EFEITOS POSITIVOS DA LEI Já vimos que efeitos são todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. igualmente. natural e científico e a sua conduta será a de adotar. Se de um lado o Direito recebe grande influxo dos fatos sociais. em outras palavras. e negativos. da qual falava Siches. A norma eficaz só não produz efeitos positivos se concorrerem outros fatores. a contrario sensu. importantes modificações na sociedade. produz normalmente efeitos positivos. eficácia é espécie. Podemos até dizer que a eficácia é o principal efeito positivo da norma. 3) conservador. É o efeito típico da norma. Ele deve fazer das leis uma cópia dos costumes sociais. com as devidas correções e complementações. Pelo exposto. É uma certa qualidade do efeito produzido pela norma.1. provoca. cit. conforme mencionado na parte anterior. vimos que as suas principais finalidades são prevenir e compor conflitos. Esses efeitos podem ser positivos ou negativos. O Volksgeist deve informar às leis. Efeito é gênero. 2) educativo. Entre os efeitos positivos da norma destacaremos apenas quatro: 1) de controle social. A norma. 47. Quando da elaboração da lei. O estudo dos efeitos da lei é. verifica-se ser a eficácia um dos efeitos da norma. aquele que mais se harmonize com os três fatores” (ob. 27). o legislador deverá antecipar-se aos fatos. p. seu efeito principal ou real. conforme os interesses a serem preserva. 4) transformador 47. um efeito condizente com suas finalidades. 83] dos. a função preventiva é a . o legislador haverá de considerar os fatores histórico. destas. mas o Direito contemporâneo não é simples repetidor de fórmulas sugeridas pela vida social.Direito.

47. Dessa forma exerce o Direito sobre todos um condicionamento que resulta num controle do comportamento do indivíduo. Em segundo lugar. publicada. para ter.2. Por quê? Onde aprendeu? Não foi com o patrão. de disciplinamento social. Conscientizou o cidadão dos seus . através de pesquisas e da própria experiência. o controle é também exercido pela prevenção especial: a segregação do transgressor do meio social. É inconcebível uma sociedade na qual o comportamento social seja regulamentado apenas pelas sanções morais do elogio e da culpa. Isto faz com que muitos. O próprio Estado. que certos assuntos tomam-se melhor conhecidos do grupo social depois de serem disciplinados pela lei. O controle social é exercido pelo Direito primeiramente pela prevenção geral. indenizatória. conhece os seus direitos. maior estímulo no sentido de ajustar sua conduta às condições existenciais. Quando a norma não é aplicada convenientemente. antes de se tomar obrigatória. O Direito é muito mais preventivo do que repressivo. fundo de garantia. 84] previne os conflitos? Estabelecendo regras de conduta. E ai de nós se assim não fosse! Como o Direito [p. mas sim no próprio grupo. a não ser através dos meios constitucionais etc. tanto assim que não pode punir sem que alguém tenha praticado um fato típico. vai se perdendo o controle da situação e a vida em sociedade vai se tomando impossível. sofre o controle do Direito quanto à sua conduta. Efeito Educativo da Norma Está mais que evidenciado. mesmo o ignorante ou analfabeto. mediante a ameaça de uma pena para o transgressor da norma. da próxima vez que se sentir inclinado a transgredir a norma. Bertrand Russel observou. aviso prévio etc. ajustem o seu comportamento às prescrições legais para não sofrerem a sanção. à medida que vai sendo conhecida pelo grupo. Sabe que tem direito a férias. mesmo não querendo. Qualquer trabalhador dos nossos dias. do grupo e das instituições. tem que ser divulgada. É que a lei. que o bom comportamento até do cidadão mais exemplar deve muito à existência da polícia. e assim. não pode apoderar-se da propriedade de quem quiser. Exemplo disso encontramos no Direito Trabalhista. repouso remunerado. nem na Escola de Direito.mais importante. a sociedade global. ou a aplicação de uma pena pecuniária. vai também educando e esclarecendo a opinião pública. E ele sabe até mesmo onde e como reclamar os seus direitos. aquela coação psicológica ou intimidação exerci da sobre todos. 13° salário. A Constituição de 1988 nos fornece outro exemplo eloqüente desse efeito educativo da lei. com toda a propriedade.

47. A norma tutela não somente bens. essa é a característica essencial das normas jurídicas. grandemente procurados. Em 2003 foram ajuizadas 296. 235-249) e na própria Constituição. assinala o insigne André Franco Montoro. foram propostas 252. conquistar a fidelidade dos clientes e construir uma imagem positiva da empresa. Vejam o caso da família. Trata-se de instituição basilar da sociedade. estabelecendo em tomo delas a proteção jurídica. as que incriminam o furto. mas também instituições. no ano de 2002. Só no Estado do Rio de Janeiro. Uma grande fornecedora de serviço de telefonia atende mais de 25 milhões de chamadas por mês.729. que é a instituição maior. Para muitos. A função conservadora do Direito. O próprio Estado. das quais foram julgadas 223. destinadas a organizá-lo e conservá-lo. no Código Penal (dos crimes contra a família. E o que se fez em relação a ela? Procurou-se protegê-la através de uma infinidade de normas.3. o roubo. no que foi coadjuvada [p. defendeas. no entender do ilustre . por sua vez. 85% do atendimento dos bancos 24 horas são feitos eletronicamente. 85] pelo Código do Consumidor. o infanticídio. As empresas. Prova disso são os Juizados Especiais. o estelionato. bem ou mal. a começar pela Constituição. que podiam aprender com eles para melhorar seus produtos e serviços. Assim tem conseguido a sociedade. destinadas à proteção da família. mais do que isso. em face da nova postura dos consumidores. racionalizar atividades. mas. preservar esta instituição através dos séculos e a despeito de todas as influências perniciosas que conspiram contra ela. que se transformam em jurídicos quando recebem a proteção do Direito. o aborto. e assim por diante.389. Quando o legislador entende que certas instituições são valiosas e indispensáveis à vida social. arts. protegem o patrimônio. É a função educativa do Direito. perceberam que teriam de atender melhor os seus clientes para não perdê-los.348 reclamações. Há normas no Código Civil (um livro todo que só trata do direito de família). Efeito Conservador da Norma As normas jurídicas tutelam determinados bens da vida social. cerca-as. Tomemos como exemplo o Direito Penal: todas as normas que incriminam o homicídio. ligase ao caráter estático que ele representa ao garantir a manutenção da ordem social existente.782 reclamações e julgadas 265. Hoje.direitos e do acesso à Justiça. necessita da proteção do Direito e por isso existem leis. Estruturaram-se adequadamente e colocaram em operação o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) por meio do qual conseguiram padronizar procedimentos. visam a tutela da vida.

não funciona a contento. 87] ríveis que se possa imaginar. p.jurista. determina a realização de certas modificações. bem como as penas mais ter. assistência médico-hospitalar. Exemplifiquemos este ponto com a situação do trabalhador antes das vigentes leis trabalhistas. Se o fim da pena era punir. por ser grande demais. Nos países em desenvolvimento e transformações profundas.. Há quem diga que a história da pena é pior que a do crime. Isso teve que ser mudado: vieram as leis trabalhistas e previdenciárias. direito a férias. Trabalhava a vida toda e. quanto piores as prisões. Daí a importância do Direito como instrumento de transformações sociais. a norma estabelece novas diretrizes a serem seguidas. ficava ao desamparo. e assim. Muitas vezes. depois de velho e cansado. Vêm daí as masmorras. que. A sociedade então. isso só é [p. Outro exemplo. 23a ed. . aparelhar-se. No passado a pena era considerada um castigo ou punição: mal justo contra quem praticou mal injusto.4. aparelhar-se para cumprir a lei. passando privações e causando problemas sociais graves. Efeito Transformador da Norma É aqui que percebemos. 86] verdade em países plenamente desenvolvidos. equipar-se. auxílio de doença. Eis aí o efeito transformador da lei. Como não mais podia trabalhar. E qual foi a conseqüência disso tudo? A sociedade teve que se estruturar. em razão de necessidades sentidas. o efeito condicionante do Direito sobre a sociedade. Qual era a sua situação? A mais lamentável possível. ambulatório. escola. tem que se estruturar. mais diretamente. muitas delas com refeitório. indenização. 595). imundas e nocivas. então o réu deveria ser mesmo colocado no pior lugar do mundo. Nesse tempo. fixa novos princípios a serem observados em determinadas questões. era dispensado sem qualquer direito. as prisões fétidas. em favor do trabalhador. As fábricas e indústrias tiveram que oferecer melhores condições e ambiente de trabalho aos seus empregados. os calabouços. dos Tribunais. vai operando sensíveis transformações em seu meio. vestiário. estabilizados e organizados. melhor. creche.[p. paulatinamente. Reduzir o direito a uma força conservadora é perpetuar o subdesenvolvimento e o atraso (Introdução à Ciência do Direito. o erro dessa posição é patente. estabelecendo. indenização por acidente de trabalho etc. e o resultado foi uma transformação social. aposentadoria. para dar cumprimento à lei. foi necessário até a criação de um gigante nacional (INSS) para cuidar da aposentadoria e assistência médica dos trabalhadores. Rev. 47.

o que será preciso? Onde educar? Na prisão? Na masmorra? Como. É claro que .mais perigoso. todas com amplo apoio da sociedade. Pelo menos já se fala hoje em reforma penitenciária. a cultura. comandam a execução de planos de desenvolvimento social. mas sim um meio de reeducação e ressocialização do réu. mas corrigir. pode ser o grande instrumento de uma política do desenvolvimento nacional. na Administração Pública. desequilíbrio social e abusos econômicos de toda ordem. Sem dúvida. Por todos esses motivos. [p. A prisão passou a ser a melhor escola de crime. em conseqüência. isso acontecer. A reforma econômica desencadeou outras reformas: na previdência. Então será preciso transformar nossas prisões em escolas e reformatórios. 88] 48. e quando. efetivo controle dos preços. EFEITOS NEGATIVOS DA NORMA Elaborada para produzir efeitos positivos. na ordem tributária. A pena não é mais uma forma de castigo ou punição. Pior do que tudo. Tomava o réu pior . terá a norma exercido a sua influência transformadora. trouxe uma melhor distribuição de renda. contrários aos interesses sociais. quando corretamente utilizado. Não vamos mais punir. castigando impiedosamente? Não. Para tanto. revoltado e despreparado para voltar à sociedade. no monopólio estatal. passou a comer mais e melhor. mediante normas que promovem a educação. como as orçamentárias. não dava à sociedade nenhum instrumento de defesa contra esse indivíduo e seus futuros crimes. Se. atribuindo-lhe uma função preventiva. entretanto. adequados às novas exigências legais. A estabilização da moeda. e em alguns estados já começam a surgir as primeiras transformações através de modernos estabelecimentos penais. e a participação eqüitativa de toda a população na renda nacional. produzir efeitos negativos. o pensamento moderno a respeito dos fins da pena mudou. que esperamos seja duradoura. gerando profundas alterações na realidade brasileira. gerando miséria. a saúde. fome. que. nem no sentido de prevenir a sociedade contra a futura criminalidade. na privatização de estatais. Certas leis. o melhor exemplo do efeito transformador do Direito vamos encontrar nas leis econômicas que implantaram o Plano Real. com uma inflação astronômica corroendo o salário do trabalhador. Procura-se hoje fazer da pena um instrumento de defesa social. A economia do país estava à deriva. maior poder aquisitivo da população. pode a norma.Essa posição quanto à pena trouxe os piores resultados sociais possíveis. Isso tudo evidencia que o Direito. em dadas circunstâncias. o bem estar. pois nada fazia no sentido da recuperação do criminoso.

podemos destacar três causas principais. 90] de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. 19-20). aceitação ou adesão da sociedade a essa norma. para ser lidas ou para ficar na história. teimam em sobreviver.igualmente como as demais normas sociais .” “Às vezes o legislador. pode depender da legitimidade da autoridade que a estabeleceu.. acanhado e despreparado. estendendo-se o desapreço a toda a legislação. através da lei. 2) quando houver omissão da autoridade em aplicá-la. 2° vol. Esse reconhecimento ou recusa. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. em constante conflito com os fatos. Valem pela força que têm sobre os fatos e como são entendidas nessa aplicação. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. Graças a esse reconhecimento. As leis nascem para viver e só valem quando podem entrar no mundo dos fatos e ali governar. elaborado por uma Comissão Especial do Congresso Nacional. isto é. como observa Siches: “A norma jurídica . o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. em 1977. Lembramos três hipóteses em que a lei produz efeitos negativos: 1) quando for ineficaz. exige um reconhecimento.1. entretanto. 3) quando inexistir estrutura adequada à aplicação da lei. uma adesão da comunidade. Ou. da maior parte dos indivíduos que integram o grupo. quer alterar velhos hábitos e dar-lhes nova disciplina. da qual foi Presidente o douto Senador Acyoli Filho.” “As leis. De outras feitas. retardam e impedem as reformas. e sobrevivem apesar da lei. o legislador. pp. O trecho é o seguinte: “Não elaboramos leis para ser estampadas nos livros. 48. levado pelo idealismo [p.” . no entanto. Efeitos Negativos pela Ineficácia da Lei A eficácia da norma depende do reconhecimento. para que se converta em força efetivamente configuradora das condutas.” “O nosso País já é afamado pela distância entre a realidade e a norma jurídica. substituindo-a por outra mais adequada. ou as tomam mofinas. do conteúdo da mesma. a norma se incorpora à vida do grupo” (Sociologia do Direito. Os hábitos. no entanto. De um trecho da exposição de motivos do projeto de lei para a reforma do Poder Judiciário.para que seja cumprida. Outras vezes. ou de outros fatores.quando isso chega a acontecer é tempo de revogar a lei. que gera a eficácia ou ineficácia da norma.

Não consegue porque não há suporte social. Velhos hábitos. levado pelo idealismo de pôr o País em dia com as conquistas da civilização.[p. lembramos que o divórcio custou tanto a ser admitido pela nossa legislação em virtude das pressões da Igreja. Muitas leis que controlam as atividades das multinacionais. mas a lei é estática. entretanto.A primeira causa da ineficácia da lei. vai sendo ultrapassada. evoluem constantemente. Por mais estranho que possa parecer. é aversão sistemática às inovações ou transformações do status quo. Com o correr do tempo. frontalmente contrária à dissolução do vínculo matrimonial. entretanto. 90] tras vezes. econômicos ou religiosos em jogo. em constante conflito com os fatos. costumes emperrados. A antecipação da lei à realidade social existente é a terceira causa de sua ineficácia. Cada legislador tem que elaborar a lei com base na realidade de sua sociedade. não são aplicadas em razão dos interesses econômicos em jogo. correspondência com a realidade. pode estar em perfeita adequação com a realidade social no momento de sua criação. O legislador vê algo que funciona muito bem em certo país mais adiantado e quer implantar no nosso. ou as tornam mofinas” (o grifo é nosso). a lei. é a sua desatualização. A segunda causa é o misoneísmo e vem mencionado no seguinte trecho: “.. vai se desatualizando. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. lembrada pelo Senador Acyoli Filho. Interesses corporativistas emperraram a reforma da Previdência por muitos anos e ainda impedem a reforma Política. costuma-se entre nós dizer que a lei não pegou. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se.. que ele destacou ao dizer: “As leis. esses gigantescos organismos econômicos dos nossos dias. estendendo-se o desapreço a toda a legislação” (o grifo é nosso). privilégios de grupos. . Misoneísmo. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. Às vezes porque há grandes interesses políticos. acanhado e despreparado” (o grifo é nosso). Assim. Só para ilustrar esse ponto. o que em nosso país constitui na realidade uma forte causa da ineficácia da lei. pois os fatos são dinâmicos. como se sabe. razão pela qual a lei cai no vazio. retardam e impedem as reformas. se bem elaborada. impedem que a lei seja aplicada ou mesmo elaborada. o passar do tempo toma a lei ineficaz. A maior parte de nossa legislação precisou ser reformulada exatamente por esta razão. outras vezes por mero comodismo da autoridade que não levou a sério a aplicação da lei. Com efeito. o legislador. Acyoli Filho põe isto em destaque no seguinte trecho: “Ou.

Em janeiro de 1997. o que realiza através do disciplinamento do comportamento mediante normas jurídicas armadas de sanção. Efeitos Negativos pela Omissão da Autoridade em Aplicar a Lei A função principal do Direito.12. Neste caso a lei pode até ser eficaz. As autoridades do trânsito ainda discutem se as multas registradas [p. entre as quais a perda da carteira. superada pela realidade social. É fogo que não queima. e por desídia. mas não produzirá efeitos positivos por omissão das autoridades. dado a severidade de suas normas e a gravidade das penas. acobertados pelas empresas para as quais trabalham. quer por ter se tomado anacrônica. se é ou não obrigatório informar aos motoristas onde se encontram esses meios eletrônicos. é prevenir conflitos. a sanção não é aplicada. quer por ser artificial. incompetência ou irresponsabilidade da autoridade.qual será o resultado? Vai se enfraquecendo aquela disciplina que a norma impõe a todos. fruto apenas do pensamento. assim. 91] por pardais. produz efeitos negativos porque não tem força para governar os fatos sociais.Vemos. desatualizada. Mas se a lei é transgredi da. Há milhares de motoristas infratores. Anunciou também que só a partir de 10 de junho de 2004 (Resolução 151 CONTRAN) começará a ser aplicada em todo o país a chamada multa por não identificação do condutor. já vimos. Quem transgride a lei impunemente sente-se encorajado a transgredir novamente.2003) o DENATRAN anunciou ter decidido criar o Registro Nacional de Infrações de Trânsito que permitirá a cobrança das multas por infrações cometidas fora do Estado onde os veículos estão registrados. com a pontuação várias vezes estourada. tiro sem bala. havia uma grande expectativa de que ele haveria de por ordem em nosso trânsito caótico. a autoridade nada faz . a transgressão sem punição vai estimulando novas transgressões. 48. quando ajustada à realidade social e inteiramente adequada aos fatos. Lei ineficaz. quando foi editado. controlar as relações sociais. dirigindo sem serem molestados. A conseqüência é que a lei se desmoraliza e estende o desapreço a todo o sistema. para acabar com a impunidade dos motoristas profissionais. Depois de vários anos de vigência quase nada melhorou porque as multas e outras sanções aplicadas não foram executadas. principalmente . câmeras eletrônicas valem ou não. vai se diluindo a sua função preventiva e. se quando surge o comportamento de desvio nenhuma pena é imposta ao transgressor da norma. portanto. A lei só tem força para “penetrar no mundo dos fatos e ali governar” quando é eficaz.2. conseqüentemente. e o seu exemplo serve de estímulo a outrem. que fazer lei é algo diferente de fazer literatura ou história. Exemplo eloqüente disso é o Código de Trânsito Brasileiro. Só agora (O Globo de 26. isto é.

Efeitos Negativos pela Falta de Estrutura Adequada à Aplicação da Lei Nesta terceira hipótese. morte ou decisão judi.2000). 92] cial. lamentavelmente. 48. dos 90 mil mandados de prisão expedidos no estado.3. então titular da Delegacia de Busca e Capturas (Polinter). falta material. Em resumo. Falta pessoal. equipamentos. No Rio.07. Os acusados foram soltos. sobram 30 mil para uma equipe de 50 policiais. o Juiz Camilo Ribeiro Ruliere.[p. A Polícia. falta tudo enfim. depois de um começo promissor. Enquanto a criminalidade cresce assustadoramente. . admitiu que. continua sendo o nosso grande problema atual. faltam instalações. uma média de 600 mandados por policial (O Globo. segundo estimativa do Professor Flávio Gomes. principalmente no denominado poder paralelo. mas a norma não atingirá seus objetivos sociais por falta de estrutura para uma eficiente aplicação do direito. pelo menos 60 mil já caducaram por prescrição. No dia 22 de setembro de 2003.de ônibus urbanos. poderemos ter leis boas e eficazes. Está ameaçado de cair em desuso se não forem resgatados com urgência a sua letra e o seu espírito. mas o problema continuou: o ICCE fechou o ano de 2003 com cerca de cem mil laudos atrasados. Esse. o delegado Álvaro Lins. por falta de pessoal e estrutura. Quais serão as conseqüências dessa falta de estrutura? As mesmas anteriormente mencionadas: transgressão sem punição e estímulo à ilicitude. pior do que não ter leis. é tê-las e não aplicá-las. foi forçado a conceder liberdade provisória a quatro traficantes. e as boas intenções que motivaram a sua aprovação há mais de seis anos. tomou uma decisão extrema. da 9ª Vara Criminal do Rio. mas que já está se tornando comum na Justiça. Em julho de 2000 o Ministério da Justiça estimou que havia cerca de 204 mil foragidos da Justiça brasileira e mais de 275 mil mandados de prisão não cumpridos no país. 23. o Código de Trânsito perdeu a sua força didática. Ainda assim. Toma-se impossível aplicar a lei sem os recursos humanos e materiais necessários. Por isso é comum dizer-se que. autoridades competentes e responsáveis. o Ministério Público e o próprio Judiciário não estão suficientemente aparelhados para aplicar a lei. os mandados de prisão não cumpridos chegavam a 200 mil. Por falta de um laudo do Instituto Carlos Éboli (ICCE). São cem mil inquéritos parados aguardando provas técnicas. Em São Paulo. Sequer reduziu a incidência de infrações graves como excesso de velocidade e embriaguez ao volante. a Justiça fica impedida de julgar em decorrência da falta de estrutura do organismo policial e de seus institutos de criminalística.

ainda hoje não funciona eficientemente por deplorável omissão das autoridades responsáveis pela segurança pública. Moral da história.01. Ex-secretário nacional de Segurança Pública. 93] que a qualidade das informações era ruim e o estado pretendia melhorá-la. não faz um trabalho de perícia eficiente. “enquanto os estados não se interessarem em alimentar e atualizar periodicamente o INFOSEG. em novembro de 2003. o que acaba levando a sociedade a culpar o Judiciário. A Secretaria Nacional de Segurança Pública. Santa Catarina e Rio Grande do Sul).12.2004. Se no INFOSEG constasse a informação sobre a condenação anterior do criminoso. O Presidente do Tribunal de Justiça do Rio. desta feita por ter sido reconhecido pelo amigo de uma outra criança assassinada quatro dias antes. falta ainda responsabilidade funcional por parte do estados . a Secretaria de Segurança do Paraná alegou que ano passado (2003) decidiu limpar seu banco de dados do INFOSEG porque o sistema nacional apresentava falhas que prejudicariam sua utilização. foi detido no Rio Grande do Sul sob suspeita de assassinar outra criança. por sua vez. mas isso não foi feito. parte das mortes poderia ter sido evitada. embora criado em 1988 o INFOSEG pelo Ministério da Justiça. pouco poderá ser feito por órgãos policiais ou judiciais que dependem dessas informações. Assassino confesso de 12 crianças no sul (Paraná.por carência de aparelhos e de material humano. Outro exemplo lamentável dessa falta de estrutura foi noticiado pelo Globo de 08. diz que em maio de 2003 o Governo do Paraná pediu para retirar seus dados do INFOSEG por. Segundo ele. foi liberado no mesmo dia. Desembargador Miguel Pachá. fugiu da cadeia em União da Vitória.2003). Isso não é verdade. Especialistas nessa área dizem que a falta de vontade política de governadores é um dos principais entraves para manter em funcionamento o INFOSEG. iniciativa da maior importância e extremamente necessária no combate à criminal idade num país continental como o nosso e super populoso. pois o juiz não pode condenar sem provas. nem manter ninguém preso” (O Globo. como pode o juiz condenar alguém? Depois dizem que a polícia prende e o juiz solta. Em nota. no Paraná. Mas. Se o inquérito chega ao juiz sem qualquer prova técnica ou testemunhal. ou pelo menos do mandado de recaptura contra ele existente.[p. Apenas no dia 07. disse: “A polícia.2004 foi novamente preso. 21. depois de condenado a 27 anos de prisão. comentando a decisão do juiz Camilo. o coronel José Vicente da Silva condena a falta de iniciativa dos estados para abastecer o sistema nacional.01. apesar de existir mandado de recaptura contra ele expedido desde abril de 2002. muitas vezes. como nada constava sobre ele no INFOSEG (sistema nacional destinado a integrar todas as informações policiais e judiciais). Quase dois anos depois.

. faz uma grande propaganda. 94] pelas investigações. lamentavelmente. informa que. “A equipe do INFOSEG não tinha nem sala no Ministério da Justiça. nada é feito no sentido de executá-la. Túlio Khan.2004). sem. não indago se aí há leis boas. prejudica a operação de todo o sistema. Por meio de um prodigioso processo mental. Diz ainda que a divisão de tarefas entre a Polícia Militar. Segundo ele. critica também duramente a atuação das autoridades policiais no combate à criminal idade ao dizer que “as taxas de elucidação de homicídios mostram uma tendência à impunidade. é tê-las e não aplicá-las. O Governo deveria tomar a iniciativa de fazer uma reforma nas polícias com o mesmo vigor empregado nas reformas da Previdência e Tributária” (O Globo. e tudo acaba aí. 09. Por isso. Teve que usar uma sala da Polícia Rodoviária Federal” .01.” A falta de investimentos. os legisladores se reúnem e aprovam outra lei. anuncia aos quatro cantos que o problema está resolvido. todavia. toma-se o dito pelo feito. armas e ainda sobre foragidos da Justiça. pior do que não ter leis. E quando a lei é aprovada e nada faz acontecer. é campeão em resolver problemas elaborando leis. atualmente. a solução para o problema deveria partir de iniciativas dos próprios administradores públicos estaduais. cria uma esquizofrenia institucional. que foi responsável pelo INFOSEG durante os últimos meses do governo de Fernando Henrique Cardoso.para atuar na área de segurança pública. diz ainda Khan. encarregada de fiscalizar e a Polícia Civil.01. mas sim se as executam. repetimos.01. já que apenas 4% dos casos no Rio de Janeiro e 12% em São Paulo são resolvidos. Luiz Eduardo Soares. a intenção de resolver o problema com a solução em si. executá-las. condutores irregulares.2004).” O Brasil. o INFOSEG não consegue servir aos próprios estados.com informações de veículos roubados. 09. apenas quatro bancos de dados integram o INFOSEG . Edita a lei.lembrando que nos Estados Unidos o sistema nacional envolve 14 bancos de dados e a sede do órgão ocupa um edifício inteiro (O Globo. 08. organiza uma imensa demagogia.2004). confunde-se o projeto com a realização. responsável [p. Montesquieu tinha toda razão ao dizer: “Quando vou a determinado país. porque leis boas há em toda parte. Sem essas e outras bases de dados nos estados. “Os Governos estaduais deveriam investir urgentemente na digitalização de informações do Detran e da Polícia Judiciária. há pessoas que cometem um crime grave num estado e depois respondem como réu primários em outro (estado) simplesmente porque estão usando nome falso ou porque ninguém consegue saber de seus antecedentes” (O Globo. em vez de se discutir o que fazer para dar-lhe execução. ex-secretário nacional de Segurança Pública.

de repercussão nacional (morte dos pais. assassinato de um casal de namorados no interior de São Paulo e outros). bem diferente. anunciou a criação do Ministério da Criança e acrescentou: “Gostaria de ver iniciativas como essa se estenderem para outras nações.4. São também necessárias ações sociais preventivas destinadas a preparar os jovens para uma paternidade ou maternidade responsável.Foi exatamente isso que ocorreu quando entrou em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente: os políticos da época anunciaram por toda a imprensa que o problema do menor no Brasil estava resolvido. ao ser indagado sobre a questão da criança em nosso País. É preciso definir um projeto amplo de aperfeiçoamento do ECA e das instituições que educam ou reeducam os adolescentes que lá chegam. voltando às ruas com mais raiva de tudo e de todos e mais experientes em atos criminosos. Uma mera fantasia burocrática virou remédio de tal eficácia que até se recomendaria sua exportação. mas não tem cabimento pensar que a simples antecipação da maioridade penal resolverá o problema da criminalidade dos adolescentes. Para alguns setores da sociedade. A situação talvez até piorou. [p. é outra. sem assistência. 95] A questão do ECA é item prioritário em qualquer equacionamento efetivo do problema da segurança pública. por que não envolvê-los nessa tarefa? As estatísticas demonstram que o planejamento familiar poderia contribuir decisivamente para a redução da desigualdade. Por falta de recursos. em visita a Nova York. A realidade. sem alimentação e sem educação. porém. reascende a discussão a respeito da reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente.” A simples edição de uma lei e a criação de uma entidade governamental foi tomada por uma solução. instituições adequadas e gente competente. eles passam pouco tempo nas instituições de recuperação. Se a família é tão importante para a educação das novas gerações. o ECA não é irretocável. Nada aconteceu de positivo em relação ao menor depois da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente dada a distância entre a lei e a sua execução. Sempre que um adolescente pratica um crime bárbaro. que teve repercussão mundial. Por melhor que seja. Famílias sem renda e instrução têm o dobro de filhos da média brasileira de 2. Ganha fôlego a antecipação da maioridade para 16 anos. A mulher de até um ano de escolaridade e renda . sendo prova disso a chacina da Candelária. que lhes possibilite uma profissionalização. os menores continuam abandonados na rua. com planejamento familiar e assim por diante. o problema seria resolvido com a diminuição da maioridade penal de modo a permitir punição exemplar dos adolescentes criminosos. Afinal. o então Presidente da República.

Capistrano de Abreu denunciou-o com ironia dizendo que temos uma legislação quase perfeita. Lamentavelmente. ele será um cabo eleitoral eficiente. [p.01. com onze ou mais anos de instrução. agora em vigor. decidirá sobre a proibição do comércio de armas no país.” Como bem colocou o jornalista Luiz Garcia.baixa. na prática dependerá dos recursos que forem liberados às Polícias Federal e Estadual. Se quando chegar a hora forem visíveis para a sociedade os efeitos positivos do estatuto. inclusive de pessoal. Por enquanto só no papel.12. 30.48 filho. Sem Índices eloqüentes de redução da violência gratuita das armas de fogo. entre as quais o combate ao tráfico de armas no país inteiro. porque a facilidade com que os criminosos têm acesso às armas é muito grande. a que mande cumprir todas as outras. para realizarem as tarefas que o estatuto lhes reserva. o combate ao contrabando. Só em São Paulo é apreendida uma arma a cada quatro minutos. é considerado uma boa lei pelos especialistas. em média. 1. No passado.2004). Só nos falta uma lei. “do que acontecer nessas e em outras frentes de luta dependerá o resultado do referendo que. 96] . esse irrealismo ilusório de nossa legislação escrita é bastante antigo e conhecido.12. mas elas não param de entrar.2003). E concluiu: “É fundamental a polícia de fronteira. afirmou o Governador Geraldo Alkimim em entrevista ao jornal O Globo (04. O Estatuto do Desarmamento. tem média de filhos de 4. o próprio estatuto corre o risco de acabar recolhido ao empoeirado depósito onde se empilham as leis que não pegaram no Brasil” (O Globo. daqui a menos de dois anos. a mulher tem.

**** No capítulo anterior estudamos a eficácia e os efeitos das normas jurídicas e pudemos conhecer os principais efeitos positivos e negativos que elas produzem. Direito do trabalho: interferência das forças sindicais no processo de formação do direito do trabalho. Direito financeiro e tributário. estão a exigir uma urgente solução do legislador. por isso que lhe fornece os elementos necessários . Veremos também que a ocorrência de novos fatos sociais. analisar os efeitos sociais produzidos por certas normas existentes (ou que já existiram) em várias áreas do nosso Direito. características da Constituição Brasileira de 1988. principalmente nos grandes centros. a concepção social do contrato. criminalidade de colarinho-branco. principalmente para o legislador. não previstos em nossa legislação atual. 97] para todo profissional do direito.Capítulo X ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DE ALGUMAS ÁREAS DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO O sentido sociológico da Constituição: Constituição e democracia. a situação da companheira e dos filhos ilegítimos. quando teremos oportunidade de conhecer a longa e penosa evolução transcorrida até chegarmos a uma razoável disciplina jurídica de certos fatos sociais. sob pena de se tomar ainda mais difícil a vida em coletividade. Vamos agora examinar alguns aspectos sócio-jurídicos da nossa legislação. Direito do consumidor: a responsabilidade objetiva do fornecedor de produtos e serviços. a macrodelinqüência. soluções legais paliativas antes do divórcio. a situação da companheira e dos filhos após a Constituição de 88. uma demonstração eloqüente da importância da Sociologia Jurídica [p. igualmente. União de pessoas do mesmo sexo. Direito de família: divórcio. Direito penal: violência urbana e poder paralelo. Considerações gerais. a introdução do divórcio na legislação brasileira. Essa incursão pelos vários ramos do Direito proporcionará.

que contém a estrutura jurídica da nossa sociedade..a folha de papel . 49. em sua clássica obra .somente vale até o momento em que entre ela e a Constituição efetiva . Tais afirmações soam como heresia jurídica para os fetichistas da Constituição.Que é uma Constituição? Para ele. quando tal não ocorrer. quando a Constituição não é o somatório dos fatores reais de poder. o efetivo exercício do poder. 117).). a Constituição pode ser legítima e eficaz. é possível distinguir a Constituição formal. é a Constituição que cria ou constitui o Estado de Direito. p. 98] (porque não subordinado a nenhum outro) e . Este não deriva da folha de papel.“não são problemas de direito. como bem colocou Ferdinand Lassalle. ou ilegítima. nada mais é que uma folha de papel.sustenta Lassalle . mas dos fatores reais de poder. e as constituições escritas não têm valor nem são duráveis a não ser que exprimam fielmente os fatores do poder que imperam na realidade social: eis aí os critérios fundamentais que devemos sempre lembrar” (ob. da Constituição escrita. dessarte. ideológicas etc.para bem aplicar o Direito e melhor elaborar as leis. Do ponto de vista sociológico. a folha de papel .e a Constituição real. mas do poder. É chamada de Carta Magna ou Lei Fundamental porque. O SENTIDO SOCIOLÓGICO DA CONSTITUIÇÃO Entende-se por Constituição a Lei corporificadora do Estado. econômicas.Constituição formal . cit. Assim. mas têm base na realidade. a verdadeira Constituição de um país somente tem por base os fatores reais e efetivos do poder que naquele país reagem. o mais expressivo representante do sociologismo constitucional. tudo dependendo de representar ela o efetivo poder social (forças políticas. Vamos começar pelo Direito Constitucional. “Os problemas constitucionais” . É como um termômetro a indicar a temperatura dos fatos sociais. pois a Constituição real e efetiva é o fato social que lhe dá alicerce.aquele somatório de poderes gerador da folha de papel . autônomo [p. prevalecerá sempre a vontade daqueles que titularizam o poder. ou distanciar-se dele. Vista pelo prisma sociológico. Embora se diga que o Poder Constituinte Originário é inicial (porque não há outro antes). de modo a permitir a formulação de um correto diagnóstico e a apresentação de uma solução adequada.houver coincidência. onde se encontram os princípios fundamentais da sua estrutura organizacional. como o seu próprio nome diz.

culturais e morais acabam por determinar a atuação dos constituintes. 5ª ed. como vem acontecendo com a nossa Constituição em vigor. . Em tese uma Assembléia Nacional Constituinte pode tudo. Aqui. mas conserva um caráter educativo e prospectivo. nominal ou semântico. políticos. econômicos e sociais”. nesse caso. A roupa não veste. mas que está. “No outro extremo está a Constituição semântica. mas esconde. Suas normas dominam o processo político ou. Já houve quem afirmasse que a “a Constituição. sem pressa. A maior prova de que a Constituição tem que se ajustar aos fatores reais de poder está em que periodicamente tem que ser revista ou emendada. A Constituição normativa é aquela não apenas juridicamente válida.. a dinâmica do processo político não se adapta às suas normas. Foi precisamente ao estudar a sintonia entre as normas constitucionais e a realidade do poder que Karl Loewenstein. inversamente. além disso. como no caso da Constituição normativa. Para usar uma expressão de todos os dias: a Constituição é a roupa que assenta bem e que realmente veste. Existe. é inegável que os constituintes estão comprometidos e limitados pelas forças sociais que os elegeram (fatores reais do poder). Saraiva. [p.incondicionado (porque não tem limites à sua atividade). políticos. econômicos. elaborou a sua celebrada classificação ontológica das Constituições. dissimula ou disfarça. Confortavelmente. Fatores ideológicos. profissionais.” “Entre a Constituição normativa e a Constituição semântica situa-se a Constituição nominal. religiosos. é o encontro do povo de um certo país em dado momento histórico para reexaminar seus valores morais. Se não houvesse nenhuma Constituição formal ou escrita. mas quando se reúne já traz compromissos indeclináveis e emanentes de suas origens sociais. vivamente integrada na sociedade. o processo de poder se amolda às normas da Lei Maior. diferenciando-as segundo seu caráter normativo. 99] para ajustar os seus preceitos às novas realidades sociais e corrigir os equívocos ou exageros do constituinte de 1988. citado por Luis Roberto Barroso. submetendo-se a elas. éticos. a ser sanada com o passar do tempo. p. a vida institucional não seria perceptivelmente diferente. numa imagem retórica. uma desarmonia entre os pressupostos sociais e econômicos existentes e a aspiração constitucional. do país rico ou do país educado” (Interpretação e Aplicação da Constituição. subalterna formalização da situação do poder político existente. os detentores do poder esperam pelo futuro. seja do país grande potência. 252). A roupa fica por certo tempo guardada no armário e será vestida quando o corpo nacional haja crescido. pelo amadurecimento esperado. que dispõem do aparato coativo do Estado. para o exclusivo benefício dos detentores do poder de fato.

como a emenda de 1969. como aconteceu na América Latina nas últimas décadas do século passado. um dos pilares do Estado Democrático de Direito. de modificação do funcionamento do poder. mais do que um mero ideal escrito no papel ou de simples texto constitucional sem qualquer correspondência com a consciência e a realidade social de cada povo. Isso está a indicar que a verdadeira democracia é muito mais que uma forma nominal de associação política. a oportunidade de influir nas grandes tomadas de decisões.50. No entanto. Tomemos para exemplo disso a própria Democracia. CONSTITUIÇÃO E DEMOCRACIA A visão sociológica da Constituição defendida por Lassalle encontra abundante campo de comprovação em nosso país. Em 180 anos de independência e pouco mais de 100 anos de República. ou que todo o poder dele provém. no texto de suas respectivas Constituições. 100] integrado e evolutivo de constante participação do povo na atividade estatal decidindo. de forma a ensejar ao povo. solenemente. quase todos os Estados declaram. Tão marcante é ainda o caráter centralizador e autoritário da organização política e social brasileira. relegando-se a plano secundário os poderes Legislativo e Judiciário. por exemplo. tanto a Constituição de 1967. ou motivado por falsas promessas . onde a federação foi totalmente desconsiderada e neutralizada pelo poder central. No Brasil. tivemos um regime autoritário. num melancólico estigma de instabilidade por falta de harmonia entre o instrumento formal e o real. entretanto. numa lastimável sucessão de percalços. foram editadas no Brasil nada menos do que oito Constituições. Há de ser um processo [p. verdadeiro titular do poder. Desde o século XIX. continham a expressiva fórmula de democracia indireta ou representativa: “Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. apesar de professar a democracia em todas as suas Constituições. exige mais que a fria participação do eleitor que comparece às umas apenas para cumprir um dever legal. que a fonte do poder é o povo. executando a decisão e transformando a realidade. cortina de fumaça para esconder regimes autoritários. simples princípio nominal ou teórico. no entanto. um dos nossos maiores constitucionalistas. Está a indicar que a verdadeira democracia há de ser uma real tentativa de alteração do caráter autoritário e centralizador da sociedade. o comentário famoso de que sociologicamente. sem qualquer participação do povo até mesmo na escolha dos seus governantes.” Nesse período. que mereceu do saudoso Senador Afonso Arinos. na maioria das vezes tal declaração não passa do papel. Tal integração. o Brasil é um Império.

sobretudo. e salvaguarda ao indivíduo. e esta. como também pela morte de Tancredo Neves. A liberdade. na célebre frase de Luis Blanc. que só poderia consubstanciar-se numa nova ordem constitucional que refizesse o pacto-social. após prolongado trabalho e acirrados debates. Características da Constituição Brasileira de 1988 A luta pela normalização democrática no Brasil e pela conquista do Estado de Direito Democrático. que foi o instrumento mais autoritário da história brasileira. simultaneamente. a maturação sobre os desdobramentos do processo político e o acesso às informações que embasarão a participação lícita no processo decisório. . O voto. nem às minorias em um Estado democrático. especialmente. uma prática. com relevantes inovações para o constitucionalismo brasileiro e até mundial. após o AI-5. começou assim que se instalou o golpe de 1964 e. Não é raro que o governante. Essa luta. fazer cessar as desigualdades. entretanto. embora valioso. neutralizar os desequilíbrios. contudo. através de um processo realmente democrático. Frustrou-se. não garante justiça. veiculadas pelos órgãos de informações que condicionam e manipulam a verdade. não é somente o direito. O Presidente José Sarney. interpretando o sentimento da Nação em busca do reequilíbrio da vida nacional. por si só. liberdade. 50. porque a democracia é. um ideal. Não pode existir uma democracia por decreto. todavia. pois. tomou as ruas a partir da eleição dos Governadores em 1982 e se intensificou no início de 1984.[p. aprovou um texto moderno. Daí por que a integração democrática impõe a consciência e a responsabilidade na escolha. porquanto só assim será possível impedir que a liberdade produza exatamente a sua negação. um projeto e. não só pela rejeição da emenda constitucional da eleição direta. por sua vez. enviou ao Congresso Nacional a tão esperada emenda constitucional convocando a Assembléia Nacional Constituinte.1.eleitoreiras. perdendo a legitimidade inicial. que se manteve contida por quase vinte anos. realizar a justiça social. afasta-se dos seus compromissos democráticos. É preciso. mas ainda o poder de ser livre. razoavelmente avançado. e não para esmagar a do seu semelhante. essa grande esperança. quando as multidões correram entusiásticas e ordeiras aos comícios em prol da eleição direta para Presidente da República. cumprindo os compromissos democráticos assumidos por Tancredo. o mais destacado representante das forças democráticas bra. A liberdade é consenti da ao homem em sociedade para desenvolver suas energias. 101] sileiras. empolgado pelo fascínio do poder. embora respaldado por milhões de votos.

tais como. atendimento especializado aos portadores de deficiência. III e IV). pleno emprego. sem numerário para execução de suas tarefas constitucionais. função social da propriedade. não só porque teve ampla participação em sua elaboração. Todas essas normas e muitas outras. educação como direito de todos e dever do Estado. diferentemente da anterior que era centralizadora e autoritária. no dia-a-dia da vida do cidadão. (arts.Direitos e Deveres Individuais e Coletivos no art. nem política e nem administrativa. Praticamente. valorização do trabalho (art.As inovações se fizeram presentes. É a “Constituição Cidadã”. 205 e 206. fundamento e fim de toda a atividade pública. inciso III). fundamento da atividade estatal. não só os individuais como também os coletivos. atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade (art. buscando resgatar o verdadeiro princípio federalista através de um sistema de repartição de competências entre o poder central e os poderes estaduais e municipais. I. Não obstante tantos pontos positivos. sujeito. conferindo maior soma de competências legislativas e administrativas aos Estados e Municípios. colocando em destaque o homem e seus direitos fundamentais. na expressão do saudoso Ulysses Guimarães. 1°. 227. 6° a 11° -. neles incluídos os dos trabalhadores. mas principalmente porque se volta decididamente para o cidadão e o social. o que significa que o homem é o centro.[p. dandolhes ainda mais recursos tributários. valorização dos profissionais do ensino etc. já que não há verdadeira autonomia. a Constituição de 88 tem inúmeros dispositivos que ainda não passaram da folha de papel. Pode-se concluir dizendo que a Constituição de 1988 afastou o federalismo nominal da ordem constitucional anterior. pode-se dizer que a Constituição atual. Presidente da Assembléia Nacional Constituinte que a produziu. fez renascer a Federação. assumiu uma postura liberal. 102] te (art. na ordem social. No respeitante à Organização Político-Administrativa e a Divisão dos Poderes. § 1°). igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. ensino fundamental obrigatório e gratuito. tanto assim que praticamente inicia-se a Constituição com a consagração desses direitos . objeto. . nos arts. diferentemente da Carta anterior que tratava desses direitos na sua parte final (art. efetivamente. V). justiça social. 5° e seus setenta e sete incisos. A dignidade da pessoa humana passou a ser princípio fundamental da Constituição (art. padecem do mesmo mal: não passaram do papel. I. primeiramente. existência digna. que ressoam precisamente inócuas. e Direitos Sociais. 170 e incisos). não são aplicadas. 153). 208. assistência integral à saúde da criança e do adolescen.

2. inúmeros problemas começaram a surgir no seio da família. estariam resolvidos todos os problemas que conspiram contra o casamento. geralmente os mais prejudicados. que dissolve apenas a sociedade conjugal. Depois. dando ensejo ao desfazimento dos lares. como veremos a seguir. Marido ia para um lado. DIREITO DE FAMÍLIA Em nenhuma outra área do direito houve tão grande evolução como no Direito de Família. tomava-se uma união sólida. os cônjuges separados ou desquitados se uniam de fato a outra pessoa. amor. objetivava a proteção do casamento e da família legítima. 51. da Emenda nº 1/69) que considerava o casamento indissolúvel. 51. que a . mulher para outro. Tal norma. Inicialmente a sociedade tolerava com reservas essas uniões: todo mundo sabia e comentava quando. levando de roldão a família. A Situação da Companheira e dos Filhos Ilegítimos Apesar de a Constituição vedar a dissolução do casamento.1. um novo Direito de Família. entretanto. Foram tantas as modificações sociais ocorridas nas últimas décadas que não seria demais afirmar que temos hoje. somente o desquite. amizade. em busca da necessária harmonia entre a realidade social e a lei. produzindo efeitos patrimoniais para os cônjuges. 175. Muitas vezes essa união ilegal. Em razão disso. § 1°. em outras palavras. num determinado edifício. compreensão e calor humano. Em razão dessa norma não podia haver divórcio no Brasil. 103] Com o correr do tempo. estável. deixando íntegro. em todas as camadas sociais. DIVÓRCIO Havia uma norma em nossa Constituição (art. hoje chamado de separação judicial. ou pelo menos não reconhecida pela lei. tantos foram os casais de união de fato. sem dúvida alguma. formando novo par. proibindo descasar. servindo de instrumento de chantagem emocional. com filhos. Entendia-se que o divórcio destruiria o casamento.51. havia um casal cujos componentes não eram casados. dando origem a novas famílias. oriundos das mais variadas causas. Pensava-se. mormente após a Constituição de 1988. que. ficando entre eles os filhos. “célula mater” da sociedade. inúmeros diplomas legislativos foram produzidos nas oficinas do direito. [p. o vínculo conjugal.

esta. a concubina. Só prejudicava. mas continuavam a ser repelidas pela lei. 104] Ficou também evidenciado que a proibição do divórcio só facilitava a irresponsabilidade e estimulava a pilantragem. econômicas. após o primeiro casamento. A nova realidade social em tomo da família e do casamento evidenciou que não era o divórcio. [p.sociedade passou a aceitá-los plenamente. repetimos. Se assim não fosse. um homem. com pais e filhos vivendo em harmonia e felicidade. pois. sem quaisquer reservas. Filhos e companheira não tinham qualquer direito ou amparo legal. sem assumir qualquer obrigação alimentar ou de outra natureza econômica para com elas. gerando desigualdades. como se sabe. A pretexto de proteger um vínculo matrimonial já de fato inexistente. É preciso. mas não podiam. Havendo divórcio. se não fosse”. As novas uniões passaram a ser normalmente admitidas pelos costumes. como se fossem marido e mulher. a norma constitucional que visava a proteção do casamento. além das obrigações já assumidas com a primeira família. antes do divórcio. Basta fazer uma comparação entre o Brasil. ilegais. o responsável pela destruição do casamento. não podendo se divorciar. para impedir a ruína do casamento. estendendo-lhes proteção legal. dar nome à mulher e aos filhos. plenamente integradas na sociedade. não é verdade. Inúmeras famílias. culturais) profundas. ressentimentos e outros graves problemas sociais. Com efeito. em si. psicológicas. Há outras causas (sociais. como se fez em nosso País. bem constituídas do ponto de vista social. e isto. conhecer e combater as verdadeiras causas do fracasso matrimonial. nada posso fazer. para constatarmos que não estávamos em melhor situação. assume novas . eram mantidas à margem da lei. Muita gente queria regularizar a situação. impedia ainda a realização de outros casamentos verdadeiros. legítimas mas já destruídas pela separação. entre os quais o desamparo econômico. que devem ser pesquisadas e combatidas se se quiser de fato manter o vínculo matrimonial indissolúvel. a lei repudiava famílias bem constituídas. Não basta. afetivas. repudiada pela lei. a situação da família no país onde não há divórcio seria muito melhor do que em outro onde há. Aqueles eram considerados filhos ilegítimos ou mesmo adulterinos. proibir descasar. estas famílias “ilegais” eram mais úteis e recomendáveis que as primitivas. Em síntese. pois o homem com o qual vive está sempre a dizer: “Sou casado. nada pode exigir. O vínculo matrimonial era indissolúvel. o indivíduo que se casa outra vez. une-se tantas vezes quantas puder com outras mulheres. além de não conseguir impedir-lhe a dissolução. fechando os olhos para a realidade. Eram ilegítimas. A mulher fica numa situação vexatória. e os Estados Unidos. Do ponto de vista social. e “deitar em berço esplêndido”.

morte de um dos cônjuges ou anulação do casamento. 105] genitor. simplesmente porque o casamento deles não está doente. Em face de tudo isso. porquanto só possibilitava reconhecimento de filho havido fora do matrimônio depois do desquite do [p. Mas o aludido decreto-lei não satisfez. 50 anos e que nunca pensaram em se divorciar. de modo que. Evidenciado igualmente ficou que o divórcio não é causa da ruína do casamento.obrigações legais também com a segunda. entretanto. de 21 de outubro de 1949.3. permitindo o reconhecimento dos filhos de desquitados havidos fora do matrimônio. mas sim remédio. dele só faz uso quem precisa. isto é. há milhares de casais unidos pelo casamento há 20. 30. . não ocorreu em virtude da pressão exerci da pela Igreja. há muito teria introduzido o divórcio na legislação. Se o nosso legislador atentasse para a realidade social. foi promulgado o Dec. 51. Além de não proteger a família legítima. a conclusão lógica era que a indissolubilidade do vínculo matrimonial não passava de mera ficção jurídica. Primeiramente. para a qual o casamento é uma instituição divina. só por divorciar-se. solução extrema para casamentos já desfeitos. Mesmo nos países divorcistas. como a morte de um dos cônjuges. Somente com a Lei na 883. O fato de existir o divórcio não quer dizer que todos vão se divorciar.737. ou mãe. não impedia o fracasso do casamento mas impedia a regularização das novas uniões. um dogma religioso. de 27 de setembro de 1942. Não se referia ele às outras causas de terminação da sociedade conjugal.-Lei n° 4. precisando ser muito forte economicamente para chegar à terceira família. Tal. Soluções Legais Paliativas antes do Divórcio Houve uma sucessão de leis permitindo o reconhecimento dos filhos ilegítimos em certas circunstâncias. sem qualquer utilidade prática ou social. panacéia. Mas como qualquer remédio. não precisa de remédio. sem solução. o que equivale dizer que até então tais filhos não podiam ser registrados em nome de seu verdadeiro pai. mesmo que desquitado. sagrada e impassível de ser desfeita pelo homem. lícito não era promover o reconhecimento do filho havido extramatrimônio. arruinados. é que se tomou possível o reconhecimento de filhos havidos fora do matrimônio após a dissolução da sociedade conjugal por desquite. prejudicava as famílias ilegítimas. quem está doente. embora extinto o vínculo conjugal.

que. Posteriormente.4. § 3°). alterando o § 1 ° do art. passou a dispor: “O casamento poderá ser dissolvido. regulou os casos de dissolução da sociedade conjugal. 226. havidos ou não da relação do casamento.Lei na 7. os efeitos negativos produzidos pela norma constitucional que considerava indissolúvel o vínculo matrimonial. de 28 de junho de 1977.” Como se vê. a Lei na 6. a Lei de Registros Públicos (Lei na 6. foi cauteloso o legislador ao permitir o divórcio após prévia separação judicial por mais de três anos. até que a própria lei passou a atribuir-lhe direito à pensão previdenciária (Dec. da companheira e dos filhos ilegítimos. 175 da Constituição Federal. § 6°). 51. bem como quaisquer outras designações discriminatórias relativas à filiação (art. desde que haja prévia separação judicial por mais de três anos.015. ou depois de dois anos de comprovada separação de fato (art.5.1973) permitiu o uso dos apelidos do amásio pela companheira. b) reconheceu a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar. Mais recentemente. 226. e as peripécias sociais pelas quais passamos até que o dogma ou ficção fosse destruído pela Emenda Constitucional nº 9. alimentos. de 26 de dezembro de 1977. reconhecimento) os direitos e qualificações dos filhos. conhecida por Lei do Divórcio. 226. a Constituição de 88 encontrou uma base social para fazer as mudanças necessárias e o constituinte teve [p. nos casos expressos em lei. ora com base na sociedade de fato. ora a título de indenização. tempo mais que suficiente para revelar se a separação é ou não definitiva.485/45.069/62). de 31. a jurisprudência fez verdadeiros malabarismos para reconhecer alguns direitos patrimoniais à concubina. Lei na 4. § 6°).515. A Situação da Companheira e dos Filhos após a Constituição de 88 Após mais de meio século de lenta evolução da questão do divórcio. 51. proibindo a designação de filiação legítima ou ilegítima.12. .Lei na 7. 106] coragem para tanto. determinando à lei facilitar a sua conversão em casamento (art.Nesse ínterim. a saber: a) reduziu o prazo do divórcio de três anos de prévia separação para apenas um. em síntese. Esses. c) igualou para todos os efeitos (herança. A Introdução do Divórcio na Legislação Brasileira O divórcio tomou-se permitido através da Emenda Constitucional nº 9. bem como à indenização por acidente de trabalho (Dec.036/44).

12. ao tratar da união estável nos seus artigos 1. o regime da comunhão parcial de bens (art. O artigo 1. na união estável aplica-se às relações patrimoniais. que diz: “Os filhos.278/96. 1. ou por adoção. de 29.727. O novo Código Civil. havidos ou não da relação de casamento. tem o direito subjetivo de ser reconhecido. e prove a necessidade. ou dele tenha prole. Os bens móveis e imóveis adquiridos por ambos os conviventes. 226 da Constituição Federal . 5°).724 praticamente repete o artigo 2° da Lei n° 9. Mantém a lei (art. são considerados fruto do trabalho e da colaboração comum.1996. manteve a mesma disciplina no seu artigo 1.12. 1°). na constância da união estável e a título oneroso. enquanto viver e não constituir nova união ou casamento. terão os mesmos direitos e qualificações.1992.1994. 2° e 3°. Por último. o filho havido fora do matrimônio. pois aquela lei consolidou um longo trabalho doutrinário e jurisprudencial. manteve a mesma disciplina da Lei n° 9. relativamente ao imóvel destinado à residência da família.” Em relação à companheira. vale dizer. a Lei nº 9. como não poderia deixar de ser.” Salvo contrato escrito entre os companheiros.união estável . estabe1ecida com o objetivo de constituição de família (art. em condomínio e em partes iguais.05. comunhão dos bens adquiridos depois da união.596. conferindo inclusive ao Ministério Público legitimidade para propor a respectiva ação.560/92) que ampliou ainda mais as hipóteses de reconhecimento voluntário e de investigação de paternidade. divorciado ou viúvo.725). em 29. regulamentou o § 3° do art. pública e contínua. não mais subsistindo as limitações anteriores.971. . a Lei nº 8.723 a 1. Conferiu-lhe também o direito de participar na sucessão do companheiro (herança) nas condições previstas nos seus arts. de um homem e uma mulher. finalmente. passando a pertencer a ambos. até então designado de filho adulterino. após a Constituição de 88. O novo Código Civil.Importa dizer que. separado judicialmente. 107] de habilitação. voluntária ou coativamente. desde que conviva há mais de cinco anos com o homem solteiro. salvo estipulação contrária em contrato escrito (art. no que andou bem. sustento e educação dos filhos. de 10. assegurando-lhe também o direito real [p. concedeu-lhe direito a alimentos. respeito e assistência e de guarda. a nova Lei de Investigação de Paternidade (Lei n° 8. Sobreveio. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação.278/96: “As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade. 7°) o direito a alimentos ao convivente que deles necessitar uma vez dissolvida a união estável.reconhecendo como entidade familiar a convivência duradoura.278. no que couber.

[p.6. Sustentam não ser possível fechar os olhos para a realidade . não reconhece na união de homossexuais a categoria de união estável. o Superior Tribunal de Justiça decidiu que “os homossexuais constituem sociedade de fato a ensejar partilha do bem comum”.151/95). pp. passará a ter reconhecimento jurídico” (Elementos Críticos do Direito de Família. favelização. No entender do Professor Luiz Edson Fachin. Em sentido contrário. primeira iniciativa no sentido de sensibilizar nossos legisladores para o problema que afeta não só os que o vivenciam. regular posse e guarda de crianças etc. pobreza. julgado em 10. só após.02. de autoria da exDeputada Federal Marta Suplicy. mas também os operadores do direito que militam nas Varas de Família. No Recurso Especial n° l48. mediante reiterado posicionamento jurisprudencial em seu prol. Renovar. tanto na doutrina como na jurisprudência.o grande número de ações que são distribuídas aos Juízos de Família pretendendo reconhecer ou dissolver uniões homossexuais.897-MG. que pretende instituir a parceria civil. ainda não apreciado pelo Congresso Nacional.51. há vozes respeitáveis fulcradas no Estado Democrático de Direito e nos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana.723 do novo Código Civil.1998. ausência de . crise de moradia. DIREITO PENAL O Direito Penal é muito sensível às questões sociais. 108] sexual é família autônoma e distinta da união estável. do qual foi relator o Ministro Ruy Rosado de Aguiar. Aduzem que a família homos. Tudo ou quase tudo acaba nele repercutindo: explosão demográfica. do artigo 226 da Constituição. razão pela qual o entendimento majoritário. O que a Justiça tem admitido é a sociedade de fato para fins patrimoniais. a relação estável homossexual deverá seguir os caminhos já traçados pela entidade familiar estável. 93/1 02). União de Pessoas do Mesmo Sexo É indispensável a diversidade de sexo para a configuração da união estável? Essa é a questão que remanesce e que ainda é bastante polêmica. com individualidade e identidade próprias. No Brasil temos apenas um Projeto de Lei (nº 1. a Suécia e a Noruega já dispõem de leis que regulamentam a união homossexual. da igualdade e da sociedade com respeito ao pluralismo típico deste Estado de Direito. como o artigo 1. Reconhecem a união estável apenas entre homem e mulher. passando inicialmente pelo reconhecimento como sociedade de fato e. a oxigenar o nosso sistema legislativo. são de clareza solar. Tanto o § 3°. 52. entretanto. A Dinamarca.

A falta de segurança. Nunca os assaltantes agiram com tanta ousadia e desenvoltura como na última década. em ônibus 35%. apurou o seguinte: a) 81 % dos moradores afirmaram j á ter sofrido algum assalto ou tiveram alguém da família assaltado. 21% aumentar a remuneração dos policiais. ficou. 12% selecionar melhor os policiais. estúdios onde inúmeras montagens seriam ensaiadas e produzidas. ele se viu dirigindo uma cena da vida real. juntamente com a sua família e mais oito amigos. 8% investimento em educação.2003 ao raiar do sol. Sobre o que precisa ser feito.12. gerando sentimento de insegurança [p. Acostumado à ficção. é fato público e notório. b) um em cada três revela se sentir inseguro ou muito inseguro dentro da própria casa. quem a promove.educação. os resultados foram os seguintes: 38% aumentar o número de policiais. hospitais e o comércio em geral. por exemplo. onde não precisaremos continuar fingindo que estamos dormindo. corrupção. que atinge qualquer família ou qualquer cidadão a qualquer momento de sua vida. no lugar de uma das amigas de sua filha. que atinge cidadãos. fraude e assim por diante. Quais são as causas dessa violência. ao ter a sua casa assaltada no dia 29. c) 57% têm medo de assalto na rua. que efeitos produz? Pesquisa feita pelo IBOPE em junho de 2000 nos municípios do Grande Rio.01. VIOLÊNCIA URBANA E PODER PARALELO A violência urbana. figura em primeiro lugar em todas as pesquisas. 18. moradias. ao mesmo tempo em que berrava para a polícia parar de atirar. “Já não é mais possível viver nesta cidade exposta a essa vergonhosa violência. tendo que mudar os seus sonhos e de sua família por motivo de assaltos múltiplos. 3% investir mais no social (O Globo.06. Renomado diretor de TV no Rio de Janeiro. camarins.” 53. 36% melhorar o treinamento da polícia. 109] generalizado e sem precedentes. Entrego essa casa a um sonho de futuro. 10% geração de empregos. escolas.. nem dentro de um filme sem final feliz. . o renomado diretor diz ter construído uma casa com salas de ensaios.. ao persuadir os bandidos a tomá-lo como escudo.2004). Mas agora era obrigado a dela sair violentado. na realidade atingiu patamares vergonhosos e insuportáveis. por mais de duas horas sob a mira de revólveres de três jovens drogados.2000). Em relato dramático ao Globo (04. 9% mudar toda a polícia. 6% criação de programas sociais. a uma cidade que um dia será maravilhosa.

a fome. o que não está acontecendo com o governo atual. O combate à violência urbana não depende de medidas sociais. a crise de insegurança é geral. já é degradação. A grande contribuição que se poderia dar para resolver a insegurança nas cidades é disponibilizar recursos para a melhoria da área de tecnologia da polícia. mas. 110] “O Estado tem que recuperar os espaços eventualmente perdidos para o crime organizado. que hoje não funciona” (O Globo. A falta de prioridade não é apenas do governo atual. trabalhadores e donas-de-casa.2004). 04. desempregados.01. a causa dessa violência urbana não é a miséria. Geraldo Alkmin. O Governador de São Paulo. E prioridade é recurso. anomia (ausência de leis). muito menos pelos favelados. A entrevista do Governador de São Paulo merece apenas um reparo. declarou em entrevista: “A política de combate à violência no Brasil não dá resultados concretos porque falta ao governo federal tratar o assunto como prioridade. Estados e Municípios) na seleção. a ponto de levar um membro do Judiciário a declarar que ali o estado não existe. ocuparam os espaços deixados e formaram verdadeiro poder paralelo. . adultos e crianças. mas também de vários anteriores e envolve também os governos estaduais e municipais. remuneração dos policiais e aumento dos seus efetivos. senão é só boa intenção. ledo engano. Em junho de 2002. interdição da Avenida Brasil e Linha Vermelha por bandidos. Após tão firme pronunciamento. Isso que o povo sabe e denuncia há muitos anos.06. Primeiro. era de se esperar medidas governamentais fortes e emergenciais.2002). treinamento. quando o Estado não existe é preciso repor porque senão não há cidadania. apenas confirmam o que todo mundo já sabia. a falta de moradia ou de investimento na educação. Há o arbítrio” (O Globo. No comando dela está o crime organizado. conforme demonstrou a pesquisa do IBOPE. atingindo pobres e ricos. o então Presidente da República aqui esteve e afirmou na abertura da IV Semana Nacional Antidrogas: [p. só agora tem sido admitido pelas nossas autoridades. E a organização é tão forte que a realidade demonstrou que alguns chefões continuam no comando mesmo depois de presos. após ter o Rio de Janeiro passado por queima de ônibus. a pobreza. 20. porque ela não é promovida pelos pobres.Os resultados dessa pesquisa não surpreendem. “tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes”. mas sim a omissão do Estado (União. rajadas de metralhadoras em prédios públicos. uma situação como a atual nas favelas do Rio. na ausência do estado. Segundo. quadrilhas de traficantes de tóxicos e armas que.

recomendava sua legalização.um quarto de século . para evitar deslealdades dentro dos grupos. que freqüentemente terminavam em abuso e violência. Isso tudo ainda garantia bons rendimentos para a polícia. O acordo funcionou durante décadas. era a loteria dos pobres. mesmo contra a lei. Com uma polícia de poucos recursos.que predominou na polícia do Rio o pragmatismo dos “realistas”. suscitando disputas armadas. Faz pelo menos 25 anos . promoveu atos de crueldade que chocavam as populações do . semioficialmente. Houve até um governador que chegou a institucionalizar o “bicho”. conforme relato do Senador Roberto Saturnino Braga em artigo no Globo. ligando-o a grupos de seqüestro e de assalto. Era um acerto informal semelhante ao que houve também com o jogo do bicho. especialmente nas imediações do morro. a polícia obtinha a colaboração do tráfico na preservação da paz no asfalto. mas podia ter a sua nocividade limitada ao território do morro e à pequena parte da sociedade do asfalto que queria consumir drogas (e bem podia ter essa liberdade tolerada). contribuições para entidades filantrópicas. Por muitas vezes o tráfico promoveu ações no “asfalto” para arranjar dinheiro em momentos difíceis. pelas autoridades responsáveis e pela média da opinião da cidade. na realidade assustadoras.Como surgiu esse poder paralelo e como atua? As suas raízes são sólidas e profundas. Assim.“nós não subimos lá e vocês não descem cá”. onde o tráfico era rigoroso na contenção do crime. em termos de resultados práticos. que sempre participou dos resultados financeiros de uma atividade extremamente lucrativa. prossegue o Senador em seu relato. O tráfico cresceu e ganhou status de negócio. Além disso. delimitaram-se dois territórios de ação e população distintos: o “morro” do tráfico e do povão e o “asfalto” onde vive a população que merecia ser protegida pela polícia. manchando a imagem do governo e tirando votos do eleitorado que era crescente no morro. exigiu um comando mais severo dos traficantes sobre a comunidade do “morro”. Essa divisão facilitava muito o cumprimento da cláusula fundamental . com o acordo. guerras particulares de gangues pelo controle dos pontos de maior lucratividade e investimentos muito maiores em armamentos eficazes para sustentar essa guerra. E em ambos os casos havia uma racionalidade: o jogo do bicho não chegava a ser crime. E o resultado foi considerado razoável. obtendo dele. O acordo evitava também incursões da polícia no morro. com boas razões. fazer um acordo com o tráfico de drogas e concentrar a atenção e as forças no combate à criminalidade comum. era uma contravenção que na verdade não fazia [p. O tráfico não era tão inocente quanto o bicho. 111] mal a ninguém. de baixo efetivo e sem equipamento adequado. valeria mais. tanto que muita gente. que só passou a se preocupar com a questão quando o cenário foi mudando de figura.

o tráfico executou cerca de cem líderes comunitários. que criou suas áreas de exclusão. 112] bir o morro ou penetrar em certas favelas sem autorização dos chefões do bando.223 lojas.2002). até universidades. onde foi torturado e morto o jornalista Tim Lopes. Até o salvo-conduto para os ônibus circularem é dado pelo tráfico. esse poder paralelo é mais forte do que admitem as autoridades policiais. Em 32 bairros do Rio os traficantes escolhem dia e hora para fechar escolas. o Rio perdeu. Em 13 de abril de 2003 O Globo publicou a relação das áreas mais afetadas pelo poder paralelo. De acordo com o Instituto Fecomércio. sem recursos.“morro” e do “asfalto”. Hoje. O jornalista Tim Lopes. Conclui o Senador. 4. acusados de matar dois traficantes (O Globo. postos de saúde. Para o sociólogo Geraldo Tadeu. fez constatações alarmantes. 20. e se constituiu um inimigo cujo enfrentamento era cada vez mais difícil e desgastante para a polícia. na Penha. Seis ônibus foram incendiados pelos moradores da Favela Vila Cruzeiro.[p. no período de outubro de 2000 a setembro de 2002.2002). muito mais que o da polícia.06. Ele . Esta. por descumprir essa regra. que estuda a relação do tráfico com as comunidades. estabelecimentos comerciais e industriais. mais de quatrocentos dirigentes de entidades se associaram a bandidos (O Globo. Surgiu então na cidade o crescente grito de “basta!”. já quase completamente envolvida na participação dos lucros e cada vez mais ávida de ganhos naquele negócio que crescia incontrolavelmente. conforme anunciado pelo atual Secretário Nacional de Segurança (O Globo. Entre 1992 e 2001. 02. 20. E produziu choques e episódios freqüentes de enfrentamento com a polícia. da DERJ.01. outros trezentos diretores de associações tiveram que abandonar as favelas para não serem mortos.2004). o envolvimento de líderes comunitários com traficantes passou a ser regra. Esse mapeamento já é conhecido da população há muitos anos. Ninguém pode su. Mas era tarde: o poderio do tráfico tinha aumentado muito além do imaginado. foi torturado e morto. bairros inteiros estão sendo esvaziados com a saída de indústrias e estabelecimentos comerciais por causa da violência e da degradação urbana. não sendo suficiente para enfrentá-lo a mera “criação de um Gabinete de Gestão Integrada do Sudeste e o mapeamento das quadrilhas que atuam nos morros”. perdia uma grande quantidade de homens e se desmoralizava numa guerra que não tinha respaldo efetivo e decidido da cúpula dirigente. onde os pragmáticos continuavam dando as ordens na linha do acordo que se deteriorava. Levantamento feito pela Comissão Contra a Violência e a Impunidade da Assembléia Legislativa do Estado do Rio.06. Tal é a força desse poder paralelo que os moradores das favelas onde ele atua fazem manifestação contra a ação policial sempre que um traficante é morto. revoltados com policiais do 16° BPM (Olaria).

encontramse acima da lei. até mesmo do país. que povoam nossas prisões horríveis e constituem a clientela do sistema. 113] nasceu e cresceu com a tolerância. por isso mesmo. mas o tráfico tem mais estrutura. muito menos da segurança que todos almejamos. associações e ONGs. em todos os . as comunidades não têm como reagir sem uma intervenção do Poder Público. Combater a violência urbana de forma pontual e isolada é o mesmo que tentar matar a árvore só arrancando as folhas. Nas favelas. não haverá reconquista dos espaços perdidos. tão pouco decorre da falta de leis ou da atuação do Judiciário. Entre nós. o Direito Penal tem sido um amargo privilégio dos pobres e desfavorecidos. É ação direta de um poder paralelo que [p. O sociólogo defende. armas não são fabricadas por favelados. Para Geraldo Tadeu. nem por crianças desnutridas e sem escola. CRIMINALIDADE DE COLARINHO-BRANCO (WHITE COLLAR CRIME) Trata-se de uma categoria não convencional de crimes e criminosos. há igrejas. “vapores” e “soldados”. que. que o Estado adote ações estratégicas de médio e longo prazos (O Globo. 20. 54. nem são ali industrializadas. Tudo vem de fora. Têm ainda um sistema de segurança complexo. de sorte que sem uma ação integrada da União. do Poder Público. Drogas não nascem nos morros.06. com gerentes. Os traficantes ocuparam esses espaços. dão dinheiro. estadual e municipal. a partir do crescimento exacerbado do tráfico como poder militar e econômico no âmbito dessas comunidades.explica que com o tempo ocorreu um processo de subordinação dessas associações. Ela se distingue da criminalidade convencional pelo fato de ser integrada por pessoas de alta classe e respeitabilidade. cestas básicas. como bem assentou o saudoso Professor Heleno Fragoso (relatório apresentado na Reunião da Comissão Internacional de Juristas da ONU). Estados e Municípios. planejada e duradoura. com absoluta propriedade. É o grande poder paralelo.2002). Conclui-se do exposto que a violência urbana não é uma conseqüência da pobreza. A estrutura geral de nosso direito punitivo. alegando que o poder público limitou a sua presença nas favelas à repressão. pelo menos omissão. Não é possível combatê-lo com medidas paleativas e demagógicas como as que estão sendo anunciadas. O sociólogo justifica ainda a influência do tráfico nas comunidades. Eles têm um sistema previdenciário paralelo. detentoras de poder político ou econômico. miséria ou falta de instrução. É preciso disposição política das três esferas de poder federal. Têm também um sistema tributário paralelo e cobram impostos dos comerciantes.

destacar os fatos que acarretam: a) danos contra a vida e a saúde da coletividade. podemos considerar: . tornando puramente ilusória a igualdade proclamada nos documentos políticos. que dela se livram com facilidade pela corrupção e pelo tráfico de influências. atingindo em regra a coletividade. c) danos contra o patrimônio estatal da coletividade. e outras instituições de pesquisa do continente americano. Não sendo possível a enumeração exaustiva das ações anti-sociais que caracterizam os crimes de colarinho-branco.seus mecanismos de aplicação. b) o fato anti-social é praticado no exercício da atividade. nada lhes acontecendo. como já se disse. O Centro Internacional de Criminologia Comparada da Universidade de Montreal. às elites dirigentes (econômica. 114] c) O dano causado pela ação é extenso e considerável. pode-se destacar que os fatos que constituem tal criminalidade apresentam as seguintes características: a) os autores pertencem. Pela extensão dos resultados. podem ser aqui colocados: a) abusos praticados em relação à força de trabalho. Em relação à força de trabalho. Em razão dessas pesquisas. b) exploração predatória dos recursos naturais. podemos. entre as quais o Instituto de Ciências Penais do Rio de Janeiro. financeira ou política) da formação social. b) danos contra o patrimônio da coletividade. c) produção industrial imprópria ou defeituosa. são capazes de abalar a própria estrutura econômica ou política do país. em Maracaibo (Venezuela). Os fatos anti-sociais que acarretam danos à vida ou à saúde da coletividade. segundo o mesmo Professor Fragoso. tais crimes são muito mais graves do que o furto e o roubo que punimos com tanta severidade. além de atingirem a coletividade. todavia. deixa inteiramente acima da lei os que têm poder econômico ou político. segundo o Professor Fragoso. em conjunto com o Instituto de Criminologia da Universidade del Zulia. realizam extenso projeto de pesquisa sobre a criminalidade de colarinho-branco na América Latina. ou o patrimônio de indeterminado número de pessoas. visto que. [p. Mas o pior de tudo é que ficam impunes os seus autores.

em qualquer de seus aspectos. Danos ao patrimônio da coletividade apresentam-se através de métodos irregulares e fraudulentos de enriquecimento.1) a redução do trabalhador à condição subumana pelos salários incapazes de repor as energias consumidas no trabalho. produzindo quebras que afetam amplos segmentos da coletividade de investidores (além de outros setores das classes dominantes).. consoante constantes denúncias feitas ultimamente pela imprensa. A produção industrial imprópria ou defeituosa atinge a vida ou a saúde da coletividade. como o pão. bem como a propaganda fraudulenta que causa dano ao patrimônio de indeterminado número de consumidores. ou alternativamente. que eliminam insetos e microorganismos necessários ao equilíbrio ecológico e intoxicam o consumidor. seja pela exploração desordenada. Temos ainda toda a sorte de fraudes e manipulações no mercado de ações. 2) exaurimento físico e mental do trabalhador. 3) condições de insegurança ou de fadiga excessiva. constitui débito social ilegítimo do processo industrial. .. A exploração predatória dos recursos naturais apresenta-se através da destruição do ambiente vital produzido pelo trabalho milenar da natureza. Temos aqui a administração ruinosa de determinadas empresas.[p. A poluição. como propõe a ideologia dominante. como acontece no Brasil. pela imposição de ritmos excessivos de trabalho e tarefas monótonas e embrutecedoras (produzindo doenças ou lesões ocupacionais). causando mortes e acidentes. medicamentos prejudiciais ao organismo. criando desertos e provocando secas).g. com efeitos negativos idênticos. 115] sive com o emprego de produtos químicos. seja pela poluição. lesados também freqüentemente no peso e quantidade de mercadorias comercializadas. contendo elementos químicos altamente nocivos à saúde etc. e desflorestamento sistemático. como através de outros produtos (e. a exigência da segurança). provocando injeções maciças de dinheiros públicos (créditos e financiamentos) ou encampações oficiais. projetos da indústria automobilística que desatendem. e não o preço do progresso. A exploração desordenada conduz à destruição do ambiente vital (exaustão e erosão do solo. inclusive através da exploração de trabalhadores rurais (bóias-frias) empregados na lavoura na época das colheitas. inclu. não só no que tange aos produtos alimentícios ou medicinais. em especial as ligadas ao mercado financeiro. produtos alimentícios de primeira necessidade. por imposições do mercado.

as manobras mais variadas que visam proporcionar a alta de preços de gêneros ou bens de consumo essenciais. alguns deles dirigidos por altas personalidades de nosso cenário político e econômico. Danos ao patrimônio estatal da coletividade podemos identificar na evasão de impostos. fraudes com transferências bancárias. do uso abusivo de instrumentos da economia. causando bilhões de prejuízo aos cofres públicos e particulares. lavagem de dinheiro obtido ilicitamente. que se pratica através de balanços fictícios e subfaturamento. envolvendo a prática de ilícitos sofisticados em que a vítima é a coletividade (os danos são difusos). lesivos por vezes aos interesses vitais e estratégicos da coletividade. 55. podendo ser identificada pelas seguintes características: a) abuso de poder econômico e político. como. Lamentavelmente. A MACRODELINQÜÊNCIA Essa expressão é modernamente utilizada para indicar o crime organizado. basicamente. a nossa legislação penal ainda é deficiente na configuração e punição dessa criminalidade chamada de colarinho-branco. É certo que algumas práticas são diretamente lesivas a outros grupos dominantes. Tem alguns pontos em comum com a criminalidade do colarinho branco. viciando [p. que abusam do poder econômico. sequer dispomos de recursos técnicos para a sua rápida e eficiente apuração. mas seus efeitos atingem a coletividade também. esses delitos são praticados com o emprego da moderna tecnologia e decorrem. fraude no mercado acionário e de câmbio. eliminando a concorrência de grupos nacionais e fazendo com que seja entregue a estrangeiros o controle de áreas essenciais da economia da nação.Finalmente. ligada à concessão de favores ou privilégios especiais. ou da própria integridade nacional. Poder-se-ia também mencionar aqui a ação predatória da economia nacional praticada através de empresas transnacionais. A corrupção surge também na celebração de contratos públicos. falsificação de moeda e títulos da dívida pública. O estouro de vários bancos de alguns anos para cá. por exemplo. Igualmente a corrupção administrativa de alto nível. produzindo lesão incomparavelmente maior do que a representada pela criminalidade contra o patrimônio convencional. bem ilustra este ponto. 116] concorrências e superfaturando os preços. o que faz crescer o sentimento de impunidade para os que não são pobres. De difícil detecção. valendo-se com .

onde as ações examinadas deveriam ser tipificadas como crimes sujeitos a graves penas. pois o Direito Penal e a atuação da polícia são limitados pelo princípio da territorialidade e da sobera. em constante consonância com as mudanças dos mecanismos econômicos e para dificultar a identificação das operações ilícitas.[p. De uma coisa. É a macrocriminalidade que provoca desníveis sociais. ela já não mais se encontra no patamar que se pretendia regulamentar. sem nunca chegar-se às causas. da criminalidade comum. inclusive o estudo de casos. Impõese assim a recomendação de ampla pesquisa. onde o dinheiro ilícito entra e sai com facilidade. por sua vez. Para elaborar leis eficazes nesta área da criminalidade. de nada adiantará a repressão à criminalidade convencional.constância do uso indevido de informações privilegiadas a título de consultoria. por outro. pela falta de leis penais adequadas. A estrutura política e econômica existente está de tal forma montada que oculta e protege essa criminalidade dourada. f) impunidade dos autores. Enquanto isso não acontecer. devemos nos conscientizar: enquanto tivermos crimes e criminosos acima da lei. de modo que pouco ainda sabemos a seu respeito. deverão abranger desde a completa reforma da estrutura política e econômica do país. devendo ser utilizadas as técnicas de pesquisa sociológica aperfeiçoadas pela experiência. com o estabelecimento de uma ordem social mais justa e democrática. Quando o legislador vai trabalhar em cima da realidade econômica. e) mutabilidade na forma de operar-se. o que não acontece com o legislador e as leis. por um lado em razão da sofisticação dos meios usados aliada a estrutura e. 117] nia dos Estados. elevação da inflação. b) requer alta especialização profissional e completo domínio operacional dos meios tecnológicos para a sua execução. o legislador teria que ter profundo conhecimento da realidade econômica e estar permanentemente atento para prever as possíveis mutações de seus mecanismos. o combate ficará circunscrito aos sintomas. condições de vida subumanas. d) condutas criminosas transnacionais. A transnacionalização é uma das maiores dificuldades no combate à macrocriminalidade. pois costuma apoiar-se em atividades legais que lhe dão cobertura tática para os negócios ilícitos. Quanto às medidas a serem adotadas. Outra dificuldade no combate da macrocriminalidade resulta do fato de conseguirem os criminosos adaptar-se rapidamente às constantes mudanças da economia. entretanto. até a reformulação da legislação penal. Estão entre os países preferidos os chamados paraísos fiscais. causas principais. . crises econômicas. c) reveste-se de uma aparência de legalidade absoluta. Os criminosos utilizam países de acordo com os seus interesses e as facilidades que neles encontram. aumentos incontroláveis de preços.

É verdade que já temos uma legislação que pune os crimes econômicos . criam confusão e concorrem para a impunidade.06. portanto. a lavagem de dinheiro. como já foi assinalado.1986. 130.Lei n° 7. que resguarda o bem comum. o Delegado Hélio Tavares Luz. Os tipos penais abertos. Ademais. Não conseguimos. merecedores de melhor disciplina penal.Como assim? LUZ . poderiam ser mencionados. lamentavelmente. que é a arrecadação do Estado. Crime. vários artigos que.“A polícia tem um problema de formação. como também pela imprecisão dos seus tipos. Há no Código Penal. por definição. então Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro. que permitem várias interpretações. essas leis não têm alcançado os objetivos desejados.12. Um policial não está suficientemente aparelhado para entrar nos meandros de um crime cometido na especulação na bolsa de valores. viola-se a norma que protege a sociedade como um todo. perseguir um integrante do Comando Vermelho. que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e Lei nº 8. também. CONSIDERAÇÕES GERAIS Inúmeros outros fatos.137.O crime do colarinho-branco. a sonegação fiscal. há o fato de que. prender o Miltinho do Dendê são ações que não causam nenhum tipo de problema. para a sociedade. respondeu: “LUZ . Quando quiserem combater esse tipo de crime não haverá mais condições. em novembro de 1995. a casa de prostituição na modalidade de manter lugar . por exemplo. a coisa complica”. Assim. não só pelas penas extremamente brandas nelas previstas. deveriam ser dele excluídos. de 27. Não tem o conhecimento básico para combater os crimes do colarinho-branco. Mas. 56. mas. [p. É um problema grave por esse ângulo e. que define os crimes contra a Ordem Tributária Econômica e as Relações de Consumo -. a nossa polícia não está aparelhada e nem especializada para investigar tal tipo de criminalidade. 118] indagado sobre qual o crime que dará mais trabalho para a polícia brasileira. Estourar um ponto do jogo do bicho. na hora de entrar nos escritórios refrigerados do 18° andar da Avenida Rio Branco ou num gabinete atapetado na Avenida Paulista. Em entrevista concedida à revista Veja. é o que ofende aquilo que a norma jurídica quer proteger. pelo fato de serem crimes fora do alcance da polícia.492. os engravatados não são considerados marginais. por não mais serem aplicados. de 16.” VEJA . Além disso.1990. No caso dos crimes do colarinho-branco. alcançar essa turma. previsto no art. o crime de perigo de contágio venéreo.

motéis. de Miranda Rosa (Sociologia do Direito. Tomemos para exemplo o caso do imposto de renda. o adultério. 217) e o aborto (art. 124). No . chegou até o Palácio do Planalto. que tantos efeitos negativos produz. deve persistir? Até quando vamos manter os nossos presídios como escolas de marginais e de revoltados? Para fazer da pena um instrumento de reeducação e prevenção social é necessária uma radical reforma penitenciária. Este último já se encontra legalizado em vários países. bem como das leis tributárias em geral. previsto no art. pp. há artigos cuja permanência no Código é discutível por várias razões sociais. educação. art. observa F. Assinale-se por último que novos fatos sociais necessitam ser tipificados como crimes. escudados na impunidade. são algumas das questões a merecer pesquisa acurada da Sociologia Jurídica. DIREITO FINANCEIRO E TRIBUTÁRIO Os efeitos sociais das leis que disciplinam o regime das finanças públicas e privadas. como a violação da intimidade com instrumentos e aparelhos eletrônicos. vulgarmente chamada de grampo. há uma grande distância entre a eficácia teórica e a real das leis fiscais em geral. Por outro lado. Entre nós. nada há mais justo que cada um contribuir para as necessidades públicas proporcionalmente às suas rendas. todos sabem disso. É inadmissível que alguém fotografe uma pessoa famosa em sua intimidade e venda impunemente essa fotografia à imprensa para obter ganho fácil. principalmente as repercussões que provocam na opinião pública. existindo até mesmo clínicas especializadas em aborto. Em tese. 229. 118119). objeto ou espetáculo obsceno. 234 . Existem ainda outras questões que estão a exigir estudo aprofundado e urgente definição do legislador: a maconha deve ser descriminada? Como [p. Embora todos estejam de acordo quanto à necessidade de pagar tributos como forma de custear os serviços públicos .estradas. saúde. A. procurando os mais variados meios para fugir ao seu império. transportes. Por razões que precisam ser estudadas. há uma resistência permanente por parte dos contribuintes quanto a pagar efetivamente os tributos exigidos pelos órgãos legiferantes. tal a ousadia dos seus praticantes. 57. A escuta telefônica. por seu turno. ultraje público ao pudor na modalidade prevista no art. embora tipificado como crime. como a sedução (art.escrito. trata-se de uma norma amplamente transgredida.para fins de encontros libidinosos . 240. 119] explicar o seu uso nas praias? A proibição do jogo do bicho.

120] clamar maior atenção dos sociólogos. sonegar o imposto de renda. como e por quê. Pode acontecer também de não estar o público suficientemente esclarecido quanto às finalidades dos tributos. através de publicidade bem elaborada. isto é. De todos é sabido. em todos os países em que foi instituído não há exemplo de aceitação mansa. o que visam realizar. como já se disse. esperteza. DIREITO DO TRABALHO O Direito do Trabalho oferece igualmente campo fértil à investigação sociológica porque trata-se de um novo ramo do direito onde. Provavelmente. que em nosso País a maior incidência do imposto de renda ocorre sobre os assalariados. Sem dúvida. ou pelo menos habilidade. Jamais confessariam que subtraíram um níquel de quem quer que seja. comerciantes. em nosso entender por falta de esclarecimento da opinião pública quanto ao que estava sendo feito. Freqüentemente. Chegou-se mesmo a formar a idéia de que constitui virtude. isso seria tremendamente desonroso. mas quanto aos tributos. assistência etc. é algo perfeitamente tolerável pelos costumes e até enaltecedor. se as causas da resistência pudessem ser levantadas e eliminadas. O esclarecimento da opinião pública a esse respeito. caberia à autoridade competente esclarecer a opinião pública quanto ao que foi feito com o dinheiro público . por exemplo. dos juristas e das autoridades em geral. dos economistas. . cujo tributo é descontado em folha de pagamento.entanto. ajudaria a quebrar a resistência e a angariar confiança. Chega-se por isso ao absurdo de um assalariado. industriais etc. as leis fiscais seriam recebidas de forma mais pacífica pela sociedade e os resultados seriam muito mais satisfatórios. Vimos isto no Rio de Janeiro quando do lançamento da taxa do lixo pela Prefeitura Municipal: houve uma grita geral. ou de aplicação fácil desse tributo. arrecadar-se-ia mais com menos esforço.[p. pessoas respeitáveis vangloriam-se de terem conseguido burlar o imposto de renda em vultosas quantias. constitui fato importante a re.e assim ganhar a confiança pública.. deixando quase à vontade os profissionais liberais. faz-se .. entre a eficácia pretendida com relação às leis tributárias e sua aplicação real. em reuniões sociais. 58. Esse descompasso. pagar mais imposto de renda que um comerciante ou industrial bemsucedido.obras. mais do que em qualquer outro. uma das causas da resistência ao pagamento do imposto de renda decorra da injustiça dos critérios utilizados em sua fixação. Neste caso. Outra causa pode ser a falta de confiança do público em geral na fiel aplicação dos tributos às finalidades a que se destinam. de rendimento médio.

cit. a despeito do regime político duro e austero lá existente. 116). porém. procurando obter decisões da justiça favoráveis. aposentadoria. c) ação sobre a opinião pública. . p. Foram concessões [p. pelos patrões. a influência que exercem os órgãos de classe é inegável. a influência sindical no processo de formação do Direito Trabalhista apresenta três facetas distintas. Tão notório é o condicionamento social sobre as leis trabalhistas. Seu desenvolvimento tem sido rápido em virtude das constantes pressões exercidas pelos fatos sociais sobre as forças e grupos detentores do controle da economia. Em outros. que podemos afirmar com segurança que todas as conquistas dos trabalhadores nesse ramo do direito. é mais discreta a intervenção dos sindicatos na formulação das normas jurídicas do trabalho. acatadas. b) ação sobre o Judiciário.. Miranda Rosa (ob. aos impulsos sociais das novas reivindicações de massa. capazes de condicionar um entendimento uniforme no sentido desejado.. decorreram das pressões feitas pelos órgãos de classe. Por essa mesma razão a legislação trabalhista. em alguns países essa influência é exercida direta e ostensivamente sobre os órgãos produtores do direito. cit. ainda que nova. tem sido alterada com freqüência. reajustes salariais. seja pelas características próprias do movimento sindical. sempre na menor medida possível. 121] feitas. impressionante e inevitável. muito a contragosto. De acordo com o mesmo autor (ob. Interferência das Forças Sindicais no Processo de Formação do Direito do Trabalho Segundo o Prof. 58. tendente a criar ambiente social mais amplo. seja pelas restrições que a organização política lhes impõe. como férias de trinta dias.1. passo a passo. 117). simpático às posições assumidas pelos grupos de trabalhadores vinculados a tais organizações sindicais. Em qualquer das hipóteses. gratificação natalina. p. visando à edição de normas jurídicas convenientes aos interesses dos seus associados. às vezes até mesmo com certo exibicionismo para evidenciar a eficiência das organizações classistas e sindicais na defesa dos interesses de seus associados.notório o condicionamento direto que a realidade social exerce sobre a ordem jurídica. O líder sindical chegou à Presidência daquele País. Exemplo disto tivemos na década de 80 na Polônia. a saber: a) ação sobre os órgãos legislativos e executivos.

uma disciplina jurídica única e uniforme para tutelar todos os direitos materiais e morais dos consumidores. produtos. [p. segurança. conforme foi possível constatar através dos movimentos grevistas no ABC Paulista. transportes. serviços etc. Até onde essa influência é útil.promover a defesa do consumidor (art. Para termos uma idéia do campo de incidência do Código de Defesa do Consumidor . o CDC estabeleceu responsabilidade objetiva para o fornecedor de produtos ou serviços. habitação. 5°. o Código adotou a concepção social do contrato. A Responsabilidade Objetiva do Fornecedor de Produtos ou Serviços Até o Código do Consumidor os riscos do consumo corriam por conta do consumidor. para cumprir a sua vocação constitucional . às profundas transformações introduzidas nas relações de consumo pelo Código de Defesa do Consumidor. Entre as inúmeras inovações traz idas pelo CDC.O Brasil. ainda que rápida. inciso XXXIII da Constituição Federal) -. que durante muitos anos esteve entre os países do segundo grupo. 59. alimentação. bem como na legislação ordinária.1. Entendia-se que o fornecedor de produtos ou serviços limitava-se a fazer a .basta que se diga que somos hoje 170 milhões de consumidores no Brasil. depois da abertura política vem se colocando no primeiro. válida e legítima. 122] O que foi dito nesta parte serve para demonstrar o que poderia e deveria ser feito em todos os ramos do Direito. gerando diariamente outros tantos milhões de relações em todas as áreas do mercado de consumo: saúde. merecem destaque aquelas que procuram proteger o consumidor nos pontos em que é mais vulnerável: a sua integridade físico-psíquica e a sua integridade econômica. Essa lei. com relação a determinadas realidades sociais por ele ainda não adequadamente disciplinadas. vestuário. DIREITO DO CONSUMIDOR Não estaria completo este capítulo sem uma referência. estabeleceu uma política nacional de consumo. 59.CDC . é questão a ser examinada através de investigação profunda da realidade social determinante. Um líder sindical chegou à Presidência do País e está promovendo reformas constitucionais significativas. Para atingir a sua finalidade no que diz respeito ao primeiro ponto. necessária. no que tange ao segundo ponto.

Funda-se a responsabilidade do fornecedor na teoria do risco do empreendimento (ou empresarial). e o outro fraco. A Concepção Social do Contrato no Código do Consumidor Na sua visão clássica ou tradicional. colocando-se. Falava-se. Uma vez manifestada.a liberdade de um importava em opressão do outro. [p. para definir o conteúdo do contrato e ainda para escolher o parceiro contratual. Em face do desequilíbrio econômico das partes . assim. 12 e 14 do CDC. O CDC. nesse e em outros pontos. a autonomia da vontade deixa de ser o elemento nuclear do contrato. passando a ser substituída pelo interesse social. 59. A responsabilidade decorre do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. entre as melhores e mais avançadas legislações do mundo. consoante arts. poderoso. deu uma guinada de cento e oitenta graus ao transferir os riscos do consumo do consumidor para o fornecedor. científico e tecnológico veio demonstrar que o dogma da liberdade contratual não passava de uma ficção. A eficácia jurídica do contrato . o que só veio a ocorrer. Nas últimas décadas tomou-se necessário substituir a concepção clássica do contrato por uma concepção social. que pode ser assim resumida: todo aquele que se disponha a exercer alguma atividade no campo do fornecimento de bens e serviços tem o dever de responder pelos fatos e vícios resultantes do empreendimento. Tão forte é esse vínculo que se costuma dizer que o contrato é lei entre as partes. vale dizer. já que não há igualdade real entre os homens na sociedade. independentemente de culpa. responde pelos danos que causar ao consumidor independentemente de culpa. atendendo antiga exigência social. até. livre para contratar ou não contratar. de forma expressiva. o elemento nuclear do contrato é a autonomia da vontade.um forte. O indivíduo estaria. 123] Hoje a responsabilidade do fornecedor é objetiva.chamada “oferta inocente”. sendo tributados aos riscos do ato de consumir todos os acidentes de consumo. na aventura do consumo para indicar a situação daquele que se aventurava a consumir produto ou serviço. a vontade cria um vínculo entre os contratantes do qual nascem direitos e obrigações.2. estocar. A liberdade de contratar é o reflexo da filosofia do Estado Liberal que exigia uma separação quase absoluta entre o Estado e a sociedade. no Código do Consumidor. Por essa nova concepção. O progresso industrial. reconhecendo perfeita igualdade e absoluta liberdade entre as pessoas. distribuir e comercializar produtos ou serviços. sem oportunidade de escolha .

mas também vedando certas cláusulas. pode-se afirmar que o Código do Consumidor é a mais revolucionária lei do século XX. não tem mais mero papel interpretativo ou supletivo. 124] concepção social do contrato.51-53). Tem sido proclamado que ele representa uma verdadeira mudança na ação protetora do Direito Civil Brasileiro. protege determinados interesses sociais e serve de instrumento limitador da autonomia da vontade. devem ser lembrados os Capítulos V e VI do CDC que vedam a publicidade enganosa e abusiva (arts. reportamo-nos ao que ficou dito no item 47. não só controlando preços. dos seus efeitos sociais e das condições econômicas e sociais das partes que dele participam. fruto de um consciente e bem sucedido esforço do legislador para adequar a nossa legislação à realidade social no que diz respeito às relações de consumo. 39) e consideram nulas de pleno direito as cláusulas abusivas (arts. mas cogente. mas também. Como exemplo dessa nova postura da lei em face do contrato de consumo. . 30-38).2. O Estado passa a intervir na formação dos contratos de consumo. pois de uma visão liberal e individualista.não mais depende apenas da manifestação de vontade. Concluindo. proíbem as práticas comerciais abusivas (art. passamos a uma visão social. na [p. chegando ao ponto de obrigar a contratar em determinados casos. que valoriza as legítimas expectativas das pessoas nas relações de consumo. A autonomia da vontade só existe nas condições permitidas pela lei que. impondo o conteúdo de outras. Quanto aos efeitos positivos que essa lei vem produzindo. e principalmente.

nos capítulos anteriores. vamos agora nos dedicar ao exame do segundo item da classificação .eficácia e efeitos -. entretanto. quando teremos oportunidade de ver que não basta existirem leis boas e eficazes. o homem é insubstituível: entre elas as atividades de elaborar e de aplicar leis. estrutura da justiça especial. tão importante quanto ter leis eficazes. mas se as executam. o primeiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica . portanto. porque leis boas há em toda parte. caso contrário toda a ordem jurídica de uma sociedade pode ficar seriamente comprometida.estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições -. 127] . organização da justiça federal.” Pior do que não ter leis. [p. A máquina já substituiu o homem em inúmeras atividades. não indago se há leis boas. repetimos. compreender que. Cabe aqui relembrar o que dizia Montesquieu: “Quando vou a determinado país. É preciso também gente especializada e em número suficiente para aplicar a lei. O Poder Judiciário. Fácil é. é ter estrutura material e humana para aplicá-las.Capítulo XI INSTRUMENTOS HUMANOS DE REALIZAÇÃO DA ORDEM JURÍDICA O Poder Legislativo: eleição dos legisladores. Causas da crise do Judiciário brasileiro. Em certas atividades. A crise do Judiciário em nosso país. **** Após termos examinado. O papel desempenhado pela Justiça Eleitoral. bem como uma estrutura material adequada. aumentando infinitamente as possibilidades de produção. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. é tê-las e não aplicá-las. Estrutura do Judiciário brasileiro: a justiça estadual.

O Poder Legislativo Federal. PODER LEGISLATIVO O Poder Legislativo em nosso País divide-se em três esferas. Tais instituições. às quais a sociedade confere atribuições para elaborar e aplicar as leis. Legislar é editar o direito positivo. Entre as funções públicas. administrar é aplicar a lei de oficio. Desde que passou a prevalecer. mantida e modificada. ao passo que as funções administrativa e a judicial se prendem à sua realização. p. o princípio da separação dos poderes. 3) Municipal . Se para o [p. a função legislativa liga-se ao fenômeno de criação do direito. julgar é aplicar a lei contenciosamente (O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário. a de legislar é sem dúvida a mais importante. 60. elabora leis para todo o território brasileiro (leis federais). que em conjunto formam o Congresso Nacional. O Poder Legislativo Estadual só elabora leis para o âmbito territorial de cada Estado e. Por sua vez. Do bom funcionamento dessas instituições e da eficiência do pessoal que nelas atua dependerá a eficácia da ordem jurídica. são integradas por criaturas humanas. é óbvio. dois deles estão diretamente ligados à ordem jurídica: o Poder Legislativo. a saber: 1) Federal . inclusive os efeitos sociais positivos que toda norma tem por finalidade produzir. assegurada. mesmo assim. a Câmara Municipal de Vereadores fica restrita aos limites do seu Município e às matérias de sua competência. compondo os conflitos sociais. o pessoal técnico e especializado que nelas atua. sendo assim responsável pela declaração e modificação da ordem jurídica nacional. por maior razão é preciso que o . 128] exercício das mais simples funções é necessário ter a pessoa certa no lugar certo. com relação àquelas matérias que não são da competência privativa da União. cuja função principal é aplicar a lei ao caso concreto. porque dela emanarão leis a vigorar para todo o grupo social. 2) Estadual . que tem por função prevalente elaborar as leis.Câmara de Vereadores de cada Município. 718). De acordo com Seabra Fagundes.Por instrumentos humanos de realização da ordem jurídica devem ser entendidos aqueles órgãos ou instituições através dos quais a ordem jurídica de uma sociedade é declarada. 1979. e o Poder Judiciário.composto pela Câmara dos Deputados e Senado Federal (adotamos o sistema bicameral). através dos Deputados Federais e Senadores. nas sociedades democráticas.formado pela Assembléia Legislativa de cada Estado.

já que a função legislativa é exercida por delegação do povo. levantando-se as suas principais deficiências. É notório. a eleição direta não tem produzido os efeitos desejados. até distribuição de alimentos. apresentadas as soluções mais adequa. Como estas. muitas outras circunstâncias existem dificultando ou até mesmo impedindo que o processo seletivo dos legisladores proporcione um eficiente resultado. verdadeira. profunda. para a seguir serem elaboradas as reformas necessárias. Para tanto seria indispensável inicialmente uma pesquisa detalhada da realidade atual. as questões mais relevantes sobre este ponto consistem apenas em saber como evitar as distorções que têm ocorrido nas eleições diretas. É preciso uma reforma de base. como afirmou há algum tempo determinado político. àqueles que foram escolhidos como seus mandatários ou legítimos representantes. o voto vinculado a pequenas vantagens materiais. Não. 129] das à realização dos interesses coletivos. E nem poderia ser diferente. destinada exclusivamente a assegurar a vitória àqueles que já se encontram no poder. em áreas de grande pobreza: a máquina eleitoral reelegendo os mesmos parlamentares a cada nova legislatura. o poder econômico pesando em favor deste ou daquele candidato. visto estar consagrado em todas as sociedades democráticas o sistema da eleição direta para tal fim. financiando sua milionária campanha e comprando adesões. a manipulação da opinião pública pelos órgãos de comunicação nas grandes cidades. Com efeito. como tem sido feito às vésperas de cada nova eleição. entretanto.[p. ninguém mais desconhece que o processo de seleção dos membros do Legislativo está a exigir urgente aprimoramento. Fala-se muito na reforma política e ela é realmente necessária. séria. e não simplesmente pessoais. mas sim pelas distorções que se verificam na sua execução. que ainda temos currais eleitorais no interior. algumas . por exemplo. não porque o brasileiro não saiba votar. casuística. uma reforma parcial. Eleição dos Legisladores Hoje não mais se admite qualquer discussão sobre as vantagens de qualquer outro processo seletivo dos legisladores que não seja o da votação popular. a despeito de nada terem feito ao longo de muitos anos de vida pública. Lamentavelmente.legislador seja alguém preparado para o exercício dessa função e escolhido mediante criterioso processo seletivo. destinada a realmente aprimorar o sistema existente.1. de modo a tomar possível a escolha dos melhores. 60. a eleição conquistada em troca de facilidades. empreguismo e outros interesses econômicos. De tão velhas e conhecidas. Assim sendo.

o multipartidarismo e o federalismo agem descentralizando o sistema e incentivando comportamentos particulares. não há a mediação dos partidos políticos. tanto nos Governos anteriores como no atual. assim examina essa questão: “Prefiro interpretar as relações Executivo-Legislativo à luz dos incentivos institucionais das regras do sistema político brasileiro. todos os outros estão na Câmara Federal graças à legenda. Tomou-se pública e notória. se aproximam em demasia de suas bases eleitorais. para serem eleitos. Ele proporciona incentivos para comportamentos individuais e partidários. “Por causa dessas regras eleitorais. Ou seja. Por outro. o que faz com que o exercício do mandato seja voltado para atendimento destas demandas. não saíram do papel. os parlamentares. Entretanto. as regras internas do processo de decisão do Congresso e os poderes constitucionais de legislar e de distribuir recursos do presidente agem incentivando a centralização do sistema e o comportamento partidário. de um sistema para acompanhar as votações do Governo no Congresso. E a injustificável curiosidade dessa questão está em que o partido de oposição que condenava a troca-troca de partido com veemência. as regras eleitorais.[p. Assim. em busca de prestígio e favores políticos. a existência no Palácio do Planalto. Ou seja. Nas contas das últimas eleições. com as quais estabelecem compromissos localistas. Até que ponto é justa e ética a troca-troca de partido? O parlamentar se elege por um partido e depois. Por um lado. ao mesmo tempo.Quais as Condições para o Sucesso Presidencial na Área Legislativa? A Conexão Eleitoral Brasileira -. a fidelidade partidária. por exemplo. 130] cução destas demandas. vinculando a liberação de verbas e outros recursos de emendas orçamentárias individuais ao grau de fidelidade de cada parlamentar. normalmente integrante da base governista. lamentavelmente. apenas 28 deputados federais tiveram votação suficiente para se eleger sozinhos.questões constam da pauta de todas as propostas de reforma política. até confessada. É correto o parlamentar se sentir dono do mandato se para eleger-se precisou de votos da legenda do partido pelo qual concorreu às eleições? E não são poucos os que necessitam do voto de legenda. passa a incentivá-Ia e dele se beneficiar tão logo chega ao poder! Outra questão relevante é a cooptação de parlamentares pelo Executivo para garantir a maioria parlamentar no Congresso. de posição política diametralmente oposta ao daquele pelo qual se elegeu. Carlos Pereira. cientista político e autor da tese . mas que. é o Governo o responsável pela exe. bem como é ele que centraliza o processo decisório e a agenda do Congresso. negociar com o Congresso punindo ou . Assim. exerce o mandato por outro.

a atitude do Executivo. 02. conhecido tecnicamente como concentrados/dominantes. aprovados em convenção.premiando parlamentares segundo seu desempenho é decisão do governo proveniente dos incentivos institucionais das regras do jogo. cientista político e autor da obra E no Início Eram as Bases. de continuar jogando este jogo. Uma das soluções apontadas seria a adoção do voto distrital misto. sistema utilizado com sucesso em alguns países. por sua vez. na há voto nominal. que proporciona incentivos paradoxais simultâneos. mas dá ensejo ao afastamento das minorias e ao engrandecimento da figura dos caciques. não é nada mais do que o instrumento achado para mitigar as fragilidades de um sistema partidário fraco na arena eleitoral e fortalecê-Io dentro do Congresso. Pelo voto distrital misto os Estados são divididos em regiões e somente uma parte dos candidatos. sendo que a outra metade (ou fração estipulada em lei) é escolhida pelo sistema proporcional que. fez um profundo estudo do nosso sistema político. E a atitude do Legislativo.[p. Outro grupo seria o que ele chama de “a nossa variável nordestina do voto distrital”. Entre as vantagens desse sistema estaria também a de evitar distorções da representação popular que hoje ocorrem. Nelson de Carvalho. Qual seria esse redesenho das instituições políticas? Que sistema permitiria eliminar os inconvenientes e distorções inevitáveis no atual sistema político? Essa é a questão. vinculando o atendimento das demandas dos parlamentares aos seus comportamentos de voto. fortalece o partido. As listas podem ser fechadas ou abertas. de forma a ver cumprida a sua agenda de governo. apresenta um número de candidatos fixado em lei. No caso de lista aberta. também chamado de sistema de lista. o partido escolhe os candidatos que quer eleger e o eleitor vota no partido. então. . tem sido a única saída para a sobrevivência política dos parlamentares. como aquela do voto de Roraima valer sete vezes mais do que o de São Paulo. o partido não escolhe os candidatos que quer eleger. ou votação plurinominal.2000). em que cada partido apresenta aos eleitores sua lista de candidatos. no qual demonstrou que a nossa Câmara dos Deputados é divi. pode ser de votação uninominal (cada partido indica seu candidato para escolha do eleitorado). No primeiro caso. que dominam a votação em determinada área. 131] dida igualmente entre três tipos de políticos: os do primeiro grupo seriam os distritais puros. é eleita por votação majoritária.08. da Editora Revan. que fragmenta a votação pelo estado inteiro. é redesenhar as instituições políticas sem cair na vala comum do moralismo” (O Globo. geralmente a metade. O desafio. somente voto na legenda.” “Diante de um desenho institucional como este. sendo que o eleitor tem a opção de votar no partido ou na pessoa do candidato de sua preferência.

Os fragmentados/dominantes. Se cada um for maximizar o beneficio para o distrito. para o candidato da área metropolitana. e o primeiro recurso político deles é o encaminhamento das demandas das lideranças locais. onde os políticos locais não têm responsabilidade sobre as verbas.que. Os distritos de média magnitude diluiriam a interferência direta do cacique local” . e ao mesmo tempo contemplar o paroquialismo que já existe”. que elegem de 5 a 8 deputados. seria o político das áreas metropolitanas. “são os que têm 40 prefeitos espalhados. os caciques vão continuar dominando os partidos. não acontece o fenômeno da sub-representação de áreas importantes como as metropolitanas. como não domina essa área. Portugal e Grécia . voltado para temas. Os países citados por Carvalho usam o sistema de lista. eliminando a possibilidade dessa compra da representação inorgânica. e dá uma visibilidade maior ao representante.países que passaram por transições democráticas parecidas com a nossa . Com esse sistema. e não apenas um. adotam os chamados Distritos de Média Magnitude. “dá-se uma justa medida às diversas áreas. que vai pegando um votinho aqui outro ali e em várias áreas distintas”. Segundo o estudo. “o sistema distrital uninominal incentiva o paroquialismo. que concentra sua votação em municípios muito grandes e. Dentro do estado. Ele também vê vantagem nesse tipo de voto proporcional com distritos maiores “porque enxuga o número de partidos”. você projeta os interesses difusos da sociedade e provoca uma espiral de gastos. que predominam no Nordeste. o primeiro recurso eleitoral é a atuação legislativa. e acabariam com a adoção dos mega-distritos”. Nelson Carvalho propõe a adoção do sistema eleitoral utilizado na Espanha. Para Carvalho. 132] Conclui Nelson de Carvalho: “Mesmo se fizermos voto distrital com lista fechada. em vez de adotar o voto distrital misto. mas ele não tem definição sobre se o voto deve ser na lista ou diretamente no candidato. não pode reivindicar créditos por benefícios. para priorizar os partidos políticos em detrimento do voto pessoal.com motivação paroquial. a maneira como ele vota na Câmara. o interior do estado passa a atribuir justa representação a áreas que hoje viram colchas de retalho “atacadas por vários políticos que dispersam sua votação e não têm compromisso com nenhuma delas”. Com o distrital misto podemos ter aqui o pior dos dois mundos: dar à oligarquia partidária o domínio sobre a lista. como nos Estados Unidos. Esses são fruto de uma distorção do voto distrital à brasileira. O concentrado/não-dominante é o terceiro tipo. [p. Já o político do distrital puro prioriza os recursos orçamentários. Após essas ponderáveis reflexões.

por exemplo. enfim.2003) disse que a prestação de contas que o candidato faz dos gastos com a campanha eleitoral é uma palhaçada. Horas depois os resultados foram proclamados no Brasil todo. A reforma política só vai sair quando. sem questionamentos. compareceram ordeiramente às urnas em todo o país. Prossegue a Justiça Eleitoral nessa importante tarefa promovendo recadastramento dos eleitores e reivindicando debate mais profundo sobre a legislação eleitoral. não deve nada ao partido. “A legislação é quase risível.2. [p. mas a longo prazo só dá prejuízo. Obter novas adesões na base da aritmética pode ser importante momentaneamente. de civismo e cidadania. a informatização da apuração das eleições. praticam o clientelismo. mesmo nos lugares longínquos e de difícil acesso. os líderes dos maiores partidos se sentarem à mesa e concluírem que todos estão sendo prejudicados. o candidato vai à luta buscar quem banque sua campanha. A experiência demonstra que se não há financiamento público. a prestação não vale nada.A grande dificuldade em se aprovar uma reforma política está em que terá ela que ser votada pelos próprios parlamentares que trocam de partidos. assumindo compromissos políticos com os mais variados e questionáveis seguimentos sociais. votam motivados por favores políticos. A proporção estava acima de 70% da população. Ele pode ser candidato . a organização do pleito e outras medidas administrativas adotadas fizeram da nossa última eleição um modelo para o mundo todo. o que indicaria a existência de eleitores fantasmas. recadastrou os eleitores em 24 municípios nos quais constatou desproporção entre o número de eleitores e de habitantes. O voto eletrônico. não obstante as suas conhecidas deficiências. nem como prestar contas dos gastos com a campanha. O Papel Desempenhado Pela Justiça Eleitoral Justiça seja feita à Justiça Eleitoral Brasileira. principalmente o eleitorado. por aqueles que eventualmente serão por ela prejudicados. No dia do pleito milhões de brasileiros. em entrevista ao jornal O Globo (26. Dessa forma a Justiça Eleitoral Brasileira deu sua decisiva contribuição para o aprimoramento do sistema político vigente. O Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro. Uma vez eleito.12. Se o candidato é derrotado. não existe fidelidade partidária. 60. Foi um espetáculo democrático. E assim sendo. cultos ou não. sem fraude. Promove também debate sobre o financiamento público da campanha eleitoral. sem impugnações. Desembargador Marcus Faver. 133] O Presidente do Tribunal Regional Eleitoral no Rio de Janeiro. jovens e velhos. um belo dia. e conseguiram depositar o seu voto.

. Essa função. de invocar a prestação jurisdicional sempre que dela necessitar. A vítima.monopólio estatal. tornando-a exclusivamente sua . foi conferida ao Poder Judiciário. e assim por diante. após a separação dos poderes. 134] flitos sociais. terá que ser exerci da em favor de todos os que dela necessitarem (ricos ou pobres. Chegou o dia em que a sociedade. Hoje. pois caso contrário ficará a emenda pior do que o soneto. que se caracterizava mais como uma forma de vingança do que propriamente de justiça. Ainda hoje temos exemplos do que ocorre quando o particular resolve fazer justiça com as próprias mãos. Essa relevante função pública. Se as contas forem julgadas depois da diplomação (e não há tempo para que sejam julgadas antes). Era a justiça do olho por olho. o que. criava outros maiores. também não tem nenhum efeito. de aplicar a lei ao caso concreto para compor os conflitos sociais. PODER JUDICIÁRIO Houve tempo em que a justiça era privada e feita pelas próprias mãos. fazer justiça com as próprias mãos é uma forma de usurpação de função pública. O credor podia exigir. A partir daí só o Estado passou a ter o poder de fazer justiça. servindo como ilustração o conhecido caso de uma cidade nordestina. e em face dos inconvenientes da justiça privada. portanto. o que faz aplicando a lei ao caso concreto. compondo os con. 345 do Código Penal. por sua vez. tal forma de justiça. resolveu assumir essa função. caracteriza o direito de ação. a obrigação do devedor. no momento em que se tomar necessária (não alcançará os seus objetivos sociais se a ação da justiça vier tardiamente) e no lugar onde for necessária.” 61. constituindo a chamada função jurisdicional. podia infligir ao causador do dano mal idêntico ao produzido no ofendido. dente por dente. cultos ou ignorantes. A função prevalente do Poder Judiciário. fracos ou poderosos). após organizar-se política e juridicamente. pelos meios que bem entendesse. Obviamente. é distribuir justiça na sociedade. ou seu vingador.[p. Um verdadeiro faz-de-conta esse negócio de prestação de contas que não tem sentido objetivo.novamente mesmo com as contas rejeitadas. caracterizando o crime previsto no art. Cabe ao particular tão-somente o direito de pedir justiça. é necessário salientar. sem imparcialidade. onde durante algumas décadas duas famílias se destruíram mutuamente. gerando uma verdadeira reação em cadeia. prestada pelo particular interessado. longe de compor os conflitos sociais.

sede. postos. clínicas. postos de justiça. funcionários. Faltando essa estrutura necessária. . subdivide-se em quatro áreas específicas. Os interessados não poderão resolvê-los por suas próprias mãos. dedicada à função jurisdicional. As filas aumentando cada vez mais nas portas dos ambulatórios.que só trata das questões relacionadas com o direito eleitoral. tomando impossível a vida em coletividade e motivando o retomo à justiça privada. Para que o Judiciário possa exercer eficientemente a sua função . Com o correr do tempo os conflitos se agravam e aumentam. tal como as pessoas nas filas do INSS. se lhe faltarem os instrumentos materiais e humanos necessários. gente técnica e especializada. quando e onde for necessário . se assim podemos dizer. espalhados por todo o território nacional. Tal como uma grande empresa prestadora de serviços. e neles uma multidão de médicos. o Judiciário precisa de estrutura material e humana para desempenhar a sua tarefa. O que é preciso para que possa realizar isto? Uma infinidade de hospitais. que para realizar os seus objetivos necessita de instalações. por sua vez.. O Poder Judiciário Federal. agências. a saber: 1) Justiça Eleitoral . 135] 62.fazer justiça a quem precisar. gente técnica e especializada. enfermeiros. se a Justiça se omitir ou retardar no exercício de sua função. Tomemos para exemplo do que estamos querendo enfatizar o caso do INAMPS. serventuários etc. espalhados por todo o território nacional. Também ele terá que contar com instalações adequadas. mas quem tem o dever de exercê-la não o faz.. veremos o que estamos cansados de ver. o que toma em completo fracasso o objetivo a que se propõe a entidade. sob pena de se avolumarem os processos nas prateleiras.Com efeito. postos de saúde etc. [p. ESTRUTURA DO JUDICIÁRIO BRASILEIRO Em nosso País o Judiciário se divide em duas esferas: federal e estadual. que se propõe prestar assistência médica e hospitalar a todos os seus associados. tanto nas cidades como no interior. já que isto constitui uma função exclusivamente pública. pessoas esperando às vezes meses para poderem ser consultadas. o que será da sociedade? Os conflitos sociais continuarão ocorrendo porque existirão enquanto existir a sociedade. Coisa idêntica ocorrerá (e já está ocorrendo) com o Judiciário. tanto nas capitais como no interior.é indispensável que esteja devidamente estruturado e aparelhado. pessoal etc. e neles uma multidão de Juízes. empenhada na realização desse objetivo.

62. se um particular pretender exigir da União indenização por dano material ou moral decorrente de ato praticado pela administração federal. 136] ção até a sentença final. atuando em toda a formação do processo desde a primeira peti. deverá propor a ação expropriatória perante uma das varas da Justiça Federal.que é o poder de fazer justiça. da melhor .2) Justiça Trabalhista . aplicando a lei ao caso concreto. de modo a poder ela realizar. Por isso está em contato direto com as partes (autor. réu. Cabe ao Código de Organização Judiciária de cada Estado estabelecer a organização da sua justiça de primeira instância. bem como as demandas em que há interesse dos próprios Estados. Municípios e seus desmembramentos administrativos. deverá também apresentar sua postulação perante a mesma justiça. isto é. por um só julgador. Isso evidencia. assim. por exemplo. crimes etc. é a justiça de primeira instância que toma conhecimento e decide em primeiro lugar as causas que são levadas à apreciação do Judiciário. está ela organizada em todo o território do Estado. desde logo. a primeira e a segunda instâncias no Judiciário de cada Estado. Assim. ré ou simples interessada. As decisões da primeira instância são prolatadas por Juiz singular. tanto nas cidades do interior como na capital. 4) Justiça Federal . para que possa estar ao alcance de todos.à qual competem todas as causas em que houver interesse da União ou de seus desmembramentos administrativos (autarquias e empresas públicas) como autora.1. enfim. sucessões. Todas as demandas envolvendo conflitos de interesse entre particulares (questões de família. De regra. que a grande sobrecarga de trabalho repousa sobre o Judiciário Estadual.[p. Temos. contratos. À Justiça Estadual compete o restante das questões que podem ser levadas a juízo.que cuida dos problemas envolvendo empregador e empregado.cuja competência é julgar os crimes previstos no Código Penal Militar. testemunhas. serão da competência da justiça estadual. advogados). se a União resolver desapropriar um determinado imóvel. Estrutura da Justiça Estadual Há duas instâncias na Justiça Estadual: instância é hierarquia ou grau de jurisdição . 3) Justiça Militar . Para não ser muito oneroso e difícil às partes o acesso a essa justiça.).

para onde são encaminhados os processos sempre que houver recurso de qualquer decisão da primeira instância. em segundo grau. três julgadores. as atividades empresariais etc. pois trata-se. as suas finalidades. [p. que é o Juízo ou Vara. aumentando a sua população. congestionada e deficiente a prestação jurisdicional. podemos dizer que todo o território do Estado é dividido em várias áreas denominadas Comarcas. Apreciado o recurso. tal como ocorre com os Municípios. serventuários etc. o que poderia acarretar um congestionamento de processos e sobrecarga do serviço nos Tribunais de Justiça. limitando-se à apreciação daquilo que já se encontra no processo. Alguns Estados. por isso que realizada através dos Tribunais de Justiça dos Estados. Em linhas gerais. dizer que as suas principais características são as seguintes: 1) toma conhecimento das causas em segundo lugar. toma-se necessária a criação de novos juízos (uma ou mais varas).forma possível. divididos em várias câmaras. Em cada Foro temos pelo menos um órgão investido da função jurisdicional. e em cada Vara um juiz. de uma atividade revisora. possuem também outro Tribunal (ou Tribunais) chamado de Alçada. econômica e socialmente. 2) não está em contato direto com as partes. 137] O número de desembargadores é muito menor que o de juizes de primeira instância. visto que as decisões são ali prolatadas por. Assim. 3) só existe nas capitais dos Estados.. sob pena de tornar-se lenta. o escrivão. De modo geral pode-se . para evitar esse inconveniente. cujos membros são chamados Desembargadores. Tal como os Tribunais de Justiça. organizam-se à sua imagem e semelhança. demorada. cada Estado tem o seu Tribunal de Justiça. o processo é devolvido à Vara de origem. À medida que a Comarca vai se desenvolvendo política. podendo-se. de regra. onde a sentença será executada. tantas quantas forem necessárias para atender à demanda dos novos conflitos sociais. pelo menos. como a primeira instância. tendo a competência estabelecida pela lei. Em cada Comarca temos uma sede do Judiciário Estadual que vem a ser o Foro. os Tribunais de Alçada são integrantes da Justiça de segunda instância. Cabe também a cada Estado organizar a sua Justiça de segunda instância. muito embora nem sempre exista correspondência entre suas áreas geográficas. todavia. 4) é uma justiça colegiada. e conseqüentemente aumentando o serviço da justiça.

099. Pernambuco) e em . O sucesso dessa idéia. em segundo grau. exclusivamente ao Juiz Togado a competência para proferir a sentença caso não haja o acordo. Rio de Janeiro. reunidos na sede do juizado. nem para o Tribunal de Justiça. evitando que elas se misturem e caiam na vala comum das demais causas. orientado pelos critérios da oralidade. é aliviar a carga de recursos daqueles Tribunais. criados pela Constituição de 1988 em substituição ao antigo Tribunal Federal de Recursos. simplicidade e celeridade. Previstos para desafogar a justiça comum.dizer que julgam. atribuindo. das sentenças proferidas pelos juizados especiais. como se vê. Outra peculiaridade dos Juizados Especiais é a desnecessidade de advogado nas causas cujo valor não exceda a vinte salários mínimos. esses juizados julgam causas de menor complexidade (causas cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário mínimo etc. em exercício no primeiro grau de jurisdição. Os Juizados Especiais são uma feliz idéia no sentido de dar celeridade às causas de menor complexidade. serventuários etc. entretanto. apenas para a turma recursal do próprio juizado. todavia. [p. Da sentença cabe recurso para uma turma recursal composta por três juizes togados. as causas de menor relevância. depende da capacidade administrativa e econômica dos Estados para darem cumprimento à lei. Organização da Justiça Federal Há também na Justiça Federal duas instâncias. com as mesmas características da Justiça Estadual. deixando-os com mais tempo para apreciar os recursos de maior complexidade. A primeira instância federal existe de regra nas capitais dos Estados. Esses Tribunais.09.2. só se tomando obrigatória a sua participação se houver recursos. Vale dizer que. cuja criação foi determinada pela Lei n° 9. 138] 62. sediados nos principais Estados (São Paulo. a segunda é exerci da pelos Tribunais Regionais Federais. e nas grandes cidades do interior.1995. em substituição aos Juizados de Pequenas Causas. juizes. de 26. pois necessitarão de estrutura material e humana para isso (instalações. ficando as demais para o Tribunal de Justiça.).) e infrações penais de menor potencial ofensivo (contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a um ano). através de processo sumaríssimo. Essa lei prevê a participação de conciliadores e Juízes leigos como auxiliares da justiça na fase da conciliação. O objetivo. Temos ainda nos Estatutos os Juizados Especiais Cíveis e Criminais. não cabe recurso nem para o Tribunal de Alçada.

integrado por 27 ministros. e os seus membros são chamados de Ministros.4. 62. a segunda instância são os Tribunais Regionais Eleitorais . e através . a cúpula do regime. poderá ser reexaminada pelo STJ. Trata-se de uma justiça cujas decisões são prolatadas por um colegiado. o órgão máximo da Justiça. integrado por 15 ministros. com sede em Brasília. Qualquer decisão dos Tribunais Estaduais ou Fe. previstas na Constituição.STM. para onde vão os processos em hipóteses especiais. a sua primeira instância é dividida em zonas distribuídas por todo o Território Nacional. da Aeronáutica e da Marinha. Esse Tribunal tem sede em Brasília. através do recurso especial. a quem compete zelar pela supremacia das leis federais e promover a uniformização da sua interpretação. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal A Constituição de 1988. um na capital de cada Estado. criou o Superior Tribunal de Justiça.TREs.[p.TSE. abaixo do qual se encontram todos os Tribunais Superiores. tornando mais célere a justiça. e é integrada pelas Auditorias do Exército. A segunda instância. com sede na capital da República. Quanto à Justiça Eleitoral. 139] derais. sobrepõe-se a todo o aparelho judicial. com sede em Brasília. geralmente nas capitais. A segunda instância é constituída pelos Tribunais Regionais do Trabalho . julgam os recursos oriundos da primeira instância da respectiva região.TRTs. É o mais elevado Tribunal do Poder Judiciário no Brasil. Em hipóteses especiais. Há nessa justiça uma terceira instância. A Justiça Trabalhista tem a sua primeira instância distribuída pelas principais cidades do Brasil. 62. embora sendo um órgão federal. com o propósito de aliviar a sobrecarga do Supremo Tribunal Federal. notadamente aquelas onde há maior concentração de trabalhadores. em que houver violação de lei federal. é constituída pelo Superior Tribunal Militar . os Tribunais de Justiça e de Alçada dos Estados e os Tribunais Regionais Federais e do Trabalho.3. as causas envolvendo essa matéria são decididas pela Justiça Estadual. Estrutura da Justiça Especial A primeira instância da Justiça Militar só existe nas cidades onde há grupamento militar. Nas cidades onde não há justiça trabalhista. e a terceira instância é o Tribunal Superior Eleitoral. O Supremo Tribunal Federal. o Tribunal Superior do Trabalho. como o próprio nome diz.Brasília.

mutuários e contribuintes. a prestação jurisdicional se toma inócua e causa graves prejuízos aos jurisdicionados. ineficiente e cara. demagógica. O estado brasileiro. Em abril de 1977. além de grande criador de conflitos. burocrática. pode o Supremo reexaminar decisões de qualquer justiça (estadual. emperrada.5. prevalecendo a sua decisão como palavra final e imutável. o pretexto utilizado foi a reforma do Judiciário. 62. os processos se prolongam por anos e anos a fio. é um mau pagador. como a criação de senadores biônicos e outras aberrações constitucionais. Quanto ao segundo item. mesmo depois de condenada. no que exerce uma função eminentemente política. Aquela reforma. Em defesa. E. Tem ainda por função atuar como moderador dos demais poderes. há excesso de recursos processuais e falta de recursos financeiros. A Crise no Judiciário em Nosso País Há mais de trinta anos ouvimos as mesmas críticas ao Judiciário: a justiça é lenta. Isso evidencia que a mera modificação de alguns pontos da Constituição não basta para resolver a crise do Judiciário. declarando a inconstitucionalidade das leis sempre que violarem princípios consagrados na Carta Magna. é o Supremo o guardião da Constituição Federal. seria conveniente lembrar que outras reformas do Judiciário já foram feitas sem qualquer resultado prático. 140] No que diz respeito à lentidão da justiça. recorre abusivamente. o fiel da balança. Por sua vez. estão desatualizadas. Na realidade. teve objetivos políticos. a Administração não os reconhece. federal ou especial). é forçoso reconhecer que não cabe ao Judiciário a culpa exclusiva. quase se eternizam. milhares e milhares de ações são detonadas na Justiça. em todos os seus níveis. cada nova reforma implantada no país leva outros tantos milhares de pessoas ao Judiciário. . feita sob o mais rigoroso sigilo pelos donos da verdade da época. pensionistas. foi puramente teórica. nunca passou do papel. A cada novo e mirabolante plano econômico baixado pelo governo. [p. Em que medida cabe ao Judiciário a culpa pela morosidade da justiça? Até que ponto a propalada reforma resolverá o problema do Judiciário? Essa é a questão nodal. obrigando os titulares desses direitos a buscá-los na justiça. os membros do Judiciário culpam o Executivo e o Legislativo: as leis processuais são mal elaboradas. quando o Congresso foi fechado pela última vez. Integrado por 11 ministros. Embora tenha plena consciência dos direitos dos aposentados. com controle externo e outras inovações. o Executivo e o Legislativo pregam a urgente necessidade de uma reforma do Judiciário.do recurso extraordinário. e em alguns pontos tomou a justiça pior.

depois de esperar dois ou três anos pela sentença que lhe concede a justa devolução. ele é também mau pagador. Só que os precatórios também não são pagos. Mesmo depois de vencido em milhares de ações. Os precatórios expedidos até 10 de julho de cada ano deverão ser incluídos no orçamento do ano seguinte e pagos na ordem de apresentação. em 13 de setembro de 2000. Como já salientado.) cerca de 4. principalmente na primeira instância. Mas não para aí a contribuição do estado brasileiro à morosidade da justiça. terá ainda que aguardar por mais dez anos o integral cumprimento dessa decisão.5 bilhões de reais.recursos materiais. e o segundo 520 milhões. centenas de milhares de recursos repetitivos que abarrotam o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal. Com efeito. As causas operacionais estão relacionadas com a infra-estrutura necessária ao bom funcionamento da justiça . funcionais e estruturais. que nada mais são do que requisições de pagamento em dinheiro de débitos judiciais expedidas pelo Poder Judiciário ao Poder Executivo. Pior que tudo. a execução do estado tem que ser feita por meio de precatórios. vítimas de acidentes etc. Em agosto de 2000. O primeiro devia aos credores judiciais (pensionistas. 141] 63. Esse tempo de espera será fatalmente debitado à morosidade da justiça. milhões de ações em andamento na justiça com idêntica finalidade. para que a justiça de primeira instância possa funcionar adequadamente. é necessário que em cada Comarca se criem tantas Varas ou Juízos quantos forem necessários para atender ao aumento do número de demandas decorrentes do desenvolvimento econômico. o contribuinte que entre na Justiça para reclamar a devolução de um tributo que lhe foi cobrado indevidamente. São Paulo e Rio de Janeiro não pagavam os precatórios desde 1996. Estados e Municípios em até dez anos. servidores.Prova disso são as filas intermináveis de aposentados e pensionistas do INSS pleiteando a revisão dos seus minguados benefícios nos Juizados Especiais Federais (o que poderia e deveria ser resolvido na esfera administrativa). o Congresso Nacional aprovou a emenda constitucional nº 30 autorizando o parcelamento das dívidas judiciais da União. humanos e financeiros notoriamente deficientes. A quem interessa a lentidão da justiça? [p. Vale dizer. não cumpre as decisões judiciais. . O calote dos precatórios é uma regra em quase todos os estados. Causas da Crise do Judiciário Brasileiro Diagnóstico baseado na prática e na observação permite-nos adiantar que três são as principais causas da crise do Judiciário: operacionais. Como os bens públicos não podem ser penhorados para pagar a condenação.

padronizar métodos e procedimentos. só naquela vara. um juiz para cerca de 30. cada vez maior. por sua vez. escrivães. secretarias.) e gente para realizar o serviço da justiça (juiz. Enquanto na Alemanha tem-se um juiz para cerca de 4. o crescimento do movimento forense é vegetativo. das relações dentro da sociedade. todavia. tome-se por termo etc. na maioria dos Estados. O que acontecerá se não houver infra-estrutura para que todos os despachos do juiz sejam cumpridos com eficiência e rapidez? Nada. serventuários. É preciso investir em instalações de novos órgãos julgadores. o que significa que havia mais de mil processos parados. se contarmos os cargos de juiz que estão vagos. treinar e avaliar periodicamente os serventuários. a distância se tornará cada vez maior entre a justiça e os seus objetivos sociais. em virtude da omissão de um oficial de justiça ou de excesso de serviço. o número de aprovados no concurso fica aquém das vagas em razão da deficiência do ensino jurídico. em pleno desenvolvimento econômico e ingressando na sociedade de consumo. constatado encontrar-se em poder de um só oficial de justiça mais de mil mandados pendentes de cumprimento. em nosso entender. gabinetes etc. a menos que estejamos dispostos a aparelhar o Judiciário para enfrentar essa realidade. . oficiais de justiça etc. é preciso ter instalações adequadas (cartório. Isso. no sentido de que só acompanha a complexidade.) em número suficiente. com graves prejuízos para as partes. certa feita. de alto índice de crescimento demográfico. Diariamente um juiz despacha dezenas e até centenas de processos. melhor aproveitar os recursos humanos e materiais disponíveis. informatizar toda a justiça. controlar a qualidade e a produtividade dos magistrados. 142] Aqui não há propriamente um crescimento forense. defensores. O processo ficará parado por meses e anos a fio. não é o que ocorre em nações como a nossa. de população estável e de economia já desenvolvida. no Brasil temos. oficie-se. em cada um determinando uma série de providências ou diligências a serem cumpridas .000 habitantes. Recordo-me de ter. adotar métodos modernos e eficientes de gerenciamento e administração. sob pena de o serviço ficar acumulado e os processos paralisados. Em cada Vara. enfim. modernizar equipamentos. cite-se. Em países como a Itália e a França. E não se consegue preencher os cargos vagos porque. mas uma verdadeira explosão judiciária deflagrada por essas três condições que dão hoje a fisionomia de nosso País e. mas sim gestão. aguardando o cumprimento da determinação judicial. a solução para a maioria dos problemas que emperraram a máquina judiciária em primeiro e segundo graus nos estados e na esfera federal. prenda-se. promotores. [p. aumentar o número de juízes.intime-se. Aí está.político e social do lugar. salas de audiência. Pelo ângulo operacional temos como certo que a maior necessidade do Judiciário não é a propalada reforma.000 habitantes.

Não obstante o expressivo aumento de recursos a cada ano. como já registrado.91 %).584.415 ações e julgadas 340. cíveis.914 e foram julgados 50.782 e foram julgadas 265.958 (105. informatizar toda a justiça. Na justiça comum .A Justiça do Estado do Rio de Janeiro há alguns anos vem seguindo esse caminho e já obteve resultados surpreendentes.[p. enquanto na justiça fluminense essa distribuição é em tempo real e não há processos represados.25%). de família etc.76%). e tiram a relevância da sentença ali prolatada. Dos 83. no tempo médio de 203 dias. de sorte que o acompanhamento de todo e qualquer processo. Essa reforma . num tempo médio de 143 dias entre a autuação e o julgamento. os resultados são também surpreendentes.66%).163 (89. Temos hoje praticamente quatro instâncias. 143] rando há quatro ou mais anos distribuição. como mostram os números que seguem.700. em 2003 o número de 419. em 2001 o número de processos recebidos subiu para 67. . o Tribunal melhorou o seu desempenho.em 2002 foram ajuizadas 346. o que permitiu.721. novo aumento . e destas foram julgadas 223. instalar centenas de novas varas e juizados especiais por todo o Estado.71 %).285 processos autuados no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no ano de 2003 (recursos e processos originários). Estes resultados são ainda mais expressivos quando se tem notícia de que nos Tribunais paulistas existem cerca de 500 mil processos espe. pode ser feito pela internet de qualquer parte do país.498 (100. No que diz respeito à produtividade. 100.389 (95. No primeiro grau os resultados da justiça fluminense são também satisfatórios.processos recebidos 74. mediante administração séria e competente dos recursos assim obtidos. Criou um Fundo Especial destinado a cobrir as despesas operacionais e de investimentos do Judiciário.348 ações nos juizados especiais civis.715 (97. No ano de 2002 entraram (tombados) 252. o que toma o tempo dos processos nos tribunais muito superior ao tempo de andamento em primeiro grau.250 e foram julgados 65.501 (87. Em 1999 foram recebidos 51. em 2003.424 processos e julgados 46. construir dezenas de novos foros e recuperar outros tantos. em 2000 o número de processos aumentou para 57.551 e julgados 78. mas foram julgadas apenas 313. cuja reforma é realmente imprescindível para viabilizar o funcionamento do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça.varas criminais. foram recebidos 83. No ano de 2003 o número de ações distribuídas (tombadas) subiu para 296.285 processos e julgados 83. em curso na mais distante comarca ou no tribunal. isto é.492. no primeiro e no segundo grau. em 2002. no tempo médio de 172 dias entre a autuação e a sentença. As causas funcionais dizem respeito ao deficiente sistema recursal brasileiro. foram julgados 83.19%).25%.498.

pelo excesso de litigiosidade recursal. que. 82.38. desnecessárias. hoje. o percentual de acórdãos repetitivos foi de 61. pelo menos até o mês em que se limitou a pesquisa. para impedir que enxurrada de ações banais continuem abarrotando os Tribunais. 144] A argüição de relevância. deve incluir a súmula vinculante para as decisões dos Tribunais Superiores e a argüição de relevância.90%. extemada quando Presidente do Supremo Tribunal Federal (O Globo 29.2000). enorme resistência à adoção da súmula vinculante ao argumento de que ela atentaria contra a liberdade de julgar do juiz. isso não é racional e não ocorreria se as súmulas tivessem efeito vinculante.54%. virtualmente inviabiliza o Supremo Tribunal Federal e . A pesquisa revela. o Ministro Celso de Mello. Ora.como efetivamente ocorre .49. por sua vez. em 1992. em 1991. Pesquisa realizada no final de 1995 revela dados inquietantes: no período de outubro de 1988 a março de 1995. em junho de 1997. [p. muitas vezes agindo como improbus litigator. sem prejuízo da adoção de outras soluções processuais. na opinião do Ministro Carlos Mário Velloso. responsáveis. propõe a edição de súmulas administrativas vinculantes. em 1993. Isso evitaria liminares. sentenças contraditórias entre juízes. que: em 1988. No ano de 1995. 71. todavia. 68.processual. sua Excelência assim colocou a questão. repetição interminável de ações em tomo de matérias já julgadas e recursos protelatórios. serviria de filtro para evitar que questões irrelevantes cheguem aos tribunais superiores. useiro e vezeiro em postergar o cumprimento de decisões judiciais. aos quais ficaria reservado o julgamento de matérias de alta indagação jurídica e de grande interesse social. cumpre aplicar as disposições da Lei Complementar nº 73/93. em 1995.88%. 88. ademais. até o mês de março. ainda.90%. Para por um paradeiro às procrastinações do Poder Público. em grande parte.15%.08. que. em 1994. 50. Há.83%.40%. inteiramente aplicáveis à União Federal e às suas autarquias (inclusive ao INSS).32% dos acórdãos proferidos pelo STF foram repetitivos. de outubro a dezembro. se a causa real do congestionamento do aparelho judiciário reside . “Devo observar. opondo resistência estatal injustificada e arbitrária a pretensões legítimas deduzidas por cidadãos de boa-fé. ainda na visão do ex-presidente do Supremo. portanto. Em conferência proferida na abertura do Fórum Nacional de Debates do Poder Judiciário. A súmula vinculante obrigaria a justiça de primeiro grau a aplicar a jurisprudência do tribunal superior sobre determinadas questões. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal.36. como autorizado pela Lei Complementar n° 73/93.41%. em 1990. em 1989.na atuação processual compulsiva do Poder Público. o STF praticamente limitou-se a repetir decisões já proferidas.

Esse tipo de controle. 28. ad infinitum. A criação de um órgão controlador do Poder Judiciário levaria.o Superior Tribunal de Justiça.03.09. permitindo. defende uma reforma ampla. Esse órgão. assessorado por técnicos de várias áreas. O Ministro Sepúlveda Pertence. à criação de um outro órgão para controlar o controlador. talvez a curto prazo.com sentenças judiciais. seria um centro de debates destinado a pensar e repensar continuamente o Judiciário. por sentença do Juiz Teodoro Sampaio. controlaria o bom funcionamento da atividade judicial. aproveitaria as experiências bem sucedidas de outros lugares. órgão nacional de planejamento e controle do Judiciário. o que constitui um atentado ao princípio da autonomia dos poderes e. condenado por formação de quadrilha e invasão de propriedade. a aplicação desse instrumento legal certamente refletir-se-á. tributário ou previdenciário. 145] Não estamos falando de um órgão de Controle Externo do Judiciário. líder do Movimento dos Sem Terra (MST).nepotismo. como se apregoa com tanta veemência. Ora. na ocasião criticou duramente o juiz e disse que suas sentenças reforçam a necessidade de controle externo do Judiciário (O Globo. Sim. porque o que se pretende com tal órgão. viajando num jatinho da Força Aérea Brasileira (FAB). estaria a requerer a existência de órgão que lhe fosse superior. enfim.2003). . admite que o Judiciário tem deficiências. não. e assim por diante. que também visitou Rainha na prisão.1999). ao menos enquanto se pretender que vivamos num Estado de Direito Democrático” (O Globo. disfarçadamente. visitou na prisão José Rainha. obras irregulares e gastos . nas questões objeto da jurisprudência iterativa dos tribunais uma vez editada a súmula administrativa vinculante . dotado de estrutura leve. deplora iniciativas que pretendem misturar questões de administração . mas investigar sentença. em nada contribuirá para o aprimoramento do Judiciário. desse modo. [p. até mesmo na própria instância administrativa. Presidente da Câmara dos Deputados. “Isso é absolutamente inadmissível. traçaria as políticas administrativa e financeira do Judiciário. por via de conseqüência. pois. porque na medida em que o órgão controlador se desviasse de suas finalidades.” Entre as causas estruturais podemos apontar a falta de um Conselho Nacional de Administração da Justiça. de maneira positiva. em matéria de caráter administrativo. além de condenável. O disfarce caiu quando o deputado João Paulo Cunha.a União Federal e as suas autarquias não mais insistirão em teses jurídicas rejeitadas pelo STF ou pelo STJ. 13. é controlar as decisões judiciais. O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. desde logo. eficiente e com funcionamento permanente. que pretensões legitimamente manifestadas pela parte privada sejam atendidas. ao próprio Estado Democrático de Direito. ex-presidente do STF. na solução dos problemas gerados pelo congestionamento do aparelho judiciário. formularia alternativas administrativas.

se fundam no tripé integrados por sua consagração legislativa. Rev. [p. cit. a volta à justiça privada. crise. as deficiências infraestruturais do Judiciário fatalmente continuarão acarretando o retardamento dos julgamentos. na medida em que sua debilidade e dependência não lhes permitem desempenhar eficazmente a função delimitadora que requer a consolidação do espaço democrático. muitas vezes. a sua descaracterização institucional. dos Tribunais. 29 e 34). 21. criar-se um órgão que. provocando. e a busca de outros meios para se conseguir justiça. e o grau de incapacidade para elas mesmas estará assinalando o cumprimento de funções latentes alijadas daquelas. faz algumas colocações que merecem ser transcritas no encerramento deste capítulo: “Qualquer instituição deve cumprir determinadas funções e sua estrutura otimizada dependerá da clara atribuição prévia dessas funções. um dos maiores nomes do Direito Penal na América Latina. as estruturas judiciárias latino-americanas são inadequadas para assumirem as demandas de uma democracia moderna. de qualquer natureza. O insigne jurista Eugênio Raul Zaffaroni. sobre os conflitos que comprometem direitos e sobre suas soluções e meios de preservá-las. Temos elaborado complexas teorias. portanto. Na medida em que se amplia a distância entre a função latente ou real e as demandas sociais. 146] A relação entre a estrutura institucional e as funções (manifestas e latentes) é indissolúvel: a estrutura indicará a sua capacidade de desempenho das funções manifestas. a realização tardia dos objetivos da justiça ou até mesmo a sua ineficiência. a ele se sobreponha? De que natureza seria esse órgão? Ou será mais um poder da República? São pontos a refletir e que evidenciam. Enquanto não forem feitas as reformas necessárias. mas existe uma notória disparidade entre este nível teórico e aquele que trata das instituições destinadas a efetivar essas soluções. freqüentemente de alto nível. Ed.. pp. Quando o que lhe é cometido não seja bem definido. Em síntese. a estrutura otimizada de uma instituição será sempre a que a capacite para melhor desempenho do que a ela será cometido. quer dizer. acertos e desacertos. senão a desnecessidade do órgão controlador. sem ter prerrogativas do Judiciário. em notável trabalho sobre o Poder Judiciário. feita pelas próprias mãos. 22.Como. [p. 147] . aumenta o perigo para todo o sistema democrático” (ob. pela previsão dos meios para reclamá-los e pela estruturação do setor estatal que tome efetivas as reclamações. Os direitos. ainda menos definidos serão seus modelos estruturais. o desprestígio e a perda de confiança no Judiciário por parte da coletividade.

Aprimoramento do nosso sistema. constante dos anais do Primo Congresso Internazionale [p. para o exercício de uma função pública assim tão relevante. o problema do pessoal condiciona os demais. uma lei boa de nada serve. 1959. “Com um juiz mau e injusto.” . Perfil da magistratura brasileira. até com um pouco de poesia. e na próxima examinaremos as razões sociais das garantias constitucionais dos magistrados. 65. Alcino Salazar: “A justiça vale o que valem os juízes. tomo I. há ainda duas questões importantes a serem abordadas. principalmente quando está em jogo a vida ou a liberdade de um ser humano. pois na magistratura. Além de conhecedor do direito.Capítulo XII SISTEMAS DE ESCOLHA DOS MAGISTRADOS Sistema eletivo. Acreditamos já ter ficado demonstrada a importância da função desempenhada pelo juiz: decidir as causas que são levadas à sua apreciação. Expressa ainda a relevância do tema o pensamento do Magistrado François Gorphe.Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica -. 149] dei Magistrati. porque ele a verga e a toma injusta a seu modo”. Sistema da nomeação. Nesta parte trataremos dos sistemas de escolha dos magistrados. **** Dentro do tema examinado no capítulo anterior . O sistema utilizado no Brasil. “Mais vale um juiz bom e prudente do que uma boa lei”. tanto no aspecto técnico como no moral. citado pelo Prof. Sistema do concurso público. deve o juiz ser detentor de um caráter impoluto e de uma personalidade ajustável à função. Julgar. é preciso alguém altamente qualificado. diz o Código Geral da Suécia de 1734. mais que em outras instituições. Evidentemente. como tem sido dito. Milão. dar a palavra final nos conflitos de interesse. é quase uma função divina. fazendo valer o direito aplicável ao caso. p.

SISTEMA ELETIVO Dentre os vários sistemas existentes e adotados por diferentes países para a seleção dos seus magistrados. a independência e a dignidade da magistratura. O sistema de eleição para a Magistratura está em pleno desuso no mundo inteiro. já que de uma boa seleção dependerão grandemente a eficiência. não tanto pelo seu conteúdo específico. [p. há três que procuraremos destacar: o da eleição. rápido e pouco oneroso para os cofres públicos. E não são mais todos os 50 estados da Federação a adotarem o sistema de eleições diretas. 64. lá existem quatro tipos de escolhas de juízes estaduais: a) nomeação pelo chefe do Executivo com prévia aprovação no Legislativo. p. Surge então a questão: como escolher o magistrado? Qual o critério seletivo mais eficiente? Qualquer empresa de certo porte conhece a importância de se ter a pessoa certa no lugar certo e por isso gasta tempo e dinheiro na seleção e treinamento do seu pessoal. tal como os seus govemantes e legisladores. 1970. já não o fazem mais e têm-se aproximado dos estados da União Européia. a norma jurídica tomar-se-á boa ou má. no exercício do soberano direito do voto. Se até mesmo para o exercício das funções mais simples é indispensável ter certas qualificações profissionais e morais. Democrático porque é o próprio povo. b) nomeação pelo . Costuma-se apresentar como sua principal vantagem o fato de ser democrático. Lições de Direito Constitucional. que escolhe os seus juízes. recaindo a escolha sobre aqueles que mereceram a preferência popular. Rápido porque em um mesmo dia podem ser eleitos todos os juízes de um estado ou mesmo do país. Pouco oneroso porque as despesas com uma campanha eleitoral correm normalmente por conta do candidato ou do seu partido. que o adotavam. tal como os membros do Legislativo. elogiável ou iníqua. sob pena de se instituir o absurdo. 150] Nos Estados Unidos. em busca de orientação sobre critérios de seleção e formação de magistrados. Os países da antiga cortina de ferro. Na verdade. o da nomeação e o do concurso público. a Justiça Federal não adota o sistema eleitoral para escolha de seus juízes. produtiva ou prejudicial. o que seria a função de julgar exerci da por alguém que não conheça o direito ou que não tenha os inerentes requisitos morais? Daí a importância sociológica da questão ora em exame.Em verdade. porém antes e acima de tudo pela própria interpretação que o magistrado lhe imprimir (Rosah Russomano. 302). sobretudo da França e Portugal. Pelo sistema eletivo os magistrados são escolhidos através de votação direta.

e com isto desagrada muitas vezes os ricos e poderosos. referindo-se aos juízes eleitos. Além disso. podendo ser reconduzidos ou reeleitos para o mesmo posto. acreditamos que a eleição dos magistrados apresentaria graves inconvenientes. O juiz não pode procurar agradar a ninguém com suas decisões. Como bem argumenta Emílio Rabosa: “Nos postos de caráter político. Max Weber também recorda o baixíssimo nível técnico desses juízes e o maior prestígio dos juízes federais. ou teriam recursos para custeá-la. Aponta-se como vantagem do sistema de nomeação o fato de ser rápido e . 65. 1980. mas no cargo de juiz. independência. ou encontrariam apoio particular à sua candidatura. Isso no Judiciário seria o caos. sem falar nos compromissos que terá que assumir com pessoas e grupos para conseguir eleger-se. conforme já assinalado quando tratamos da escolha dos membros do Legislativo. diz o seguinte: “No século XIX e no começo do XX os partidos americanos tomaram freqüentemente a forma de máquinas manipuladas por políticos desonestos que tratavam de assegurar a impunidade mediante a simultânea eleição do juiz. sempre que tiver que decidir questões relevantes e de repercussão social. os melhores nem sempre estariam dispostos a enfrentar os percalços de uma campanha eleitoral. que são os que se conferem por eleições. p. Duverger. nem sempre se elegem os melhores. a lealdade ao partido é uma virtude. perdendo a imparcialidade e a segurança necessárias ao julgador. tomando-se impopular. Deve-se ainda levar em conta que a função de julgar é muito diferente da função política. d) eleição popular. Exige imparcialidade. 203). estará sujeito a todo tipo de pressões do seu eleitorado ou em nome dele. Deve dar ganho de causa a quem tiver direito. Paris. é um vício degradante. Não há promoções ou remoções. c) eleição indireta pelo Legislativo. Mas se o juiz necessitar de votos para se eleger ou reeleger-se. ali ficam até o final de seu mandato (que é variável). é constantemente divulgado pela imprensa. em razão das graves distorções que ocorrem na execução de uma eleição direta. 151] econômico dos parlamentares para financiar suas onerosas campanhas eleitorais. descomprometimento de toda a sorte. o que a toma totalmente desaconselhável.” O comprometimento [p. É preciso lembrar que os juízes estaduais americanos não têm carreira: apontados ou eleitos para uma county (comarca). SISTEMA DA NOMEAÇÃO Em alguns países os magistrados são escolhidos mediante livre nomeação do chefe do Executivo. Em termos de Brasil.chefe do Executivo entre nomes constantes de lista formada por comissão independente de alto nível. Com efeito. do chefe de polícia e dos administradores locais” (Institutiones Politiques.

pouco oneroso, visto que em um só listão podem ser nomeados tantos juízes quantos forem necessários. Há, todavia, tantos inconvenientes nessa forma de seleção que, se adotada em nosso país, geraria o caos. De todos é sabido que, quando vigora o critério da livre escolha pelo Executivo, só conseguem ser nomeados aqueles que possuem pistolão, amizades, conhecimentos etc. Disso resulta ser esse sistema antidemocrático, posto que não dá idênticas oportunidades a todos, beneficiando sempre os mesmos afilhados e apadrinhados. Por essas mesmas razões nunca se consegue escolher os melhores, já que os epistolados são sempre aqueles que menos qualidades possuem, procurando vencer na vida sem fazer força. E ainda que assim não fosse, quer dizer, mesmo que o chefe do Executivo estivesse empenhado sinceramente em escolher os melhores, dificilmente conseguiria porque, não sabendo quem são os melhores, teria que se valer da indicação dos seus assessores. E é evidente que, por mais fraco, incapaz e desqualificado que seja o pretendente, quem o indica sempre o apresenta como o melhor elemento do mundo - o mais honesto, inteligente, capaz, induzindo a erro o nomeante. A tudo isso se sobrepõe o fato de tirar o sistema da nomeação, a independência do juiz com relação àquele que o nomeou ou influenciou para a nomeação. Deixa o magistrado numa situação de subserviência ou pelo menos no dever de reconhecimento, prejudicial à função de julgar. A sua nomeação custar-lhe-á bastante caro e ser-lhe-á cobrada com juros e correção monetária, devidamente lembrada sempre que necessário.

66. SISTEMA DO CONCURSO PÚBLICO

O ingresso na magistratura por este sistema se faz através de concurso público de provas e títulos, preenchendo-se as vagas existentes com aqueles que melhor forem classificados. [p. 152] Tem como desvantagem o fato de ser demorado e bastante oneroso: exige uma comissão de alto nível para realizar o concurso e muito tempo no processo de inscrição, exame da documentação de cada candidato, aplicação e correção das provas escritas e realização das provas orais. Entretanto, oferece vantagens que nenhum outro sistema apresenta, dentre os quais podemos destacar:

1) É um sistema democrático, pois oferece iguais oportunidades a todos. Desde que o candidato preencha os requisitos estabelecidos no regulamento do

concurso, poderá inscrever-se e concorrer a uma vaga, seja ou não conhecido, de família ilustre ou humilde. 2) Enseja a escolha dos melhores, tanto do ponto de vista técnico e intelectual, como do moral. Ao fazer a inscrição, deverá o candidato juntar documentos que provem o preenchimento dos requisitos estabelecidos no regulamento do concurso.

Além do mais, são solicitadas informações sobre o concorrente a pessoas conhecidas no mundo jurídico e aos próprios órgãos oficiais, só sendo deferida a inscrição depois desse exame preliminar. As provas escritas, elaboradas por examinadores de alto nível, especialistas em cada matéria, são corrigi das sem identificação, de modo a evitar qualquer protecionismo. Somente concorrem às provas orais aqueles que não forem eliminados nas escritas; os aprovados nas provas escritas e orais terão computados então os pontos obtidos nos títulos, sendo nomeados os melhores classificados no cômputo geral dos pontos obtidos nas provas e títulos. Como se vê, com esse longo e rigoroso processo seletivo, é mais provável que se consiga escolher os melhores. Em terceiro lugar, destacamos que o sistema do concurso público apresenta ainda a vantagem de assegurar ao magistrado a necessária independência para julgar. Não tendo a sua nomeação dependido do prestígio ou influência de quem quer que seja, mas sim da sua própria capacidade, inteligência e esforço, não deve favores a ninguém, podendo decidir os conflitos de interesse que lhe vierem às mãos com total imparcialidade. Ninguém tem nada a lhe cobrar, mas muito a admirar, respeitar e confiar, em face da cultura que revelou possuir ao ser aprovado em rigoroso concurso seletivo. O concurso público é o sistema utilizado nos principais países da Europa, ora como meio para ingressar na escola da magistratura, ora para ingresso direto na carreira. [p. 153] Em Portugal, a seleção dos magistrados é feita por concurso público no excelente Centro de Estudos Judiciários, onde os aprovados são preparados por 23 meses, antes de assumirem a função judicante. Na França, os candidatos a juiz ingressam por concurso na École Nationale de Ia Magistrature, e ali recebem formação inicial de dois anos e sete meses. Na Itália, os pretendentes à Magistratura fazem provas escritas e orais disputadíssimas e, depois, seguem um curso de tirocínio de no mínimo seis meses, em Frascatti.

Na Espanha, com a sua pioneira Escuela Judicial, os aspirantes a juiz têm de se submeter a um concurso público de dissertação oral, e, em seguida, fazem um curso de dois anos em Barcelona. N a Alemanha, também não há eleição para juiz, nem concurso público. As nomeações levam em conta os graus obtidos nos exames finais das faculdades de Direito. Na Austrália, os juízes são escolhidos e nomeados pelo governador geral (representante da rainha), assessorado na escolha pelo Conselho Federal, entre nomes de pessoas altamente qualificadas. Deixando a Europa e indo para o Oriente, veremos que no Japão os futuros magistrados têm de vencer um vestibular rigorosíssimo no Instituto Jurídico de Treinamento, onde estudam por dois anos, após os quais, se aprovados, serão nomeados. Na verdade, o que se vê pelo mundo afora é uma grande preocupação com a seleção dos juízes e, tendo em vista a peculiaridade da função judicante, não se recomenda o processo eleitoral, mas sim o concurso público, que é tão democrático quanto as eleições.

67. O SISTEMA UTILIZADO NO BRASIL

O ingresso na magistratura de primeira instância, por força de dispositivo constitucional, no Brasil faz-se através de concurso público de provas e títulos, o que revela termos adotado o melhor sistema seletivo. A escolha dos magistrados integrantes dos tribunais superiores, entretanto, isto é, os Ministros do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal Militar, do Tribunal Superior do Trabalho e do Superior Tribunal de Justiça, são nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pelo Senado Federal. Temos assim um sistema misto, integrado por concurso público de provas e títulos para a seleção dos magistrados de primeira instância, e [p. 154] por nomeação pelo Chefe do Executivo para os ministros dos tribunais superiores. Nos Tribunais de Justiça dos Estados, bem como nos de Alçada, um quinto dos membros são também escolhidos por nomeação do Chefe do Executivo Estadual (Governador), mediante lista tríplice organizada pelo respectivo Tribunal de Justiça; metade das vagas decorrentes do quinto são para candidatos oriundos da OAB, isto é, advogados militantes, e a outra metade para membros do Ministério Público, cujos órgãos superiores encaminham ao Tribunal de Justiça uma lista sêxtupla para a elaboração da lista tríplice. O objetivo do quinto é enriquecer os Tribunais de Justiça e de Alçada com elementos de destacada cultura jurídica e elevada envergadura moral, militantes dos quadros

do Ministério Público ou da OAB, trazendo para os referidos tribunais uma mentalidade mais eclética, o que lamentavelmente nem sempre ocorre em face das influências políticas que se verificam no momento do preenchimento das vagas que ocorrem.

68. APRIMORAMENTO DO NOSSO SISTEMA

Embora o sistema do concurso público seja o mais recomendável, conforme já exposto, comporta alguns aprimoramentos para permitir a formação de um quadro de magistrados mais eficiente. O juiz, na pureza desse sistema, tão logo aprovado no concurso e nomeado, assume imediatamente as suas funções e começa a despachar e decidir em centenas de processos, sem nunca dantes ter feito isso, encontrando uma série de dificuldades, perplexidades, dúvidas etc. Todos que já passaram por essa experiência sabem do que falamos. A experiência é ainda mais dolorosa quando o juiz, começando a sua carreira numa comarca lá do interior, fica praticamente sozinho, isolado, sem ter a quem recorrer para uma troca de idéias. Isso evidencia que, para o ingresso na magistratura, não é bastante o concurso de provas e títulos, que apenas apanha a formação cultural do candidato; mas não pode penetrar mais e aferir-lhe o pendor, a vocação, o interesse, a capacidade específica para judicar. A função do juiz, por outro lado, envolve uma série de outras atividades, principalmente no interior, onde é a principal autoridade da comarca, para as quais não foi preparado. O juiz mantém relacionamento com autoridades políticas (prefeito, vereadores), policiais (delegado) e com povo em geral, necessitando em todos esses contatos ser necessariamente hábil para, [p. 155] sem enfraquecer sua autoridade e sem se deixar envolver, portar-se com gentileza, educação, polidez. Nada disso ele aprende em concurso ou nos livros de direito, razão pela qual entendemos que, após o concurso e a nomeação, deveria existir um estágio profissional de pelo menos quatro meses. O novo juiz, além de assistir a palestras sobre matérias ou questões relacionadas com os mais variados aspectos do exercício de sua profissão, começaria a exercer a judicatura como auxiliar, ao lado de outro juiz mais experiente na comarca da capital. Nos meses de estágio o juiz passaria pelas principais varas (cível, criminal, família, juizados especiais), de modo a adquirir uma certa experiência em todas as áreas do direito, para depois enfrentar a atividade sozinho em sua comarca. Melhor do que isso, em nosso entender, seria uma escola judicial instituciona1izada de âmbito nacional que estabeleceria diretrizes, programas, políticas de

ensino e orientações a serem executadas por todas as escolas de magistratura estaduais e federais, com o que se conseguiria uma certa uniformidade na formação inicial dos magistrados do país. Essa escola nacional deveria também programar cursos de aperfeiçoamento para os magistrados mais antigos, como condição para a promoção por merecimento, cursos esses que poderiam ser ministrados nas sedes das escolas locais, de modo a facilitar a freqüência e reduzir os seus custos. A crescente expansão da atividade humana, a par de sua constante sofisticação, muito exige do juiz, a cuja decisão nenhuma parcela do complexo social é subtraída. É imperioso, portanto, que o juiz se especialize, se adestre e se prepare. O aperfeiçoamento ressalta a posição da ciência jurídica moderna pela ampliação dos poderes jurisdicionais, pois a insaciável diversificação do fazer humano e seus requintes tomam inaprisionável por regras fixas e rígidas a atuação jurisdiciona1 necessária à devida composição do litígio. Se o Judiciário se toma essencial à convivência social, se o seu papel será cada vez mais importante neste século XXI, somente com juízes à altura dessa missão teremos o Judiciário que a sociedade espera e exige. Destarte, sobretudo quando os novos juízes são cada vez mais jovens no mundo do civil law, quando os sistemas jurídicos passam por profundas mudanças legis1ativas e uma nova mentalidade se reclama, toma-se imprescindível investir na seleção e no aprimoramento dos magistrados, criando-se boas escolas nos moldes das admiráveis e válidas experiências que o mundo civilizado vem presenciando. O Congresso que reuniu magistrados em Roma, em 1958, concluiu pela recomendação de que se realizem promoções para aperfeiçoar o tirocí- [p. 156] nio judiciário, incentivando a pesquisa e o estudo, selecionando aptidões, estimulando a especialização técnica constantemente. Necessário se faz assinalar que no Brasil, após a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 135, de 14.03.1979), timidamente começamos a dar os primeiros passos nesse sentido. Algumas das disposições (arts. 78, § 1°; 80, § 1°, 11; e 87, § 1°) estabelecem que a lei poderá exigir dos candidatos, para a inscrição no concurso de ingresso à carreira, título de habilitação em curso oficial de preparação para a magistratura, e condicionar a promoção por merecimento à freqüência, com aprovação, em curso ministrado por escola oficial de aperfeiçoamento de magistrados. Timidamente, como se vê, pois a disposição legal não passou de uma simples sugestão para ser aplicada se, quando e onde for possível, já que nenhum recurso material ou dotação orçamentária foi criado para tal fim. A Constituição de 88 contém disposição idêntica no seu art. 93, n, c.

Graças ao esforço pertinaz da Associação Brasileira dos Magistrados, criou-se a Escola Superior da Magistratura, que já tem prestado relevantes serviços à magistratura brasileira com a realização de vários cursos de aprimoramento jurídico, assistidos por juízes de quase todos os estados. Esperamos que a feliz iniciativa continue a receber a simpatia e o apoio de todas as autoridades e instituições relacionadas com o Judiciário, até transformar-se na Escola Nacional da Magistratura Brasileira, com cursos de preparação e de aperfeiçoamento de magistrados, funcionando de forma estável e permanente. Tudo por uma magistratura melhor e mais independente. Registre-se, por derradeiro, que muito se avançou neste ponto no âmbito dos Estados. A maioria já criou a sua Escola da Magistratura, em alguns Estados com organização modelar e folha de serviços relevantes. A Escola da Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ) mantém um curso de preparação para o concurso de ingresso na magistratura de alta qualidade teórica e prática, ministrado em cinco semestres (dois anos e meio), durante os quais o aluno pode também estagiar nos diversos órgão julgadores (vara cível, criminal, família, juizados especiais, câmaras do Tribunal de Justiça), fazendo minutas de despachos, decisões, sentenças e participando de audiências, sempre orientado por um magistrado. Aos novos juízes, tão logo nomeados, a EMERJ ministra um curso de iniciação de quatro meses, com palestras e debates pela manhã, ministrados por magistrados e professores experientes, sobre os mais variados aspectos teóricos e práticos da função judicante; à tarde exercem a judicatura como juízes auxiliares em varas cíveis, criminais, de família e juizados especiais, um mês em cada lugar, sempre orientados pelos juízes titulares das respectivas varas. Desse [p. 157] modo os novos juízes conseguem assimilar boa experiência antes de irem exercer a judicatura nas comarcas do interior. Prossegue a atuação da EMERJ no estágio de vitaliciamento, durante os vinte meses seguintes. Além de acompanhados e orientados por um Conselho de Vitaliciamento, os juízes vitaliciandos assistem na EMERJ pelo menos um seminário por mês, de oito horas, sobre temas variados, jurídicos ou não, escolhidos por uma comissão de magistrados. Por último, a EMERJ ministra cursos de aperfeiçoamento aos magistrados em atendimento a uma resolução do Órgão Especial do Tribunal de Justiça que os instituiu como requisito à promoção ou remoção por merecimento. Dessa forma a EMERJ vem efetivamente participando da formação e aprimoramento dos magistrados fluminenses, desde a preparação para o concurso até chegarem a desembargador.

68.1. Perfil da Magistratura Brasileira

Pesquisa realizada pela Associação do Magistrados Brasileiros (AMB/IUPERJ), intitulada “O Magistrado e o Poder Judiciário - auto-análise para melhor servir” - revela que o sistema de concurso público democratiza a magistratura, permitindo que todos tenham as mesmas oportunidades e a escolha dos melhores. Eis os resultados: 56,4% dos juízes brasileiros (mais da metade) são oriundos de famílias simples, cujos pais só tinham o primeiro grau completo; 63,4% não têm nem mesmo promotores ou defensores na família; 52,2% são filhos de servidores públicos e 12,8% de funcionários de empresas, sendo que 25,8% destes correspondem a funções de baixa remuneração. A participação da mulher vem crescendo. Em 1985 apenas 16,8% dos aprovados nos concursos eram mulheres, dez anos depois o percentual subiu para 28,7%. Atualmente, o número de mulheres já é igual e até superior ao dos homens, o que evidencia que o concurso afasta qualquer tendência discriminatória, oferecendo à mulher reais condições de igualdade com o homem. O Centro de Estudo e Pesquisa da EMERJ levantou o perfil da Magistrada Fluminense, por meio de pesquisa intitulada “Quem Somos”, recentemente concluída. Os resultados discrepam em parte daqueles que foram obtidos na pesquisa AMB/IUPERJ. As questões referentes à origem social demonstram que os magistrados fluminenses, em sua maioria (53%), são filhos de pais com formação de nível superior. Quantos às profissões pater- [p. 158] nas, preponderam os da área jurídica, tais como advogados, membros do Ministério Público, Defensoria, Procuradoria e Magistratura (18,2%). Verificou-se também significativa presença de outros familiares dos magistrados nas áreas jurídicas, principalmente advogados (49,9%). Conclui-se que os magistrados fluminenses são predominantemente originários de famílias de padrão cultural e econômico elevado, em razão do Estado do Rio de Janeiro ser economicamente desenvolvido e, conseqüentemente, com maiores possibilidades de educação e trabalho. Entretanto, não se pode desprezar o número de magistrados oriundos de famílias de pouca escolaridade (23,6%) e atividades profissionais exercidas em setores considerados de baixa renda (17,4%). A participação da mulher na magistratura fluminense é mais expressiva que no âmbito nacional; entre os juízes 46,1%, entre os desembargadores 14,3%, o que evidencia uma crescente feminilização, fato relevante do ponto de vista sócio-cultural e da análise da mudança social.

Uma das mais constantes críticas à magistratura é a juvenilização dos seus quadros. Alega-se que os juízes estão ingressando cada vez mais jovens na magistratura, sem a maturidade e experiência indispensáveis para o exercício do cargo. Há até projeto no sentido de exigir um tempo mínimo de cinco ou mais anos de formado em Direito para se permitir a participação em concurso para juiz. Não se nega que o juiz tem que ter maturidade e experiência para exercer a magistratura; o que se questiona, entretanto, é que essas qualidades sejam necessariamente atributos da idade ou do tempo de formado. Há velhos imaturos e formados há muitos anos sem experiência alguma. A questão da maturidade e da experiência pode ser superada com vantagem pelas Escolas da Magistratura por meio dos cursos de preparação e estágio de vitaliciamento, cursos de aperfeiçoamento e outras providências. Por outro lado, as pesquisas revelam que a tal juvenilização não é assim tão grande. Apenas 11,6% dos magistrados brasileiros têm até 30 anos de idade; 35,5% estão na faixa de 31 a 40 anos; 31,5% entre 41 e 50 anos; 17,1% entre 51 e 60 anos; 4,7% entre 61 e 70 anos (pesquisa AMB/ IUPERJ). No Estado do Rio de Janeiro os números não discrepam neste ponto. Até 30 anos, 13,4%; de 31 a 40 anos, 32,8%; de 41 a 50 anos, 18,8%; de 51 a 60 anos, 20,2%; de 61 a 70anos, 13,5%. Nos últimos 10 anos a média de idade dos juízes fluminenses que ingressaram na carreira foi de 31,6 anos. O ingresso de jovens na magistratura tem como vantagem permitir ao juiz dedicar quarenta ou mais anos de efetivo trabalho à Justiça. A pesquisa realizada pela EMERJ revelou que a magistratura é a classe de servidores [p. 159] públicos que trabalha mais tempo e se aposenta mais tarde. A idade média de aposentadoria dos juízes é de 60 anos (entre os desembargadores 69 anos). O tempo médio de serviço dos juízes na época da aposentadoria é 41 anos (entre os desembargadores 48 anos). Mais de 15% dos juízes têm tempo para se aposentar, mas continuam trabalhando normalmente; entre os desembargadores 89% têm tempo para se aposentar, sendo que dos desembargadores que integram o Órgão Especial (os vinte e cinco mais antigos) 100% já poderiam estar aposentados. Os dados acima sublinham com veemência a integral e longa dedicação da magistratura ao serviço ativo, e que não tem como projeto profissional a aposentadoria. Levando-se ainda em conta o número de juízes que têm curso de pós-graduação (52,7%), sendo 21,0% de mestrado, 5,7% de doutorado e 18,4% de especialização, conclui-se que a magistrada fluminense é também detentora de elevado padrão jurídico. Em pesquisa divulgada pelo O Globo em 19.08.2000, o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil conservador. Em outra pesquisa (O Globo de 17.08.2003),

produto do meio. entre os magistrados de São Paulo. Está correta a magistratura quando privilegia a justiça social porque essa é a ideologia. Para o investidor e os agentes da área econômica em geral. Quem tem razão? Ninguém.6%. uma vez que 78% dos magistrados preferem basear suas decisões em questões ligadas à justiça social do que no respeito aos contratos. Sociais e Políticos de São Paulo (IDESC). os valores consagrados pela nova ordem jurídica brasileira: a eticidade. tudo dependendo do ângulo pelo qual os resultados são analisados. inclusive a opinião pública. Extremamente complexo é o processo de formação de uma decisão judicial.agora realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). É por isso que se diz não existir norma jurídica. “inclina-se num ou noutro sentido de acordo com o seu temperamento. meio ambiente. não pode estar avançando a seu tempo. A mesma norma recebe tratamento diferenciado de juízes e tribunais porque a decisão judicial . seguida pelo Código do Consumidor e agora pelo novo Código Civil. a ponderação. consciente ou inconscientemente. [p. O indivíduo. a justiça social deve prevalecer numa sentença. Entre os juízes com menos de 40 anos. Esse perfil foi considerado pela pesquisa como prejudicial à economia porque deixa os investidores temerosos. por mais preocupado que esteja com a justiça social. o índice é de 70%. mas esse próprio pensamento é socializado. as mais relevantes e necessárias: trabalhistas. mais do que respeitar contratos. Rio de Janeiro. da hereditariedade e da educação.1%. influenciam. previdência. nem pode fazer uma revolução social com a caneta. 83. O nosso Direito. para o sociólogo esse mesmo juiz é conservador porque não adota integralmente os seus pontos de vista sobre a questão social. sociais. o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil liberal. ideológicas. a socialidade e a efetividade. o juiz brasileiro é liberal porque contraria os seus interesses. senão norma jurídica interpretada. culturais. Não é apenas uma decorrência do conhecimento jurídico do magistrado. 46. Cláusulas contratuais abusivas não podem prevalecer. a1ertava Carlos Maximi1iano. 160] Veja-se que na pesquisa do IPEA as áreas em que os juízes defendem prioritariamente a questão social em detrimento dos contratos são. entretanto. 54. Circunstâncias pessoais. na formação da decisão judicial. é prevalecer o equilíbrio. Mas o juiz.6%. O certo. Crê exprimir o que pensa. não mais admite o uso abusivo do direito de forma contrária aos seus fins sociais e econômicos. a partir da Constituição de 1988. realmente. a razoabilidade. coordenada pelo Instituto de Estudos Econômicos.7% consideram que. Rio Grande do Sul e Distrito Federal. é condicionado pelas relações sociais e exprime uma comunidade de propósitos”. 42. à boa-fé e à equidade.

deve dar eficaz aplicação à lei. órgão do Estado. para deixar de dizer o direito” (Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. não é inflexível. “ela não está. essencialmente. Por isso utiliza. E sendo uma decisão humana. sentimentos. “Não pode a justiça dar respostas mortas a perguntas vivas. emoções. encastelando-se no formalismo. Ao mesmo tempo em que procura interpretar a consciência social. conceitos jurídicos indeterminados e cláusulas gerais. n° 4. dignidade da pessoa humana. Deve consultar o seu sentimento ético com o cuidado de não se afastar demasiadamente dos sentimentos médios da sociedade em geral e da comunidade jurídica em particular.é. vu1nerabi1idade.983/91). até que ponto está subju1gado ao ordenamento jurídico em função de suas concepções pessoais? Essa é a grande questão. como boa-fé. força maior. 161] Nessa tarefa. crenças da pessoa humana investida do poder jurisdicional. Se o juiz. está sob a influência condicionante de uma série de fatores subjetivos e objetivos que não podem ser evitados. o perfil do magistrado não deve ser avançado. uma decisão humana. Se o juiz abandona esse cenário. porque justiça e liberdade estarão limitadas ao juízo de valor de um juiz ou tribunal. livre e social” (“A Decisão Judicial”. 1999).-dez. mas também voz da sociedade. Isso permite ao juiz exercer o seu poder criador do Direito sem se afastar das diretrizes estabe1ecidas pela ordem jurídica.3 in fine. REsp. uma decisão que está subordinada aos sentimentos. É nesse sentido que se diz ser o juiz um coautor com o legislador. ignorando a realidade social subjacente. crenças. como vimos. razoabi1idade. Neste ponto reportamo-nos ao que ficou dito no item 35. nem conservador. no domínio da ciência ou da técnica. eqüidade. embora fundado na lei. mas sim suficientemente flexível para ajustar a lei às condições concretas da sociedade. portanto. pondera o Ministro Carlos Alberto Direito. Deve o juiz obediência à lei mesmo que ela seja injusta? Já ficou destacado que o nosso sistema jurídico. como qualquer ser humano. criando a justa regra jurídica para cada caso. set. . [p. pondo-se a emitir juízos totalmente desvinculados da ordem jurídica que lhe incumbe preservar. o juiz não é livre para fazer prevalecer o seu sentimento particular de justiça a ponto de estrapolar a moldura da lei ou de modificar os seus parâmetros. por inteiro. terá que ser um canal de comunicação entre a sociedade e o mundo jurídico. uma vez que o próprio legislador reconhece a impossibilidade de tudo ser nela previsto. RDR nº 15. E a independência do juiz está. O homem existe porque ele é razão e emoções. portanto. Em conclusão. na sua capacidade de julgar com esses elementos que participam da sua natureza racional. A decisão judicial é. exatamente. a sociedade não terá mais nem justiça nem liberdade.

Capítulo XIII RAZÕES SOCIAIS DAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DOS MAGISTRADOS A vitaliciedade: objetivo. consternado. no extremo oposto da França. seus cheques sem fundo assolavam regularmente a praça. A inamovibilidade. que acabava de ser transferido. A revista Veja. Tão curiosos. onde se encontrava como juiz substituto. O ensino jurídico. como o Ministério da Justiça insistisse.300 membros do Sindicato da Magistratura cruzaram os braços. O juiz. Bodourian não era nenhum paradigma de honestidade. e um de seus sócios seria preso mais tarde por tráfico de dólares falsos. como constataria mais tarde uma comissão de . vila de 18. foi à falência em Marselha. na verdade. teria sido das grandes companhias petrolíferas. o caso acabou chegando aos jornais. sob o título “O caso Ceccaldi”. um domingo. Abandonando a ensolarada cidade mediterrânea de Marselha. a Defensoria Pública e o advogado. segundo ele. 163] Mas se Bodourian foi à falência. quando um certo Roger Bodourian. resolveu que não iria. Ceccaldi deveria assumir as funções de procurador público em Hazebrouck. simplesmente. a culpa. [p. A transferência de Ceccaldi. cujos dirigentes se reuniam periodicamente para elevar preços. E. o juiz Etienne Ceccaldi verificou. Todas essas acusações. em sinal de solidariedade a Ceccaldi. falsificar condições de concorrências públicas e outras falcatruas do gênero. O Ministério Público. Irredutibilidade de vencimentos.000 habitantes perdida nas brumas da Normandia. 1. de fato . pequeno atacadista de óleo diesel para aquecimento domiciliar. publicou a seguinte reportagem: Ao folhear o Diário Oficial francês do último dia 9 de maio. corrupção e pressões políticas que. montar manobras de dumping. começou em 1971. na semana passada. que publicaram certos detalhes curiosos sobre os processos a cargo de Ceccaldi em Marselha. na primeira grande greve de juízes da história da França. de 16 de junho de 1976.e envolvendo petróleo.

Ceccaldi não tardou a convocar para depor 43 dirigentes das maiores empresas petrolíferas internacionais acusadas de abuso de poder econômico. mas impermeável a certas sutilezas da vida política. os autos foram miraculosamente encontrados quatro meses depois. independentemente de quem esteja nos pólos da relação jurídica processual. com o caso Bodourian.dos juízes. foi obrigado a entregar a seus superiores o processo . com 39 anos. parecia inclinado a tentar uma solução de compromisso. Bodourian tinha iniciado também um processo na Justiça marselhesa. Transferido para Lyon. O caso Ceccaldi coloca em destaque vários aspectos da função de julgar que merecem especial atenção. Para começar. nada mais natural que um dia se visse transferido de Marselha para um outro lugar. Obrigado na semana passada a aceitar a inédita humilhação de uma greve inteiramente ilegal. chamado a Paris para uma reunião de doze horas no Ministério da Justiça. Mas ficaram por isso mesmo. Nessas condições. inclusive Paris.que logo depois. 164] que bem entendesse em qualquer lugar da França. porém. Casado. Jean Lecanuet. assegurando-se o . então Ministro das Finanças. voltaram às mãos do mesmo Ceccaldi.inquérito do Ministério das Finanças.inclusive o delegado mais conhecido da cidade. condenou um influente político governista por fraude fiscal. por exemplo. ele já se notabilizara naquela época como competente. Gaston Deferre. o Ministro da Justiça.várias delas misteriosamente fotocopiadas e reproduzidas nos jornais das últimas semanas . E o caso foi justamente parar nas mãos de Ceccaldi.para que esquecesse numa gaveta qualquer o processo contra as companhias petrolíferas. se extraviou. O problema é que. Ceccaldi ignorou as inúmeras sugestões diretas e indiretas de seus superiores hierárquicos . restaria apenas o recurso definitivo de ameaçá-lo com alguma remota possessão francesa de além-mar. examinou com tanta diligência um processo de prostituição. continuando seu trabalho. E em 1974. com quatro filhos. sua atividade não seria mais tranqüila. além de suas reclamações inúteis junto ao Ministério das Finanças. que acabou mandando prender dezenas de policiais . obviamente. eram absolutamente verídicas. A justiça deve ser distribuída de forma imparcial. porém. Em Marselha. as forças que pressionaram por seu afastamento terão triunfado. em que estas se comprometiam a mudar seus métodos para salvaguarda da livre concorrência. Ceccaldi seria efetivamente removido de Marselha. Ao mesmo tempo. assinou um protocolo com as companhias petrolíferas. Em qualquer hipótese. Se não aceitasse. Logo no seu primeiro posto. graças à intervenção do prefeito socialista de Marselha. Para desgraça do Ministério. apenas em 1973 o presidente Valery Giscard d'Estaing. mas poderia escolher a promoção [p. Pior ainda.

1970. 304). representa o alicerce sobre o qual se erige a independência jurídica do juiz. o juiz possa fazê-lo em sã consciência. 69. em princípio. Essas garantias. a sua conduta. Para que. Surge então a questão: Como propiciar ao Judiciário as condições necessárias para julgar com imparcialidade e dar às suas decisões a força indispensável para que sejam cumpridas? A força do Judiciário no Brasil. salvo à força e ao prestígio da própria Lei” (Rosah Russomano. muito embora tenham elas que prevalecer sobre a decisão de qualquer outra autoridade. Evidente que. Isto quer dizer que em hipótese alguma o chefe do Executivo Federal. Acontece. ainda que seja o Presidente da República ou o Governador do Estado. portanto. consubstanciadas na vitaliciedade. se essa pressão puder ser feita sobre o julgador. a seu turno. o Judiciário é um poder desarmado. [p. sem aparato material para fazer cumprir suas decisões. privilégios ou regalias da magistratura como muitos pensam. indispensável é. ou Estadual (Presidente da . Nenhuma autoridade ou potentado poderá ter meios de intimidá-lo ou de nortear. mesmo de longe e veladamente.pleno exercício de qualquer direito a todo aquele que efetivamente o tiver. que permaneça intocável a qualquer coação. Por outro lado. A VITALICIEDADE O juiz. capaz de forçar uma decisão favorável ainda que o direito lhe seja totalmente contrário. consoante a qual. e sua independência como Poder. “essas garantias traduzem a independência de ordem política que o juiz deve auferir. Esta independência. que se ache liberto de qualquer pressão. política ou economicamente poderoso. Os demais poderes estatais não podem ter sequer a possibilidade de exercer uma atuação indevida na órbita em que o magistrado atua. bem como a integridade do regime democrático. na inamovibilidade e na irredutibilidade de vencimentos. ao interpretar e aplicar a lei. não pode perder o cargo a não ser por decisão judicial. pelo seu conteúdo e pela sua finalidade. que nem sempre os pratos da balança da justiça têm peso igual. de um lado da demanda está alguém influente. Às vezes. ele não se deve submeter a nenhuma autoridade. a justiça não passará de uma farsa e toda a ordem jurídica ficará comprometida. no exercício de suas atribuições. p. vêm das garantias que a Constituição lhe confere. mas sim para tomar efetiva e eficiente a função de julgar. 165] Em sua aplicação na vida cotidiana. entretanto. de acordo com a ordem jurídica existente. não se deve subordinar a nenhum poder. Visam. acima de tudo. a fortalecer a independência funcional do Poder Judiciário. Lições de Direito Constitucional. não são para favorecer o juiz.

neste último caso. De acordo com o art. Após a Emenda Constitucional n° 7. I e parágrafo único. salvo um cargo de magistério superior. seja a sua decisão contra quem for. voltaríamos aos tempos medievais e a justiça não funcionaria. 69. [p. VIII. de abril de 1977. submeterem-se a todas as ordens ou decisões dos seus superiores hierárquicos.1979).03. 26. 70. Tratando-se de juiz. e a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 35. 95. o magistrado pode perder o cargo em virtude do exercício de qualquer outra função. A INAMOVIBILIDADE O juiz não pode ser removido compulsoriamente de sua sede de atividade (comarca e vara). . A Constituição de 88 dispõe no mesmo sentido . integrantes de outros poderes. ainda assim por decisão de dois terços dos membros. Seguro está o juiz de que. desde que.República ou Governador) pode demitir um magistrado. recebimento. simplesmente para não perderem o chamado “cargo de confiança”. item II.arts. ainda que estável. 166] A importância dessa garantia pode ser constatada. letras a e c da referida lei. de 14. Se isso pudesse ocorrer com o Judiciário. muito embora possa fazer isso com relação a qualquer funcionário público. de percentagens ou custas nos processos de sua competência. poderá decretar a perda do cargo.1. salvo por motivo de interesse público e pelo voto de dois terços dos membros do seu Tribunal. e o exercício de atividade político-partidária. 93. jamais virá a perder o cargo. no fato de certas autoridades dos mais elevados escalões. a qualquer título. por contraste. a vitaliciedade ficou um pouco mais limitada. por julgar com imparcialidade e honestidade. Ninguém poderá ameaçá-lo por ser correto e fiel no exercício da sua função. O Objetivo da Vitaliciedade A razão ou objetivo da vitaliciedade é dar ao magistrado a segurança e tranqüilidade necessárias para que possa julgar sem sofrer qualquer pressão quanto ao seu cargo. visto que passou a ser adquirida somente depois de dois anos de exercício da magistratura (estágio confirmatório) e as hipóteses de perda do cargo tornaram-se mais numerosas. por mais absurdas ou arbitrárias que sejam. somente o Tribunal a que o mesmo estiver vinculado. a demissão seja precedida de inquérito administrativo para apurar falta grave.

não pode ser transferido do lugar onde exerce as suas funções. ou da capital para o interior. A justiça passaria a ser uma barganha de lugares. normalmente. começa a sua carreira nas pequenas e longínquas comarcas do interior. só pode ocorrer com o seu assentimento expressamente manifestado. [p. às vezes maior que os próprios vencimentos e que já passou a integrar o seu orçamento.Significa dizer que o magistrado. . salvo na hipótese de interesse público. a tranqüilidade e a imparcialidade do magistrado. Às vezes a transferência de uma cidade para outra. e passa anos e anos até chegar às comarcas de entrância mais elevada ou à capital. 71. como sói acontecer em outros segmentos da administração. a inamovibilidade destina-se a garantir o exercício da função de julgar. a irredutibilidade tem por objetivo não sujeitá-los a qualquer tipo de pressão econômica. acabariam a segurança. entretanto. cumpre assinalar que a inflação pode fazer da irredutibilidade uma garantia totalmente irrisória. uma das formas mais eficazes de tirar a segurança e independência de quem quer que seja. com fatais seqüelas para a sociedade. Todos os que exercem “função gratificada” sabem perfeitamente a que um servidor público se sujeita para não perder a gratificação. esperamos que não volte a sê-lo. A IRREDUTIBILIDADE DE VENCIMENTOS Os vencimentos dos magistrados não podem ser reduzidos. bastará que não se corrija adequadamente os vencimentos dos juízes para que em poucos anos estejam com os salários aviltados. A remoção do juiz. Nem mesmo é obrigado a aceitar uma promoção que implique em sua transferência. sempre ocupando os melhores e mais elevados postos os que mais dispostos estivessem a fazer tudo o que o “patrão” ordenar (e não a lei). O juiz. numa completa dependência econômica do Executivo. A partir da Constituição de 88 os vencimentos do funcionalismo em geral passaram também a ser irredutíveis. Tal como a vitaliciedade. 167] Com relação aos magistrados. se os vencimentos dos magistrados não forem corrigidos monetariamente nos mesmos índices inflacionários. ou premiar outro com a remoção para um lugar melhor como meio de obter uma decisão favorável. significa castigo tão violento quanto uma demissão. muito embora estejam sujeitos aos impostos gerais e extraordinários. Num país inflacionário como o nosso até bem pouco tempo. diferentemente de qualquer outro funcionário público. Nesse particular. Se fosse possível pressioná-lo com uma transferência compulsória para que viesse a julgar dessa ou daquela forma.

por isso mesmo. que precisa de juízes imparciais para harmonização pacífica e justa dos conflitos de direito. O professor Dalmo de Abreu Dalari. em última instância. sendo esta. ser reduzida a uma farsa. que as garantias constitucionais dos magistrados destinam-se. com o indisfarçado intuito de transformá-los em dóceis instrumentos de proteção às políticas governamentais. pois caso contrário nada significará a irredutibilidade. poderíamos concluir com as palavras do Ministro Carlos Mário Velloso: “O juiz brasileiro tem tudo para julgar do acordo com sua consciência. inamovibilidade e irredutibilidade salarial. . pois tem independência. como estorvo ao programa de supressão das liberdades individuais. porém. para que o juiz não sofra pressões econômicas.Necessário se faz também. A rigor. Não se pode perder de vista. da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: “Raramente na vida política brasileira. entretanto.[p. Agora. tem sido tão necessário e urgente entender. não hesitou em suspendê-la. a autoridade do Poder Judiciário na consciência dos cidadãos. com a colaboração reprovável de altos tribunais. uma necessidade da liberdade individual. 168] cia de aparelhamento constitucional. a firme e autorizada posição de um dos mais consagrados juristas da atualidade. O regime militar. a assegurar a independência do Judiciário. 1996) acentua: “Longe de ser um privilégio para os juízes.2000).08. paradoxalmente. a independência da magistratura. uma fachada nobre para ocultar do povo a realidade das discriminações e das injustiças. em seu pleno sentido axiológico e funcional.” A isto acrescentou o jurista Raymundo Faoro quando ainda presidente da OAB: “O maior risco à integridade do Judiciário será convertê-lo em organização burocrática. Com isto. 23. mas perderá a autonomia e a proeminência arbitral. simplesmente por ser inócuo proibir reduzir o que já nasceu reduzido. tal como hoje. o Professor Fábio Konder Comparato. Ele conservará a peculiaridade. em sua preciosa obra O Poder dos Juízes (Editora Saraiva. em seu tempo de fastígio. para representar interesses que essa própria estrutura organizacional lhe infundirá. pode-se afirmar que os juízes têm obrigação de defender sua independência. o juiz que se verga a interesses o faz não por falta de garantias. que seus vencimentos sejam compatíveis com as elevadas funções que exerce e a pesada responsabilidade que sobre ele pesa. só reforçou. condição indispensável à proteção dos direitos humanos e à integralidade do próprio regime democrático. o Legislativo e Executivo. No Brasil.” Por último. agem de modo subreptício e. mais deletério: solapam a dignidade dos juízes. a independência da magistratura é necessária para o povo. mas por falta de caráter” ( O Globo. ainda que mantida a aparên. por sua vez. pois sem esta a atividade jurisdicional pode. facilmente. Resumindo todas as considerações atrás expendidas.

Com efeito. O objeto deste singelo trabalho não comporta maiores considerações a respeito. com os meios e recursos a ela inerentes. o art. Por fim. Reveste-se. Com relação ao Ministério Público. eficientes. Seria um verdadeiro escárnio se o nosso País. em todos os graus. portanto. razão pela qual limitamo-nos a dizer que todas as questões levantadas em tomo do Judiciário são também pertinentes aos demais instrumentos humanos que atuam na ordem jurídica e merecem idêntica atenção. A despeito da sua dificuldade orçamentária e da má vontade de alguns governos. razão pela qual. 134 da mesma Constituição estipula que à Defensoria Pública. O MINISTÉRIO PÚBLICO. 5° da Constituição assegura o contraditório e a ampla defesa aos litigantes em geral. do art. o inciso LV. desse às novas gerações de brasileiros.“Ninguém ignora que a independência da magistratura é uma das mais importantes garantias do sistema de proteção aos direitos humanos. cuja estrutura administrativa tem servido de modelo para outros Estados. Sem dúvida. a forma de selecionar os seus membros. na forma do art. outros elementos humanos atuam na ordem jurídica. como instituição essencial à função jurisdicional do Estado. para que possa atuar também com segurança e independência. 169] maior importância social estabelecer as suas prerrogativas ou garantias legais. LXXIV. o defensor dos seus direitos. em processo judicial ou administrativo. merecendo real destaque o Ministério Público. exatamente no cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. O Estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a organizar a Defensoria Pública. dos necessitados. no inciso LXXIV desse mesmo artigo. a Defensoria Pública e o Advogado. basta lembrar que a sua função é altamente social pois é o advogado da sociedade. 5°. da [p. sem os quais não se pode fazer uma boa e regular distribuição da justiça. A DEFENSORIA PÚBLICA E O ADVOGADO Além dos magistrados. a Constituição impõe ao Estado o dever de prestar assistência jurídica integral e gratuita aos que provarem insuficiência de recursos. para que sejam preparados. a assistência judiciária está entre esses meios e recursos. cuja existência tem base constitucional. a Defensoria Pública do Rio . mesmo que contra os poderosos e influentes. 72. incumbem a orientação jurídica e a defesa. o triste espetáculo de uma involução institucional na defesa da dignidade humana” (Artigo intitulado “Juízes Independentes ou Funcionários Subordinados?”). com a supressão prática de um Judiciário independente. A Defensoria Pública é outra instituição da maior relevância para a boa aplicação do direito. quando não atua como simples fiscal da lei.

13. reprovou o ensino médio no país. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. a Defensoria Pública não passa de uma ficção em nível federal. Tem ela ainda importante atuação na defesa dos direitos humanos e dos consumidores. Lamentavelmente. pelas quais se compromete a dar assistência jurídica gratuita aos cidadãos desses países por meio da Defensoria Pública. o que será muito bom. população carcerária. cujo resultado foi divulgado em novembro de 2002. elas funcionam precariamente. [p. E aí está outra grave causa da morosidade da justiça.08. 73. A defesa dos necessitados é uma tarefa que a União sempre se recusou a cumprir. Pela deficiência de quadros. Para ele. seguem o mesmo exemplo: oito não criaram defensorias e. é até apontado como o grande responsável pelo rebaixamento do nível profissional das carreiras jurídicas. Os estados também. Dos 1. Cerca de 70% dos processos da área criminal e 50% das varas de família são patrocinados pela Defensoria Pública. mas hoje penso diferente.11. A Defensoria Pública não funciona melhor por falta de disposição política do Executivo e entraves burocráticos. não obstante os dispositivos constitucionais existentes. Menos de 1% dos alunos das escolas públicas conseguiu tirar mais de 70 (O Globo. com raras exceções.vem prestando extraordinário serviço às comunidades carentes. Bélgica e Argentina.3 milhões de estudantes que fizeram o ENEM. ela não tem condições de defender nem os interesses dos cidadãos brasileiros mais necessitados (O Globo. O ENSINO JURÍDICO Quanto ao advogado. em outros. 170] Fala-se no momento que a Defensoria Pública é um dos itens prioritários da reforma do Judiciário. é um paradoxo que a União tenha celebrado convenções internacionais com Holanda.2002). A crise é muito mais profunda. sem o que o funcionamento do Judiciário seria impossível em certas áreas e lugares. E o problema já vem do ensino fundamental. O ensino do direito em nosso país tem sido duramente criticado nas últimas décadas. 59% dos estudantes brasileiros não conseguem ler mais do que frases simples. O Ministro Celso de Mello. Ao concluir a 4ª série do ensino fundamental.2000). Já fiz parte desse grupo. vítimas de maus tratos. lamenta o desinteresse do poder público pela Defensoria Pública. assistência a crianças e adolescentes. temos como certo que uma das questões de maior relevância diz respeito ao seu preparo profissional. O último Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM). desde que a reforma não fique no papel. 14. 74% tiveram notas abaixo de 40 numa escala de zero a cem. Quando o assunto é .

principalmente nas escolas públicas. 60% dos alunos com avaliação adequada estão em escolas particulares e 98% daqueles com resultados muito críticos estudam em escolas públicas (O Globo. a formação deficiente dos professores é a principal causa desse vexame. O Brasil. Só 4. como já salientado. O Brasil ficou em último lugar no Pisa2000 . 52% deles mal consegue decifrar uma operação simples de somar ou subtrair. atrás do México e da Letônia.Programa Internacional de Avaliação de Estudantes . O foco deve ser em cima dos responsáveis pela transmissão do conhecimento: os professores. que analisou o nível de compreensão leitora (letramento) de alunos secundaristas de 32 países. Na visão da doutora em educação Magda Soares. Indagariam os leitores: mas o que o ensino fundamental e médio tem a ver com o ensino jurídico? Tem tudo a ver. mas principalmente o magistério e as . 25. mas é incapaz de decodificar seus significados. 98% dos que tiveram avaliações consideradas muito críticas estudam em escolas públicas.2003). Os fatores convergem para esse ponto comum. O fracasso do ensino médio e fundamental em nosso país prejudica a formação de todas as profissões que exigem nível universitário.matemática. 171] anos é analfabeta funcional: sabe ler as palavras. O ensino superior é o acabamento de um processo educativo que começa no berço. Em resumo.2003). 23.pesquisa feita entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.4% dos alunos estão no nível adequado para a série. Entre os estudantes de 4a série. Esse é o diagnóstico da educação brasileira apresentada pelo próprio Ministério da Educação (22.04. “A raiz do problema está na sala de aula. Entre os que tiveram resultado adequado à sua série. promover constantemente cursos de atualização e reciclagem. E assim como não se pode colocar telhado onde não há alicerce nem paredes. além de incentivar esses profissionais com o pagamento de salários dignos e justos” (Entrevista ao jornal A Tarde. Esse baixo desempenho do nosso ensino fundamental e médio.2003) com base em dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico desde 1995. também não se pode ministrar um curso superior de alto nível a quem não tem sólida formação educacional média e fundamental. onde as coisas acontecem. Salvador. considerada uma das maiores autoridades do assunto na América Latina e Professora da Universidade de Minas Gerais. 44% estavam em escolas privadas.05. Deve-se investir na formação dos educadores. levou a outro resultado alarmante.04. ficou em último lugar. No fim do ensino fundamental. a maioria dos jovens brasileiros entre 15 e 16 [p. É lá que os professores têm que desenvolver nos alunos as habilidades para compreender textos e utilizar conhecimentos adquiridos.

dos aprovados em concursos públicos. propriamente dito. sendo muito difícil depois disso recuperar essa capacidade. é eminentemente prático quanto ao fim. porém. familiarizando o jurista com os pressupostos da norma jurídica e habilitando-o a solucionar e compor as controvérsias e os conflitos de interesses. iniciativa da maior relevância. Mais que as outras. de forma lógica e coerente. ao sair da faculdade. perde sentido o preparo. harmonizar o ensino teórico com o prático. se instaura um processo mais ou menos constante de revisão legislativa. Quando. Caio Tácito: “Numa sociedade estável é compreensível que os professores de Direito se limitem a preparar os alunos mediante estudos sistemáticos dos institutos e normas existentes. de tal forma que se transmita uma cultura jurídica suscetível de ser revogada por uma lei nova. capacidade de ler. Para suprir a deficiência muitos cursos de Direito incluíram em seus currículos o estudo do português jurídico (linguagem argumentativa que ensina a organizar o pensamento para. Tanto é assim que. precisam ter tirocínio e raciocínio. Procuradores. exprimindo as alternativas de transformação da sociedade que o Direito disciplina. e suficientemente prático para que o bacharel. que tem produzido resultados satisfatórios. entendemos ser necessária uma mudança metodológica. 172] uma ciência teórica quanto ao modo de estudar e saber. O curso de Direito não visa preparar o rábula. objetivo válido da preparação científica e profissional do advogado (entendida a expressão em sentido amplo e não apenas forense) é o do relacionamento entre a lei e a realidade social. pois o direito. cumpre pois. são desenvolvidas entre os 4 e 10 anos. Como não há vantagem alguma em se usar um método exclusivamente prático nem outro predominantemente teórico. O verdadeiro. No que diz respeito ao ensino do Direito. segundo os técnicos em educação. Ministério Público. Com muita propriedade. não se pode conseguir ótimos resultados se a formação do estudante no primeiro e segundo graus foi deficiente. acentuou o Prof. E a leitura e a escrita. por melhor que seja o ensino jurídico. essas profissões dependem do completo domínio da língua.” . não se sinta perdido e incapaz de dar os primeiros passos na vida forense. Logo. Defensores e Advogados). de modo a privilegiar mais íntimo entrelaçamento entre a teoria e a prática. dizer o que as coisas são). compreender e usar aquilo que se lê. senão único.carreiras jurídicas (Magistrados. sempre que possível. no Direito consagrado. ainda que excelente. embora seja [p. dotados de um sentido de permanência. a maioria cursou o fundamental e o médio em boas escolas particulares. nem o jurista esotérico afastado da realidade: deve ser suficientemente teórico para insuflar no discente o conhecimento geral da ciência jurídica.

Há um provérbio chinês. mediante informações e conhecimentos. ensina-o a pescar e o alimentarás para o resto da vida. lembrado pelo Prof. e a justiça poderá ser distribuída de forma mais eficiente. Dessa forma poderemos ter advogados competentes. preparados para enfrentar até mesmo o imprevisível em face da rapidez com que as normas jurídicas tendem a se modificar. Gabriel Lacerda. que vem a propósito de tudo aquilo que até aqui se afirmou: “Dá um peixe a um homem e matarás a sua fome por um dia. mediante um ensino teórico e prático que os capacite efetivamente para o exercício da advocacia. É preciso ensinar-lhes a pescar. preparar o estudante para resolver problemas. . e não simplesmente o domínio do direito positivo e da doutrina jurídica. por sua clareza. o alvo da educação atual deve ser a conquista do raciocínio jurídico. rápida e equilibrada.” Cremos que. fixar princípios através do exame de casos atuais. Não basta fornecer peixes aos alunos ou indicar-lhes o mar. o provérbio dispensa maiores comentários.Em suma. como vem fazendo o ensino jurídico tradicional. dando tratamento jurídico aos fenômenos sociais.

nem sua síntese. A rigor. compondo um universo de opiniões que se manifestam em determinado momento e lugar. mas sim diversas correntes de opinião. **** Chegamos agora ao terceiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica: Estudo da Opinião Pública sobre o Direito e suas Instituições. Essas correntes de opinião. 74. p. podemos afirmar que opinião pública é o pensamento predominante do grupo sobre uma determinada pessoa ou questão. O sentimento coletivo de justiça. O poder da mídia na formação da opinião pública. apresentam certos traços gerais e algumas tendências uniformes. desde logo. 157). Importância da opinião pública. 175] Esse pensamento coletivo a que nos referimos não é a soma de todas as opiniões particulares.Capítulo XIV A OPINIÃO PÚBLICA Concepção de opinião pública. concorrentes ou divergentes. 1973. assinalar que se trata de algo extremamente impreciso e mutável aquilo que se denomina opinião pública. [p. de Miranda Rosa em sua obra Sociologia do Direito (2ª ed. . A opinião pública sobre as instituições jurídicas.. coexistentes sem conflito ou contraditórias em graus diversos. É o juízo coletivo adotado e exteriorizado por um grupo. mas sim o resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. Cumpre. entretanto. não existe uma opinião pública. como muito bem observou F. formando afirmações de natureza majoritária ou predominante. A. A opinião pública sobre o direito e sua utilidade social. CONCEPÇÃO DE OPINIÃO PÚBLICA De forma simples e sintética.

para darem lugar à água. A sociedade seria. 176] “fogo”. Se alguém estiver sozinho em casa e observar que algo está pegando fogo. as parcelas e o resultado têm de ser da mesma natureza. isso não ocorre na síntese social.Ocorre com a opinião pública algo semelhante ao que ocorre entre a sociedade e o indivíduo. Os indivíduos formadores da sociedade não desaparecem. Salvo hipóteses excepcionais de massificação coletiva. como no caso do delinqüente. um modo de ser adjetivo derivado da vida individual. Em razão de determinados processos sociais. toma-se falha quando levada a exageros. como . que em muitos casos se conserva tão independente que pode assumir figuras variadas do anti-social. pode mudar profundamente. À essa tese psicológica e nominalista se opunha Durkheim. pois. Na química. Exemplo: na formação da água (H20). Isso evidencia. Ora. Embora a idéia de síntese não deixe de ser verdadeira. Mas se estiver em um teatro ou cinema e escutar alguém gritar [p. Se tirarmos os indivíduos da sociedade. levando-o a fazer coisas de que jamais se imaginou capaz. Para Tarde. como os elementos de que se compõe. resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. como soma. a realização da síntese anula e faz desaparecerem os elementos componentes. A multidão em tumulto é capaz de cometer os mais hediondos crimes. imediatamente ocorrerá um tumulto tão grande e desesperado que acabará ferindo e matando mais gente atropelada e pisoteada do que queimada pelo próprio fogo. daria um composto novo e diferente . ao propor a substituição da palavra Soma. indagava. tomada de empréstimo à terminologia química.o Coletivo. não anula a vida individual. a sociedade não passa de mera soma de consciências individuais. o comportamento do indivíduo. que o coletivo não é a soma dos indivíduos nem é a síntese de todos: é um novo produto. da formulação de G. o oxigênio e o hidrogênio deixam de existir como substâncias isoladas a partir do momento da síntese. portanto. o coletivo. por Síntese. e. uma natureza de ordem psicológica. do revolucionário etc. Tudo que atrás ficou exposto pode ser claramente constatado mediante simples comparação entre o comportamento individual e o coletivo. como o de amarrar um mendigo ao poste e matá-lo a pauladas. o que restará? Ele próprio responde: nada. normalmente se empenhará em apagá-lo buscando auxílio de outras pessoas. Os elementos componentes seriam de natureza psicológica. já que só se pode somar quantidades homogêneas. uma nova realidade. Tarde. a sua síntese. do gênio. mas o seu conjunto. no comum das circunstâncias. apenas formam uma realidade nova . quando em grupo.o Social.

condutas e informações são lançadas na coletividade. muito embora fossem todos os componentes do grupo pessoas pacatas e de comportamento. que é uma forma de estimulação recíproca pela qual a reação de um indivíduo reproduz o estímulo que recebeu de outro indivíduo.aconteceu anos atrás em um subúrbio do Grande Rio. que se exercem pelo Executivo. 223-224).). Trata-se em última instância de uma reciprocidade de estimulação que. E Willems (Dicionário de Sociologia. implica que o comportamento de cada indivíduo que dele participa não está inteiramente sob controle individual. e os poderes de natureza econômica e sociológica. não só porque o . assim. a imprensa escrita e falada. pp. um modo de ser decorrente da opinião de cada indivíduo e das influências que cada um. A mídia é. exerceu e recebeu dos demais. 13ª ed. O Poder tem várias formas: os poderes constitucionalmente instalados. Porto Alegre. sem dúvida. implica que cada um dos indivíduos em apreço responde. [p. É que o comportamento coletivo. escola etc. a mídia como um todo. que se sensibiliza por algum motivo. nas palavras de Donald Pierson (Teoria e Pesquisa em Sociologia. trabalho. consciente ou inconscientemente. Globo. provoca uma espiral ascendente e de dimensões crescentes. p. irrepreensível. Idéias. de qualquer tipo. coisa semelhante ocorre com a opinião pública: não é a soma nem a síntese da opinião de todos: é um novo produto. um poder em sua concepção sociológica. uma nova realidade. Representa a tendência geral. Conforme já assinalado. é o grande formador da opinião pública. comunicando-lhe e intensificando o processo de estimulação que se repete.. ao determinar respostas também recíprocas. começam os comentários no círculo primário (família. via de regra. 177] No que diz respeito aos instrumentos. Tal é a sua força que até é chamada de quarto poder. às influências dos demais. que vão se sedimentando e. 286) explica o mesmo fenômeno falando em reação circular. é um processo lento de sedimentação da vontade popular. mas não é necessariamente a opinião de todos os membros nem a opinião de qualquer pessoa em particular. consciente ou inconscientemente. O Poder da Mídia na Formação da Opinião Pública Como se forma a opinião pública? Quais os instrumentos eficazes para esse fim? A formação da opinião pública. Legislativo e Judiciário. até então.1. transformam-se em conversação quase que diária. vai se formando a opinião pública. 74.

cativante. e isso faz com que a informação nem sempre seja fidedigna e confiável. cultos e ignorantes. ricos e pobres. Observa Ana Lúcia Sabadell que a mídia. “é a um tempo criadora e modificadora poderosa do comportamento social”. 181). Costuma-se dizer que existem três formas de poder efetivo: o poder de punir.poderoso sistema de comunicação de massa possa eventualmente derrubar um mandatário político. ao desejo inato de conquistar aprovação e simpatia. colorida. mas também que eles pensem como pensamos. mas também e principalmente. “dá particular destaque aos problemas e escândalos (exemplo: corrupção de juízes) e nunca noticia o cotidiano normal do sistema jurídico”. Rev. que é a tarefa própria do Poder Judiciário. Há até quem fale em liberdade de empresa e não em liberdade de imprensa. até os mais longínquos pontos do país. No mínimo vem embalada da maneira que melhor atinja os interesses dos detentores do poder. condicionando. nos países de livre manifestação de . no que se refere à Justiça e seu funcionamento. sem contestação. pode-se dizer que o jornalismo brasileiro evoluiu nos últimos dez anos e muito contribuiu para a fiscalização da gestão pública. pode-se fazer com que alguém faça o que deve ser feito. dos Tribunais. a opinião pública. Dessa maneira a notícia acaba. escreve com propriedade Carneiro Leão (Fundamentos da Sociologia. também podemos levar as pessoas a fazer o que queremos. A mídia sempre esteve próxima do poder estatal e econômico. por meio de uma linguagem emocional. que alcança palacetes e favelas. tornando-se mercadoria. p. IMPORTÂNCIA DA OPINIÃO PÚBLICA “A opinião pública”.. Poder que penetra nas casas. persuasiva. 5ª ed. A grande problemática é que a imprensa brasileira tem muitos outros interesses. porque tem o poder de condicionar. podemos não somente fazer que os outros façam o que queremos. E ainda convencidos de estarem pensando por si próprios. é tratada de tal forma que já vem comentada. 175). contribuindo decisivamente para que ela se torne cada vez mais transparente. A forma implícita é a mais grave porque o comentário acaba virando notícia. além daquele estritamente jornalístico. Baseada na importância que dão todos à crítica. Ed. Entretanto. o poder de premiar e o poder de condicionar. p. premiando. no seio das famílias. explícita ou implicitamente. [p. o que contribui para a formação de uma opinião estereotipada e sensacionalista (Manual de Sociologia Jurídica. Punindo. Pois esse é o poder da mídia. 178] 75. muitas vezes.

constitui elemento decisivo de interação social. fruto de condicionamentos sociais. tanto quanto possível aproximado da realidade e com previsões a respeito de suas tendências e da evolução provável. tem a opinião pública especial importância para a Sociologia Jurídica porque age como um verdadeiro termômetro. 179] No campo do Direito. como órgão de informação e formação de opinião pública. e nossas instituições tão mal estruturadas e aparelhadas. [p. revelando ao legislador e demais autoridades que atuam na ordem jurídica a temperatura social em tomo de questões sociais relevantes e indicando as mudanças que precisam ser feitas nas leis e nas instituições jurídicas. Daí a grande força que possui a imprensa escrita e falada. porque no Brasil. produtos ou empreendimentos. pode derrubar do poder quem lá se encontra e colocar outro. como muito oportunamente lembrou K. ou pelo menos não tê-Ia contra. do bom e do mau. do justo e do injusto. agindo em caráter particular. O SENTIMENTO COLETIVO DE JUSTIÇA Há em todo indivíduo. 85). é indispensável ao estudo de qualquer ciência social. Os programas de televisão vivem fazendo pesquisa de opinião pública para saberem como agradar o público e merecer a preferência de audiência. quando as eleições se aproximam. um sentimento acerca do certo e do errado. mesmo . pode atingir enormes proporções. 76. De forma específica. vivem de olho nas pesquisas feitas sobre a preferência do eleitorado. não se dá atenção à opinião pública no que diz respeito a tais questões. A mudança de gosto público pode arruinar uma indústria ou enriquecer outra. O efeito maciço de uma tomada de posição feita por milhares ou milhões de pessoas. Por isso. Davis (A Sociedade Humana.pensamento. pode fazer de um anônimo um herói ou do herói um vilão. Os políticos. a primeira verificação da opinião pública que se impõe realizar é no que concerne ao sentimento coletivo de justiça. p. Dúvidas não temos em dizer que nossa legislação é hoje tão ineficaz. lamentavelmente. para serem lembradas na hora em que se vai às compras. porque sabem que para chegar ou manter-se no poder precisam ter o apoio da opinião pública. É em razão disso que. As empresas vivem oferecendo seus produtos através das propagandas mais atraentes e sofisticadas possíveis. Isto tudo evidencia que o conhecimento da opinião pública. tanto as empresas como os políticos mantêm grupos cuja missão consiste em pesquisar e despertar a simpatia do povo para suas atividades. pode dar início à guerra ou levar à revolução.

muda-se a opinião. produtoras de efeitos negativos. 180] duta e a desaprovação que o consenso ético-social impõe à mesma forma de comportamento. sem prévia consulta à opinião pública a respeito da matéria legislada. há também um sentimento coletivo. Baseado nos resultados de diversas pesquisas feitas. ficando ineficazes. isto é justo. prisão perpétua e outras penas mais severas. sua adequação ou não ao que é tido como justo. muito embora não estejam ainda suficientemente explicadas as relações motivadoras das diversas gradações ou formas em que esse sentimento se apresenta. para que possa elaborar leis justas. de Miranda Rosa. já que. cuja aplicação vem causando profundo desequilíbrio social. Assim como há um sentimento individual de justiça. perderam a razão de ser. Ao legislador especialmente importa conhecer o sentimento coletivo de justiça.sem nunca ter estudado direito ou tocado a mão em um compêndio de leis. as pessoas afirmam com veemência: isto é uma injustiça. imediata. mas. passado o impacto. Freqüentemente fala-se em leis injustas. exatamente porque foram elaboradas ao arrepio dos interesses sociais. é possível afirmar que o sentimento de justiça varia em suas manifestações. sobretudo na Europa. Fala-se até em pena de morte. O exame do sentimento de justiça. a aprovação social das sanções que o Direito estabelece. . Nem sempre fazer justiça consiste na simples aplicação da lei. de tempo para tempo e de lugar para lugar. com as variações do sentimento coletivo de justiça de tempo para tempo. no qual se baseia a sociedade para estabelecer seus padrões de comportamento . uma vez que nem tudo que é legal é justo. repressiva. bem como o afastamento de outras no futuro. escreve F. porque afastadas do sentimento coletivo de justiça. garantidoras da validez e eficácia das normas. ou a distância entre a desaprovação da norma jurídica acerca da con[p. poderiam ser conseguidas mediante o prévio conhecimento do sentimento coletivo de justiça. Um crime grave. adequadas aos interesses e conveniências sociais. é certo etc. muitas normas existentes tomaram-se vazias de conteúdo social. principalmente no mundo econômico. faz com que a opinião pública se incline no sentido de exigir uma justiça mais severa. abrange necessariamente o das normas existentes. frente a determinadas circunstâncias.É aquilo que se tem chamado de consciência jurídica da população. Tal conhecimento proporcionaria também ao legislador as condições adequadas para fazer as modificações necessárias na legislação vigente. Também abarca a maneira como a opinião do público se manifesta sobre o comportamento ilícito. um escândalo financeiro ou político. A. Leis injustas existem. conforme já demonstrado quando falamos dos efeitos negativos da lei. A correção dessas distorções.

e que isso ocorre com grande freqüência. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE O DIREITO E SUA UTILIDADE SOCIAL Outro aspecto da opinião pública de interesse sócio-jurídico é aquele que diz respeito à conveniência ou utilidade social do Direito. 181] butos. Outros entendem que ele se presta a manobras que o desvirtuam completamente. A sociedade global acredita no jurídico como algo indispensável à coesão e à sobrevivência grupal. O mesmo ocorre com o ICMS.77. sem a arrecadação dos tri. e um estudo minucioso das causas. mas em nível interindividual há descrédito subjacente na justiça. contra os oprimidos de todos os tipos. já é comum encontrarmos pessoas que. pois O Estado normalmente não gera recursos. Para muitos o Direito não passa de simples meio de se valerem os mais fortes da máquina estatal. saúde. não seria possível eliminar algumas dessas causas e reconquistar a opinião pública? O que acima ficou dito é de fácil demonstração quando atentamos.. por exemplo. embora seja o Direito considerado e aceito como forma mais eficaz de controle social em sua organização e aplicação. Se for feita uma pesquisa sobre a importância dos tributos e a necessidade de sua arrecadação.[p. para as normas que estabelecem a obrigação tributária. Com efeito. conforme constatado através de pesquisas realizadas em vários países. ninguém gosta e procura esquivar-se. gaboleiam-se de terem conseguido escamotear milhões de imposto. ao nosso ver. segurança. ver-se-á que a maioria do grupo entende necessário o pagamento dos impostos para a consecução de objetivos sociais. IPI. diga-se de passagem. ISS. Todos compreendem que não é possível atender às despesas da administração pública com educação. embora normalmente honestas a ponto de não tirarem um centavo de ninguém. a fim de se procurar modificar . Em matéria de Imposto de Renda. Por que essa aversão generalizada ao pagamento dos tributos? Por que essa idéia já arraigada no sentido de não se considerar desonesto fraudar o fisco? Por que essa oposição ou resistência às normas tributárias? Caberia. Por que tem o Direito uma imagem tão distorcida da realidade? Conhecendo as causas que levaram a opinião pública a se formar de modo tão averso ao verdadeiro objetivo do Direito. apenas os administra em prol da coletividade. ou ainda sua correta aplicação como instrumento de ordem social. por exemplo. relativo às condições de classe social. uma pesquisa profunda da opinião pública em tomo do assunto por parte do fisco. entretanto. Neste ponto. estradas etc. existem posições conflitantes. Crêem os grupos que a justiça é fenômeno dependente. sofre questionamento da opinião pública quanto à sua eqüidade. Na hora de pagar o tributo.

forçando-o a fraudar. Talvez as leis tributárias sejam mesmo extorsivas.as coisas para o futuro. Do ponto de vista social. houve uma tremenda reação do público. facilitando a arrecadação. dos serviços executados etc. exigindo do contribuinte excessivo encargo tributário. como no caso do Imposto de Renda que sabidamente recai mais direta e pesadamente sobre os assalariados por sofrerem o desconto na fonte. muito além de sua capacidade. o que sem dúvida facilitaria o trabalho de arrecadação e fiscalização. O fisco deveria engendrar meios de alcançar com suas malhas os de maior capacidade econômica. necessidade. em que se procurasse dividir de forma mais equânime as obrigações tributárias de modo a não incidirem sempre sobre os mesmos. o que poderia ser evitado mediante a reformulação do sistema tributário. isso tudo poderia ser evitado se. Talvez o povo não tenha confiança na Administração. pois com base em tal . o que poderia ser evitado mediante um esforço de reconquista da confiança pública. de pescar também o peixe grande do comércio e da indústria. bem como a realização de um serviço organizado e sistemático. critérios de fixação. Os inconvenientes de se deixar de contatar e esclarecer a opinião pública acerca de questões tributárias podem ser demonstrados com a chamada taxa do lixo. o que seria evitado mediante amplo esclarecimento das obras realizadas. antes do lançamento da taxa do lixo. 78. Talvez o povo não esteja suficientemente esclarecido sobre o destino dado pela Administração Pública ao dinheiro arrecadado através dos tributos. Em nossa maneira de ver. quando anos atrás a taxa começou a ser cobrada. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE AS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS Aquilo que o público em geral pensa a respeito das instituições jurídicas é outro aspecto da opinião pública de interesse para a Sociologia Jurídica. 182] Contudo. É evidente que para a coleta desse lixo é necessária uma estrutura empresarial. sendo a taxa exatamente para tal fim. sob pena de se tomar impossível a vida. não acredite que o dinheiro público esteja sendo honestamente empregado. acredito que ninguém conteste a necessidade de tal taxa. ensejando milhares de ações judiciais. eis que o lixo de uma grande cidade tem que ser recolhido diariamente e com eficiência. aliviando a sobrecarga dos assalariados. podendo-se arrecadar mais com menos esforço. gente e material. [p. a opinião pública fosse esclarecida a respeito de suas causas. objetivos. o que em muito prejudicou a arrecadação.

assunto este da maior gravidade e a merecer uma especial atenção. de modo a alcançar seus objetivos sociais. Se realmente estivermos empenhados em recuperar o Judiciário. sob pena de se tomar a instituição totalmente irrecuperável. então é alto tempo de se procurar saber onde estão as causas dessas deficiências e de se realizarem as mudanças necessárias. mas sim com base em ampla pesquisa da opinião pública e mediante ampla contribuição de todos os segmentos sociais relacionados com o mundo jurídico. portanto. tudo é justiça: a polícia. O resultado das pesquisas realizadas sobre o funcionamento do sistema judiciário não é nada animador. não em segredo de justiça como se pretendeu fazer em 77/78. acredita que só pobre vai para a cadeia. [p. A população não possui bom conhecimento do sistema jurídico. não confia na justiça. parciais. Urge igualmente um estudo das causas. Quando a opinião pública se forma no sentido de considerar uma determinada instituição deficiente. ou confia muito pouco.opinião é possível saber se as instituições estão ou não funcionando satisfatoriamente. sua docilidade diante do poder. sob pena de uma desmoralização cada vez maior da instituição. ou passíveis de corrupção. então será necessário fazer-lhe as reformas necessárias. e. ineficaz. o sistema carcerário etc. Há uma boa parcela da opinião pública que entende serem os tribunais ou os juizes influenciáveis pelos poderosos. sem credibilidade. 183] . do seu grau de incidência. tem uma imagem negativa de seus operadores. a Defensoria Pública. das repercussões sociais que produz a opinião que predomina no que tange à imparcialidade dos órgãos judiciais. ou sua vulnerabilidade às influências dos mais bem atendidos na divisão da riqueza social. o Ministério Público.

pois. abrangente. de que dispõe uma ciência para realizar seu objeto. um conceito de método. **** Após termos tratado do objeto da Sociologia Jurídica. Convém esclarecer. instrumentos e atividades. que não vamos tratar aqui dos métodos que são adotados desde as formações doutrinárias e teóricas da Sociologia. nas sociedades contemporâneas do tipo primitivo e nas sociedades desaparecidas.Capítulo XV O MÉTODO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA Conceito de método. mas sim. A comparação. São os meios. ainda que de forma sucinta. 185] dos meios ou processos dispostos convenientemente para . O método utilizado pela Sociologia Jurídica. cujas regras foram enunciadas por Durkheim em celebrado estudo. genérico. É o caminho utilizado para a realização de um objetivo. nem do chamado “método sociológico”. toma-se necessário estabelecer. devidamente organizados e coordenados. CONCEITO DE MÉTODO Método é o meio mais racional e eficiente para se atingir um fim desejado. Para tanto. como já afirmamos. É o conjunto [p. dos processos e técnicas de trabalho empregados pela Sociologia Jurídica na investigação e realização do seu objeto. para não fugirmos aos objetivos deste singelo trabalho. recursos. vamos agora dedicar este capítulo ao exame do seu método. 79. no estudo de qualquer ciência é indispensável estabelecer o seu objeto e definir o seu método. A observação: nas sociedades contemporâneas do tipo moderno. A interpretação. desde logo.

reunião dos meios que se empregam nas ciências para achar a verdade. pode-se afirmar com segurança. o método jurídico. ou para comunicá-lo. que já fazem parte das matérias estudadas no curso de Administração. podemos dizer que método é maneira eficiente de fazer as coisas. se não forem executados com método. Vê-se. interpretação e comparação. O estudante que não tem método nos estudos (deixa para estudar somente na hora das provas) nunca será um bom estudante. A razão pela qual algumas pessoas. levam muito a sério a questão relacionada com organização e métodos. Hoje. Por isso torna-se desnecessária qualquer discussão em torno do uso do termo “método”. pode até tirar boas notas. pp. é modo racional de proceder. não é muito diferente do utilizado nas ciências sociais em geral e pode ser resumido em três operações principais: observação. está justamente no fato de as primeiras serem pessoas metódicas. mas não para aprender. e especialmente para chegar a um conhecimento científico. o método utilizado pelo jurista. propondo em lugar de “método” a palavra “processo”. 80. conseguem fazer tanta coisa. para conseguirem realizar os seus objetivos. como têm feito alguns. As empresas industriais e comerciais dos nossos dias. mas pouco aproveitamento tirará dos estudos. Quanto à importância da utilização de um método. 97-114). [p.alcançar um fim. nas mesmas 24 horas do dia. basta que se diga ser ele indispensável no desempenho de qualquer atividade que se propõe a alcançar algum objetivo. Estuda para passar de ano. que não teria a Sociologia Jurídica condições de realizar os seus objetivos sem desenvolver as suas atividades de forma metódica. desde a mais simples à mais complexa. acabam se revelando deficientes. já está generalizado o uso do termo “método” para indicar os processos e as técnicas empregados na investigação social. O MÉTODO UTILIZADO PELA SOCIOLOGIA JURÍDICA Segundo Levy Brühl (Sociologia do Direito. pois. Trocando isso tudo em miúdos. e outras quase nada conseguem. suscitando debates por entenderem não ser próprio o vocábulo para descrever as operações intelectuais realizadas pelo investigador ainda na fase da observação propriamente dita. 186] . Os simples serviços domésticos realizados pela donade-casa. tomado o termo em seu sentido mais amplo.

Há survey para todos os fins: publicidade. como os processos. Com base nesses documentos é possível. registros cartorários etc. pois todos esses atos ficaram devidamente registrados. Em nosso século a técnica do inquérito social foi altamente aper. cuja finalidade é lançar permanentes . divórcios etc. Deve. como os códigos. dentre as quais podemos destacar: a) os textos legislativos ou regulamentares. superabundantes mesmo. Nas sociedades contemporâneas de tipo moderno a observação é bastante fácil. adotar uma postura de observador. define o seu objeto. Entendê-se por inquérito a pesquisa. Na tarefa de coletar dados importantes para o estudo que se pretende fazer.. por meio das quais sabemos como as leis estão sendo aplicadas. conjectura uma solução provável. isenta de qualquer juízo de valor. entretanto. coleta os dados.80. 187] feiçoada nos Estados Unidos. política etc. Foi criado o Instituto da Opinião Pública. ocorreram no Rio de Janeiro no ano passado. como por exemplo o inquérito. Quem se propõe a realizar uma pesquisa. b) as coleções de jurisprudência. sujeitando-se a posteriori verificação. a saber: a) sociedades contemporâneas de tipo moderno. Consiste em ouvir pessoalmente os indivíduos componentes de determinado grupo que se deseja estudar. fundador da Escola de Ciência Social e do método monográfico. pois as fontes de informações são abundantes. literatura. onde os estudiosos do problema criaram uma verdadeira Sociologia Experimental baseada no survey (inquérito). separações judiciais. ou processo de investigação feito muitas vezes por meio de questionário. a ponto de não se conseguir dominá-las completamente. ciência. saber quantos casamentos. A Observação Consiste a observação na coleta de dados ou fatos sociais importantes para o estudo que se está realizando. esporte. b) sociedades contemporâneas de tipo primitivo. a fim de conhecer a realidade social através de suas manifestações concretas. o estatístico etc. cinema. Quem primeiro usou esse método cientificamente na Sociologia foi o francês Le Play. Pode a observação ser realizada em diferentes tipos de sociedades.. leis etc. pode o investigador lançar mão de vários métodos (tomada aqui a palavra em sentido estrito). por exemplo. e que posteriormente deverão ser examinados. c) sociedades desaparecidas.[p. classificados e interpretados. c) os documentos de caráter técnico. As mais importantes fontes nessas sociedades são as escritas.1.

o raciocínio do entrevistado. Na formulação dos quesitos é preciso saber perguntar (como perguntar). É o seu método por excelência. conclui-se que um dos principais instrumentos de trabalho a ser utilizado para conhecê-las é a estatística. a fim de evitar perguntas confusas e ensejadoras de respostas dispersivas. enumera a freqüência dos fenômenos sociais.inquéritos no seio da comunidade a fim de conhecer-lhe a opinião a respeito dos principais problemas do mundo atual e avaliar a evolução dessa opinião. para dela extrair as conclusões necessárias ao seu estudo. O inquérito é geralmente realizado por uma equipe mais ou menos numerosa de pesquisadores e dirigido por um especialista mais experimentado. bem como a indução das leis a que tais fenômenos globalmente obedeçam. classificação formal e análise dos fenômenos coletivos ou de massa.” O emprego da estatística no campo sócio-jurídico tem sido criticado por alguns autores. é indispensável uma formulação preliminar das hipóteses a investigar. A estatística. é necessário estabelecer com clareza e precisão o seu objetivo (o que perguntar). por seu turno. 99) ao escrever: “Tendo em vista que as instituições jurídicas são coisas coletivas. Para apreciar o verdadeiro alcance de uma [p. aperfeiçoada nesta última década. para que os dados coletados sejam realmente representativos de toda a sociedade ou da fração dela que se está investigando. é preciso dispor de elementos numéricos exatos. Há mesmo quem afirme ser a estatística o meio oficial de se afirmar inverdades. dar muita atenção à carga semântica variável de certos vocábulos ou de expressões idiomáticas. tão exatos quanto possíveis. Assim sendo. e outros detalhes. principalmente por falta de confiança nos dados fornecidos pelos órgãos oficiais. definição e delimitação do problema. Em outras palavras. pois caso contrário as conclusões finais serão um logro. 188] instituição e medi-Ia no tempo e no espaço. e levantados periodicamente. realizadas por vários institutos e entidades respeitáveis. À quem perguntar é outra questão que deve merecer particular atenção. Antes de iniciar a pesquisa. entende-se por método estatístico o conjunto de processos que tem por objeto a observação. pois é o agrupamento metódico dos fatos sociais suscetíveis de avaliação quantitativa. que lhe permite chegar aos fatos. A importância da utilização da estatística em questões sociológicas foi muito bem assinalada por Levy Brühl (Sociologia do Direito. com a formação. em face da . o que evidencia a importância da pesquisa para a Sociologia Jurídica. para tanto. p. Ao longo do nosso estudo fizemos referência a dezenas de pesquisas sobre muitos temas. pois há uma técnica minuciosa a ser aplicada. à realidade social. afastando perguntas capazes de induzir a resposta ou condicionar . devendo-se.

à falta de escrita. Pode-se. mediante a presença física do pesquisador. conhecer seus hábitos e costumes. posto que contêm grande número de informações não encontradiças em outros lugares. quem não vê a importância de saber o número e o tipo de crimes que ocorrem nos diferentes meios. Terá que se misturar com eles. onde se verifica a sua maior incidência etc. pelo menos de mais relevante. então. ganhar sua confiança.2. pois foram todos registrados. esses dados são preciosos. ouvir e observar. Em tese. a observação é feita in locu. testamentos. Mas não foi ainda coligida e muito menos consultada. a política. 189] de uma sociedade da mesma época. Se o propósito é conhecer. divórcios. verificar com grande evidência as profundas diferenças existentes entre o direito de uma e de outra sociedade. porque tudo ou quase tudo que nele se passa. Entendemos. conforme já exposto na parte em que tratamos dos fatores sociais da evolução do direito. sendo mesmo na maioria das vezes bastante acessível. separações judiciais. por força de determinados fatores sociais. como a cultura. contemporânea. nas diferentes cidades. fica devidamente registrado. estados ou regiões do país? Ou então. todavia. mas do tipo moderno. reconhecimento de filhos naturais etc. não haverá outro meio de realizar tal pesquisa a não ser deslocando-se o pesquisador para esse meio para ali ver. . mesmo não tendo absoluta confiança nas cifras publicadas e ainda que se apontem erros voluntários ou involuntários que se deixaram escapar. a situação da família entre os nossos indígenas. razão pela qual o incremento da estatística jurídica é. não seria difícil e de alto custo o emprego da estatística no mundo jurídico. por exemplo. a economia. no plano científico. O conhecimento do direito de uma sociedade do tipo primitivo adquire particular importância no momento em que é comparado com o direito [p. A Observação nas Sociedades Contemporâneas de Tipo Primitivo Nessas sociedades. 80. assistir às suas festas e cerimônias. caso houvesse um trabalho sério e organizado de coleta dos dados. que. uma medida de grande urgência.? Tais dados não permitiriam a adoção de uma série de medidas preventivas e repressivas? Sobre estes assuntos e muitos outros fatos jurídicos a documentação existe. a religião etc. participar de sua vida diária.manipulação muitas vezes feita nos dados que lhe serviram de base.. Quem não reconhece o quanto seria útil saber o número de casamentos.. principalmente em questões econômicas.

Ter-se-á que recorrer aos documentos escritos. que parte do geral para o particular (o que vale para o geral há de valer para o particular). pergaminhos porventura existentes.Além disso. e o indutivo. finalmente. Com que espírito deve o pesquisador interpretar os dados postos à sua disposição? A primeira regra e mais fundamental é considerar os fatos sociais como coisas. o direito primitivo apresenta traços particularmente interessantes e originais. a ponto de constituírem objeto de uma disciplina especial. 190] dade. hebreus etc. Durkheim recomenda aos sociólogos o abandono desse conhecimento espúrio. antes mesmo de iniciarmos a pesquisa. Se sobre o social. devendo o intérprete livrar-se das prenoções de que a vida social nos encharca o espírito com relação aos temas da socie. Nessa tarefa podem-se utilizar vários métodos. Tácito sobre os germanos. A Observação nas Sociedades Desaparecidas No que se refere. Nesse ponto a arqueologia tem contribuído grandemente para um melhor e maior conhecimento do direito de antigas civilizações. isto é. A INTERPRETAÇÃO A interpretação que. como vimos. monumentos. consiste no exame e classificação dos fatos sociais coletados. que são as fornecidas por terceiros. Não tendo . Pode-se ainda lançar mão de informações indiretas.[p. como a dos egípcios. caldeus. como as que nos dá Heródoto sobre os persas. Quer isso dizer que os fatos sociais devem ser considerados realidades diversas das idéias. p. sobre as coisas nada sabemos antes da pesquisa cuja realização porventura empreendamos realizar. extraindo-se deles as primeiras conclusões. Em verdade. que segue caminho inverso. enfatiza Machado Neto (Sociologia Jurídica. através de suas inúmeras descobertas.. 71). a etnologia jurídica. já nosso espírito está cheio de noções prévias (prenoções) sobre sua natureza e seu comportamento. às sociedades que deixaram de existir. o que toma tremendamente penosa a tarefa do pesquisador. do particular para o geral. 80. 81. muito embora a aplicação de ambos no campo sociológico seja severamente criticada. Possidônio sobre os trácios. como o dedutivo. a observação está naturalmente circunscrita aos vestígios que essas sociedades deixaram. é a segunda operação do método da Sociologia Jurídica.3.

merecem ser aqui destacados: 1) O jurista e sociólogo deve dirigir sua atenção exclusivamente para os fatos jurídicos tais como tentamos defini-los. e sua significação inicial tem tão pouca importância para o jurista quanto os diferentes sentidos que adquiriu no decorrer do tempo. [p. e que por isso mesmo evolui também incessantemente. como normas de conduta coletivas. interessam mais ao jurista os efeitos sociais produzidos pelo escrito do que o sentido original do texto.a comparação. ou seja.emanado da pesquisa. que vulgarmente significa examinar simultaneamente duas ou mais coisas para lhes determinar semelhança. e maior ao momento em que esse fato ou idéia começa a agir. como o fato individual ou o anedótico. uma vez que sobre as coisas não podemos ter prejulgamentos ou prenoções. Do ponto de vista sociológico o termo não . como sói acontecer para o historiador. pp. aos olhos do jurista sociólogo. 2) Interessa-lhe. o que merece ser tomado em consideração não é o tempo astronômico. mas sim o momento em que exercem sua influência. Significa que deixará de lado a priori o que se revelar puramente descritivo. o tempo do calendário. Somos levados a dar menor atenção ao aparecimento material de um fato ou idéia. estabelece alguns princípios de interpretação que. Tratar os fatos sociais como coisas é. 191] 82. Um texto jurídico é. mas sim o tempo social. Muda. diferença ou relação. 108 e 109). É uma espécie de ser vivo destinado a produzir seus efeitos dentro de um ambiente em constante evolução. constantemente de sentido. 106. 3) Tratando-se de documento escrito. não o momento em que se verificaram materialmente os fatos. Levy Brühl. A COMPARAÇÃO Chegamos finalmente à última operação do método da Sociologia Jurídica . tal conhecimento somente pode ter sido fruto de prejulgamentos e prenoções. portanto. por sua vez. libertar o espírito desses prejulgamentos e dessas prenoções. pois. cuja significação e importância continuam ligadas às circunstâncias que envolveram sua origem. a sua pureza ou o seu teor verídico. A noção de autenticidade chega a suscitar-lhe um interesse muito restrito (Sociologia do Direito. por sua importância. algo diferente de uma peça de arquivo. a relação cronológica entre um fato e outro da mesma natureza. a produzir seus efeitos sociais. Em outros termos.

se estamos estudando os problemas relacionados com a família brasileira. Uma reforma de tal magnitude e necessidade. audiência dos órgãos e instituições que atuam na ordem jurídica . e jamais conseguirá atingir os seus objetivos sociais. Através de tal comparação. ou traços em comum entre elas. sendo utilizado. o que poderá aumentar a nossa experiência e levar ao aprimoramento das nossas instituições. mas em épocas diferentes. da Colônia. no mais absolu. é possível ter um conhecimento profundo das instituições jurídicas. mediante comparação nos planos vertical e horizontal. A comparação pode e deve ser feita em dois planos: o plano vertical.Tribunais Federais. mais abrangentes e definitivas.[p. suas funções sociais. 192] to sigilo ou segredo de justiça. Antes disso. No plano vertical ou temporal comparam-se resultados de observações feitas em uma mesma sociedade. semelhanças e diferenças entre elas existentes e chegar-se a outras conclusões. Estaduais. e os resultados aí estão. Juízes. qualquer mudança ou reforma será feita empiricamente. espacial ou geográfico. Assim. temporal ou histórico. e investigar as causas que os provocaram. tinha que ser precedida de ampla coleta de dados mediante pesquisa da opinião pública. como por exemplo no norte. portanto. mas todas contemporâneas. por exemplo. sul do Brasil. é possível notar as diferenças existentes entre as normas do direito dessas sociedades contemporâneas. as origens de algumas instituições atuais. e o plano horizontal. para atingir os seus objetivos. para indicar o cotejo ou confronto das conclusões parciais obtidas na fase da interpretação. bem como o grau de aperfeiçoamento de instituições análogas de outras sociedades. do Império. Foi o que aconteceu com a chamada reforma do Poder Judiciário levada a efeito através da Emenda Constitucional nº 7/77 e da Lei Orgânica da Magistratura. leste. mudanças e alterações necessárias. a fim de se estabelecerem as relações.conhecimento indispensável para se fazerem as reformas. motivadas por fatores sociais e atuantes em cada região ou país. sua eficiência ou ineficiência.foge desse sentido. . bem como das normas ou institutos jurídicos existentes . podemos comparar a situação da família na atualidade com a da época da República. Somente através do emprego judicioso do método (ou métodos) que acabamos de delinear. Mudou para pior. e certas instituições antigas. O que ela tem de bom não é novo e o que ela tem de novo não é bom. No plano horizontal ou espacial a comparação é feita entre os resultados obtidos nas observações efetuadas em diferentes sociedades. praticamente no escuro. Fizeram a tal reforma sem ouvir ninguém. ou mesmo entre diferentes países. atuaram apenas dois ou três elementos que se julgavam donos da verdade. É ainda possível verificar.

193] . deveriam ser examinados. Ter-se-ia que observar como vem funcionando o Judiciário em cada Estado. quais as deficiências e dificuldades de cada lugar.Ministério Público. Ordem dos Advogados. o público em geral. nada será mudado para melhor. Fala-se muito. comparados. morosidade e emperramento. atualmente. [p. Esses dados. através de técnicos especializados. em reforma eleitoral e agrária. motivada por interesses políticos e feita empiricamente. nas capitais e no interior. interpretados. mediante pesquisa metódica e científica dessa realidade. Com base nessa realidade poder-se-ia fazer uma reforma eficiente. A menos que tais reformas sejam precedidas de um profundo conhecimento das aspirações do povo e da realidade brasileira. classificados. eliminando as causas de suas deficiências. e só então teríamos uma descrição da realidade social do nosso Poder Judiciário. Teremos outra reforma casuística.

Comportamentos de desvio. segundo o qual o termo tem sido empregado com três significados diferentes. Etimologicamente.Capítulo XVI DIREITO E ANOMIA Noção de anomia. norma. 83. com reduzida vinculação à rigidez da estrutura social ou à natureza de suas normas. falta. Merton. ritualistas. ao encerrar este trabalho. a saber: l) desorganização pessoal do tipo que resulta em um indivíduo desorientado ou fora da lei. em seu famoso estudo sobre a divisão do trabalho social. inovacionistas. e nomos quer dizer lei. a tecer algumas considerações sobre anomia. Vem de a + nomos. conforme assinalado por Robert Biers. NOÇÃO DE ANOMIA A palavra tem origem grega. por reputá-lo um tema da maior importância na atualidade e que guarda perfeita adequação com tudo aquilo que ficou exposto nas partes anteriores. donde a significa ausência. num esforço para explicar certos fenômenos que ocorrem em sociedade. . privação. Depois dele diversos autores têm abordado o conceito com variações quanto ao seu exato entendimento. anomia significa falta de lei ou ausência de norma de conduta. Palavras finais. caso o nosso programa comportasse. Não sendo possível fazê-lo. inexistência. de evasão e rebelião. Foi com esse entendimento que Durkheim usou a palavra pela primeira vez. **** Muitos outros temas de relevância para a Sociologia Jurídica poderiam ser ainda abordados. O pensamento de Robert K. Tipos de comportamento: conformistas. portanto. Causas do comportamento anômico.[p. vamos nos limitar. 195] tedt. O pensamento de Émile Durkheim.

como um verdadeiro fenômeno universal. não contém normas. Assim sendo. existindo a respeito várias teorias. Pode variar de intensidade . Por causa entende-se aquilo que determina a existência de uma coisa: a circunstância sem a qual o fenômeno não existe. conflito de normas. Eliminada a causa. em princípio não deveria ocorrer comportamento anômico. o agente causador do fenômeno social.em uma sociedade vamos encontrar maior incidência de comportamento anômico que em outra. pois. . Por quê? Se as leis são boas. entretanto. em conseqüência. o fenômeno haverá de desaparecer. bem elaboradas. Muitos sociólogos têm se empenhado em encontrar as causas do comportamento anômico. vamos encontrar em algumas maior incidência de um tipo de desvio mas o fenômeno sempre existirá. adequadas aos interesses sociais. o que resulta em situações sociais que acarretam para o indivíduo dificuldades em seus esforços para se conformar às exigências contraditórias. é necessário distinguir causa de fator. vamos encontrar comportamento de desvio. mas que por muitos são confundidas. 84. coisas diferentes. de sorte a não existir desvio. 196] Antes de mais nada. entre as quais vamos examinar a de Émile Durkheim e a de Robert K. Merton. e bem estruturadas. que é a síntese. É. Entendemos. por mais eficientes que sejam as suas normas de conduta e bem estruturadas e aparelhadas as suas instituições jurídicas.2) conflito de normas. Todos deveriam estar empenhados em manter um comportamento em harmonia com as normas de conduta social. ou ainda. todavia. e se as instituições destinadas a manter a ordem jurídica são eficientes. princípio. o contrário de sociedade. em seus casos limítrofes. Mas não é o que ocorre. eis que em qualquer das variações do significado de anomia está presente a idéia da falta ou do abandono das normas sociais de comportamento. desorganização pessoal. sua origem. que sociologicamente a palavra pode ser usada em um quarto sentido. ou seja. motivo ou razão de ser. como anarquia é o contrário de governo. que pode ocorrer por ausência de lei. CAUSAS DO COMPORTAMENTO ANÔMICO (OU DE DESVIO) Em qualquer sociedade do mundo. situação social que. ou pelo menos guarda perfeita correlação com os três primeiros. é. 3) ausência de norma. pode-se afirmar que anomia indica desvio de comportamento (ou comportamento desviante). [p.

de qualquer forma. Pode-se dizer. isola-se em sua atividade especial. a ignorância. 85. Mas não é certamente a causa de crime. preocupa-se o estudo da anomia com as causas. o indivíduo. e não simplesmente com os fatores que são inúmeros. É tentar secar a árvore daninha arrancando-lhe simplesmente as folhas. porque há milhões de analfabetos no Brasil que não enveredaram pelos caminhos do crime. Mas não é causa de criminalidade. a miséria. por sua vez. a idéia dessa obra comum. ao lado de um desenvolvimento favorável do . segundo as estatísticas. precisa organizar-se.A Divisão do Trabalho Social . que como já assinalamos foi o primeiro a usar a palavra “anomia” numa tentativa de explicação de certos fenômenos sociais. portanto. porque há um número muito grande de pobres que não delinqüem. Como já ficou dito. c) a divisão de tarefas produz especialização. Durkheim invocou palavras de Comte no sentido de que as separações das funções sociais tendem espontaneamente. 197] Para o eminente sociólogo francês. porquanto na mesma população carcerária encontramos 85% de pessoas analfabetas ou portadoras apenas de instrução primária. não mais sentindo a presença dos colaboradores que trabalham a seu lado na mesma obra. b) a organização impõe divisão de trabalho ou tarefas. igualmente. O PENSAMENTO DE DURKHEIM SOBRE A ANOMIA Em seu famoso livro . Pode-se dizer. é outro fator de criminalidade. assim desenvolveu seu pensamento: a) a sociedade moderna. que o analfabetismo.Durkheim. a partir de um certo ponto. 90% ou mais da população carcerária é constituída de pessoas provenientes das classes sociais mais humildes. o comportamento de desvio. é um fator de criminalidade. por via de conseqüências. concorre para o resultado. debruçado sobre suas tarefas. inclusive de produção e sobrevivência.Já o fator. perdendo mesmo. mesmo porque de quase nada adianta combater os fatores sem eliminar as causas. d) a especialização ocasiona isolamento dentro do grupo. um enfraquecimento do espírito de solidariedade do grupo global. motivando. É a circunstância que. por exemplo. e) o enfraquecimento desse espírito de solidariedade acarreta uma influência dissolvente e. desde que a divisão do trabalho social supera um certo grau de desenvolvimento. porque. concorre para a sua maior ou menor incidência. embora não dê causa ao fenômeno. que a pobreza. para poder atingir os seus fins. sem cortar-lhe a raiz. [p.

a certos paí. da falta de solidariedade e calor humano que lá sentiram. Há calor humano. espírito de solidariedade etc. às vezes até com interesses antagônicos aos interesses do grupo global. Foi-se o tempo em que era possível saber de tudo. profissionalmente falando. diminui-Ihes a extensão ou amplitude. embora criticado por alguns. Já numa grande cidade ninguém sabe de . ocorre também um enfraquecimento do sentimento de solidariedade grupal. e em cada ciência há inúmeras especialidades. comparando-se a vida do interior com a de uma grande cidade. Até mesmo entre nós isso pode ser constatado. como disse alguém. Numa cidadezinha do interior. a abafar o espírito de conjunto. tal divisão transforma-se numa fonte de desintegração ao provocar as especializações dos indivíduos. ou pelo menos a entravar seriamente o seu desenvolvimento. Não há mais lugar em nossos dias.[p. saber muito bem fazer determinada coisa. À medida que o indivíduo aprofunda os seus conhecimentos. Pessoas que vão do Brasil. Todos se preocupam com todos e estão prontos para se auxiliarem mutuamente. que “toca sete instrumentos” etc. para se poder competir no mercado de trabalho. Com essa perda de visão da obra comum e do seu sentido. O indivíduo se isola dentro do grupo. Isso é facilmente constatado nas sociedades superdesenvolvidas dos nossos dias. e se junta a outros indivíduos de sua especialidade formando grupos menores.espírito de minúcia. todo mundo conhece e sabe de todo mundo. queixam-se da frieza. não deixa de possuir certa razão. principalmente no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas e por isso mesmo superorganizadas. é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos. em face da vastidão do saber moderno. limita a visão social do indivíduo. Há várias e diferentes profissões e em cada profissão inúmeras especializações. e isso tomou-se uma necessidade. para o indivíduo que é “pau para toda obra”. uma exigência. como os sábios da Grécia. Nessas sociedades é visível que. entretanto. É preciso. ao afirmar que divisão significa dispersão. Especialista. A especialização. cada vez mais. em visita ou a trabalho. Hoje o saber humano é dividido em várias áreas ou ciências. forçoso é reconhecer. 198] ses da Europa ou mesmo aos Estados Unidos. Citou também Espinas. como uma contingência social. ao lado das inegáveis vantagens que a divisão do trabalho representa como recurso imposto pela própria complexidade crescente da vida social. O pensamento durkheimiano. O mesmo ocorre com a atividade humana. fazendo-o perder a visão global ou de conjunto da atividade social.

que teve o mérito de estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia. e cada qual corre atrás dos seus próprios interesses. não nos dizem respeito: uma pessoa ferida num acidente pode ficar horas a fio sem receber socorro. sem que ninguém venha em seu socorro. um desequilíbrio entre os meios e as metas. acarretando. Merton sustentou que em toda sociedade existem metas culturais a serem alcançadas. Para atingir essas metas existem os meios. não é verdade no que se refere às sociedades subdesenvolvidas. portanto. 86. onde se observa que o maior índice de desvio. metas sócio-culturais. que são os recursos institucionalizados pela sociedade. a influência dissolvente da personalidade que sofre o operário que passa o dia todo apertando parafusos numa fábrica de automóveis. sociólogo americano. entendendo-se como tais os valores sócio-culturais que norteiam a vida dos indivíduos. entretanto. MERTON SOBRE A ANOMIA Em 1938 Robert K. principalmente no que tange à criminalidade. escreveu um artigo famoso de apenas dez páginas. Os outros não nos interessam. Embora morando numa cidade de milhões de habitantes. O fenômeno não é novo e já foi até explorado por Charles Chaplin como tema do filme “Tempos Modernos”. no lazer etc. que os meios existentes não são suficientes nem estão ao alcance de todos. [p. 199] Partindo de uma análise da sociedade americana. na escola. transformando-se em parte da sua obra clássica Teoria e Estrutura Sociais. ou pode ser assaltada e massacrada por um marginal aos olhos de uma multidão. muito embora dezenas de pessoas passem ao seu lado em seus veículos sem se incomodarem. em face da tese de Robert K. De um lado. Ocorre. fazemos até questão de não saber quem é. Se a tese de Durkheim apresenta muitos pontos verdadeiros no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas. Quer isso . Merton. verifica-se justamente entre os menos especializados ou mesmo sem nenhuma especialização. aos quais aderem normas de comportamento. onde se destacou entre outras coisas. diária ou semanalmente nos relacionamos com um pequeno grupo. E o que é pior. assim. meios socialmente prescritos para atingi-los. por esta razão a tese foi contestada e preterida por muitos. Somos capazes de morar muitos anos em um mesmo prédio sem saber quem é o condômino do lado ou de cima. Merton. O PENSAMENTO DE ROBERT K.ninguém. e de outro. O artigo foi posteriormente revisto e aumentado pelo autor. normalmente das nossas relações de atividade no trabalho.

poder. na realidade apenas alguns poucos conseguem por terem ao seu dispor os meios institucionalizados. prestígio. 4) de evasão. 200] acordo com os meios e as metas sociais. É a conduta seguida pela grande maioria das pessoas na sociedade. podendo-se dizer a respeito deles que são positivos (+) quanto aos meios e também (+) quanto às metas. Os adeptos desse comportamento estão de [p. inclusive pelos estudantes em geral. e os recursos oferecidos pela sociedade para alcançar aqueles objetivos. que buscam adquirir cultura etc. 5) de rebelião. o sucesso na vida.dizer que. enquanto todos são insistentemente estimulados a alcançar as metas sociais. 2) inovacionista. muito poucos podem alcançá-la em face da escassez dos meios institucionalizados. Inovacionista é a conduta que está de acordo com as metas sociais. percebendo que os meios são insuficientes e não estão ao seu alcance. 86.1. Conformista é a conduta que busca atingir as metas sociais através dos meios institucionalizados. a saber: 1) conformista. através de estudo regular. concentrados nas mãos de pequena parcela da sociedade. o inovacionista está de acordo . inova. eis que o indivíduo. qual seja. mas. buscando realizar as metas através de outros meios. mesmo que contrários aos interesses sociais. Merton classificou os comportamentos socialmente relevantes em cinco tipos diferentes. Tipos de Comportamento Identificados por Merton Examinando o descompasso existente entre as aspirações culturalmente prescritas e o caminho socialmente estruturado para atingi-Ias. Disso resulta um desajustamento. Mas quantos realmente têm condições para atingir essa meta? Apesar de erigida em objetivo da vida de todos. popularidade etc. Merton ilustra isso tomando como exemplo a meta mais importante da sociedade americana. no empenho de alcançar as metas que lhe foram sugeri das e não dispondo de meios para tal. nisto incluindo fortuna. buscaria outros meios. 3) ritualista. respeitando assim as normas fixadas pela sociedade. Esse desequilíbrio entre meios e metas ocasionaria o comportamento de desvio individual (ou em grupo). um descompasso entre os fins sugeridos a todos e insistentemente estimulados. Em outras palavras.

Há aqui uma verdadeira inversão de valores. É negativo (-) quanto às metas e negativo (-) quanto aos meios. nunca havendo se atrasado ou faltado ao serviço. Percebendo que as metas sociais são mui elevadas e os meios existentes insuficientes para atingi-Ios. As normas de comportamento social são cumpridas pelos ritualistas a todo preço e em qualquer circunstância. os objetivos. ainda que não sejam socialmente aprovados. voltava a ser apagado. momento em que o acendedor dizia “boa noite”.. continua a aplicá-las ou a observá-las como se nada houvesse mudado na sociedade. perde de vista os fins. mas negativo (-) quanto às metas. mas está contra os meios. e se apega às normas como se fossem sagradas. destituídas de qualquer valor ou utilidade social. quando era dito “bom dia”. Ritualista é aquele que se conduz de forma justamente inversa ao inovacionista. há mais de duzentos quilômetros por hora. [p. Quem já leu o Pequeno Príncipe. É o caso de certas pessoas que se gabam de terem servido 30 ou mais anos na mesma repartição. entretanto. fazendo delas fins. tenho que apagá-lo porque amanheceu. os valores sociais. arcaicas. Abandona as metas. imutáveis. repetindo sempre “boa noite” e “bom dia”. Quando perguntado pela razão dessa sua conduta. E nessa rotina passava ele o tempo todo. de forma que eu acendia o lampião ao anoitecer e o apagava ao amanhecer. embora se encontre esta numa outra era.com as metas sociais. negativo (-) neste ponto. porque encontram nelas uma forma de realização pessoal. Procuram vencer na vida sem fazer força. apegando-se aos meios com tal importância que os transforma em fins. E enquanto falava ia acendendo e apagando o lampião. o ritualista abdica das metas. 201] Essa é a perfeita imagem do ritualista. acendendo e apagando o lampião e dizendo “boa noite” e “bom dia”. ele começou a girar mais rápido e cada vez mais rápido. sendo. Os inovacionistas adotam a filosofia de que os fins justificam os meios. ainda que já estejam totalmente vazias de sentido. recorda-se por certo do acendedor de lampião encontrado em um daqueles pequenos mundos que percorreu: causou estranheza ao nosso personagem o fato de que. Comportamento de evasão é aquele que se caracteriza pelo fato de abandonar as metas e os meios sociais. o acendedor de lampião explicou: antigamente o meu mundo girava bem devagar. pois as metas perdem a sua importância passando os meios para o primeiro plano. mal o lampião era aceso. E ainda que já estejam elas velhas. por outro lado. de modo que hoje.. sendo positivo (+) quanto a elas. ultrapassadas. Depois. . mas continuo a cumprir a minha tarefa. mal eu acendo o lampião ao anoitecer. mas. nada mudou por lá nem se registrou nenhum progresso funcional em sua vida. significado ou interesse social. pois. Pode-se representar o ritualista como sendo positivo (+) quanto aos meios.

O propósito do comportamento de rebelião. não é de desvio. usando os próprios símbolos de positivo (+) e negativo (-) utilizados por Merton. o conformista. em especial nos grupos familiar e profissional. portanto. mais simples e ao alcance de todos. podendo ser caracterizado como sendo negativo (-) quanto aos meios e negativo (-) quanto às metas. Como acentuou Merton. 202] metas (+) (+) (-) (-) (-) (+) 86. uma nova estrutura social. em síntese. Não pára. Comportamentos de Desvio O primeiro comportamento. Tipos de comportamento 1) conformista 2) inovacionista 3) ritualista 4) de evasão 5) de rebelião meios (+) (-) (+) (-) (-) (+) [p. é também positivo (+). aí a inconformidade do comportamento de rebelião. Faremos. razão pela qual ao mesmo tempo que é negativo (-) quanto aos meios e metas. ou dele retiram a adesão antes dada. Objetiva. mais abundantes e melhor distribuídos na sociedade. Ao mesmo tempo que se opõe às metas e aos meios sociais por julgá-las excessivamente elevados e insuficientes. a seguir. o comportamento de rebelião também está contra as metas e os meios sociais.2. que consideram todos os valores sociais irrelevantes ou incapazes de realizar o bemestar humano. . os adeptos desse comportamento estão na sociedade mas não são dela. e o estabelecimento de novas metas. Tal como na evasão. vivem no meio social mas a ele não aderem. foge da sociedade. propõe o estabelecimento de novas metas com a institucionalização de novos meios.Percebendo que as metas sociais são muito elevadas e os meios escassos. o quadro de classificação dos tipos de comportamento atrás descritos. uma vez que os seus adeptos buscam as metas culturalmente prescritas através dos meios institucionalizados para atingi-los e com respeito habitual às normas para isso fixadas pela sociedade. porém. É o tipo modal de comportamento. graças ao intenso condicionamento social exercido sobre o indivíduo. renunciando a tudo o que ela oferece ou determina. Exemplo típico desse comportamento é o dos hippies. é a derrubada dos meios e metas existentes. bem como de novos meios.

a conduta ritualista passa a ser. O ritualismo toma-se grandemente prejudicial à sociedade quando se trata do comportamento adotado pelos homens públicos do país (administradores. mantendo velhas e arcaicas instituições ou disposições legislativas já sem nenhuma adequação às novas realidades sociais. quanto às metas culturais. 203] sa alguma. não merecem observância. que se recusam a fazer mudanças ou reformas sociais necessárias. com a recusa de conformidade aos comportamentos socialmente estabelecidos. é assim a conduta observada. Os adeptos desse tipo de comportamento são um peso-morto na sociedade. do desencanto e desestímulo decorrentes do desajuste entre os processos socialmente aprovados para alcançar as metas culturais. um valor em si mesmo. os fins sociais perdem a sua importância. posto que. pretende a derrubada de todos os meios e metas sociais. despidos daquela motivação. porque ocorre a rejeição das metas culturais e dos valores que as sustentam.[p. do medo do insucesso. Como bem observou Miranda Rosa (Sociologia do Direito.). sem indagar da sua adequação àqueles valores e àquelas metas. porque ajustado aos tipos de conduta socialmente recomendados ou aprovados. Cumprir de qualquer maneira os regulamentos ou as ordens recebidas. p. No comportamento de evasão também há desvio. 105). O ritualista se caracteriza como comportamento de desvio por apresentar abandono das metas sociais e inversão de valores quanto aos meios que são elevados ao primeiro plano. comportamentos de desvio. não se limita a aperfeiçoar instrumentos ou instituições. contrários de algum modo aos padrões de metas culturais e de meios institucionalizados para atingi-los: portanto. Embora na aparência seja esse um comportamento conformista. ocorre no caso inconformismo quanto à manutenção dos alvos socialmente prescritos. por julgá-los inatingíveis. Prevalece. Enfim.Já os outros quatro tipos de comportamentos são não-modais. considerados todos irrelevantes ou incapazes de realizar o bem-estar humano. então. O comportamento de rebelião é o mais extremado de todos. O indivíduo abandona e virtualmente rejeita os alvos estabelecidos pela sociedade em razão do fracasso efetivo ou em potencial. quer substituição total de todos os instrumentos e instituições com o fim de realizar uma mudança . substituindo-os por outros de maneira total e revolucionária. como vimos. pois o cumprimento dos ritos estabelecidos pelos processos institucionalizantes adquire a dimensão e a importância de valor sócio-cultural. legisladores etc. a atitude de que elas não valem a pena de coi. e quanto aos comportamentos sociais aprovados.

razão pela qual deixamos a sua análise para o final. Sem dúvida alguma. fazer distinção entre conduta inovadora-criadora e conduta inovadora anti-social. assim foi em Cuba. Referimo-nos àqueles casos de inovações que visam criar novos meios. assim. condições específicas para estimular o abandono ou a burla das normas socialmente fixadas para se atingir as metas culturalmente estabelecidas. Dessa maneira a conduta divergente quanto aos meios toma-se no pensamento mertoniano uma reação normal a uma situação social definida e determinada. PALAVRAS FINAIS Nenhuma teoria. [p. cria. um aspecto positivo no comportamento inovacionista. bem como as faltas disciplinares. Normalmente se manifesta nos momentos de grandes crises sociais. sem teto e outros. a própria sociedade concorre para isso ao deixar de proporcionar. . assim foi na Rússia. a inobservância das regras de conduta social etc. com a mesma generalidade com que estabelece as metas. De certa forma. e assim continua sendo em nossos dias. os instrumentos prescritos ou admitidos para atingi-las. quando o desequilíbrio entre os meios e metas se toma muito grande e insustentável. com os movimentos dos sem terra. porque ela tem causas múltiplas. assim.completa na sociedade. é sem dúvida a causa remota da anomia que. em menor escala. e atingir os alvos culturalmente estipulados por todo o sistema. núcleo da teoria de Merton. 204] 87. entretanto. o motor à explosão e milhões de outras invenções que tantos benefícios trouxeram à sociedade e nos permitiram chegar ao estágio atual de desenvolvimento científico. desde a juvenil até a mais grave criminalidade. mais eficientes para a realização dos objetivos sociais. Nesse desvio de comportamento estão retratadas todas as formas de delinqüência. Assim foi na França. que deve ser ressaltado. Isso evidencia que nem todo comportamento inovacionista é necessariamente contrário à ética existente no grupo social. O desequilíbrio entre metas e meios sociais. como bem observou Merton. que acaba provocando comportamentos anômicos de diferentes gravidades. por sua vez. verdadeira bola de neve social. Há. num esforço do indivíduo para superar os obstáculos institucionais ou instrumentais. Graças a esse espírito inovador temos hoje a luz elétrica. em nosso entender. o inovacionista é o comportamento de desvio de maior freqüência na sociedade. esgota o tema da anomia. promove uma reação em cadeia. As normas são abandonadas ou contornadas. permitindo-nos.

Essa é a realidade social. Esse processo de urbanização aconteceu de forma desordenada e acelerada. não conseguiu se fazer presente nas áreas urbanas favelizadas. o Estado. Sem o diploma do ensino básico. como demonstrou o Censo de 2000. cerca de 12% da população do estado (O Globo. crise de transporte. Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE. A renda média de chefes de família em favelas é cinco vezes menor que no asfalto. mudaram-se os paradigmas. cerca de 91% da população brasileira vive em cidades. crise de desemprego. o que equivale a 52% deles. há enormes carências de infra-estrutura. siglas de facções e armas. como vimos quando tratamos da violência urbana (item 53). gerando dúvidas na população quanto às normas a serem observadas (conflito de normas). principalmente saneamento: 54. em boa parte (40%) nas capitais e suas periferias. praticamente em quatro décadas. Dos 2. cerca de 700 mil (um quarto) abandonaram a escola antes de concluir o ensino fundamental. seduzidos pelo tráfico. . 19.2002). Em relação à pesquisa anterior. Considerando-se o número de domicílios cadastrados em favelas no Estado do Rio (424. Isto não quer dizer que ele vai virar bandido. estima-se que 1. agressivos.181) e a média de quatro pessoas por habitação.01. feita em 2001 e concluída em novembro de 2003. E além disso.6 milhões de fluminenses vivem em favelas. 205] comportamento anômico. o número de moradias em favelas cresceu 35%. perderam-se as referências. As cidades. vivem brincando de polícia e ladrão.2004). armados. na educação e assim por diante. aos poucos inverteram-se os valores. São viciados. permitindo o surgimento do crime organizado. O déficit habitacional no Brasil passa de seis milhões de moradias. E o que isso gera? Crise habitacional. 28. o jovem está fora do mercado formal. porque a oportunidade de ascensão social (meios e metas) está condicionada à educação. O poder paralelo que assim se instaurou passou a impor as suas próprias regras. constatou que as favelas estão presentes em 48 dos 92 municípios fluminenses. os líderes comunitários foram obrigados a obedecer ao poder paralelo para não serem mortos ou terem que se mudar. significa que ele está à margem da sociedade.6 milhões de jovens de 15 a 24 anos que vivem no Estado do Rio. vivem a ilusão de poder. não se prepararam para receber tamanha massa humana. crise na saúde. Em busca de melhores condições de vida. Os jovens. forma mais grave de [p. em especial as metrópoles.1% dos domicílios são semi-adequados ou inadequados.07. segundo dados do Censo 2000 do IBGE (O Globo. e o resultado foi a favelização de áreas urbanas. de 1999. Os ícones desses adolescentes são marcas famosas.Vejamos como isso ocorre. Pior que tudo.

É preciso promover as mudanças sociais necessárias nas instituições.[p. reeditada sucessivas vezes pela Editora Zahar. 206] dade com outra solução. eliminar a exclusão social. A inovação deve ser. vivem do comércio de droga. medidas imediatas a serem tomadas. não existe solução única e milagrosa. obra pioneira no Brasil. o que fazer para modificá-la? A toda evidência.Levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (IBISIS). recomendamos a leitura do Capítulo XI da notável Sociologia do Direito do Professor F. que têm nas mãos o destino da sociedade. nas leis. afirma que atualmente a prática nos morros é a intimidação: tortura. O delegado Carlos Henrique Machado. orientar o planejamento familiar. na ordem econômica para melhorar a distribuição de rendas. Devem eles possuir um espírito inovador (e não ritualista) para realizar as reformas sociais necessárias nas leis. reduzir as desigualdades. nas instituições. dentre outras. por isso. Com o tempo revelar-se-ão paliativas. Numa favela de 30 mil pessoas. estabelecendo novas metas e institucionalizando novos meios. ou seja. mais cedo ou mais tarde acaba vindo a rebelião. diminuir o desequilíbrio entre metas e meios sociais. a reconquista dos espaços perdidos pelo Estado. enfim. determinação política das autoridades são. É preciso cortar o mal pela raiz. pelo menos 10%. tornar as metas mais acessíveis e os meios melhor distribuídos. uma das principais qualidades dos homens públicos. KatMartins . esquartejamento e incineração de corpos fazem parte do terror que esses traficantes impõem nas favelas. assim. constatou que o número de jovens (menores de 18 anos) que trabalham para o tráfico pode chegar a sete mil. Mas não resolverão o problema. e. Para maior profundidade do tema. ao alcance da maioria. na distribuição da riqueza. pois o desequilíbrio se torna tão grande que não se depara a socie. promover ações afirmativas. Se essa é a realidade social. três mil pessoas. para que os moradores tenham medo de denunciá-los. então. Atuação mais firme e organizada da polícia. aprimorar a educação. de Miranda Rosa. Quando isso não é feito. e não apenas arrancar as suas folhas. da Delegacia de Homicídios. A questão tem que ser enfrentada com medidas a curto. a não ser aquela de promover uma total reorganização. A. médio e longo prazo.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->