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Manual do Atendimento Pré-Hospitalar – SIATE /CBPR

CAPÍTULO 8
VIAS AÉREAS

1. Aspectos Anatômicos e Funcionais

As vias aéreas têm como função principal conduzir o ar entre o meio ambiente e os
pulmões (alvéolos pulmonares), proporcionando a entrada de ar filtrado, aquecido e rico
em oxigênio, assim como a saída de ar rico
em dióxido de carbono do aparelho respirató-
rio, participando assim do processo da respi-
ração. Dividem-se em vias aéreas superiores
e vias aéreas inferiores:

1.1. Vias Aéreas Superiores:

● Cavidade nasal (nariz);

● Cavidade oral (boca);

● Faringe (Nasofaringe, orofaringe


e laringofaringe ou hipofaringe. Destas
três, a nasofaringe é exclusivamente
via aérea, a laringofaringe é exclusiva-
mente via digestiva e a orofaringe é um
caminho comum ao ar e aos alimen-
tos.);
Fig. 8.1 - Vias aéreas.

1.2. Vias Aéreas Inferiores:

● Laringe.

● Traquéia;

● Brônquios/bronquíolos;

● Pulmões/alvéolos pulmonares.

O acesso às vias aéreas superiores é


direto e sua visualização é quase completa,
exceto pela nasofaringe (região posterior à ca-
vidade nasal e póstero-superior à úvula -
"campainha”).
Fig. 8.2 - Vias aéreas superiores.

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Vias Aéreas

As vias aéreas superiores terminam e


as inferiores têm início na laringe, com a epi-
glote, estrutura que protege a abertura das
vias aéreas inferiores, obstruindo-a durante o
reflexo de deglutição e abrindo-a para a pas-
sagem do ar. Seu acesso e visualização de-
pendem de procedimento médico denominado
laringoscopia.

2. Obstrução de Vias Aéreas

O atendimento pré-hospitalar da vítima


de trauma tem por objetivo, após rápida verifi-
cação do mecanismo de trauma e das condi-
ções de segurança no local, prestar suporte Fig. 8.3 - Vias aéreas inferiores.
básico e avançado de vida, iniciando-se com
a avaliação de vias aéreas (A). Esse processo denominado avaliação primária ou “ABCD”
prioriza a abordagem das vias aéreas que, se estiverem comprometidas, de imediato afe-
tam as funções vitais – respiração (B) e circulação (C).

Um processo de pensamento organizado e condicionado referente aos passos da


avaliação primária, impedirá o socorrista de ter sua atenção voltada para alterações mais
evidentes e menos urgentes, como ferimentos e fraturas, despercebendo-se de alterações
nas vias aéreas, principalmente em se tratando de vítima inconsciente.

A avaliação e o controle das vias aéreas se fazem mediante condutas rápidas e


simples, não exigindo inicialmente qualquer equipamento, bastando a aplicação de técni-
cas manuais de controle e desobstrução, sem a necessidade de aguardar equipamentos
ou pessoal.

Entende-se por obstrução de vias aéreas toda situação que impeça total ou parcial-
mente o trânsito do ar ambiente até os alvéolos pulmonares. A restauração e manutenção
da permeabilidade das vias aéreas nas vítimas de trauma são essenciais e devem ser fei-
tas de maneira rápida e prioritária.

A vítima de trauma pode ter as vias aéreas comprometidas direta ou indiretamente


por mecanismos distintos, sendo os principais os enumerados a seguir:

2.1. Inconsciência

A causa mais freqüente de obstrução de vias aéreas em vítimas de trauma é a in-


consciência, provocando o relaxamento da língua que se projeta contra a orofaringe (fun-
do da garganta) da vítima em decúbito dorsal, impedindo a passagem de ar das vias aére-
as superiores para as inferiores. Geralmente é causada por trauma cranioencefálico, cho-
que ou situações clínicas. A inconsciência também favorece o refluxo do conteúdo gástri-
co seguido de broncoaspiração.

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2.2. Trauma Direto Sobre Vias Aéreas

Trauma direto sobre as vias aéreas, causando sangramento em seu interior, com-
pressão externa por edema e/ou hematomas e fraturas da árvore laringotraqueobrônqui-
ca, e/ou broncoaspiração de dentes fraturados.

2.3. Queimaduras em Vias Aéreas

Queimaduras em vias aéreas podem produzir inflamação e edema de glote e de


vias aéreas inferiores.

2.4. Corpo Estranho em Vias Aéreas

Fragmentos de próteses dentárias, alimentos, balas, chicletes e pequenos objetos


podem causar obstrução de vias aéreas em diferentes níveis.

3. Obstrução de Vias Aéreas por Corpo Estranho (OVACE)

3.1. Causas

3.1.1. Causas de OVACE em Adultos

Embora a perda de consciência seja a causa mais freqüente de obstrução de vias


aéreas, a obstrução por corpos estranhos pode ser causa de perda de consciência e pa-
rada cardiopulmonar. A eventualidade de corpos estranhos obstruírem vias aéreas em
pessoas conscientes ocorre mais freqüentemente durante as refeições, sendo a carne a
causa mais comum. Outras causas de obstrução: próteses dentárias deslocadas, frag-
mentos dentários, chicletes e balas.

A obstrução de vias aéreas pelo conteúdo regurgitado do estômago pode ocorrer


durante a parada cardiopulmonar ou nas manobras de reanimação cardiopulmonar. Pes-
soas com nível de consciência alterado também correm risco de obstrução de vias aéreas
pela aspiração de material vomitado.

3.1.2. Causas de OVACE em Crianças

Em crianças a principal causas de obstrução de vias aéreas é a aspiração de leite


regurgitado ou de pequenos objetos. Outras causas freqüentes são alimentos (balas, chi-
cletes, etc.) e causas infecciosas (epiglotite). Neste último caso, a presença do médico ou
o transporte imediato para o hospital se fazem imperiosos.

Os lactentes (até 1 ano de idade) são as principais vítimas de morte por aspiração
de corpo estranho na faixa etária pediátrica.

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Vias Aéreas

3.2. Reconhecimento

O reconhecimento precoce da obstrução de vias aéreas é indispensável para o su-


cesso no atendimento. O socorrista deve estar atento, pois a obstrução de vias aéreas e
conseqüente parada respiratória rapidamente evolui para parada cardiopulmonar.

A obstrução das vias aéreas pode ser parcial (leve) ou total (grave). Na parcial, a
vítima pode ser capaz de manter boa troca gasosa, caso em que poderá tossir fortemen-
te, apesar dos sibilos entre as tossidas. Enquanto permanecer uma troca gasosa satisfa-
tória, encorajar a vítima a persistir na tosse espontânea e nos esforços respiratórios, sem
interferir nas tentativas para expelir o corpo estranho.

A troca insuficiente de ar é indicada pela presença de tosse ineficaz e fraca, ruídos


respiratórios estridentes ou gementes, dificuldade respiratória acentuada e, possivelmen-
te, cianose. Neste ponto, iniciar o manejo da obstrução parcial como se houvesse obstru-
ção total.

Em adultos, a obstrução por corpo estranho deve ser suspeitada em toda vítima
que subitamente pare de respirar, tornando-se
cianótica e inconsciente, sem razão aparente.
Deve-se tomar cuidado na diferenciação de
OVACE e parada cardiorespiratíria (ver capí-
tulo específico – Ressuscitação Cardiopulmo-
nar).

Em crianças a OVACE deve ser suspei-


tada nos seguintes casos: dificuldade respira-
tória de início súbito acompanhada de tosse,
respiração ruidosa, chiado e náusea. Se essa
obstrução se tornar completa, ocorre agrava-
mento da dificuldade respiratória, cianose e
perda de consciência.

3.2.1. Reconhecimento de OVACE


em Vítima Consciente

A obstrução total das vias aéreas é re-


conhecida quando a vítima está se alimentan- Fig. 8.4 - Vítima agarrando o pescoço. Sinal de
do ou acabou de comer e, repentinamente, asfixia por obstrução de vias aéreas.
fica incapaz de falar ou tossir. Pode demons-
trar sinais de asfixia, agarrando o pescoço, apresentando cianose e esforço respiratório
exagerado. O movimento de ar pode estar ausente ou não ser detectável. A pronta ação é
urgente, preferencialmente enquanto a vítima ainda está consciente.

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Em pouco tempo o oxigênio disponível nos pulmões será utilizado e, como a obs-
trução de vias aéreas impede a renovação de ar, ocorrerá a perda de consciência e, rapi-
damente, a morte.

3.2.2. Reconhecimento de OVACE em Vítima Inconsciente

Quando um adulto for encontrado inconsciente por causa desconhecida, suspeitar


de parada cardiopulmonar por infarto, acidente vascular ou hipóxia secundária à obstru-
ção de via aérea. Ele será avaliado pensando-se em parada cardiopulmonar, deixando
para fazer o manejo de desobstrução de vias aéreas apenas se o fato se evidenciar. Tra-
tando-se de criança, devemos suspeitar imediatamente de OVACE.

4. Desobstrução de Vias Aéreas

Os métodos de desobstrução de vias aéreas dividem-se em dois tipos, conforme a


natureza da obstrução: obstrução por líquido (rolamento de 90º e aspiração) ou obstrução
por sólido (remoção manual e manobras de desobstrução).

4.1. Obstrução por Líquido

4.1.1. Rolamento de 90º

Esta manobra consiste em lateralizar a


vítima em monobloco, trazendo-a do decúbito
dorsal para o lateral, com o intuito de remover
secreções e sangue das vias aéreas superio-
res.

Estando a vítima na cena do acidente,


ainda sem intervenção do socorrista, ou seja,
sem qualquer imobilização (colar cervical e tá-
bua), havendo a necessidade da manobra,
esta deverá ser realizada com controle cervi-
Fig. 8.5 - Rolamento de 90º com um socorrista.
cal manual. Manobra de emergência para remoção de líqui-
dos de de vias aéreas.
Estando a vítima já imobilizada em tá-
bua, proceder a manobra mediante a lateralização da própria tábua.

4.1.2. Aspiração

A aspiração de secreções e sangue pode ser realizada ainda na cena do acidente,


mediante uso de aspiradores portáteis, ou no interior da ambulância, pelo uso de aspira-
dores fixos. Os aspiradores devem promover vácuo e fluxo adequado para sucção efetiva
da faringe, através de sondas de aspiração de vários diâmetros.

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A unidade de sucção fixa instalada deve ter potência suficiente para um fluxo de 30
litros por minuto na extremidade final do tubo de entrada e um vácuo acima de 300 mm de
mercúrio quando o tubo é fechado. Controlar a pressão de sucção em crianças e vítimas
intubadas. Para a sucção traqueal, utilizar um tubo em "V" ou ''T', com abertura lateral
para controlar a aspiração intermitente.

Quando aspirando a boca ou a faringe, mover o cateter de sucção de tal modo que
atinja todas as áreas acessíveis, evitando que se fixe na mucosa e perca sua eficácia.

A inserção pode ser continuada lentamente, com movimentos rotatórios do cateter,


enquanto houver material a ser aspirado. Cuidado ao utilizar cateteres duros, para evitar
trauma da laringe. Aplicar a sucção por períodos de no máximo 05 segundos de cada vez,
alternando-a com o suporte ventilatório.

4.2. Obstrução por Sólido

4.2.1. Remoção Manual

Durante a avaliação das vias aéreas, o


socorrista pode visualizar corpos estranhos,
passíveis de remoção digital. Somente remo-
ver o material que cause obstrução se for visí-
vel.

É difícil o uso dos dedos para remover


corpos estranhos das vias aéreas. Em muitos
casos é impossível abrir a boca da vítima e in-
serir os dedos para esse propósito, a menos
que a vítima esteja inconsciente. Em alguns
casos, especialmente envolvendo crianças e Fig. 8.6 - Avaliação de vias aéreas. Socorrista
lactentes, um dedo adulto pode aprofundar o verifica se há corpos estranhos na cavidade oral
da vítima.
corpo estranho, causando a obstrução com-
pleta.

A técnica de remoção manual consiste em abrir a boca da vítima utilizando a mano-


bra de tração da mandíbula ou a de elevação do mento (abordadas à frente) e retirar o
corpo estranho com o indicador “em gancho”, deslocar e retirar o corpo estranho. Estando
o corpo estranho mais aprofundado, existe a alternativa de utilizar os dedos indicador e
médio “em pinça”. Em recém-nato e lactente, utilizar o dedo mínimo em virtude das di-
mensões reduzidas das vias aéreas. Somente tentar a remoção se o corpo estranho esti-
ver visível; se não, está contra-indicada a procura do material com os dedos.

4.2.2. Manobras de Desobstrução de Vias Aéreas em Adultos

São manobras realizadas manualmente para desobstruir vias aéreas de sólidos


que lhe ficarem entalados.

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Para vítimas inconscientes deve ser aplicada a manobra de ressuscitação cardio-


pulmonar, pois as compressões torácicas forçam a expelição do corpo estranho e mantém
a circulação sangüínea, aproveitando o oxigênio ainda presente no ar dos pulmões.

Para vítimas conscientes usa-se uma das seguintes técnicas:

4.2.2.1. Compressão Abdominal

Também chamada manobra de Heimli-


ch, consiste numa série de quatro compres-
sões sobre a região superior do abdômen, en-
tre o apêndice xifóide e a cicatriz umbilical.

● Vítima em pé ou sentada:

1) Posicionar-se atrás da vítima,


abraçando-a em torno do abdômen;

2) Segurar o punho da sua outra


mão e aplicar compressão contra o
abdômen, entre o apêndice xifóide e a
cicatriz umbilical no sentido superior
(tórax), por quatro vezes; Fig. 8.7 - Manobra de Heimlich para desobstru-
ção de vias aéreas (obstrução por corpo sólido).
3) Estando a vítima em pé, ampliar Vítima consciente e em pé.
sua base de sustentação, afastando as
pernas, e posicionar uma entre as per-
nas da vítima, para evitar-lhe a queda
caso fique inconsciente.

● Vítima deitada:

1) Posicionar a vítima em decúbito


dorsal;

2) Ajoelhar-se ao lado da vítima, ou


a cavaleiro sobre ela no nível de suas
coxas, com seus joelhos tocando-lhe
lateralmente o corpo;

3) Posicionar a palma da mão (re-


gião tenar) sobre o abdômen da vítima,
entre o apêndice xifóide e a cicatriz Fig. 8.8 - Vítima torna-se inconsciente durante a
manobra. Socorrista evita-lhe a queda.
umbilical, mantendo as mãos sobre-
postas;

4) Aplicar quatro compressões abdominais no sentido do tórax.

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4.2.2.2. Compressão Torácica

A compressão torácica é utilizada


quando a compressão abdominal é inviável
ou contra-indicada, como nos casos de obesi-
dade com circunferência abdominal muito lar-
ga e gestação próxima do termo. Consciente
em uma série de quatro compressões toráci-
cas sobre o terço inferior do esterno, logo aci-
ma do apêndice xifóide.

● Vítima em pé ou sentada:

1) Posicionar-se atrás da vítima,


abraçando-a em torno do tórax;

2) Segurar o punho da sua outra Fig. 8.9 - Após a vítima ter ficado inconsciente
mão e aplicar compressão contra o es- durante a manobra de Heimlich, rapidamente o
socorrista a deposita sobre o solo para, caso não
terno, acima do apêndice xifóide, por tenha ocorrido a desobstrução das vias aéreas,
quatro vezes; dar início ás compressões torácicas.

3) Estando a vítima em pé, ampliar


sua base de sustentação, afastando as
pernas, e posicionar uma entre as per-
nas da vítima, para evitar-lhe a queda
caso fique inconsciente.

● Vítima deitada:

1) Posicionar a vítima em decúbito


dorsal;

2) Ajoelhar-se ao lado da vítima; Fig. 8.10 - O socorrista, após constatar que as


vias aéreas continuam obstruídas, dá início às
3) Aplicar quatro compressões to- compressões torácicas.
rácicas como na manobra de ressusci-
tação cardiopulmonar - RCP;

4.2.3. Manobras de Desobstrução de Vias Aéreas em Crianças

A remoção manual de material que provoque obstrução sem ser visualizado não é
recomendada.

Para crianças maiores de um ano, aplicar a manobra de Heimlich, de forma seme-


lhante à do adulto; nos lactentes, uma combinação de palmada nas costas (face da crian-
ça voltada para baixo) e compressões torácicas (face voltada para cima), sempre apoian-
do a vítima no seu antebraço; mantenha-o com a cabeça mais baixa que o tronco, próxi-
mo a seu corpo.

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● Técnica:

1) Utilizar a região hipotenar das


mãos para aplicar até 05 palmadas no
dorso do lactente (entre as escápulas);

2) Virar o lactente segurando fir-


memente entre suas mãos e braços
(em bloco);

3) Aplicar 05 compressões toráci-


cas, como na técnica de reanimação
cardiopulmonar (comprima o tórax com Fig. 8.11 - Inspeção visual das vias aéreas (VA)
02 dedos sobre o esterno, logo abaixo de lactente, a procura de corpos estranhos.
da linha mamilar).

Os passos da manobra de Heimlich


para crianças maiores e os da combinação de
palmada nas costas com compressões toráci-
cas para lactentes devem ser repetidos até
que o corpo estranho seja expelido ou a víti-
ma fique inconsciente. Neste caso, proceder
as manobras de abertura de vias aéreas, re-
petir os passos de desobstrução iniciar mano-
bras de RCP.
Fig. 8.12 - Desobstrução de VA de lactente – 05
palmadas no dorso, entre as escápulas.
5. Métodos de Controle de Vias Aéreas

Os métodos de controle de vias aéreas


são de três tipos: manual , mecânico e cirúrgi-
co, sendo que o método mecânico se subdivi-
de em básicos, avançados e alternativos.

A causa mais comum de obstrução de


vias aéreas é a inconsciência de qualquer na-
tureza e, na grande maioria dos casos, os
métodos manuais conseguem promover e
manter a permeabilidade das vias aéreas.
Fig. 8.13 - Desobstrução de VA de lactente – 05
compressões torácicas.
5.1. Métodos Manuais

5.1.1. Manobra de Tração de Mandíbula (Jaw-Thrust)

Essa técnica tem como vantagem o fato de não mobilizar a coluna cervical, visto
que promove a desobstrução das vias aéreas por projetar a mandíbula anteriormente,
deslocando também a língua.

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Vias Aéreas

Como desvantagem, é tecnicamente


mais difícil de executar, se comparada à ma-
nobra de inclinação da cabeça e elevação do
mento, além de não permitir que o socorrista
(estando sozinho) continue a avaliação da ví-
tima, visto que estará com as duas mãos en-
volvidas na manutenção da manobra.

Executar da seguinte forma:

1) Apoiar a região tenar da mão


sobre a região zigomática da vítima, Fig. 8.14 - Manobra de tração de mandíbula.
bilateralmente, estando posicionado na
sua "cabeceira";

2) Colocar a ponta dos dedos indicador e médio atrás do ângulo da mandíbula,


bilateralmente, exercendo força suficiente para deslocá-Ia anteriormente;

3) Apoiar os polegares na região


mentoniana, imediatamente abaixo do
lábio inferior, e promover a abertura da
boca.

5.1.2. Manobra de Inclinação da Ca-


beça e Elevação do Mento (Chin Lift)

Essa técnica tem como vantagens ser


tecnicamente mais fácil de executar se com-
parada à manobra de tração de mandíbula e o
Fig. 8.15 - Obstrução de vias aéreas por relaxa-
socorrista, mesmo sozinho, consegue manter mento da língua que se projeta contra a orofarin-
a manobra sem perder o controle cervical. ge (fundo da garganta).

Executar da seguinte forma:

1) Manter o controle cervical com


uma das mãos posicionada sobre a re-
gião frontal da vítima;

2) Posicionar o polegar da outra


mão no queixo e o indicador na face in-
ferior do corpo da mandíbula;

3) Pinçar e tracionar anteriormente


Fig. 8.16 - Desobstrução de vias aéreas utilizan-
a mandíbula, promovendo movimento do a manobra de inclinação da cabeça e eleva-
discreto de extensão da cabeça, o sufi- ção do mento.
ciente para liberar as vias aéreas.

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Após a realização de qualquer das manobras manuais, o socorrista deve observar


a cavidade oral e, somente caso visualize qualquer corpo estranho este deve ser removi-
do. Em caso de corpos líquidos deve ser executado o rolamento de 90º ou a aspiração.

5.2. Métodos Mecânicos

5.2.1. Básicos

5.2.1.1. Cânula Orofaríngea

Também conhecida como cânula de


Guedel, é um dispositivo destinado a manter
pérvia a via aérea superior em vítimas incons-
Fig 8.17 – Cânulas orofaríngeas, também conhe-
cientes. Introduzida em vítima consciente ou cidas como cânulas de Guedel.
em estupor, pode produzir vômito ou laringo-
espasmo. É necessário cuidado na colocação
da cânula, porque a inserção incorreta pode
empurrar a língua para trás, na faringe, e pro-
duzir obstrução de via aérea, manifestada por
troca insuficiente de ar, indicada por tosse ine-
ficaz e fraca, ruídos respiratórios estridentes,
dificuldade respiratória acentuada e até mes-
mo cianose (cor azulada de pele, unhas e lábi-
os).

A cânula orofaríngea está disponível Fig 8.18 – Identificação do tamanho adequado


em medidas para recém-natos, crianças e da cânula orofaríngea.
adultos. O melhor modo de identificar o tama-
nho adequado da cânula é segurá-Ia ao lado
da face da vítima, com a extremidade inferior
tocando o ângulo da mandíbula, logo abaixo
do lóbulo da orelha e estender a outra extre-
midade até a comissura labial.

Inserir a cânula com a concavidade


para cima, dirigindo sua extremidade para o
palato duro ("céu da boca"), logo atrás dos
dentes incisivos superiores. Não permitir que
a cânula toque o palato, aplicando um movi-
mento de rotação helicoidal de 180º (em pa- Fig 8.19 – Manobra de tração de mandíbula.
rafuso) sobre ela mesma, posicionando-a so-
bre a língua. Um abaixador de língua pode ser útil para impedir que a cânula empurre a
língua para trás durante sua inserção.

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Vias Aéreas

Em crianças pequenas, a cânula de Guedel é inserida diretamente sobre a língua,


com a concavidade para baixo, sem a rotação de 180º. Dessa forma evitam-se traumati-
zar dentes e palato.

5.2.1.2. Cânula Nasofaríngea

É um dispositivo confeccionado em látex, mais flexível e de menor diâmetro que a


cânula orofaríngea, em virtude de sua inserção através da cavidade nasal. Bem lubrifica-
da, introduzi-Ia numa das narinas (naquela que aparentemente não esteja obstruída) e,
delicadamente, introduzi-la até a orofaringe. A cânula nasofaríngea é preferível à orofarín-
gea na vítima consciente, por ser melhor tolerada e menos propensa a induzir vômitos.
Durante a inserção, encontrando obstáculo na progressão da cânula, interromper imedia-
tamente o procedimento, tentando a seguir introduzi-la através da outra narina.

Fig 8.20 – Cânulas nasofaríngeas. Fig 8.21 –Cânula nasofaríngea inserida.

5.2.2. Avançado

5.2.2.1. Intubação Endotraqueal

Procedimento médico que se define


como via aérea definitiva, através da inserção
de cânula endotraqueal por via oral ou nasal.
É o meio mais efetivo de proteção de vias aé-
reas contra aspiração e permite uma ventila-
ção pulmonar adequada.

Esse procedimento está indicado quan-


do não se consegue manter via aérea per-
meável por outros métodos ou se pretendem
proteger as vias aéreas inferiores contra a as-
piração de sangue ou vômito.
Fig 8.22 –Intubação endotraqueal.

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Dessa forma consegue-se manter uma melhor ventilação da vítima utilizando balão
auto-inflável (ambu) ou respirador para manter ventilação artificial enriquecida com oxigê-
nio.

O socorrista deve conhecer o material necessário para a intubação traqueal, objeti-


vando auxiliar o médico nesse procedimento:

● Cânulas endotraqueais (nos 2,5 a 9,0);

● Laringoscópio (cabo e lâminas de nos 0 a 4)

● Pinças de Magill (adulto e infantil);

● Guia;

● Cadarço (para fixação da cânula);

● Seringa (para insuflar o ".cuff').

5.2.3. Alternativos

5.2.3.1. Obturador Esofágico

É um dispositivo composto de uma máscara facial que cobre boca e nariz, adapta-
da a um tubo com balonete na extremidade oposta. O tubo é passado por via oral e se lo-
calizará no esôfago, o qual será obliterado pela insuflação do balonete. A vitima será ven-
tilada através da máscara que deve estar bem adaptada à sua face.

5.2.3.2. Combitube

O Combitube é um tubo de du-


plo lúmem com 02 balonetes (proximal
orofaríngeo e distal). Um lúmem se
assemelha ao obturador esofágico,
com fundo cego e perfurações laterais
na altura da faringe. O outro lúmem
apresenta a extremidade distal aberta
similar ao um tubo traqueal convencio-
nal. O Combitube é introduzido às ce-
gas e permite adequada ventilação in-
dependentemente de sua posição ser Fig 8.23 – Visão lateral do combitube.
esofágica ou traqueal.

5.2.3.3. Máscara Laríngea

A Máscara Laríngea é um tubo semicurvo, que se inicia em um conector padrão e


termina em uma pequena máscara com um suporte periférico inflável, que forma uma ve-

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dação à volta da entrada da laringe. Sua inserção é muito rápida e dispensa a laringosco-
pia.

5.3. Método Cirúrgico

5.3.1. Cricotireoidostomia

Procedimento médico que se define


como via aérea definitiva cirúrgica, por meio
de inserção de agulha ou cânula traqueal
através da membrana cricotireoidea (primeiro
sulco transversal abaixo do "pomo de Adão",
Fig 8.24 – Máscara laríngea posicionada.
na face anterior do pescoço).

Esse procedimento está indicado quando não é factível a intubação traqueal, como,
por exemplo, nos casos de edema de glote, fratura de laringe, ferimentos faciais graves
ou grande hemorragia orofaríngea.

5.3.2. Traqueostomia

Procedimento médico através do qual se estabelece um orifício artificial na


traquéia, abaixo da laringe, indicado em emergências.

Trata-se de um procedimento simples. O pescoço do paciente é limpo e coberto e


logo são feitas incisões para expor os anéis cartilaginosos que formam a parede externa
da traquéia. Posteriormente são cortados dois desses anéis, resultando num orifício, atra-
vés do qual é inserida uma cânula.

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