PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

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SERGIO CAVALIERI FILHO Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Professor da Universidade Estácio de Sá.

PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA
11ª edição revista e atualizada

Rio de Janeiro 2007

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................................................................Gênese do Direito..............................................................................................................Direito e Anomia ................................................................................. 75 Capítulo IX ........................................Sistemas de Escolha dos Magistrados.. 41 Capítulo VI ...........................................................................................Razões Sociais das Garantias Constitucionais dos Magistrados ............ 127 Capítulo XII ............... 81 Capítulo X . 69 Capítulo VIII ..............Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica ............................................................VII Apresentação ..........................................Objeto da Sociologia Jurídica ............................................................................................................................... 211 Índice Sistemático .................... 1 Capítulo II ..................................... 163 Capítulo XIV ...... 217 ........................ 149 Capítulo XIII .......................................................................................................... 209 Índice Alfabético-Remissivo ................................... 175 Capítulo XV ......................................................... 11 Capítulo III ............................................................................................... 185 Capítulo XVI .........................................Aspectos Sócio-Jurídicos de Algumas Áreas do Sistema Jurídico Brasileiro ................................................................................................................................................................ 31 Capítulo V ...............................A Opinião Pública ........A Autonomia da Sociologia Jurídica como Ciência e suas Relações com Outras Ciências Sociais ..............................SUMÁRIO Abreviaturas e Siglas Usadas ....................................O Método da Sociologia Jurídica ................... 57 Capítulo VII ............. 23 Capítulo IV .............................................................Fatores da Evolução do Direito .............. 97 Capítulo XI ...............Conceito Sociológico do Direito ..................................................................................... 195 Bibliografia ....................Importância do Estudo das Ciências Sociais e da Sociologia Jurídica em Especial ......Função Social do Direito ..................................................................................................................................................................Eficácia das Normas Jurídicas e seus Efeitos Sociais .Fontes do Direito ........................................ IX Capítulo I ........

ONU p. cit.ABREVIATURAS E SIGLAS USADAS art.-Lei ed. Rev. CDC CUT DAS DASP Dec. STF STM TRE TRT TSE artigo Código de Defesa do Consumidor Central Única dos Trabalhadores Divisão Anti-Seqüestro Departamento de Administração do Serviço Público Decreto Decreto-Lei edição Editora Escola de Magistratura do Rio de Janeiro Estados Unidos da América “International Center of Economic Penal Studies” Imposto sobre a Circulação de Mercadorias Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social Instituto Nacional de Previdência Social Imposto sobre Produtos Industrializados Instituto sobre Serviços Ordem dos Advogados do Brasil obra citada Organização das Nações Unidas página Pernambuco Professor Revista Supremo Tribunal Federal Superior Tribunal Militar Tribunal Regional Eleitoral Tribunais Regionais do Trabalho Tribunal Superior Eleitoral . Ed. Dec. PE Prof. EMERJ EUA ICEPS ICM INAMPS INPS IPI ISS OAB ob.

foi várias vezes reeditada.APRESENTAÇÃO Este trabalho foi escrito no início da década de 1980. não obstante despretensiosa. entretanto. nada mais do que a norma. o extraordinário Código de Defesa do Consumidor e o novo Código Civil. Talvez tenha alcançado a sua finalidade porquanto a obra. norma e valor indissociavelmente. De lá para cá. já sofreu várias mudanças. sob o título . perdese muitas vezes o sentido de sua finalidade social.no propósito de facilitar o estudo dessa cadeira integrante do currículo do Curso de Direito da Universidade Estácio de Sá. no exame diuturno da norma. de sorte que se os operadores do direito não tiverem essa visão tridimensional do direito. já que. A idéia de que o direito é norma. estando agora em sua 11ª edição. ardorosamente defendida por Kelsen.Programa de Sociologia Jurídica. O seu objetivo. “muita água correu debaixo das pontes do direito e inúmeros diplomas foram produzidos nas oficinas legislativas”. na aplicação da lei. . aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum. valendo-me da feliz imagem de Antunes Varella. Se de alguma forma este trabalho continuar contribuindo para a melhor preparação dos nossos operadores do direito. não estarão aptos a aplicá-lo de forma a realizar a sua função social. todavia. por sua vez. estará recompensado o esforço da sua revisão. o que procurei fazer agora sob o novo título . não mudou: continua sendo uma tentativa de transmitir aos estudantes uma visão sociológica do direito. Era preciso atualizar este trabalho. tanto é assim que há norma expressa determinando ao juiz atender. há muito está ultrapassada. O Jurídico se compõe de fato.Você Conhece Sociologia Jurídica? . inclusive uma nova Constituição que.

Escola Racionalista ou Contratual: a concepção do direito do ponto de vista racionalista. a que conferem faculdades de agir. de fazer ou não fazer alguma coisa. porém. Escola Marxista: origem e concepção do direito. Mas também encontramos a palavra direito ligada ao direito de cada pessoa. como o direito à vida. Costuma-se dizer que o Direito Objetivo é a norma de agir (norma agendi) e o direito subjetivo é a faculdade de agir (facultas agendi). Fala-se em direito para indicar o conjunto sistemático de normas (constitucionais. é preciso dizer de que direito vamos tratar já que a palavra direito pode ser utilizada com significados diferentes. quando alguém diz que tem o direito a isso ou àquilo. a palavra direito indica o direito subjetivo de cada pessoa (física ou jurídica). Escola Teológica: origem da Escola Teológica. à propriedade. Essas normas são de direito objetivo porque vivem e sobrevivem fora e independentes das pessoas. à educação. para que depois possamos compreender a sua razão de ser e a função que desempenha na sociedade. É uma situação . à saúde e assim por diante.Capítulo I GÊNESE DO DIREITO Escola Jusnaturalista ou do Direito Natural: a origem do jusnaturalismo. o conjunto de regras (leis. ou seja. Escola Histórica do Direito. Antes. estabelecer a sua fonte ou origem. costumes) que preside à nossa vida em sociedade. à liberdade. Essa faculdade corresponde a espaços de liberdade ou a poderes para atuar ou [p. 1] exigir uma atuação alheia. No segundo. regulamentos. **** Nossa primeira tarefa consiste em conhecer a gênese do Direito. penais. civis. Escola Sociológica do Direito: origem e concepção sociológica do direito.) destinado a organizar a sociedade e disciplinar a conduta humana na convivência social. administrativas etc. também chamado de Direito Positivo. por exemplo. No primeiro caso temos o Direito Objetivo.

Por essas razões entendemos necessário. ESCOLA JUSNATURALISTA OU DO DIREITO NATURAL Para os jusnaturalistas. eternos..Heráclito. permanentes. Sócrates. o criador teria inculcado em sua consciência um conjunto de princípios superiores. Platão etc. de modo a não permitir um entendimento uniforme até o Juízo Final. fazer um sucinto apanhado sobre as várias teorias ou escolas existentes. . outorgados ao homem pela divindade. vale dizer. antes de apresentarmos o enfoque da sociologia jurídica sobre a origem do Direito. Aristóteles. o mais entusiasta intérprete da filosofia grega entre os romanos. A razão principal dessa controvérsia está no fato de cada qual procurar ver e conceituar o Direito pelo ângulo de visão de sua ciência. esquecendo-se que pode ser ele enfocado através de pelo menos três aspectos diferentes. Em suma. ao trazer à existência a criatura. quando da criação.jurídica subjetiva de vantagem a que o direito objetivo confere proteção direta. teólogos. a estabilidade e a imutabilidade.e foi adotada em Roma por Cícero. 1. a fim de traçar-lhe o caminho a seguir e ditar-lhe a conduta a ser mantida. Origem do Jusnaturalismo A concepção do direito natural surge com os filósofos gregos . As principais características do direito natural seriam. Em nosso estudo vamos tratar do Direito Objetivo. como teremos oportunidade de assinalar. sociólogos etc. portanto. que constituiriam o direito natural. que a expôs eloqüentemente em sua obra. 1. até chegarmos àquela que mais se ajusta ao conteúdo da nossa matéria. e base de todas as leis. bom ou mau. das regras que organizam a sociedade e disciplinam o comportamento social. e com minúscula quando indica o direito subjetivo. uniformes. Seria como um sopro ético com que a Divindade bafejou a sua criação. ponto de referência para se saber o que é justo ou injusto. Como nasce o Direito? Em tomo dessa questão existiu e ainda existe a mais acirrada controvérsia entre juristas. o direito é um conjunto de idéias ou princípios superiores. A palavra Direito é normalmente escrita com letra maiúscula quando se refere ao Direito Objetivo. eternos e imutáveis. plena e específica. já que se trata de princípios imanentes ao próprio cosmos. cuja origem estaria na Divindade. De . imutáveis. filósofos.1.

Hamurabi. No seu entender. entregando-as ao homem para serem observadas.. ontem. Em suma. de origem quase legendária. que ela proíbe. sobre o Monte Sinai. Origem da Escola Teológica A Escola Teológica coexistiu com a Jusnaturalista durante toda a antigüidade. se não ordena nem proíbe em vão aos bons. como Moisés. Manu. a própria Divindade teria se empenhado em elaborar as primeiras leis. 2] ra. Não é preciso procurar um Élio Sexto para comentar ou interpretar. “ Esse trecho de Cícero sintetiza com precisão a concepção jusnaturalista. reta razão. conforme a natureza. já que as primeiras leis não teriam sido simplesmente inspiradas por Deus.1.. no entanto. a origem do direito não estaria ligada apenas indiretamente à Divindade. que apela para o que devemos fazer.. entretanto.. por isso que coloca em destaque a origem divina do direito e o seu caráter permanente e imutável. A concepção do direito se explana dentro do sistema filosófico de São Tomás de Aquino. o estudo do direito voltou a ser abrangido pela religião e continuou a ser considerado manifestação da vontade divina. lei única e eterna e imutável. como por exemplo o decálogo que. em todas as nações e para todos os tempos. mas sim. que. que foram os intermediários entre a Divindade e o povo no que diz respeito ao recebimento das primeiras leis. Sólon etc. constante. Com o aparecimento do Cristianismo. baseado nas Escrituras e nas . segundo a narração bíblica. ela não é diferente em Roma ou em Atenas. É de instituição divina que não se possa propor ab-rogar essa lei e que não seja permitido derrogá-la. ela será para todas as nações e para todos os tempos. ordenando-o. ESCOLA TEOLÓGICA A Escola Teológica em muito se assemelha à Jusnaturalista. e que desvia do mal. eterna. Em quase todos os povos antigos encontramos líderes político-religiosos. para o qual existiriam três categorias de direito. amanhã.... permanentes e imutáveis. a saber: o direito divino. difusa em todos. hoje. não é diferente hoje nem será amanhã. semideuses. 2. foi escrito pelo próprio dedo de Jeová. 2.[p.República: “Existe uma lei verdadei. não muda por suas ordens nem por suas proibições os maus. e entregue a Moisés. em duas tábuas de pedra. mas sim diretamente. mas escritas e outorgadas por Ele. pois também concebe o direito como um conjunto de princípios eternos.

O Direito positivo. ESCOLA RACIONALISTA OU CONTRATUAL Na Escola Racionalista ou Contratual agrupamos vários filósofos. São Tomás de Aquino tratou de explicar que a primeira. embora tenha como conteúdo a lei natural. lei natural e lei humana). culminando com Jean Jacques Rousseau. Para sair do isolamento. John Locke. e o direito humano. A origem desse direito. duas são as categorias de direito. e da qual decorreriam princípios que. não mais seria a divindade. do jusnaturalismo. os homens tiveram a idéia de viver juntos. 3. é produto dos homens. A Concepção do Direito do Ponto de Vista Racionalista Para os racionalistas. Montesquieu (Espírito das Leis). autores de obras notáveis. Quanto ao direito natural. divino ou terreno. só existe no espírito divino. a começar por H. alcançaria mudar. que em quase nada se diferencia do direito natural apregoado pelos gregos e romanos. o célebre “contrato social” que serve de título a um dos livros mais famosos de Rousseau. 4] . o direito natural. [p. por cujo intermédio aplicam-se os princípios da lei natural. em conseqüência. decorreria do pacto social a que o homem fora levado a celebrar para viver em coletividade. entretanto. autor da conhecida obra Contrato Social. por sua vez. nenhum poder. No início o homem teria sido isolado. a saber: a do direito natural e a do Direito positivo. e a terceira. como foi ilustrado por Daniel De Föe na conhecida história de Robinson Crusoé. 3. 3] Concílios. Puffendorf. mas sim a natureza racional do homem .1. Thomasius. estáveis e imutáveis.decisões dos Papas e de [p. ou órbitas jurídicas. publicada pela primeira vez em 1625). neste ponto. continuaria sendo um conjunto de princípios permanentes. fundando a sociedade através de um pacto. por provir de Deus. não se distinguindo. O caráter permanente e imutável do direito decorreria do fato de ser a natureza racional do homem igual por toda a parte. a mais importante figura do liberalismo dessa época.imutável diante de qualquer vontade divina ou humana. As relações dos homens em sociedade seriam disciplinadas pelas regras do direito positivo. a segunda é existente entre os homens por intuição. seguido por Thomas Hobbes (autor de o Leviathan). Reunindo esses três tipos (lei divina. em todos os tempos. Grotius (De Iure Belli ac Pacis.

Equivale isso a dizer que o Direito positivo deve respeitar os princípios fundamentais do direito natural por lhe serem superiores. e serve de fundamento para o segundo. este último considerado o seu fundador. tal como há entre o espírito e o corpo.de Deus para a própria razão do homem. haveria entretanto uma íntima e estreita relação. não da divindade ou da razão. a sombra e a realidade. por força das necessidades e usos do povo. ESCOLA HISTÓRICA DO DIREITO A Escola Histórica do Direito surgiu na Alemanha. como a linguagem. permanente e imutável. deslocou pela primeira vez a sua fonte . tendo como principais protagonistas Gustavo Hugo e Frederico Charles de Savigny. 5] . como se vê. e o Direito positivo. Esta escola. passou a pesquisar como se formava nas sociedades. superior. o Direito era um produto histórico. ou era resultado de um acordo entre os homens. visto que o primeiro é anterior. Em vez de indagar o que deveria ser o direito. formado gradativa e paulatinamente pelas tradições e costumes. 4. A escola inicia as suas atividades em pleno apogeu do neo-humanismo. Em ocorrendo tal afastamento. impõe-se a imediata reformulação do Direito positivo a fim de ajustá-lo aos imutáveis princípios do direito natural. decorrente das necessidades e usos do povo. A formação do Direito seria tão natural e espontânea como a origem da linguagem. essa escola rebelou-se contra a existência de um direito natural. Para ela. Embora se tenha pensado que a linguagem fora criada por Deus. decorrente. quando o direito era considerado pura criação da razão humana.Entre o direito natural. [p. não podendo deles se afastar sem se tomar injusto e iníquo. mas sim da consciência coletiva dos povos (Volks geist). Inúmeros vocábulos surgem em uma língua à medida que vão se tornando mais complexas as relações sociais. ao admitir que o direito natural tem origem na natureza racional do homem. no final do século XVIII e começo do século XIX. Pela primeira vez. a filosofia demonstrava que sua gênese. aquele conjunto de princípios imutáveis decorrente da razão. Também o Direito se constituíra naturalmente. sujeito a transformações progressivas. o processo de sua formação foi gradativo e paulatino. ao passo que em outras o número de palavras é ainda reduzido por causa da estagnação da vida social.

mas sim pela consciência nacional do povo. razão pela qual Marx o considerava a expressão do interesse da classe dominante. em vez de um direito geral e universal. Como assinala Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. regra essa única. Surge somente quando há uma sociedade . enunciada por dois pensadores alemães . Fixa o Direito. ainda que sejam em tudo desiguais. jurídica e economicamente organizada. pelo que se esforçou em demonstrar que o direito era um produto histórico. 276). instrumento ideológico de dominação da burguesia sobre o proletariado.Seguindo essa linha de raciocínio. de seus usos. as relações econômicas que predominam em uma sociedade em certo momento histórico. que incide sobre diferentes pessoas. com a diferença essencial de que o Estado para ele é uma instituição . sujeito a permanente e natural evolução. [p.dois grandes reformadores sociais. “é conquista definitiva da Escola Histórica a noção do caráter social dos fenômenos jurídicos. com seus dois elementos essenciais: continuidade e transformação. mais economistas do que juristas. Seduzido pelos ensinamentos de Hegel. ESCOLA MARXISTA A teoria marxista surgiu em meados do século XIX. expressão natural de sua evolução histórica.Karl Marx e Friedrich Engels . p. nem revelado por Deus. nem pela razão. foi afastar a concepção do direito natural. Origem e Concepção do Direito Para a teoria marxista. nem estabelecido arbitrariamente pela vontade dos homens. Marx. foi neles que se inspirou para formar suas idéias sobre o direito. como se vê. fez seus estudos na Faculdade de Direito de Berlim. com uma fonte emanadora do preceito jurídico e um órgão capaz de impor o cumprimento de suas prescrições.1. entendia Savigny que. sendo igualmente filósofo. o Direito pressupõe o Estado. 5. A grande preocupação da Escola Histórica. Isso significa que o Direito apenas sanciona uma relação já existente. acima de tudo. cada povo em cada época teria o seu próprio direito. 5. aplicando uma regra a uma situação preexistente.política. que também une intimamente o Direito ao Estado. A escola mostrou que os fundamentos do direito se encontram na vida social. 6] Essa concepção do Direito deve muito a Regel. entretanto. costumes e tradições de todas as épocas passadas. Eram esses fundamentos que as teorias precedentes iam buscar na razão”.

que tem por missão manter a ordem e a paz na sociedade. o Direito tem origem. nem por isso deve-se eliminar a instituição. hostilizaram-se mesmo. mesmo antes de existir o Estado. a proteção da saúde e da segurança públicas etc. mas. entendemos necessárias algumas considerações sobre a teoria marxista. em grande parte sentimental. ao passo que para Marx. o Estado é instrumento de pressão. não existindo Direito sem Estado nem Estado sem Direito. por mais homogênea que tenha sido. indiscutivelmente. por exemplo. ESCOLA SOCIOLÓGICA DO DIREITO A Sociologia e o Direito durante muito tempo ignoraram-se mutuamente. e por isso devendo ser combatido e destruído. pôde viver sem normas de conduta.eminentemente respeitável. é verdade. Na síntese da teoria marxista. 7] 6. Embora não seja nosso propósito. mas sim corrigi-la. Esse direito. Não é esta efetivamente a finalidade do Estado. quase divina. É falso. afirmar que todo Direito emana do Estado. Simplesmente porque existe moeda falsa não se deve acabar com a verdadeira. desde que apareça a sociedade. ibi jus). neste modesto trabalho. nem na razão ou na consciência coletiva. sobretudo o Estado moderno. muito antes da sociedade se organizar política e juridicamente. que constitua o cerne essencial e perene do direito. Em tempo algum uma sociedade. sendo errônea a idéia de que. Não menos falsa e truncada é a afirmação de ser o Estado instrumento de pressão da classe dominante sobre a menos favorecida. o Estado. aí fatalmente encontraremos o Direito (ubi societas. não em Deus. a fim de facilitar desde logo a compreensão de questões que oportunamente serão abordadas. mas no Estado. a divulgação da instrução. Qualquer observador é capaz de constatar que muito antes de existir o Estado. sobretudo nas regiões industriais que Marx pôde conhecer. é explicada pelo espetáculo da miséria que grassava na época. é direito. O encontro entre as duas ciências ocorreu paulatinamente a partir de . Tal posição. que deve ser combatido por todos os meios e finalmente destruído. fazer críticas a qualquer das teorias examinadas. já existiam regras disciplinadoras do relacionamento social. assume uma infinidade de funções que visam o bem-estar público: a distribuição da justiça. fazendo-a voltar aos seus reais objetivos. Não tem valor igualmente o pressuposto de que haja um substrato eterno. Se aqui ou acolá o Estado divorciou-se de suas verdadeiras finalidades. e pelo apoio que a classe dirigente concedia aos capitalistas beneficiários desse regime. [p. apresenta caracteres particulares. manifestando-se essencialmente através dos costumes. e que não existe direito nas sociedades chamadas primitivas. Ao lado da manutenção da ordem estabelecida.

é fonte criadora e área de ação do Direito. razão pela qual cada povo tem a sua história e seus fatos sociais. o meio em que o Direito surge e se desenvolve. Obrigados a viver necessariamente ao lado uns dos outros. carecemos de regras de proceder. o conjunto de normas que regulam a vida social. A sociedade. nos acontecimentos mais importantes para a vida social. onde há um capítulo dedicado às leis. portanto. O Direito não tem existência em si próprio. O Direito é. provindo da consciência das relações entre os indivíduos. mas sim filósofo. discipline a atividade dos indivíduos. Costumes diferentes implicam fatos sociais diferentes. Ele existe na sociedade.Principles of Sociology. a quem coube o trabalho de fixar definitivamente as relações entre o direito e a sociologia.1. A sua causa material está nas relações de vida. A razão disso é bastante simples: sendo o homem um ser social. ao mesmo tempo. justamente. no entendimento de Émile Durkheim. entendendo-se como tais os acontecimentos da vida em sociedade. o Direito tem a sua origem nos fatos sociais. Sem ser jurista. conforme as suas peculiaridades. refletindo os fatos sociais. cuja elaboração é lenta e espontânea da vida social.1882. de pensar e de sentir. entre os fundadores da Escola Sociológica. necessita de uma organização que. . [p. Origem e Concepção Sociológica do Direito Para a Escola Sociológica. Além de Durkheim. como Robinson Crusoé em sua ilha. A sociedade. culmina nos últimos anos do século XIX com Émile Durkheim. orientando a vida coletiva. valores. cuja história não passa de utopia. maneiras de agir. tradições. coube-lhe o mérito de ter reconhecido e evidenciado a natureza eminentemente social do direito. complexo de pessoas e coisas. 6. E o Direito não pode formar-se alheio a esses fatos por ser um fenômeno decorrente do próprio convívio do homem em sociedade. A sociedade humana é. Passando por vários autores. que significam. normas de disciplinamento da vida em coletividade. Esta organização pressupõe regras de comportamento que permitam a convivência social. seu foco de convergência. o Direito deve ser estabelecido à sua imagem. não pode viver isolado. Depois da Segunda Guerra Mundial verificou-se uma ligação mais ativa e fecunda entre sociólogos e juristas. práticas e condutas que refletem os seus costumes. sentimentos e cultura. Existindo em função da sociedade. 8] Paulo Nader sintetiza com maestria essa visão sociológica: “Direito e sociedade são entidades congênitas e que se pressupõem. quando foi publicada a obra de Herbert Spencer . merecem destaque Léon Duguit e Nordi Greco. pois a idéia do direito liga-se à idéia de conduta e de organização.

como o são os grupos onde se originam. dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (Introdução ao Estudo do Direito. o fato e o direito existem enquanto coexistem” (João Calvão da Silva. p. 25/26). oriunda da sociedade e para a sociedade.. para corrigir a sua imperfeição. sacerdotes e altas castas sociais a ele tinham acesso. e não da natureza física ou do mero psiquismo dos seres humanos. Coimbra. a vinculação entre ambas é tal que um não pode existir sem o outro. O Direito tem. 2). teria o seu fim. segundo a forma exata de Sforza. Enquanto teve por fundamento a razão. p. Criado pelo homem. 21a ed. considerar o Direito. Com efeito. portanto. normas ditadas pelas próprias necessidades e conveniências sociais. pp. Direito é realidade da vida social. 9] grande coluna que sustenta a sociedade. O que caracteriza a Escola Sociológica é. Responsabilidade Civil do Produtor. Em suma. O acesso à Justiça passou a ser a sua . pois.. ibi jus onde está a sociedade está o Direito. seria anárquica. Forense. mais especificamente. 25). Daí a veracidade de antigo brocado: ubi societas. Se o homem não vivesse em sociedade. O Direito é para a Sociologia Jurídica uma ciência essencialmente social. nem na razão. o Direito representa o grande esforço para adaptar o necessidades de vida” (ob. pois. Mas a recíproca é também verdadeira: ubi jus. 6/7). nem na consciência do povo. Saraiva. filósofos e juristas. as relações sociais. jamais poderia germinar em sua consciência a idéia do direito. Assevera o Mestre Miguel Reale: “O Direito não existe senão na sociedade e não pode ser concebido fora dela. uma relação dialética com a realidade social.onde está o Direito está a sociedade -. O Direito foi democratizado quando passou a ter origem na sociedade.exteriores ao indivíduo. não haveria o direito sem sociedade. Almedina. cit. pp. enquanto o Direito teve origem divina apenas os nobres. não como tendo origem em Deus. Uma de suas características é asocialidade. a ele tinham acesso os sábios.. Não são regras imutáveis e quase sagradas. o que permitiu que se afirmasse: “Não existe o direito e o fato. A democratização do Direito pode ser apontada como uma das mais relevantes conseqüências da Escola Sociológica. 12a ed. com os fatos que nela ocorrem. nas inter-relações sociais. mas sim variáveis c em constante mudança. As normas do Direito são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo no grupo. O Direito é a [p. e nem ainda no Estado mas sim na sociedade. pois o mundo do direito é o das relações entre os homens. a sua qualidade de ser social” (Lições Preliminares de Direito. ibi societas . Dignas de destaque as palavras do insigne Paulo Nader: “A sociedade sem o Direito não resistiria. 1990.

[p. como não poderia deixar de ser. o povo passou a ter consciência dos seus direitos como aspecto da cidadania. razão pela qual serve-lhe de base doutrinária. A Escola Sociológica. 10] .principal finalidade. o Direito ganhou as ruas. as praças e fez-se linguagem de todo o povo. é aquela que se concilia inteiramente com o conteúdo de nossa matéria.

trata-se de uma ciência essencialmente social. Atividades de cooperação e de concorrência. uma peculiaridade da sociedade humana. de como está entrosado com quase tudo que se passa na sociedade. critério da composição jurídica e suas características. não na Divindade. pp.mas sim na própria sociedade. 11] cigarro ou charuto. tomando o vizinho proprietário da semente lançada e dos seus eventuais frutos. A função social do Direito na atual ordem jurídica brasileira. semeando o seu campo. . de Direito Civil. A PRESENÇA DO DIREITO NA SOCIEDADE Nem todos têm idéia de quanto o Direito se faz presente no meio social. deixa cair algumas sementes sobre o campo vizinho. I. a satio. que deita fora o resto do seu [p. embora ignore. nas inter-relações sociais. e como tal tem sua origem. É difícil praticarmos um ato que não tenha repercussão no mundo do direito. 11/12). um ato jurídico. **** O Direito do ponto de vista sociológico é. participando das mais simples às mais complexas relações sociais. pratica. O fumante. O banhista. vol. que apanha na praia a concha preciosa trazida pelas ondas. tampouco no Estado . 7. abandonando uma coisa sua. pratica uma ocupatio. Função preventiva do direito.Capítulo II FUNÇÃO SOCIAL DO DIREITO A presença do direito na sociedade. nem na consciência coletiva dos povos. Critérios de composição de conflitos: composição voluntária. o camponês que. Por conseguinte. pois dá origem a uma figura de acessão. adquirindo a propriedade duma res nullius. nem na razão. Função compositiva do direito. Características da atividade de concorrência. realiza um ato de derelicto. um fato social. conforme vimos no capítulo anterior. critério autoritário. O conflito de interesse e sua composição. Como lembrou Ruggiero (Inst.

Diariamente. coopera na realização dos interesses dos outros. Envolvem fins ou objetivos comuns. realizam. econômicas ou não. cooperando assim cada qual na realização do interesse do outro. não precisando usá-la para sua própria moradia ou instalação. isto é. será a transportadora obrigada a indenizar os prejuízos. tudo aquilo que a vítima efetivamente perder e aquilo que deixar de ganhar em razão do acidente. mas todas elas. a transportadora se obriga a levá-los incólumes ao ponto de destino. quer se trate de relações entre indivíduos. mediante o simples pagamento da passagem. Como se vê. quer entre o indivíduo e o grupo social. a dona de casa. As primeiras caracterizam-se pela convergência de interesses.Tenha ou não consciência disso. Exemplo de atividade de cooperação é a do vendedor e a do comprador: o vendedor tem mercadorias para vender e o comprador tem interesse [p. necessita delas. Um indivíduo desenvolve uma atividade qualquer. e à medida que se empenha na realização dos seus interesses. E se por infelicidade ocorrer um acidente do qual resulte lesão ou morte para alguém. as suas características e o que podem gerar. temos antes que analisar as atividades que o indivíduo desenvolve na sociedade. o Direito invade e domina a vida social desde as mais humildes às mais solenes manifestações. pelo restante de sua sobrevida. quando adquire uma simples caixa de fósforo no quiosque ou gêneros alimentícios no supermercado. Por que o Direito se faz assim presente na sociedade? Qual é a sua função social? É o que procuramos responder neste capítulo. Os interesses dos dois convergem para um ponto comum. segundo as regras do direito. Para bem compreendermos a função social do Direito. podem ser reduzidas a dois tipos: atividades de cooperação e atividades de concorrência. 12] em adquiri-las. 7. o Metrô. ônibus. Graficamente podem ser ilustradas assim: >.1. quer se trate ainda de relações entre os próprios grupos. mediante o pagamento . O mesmo se diga do indivíduo que tem um prédio e. como a família e o Estado. um contrato de transporte. Atividades de Cooperação e de Concorrência As atividades humanas assumem formas múltiplas. realiza um contrato de compra e venda. quando milhares de pessoas tomam o trem. através do qual. até inconscientemente. propõe-se a ceder seu uso a outrem. ou outro qualquer transporte público. segundo a magistral lição de San Tiago Dantas. de que o outro diretamente se aproveita. envolvendo danos emergentes e lucros cessantes. entretanto.

Outro indivíduo. em posição de competidor ou concorrente. O médico. à medida que cada qual desenvolve sua atividade. embora tenham objetivos idênticos. dão-nos um exemplo de atividade de concorrência: eles poderão explorar seu comércio indefinidamente sem entrar em choque. Na atividade de cooperação. o advogado e outros profissionais liberais desenvolvem este tipo de atividade em relação aos seus clientes. Graficamente podem ser ilustradas assim: =. Nesse momento rompe-se o perfeito equilíbrio que deveria haver na atividade de cooperação. Dois comerciantes. dois indivíduos. propõe-se a pagar o aluguel pretendido pelo locador. uma visando a exclusão da outra. mas este se recusa a atendê-lo. São concorrentes. nesta espécie. sob muitos aspectos. O CONFLITO DE INTERESSE E A SUA COMPOSIÇÃO Tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência podem ocorrer conflitos de interesses. ainda que concorram entre si. positiva (ob. por exemplo. nunca se encontram. Uma das grandes características da sociedade moderna. que os colocam. estabelecidos na mesma rua e no mesmo ramo de comércio. Na competição há uma disputa. já que não o possui. ou para obter outra mercadoria em perfeito estado. em que as partes procuram obter o que almejam. A interação se manifesta direta e positiva. por sua vez. em que cada pessoa ou grupo procura reunir os melhores trunfos. fins semelhantes. [p. independentemente. coopera na realização do interesse do outro. A interação. verifica o comprador que há algum defeito que impede ou prejudica seu uso. pois não convergem para um interesse comum.. Procura então o vendedor para devolver o material e receber de volta o valor pago. 13] após pagar o preço e receber a mercadoria. p. no sentido de que perseguem. 23). 8. A lição de Paulo Nader bem sintetiza o que dissemos até aqui: “Na cooperação as pessoas estão movidas por um mesmo objetivo e valor e por isso conjugam o seu esforço. uma concorrência. esta forma revela atividades paralelas. Há reciprocidade de interesses entre o locador e o locatário. um em relação ao outro. Características da Atividade de Concorrência Há paralelismo nas atividades de concorrência.de aluguel. para a consecução de seus objetivos.2. cit. necessitando de um prédio para morar. se faz indiretamente e. de sorte que. e surge o conflito. sem a interferência ou colaboração do outro. 7. . paralelas. desenvolvem atividades independentes. Nelas. Outro exemplo encontramos em dois proprietários de prédios vizinhos: cada um pode usar sua propriedade como quiser.

que a sua honestidade é questionável etc. ou oferecer melhores produtos. Suponhamos por exemplo que o proprietário do imóvel A nele instale uma fábrica que solta fumaça e fuligem. onde há uma infinidade de condomínios.. e com isso ganhar a clientela do outro. Consideremos. Aqueles dois comerciantes. entretanto. O condômino prejudicado [p. estabelecidos na mesma rua com o mesmo gênero de comércio. dizendo. que seus produtos são de baixa qualidade. na verdade nada faz. Conflitos surgem igualmente nas atividades de concorrência.Pensemos agora no caso do inquilino que. por exemplo. após firmar contrato de locação e alojar-se no imóvel. continuarão em harmonia. solicita-lhe uma providência. o caso de dois condôminos residentes no mesmo prédio. alugá-lo. Entre esses dois estabelecimentos comerciais. o imóvel do andar superior começa a apresentar vazamento no imóvel inferior: umedece as paredes. muito constante nas grandes cidades. quando as partes vão além daquilo que lhes é lícito fazer no campo do seu próprio interesse. embora prometa resolver o problema. danifica os móveis. enquanto não transpuserem os limites daquilo que lhes é lícito. estaremos diante de um conflito de atividades de concorrência. ambos estarão em conflito. Estará rompida a convergência de interesses existente no momento da celebração do contrato e. Lembram-se dos proprietários de prédios vizinhos? Vimos que cada um pode usar seu imóvel como melhor lhe parecer: residir nele. recusa-se a pagar os aluguéis convencionados. ambos situados num bairro industrial e exercendo atividades lícitas. a lavanderia do imóvel B não poderá funcionar. Podemos defini-lo como . Este tipo de conflito. 14] procura o proprietário do imóvel superior por várias vezes. a partir de então. no apartamento 301. Um belo dia. surge um conflito. coloca-o a par da situação. ou buscam a mediação da justiça. Se o proprietário do imóvel A mantiver em funcionamento sua fábrica. apesar de concorrentes. moral ou física. e o proprietário do imóvel B aí se estabeleça com uma lavanderia. prejudica o conforto dos que nele residem. Paulo Nader pondera com propriedade: “O conflito se faz presente a partir do impasse quando os interesses em jogo não logram uma solução pelo diálogo e as partes recorrem à luta. é característico da atividade de concorrência. Sobre o tema. a despeito de insistentemente procurado pelo locador. um no apartamento 201 e o outro no andar imediatamente superior. Cada qual poderá também usar seu imóvel como bem lhe convier. instalar-se comercialmente etc. No momento porém em que o comerciante A resolver fazer uma concorrência indevida ou desleal ao comerciante B. mas este. Pode um deles até vender mais barato que o outro. por último.

tranqüilidade. 9. como alguém afirmou. À medida que cada um respeitar o disciplinamento estabelecido pelo Direito. estabelecendo regras de conduta na sociedade: direitos e deveres para locador e locatário. que é uma das bases do progresso da sociedade. para todos. mais se sujeita a novas formas de conflito e o resultado é o que hoje se verifica. mas na realidade assim não é. não conciliados pelas normas sociais. repetidamente citado: “O Direito está em função da vida social. A sua finalidade é a de favorecer o amplo relacionamento entre as pessoas e os grupos sociais. O Direito só irá disciplinar as formas de cooperação e competição onde houver relação potencialmente conflituosa. equilíbrio em suas relações.” Conclui o prestigiado autor: “Os conflitos são fenômenos naturais à sociedade. [p. Isto se faz mediante a exata definição do Direito. 23). que deve ter na clareza. p.. entre pessoas ou grupos. O Direito previne conflitos através de um conveniente disciplinamento social. enfim. quanto mais se desenvolve. O que determina a natureza do conflito é a natureza da atividade. 15] Esse é também o entendimento de Paulo Nader. p. podendo-se até dizer que lhe são imanentes. No conflito a interação é direta e negativa. 25). simplicidade e concisão de suas regras. Muita gente acredita que o Direito tem um caráter essencialmente repressivo. muito mais para evitar que os conflitos ocorram do que para compô-los.prevenir conflitos: evitar. quebra o equilíbrio e a paz social.oposição de interesses. segundo valores de convivência que a própria sociedade elege.. O Direito existe muito mais para prevenir do que para corrigir. A sociedade não tolera o estado litigioso porque necessita de ordem. os que ocorrem na atividade de cooperação. tudo faz para evitar ou prevenir o conflito. FUNÇÃO PREVENTIVA DO DIREITO O conflito gera o litígio e este. algumas de suas qualidades” (ob. Por isso. o ordenamento jurídico toma possíveis os nexos de cooperação. e aí está a primeira e principal função social do Direito . evitará entrar em conflito com outrem na sociedade. Todos os conflitos que podem surgir na vida social são redutíveis a um desses tipos: conflitos de cooperação.” Aduz que a função preventiva é exercida para “evitar desinteligências quanto aos direitos que cada parte julga ser portadora. os que se verificam na atividade de concorrência. . Ao separar o lícito do ilícito. cit. estabelecendo as limitações necessárias ao equilíbrio e à justiça nas relações. e conflitos de concorrência. cit. tanto quanto possível. vendedor e comprador. por sua vez. a colisão de interesses. Quanto mais complexa a sociedade. em que o maior desafio não é o de como viver e sim o da convivência” (ob.

a intolerância. isolado. a discórdia. comportar-se. “Cenário de lutas. o [p.. a sociedade não é simples aglomeração de pessoas. a colaboração. possuindo idênticos instintos e necessidades. visando atender uma necessidade social. estes acabam por ocorrer. porque nem todos na sociedade submetem-se à disciplina imposta pelo Direito. . os conflitos seriam tão freqüentes de modo a tomar impossível a vida em coletividade.. A sociedade reclama que as coisas sejam repostas num ponto de equilíbrio em que possam permanecer. como vemos mais uma vez. pois poderia viver e fazer o que bem entendesse. Se o indivíduo vivesse só. Quanto maior o relacionamento. 25). é uma ciência social. todas objetivando prevenir conflitos. portanto. 10.O Direito. E aí está a segunda grande função social do Direito: compor conflitos. cit. quanto mais complexas as relações sociais. FUNÇÃO COMPOSITIVA DO DIREITO A observância das normas previne muitas ocorrências. não necessitaria de regras de conduta. respeitar direitos e interesses dos outros. acolá. vejam só. com inúmeras normas de direito disciplinando as relações dos cônjuges. maior também a necessidade de disciplina e organização. os membros ligados por vínculos de afeição. Superar um conflito de interesses é aquilo que chamamos composição. um locatário que não quer pagar o aluguel e assim por diante. Ela se faz por um amplo relacionamento humano. Aqui é um vendedor que recebe o preço mas não quer entregar a coisa. pondera Paulo Nader. é inevitável. Suas normas são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo na sociedade. há que solucioná-lo. E como ocorrem! Basta entrar numa Vara de Família para se ter consciência dos conflitos que estão ocorrendo no lar. Pois bem: surgindo o conflito. o menor e mais forte grupo social. filhos etc. Sem essas normas de conduta. Vivendo em ambiente comum. de sangue. e. lamentavelmente. Vivendo porém em grupo precisa limitar-se. que vão reclamar soluções. p. é natural o aparecimento de conflitos sociais. maior será a possibilidade de conflito. Os litígios surgidos criam para o homem as necessidades de segurança e de justiça” (ob. mas que promove. as desavenças. igualmente. alegrias e sofrimentos do homem. Até mesmo na família. mas o conflito. pais. que gera a amizade. 16] amor.

substitui o livro defeituoso por outro perfeito. ob. No Brasil. determinar a restauração da situação anterior ou aplicar penalidades de diferentes tipos” (Paulo Nader. “O Direito apresenta solução de acordo com a natureza do caso. a rigor.307/96). e determinar qual o que deve prevalecer e qual o que deve ser reprimido.o conciliador ou o árbitro. 25). Temos ainda a Lei de Arbitragem (Lei nº 9. formas puras de composição voluntária. 11. 2) Critério autoritário. 11. Não se pode evitar o conflito. Surgindo o conflito.resolvido por meio da composição voluntária. O estudante. então.Em que consiste a composição de um conflito? Não consiste em fazer desaparecer o conflito. São.099/95) prevê expressamente (arts. O Critério da Composição Voluntária É aquele que se estabelece pelo mútuo acordo das partes. 21 a 24) uma fase de conciliação. formas mistas que estimulam e valorizam a participação dos litigantes na composição do conflito. A mais moderna legislação processual no mundo todo tem estimulado a composição voluntária como forma de aliviar a sobrecarga do Judiciário. 3) Critério da composição jurídica. como já vimos. a Lei dos Juizados Especiais (Lei nº 9. da qual poderão valer-se todas as pessoas capazes de contratar para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis. Ao chegar em casa observa que lhe faltam algumas páginas. Esse é o sentido de toda composição. antes da causa ser submetida ao julgamento do juiz togado. . reclama ao vendedor e este. entra numa livraria e compra um livro. cit. quase sempre atentando para os próprios deveres e obrigações estatuídos pelas normas do direito. p. 277/278) como no ordinário (art. 331). seja para definir o titular do direito. as partes discutem entre si e o resolvem da melhor maneira possível. uma vez que sempre contarão com a interferência de um terceiro . imediatamente.. conduzi da via de regra por [p. 17] conciliadores.1. O Código de Processo Civil também estabelece uma audiência prévia de conciliação tanto no procedimento sumário (arts. A conciliação e a arbitragem não são. CRITÉRIOS DE COMPOSIÇÃO DE CONFLITOS 1) Critério da composição voluntária. Houve um conflito de interesses . colocar os dois interesses em antagonismo na balança. por mais que se procure preveni-lo. é impossível. porque isso. por exemplo. volta à livraria. A maneira de solucionar o conflito é. todavia.

Foi uma solução tirada por Salomão do seu foro íntimo e que.a anterioridade. bem solucionou o conflito. fosse entregue à falsa mãe. . entretanto. disse. para desempenhar a tarefa de compor conflitos. filhos. O Rei Salomão mandou trazer uma espada com a qual. empregados etc. O Critério Autoritário Por esse critério.2. a publicidade e a universalidade. daquilo que a consciência lhe inspira. saímos do domínio do puro autoritarismo e entramos no domínio do direito. preferindo que seu filho. cabe ao chefe do grupo . Normalmente a autoridade lança mão do seu foro íntimo. Estes dois critérios. justamente aquele que mais nos interessa.. e aplicável a todos os casos que ocorrerem a [p. 18] partir de então. O Critério da Composição Jurídica e suas Características A composição jurídica é sempre feita mediante um critério elaborado e enunciado anteriormente. Muito usado este critério nas sociedades antigas. São pois características do critério jurídico . do próprio senso de Justiça. iria cortar a criança ao meio. e na célebre fórmula usada pelo Rei para resolver um conflito entre duas mulheres que disputavam a mesma criança. dando uma metade para cada mulher.. O chefe da família muitas vezes tem de resolver os conflitos de interesses que surgem entre os seus membros. ambas reclamando-a como filho. Na sociedade de hoje o critério autoritário é ainda utilizado no meio familiar. vivo. são imperfeitos e insuficientes para resolver conflitos de interesses que surgem nas sociedades humanas.aquela que imediatamente se opôs à idéia.Rei. 11. É aí que se apresenta o terceiro critério. parentes. quando estas atingem sua forma plenamente evoluída. Todos por certo já ouvimos falar na justiça salomônica. Cacique. A anterioridade é o traço característico e fundamental da composição jurídica. o poder de compor os conflitos de interesses que ocorrem entre os indivíduos que se encontram sob sua autoridade. Deve ter sido elaborado antes para poder ser aplicado ao conflito que ocorrer depois. menos perfeitas.3.11. no caso. Assim pôde constatar qual era a mãe verdadeira . e implica em dizer que o critério aplicado preexiste ao conflito. lançando mão de soluções que vai buscar em seu foro íntimo. alguns casos de composição tomaram-se famosos. Senhor etc. Graças à anterioridade.

19] nem a média do bem de todos. . Modernamente a sua missão é muito mais ampla uma vez que lhe cabe. que podem ocorrer tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência. em última instância. é necessário que se dê conhecimento do critério antes de sua aplicação. a elevação do nível cultural do povo. A primeira é a de prevenir conflitos. É preciso também que o critério tenha sido anunciado. 27). A Função Social do Direito na Atual Ordem Jurídica Brasileira Cumpre por último registrar que o Direito não desempenha apenas essas duas funções na sociedade. muito embora este último termo seja mais usado. a rigor. e isto ele faz através do critério jurídico. que o critério tenha sido elaborado antes do conflito. cit. Além de garantir o homem. Alguns autores preferem falar em generalidade em lugar de universalidade. é a ordenação daquilo que cada homem pode realizar sem prejuízo do bem alheio. destacamos as duas principais funções que o Direito realiza na sociedade. na atualidade é um fator decisivo para o avanço social. A segunda é a de compor conflitos. declarado pela autoridade que o elaborou. [p. que atenda à universalidade dos casos que se apresentarem dentro do mesmo tipo. revelado. Por universalidade entende-se que o critério jurídico nunca pode ser cominado apenas para um determinado caso concreto. cit. p. da produção das riquezas. que na belíssima lição de Miguel Reale “não é a soma dos bens individuais. Em suma. “O Direito.. Composição jurídica é somente aquela que obedece a um critério anteriormente elaborado e também previamente dado à publicidade. para que a composição seja jurídica. Concluindo. pois isto implica a universalidade. tem que ser realizada através de um critério anteriormente estabelecido e perfeitamente enunciado para conhecimento de todos. favorece o desenvolvimento da ciência. p. que acabam por ocorrer não obstante toda prevenção exercida pelo direito. na composição jurídica. 59). da tecnologia.. diz Paulo Nader. mas sim para todos os casos que se apresentarem com a mesma tipologia. Isto ele faz através do adequado disciplinamento das relações sociais. o bem comum. uma posição harmônica do bem de cada um com o bem de todos” (ob. 11. prover o bem comum. tomando-o conhecido. o progresso das comunicações.O que se entende por publicidade? Não basta.4. Quer isto dizer que todos os conflitos idênticos que surgirem após a elaboração e divulgação do critério deverão se compor pelo mesmo critério. promovendo ainda a formação de uma consciência nacional”(ob.

ser exercido contra a finalidade social que a lei teve em mira quando o reconheceu e protegeu. por sua vez. Pode-se afirmar que a passagem do individualismo para o social é a característica essencial da evolução jurídica do nosso tempo. 422 ao dispor que a liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. ao garantir o direito de propriedade. Em outras palavras. 186).A atual ordem jurídica brasileira dá grande ênfase à função social do Direito. III. além do qual se toma abusivo. Na jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal foi proposta a seguinte interpretação para esse dispositivo: “A função social do novo Código Civil não elimina o princípio da autonomia contratual. repita-se. cuja trilha foi seguida pelo nosso Código de 1916. a ordem. o que se concede ao indivíduo é uma proteção jurídica. o jurista Miguel Reale. XXII. pois não poderá. porque o Direito. [p. O novo Código Civil. 5°. é o instrumento de organização social para atingir essa finalidade. 170. mas atenua ou reduz o alcance desse princípio. dos mais simples aos mais complexos. ter afirmado que a socialidade é uma das suas principais características. Valer-se do direito para colimar resultados contrários à sua instituição. § 4°. 2a ed. p. XXIII. mais do que um direito subjetivo. 20] ao bem comum. Quem contrata não mais contrata apenas com quem contrata. e que altera substancialmente o conteúdo da atividade contratual. eis o abuso do direito” (Conflito de Vizinhança e sua Composição. Forense. a visão social do Direito . menos individualista. inaugurando um novo tempo no mundo negocial. Assim como o Código Civil de Napoleão foi fruto do liberalismo do século XVIII. A Constituição de 1988. a solidariedade e a harmonia coletiva. enfim. A função social do Direito é consagrada no novo Código Civil no seu art.. em caso algum. ou pelo menos um direito subjetivo que não tem no arbítrio do titular a sua única medida. ressaltou que terá ela que cumprir a sua função social (arts. prestigia esta questão a ponto do seu grande coordenador. o exercício de todo direito subjetivo está condicionado ao fim que a sociedade se propôs: a paz.o Direito como instrumento para a construção de uma sociedade mais justa. quando presentes interesses metaindividuais ou interesse relativo à dignidade da pessoa humana” (enunciado n° 23).foi a grande motivação do novo Código Civil. verdadeiro cinto de segurança. hoje. igualitária e solidária . 182. Temos ali uma cláusula geral a ser observada em todo e qualquer contrato. . San Tiago Dantas assinala: “Pode-se dizer que. contrata também com a sociedade. No artigo 187 do novo Código Civil a função social do Direito é colocada como limite para o exercício de todo e qualquer direito. III. Exige dos contratantes uma postura mais humana.100).

228 do novo Código Civil submete o exercício do direito de propriedade à sua função social. com os exemplos citados. seu estado normal de servir ao ser humano. e não quando destinado a latifúndio improdutivo. é que a socialidade não se resume a uma disposição abstrata. Um imóvel rural só atende à sua finalidade social quando utilizado na produtividade compatível com sua potencialidade. Ao falar em finalidade social o diploma civil refere-se ao destino social da coisa. de considerável número de pessoas. como não poderia deixar de ser. e estas nela houverem realizado. 1. mas a um princípio que modernamente alimenta toda a nossa ordem jurídica. Também aqui a finalidade social opõe-se ao individualismo.228 do Código Civil: “O proprietário poderá ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área. na posse ininterrupta e de boa-fé. por mais de cinco anos. obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante”.moradia..Em conformidade com a Constituição.e não para a especulação imobiliária. 21] . “O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais”. [p. indústria . podendo ser encontrado um eloqüente exemplo disto no parágrafo quarto deste mesmo artigo 1. comércio. caso em que será fixada uma justa indenização ao proprietário. O imóvel urbano também tem que ser utilizado em conformidade com a sua potencialidade . o § lº do art. em conjunto ou separadamente.. O que se evidencia.

está ligado à idéia de organização e conduta. que os “juristas ainda estão à procura de uma definição para o Direito”. como já vimos. como é sabido por todos. assim como a linguagem. O . é fato social que se manifesta como uma das realidades observáveis na sociedade. tais como prevenir e compor conflitos. lançando mão dos vários princípios expostos nos capítulos anteriores. já no século XVII. a religião. deve o estudante considerar todos os elementos dessa coisa. formulando um conceito que se enquadre na visão sociológica do Direito. Características das normas de conduta: a obrigatoriedade e a sanção. Provisoriedade e mutabilidade das normas de direito. Origem das normas de conduta: a escola monista e a escola pluralista. Propomo-nos neste capítulo a explicitar a concepção do Direito como fato social. finalidade etc. não é tarefa simples. arriscando-se aquele que se empenha em realizá-la a formular um conceito parcial. Kant teria afirmado. então deve ser ele entendido como um conjunto de normas de conduta que disciplinam as relações sociais. É fenômeno social. NORMAS DE CONDUTA Se o Direito. Antes de tentar conceituar qualquer coisa. É o que procuraremos fazer com relação ao Direito. a cultura.. que surge das inter-relações sociais e se destina a satisfazer necessidades sociais. Só assim poderá chegar perto da realidade na formulação do seu conceito. Essa tarefa se toma ainda mais arriscada quando se trata do Direito. seus requisitos. 23] 12. **** O Direito. como já ficou assentado. [pg. Conceituar. Conceito sociológico do direito. e então procurar fazer uma descrição de tudo isso.Capítulo III CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Normas de conduta. características.

isto é. 121 do Código Penal incrimina a ação de matar. o grupo versus o indivíduo e o grupo versus outro grupo. 13. com a garantia de que as partes nele envolvidas serão tratadas da mesma maneira. Não regula de forma direta. por exemplo. Seria um tiro sem bala. o Direito não se dirige a pessoas determinadas nem a relações consideradas individualmente. aplicáveis a todas as relações abrangíveis pelo seu escopo. . quando a norma do art. por exemplo. Não somente as relações que se travam entre o indivíduo e outro indivíduo são objeto do Direito. Por isso são chamadas normas universais ou genéricas.1. Cuida. é o Direito a única relação inteiramente determinada pela coexistência humana e que se exaure de homem para homem. pois.a sociedade e o indivíduo . totalmente inócua se tomaria a disciplina por elas imposta. Claro está que. pois na conjugação desses dois elementos . CARACTERÍSTICAS DAS NORMAS DE CONDUTA Trata-se de normas de conduta que se destinam a todos. mas também aquelas que se realizam entre o indivíduo versus o grupo. E nem poderia ser diferente.mundo do Direito é o mundo das relações entre os homens. o Direito da disciplina das relações extrínsecas do homem. como já assinalado. mas sim a casos hipoteticamente considerados. 24] 13. o contrato celebrado entre A e B em determinado momento e em determinado lugar porque a individualidade dos comandos não é própria do Direito. sob pena de o Direito não atingir os seus objetivos. se a observância das normas jurídicas fosse facultativa. O caráter de generalidade das normas do Direito faz que este tenha em vista apenas o que na sociedade acontece com mais freqüência. Assim. não objetiva concretamente o caso de A matar B. mas sim qualquer hipótese de homicídio. A Obrigatoriedade Em regra são normas obrigatórias. Sabe-se previamente como será resolvido um determinado tipo de conflito se e quando ocorrer. E isso permite. São também abstratas porque não se referem a casos concretos quando de sua elaboração. o prévio conhecimento do critério a ser aplicado na composição dos conflitos e assegura igualdade de tratamento às partes. Como tem sido assinalado por muitos autores.encontramos a sua razão de ser. de observância necessária. cabendo à moral a disciplina de suas relações intrínsecas. Portanto. [pg.

ou seja. tomou-se necessário estabelecer uma sanção. Ninguém pode ser bom pela vio. tomamos logo consciência da sua obrigatoriedade pois temos então que responder pelas conseqüências. O ato moral implica a adesão do espírito ao conteúdo da regra. que agem comandados pela vontade. Pondera o festejado Miguel Reale que “a moral é o mundo da conduta espontânea. No momento em que transgredimos qualquer dessas normas. entretanto. pois na realidade também ali essa autonomia move-se dentro de limites extremamente reduzidos. talo nosso condicionamento social. do comportamento que encontra em si próprio a sua razão de existir. fruto da força ou da coação. preferem falar em coercibilidade da norma. Não percebemos que o Direito é sobretudo obrigação porque estamos habituados a obedecer a suas normas.. É também por isso que se tem afirmado (Kant foi o primeiro) ser a Moral autônoma e o Direito heterônomo.[pg. moral autêntica quando o indivíduo. em geral e por definição. Alguns autores. e não uma obrigação. Então. elemento fundamental do Direito. Esta. por um movimento espiritual espontâneo realiza o ato enunciado pela norma. para indicar que ela envolve a possibilidade jurídica de coação. onde muitos autores acreditam reinar a “autonomia da vontade” a coisa não é bem assim. na verdade. a noção do Direito está intimamente ligada à noção de obrigação. portanto. 25] lência” (ob. liberdade. A moral é incompatível com a força ou coação mesmo quando estas se manifestam juridicamente organizadas.2. cit. cria uma obrigação ou dever para outrem. vantagem ou poder. regalia. visto ser posto por terceiros aquilo que juridicamente somos obrigados a cumprir. da mesma forma que não sentimos certas imposições físicas. a palavra direito dá idéia de privilégio. faculdade. . a tal ponto que não lhe sentimos quase o peso. 13. a rigor. na exata medida em que o Direito nos confere um beneficio. embora à primeira vista possa parecer paradoxal. que. 44).A obrigação é. p. tudo que é oposto à obrigação. Até mesmo no campo do direito contratual. Dizemos “eu tenho direito a isso ou àquilo” para indicar algo que nos favoreça. e vice-versa. em lugar de obrigatoriedade. Só temos. é a principal diferença entre a norma jurídica e a regra moral. Esquecemonos. Como podem as pessoas inobservá-lo. essas normas correspondem à nossa maneira de pensar e sentir. entretanto. A Sanção O Direito dirige-se a seres dotados de liberdade. Ocorre também que. Para o público em geral. como a gravidade. Não é possível conceber-se o ato moral forçado.

e pena já é o próprio castigo imposto. geradora do temor à pena. e pena é a sanção concretizada. É o prometimento de um mal. Sanção é a ameaça de castigo para o transgressor da norma. Essa coação psicológica. Sobre o grupo social que deve estabelecer as normas de Direito. Para uma minoria não basta a coação psicológica. ao passo que a pena exerce uma coação física ou material. 26] 14. consistente em perda ou restrição de determinados bens. Sanção é a ameaça de punição para o transgressor da norma. as opiniões se dividem em duas escolas. em nosso entender. através da qual consegue o Direito evitar a ocorrência de inumeráveis conflitos. não há como tergiversar: as normas de Direito emanam do grupo social. Para esses destina-se a coação física ou material. entretanto. que esta é uma questão discutida. ORIGEM DAS NORMAS DE CONDUTA Já vimos. [pg. . a sanção é cominada pelo legislador. para todo aquele que descumprir uma norma de Direito. da consciência coletiva ou do Estado. exercendo constrangimento sobre a consciência. frutos da razão. É a chamada prevenção geral. Por isso alguns teóricos chegam a definir o Direito como um sistema de sanções. Há. Tal coação é por Vanni (Lezioni di Filosofia del Diritto) vista como força psíquica do direito. e a pena é fixada pelo juiz. É a possibilidade de coação da qual a norma é acompanhada. assim como na obrigação de reparar o dano causado. faz com que a maioria se conduza dentro dos limites do Direito.o meio mais eficaz encontrado pela sociedade para tomar a norma jurídica de observância necessária. livrando a sociedade de sua conduta perniciosa. a sanção exerce uma coação psicológica sobre os indivíduos. A obrigação não pode existir sem sanção. que se dirige à vontade. empregando o poder coercitivo de que dispõe para punir o responsável pelo ilícito. Para a sociologia jurídica. na esperança de não ser punida. havendo aqueles que entendem serem as normas de origem divina. sanção é a pena abstratamente considerada. no empenho de levá-la a respeitar o Direito. A autoridade pública aplica a pena. acabando por transgredir as normas. embora na prática os autores e a própria lei não a considerem. É o remédio extremo usado contra uma minoria que não observa as normas. logo no primeiro capítulo. outros. É a chamada prevenção especial. uma pequena diferença entre sanção e pena.

catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. que se encontra mais próxima das teorias de Hegel. muçulmano. A mais característica dessas instituições foi o direito mercantil (jus mercatorium). além de alguns juristas. nos termos que aos governantes se afiguram como os melhores para satisfazer as necessidades e exigências da vida. Mas. o direito canônico. A Escola Pluralista A escola pluralista que. Marx e Kelsen. sem dúvida. sem considerar fronteiras entre Estados nem a nacionalidade dos interessados. compreende sociólogos e filósofos. ultrapassando o caráter de simples regulamentos. Houve e ainda há direitos supranacionais e infranacionais que não emanam da competência dos órgãos da sociedade global. pode ter sua razão de ser no que se refere à ciência do Direito. decretos-leis. Gurvitch. ainda . A nossa Assembléia Nacional. Inocêncio Galvão Telles. em fase adiantada do progresso. Há aí uma atividade racional. A Escola Monista Englobando quase todos os juristas. Segundo Henri Levy Brühl.o grupo político . Henri Levy Brühl (Sociologia do Direito.o Estado devidamente organizado -. considera que todo agrupamento de certa consistência ou [pg. esta escola entende que apenas um tipo de grupo social. e que ainda existem prescrições. Um simples olhar sobre a vida social nos convence de que existiram prescrições jurídicas antes de a sociedade organizar-se em Estado. bem sintetiza esta questão na lição que segue: “O Direito é necessário. mas não com relação à sociologia jurídica. como por exemplo o direito religioso de vários povos. além das que foram impostas pela autoridade política. que se difundiram em inúmeras regiões. Não é uma criação arbitrária. adquirem o alcance de verdadeiras regras jurídicas. intervêm na sua criação. existe imprescindivelmente. mesmo nas sociedades já política e juridicamente organizadas. o principal adepto da doutrina pluralista é G.2. com freqüência criam Direito. 14. p. está apto a criar normas de direito. o nosso Governo. muito divulgado na Idade Média e observado tão escrupulosamente quanto qualquer outra lei nacional. regulamentos. que a defendeu em diversos trabalhos. orientada no sentido da formação do Direito. Os homens. A doutrina monista. sendo igualmente ensinada pelos puristas clássicos.14. através de leis. 29) cita como exemplo de direito supranacional as instituições consuetudinárias profissionais.1. judaico etc. 27] expressão pode outorgar-se normas de funcionamento que.

do jovem para o adulto. e isso mostra o caráter necessário do Direito (Introdução ao Estudo do Direito. o outro lado do mundo toma conhecimento quase imediatamente. estáveis e imutáveis. que o considera produto social. 9ª ed. as mudanças nos grupos modernos são bem mais rápidas e constantes do que nos grupos primitivos. 15. os jovens tornaram-se adultos. Evidentemente. um dos mais destacados. I.. vol. moda etc. e vice-versa. 27). Se o Direito emana do grupo social. sendo originário do grupo. conforme já assinalamos. Lisboa. tudo está em constante transformação. permanecer imutável. O mesmo acontece com hábitos. tanto os que o concebiam como tendo origem na Divindade como aqueles que o entendiam fruto da razão. p. onde há uma constante troca de influências recíprocas possibilitada em razão dos modernos meios de transporte e comunicação. que contestávamos na juventude exatamente aquilo que agora pensamos e fazemos. Como pode o Direito. sofre constantes modificações. consideravam o direito um conjunto de princípios permanentes. Foi assim que aconteceu noutros tempos sob a forma de costumes. como é sabido. Mal um fato ocorre aqui. Assim é porque o próprio ser humano está em constante mudança: mudam os hábitos. no fim desse tempo. costumes. do adolescente para o jovem.que não houvesse esta criação racional e um pouco artificial. Tal concepção. Se pudéssemos isolar um grupo por um período de dez ou vinte anos. Livraria Petrony. Daí a razão do eterno choque de gerações entre jovens e adultos. Já os filósofos gregos haviam chamado a atenção para essa permanente mutabilidade das coisas e do próprio homem. 28] queremos que os jovens de hoje se comportem como nós. as crianças tornaram-se jovens. Mudamos em nossa maneira de ser e [pg. tudo muda. quando esse mesmo grupo se modifica constantemente? . do adulto para o velho. E o grupo. entretanto. Imaginemos agora o que se passa nos grupos modernos. embora muitas vezes nem se perceba a mudança. o Direito necessariamente brotaria como floração espontânea da sociedade.tudo passa. afirmava: “Panta rei” . pensamentos etc. da criança para o adolescente. que o grupo social havia sofrido profundas modificações: os adultos envelheceram. com concepções e visões diferentes da vida. não se ajusta ao ponto de vista sociológico. não pode ter maior estabilidade que o grupo. mesmo assim haveríamos de constatar. PROVISORIEDADE E MUTABILIDADE DAS NORMAS DE DIREITO Os defensores do direito natural. Heráclito.

16. [pg. assinalou Levy (ob. Trata-se de normas universais porque se destinam a todos. mas sim essencialmente provisório. pois o simples confronto com os diferentes sistemas jurídicos do passado ou dos países estrangeiros basta para dar idéia da prodigiosa diversidade das normas de direito aplicadas na superfície do globo. por derradeiro. mudam-se também as normas de Direito. seja de cooperação ou de concorrência. espera-se para breve um novo Código de Processo Penal e. destinadas a disciplinar as relações externas do indivíduo. já sofreu mais de quatro dezenas de emendas. obrigatórias porque são de observância necessária. cit. empenha-se em compô-los. impostas pelo grupo social. que em qualquer tipo de atividade realizada pelo indivíduo na sociedade. podem surgir conflitos e que o Direito se propõe [pg. quando não consegue impedir que ocorram. sujeito a constantes modificações. para não nos alongarmos. Tivemos uma nova Constituição em 1988 que.. o Código de Processo Civil sofreu uma série de alterações e outras precisam ser feitas com urgência. abstratas. Destaca-se. como já ficou demonstrado. mutáveis porque sujeitas a constantes transformações. 30] . universais. obrigatórias e mutáveis. em 2002 entrou em vigor um novo Código Civil em relação ao qual já se fala em mudanças. razão pela qual. A observação. do ponto de vista sociológico. p. abstratas porque são elaboradas para casos hipoteticamente considerados. por sua vez. coercitiva. CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Juntando todas as características até aqui examinadas.Mudando o grupo. Tão incontestável é o caráter provisório do direito que alguns adeptos do direito natural conceberam uma noção que denominaram “direito natural de conteúdo variável”. 29] primeiramente a preveni-los. objetivando prevenir e compor conflitos. prova de maneira clara que o Direito está sujeito a transformações contínuas. não tem o Direito caráter estável ou perpétuo. impostas pelo grupo e não somente pelo Estado. formulamos o seguinte conceito de Direito: conjunto de normas de conduta. 33). Aqui mesmo em nosso país profundas modificações foram feitas em nossa ordem jurídica para ajustá-la às novas realidades sociais decorrentes das transformações por que passamos nas últimas décadas.

Capítulo IV FATORES DA EVOLUÇÃO DO DIREITO Fatores econômicos: influência do fator econômico sobre o Direito Romano e sobre o Direito Moderno. FATORES ECONÔMICOS A estrutura econômica de uma sociedade reflete-se diretamente no seu ordenamento jurídico. . tomando-o um produto de processos sociais (vide capítulo VIII). Fatores políticos.e o grupo está em permanente transformação. Vamos apenas destacar aqueles que. políticos. examiná-las todos. O sistema de propriedade. a influência condicionante da sociedade sobre o Direito enquanto fato. culturais e religiosos. em sua concepção sociológica. Fatores religiosos. um produto da sociedade. Inicialmente pode-se dizer que. como vimos no capítulo anterior. mas sim.[pg. 17. sujeitas a constantes modificações. Outros fatores sociais. porque se originam no grupo social. em nossa opinião. da qual falava Siches. a saber: os fatores econômicos. com muita nitidez. Inúmeros são pois os fatores sociais que concorrem para a evolução do Direito. neste modesto trabalho. Observa-se aqui. não sendo possível. fazendo-o oscilar. **** O Direito. Não são regras permanentes e inalteráveis. é um produto de múltiplas influências sociais. sendo o Direito uma decorrência das relações sociais. as formas de produ. 31] ção (indústria. são os principais. Tal como a agulha magnética sob a ação de uma corrente elétrica. Fatores culturais: concepção de cultura. há fatores que agem sobre o Direito. tudo o que agir sobre a sociedade produzirá reflexo também sobre o Direito.

os demais fenômenos culturais não passando de simples reflexos superestruturais das forças genéticas armazenadas pelas relações econômicas de produção. exclusivamente.). a sociedade inicialmente compunha-se de camponeses que viviam da lavoura. influenciando-a. criadores do materialismo histórico. Achille Loria (ob. afirma que “todo o desenvolvimento jurídico toma-se inexplicável se o isolam das forças econômicas. o fator econômico era a mola mestra da história. Caracterizavam-se por forte concentração de poderes nas mãos do pater famílias e rígida disciplina doméstica. 17. tinham que tirar da terra o seu sustento. o fato econômico é a causa. Seligman. as relações entre empregados e patrões . 293). Para eles..1. entre as forças modeladoras do Direito. . como observou Levy Brühl (ob. cit. Tão marcante é a influência da economia sobre o Direito que alguns autores chegam a se posicionar no sentido de conceber o Direito como reflexo. Nesse sentido.). 80 e segs. sem possibilidade de erro. sua estrutura econômica se transforma”. Marx e F. cit. Sem dúvida constitui exagero considerar o Direito reflexo exclusivo da constituição econômica. possuem e comerciam. Influência do Fator Econômico sobre o Direito Romano Em Roma. da constituição econômica. p. como por exemplo K. com o crescimento da população. citado por Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. pp. eram os que mais convinham a agricultores.. o fator econômico é o que exerce uma influência mais decisiva. assinala que “raças e nações as mais diferentes têm de sujeitar-se ao mesmo direito quando são iguais as relações econômicas nelas dominantes e que a nação sofre mutação radical do próprio direito quando.tudo isso se reflete na ordem jurídica. “que dedicou especial atenção às relações entre direito e economia”. Engels. que o Direito vai se modificando à medida que vai se alterando a estrutura econômica da sociedade. os costumes desses camponeses. ainda que seguido de muito perto pelo político. A organização social tem o seu ponto básico de articulação no modo pelo qual os homens produzem. p. 293). embora não se possa negar que. podemos afirmar. Assim sendo. o resultado”. Ora. na medida em que nos são acessíveis.agricultura etc. a situação legal.

e operações foram inventadas para as quais o simples consentimento podia gerar obrigações. entraram em contato com outros povos. Uniam-se todos em tomo do pater familias para a produção dos bens necessários à sobrevivência do grupo. industrial. nem autonomia. acarretando isso tudo um tremendo abalo na ordem jurídica. são transformações econômicas de repercussão imensa sobre o status pessoal em geral. Encontrou-se um meio para liberar o filho da tirânica autoridade do pai . Aí pelo III século antes de Cristo.o casamento sine manu. 244): “A própria instituição da escravidão. Influência do Fator Econômico sobre o Direito Moderno Algo idêntico ao ocorrido em Roma desenvolveu-se quando da criação da grande indústria e do maquinismo. não importando idade ou situação social. 33] . em decorrência do enfraquecimento correlativo dos proprietários de terras. passando a ser submetida ao controle da sociedade global e não mais exclusivamente ao pater familias. do trabalho. o único dotado de capacidade jurídica. indispensável no comércio. Surgiu uma nova classe. 32] não tinham qualquer iniciativa. os agricultores romanos tomaram-se comerciantes. tais como o direito comercial. no fim do século XVII.” [pg. p. o formalismo atenuou-se com a introdução da noção de boa-fé no direito. Tal direito estava perfeitamente adequado a uma sociedade de pequenos agricultores. A burguesia ascendeu ao poder político. econômico etc. sua substituição pelo servilismo durante o regime feudal e sua posterior superação pelo assalariado na moderna sociedade burguesa. nacionais e multinacionais. Novos ramos do direito foram brotando no velho tronco do Direito Civil e aos poucos ganhando autonomia.a emancipação. Lançaram-se ao mar. multiplicaram-se os sistemas de manumissão de escravos. A organização da família tomou-se menos rígida. Os demais membros [pg. Essa modificação na estrutura econômica imediatamente repercutiu no direito. enriquecida pela posse de capitais mobiliários. outro meio para libertar a mulher casada da autoridade do marido . e sobre a condição jurídica do homem trabalhador em particular. dedicaram-se com grande intensidade à compra e venda de mercadorias.Todos os membros do grupo doméstico estavam submetidos à autoridade do chefe. os estrangeiros deixaram de ser tratados como inimigos e passaram a ser amigos. Aos poucos foram surgindo os grandes organismos econômicos. 17.2. Lembra Machado Neto (Sociologia Jurídica.

este se realizando socialmente através daquele. tanto na função e estrutura jurídicas. p. o direito comercial. contratos. não foge à regra. o Direito Constitucional . que mantém maior distância do econômico. razão pela qual sua teoria foi tão mal compreendida pelos sociólogos. as relações dos Estados entre si. tributário etc. embora ligada etimologicamente a polis (cidade). 18. 1949.a sua dinâmica. aristocrático. apresentarão peculiaridades. direitos reais.a estática do Estado. veremos que é exatamente através da regulamentação jurídica que o Estado as exerce. Atalaya. a aquisição e o uso da propriedade. abrangendo as relações entre o indivíduo e o Estado. pelo seu aspecto normativo puro. Segundo o regime em que se vive. monárquico. de maior ou menor rigidez. sucessões. embora não se possa negar a proximidade em que se situam. longe de ser o responsável pela gênese do direito. Por essa razão. A aparição do poder político.Cumpre ainda assinalar que. é apenas um evento que exerce uma reação grave e imediata. do trabalho. assumirão aspectos variantes. O próprio Direito Penal. o regime político de um país exerce influência direta sobre suas regras de Direito Público e até de Direito Privado. como sobre o conteúdo do direito. dependendo dos fatores políticos vigentes. apresentam inegável repercussão econômica: o Direito Civil. [pg. como observou Nordi Greco (Sociologia Jurídica. Sem entrar em polêmica. bem como as funções e atribuições do Estado. como já o fazia Kelsen. as relações entre empregados e patrões etc. feudal ou democrático. na estrutura jurídica atual. A própria organização da família. É que os juristas enfocam o direito exclusivamente pelo ângulo da ciência jurídica. 310). a livre iniciativa comercial ou econômica. primeiro capítulo) e ainda hoje é a perspectiva da maioria dos juristas em face do Estado. na parte que se refere às obrigações. Por isso já houve quem identificasse Estado e Direito (vide Teoria Marxista. modernamente é utilizada para designar a ciência e a arte de governar. Se bem examinarmos o conjunto de atribuições do Estado. Ed. ] . bem como o Direito Administrativo e o Direito Fiscal . voltamos a enfatizar que do ângulo sociológico em que nos situamos há uma nítida distinção entre o Direito e o Estado. FATORES POLÍTICOS A palavra política. principalmente no que diz respeito aos crimes contra o patrimônio. falimentares e a ordem econômica..

assim no mundo medieval com a Magna Carta (1215). Mal concluída a tomada do poder pelo grupo revolucionário. Tão logo chegou ao poder o Partido dos Trabalhadores. 1891. de acordo com a filosofia preconizada. como lembrou Machado Neto (ob. a Política e a Trabalhista. Esse novo Direito. É com essa mudança efetiva que a revolução se completa. traz no seu bojo a intenção de legitimar e justificar o poder. no que diz respeito às nossas constituições de 1824. Se o movimento contraria o sistema de legalidade do Estado. como as da Previdência e a Tributária que afetarão muitos milhões de brasileiros. em uma ideologia que se pretende implantar na organização social. surge um Direito novo. que estabeleceu uma nova relação entre patrícios e plebeus. da redemocratização do país . decorrentes da vitória da revolução francesa. das revoluções de 1930 e 1932. A influência dos fatores políticos sobre o Direito toma-se mais patente no caso de revolução. A revolução. anota Paulo Nader. Assim foi na Grécia com a Legislação de Sólon. 35] do Estado Novo. “é um acontecimento político motivado pela insatisfação social quanto às instituições e regime vigentes. igualmente de grande repercussão social .. Caracteriza-se por dupla ação: intelectual e de força. 1937. a quarta. 1934. pois a luta revolucionária exige um novo instrumental jurídico capaz de dar validade e eficácia às transformações que visa a operar no quadro social” (ob. que se funda em novas concepções. p. cit. cit. A primeira resultou da revolução da independência. a terceira. pois a revolução implica adesão social. notadamente o Constitucional. político e econômico contra o qual a revolução se lançou. o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva arregimentou forças políticas para realizar profundas reformas constitucionais. com o que se fecha o ciclo revolucionário.O atual momento político brasileiro oferece eloqüente exemplo disto. sendo ainda certo que outras estão em andamento.. o grupo que destituiu os governantes e assume o poder deve iniciar o trabalho de reformulação social. p. assim foi em Roma com a Lei das XII Tábuas. a segunda. 1967 e 1988. com a Declaração dos Direitos do Homem e a Legislação Napoleônica. e assim até mesmo no Brasil. A possibilidade de instauração de um novo Direito. substituindo aquele que servia de sustentáculo normativo ao sistema social. possui o poder de instituir uma nova ordem jurídica. refletindo as novas tendências políticas. 161). A legitimidade do Direito criado baseiase no apoio popular. 56). assim no mundo contemporâneo. 1946. da república.a reforma do Judiciário. a quinta. Pressupõe idealismo. que significou a superação de uma questão social. Imbuído pelo chamado espírito revolucionário. é básica. do advento do fascismo e [pg.

A Grécia. os hebreus pela religião. exerceu influência decisiva. pp. o impacto de uma tendência centralizadora. a ponto de podermos afirmar ser ele o aspecto cultural de um povo.” 19. a sexta. Cada povo tem sua peculiaridade.após a guerra que derrotou o fascismo no plano internacional. mas também nas suas instituições jurídicas. da redemocratização do Estado Brasileiro. mencionados por Machado Neto (ob.. Pois o direito de cada um desses povos reflete o aspecto cultural em que mais se desenvolveram. não apenas nas artes e na literatura romanas. e o segundo. como é sabido por todos. 156). O Que é Cultura? Há na mitologia grega um personagem. sobre o direito. A conquista da Grécia. necessariamente. em que o interesse dominante é o dos particulares. da revolução de 1964. Dentre as principais conseqüências da atuação dos fatores políticos. sua tendência ou dom natural. [pg. a última. e quando a cultura de um é colocada em contato com a de outro. Da norma indiferenciada passa-se à centralização jurisdicional e daí à centralização legislativa. 19. O direito evolui acompanhando a evolução cultural. os fenícios pela navegação. lembrado por Machado Neto (ob. 305-306).1. quando esta é realizada diretamente pela sociedade e pelos diversos grupos sociais extra-estatais.. destacamos as seguintes: 1) “O direito sofre. há influências recíprocas sobre o direito de cada um. FATORES CULTURAIS Se compararmos o direito de uma sociedade culturalmente desenvolvida com o de outra inculta. p. a moral e as normas do trato vão aparecer como as formas específicas da socialização. 36] .” 3) “Aparecimento das condições objetivas para o direito separar-se das normas sociais: o direito passa a ser a norma estatal por excelência. cit.” 2) “Criam-se condições objetivas para o aparecimento gradativo da distinção entre direito público e privado: o primeiro como a regulamentação da conduta dos indivíduos naqueles pontos que mais de perto dizem respeito ao interesse coletivo ou estatal. pela cultura. que bem ajuda nessa tarefa de conceituar a cultura. notabilizou-se pela arte. cit. Roma pelo direito. por exemplo. constataremos imediatamente a necessária harmonia existente entre a ordem jurídica e os fatores de cultura.

criar a arte. e de quaisquer outras aptidões do homem. por ele adquiridas em sua condição de membro da sociedade”. transmitindo-se a outras gerações como autêntica herança social. de criatura passaria a criador. gerando a estagnação e a imobilidade. em armas de defesa e ataque. de regras morais. tudo aquilo em que colocasse as mãos. destreza invulgar etc. Epimeteu conseguiu para os animais. FATORES RELIGIOSOS Nos povos antigos. a ciência. domesticar os animais. Com o seu desenvolvimento cultural conseguiu dominar as forças da natureza. a filosofia. como ocorreu nas últimas décadas com a China. o direito e a religião [pg. de posse do fogo divino. cit. a autoridade. capaz de transformar em utilidade. força descomunal. “cultura é o conjunto de conhecimentos. pêlos abundantes. o homem transformou pedra em machado. 20. Para o homem nada restou. Indignado com a ousadia de Prometeu. Nos tempos modernos. pele de animais em vestuário. realidade somente possível graças ao progresso científico dos tempos modernos. 13). tudo aquilo que lhes era necessário para a sobrevivência: dentes fortes e agudos. chifres pontiagudos. p. A maior evidência de ser o Direito uma manifestação de cultura social. disciplinar a lavoura. o rei dos deuses submeteu-o a cruel castigo. um fenômeno cultural.Quando da criação do mundo. está no fato de surgirem novos ramos do Direito à medida que se expande o mundo cultural do povo. São conhecimentos que vão se formando. Assim agira Zeus porque sabia que. Praticamente se confundiam porque o poder. cascos resistentes. citado por Hermes Lima (ob. a intercomunicação social é poderoso fator de formação e desenvolvimento cultural. a música. a técnica. pois com base nos conhecimentos que adquiriu e desenvolveu. 37] emanavam da mesma . artes. acorrentando-o ao Cáucaso. Na verdade assim foi. crenças. o homem se tomaria um verdadeiro semideus.. enfim. Numa definição simplista. Nuclear. a religião. metais encontrados na natureza em máquinas e instrumentos agrícolas. o direito não se diferenciava da religião. levar ao infinito os seus conhecimentos. cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza.. das Telecomunicações etc. Na definição de Taylor. ao passo que o isolamento retarda o progresso da cultura do povo. Falamos hoje em Direito Espacial. amigo dos homens. Foi então que Prometeu. subtraiu um archote do carro flamejante de Zeus e deu-o de presente à humanidade. jurídicas e de costumes. Cultura é isso. onde um abutre vinha periodicamente devorar-lhe o fígado. carapaças. seus protegidos. com pena do homem. espinhos. o direito. ficando ele nu e desamparado na natureza.

código e livro sagrado.. mesmo os sistemas jurídicos leigos. quando da formação do Direito canônico.divindade. lei e tabu. processo e ritual. hebreus. crime e pecado. ainda hoje estão profundamente impregnados de religião. no que diz respeito a casamento.1. repletas de rituais. preceitos e proibições de ordem religiosa. homens talhados para tal ofício pela natureza das ocupações que desempenhavam nas sociedades rudimentares. com a consciência pessoal. ou entre o homem e o grupo. sob o impacto de civilizações mais adiantadas. de um modo geral que a religião se ocupa com o foro íntimo. Tudo era conservado em segredo na mesma família. a religião continuou exercendo largamente a sua influência. este partilhava do poder. Os primeiros intérpretes do direito foram os sacerdotes. a exemplo do que ocorre no Mundo Islâmico. Como exemplo lembramos as transformações ocorridas no Direito romano. jurista e sacerdote. conselheiros). pode-se dizer. Tinham a posse dos postos de comando (legisladores. estado jurídico da mulher etc. onde religião e direito não se confundem e a Igreja está separada do Estado. Quando o chefe político não era também o líder religioso. não deixam de receber a influência constante dos fatores religiosos. Hoje. chefes militares. ao passo que o direito trata do foro externo. convertendo-o em ciência de iniciados. 20. o direito disciplina as relações sociais que se travam entre o homem e o homem. o que correspondia à posse também da riqueza e dos privilégios. caldeus. pena e purgação do pecado. Em alguns povos. Entretanto. como os egípcios. e quase sempre estavam centralizados nas mãos da mesma pessoa. inacessível ao povo. filiação. As legislações eram. o direito foi se separando da religião . portanto. Os sacerdotes contavam com a crença popular que os considerava inspirados pelos deuses. tal como entre os povos antigos. quando se defrontou com as idéias cristãs nos séculos III e IV de nossa era. e cercavam o direito de um formalismo terrível. a religião se preocupa com as relações entre o homem e a divindade. Influência da Religião sobre o Direito Alguns sistemas jurídicos. divórcio. onde regras jurídicas e religiosas praticamente se confundem. . torna-se difícil distinguir legislador e profeta. Somente após um lento e prolongado processo de secularização. exercendo imensa influência sobre o povo. Na Idade Média. transmitindo-se de pai para filho o monopólio de conhecer o direito.o mundo profano do sagrado.

culminando [pg. 38] com a criação de novas instituições. Nos dias atuais, os países onde predomina o protestantismo são bem mais liberais para com certos assuntos jurídicos do que aqueles onde predomina o catolicismo. O divórcio, por exemplo, foi aprovado no Brasil depois de longa e sistemática campanha contrária que a Igreja Católica lhe moveu. E até hoje não temos leis regulamentando o controle da natalidade em razão da acirrada oposição que setores conservadores religiosos lhe fazem.

20.2. Outros Fatores Sociais

Esses são os principais fatores sociais da evolução do Direito, mas como estes, muitos outros existem a exercer idêntica influência, pois, sendo o direito um fenômeno social, atuam sobre ele todos os fatores que atuam sobre a sociedade. O clima, o território, o número de habitantes, os recursos naturais, os grupos organizados, e a própria opinião pública despertada pela mídia a respeito de algum caso rumoroso, são outros tantos fatores da evolução do Direito. Serve-nos de bom exemplo o recente Estatuto do Desarmamento que, ao promulgá-lo, o Presidente Lula disse que essa nova lei “expressa a vontade unânime da sociedade”. Há, na realidade, a generalizada convicção de que a quantidade de armas em circulação, em poder da população, é causa direta dos altos índices de violência. Pelo menos a maioria dos homicídios não ocorreria se o agressor não estivesse armado, o que já não seria pouco. Em vinte anos (1979/1988) meio milhão de pessoas foram assassinadas no Brasil, segundo levantamento do Ministério da Justiça. Esse número de homicídios representa metade dos mortos nos oito anos de guerra Irã-Iraque, na década de 1980, e a sexta parte dos mortos na Guerra do Vietnã, um dos conflitos mais violentos do final do século XX. Entre os países que não enfrentam guerra civil, o Brasil detém o recorde de mortes por arma de fogo. Em termos absolutos, o estado mais violento é São Paulo, palco de 6.429 assassinatos entre janeiro e junho de 1999. Em seguida vem o Rio de Janeiro com 3.045 homicídios. Segundo o ex-ministro da Justiça Renan Calheiros, o Brasil é o campeão mundial em homicídios. Afirmou ele ainda que mais de 90% desses homicídios, em que criminosos e vítima não se conhecem, não são esclarecidos (O Globo, 18.07.2000). Entretanto, a aprovação da Lei do Desarmamento não foi nada fácil. O Presidente Fernando Henrique não conseguiu fazer andar o seu projeto de lei a respeito da matéria, mesmo depois de fazer do envio da mensagem ao Congresso uma festa pública e um compromisso. O Lobby contra o projeto, [pg. 39] organizado principalmente por fabricantes de armas e munição, foi mais forte. Para vencer essa resistência foi necessária uma grande

mobilização da opinião pública, para o que a mídia e as associações civis muito contribuíram, organizando e divulgando grandes manifestações em passeatas, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. A batalha, entretanto, não está ganha. A lei precisa ser regulamentada, e os lobistas das armas certamente voltarão à luta para tentar influir nessa etapa. E a regulamentação pode decidir a sorte da legislação. Como disse Rubem César Fernandes, diretor do Viva Rio, “é fácil a lei não pegar: basta todo mundo achar que a batalha já está ganha”. Com efeito, daqui a menos de dois anos haverá um referendo popular que decidirá sobre a proibição ao comércio de armas no país. Se a opinião pública não continuar informada e motivada tudo poderá retomar à estaca zero. Concluímos este capítulo com as palavras do saudoso e sábio Oscar Tenório, “a vida das normas jurídicas não é eterna; elaboradas para as relações dos homens em sociedade, têm o seu destino condicionado ao substractum social que elas disciplinam e ordenam” (Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, Borsoi, 1955, p. 64). As mudanças na sociedade mais cedo ou mais tarde refletem em mudanças na legislação em vigor ou em uma nova interpretação dada a normas anteriores. [pg. 40]

Capítulo V

FONTES DO DIREITO
Conceito de fonte e espécies: fontes materiais ou de produção; fontes formais ou de conhecimento. As fontes mais importantes do ponto de vista sociológico. O costume - conceito e elementos. Origem e expansão do costume. O papel do costume. Espécies de costume. A jurisprudência: o papel da jurisprudência em Roma e nas sociedades modernas; o papel da jurisprudência nas sociedades legalistas. Exemplos de jurisprudência transformada em lei. Relação entre a jurisprudência e o costume. A lei. Semelhança e distinção entre a lei e o costume. Sistema preferido - o costume ou a lei?

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O tema relacionado às fontes do Direito é normalmente abordado por todas as obras de Introdução à Ciência do Direito, decorrendo daí a indagação: por que também examiná-lo num compêndio de Sociologia Jurídica? É que a Sociologia Jurídica, como já vimos, enfoca o Direito por aspecto próprio, peculiar - o fato social, e disso decorrem pontos de vista especiais com relação às suas fontes. Teremos oportunidade de ver que as principais fontes do Direito para a Sociologia Jurídica não são as mesmas para a Ciência do Direito, que o enfoca pelo aspecto normativo. Ademais, o exame do tema proposto ajudará o estudante a ver com mais clareza as distinções entre a Sociologia Jurídica e a Ciência Jurídica. 21. CONCEITOS E ESPÉCIES A palavra fonte etimologicamente (fons, fontis) está ligada a fenômenos da natureza, indicando a origem ou nascimento de um curso de água. [pg. 41] Em direito a palavra liga-se também à idéia de origem, nascimento, mas pode ser empregada em duas acepções diferentes: histórica ou documentária e dogmática.

No sentido histórico ou documentário, consideram-se fontes todos os dados ou elementos de qualquer natureza que nos tragam alguma informação sobre o direito e as instituições jurídicas presentes ou passadas. Assim, por exemplo, serão consideradas fontes: manuscritos antigos, papiros, inscrições, monumentos, material arqueológico, desde que forneçam informações sobre o direito. No sentido dogmático, o que nos interessa no momento, a palavra fonte designa a origem, a procedência, o elemento gerador, a causa de algo - neste caso, o direito. Quando falamos em fonte do Direito, portanto, estamos nos referindo a tudo quanto concorra para a sua existência, seu aparecimento e formação. Costuma-se classificar as fontes do Direito em materiais e formais. As fontes materiais são assim chamadas porque, na realidade, materialmente falando, são as responsáveis pela elaboração do Direito. A palavra material vem de matéria, substância, essência, razão pela qual é usada para indicar aquelas fontes que verdadeiramente têm substância de fonte. Se lhe examinarmos o conteúdo, veremos que o Direito é aí elaborado. Por isso as fontes materiais são também chamadas fontes substanciais ou de produção. As fontes formais, por sua vez, são assim chamadas porque de fonte só têm a forma; nada, porém, de conteúdo. Aparentemente o Direito tem origem nas fontes formais, mas na realidade elas apenas o tomam conhecido. Por isso são também chamadas fontes de conhecimento. Se pudéssemos usar uma figura nada ortodoxa, diríamos que o Direito é produzido nas fontes materiais e embalado e distribuído pelas fontes formais. Para o sociólogo, portanto, ao contrário do jurista, as fontes formais não passam de meios de exteriorização, ou de conhecimento do Direito elaborado pelas fontes materiais, as únicas que realmente merecem a designação de fonte.

22. FONTES MATERIAIS OU DE PRODUÇÃO

As fontes materiais podem ser: imediata (que está mais próxima) e mediata (mais distante). Fonte material imediata são os órgãos legiferantes do Estado, ou seja, aqueles que, segundo a ordem constitucional, têm a função de legislar, tanto no Poder Legislativo como no Executivo. Fonte mate- [pg. 42] rial mediata ou remota é a sociedade, pois, conforme ficou demonstrado na primeira parte deste trabalho, o Direito emana do grupo social. De acordo com a lição de Paulo Nader, “o Direito não é um produto arbitrário da vontade do legislador, mas uma criação que se lastreia no querer social. É a sociedade, como centro de relações de vida, como sede de acontecimentos que envolvem o homem, quem fornece ao legislador os

a Geografia entre outros” (ob. a Economia. Vamos pois nos ocupar apenas com as fontes formais. o costume merece a preferência da sociologia jurídica porque constitui a primeira e principal manifestação do Direito criado pela sociedade. A principal (e única para alguns) fonte material é o Estado. sendo a primeira constituída pela lei e as outras pelos costumes e a jurisprudência. porque a imediata (órgãos legislativos) é matéria do Direito Constitucional. AS FONTES MAIS IMPORTANTES DO PONTO DE VISTA SOCIOLÓGICO Se o Direito é um fato ou produto social do grupo como grupo. exterioriza-a através do costume. sendo a lei a mais importante fonte formal. 24. a expressão autêntica da consciência jurídica social. começando por aquela que merece a preferência da sociologia. os órgãos legislativos. para haver costume. Esta é a fonte primeira. 138). as coisas não são bem assim.elementos necessários à formação das estruturas jurídicas. Tão logo a sociedade elabora uma determinada forma ou regra de conduta. Significa isto dizer que. é preciso uniformidade na série de atos. objetivo. que essa repetição seja constante. pelos problemas que emergem na sociedade e que são condicionadas pelos chamados fatores do Direito. uniformes e constantemente repetidos. cit. como a Moral.CONCEITO E ELEMENTOS Há dois elementos constitutivos nas normas do direito consuetudinário: o externo e o interno. [pg. de natureza material. indicando um comportamento idêntico pelos membros da comunidade. sem a qual não haveria que falar em Direito. É a maneira pela qual o costume se exterioriza. viva. O COSTUME . p. as fontes materiais são constituídas pelos fatos sociais. tomando-se conhecido. As fontes formais ou de conhecimento também se dividem em imediata e mediata. o próprio grupo humano. Não vamos tratar neste trabalho das fontes materiais ou de produção. .. 23. Já para o jurista que. 43] O elemento externo. e a mediata (a sociedade) já foi estudada em Sociologia Geral. suprema. como vimos. claro que para o sociólogo a fonte material mais importante é a sociedade. não bastando a repetição de atos diferentes. é representado por uma série de atos semelhantes. Como causa produtora do Direito. enfoca o Direito pelo aspecto normativo. Entre as fontes formais.

é a conduta social reiterada de forma constante e uniforme. adquirindo um caráter eminentemente histórico. A maioria das idéias morrem no nascimento por não apresentarem qualquer inovação ou utilidade prática. é a convicção jurídica de que a observância dessa prática corresponde a uma necessidade de direito. difusa. de acordo com as condições sociais do grupo no qual se formou. necessária. é um Direito sem paternidade. isto é. mas algumas pegam. espontânea. e vai sendo transmitido por tradição oral. Com o correr do tempo a maioria do grupo passa a adotar aquela mesma forma de proceder. 44] para suprir suas necessidades. Evolui no tempo e no espaço.ininterrupta. É por isso que se diz que o Direito costumeiro é um Direito anônimo por excelência. por ser de necessidade jurídica. . praticada pela generalidade do grupo e não apenas por alguns dos seus membros. no convencimento íntimo de que a prática de tais atos representa uma necessidade coletiva. Para elaborarmos agora o conceito de costume basta juntarmos os seus dois elementos. Trata-se de elemento subjetivo e consiste na consciência da obrigatoriedade da norma. não sendo suficiente a repetição eventual. pois a coletividade só começa a ter um comportamento constante e uniforme quando intimamente convenci da de que esse comportamento é adequado às suas necessidades jurídicas.. ob. que atende às conveniências sociais. quase sempre em determinado meio sócio-profissional.1. Em outras palavras. Origem e Expansão do Costume Surge o costume de uma necessidade social. 24. com a consciência de que correspondem a uma necessidade jurídica. ou com uma relação social que ainda não se encontra suficientemente disciplinada. [pg. Alguém no grupo se depara com um fato. de natureza psicológica. É principalmente sobre este segundo elemento que se funda a razão da obrigatoriedade do costume. O elemento interno. ajustam-se e começam a se expandir. gradativa. ou de comportamentos exemplares (Miguel Reale. Imagina então um meio de resolvê-la: tem uma idéia e a coloca em prática. p. que vai se consolidando em virtude das forças da imitação do hábito. Verifica-se assim que o costume é de formação livre. 145). cit. praticada com regularidade e certa duração. por estar convencida de que é a maneira correta. que a prática constante e uniforme seja também geral. Vai sendo formado paulatinamente pela própria sociedade. Está formado o costume. e teremos: costume é a repetição constante e uniforme de determinados atos pelos membros de certa comunidade social.

As nações latinas e germânicas adotam o sistema de tradição romana – civil law. Essas manifestações. base legislativa. ultrapassadas. estando as normas desatualizadas. Nas sociedades primitivas. razão pela qual é acolhido pelos tribunais. bem como a Lei das XII Tábuas (apontadas como as primeiras leis escritas) são uma consolidação de usos e costumes dos povos da Babilônia e do Lácio. que reside no fato de ser elaborado pelo próprio [pg. O mais comum. um fato ainda não devidamente disciplinado. entretanto. determinando o que deve ser seguido e observado pelo grupo e distinguindo-o daquilo que deve ser evitado e não praticado. “o costume é uma força produtora do Direito em todas as fases do . Embora o papel dos costumes nos países da civil law não tenha a relevância que tem nos países da common law. Indiscutivelmente. é de se reconhecer que nem sempre isso foi assim. 24. fundado no primado da Lei. Segundo o próprio Clóvis Beviláqua. Mesmo depois do surgimento da legislação. como do conhecimento geral. a sociedade vai elaborando outras normas de comportamento destinadas a substituí-las. ineficazes. São negativas ou omissivas quando. não mais atendendo às necessidades sociais. mesmo no sistema legalista.Já vimos que o costume manifesta-se exteriormente por atos. um procedimento destinado a supri-lo. 45] grupo. a sociedade cria uma regra. nos quais o Direito se revela prevalentemente pelos costumes e pelos precedentes. entretanto. em face de uma lacuna no ordenamento jurídico. existem dois tipos de ordenamento jurídico. desta forma destruindo o direito. escritores. toda a vida social estava alicerçada no costume. é o costume manifestar-se das duas maneiras: à medida que vão caindo em desuso as normas ineficazes. o costume não perdeu completamente sua força. a sociedade vai paulatinamente deixando-as em desuso. Direito positivo escrito. que ainda não conheciam a lei. Ao lado desse sistema. podem ser positivas e negativas ou omissivas.common law. Continua sendo elemento que condiciona os conceitos de bom e de mau. que constituem seu elemento objetivo. doutrinadores e tratadistas. temos a tradição dos povos anglo-saxões . São positivas quando. a primeira regulamentação da vida social foi feita através dos costumes. e desta forma vai criando o direito. Miguel Reale observa que o Código do Rei Hamurabi.2. O Papel do Costume Nas sociedades modernas.

46] Contra legem é o costume que se opõe à lei. A união estável.. realizam-se de acordo com costumes que servem de complemento à lei. praeter legem e contra legem. caindo em desuso. Muitas das leis trabalhistas tiveram nestes costumes sua fonte por excelência. Secundum legem é o costume que serviu de apoio ao ditame legislativo regular. são praticados regularmente pela sociedade.desenvolvimento deste. podemos distinguir três espécies: secundum legem. introduz uma nova norma contrária às disposições legislativas. ou surgiu como complemento deste. bancários. antes de serem formalizados pelo legislador. o desuso é espécie do gênero costume contra legem. por último. porque encontra respaldo na própria lei. ou faz os preceitos legais vigentes não serem aplicados. desempenhando destacado papel nas relações econômicas. verde.3. foi um costume durante décadas na sociedade brasileira. Quer isto dizer que o legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. 4°. bem como o cartão de crédito. [pg. que a própria lei (Lei de Introdução ao Código Civil. Praeter legem é o costume que funciona como fonte supletiva. modalidades de cheque especial. 126) determina ao juiz lançar mão dos costumes quando a norma for lacunosa ou omissa. o costume deve ser observado e até exigido. Outros costumes. onde a lei nada dispôs. praxes forenses etc. e Código de Processo Civil. Espécies de Costume Tendo em vista as relações do costume com a lei. quer para completá-lo. art. quer para corrigi-lo. No entender de alguns juristas (Serpa Lopes). art. O cheque ouro. que não abrangeu aquele fato oriundo das interrelações sociais. Exemplo dessa espécie de costume é a chamada praxe forense: muitos atos praticados diariamente no foro não são expressamente regulamentados. antes de ser reconhecida pela Constituição. . de acordo com a opinião dominante. Resulta da contradição existente entre a lei e as fontes reais do Direito. Em nosso próprio Direito positivo há inúmeros institutos que. são exemplos apropriados daquilo que afirmamos. com recomendação à lei para facilitar a sua conversão em casamento. o que demonstra haver sempre lugar para o costume. azul etc. suprindo sua lacuna: está além da lei. eram usos e costumes comerciais. Neste caso. Assinale-se. dando-lhe interpretação mais conforme às necessidades sociais”. embora ainda não convertidos em lei. 24.

Para o jurista. Os costumes. guardaram o mesmo entendimento. temos que admitir a prevalência do costume. Por não corresponderem às necessidades recentes da sociedade. após regular tramitação do processo. Tais fatos. 47] que em todas as oportunidades as decisões foram semelhantes. dando ensejo a que os motéis proliferassem amplamente. está apenas assinando o atestado de óbito. 25. Podemos resumir a controvérsia dizendo que. É o fenômeno bem conhecido a que se deu o nome de extinção por desuso. 229 do Código Penal. Só para exemplo disto lembramos o caso dos motéis que. caracterizam o crime de escrito ou espetáculo obsceno. sendo certo [pg. Do ponto de vista sociológico. revistas e outros veículos de literatura pornográfica que pululam nas bancas. Em lugar delas a sociedade consagrou outras normas de comportamento consuetudinário para atender às novas realidades. 234 e parágrafo único do Código Penal. tanto das comarcas do interior como das capitais. São socialmente aceitos. Quando o legislador vem a revogá-la por outra lei. Ninguém desconhece que. mas a revoga de fato. sem sombra de dúvida. mesmo contra a lei. até os tribunais de segunda . ainda que um preceito legal caia em desuso. entretanto. não pode produzir o efeito de fazer-se substituir por uma norma consuetudinária oposta. porque não tem sido pacífica a interpretação de que o costume. Quer isso dizer que o costume só não revoga a lei no seu aspecto formal. deva ser sumariamente repelido. Tempos depois caso idêntico é submetido à decisão do Judiciário e. entretanto. Essas decisões reiteradas que emanam dos órgãos judiciários constituem a jurisprudência. tomando-a letra morta. tomando-se letra morta. em todos os sistemas jurídicos. existem inúmeras normas não mais aplicadas. caíram em desuso. do ponto de vista puramente jurídico. Tal norma. A JURISPRUDÊNCIA Um caso é levado à apreciação do Judiciário onde. tipificam o crime de casa de prostituição. Coisa idêntica ocorre com os livros. pelo art. há muito caiu em desuso. No Brasil os órgãos judiciários são numerosos: desde os juízes de primeira instância. isto é.Essa questão tem gerado sérias controvérsias. sucessivas vezes. que se apresenta contra a lei. entretanto. assim. previsto no art. e com inúmeros filmes exibidos em nossos cinemas. recebe uma decisão. fizeram desse artigo letra morta. o costume contra a lei não pode prevalecer simplesmente porque uma lei só pode ser revogada por outra.

Nessa fórmula. Como se vê. Papel da Jurisprudência em Roma Em Roma. no meado do século II a.. aos poucos. já que muitas vezes tinha que elaborar a regra jurídica a ser aplicada ao caso que lhe era apresentado. o pretor elaborava a fórmula ou regra jurídica apenas apreciando o fato em tese. aplicava a regra do pretor. extremamente fecundo como fonte de direito. quem tinha uma pretensão ia ao pretor. concedendo ações em casos não contemplados pelo ius civile ou decidindo ele próprio contra o sistema vigente. absolve. através da Lex Aebutia. 148). o pretor. foi utilizado durante o período clássico e originou-se da atividade do pretor. 123). segundo o magistério do Prof. privativo dos romanos.instância (Tribunais de Alçada. conforme entendesse procedente ou não a pretensão do requerente. após examinar as provas oferecidas pelas partes. Modernamente a palavra jurisprudência designa o conjunto de decisões anteriores proferidas por juízes ou tribunais sobre casos idênticos. 1962. e o jus gentium. ainda hoje existentes. se não te parecer que deva pagar. p. primeiro.. foi se formando uma rica jurisprudência. Conhecido como processo per formulas. por sua vez. construíram o jus civile. condene Caio a pagar dez mil sestércios a Tício. 48] Com a sua incontestável autoridade.1. p. destacando-se o Supremo Tribunal Federal. se fosse o caso de conceder ação. [pg. de caráter mais amplo” (ob. Exposto o problema. Ebert Chamoun (Inst. Era algo mais ou menos assim: “Porque Tício vendeu um escravo a Caio. o pretor ordenava ao juiz condenar ou absolver. Inúmeros institutos jurídicos. cit. de Justiça) e os Tribunais Superiores. elaborava uma fórmula escrita. encaminhando as partes ao juiz. com o passar do tempo. que se convencionou chamar direito pretoriano. Os casos se repetiam. de Direito Romano. além de enumerar os elementos do processo. .. e assim. o que proporcionava ao pretor utilizar uma fórmula anteriormente elaborada para outro caso idêntico. tiveram origem nessa jurisprudência pretoriana. 25.C. Miguel Reale afirma: “Foi através da atividade dos juízes e dos pretores que os romanos. conforme a sua convicção sobre os fatos. Nesse período. Cabia ao juiz apreciar as provas e aplicar a regra jurídica ao caso em concreto. 4a ed.” O juiz. espécie de magistrado e também em parte legislador. sem procurar saber se estava ou não provado. teve início um novo processo que substituiu as Legis Actiones.

entretanto. 49] verdade. Nesses países a jurisprudência constitui fonte viva do Direito.2. esta é definida nos julgamentos. porque a norma que o juiz encontrou já estaria implicitamente contida no Direito positivo vigente e não daria origem a uma norma geral e obrigatória. por não existir uma norma particular na legislação. já que a lei é estática e a sociedade é dinâmica. não é [pg. consagrar uma orientação. Para muitos juristas a jurisprudência nem seria fonte (formal) do Direito. do ponto de vista puramente jurídico. tem valor restrito. Nos sistemas codificados.” As fontes do Direito inglês são a Statute Law (direito legislado) e a Common Law (direito costumeiro). isto é. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Modernas Nas sociedades legalistas a jurisprudência desempenha papel secundário. que o legislador tenha previsto todas as hipóteses e dado todas as respostas na lei. que não vai além de fixar um rumo. com o correr do tempo a norma vai se tomando desadequada. sendo relevantíssimo o papel do juiz. o que. a força obrigatória reduzida em sua rigidez. Novas hipóteses vão surgindo em decorrência das . Tal posição pressupõe. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Legalistas Já vimos que. dos costumes ou princípios gerais do Direito. já que todo Direito emana da lei. Entre nós.25. Praticamente.3. entendem os juristas não haver criação do Direito pela jurisprudência. Assim entendem porque não é função do juiz criar o Direito. mas tão-somente aplicar a lei ao caso concreto. que todas as hipóteses estejam nela previstas no momento de sua elaboração. Mesmo nos casos de ter o juiz que lançar mão da analogia. 25. o que é evidente na terminologia anglo-saxônica: diz-se judge made-law e a palavra justiça incorpora-se muitas vezes ao nome civil do juiz: “Mister Justice Smith. a Common Law é uma coleção de precedentes judiciários. mas simples meio de interpretação. ainda que já constitua súmula do Supremo Tribunal Federal. que têm força obrigatória. como se sabe. O mesmo já não ocorre nas sociedades baseadas no direito consuetudinário. Mesmo admitindo uma perfeita adequação entre a realidade social e a lei. Constantemente estão os juízes enfrentado hipóteses novas e decidindo casos não contidos no âmbito das normas existentes. não tem em princípio a força de obrigar o juiz a acatá-la em suas decisões. donde a importância dos precedentes. a função do juiz é somente aplicar a lei ao caso concreto. a jurisprudência é apenas um roteiro ao lado da lei. por mais reiterada que seja a jurisprudência.

elaborado por muitas inteligências. já que o juiz é obrigado a aplicar a norma que estabeleceria se fosse legislador. altera sensivelmente o Direito positivo. a partir do advogado. apenas na forma.constantes transformações sociais. respeitado o ordenamento jurídico. A técnica das cláusulas gerais adotada pelos Códigos do Consumidor e Civil ampliaram consideravelmente os poderes do juiz. não pode o juiz deixar de decidir alegando lacuna na lei: a própria lei (CPC. O juiz. num determinado momento que amanhã poderá não mais corresponder à realidade. pela sua colaboração contínua. . pelo Código do Consumidor e pelo novo Código Civil. na realidade social que está em constante mutação. deram novo sentido e alcance à ordem jurídica. do ponto de vista sociológico. art. dos costumes e princípios gerais do direito. obra sua. com base no fato concreto. Inúmeros são os casos em que os tribunais acabaram criando um Direito novo. exerce uma função de cooperador e modificador na obra legislativa. passa a autoridade dos arestos. em relação à essência do Direito. Isso tudo leva a concluir que. até chegar às Cortes Superiores. boa parte dos princípios radicados na sua vida civil. Em outras palavras. a jurisprudência cria Direito mesmo nos sistemas legalistas. dando-lhe condições de. exigindo o pronunciamento judicial.” [pg. um papel positivamente criador. à judge made-law. Os ingleses e americanos devem à essa colaboração legislativa da magistratura. Nesse ponto. através de uma interpretação ora extensiva. embora aparentemente. A jurisprudência. ao papel do pretor em Roma. ao passo que a jurisprudência é o direito dinâmico. ora restritiva. Inúmeras outras hipóteses de omissões e obscuridade na lei obrigam o juiz a construir. 50] O papel criador da jurisprudência foi grandemente prestigiado pela Constituição de 1988. tenham se limitado a aplicar as leis existentes. 4°) ordena-lhe formular uma regra jurídica para a hipótese e dar uma decisão. Por outro lado. Quer isto dizer que o próprio legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. formular decisões mais justas e efetivas na composição dos conflitos de interesse. em muito comparável. que os infiltra. necessário se faz invocar a autoridade do grande Rui Barbosa: “Ninguém ignora o papel da jurisprudência na evolução do Direito escrito. a tal ponto que se fala normalmente na função pretoriana da jurisprudência. a lei é a concepção estática do direito. art. Desempenharam nesses casos. fixada nos textos. lançando mão da analogia. os decompõe. ajustando o Direito às novas realidades sociais. Os princípios constitucionais provocaram uma nova visão interpretativa. passando pelo juiz de 1º grau. Sobre a letra. os alui. mutatis mutandis. 126 e Lei de Introdução ao Código Civil. pois tomaram-se o filtro pelo qual passamos a reler toda a legislação infraconstitucional.

no momento de fazer a sua aplicação. Na cláusula geral o juiz aplica a lei que encontra no Direito e não o direito que encontra na lei. não tem sentido continuar a apresentar a Jurisprudência ou o costume como fontes acessórias ou secundárias” (ob. será então ilícita” (Revista EMERJ. isto é. vol. O juiz tem que formular a lei do caso concreto. O magistrado. no fundo. assim criada para aquele caso concreto. reconhece à jurisprudência o papel de fonte do Direito. o juiz deverá determinar o sentido da norma. 6. 421. com base nos parâmetros estabelecidos na norma. se em desacordo. IV do Código do Consumidor. [pg.2003). fria e automaticamente.Cláusulas gerais (das quais são exemplos os artigos 4º. estabelecem apenas uma moldura dentro da qual se desenham diferentes possibilidades interpretativas. a sentença passará a ser lei entre as partes. do alto da sua autoridade. p. na realidade. a sua interpretação. À vista dos elementos do caso concreto. 51] Esta é a lição do Mestre: “Se uma regra é. o papel do juiz moderno não é mais apenas o de aplicar a lei ao caso concreto..EMERJ. assim conceituou a cláusula geral: “A cláusula geral é uma norma que impõe ao juiz o dever de. 931 do Código Civil). dos princípios a serem preservados (por exemplo. aquilo que se diz ser o seu significado. 422. o seu entendimento em lei. Se essa conduta estiver de acordo com a norma de dever. jurista de escol e um dos maiores juízes que passaram pelo Superior Tribunal de Justiça. 18. em suma. como já enfatizado. a regra jurídica disciplinadora do fato e que. “a boca da lei”. 927 e parágrafo único. como ensinava a escola exegética. n° 24. 169). uma vez transitada em julgado. e 51. boa-fé) e dos fins a serem realizados (por exemplo. interpreta a norma legal situado numa estrutura de poder. É por isso que Miguel Reale. o Ministro Ruy Rosado de Aguiar Junior. como é a da teoria tridimensional do Direito. 187. que lhe confere competência para converter em sentença. O relato da norma. p. . determinar previamente qual a norma de conduta que deveria ter sido observada naquele caso. fará então a avaliação da conduta em exame. cit. Como se vê. Em aula magna proferida na Escola da Magistratura do Rio de Janeiro . fins econômicos ou sociais). que é uma norma particular. Numa compreensão concreta da experiência jurídica. apenas demarca uma moldura dentro da qual o juiz deverá encontrar a lei do caso concreto. artigos 113. não há como negar à Jurisprudência a categoria de fonte do Direito. é aquele que elabora a lei do caso concreto. visto como ao juiz é dado armar de obrigatoriedade aquilo que declara ser de direito no caso concreto. com vistas à produção da solução adequada para o caso a ser resolvido. ela será considerada lícita. Em função da regra que ele cria para aquela situação. III.

impondo um regime de fome ao alimentando durante o curso do processo. não cega como no passado. Muito embora possa e deva o juiz decidir com certa flexibilidade.” Com efeito.4. na feliz imagem de Ana Lúcia Sabadell. mas sim do político. Os precedentes são. Deve atuar. tem que respeitar a moldura jurídica estabelecida na lei. 33). Revista dos Tribunais. revela-se oportuna a sábia observação de Mário Moacyr Porto: “A lei não esgota o direito assim como a partitura não esgota a música. Exemplos de Jurisprudência Transformada em Lei Durante muito tempo. mas que se conscientiza do grau de injustiça que atinge economicamente camadas sociais e deve minorar a sorte dos pobres. razão pela qual a jurisprudência passou a entender ser a pensão devida a partir da citação inicial. Por isso não mais se pode questionar que a lei não é a única fonte do Direito. [pg. a pensão alimentícia só era devida após o trânsito em julgado da sentença. com o contexto de conflitos de necessidades humanas no qual o direito está inserido” (Manual de Sociologia Jurídica. porque se preocupa com as condições do direito na realidade social. cuja importância como fonte se toma cada vez maior. Essa nunca foi e nem será a função do juiz. muitas vezes indo além da própria disciplina positiva. deve obediência à lei. Isso acarretava uma série de problemas sociais. Assim também acontece com a lei por mais avançada que ela se apresente. como de regra acontece com todas as decisões judiciais. esse papel criador do Direito desempenhado pela Jurisprudência não vai ao ponto de uma total independência dos ditames da lei. por corresponder a uma necessidade. sejam de valoração. para desafiar questão que somente pode ser decidida com critérios de hermenêutica que buscam formas de integração das lacunas. acabou sendo encampado pelo legislador e transformado em . mas uma obediência inteligente. por mais genial que tenha sido o legislador. mais do que nunca. Tal entendimento tomou-se tão reiterado que. “como um pensador adjunto do legislador. Com a finalidade de se alcançar a justiça social. preconizam a figura o juiz reformador. sejam de formulação. a excelência da partitura e a genialidade do compositor ficarão prejudicados se não houver talento do intérprete.Hoje. por exemplo. um manancial que consolida determinada orientação. daquele que não se mantém neutro ideologicamente. Ed. ou seja. como querem os defensores do chamado direito alternativo. 52] 25. ela não acompanhará a realidade social. Ao lado dela se posiciona a jurisprudência. incutindo ação política nos atos decisórios. indiscutivelmente. A toda evidência. Temos aqui uma escola jurídica de corte sociológico. p. Se não houver talento criador dos seus intérpretes (juízes e operadores do Direito).

não resta a menor dúvida que a jurisprudência exerce profunda influência no desenvolvimento do direito positivo. A súmula 187 do Supremo Tribunal Federal. A sentença deverá refletir a opinião coletiva sobre o fato. A ambiência que cerca a espécie sub iudice. social e política. Por isso costuma-se dizer que os juízes descobrem o direito. mas em procurar a mais adequada às aspirações do meio que o cerca. não é elidida por culpa de terceiro. porém o ajustamento da lei ao caso em questão está condicionado a uma estimativa de natureza pessoal e a uma apreciação. que não chamarei de criadora. mas exerce sobre ele uma pressão latente e irresistível. Certo. ele se conduz em função de certos princípios gerais estabelecidos. Razão assiste ao saudoso mestre Hermes Lima ao afirmar: “Entretanto. A lei.“A responsabilidade contratual do transportador. o costume não lhe dita explicitamente a decisão. 25. pp. terá que encontrar uma solução compatível com os [pg. Vários dispositivos da atual lei das locações tiveram por fonte o entendimento jurisprudencial. Inúmeras outras inovações e progressos jurídicos poderiam ser mencionados. desde que seu poder de aplicar inclui necessariamente o de interpretar. que lhe era tão desfavorável. serve-lhe de substrato. desde que a posição do juiz não é a de um escravo ou de um autômato em face da lei. porém certamente construtora” (ob. que dispunha . reconhecidos pela jurisprudência com base na sociedade de fato. conseqüentemente. ambiência econômica.que a executou. Tal como os . o que evidencia que a jurisprudência constitui uma atividade verdadeiramente construtora e pode.. contra o qual tem ação regressiva” -. Algo idêntico ocorreu com os direitos da companheira. Conclui-se daí que a decisão do juiz é baseada nos costumes. contar-se entre as fontes do direito. o de tomar a lei adequada à espécie sobre que vai decidir. no artigo 735 do novo Código Civil. ipsi verbis. 205-206).5. hoje lhe garante inúmeros direitos graças aos avanços introduzidos pela jurisprudência. cit. fazendo seu papel consistir. Sem dúvida. pelo acidente com o passageiro. Podemos afirmar que o direito é a lei aplicada mais o que ela recebeu do órgão Juiz ou Tribunal. ele tem seus pontos objetivos de referência. foi transformada. não em encontrar uma solução nova. reflete-se necessariamente na obra do magistrado. encontram as normas já existentes no seio da sociedade.lei. 53] interesses ou conveniências sociais. Relação entre a Jurisprudência e o Costume Sempre que o juiz é chamado a decidir um caso que não está claramente previsto em lei.

porque este termo significa o poder de fazer lei em sentido formal.o direito. no Estado. Ambos são. formas de exteriorização do direito. ao Poder Executivo. por sua vez. quer dizer. Diferem entretanto em muitos aspectos: . é conferido o poder de ditar regras de direito (ob. se reconhece a função legislativa. diz que lei é toda norma jurídica oriunda dos órgãos da soberania. A LEI A palavra lei vem de ligar. A Lei. Com efeito.. a lei é a forma. 26. a lei é continente e o direito é conteúdo. a sua forma escrita. assim como os costu.antigos pretores romanos. 54] mes têm origem nas necessidades sociais. portanto. Ruggiero. portanto. o legislador. 54). a lei e o costume se assemelham. A função legislativa entre nós é conferida especialmente ao Poder Legislativo. tanto a lei como o costume são regras de conduta. sem aplicação prática. devem ter sensibilidade jurídica para encontrar e extrair. o fato ou relação fática. Em suma.diz Ruy Barbosa Nogueira . cit. decorrentes das necessidades sociais. Todo e qualquer órgão que dite norma genérica de conduta é legislativo em si. as normas a serem aplicadas em suas decisões. segundo a constituição política do Estado. ligação ou vínculo. 83). porque. o que evidencia não ser possível tomar o termo “legislativo” em sentido restrito. em sentido jurídico. deve estar atento às mesmas necessidades. ao elaborar a norma legal.. Nisto. 10ª ed. Semelhança e Distinção entre a Lei e o Costume Quanto ao conteúdo. Saraiva. Poderíamos dizer que lei é a regra social obrigatória emanada da autoridade a que. em certos casos. qual o antecedente e o conseqüente? O antecedente . obriga a agir.1. que nos transmite o conhecimento do núcleo jurídico que a anima . expressão da vontade do grupo. mas também.é o fato social ou relação fática concreta a que a lei se reporta ou descreve e o conseqüente o efeito que a lei atribui à ocorrência fática. Costuma-se dizer que a lei é o tegumento do direito. Daí a razão de ser a lei considerada a fonte formal imediata do direito. transforma para seus fins. em princípio. do próprio ambiente social. através da qual o direito se exterioriza e se toma conhecido. p. 26. Se a lei é liame.[pg. aos quais. p. sob pena de fazer uma lei ineficaz. em fato jurídico (gerador) ou relação jurídica (Curso de Direito Tributário.

o fundador [pg. 26. criando o Estado.2.. é anterior à lei. entre dois juristas de escol. votação. sanção. tomando-se mais difícil sua modificação. rei da Babilônia. também já vimos. passando pela discussão. Já quanto à lei. Até então. ardoroso defensor da codificação. é formal. A lei se exterioriza por escrito e através de fórmulas rígidas. emperrando o seu desenvolvimento e tomando-o desadequado à realidade social. é de formação livre. dos quais o mais famoso é o Código de Hamurabi. Nunca podemos saber com precisão quem. onde teve origem um determinado costume. espontânea. passa de pai para filho pela tradição. é que se tomou possível a elaboração das primeiras leis. promulgação. historicamente. sustentava que o costume devia prevalecer sobre a lei por ser a expressão direta e pura das aspirações da coletividade nacional. numa época relativamente recente da história humana. toda a regulamentação da vida social foi feita através do costume. 3) Quanto à forma: O costume se exterioriza através de condutas reiteradas e é transmitido em regra por via oral. O Decálogo hebraico (os dez mandamentos) é de alguns séculos mais tarde e as leis indianas de Manu datam do III século a.1) Quanto à origem: O costume.C. Esta só veio a surgir quando a sociedade chegou ao estágio de organizar-se política e juridicamente. No seu entender. no começo do século XIX. iniciando-se com um projeto. Por isso o costume. emana diretamente da sociedade. sabemos exatamente quando foi elaborada. vai se formando paulatinamente. como já vimos. tende a se incrustar. e a lei de um órgão estatal. à medida que determinada conduta vai sendo aceita e reiterada pelo grupo. Savigny. entretanto. longe de ser mais flexível do que a lei. O processo de elaboração da lei. Em oposição se colocava Thibaut. quando entrou em vigor e quando foi revogada. Por isso as mais antigas leis conhecidas são os textos mesopotâmicos do segundo milênio a. preestabelecido. além de se adaptar mais facilmente . gradativa.C. Para ele o costume. 2) Quanto ao processo de elaboração: O costume. a codificação dificultaria a evolução natural do Direito. precisas. quando. 55] da Escola Histórica. Sistema Preferido .O Costume ou a Lei? Em torno dessa questão travou-se grande controvérsia na Alemanha. A lei. até chegar à publicação. Eis aí outra razão pela qual o costume é anterior à lei: somente depois do surgimento da escrita. partidário do direito consuetudinário.

A Sociologia Jurídica só se preocupa com a eficácia da lei. objeto de estudo da Ciência do Direito. essencialmente. apresenta a grande vantagem de proporcionar um conhecimento mais rápido e oferecer maior segurança do que o costume. 56] .às novas condições sociais (desde que o legislador esteja atento e disposto a isso). Dessa controvérsia resultou que a maioria dos Estados modernos vive sob o regime da codificação. Já ficou assentado que a lei é. como veremos nos próximos capítulos. [pg. apenas alguns preferindo o direito consuetudinário.

juristas em geral. para quem a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina (De la Sociologie Juridique. foi bastante controvertida. 222). 1961. A finalidade da Sociologia . Não se confunde o objeto da Sociologia Jurídica com o de qualquer outra ciência que também se relacione com o direito. Relação da Sociologia Jurídica com os demais ramos do direito. AUTONOMIA CIENTÍFICA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A questão da autonomia da Sociologia Jurídica. como acontece com toda ciência nova. por exemplo. método e leis. pelos instrumentos e métodos das ciências mais antigas. por isso que se preocupa apenas com o direito como um fato social concreto. integrante de uma superestrutura social. quando muito constituindo uma de suas especialidades. Muitos autores procuraram explicar. e isso gerou controvérsias. A eficácia. a sociologia do direito se confundiria com a própria ciência do Direito. p. Na opinião de muitos sociólogos. a sociologia jurídica seria parte integrante da Sociologia. Para outros. A História do Direito. pois tem objeto próprio.Capítulo VI A AUTONOMIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COMO CIÊNCIA E SUAS RELAÇÕES COM OUTRAS CIÊNCIAS SOCIAIS Autonomia da Sociologia Jurídica. fugindo aos objetivos deste modesto trabalho. **** 27. O ser e o dever ser. Entre os que pensam dessa última maneira podemos citar Edmond Jorion. a vigência e o fundamento. limitamo-nos [pg. Sem nos estendermos sobre a controvérsia. os prós e contras das várias posições. 57] a afirmar que a autonomia da Sociologia Jurídica é hoje reconhecida. aquilo que se pretendia constituir em objetivo da nascente sociologia do direito. Teoria tridimensional do direito: diferença entre a Sociologia Jurídica. a ciência do direito e a filosofia do direito.

58] Daí resulta que “o Direito não possui uma estrutura simplesmente factual. Este congrega aqueles componentes. Essas visões são parciais e não revelam toda a dimensão do fenômeno jurídico. sob forma de regulamentação da vida social. Cada um desses três fatores se refere aos demais e por isso só alcança sentido em conjunto. um valor. Mais ainda. o fato ao valor. com as quais tem muito em comum. ob. principalmente com a Ciência do Direito e Filosofia do Direito. Saraiva. finalmente. como defendem os normativistas. inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. A originalidade desse grande jurista brasileiro está. 12ª ed. quando formam uma implicação dinâmica. mas não em uma simples adição. uma verdadeira trilogia. valorativa. e. de ordem técnica etc). há. mas coexistem numa unidade concreta. demográfico. que. Juntos vão formar uma síntese integradora. Título X. que confere determinada significação a esse fato. 1965. Tais elementos ou fatores (fato. porém. cit. mas atuam como elos de um processo. 4ª ed. É evidente. na qual cada fator é explicado pelos demais e pela totalidade do processo” (Paulo Nader. valor e norma formam uma unidade fático-axiológica-normativa. que assim pode ser resumida: Onde quer que haja um fenômeno jurídico. valor ou norma) não existem separados uns dos outros. 65). Lições Preliminares de Direito. geográfico. p. um fato subjacente (fato econômico. como se vê. [pg. Fato. 378). como proclamam os idealistas. de tal modo que a vida do Direito resulta da integração dinâmica e dialética dos três elementos que a integram (Filosofia do Direito.. no tempo e no espaço. A TEORIA TRIDIMENSIONAL DO DIREITO Quem elucidou essa questão melhor do que ninguém foi o genial Miguel Reale na sua teoria tridimensional do Direito. normativa.. mantém a Sociologia Jurídica íntimas relações com todas as ciências sociais.. como querem os sociólogos. com objeto próprio e inconfundível. uma espécie de santíssima trindade do Direito. p. embora se tratando de uma ciência autônoma.Jurídica é estabelecer uma relação funcional entre a realidade social e as diferentes manifestações jurídicas. na maneira como descreve o relacionamento entre os três componentes do fenômeno jurídico. sempre e necessariamente. 28. . Ed. que representa a relação ou medida que integra um daqueles elementos ao outro. fornecendo subsídios para suas transformações. uma regra ou norma. esses elementos ou fatores não só se exigem reciprocamente.

Na correta visão de Reale, o Direito forma-se da seguinte maneira: um valor podendo ser mais de um - incide sobre um prisma (área dos fatos sociais) e se refrata em um leque de normas possíveis, competindo ao poder estatal escolher apenas uma, capaz de alcançar os fins procurados. Um valor pode desdobrar-se em vários dever-ser, cabendo ao Estado a escolha, a decisão; toda lei é uma opção entre vários caminhos; o fato nunca será isolado, mas um conjunto de circunstâncias. Na concepção do autor dessa teoria tridimensional, o Direito é uma realidade fático-axiológico-normativa, que se revela como produto histórico-cultural, dirigido à realização do bem comum. Apesar de sua natureza dinâmica, o Direito possui um núcleo resistente, uma constante axiológica, invariável no curso da história. Pois bem, esses três fatores inseparáveis do Direito - fato, norma e valor - vão constituir o objeto de três ciências distintas, embora afins: a Sociologia Jurídica, a Ciência do Direito e a Filosofia do Direito. A Sociologia Jurídica tem por objeto, como já ficou dito, o direito fato, a Ciência do Direito se preocupa com a norma, e a Filosofia do Direito dedica-se ao direito em seu aspecto valor.

28.1. Diferença entre a Sociologia Jurídica e a Ciência do Direito

O fato é o acontecimento social referido pelo Direito objetivo. São as relações sociais, fatos interindividuais que envolvem interesses básicos para a sociedade e que por isso enquadram-se dentro dos assuntos regulados pela ordem jurídica. Implica isto dizer que a Sociologia Jurídica descreve a realidade social do direito sem levar em conta sua normatividade. Preocupa-se com a existência do direito como produto ou fenômeno social, decorrente das inter-relações sociais, e não como foi concebido ou equacionado pelo legislador. A sociologia deve apenas relatar e registrar o fato sem se envolver com valores, ideologias ou normas. É tarefa do sociólogo descrever os fatos. [pg. 59] A norma consiste no padrão de comportamento social a ser adotado em cada caso. “Ao disciplinar uma conduta, o ordenamento jurídico dá aos fatos da vida social um modelo, uma fórmula de vivência coletiva” (Paulo Nader, ob. cit., p. 378). E esse é o campo da ciência do Direito. Estuda o Direito pelo seu aspecto normativo, isto é, o conjunto de leis e regras escritas e emanadas do Estado. À ciência do Direito interessa o conhecimento das normas jurídicas, que enunciam, não o que sucedeu ou como sucedeu, mas o que deve acontecer, já que o objeto do saber jurídico é o Direito, e o Direito é a norma, nada mais que a norma (Kelsen). A norma pode ser definida como um juízo hipotético destinado a expressar que fazer ou não fazer algo deve acompanhar-se de uma medida de coação por parte do Estado.

28.2. Distinção entre a Sociologia Jurídica e a Filosofia do Direito

À Filosofia do Direito, que objetiva o estudo do direito no seu aspecto valor, cabe determinar sua formação e desenvolvimento em relação aos elementos infra-estruturais da sociedade, ressaltando a dependência de suas modificações. Preocupa-se com correntes filosóficas e ideológicas, que conceberam o direito desta ou daquela forma, e com a escala de valoração jurídica dos bens existentes na sociedade. Valor é o elemento moral do Direito, a sua essência ética. Toda a obra humana é impregnada de sentido ou valor, e assim também ocorre com a sociedade. Tem ela uma escala de valores ligada à idéia de poder, importância, qualidade, estima, utilidade e necessidade material ou moral, acerca de condutas, posições, entendimentos e coisas, escala essa que vai se formando e se modificando de acordo com correntes ideológicas - pensamentos, idéias, opiniões - existentes em determinado momento e em determinada sociedade. Toda norma enuncia algo que deve ser, em virtude de ter sido reconhecido um valor como razão determinante de um comportamento declarado obrigatório. O valor confere determinada significação ao fato, inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. Houve tempo, por exemplo, que a liberdade foi o grande valor social que, por sua vez, deu causa ao liberalismo. O Direito brasileiro atual, principalmente a partir da Constituição de 1988, voltou a dar ênfase aos valores, o que tem conseguido alcançar por meio da consagração de princípios. Princípios são valores éticos, morais e sociais apreendidos pelo legislador e que, consagrados em um preceito, passam a ser instrumentos de interpretação de outros preceitos, enquanto [pg. 60] normas são regras de comportamento que estabelecem como deve ou não deve ser a conduta e as conseqüências que daí decorrem. Regras oferecem soluções enquanto que os princípios oferecem paradigmas, critérios para se encontrar a solução do caso concreto. Entre os superiores princípios (valores) consagrados na Constituição de 1988, merece especial destaque o da dignidade da pessoa humana, colocado como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1°, III). Temos hoje o que pode ser chamado de direito subjetivo constitucional à dignidade. Ao assim fazer, a Constituição colocou o Homem no vértice do ordenamento jurídico da Nação, fez dele a primeira e decisiva realidade, transformando os seus direitos no fio condutor de todos os ramos jurídicos, Isso é valor. E, ao inserir em seu texto normas que tutelam os valores humanos, a Constituição fez também estrutural transformação no conceito e valores dos direitos

individuais e sociais, o suficiente para permitir que a tutela desses direitos seja agora feita por aplicação direta de suas normas. No plano infraconstitucional, a legislação vem seguindo o mesmo caminho. O Código do Consumidor é uma lei principiológica, no qual foram consagrados os valores éticos e morais necessários à defesa do consumidor, entre os quais a boa-fé objetiva, princípio cardeal (arts. 4°, VIII; 51, IV), a transparência, a confiança, a informação, a segurança e outros. O novo Código Civil, como não poderia deixar de ser, pois foi coordenado pelo autor da teoria tridimensional do Direito, está todo comprometido com o resgate dos valores éticos, sociais e morais no Direito. A título de exemplificação, lembramos que a boa-fé é também o princípio cardeal desse novo Código, uma espécie de fio condutor de toda a sua estrutura. Não se trata, porém, da boa-fé meramente subjetiva - posição psicológica, intenção pura e destituída de má-fé, crença ou ignorância de uma pessoa -, porque isso a realidade demonstrou não ser suficiente nas relações sociais regidas pelo Direito, Dizem que o inferno está cheio de pessoas bem intencionadas. A boa-fé consagrada pelo novo Código como valor superior é a boa-fé objetiva ou normativa, assim entendida a conduta adequada, correta, leal, transparente, confiável e honesta que as pessoas devem empregar em todas as relações sociais. Três são as funções da boa-fé objetiva no novo Código Civil: a) fonte de deveres instrumentais dos contratos (art.422): quem contrata não contrata apenas o que contrata, contrata também lealdade, cooperação, transparência, informação etc. (tem-se dito que esse dispositivo é a porta de entrada da ética no nosso Direito); b) regra de interpretação dos negócios [pg. 61] jurídicos (art.113): todo e qualquer negócio jurídico deve ser interpretado pelo juiz de acordo com o princípio da boa-fé; c) limite ao exercício dos direitos subjetivos (art.187): nesta terceira hipótese a boa-fé representa o padrão ético de confiança e lealdade indispensável para a convivência social. As partes devem agir com lealdade e confiança recíprocas. Essa expectativa de um comportamento adequado por parte do outro é um comportamento indispensável na vida da relação. É um limite a ser respeitado no exercício de todo e qualquer direito subjetivo. Podemos afirmar que o Código do Consumidor e o novo Código Civil são uma reação ao liberalismo jurídico que predominou durante todo o século XX, principalmente em sua primeira metade, e que aos poucos afastou o Direito da ética, da moral, da eqüidade, dos valores transcendentais, tornando-o puro tecnicismo. Em suma, a Sociologia procura a existência; a Filosofia preocupa-se com a essência. “A Sociologia do Direito”, como observou Gurvitch, “dá ao jurista uma descrição objetiva da realidade social do direito, válida num dado meio social; a Filosofia do Direito lhe

dá um critério de valores jurídicos, que lhe ajuda em suas manifestações particulares para alcançar fins concretos” (Sociologia do Direito, p. 13). Embora cada uma funcione em seu setor específico, as duas ciências estão, entretanto, interligadas, pois o filósofo social necessita conhecer a realidade social que se faz presente nos trabalhos do sociólogo. “Quando se estuda Filosofia do Direito”, assinala Porto Carreiro (Introdução à Ciência do Direito, p. 78), “parte-se de uma base sociológica inafastável, cujo conhecimento é fornecido por aqueles que se dedicam ao estudo sociológico do Direito”.

29. A EFICÁCIA, A VIGÊNCIA E O FUNDAMENTO

As três dimensões pelas quais o Direito pode ser considerado (fato, norma e valor), segundo o próprio Miguel Reale (O Direito como Experiência, 1961, pp. 61 e 62), dão origem a três planos de problemas diferentes: o da eficácia, o da vigência e o do fundamento. A Sociologia Jurídica se preocupa com o primeiro - a eficácia; a Ciência do Direito, com o segundo - a vigência; e a Filosofia do Direito, com o terceiro - o fundamento.

29.1. A Eficácia

Ao afirmarmos que a Sociologia Jurídica preocupa-se com a eficácia do Direito, queremos enfatizar que constitui também objeto dessa discipli- [pg. 62] na saber se as normas jurídicas estão ou não adequadas às necessidades sociais. Quer dizer, primeiro a Sociologia Jurídica preocupa-se com os fatos sociais que repercutem na ordem jurídica, e com as relações que necessitam receber o disciplinamento do direito; uma vez elaborada a norma disciplinadora, empenha-se em saber se a referida norma atende ou não às necessidades sociais. Isso, como teremos oportunidade de ver, é da maior importância porque a norma, mesmo que no momento de sua elaboração esteja perfeitamente adequada à realidade social, com o correr do tempo pode se tomar ultrapassada, ineficaz, em razão da constante evolução social, tomando-se necessário reformulá-la.

29.2. A Vigência

A Ciência do Direito, por sua vez, preocupa-se não somente com a norma, como já vimos, mas também com a sua vigência. Enquanto a lei estiver em vigor, cabe ao jurista estudá-la, interpretá-la, comentá-la etc., ainda que se trate de lei já completamente

investigando ainda as ideologias ou correntes de pensamento que acabaram prevalecendo e servindo de fundamento aos principais institutos jurídicos. A norma só deixa de ser vigente depois de expressa ou tacitamente revogada por outra. 240) etc.unitário. questão que ainda aguarda definição jurídica. as suas conseqüências morais. Mas a norma legitimando essas situações não foi editada porque ainda está em debate o valor. teremos esta ou aquela estrutura política e social. queremos dizer que constituem igualmente objeto dessa disciplina os problemas relacionados com o ideal do direito. 63] organização social e política vai estabelecer situação da família. Do exposto. apesar de não mais terem aplicação social: por exemplo. seu conteúdo ético a seu mundo axiológico. federado. -. Serve como exemplo a união estável de homossexuais. 130).desatualizada e em desuso. adultério (art. o crime de perigo de contágio venéreo (art. Recapitulando: primeiro ocorre o fato social. éticas. sistemas de produção etc. ainda que completamente afastada da realidade social. porém. ele é normatizado. como outrora se discutiu o . Em alguns países o casamento de homossexuais já é permitido.. familiares e sociais. encontramos várias figuras típicas que ainda hoje são objeto de comentários dos autores (estão no Código). parece-nos resultar claro que a Ciência do Direito só tem razão de ser após o surgimento da primeira norma na sociedade. Dependendo das correntes ideológicas ou filosóficas predominantes e dos fatos sociais existentes. a forma de governo é aquela. No momento. Enquanto o grupo social estiver se organizando. democrático. que [pg. haverá campo apenas para a Sociologia Jurídica e para a Filosofia do Direito. Discute-se a justificação dessa união. religiosas. o objeto da ciência do Direito. o casamento será assim etc.3. surge a norma e. suas causas e seus princípios últimos. Ao estudarmos o Código Penal. 29. a natureza do que é jurídico. decidindo que forma de Estado e de governo vai adotar . Muitas já conseguiram a posse e guarda de crianças e até adotá-las como filhos. O fato social já existe: milhares de pessoas do mesmo sexo convivem sob o mesmo teto. Até lá é objeto da Ciência do Direito. mas no Brasil continua sendo objeto de acirrados debates. O Fundamento Ao afirmarmos. partilhando a vida sexual. finalmente. que a Filosofia do Direito preocupa-se também com os fundamentos do Direito. por via de conseqüência. depois valoriza-se o fato e. redução à condição análoga à de escravo (art. sentimental e doméstica como se fossem casais. 149). em que ficar decidido: a forma de Estado é essa. republicano -. por último.

Sintetizando tudo o que até aqui ficou dito. O direito de que aqui se vai tratar . de nada vale a vontade do homem na tentativa de modificá-las mediante a formulação de leis racionais.a física (o ser) e a moral (o dever ser). mas ao próprio direito vivo (ser). até nossos dias. e assumindo a responsabilidade pelos seus atos. às condutas humanas em sociedade. e assim por diante. liga determinado conseqüente: se alguém causar dano a outrem. podemos estabelecer o seguinte quadro: DIREITO Sociologia Jurídica Ciência do Direito Filosofia do Direito Fato Norma Valor Eficácia Vigência Fundamento Ser Dever Ser Poder Ser . atua na esfera da liberdade. muitos autores procuram distinguir a Sociologia Jurídica da Ciência do Direito estabelecendo que a primeira é a ciência do ser e a segunda a do dever ser. cit. 133). tal como a moral.. Quando o sociólogo do direito se refere ao seu objeto. entidade familiar. As ciências sociais pertencem ao mundo do dever ser. 30. a terra fica molhada. sujeito às leis naturais. isto é. como ser moral. Como ser bioló. está na realidade das coisas. em sua Teoria Pura do Direito. a Sociologia Jurídica versará o mesmo objeto da ciência jurídica. está se referindo. No mundo da natureza as coisas se passam mecanicamente.a conduta humana . O mundo do ser é o das leis naturais. reconhecido como união estável pela Constituição de 1988. que decorrem da própria natureza. a dado antecedente. não às normas (dever ser). 266. escrevendo a sua história. Nessa perspectiva. A um antecedente liga-se indispensavelmente dado conseqüente: um corpo solto no espaço (antecedente) cai inexoravelmente (conseqüente). se chover.concubinato. observou Machado Neto (ob. No mundo do dever ser as coisas se passam segundo a vontade racional do homem. O homem é o único ser que participa das duas esferas básicas do mundo . O SER E O DEVER SER Desde Kelsen. isto é. apenas servindo-se de uma lógica diversa. 64] gico. da consciência e da razão. fica obrigado a repará-lo. escolhendo os seus próprios caminhos. É este que.é o mesmo com que o sociólogo já se habituara a conviver muito antes que os juristas ou os jusfilósofos fizessem a extraordinária descoberta do direito como conduta em interferência intersubjetiva. p. § 30). cuja conversão em casamento a lei deve facilitar (art. a ética e o direito.[pg. construindo bombas ou catedrais.

Os fatos passados só interessam à Sociologia Jurídica eventualmente para efeito de comparação. em seu ângulo de visão. fundamento. Os fatos presentes são a principal preocupação da Sociologia Jurídica porque cabe-lhes. e não os passados. Todos estão certos. por sua vez. entretanto. Cremos que. oriundo da instituição estatal. Correntes filosóficas. aquelas que mantêm mais íntimas relações. a Sociologia Jurídica e a História do Direito são. cada qual. cada qual. pp. nos influenciam de tal forma. 1970. a essa altura. ser. É que as duas possuem praticamente o mesmo objeto material . com o máximo de fidelidade ao acontecido.a vida social: para ambas o direito aparece como um fato social. fazer a descrição da atual realidade social do direito. poder ser. Não se pode fazer história de fatos presentes. de vigência. o direito. 31. como à História em geral. as três ciências ocupam-se do Direito. inegavelmente. porém. envolvimentos sociais etc. porque o presente inquestionavelmente influencia na visão dos fatos. como já vimos. Historiar é narrar fatos notáveis ocorridos na vida dos povos tal como ocorreram. À História do Direito. . eficácia. A HISTÓRIA DO DIREITO De todas as ciências jurídicas. Os primeiros falam do direito no seu aspecto fato. a realidade atual. a ponto de. dever ser. e a História do Direito com os fatos passados . oriundo inquestionavelmente da sociedade. o que lhes confere objeto próprio e autonomia.apesar de ser considerada inócua tal distinção por alguns autores (Nelson Nogueira Saldanha. que necessitam do disciplinamento jurídico. já podemos compreender melhor os motivos da inconciliável controvérsia existente entre sociólogos.[pg. até inconscientemente. há muito tempo. os segundos falam do mesmo fenômeno.Como se vê. filósofos e juristas. possibilitando a elaboração de normas ajustadas a essa realidade e aferindo a eficácia das já existentes. a fim de apurar a evolução sofrida pelo Direito. com um aspecto diferente. interessam os fatos passados simplesmente por não ser possível fazer história de fatos presentes. 37-38). mas no seu aspecto valor. 65] sentes. São os fatos presentes. posições políticas. todos têm razão. e os últimos falam do seu aspecto normativo. Entendemos que a principal distinção entre essas duas ciências está em que a Sociologia Jurídica preocupa-se por excelência com os fatos pre. Sociologia do Direito.

Família. passarmos também a interpretar. E. Observa o autor. o direito fato. se não quiser correr o risco de generalizar a partir de poucos exemplos empíricos. uma coisa é o fato e outra a sua interpretação. mantém constante intercâmbio de sugestões e de subsídios com todas as disciplinas especiais que pesquisam o direito sob outros ângulos. E dessas inter-relações resultará para o estudante uma visão mais ampla. fundamento sólido para suas induções. Fiscal etc.em vez de nos limitarmos a narrar.pela simples razão de ocorrerem na sociedade todos os fatos que repercutem nos mais variados ramos do Direito. pois o historiador do direito se abebera dos ensinamentos da Sociologia Jurídica. Sucessões. 129). pois pode ser que A estivesse socorrendo B. não como ocorreram. entretanto. cit. Penal. Alguém passa por uma rua e vê uma pessoa tirando uma faca que estava cravada nas costas de outra. que as duas ciências se relacionam intimamente. a narrar os fatos. a principal diferença entre Sociologia Jurídica e História do Direito está em que a primeira pretende apanhar do fenômeno social jurídico o que sejam suas características genéricas: as leis gerais e as figuras típicas do comportamento jurídico da sociedade. 66] como o sociólogo do Direito se aproveita do inesgotável manancial da história das instituições jurídicas. deixar que o tempo dispa os fatos de toda ideologia ou conotação interpretativa. assim [pg. Isso já é interpretação. e isso só é possível alcançar após o decurso de algum tempo. . como vai relatá-la? Que viu A esfaqueando B. como já vimos. por um lado. E o fato social. a Sociologia Jurídica tem autonomia como ciência. é um estudo específico e possui ângulo próprio para examinar seu objeto.. 32. que lhe dá maior força de penetração no sistema global da história jurídica. para fazer história. por um lado. por outro está intimamente relacionada com todo o Direito . isto é. Trabalhista. p. completa e abrangente do Direito. O historiador tem que narrar fatos. Para Machado Neto (ob. Via de regra. . RELAÇÃO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COM OS DEMAIS RAMOS DO DIREITO Se. ser fiel a eles o máximo possível. Este é o fato. momentos antes esfaqueado por C. A segunda (História do Direito) detém-se na consideração de cada fenômeno sócio-jurídico individual. como é sabido. procurando enquadrá-la no sistema geral em que a história em si própria consiste. Por isso é necessário. por outro lado. se a Sociologia Jurídica. mas como nos parecem ter ocorrido. é o objeto por excelência da nossa disciplina. pode-se concluir que. De todo o exposto.

satélites artificiais e até de objetos “nãoidentificados”. de naves espaciais. Efeitos do progresso científico no mundo social. de aviões. investindo-se fabulosas somas no desenvolvimento de arrojados projetos quase impossíveis. se formos adquiri-los todos. Como resultado. Química. encheram-se de veículos dos mais variados tipos. houve um progresso científico nunca dantes visto ou esperado! Inúmeros inventos e descobertas ocorreram. os mais poderosos e velozes. Disca o telefone e fala com alguém no outro lado do . Matemática. Todas as atenções foram voltadas para as pesquisas no campo da Física. Astronomia. o ar. Importância da Sociologia Jurídica.tanto das minúsculas bactérias. **** 33. As casas encheram-se de aparelhos eletrodomésticos. [p. outrora calmas e livres. A importância das ciências sociais.uma para a família e outra para os aparelhos. em tão grande número e variedade que. como dos gigantescos corpos celestes distantes milhões de anos luz. precisaremos de duas casas . O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO Na primeira metade do século XX as grandes potências mundiais deram grande importância ao estudo das ciências chamadas exatas. bem como de submarinos e outros objetos destinados à navegação. o mar encheu-se de navios das mais variadas procedências. permitindo ao homem penetrar no mundo do invisível . As ruas.Capítulo VII IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E DA SOCIOLOGIA JURÍDICA EM ESPECIAL O desenvolvimento científico. pois pode estar em vários lugares quase ao mesmo tempo. 69] O homem verdadeiramente adquiriu o dom da ubiqüidade.

Passaram a ser naturais. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava sendo o lombo de animal. teve condições de imprimir múltiplos exemplares. Para evitar-lhe problemas psíquicos. A prensa de Gutenberg era.mundo. no qual viajava do Rio para São Paulo.000 anos antes de Cristo? O lombo de animal. de grande impacto cultural sobre a sociedade. em comparação. mas. Em conseqüência desse fantástico progresso científico. Gutenberg levou dois anos para compor os tipos de sua primeira Bíblia. inventou o tipo móvel e apresentou a primeira prensa na Europa (a China e a Coréia já possuíam prensas). roupas compridas etc. Dois mil anos depois. e fomos a elas nos acostumando gradativamente. O aparecimento da prensa fez mais pela cultura ocidental do que simplesmente introduzir uma forma mais veloz de reproduzir um livro. Até aquela época. toma café no Rio de Janeiro e janta em Nova Iorque. a vida fora comunitária e praticamente imutável. Antes de Gutenberg. nos dias de Cristo. entra na internet e. uma vez feito isso. por volta de 1700. O único acontecimento isolado. não acreditaria no que veria: pensaria que estava em um outro mundo. naquele instante. compra o que quiser. ocorreu por volta de 1450. 70] mente conseguiam fazer mais de uma por ano. O invento mudou a cultura ocidental para sempre. Na Europa e nos demais países civilizados também o transporte era o mesmo. congelado. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava o mesmo. voltasse à nossa sociedade. põe-se em contato com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo.com carruagens. que em geral eram encarregados de copiar a Bíblia. não em cima de um tanque de guerra. Pedro I proclamou a independência. Os monges. acidentalmente. mas ainda em cima de um cavalo. quando Johann Gutenberg. literalmente. Mas se um ancestral nosso. Para termos idéia do progresso científico que houve em nossos dias e das transformações ocorridas. rara. O nosso D. A maioria das . ou até mesmo na Lua. e descongelado em 1976 num mundo totalmente diferente. que morreu aí pelo ano de 1900. na Alemanha. Não percebemos tanto o vulto das transformações porque ocorreram todas em nossos dias. apesar do transcurso das gerações. comanda operações de muitos milhões de dólares. e assim por diante. acessa qualquer informação. vê o que pretender. liga a televisão e vê o que está se passando. todos os livros eram copiados à mão. nos Estados Unidos. em outro continente. basta que atentemos para o seguinte: qual era o sistema de transporte mais rápido 2. Isso demonstra que em quase quatro mil anos de história a humanidade nada progrediu no campo científico. Já houve até um filme que explorou esse motivo. Mil e oitocentos anos depois. Era a história de um indivíduo. um ourives da cidade de Mainz. seus descendentes tiveram que remontar em tomo dele o mundo em que viveu .[p. uma impressora a laser de alta velocidade. tudo se transformou em nossa sociedade.

120 km etc. em geral era quase impossível encontrar o caminho de volta. que é o próprio homem. e assim as rodas começaram a correr. perdia terreno em seu próprio grupo. por falta de uma ação . outro a máquina a vapor. dominando o espaço sideral. em parte porque. os inventos começaram a surgir: um descobriu a energia elétrica. como se sabe. depois da Segunda Grande Guerra Mundial e da desintegração do átomo. ao vê-lo. deu origem a uma classe ex. não acompanharam o desenvolvimento científico e tecnológico. O que existia no mundo exterior era uma questão de ouvir dizer. pôs-se a advertir os passageiros. os homens voam a fantásticas velocidades. Enquanto o homem se empenhava em conquistar a Lua. sem mapas confiáveis. ainda mais desnorteado.agravou-os ainda mais. Desse desequilíbrio resultou que o progresso científico. As instituições sociais. permitindo a formação de um clima propício a lutas de classes. perdendo de vista seu objetivo. Um velho que se encontrava na estação. Muito poucas aventuravam-se para além das fronteiras da aldeia. Criou superpotências capazes de dominar e destruir as demais. porém. sonora. Hoje. um de meus autores favoritos: “Nesse mundo.[p. aumento da criminalidade. as ciências sociais ficaram esquecidas.” E quando o trem andou. choques ideológicos. gerando novos planos na desigualdade social. porque de 6 km por hora. a ponto de tomar impossível a vida em certos lugares. o velho se pôs a gritar: “Essa coisa não vai mais parar.pessoas só conhecia aquilo que fora visto com os próprios olhos ou ouvido em relatos de terceiros. resultando disto um descompasso entre o progresso científico e a evolução social. Como diz James Burke. já de muito ultrapassaram a barreira do som. A explosão demográfica. trouxe poluição atmosférica. relegadas a segundo plano. outro ainda o motor a explosão. EFEITOS DO PROGRESSO CIENTÍFICO NO MUNDO SOCIAL Enquanto as ciências chamadas exatas eram estudadas e pesquisadas. fluvial e até do mar. 34.sua razão de ser . acarretando acidentes que matam e mutilam mais do que as guerras. 71] tremamente privilegiada em detrimento das demais. O mais impressionante de tudo é que a maioria dos inventos ocorreu de 50 anos para cá. em vez de resolver os problemas sociais .” E não parou mesmo. a comunidade olhava para dentro. agravou os problemas de trânsito.” Ao chegarmos perto do século XX. passou em pouco tempo a 60. O primeiro trem andava à velocidade de 6 km por hora: era um espanto para a época. todas as experiências eram pessoais: os horizontes eram pequenos. dizendo repetidas vezes: “Essa coisa não vai andar.

destacamos: Euzébio de Queiroz Lima. inúmeras e extraordinárias obras foram escritas sobre o assunto. abandono infantil. Carlos Campos. de algum tempo para cá tomou-se obrigatório o estudo das ciências sociais em quase todos os cursos superiores. destinados a preparar especialistas em planejamento e organização social. Concluiu-se também ser necessário planejar o desenvolvimento social. criaram-se cursos universitários específicos nesse fascinante ramo [p. nem apenas um sonho dos marxistas ou fascistas. . já reinantes nos grandes centros socialmente mal organizados. Por isso. Evaristo de Moraes Filho. Compreendeu-se tardiamente que o progresso científico deve ser integrado. como foi feito com as ciências exatas. A sociedade tem que caminhar para o autoconhecimento. Dentre os juristas e sociólogos que entre nós se têm dedicado ao assunto. Tem que conhecer o que se passa em seu seio como temos que nos conhecer a nós mesmos. 35. que escreveu o conhecido livro Princípios de Sociologia Jurídica. pesquisá-las. liberdade. que editou em 1950 a obra intitulada O Problema de uma Sociologia do Direito. Mais recentemente: F. A IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Houve o despertar da consciência para a importância das ciências sociais e a necessidade de estudá-las. visando o planejamento do próprio desenvolvimento. e Orlando Gomes. segurança. só nesta harmonia traz beneficio à humanidade. confusa e turbulenta. com inúmeros tentáculos ou segmentos. É hoje uma imposição da vida em coletividade. A. sem a qual não haverá organização. Quando a sociedade cresce desordenadamente toma-se um polvo gigantesco. desenvolvê-las. progresso. Provam isto os problemas sociais de violência.preventiva. empolgados pelos problemas decorrentes da aparente necessidade de controlar as massas. e A. mas a cegonha. miséria. pesquisas e projetos desenvolvidos. editado pela primeira vez em 1922. sério. tomou-se um fato irreversível. sob pena de tomar-se impossível a vida em coletividade. Sociologia e Filosofia do Direito. 72] do conhecimento humano. A planificação da sociedade não é mais considerada incompatível com a democracia. A Crise do Direito (1955). de Miranda Rosa lançou a notável Sociologia do Direito. realizando-lhe os objetivos. a ponto de um ex-presidente norte-americano afirmar que a mais perigosa sombra que ameaça a humanidade atualmente não é a bomba atômica. vinculado ao desenvolvimento social. L.

enfatiza: “O direito é um fenômeno social. Orlando Gomes.” E. no estudo do Direito Civil pátrio. com o passar do tempo aquela acaba se tomando ultrapassada. em 1964. com a realidade social subjacente. E essa interpretação não pode circunscrever-se à qualificação dos fatos jurídicos ou à fixação das condições de validade da conduta do indivíduo no exercício dos direitos deferidos ou no cumprimento das obrigações impostas. Não basta descrever os elementos formais da realidade jurídica composta das normas vigentes em determinado momento histórico. necessariamente. 1946. sem desrespeitar as leis da hermenêutica. Segundo Pugliatti. sob o título Sociologia Jurídica. caráter abs. O primeiro é a matéria prima da experiência jurídica. conhecendo-as. poderá. São inseparáveis.[p. o elemento material isolado toma cor neutra e o elemento formal. pois fornece-lhe os elementos necessários à elaboração das leis. fazer o Direito acompanhar as evoluções sociais. através de uma interpretação ora extensiva. Eis por que. a Sociologia Jurídica possibilita aplicar o Direito de modo compatível com as necessidades sociais. em magistral tradução de Djacir Menezes.] trato. visto que. não podemos deixar de mencionar a Sociology of Law de Gurvitch. Esses ajustes só alcançarão seus objetivos se o legislador estiver devidamente informado sobre aquilo que precisa mudar.nenhum legislador tem condição de elaborar leis eficazes. O outro é formado de um conjunto de normas. não nos ateremos ao método . IMPORTÂNCIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A Sociologia Jurídica é da maior importância em primeiro lugar para o Legislador. sendo a lei estática e a sociedade dinâmica. os conflitos que se travam . numa sociedade determinada. as relações que necessitam de melhor disciplinamento. Com efeito. constituindo-se de fatos sociais. e a Sociologia do Direito de Remi Levy Briihl. Ao Juiz. sem conhecer os fatos que estão ocorrendo no grupo. é preciso com freqüência ajustar a lei às novas realidades sociais. 36.a realidade social. Dos autores estrangeiros com obras traduzidas para o português. não sendo possível estudálo abstraindo-o da sociedade. visto que. obsoleta. Por outro lado. ora restritiva. escoteiro. bem colocou esta questão quando disse: “A realidade jurídica constitui-se de dois elementos fundamentais: o material e o formal.Machado Neto escreveu Sociologia Jurídica. traduzido por Teruka Minamissawa. A missão do jurista compreende a interpretação das leis que regem a sociedade. o jurista toma contato. um dos nossos grandes juristas. do original Sociologie du Droit. Só por abstração se pode separar a forma do conteúdo. Para interpretá-las. mais adiante. enfim . ou mesmo através da analogia.

se dermos a devida atenção à Sociologia Jurídica e progredirmos suficientemente em seu estudo. os governantes e juízes serão capazes de dar aplicação mais precisa às normas de direito que houverem sido editadas. a realidade social dinâmica em permanente evolução. Revela-lhes que o Direito não é somente um conjunto de normas estáticas. mas sim ao dos que consideram o direito um fenômeno social e entendem que a ciência jurídica não se esgota na elaboração de uma teoria geral ou na técnica de logicar através de silogismos próprios de uma sentença judicial (Introdução ao Direito Civil.. alcançando a necessária adequação entre os fins sociais e as normas jurídicas que se destinam a realizá-los. a Sociologia Jurídica proporciona uma visão mais ampla e real do fenômeno jurídico. mas também um fato. 3a ed. como para o estudante. 1971. será possível evitar a improvisação em inúmeras questões administrativas e legislativas. o profissional do Direito. à qual as normas deverão se ajustar sob pena de perderem a finalidade. pp. Podemos concluir afirmando que. 14 e 16). .preconizado pelos normativistas. Os legisladores poderão cumprir melhor sua função prevendo as tendências da legislação. frias. Forense. Para o advogado. tomando-se ineficazes e obsoletas. que devem ser aplicadas independentemente de qualquer finalidade ou objetivo.

procuraremos precisar o que está contido no estudo do direito como fato. Ao tratarmos da autonomia da Sociologia Jurídica. A posição de Renato Treves. para então adotarmos o daquele que nos parece mais completo. Em suma. porque disto depende uma boa compreensão quanto à razão prática dessa disciplina. Por objeto entende-se o campo específico de atuação de uma ciência. o objetivo que visa alcançar. fenômenos que se repetem com freqüência no campo de uma ciência. o processo a ser aplicado para realizar suas finalidades. Vamos procurar agora explicitar esse objeto. estabelecer seu método e conhecer suas leis. O pensamento de Georges Gurvitch. entretanto. razão pela qual procuraremos expor o entendimento dos principais. desde logo adiantar que em tomo desta questão não há perfeita concordância entre os autores. examinando a sua divisão interna. [p. Leis são aquelas regularidades. o fim a que se propõe. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA No estudo de toda ciência é da maior importância precisar seu objeto. Método é o caminho que se deve seguir para alcançar os objetivos de uma ciência. É preciso. Vamos de ora em diante nos dedicar ao exame do objeto da Sociologia Jurídica. 75] . O objeto da Sociologia Jurídica na concepção de Edmond Jorion.Capítulo VIII OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA O entendimento de Émile Durkheim. O objeto da Sociologia Jurídica segundo Recaséns Siches. **** 37. vimos que o seu objeto é o direito fato.

incluindo uma Tipologia Jurídica dos Grupos Particulares e uma Tipologia Jurídica das Sociedades Totais. 39. [p. citado por Machado Neto. por um lado. dando ênfase especial ao estudo da soberania e das relações das diversas ordens jurídicas com o direito estatal. um dos fundadores da escola sociológica do direito. PUF. O ENTENDIMENTO DE ÉMILE DURKHEIM Para esse notável sociólogo francês. Paris. isto é. e das formas de sociabilidade por interdependência (relações de aproximação. de acordo com as diversas abordagens metódicas de seu objeto. No primeiro item estaria incluído o exame das causas que determinam o surgimento das regras jurídicas. e a base ecológica da sociedade.. o conhecimento e a psicologia coletiva. de afastamento ou mistas) com os fenômenos originários do direito interindividual. em três itens: a) Sociologia Sistemática do Direito ou Microssociologia do Direito. c) Sociologia Genética do Direito (ob. a Sociologia Jurídica pode ser dividida. bem como o estudo dos planos de profundidade do direito. 76] O último item trata das relações de interinfluência que se estabelecem entre o direito. O PENSAMENTO DE GEORGES GURVITCH Segundo Gurvitch. pp. por outro. a economia. Somente quando as normas estão ajustadas aos fatos é que poderão atender aos objetivos para os quais foram elaboradas. bem como das necessidades que visam satisfazer. dos fatos sociais que as suscitam.38. comunidade. 89-94). se está ou não sendo aplicada. No segundo item procurar-se-ia saber dos resultados decorrentes da existência da norma. seria objeto da Sociologia Jurídica: a) investigar como as regras jurídicas se constituíram real e efetivamente. 1950). se há ou não estrutura para isso etc. No primeiro item teríamos o estudo das relações das formas de sociabilidade por interpenetração (massa. . a moral. cit. comunhão) com os fenômenos geradores do direito social. b) o modo como as normas jurídicas funcionam na sociedade (Leçons de Sociologie. No segundo item Gurvitch se serve de sua classificação dos grupos para estudar as relações do direito com cada tipo de agrupamento social. b) Sociologia Diferencial do Direito. a religião.

data venia. p. radicado no México. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA SEGUNDO RECASÉNS SICHES O destacado professor espanhol. 211). enquanto fato. estudos 41. e) Definição pela Sociologia do Direito. a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina. 1965. O primeiro item proposto por Siches trata do direito como fenômeno condicionado pela sociedade. como produto resultante de um complexo de fatores sociais. como já assinalamos. Seu tratamento tipo lógico (reagrupamento. encontra-se superado. c) Estudo da gênese das regras jurídicas e de sua evolução. atribui à Sociologia Jurídica duas séries de temas: a) Estudo de como o direito.40. entretanto. o direito é. Poderíamos ilustrar o entendimento de Siches mediante o seguinte quadro: [p. O segundo item cuida da influência conformadora ou condicionante do Direito sobre a sociedade. p. b) Exame dos efeitos que o Direito constituído causa na sociedade. d) Relação do Direito com outros fenômenos sociais (influência do Direito sobre a sociedade e vice-versa). representa o produto de processos sociais. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA NA CONCEPÇÃO DE EDMOND JORION Para Jorion. b) comparativos). Porto Alegre. 77] Sociedade A Direito B . no que. sejam eles positivos. um fenômeno condicionado e condicionante da sociedade. Em síntese. O autor belga. tendo por objeto o fenômeno jurídico. propõe o seguinte quadro de tarefas para a Sociologia Jurídica: a) Observação e análise dos fatos. 693). negativos ou de interferência com outros fatores (Tratado de Sociologia. ao mesmo tempo. classificação. de seus próprios limites (De la Sociologie Juridique.

Mas. Ficaríamos alarmados se fôssemos pesquisar o que foi necessário. fazendo-o surgir das inter-relações sociais. Aí a obra sai publicada com o nome do seu autor na capa. uma vez constituído em normas de conduta e disciplinamento. Einstein e outros não passariam de um pajé ou cacique. [p. apesar de receber tanta influência condicionante do meio social. não podendo ser esquecidas as figuras da datilógrafa. Newton. dele dependemos grandemente para tudo. não fosse o social. Escreve sobre um tema que reflete uma soma de conhecimentos adquiridos em livros. em verdade. professores etc. um produto manipulado pela sociedade. é obra exclusiva do autor? Somos tão dependentes do social que nem poderíamos falar a língua que pretendêssemos. se tivessem nascido em uma tribo indígena. revistas. papel. no correr dos séculos. sem dúvida o mais dominante é o sócio-cultural. para que ele pudesse estar escrevendo numa folha de papel e não em um papiro ou coisa semelhante. Todo progresso. escola. jornais. dos operários que manipularão as máquinas etc. o Direito passa acondicionar o comportamento do grupo.” Por outro lado. exclusivamente. mudança cultural etc. Até costuma-se dizer que somos produto do meio porque. terá que aprender a língua falada no meio social para onde vai. portanto. fontes de trabalho e inventos de outrem. segundo o entendimento de Siches. muitas outras pessoas terão que concorrer para a edição. de formação lenta e paulatina. resultado de longa evolução histórica. poderíamos dizer que ocorre algo semelhante ao que se passa entre a sociedade e o indivíduo. patrimônio da cultura universal assimilado graças a uma pluralidade de inventos sociais.. pois deve mais à coletividade do que a si mesmo. Até o livro sair publicado. O próprio Newton afirmou: “Se vi mais longe foi porque estive sustentado em ombros de gigantes. De todos os fatores que atuam sobre o indivíduo. haverá naquele livro? Começa que ele escreve em uma língua que não inventou. No segundo plano (linha B) figura o Direito constituído exercendo influência condicionadora sobre a sociedade: é inegável que. Se quiser se comunicar. como tinta sintética. entretanto. 78] O gênio não existiria. Por isso. Em que medida o livro é produzido pelo seu autor? Quanto do autor em si. o indivíduo exerce influência sobre o grupo. Não teríamos com quem falar. Tomemos o exemplo de quem escreve um livro.No primeiro plano (linha A) figura a sociedade como fator condicionante do direito: é a sociedade que dá origem ao direito. na realidade. a maior dificuldade de quem vai para um país diferente é a língua. Para ilustrar as relações existentes entre a sociedade e o Direito. do editor. surge . sendo. Para escrever depende o autor de uma série de recursos materiais. luz artificial etc.

a lâmpada elétrica. Não foi a sociedade. entretanto. filosofia. pois. o Direito passa a disciplinar as relações sociais. técnica. a saber: I . a máquina a vapor. Siches dá maior ênfase ao primeiro item da sua proposição temática. 79] d) mútuas correlações empíricas entre o Direito e outros produtos da cultura (religião. Quando erigido em norma de conduta. II . o que é bom. ficou evidenciada essa influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. É que a sociedade.). elaborado pela sociedade.evolução milenar que durará enquanto existir a sociedade. também condiciona. condicionando condutas.na sociedade graças aos condutos da criação individual. fazendo-o evoluir.ainda não suficiente ou convenientemente reguladas. Certas zonas da personalidade não chegam a ser inteiramente socializadas. todos resumíveis na questão da influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. Exercendo influência sobre o grupo. que tem que disciplinar os novos fatos . e por sua vez no Direito norma. ou melhor . Essa reciprocidade de influência produz constantes modificações no direito fato. que inventou o cálculo infinitesimal. arte. . o indivíduo. b) tendências e correntes que ainda não obtiveram expressão normativa. Algo semelhante. não consegue a socialização integral de todos os indivíduos. economia etc.Os fatores constantes da realidade jurídica. subdividindo-o em uma série de novos temas. mas sim o indivíduo. ao qual nos reportamos. por mais que condicione o indivíduo. ao mesmo tempo que o Direito é condicionado. f) necessidades e fins da vida humana que estejam pressionando em dado momento. é o Direito um produto social. pois caso contrário seria a massificação. Como fato. operando elas o milagre da inovação. e) fenômenos de organização espontânea. c) representações axiológicas das pessoas que integram o grupo. No capítulo sobre os Fatores Sociais da Evolução do Direito.dado que a plenitude do ordenamento jurídico não permite tais vazios . O impulso criador da mudança cultural e do progresso social é. [p. ocorre entre o Direito e a sociedade.Os dados (variáveis) da matéria social: a) realidade de uma série de relações sociais não reguladas juridicamente. como já se disse.

se atendida. o que são efeitos. sob pena de a lei não atingir os seus objetivos sociais. trataremos da opinião pública que. que tipos de efeitos as normas podem produzir. envolvem os temas propostos pelos demais autores. em sua obra La Sociologia del Diritto (pp. De todos os autores mencionados. o que evidencia a influência condicionadora do Direito sobre a sociedade. [p. funciona como termômetro a indicar ao legislador as mudanças a serem feitas na lei e nas instituições sociais. É preciso uma estrutura adequada de pessoal e material para aplicar a lei. 23-25).42. quando a norma é eficaz e por quê. A POSIÇÃO DE RENATO TREVES O ilustre professor italiano. Os temas por ele propostos. Por último. 80] . praticamente. entendemos ser Renato Treves o que melhor colocou o problema relacionado com o objeto da Sociologia Jurídica. em três tipos de indagações: 1) estudo da eficácia das normas jurídicas e dos efeitos sociais que tais normas produzem. 2) estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições. ao analisar os assuntos que têm constituído o objeto da Sociologia Jurídica. são também mais abrangentes. além de mais compatíveis com o campo de atuação da Sociologia Jurídica. Trataremos também dos agentes do Direito na sociedade e sua função. principalmente. sustenta que eles se agrupam. Veremos o que é eficácia. 3) estudo da opinião do público a respeito do direito e das instituições jurídicas. razão pela qual vamos adotar essa classificação em nossos estudos daqui para frente. quando teremos oportunidade de ver que não adianta ter leis e não aplicá-las. e.

eficácia do contrato. procurando definir a eficácia e os efeitos das normas jurídicas. Eficácia da lei. . Trata-se de conceitos que a todo momento se repetem no estudo do Direito: validade do ato. embora esta seja pressuposto daquela. 81] Um contrato. **** No capítulo anterior. Renato Treves. examinar o primeiro item da classificação por ele sugeri da. efeito conservador da norma..Capítulo IX EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS E SEUS EFEITOS SOCIAIS A noção de validade e de eficácia. porque lhe falta um dos elementos. Efeitos negativos: pela ineficácia da lei. 43. razão pela qual tomam-se imperativas algumas palavras a respeito. efeito educativo da norma. tomaremos como roteiro de ora em diante. Nossa tarefa será. é válido? Não. entendemos necessário lembrar que eficácia não é sinônimo de validade. em nosso entender. pois. o qual. [p. Efeitos da norma. Inicialmente. nos dá a chave para encontrarmos o conceito de validade. pela falta de estrutura adequada à aplicação da lei. da lei etc. pela omissão da autoridade em aplicar a lei. efeito transformador da norma. Efeitos positivos da lei: de controle social. destacamos o entendimento do Prof. dissemos. A NOÇÃO DE VALIDADE O que é necessário para que uma coisa seja válida? Esta pergunta. após examinarmos o pensamento de vários autores sobre o objeto da Sociologia Jurídica. no qual uma das partes é incapaz. estabelecer as causas da ineficácia das leis e os tipos de efeitos que elas podem produzir e por quê.

A invalidade. ovos. ineficaz. vamos começar pelos efeitos. inválido. para exemplo. invariavelmente. Por elementos essenciais entendem-se aqueles requisitos que constituem a própria essência ou substância da coisa. porque faltou um dos seus elementos essenciais. pois. cremos já poder agora tratar especificamente da eficácia da norma jurídica e dos seus efeitos. Pois coisa semelhante ocorre no mundo jurídico. ela será válida. A NOÇÃO DE EFICÁCIA Eficácia é uma conseqüência da validade: é a força do ato para produzir os efeitos desejados. Quando queremos saber se uma coisa é válida ou não. O ato nulo.Vemos assim que válido é aquilo que é feito com todos os seus elementos essenciais. Por isso é que se diz que “válido é aquilo que está revestido de todos os seus requisitos legais”. 82] . não alcançando os seus objetivos. Faltando qualquer um desses. [p. tem força para alcançar os seus objetivos. não produz efeitos. Tomemos. Lembremos agora que a receita do negócio jurídico está na lei . revestido de todos os seus elementos essenciais. Para que o ato ou negócio sejam válidos.artigo 104 do Código Civil. com falta de um de seus elementos. os efeitos essenciais do tipo. por força duradoura e irremovíve1. o caso de uma dona-de-casa empenhada em fazer um prato especial. terão que estar revestidos de todos os seus elementos essenciais. não tem força para tal. para Emílio Betti. nulo. açúcar e as devidas proporções. é ela que estabelece os seus elementos essenciais. 44. de o ato haver sido executado com a satisfação de todas as exigências legais. Só o ato válido. Por razões didáticas. sendo. que nasceu defeituoso. como sanção à inobservância dos requisitos essenciais impostos pela lei (Teoria Geral do Negócio Jurídico. o negócio é inválido. Coimbra. Pode-se. manteiga. no aspecto sociológico.farinha. é aquela falta de idoneidade para produzir. Se todos os seus elementos essenciais estiverem presentes. sem os quais ela não existiria. ela jamais terá o prato desejado. são partes do todo. concluir que a validade decorre. devemos examinar seus elementos. portanto. Que é preciso para ela fazer esse prato especial? Que elementos deve utilizar? Ela vai à receita e lá encontra a discriminação dos elementos . Com essas considerações preliminares. 1970). cujos conceitos não divergem do que já ficou assentado. Faltando um deles.

Poderão ser muito boas para outro lugar qualquer que tenha servido de inspiração ao legislador. EFEITOS DA NORMA São todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. Toda norma produz efeitos. que atinge o alvo por que está ajustada ao fato. Deve ser a primeira preocupação do legislador . Em outras palavras. abrangente. Uma lei. Pelo que ficou dito. nunca. Legislador que não tem conhecimento da realidade social. por isso que neles estão incluídos todos os resultados produzidos pela norma. 46. dos reais problemas e conflitos que se travam na sociedade. porém. é a força do ato para produzir os seus efeitos. não tem condições de fazer leis. moldando-o à sua imagem e semelhança. vazias de propósito. é eficaz a norma que atinge os seus objetivos. “O legislador não pode ser mero espectador do panorama social. não passando de um conjunto de estéreis formalidades. qualquer conseqüência. Os efeitos podem ser positivos ou negativos.45. a sociedade condiciona o direito fato. por mais técnicas e eruditas que forem as leis que elaborar. que realiza as suas finalidades.elaborar uma norma adequada à realidade social e a primeira tarefa da Sociologia Jurídica . só tem essa força quando está adequada às realidades sociais. sob pena de nunca elaborar lei eficaz. genérico. Só aí ela penetra no mundo dos fatos e consegue dominá-los. EFICÁCIA DA LEI Se eficácia. Nesse sentido é também a correta lição de Paulo Nader. eficácia é a adequação entre a norma e as suas finalidades sociais. A sociedade não espera pelo legislador. como teremos oportunidade de ver. Como dizia Siches. ajustada às necessidades do grupo. Por conseguinte. decorrentes até mesmo de sua própria existência. Se os fatos caminham normalmente à frente do . como já vimos. para a sociedade à qual se destinam. Cabe ao legislador ajustar o Direito Positivo a essa realidade social. pois sua própria existência já é um efeito. modificação ou alteração que a norma produza no mundo social. podemos então dizer que lei eficaz é aquela que tem força para realizar os efeitos sociais para os quais foi elaborada. serão elas carentes de conteúdo. entretanto.fornecer ao legislador os elementos necessários à elaboração dessa norma. conclui-se que os efeitos envolvem um conceito amplo. que não está a par do desenrolar dos fatos.

vimos que as suas principais finalidades são prevenir e compor conflitos. conforme os interesses a serem preserva. seu efeito principal ou real. Se de um lado o Direito recebe grande influxo dos fatos sociais. Pelo exposto. quando eficaz. o legislador haverá de considerar os fatores histórico. e negativos. destas. como teremos oportunidade de ver. eficácia é espécie. a contrario sensu. 3) conservador. em outras palavras. a função preventiva é a . 47. Efeitos positivos são os resultados compatíveis com os interesses sociais. aquele que mais se harmonize com os três fatores” (ob. verifica-se ser a eficácia um dos efeitos da norma.[p. um efeito condizente com suas finalidades. 4) transformador 47. EFEITOS POSITIVOS DA LEI Já vimos que efeitos são todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. conforme mencionado na parte anterior. importantes modificações na sociedade. Efeito é gênero. 83] dos. p. Ele deve fazer das leis uma cópia dos costumes sociais.. o estudo da influência condicionante do Direito constituído sobre a sociedade. mas o Direito contemporâneo não é simples repetidor de fórmulas sugeridas pela vida social. Podemos até dizer que a eficácia é o principal efeito positivo da norma.1. são os resultados contrários aos interesses da sociedade.Direito. cit. provoca. 27). natural e científico e a sua conduta será a de adotar. A norma eficaz só não produz efeitos positivos se concorrerem outros fatores. produz normalmente efeitos positivos. entre vários modelos possíveis de lei. O estudo dos efeitos da lei é. Entre os efeitos positivos da norma destacaremos apenas quatro: 1) de controle social. O Controle Social Quando tratamos da função social do Direito (no segundo capítulo). com as devidas correções e complementações. o legislador deverá antecipar-se aos fatos. Esses efeitos podem ser positivos ou negativos. O Volksgeist deve informar às leis. 2) educativo. É uma certa qualidade do efeito produzido pela norma. Quando da elaboração da lei. igualmente. da qual falava Siches. A norma. É o efeito típico da norma.

a não ser através dos meios constitucionais etc. tanto assim que não pode punir sem que alguém tenha praticado um fato típico. da próxima vez que se sentir inclinado a transgredir a norma.mais importante. de disciplinamento social. O Direito é muito mais preventivo do que repressivo. indenizatória. Sabe que tem direito a férias. Qualquer trabalhador dos nossos dias. o controle é também exercido pela prevenção especial: a segregação do transgressor do meio social. Isto faz com que muitos. ajustem o seu comportamento às prescrições legais para não sofrerem a sanção. E ele sabe até mesmo onde e como reclamar os seus direitos. mas sim no próprio grupo. que certos assuntos tomam-se melhor conhecidos do grupo social depois de serem disciplinados pela lei. aquela coação psicológica ou intimidação exerci da sobre todos. conhece os seus direitos. ou a aplicação de uma pena pecuniária. e assim. Bertrand Russel observou. Quando a norma não é aplicada convenientemente. à medida que vai sendo conhecida pelo grupo.2. O controle social é exercido pelo Direito primeiramente pela prevenção geral. que o bom comportamento até do cidadão mais exemplar deve muito à existência da polícia. É inconcebível uma sociedade na qual o comportamento social seja regulamentado apenas pelas sanções morais do elogio e da culpa. Conscientizou o cidadão dos seus . nem na Escola de Direito. Dessa forma exerce o Direito sobre todos um condicionamento que resulta num controle do comportamento do indivíduo. publicada. 13° salário. não pode apoderar-se da propriedade de quem quiser. vai se perdendo o controle da situação e a vida em sociedade vai se tomando impossível. Por quê? Onde aprendeu? Não foi com o patrão. Exemplo disso encontramos no Direito Trabalhista. repouso remunerado. aviso prévio etc. com toda a propriedade. 84] previne os conflitos? Estabelecendo regras de conduta. mesmo o ignorante ou analfabeto. 47. E ai de nós se assim não fosse! Como o Direito [p. fundo de garantia. para ter. mesmo não querendo. tem que ser divulgada. O próprio Estado. sofre o controle do Direito quanto à sua conduta. Em segundo lugar. através de pesquisas e da própria experiência. a sociedade global. A Constituição de 1988 nos fornece outro exemplo eloqüente desse efeito educativo da lei. do grupo e das instituições. maior estímulo no sentido de ajustar sua conduta às condições existenciais. mediante a ameaça de uma pena para o transgressor da norma. vai também educando e esclarecendo a opinião pública. Efeito Educativo da Norma Está mais que evidenciado. É que a lei. antes de se tomar obrigatória.

Para muitos. racionalizar atividades.3. O próprio Estado. A norma tutela não somente bens. mais do que isso. o estelionato. estabelecendo em tomo delas a proteção jurídica.348 reclamações. cerca-as. que é a instituição maior. Assim tem conseguido a sociedade. Hoje. destinadas a organizá-lo e conservá-lo. E o que se fez em relação a ela? Procurou-se protegê-la através de uma infinidade de normas. conquistar a fidelidade dos clientes e construir uma imagem positiva da empresa. perceberam que teriam de atender melhor os seus clientes para não perdê-los. Estruturaram-se adequadamente e colocaram em operação o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) por meio do qual conseguiram padronizar procedimentos. em face da nova postura dos consumidores. no Código Penal (dos crimes contra a família. A função conservadora do Direito. As empresas. Prova disso são os Juizados Especiais. o roubo. 85] pelo Código do Consumidor. Uma grande fornecedora de serviço de telefonia atende mais de 25 milhões de chamadas por mês. as que incriminam o furto. foram propostas 252. 47. defendeas. Trata-se de instituição basilar da sociedade. essa é a característica essencial das normas jurídicas. Efeito Conservador da Norma As normas jurídicas tutelam determinados bens da vida social. mas também instituições. 235-249) e na própria Constituição. preservar esta instituição através dos séculos e a despeito de todas as influências perniciosas que conspiram contra ela. o aborto.782 reclamações e julgadas 265.389. ligase ao caráter estático que ele representa ao garantir a manutenção da ordem social existente. que se transformam em jurídicos quando recebem a proteção do Direito. assinala o insigne André Franco Montoro. Há normas no Código Civil (um livro todo que só trata do direito de família). É a função educativa do Direito. necessita da proteção do Direito e por isso existem leis. e assim por diante. arts. Em 2003 foram ajuizadas 296. no que foi coadjuvada [p. Quando o legislador entende que certas instituições são valiosas e indispensáveis à vida social.729. que podiam aprender com eles para melhorar seus produtos e serviços. destinadas à proteção da família.direitos e do acesso à Justiça. Vejam o caso da família. no ano de 2002. Tomemos como exemplo o Direito Penal: todas as normas que incriminam o homicídio. mas. das quais foram julgadas 223. protegem o patrimônio. bem ou mal. 85% do atendimento dos bancos 24 horas são feitos eletronicamente. grandemente procurados. a começar pela Constituição. por sua vez. no entender do ilustre . visam a tutela da vida. o infanticídio. Só no Estado do Rio de Janeiro.

auxílio de doença. Vêm daí as masmorras. paulatinamente. equipar-se.jurista. indenização. muitas delas com refeitório. Qual era a sua situação? A mais lamentável possível. em favor do trabalhador. isso só é [p. então o réu deveria ser mesmo colocado no pior lugar do mundo. e assim.. . E qual foi a conseqüência disso tudo? A sociedade teve que se estruturar. não funciona a contento. por ser grande demais. Daí a importância do Direito como instrumento de transformações sociais. Eis aí o efeito transformador da lei. Exemplifiquemos este ponto com a situação do trabalhador antes das vigentes leis trabalhistas. aposentadoria. Reduzir o direito a uma força conservadora é perpetuar o subdesenvolvimento e o atraso (Introdução à Ciência do Direito. depois de velho e cansado. Muitas vezes. p. bem como as penas mais ter. Isso teve que ser mudado: vieram as leis trabalhistas e previdenciárias. Como não mais podia trabalhar. tem que se estruturar. foi necessário até a criação de um gigante nacional (INSS) para cuidar da aposentadoria e assistência médica dos trabalhadores.4. aparelhar-se. Rev. 86] verdade em países plenamente desenvolvidos. as prisões fétidas. indenização por acidente de trabalho etc. e o resultado foi uma transformação social. Há quem diga que a história da pena é pior que a do crime. o efeito condicionante do Direito sobre a sociedade. a norma estabelece novas diretrizes a serem seguidas. Trabalhava a vida toda e. estabilizados e organizados. melhor. mais diretamente. direito a férias. que. fixa novos princípios a serem observados em determinadas questões. passando privações e causando problemas sociais graves. dos Tribunais. 87] ríveis que se possa imaginar.[p. imundas e nocivas. Efeito Transformador da Norma É aqui que percebemos. Outro exemplo. o erro dessa posição é patente. ambulatório. Nos países em desenvolvimento e transformações profundas. assistência médico-hospitalar. No passado a pena era considerada um castigo ou punição: mal justo contra quem praticou mal injusto. 595). em razão de necessidades sentidas. aparelhar-se para cumprir a lei. estabelecendo. As fábricas e indústrias tiveram que oferecer melhores condições e ambiente de trabalho aos seus empregados. escola. vai operando sensíveis transformações em seu meio. 23a ed. quanto piores as prisões. A sociedade então. Se o fim da pena era punir. determina a realização de certas modificações. vestiário. os calabouços. Nesse tempo. 47. para dar cumprimento à lei. ficava ao desamparo. creche. era dispensado sem qualquer direito.

A prisão passou a ser a melhor escola de crime. maior poder aquisitivo da população. contrários aos interesses sociais.mais perigoso. A economia do país estava à deriva. gerando miséria.Essa posição quanto à pena trouxe os piores resultados sociais possíveis. todas com amplo apoio da sociedade. Procura-se hoje fazer da pena um instrumento de defesa social. gerando profundas alterações na realidade brasileira. o que será preciso? Onde educar? Na prisão? Na masmorra? Como. entretanto. passou a comer mais e melhor. na Administração Pública. trouxe uma melhor distribuição de renda. com uma inflação astronômica corroendo o salário do trabalhador. efetivo controle dos preços. Para tanto. EFEITOS NEGATIVOS DA NORMA Elaborada para produzir efeitos positivos. Tomava o réu pior . mediante normas que promovem a educação. nem no sentido de prevenir a sociedade contra a futura criminalidade. não dava à sociedade nenhum instrumento de defesa contra esse indivíduo e seus futuros crimes. castigando impiedosamente? Não. É claro que . no monopólio estatal. revoltado e despreparado para voltar à sociedade. o melhor exemplo do efeito transformador do Direito vamos encontrar nas leis econômicas que implantaram o Plano Real. adequados às novas exigências legais. terá a norma exercido a sua influência transformadora. em dadas circunstâncias. e em alguns estados já começam a surgir as primeiras transformações através de modernos estabelecimentos penais. Certas leis. Pior do que tudo. A reforma econômica desencadeou outras reformas: na previdência. desequilíbrio social e abusos econômicos de toda ordem. [p. o bem estar. a cultura. e a participação eqüitativa de toda a população na renda nacional. na ordem tributária. e quando. Pelo menos já se fala hoje em reforma penitenciária. mas sim um meio de reeducação e ressocialização do réu. que esperamos seja duradoura. A estabilização da moeda. pode a norma. como as orçamentárias. na privatização de estatais. em conseqüência. fome. produzir efeitos negativos. Se. Por todos esses motivos. pode ser o grande instrumento de uma política do desenvolvimento nacional. Não vamos mais punir. isso acontecer. A pena não é mais uma forma de castigo ou punição. a saúde. atribuindo-lhe uma função preventiva. que. pois nada fazia no sentido da recuperação do criminoso. Então será preciso transformar nossas prisões em escolas e reformatórios. 88] 48. quando corretamente utilizado. comandam a execução de planos de desenvolvimento social. Sem dúvida. o pensamento moderno a respeito dos fins da pena mudou. mas corrigir. Isso tudo evidencia que o Direito.

” .. Os hábitos. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. estendendo-se o desapreço a toda a legislação. retardam e impedem as reformas. em 1977. 19-20). 2) quando houver omissão da autoridade em aplicá-la.” “As leis.” “O nosso País já é afamado pela distância entre a realidade e a norma jurídica. como observa Siches: “A norma jurídica . 3) quando inexistir estrutura adequada à aplicação da lei. Esse reconhecimento ou recusa. ou de outros fatores. Efeitos Negativos pela Ineficácia da Lei A eficácia da norma depende do reconhecimento. pp. 90] de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. O trecho é o seguinte: “Não elaboramos leis para ser estampadas nos livros.para que seja cumprida. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. da maior parte dos indivíduos que integram o grupo. teimam em sobreviver. podemos destacar três causas principais. e sobrevivem apesar da lei. em constante conflito com os fatos. entretanto.quando isso chega a acontecer é tempo de revogar a lei. quer alterar velhos hábitos e dar-lhes nova disciplina. elaborado por uma Comissão Especial do Congresso Nacional. Valem pela força que têm sobre os fatos e como são entendidas nessa aplicação. a norma se incorpora à vida do grupo” (Sociologia do Direito. De um trecho da exposição de motivos do projeto de lei para a reforma do Poder Judiciário. do conteúdo da mesma. De outras feitas. da qual foi Presidente o douto Senador Acyoli Filho. 48. pode depender da legitimidade da autoridade que a estabeleceu.1. Graças a esse reconhecimento. levado pelo idealismo [p. para que se converta em força efetivamente configuradora das condutas. aceitação ou adesão da sociedade a essa norma. Lembramos três hipóteses em que a lei produz efeitos negativos: 1) quando for ineficaz. uma adesão da comunidade. substituindo-a por outra mais adequada. 2° vol. Outras vezes. no entanto. o legislador.” “Às vezes o legislador. exige um reconhecimento. Ou. isto é. no entanto. acanhado e despreparado. As leis nascem para viver e só valem quando podem entrar no mundo dos fatos e ali governar. que gera a eficácia ou ineficácia da norma. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. através da lei. para ser lidas ou para ficar na história. ou as tomam mofinas.igualmente como as demais normas sociais .

como se sabe. evoluem constantemente. Acyoli Filho põe isto em destaque no seguinte trecho: “Ou. Muitas leis que controlam as atividades das multinacionais. o legislador. ou as tornam mofinas” (o grifo é nosso). antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. correspondência com a realidade. retardam e impedem as reformas. A antecipação da lei à realidade social existente é a terceira causa de sua ineficácia.A primeira causa da ineficácia da lei. Só para ilustrar esse ponto. costuma-se entre nós dizer que a lei não pegou. o que em nosso país constitui na realidade uma forte causa da ineficácia da lei. Não consegue porque não há suporte social.[p. é a sua desatualização. Assim. estendendo-se o desapreço a toda a legislação” (o grifo é nosso). Com o correr do tempo. entretanto. é aversão sistemática às inovações ou transformações do status quo. se bem elaborada. lembrada pelo Senador Acyoli Filho. Por mais estranho que possa parecer. vai sendo ultrapassada. Misoneísmo. acanhado e despreparado” (o grifo é nosso). . Com efeito. 90] tras vezes. entretanto. vai se desatualizando. o passar do tempo toma a lei ineficaz. que ele destacou ao dizer: “As leis. levado pelo idealismo de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. privilégios de grupos. A maior parte de nossa legislação precisou ser reformulada exatamente por esta razão. em constante conflito com os fatos. pois os fatos são dinâmicos. O legislador vê algo que funciona muito bem em certo país mais adiantado e quer implantar no nosso. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. razão pela qual a lei cai no vazio. mas a lei é estática. esses gigantescos organismos econômicos dos nossos dias. Velhos hábitos. Às vezes porque há grandes interesses políticos. lembramos que o divórcio custou tanto a ser admitido pela nossa legislação em virtude das pressões da Igreja. econômicos ou religiosos em jogo. frontalmente contrária à dissolução do vínculo matrimonial. impedem que a lei seja aplicada ou mesmo elaborada. outras vezes por mero comodismo da autoridade que não levou a sério a aplicação da lei. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. Interesses corporativistas emperraram a reforma da Previdência por muitos anos e ainda impedem a reforma Política.. pode estar em perfeita adequação com a realidade social no momento de sua criação. não são aplicadas em razão dos interesses econômicos em jogo. a lei. A segunda causa é o misoneísmo e vem mencionado no seguinte trecho: “.. Cada legislador tem que elaborar a lei com base na realidade de sua sociedade. costumes emperrados.

Anunciou também que só a partir de 10 de junho de 2004 (Resolução 151 CONTRAN) começará a ser aplicada em todo o país a chamada multa por não identificação do condutor. A conseqüência é que a lei se desmoraliza e estende o desapreço a todo o sistema. entre as quais a perda da carteira. já vimos. Efeitos Negativos pela Omissão da Autoridade em Aplicar a Lei A função principal do Direito. portanto. É fogo que não queima. Exemplo eloqüente disso é o Código de Trânsito Brasileiro. mas não produzirá efeitos positivos por omissão das autoridades. produz efeitos negativos porque não tem força para governar os fatos sociais.12. havia uma grande expectativa de que ele haveria de por ordem em nosso trânsito caótico. conseqüentemente. Há milhares de motoristas infratores. 91] por pardais. Neste caso a lei pode até ser eficaz. A lei só tem força para “penetrar no mundo dos fatos e ali governar” quando é eficaz.Vemos. Só agora (O Globo de 26. se quando surge o comportamento de desvio nenhuma pena é imposta ao transgressor da norma. Depois de vários anos de vigência quase nada melhorou porque as multas e outras sanções aplicadas não foram executadas. Quem transgride a lei impunemente sente-se encorajado a transgredir novamente. superada pela realidade social. e por desídia. desatualizada. assim. dado a severidade de suas normas e a gravidade das penas. quando ajustada à realidade social e inteiramente adequada aos fatos. é prevenir conflitos. o que realiza através do disciplinamento do comportamento mediante normas jurídicas armadas de sanção. fruto apenas do pensamento.qual será o resultado? Vai se enfraquecendo aquela disciplina que a norma impõe a todos. Mas se a lei é transgredi da. a transgressão sem punição vai estimulando novas transgressões. As autoridades do trânsito ainda discutem se as multas registradas [p. 48. vai se diluindo a sua função preventiva e. a sanção não é aplicada. se é ou não obrigatório informar aos motoristas onde se encontram esses meios eletrônicos. principalmente . Lei ineficaz.2. controlar as relações sociais. isto é. quer por ser artificial.2003) o DENATRAN anunciou ter decidido criar o Registro Nacional de Infrações de Trânsito que permitirá a cobrança das multas por infrações cometidas fora do Estado onde os veículos estão registrados. tiro sem bala. e o seu exemplo serve de estímulo a outrem. a autoridade nada faz . quer por ter se tomado anacrônica. com a pontuação várias vezes estourada. incompetência ou irresponsabilidade da autoridade. para acabar com a impunidade dos motoristas profissionais. câmeras eletrônicas valem ou não. acobertados pelas empresas para as quais trabalham. Em janeiro de 1997. dirigindo sem serem molestados. quando foi editado. que fazer lei é algo diferente de fazer literatura ou história.

07. mas a norma não atingirá seus objetivos sociais por falta de estrutura para uma eficiente aplicação do direito. o delegado Álvaro Lins.[p. mas o problema continuou: o ICCE fechou o ano de 2003 com cerca de cem mil laudos atrasados. o Juiz Camilo Ribeiro Ruliere. sobram 30 mil para uma equipe de 50 policiais. depois de um começo promissor. Em julho de 2000 o Ministério da Justiça estimou que havia cerca de 204 mil foragidos da Justiça brasileira e mais de 275 mil mandados de prisão não cumpridos no país. foi forçado a conceder liberdade provisória a quatro traficantes. equipamentos. os mandados de prisão não cumpridos chegavam a 200 mil. Por isso é comum dizer-se que. 23. 48. principalmente no denominado poder paralelo. São cem mil inquéritos parados aguardando provas técnicas. falta tudo enfim.de ônibus urbanos.2000). . Enquanto a criminalidade cresce assustadoramente. Falta pessoal. por falta de pessoal e estrutura. dos 90 mil mandados de prisão expedidos no estado. No dia 22 de setembro de 2003. Ainda assim. admitiu que. Esse. continua sendo o nosso grande problema atual.3. Quais serão as conseqüências dessa falta de estrutura? As mesmas anteriormente mencionadas: transgressão sem punição e estímulo à ilicitude. autoridades competentes e responsáveis. tomou uma decisão extrema. falta material. Sequer reduziu a incidência de infrações graves como excesso de velocidade e embriaguez ao volante. 92] cial. A Polícia. Efeitos Negativos pela Falta de Estrutura Adequada à Aplicação da Lei Nesta terceira hipótese. e as boas intenções que motivaram a sua aprovação há mais de seis anos. Os acusados foram soltos. segundo estimativa do Professor Flávio Gomes. da 9ª Vara Criminal do Rio. o Código de Trânsito perdeu a sua força didática. pelo menos 60 mil já caducaram por prescrição. Por falta de um laudo do Instituto Carlos Éboli (ICCE). é tê-las e não aplicá-las. Toma-se impossível aplicar a lei sem os recursos humanos e materiais necessários. Em São Paulo. poderemos ter leis boas e eficazes. mas que já está se tornando comum na Justiça. então titular da Delegacia de Busca e Capturas (Polinter). morte ou decisão judi. No Rio. pior do que não ter leis. a Justiça fica impedida de julgar em decorrência da falta de estrutura do organismo policial e de seus institutos de criminalística. uma média de 600 mandados por policial (O Globo. Está ameaçado de cair em desuso se não forem resgatados com urgência a sua letra e o seu espírito. Em resumo. lamentavelmente. o Ministério Público e o próprio Judiciário não estão suficientemente aparelhados para aplicar a lei. faltam instalações.

falta ainda responsabilidade funcional por parte do estados . desta feita por ter sido reconhecido pelo amigo de uma outra criança assassinada quatro dias antes. Outro exemplo lamentável dessa falta de estrutura foi noticiado pelo Globo de 08. O Presidente do Tribunal de Justiça do Rio. como nada constava sobre ele no INFOSEG (sistema nacional destinado a integrar todas as informações policiais e judiciais). Se no INFOSEG constasse a informação sobre a condenação anterior do criminoso. o que acaba levando a sociedade a culpar o Judiciário. Ex-secretário nacional de Segurança Pública. como pode o juiz condenar alguém? Depois dizem que a polícia prende e o juiz solta. fugiu da cadeia em União da Vitória. iniciativa da maior importância e extremamente necessária no combate à criminal idade num país continental como o nosso e super populoso. Quase dois anos depois. ou pelo menos do mandado de recaptura contra ele existente. Se o inquérito chega ao juiz sem qualquer prova técnica ou testemunhal. Assassino confesso de 12 crianças no sul (Paraná. não faz um trabalho de perícia eficiente. 93] que a qualidade das informações era ruim e o estado pretendia melhorá-la. depois de condenado a 27 anos de prisão. Moral da história. mas isso não foi feito. diz que em maio de 2003 o Governo do Paraná pediu para retirar seus dados do INFOSEG por.por carência de aparelhos e de material humano. Mas. disse: “A polícia. Apenas no dia 07. Em nota. foi liberado no mesmo dia. parte das mortes poderia ter sido evitada. Santa Catarina e Rio Grande do Sul).2003). Especialistas nessa área dizem que a falta de vontade política de governadores é um dos principais entraves para manter em funcionamento o INFOSEG. 21. A Secretaria Nacional de Segurança Pública. por sua vez. apesar de existir mandado de recaptura contra ele expedido desde abril de 2002.2004 foi novamente preso. a Secretaria de Segurança do Paraná alegou que ano passado (2003) decidiu limpar seu banco de dados do INFOSEG porque o sistema nacional apresentava falhas que prejudicariam sua utilização. Segundo ele.2004. em novembro de 2003.[p. foi detido no Rio Grande do Sul sob suspeita de assassinar outra criança.12. no Paraná. Desembargador Miguel Pachá. Isso não é verdade. embora criado em 1988 o INFOSEG pelo Ministério da Justiça. pois o juiz não pode condenar sem provas. pouco poderá ser feito por órgãos policiais ou judiciais que dependem dessas informações. “enquanto os estados não se interessarem em alimentar e atualizar periodicamente o INFOSEG. ainda hoje não funciona eficientemente por deplorável omissão das autoridades responsáveis pela segurança pública. muitas vezes. comentando a decisão do juiz Camilo.01. nem manter ninguém preso” (O Globo. o coronel José Vicente da Silva condena a falta de iniciativa dos estados para abastecer o sistema nacional.01.

com informações de veículos roubados. anuncia aos quatro cantos que o problema está resolvido. todavia. apenas quatro bancos de dados integram o INFOSEG . faz uma grande propaganda. 94] pelas investigações. Diz ainda que a divisão de tarefas entre a Polícia Militar. encarregada de fiscalizar e a Polícia Civil. atualmente.” A falta de investimentos. Por meio de um prodigioso processo mental. armas e ainda sobre foragidos da Justiça. “Os Governos estaduais deveriam investir urgentemente na digitalização de informações do Detran e da Polícia Judiciária. a solução para o problema deveria partir de iniciativas dos próprios administradores públicos estaduais. responsável [p. 08. toma-se o dito pelo feito. diz ainda Khan. os legisladores se reúnem e aprovam outra lei.01. critica também duramente a atuação das autoridades policiais no combate à criminal idade ao dizer que “as taxas de elucidação de homicídios mostram uma tendência à impunidade. lamentavelmente. organiza uma imensa demagogia. ex-secretário nacional de Segurança Pública. 09. há pessoas que cometem um crime grave num estado e depois respondem como réu primários em outro (estado) simplesmente porque estão usando nome falso ou porque ninguém consegue saber de seus antecedentes” (O Globo. Edita a lei. repetimos. 09.para atuar na área de segurança pública.2004). O Governo deveria tomar a iniciativa de fazer uma reforma nas polícias com o mesmo vigor empregado nas reformas da Previdência e Tributária” (O Globo.2004). Sem essas e outras bases de dados nos estados. condutores irregulares.01. já que apenas 4% dos casos no Rio de Janeiro e 12% em São Paulo são resolvidos.01. prejudica a operação de todo o sistema. Por isso.2004). sem. não indago se aí há leis boas.” O Brasil. porque leis boas há em toda parte. que foi responsável pelo INFOSEG durante os últimos meses do governo de Fernando Henrique Cardoso. Luiz Eduardo Soares. . confunde-se o projeto com a realização. pior do que não ter leis. E quando a lei é aprovada e nada faz acontecer. em vez de se discutir o que fazer para dar-lhe execução. executá-las. e tudo acaba aí.lembrando que nos Estados Unidos o sistema nacional envolve 14 bancos de dados e a sede do órgão ocupa um edifício inteiro (O Globo. cria uma esquizofrenia institucional. Segundo ele. mas sim se as executam. informa que. “A equipe do INFOSEG não tinha nem sala no Ministério da Justiça. nada é feito no sentido de executá-la. o INFOSEG não consegue servir aos próprios estados. Montesquieu tinha toda razão ao dizer: “Quando vou a determinado país. é tê-las e não aplicá-las. a intenção de resolver o problema com a solução em si. Teve que usar uma sala da Polícia Rodoviária Federal” . é campeão em resolver problemas elaborando leis. Túlio Khan.

o problema seria resolvido com a diminuição da maioridade penal de modo a permitir punição exemplar dos adolescentes criminosos. anunciou a criação do Ministério da Criança e acrescentou: “Gostaria de ver iniciativas como essa se estenderem para outras nações. mas não tem cabimento pensar que a simples antecipação da maioridade penal resolverá o problema da criminalidade dos adolescentes. São também necessárias ações sociais preventivas destinadas a preparar os jovens para uma paternidade ou maternidade responsável. Uma mera fantasia burocrática virou remédio de tal eficácia que até se recomendaria sua exportação. Por melhor que seja. eles passam pouco tempo nas instituições de recuperação. sem alimentação e sem educação. Sempre que um adolescente pratica um crime bárbaro. 95] A questão do ECA é item prioritário em qualquer equacionamento efetivo do problema da segurança pública. porém. o ECA não é irretocável. o então Presidente da República. Afinal. instituições adequadas e gente competente.4. A mulher de até um ano de escolaridade e renda . com planejamento familiar e assim por diante. Por falta de recursos. é outra. Ganha fôlego a antecipação da maioridade para 16 anos. A realidade. [p. assassinato de um casal de namorados no interior de São Paulo e outros). bem diferente. sem assistência. que teve repercussão mundial. de repercussão nacional (morte dos pais. voltando às ruas com mais raiva de tudo e de todos e mais experientes em atos criminosos. reascende a discussão a respeito da reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente. Nada aconteceu de positivo em relação ao menor depois da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente dada a distância entre a lei e a sua execução. Famílias sem renda e instrução têm o dobro de filhos da média brasileira de 2. Se a família é tão importante para a educação das novas gerações. Para alguns setores da sociedade. sendo prova disso a chacina da Candelária. por que não envolvê-los nessa tarefa? As estatísticas demonstram que o planejamento familiar poderia contribuir decisivamente para a redução da desigualdade. que lhes possibilite uma profissionalização. É preciso definir um projeto amplo de aperfeiçoamento do ECA e das instituições que educam ou reeducam os adolescentes que lá chegam. A situação talvez até piorou. ao ser indagado sobre a questão da criança em nosso País.Foi exatamente isso que ocorreu quando entrou em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente: os políticos da época anunciaram por toda a imprensa que o problema do menor no Brasil estava resolvido.” A simples edição de uma lei e a criação de uma entidade governamental foi tomada por uma solução. em visita a Nova York. os menores continuam abandonados na rua.

No passado. o próprio estatuto corre o risco de acabar recolhido ao empoeirado depósito onde se empilham as leis que não pegaram no Brasil” (O Globo. Por enquanto só no papel. a que mande cumprir todas as outras. é considerado uma boa lei pelos especialistas.baixa. esse irrealismo ilusório de nossa legislação escrita é bastante antigo e conhecido. 1. Se quando chegar a hora forem visíveis para a sociedade os efeitos positivos do estatuto. [p. Só em São Paulo é apreendida uma arma a cada quatro minutos. inclusive de pessoal. ele será um cabo eleitoral eficiente.2003). decidirá sobre a proibição do comércio de armas no país. com onze ou mais anos de instrução. entre as quais o combate ao tráfico de armas no país inteiro. 30.12.2004). a mulher tem. o combate ao contrabando. Lamentavelmente. para realizarem as tarefas que o estatuto lhes reserva. Só nos falta uma lei.12. daqui a menos de dois anos. em média.01. mas elas não param de entrar. porque a facilidade com que os criminosos têm acesso às armas é muito grande. afirmou o Governador Geraldo Alkimim em entrevista ao jornal O Globo (04. Capistrano de Abreu denunciou-o com ironia dizendo que temos uma legislação quase perfeita. tem média de filhos de 4. Sem Índices eloqüentes de redução da violência gratuita das armas de fogo. “do que acontecer nessas e em outras frentes de luta dependerá o resultado do referendo que. na prática dependerá dos recursos que forem liberados às Polícias Federal e Estadual. E concluiu: “É fundamental a polícia de fronteira. O Estatuto do Desarmamento.48 filho. agora em vigor.” Como bem colocou o jornalista Luiz Garcia. 96] .

a concepção social do contrato. por isso que lhe fornece os elementos necessários . analisar os efeitos sociais produzidos por certas normas existentes (ou que já existiram) em várias áreas do nosso Direito. a situação da companheira e dos filhos ilegítimos. soluções legais paliativas antes do divórcio. Vamos agora examinar alguns aspectos sócio-jurídicos da nossa legislação. uma demonstração eloqüente da importância da Sociologia Jurídica [p. sob pena de se tomar ainda mais difícil a vida em coletividade. a situação da companheira e dos filhos após a Constituição de 88. igualmente. Veremos também que a ocorrência de novos fatos sociais. Direito penal: violência urbana e poder paralelo. características da Constituição Brasileira de 1988. não previstos em nossa legislação atual. Direito do trabalho: interferência das forças sindicais no processo de formação do direito do trabalho. Essa incursão pelos vários ramos do Direito proporcionará. Direito de família: divórcio. 97] para todo profissional do direito.Capítulo X ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DE ALGUMAS ÁREAS DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO O sentido sociológico da Constituição: Constituição e democracia. União de pessoas do mesmo sexo. estão a exigir uma urgente solução do legislador. a macrodelinqüência. **** No capítulo anterior estudamos a eficácia e os efeitos das normas jurídicas e pudemos conhecer os principais efeitos positivos e negativos que elas produzem. Considerações gerais. principalmente para o legislador. principalmente nos grandes centros. quando teremos oportunidade de conhecer a longa e penosa evolução transcorrida até chegarmos a uma razoável disciplina jurídica de certos fatos sociais. criminalidade de colarinho-branco. Direito financeiro e tributário. Direito do consumidor: a responsabilidade objetiva do fornecedor de produtos e serviços. a introdução do divórcio na legislação brasileira.

ou distanciar-se dele. mas dos fatores reais de poder. tudo dependendo de representar ela o efetivo poder social (forças políticas.para bem aplicar o Direito e melhor elaborar as leis.“não são problemas de direito. p. da Constituição escrita. 49.a folha de papel .somente vale até o momento em que entre ela e a Constituição efetiva .. mas do poder. Embora se diga que o Poder Constituinte Originário é inicial (porque não há outro antes). a folha de papel . Este não deriva da folha de papel. 98] (porque não subordinado a nenhum outro) e .aquele somatório de poderes gerador da folha de papel . O SENTIDO SOCIOLÓGICO DA CONSTITUIÇÃO Entende-se por Constituição a Lei corporificadora do Estado. que contém a estrutura jurídica da nossa sociedade. como bem colocou Ferdinand Lassalle. 117).houver coincidência.e a Constituição real. autônomo [p. Do ponto de vista sociológico. a Constituição pode ser legítima e eficaz. nada mais é que uma folha de papel. Assim. Tais afirmações soam como heresia jurídica para os fetichistas da Constituição. É como um termômetro a indicar a temperatura dos fatos sociais. “Os problemas constitucionais” . Vamos começar pelo Direito Constitucional. cit. pois a Constituição real e efetiva é o fato social que lhe dá alicerce. quando a Constituição não é o somatório dos fatores reais de poder. prevalecerá sempre a vontade daqueles que titularizam o poder. econômicas. onde se encontram os princípios fundamentais da sua estrutura organizacional. em sua clássica obra . É chamada de Carta Magna ou Lei Fundamental porque. dessarte.Constituição formal .sustenta Lassalle . ou ilegítima. é possível distinguir a Constituição formal. como o seu próprio nome diz. a verdadeira Constituição de um país somente tem por base os fatores reais e efetivos do poder que naquele país reagem.). mas têm base na realidade. Vista pelo prisma sociológico.Que é uma Constituição? Para ele. de modo a permitir a formulação de um correto diagnóstico e a apresentação de uma solução adequada. e as constituições escritas não têm valor nem são duráveis a não ser que exprimam fielmente os fatores do poder que imperam na realidade social: eis aí os critérios fundamentais que devemos sempre lembrar” (ob. quando tal não ocorrer. ideológicas etc. o mais expressivo representante do sociologismo constitucional. é a Constituição que cria ou constitui o Estado de Direito. o efetivo exercício do poder.

252). A Constituição normativa é aquela não apenas juridicamente válida. religiosos. dissimula ou disfarça.incondicionado (porque não tem limites à sua atividade). sem pressa. Para usar uma expressão de todos os dias: a Constituição é a roupa que assenta bem e que realmente veste. éticos. mas que está. que dispõem do aparato coativo do Estado. é inegável que os constituintes estão comprometidos e limitados pelas forças sociais que os elegeram (fatores reais do poder). a ser sanada com o passar do tempo. Em tese uma Assembléia Nacional Constituinte pode tudo. [p. mas quando se reúne já traz compromissos indeclináveis e emanentes de suas origens sociais. Existe. subalterna formalização da situação do poder político existente. profissionais. . A roupa não veste. além disso.. mas conserva um caráter educativo e prospectivo. 5ª ed. submetendo-se a elas. uma desarmonia entre os pressupostos sociais e econômicos existentes e a aspiração constitucional. p. a vida institucional não seria perceptivelmente diferente. é o encontro do povo de um certo país em dado momento histórico para reexaminar seus valores morais. para o exclusivo benefício dos detentores do poder de fato. “No outro extremo está a Constituição semântica. 99] para ajustar os seus preceitos às novas realidades sociais e corrigir os equívocos ou exageros do constituinte de 1988. nominal ou semântico. Suas normas dominam o processo político ou. elaborou a sua celebrada classificação ontológica das Constituições. econômicos. como vem acontecendo com a nossa Constituição em vigor. Aqui. culturais e morais acabam por determinar a atuação dos constituintes. Fatores ideológicos. a dinâmica do processo político não se adapta às suas normas. pelo amadurecimento esperado. Saraiva. o processo de poder se amolda às normas da Lei Maior. Foi precisamente ao estudar a sintonia entre as normas constitucionais e a realidade do poder que Karl Loewenstein. citado por Luis Roberto Barroso. Já houve quem afirmasse que a “a Constituição. os detentores do poder esperam pelo futuro. do país rico ou do país educado” (Interpretação e Aplicação da Constituição. vivamente integrada na sociedade. Confortavelmente. seja do país grande potência. mas esconde. econômicos e sociais”. como no caso da Constituição normativa. políticos. A maior prova de que a Constituição tem que se ajustar aos fatores reais de poder está em que periodicamente tem que ser revista ou emendada. A roupa fica por certo tempo guardada no armário e será vestida quando o corpo nacional haja crescido. Se não houvesse nenhuma Constituição formal ou escrita. diferenciando-as segundo seu caráter normativo. numa imagem retórica.” “Entre a Constituição normativa e a Constituição semântica situa-se a Constituição nominal. inversamente. políticos. nesse caso.

apesar de professar a democracia em todas as suas Constituições. solenemente. de modificação do funcionamento do poder. no texto de suas respectivas Constituições. num melancólico estigma de instabilidade por falta de harmonia entre o instrumento formal e o real. Desde o século XIX. Está a indicar que a verdadeira democracia há de ser uma real tentativa de alteração do caráter autoritário e centralizador da sociedade. onde a federação foi totalmente desconsiderada e neutralizada pelo poder central. CONSTITUIÇÃO E DEMOCRACIA A visão sociológica da Constituição defendida por Lassalle encontra abundante campo de comprovação em nosso país. Tomemos para exemplo disso a própria Democracia. 100] integrado e evolutivo de constante participação do povo na atividade estatal decidindo. mais do que um mero ideal escrito no papel ou de simples texto constitucional sem qualquer correspondência com a consciência e a realidade social de cada povo. exige mais que a fria participação do eleitor que comparece às umas apenas para cumprir um dever legal. um dos nossos maiores constitucionalistas. um dos pilares do Estado Democrático de Direito. No entanto. a oportunidade de influir nas grandes tomadas de decisões. como a emenda de 1969. relegando-se a plano secundário os poderes Legislativo e Judiciário. tanto a Constituição de 1967. simples princípio nominal ou teórico. como aconteceu na América Latina nas últimas décadas do século passado. por exemplo. ou que todo o poder dele provém.” Nesse período. verdadeiro titular do poder. Tal integração. na maioria das vezes tal declaração não passa do papel. entretanto. quase todos os Estados declaram. de forma a ensejar ao povo. no entanto. Tão marcante é ainda o caráter centralizador e autoritário da organização política e social brasileira. o Brasil é um Império. Isso está a indicar que a verdadeira democracia é muito mais que uma forma nominal de associação política. o comentário famoso de que sociologicamente.50. executando a decisão e transformando a realidade. cortina de fumaça para esconder regimes autoritários. tivemos um regime autoritário. que a fonte do poder é o povo. Há de ser um processo [p. ou motivado por falsas promessas . continham a expressiva fórmula de democracia indireta ou representativa: “Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. numa lastimável sucessão de percalços. sem qualquer participação do povo até mesmo na escolha dos seus governantes. que mereceu do saudoso Senador Afonso Arinos. Em 180 anos de independência e pouco mais de 100 anos de República. foram editadas no Brasil nada menos do que oito Constituições. No Brasil.

1. e salvaguarda ao indivíduo. não garante justiça. porque a democracia é. afasta-se dos seus compromissos democráticos. embora respaldado por milhões de votos. que foi o instrumento mais autoritário da história brasileira. realizar a justiça social. A liberdade é consenti da ao homem em sociedade para desenvolver suas energias. interpretando o sentimento da Nação em busca do reequilíbrio da vida nacional. começou assim que se instalou o golpe de 1964 e. não só pela rejeição da emenda constitucional da eleição direta. mas ainda o poder de ser livre. pois. entretanto. Não pode existir uma democracia por decreto. neutralizar os desequilíbrios. essa grande esperança. na célebre frase de Luis Blanc. O voto. empolgado pelo fascínio do poder. A liberdade.[p. com relevantes inovações para o constitucionalismo brasileiro e até mundial. 50. enviou ao Congresso Nacional a tão esperada emenda constitucional convocando a Assembléia Nacional Constituinte. nem às minorias em um Estado democrático. Essa luta. através de um processo realmente democrático. o mais destacado representante das forças democráticas bra. Características da Constituição Brasileira de 1988 A luta pela normalização democrática no Brasil e pela conquista do Estado de Direito Democrático. quando as multidões correram entusiásticas e ordeiras aos comícios em prol da eleição direta para Presidente da República. razoavelmente avançado.eleitoreiras. perdendo a legitimidade inicial. um projeto e. e esta. um ideal. especialmente. contudo. após o AI-5. 101] sileiras. e não para esmagar a do seu semelhante. a maturação sobre os desdobramentos do processo político e o acesso às informações que embasarão a participação lícita no processo decisório. . como também pela morte de Tancredo Neves. É preciso. cumprindo os compromissos democráticos assumidos por Tancredo. que só poderia consubstanciar-se numa nova ordem constitucional que refizesse o pacto-social. aprovou um texto moderno. não é somente o direito. fazer cessar as desigualdades. por sua vez. que se manteve contida por quase vinte anos. simultaneamente. após prolongado trabalho e acirrados debates. Não é raro que o governante. Daí por que a integração democrática impõe a consciência e a responsabilidade na escolha. todavia. sobretudo. liberdade. uma prática. embora valioso. porquanto só assim será possível impedir que a liberdade produza exatamente a sua negação. por si só. veiculadas pelos órgãos de informações que condicionam e manipulam a verdade. O Presidente José Sarney. Frustrou-se. tomou as ruas a partir da eleição dos Governadores em 1982 e se intensificou no início de 1984.

nos arts. valorização do trabalho (art. (arts. o que significa que o homem é o centro. educação como direito de todos e dever do Estado. igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. . I. mas principalmente porque se volta decididamente para o cidadão e o social. já que não há verdadeira autonomia. no dia-a-dia da vida do cidadão. Pode-se concluir dizendo que a Constituição de 1988 afastou o federalismo nominal da ordem constitucional anterior. assumiu uma postura liberal. primeiramente. Todas essas normas e muitas outras. diferentemente da anterior que era centralizadora e autoritária. sem numerário para execução de suas tarefas constitucionais. I. Não obstante tantos pontos positivos. buscando resgatar o verdadeiro princípio federalista através de um sistema de repartição de competências entre o poder central e os poderes estaduais e municipais. sujeito. § 1°). não são aplicadas. neles incluídos os dos trabalhadores.Direitos e Deveres Individuais e Coletivos no art. inciso III). colocando em destaque o homem e seus direitos fundamentais. e Direitos Sociais. fez renascer a Federação. 153). A dignidade da pessoa humana passou a ser princípio fundamental da Constituição (art. pleno emprego. justiça social. 227. pode-se dizer que a Constituição atual. na expressão do saudoso Ulysses Guimarães. 6° a 11° -.As inovações se fizeram presentes. fundamento da atividade estatal. diferentemente da Carta anterior que tratava desses direitos na sua parte final (art. No respeitante à Organização Político-Administrativa e a Divisão dos Poderes. atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade (art. assistência integral à saúde da criança e do adolescen. função social da propriedade. valorização dos profissionais do ensino etc. padecem do mesmo mal: não passaram do papel. atendimento especializado aos portadores de deficiência.[p. não só porque teve ampla participação em sua elaboração. Presidente da Assembléia Nacional Constituinte que a produziu. Praticamente. não só os individuais como também os coletivos. nem política e nem administrativa. objeto. existência digna. tais como. dandolhes ainda mais recursos tributários. 208. fundamento e fim de toda a atividade pública. conferindo maior soma de competências legislativas e administrativas aos Estados e Municípios. que ressoam precisamente inócuas. ensino fundamental obrigatório e gratuito. a Constituição de 88 tem inúmeros dispositivos que ainda não passaram da folha de papel. efetivamente. V). 102] te (art. III e IV). 5° e seus setenta e sete incisos. 1°. 170 e incisos). tanto assim que praticamente inicia-se a Constituição com a consagração desses direitos . na ordem social. 205 e 206. É a “Constituição Cidadã”.

Entendia-se que o divórcio destruiria o casamento. 103] Com o correr do tempo. deixando íntegro. Marido ia para um lado. dando origem a novas famílias. Muitas vezes essa união ilegal. [p. oriundos das mais variadas causas. tantos foram os casais de união de fato. sem dúvida alguma. Pensava-se. havia um casal cujos componentes não eram casados. que. produzindo efeitos patrimoniais para os cônjuges. um novo Direito de Família. proibindo descasar. mulher para outro. levando de roldão a família. A Situação da Companheira e dos Filhos Ilegítimos Apesar de a Constituição vedar a dissolução do casamento.2. DIREITO DE FAMÍLIA Em nenhuma outra área do direito houve tão grande evolução como no Direito de Família. objetivava a proteção do casamento e da família legítima. amor. hoje chamado de separação judicial. entretanto. num determinado edifício. estável.51. § 1°. Depois. formando novo par. da Emenda nº 1/69) que considerava o casamento indissolúvel. Em razão dessa norma não podia haver divórcio no Brasil. que dissolve apenas a sociedade conjugal. mormente após a Constituição de 1988. 51. compreensão e calor humano. que a . com filhos. inúmeros problemas começaram a surgir no seio da família. 175. “célula mater” da sociedade. inúmeros diplomas legislativos foram produzidos nas oficinas do direito. amizade. geralmente os mais prejudicados. DIVÓRCIO Havia uma norma em nossa Constituição (art. Em razão disso.1. ficando entre eles os filhos. Tal norma. o vínculo conjugal. Inicialmente a sociedade tolerava com reservas essas uniões: todo mundo sabia e comentava quando. em todas as camadas sociais. em busca da necessária harmonia entre a realidade social e a lei. Foram tantas as modificações sociais ocorridas nas últimas décadas que não seria demais afirmar que temos hoje. dando ensejo ao desfazimento dos lares. ou pelo menos não reconhecida pela lei. estariam resolvidos todos os problemas que conspiram contra o casamento. os cônjuges separados ou desquitados se uniam de fato a outra pessoa. servindo de instrumento de chantagem emocional. tomava-se uma união sólida. somente o desquite. em outras palavras. 51. como veremos a seguir.

ressentimentos e outros graves problemas sociais. Não basta. a situação da família no país onde não há divórcio seria muito melhor do que em outro onde há. em si. mas não podiam. dar nome à mulher e aos filhos. e isto. A mulher fica numa situação vexatória. o responsável pela destruição do casamento. ilegais. como se sabe. [p. As novas uniões passaram a ser normalmente admitidas pelos costumes. A pretexto de proteger um vínculo matrimonial já de fato inexistente. entre os quais o desamparo econômico. para impedir a ruína do casamento. e “deitar em berço esplêndido”. plenamente integradas na sociedade. estas famílias “ilegais” eram mais úteis e recomendáveis que as primitivas. não é verdade. Eram ilegítimas. psicológicas. pois. O vínculo matrimonial era indissolúvel. É preciso. pois o homem com o qual vive está sempre a dizer: “Sou casado. se não fosse”. conhecer e combater as verdadeiras causas do fracasso matrimonial. o indivíduo que se casa outra vez. para constatarmos que não estávamos em melhor situação. um homem. a norma constitucional que visava a proteção do casamento. Aqueles eram considerados filhos ilegítimos ou mesmo adulterinos. sem quaisquer reservas. Se assim não fosse. culturais) profundas. Com efeito. Muita gente queria regularizar a situação. A nova realidade social em tomo da família e do casamento evidenciou que não era o divórcio. antes do divórcio. gerando desigualdades. Só prejudicava. nada posso fazer. mas continuavam a ser repelidas pela lei. sem assumir qualquer obrigação alimentar ou de outra natureza econômica para com elas.sociedade passou a aceitá-los plenamente. após o primeiro casamento. a concubina. econômicas. como se fossem marido e mulher. Filhos e companheira não tinham qualquer direito ou amparo legal. como se fez em nosso País. 104] Ficou também evidenciado que a proibição do divórcio só facilitava a irresponsabilidade e estimulava a pilantragem. legítimas mas já destruídas pela separação. afetivas. Basta fazer uma comparação entre o Brasil. assume novas . repetimos. a lei repudiava famílias bem constituídas. além das obrigações já assumidas com a primeira família. bem constituídas do ponto de vista social. repudiada pela lei. fechando os olhos para a realidade. une-se tantas vezes quantas puder com outras mulheres. e os Estados Unidos. esta. Em síntese. Do ponto de vista social. não podendo se divorciar. impedia ainda a realização de outros casamentos verdadeiros. eram mantidas à margem da lei. além de não conseguir impedir-lhe a dissolução. Há outras causas (sociais. proibir descasar. Havendo divórcio. com pais e filhos vivendo em harmonia e felicidade. Inúmeras famílias. estendendo-lhes proteção legal. nada pode exigir. que devem ser pesquisadas e combatidas se se quiser de fato manter o vínculo matrimonial indissolúvel.

O fato de existir o divórcio não quer dizer que todos vão se divorciar. para a qual o casamento é uma instituição divina. Somente com a Lei na 883.737. ou mãe. dele só faz uso quem precisa. mesmo que desquitado. 105] genitor. Mesmo nos países divorcistas. sem solução. não impedia o fracasso do casamento mas impedia a regularização das novas uniões. isto é. Tal. permitindo o reconhecimento dos filhos de desquitados havidos fora do matrimônio. arruinados. precisando ser muito forte economicamente para chegar à terceira família. Evidenciado igualmente ficou que o divórcio não é causa da ruína do casamento. não precisa de remédio. Em face de tudo isso. lícito não era promover o reconhecimento do filho havido extramatrimônio. Se o nosso legislador atentasse para a realidade social. como a morte de um dos cônjuges.3. simplesmente porque o casamento deles não está doente. 51. entretanto. 50 anos e que nunca pensaram em se divorciar. mas sim remédio. um dogma religioso. foi promulgado o Dec. Soluções Legais Paliativas antes do Divórcio Houve uma sucessão de leis permitindo o reconhecimento dos filhos ilegítimos em certas circunstâncias. há muito teria introduzido o divórcio na legislação. . sagrada e impassível de ser desfeita pelo homem. quem está doente. o que equivale dizer que até então tais filhos não podiam ser registrados em nome de seu verdadeiro pai. Primeiramente. há milhares de casais unidos pelo casamento há 20. prejudicava as famílias ilegítimas. panacéia. morte de um dos cônjuges ou anulação do casamento. porquanto só possibilitava reconhecimento de filho havido fora do matrimônio depois do desquite do [p. a conclusão lógica era que a indissolubilidade do vínculo matrimonial não passava de mera ficção jurídica. só por divorciar-se. sem qualquer utilidade prática ou social. solução extrema para casamentos já desfeitos. de 27 de setembro de 1942. Não se referia ele às outras causas de terminação da sociedade conjugal. não ocorreu em virtude da pressão exerci da pela Igreja. embora extinto o vínculo conjugal. de modo que. Além de não proteger a família legítima. Mas o aludido decreto-lei não satisfez. Mas como qualquer remédio. é que se tomou possível o reconhecimento de filhos havidos fora do matrimônio após a dissolução da sociedade conjugal por desquite. de 21 de outubro de 1949. 30.obrigações legais também com a segunda.-Lei n° 4.

e as peripécias sociais pelas quais passamos até que o dogma ou ficção fosse destruído pela Emenda Constitucional nº 9.Nesse ínterim.069/62). ora com base na sociedade de fato. A Situação da Companheira e dos Filhos após a Constituição de 88 Após mais de meio século de lenta evolução da questão do divórcio. tempo mais que suficiente para revelar se a separação é ou não definitiva. § 3°).Lei na 7. reconhecimento) os direitos e qualificações dos filhos. a Lei na 6. alimentos.015. a saber: a) reduziu o prazo do divórcio de três anos de prévia separação para apenas um. 226. 226.Lei na 7. a jurisprudência fez verdadeiros malabarismos para reconhecer alguns direitos patrimoniais à concubina. Esses. que. nos casos expressos em lei. a Lei de Registros Públicos (Lei na 6. de 28 de junho de 1977. em síntese. 51. a Constituição de 88 encontrou uma base social para fazer as mudanças necessárias e o constituinte teve [p. havidos ou não da relação do casamento. ou depois de dois anos de comprovada separação de fato (art. § 6°). regulou os casos de dissolução da sociedade conjugal. b) reconheceu a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar.515. desde que haja prévia separação judicial por mais de três anos. bem como à indenização por acidente de trabalho (Dec. foi cauteloso o legislador ao permitir o divórcio após prévia separação judicial por mais de três anos. 106] coragem para tanto. Posteriormente. de 31.5. A Introdução do Divórcio na Legislação Brasileira O divórcio tomou-se permitido através da Emenda Constitucional nº 9.4. . alterando o § 1 ° do art. conhecida por Lei do Divórcio.485/45. Mais recentemente. § 6°). os efeitos negativos produzidos pela norma constitucional que considerava indissolúvel o vínculo matrimonial. c) igualou para todos os efeitos (herança. 51.” Como se vê. até que a própria lei passou a atribuir-lhe direito à pensão previdenciária (Dec.12.1973) permitiu o uso dos apelidos do amásio pela companheira. ora a título de indenização. de 26 de dezembro de 1977. proibindo a designação de filiação legítima ou ilegítima. passou a dispor: “O casamento poderá ser dissolvido.036/44). Lei na 4. 175 da Constituição Federal. bem como quaisquer outras designações discriminatórias relativas à filiação (art. determinando à lei facilitar a sua conversão em casamento (art. da companheira e dos filhos ilegítimos. 226.

salvo estipulação contrária em contrato escrito (art. a Lei nº 8.1994. na união estável aplica-se às relações patrimoniais. 226 da Constituição Federal . O artigo 1. respeito e assistência e de guarda. manteve a mesma disciplina da Lei n° 9. terão os mesmos direitos e qualificações.união estável . são considerados fruto do trabalho e da colaboração comum. comunhão dos bens adquiridos depois da união. relativamente ao imóvel destinado à residência da família. voluntária ou coativamente.971. . de 29. em 29. até então designado de filho adulterino. Sobreveio. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. Conferiu-lhe também o direito de participar na sucessão do companheiro (herança) nas condições previstas nos seus arts. de 10.” Em relação à companheira. havidos ou não da relação de casamento. sustento e educação dos filhos.596. 2° e 3°. pois aquela lei consolidou um longo trabalho doutrinário e jurisprudencial. finalmente. no que andou bem.1992. vale dizer. que diz: “Os filhos. assegurando-lhe também o direito real [p. 1.278/96.560/92) que ampliou ainda mais as hipóteses de reconhecimento voluntário e de investigação de paternidade. passando a pertencer a ambos.Importa dizer que. estabe1ecida com o objetivo de constituição de família (art. e prove a necessidade. ou por adoção. ou dele tenha prole. Por último.278/96: “As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade. a nova Lei de Investigação de Paternidade (Lei n° 8. manteve a mesma disciplina no seu artigo 1.12.727.05. Os bens móveis e imóveis adquiridos por ambos os conviventes. 7°) o direito a alimentos ao convivente que deles necessitar uma vez dissolvida a união estável. regulamentou o § 3° do art. O novo Código Civil. desde que conviva há mais de cinco anos com o homem solteiro. ao tratar da união estável nos seus artigos 1.723 a 1. conferindo inclusive ao Ministério Público legitimidade para propor a respectiva ação.724 praticamente repete o artigo 2° da Lei n° 9.1996. 1°). pública e contínua. o filho havido fora do matrimônio.12. como não poderia deixar de ser. Mantém a lei (art.725). 5°).” Salvo contrato escrito entre os companheiros.278. de um homem e uma mulher. separado judicialmente. tem o direito subjetivo de ser reconhecido. não mais subsistindo as limitações anteriores. na constância da união estável e a título oneroso. no que couber. divorciado ou viúvo. concedeu-lhe direito a alimentos. a Lei nº 9.reconhecendo como entidade familiar a convivência duradoura. em condomínio e em partes iguais. o regime da comunhão parcial de bens (art. enquanto viver e não constituir nova união ou casamento. 107] de habilitação. após a Constituição de 88. O novo Código Civil.

regular posse e guarda de crianças etc. com individualidade e identidade próprias. mediante reiterado posicionamento jurisprudencial em seu prol.o grande número de ações que são distribuídas aos Juízos de Família pretendendo reconhecer ou dissolver uniões homossexuais. a relação estável homossexual deverá seguir os caminhos já traçados pela entidade familiar estável. de autoria da exDeputada Federal Marta Suplicy. No Brasil temos apenas um Projeto de Lei (nº 1.6. tanto na doutrina como na jurisprudência. a oxigenar o nosso sistema legislativo. pp. Tanto o § 3°. a Suécia e a Noruega já dispõem de leis que regulamentam a união homossexual.1998. pobreza. passando inicialmente pelo reconhecimento como sociedade de fato e.51. da igualdade e da sociedade com respeito ao pluralismo típico deste Estado de Direito. Renovar. do qual foi relator o Ministro Ruy Rosado de Aguiar. são de clareza solar. crise de moradia. mas também os operadores do direito que militam nas Varas de Família.[p.151/95). ausência de . Reconhecem a união estável apenas entre homem e mulher. No entender do Professor Luiz Edson Fachin. O que a Justiça tem admitido é a sociedade de fato para fins patrimoniais. do artigo 226 da Constituição. Aduzem que a família homos. entretanto. Em sentido contrário. União de Pessoas do Mesmo Sexo É indispensável a diversidade de sexo para a configuração da união estável? Essa é a questão que remanesce e que ainda é bastante polêmica. favelização. primeira iniciativa no sentido de sensibilizar nossos legisladores para o problema que afeta não só os que o vivenciam. A Dinamarca. que pretende instituir a parceria civil. só após. não reconhece na união de homossexuais a categoria de união estável. Tudo ou quase tudo acaba nele repercutindo: explosão demográfica.897-MG. Sustentam não ser possível fechar os olhos para a realidade . No Recurso Especial n° l48. razão pela qual o entendimento majoritário. 93/1 02). DIREITO PENAL O Direito Penal é muito sensível às questões sociais. passará a ter reconhecimento jurídico” (Elementos Críticos do Direito de Família.02. julgado em 10. há vozes respeitáveis fulcradas no Estado Democrático de Direito e nos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana. 108] sexual é família autônoma e distinta da união estável.723 do novo Código Civil. 52. o Superior Tribunal de Justiça decidiu que “os homossexuais constituem sociedade de fato a ensejar partilha do bem comum”. como o artigo 1. ainda não apreciado pelo Congresso Nacional.

apurou o seguinte: a) 81 % dos moradores afirmaram j á ter sofrido algum assalto ou tiveram alguém da família assaltado.2003 ao raiar do sol.. o renomado diretor diz ter construído uma casa com salas de ensaios. por mais de duas horas sob a mira de revólveres de três jovens drogados. 21% aumentar a remuneração dos policiais.educação. que atinge cidadãos. tendo que mudar os seus sonhos e de sua família por motivo de assaltos múltiplos. ao mesmo tempo em que berrava para a polícia parar de atirar. Entrego essa casa a um sonho de futuro. 12% selecionar melhor os policiais. ao ter a sua casa assaltada no dia 29. ele se viu dirigindo uma cena da vida real.. Em relato dramático ao Globo (04. 109] generalizado e sem precedentes. Acostumado à ficção. moradias. 9% mudar toda a polícia. Quais são as causas dessa violência. ficou. 3% investir mais no social (O Globo.2000). “Já não é mais possível viver nesta cidade exposta a essa vergonhosa violência. 6% criação de programas sociais. a uma cidade que um dia será maravilhosa. figura em primeiro lugar em todas as pesquisas. juntamente com a sua família e mais oito amigos. os resultados foram os seguintes: 38% aumentar o número de policiais. por exemplo.01. Nunca os assaltantes agiram com tanta ousadia e desenvoltura como na última década. Sobre o que precisa ser feito. b) um em cada três revela se sentir inseguro ou muito inseguro dentro da própria casa. fraude e assim por diante. no lugar de uma das amigas de sua filha. nem dentro de um filme sem final feliz. quem a promove. 10% geração de empregos. 36% melhorar o treinamento da polícia. corrupção. c) 57% têm medo de assalto na rua. Renomado diretor de TV no Rio de Janeiro. ao persuadir os bandidos a tomá-lo como escudo. A falta de segurança. 18. onde não precisaremos continuar fingindo que estamos dormindo. Mas agora era obrigado a dela sair violentado.” 53. estúdios onde inúmeras montagens seriam ensaiadas e produzidas.06. que atinge qualquer família ou qualquer cidadão a qualquer momento de sua vida. em ônibus 35%. escolas. é fato público e notório. gerando sentimento de insegurança [p.12. hospitais e o comércio em geral.2004). 8% investimento em educação. VIOLÊNCIA URBANA E PODER PARALELO A violência urbana. que efeitos produz? Pesquisa feita pelo IBOPE em junho de 2000 nos municípios do Grande Rio. . na realidade atingiu patamares vergonhosos e insuportáveis. camarins.

adultos e crianças. O combate à violência urbana não depende de medidas sociais.2004). remuneração dos policiais e aumento dos seus efetivos. treinamento. conforme demonstrou a pesquisa do IBOPE. Há o arbítrio” (O Globo. mas sim a omissão do Estado (União. trabalhadores e donas-de-casa. muito menos pelos favelados. Primeiro.Os resultados dessa pesquisa não surpreendem. interdição da Avenida Brasil e Linha Vermelha por bandidos. quando o Estado não existe é preciso repor porque senão não há cidadania. apenas confirmam o que todo mundo já sabia. porque ela não é promovida pelos pobres. Em junho de 2002. após ter o Rio de Janeiro passado por queima de ônibus. Após tão firme pronunciamento. E prioridade é recurso. senão é só boa intenção. o que não está acontecendo com o governo atual. era de se esperar medidas governamentais fortes e emergenciais. A falta de prioridade não é apenas do governo atual. quadrilhas de traficantes de tóxicos e armas que. ocuparam os espaços deixados e formaram verdadeiro poder paralelo. a causa dessa violência urbana não é a miséria. mas também de vários anteriores e envolve também os governos estaduais e municipais. uma situação como a atual nas favelas do Rio. a falta de moradia ou de investimento na educação. Segundo. 04. Geraldo Alkmin.2002). No comando dela está o crime organizado. declarou em entrevista: “A política de combate à violência no Brasil não dá resultados concretos porque falta ao governo federal tratar o assunto como prioridade. na ausência do estado. A grande contribuição que se poderia dar para resolver a insegurança nas cidades é disponibilizar recursos para a melhoria da área de tecnologia da polícia. . a crise de insegurança é geral. o então Presidente da República aqui esteve e afirmou na abertura da IV Semana Nacional Antidrogas: [p. “tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes”. ledo engano. rajadas de metralhadoras em prédios públicos. desempregados. a pobreza. anomia (ausência de leis). 20. Estados e Municípios) na seleção. que hoje não funciona” (O Globo. atingindo pobres e ricos. mas. só agora tem sido admitido pelas nossas autoridades. A entrevista do Governador de São Paulo merece apenas um reparo. a ponto de levar um membro do Judiciário a declarar que ali o estado não existe. 110] “O Estado tem que recuperar os espaços eventualmente perdidos para o crime organizado. já é degradação. O Governador de São Paulo.06. a fome. Isso que o povo sabe e denuncia há muitos anos. E a organização é tão forte que a realidade demonstrou que alguns chefões continuam no comando mesmo depois de presos.01.

onde o tráfico era rigoroso na contenção do crime. Assim. tanto que muita gente. que freqüentemente terminavam em abuso e violência. conforme relato do Senador Roberto Saturnino Braga em artigo no Globo. recomendava sua legalização. pelas autoridades responsáveis e pela média da opinião da cidade. valeria mais. delimitaram-se dois territórios de ação e população distintos: o “morro” do tráfico e do povão e o “asfalto” onde vive a população que merecia ser protegida pela polícia. com o acordo. suscitando disputas armadas. obtendo dele. prossegue o Senador em seu relato. Com uma polícia de poucos recursos. que sempre participou dos resultados financeiros de uma atividade extremamente lucrativa. era a loteria dos pobres. E em ambos os casos havia uma racionalidade: o jogo do bicho não chegava a ser crime. mesmo contra a lei. contribuições para entidades filantrópicas. na realidade assustadoras. semioficialmente. mas podia ter a sua nocividade limitada ao território do morro e à pequena parte da sociedade do asfalto que queria consumir drogas (e bem podia ter essa liberdade tolerada). Além disso. O tráfico não era tão inocente quanto o bicho. ligando-o a grupos de seqüestro e de assalto. para evitar deslealdades dentro dos grupos. Essa divisão facilitava muito o cumprimento da cláusula fundamental .um quarto de século . E o resultado foi considerado razoável. Isso tudo ainda garantia bons rendimentos para a polícia. que só passou a se preocupar com a questão quando o cenário foi mudando de figura. Era um acerto informal semelhante ao que houve também com o jogo do bicho. Por muitas vezes o tráfico promoveu ações no “asfalto” para arranjar dinheiro em momentos difíceis. Houve até um governador que chegou a institucionalizar o “bicho”.que predominou na polícia do Rio o pragmatismo dos “realistas”. Faz pelo menos 25 anos . manchando a imagem do governo e tirando votos do eleitorado que era crescente no morro. guerras particulares de gangues pelo controle dos pontos de maior lucratividade e investimentos muito maiores em armamentos eficazes para sustentar essa guerra.Como surgiu esse poder paralelo e como atua? As suas raízes são sólidas e profundas. fazer um acordo com o tráfico de drogas e concentrar a atenção e as forças no combate à criminalidade comum. a polícia obtinha a colaboração do tráfico na preservação da paz no asfalto. O tráfico cresceu e ganhou status de negócio. promoveu atos de crueldade que chocavam as populações do . com boas razões. especialmente nas imediações do morro. 111] mal a ninguém. era uma contravenção que na verdade não fazia [p. em termos de resultados práticos. O acordo evitava também incursões da polícia no morro.“nós não subimos lá e vocês não descem cá”. O acordo funcionou durante décadas. de baixo efetivo e sem equipamento adequado. exigiu um comando mais severo dos traficantes sobre a comunidade do “morro”.

na Penha. O jornalista Tim Lopes. Hoje. De acordo com o Instituto Fecomércio. Em 32 bairros do Rio os traficantes escolhem dia e hora para fechar escolas. Em 13 de abril de 2003 O Globo publicou a relação das áreas mais afetadas pelo poder paralelo. não sendo suficiente para enfrentá-lo a mera “criação de um Gabinete de Gestão Integrada do Sudeste e o mapeamento das quadrilhas que atuam nos morros”. acusados de matar dois traficantes (O Globo. conforme anunciado pelo atual Secretário Nacional de Segurança (O Globo. sem recursos. e se constituiu um inimigo cujo enfrentamento era cada vez mais difícil e desgastante para a polícia.06. 02. Esse mapeamento já é conhecido da população há muitos anos. o Rio perdeu.“morro” e do “asfalto”. perdia uma grande quantidade de homens e se desmoralizava numa guerra que não tinha respaldo efetivo e decidido da cúpula dirigente. 4. no período de outubro de 2000 a setembro de 2002. Seis ônibus foram incendiados pelos moradores da Favela Vila Cruzeiro. o tráfico executou cerca de cem líderes comunitários.[p. até universidades. por descumprir essa regra. Ninguém pode su. que criou suas áreas de exclusão. 112] bir o morro ou penetrar em certas favelas sem autorização dos chefões do bando. Até o salvo-conduto para os ônibus circularem é dado pelo tráfico. Esta. onde os pragmáticos continuavam dando as ordens na linha do acordo que se deteriorava. que estuda a relação do tráfico com as comunidades. Tal é a força desse poder paralelo que os moradores das favelas onde ele atua fazem manifestação contra a ação policial sempre que um traficante é morto. Mas era tarde: o poderio do tráfico tinha aumentado muito além do imaginado. o envolvimento de líderes comunitários com traficantes passou a ser regra. foi torturado e morto. Levantamento feito pela Comissão Contra a Violência e a Impunidade da Assembléia Legislativa do Estado do Rio.06. 20. fez constatações alarmantes. 20. já quase completamente envolvida na participação dos lucros e cada vez mais ávida de ganhos naquele negócio que crescia incontrolavelmente. outros trezentos diretores de associações tiveram que abandonar as favelas para não serem mortos. estabelecimentos comerciais e industriais. mais de quatrocentos dirigentes de entidades se associaram a bandidos (O Globo. Conclui o Senador. Para o sociólogo Geraldo Tadeu. onde foi torturado e morto o jornalista Tim Lopes.223 lojas. muito mais que o da polícia. E produziu choques e episódios freqüentes de enfrentamento com a polícia.01. postos de saúde. revoltados com policiais do 16° BPM (Olaria). da DERJ. Entre 1992 e 2001. Surgiu então na cidade o crescente grito de “basta!”. esse poder paralelo é mais forte do que admitem as autoridades policiais.2002). bairros inteiros estão sendo esvaziados com a saída de indústrias e estabelecimentos comerciais por causa da violência e da degradação urbana. Ele .2002).2004).

54. nem por crianças desnutridas e sem escola. armas não são fabricadas por favelados. com gerentes. miséria ou falta de instrução. alegando que o poder público limitou a sua presença nas favelas à repressão. o Direito Penal tem sido um amargo privilégio dos pobres e desfavorecidos. que o Estado adote ações estratégicas de médio e longo prazos (O Globo. estadual e municipal. encontramse acima da lei. Drogas não nascem nos morros. as comunidades não têm como reagir sem uma intervenção do Poder Público. a partir do crescimento exacerbado do tráfico como poder militar e econômico no âmbito dessas comunidades.explica que com o tempo ocorreu um processo de subordinação dessas associações. pelo menos omissão. como bem assentou o saudoso Professor Heleno Fragoso (relatório apresentado na Reunião da Comissão Internacional de Juristas da ONU). associações e ONGs. até mesmo do país. É preciso disposição política das três esferas de poder federal. muito menos da segurança que todos almejamos. Estados e Municípios. Não é possível combatê-lo com medidas paleativas e demagógicas como as que estão sendo anunciadas.2002). Têm também um sistema tributário paralelo e cobram impostos dos comerciantes. Combater a violência urbana de forma pontual e isolada é o mesmo que tentar matar a árvore só arrancando as folhas. Ela se distingue da criminalidade convencional pelo fato de ser integrada por pessoas de alta classe e respeitabilidade. dão dinheiro. Para Geraldo Tadeu. por isso mesmo. planejada e duradoura. que povoam nossas prisões horríveis e constituem a clientela do sistema. 113] nasceu e cresceu com a tolerância. em todos os . Nas favelas. “vapores” e “soldados”. Os traficantes ocuparam esses espaços. com absoluta propriedade. mas o tráfico tem mais estrutura. Eles têm um sistema previdenciário paralelo. detentoras de poder político ou econômico. do Poder Público. nem são ali industrializadas. 20. O sociólogo defende. Entre nós. É o grande poder paralelo. O sociólogo justifica ainda a influência do tráfico nas comunidades. tão pouco decorre da falta de leis ou da atuação do Judiciário. Tudo vem de fora. Conclui-se do exposto que a violência urbana não é uma conseqüência da pobreza. que. É ação direta de um poder paralelo que [p. A estrutura geral de nosso direito punitivo.06. Têm ainda um sistema de segurança complexo. há igrejas. CRIMINALIDADE DE COLARINHO-BRANCO (WHITE COLLAR CRIME) Trata-se de uma categoria não convencional de crimes e criminosos. não haverá reconquista dos espaços perdidos. de sorte que sem uma ação integrada da União. cestas básicas.

financeira ou política) da formação social. Em relação à força de trabalho. pode-se destacar que os fatos que constituem tal criminalidade apresentam as seguintes características: a) os autores pertencem. são capazes de abalar a própria estrutura econômica ou política do país. b) o fato anti-social é praticado no exercício da atividade. que dela se livram com facilidade pela corrupção e pelo tráfico de influências. Mas o pior de tudo é que ficam impunes os seus autores. nada lhes acontecendo. visto que. 114] c) O dano causado pela ação é extenso e considerável. em Maracaibo (Venezuela). realizam extenso projeto de pesquisa sobre a criminalidade de colarinho-branco na América Latina. podemos considerar: . Não sendo possível a enumeração exaustiva das ações anti-sociais que caracterizam os crimes de colarinho-branco. Em razão dessas pesquisas. b) exploração predatória dos recursos naturais. Os fatos anti-sociais que acarretam danos à vida ou à saúde da coletividade. atingindo em regra a coletividade. podem ser aqui colocados: a) abusos praticados em relação à força de trabalho. destacar os fatos que acarretam: a) danos contra a vida e a saúde da coletividade. entre as quais o Instituto de Ciências Penais do Rio de Janeiro. deixa inteiramente acima da lei os que têm poder econômico ou político. O Centro Internacional de Criminologia Comparada da Universidade de Montreal. [p. podemos. c) produção industrial imprópria ou defeituosa. c) danos contra o patrimônio estatal da coletividade. ou o patrimônio de indeterminado número de pessoas. e outras instituições de pesquisa do continente americano. Pela extensão dos resultados. em conjunto com o Instituto de Criminologia da Universidade del Zulia.seus mecanismos de aplicação. às elites dirigentes (econômica. segundo o mesmo Professor Fragoso. como já se disse. todavia. tornando puramente ilusória a igualdade proclamada nos documentos políticos. tais crimes são muito mais graves do que o furto e o roubo que punimos com tanta severidade. segundo o Professor Fragoso. além de atingirem a coletividade. b) danos contra o patrimônio da coletividade.

em especial as ligadas ao mercado financeiro. provocando injeções maciças de dinheiros públicos (créditos e financiamentos) ou encampações oficiais. criando desertos e provocando secas). como o pão.g. por imposições do mercado. Temos aqui a administração ruinosa de determinadas empresas. A exploração desordenada conduz à destruição do ambiente vital (exaustão e erosão do solo. com efeitos negativos idênticos. A poluição.. consoante constantes denúncias feitas ultimamente pela imprensa. bem como a propaganda fraudulenta que causa dano ao patrimônio de indeterminado número de consumidores. que eliminam insetos e microorganismos necessários ao equilíbrio ecológico e intoxicam o consumidor. . causando mortes e acidentes. A exploração predatória dos recursos naturais apresenta-se através da destruição do ambiente vital produzido pelo trabalho milenar da natureza. constitui débito social ilegítimo do processo industrial. e desflorestamento sistemático. seja pela exploração desordenada. como propõe a ideologia dominante. Danos ao patrimônio da coletividade apresentam-se através de métodos irregulares e fraudulentos de enriquecimento. produtos alimentícios de primeira necessidade. 2) exaurimento físico e mental do trabalhador. pela imposição de ritmos excessivos de trabalho e tarefas monótonas e embrutecedoras (produzindo doenças ou lesões ocupacionais). não só no que tange aos produtos alimentícios ou medicinais.. projetos da indústria automobilística que desatendem. e não o preço do progresso. ou alternativamente. 3) condições de insegurança ou de fadiga excessiva.1) a redução do trabalhador à condição subumana pelos salários incapazes de repor as energias consumidas no trabalho. produzindo quebras que afetam amplos segmentos da coletividade de investidores (além de outros setores das classes dominantes). medicamentos prejudiciais ao organismo. como através de outros produtos (e. inclu. como acontece no Brasil. seja pela poluição. Temos ainda toda a sorte de fraudes e manipulações no mercado de ações. contendo elementos químicos altamente nocivos à saúde etc. inclusive através da exploração de trabalhadores rurais (bóias-frias) empregados na lavoura na época das colheitas.[p. lesados também freqüentemente no peso e quantidade de mercadorias comercializadas. A produção industrial imprópria ou defeituosa atinge a vida ou a saúde da coletividade. a exigência da segurança). 115] sive com o emprego de produtos químicos. em qualquer de seus aspectos.

podendo ser identificada pelas seguintes características: a) abuso de poder econômico e político. É certo que algumas práticas são diretamente lesivas a outros grupos dominantes. lavagem de dinheiro obtido ilicitamente. basicamente. De difícil detecção. mas seus efeitos atingem a coletividade também. que se pratica através de balanços fictícios e subfaturamento. Poder-se-ia também mencionar aqui a ação predatória da economia nacional praticada através de empresas transnacionais. alguns deles dirigidos por altas personalidades de nosso cenário político e econômico. por exemplo. causando bilhões de prejuízo aos cofres públicos e particulares. valendo-se com . 55. falsificação de moeda e títulos da dívida pública. a nossa legislação penal ainda é deficiente na configuração e punição dessa criminalidade chamada de colarinho-branco. Igualmente a corrupção administrativa de alto nível. A corrupção surge também na celebração de contratos públicos. 116] concorrências e superfaturando os preços. fraude no mercado acionário e de câmbio. sequer dispomos de recursos técnicos para a sua rápida e eficiente apuração. do uso abusivo de instrumentos da economia. Tem alguns pontos em comum com a criminalidade do colarinho branco. como. ligada à concessão de favores ou privilégios especiais. ou da própria integridade nacional. eliminando a concorrência de grupos nacionais e fazendo com que seja entregue a estrangeiros o controle de áreas essenciais da economia da nação. o que faz crescer o sentimento de impunidade para os que não são pobres. que abusam do poder econômico. as manobras mais variadas que visam proporcionar a alta de preços de gêneros ou bens de consumo essenciais.Finalmente. produzindo lesão incomparavelmente maior do que a representada pela criminalidade contra o patrimônio convencional. fraudes com transferências bancárias. bem ilustra este ponto. Lamentavelmente. viciando [p. O estouro de vários bancos de alguns anos para cá. lesivos por vezes aos interesses vitais e estratégicos da coletividade. envolvendo a prática de ilícitos sofisticados em que a vítima é a coletividade (os danos são difusos). esses delitos são praticados com o emprego da moderna tecnologia e decorrem. A MACRODELINQÜÊNCIA Essa expressão é modernamente utilizada para indicar o crime organizado. Danos ao patrimônio estatal da coletividade podemos identificar na evasão de impostos.

por um lado em razão da sofisticação dos meios usados aliada a estrutura e. de nada adiantará a repressão à criminalidade convencional. pois o Direito Penal e a atuação da polícia são limitados pelo princípio da territorialidade e da sobera. É a macrocriminalidade que provoca desníveis sociais. 117] nia dos Estados. condições de vida subumanas. até a reformulação da legislação penal. aumentos incontroláveis de preços. A estrutura política e econômica existente está de tal forma montada que oculta e protege essa criminalidade dourada. onde as ações examinadas deveriam ser tipificadas como crimes sujeitos a graves penas. c) reveste-se de uma aparência de legalidade absoluta. De uma coisa. d) condutas criminosas transnacionais. Enquanto isso não acontecer. o que não acontece com o legislador e as leis. Outra dificuldade no combate da macrocriminalidade resulta do fato de conseguirem os criminosos adaptar-se rapidamente às constantes mudanças da economia. A transnacionalização é uma das maiores dificuldades no combate à macrocriminalidade. em constante consonância com as mudanças dos mecanismos econômicos e para dificultar a identificação das operações ilícitas. crises econômicas. elevação da inflação. Os criminosos utilizam países de acordo com os seus interesses e as facilidades que neles encontram. pois costuma apoiar-se em atividades legais que lhe dão cobertura tática para os negócios ilícitos. por outro. de modo que pouco ainda sabemos a seu respeito. ela já não mais se encontra no patamar que se pretendia regulamentar. . Quanto às medidas a serem adotadas.[p. devendo ser utilizadas as técnicas de pesquisa sociológica aperfeiçoadas pela experiência. causas principais. Impõese assim a recomendação de ampla pesquisa. o combate ficará circunscrito aos sintomas. entretanto. da criminalidade comum. Quando o legislador vai trabalhar em cima da realidade econômica. deverão abranger desde a completa reforma da estrutura política e econômica do país. devemos nos conscientizar: enquanto tivermos crimes e criminosos acima da lei. pela falta de leis penais adequadas. com o estabelecimento de uma ordem social mais justa e democrática. f) impunidade dos autores. Estão entre os países preferidos os chamados paraísos fiscais. Para elaborar leis eficazes nesta área da criminalidade. o legislador teria que ter profundo conhecimento da realidade econômica e estar permanentemente atento para prever as possíveis mutações de seus mecanismos. b) requer alta especialização profissional e completo domínio operacional dos meios tecnológicos para a sua execução. sem nunca chegar-se às causas.constância do uso indevido de informações privilegiadas a título de consultoria. e) mutabilidade na forma de operar-se. inclusive o estudo de casos. onde o dinheiro ilícito entra e sai com facilidade. por sua vez.

pelo fato de serem crimes fora do alcance da polícia. Um policial não está suficientemente aparelhado para entrar nos meandros de um crime cometido na especulação na bolsa de valores. por não mais serem aplicados. essas leis não têm alcançado os objetivos desejados. é o que ofende aquilo que a norma jurídica quer proteger. portanto. alcançar essa turma. 130. perseguir um integrante do Comando Vermelho.1986. respondeu: “LUZ . há o fato de que. Estourar um ponto do jogo do bicho. poderiam ser mencionados. lamentavelmente. viola-se a norma que protege a sociedade como um todo. por definição. Ademais. CONSIDERAÇÕES GERAIS Inúmeros outros fatos.06. como já foi assinalado. de 27.137. Não conseguimos. vários artigos que. 118] indagado sobre qual o crime que dará mais trabalho para a polícia brasileira. a casa de prostituição na modalidade de manter lugar . Em entrevista concedida à revista Veja. por exemplo. Quando quiserem combater esse tipo de crime não haverá mais condições. também.1990. deveriam ser dele excluídos. Não tem o conhecimento básico para combater os crimes do colarinho-branco. de 16. Crime. que define os crimes contra a Ordem Tributária Econômica e as Relações de Consumo -. o crime de perigo de contágio venéreo.É verdade que já temos uma legislação que pune os crimes econômicos .492. a coisa complica”. em novembro de 1995. merecedores de melhor disciplina penal.12. Os tipos penais abertos.O crime do colarinho-branco. mas. para a sociedade. não só pelas penas extremamente brandas nelas previstas.Como assim? LUZ . a sonegação fiscal. os engravatados não são considerados marginais. prender o Miltinho do Dendê são ações que não causam nenhum tipo de problema. Além disso. a nossa polícia não está aparelhada e nem especializada para investigar tal tipo de criminalidade. previsto no art.Lei n° 7. No caso dos crimes do colarinho-branco. [p. então Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro. que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e Lei nº 8. que permitem várias interpretações. Mas. na hora de entrar nos escritórios refrigerados do 18° andar da Avenida Rio Branco ou num gabinete atapetado na Avenida Paulista.” VEJA . o Delegado Hélio Tavares Luz. Há no Código Penal. É um problema grave por esse ângulo e. 56. a lavagem de dinheiro. Assim. criam confusão e concorrem para a impunidade. como também pela imprecisão dos seus tipos. que resguarda o bem comum.“A polícia tem um problema de formação. que é a arrecadação do Estado.

Entre nós.motéis. trata-se de uma norma amplamente transgredida. previsto no art. Tomemos para exemplo o caso do imposto de renda. transportes. saúde. que tantos efeitos negativos produz. 234 . Existem ainda outras questões que estão a exigir estudo aprofundado e urgente definição do legislador: a maconha deve ser descriminada? Como [p. pp. A. 124). escudados na impunidade. 119] explicar o seu uso nas praias? A proibição do jogo do bicho. observa F. 240. há uma grande distância entre a eficácia teórica e a real das leis fiscais em geral. vulgarmente chamada de grampo. bem como das leis tributárias em geral. art. embora tipificado como crime. 118119). por seu turno. A escuta telefônica. como a sedução (art. 217) e o aborto (art. procurando os mais variados meios para fugir ao seu império. de Miranda Rosa (Sociologia do Direito. É inadmissível que alguém fotografe uma pessoa famosa em sua intimidade e venda impunemente essa fotografia à imprensa para obter ganho fácil. principalmente as repercussões que provocam na opinião pública. 57. todos sabem disso. existindo até mesmo clínicas especializadas em aborto. chegou até o Palácio do Planalto. o adultério. há artigos cuja permanência no Código é discutível por várias razões sociais.escrito.para fins de encontros libidinosos . como a violação da intimidade com instrumentos e aparelhos eletrônicos. Por razões que precisam ser estudadas. objeto ou espetáculo obsceno. deve persistir? Até quando vamos manter os nossos presídios como escolas de marginais e de revoltados? Para fazer da pena um instrumento de reeducação e prevenção social é necessária uma radical reforma penitenciária. nada há mais justo que cada um contribuir para as necessidades públicas proporcionalmente às suas rendas. são algumas das questões a merecer pesquisa acurada da Sociologia Jurídica. Por outro lado. Assinale-se por último que novos fatos sociais necessitam ser tipificados como crimes. 229. tal a ousadia dos seus praticantes.estradas. educação. Este último já se encontra legalizado em vários países. Em tese. ultraje público ao pudor na modalidade prevista no art. No . há uma resistência permanente por parte dos contribuintes quanto a pagar efetivamente os tributos exigidos pelos órgãos legiferantes. DIREITO FINANCEIRO E TRIBUTÁRIO Os efeitos sociais das leis que disciplinam o regime das finanças públicas e privadas. Embora todos estejam de acordo quanto à necessidade de pagar tributos como forma de custear os serviços públicos .

Freqüentemente. as leis fiscais seriam recebidas de forma mais pacífica pela sociedade e os resultados seriam muito mais satisfatórios. ou de aplicação fácil desse tributo. por exemplo. dos economistas. Esse descompasso. uma das causas da resistência ao pagamento do imposto de renda decorra da injustiça dos critérios utilizados em sua fixação. em reuniões sociais. em todos os países em que foi instituído não há exemplo de aceitação mansa. assistência etc. faz-se . O esclarecimento da opinião pública a esse respeito.entanto. Jamais confessariam que subtraíram um níquel de quem quer que seja. como já se disse. deixando quase à vontade os profissionais liberais. cujo tributo é descontado em folha de pagamento.obras. Sem dúvida. Provavelmente. ou pelo menos habilidade. 120] clamar maior atenção dos sociólogos. como e por quê. isto é. mais do que em qualquer outro. pagar mais imposto de renda que um comerciante ou industrial bemsucedido. entre a eficácia pretendida com relação às leis tributárias e sua aplicação real. Outra causa pode ser a falta de confiança do público em geral na fiel aplicação dos tributos às finalidades a que se destinam. que em nosso País a maior incidência do imposto de renda ocorre sobre os assalariados. dos juristas e das autoridades em geral.. esperteza. arrecadar-se-ia mais com menos esforço. pessoas respeitáveis vangloriam-se de terem conseguido burlar o imposto de renda em vultosas quantias. comerciantes. Chegou-se mesmo a formar a idéia de que constitui virtude. DIREITO DO TRABALHO O Direito do Trabalho oferece igualmente campo fértil à investigação sociológica porque trata-se de um novo ramo do direito onde. Pode acontecer também de não estar o público suficientemente esclarecido quanto às finalidades dos tributos. o que visam realizar. caberia à autoridade competente esclarecer a opinião pública quanto ao que foi feito com o dinheiro público . se as causas da resistência pudessem ser levantadas e eliminadas. mas quanto aos tributos. De todos é sabido. industriais etc. sonegar o imposto de renda. . através de publicidade bem elaborada. é algo perfeitamente tolerável pelos costumes e até enaltecedor. Chega-se por isso ao absurdo de um assalariado. isso seria tremendamente desonroso. Neste caso. constitui fato importante a re.[p. 58. ajudaria a quebrar a resistência e a angariar confiança. Vimos isto no Rio de Janeiro quando do lançamento da taxa do lixo pela Prefeitura Municipal: houve uma grita geral. em nosso entender por falta de esclarecimento da opinião pública quanto ao que estava sendo feito..e assim ganhar a confiança pública. de rendimento médio.

tem sido alterada com freqüência. b) ação sobre o Judiciário. simpático às posições assumidas pelos grupos de trabalhadores vinculados a tais organizações sindicais. Foram concessões [p.. tendente a criar ambiente social mais amplo. De acordo com o mesmo autor (ob. visando à edição de normas jurídicas convenientes aos interesses dos seus associados. impressionante e inevitável. em alguns países essa influência é exercida direta e ostensivamente sobre os órgãos produtores do direito. a despeito do regime político duro e austero lá existente. Exemplo disto tivemos na década de 80 na Polônia. Seu desenvolvimento tem sido rápido em virtude das constantes pressões exercidas pelos fatos sociais sobre as forças e grupos detentores do controle da economia. cit. Em outros. 58. O líder sindical chegou à Presidência daquele País. passo a passo. aos impulsos sociais das novas reivindicações de massa.notório o condicionamento direto que a realidade social exerce sobre a ordem jurídica. que podemos afirmar com segurança que todas as conquistas dos trabalhadores nesse ramo do direito. Miranda Rosa (ob. procurando obter decisões da justiça favoráveis. como férias de trinta dias. às vezes até mesmo com certo exibicionismo para evidenciar a eficiência das organizações classistas e sindicais na defesa dos interesses de seus associados. . reajustes salariais. Interferência das Forças Sindicais no Processo de Formação do Direito do Trabalho Segundo o Prof. gratificação natalina. Tão notório é o condicionamento social sobre as leis trabalhistas. a saber: a) ação sobre os órgãos legislativos e executivos. seja pelas características próprias do movimento sindical. decorreram das pressões feitas pelos órgãos de classe.. muito a contragosto.1. porém. pelos patrões. c) ação sobre a opinião pública. cit. p. a influência sindical no processo de formação do Direito Trabalhista apresenta três facetas distintas. a influência que exercem os órgãos de classe é inegável. aposentadoria. capazes de condicionar um entendimento uniforme no sentido desejado. é mais discreta a intervenção dos sindicatos na formulação das normas jurídicas do trabalho. seja pelas restrições que a organização política lhes impõe. 116). p. Por essa mesma razão a legislação trabalhista. sempre na menor medida possível. ainda que nova. Em qualquer das hipóteses. acatadas. 121] feitas. 117).

Até onde essa influência é útil. que durante muitos anos esteve entre os países do segundo grupo. conforme foi possível constatar através dos movimentos grevistas no ABC Paulista. 5°. Essa lei. 59. uma disciplina jurídica única e uniforme para tutelar todos os direitos materiais e morais dos consumidores. gerando diariamente outros tantos milhões de relações em todas as áreas do mercado de consumo: saúde. transportes. Para atingir a sua finalidade no que diz respeito ao primeiro ponto. Para termos uma idéia do campo de incidência do Código de Defesa do Consumidor . o CDC estabeleceu responsabilidade objetiva para o fornecedor de produtos ou serviços. é questão a ser examinada através de investigação profunda da realidade social determinante. válida e legítima. estabeleceu uma política nacional de consumo. ainda que rápida. vestuário. para cumprir a sua vocação constitucional . merecem destaque aquelas que procuram proteger o consumidor nos pontos em que é mais vulnerável: a sua integridade físico-psíquica e a sua integridade econômica. o Código adotou a concepção social do contrato. com relação a determinadas realidades sociais por ele ainda não adequadamente disciplinadas. 122] O que foi dito nesta parte serve para demonstrar o que poderia e deveria ser feito em todos os ramos do Direito. [p. às profundas transformações introduzidas nas relações de consumo pelo Código de Defesa do Consumidor. serviços etc. produtos. inciso XXXIII da Constituição Federal) -.CDC . segurança. Um líder sindical chegou à Presidência do País e está promovendo reformas constitucionais significativas. 59.promover a defesa do consumidor (art.basta que se diga que somos hoje 170 milhões de consumidores no Brasil. no que tange ao segundo ponto.O Brasil. DIREITO DO CONSUMIDOR Não estaria completo este capítulo sem uma referência. necessária. alimentação. A Responsabilidade Objetiva do Fornecedor de Produtos ou Serviços Até o Código do Consumidor os riscos do consumo corriam por conta do consumidor. habitação. bem como na legislação ordinária. depois da abertura política vem se colocando no primeiro. Entendia-se que o fornecedor de produtos ou serviços limitava-se a fazer a . Entre as inúmeras inovações traz idas pelo CDC.1.

estocar. sem oportunidade de escolha . o elemento nuclear do contrato é a autonomia da vontade.chamada “oferta inocente”. já que não há igualdade real entre os homens na sociedade. de forma expressiva. vale dizer. e o outro fraco.2. até. responde pelos danos que causar ao consumidor independentemente de culpa. 12 e 14 do CDC. nesse e em outros pontos. 123] Hoje a responsabilidade do fornecedor é objetiva. A responsabilidade decorre do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. [p. assim. a vontade cria um vínculo entre os contratantes do qual nascem direitos e obrigações. Por essa nova concepção. A Concepção Social do Contrato no Código do Consumidor Na sua visão clássica ou tradicional. livre para contratar ou não contratar.um forte. A liberdade de contratar é o reflexo da filosofia do Estado Liberal que exigia uma separação quase absoluta entre o Estado e a sociedade. na aventura do consumo para indicar a situação daquele que se aventurava a consumir produto ou serviço. Funda-se a responsabilidade do fornecedor na teoria do risco do empreendimento (ou empresarial). Uma vez manifestada. independentemente de culpa. O progresso industrial. 59. consoante arts. entre as melhores e mais avançadas legislações do mundo. colocando-se. O indivíduo estaria. científico e tecnológico veio demonstrar que o dogma da liberdade contratual não passava de uma ficção. que pode ser assim resumida: todo aquele que se disponha a exercer alguma atividade no campo do fornecimento de bens e serviços tem o dever de responder pelos fatos e vícios resultantes do empreendimento. no Código do Consumidor. passando a ser substituída pelo interesse social. Nas últimas décadas tomou-se necessário substituir a concepção clássica do contrato por uma concepção social. Em face do desequilíbrio econômico das partes . poderoso. a autonomia da vontade deixa de ser o elemento nuclear do contrato. atendendo antiga exigência social. para definir o conteúdo do contrato e ainda para escolher o parceiro contratual.a liberdade de um importava em opressão do outro. reconhecendo perfeita igualdade e absoluta liberdade entre as pessoas. Tão forte é esse vínculo que se costuma dizer que o contrato é lei entre as partes. deu uma guinada de cento e oitenta graus ao transferir os riscos do consumo do consumidor para o fornecedor. O CDC. distribuir e comercializar produtos ou serviços. Falava-se. A eficácia jurídica do contrato . o que só veio a ocorrer. sendo tributados aos riscos do ato de consumir todos os acidentes de consumo.

reportamo-nos ao que ficou dito no item 47. e principalmente. na [p. fruto de um consciente e bem sucedido esforço do legislador para adequar a nossa legislação à realidade social no que diz respeito às relações de consumo. 124] concepção social do contrato. Quanto aos efeitos positivos que essa lei vem produzindo. dos seus efeitos sociais e das condições econômicas e sociais das partes que dele participam. mas também vedando certas cláusulas. mas também. Tem sido proclamado que ele representa uma verdadeira mudança na ação protetora do Direito Civil Brasileiro. mas cogente. . protege determinados interesses sociais e serve de instrumento limitador da autonomia da vontade. O Estado passa a intervir na formação dos contratos de consumo. proíbem as práticas comerciais abusivas (art. pois de uma visão liberal e individualista. que valoriza as legítimas expectativas das pessoas nas relações de consumo.51-53). 30-38). não tem mais mero papel interpretativo ou supletivo. 39) e consideram nulas de pleno direito as cláusulas abusivas (arts. impondo o conteúdo de outras. pode-se afirmar que o Código do Consumidor é a mais revolucionária lei do século XX. chegando ao ponto de obrigar a contratar em determinados casos. Como exemplo dessa nova postura da lei em face do contrato de consumo.não mais depende apenas da manifestação de vontade. passamos a uma visão social. A autonomia da vontade só existe nas condições permitidas pela lei que. devem ser lembrados os Capítulos V e VI do CDC que vedam a publicidade enganosa e abusiva (arts. não só controlando preços. Concluindo.2.

compreender que. O papel desempenhado pela Justiça Eleitoral. não indago se há leis boas. o homem é insubstituível: entre elas as atividades de elaborar e de aplicar leis. repetimos. é ter estrutura material e humana para aplicá-las. porque leis boas há em toda parte. aumentando infinitamente as possibilidades de produção. Causas da crise do Judiciário brasileiro.” Pior do que não ter leis. caso contrário toda a ordem jurídica de uma sociedade pode ficar seriamente comprometida. Em certas atividades. Estrutura do Judiciário brasileiro: a justiça estadual.Capítulo XI INSTRUMENTOS HUMANOS DE REALIZAÇÃO DA ORDEM JURÍDICA O Poder Legislativo: eleição dos legisladores. A máquina já substituiu o homem em inúmeras atividades. [p. vamos agora nos dedicar ao exame do segundo item da classificação . estrutura da justiça especial. portanto. tão importante quanto ter leis eficazes. bem como uma estrutura material adequada.eficácia e efeitos -. é tê-las e não aplicá-las. nos capítulos anteriores. Cabe aqui relembrar o que dizia Montesquieu: “Quando vou a determinado país. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. mas se as executam. entretanto. quando teremos oportunidade de ver que não basta existirem leis boas e eficazes. 127] . É preciso também gente especializada e em número suficiente para aplicar a lei. organização da justiça federal. Fácil é. **** Após termos examinado.estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições -. A crise do Judiciário em nosso país. O Poder Judiciário. o primeiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica .

ao passo que as funções administrativa e a judicial se prendem à sua realização.Câmara de Vereadores de cada Município. a de legislar é sem dúvida a mais importante. 3) Municipal . De acordo com Seabra Fagundes.composto pela Câmara dos Deputados e Senado Federal (adotamos o sistema bicameral). 2) Estadual . mantida e modificada. Por sua vez. cuja função principal é aplicar a lei ao caso concreto. Entre as funções públicas.Por instrumentos humanos de realização da ordem jurídica devem ser entendidos aqueles órgãos ou instituições através dos quais a ordem jurídica de uma sociedade é declarada. a Câmara Municipal de Vereadores fica restrita aos limites do seu Município e às matérias de sua competência. através dos Deputados Federais e Senadores. mesmo assim. elabora leis para todo o território brasileiro (leis federais). que em conjunto formam o Congresso Nacional. 60. julgar é aplicar a lei contenciosamente (O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário. são integradas por criaturas humanas. a saber: 1) Federal . PODER LEGISLATIVO O Poder Legislativo em nosso País divide-se em três esferas. assegurada. é óbvio. O Poder Legislativo Estadual só elabora leis para o âmbito territorial de cada Estado e. Do bom funcionamento dessas instituições e da eficiência do pessoal que nelas atua dependerá a eficácia da ordem jurídica. sendo assim responsável pela declaração e modificação da ordem jurídica nacional. o princípio da separação dos poderes. 128] exercício das mais simples funções é necessário ter a pessoa certa no lugar certo. nas sociedades democráticas. dois deles estão diretamente ligados à ordem jurídica: o Poder Legislativo. a função legislativa liga-se ao fenômeno de criação do direito. porque dela emanarão leis a vigorar para todo o grupo social. e o Poder Judiciário. O Poder Legislativo Federal. p. 718). o pessoal técnico e especializado que nelas atua. Tais instituições.formado pela Assembléia Legislativa de cada Estado. inclusive os efeitos sociais positivos que toda norma tem por finalidade produzir. com relação àquelas matérias que não são da competência privativa da União. por maior razão é preciso que o . Se para o [p. Desde que passou a prevalecer. que tem por função prevalente elaborar as leis. Legislar é editar o direito positivo. administrar é aplicar a lei de oficio. compondo os conflitos sociais. às quais a sociedade confere atribuições para elaborar e aplicar as leis. 1979.

o voto vinculado a pequenas vantagens materiais. Como estas. Fala-se muito na reforma política e ela é realmente necessária. em áreas de grande pobreza: a máquina eleitoral reelegendo os mesmos parlamentares a cada nova legislatura.1. séria. De tão velhas e conhecidas. a manipulação da opinião pública pelos órgãos de comunicação nas grandes cidades. profunda. empreguismo e outros interesses econômicos. verdadeira. muitas outras circunstâncias existem dificultando ou até mesmo impedindo que o processo seletivo dos legisladores proporcione um eficiente resultado. Assim sendo. 60. uma reforma parcial. Para tanto seria indispensável inicialmente uma pesquisa detalhada da realidade atual. casuística. não porque o brasileiro não saiba votar. Não. ninguém mais desconhece que o processo de seleção dos membros do Legislativo está a exigir urgente aprimoramento. a eleição conquistada em troca de facilidades. mas sim pelas distorções que se verificam na sua execução. as questões mais relevantes sobre este ponto consistem apenas em saber como evitar as distorções que têm ocorrido nas eleições diretas. o poder econômico pesando em favor deste ou daquele candidato. àqueles que foram escolhidos como seus mandatários ou legítimos representantes. destinada a realmente aprimorar o sistema existente.[p. apresentadas as soluções mais adequa. levantando-se as suas principais deficiências. a eleição direta não tem produzido os efeitos desejados. É notório. algumas . já que a função legislativa é exercida por delegação do povo. entretanto. que ainda temos currais eleitorais no interior. destinada exclusivamente a assegurar a vitória àqueles que já se encontram no poder. de modo a tomar possível a escolha dos melhores. e não simplesmente pessoais. E nem poderia ser diferente. Lamentavelmente. 129] das à realização dos interesses coletivos. É preciso uma reforma de base. Eleição dos Legisladores Hoje não mais se admite qualquer discussão sobre as vantagens de qualquer outro processo seletivo dos legisladores que não seja o da votação popular. para a seguir serem elaboradas as reformas necessárias. até distribuição de alimentos. visto estar consagrado em todas as sociedades democráticas o sistema da eleição direta para tal fim. por exemplo. Com efeito. como tem sido feito às vésperas de cada nova eleição. a despeito de nada terem feito ao longo de muitos anos de vida pública.legislador seja alguém preparado para o exercício dessa função e escolhido mediante criterioso processo seletivo. como afirmou há algum tempo determinado político. financiando sua milionária campanha e comprando adesões.

assim examina essa questão: “Prefiro interpretar as relações Executivo-Legislativo à luz dos incentivos institucionais das regras do sistema político brasileiro. em busca de prestígio e favores políticos. o multipartidarismo e o federalismo agem descentralizando o sistema e incentivando comportamentos particulares. Nas contas das últimas eleições.Quais as Condições para o Sucesso Presidencial na Área Legislativa? A Conexão Eleitoral Brasileira -. com as quais estabelecem compromissos localistas. mas que. vinculando a liberação de verbas e outros recursos de emendas orçamentárias individuais ao grau de fidelidade de cada parlamentar. de um sistema para acompanhar as votações do Governo no Congresso. lamentavelmente. E a injustificável curiosidade dessa questão está em que o partido de oposição que condenava a troca-troca de partido com veemência. É correto o parlamentar se sentir dono do mandato se para eleger-se precisou de votos da legenda do partido pelo qual concorreu às eleições? E não são poucos os que necessitam do voto de legenda. o que faz com que o exercício do mandato seja voltado para atendimento destas demandas. Por um lado. para serem eleitos. não saíram do papel. até confessada. Até que ponto é justa e ética a troca-troca de partido? O parlamentar se elege por um partido e depois. Ou seja. se aproximam em demasia de suas bases eleitorais. ao mesmo tempo.[p. bem como é ele que centraliza o processo decisório e a agenda do Congresso. as regras eleitorais. Assim. é o Governo o responsável pela exe. os parlamentares. a existência no Palácio do Planalto. Entretanto. apenas 28 deputados federais tiveram votação suficiente para se eleger sozinhos. Por outro. não há a mediação dos partidos políticos. cientista político e autor da tese . a fidelidade partidária.questões constam da pauta de todas as propostas de reforma política. 130] cução destas demandas. Assim. “Por causa dessas regras eleitorais. tanto nos Governos anteriores como no atual. normalmente integrante da base governista. passa a incentivá-Ia e dele se beneficiar tão logo chega ao poder! Outra questão relevante é a cooptação de parlamentares pelo Executivo para garantir a maioria parlamentar no Congresso. negociar com o Congresso punindo ou . Tomou-se pública e notória. Ele proporciona incentivos para comportamentos individuais e partidários. todos os outros estão na Câmara Federal graças à legenda. Carlos Pereira. exerce o mandato por outro. Ou seja. as regras internas do processo de decisão do Congresso e os poderes constitucionais de legislar e de distribuir recursos do presidente agem incentivando a centralização do sistema e o comportamento partidário. por exemplo. de posição política diametralmente oposta ao daquele pelo qual se elegeu.

Outro grupo seria o que ele chama de “a nossa variável nordestina do voto distrital”. é eleita por votação majoritária. apresenta um número de candidatos fixado em lei. Entre as vantagens desse sistema estaria também a de evitar distorções da representação popular que hoje ocorrem. que proporciona incentivos paradoxais simultâneos.” “Diante de um desenho institucional como este. ou votação plurinominal. sendo que o eleitor tem a opção de votar no partido ou na pessoa do candidato de sua preferência. aprovados em convenção. cientista político e autor da obra E no Início Eram as Bases. pode ser de votação uninominal (cada partido indica seu candidato para escolha do eleitorado). . O desafio. o partido escolhe os candidatos que quer eleger e o eleitor vota no partido.08. tem sido a única saída para a sobrevivência política dos parlamentares. que dominam a votação em determinada área. a atitude do Executivo. Pelo voto distrital misto os Estados são divididos em regiões e somente uma parte dos candidatos. sistema utilizado com sucesso em alguns países. Uma das soluções apontadas seria a adoção do voto distrital misto. da Editora Revan. Qual seria esse redesenho das instituições políticas? Que sistema permitiria eliminar os inconvenientes e distorções inevitáveis no atual sistema político? Essa é a questão. vinculando o atendimento das demandas dos parlamentares aos seus comportamentos de voto.[p. que fragmenta a votação pelo estado inteiro. mas dá ensejo ao afastamento das minorias e ao engrandecimento da figura dos caciques.premiando parlamentares segundo seu desempenho é decisão do governo proveniente dos incentivos institucionais das regras do jogo.2000). 131] dida igualmente entre três tipos de políticos: os do primeiro grupo seriam os distritais puros. na há voto nominal. em que cada partido apresenta aos eleitores sua lista de candidatos. é redesenhar as instituições políticas sem cair na vala comum do moralismo” (O Globo. geralmente a metade. No caso de lista aberta. somente voto na legenda. no qual demonstrou que a nossa Câmara dos Deputados é divi. conhecido tecnicamente como concentrados/dominantes. 02. de continuar jogando este jogo. fez um profundo estudo do nosso sistema político. como aquela do voto de Roraima valer sete vezes mais do que o de São Paulo. No primeiro caso. As listas podem ser fechadas ou abertas. não é nada mais do que o instrumento achado para mitigar as fragilidades de um sistema partidário fraco na arena eleitoral e fortalecê-Io dentro do Congresso. sendo que a outra metade (ou fração estipulada em lei) é escolhida pelo sistema proporcional que. fortalece o partido. então. por sua vez. Nelson de Carvalho. o partido não escolhe os candidatos que quer eleger. E a atitude do Legislativo. de forma a ver cumprida a sua agenda de governo. também chamado de sistema de lista.

você projeta os interesses difusos da sociedade e provoca uma espiral de gastos. Após essas ponderáveis reflexões. onde os políticos locais não têm responsabilidade sobre as verbas. O concentrado/não-dominante é o terceiro tipo.países que passaram por transições democráticas parecidas com a nossa . e dá uma visibilidade maior ao representante. o primeiro recurso eleitoral é a atuação legislativa. Se cada um for maximizar o beneficio para o distrito. Os fragmentados/dominantes. e não apenas um. Segundo o estudo. Portugal e Grécia . Para Carvalho. como não domina essa área. para o candidato da área metropolitana. a maneira como ele vota na Câmara. que elegem de 5 a 8 deputados. e o primeiro recurso político deles é o encaminhamento das demandas das lideranças locais. Já o político do distrital puro prioriza os recursos orçamentários. e acabariam com a adoção dos mega-distritos”. “dá-se uma justa medida às diversas áreas. 132] Conclui Nelson de Carvalho: “Mesmo se fizermos voto distrital com lista fechada. Os países citados por Carvalho usam o sistema de lista. mas ele não tem definição sobre se o voto deve ser na lista ou diretamente no candidato.que. “são os que têm 40 prefeitos espalhados. Esses são fruto de uma distorção do voto distrital à brasileira. que predominam no Nordeste. que vai pegando um votinho aqui outro ali e em várias áreas distintas”. Ele também vê vantagem nesse tipo de voto proporcional com distritos maiores “porque enxuga o número de partidos”. não pode reivindicar créditos por benefícios. Dentro do estado. Com o distrital misto podemos ter aqui o pior dos dois mundos: dar à oligarquia partidária o domínio sobre a lista. que concentra sua votação em municípios muito grandes e. os caciques vão continuar dominando os partidos. em vez de adotar o voto distrital misto. como nos Estados Unidos. Com esse sistema. [p. e ao mesmo tempo contemplar o paroquialismo que já existe”. “o sistema distrital uninominal incentiva o paroquialismo. o interior do estado passa a atribuir justa representação a áreas que hoje viram colchas de retalho “atacadas por vários políticos que dispersam sua votação e não têm compromisso com nenhuma delas”.com motivação paroquial. eliminando a possibilidade dessa compra da representação inorgânica. seria o político das áreas metropolitanas. adotam os chamados Distritos de Média Magnitude. para priorizar os partidos políticos em detrimento do voto pessoal. Os distritos de média magnitude diluiriam a interferência direta do cacique local” . voltado para temas. não acontece o fenômeno da sub-representação de áreas importantes como as metropolitanas. Nelson Carvalho propõe a adoção do sistema eleitoral utilizado na Espanha.

não obstante as suas conhecidas deficiências. mesmo nos lugares longínquos e de difícil acesso. Uma vez eleito. A experiência demonstra que se não há financiamento público. O Papel Desempenhado Pela Justiça Eleitoral Justiça seja feita à Justiça Eleitoral Brasileira. por exemplo. Obter novas adesões na base da aritmética pode ser importante momentaneamente. compareceram ordeiramente às urnas em todo o país. sem impugnações. cultos ou não. mas a longo prazo só dá prejuízo. de civismo e cidadania. Horas depois os resultados foram proclamados no Brasil todo. um belo dia. recadastrou os eleitores em 24 municípios nos quais constatou desproporção entre o número de eleitores e de habitantes.2003) disse que a prestação de contas que o candidato faz dos gastos com a campanha eleitoral é uma palhaçada. votam motivados por favores políticos. principalmente o eleitorado. sem questionamentos. o que indicaria a existência de eleitores fantasmas. enfim. não existe fidelidade partidária. Ele pode ser candidato . os líderes dos maiores partidos se sentarem à mesa e concluírem que todos estão sendo prejudicados. a informatização da apuração das eleições. O Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro. O voto eletrônico. a prestação não vale nada. 60. A reforma política só vai sair quando. Se o candidato é derrotado. No dia do pleito milhões de brasileiros.2. “A legislação é quase risível. o candidato vai à luta buscar quem banque sua campanha. por aqueles que eventualmente serão por ela prejudicados. Dessa forma a Justiça Eleitoral Brasileira deu sua decisiva contribuição para o aprimoramento do sistema político vigente. Prossegue a Justiça Eleitoral nessa importante tarefa promovendo recadastramento dos eleitores e reivindicando debate mais profundo sobre a legislação eleitoral. Desembargador Marcus Faver. jovens e velhos. Foi um espetáculo democrático. A proporção estava acima de 70% da população. E assim sendo. sem fraude. e conseguiram depositar o seu voto. a organização do pleito e outras medidas administrativas adotadas fizeram da nossa última eleição um modelo para o mundo todo. assumindo compromissos políticos com os mais variados e questionáveis seguimentos sociais. em entrevista ao jornal O Globo (26. não deve nada ao partido. [p. praticam o clientelismo. nem como prestar contas dos gastos com a campanha. Promove também debate sobre o financiamento público da campanha eleitoral.12.A grande dificuldade em se aprovar uma reforma política está em que terá ela que ser votada pelos próprios parlamentares que trocam de partidos. 133] O Presidente do Tribunal Regional Eleitoral no Rio de Janeiro.

a obrigação do devedor. fracos ou poderosos). 345 do Código Penal. Essa função. cultos ou ignorantes. por sua vez. Era a justiça do olho por olho. longe de compor os conflitos sociais. O credor podia exigir. caracterizando o crime previsto no art. após a separação dos poderes. de aplicar a lei ao caso concreto para compor os conflitos sociais. caracteriza o direito de ação. e em face dos inconvenientes da justiça privada. servindo como ilustração o conhecido caso de uma cidade nordestina. A vítima. . PODER JUDICIÁRIO Houve tempo em que a justiça era privada e feita pelas próprias mãos. e assim por diante. após organizar-se política e juridicamente. Se as contas forem julgadas depois da diplomação (e não há tempo para que sejam julgadas antes). 134] flitos sociais.” 61. de invocar a prestação jurisdicional sempre que dela necessitar. podia infligir ao causador do dano mal idêntico ao produzido no ofendido.[p. resolveu assumir essa função. gerando uma verdadeira reação em cadeia. no momento em que se tomar necessária (não alcançará os seus objetivos sociais se a ação da justiça vier tardiamente) e no lugar onde for necessária. foi conferida ao Poder Judiciário. pois caso contrário ficará a emenda pior do que o soneto. A função prevalente do Poder Judiciário. que se caracterizava mais como uma forma de vingança do que propriamente de justiça. Essa relevante função pública. é distribuir justiça na sociedade. Cabe ao particular tão-somente o direito de pedir justiça. Ainda hoje temos exemplos do que ocorre quando o particular resolve fazer justiça com as próprias mãos. ou seu vingador. tornando-a exclusivamente sua . é necessário salientar. dente por dente. o que faz aplicando a lei ao caso concreto. compondo os con. constituindo a chamada função jurisdicional. também não tem nenhum efeito. fazer justiça com as próprias mãos é uma forma de usurpação de função pública. Obviamente. pelos meios que bem entendesse. criava outros maiores. sem imparcialidade. Hoje. tal forma de justiça. A partir daí só o Estado passou a ter o poder de fazer justiça. o que. onde durante algumas décadas duas famílias se destruíram mutuamente.novamente mesmo com as contas rejeitadas. terá que ser exerci da em favor de todos os que dela necessitarem (ricos ou pobres. prestada pelo particular interessado.monopólio estatal. Um verdadeiro faz-de-conta esse negócio de prestação de contas que não tem sentido objetivo. Chegou o dia em que a sociedade. portanto.

. Também ele terá que contar com instalações adequadas. 135] 62. pessoal etc. espalhados por todo o território nacional. e neles uma multidão de Juízes.. já que isto constitui uma função exclusivamente pública. agências. se a Justiça se omitir ou retardar no exercício de sua função. Com o correr do tempo os conflitos se agravam e aumentam. que se propõe prestar assistência médica e hospitalar a todos os seus associados. gente técnica e especializada. Tal como uma grande empresa prestadora de serviços. tanto nas capitais como no interior. Para que o Judiciário possa exercer eficientemente a sua função . se assim podemos dizer.que só trata das questões relacionadas com o direito eleitoral. tomando impossível a vida em coletividade e motivando o retomo à justiça privada. tanto nas cidades como no interior. postos. O que é preciso para que possa realizar isto? Uma infinidade de hospitais. quando e onde for necessário . gente técnica e especializada. se lhe faltarem os instrumentos materiais e humanos necessários. sede. Tomemos para exemplo do que estamos querendo enfatizar o caso do INAMPS. As filas aumentando cada vez mais nas portas dos ambulatórios. veremos o que estamos cansados de ver. tal como as pessoas nas filas do INSS.fazer justiça a quem precisar. sob pena de se avolumarem os processos nas prateleiras. espalhados por todo o território nacional. postos de saúde etc. serventuários etc. o que toma em completo fracasso o objetivo a que se propõe a entidade. mas quem tem o dever de exercê-la não o faz. [p.é indispensável que esteja devidamente estruturado e aparelhado.. o que será da sociedade? Os conflitos sociais continuarão ocorrendo porque existirão enquanto existir a sociedade. pessoas esperando às vezes meses para poderem ser consultadas. ESTRUTURA DO JUDICIÁRIO BRASILEIRO Em nosso País o Judiciário se divide em duas esferas: federal e estadual. dedicada à função jurisdicional. e neles uma multidão de médicos. clínicas. funcionários. a saber: 1) Justiça Eleitoral . o Judiciário precisa de estrutura material e humana para desempenhar a sua tarefa. Os interessados não poderão resolvê-los por suas próprias mãos. Faltando essa estrutura necessária. subdivide-se em quatro áreas específicas. que para realizar os seus objetivos necessita de instalações. Coisa idêntica ocorrerá (e já está ocorrendo) com o Judiciário. empenhada na realização desse objetivo. O Poder Judiciário Federal.Com efeito. enfermeiros. por sua vez. postos de justiça.

é a justiça de primeira instância que toma conhecimento e decide em primeiro lugar as causas que são levadas à apreciação do Judiciário. À Justiça Estadual compete o restante das questões que podem ser levadas a juízo. que a grande sobrecarga de trabalho repousa sobre o Judiciário Estadual. serão da competência da justiça estadual. 4) Justiça Federal . 62. sucessões. está ela organizada em todo o território do Estado. advogados). se um particular pretender exigir da União indenização por dano material ou moral decorrente de ato praticado pela administração federal. isto é. Isso evidencia.que é o poder de fazer justiça. da melhor . deverá também apresentar sua postulação perante a mesma justiça. a primeira e a segunda instâncias no Judiciário de cada Estado. bem como as demandas em que há interesse dos próprios Estados.1. testemunhas. contratos. para que possa estar ao alcance de todos. réu. 136] ção até a sentença final. crimes etc. De regra. Municípios e seus desmembramentos administrativos. assim.à qual competem todas as causas em que houver interesse da União ou de seus desmembramentos administrativos (autarquias e empresas públicas) como autora. por exemplo. enfim.[p. se a União resolver desapropriar um determinado imóvel. Para não ser muito oneroso e difícil às partes o acesso a essa justiça. ré ou simples interessada.cuja competência é julgar os crimes previstos no Código Penal Militar. Assim.). Por isso está em contato direto com as partes (autor. por um só julgador. Cabe ao Código de Organização Judiciária de cada Estado estabelecer a organização da sua justiça de primeira instância. 3) Justiça Militar . tanto nas cidades do interior como na capital. atuando em toda a formação do processo desde a primeira peti. Todas as demandas envolvendo conflitos de interesse entre particulares (questões de família. desde logo. Temos. Estrutura da Justiça Estadual Há duas instâncias na Justiça Estadual: instância é hierarquia ou grau de jurisdição . de modo a poder ela realizar.que cuida dos problemas envolvendo empregador e empregado.2) Justiça Trabalhista . aplicando a lei ao caso concreto. deverá propor a ação expropriatória perante uma das varas da Justiça Federal. As decisões da primeira instância são prolatadas por Juiz singular.

tantas quantas forem necessárias para atender à demanda dos novos conflitos sociais. possuem também outro Tribunal (ou Tribunais) chamado de Alçada. limitando-se à apreciação daquilo que já se encontra no processo. para onde são encaminhados os processos sempre que houver recurso de qualquer decisão da primeira instância. para evitar esse inconveniente. 3) só existe nas capitais dos Estados. sob pena de tornar-se lenta. toma-se necessária a criação de novos juízos (uma ou mais varas). podendo-se. 137] O número de desembargadores é muito menor que o de juizes de primeira instância. Cabe também a cada Estado organizar a sua Justiça de segunda instância. congestionada e deficiente a prestação jurisdicional. e conseqüentemente aumentando o serviço da justiça. [p. tendo a competência estabelecida pela lei. os Tribunais de Alçada são integrantes da Justiça de segunda instância. À medida que a Comarca vai se desenvolvendo política. aumentando a sua população. como a primeira instância. e em cada Vara um juiz. cada Estado tem o seu Tribunal de Justiça. em segundo grau. pelo menos. Apreciado o recurso. tal como ocorre com os Municípios. organizam-se à sua imagem e semelhança. econômica e socialmente.. cujos membros são chamados Desembargadores. de regra.forma possível. Assim. divididos em várias câmaras. muito embora nem sempre exista correspondência entre suas áreas geográficas. De modo geral pode-se . o escrivão. Alguns Estados. onde a sentença será executada. todavia. Em linhas gerais. Em cada Comarca temos uma sede do Judiciário Estadual que vem a ser o Foro. que é o Juízo ou Vara. Tal como os Tribunais de Justiça. as atividades empresariais etc. o que poderia acarretar um congestionamento de processos e sobrecarga do serviço nos Tribunais de Justiça. de uma atividade revisora. podemos dizer que todo o território do Estado é dividido em várias áreas denominadas Comarcas. três julgadores. visto que as decisões são ali prolatadas por. serventuários etc. por isso que realizada através dos Tribunais de Justiça dos Estados. Em cada Foro temos pelo menos um órgão investido da função jurisdicional. o processo é devolvido à Vara de origem. 4) é uma justiça colegiada. pois trata-se. demorada. 2) não está em contato direto com as partes. dizer que as suas principais características são as seguintes: 1) toma conhecimento das causas em segundo lugar. as suas finalidades.

Pernambuco) e em . em segundo grau. exclusivamente ao Juiz Togado a competência para proferir a sentença caso não haja o acordo. Organização da Justiça Federal Há também na Justiça Federal duas instâncias. em substituição aos Juizados de Pequenas Causas. esses juizados julgam causas de menor complexidade (causas cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário mínimo etc. Outra peculiaridade dos Juizados Especiais é a desnecessidade de advogado nas causas cujo valor não exceda a vinte salários mínimos. não cabe recurso nem para o Tribunal de Alçada. criados pela Constituição de 1988 em substituição ao antigo Tribunal Federal de Recursos. Vale dizer que. O sucesso dessa idéia. Os Juizados Especiais são uma feliz idéia no sentido de dar celeridade às causas de menor complexidade. reunidos na sede do juizado. e nas grandes cidades do interior.1995. pois necessitarão de estrutura material e humana para isso (instalações. é aliviar a carga de recursos daqueles Tribunais. a segunda é exerci da pelos Tribunais Regionais Federais. Previstos para desafogar a justiça comum. sediados nos principais Estados (São Paulo. serventuários etc.2. cuja criação foi determinada pela Lei n° 9. Esses Tribunais. orientado pelos critérios da oralidade. Essa lei prevê a participação de conciliadores e Juízes leigos como auxiliares da justiça na fase da conciliação. A primeira instância federal existe de regra nas capitais dos Estados. nem para o Tribunal de Justiça. as causas de menor relevância. Da sentença cabe recurso para uma turma recursal composta por três juizes togados. deixando-os com mais tempo para apreciar os recursos de maior complexidade.dizer que julgam. [p.) e infrações penais de menor potencial ofensivo (contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a um ano). em exercício no primeiro grau de jurisdição. através de processo sumaríssimo.). evitando que elas se misturem e caiam na vala comum das demais causas. só se tomando obrigatória a sua participação se houver recursos. Temos ainda nos Estatutos os Juizados Especiais Cíveis e Criminais.099. O objetivo. 138] 62. das sentenças proferidas pelos juizados especiais.09. com as mesmas características da Justiça Estadual. atribuindo. simplicidade e celeridade. juizes. ficando as demais para o Tribunal de Justiça. depende da capacidade administrativa e econômica dos Estados para darem cumprimento à lei. Rio de Janeiro. apenas para a turma recursal do próprio juizado. todavia. de 26. como se vê. entretanto.

através do recurso especial.[p. os Tribunais de Justiça e de Alçada dos Estados e os Tribunais Regionais Federais e do Trabalho. o órgão máximo da Justiça. com o propósito de aliviar a sobrecarga do Supremo Tribunal Federal.TSE. integrado por 15 ministros. Qualquer decisão dos Tribunais Estaduais ou Fe. Estrutura da Justiça Especial A primeira instância da Justiça Militar só existe nas cidades onde há grupamento militar. com sede na capital da República. a quem compete zelar pela supremacia das leis federais e promover a uniformização da sua interpretação.TREs. em que houver violação de lei federal. criou o Superior Tribunal de Justiça. é constituída pelo Superior Tribunal Militar . com sede em Brasília. e a terceira instância é o Tribunal Superior Eleitoral. A segunda instância é constituída pelos Tribunais Regionais do Trabalho . geralmente nas capitais. e através . 62. É o mais elevado Tribunal do Poder Judiciário no Brasil. A segunda instância.STM. integrado por 27 ministros.Brasília. e é integrada pelas Auditorias do Exército. a segunda instância são os Tribunais Regionais Eleitorais . abaixo do qual se encontram todos os Tribunais Superiores. a cúpula do regime. julgam os recursos oriundos da primeira instância da respectiva região. a sua primeira instância é dividida em zonas distribuídas por todo o Território Nacional. como o próprio nome diz. o Tribunal Superior do Trabalho. sobrepõe-se a todo o aparelho judicial.4. notadamente aquelas onde há maior concentração de trabalhadores. Em hipóteses especiais. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal A Constituição de 1988. O Supremo Tribunal Federal. as causas envolvendo essa matéria são decididas pela Justiça Estadual. 62. tornando mais célere a justiça. Quanto à Justiça Eleitoral.TRTs. embora sendo um órgão federal. com sede em Brasília. Nas cidades onde não há justiça trabalhista. para onde vão os processos em hipóteses especiais. Trata-se de uma justiça cujas decisões são prolatadas por um colegiado. 139] derais. um na capital de cada Estado.3. e os seus membros são chamados de Ministros. A Justiça Trabalhista tem a sua primeira instância distribuída pelas principais cidades do Brasil. previstas na Constituição. Há nessa justiça uma terceira instância. da Aeronáutica e da Marinha. poderá ser reexaminada pelo STJ. Esse Tribunal tem sede em Brasília.

recorre abusivamente. Embora tenha plena consciência dos direitos dos aposentados. emperrada. feita sob o mais rigoroso sigilo pelos donos da verdade da época. Por sua vez. Na realidade. há excesso de recursos processuais e falta de recursos financeiros. nunca passou do papel. a prestação jurisdicional se toma inócua e causa graves prejuízos aos jurisdicionados. é forçoso reconhecer que não cabe ao Judiciário a culpa exclusiva. mutuários e contribuintes. como a criação de senadores biônicos e outras aberrações constitucionais. foi puramente teórica. Tem ainda por função atuar como moderador dos demais poderes. Isso evidencia que a mera modificação de alguns pontos da Constituição não basta para resolver a crise do Judiciário. estão desatualizadas. Aquela reforma. E. pode o Supremo reexaminar decisões de qualquer justiça (estadual. Em abril de 1977. cada nova reforma implantada no país leva outros tantos milhares de pessoas ao Judiciário. o Executivo e o Legislativo pregam a urgente necessidade de uma reforma do Judiciário. A Crise no Judiciário em Nosso País Há mais de trinta anos ouvimos as mesmas críticas ao Judiciário: a justiça é lenta. Em que medida cabe ao Judiciário a culpa pela morosidade da justiça? Até que ponto a propalada reforma resolverá o problema do Judiciário? Essa é a questão nodal. o fiel da balança. 140] No que diz respeito à lentidão da justiça. quase se eternizam. os processos se prolongam por anos e anos a fio. teve objetivos políticos. quando o Congresso foi fechado pela última vez. e em alguns pontos tomou a justiça pior. em todos os seus níveis. A cada novo e mirabolante plano econômico baixado pelo governo. seria conveniente lembrar que outras reformas do Judiciário já foram feitas sem qualquer resultado prático. é um mau pagador. O estado brasileiro. pensionistas. 62. Integrado por 11 ministros. ineficiente e cara. mesmo depois de condenada. obrigando os titulares desses direitos a buscá-los na justiça.do recurso extraordinário. Quanto ao segundo item.5. a Administração não os reconhece. federal ou especial). [p. com controle externo e outras inovações. além de grande criador de conflitos. declarando a inconstitucionalidade das leis sempre que violarem princípios consagrados na Carta Magna. milhares e milhares de ações são detonadas na Justiça. prevalecendo a sua decisão como palavra final e imutável. no que exerce uma função eminentemente política. os membros do Judiciário culpam o Executivo e o Legislativo: as leis processuais são mal elaboradas. burocrática. . o pretexto utilizado foi a reforma do Judiciário. demagógica. Em defesa. é o Supremo o guardião da Constituição Federal.

Prova disso são as filas intermináveis de aposentados e pensionistas do INSS pleiteando a revisão dos seus minguados benefícios nos Juizados Especiais Federais (o que poderia e deveria ser resolvido na esfera administrativa). terá ainda que aguardar por mais dez anos o integral cumprimento dessa decisão. milhões de ações em andamento na justiça com idêntica finalidade. Pior que tudo.5 bilhões de reais. Mas não para aí a contribuição do estado brasileiro à morosidade da justiça. A quem interessa a lentidão da justiça? [p. e o segundo 520 milhões. a execução do estado tem que ser feita por meio de precatórios. Em agosto de 2000. vítimas de acidentes etc. O calote dos precatórios é uma regra em quase todos os estados. o contribuinte que entre na Justiça para reclamar a devolução de um tributo que lhe foi cobrado indevidamente.) cerca de 4. Só que os precatórios também não são pagos. o Congresso Nacional aprovou a emenda constitucional nº 30 autorizando o parcelamento das dívidas judiciais da União. Com efeito. para que a justiça de primeira instância possa funcionar adequadamente. funcionais e estruturais. não cumpre as decisões judiciais. humanos e financeiros notoriamente deficientes. Vale dizer. Causas da Crise do Judiciário Brasileiro Diagnóstico baseado na prática e na observação permite-nos adiantar que três são as principais causas da crise do Judiciário: operacionais. Como já salientado. que nada mais são do que requisições de pagamento em dinheiro de débitos judiciais expedidas pelo Poder Judiciário ao Poder Executivo. Os precatórios expedidos até 10 de julho de cada ano deverão ser incluídos no orçamento do ano seguinte e pagos na ordem de apresentação. em 13 de setembro de 2000. servidores. 141] 63. Esse tempo de espera será fatalmente debitado à morosidade da justiça. . ele é também mau pagador. é necessário que em cada Comarca se criem tantas Varas ou Juízos quantos forem necessários para atender ao aumento do número de demandas decorrentes do desenvolvimento econômico. O primeiro devia aos credores judiciais (pensionistas. Como os bens públicos não podem ser penhorados para pagar a condenação. As causas operacionais estão relacionadas com a infra-estrutura necessária ao bom funcionamento da justiça . principalmente na primeira instância. centenas de milhares de recursos repetitivos que abarrotam o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal. depois de esperar dois ou três anos pela sentença que lhe concede a justa devolução. Mesmo depois de vencido em milhares de ações. São Paulo e Rio de Janeiro não pagavam os precatórios desde 1996. Estados e Municípios em até dez anos.recursos materiais.

prenda-se. o número de aprovados no concurso fica aquém das vagas em razão da deficiência do ensino jurídico. das relações dentro da sociedade. Em países como a Itália e a França. Diariamente um juiz despacha dezenas e até centenas de processos.político e social do lugar. oficie-se.) em número suficiente. o crescimento do movimento forense é vegetativo.000 habitantes. aumentar o número de juízes. O que acontecerá se não houver infra-estrutura para que todos os despachos do juiz sejam cumpridos com eficiência e rapidez? Nada. todavia. informatizar toda a justiça. em virtude da omissão de um oficial de justiça ou de excesso de serviço.intime-se. promotores. cite-se. Em cada Vara. um juiz para cerca de 30. na maioria dos Estados. aguardando o cumprimento da determinação judicial. adotar métodos modernos e eficientes de gerenciamento e administração. com graves prejuízos para as partes. secretarias. 142] Aqui não há propriamente um crescimento forense. modernizar equipamentos. no Brasil temos. a distância se tornará cada vez maior entre a justiça e os seus objetivos sociais. o que significa que havia mais de mil processos parados. só naquela vara. a solução para a maioria dos problemas que emperraram a máquina judiciária em primeiro e segundo graus nos estados e na esfera federal. de população estável e de economia já desenvolvida. se contarmos os cargos de juiz que estão vagos. em cada um determinando uma série de providências ou diligências a serem cumpridas . oficiais de justiça etc. É preciso investir em instalações de novos órgãos julgadores. Recordo-me de ter. sob pena de o serviço ficar acumulado e os processos paralisados. Enquanto na Alemanha tem-se um juiz para cerca de 4. O processo ficará parado por meses e anos a fio. em nosso entender. não é o que ocorre em nações como a nossa. é preciso ter instalações adequadas (cartório. salas de audiência. constatado encontrar-se em poder de um só oficial de justiça mais de mil mandados pendentes de cumprimento.000 habitantes. treinar e avaliar periodicamente os serventuários. tome-se por termo etc. [p. Pelo ângulo operacional temos como certo que a maior necessidade do Judiciário não é a propalada reforma. no sentido de que só acompanha a complexidade. mas sim gestão.) e gente para realizar o serviço da justiça (juiz. mas uma verdadeira explosão judiciária deflagrada por essas três condições que dão hoje a fisionomia de nosso País e. padronizar métodos e procedimentos. Isso. escrivães. em pleno desenvolvimento econômico e ingressando na sociedade de consumo. cada vez maior. certa feita. Aí está. serventuários. . por sua vez. de alto índice de crescimento demográfico. melhor aproveitar os recursos humanos e materiais disponíveis. defensores. enfim. E não se consegue preencher os cargos vagos porque. a menos que estejamos dispostos a aparelhar o Judiciário para enfrentar essa realidade. controlar a qualidade e a produtividade dos magistrados. gabinetes etc.

em 2003. No que diz respeito à produtividade. o que permitiu. e tiram a relevância da sentença ali prolatada.91 %). como mostram os números que seguem.721. em 2000 o número de processos aumentou para 57. No ano de 2003 o número de ações distribuídas (tombadas) subiu para 296.700. no primeiro e no segundo grau.415 ações e julgadas 340. em curso na mais distante comarca ou no tribunal.A Justiça do Estado do Rio de Janeiro há alguns anos vem seguindo esse caminho e já obteve resultados surpreendentes.501 (87. num tempo médio de 143 dias entre a autuação e o julgamento.19%). 143] rando há quatro ou mais anos distribuição. Não obstante o expressivo aumento de recursos a cada ano.389 (95. novo aumento . isto é. cíveis.66%).250 e foram julgados 65. como já registrado.715 (97.[p. no tempo médio de 203 dias. em 2002. Temos hoje praticamente quatro instâncias.25%). pode ser feito pela internet de qualquer parte do país. mas foram julgadas apenas 313.285 processos autuados no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no ano de 2003 (recursos e processos originários). .498 (100. Dos 83. os resultados são também surpreendentes.492.71 %). no tempo médio de 172 dias entre a autuação e a sentença. de sorte que o acompanhamento de todo e qualquer processo. No ano de 2002 entraram (tombados) 252. 100.914 e foram julgados 50.25%. foram recebidos 83. enquanto na justiça fluminense essa distribuição é em tempo real e não há processos represados.782 e foram julgadas 265. o Tribunal melhorou o seu desempenho.em 2002 foram ajuizadas 346. Em 1999 foram recebidos 51. Estes resultados são ainda mais expressivos quando se tem notícia de que nos Tribunais paulistas existem cerca de 500 mil processos espe.processos recebidos 74. Criou um Fundo Especial destinado a cobrir as despesas operacionais e de investimentos do Judiciário. instalar centenas de novas varas e juizados especiais por todo o Estado. Essa reforma . construir dezenas de novos foros e recuperar outros tantos.584.76%).498. cuja reforma é realmente imprescindível para viabilizar o funcionamento do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça. No primeiro grau os resultados da justiça fluminense são também satisfatórios.958 (105. de família etc.348 ações nos juizados especiais civis.163 (89.varas criminais. As causas funcionais dizem respeito ao deficiente sistema recursal brasileiro.285 processos e julgados 83. e destas foram julgadas 223. em 2003 o número de 419. foram julgados 83.424 processos e julgados 46. informatizar toda a justiça. o que toma o tempo dos processos nos tribunais muito superior ao tempo de andamento em primeiro grau. Na justiça comum . mediante administração séria e competente dos recursos assim obtidos. em 2001 o número de processos recebidos subiu para 67.551 e julgados 78.

desnecessárias.83%. 88. em 1993. o STF praticamente limitou-se a repetir decisões já proferidas.90%. em grande parte.38. como autorizado pela Lei Complementar n° 73/93.40%.41%. ainda.54%. propõe a edição de súmulas administrativas vinculantes. de outubro a dezembro. deve incluir a súmula vinculante para as decisões dos Tribunais Superiores e a argüição de relevância. ademais. em 1989. Há. hoje. Isso evitaria liminares. sentenças contraditórias entre juízes. enorme resistência à adoção da súmula vinculante ao argumento de que ela atentaria contra a liberdade de julgar do juiz. useiro e vezeiro em postergar o cumprimento de decisões judiciais. 71. se a causa real do congestionamento do aparelho judiciário reside . 50. para impedir que enxurrada de ações banais continuem abarrotando os Tribunais. opondo resistência estatal injustificada e arbitrária a pretensões legítimas deduzidas por cidadãos de boa-fé.49.15%. o Ministro Celso de Mello. Ora. aos quais ficaria reservado o julgamento de matérias de alta indagação jurídica e de grande interesse social. muitas vezes agindo como improbus litigator. na opinião do Ministro Carlos Mário Velloso. em 1994. em 1991. responsáveis. 82. repetição interminável de ações em tomo de matérias já julgadas e recursos protelatórios. Para por um paradeiro às procrastinações do Poder Público. todavia.processual. virtualmente inviabiliza o Supremo Tribunal Federal e . que. cumpre aplicar as disposições da Lei Complementar nº 73/93. sem prejuízo da adoção de outras soluções processuais.32% dos acórdãos proferidos pelo STF foram repetitivos. até o mês de março.na atuação processual compulsiva do Poder Público. “Devo observar. extemada quando Presidente do Supremo Tribunal Federal (O Globo 29. serviria de filtro para evitar que questões irrelevantes cheguem aos tribunais superiores.36.90%. portanto. sua Excelência assim colocou a questão. em 1990.88%. que. Em conferência proferida na abertura do Fórum Nacional de Debates do Poder Judiciário.08. isso não é racional e não ocorreria se as súmulas tivessem efeito vinculante. que: em 1988. [p. No ano de 1995. ainda na visão do ex-presidente do Supremo. pelo menos até o mês em que se limitou a pesquisa.2000). em 1992. o percentual de acórdãos repetitivos foi de 61. A pesquisa revela. em 1995. 68.como efetivamente ocorre . em junho de 1997. por sua vez. 144] A argüição de relevância. inteiramente aplicáveis à União Federal e às suas autarquias (inclusive ao INSS). ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. A súmula vinculante obrigaria a justiça de primeiro grau a aplicar a jurisprudência do tribunal superior sobre determinadas questões. Pesquisa realizada no final de 1995 revela dados inquietantes: no período de outubro de 1988 a março de 1995. pelo excesso de litigiosidade recursal.

obras irregulares e gastos . traçaria as políticas administrativa e financeira do Judiciário.com sentenças judiciais.1999). porque na medida em que o órgão controlador se desviasse de suas finalidades. a aplicação desse instrumento legal certamente refletir-se-á. desse modo. admite que o Judiciário tem deficiências. seria um centro de debates destinado a pensar e repensar continuamente o Judiciário. Ora. não. formularia alternativas administrativas. . órgão nacional de planejamento e controle do Judiciário. que pretensões legitimamente manifestadas pela parte privada sejam atendidas. em nada contribuirá para o aprimoramento do Judiciário. como se apregoa com tanta veemência. na ocasião criticou duramente o juiz e disse que suas sentenças reforçam a necessidade de controle externo do Judiciário (O Globo. O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh.2003). defende uma reforma ampla. em matéria de caráter administrativo.09. na solução dos problemas gerados pelo congestionamento do aparelho judiciário. O disfarce caiu quando o deputado João Paulo Cunha. visitou na prisão José Rainha. viajando num jatinho da Força Aérea Brasileira (FAB). Esse tipo de controle. nas questões objeto da jurisprudência iterativa dos tribunais uma vez editada a súmula administrativa vinculante . 13.o Superior Tribunal de Justiça. O Ministro Sepúlveda Pertence. ao próprio Estado Democrático de Direito. enfim. estaria a requerer a existência de órgão que lhe fosse superior. pois.” Entre as causas estruturais podemos apontar a falta de um Conselho Nacional de Administração da Justiça. “Isso é absolutamente inadmissível. ex-presidente do STF. 28. deplora iniciativas que pretendem misturar questões de administração . 145] Não estamos falando de um órgão de Controle Externo do Judiciário. controlaria o bom funcionamento da atividade judicial. e assim por diante.a União Federal e as suas autarquias não mais insistirão em teses jurídicas rejeitadas pelo STF ou pelo STJ.03. ad infinitum. porque o que se pretende com tal órgão. talvez a curto prazo. o que constitui um atentado ao princípio da autonomia dos poderes e. permitindo. [p. disfarçadamente. tributário ou previdenciário. assessorado por técnicos de várias áreas. Presidente da Câmara dos Deputados. por sentença do Juiz Teodoro Sampaio. mas investigar sentença. Sim. condenado por formação de quadrilha e invasão de propriedade. A criação de um órgão controlador do Poder Judiciário levaria. líder do Movimento dos Sem Terra (MST). é controlar as decisões judiciais.nepotismo. até mesmo na própria instância administrativa. de maneira positiva. Esse órgão. aproveitaria as experiências bem sucedidas de outros lugares. dotado de estrutura leve. que também visitou Rainha na prisão. ao menos enquanto se pretender que vivamos num Estado de Direito Democrático” (O Globo. além de condenável. por via de conseqüência. à criação de um outro órgão para controlar o controlador. desde logo. eficiente e com funcionamento permanente.

29 e 34). dos Tribunais. na medida em que sua debilidade e dependência não lhes permitem desempenhar eficazmente a função delimitadora que requer a consolidação do espaço democrático. freqüentemente de alto nível. e a busca de outros meios para se conseguir justiça. um dos maiores nomes do Direito Penal na América Latina. sobre os conflitos que comprometem direitos e sobre suas soluções e meios de preservá-las. criar-se um órgão que. acertos e desacertos. 22. quer dizer. Temos elaborado complexas teorias. Enquanto não forem feitas as reformas necessárias. Quando o que lhe é cometido não seja bem definido. Ed. feita pelas próprias mãos. mas existe uma notória disparidade entre este nível teórico e aquele que trata das instituições destinadas a efetivar essas soluções. pp. 21. provocando. faz algumas colocações que merecem ser transcritas no encerramento deste capítulo: “Qualquer instituição deve cumprir determinadas funções e sua estrutura otimizada dependerá da clara atribuição prévia dessas funções. 147] . em notável trabalho sobre o Poder Judiciário. a ele se sobreponha? De que natureza seria esse órgão? Ou será mais um poder da República? São pontos a refletir e que evidenciam. 146] A relação entre a estrutura institucional e as funções (manifestas e latentes) é indissolúvel: a estrutura indicará a sua capacidade de desempenho das funções manifestas.. as estruturas judiciárias latino-americanas são inadequadas para assumirem as demandas de uma democracia moderna. [p. aumenta o perigo para todo o sistema democrático” (ob. Os direitos. crise. a estrutura otimizada de uma instituição será sempre a que a capacite para melhor desempenho do que a ela será cometido. e o grau de incapacidade para elas mesmas estará assinalando o cumprimento de funções latentes alijadas daquelas. portanto. a volta à justiça privada. muitas vezes. a sua descaracterização institucional. Rev. ainda menos definidos serão seus modelos estruturais. senão a desnecessidade do órgão controlador.Como. as deficiências infraestruturais do Judiciário fatalmente continuarão acarretando o retardamento dos julgamentos. cit. se fundam no tripé integrados por sua consagração legislativa. Em síntese. [p. Na medida em que se amplia a distância entre a função latente ou real e as demandas sociais. sem ter prerrogativas do Judiciário. de qualquer natureza. o desprestígio e a perda de confiança no Judiciário por parte da coletividade. pela previsão dos meios para reclamá-los e pela estruturação do setor estatal que tome efetivas as reclamações. O insigne jurista Eugênio Raul Zaffaroni. a realização tardia dos objetivos da justiça ou até mesmo a sua ineficiência.

Acreditamos já ter ficado demonstrada a importância da função desempenhada pelo juiz: decidir as causas que são levadas à sua apreciação. e na próxima examinaremos as razões sociais das garantias constitucionais dos magistrados. Sistema da nomeação. Expressa ainda a relevância do tema o pensamento do Magistrado François Gorphe. “Com um juiz mau e injusto. Além de conhecedor do direito. há ainda duas questões importantes a serem abordadas. dar a palavra final nos conflitos de interesse. deve o juiz ser detentor de um caráter impoluto e de uma personalidade ajustável à função. **** Dentro do tema examinado no capítulo anterior . p. citado pelo Prof. Nesta parte trataremos dos sistemas de escolha dos magistrados. Julgar. é quase uma função divina. pois na magistratura. Aprimoramento do nosso sistema. Alcino Salazar: “A justiça vale o que valem os juízes. 1959.Capítulo XII SISTEMAS DE ESCOLHA DOS MAGISTRADOS Sistema eletivo. constante dos anais do Primo Congresso Internazionale [p. o problema do pessoal condiciona os demais. Evidentemente. até com um pouco de poesia. tomo I. 149] dei Magistrati. principalmente quando está em jogo a vida ou a liberdade de um ser humano. Sistema do concurso público.Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica -. “Mais vale um juiz bom e prudente do que uma boa lei”. tanto no aspecto técnico como no moral.” . diz o Código Geral da Suécia de 1734. mais que em outras instituições. porque ele a verga e a toma injusta a seu modo”. Perfil da magistratura brasileira. para o exercício de uma função pública assim tão relevante. é preciso alguém altamente qualificado. Milão. como tem sido dito. 65. O sistema utilizado no Brasil. fazendo valer o direito aplicável ao caso. uma lei boa de nada serve.

o que seria a função de julgar exerci da por alguém que não conheça o direito ou que não tenha os inerentes requisitos morais? Daí a importância sociológica da questão ora em exame. Surge então a questão: como escolher o magistrado? Qual o critério seletivo mais eficiente? Qualquer empresa de certo porte conhece a importância de se ter a pessoa certa no lugar certo e por isso gasta tempo e dinheiro na seleção e treinamento do seu pessoal. 1970. tal como os membros do Legislativo. 150] Nos Estados Unidos. o da nomeação e o do concurso público. 302). Pouco oneroso porque as despesas com uma campanha eleitoral correm normalmente por conta do candidato ou do seu partido. O sistema de eleição para a Magistratura está em pleno desuso no mundo inteiro. elogiável ou iníqua. p. recaindo a escolha sobre aqueles que mereceram a preferência popular. em busca de orientação sobre critérios de seleção e formação de magistrados. SISTEMA ELETIVO Dentre os vários sistemas existentes e adotados por diferentes países para a seleção dos seus magistrados. a independência e a dignidade da magistratura. há três que procuraremos destacar: o da eleição. Na verdade. b) nomeação pelo . a Justiça Federal não adota o sistema eleitoral para escolha de seus juízes. sobretudo da França e Portugal. a norma jurídica tomar-se-á boa ou má. não tanto pelo seu conteúdo específico. já não o fazem mais e têm-se aproximado dos estados da União Européia. 64. Lições de Direito Constitucional. Democrático porque é o próprio povo. no exercício do soberano direito do voto. que o adotavam. que escolhe os seus juízes.Em verdade. rápido e pouco oneroso para os cofres públicos. [p. E não são mais todos os 50 estados da Federação a adotarem o sistema de eleições diretas. lá existem quatro tipos de escolhas de juízes estaduais: a) nomeação pelo chefe do Executivo com prévia aprovação no Legislativo. Os países da antiga cortina de ferro. já que de uma boa seleção dependerão grandemente a eficiência. tal como os seus govemantes e legisladores. Costuma-se apresentar como sua principal vantagem o fato de ser democrático. Se até mesmo para o exercício das funções mais simples é indispensável ter certas qualificações profissionais e morais. porém antes e acima de tudo pela própria interpretação que o magistrado lhe imprimir (Rosah Russomano. sob pena de se instituir o absurdo. Pelo sistema eletivo os magistrados são escolhidos através de votação direta. Rápido porque em um mesmo dia podem ser eleitos todos os juízes de um estado ou mesmo do país. produtiva ou prejudicial.

os melhores nem sempre estariam dispostos a enfrentar os percalços de uma campanha eleitoral. 203). estará sujeito a todo tipo de pressões do seu eleitorado ou em nome dele. p. Como bem argumenta Emílio Rabosa: “Nos postos de caráter político. podendo ser reconduzidos ou reeleitos para o mesmo posto. É preciso lembrar que os juízes estaduais americanos não têm carreira: apontados ou eleitos para uma county (comarca). e com isto desagrada muitas vezes os ricos e poderosos.” O comprometimento [p. SISTEMA DA NOMEAÇÃO Em alguns países os magistrados são escolhidos mediante livre nomeação do chefe do Executivo. Deve dar ganho de causa a quem tiver direito. Não há promoções ou remoções. diz o seguinte: “No século XIX e no começo do XX os partidos americanos tomaram freqüentemente a forma de máquinas manipuladas por políticos desonestos que tratavam de assegurar a impunidade mediante a simultânea eleição do juiz. mas no cargo de juiz. referindo-se aos juízes eleitos. Isso no Judiciário seria o caos. Mas se o juiz necessitar de votos para se eleger ou reeleger-se. acreditamos que a eleição dos magistrados apresentaria graves inconvenientes. Além disso. d) eleição popular. tomando-se impopular. Com efeito.chefe do Executivo entre nomes constantes de lista formada por comissão independente de alto nível. ou encontrariam apoio particular à sua candidatura. O juiz não pode procurar agradar a ninguém com suas decisões. em razão das graves distorções que ocorrem na execução de uma eleição direta. perdendo a imparcialidade e a segurança necessárias ao julgador. 151] econômico dos parlamentares para financiar suas onerosas campanhas eleitorais. sempre que tiver que decidir questões relevantes e de repercussão social. 65. descomprometimento de toda a sorte. Exige imparcialidade. do chefe de polícia e dos administradores locais” (Institutiones Politiques. c) eleição indireta pelo Legislativo. Paris. é um vício degradante. Em termos de Brasil. Duverger. a lealdade ao partido é uma virtude. conforme já assinalado quando tratamos da escolha dos membros do Legislativo. independência. ou teriam recursos para custeá-la. 1980. Deve-se ainda levar em conta que a função de julgar é muito diferente da função política. o que a toma totalmente desaconselhável. é constantemente divulgado pela imprensa. nem sempre se elegem os melhores. ali ficam até o final de seu mandato (que é variável). Max Weber também recorda o baixíssimo nível técnico desses juízes e o maior prestígio dos juízes federais. sem falar nos compromissos que terá que assumir com pessoas e grupos para conseguir eleger-se. Aponta-se como vantagem do sistema de nomeação o fato de ser rápido e . que são os que se conferem por eleições.

pouco oneroso, visto que em um só listão podem ser nomeados tantos juízes quantos forem necessários. Há, todavia, tantos inconvenientes nessa forma de seleção que, se adotada em nosso país, geraria o caos. De todos é sabido que, quando vigora o critério da livre escolha pelo Executivo, só conseguem ser nomeados aqueles que possuem pistolão, amizades, conhecimentos etc. Disso resulta ser esse sistema antidemocrático, posto que não dá idênticas oportunidades a todos, beneficiando sempre os mesmos afilhados e apadrinhados. Por essas mesmas razões nunca se consegue escolher os melhores, já que os epistolados são sempre aqueles que menos qualidades possuem, procurando vencer na vida sem fazer força. E ainda que assim não fosse, quer dizer, mesmo que o chefe do Executivo estivesse empenhado sinceramente em escolher os melhores, dificilmente conseguiria porque, não sabendo quem são os melhores, teria que se valer da indicação dos seus assessores. E é evidente que, por mais fraco, incapaz e desqualificado que seja o pretendente, quem o indica sempre o apresenta como o melhor elemento do mundo - o mais honesto, inteligente, capaz, induzindo a erro o nomeante. A tudo isso se sobrepõe o fato de tirar o sistema da nomeação, a independência do juiz com relação àquele que o nomeou ou influenciou para a nomeação. Deixa o magistrado numa situação de subserviência ou pelo menos no dever de reconhecimento, prejudicial à função de julgar. A sua nomeação custar-lhe-á bastante caro e ser-lhe-á cobrada com juros e correção monetária, devidamente lembrada sempre que necessário.

66. SISTEMA DO CONCURSO PÚBLICO

O ingresso na magistratura por este sistema se faz através de concurso público de provas e títulos, preenchendo-se as vagas existentes com aqueles que melhor forem classificados. [p. 152] Tem como desvantagem o fato de ser demorado e bastante oneroso: exige uma comissão de alto nível para realizar o concurso e muito tempo no processo de inscrição, exame da documentação de cada candidato, aplicação e correção das provas escritas e realização das provas orais. Entretanto, oferece vantagens que nenhum outro sistema apresenta, dentre os quais podemos destacar:

1) É um sistema democrático, pois oferece iguais oportunidades a todos. Desde que o candidato preencha os requisitos estabelecidos no regulamento do

concurso, poderá inscrever-se e concorrer a uma vaga, seja ou não conhecido, de família ilustre ou humilde. 2) Enseja a escolha dos melhores, tanto do ponto de vista técnico e intelectual, como do moral. Ao fazer a inscrição, deverá o candidato juntar documentos que provem o preenchimento dos requisitos estabelecidos no regulamento do concurso.

Além do mais, são solicitadas informações sobre o concorrente a pessoas conhecidas no mundo jurídico e aos próprios órgãos oficiais, só sendo deferida a inscrição depois desse exame preliminar. As provas escritas, elaboradas por examinadores de alto nível, especialistas em cada matéria, são corrigi das sem identificação, de modo a evitar qualquer protecionismo. Somente concorrem às provas orais aqueles que não forem eliminados nas escritas; os aprovados nas provas escritas e orais terão computados então os pontos obtidos nos títulos, sendo nomeados os melhores classificados no cômputo geral dos pontos obtidos nas provas e títulos. Como se vê, com esse longo e rigoroso processo seletivo, é mais provável que se consiga escolher os melhores. Em terceiro lugar, destacamos que o sistema do concurso público apresenta ainda a vantagem de assegurar ao magistrado a necessária independência para julgar. Não tendo a sua nomeação dependido do prestígio ou influência de quem quer que seja, mas sim da sua própria capacidade, inteligência e esforço, não deve favores a ninguém, podendo decidir os conflitos de interesse que lhe vierem às mãos com total imparcialidade. Ninguém tem nada a lhe cobrar, mas muito a admirar, respeitar e confiar, em face da cultura que revelou possuir ao ser aprovado em rigoroso concurso seletivo. O concurso público é o sistema utilizado nos principais países da Europa, ora como meio para ingressar na escola da magistratura, ora para ingresso direto na carreira. [p. 153] Em Portugal, a seleção dos magistrados é feita por concurso público no excelente Centro de Estudos Judiciários, onde os aprovados são preparados por 23 meses, antes de assumirem a função judicante. Na França, os candidatos a juiz ingressam por concurso na École Nationale de Ia Magistrature, e ali recebem formação inicial de dois anos e sete meses. Na Itália, os pretendentes à Magistratura fazem provas escritas e orais disputadíssimas e, depois, seguem um curso de tirocínio de no mínimo seis meses, em Frascatti.

Na Espanha, com a sua pioneira Escuela Judicial, os aspirantes a juiz têm de se submeter a um concurso público de dissertação oral, e, em seguida, fazem um curso de dois anos em Barcelona. N a Alemanha, também não há eleição para juiz, nem concurso público. As nomeações levam em conta os graus obtidos nos exames finais das faculdades de Direito. Na Austrália, os juízes são escolhidos e nomeados pelo governador geral (representante da rainha), assessorado na escolha pelo Conselho Federal, entre nomes de pessoas altamente qualificadas. Deixando a Europa e indo para o Oriente, veremos que no Japão os futuros magistrados têm de vencer um vestibular rigorosíssimo no Instituto Jurídico de Treinamento, onde estudam por dois anos, após os quais, se aprovados, serão nomeados. Na verdade, o que se vê pelo mundo afora é uma grande preocupação com a seleção dos juízes e, tendo em vista a peculiaridade da função judicante, não se recomenda o processo eleitoral, mas sim o concurso público, que é tão democrático quanto as eleições.

67. O SISTEMA UTILIZADO NO BRASIL

O ingresso na magistratura de primeira instância, por força de dispositivo constitucional, no Brasil faz-se através de concurso público de provas e títulos, o que revela termos adotado o melhor sistema seletivo. A escolha dos magistrados integrantes dos tribunais superiores, entretanto, isto é, os Ministros do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal Militar, do Tribunal Superior do Trabalho e do Superior Tribunal de Justiça, são nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pelo Senado Federal. Temos assim um sistema misto, integrado por concurso público de provas e títulos para a seleção dos magistrados de primeira instância, e [p. 154] por nomeação pelo Chefe do Executivo para os ministros dos tribunais superiores. Nos Tribunais de Justiça dos Estados, bem como nos de Alçada, um quinto dos membros são também escolhidos por nomeação do Chefe do Executivo Estadual (Governador), mediante lista tríplice organizada pelo respectivo Tribunal de Justiça; metade das vagas decorrentes do quinto são para candidatos oriundos da OAB, isto é, advogados militantes, e a outra metade para membros do Ministério Público, cujos órgãos superiores encaminham ao Tribunal de Justiça uma lista sêxtupla para a elaboração da lista tríplice. O objetivo do quinto é enriquecer os Tribunais de Justiça e de Alçada com elementos de destacada cultura jurídica e elevada envergadura moral, militantes dos quadros

do Ministério Público ou da OAB, trazendo para os referidos tribunais uma mentalidade mais eclética, o que lamentavelmente nem sempre ocorre em face das influências políticas que se verificam no momento do preenchimento das vagas que ocorrem.

68. APRIMORAMENTO DO NOSSO SISTEMA

Embora o sistema do concurso público seja o mais recomendável, conforme já exposto, comporta alguns aprimoramentos para permitir a formação de um quadro de magistrados mais eficiente. O juiz, na pureza desse sistema, tão logo aprovado no concurso e nomeado, assume imediatamente as suas funções e começa a despachar e decidir em centenas de processos, sem nunca dantes ter feito isso, encontrando uma série de dificuldades, perplexidades, dúvidas etc. Todos que já passaram por essa experiência sabem do que falamos. A experiência é ainda mais dolorosa quando o juiz, começando a sua carreira numa comarca lá do interior, fica praticamente sozinho, isolado, sem ter a quem recorrer para uma troca de idéias. Isso evidencia que, para o ingresso na magistratura, não é bastante o concurso de provas e títulos, que apenas apanha a formação cultural do candidato; mas não pode penetrar mais e aferir-lhe o pendor, a vocação, o interesse, a capacidade específica para judicar. A função do juiz, por outro lado, envolve uma série de outras atividades, principalmente no interior, onde é a principal autoridade da comarca, para as quais não foi preparado. O juiz mantém relacionamento com autoridades políticas (prefeito, vereadores), policiais (delegado) e com povo em geral, necessitando em todos esses contatos ser necessariamente hábil para, [p. 155] sem enfraquecer sua autoridade e sem se deixar envolver, portar-se com gentileza, educação, polidez. Nada disso ele aprende em concurso ou nos livros de direito, razão pela qual entendemos que, após o concurso e a nomeação, deveria existir um estágio profissional de pelo menos quatro meses. O novo juiz, além de assistir a palestras sobre matérias ou questões relacionadas com os mais variados aspectos do exercício de sua profissão, começaria a exercer a judicatura como auxiliar, ao lado de outro juiz mais experiente na comarca da capital. Nos meses de estágio o juiz passaria pelas principais varas (cível, criminal, família, juizados especiais), de modo a adquirir uma certa experiência em todas as áreas do direito, para depois enfrentar a atividade sozinho em sua comarca. Melhor do que isso, em nosso entender, seria uma escola judicial instituciona1izada de âmbito nacional que estabeleceria diretrizes, programas, políticas de

ensino e orientações a serem executadas por todas as escolas de magistratura estaduais e federais, com o que se conseguiria uma certa uniformidade na formação inicial dos magistrados do país. Essa escola nacional deveria também programar cursos de aperfeiçoamento para os magistrados mais antigos, como condição para a promoção por merecimento, cursos esses que poderiam ser ministrados nas sedes das escolas locais, de modo a facilitar a freqüência e reduzir os seus custos. A crescente expansão da atividade humana, a par de sua constante sofisticação, muito exige do juiz, a cuja decisão nenhuma parcela do complexo social é subtraída. É imperioso, portanto, que o juiz se especialize, se adestre e se prepare. O aperfeiçoamento ressalta a posição da ciência jurídica moderna pela ampliação dos poderes jurisdicionais, pois a insaciável diversificação do fazer humano e seus requintes tomam inaprisionável por regras fixas e rígidas a atuação jurisdiciona1 necessária à devida composição do litígio. Se o Judiciário se toma essencial à convivência social, se o seu papel será cada vez mais importante neste século XXI, somente com juízes à altura dessa missão teremos o Judiciário que a sociedade espera e exige. Destarte, sobretudo quando os novos juízes são cada vez mais jovens no mundo do civil law, quando os sistemas jurídicos passam por profundas mudanças legis1ativas e uma nova mentalidade se reclama, toma-se imprescindível investir na seleção e no aprimoramento dos magistrados, criando-se boas escolas nos moldes das admiráveis e válidas experiências que o mundo civilizado vem presenciando. O Congresso que reuniu magistrados em Roma, em 1958, concluiu pela recomendação de que se realizem promoções para aperfeiçoar o tirocí- [p. 156] nio judiciário, incentivando a pesquisa e o estudo, selecionando aptidões, estimulando a especialização técnica constantemente. Necessário se faz assinalar que no Brasil, após a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 135, de 14.03.1979), timidamente começamos a dar os primeiros passos nesse sentido. Algumas das disposições (arts. 78, § 1°; 80, § 1°, 11; e 87, § 1°) estabelecem que a lei poderá exigir dos candidatos, para a inscrição no concurso de ingresso à carreira, título de habilitação em curso oficial de preparação para a magistratura, e condicionar a promoção por merecimento à freqüência, com aprovação, em curso ministrado por escola oficial de aperfeiçoamento de magistrados. Timidamente, como se vê, pois a disposição legal não passou de uma simples sugestão para ser aplicada se, quando e onde for possível, já que nenhum recurso material ou dotação orçamentária foi criado para tal fim. A Constituição de 88 contém disposição idêntica no seu art. 93, n, c.

Graças ao esforço pertinaz da Associação Brasileira dos Magistrados, criou-se a Escola Superior da Magistratura, que já tem prestado relevantes serviços à magistratura brasileira com a realização de vários cursos de aprimoramento jurídico, assistidos por juízes de quase todos os estados. Esperamos que a feliz iniciativa continue a receber a simpatia e o apoio de todas as autoridades e instituições relacionadas com o Judiciário, até transformar-se na Escola Nacional da Magistratura Brasileira, com cursos de preparação e de aperfeiçoamento de magistrados, funcionando de forma estável e permanente. Tudo por uma magistratura melhor e mais independente. Registre-se, por derradeiro, que muito se avançou neste ponto no âmbito dos Estados. A maioria já criou a sua Escola da Magistratura, em alguns Estados com organização modelar e folha de serviços relevantes. A Escola da Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ) mantém um curso de preparação para o concurso de ingresso na magistratura de alta qualidade teórica e prática, ministrado em cinco semestres (dois anos e meio), durante os quais o aluno pode também estagiar nos diversos órgão julgadores (vara cível, criminal, família, juizados especiais, câmaras do Tribunal de Justiça), fazendo minutas de despachos, decisões, sentenças e participando de audiências, sempre orientado por um magistrado. Aos novos juízes, tão logo nomeados, a EMERJ ministra um curso de iniciação de quatro meses, com palestras e debates pela manhã, ministrados por magistrados e professores experientes, sobre os mais variados aspectos teóricos e práticos da função judicante; à tarde exercem a judicatura como juízes auxiliares em varas cíveis, criminais, de família e juizados especiais, um mês em cada lugar, sempre orientados pelos juízes titulares das respectivas varas. Desse [p. 157] modo os novos juízes conseguem assimilar boa experiência antes de irem exercer a judicatura nas comarcas do interior. Prossegue a atuação da EMERJ no estágio de vitaliciamento, durante os vinte meses seguintes. Além de acompanhados e orientados por um Conselho de Vitaliciamento, os juízes vitaliciandos assistem na EMERJ pelo menos um seminário por mês, de oito horas, sobre temas variados, jurídicos ou não, escolhidos por uma comissão de magistrados. Por último, a EMERJ ministra cursos de aperfeiçoamento aos magistrados em atendimento a uma resolução do Órgão Especial do Tribunal de Justiça que os instituiu como requisito à promoção ou remoção por merecimento. Dessa forma a EMERJ vem efetivamente participando da formação e aprimoramento dos magistrados fluminenses, desde a preparação para o concurso até chegarem a desembargador.

68.1. Perfil da Magistratura Brasileira

Pesquisa realizada pela Associação do Magistrados Brasileiros (AMB/IUPERJ), intitulada “O Magistrado e o Poder Judiciário - auto-análise para melhor servir” - revela que o sistema de concurso público democratiza a magistratura, permitindo que todos tenham as mesmas oportunidades e a escolha dos melhores. Eis os resultados: 56,4% dos juízes brasileiros (mais da metade) são oriundos de famílias simples, cujos pais só tinham o primeiro grau completo; 63,4% não têm nem mesmo promotores ou defensores na família; 52,2% são filhos de servidores públicos e 12,8% de funcionários de empresas, sendo que 25,8% destes correspondem a funções de baixa remuneração. A participação da mulher vem crescendo. Em 1985 apenas 16,8% dos aprovados nos concursos eram mulheres, dez anos depois o percentual subiu para 28,7%. Atualmente, o número de mulheres já é igual e até superior ao dos homens, o que evidencia que o concurso afasta qualquer tendência discriminatória, oferecendo à mulher reais condições de igualdade com o homem. O Centro de Estudo e Pesquisa da EMERJ levantou o perfil da Magistrada Fluminense, por meio de pesquisa intitulada “Quem Somos”, recentemente concluída. Os resultados discrepam em parte daqueles que foram obtidos na pesquisa AMB/IUPERJ. As questões referentes à origem social demonstram que os magistrados fluminenses, em sua maioria (53%), são filhos de pais com formação de nível superior. Quantos às profissões pater- [p. 158] nas, preponderam os da área jurídica, tais como advogados, membros do Ministério Público, Defensoria, Procuradoria e Magistratura (18,2%). Verificou-se também significativa presença de outros familiares dos magistrados nas áreas jurídicas, principalmente advogados (49,9%). Conclui-se que os magistrados fluminenses são predominantemente originários de famílias de padrão cultural e econômico elevado, em razão do Estado do Rio de Janeiro ser economicamente desenvolvido e, conseqüentemente, com maiores possibilidades de educação e trabalho. Entretanto, não se pode desprezar o número de magistrados oriundos de famílias de pouca escolaridade (23,6%) e atividades profissionais exercidas em setores considerados de baixa renda (17,4%). A participação da mulher na magistratura fluminense é mais expressiva que no âmbito nacional; entre os juízes 46,1%, entre os desembargadores 14,3%, o que evidencia uma crescente feminilização, fato relevante do ponto de vista sócio-cultural e da análise da mudança social.

Uma das mais constantes críticas à magistratura é a juvenilização dos seus quadros. Alega-se que os juízes estão ingressando cada vez mais jovens na magistratura, sem a maturidade e experiência indispensáveis para o exercício do cargo. Há até projeto no sentido de exigir um tempo mínimo de cinco ou mais anos de formado em Direito para se permitir a participação em concurso para juiz. Não se nega que o juiz tem que ter maturidade e experiência para exercer a magistratura; o que se questiona, entretanto, é que essas qualidades sejam necessariamente atributos da idade ou do tempo de formado. Há velhos imaturos e formados há muitos anos sem experiência alguma. A questão da maturidade e da experiência pode ser superada com vantagem pelas Escolas da Magistratura por meio dos cursos de preparação e estágio de vitaliciamento, cursos de aperfeiçoamento e outras providências. Por outro lado, as pesquisas revelam que a tal juvenilização não é assim tão grande. Apenas 11,6% dos magistrados brasileiros têm até 30 anos de idade; 35,5% estão na faixa de 31 a 40 anos; 31,5% entre 41 e 50 anos; 17,1% entre 51 e 60 anos; 4,7% entre 61 e 70 anos (pesquisa AMB/ IUPERJ). No Estado do Rio de Janeiro os números não discrepam neste ponto. Até 30 anos, 13,4%; de 31 a 40 anos, 32,8%; de 41 a 50 anos, 18,8%; de 51 a 60 anos, 20,2%; de 61 a 70anos, 13,5%. Nos últimos 10 anos a média de idade dos juízes fluminenses que ingressaram na carreira foi de 31,6 anos. O ingresso de jovens na magistratura tem como vantagem permitir ao juiz dedicar quarenta ou mais anos de efetivo trabalho à Justiça. A pesquisa realizada pela EMERJ revelou que a magistratura é a classe de servidores [p. 159] públicos que trabalha mais tempo e se aposenta mais tarde. A idade média de aposentadoria dos juízes é de 60 anos (entre os desembargadores 69 anos). O tempo médio de serviço dos juízes na época da aposentadoria é 41 anos (entre os desembargadores 48 anos). Mais de 15% dos juízes têm tempo para se aposentar, mas continuam trabalhando normalmente; entre os desembargadores 89% têm tempo para se aposentar, sendo que dos desembargadores que integram o Órgão Especial (os vinte e cinco mais antigos) 100% já poderiam estar aposentados. Os dados acima sublinham com veemência a integral e longa dedicação da magistratura ao serviço ativo, e que não tem como projeto profissional a aposentadoria. Levando-se ainda em conta o número de juízes que têm curso de pós-graduação (52,7%), sendo 21,0% de mestrado, 5,7% de doutorado e 18,4% de especialização, conclui-se que a magistrada fluminense é também detentora de elevado padrão jurídico. Em pesquisa divulgada pelo O Globo em 19.08.2000, o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil conservador. Em outra pesquisa (O Globo de 17.08.2003),

“inclina-se num ou noutro sentido de acordo com o seu temperamento. [p. a justiça social deve prevalecer numa sentença. culturais. para o sociólogo esse mesmo juiz é conservador porque não adota integralmente os seus pontos de vista sobre a questão social. 160] Veja-se que na pesquisa do IPEA as áreas em que os juízes defendem prioritariamente a questão social em detrimento dos contratos são.6%. 42. 54. ideológicas. 46. a razoabilidade. meio ambiente. os valores consagrados pela nova ordem jurídica brasileira: a eticidade. não pode estar avançando a seu tempo. seguida pelo Código do Consumidor e agora pelo novo Código Civil. a partir da Constituição de 1988. consciente ou inconscientemente. a1ertava Carlos Maximi1iano. Cláusulas contratuais abusivas não podem prevalecer. Esse perfil foi considerado pela pesquisa como prejudicial à economia porque deixa os investidores temerosos. é prevalecer o equilíbrio. a ponderação. É por isso que se diz não existir norma jurídica.7% consideram que. realmente. da hereditariedade e da educação.1%. nem pode fazer uma revolução social com a caneta.6%. Rio de Janeiro. previdência. Mas o juiz. a socialidade e a efetividade. não mais admite o uso abusivo do direito de forma contrária aos seus fins sociais e econômicos. Para o investidor e os agentes da área econômica em geral. o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil liberal. O nosso Direito. coordenada pelo Instituto de Estudos Econômicos. entretanto. entre os magistrados de São Paulo. Quem tem razão? Ninguém. o juiz brasileiro é liberal porque contraria os seus interesses. mas esse próprio pensamento é socializado. O indivíduo. influenciam. por mais preocupado que esteja com a justiça social. na formação da decisão judicial. é condicionado pelas relações sociais e exprime uma comunidade de propósitos”. O certo. sociais. mais do que respeitar contratos. A mesma norma recebe tratamento diferenciado de juízes e tribunais porque a decisão judicial . à boa-fé e à equidade.agora realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Extremamente complexo é o processo de formação de uma decisão judicial. uma vez que 78% dos magistrados preferem basear suas decisões em questões ligadas à justiça social do que no respeito aos contratos. 83. Entre os juízes com menos de 40 anos. as mais relevantes e necessárias: trabalhistas. inclusive a opinião pública. o índice é de 70%. produto do meio. Está correta a magistratura quando privilegia a justiça social porque essa é a ideologia. tudo dependendo do ângulo pelo qual os resultados são analisados. Circunstâncias pessoais. Não é apenas uma decorrência do conhecimento jurídico do magistrado. Crê exprimir o que pensa. senão norma jurídica interpretada. Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Sociais e Políticos de São Paulo (IDESC).

por inteiro. o perfil do magistrado não deve ser avançado. mas sim suficientemente flexível para ajustar a lei às condições concretas da sociedade. portanto. Em conclusão. crenças da pessoa humana investida do poder jurisdicional.é. sentimentos. razoabi1idade. Por isso utiliza. “ela não está. eqüidade. força maior. vu1nerabi1idade. porque justiça e liberdade estarão limitadas ao juízo de valor de um juiz ou tribunal. terá que ser um canal de comunicação entre a sociedade e o mundo jurídico. no domínio da ciência ou da técnica. Ao mesmo tempo em que procura interpretar a consciência social. embora fundado na lei. portanto. Deve o juiz obediência à lei mesmo que ela seja injusta? Já ficou destacado que o nosso sistema jurídico. A decisão judicial é. Se o juiz abandona esse cenário. uma decisão humana. na sua capacidade de julgar com esses elementos que participam da sua natureza racional. Neste ponto reportamo-nos ao que ficou dito no item 35. exatamente. como vimos. criando a justa regra jurídica para cada caso. mas também voz da sociedade. uma vez que o próprio legislador reconhece a impossibilidade de tudo ser nela previsto. deve dar eficaz aplicação à lei. “Não pode a justiça dar respostas mortas a perguntas vivas. O homem existe porque ele é razão e emoções. E sendo uma decisão humana.983/91). 161] Nessa tarefa. livre e social” (“A Decisão Judicial”. Isso permite ao juiz exercer o seu poder criador do Direito sem se afastar das diretrizes estabe1ecidas pela ordem jurídica. crenças. uma decisão que está subordinada aos sentimentos. Se o juiz. como qualquer ser humano. até que ponto está subju1gado ao ordenamento jurídico em função de suas concepções pessoais? Essa é a grande questão. está sob a influência condicionante de uma série de fatores subjetivos e objetivos que não podem ser evitados. a sociedade não terá mais nem justiça nem liberdade. órgão do Estado. essencialmente. . Deve consultar o seu sentimento ético com o cuidado de não se afastar demasiadamente dos sentimentos médios da sociedade em geral e da comunidade jurídica em particular. como boa-fé. REsp. 1999). E a independência do juiz está. encastelando-se no formalismo. RDR nº 15. emoções.3 in fine. [p. ignorando a realidade social subjacente. pondera o Ministro Carlos Alberto Direito. pondo-se a emitir juízos totalmente desvinculados da ordem jurídica que lhe incumbe preservar. não é inflexível. n° 4. o juiz não é livre para fazer prevalecer o seu sentimento particular de justiça a ponto de estrapolar a moldura da lei ou de modificar os seus parâmetros. conceitos jurídicos indeterminados e cláusulas gerais. para deixar de dizer o direito” (Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. É nesse sentido que se diz ser o juiz um coautor com o legislador. dignidade da pessoa humana.-dez. set. nem conservador.

na semana passada. que publicaram certos detalhes curiosos sobre os processos a cargo de Ceccaldi em Marselha. resolveu que não iria. o juiz Etienne Ceccaldi verificou. quando um certo Roger Bodourian. Ceccaldi deveria assumir as funções de procurador público em Hazebrouck. na verdade. seus cheques sem fundo assolavam regularmente a praça. de 16 de junho de 1976. e um de seus sócios seria preso mais tarde por tráfico de dólares falsos. como constataria mais tarde uma comissão de . corrupção e pressões políticas que. O ensino jurídico. Tão curiosos. [p. falsificar condições de concorrências públicas e outras falcatruas do gênero. que acabava de ser transferido. sob o título “O caso Ceccaldi”. vila de 18. teria sido das grandes companhias petrolíferas. Irredutibilidade de vencimentos. consternado. A revista Veja. Todas essas acusações. o caso acabou chegando aos jornais. onde se encontrava como juiz substituto. A inamovibilidade.000 habitantes perdida nas brumas da Normandia. O Ministério Público.e envolvendo petróleo.300 membros do Sindicato da Magistratura cruzaram os braços. como o Ministério da Justiça insistisse. A transferência de Ceccaldi. foi à falência em Marselha. simplesmente. um domingo. no extremo oposto da França. 1. Abandonando a ensolarada cidade mediterrânea de Marselha.Capítulo XIII RAZÕES SOCIAIS DAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DOS MAGISTRADOS A vitaliciedade: objetivo. começou em 1971. O juiz. de fato . a Defensoria Pública e o advogado. E. publicou a seguinte reportagem: Ao folhear o Diário Oficial francês do último dia 9 de maio. em sinal de solidariedade a Ceccaldi. Bodourian não era nenhum paradigma de honestidade. 163] Mas se Bodourian foi à falência. pequeno atacadista de óleo diesel para aquecimento domiciliar. montar manobras de dumping. segundo ele. na primeira grande greve de juízes da história da França. cujos dirigentes se reuniam periodicamente para elevar preços. a culpa.

parecia inclinado a tentar uma solução de compromisso.várias delas misteriosamente fotocopiadas e reproduzidas nos jornais das últimas semanas . Em qualquer hipótese. E o caso foi justamente parar nas mãos de Ceccaldi. o Ministro da Justiça. foi obrigado a entregar a seus superiores o processo . E em 1974. porém. O problema é que.dos juízes. por exemplo. Pior ainda. O caso Ceccaldi coloca em destaque vários aspectos da função de julgar que merecem especial atenção. ele já se notabilizara naquela época como competente.inclusive o delegado mais conhecido da cidade. condenou um influente político governista por fraude fiscal.inquérito do Ministério das Finanças. Em Marselha. chamado a Paris para uma reunião de doze horas no Ministério da Justiça. Ceccaldi seria efetivamente removido de Marselha. assegurando-se o . graças à intervenção do prefeito socialista de Marselha. Nessas condições. voltaram às mãos do mesmo Ceccaldi.que logo depois. restaria apenas o recurso definitivo de ameaçá-lo com alguma remota possessão francesa de além-mar. as forças que pressionaram por seu afastamento terão triunfado. Transferido para Lyon. Para começar. além de suas reclamações inúteis junto ao Ministério das Finanças. Se não aceitasse. em que estas se comprometiam a mudar seus métodos para salvaguarda da livre concorrência. 164] que bem entendesse em qualquer lugar da França. os autos foram miraculosamente encontrados quatro meses depois. com 39 anos. independentemente de quem esteja nos pólos da relação jurídica processual. eram absolutamente verídicas. Ceccaldi não tardou a convocar para depor 43 dirigentes das maiores empresas petrolíferas internacionais acusadas de abuso de poder econômico. Ceccaldi ignorou as inúmeras sugestões diretas e indiretas de seus superiores hierárquicos . mas poderia escolher a promoção [p. Logo no seu primeiro posto. A justiça deve ser distribuída de forma imparcial. Bodourian tinha iniciado também um processo na Justiça marselhesa. com o caso Bodourian. assinou um protocolo com as companhias petrolíferas. apenas em 1973 o presidente Valery Giscard d'Estaing. se extraviou. examinou com tanta diligência um processo de prostituição. porém. Para desgraça do Ministério. Jean Lecanuet. obviamente. mas impermeável a certas sutilezas da vida política. com quatro filhos. continuando seu trabalho. sua atividade não seria mais tranqüila. Ao mesmo tempo. que acabou mandando prender dezenas de policiais .para que esquecesse numa gaveta qualquer o processo contra as companhias petrolíferas. Mas ficaram por isso mesmo. Gaston Deferre. inclusive Paris. Obrigado na semana passada a aceitar a inédita humilhação de uma greve inteiramente ilegal. nada mais natural que um dia se visse transferido de Marselha para um outro lugar. então Ministro das Finanças. Casado.

mesmo de longe e veladamente. a justiça não passará de uma farsa e toda a ordem jurídica ficará comprometida. Nenhuma autoridade ou potentado poderá ter meios de intimidá-lo ou de nortear. a fortalecer a independência funcional do Poder Judiciário. muito embora tenham elas que prevalecer sobre a decisão de qualquer outra autoridade. Acontece. de um lado da demanda está alguém influente. A VITALICIEDADE O juiz. Evidente que. Por outro lado. Visam. não são para favorecer o juiz. salvo à força e ao prestígio da própria Lei” (Rosah Russomano. 304). Surge então a questão: Como propiciar ao Judiciário as condições necessárias para julgar com imparcialidade e dar às suas decisões a força indispensável para que sejam cumpridas? A força do Judiciário no Brasil. vêm das garantias que a Constituição lhe confere. 69. ou Estadual (Presidente da . a sua conduta. em princípio. política ou economicamente poderoso. não pode perder o cargo a não ser por decisão judicial. 1970. o Judiciário é um poder desarmado. bem como a integridade do regime democrático. sem aparato material para fazer cumprir suas decisões. capaz de forçar uma decisão favorável ainda que o direito lhe seja totalmente contrário. que se ache liberto de qualquer pressão. no exercício de suas atribuições. ao interpretar e aplicar a lei. pelo seu conteúdo e pela sua finalidade. [p. representa o alicerce sobre o qual se erige a independência jurídica do juiz. consoante a qual. entretanto. ainda que seja o Presidente da República ou o Governador do Estado. Essas garantias. Às vezes. a seu turno. Os demais poderes estatais não podem ter sequer a possibilidade de exercer uma atuação indevida na órbita em que o magistrado atua. portanto. Lições de Direito Constitucional. que nem sempre os pratos da balança da justiça têm peso igual. ele não se deve submeter a nenhuma autoridade. Isto quer dizer que em hipótese alguma o chefe do Executivo Federal. acima de tudo. “essas garantias traduzem a independência de ordem política que o juiz deve auferir. de acordo com a ordem jurídica existente. privilégios ou regalias da magistratura como muitos pensam. não se deve subordinar a nenhum poder. consubstanciadas na vitaliciedade. 165] Em sua aplicação na vida cotidiana. indispensável é. Para que. se essa pressão puder ser feita sobre o julgador. na inamovibilidade e na irredutibilidade de vencimentos. Esta independência. que permaneça intocável a qualquer coação.pleno exercício de qualquer direito a todo aquele que efetivamente o tiver. p. o juiz possa fazê-lo em sã consciência. e sua independência como Poder. mas sim para tomar efetiva e eficiente a função de julgar.

por contraste. ainda assim por decisão de dois terços dos membros. e o exercício de atividade político-partidária. Após a Emenda Constitucional n° 7. somente o Tribunal a que o mesmo estiver vinculado. Se isso pudesse ocorrer com o Judiciário. de 14.1. submeterem-se a todas as ordens ou decisões dos seus superiores hierárquicos.1979). 166] A importância dessa garantia pode ser constatada. neste último caso. ainda que estável. visto que passou a ser adquirida somente depois de dois anos de exercício da magistratura (estágio confirmatório) e as hipóteses de perda do cargo tornaram-se mais numerosas. por julgar com imparcialidade e honestidade. seja a sua decisão contra quem for. voltaríamos aos tempos medievais e a justiça não funcionaria. 70. VIII. integrantes de outros poderes. . A INAMOVIBILIDADE O juiz não pode ser removido compulsoriamente de sua sede de atividade (comarca e vara). no fato de certas autoridades dos mais elevados escalões. desde que. O Objetivo da Vitaliciedade A razão ou objetivo da vitaliciedade é dar ao magistrado a segurança e tranqüilidade necessárias para que possa julgar sem sofrer qualquer pressão quanto ao seu cargo. letras a e c da referida lei.arts. A Constituição de 88 dispõe no mesmo sentido . por mais absurdas ou arbitrárias que sejam. de percentagens ou custas nos processos de sua competência. muito embora possa fazer isso com relação a qualquer funcionário público. 69. Tratando-se de juiz. 93. e a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 35. Ninguém poderá ameaçá-lo por ser correto e fiel no exercício da sua função. De acordo com o art. 95. poderá decretar a perda do cargo. a demissão seja precedida de inquérito administrativo para apurar falta grave. a qualquer título. [p. o magistrado pode perder o cargo em virtude do exercício de qualquer outra função. 26. I e parágrafo único. jamais virá a perder o cargo. a vitaliciedade ficou um pouco mais limitada. Seguro está o juiz de que. simplesmente para não perderem o chamado “cargo de confiança”. item II. salvo por motivo de interesse público e pelo voto de dois terços dos membros do seu Tribunal.03.República ou Governador) pode demitir um magistrado. recebimento. de abril de 1977. salvo um cargo de magistério superior.

numa completa dependência econômica do Executivo. se os vencimentos dos magistrados não forem corrigidos monetariamente nos mesmos índices inflacionários. uma das formas mais eficazes de tirar a segurança e independência de quem quer que seja. começa a sua carreira nas pequenas e longínquas comarcas do interior. 71. A IRREDUTIBILIDADE DE VENCIMENTOS Os vencimentos dos magistrados não podem ser reduzidos. sempre ocupando os melhores e mais elevados postos os que mais dispostos estivessem a fazer tudo o que o “patrão” ordenar (e não a lei). cumpre assinalar que a inflação pode fazer da irredutibilidade uma garantia totalmente irrisória. a inamovibilidade destina-se a garantir o exercício da função de julgar. a tranqüilidade e a imparcialidade do magistrado. Às vezes a transferência de uma cidade para outra. 167] Com relação aos magistrados. . A remoção do juiz. ou da capital para o interior. Nem mesmo é obrigado a aceitar uma promoção que implique em sua transferência. entretanto. O juiz. e passa anos e anos até chegar às comarcas de entrância mais elevada ou à capital.Significa dizer que o magistrado. significa castigo tão violento quanto uma demissão. ou premiar outro com a remoção para um lugar melhor como meio de obter uma decisão favorável. bastará que não se corrija adequadamente os vencimentos dos juízes para que em poucos anos estejam com os salários aviltados. acabariam a segurança. Num país inflacionário como o nosso até bem pouco tempo. como sói acontecer em outros segmentos da administração. A justiça passaria a ser uma barganha de lugares. a irredutibilidade tem por objetivo não sujeitá-los a qualquer tipo de pressão econômica. normalmente. Nesse particular. não pode ser transferido do lugar onde exerce as suas funções. A partir da Constituição de 88 os vencimentos do funcionalismo em geral passaram também a ser irredutíveis. [p. às vezes maior que os próprios vencimentos e que já passou a integrar o seu orçamento. diferentemente de qualquer outro funcionário público. com fatais seqüelas para a sociedade. Todos os que exercem “função gratificada” sabem perfeitamente a que um servidor público se sujeita para não perder a gratificação. Tal como a vitaliciedade. só pode ocorrer com o seu assentimento expressamente manifestado. Se fosse possível pressioná-lo com uma transferência compulsória para que viesse a julgar dessa ou daquela forma. esperamos que não volte a sê-lo. salvo na hipótese de interesse público. muito embora estejam sujeitos aos impostos gerais e extraordinários.

ser reduzida a uma farsa. que precisa de juízes imparciais para harmonização pacífica e justa dos conflitos de direito. pois sem esta a atividade jurisdicional pode. como estorvo ao programa de supressão das liberdades individuais. a assegurar a independência do Judiciário. a autoridade do Poder Judiciário na consciência dos cidadãos. em seu pleno sentido axiológico e funcional. condição indispensável à proteção dos direitos humanos e à integralidade do próprio regime democrático. entretanto.Necessário se faz também. a independência da magistratura é necessária para o povo. mas perderá a autonomia e a proeminência arbitral. Com isto. que seus vencimentos sejam compatíveis com as elevadas funções que exerce e a pesada responsabilidade que sobre ele pesa. . uma necessidade da liberdade individual. para que o juiz não sofra pressões econômicas. tem sido tão necessário e urgente entender. poderíamos concluir com as palavras do Ministro Carlos Mário Velloso: “O juiz brasileiro tem tudo para julgar do acordo com sua consciência. porém. ainda que mantida a aparên. mais deletério: solapam a dignidade dos juízes. por isso mesmo. em última instância. o Legislativo e Executivo. com a colaboração reprovável de altos tribunais. em seu tempo de fastígio. inamovibilidade e irredutibilidade salarial. a independência da magistratura. Não se pode perder de vista. tal como hoje. a firme e autorizada posição de um dos mais consagrados juristas da atualidade. pode-se afirmar que os juízes têm obrigação de defender sua independência.2000). 23. em sua preciosa obra O Poder dos Juízes (Editora Saraiva. não hesitou em suspendê-la. sendo esta. o juiz que se verga a interesses o faz não por falta de garantias. mas por falta de caráter” ( O Globo. com o indisfarçado intuito de transformá-los em dóceis instrumentos de proteção às políticas governamentais. pois caso contrário nada significará a irredutibilidade. 168] cia de aparelhamento constitucional. o Professor Fábio Konder Comparato. uma fachada nobre para ocultar do povo a realidade das discriminações e das injustiças. simplesmente por ser inócuo proibir reduzir o que já nasceu reduzido. Agora.[p. facilmente. que as garantias constitucionais dos magistrados destinam-se. O regime militar. pois tem independência. só reforçou. por sua vez. para representar interesses que essa própria estrutura organizacional lhe infundirá. O professor Dalmo de Abreu Dalari. 1996) acentua: “Longe de ser um privilégio para os juízes. No Brasil. A rigor.08. Resumindo todas as considerações atrás expendidas. da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: “Raramente na vida política brasileira. Ele conservará a peculiaridade.” A isto acrescentou o jurista Raymundo Faoro quando ainda presidente da OAB: “O maior risco à integridade do Judiciário será convertê-lo em organização burocrática. agem de modo subreptício e. paradoxalmente.” Por último.

incumbem a orientação jurídica e a defesa. o defensor dos seus direitos. portanto. mesmo que contra os poderosos e influentes. dos necessitados. a Defensoria Pública do Rio . outros elementos humanos atuam na ordem jurídica. Com relação ao Ministério Público. em processo judicial ou administrativo. desse às novas gerações de brasileiros. razão pela qual. sem os quais não se pode fazer uma boa e regular distribuição da justiça. cuja estrutura administrativa tem servido de modelo para outros Estados. para que possa atuar também com segurança e independência. em todos os graus. eficientes. Reveste-se. 169] maior importância social estabelecer as suas prerrogativas ou garantias legais. como instituição essencial à função jurisdicional do Estado. Por fim. Sem dúvida. o triste espetáculo de uma involução institucional na defesa da dignidade humana” (Artigo intitulado “Juízes Independentes ou Funcionários Subordinados?”). da [p. a forma de selecionar os seus membros.“Ninguém ignora que a independência da magistratura é uma das mais importantes garantias do sistema de proteção aos direitos humanos. a assistência judiciária está entre esses meios e recursos. LXXIV. com os meios e recursos a ela inerentes. 134 da mesma Constituição estipula que à Defensoria Pública. cuja existência tem base constitucional. quando não atua como simples fiscal da lei. na forma do art. razão pela qual limitamo-nos a dizer que todas as questões levantadas em tomo do Judiciário são também pertinentes aos demais instrumentos humanos que atuam na ordem jurídica e merecem idêntica atenção. 5° da Constituição assegura o contraditório e a ampla defesa aos litigantes em geral. 72. 5°. a Defensoria Pública e o Advogado. Com efeito. o art. O Estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a organizar a Defensoria Pública. com a supressão prática de um Judiciário independente. Seria um verdadeiro escárnio se o nosso País. O MINISTÉRIO PÚBLICO. A DEFENSORIA PÚBLICA E O ADVOGADO Além dos magistrados. o inciso LV. do art. exatamente no cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. para que sejam preparados. a Constituição impõe ao Estado o dever de prestar assistência jurídica integral e gratuita aos que provarem insuficiência de recursos. A Defensoria Pública é outra instituição da maior relevância para a boa aplicação do direito. basta lembrar que a sua função é altamente social pois é o advogado da sociedade. no inciso LXXIV desse mesmo artigo. O objeto deste singelo trabalho não comporta maiores considerações a respeito. A despeito da sua dificuldade orçamentária e da má vontade de alguns governos. merecendo real destaque o Ministério Público.

pelas quais se compromete a dar assistência jurídica gratuita aos cidadãos desses países por meio da Defensoria Pública. reprovou o ensino médio no país. Pela deficiência de quadros. A defesa dos necessitados é uma tarefa que a União sempre se recusou a cumprir. vítimas de maus tratos. 170] Fala-se no momento que a Defensoria Pública é um dos itens prioritários da reforma do Judiciário. Os estados também. é um paradoxo que a União tenha celebrado convenções internacionais com Holanda. Já fiz parte desse grupo. temos como certo que uma das questões de maior relevância diz respeito ao seu preparo profissional. Para ele. Lamentavelmente. 14. A crise é muito mais profunda. O Ministro Celso de Mello. Menos de 1% dos alunos das escolas públicas conseguiu tirar mais de 70 (O Globo. ela não tem condições de defender nem os interesses dos cidadãos brasileiros mais necessitados (O Globo. Quando o assunto é .2002).08. Dos 1.11.vem prestando extraordinário serviço às comunidades carentes. Cerca de 70% dos processos da área criminal e 50% das varas de família são patrocinados pela Defensoria Pública. o que será muito bom. [p.3 milhões de estudantes que fizeram o ENEM. em outros. mas hoje penso diferente. com raras exceções. Bélgica e Argentina. E o problema já vem do ensino fundamental. O ensino do direito em nosso país tem sido duramente criticado nas últimas décadas. desde que a reforma não fique no papel.2000). é até apontado como o grande responsável pelo rebaixamento do nível profissional das carreiras jurídicas. 59% dos estudantes brasileiros não conseguem ler mais do que frases simples. E aí está outra grave causa da morosidade da justiça. O ENSINO JURÍDICO Quanto ao advogado. O último Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM). Tem ela ainda importante atuação na defesa dos direitos humanos e dos consumidores. Ao concluir a 4ª série do ensino fundamental. lamenta o desinteresse do poder público pela Defensoria Pública. 73. seguem o mesmo exemplo: oito não criaram defensorias e. não obstante os dispositivos constitucionais existentes. população carcerária. A Defensoria Pública não funciona melhor por falta de disposição política do Executivo e entraves burocráticos. sem o que o funcionamento do Judiciário seria impossível em certas áreas e lugares. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. 74% tiveram notas abaixo de 40 numa escala de zero a cem. cujo resultado foi divulgado em novembro de 2002. 13. elas funcionam precariamente. assistência a crianças e adolescentes. a Defensoria Pública não passa de uma ficção em nível federal.

Entre os que tiveram resultado adequado à sua série. como já salientado. 25. atrás do México e da Letônia. mas principalmente o magistério e as . Esse é o diagnóstico da educação brasileira apresentada pelo próprio Ministério da Educação (22. 60% dos alunos com avaliação adequada estão em escolas particulares e 98% daqueles com resultados muito críticos estudam em escolas públicas (O Globo. Na visão da doutora em educação Magda Soares. mas é incapaz de decodificar seus significados. Os fatores convergem para esse ponto comum. “A raiz do problema está na sala de aula. 23.04.matemática. também não se pode ministrar um curso superior de alto nível a quem não tem sólida formação educacional média e fundamental.04. Deve-se investir na formação dos educadores. O ensino superior é o acabamento de um processo educativo que começa no berço. além de incentivar esses profissionais com o pagamento de salários dignos e justos” (Entrevista ao jornal A Tarde. E assim como não se pode colocar telhado onde não há alicerce nem paredes. Entre os estudantes de 4a série.2003). a formação deficiente dos professores é a principal causa desse vexame. Em resumo.2003). O foco deve ser em cima dos responsáveis pela transmissão do conhecimento: os professores. onde as coisas acontecem. a maioria dos jovens brasileiros entre 15 e 16 [p. O Brasil ficou em último lugar no Pisa2000 . 98% dos que tiveram avaliações consideradas muito críticas estudam em escolas públicas. que analisou o nível de compreensão leitora (letramento) de alunos secundaristas de 32 países. No fim do ensino fundamental. levou a outro resultado alarmante. É lá que os professores têm que desenvolver nos alunos as habilidades para compreender textos e utilizar conhecimentos adquiridos.2003) com base em dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico desde 1995. Salvador.05.4% dos alunos estão no nível adequado para a série.Programa Internacional de Avaliação de Estudantes . Indagariam os leitores: mas o que o ensino fundamental e médio tem a ver com o ensino jurídico? Tem tudo a ver. 171] anos é analfabeta funcional: sabe ler as palavras. principalmente nas escolas públicas.pesquisa feita entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. 44% estavam em escolas privadas. promover constantemente cursos de atualização e reciclagem. considerada uma das maiores autoridades do assunto na América Latina e Professora da Universidade de Minas Gerais. O fracasso do ensino médio e fundamental em nosso país prejudica a formação de todas as profissões que exigem nível universitário. ficou em último lugar. Esse baixo desempenho do nosso ensino fundamental e médio. O Brasil. Só 4. 52% deles mal consegue decifrar uma operação simples de somar ou subtrair.

cumpre pois. segundo os técnicos em educação. dotados de um sentido de permanência. capacidade de ler. Tanto é assim que. precisam ter tirocínio e raciocínio. ainda que excelente. no Direito consagrado. a maioria cursou o fundamental e o médio em boas escolas particulares. compreender e usar aquilo que se lê. Caio Tácito: “Numa sociedade estável é compreensível que os professores de Direito se limitem a preparar os alunos mediante estudos sistemáticos dos institutos e normas existentes. O verdadeiro. O curso de Direito não visa preparar o rábula. No que diz respeito ao ensino do Direito. Logo. familiarizando o jurista com os pressupostos da norma jurídica e habilitando-o a solucionar e compor as controvérsias e os conflitos de interesses. E a leitura e a escrita. pois o direito. entendemos ser necessária uma mudança metodológica. de modo a privilegiar mais íntimo entrelaçamento entre a teoria e a prática. Procuradores. acentuou o Prof. por melhor que seja o ensino jurídico. e suficientemente prático para que o bacharel. Com muita propriedade. ao sair da faculdade. perde sentido o preparo. senão único. Mais que as outras. essas profissões dependem do completo domínio da língua. exprimindo as alternativas de transformação da sociedade que o Direito disciplina. Quando. objetivo válido da preparação científica e profissional do advogado (entendida a expressão em sentido amplo e não apenas forense) é o do relacionamento entre a lei e a realidade social. Defensores e Advogados). dos aprovados em concursos públicos.carreiras jurídicas (Magistrados. são desenvolvidas entre os 4 e 10 anos. sendo muito difícil depois disso recuperar essa capacidade. iniciativa da maior relevância. dizer o que as coisas são). que tem produzido resultados satisfatórios. nem o jurista esotérico afastado da realidade: deve ser suficientemente teórico para insuflar no discente o conhecimento geral da ciência jurídica. embora seja [p. não se pode conseguir ótimos resultados se a formação do estudante no primeiro e segundo graus foi deficiente. porém. sempre que possível. de tal forma que se transmita uma cultura jurídica suscetível de ser revogada por uma lei nova. 172] uma ciência teórica quanto ao modo de estudar e saber. Ministério Público. se instaura um processo mais ou menos constante de revisão legislativa. não se sinta perdido e incapaz de dar os primeiros passos na vida forense. propriamente dito. é eminentemente prático quanto ao fim. Como não há vantagem alguma em se usar um método exclusivamente prático nem outro predominantemente teórico. Para suprir a deficiência muitos cursos de Direito incluíram em seus currículos o estudo do português jurídico (linguagem argumentativa que ensina a organizar o pensamento para.” . harmonizar o ensino teórico com o prático. de forma lógica e coerente.

mediante informações e conhecimentos. dando tratamento jurídico aos fenômenos sociais. Gabriel Lacerda. ensina-o a pescar e o alimentarás para o resto da vida. e a justiça poderá ser distribuída de forma mais eficiente. e não simplesmente o domínio do direito positivo e da doutrina jurídica. como vem fazendo o ensino jurídico tradicional. lembrado pelo Prof. Há um provérbio chinês.Em suma. o alvo da educação atual deve ser a conquista do raciocínio jurídico. rápida e equilibrada. Dessa forma poderemos ter advogados competentes. Não basta fornecer peixes aos alunos ou indicar-lhes o mar. . que vem a propósito de tudo aquilo que até aqui se afirmou: “Dá um peixe a um homem e matarás a sua fome por um dia. o provérbio dispensa maiores comentários. por sua clareza. É preciso ensinar-lhes a pescar. preparados para enfrentar até mesmo o imprevisível em face da rapidez com que as normas jurídicas tendem a se modificar. fixar princípios através do exame de casos atuais. preparar o estudante para resolver problemas.” Cremos que. mediante um ensino teórico e prático que os capacite efetivamente para o exercício da advocacia.

Capítulo XIV A OPINIÃO PÚBLICA Concepção de opinião pública. 157). mas sim diversas correntes de opinião. CONCEPÇÃO DE OPINIÃO PÚBLICA De forma simples e sintética. A rigor. apresentam certos traços gerais e algumas tendências uniformes. formando afirmações de natureza majoritária ou predominante. não existe uma opinião pública. mas sim o resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. podemos afirmar que opinião pública é o pensamento predominante do grupo sobre uma determinada pessoa ou questão. O poder da mídia na formação da opinião pública. coexistentes sem conflito ou contraditórias em graus diversos. A opinião pública sobre o direito e sua utilidade social. A. nem sua síntese. 1973. concorrentes ou divergentes. como muito bem observou F. compondo um universo de opiniões que se manifestam em determinado momento e lugar. Importância da opinião pública. **** Chegamos agora ao terceiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica: Estudo da Opinião Pública sobre o Direito e suas Instituições. desde logo. de Miranda Rosa em sua obra Sociologia do Direito (2ª ed. A opinião pública sobre as instituições jurídicas. Essas correntes de opinião. É o juízo coletivo adotado e exteriorizado por um grupo. Cumpre. assinalar que se trata de algo extremamente impreciso e mutável aquilo que se denomina opinião pública. 175] Esse pensamento coletivo a que nos referimos não é a soma de todas as opiniões particulares. . entretanto. [p. 74. p.. O sentimento coletivo de justiça.

Ocorre com a opinião pública algo semelhante ao que ocorre entre a sociedade e o indivíduo. como o de amarrar um mendigo ao poste e matá-lo a pauladas. o coletivo. pode mudar profundamente. como soma. como no caso do delinqüente. quando em grupo. Ora. da formulação de G. A sociedade seria. Para Tarde. pois. o comportamento do indivíduo. Salvo hipóteses excepcionais de massificação coletiva. a sociedade não passa de mera soma de consciências individuais. Mas se estiver em um teatro ou cinema e escutar alguém gritar [p. Tarde. Se tirarmos os indivíduos da sociedade. a realização da síntese anula e faz desaparecerem os elementos componentes. do revolucionário etc. Embora a idéia de síntese não deixe de ser verdadeira. Na química. resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. como os elementos de que se compõe. toma-se falha quando levada a exageros. imediatamente ocorrerá um tumulto tão grande e desesperado que acabará ferindo e matando mais gente atropelada e pisoteada do que queimada pelo próprio fogo. que o coletivo não é a soma dos indivíduos nem é a síntese de todos: é um novo produto. Se alguém estiver sozinho em casa e observar que algo está pegando fogo. indagava. apenas formam uma realidade nova . Tudo que atrás ficou exposto pode ser claramente constatado mediante simples comparação entre o comportamento individual e o coletivo. Em razão de determinados processos sociais. do gênio. uma natureza de ordem psicológica. tomada de empréstimo à terminologia química. daria um composto novo e diferente . levando-o a fazer coisas de que jamais se imaginou capaz. e. o oxigênio e o hidrogênio deixam de existir como substâncias isoladas a partir do momento da síntese. o que restará? Ele próprio responde: nada. isso não ocorre na síntese social. À essa tese psicológica e nominalista se opunha Durkheim. já que só se pode somar quantidades homogêneas. mas o seu conjunto. como . Os elementos componentes seriam de natureza psicológica. que em muitos casos se conserva tão independente que pode assumir figuras variadas do anti-social. por Síntese. Exemplo: na formação da água (H20). para darem lugar à água.o Social. uma nova realidade. não anula a vida individual. um modo de ser adjetivo derivado da vida individual. a sua síntese. normalmente se empenhará em apagá-lo buscando auxílio de outras pessoas. ao propor a substituição da palavra Soma. no comum das circunstâncias.o Coletivo. portanto. A multidão em tumulto é capaz de cometer os mais hediondos crimes. 176] “fogo”. Os indivíduos formadores da sociedade não desaparecem. Isso evidencia. as parcelas e o resultado têm de ser da mesma natureza.

pp. 13ª ed. 223-224). sem dúvida. consciente ou inconscientemente. Legislativo e Judiciário. via de regra. um poder em sua concepção sociológica. assim. escola etc. às influências dos demais. O Poder da Mídia na Formação da Opinião Pública Como se forma a opinião pública? Quais os instrumentos eficazes para esse fim? A formação da opinião pública. a mídia como um todo. Trata-se em última instância de uma reciprocidade de estimulação que. Idéias. exerceu e recebeu dos demais. implica que o comportamento de cada indivíduo que dele participa não está inteiramente sob controle individual. coisa semelhante ocorre com a opinião pública: não é a soma nem a síntese da opinião de todos: é um novo produto. E Willems (Dicionário de Sociologia. 74. trabalho. consciente ou inconscientemente. nas palavras de Donald Pierson (Teoria e Pesquisa em Sociologia. transformam-se em conversação quase que diária. de qualquer tipo. começam os comentários no círculo primário (família. é um processo lento de sedimentação da vontade popular. uma nova realidade. que se sensibiliza por algum motivo.1. é o grande formador da opinião pública. condutas e informações são lançadas na coletividade. O Poder tem várias formas: os poderes constitucionalmente instalados. Tal é a sua força que até é chamada de quarto poder. um modo de ser decorrente da opinião de cada indivíduo e das influências que cada um. ao determinar respostas também recíprocas. p. A mídia é. 286) explica o mesmo fenômeno falando em reação circular. vai se formando a opinião pública.. [p. comunicando-lhe e intensificando o processo de estimulação que se repete. e os poderes de natureza econômica e sociológica.aconteceu anos atrás em um subúrbio do Grande Rio. não só porque o . implica que cada um dos indivíduos em apreço responde. Porto Alegre. Conforme já assinalado.). Globo. que vão se sedimentando e. É que o comportamento coletivo. que se exercem pelo Executivo. até então. 177] No que diz respeito aos instrumentos. a imprensa escrita e falada. muito embora fossem todos os componentes do grupo pessoas pacatas e de comportamento. irrepreensível. mas não é necessariamente a opinião de todos os membros nem a opinião de qualquer pessoa em particular. Representa a tendência geral. que é uma forma de estimulação recíproca pela qual a reação de um indivíduo reproduz o estímulo que recebeu de outro indivíduo. provoca uma espiral ascendente e de dimensões crescentes.

persuasiva. ricos e pobres. é tratada de tal forma que já vem comentada. Costuma-se dizer que existem três formas de poder efetivo: o poder de punir. o poder de premiar e o poder de condicionar. muitas vezes. o que contribui para a formação de uma opinião estereotipada e sensacionalista (Manual de Sociologia Jurídica. p. Poder que penetra nas casas. Pois esse é o poder da mídia. além daquele estritamente jornalístico. e isso faz com que a informação nem sempre seja fidedigna e confiável. Punindo. Há até quem fale em liberdade de empresa e não em liberdade de imprensa. “dá particular destaque aos problemas e escândalos (exemplo: corrupção de juízes) e nunca noticia o cotidiano normal do sistema jurídico”. ao desejo inato de conquistar aprovação e simpatia. porque tem o poder de condicionar. até os mais longínquos pontos do país. por meio de uma linguagem emocional. contribuindo decisivamente para que ela se torne cada vez mais transparente. Baseada na importância que dão todos à crítica. pode-se dizer que o jornalismo brasileiro evoluiu nos últimos dez anos e muito contribuiu para a fiscalização da gestão pública. Ed. [p. a opinião pública. premiando. cativante. p. também podemos levar as pessoas a fazer o que queremos. 5ª ed. A forma implícita é a mais grave porque o comentário acaba virando notícia. escreve com propriedade Carneiro Leão (Fundamentos da Sociologia. nos países de livre manifestação de . “é a um tempo criadora e modificadora poderosa do comportamento social”. que é a tarefa própria do Poder Judiciário. dos Tribunais. Entretanto. A mídia sempre esteve próxima do poder estatal e econômico. 181). E ainda convencidos de estarem pensando por si próprios.. Dessa maneira a notícia acaba. cultos e ignorantes. IMPORTÂNCIA DA OPINIÃO PÚBLICA “A opinião pública”. condicionando. 178] 75. mas também e principalmente.poderoso sistema de comunicação de massa possa eventualmente derrubar um mandatário político. mas também que eles pensem como pensamos. Observa Ana Lúcia Sabadell que a mídia. explícita ou implicitamente. pode-se fazer com que alguém faça o que deve ser feito. sem contestação. Rev. no seio das famílias. No mínimo vem embalada da maneira que melhor atinja os interesses dos detentores do poder. 175). podemos não somente fazer que os outros façam o que queremos. tornando-se mercadoria. no que se refere à Justiça e seu funcionamento. colorida. que alcança palacetes e favelas. A grande problemática é que a imprensa brasileira tem muitos outros interesses.

De forma específica. agindo em caráter particular. lamentavelmente. constitui elemento decisivo de interação social. ou pelo menos não tê-Ia contra. do bom e do mau. O efeito maciço de uma tomada de posição feita por milhares ou milhões de pessoas.pensamento. para serem lembradas na hora em que se vai às compras. Isto tudo evidencia que o conhecimento da opinião pública. Os programas de televisão vivem fazendo pesquisa de opinião pública para saberem como agradar o público e merecer a preferência de audiência. 76. tanto as empresas como os políticos mantêm grupos cuja missão consiste em pesquisar e despertar a simpatia do povo para suas atividades. mesmo . do justo e do injusto. É em razão disso que. A mudança de gosto público pode arruinar uma indústria ou enriquecer outra. como muito oportunamente lembrou K. O SENTIMENTO COLETIVO DE JUSTIÇA Há em todo indivíduo. quando as eleições se aproximam. pode derrubar do poder quem lá se encontra e colocar outro. revelando ao legislador e demais autoridades que atuam na ordem jurídica a temperatura social em tomo de questões sociais relevantes e indicando as mudanças que precisam ser feitas nas leis e nas instituições jurídicas. p. a primeira verificação da opinião pública que se impõe realizar é no que concerne ao sentimento coletivo de justiça. vivem de olho nas pesquisas feitas sobre a preferência do eleitorado. é indispensável ao estudo de qualquer ciência social. pode fazer de um anônimo um herói ou do herói um vilão. As empresas vivem oferecendo seus produtos através das propagandas mais atraentes e sofisticadas possíveis. não se dá atenção à opinião pública no que diz respeito a tais questões. Daí a grande força que possui a imprensa escrita e falada. tanto quanto possível aproximado da realidade e com previsões a respeito de suas tendências e da evolução provável. tem a opinião pública especial importância para a Sociologia Jurídica porque age como um verdadeiro termômetro. Davis (A Sociedade Humana. um sentimento acerca do certo e do errado. porque sabem que para chegar ou manter-se no poder precisam ter o apoio da opinião pública. produtos ou empreendimentos. pode dar início à guerra ou levar à revolução. [p. 179] No campo do Direito. como órgão de informação e formação de opinião pública. pode atingir enormes proporções. Por isso. Os políticos. Dúvidas não temos em dizer que nossa legislação é hoje tão ineficaz. fruto de condicionamentos sociais. porque no Brasil. e nossas instituições tão mal estruturadas e aparelhadas. 85).

Ao legislador especialmente importa conhecer o sentimento coletivo de justiça. garantidoras da validez e eficácia das normas. ficando ineficazes. 180] duta e a desaprovação que o consenso ético-social impõe à mesma forma de comportamento. com as variações do sentimento coletivo de justiça de tempo para tempo. passado o impacto. Tal conhecimento proporcionaria também ao legislador as condições adequadas para fazer as modificações necessárias na legislação vigente. Fala-se até em pena de morte. conforme já demonstrado quando falamos dos efeitos negativos da lei. para que possa elaborar leis justas. O exame do sentimento de justiça. porque afastadas do sentimento coletivo de justiça. repressiva. muitas normas existentes tomaram-se vazias de conteúdo social. no qual se baseia a sociedade para estabelecer seus padrões de comportamento . Um crime grave. perderam a razão de ser. Assim como há um sentimento individual de justiça. isto é justo. sobretudo na Europa. adequadas aos interesses e conveniências sociais. sua adequação ou não ao que é tido como justo. de tempo para tempo e de lugar para lugar. uma vez que nem tudo que é legal é justo. há também um sentimento coletivo. poderiam ser conseguidas mediante o prévio conhecimento do sentimento coletivo de justiça. é certo etc. Leis injustas existem. ou a distância entre a desaprovação da norma jurídica acerca da con[p. Baseado nos resultados de diversas pesquisas feitas. muda-se a opinião. bem como o afastamento de outras no futuro. Nem sempre fazer justiça consiste na simples aplicação da lei. um escândalo financeiro ou político. é possível afirmar que o sentimento de justiça varia em suas manifestações. principalmente no mundo econômico.É aquilo que se tem chamado de consciência jurídica da população. cuja aplicação vem causando profundo desequilíbrio social. muito embora não estejam ainda suficientemente explicadas as relações motivadoras das diversas gradações ou formas em que esse sentimento se apresenta. . escreve F. sem prévia consulta à opinião pública a respeito da matéria legislada. de Miranda Rosa. Também abarca a maneira como a opinião do público se manifesta sobre o comportamento ilícito. produtoras de efeitos negativos. A.sem nunca ter estudado direito ou tocado a mão em um compêndio de leis. faz com que a opinião pública se incline no sentido de exigir uma justiça mais severa. abrange necessariamente o das normas existentes. as pessoas afirmam com veemência: isto é uma injustiça. frente a determinadas circunstâncias. exatamente porque foram elaboradas ao arrepio dos interesses sociais. já que. mas. prisão perpétua e outras penas mais severas. Freqüentemente fala-se em leis injustas. A correção dessas distorções. imediata. a aprovação social das sanções que o Direito estabelece.

Em matéria de Imposto de Renda. gaboleiam-se de terem conseguido escamotear milhões de imposto. mas em nível interindividual há descrédito subjacente na justiça. embora seja o Direito considerado e aceito como forma mais eficaz de controle social em sua organização e aplicação. e que isso ocorre com grande freqüência. a fim de se procurar modificar . Neste ponto. existem posições conflitantes.[p. Na hora de pagar o tributo. pois O Estado normalmente não gera recursos. embora normalmente honestas a ponto de não tirarem um centavo de ninguém. A sociedade global acredita no jurídico como algo indispensável à coesão e à sobrevivência grupal.77. diga-se de passagem. apenas os administra em prol da coletividade. segurança. Para muitos o Direito não passa de simples meio de se valerem os mais fortes da máquina estatal. Outros entendem que ele se presta a manobras que o desvirtuam completamente. e um estudo minucioso das causas. já é comum encontrarmos pessoas que. por exemplo. relativo às condições de classe social. ISS. não seria possível eliminar algumas dessas causas e reconquistar a opinião pública? O que acima ficou dito é de fácil demonstração quando atentamos. entretanto. para as normas que estabelecem a obrigação tributária. Por que essa aversão generalizada ao pagamento dos tributos? Por que essa idéia já arraigada no sentido de não se considerar desonesto fraudar o fisco? Por que essa oposição ou resistência às normas tributárias? Caberia. conforme constatado através de pesquisas realizadas em vários países. 181] butos. Crêem os grupos que a justiça é fenômeno dependente. Com efeito. O mesmo ocorre com o ICMS. por exemplo. ao nosso ver. Todos compreendem que não é possível atender às despesas da administração pública com educação. ninguém gosta e procura esquivar-se.. ver-se-á que a maioria do grupo entende necessário o pagamento dos impostos para a consecução de objetivos sociais. ou ainda sua correta aplicação como instrumento de ordem social. uma pesquisa profunda da opinião pública em tomo do assunto por parte do fisco. saúde. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE O DIREITO E SUA UTILIDADE SOCIAL Outro aspecto da opinião pública de interesse sócio-jurídico é aquele que diz respeito à conveniência ou utilidade social do Direito. sofre questionamento da opinião pública quanto à sua eqüidade. estradas etc. Se for feita uma pesquisa sobre a importância dos tributos e a necessidade de sua arrecadação. contra os oprimidos de todos os tipos. IPI. Por que tem o Direito uma imagem tão distorcida da realidade? Conhecendo as causas que levaram a opinião pública a se formar de modo tão averso ao verdadeiro objetivo do Direito. sem a arrecadação dos tri.

Os inconvenientes de se deixar de contatar e esclarecer a opinião pública acerca de questões tributárias podem ser demonstrados com a chamada taxa do lixo. [p. 182] Contudo. eis que o lixo de uma grande cidade tem que ser recolhido diariamente e com eficiência. sob pena de se tomar impossível a vida. facilitando a arrecadação. gente e material. forçando-o a fraudar. objetivos. muito além de sua capacidade. Do ponto de vista social. isso tudo poderia ser evitado se. o que em muito prejudicou a arrecadação. Em nossa maneira de ver. o que sem dúvida facilitaria o trabalho de arrecadação e fiscalização. em que se procurasse dividir de forma mais equânime as obrigações tributárias de modo a não incidirem sempre sobre os mesmos. de pescar também o peixe grande do comércio e da indústria. exigindo do contribuinte excessivo encargo tributário. pois com base em tal . Talvez as leis tributárias sejam mesmo extorsivas. podendo-se arrecadar mais com menos esforço. antes do lançamento da taxa do lixo. não acredite que o dinheiro público esteja sendo honestamente empregado. como no caso do Imposto de Renda que sabidamente recai mais direta e pesadamente sobre os assalariados por sofrerem o desconto na fonte. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE AS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS Aquilo que o público em geral pensa a respeito das instituições jurídicas é outro aspecto da opinião pública de interesse para a Sociologia Jurídica. Talvez o povo não tenha confiança na Administração. necessidade. o que poderia ser evitado mediante a reformulação do sistema tributário. O fisco deveria engendrar meios de alcançar com suas malhas os de maior capacidade econômica. o que seria evitado mediante amplo esclarecimento das obras realizadas. É evidente que para a coleta desse lixo é necessária uma estrutura empresarial. houve uma tremenda reação do público. critérios de fixação. acredito que ninguém conteste a necessidade de tal taxa. a opinião pública fosse esclarecida a respeito de suas causas. Talvez o povo não esteja suficientemente esclarecido sobre o destino dado pela Administração Pública ao dinheiro arrecadado através dos tributos. dos serviços executados etc.as coisas para o futuro. aliviando a sobrecarga dos assalariados. quando anos atrás a taxa começou a ser cobrada. bem como a realização de um serviço organizado e sistemático. sendo a taxa exatamente para tal fim. 78. o que poderia ser evitado mediante um esforço de reconquista da confiança pública. ensejando milhares de ações judiciais.

tem uma imagem negativa de seus operadores. ou sua vulnerabilidade às influências dos mais bem atendidos na divisão da riqueza social. mas sim com base em ampla pesquisa da opinião pública e mediante ampla contribuição de todos os segmentos sociais relacionados com o mundo jurídico. sua docilidade diante do poder. assunto este da maior gravidade e a merecer uma especial atenção. do seu grau de incidência. parciais. não em segredo de justiça como se pretendeu fazer em 77/78. o Ministério Público. sob pena de se tomar a instituição totalmente irrecuperável. ou passíveis de corrupção. Urge igualmente um estudo das causas. acredita que só pobre vai para a cadeia. das repercussões sociais que produz a opinião que predomina no que tange à imparcialidade dos órgãos judiciais. sem credibilidade.opinião é possível saber se as instituições estão ou não funcionando satisfatoriamente. então será necessário fazer-lhe as reformas necessárias. tudo é justiça: a polícia. sob pena de uma desmoralização cada vez maior da instituição. de modo a alcançar seus objetivos sociais. ineficaz. o sistema carcerário etc. O resultado das pesquisas realizadas sobre o funcionamento do sistema judiciário não é nada animador. 183] . Se realmente estivermos empenhados em recuperar o Judiciário. não confia na justiça. A população não possui bom conhecimento do sistema jurídico. [p. então é alto tempo de se procurar saber onde estão as causas dessas deficiências e de se realizarem as mudanças necessárias. portanto. a Defensoria Pública. Há uma boa parcela da opinião pública que entende serem os tribunais ou os juizes influenciáveis pelos poderosos. ou confia muito pouco. Quando a opinião pública se forma no sentido de considerar uma determinada instituição deficiente. e.

A observação: nas sociedades contemporâneas do tipo moderno. CONCEITO DE MÉTODO Método é o meio mais racional e eficiente para se atingir um fim desejado. que não vamos tratar aqui dos métodos que são adotados desde as formações doutrinárias e teóricas da Sociologia. É o conjunto [p. Convém esclarecer. abrangente. nas sociedades contemporâneas do tipo primitivo e nas sociedades desaparecidas.Capítulo XV O MÉTODO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA Conceito de método. O método utilizado pela Sociologia Jurídica. 79. para não fugirmos aos objetivos deste singelo trabalho. A interpretação. como já afirmamos. um conceito de método. toma-se necessário estabelecer. pois. **** Após termos tratado do objeto da Sociologia Jurídica. 185] dos meios ou processos dispostos convenientemente para . É o caminho utilizado para a realização de um objetivo. mas sim. devidamente organizados e coordenados. cujas regras foram enunciadas por Durkheim em celebrado estudo. Para tanto. ainda que de forma sucinta. de que dispõe uma ciência para realizar seu objeto. vamos agora dedicar este capítulo ao exame do seu método. São os meios. recursos. desde logo. no estudo de qualquer ciência é indispensável estabelecer o seu objeto e definir o seu método. genérico. A comparação. nem do chamado “método sociológico”. dos processos e técnicas de trabalho empregados pela Sociologia Jurídica na investigação e realização do seu objeto. instrumentos e atividades.

que já fazem parte das matérias estudadas no curso de Administração. para conseguirem realizar os seus objetivos. acabam se revelando deficientes. Trocando isso tudo em miúdos. pode-se afirmar com segurança. podemos dizer que método é maneira eficiente de fazer as coisas. 97-114). está justamente no fato de as primeiras serem pessoas metódicas. Por isso torna-se desnecessária qualquer discussão em torno do uso do termo “método”. mas não para aprender. nas mesmas 24 horas do dia. pp. reunião dos meios que se empregam nas ciências para achar a verdade. já está generalizado o uso do termo “método” para indicar os processos e as técnicas empregados na investigação social. e especialmente para chegar a um conhecimento científico. não é muito diferente do utilizado nas ciências sociais em geral e pode ser resumido em três operações principais: observação. Os simples serviços domésticos realizados pela donade-casa. desde a mais simples à mais complexa. conseguem fazer tanta coisa. se não forem executados com método. o método utilizado pelo jurista. mas pouco aproveitamento tirará dos estudos. pois. As empresas industriais e comerciais dos nossos dias. O MÉTODO UTILIZADO PELA SOCIOLOGIA JURÍDICA Segundo Levy Brühl (Sociologia do Direito. interpretação e comparação. pode até tirar boas notas. propondo em lugar de “método” a palavra “processo”. ou para comunicá-lo. Hoje. levam muito a sério a questão relacionada com organização e métodos. O estudante que não tem método nos estudos (deixa para estudar somente na hora das provas) nunca será um bom estudante. o método jurídico. Quanto à importância da utilização de um método. e outras quase nada conseguem. tomado o termo em seu sentido mais amplo. suscitando debates por entenderem não ser próprio o vocábulo para descrever as operações intelectuais realizadas pelo investigador ainda na fase da observação propriamente dita. A razão pela qual algumas pessoas. é modo racional de proceder. basta que se diga ser ele indispensável no desempenho de qualquer atividade que se propõe a alcançar algum objetivo. Estuda para passar de ano. [p.alcançar um fim. que não teria a Sociologia Jurídica condições de realizar os seus objetivos sem desenvolver as suas atividades de forma metódica. Vê-se. como têm feito alguns. 186] . 80.

como os códigos. e que posteriormente deverão ser examinados. a saber: a) sociedades contemporâneas de tipo moderno. saber quantos casamentos. c) os documentos de caráter técnico. a ponto de não se conseguir dominá-las completamente. pois as fontes de informações são abundantes. como os processos. Quem se propõe a realizar uma pesquisa. Na tarefa de coletar dados importantes para o estudo que se pretende fazer. o estatístico etc. onde os estudiosos do problema criaram uma verdadeira Sociologia Experimental baseada no survey (inquérito). política etc..[p. ocorreram no Rio de Janeiro no ano passado. b) sociedades contemporâneas de tipo primitivo. define o seu objeto. a fim de conhecer a realidade social através de suas manifestações concretas. superabundantes mesmo. Entendê-se por inquérito a pesquisa. separações judiciais. Quem primeiro usou esse método cientificamente na Sociologia foi o francês Le Play.80. Há survey para todos os fins: publicidade. entretanto. registros cartorários etc. 187] feiçoada nos Estados Unidos. esporte. b) as coleções de jurisprudência. classificados e interpretados. As mais importantes fontes nessas sociedades são as escritas. Foi criado o Instituto da Opinião Pública. adotar uma postura de observador. Pode a observação ser realizada em diferentes tipos de sociedades. sujeitando-se a posteriori verificação. por exemplo. conjectura uma solução provável.. Com base nesses documentos é possível. cinema. A Observação Consiste a observação na coleta de dados ou fatos sociais importantes para o estudo que se está realizando. pois todos esses atos ficaram devidamente registrados. por meio das quais sabemos como as leis estão sendo aplicadas. coleta os dados. divórcios etc. como por exemplo o inquérito. dentre as quais podemos destacar: a) os textos legislativos ou regulamentares. leis etc. literatura. Consiste em ouvir pessoalmente os indivíduos componentes de determinado grupo que se deseja estudar. Nas sociedades contemporâneas de tipo moderno a observação é bastante fácil. ou processo de investigação feito muitas vezes por meio de questionário. Deve. c) sociedades desaparecidas. cuja finalidade é lançar permanentes . fundador da Escola de Ciência Social e do método monográfico. Em nosso século a técnica do inquérito social foi altamente aper. isenta de qualquer juízo de valor. ciência.1. pode o investigador lançar mão de vários métodos (tomada aqui a palavra em sentido estrito).

Em outras palavras. Assim sendo. em face da . que lhe permite chegar aos fatos. devendo-se. o que evidencia a importância da pesquisa para a Sociologia Jurídica.” O emprego da estatística no campo sócio-jurídico tem sido criticado por alguns autores. A estatística. afastando perguntas capazes de induzir a resposta ou condicionar . aperfeiçoada nesta última década. para que os dados coletados sejam realmente representativos de toda a sociedade ou da fração dela que se está investigando. por seu turno. A importância da utilização da estatística em questões sociológicas foi muito bem assinalada por Levy Brühl (Sociologia do Direito. 188] instituição e medi-Ia no tempo e no espaço. À quem perguntar é outra questão que deve merecer particular atenção. a fim de evitar perguntas confusas e ensejadoras de respostas dispersivas. com a formação.inquéritos no seio da comunidade a fim de conhecer-lhe a opinião a respeito dos principais problemas do mundo atual e avaliar a evolução dessa opinião. pois é o agrupamento metódico dos fatos sociais suscetíveis de avaliação quantitativa. bem como a indução das leis a que tais fenômenos globalmente obedeçam. enumera a freqüência dos fenômenos sociais. classificação formal e análise dos fenômenos coletivos ou de massa. definição e delimitação do problema. para dela extrair as conclusões necessárias ao seu estudo. tão exatos quanto possíveis. pois há uma técnica minuciosa a ser aplicada. 99) ao escrever: “Tendo em vista que as instituições jurídicas são coisas coletivas. Ao longo do nosso estudo fizemos referência a dezenas de pesquisas sobre muitos temas. e levantados periodicamente. realizadas por vários institutos e entidades respeitáveis. Há mesmo quem afirme ser a estatística o meio oficial de se afirmar inverdades. O inquérito é geralmente realizado por uma equipe mais ou menos numerosa de pesquisadores e dirigido por um especialista mais experimentado. Antes de iniciar a pesquisa. É o seu método por excelência. p. à realidade social. conclui-se que um dos principais instrumentos de trabalho a ser utilizado para conhecê-las é a estatística. para tanto. é preciso dispor de elementos numéricos exatos. Na formulação dos quesitos é preciso saber perguntar (como perguntar). dar muita atenção à carga semântica variável de certos vocábulos ou de expressões idiomáticas. entende-se por método estatístico o conjunto de processos que tem por objeto a observação. e outros detalhes. Para apreciar o verdadeiro alcance de uma [p.o raciocínio do entrevistado. é necessário estabelecer com clareza e precisão o seu objetivo (o que perguntar). é indispensável uma formulação preliminar das hipóteses a investigar. principalmente por falta de confiança nos dados fornecidos pelos órgãos oficiais. pois caso contrário as conclusões finais serão um logro.

conhecer seus hábitos e costumes. uma medida de grande urgência. divórcios. pelo menos de mais relevante. estados ou regiões do país? Ou então. . conforme já exposto na parte em que tratamos dos fatores sociais da evolução do direito. por força de determinados fatores sociais. participar de sua vida diária. sendo mesmo na maioria das vezes bastante acessível. Entendemos. a observação é feita in locu. 189] de uma sociedade da mesma época. posto que contêm grande número de informações não encontradiças em outros lugares. contemporânea. quem não vê a importância de saber o número e o tipo de crimes que ocorrem nos diferentes meios. caso houvesse um trabalho sério e organizado de coleta dos dados. a situação da família entre os nossos indígenas. no plano científico. a economia. reconhecimento de filhos naturais etc. a religião etc. mas do tipo moderno. A Observação nas Sociedades Contemporâneas de Tipo Primitivo Nessas sociedades. todavia. mediante a presença física do pesquisador.. Quem não reconhece o quanto seria útil saber o número de casamentos. nas diferentes cidades. razão pela qual o incremento da estatística jurídica é. ouvir e observar. ganhar sua confiança. O conhecimento do direito de uma sociedade do tipo primitivo adquire particular importância no momento em que é comparado com o direito [p. por exemplo. onde se verifica a sua maior incidência etc.2. separações judiciais. verificar com grande evidência as profundas diferenças existentes entre o direito de uma e de outra sociedade.. assistir às suas festas e cerimônias. mesmo não tendo absoluta confiança nas cifras publicadas e ainda que se apontem erros voluntários ou involuntários que se deixaram escapar. como a cultura. principalmente em questões econômicas.manipulação muitas vezes feita nos dados que lhe serviram de base. não haverá outro meio de realizar tal pesquisa a não ser deslocando-se o pesquisador para esse meio para ali ver. Mas não foi ainda coligida e muito menos consultada. testamentos. então.? Tais dados não permitiriam a adoção de uma série de medidas preventivas e repressivas? Sobre estes assuntos e muitos outros fatos jurídicos a documentação existe. porque tudo ou quase tudo que nele se passa. 80. não seria difícil e de alto custo o emprego da estatística no mundo jurídico. Pode-se. fica devidamente registrado. Se o propósito é conhecer. pois foram todos registrados. a política. Em tese. esses dados são preciosos. à falta de escrita. Terá que se misturar com eles. que.

antes mesmo de iniciarmos a pesquisa. Em verdade. sobre as coisas nada sabemos antes da pesquisa cuja realização porventura empreendamos realizar. consiste no exame e classificação dos fatos sociais coletados. que parte do geral para o particular (o que vale para o geral há de valer para o particular).Além disso.[p. 190] dade. Com que espírito deve o pesquisador interpretar os dados postos à sua disposição? A primeira regra e mais fundamental é considerar os fatos sociais como coisas. caldeus. finalmente. devendo o intérprete livrar-se das prenoções de que a vida social nos encharca o espírito com relação aos temas da socie. monumentos. p. como vimos. Tácito sobre os germanos. do particular para o geral. e o indutivo. 80. Quer isso dizer que os fatos sociais devem ser considerados realidades diversas das idéias. como o dedutivo. A Observação nas Sociedades Desaparecidas No que se refere. 71). o direito primitivo apresenta traços particularmente interessantes e originais. enfatiza Machado Neto (Sociologia Jurídica. Se sobre o social. Possidônio sobre os trácios. hebreus etc. às sociedades que deixaram de existir. já nosso espírito está cheio de noções prévias (prenoções) sobre sua natureza e seu comportamento. como as que nos dá Heródoto sobre os persas. isto é. Não tendo . é a segunda operação do método da Sociologia Jurídica. Pode-se ainda lançar mão de informações indiretas. A INTERPRETAÇÃO A interpretação que. Ter-se-á que recorrer aos documentos escritos. pergaminhos porventura existentes. extraindo-se deles as primeiras conclusões. a observação está naturalmente circunscrita aos vestígios que essas sociedades deixaram. 81. através de suas inúmeras descobertas. que segue caminho inverso. muito embora a aplicação de ambos no campo sociológico seja severamente criticada. que são as fornecidas por terceiros. o que toma tremendamente penosa a tarefa do pesquisador.3. Nessa tarefa podem-se utilizar vários métodos. Nesse ponto a arqueologia tem contribuído grandemente para um melhor e maior conhecimento do direito de antigas civilizações.. a ponto de constituírem objeto de uma disciplina especial. a etnologia jurídica. como a dos egípcios. Durkheim recomenda aos sociólogos o abandono desse conhecimento espúrio.

diferença ou relação. e sua significação inicial tem tão pouca importância para o jurista quanto os diferentes sentidos que adquiriu no decorrer do tempo. 3) Tratando-se de documento escrito. tal conhecimento somente pode ter sido fruto de prejulgamentos e prenoções. portanto. o que merece ser tomado em consideração não é o tempo astronômico. 106. Levy Brühl. como o fato individual ou o anedótico. A COMPARAÇÃO Chegamos finalmente à última operação do método da Sociologia Jurídica .emanado da pesquisa. A noção de autenticidade chega a suscitar-lhe um interesse muito restrito (Sociologia do Direito. Tratar os fatos sociais como coisas é. a relação cronológica entre um fato e outro da mesma natureza. [p. Somos levados a dar menor atenção ao aparecimento material de um fato ou idéia. ou seja. o tempo do calendário. Um texto jurídico é. mas sim o tempo social. e maior ao momento em que esse fato ou idéia começa a agir. por sua importância. uma vez que sobre as coisas não podemos ter prejulgamentos ou prenoções. Significa que deixará de lado a priori o que se revelar puramente descritivo. algo diferente de uma peça de arquivo. mas sim o momento em que exercem sua influência. 108 e 109). libertar o espírito desses prejulgamentos e dessas prenoções. estabelece alguns princípios de interpretação que. por sua vez. constantemente de sentido. cuja significação e importância continuam ligadas às circunstâncias que envolveram sua origem. não o momento em que se verificaram materialmente os fatos. Do ponto de vista sociológico o termo não . merecem ser aqui destacados: 1) O jurista e sociólogo deve dirigir sua atenção exclusivamente para os fatos jurídicos tais como tentamos defini-los. 191] 82. que vulgarmente significa examinar simultaneamente duas ou mais coisas para lhes determinar semelhança. pois. Muda. e que por isso mesmo evolui também incessantemente. interessam mais ao jurista os efeitos sociais produzidos pelo escrito do que o sentido original do texto. 2) Interessa-lhe. a sua pureza ou o seu teor verídico. aos olhos do jurista sociólogo. como normas de conduta coletivas. Em outros termos. É uma espécie de ser vivo destinado a produzir seus efeitos dentro de um ambiente em constante evolução. como sói acontecer para o historiador. pp.a comparação. a produzir seus efeitos sociais.

praticamente no escuro. espacial ou geográfico. mais abrangentes e definitivas. por exemplo. mudanças e alterações necessárias. mas em épocas diferentes.Tribunais Federais.[p. Mudou para pior. leste. sua eficiência ou ineficiência. podemos comparar a situação da família na atualidade com a da época da República.conhecimento indispensável para se fazerem as reformas. temporal ou histórico. bem como das normas ou institutos jurídicos existentes . 192] to sigilo ou segredo de justiça. sendo utilizado. o que poderá aumentar a nossa experiência e levar ao aprimoramento das nossas instituições. Estaduais. O que ela tem de bom não é novo e o que ela tem de novo não é bom. e certas instituições antigas. No plano horizontal ou espacial a comparação é feita entre os resultados obtidos nas observações efetuadas em diferentes sociedades. do Império. Uma reforma de tal magnitude e necessidade. a fim de se estabelecerem as relações. Antes disso. se estamos estudando os problemas relacionados com a família brasileira. é possível ter um conhecimento profundo das instituições jurídicas. suas funções sociais. ou mesmo entre diferentes países. semelhanças e diferenças entre elas existentes e chegar-se a outras conclusões. no mais absolu. Foi o que aconteceu com a chamada reforma do Poder Judiciário levada a efeito através da Emenda Constitucional nº 7/77 e da Lei Orgânica da Magistratura. atuaram apenas dois ou três elementos que se julgavam donos da verdade. para indicar o cotejo ou confronto das conclusões parciais obtidas na fase da interpretação. qualquer mudança ou reforma será feita empiricamente. e o plano horizontal. A comparação pode e deve ser feita em dois planos: o plano vertical. é possível notar as diferenças existentes entre as normas do direito dessas sociedades contemporâneas. portanto. Através de tal comparação. bem como o grau de aperfeiçoamento de instituições análogas de outras sociedades. No plano vertical ou temporal comparam-se resultados de observações feitas em uma mesma sociedade. Juízes. mediante comparação nos planos vertical e horizontal. e jamais conseguirá atingir os seus objetivos sociais. para atingir os seus objetivos. as origens de algumas instituições atuais. mas todas contemporâneas. Assim. e os resultados aí estão. motivadas por fatores sociais e atuantes em cada região ou país. audiência dos órgãos e instituições que atuam na ordem jurídica . tinha que ser precedida de ampla coleta de dados mediante pesquisa da opinião pública. sul do Brasil. da Colônia. como por exemplo no norte. É ainda possível verificar. Fizeram a tal reforma sem ouvir ninguém. e investigar as causas que os provocaram. Somente através do emprego judicioso do método (ou métodos) que acabamos de delinear. .foge desse sentido. ou traços em comum entre elas.

através de técnicos especializados. Ordem dos Advogados. eliminando as causas de suas deficiências. o público em geral. classificados. motivada por interesses políticos e feita empiricamente. nas capitais e no interior. Esses dados. A menos que tais reformas sejam precedidas de um profundo conhecimento das aspirações do povo e da realidade brasileira. quais as deficiências e dificuldades de cada lugar. mediante pesquisa metódica e científica dessa realidade. [p.Ministério Público. e só então teríamos uma descrição da realidade social do nosso Poder Judiciário. Ter-se-ia que observar como vem funcionando o Judiciário em cada Estado. comparados. Com base nessa realidade poder-se-ia fazer uma reforma eficiente. nada será mudado para melhor. atualmente. Teremos outra reforma casuística. deveriam ser examinados. morosidade e emperramento. interpretados. Fala-se muito. 193] . em reforma eleitoral e agrária.

Etimologicamente. inovacionistas. donde a significa ausência. Vem de a + nomos. **** Muitos outros temas de relevância para a Sociologia Jurídica poderiam ser ainda abordados. segundo o qual o termo tem sido empregado com três significados diferentes. O pensamento de Robert K. a tecer algumas considerações sobre anomia. Merton. Foi com esse entendimento que Durkheim usou a palavra pela primeira vez. 83. Depois dele diversos autores têm abordado o conceito com variações quanto ao seu exato entendimento. norma. O pensamento de Émile Durkheim. por reputá-lo um tema da maior importância na atualidade e que guarda perfeita adequação com tudo aquilo que ficou exposto nas partes anteriores. portanto. anomia significa falta de lei ou ausência de norma de conduta. NOÇÃO DE ANOMIA A palavra tem origem grega.[p. conforme assinalado por Robert Biers. Tipos de comportamento: conformistas. ao encerrar este trabalho. caso o nosso programa comportasse. falta. em seu famoso estudo sobre a divisão do trabalho social. a saber: l) desorganização pessoal do tipo que resulta em um indivíduo desorientado ou fora da lei.Capítulo XVI DIREITO E ANOMIA Noção de anomia. Causas do comportamento anômico. . 195] tedt. com reduzida vinculação à rigidez da estrutura social ou à natureza de suas normas. Não sendo possível fazê-lo. inexistência. num esforço para explicar certos fenômenos que ocorrem em sociedade. ritualistas. e nomos quer dizer lei. privação. Comportamentos de desvio. Palavras finais. de evasão e rebelião. vamos nos limitar.

de sorte a não existir desvio. sua origem. 84. [p.2) conflito de normas. Por quê? Se as leis são boas. todavia. o fenômeno haverá de desaparecer. bem elaboradas. Pode variar de intensidade . em conseqüência. como anarquia é o contrário de governo. vamos encontrar em algumas maior incidência de um tipo de desvio mas o fenômeno sempre existirá. Muitos sociólogos têm se empenhado em encontrar as causas do comportamento anômico. em princípio não deveria ocorrer comportamento anômico. entre as quais vamos examinar a de Émile Durkheim e a de Robert K. mas que por muitos são confundidas. como um verdadeiro fenômeno universal. situação social que. Merton. o que resulta em situações sociais que acarretam para o indivíduo dificuldades em seus esforços para se conformar às exigências contraditórias. que é a síntese. que pode ocorrer por ausência de lei. e se as instituições destinadas a manter a ordem jurídica são eficientes. o contrário de sociedade. Assim sendo. é. coisas diferentes. pois. Eliminada a causa. vamos encontrar comportamento de desvio. e bem estruturadas. pode-se afirmar que anomia indica desvio de comportamento (ou comportamento desviante). é necessário distinguir causa de fator. ou pelo menos guarda perfeita correlação com os três primeiros. em seus casos limítrofes. por mais eficientes que sejam as suas normas de conduta e bem estruturadas e aparelhadas as suas instituições jurídicas. . ou seja. adequadas aos interesses sociais. Todos deveriam estar empenhados em manter um comportamento em harmonia com as normas de conduta social. Por causa entende-se aquilo que determina a existência de uma coisa: a circunstância sem a qual o fenômeno não existe. princípio. o agente causador do fenômeno social. conflito de normas. entretanto. existindo a respeito várias teorias. não contém normas.em uma sociedade vamos encontrar maior incidência de comportamento anômico que em outra. 3) ausência de norma. que sociologicamente a palavra pode ser usada em um quarto sentido. Mas não é o que ocorre. É. 196] Antes de mais nada. ou ainda. motivo ou razão de ser. Entendemos. eis que em qualquer das variações do significado de anomia está presente a idéia da falta ou do abandono das normas sociais de comportamento. desorganização pessoal. CAUSAS DO COMPORTAMENTO ANÔMICO (OU DE DESVIO) Em qualquer sociedade do mundo.

e) o enfraquecimento desse espírito de solidariedade acarreta uma influência dissolvente e. mesmo porque de quase nada adianta combater os fatores sem eliminar as causas. portanto. preocupa-se o estudo da anomia com as causas. a idéia dessa obra comum. concorre para o resultado. sem cortar-lhe a raiz. segundo as estatísticas. É a circunstância que. porque há milhões de analfabetos no Brasil que não enveredaram pelos caminhos do crime. Durkheim invocou palavras de Comte no sentido de que as separações das funções sociais tendem espontaneamente.Durkheim. Mas não é causa de criminalidade. porque. para poder atingir os seus fins. isola-se em sua atividade especial. ao lado de um desenvolvimento favorável do . Pode-se dizer. b) a organização impõe divisão de trabalho ou tarefas. O PENSAMENTO DE DURKHEIM SOBRE A ANOMIA Em seu famoso livro . porque há um número muito grande de pobres que não delinqüem. é um fator de criminalidade. porquanto na mesma população carcerária encontramos 85% de pessoas analfabetas ou portadoras apenas de instrução primária. motivando. por exemplo. c) a divisão de tarefas produz especialização. debruçado sobre suas tarefas. perdendo mesmo. não mais sentindo a presença dos colaboradores que trabalham a seu lado na mesma obra. a partir de um certo ponto. precisa organizar-se. por via de conseqüências. que a pobreza. igualmente. a ignorância. de qualquer forma. o indivíduo.A Divisão do Trabalho Social . assim desenvolveu seu pensamento: a) a sociedade moderna. por sua vez. Mas não é certamente a causa de crime. É tentar secar a árvore daninha arrancando-lhe simplesmente as folhas. 85. é outro fator de criminalidade. embora não dê causa ao fenômeno. 90% ou mais da população carcerária é constituída de pessoas provenientes das classes sociais mais humildes. Como já ficou dito. e não simplesmente com os fatores que são inúmeros. 197] Para o eminente sociólogo francês.Já o fator. que como já assinalamos foi o primeiro a usar a palavra “anomia” numa tentativa de explicação de certos fenômenos sociais. a miséria. [p. o comportamento de desvio. inclusive de produção e sobrevivência. d) a especialização ocasiona isolamento dentro do grupo. um enfraquecimento do espírito de solidariedade do grupo global. que o analfabetismo. Pode-se dizer. concorre para a sua maior ou menor incidência. desde que a divisão do trabalho social supera um certo grau de desenvolvimento.

Hoje o saber humano é dividido em várias áreas ou ciências. Com essa perda de visão da obra comum e do seu sentido. como disse alguém. e se junta a outros indivíduos de sua especialidade formando grupos menores. Especialista. Há calor humano. fazendo-o perder a visão global ou de conjunto da atividade social. Não há mais lugar em nossos dias. É preciso. cada vez mais. ou pelo menos a entravar seriamente o seu desenvolvimento. À medida que o indivíduo aprofunda os seus conhecimentos. ao lado das inegáveis vantagens que a divisão do trabalho representa como recurso imposto pela própria complexidade crescente da vida social. Foi-se o tempo em que era possível saber de tudo. espírito de solidariedade etc. para o indivíduo que é “pau para toda obra”. não deixa de possuir certa razão. Isso é facilmente constatado nas sociedades superdesenvolvidas dos nossos dias. Já numa grande cidade ninguém sabe de . como uma contingência social. embora criticado por alguns. que “toca sete instrumentos” etc. 198] ses da Europa ou mesmo aos Estados Unidos. Citou também Espinas. tal divisão transforma-se numa fonte de desintegração ao provocar as especializações dos indivíduos. A especialização. profissionalmente falando. como os sábios da Grécia. para se poder competir no mercado de trabalho. comparando-se a vida do interior com a de uma grande cidade. Numa cidadezinha do interior. O mesmo ocorre com a atividade humana. ocorre também um enfraquecimento do sentimento de solidariedade grupal. em face da vastidão do saber moderno. principalmente no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas e por isso mesmo superorganizadas. e isso tomou-se uma necessidade. todo mundo conhece e sabe de todo mundo. queixam-se da frieza. limita a visão social do indivíduo. é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos. O indivíduo se isola dentro do grupo. a abafar o espírito de conjunto. entretanto. forçoso é reconhecer. Pessoas que vão do Brasil. diminui-Ihes a extensão ou amplitude. da falta de solidariedade e calor humano que lá sentiram. Há várias e diferentes profissões e em cada profissão inúmeras especializações. Até mesmo entre nós isso pode ser constatado. às vezes até com interesses antagônicos aos interesses do grupo global. uma exigência. Todos se preocupam com todos e estão prontos para se auxiliarem mutuamente. em visita ou a trabalho. e em cada ciência há inúmeras especialidades.[p. ao afirmar que divisão significa dispersão. a certos paí. Nessas sociedades é visível que. saber muito bem fazer determinada coisa. O pensamento durkheimiano.espírito de minúcia.

acarretando. e de outro. que os meios existentes não são suficientes nem estão ao alcance de todos. assim. entendendo-se como tais os valores sócio-culturais que norteiam a vida dos indivíduos. ou pode ser assaltada e massacrada por um marginal aos olhos de uma multidão. escreveu um artigo famoso de apenas dez páginas. diária ou semanalmente nos relacionamos com um pequeno grupo. transformando-se em parte da sua obra clássica Teoria e Estrutura Sociais. [p. Merton sustentou que em toda sociedade existem metas culturais a serem alcançadas. Os outros não nos interessam. e cada qual corre atrás dos seus próprios interesses. a influência dissolvente da personalidade que sofre o operário que passa o dia todo apertando parafusos numa fábrica de automóveis. normalmente das nossas relações de atividade no trabalho. não é verdade no que se refere às sociedades subdesenvolvidas. metas sócio-culturais. meios socialmente prescritos para atingi-los. 199] Partindo de uma análise da sociedade americana. Somos capazes de morar muitos anos em um mesmo prédio sem saber quem é o condômino do lado ou de cima. onde se destacou entre outras coisas. um desequilíbrio entre os meios e as metas. verifica-se justamente entre os menos especializados ou mesmo sem nenhuma especialização. E o que é pior. Merton. De um lado. fazemos até questão de não saber quem é. 86. Quer isso . O fenômeno não é novo e já foi até explorado por Charles Chaplin como tema do filme “Tempos Modernos”. não nos dizem respeito: uma pessoa ferida num acidente pode ficar horas a fio sem receber socorro.ninguém. sociólogo americano. Ocorre. Embora morando numa cidade de milhões de habitantes. portanto. onde se observa que o maior índice de desvio. Se a tese de Durkheim apresenta muitos pontos verdadeiros no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas. entretanto. muito embora dezenas de pessoas passem ao seu lado em seus veículos sem se incomodarem. que teve o mérito de estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia. por esta razão a tese foi contestada e preterida por muitos. em face da tese de Robert K. que são os recursos institucionalizados pela sociedade. O PENSAMENTO DE ROBERT K. sem que ninguém venha em seu socorro. aos quais aderem normas de comportamento. O artigo foi posteriormente revisto e aumentado pelo autor. Para atingir essas metas existem os meios. MERTON SOBRE A ANOMIA Em 1938 Robert K. na escola. principalmente no que tange à criminalidade. Merton. no lazer etc.

3) ritualista. Mas quantos realmente têm condições para atingir essa meta? Apesar de erigida em objetivo da vida de todos. respeitando assim as normas fixadas pela sociedade. mas. o sucesso na vida. a saber: 1) conformista. Esse desequilíbrio entre meios e metas ocasionaria o comportamento de desvio individual (ou em grupo). mesmo que contrários aos interesses sociais. que buscam adquirir cultura etc. percebendo que os meios são insuficientes e não estão ao seu alcance. popularidade etc. através de estudo regular. enquanto todos são insistentemente estimulados a alcançar as metas sociais. buscando realizar as metas através de outros meios. 200] acordo com os meios e as metas sociais.1. Merton classificou os comportamentos socialmente relevantes em cinco tipos diferentes. qual seja. 5) de rebelião. inclusive pelos estudantes em geral. 86. buscaria outros meios. muito poucos podem alcançá-la em face da escassez dos meios institucionalizados. Tipos de Comportamento Identificados por Merton Examinando o descompasso existente entre as aspirações culturalmente prescritas e o caminho socialmente estruturado para atingi-Ias. na realidade apenas alguns poucos conseguem por terem ao seu dispor os meios institucionalizados. poder. prestígio.dizer que. 4) de evasão. um descompasso entre os fins sugeridos a todos e insistentemente estimulados. É a conduta seguida pela grande maioria das pessoas na sociedade. 2) inovacionista. Em outras palavras. Os adeptos desse comportamento estão de [p. no empenho de alcançar as metas que lhe foram sugeri das e não dispondo de meios para tal. nisto incluindo fortuna. inova. e os recursos oferecidos pela sociedade para alcançar aqueles objetivos. Disso resulta um desajustamento. podendo-se dizer a respeito deles que são positivos (+) quanto aos meios e também (+) quanto às metas. concentrados nas mãos de pequena parcela da sociedade. o inovacionista está de acordo . Inovacionista é a conduta que está de acordo com as metas sociais. Merton ilustra isso tomando como exemplo a meta mais importante da sociedade americana. Conformista é a conduta que busca atingir as metas sociais através dos meios institucionalizados. eis que o indivíduo.

imutáveis. ele começou a girar mais rápido e cada vez mais rápido. Quem já leu o Pequeno Príncipe. pois. recorda-se por certo do acendedor de lampião encontrado em um daqueles pequenos mundos que percorreu: causou estranheza ao nosso personagem o fato de que. . por outro lado. É o caso de certas pessoas que se gabam de terem servido 30 ou mais anos na mesma repartição. quando era dito “bom dia”. voltava a ser apagado. negativo (-) neste ponto. Percebendo que as metas sociais são mui elevadas e os meios existentes insuficientes para atingi-Ios. Abandona as metas. tenho que apagá-lo porque amanheceu. E enquanto falava ia acendendo e apagando o lampião. mas. Depois. acendendo e apagando o lampião e dizendo “boa noite” e “bom dia”. É negativo (-) quanto às metas e negativo (-) quanto aos meios. Comportamento de evasão é aquele que se caracteriza pelo fato de abandonar as metas e os meios sociais. e se apega às normas como se fossem sagradas. fazendo delas fins. arcaicas. Os inovacionistas adotam a filosofia de que os fins justificam os meios. E nessa rotina passava ele o tempo todo. nunca havendo se atrasado ou faltado ao serviço. mas continuo a cumprir a minha tarefa. Quando perguntado pela razão dessa sua conduta. continua a aplicá-las ou a observá-las como se nada houvesse mudado na sociedade. de modo que hoje. sendo. ainda que já estejam totalmente vazias de sentido. [p. As normas de comportamento social são cumpridas pelos ritualistas a todo preço e em qualquer circunstância. há mais de duzentos quilômetros por hora. repetindo sempre “boa noite” e “bom dia”. Procuram vencer na vida sem fazer força. perde de vista os fins. significado ou interesse social. mal o lampião era aceso. o acendedor de lampião explicou: antigamente o meu mundo girava bem devagar. os valores sociais. destituídas de qualquer valor ou utilidade social. Há aqui uma verdadeira inversão de valores. momento em que o acendedor dizia “boa noite”. Ritualista é aquele que se conduz de forma justamente inversa ao inovacionista. mal eu acendo o lampião ao anoitecer. entretanto. Pode-se representar o ritualista como sendo positivo (+) quanto aos meios. os objetivos. sendo positivo (+) quanto a elas. mas negativo (-) quanto às metas. ainda que não sejam socialmente aprovados.. E ainda que já estejam elas velhas. mas está contra os meios.. embora se encontre esta numa outra era. pois as metas perdem a sua importância passando os meios para o primeiro plano. nada mudou por lá nem se registrou nenhum progresso funcional em sua vida. apegando-se aos meios com tal importância que os transforma em fins.com as metas sociais. 201] Essa é a perfeita imagem do ritualista. porque encontram nelas uma forma de realização pessoal. o ritualista abdica das metas. de forma que eu acendia o lampião ao anoitecer e o apagava ao amanhecer. ultrapassadas.

aí a inconformidade do comportamento de rebelião. a seguir. o quadro de classificação dos tipos de comportamento atrás descritos. Exemplo típico desse comportamento é o dos hippies. Comportamentos de Desvio O primeiro comportamento. renunciando a tudo o que ela oferece ou determina. Tal como na evasão. mais simples e ao alcance de todos. Não pára. 202] metas (+) (+) (-) (-) (-) (+) 86. bem como de novos meios. portanto. em especial nos grupos familiar e profissional. porém. mais abundantes e melhor distribuídos na sociedade.Percebendo que as metas sociais são muito elevadas e os meios escassos. Faremos. razão pela qual ao mesmo tempo que é negativo (-) quanto aos meios e metas. uma vez que os seus adeptos buscam as metas culturalmente prescritas através dos meios institucionalizados para atingi-los e com respeito habitual às normas para isso fixadas pela sociedade. os adeptos desse comportamento estão na sociedade mas não são dela. não é de desvio. o conformista. propõe o estabelecimento de novas metas com a institucionalização de novos meios. usando os próprios símbolos de positivo (+) e negativo (-) utilizados por Merton. é também positivo (+). vivem no meio social mas a ele não aderem. que consideram todos os valores sociais irrelevantes ou incapazes de realizar o bemestar humano. podendo ser caracterizado como sendo negativo (-) quanto aos meios e negativo (-) quanto às metas. Ao mesmo tempo que se opõe às metas e aos meios sociais por julgá-las excessivamente elevados e insuficientes. Como acentuou Merton. é a derrubada dos meios e metas existentes. o comportamento de rebelião também está contra as metas e os meios sociais.2. Tipos de comportamento 1) conformista 2) inovacionista 3) ritualista 4) de evasão 5) de rebelião meios (+) (-) (+) (-) (-) (+) [p. ou dele retiram a adesão antes dada. O propósito do comportamento de rebelião. graças ao intenso condicionamento social exercido sobre o indivíduo. . foge da sociedade. Objetiva. uma nova estrutura social. em síntese. É o tipo modal de comportamento. e o estabelecimento de novas metas.

porque ocorre a rejeição das metas culturais e dos valores que as sustentam. não merecem observância. Enfim. por julgá-los inatingíveis. com a recusa de conformidade aos comportamentos socialmente estabelecidos. 203] sa alguma. porque ajustado aos tipos de conduta socialmente recomendados ou aprovados. e quanto aos comportamentos sociais aprovados. O ritualismo toma-se grandemente prejudicial à sociedade quando se trata do comportamento adotado pelos homens públicos do país (administradores. Como bem observou Miranda Rosa (Sociologia do Direito. pois o cumprimento dos ritos estabelecidos pelos processos institucionalizantes adquire a dimensão e a importância de valor sócio-cultural. do desencanto e desestímulo decorrentes do desajuste entre os processos socialmente aprovados para alcançar as metas culturais. posto que. Embora na aparência seja esse um comportamento conformista. mantendo velhas e arcaicas instituições ou disposições legislativas já sem nenhuma adequação às novas realidades sociais. O comportamento de rebelião é o mais extremado de todos.Já os outros quatro tipos de comportamentos são não-modais. Os adeptos desse tipo de comportamento são um peso-morto na sociedade. a atitude de que elas não valem a pena de coi. substituindo-os por outros de maneira total e revolucionária. pretende a derrubada de todos os meios e metas sociais. Prevalece. p. legisladores etc. sem indagar da sua adequação àqueles valores e àquelas metas. No comportamento de evasão também há desvio. os fins sociais perdem a sua importância. ocorre no caso inconformismo quanto à manutenção dos alvos socialmente prescritos. contrários de algum modo aos padrões de metas culturais e de meios institucionalizados para atingi-los: portanto.). O indivíduo abandona e virtualmente rejeita os alvos estabelecidos pela sociedade em razão do fracasso efetivo ou em potencial. não se limita a aperfeiçoar instrumentos ou instituições.[p. que se recusam a fazer mudanças ou reformas sociais necessárias. então. quer substituição total de todos os instrumentos e instituições com o fim de realizar uma mudança . despidos daquela motivação. do medo do insucesso. a conduta ritualista passa a ser. Cumprir de qualquer maneira os regulamentos ou as ordens recebidas. como vimos. considerados todos irrelevantes ou incapazes de realizar o bem-estar humano. 105). quanto às metas culturais. é assim a conduta observada. comportamentos de desvio. O ritualista se caracteriza como comportamento de desvio por apresentar abandono das metas sociais e inversão de valores quanto aos meios que são elevados ao primeiro plano. um valor em si mesmo.

com os movimentos dos sem terra. quando o desequilíbrio entre os meios e metas se toma muito grande e insustentável. a inobservância das regras de conduta social etc. em menor escala. Normalmente se manifesta nos momentos de grandes crises sociais. assim. O desequilíbrio entre metas e meios sociais. desde a juvenil até a mais grave criminalidade. assim. 204] 87. como bem observou Merton. sem teto e outros. em nosso entender. Referimo-nos àqueles casos de inovações que visam criar novos meios. Graças a esse espírito inovador temos hoje a luz elétrica. cria. fazer distinção entre conduta inovadora-criadora e conduta inovadora anti-social. esgota o tema da anomia. De certa forma. que deve ser ressaltado. por sua vez.completa na sociedade. As normas são abandonadas ou contornadas. que acaba provocando comportamentos anômicos de diferentes gravidades. promove uma reação em cadeia. bem como as faltas disciplinares. PALAVRAS FINAIS Nenhuma teoria. verdadeira bola de neve social. razão pela qual deixamos a sua análise para o final. mais eficientes para a realização dos objetivos sociais. . Há. assim foi na Rússia. permitindo-nos. núcleo da teoria de Merton. porque ela tem causas múltiplas. Sem dúvida alguma. é sem dúvida a causa remota da anomia que. Isso evidencia que nem todo comportamento inovacionista é necessariamente contrário à ética existente no grupo social. o inovacionista é o comportamento de desvio de maior freqüência na sociedade. condições específicas para estimular o abandono ou a burla das normas socialmente fixadas para se atingir as metas culturalmente estabelecidas. e atingir os alvos culturalmente estipulados por todo o sistema. e assim continua sendo em nossos dias. entretanto. Nesse desvio de comportamento estão retratadas todas as formas de delinqüência. assim foi em Cuba. o motor à explosão e milhões de outras invenções que tantos benefícios trouxeram à sociedade e nos permitiram chegar ao estágio atual de desenvolvimento científico. Assim foi na França. Dessa maneira a conduta divergente quanto aos meios toma-se no pensamento mertoniano uma reação normal a uma situação social definida e determinada. um aspecto positivo no comportamento inovacionista. com a mesma generalidade com que estabelece as metas. num esforço do indivíduo para superar os obstáculos institucionais ou instrumentais. os instrumentos prescritos ou admitidos para atingi-las. [p. a própria sociedade concorre para isso ao deixar de proporcionar.

como demonstrou o Censo de 2000. Em relação à pesquisa anterior. porque a oportunidade de ascensão social (meios e metas) está condicionada à educação. Sem o diploma do ensino básico. aos poucos inverteram-se os valores. A renda média de chefes de família em favelas é cinco vezes menor que no asfalto. principalmente saneamento: 54. . Pior que tudo. o que equivale a 52% deles. cerca de 700 mil (um quarto) abandonaram a escola antes de concluir o ensino fundamental.01. perderam-se as referências. Em busca de melhores condições de vida. Essa é a realidade social. os líderes comunitários foram obrigados a obedecer ao poder paralelo para não serem mortos ou terem que se mudar. O déficit habitacional no Brasil passa de seis milhões de moradias. estima-se que 1. 28. permitindo o surgimento do crime organizado. em especial as metrópoles. siglas de facções e armas. Os ícones desses adolescentes são marcas famosas. o Estado. Os jovens. como vimos quando tratamos da violência urbana (item 53).Vejamos como isso ocorre. 19. crise na saúde.6 milhões de fluminenses vivem em favelas.2004). E o que isso gera? Crise habitacional. O poder paralelo que assim se instaurou passou a impor as suas próprias regras. em boa parte (40%) nas capitais e suas periferias. crise de desemprego. crise de transporte. 205] comportamento anômico. Dos 2. armados. praticamente em quatro décadas. o número de moradias em favelas cresceu 35%. Considerando-se o número de domicílios cadastrados em favelas no Estado do Rio (424. seduzidos pelo tráfico. E além disso. cerca de 12% da população do estado (O Globo. Esse processo de urbanização aconteceu de forma desordenada e acelerada. gerando dúvidas na população quanto às normas a serem observadas (conflito de normas). não se prepararam para receber tamanha massa humana. mudaram-se os paradigmas. As cidades. agressivos.6 milhões de jovens de 15 a 24 anos que vivem no Estado do Rio.07. Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE. não conseguiu se fazer presente nas áreas urbanas favelizadas. feita em 2001 e concluída em novembro de 2003. vivem a ilusão de poder. vivem brincando de polícia e ladrão.1% dos domicílios são semi-adequados ou inadequados.181) e a média de quatro pessoas por habitação. na educação e assim por diante. forma mais grave de [p. constatou que as favelas estão presentes em 48 dos 92 municípios fluminenses. cerca de 91% da população brasileira vive em cidades. São viciados. e o resultado foi a favelização de áreas urbanas. significa que ele está à margem da sociedade. Isto não quer dizer que ele vai virar bandido. de 1999.2002). segundo dados do Censo 2000 do IBGE (O Globo. o jovem está fora do mercado formal. há enormes carências de infra-estrutura.

mais cedo ou mais tarde acaba vindo a rebelião. enfim. ou seja. O delegado Carlos Henrique Machado. que têm nas mãos o destino da sociedade. Para maior profundidade do tema. Devem eles possuir um espírito inovador (e não ritualista) para realizar as reformas sociais necessárias nas leis. reduzir as desigualdades. Atuação mais firme e organizada da polícia. Mas não resolverão o problema. vivem do comércio de droga. pois o desequilíbrio se torna tão grande que não se depara a socie. assim. eliminar a exclusão social. para que os moradores tenham medo de denunciá-los. 206] dade com outra solução. então. e. A questão tem que ser enfrentada com medidas a curto. médio e longo prazo. É preciso promover as mudanças sociais necessárias nas instituições. não existe solução única e milagrosa. É preciso cortar o mal pela raiz. ao alcance da maioria. de Miranda Rosa. Quando isso não é feito. por isso. aprimorar a educação. determinação política das autoridades são. na ordem econômica para melhorar a distribuição de rendas. promover ações afirmativas. a reconquista dos espaços perdidos pelo Estado. três mil pessoas. da Delegacia de Homicídios. KatMartins . a não ser aquela de promover uma total reorganização. constatou que o número de jovens (menores de 18 anos) que trabalham para o tráfico pode chegar a sete mil. uma das principais qualidades dos homens públicos. nas leis. A. nas instituições. medidas imediatas a serem tomadas. dentre outras. Se essa é a realidade social. obra pioneira no Brasil. diminuir o desequilíbrio entre metas e meios sociais. A inovação deve ser. reeditada sucessivas vezes pela Editora Zahar. estabelecendo novas metas e institucionalizando novos meios.[p. e não apenas arrancar as suas folhas. pelo menos 10%. recomendamos a leitura do Capítulo XI da notável Sociologia do Direito do Professor F. tornar as metas mais acessíveis e os meios melhor distribuídos. afirma que atualmente a prática nos morros é a intimidação: tortura. na distribuição da riqueza. orientar o planejamento familiar. esquartejamento e incineração de corpos fazem parte do terror que esses traficantes impõem nas favelas. Numa favela de 30 mil pessoas.Levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (IBISIS). Com o tempo revelar-se-ão paliativas. o que fazer para modificá-la? A toda evidência.

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