analise obra completa murilo rubião

Gláuks v. 7 n.

1 (2007) 102-118

MURILO RUBIÃO E A RENOVAÇÃO ARTÍSTICA NA LITERATURA BRASILEIRA

Adriana dos Santos Teixeira*

RESUMO: Este trabalho tem como propósito reunir discussões da crítica literária no que tange ao início da carreira do contista mineiro Murilo Rubião (1916-1991) uma vez que sua produção literária, do ponto de vista geográfico temporal, apareceu de maneira incomum. A fundamentação teórica de Todorov, Schwartz, Candido e Arrigucci possibilitam um diálogo com este estudo, ao sintetizar o movimento literário do período anterior e atual à década de 40, época em que Murilo Rubião inicia sua carreira literária. PALAVRAS-CHAVE: Tradição literária; inovação literária; Murilo Rubião; precursor; literatura fantástica. pesar de a crítica literária ter sempre apontado a dívida literária do contista mineiro Murilo Rubião com o escritor tcheco Franz Kafka, a preferência pelo fantástico, segundo o próprio contista, “foi herança da infância, das intermináveis leituras de contos de fadas, do Dom Quixote, da História Sagrada e das Mil e uma Noites” (RUBIÃO apud SHWARTZ, 1982: 3).

A

*

Mestre em Teoria Literária e Crítica da Cultura, pela Universidade Federal de São João del-Rey.

portanto. renovaram. 1976: 122). segundo Lucas [. Os ficcionistas. Para Lucas. Lucas destaca Murilo Rubião e Breno Accioly. Isso ocorreu devido à “crise do romance. salienta a situação do conto brasileiro. . nessa mesma época.. aprimorou-se o gosto das soluções no plano verbal. o que os outros escritores. Guimarães Rosa. afirmando que a valorização do conto no Brasil aconteceu de certa forma depois da Segunda Guerra Mundial. a tradição literária brasileira. dentre outros ficcionistas.] “preferem. situações dramáticas de curta duração e psicológicas adaptadas às contingências do momento de intensidade emocional. E ainda afirma que só leu a obra completa de Kafka quando trabalhou na Embaixada Brasileira na Espanha. estavam produzindo enquanto Murilo escrevia contos fantásticos. 105). Clarice Lispector e Murilo Rubião. Além do mais. p. Fábio Lucas. ao indivíduo. mas também com relação à mudança de ponto de vista em relação à realidade que se cria com a expressão literária. em seu livro O caráter social da literatura brasileira. A inovação artística “não se limita apenas à mudança de ponto de vista em relação à sociedade. no último capítulo. à natureza e às situações dramáticas da vida” (Op. intitulado “Ficção brasileira contemporânea”. o escritor mineiro declarou que conhecera a obra do escritor tcheco somente quando já havia escrito seus três primeiros livros. O “início da renovação do conto brasileiro pode ser marcado com a obra O Ex-Mágico de Murilo Rubião”.. modernamente. desta mesma época ou até um pouco antes. cit.Murilo Rubião e a Renovação Artística na Literatura Brasileira 103 De acordo com Vera Lúcia Andrade (1985).. Contistas por excelência. É importante pensar. entre 1956 e 1960. a arte da ficção se tornou mais ‘literária’” (Ibidem). manifestada em todo o mundo no após-guerra” (LUCAS.

isto é. no século XIX (1836-1870) o Romantismo e no século XX (1922-1945) o Modernismo representaram dois momentos decisivos na literatura brasileira. pois a arte de Murilo Rubião era inaugural. por meio de uma literatura que integrasse os problemas do momento através de um rígido compromisso ao local. p.. seus contos insólitos. Para o autor. o Simbolismo. o libertino. depois de 1940 ou. O Lustre. são os anos 1940 em diante. até chegar ao Modernismo. neste trabalho. ao lado dos escritores que corroboravam para produzir uma literatura universalmente valiosa. de seu livro Literatura e sociedade. 116). o Naturalismo. Durante essa fase. Sendo assim. Um ano antes do lançamento de O Ex-Mágico. um pouco antes. especialmente. Ninguém entendia a arte deste contista. 2000. o folclórico. época em que Murilo Rubião estava produzindo. e um novo anseio generalizador. o populista. 40). mesmo que timidamente. no texto “Literatura e cultura de 1900 a 1945”. o Modernismo diminui a força no que tange o regionalismo. cit. p. O que vai interessar. Não era para menos.104 Gláuks publicada em 1947. Para Candido: . eram perceptíveis elementos que constituíam um novo período na literatura. pois a partir de 1940. houve rejeição do local considerado apenas “pitoresco e extra literário. até mesmo. traça uma síntese do movimento literário deste período. procurando fazer da expressão literária um problema de inteligência formal e de pesquisa interior” (CANDIDO. por isso. ele discute o Romantismo. desorientava a todos. Guimarães Rosa publicara Sagarana e Clarice Lispector. O contista era um caso de originalidade e. Segundo Candido. afirma o crítico (Op. Antonio Candido. manifestando maior preocupação com a forma ou esforço antisectário no conteúdo (Ibidem).

1944.. na Revista Planeta em 25 de setembro de 1974. p. cujos primeiros livros são de 1930. os contos de Murilo Rubião.Murilo Rubião e a Renovação Artística na Literatura Brasileira 105 [.] é o momento em que os próceres dos dois decênios publicam algumas das suas melhores produções (Fogo Morto. mostrou sua singularidade dentro da literatura brasileira.] No romance. José Geraldo Vieira. ambos de 1943. é significativo o êxito de um veterano.. O lustre. É verdade que naquela época ainda não se imaginava o “realismo mágico” que. cuja obra é revalorizada depois da publicação. em seu texto intitulado “O Fantástico em Murilo Rubião”1. as melhores vozes ainda nos vêm de antes. de A quadragésima porta [. “desengajada de qualquer movimento 1 Este texto fora publicado. assim como a temática dos seus contos. prémodernista e modernista da primeira hora [. 1949) ou Vinícius de Morais (Poemas. ou Manuel Bandeira. mostra que a obra de Murilo aparece de forma insólita. considerando o contista como pioneiro na narrativa fantástica na literatura brasileira. foi publicado no Suplemento Literário do Minas Gerais. desde o seu primeiro livro. para não citar Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade. “no final dos anos 60. O crítico.. 116-117). No final da década de 40. conforme frisa Humberto Werneck (WERNECK. No Brasil não existia uma tradição fantástica quando o contista. com a de Henriqueta Lisboa (Flor da morte. primeiramente. isto é. ficaria sendo o selo da literatura latino-americana”. por exemplo. Sentimento do mundo e Rosa do povo. 1987:12). . 1946) (Op. quase um mês depois. a literatura brasileira ganha algo realmente novo.] Em poesia. cit.. o de Clarice Lispector (Perto do coração selvagem.. Jorge Schwartz. destaca a situação de Murilo na história das letras brasileiras..] Não menos significativo. em 1943.. Em 19 de outubro de 1974. através de Jorge Luís Borges. em 1940 e 1946) [. Júlio Cortazar e Gabriel García Márquez. sonetos e baladas.. de Carlos Drummond de Andrade. de Jorge Amado. 1946). de José Lins do Rego e Terra do sem-fim.

afirma que Murilo.1). o fantástico em Murilo Rubião está no cotidiano e não há rupturas no decorrer da narrativa ou provocação de suspense no leitor. “escreveu adiantado e . Dragões. Werneck lembra as palavras de Eliane Zagury. por sua extraordinária singularidade dentro da literatura brasileira” (WERNECK. Em seguida. abrindo o Especial 1. 2 e 3). 1974: 7) no que se refere aos aspectos vanguardistas do ponto de vista geográfico temporal.106 Gláuks literário no Brasil” (SCHWARTZ. p. quando fala que o mineiro. 1987: 6). desde seu primeiro livro. em 1987. mas não há mais o clássico “enigma” a ser desvendado no final” (Ibidem). as palavras de Fábio Lucas quando faz uma observação curiosa: “A ficção de Murilo não tinha qualquer conexão com o que se fala no Brasil”. cita. risco de não dar certo. no Suplemento Literário do Minas Gerais. “não se parece com ninguém que veio antes” (MOURÃO. coelhos e cangurus falam. seguindo o mesmo pensamento. 1987: 12). Jorge Schwartz declara que a “total ausência de uma tradição narrativa fantástica no Brasil cria um impasse quanto à definição do gênero no momento em que ele nasce das mãos de Murilo Rubião” (SCHWARTZ. primeiramente. Segundo Schwartz. 1987. vários críticos discutiram a nova tendência da literatura fantástica aduzida na obra do mineiro Murilo Rubião. pois. pois acontecimentos. conciliam-se tranquilamente pela organização da linguagem. Werneck. É importante notar que. Rui Mourão. no especial comemorativo de 40 anos do livro O Ex-Mágico (Especial 1. para realçar ainda mais a singularidade de Murilo Rubião. Humberto Werneck. “referencialmente antagônicos e inconciliáveis. “Era mesmo uma aventura solitária” (Ibidem) correndo. sustenta a idéia de que “desde o primeiro livro Murilo chamou a atenção da crítica. lançado em 1947.

desde as origens.. afirma que o contista “rompe os padrões do realismo tradicional e só encontra antecedentes ou parentesco fora de nosso âmbito literário. avessa ao livre jogo da imaginação. entre nós. no Brasil sua obra significa uma novidade. 1987: 4). lastreada na observação e no documento. E toda vez que se inclinou para o pólo da fantasia.] no contexto brasileiro. no Brasil. a preferência pela ficção de vôo curto. nunca sustentou tradição antes de Murilo. nem ficou a lidar com elementos já vistos e explorados. esta sempre foi corrigida pelo costeio do real. tratando também da estréia de uma nova tendência da literatura fantástica em Murilo. com a obra de Kafka e dos pós-kafkianos” (ARRIGUCCI JR. Buscou um caminho novo e soluções próprias” (LINS. aqui no Brasil.. pois Murilo Rubião não “procurou forma fácil de expressão. no panorama da literatura brasileira. No Especial 2. no Especial 3. Álvaro Lins explica que se a obra de Murilo Rubião não é composta de originalidade absoluta no sentido universal. .Murilo Rubião e a Renovação Artística na Literatura Brasileira 107 publicou escondido – contradições que já são um lugar-comum dos grandes escritores” (ibidem). sem dúvida nenhuma. A tradição dominante do realismo demonstrou. Neste caso. Davi Arrigucci Jr. a Literatura Fantástica sempre foi rara.. “tendo na solidão paciente do trabalho de Murilo um raro caso de expressão maior” (VOGT. 1987: 9). Arrigucci Jr. Arrigucci Jr. discorre: Uma razão externa dessa singularidade pode ser percebida facilmente. em geral toda expansão imaginária tende coincidir com o momento da ilusão. encontram-se apenas narrativas mais ou menos insólitas dos românticos. Murilo Rubião foi o primeiro a tomar impulso no jogo da fantasia.. [. logo trazida ao chão pela ironia realista. 1987: 2). Assim sendo. explica que a literatura fantástica. pois nos séculos XIX e XX. Abaixo. Carlos Vogt observa que a literatura brasileira conheceu o gênero fantástico. uma vez que caíam sempre nas margens do real.

108 Gláuks Embora a Literatura Fantástica não se oponha necessariamente ao realismo. em nosso meio. de Monteiro Lobato e outros não chegam a constituir uma tradição forte do gênero. Assim. nossa ficção do século XIX e do começo do século XX serve mal como antecedente de Murilo. “menor” não classifica mais certas literaturas. Segundo Arrigucci. de Aluísio Azevedo.. estranhas ou vagamente insólitas dos românticos. mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior” (DELEUZE e GUATTARI. 1987: 1). como se verifica ao longo do desenvolvimento desse gênero. 1977: 25). . com o Modernismo houve uma abertura maior para quem quisesse arriscar-se no imaginário. não foi de certo para incentivá-la. de Afonso Arinos. discutem o que é uma literatura menor. De fato. a tendência. “as preocupações específicas. já estão distantes do universo muriliano e ajudam pouco a entendê-lo” (Ibidem). Já no início do texto os autores apontam que uma “literatura menor não é a de uma língua menor. que foram marcados pelo insólito e se formaram sob o estilo do Modernismo: Cornélio Penna e Aníbal Machado. Somente da década de 30 para frente o quadro sofre uma modificação e. Narrativas fantásticas. reveladas nas primeiras obras modernistas. capaz de sustentar uma explicação para as peculiaridades do fantástico em nosso Autor (ARRIGUCCI. de Machado de Assis. assim. conforme frisa Arrigucci Jr. Arrigucci Jr. cita dois escritores mais perto de Murilo Rubião. preferindo falar em afinidades literárias. surgem novidades. De acordo com eles. Com isto tornou-se possível uma investigação do supra-real como Murilo realiza em seus contos algum tempo depois. no livro Kafka: por uma literatura menor. Porém. num capítulo de mesmo título. Deleuze e Guattari. mas as condições que as caracterizam pela inovação. ainda que o explique por outros ângulos. Murilo Rubião esteve por bastante tempo sozinho no que se refere ao gênero escolhido por ele.

p. ou seja. 27). . Em seus contos encontram-se situações dramáticas. Isto é. em um contexto estranho. pois conta com trinta e três contos publicados. 2). 1987. 1987. havia se enveredado pelos caminhos do fantástico. isolada de toda a produção da época. cerca de quatro anos rodaram os originais pelas editoras – do Rio. Talvez por isso a publicação de seu primeiro livro não tenha sido tarefa fácil. Ninguém antes. 11). concordo com Deleuze e Guatari. causou enorme estranheza a todos. conforme afirma Perez. quando dizem que “se o escritor está à margem ou afastado de sua frágil comunidade. Dessa forma. de forjar os meios de uma outra consciência e de uma outra sensibilidade” (Op. Sendo assim. de Porto Alegre. A obra de Murilo Rubião é relativamente curta. Acredito que Murilo Rubião foi um escritor que ficou à margem do que estava em voga na década de 40. pela possibilidade de renovar os padrões estabelecidos de toda a literatura no interior daquela a que atribuímos qualidade de grande. Murilo Rubião era solitário em seu estilo literário. como analisado por diversos críticos mencionados acima.Murilo Rubião e a Renovação Artística na Literatura Brasileira 109 pela originalidade. p. no Brasil..cit. “Ninguém se aventurava a publicar aquelas histórias meio estapafúrdias que fugiam de tudo o que se considerava literatura” (PEREZ. Segundo Fábio Lucas. daquela que se firmou. p. Pode-se dizer que seus contos estavam exilados numa época em que não se produzia tal coisa. essa situação o coloca ainda mais em condição de exprimir uma outra comunidade potencial. pois. era tido como estranha (como estrangeira?) a sua obra. “misturam-se o arbitrário das situações com o realismo óptico das personagens principais ou do narrador” (LUCAS. a literatura de Murilo era inaugural. A obra de Murilo Rubião. por estar distante.

O romance gótico também pode ser considerado um dos precursores do fantástico. é importante discorrer a seguir sobre o gênero em que a obra do contista está inserida. pois se apoiava em cenários de pavor: nas ruínas desoladas. a Literatura Fantástica. da dualidade. nos castelos mal-assombrados. discutida pela professora Vera Lúcia Andrade. Dessa forma. isto é. O que causa estranheza é a literatura fantástica de Murilo. do duplo. Porém. o macabro e o sinistro acompanhavam o cenário. diferente do fantástico encontrado na obra de Murilo Rubião. 1985:16). Apesar de aparecerem elementos fantásticos na literatura desde a Idade Média. nasceu no século XIX. temas que mais tarde fizeram parte do domínio fantástico encontram-se nos anos 1580 a 1670 na literatura barroca. nos enigmas angustiantes etc. com o autor Cazotte. Desse modo. no romance gótico “tudo se explica por artifícios engenhosos” (ANDRADE. . Já Todorov afirma que o fantástico apresentou-se de forma sistemática por volta do final do século XVIII. intitulada Marbre: une lecture du fantastique chez Pieyre de Mandiarques. é importante ressaltar este estudo para perceber como a literatura de Murilo Rubião se difere da literatura fantástica do século XIX. Esta se definia por uma temática da metamorfose. em sua tese de doutorado. a novidade.110 Gláuks quando o escritor escolhe um gênero que ainda não era conhecido no Brasil. a literatura barroca apresentava uma constante confusão entre os domínios do sonho e do real. onde ela traz importantes informações sobre o histórico da Literatura Fantástica. em sua obra intitulada Introdução à Literatura Fantástica. Além disso. no livro Le diable amoureux. O estruturalista Tzvetan Todorov. discursa sobre o fantástico sob uma perspectiva tradicional. Todavia. Conforme Andrade. segundo Andrade.

o autor focaliza o aspecto formal da relação do fantástico com os gêneros vizinhos. Sendo assim. 20). Segundo Andrade. o estranho ou o maravilhoso. conforme Andrade. em 1820. por outro lado. é quem definirá o fantástico pela percepção ambígua acerca dos acontecimentos narrados. para salientar a quebra que o sobrenatural opera num mundo estável. um importante crítico da Literatura Fantástica. Tal fato está ligado. o fantástico está no meio. na França. em 1830. houve o aumento de seres monstruosos. Todorov aponta a implicação do fantástico na integração do leitor ao universo das personagens. o fantástico “procura e deve chegar a alterar nosso mundo. isto é. ANDRADE. à história do Romantismo em geral e. a Literatura Fantástica. Maturin e Nodier estabeleceram outra categoria: o frenético. É importante ressaltar também o estudo do estruturalista Todorov. Mais adiante. apesar destes precursores. por um lado. p. ameaçante que rompe a estabilidade de um mundo coerente cujas leis até então eram tidas como rigorosas e imutáveis” (CAILLOIS apud. ao começo da época cientificista e positivista. ele só ocorre na incerteza entre uma e outra possível solução. só nasce. dos personagens híbridos. pois se o leitor optar por uma ou outra escolha de explicação para os acontecimentos entrará em um gênero vizinho. o “sobrenatural surge como a ruptura da coerência universal devido a uma agressão interdita. no qual se prolongava o cenário mórbido do romance gótico para um desencadeamento do horrível. Para a autora. cit. Em sua obra. das mutações inconcebíveis se produzindo. Para ele. O leitor. Conforme o autor. portanto. efetivamente.Murilo Rubião e a Renovação Artística na Literatura Brasileira 111 Mais tarde. 1985: 20). conforme . Andrade cita Roger Caillois. o estranho ou o maravilhoso. ou seja. mundo este submisso a uma causalidade rigorosa” (Op.

31). é quando se chega quase a acreditar. dizendo que “sua crítica é de caráter eminentemente axiomático: deve existir a dúvida na leitura da narrativa fantástica? Sem tensão. “onde a dúvida é assumida como condição sine qua non para definir o gênero narrativo em questão” (Ibidem). em sua obra L’art et la littérature fantastiques. Para diferenciá-lo do gênero estranho. pois é a hesitação que dá vida ao fantástico. Jorge Schwartz contesta o método proposto por Todorov. pelas quais o 2 O pensamento supracitado pertence a Louis Vax. Segundo Schwartz. mas a ausência da dúvida elimina o fantástico?” (SCHWARTZ. Um ponto importante que resume o espírito do fantástico. A respeito do efeito produzido no leitor. não há conto.112 Gláuks afirma Todorov. de Henry James e declarou que o fantástico ideal se mantém na hesitação. o estruturalista afirma que o fantástico dura apenas o tempo de uma hesitação e esta é comum ao leitor e à personagem. Para Todorov. segundo Todorov. 1992: 37). A possibilidade de se hesitar entre os dois criou o efeito fantástico”2. o modo narrativo de Murilo Rubião é contrário à teoria do fantástico articulada por Todorov. Quem hesita tanto pode ser o personagem quanto o leitor que é posto em integração com o mundo dos personagens. a “hesitação do leitor é pois a primeira condição do fantástico” (TODOROV. por meio de causas de tipo natural e sobrenatural. (Op. quando ele explicitou a ambigüidade na obra The turn of the screw. 1992: 48) e o contrário disso acontece no gênero maravilhoso. cit. isto é. há “um fenômeno estranho que se pode explicar de duas maneiras. quando se admitem “novas leis da natureza. No terceiro capítulo do livro. 1981: 68). . o autor diz que neste o leitor ou a personagem “decide que as leis da realidade permanecem intactas” (TODOROV. p.

o sobrenatural era usado para tratar de temas tabus ou loucuras. quer dizer. amor a vários. subtrair do texto a ação da lei e com esta mesma transgredi-la. os crimes. Com relação à estrutura do gênero. TODOROV. Todorov afirma que o fantástico fundamenta-se na hesitação do leitor. o leitor identifica-se a um personagem e hesita quanto à natureza de um acontecimento estranho. O sobrenatural também era pretexto para franquear certos limites inacessíveis (temas proibidos. Todorov não mais pergunta “o que é o fantástico?”. O fantástico existe se estiver ligado à ficção e ao sentido literal. Outra importante observação de Todorov é com relação às funções do fantástico na obra. 1992: 167). O último capítulo do livro. cit. o sobrenatural não era senão um pretexto para descrever coisas que não teriam ousado mencionar em termos realistas” (PENZOLDT apud.Murilo Rubião e a Renovação Artística na Literatura Brasileira 113 fenômeno pode ser explicado” (Op. admite-se descrever um universo fantástico sem que este tenha qualquer realidade fora da linguagem. as drogas. Para Todorov. Já com relação às funções do fantástico. o . incesto. a hesitação pode ou não ser resolvida e o fantástico exige certo tipo de leitura. tem como assunto a literatura e o fantástico. Neste. tanto a institucionalizada quanto a da psique do autor.. 48). mas sim “por que o fantástico?” Ele explica que a primeira interrogação traz a preocupação com a estrutura do gênero. Ainda. sensualidade excessiva) pela censura. Todorov se firma na observação feita por Peter Penzoldt que diz: “Para muitos autores. o suspense e função tautológica. já a segunda tem como propósito as suas funções. para evitar as condenações sociais. que é conclusivo. tais como: efeito de medo ou horror sobre o leitor. p. tais como: homossexualismo. necrofilia.

A produção literária de Murilo Rubião se encontra inserida no gênero fantástico. 1981: [s/p]). Como a literatura feita com seriedade não é panfletária. pois em uma entrevista intitulada “Rubião. é um tipo de literatura de escape. desde que o escritor esteja engajado no contexto social” (RUBIÃO apud DUPIN e MENDES. o conto “A Cidade” é a contestação do Estado Novo. sua opção pelo fantástico não foi motivada pela censura. o que acabava aparecendo em seus contos. Giselle Dupin e Francisco de Morais Mendes queriam saber se o Realismo Fantástico de Murilo Rubião era uma opção política. Murilo Rubião afirma: O Fantástico. Segundo o jornal. de maneira alguma. para driblar a censura. “é um meio de combate contra uma e outra censura” (Ibidem). Num depoimento consciente no que tange a sua opção por este tipo de literatura. a saber: “Botão de Rosa” e “A Fila”. pirotécnico da palavra” publicada no jornal Alternativa. a resposta do contista é de que ele acha que “o Fantástico pode perfeitamente ser utilizado como uma metáfora política. E ainda diz o contista que no livro O Pirotécnico Zacarias. uma vez que à época trabalhava em jornal sob censura. E já começa que a censura não entende nenhum livro. então. nem aqui nem em outros lugares (Ibidem). Como qualquer outro tipo de literatura. Entretanto. . Para Murilo. Murilo Rubião vivenciou esta situação e sentiu-se afetado por ela. a presença do social aparece em grande parte de sua literatura.114 Gláuks fantástico é mais do que um simples pretexto. o que tem de contestação às vezes é mais sutil. uma vez que sobre o livro O Convidado. E isto causava inquietação ao público não só na década de 40 como ainda na década de 80. Murilo afirma que dois contos são extremamente políticos. Às vezes é preciso uma segunda leitura para se perceber.

na narrativa kafkiana a hesitação não é mais possível como anteriormente (no século XIX) foi representada no interior do texto: A narrativa fantástica partia de uma situação perfeitamente natural para alcançar o sobrenatural. 1992: 175). Ele afirma que se “abordarmos esta narrativa com as categorias anteriormente elaboradas. Sobre as diferenças existentes entre a obra fantástica tradicional e a moderna. Todorov. Já nas últimas páginas. discorre sobre três: 1) a função pragmática: o sobrenatural emociona. de Franz Kafka.Murilo Rubião e a Renovação Artística na Literatura Brasileira 115 Voltando às funções dentro do próprio interior da obra. vemos que ela se distingue fortemente das histórias fantásticas tradicionais” (Op. ele se indaga: “Por que a literatura fantástica não existe mais?” (TODOROV. p. mas sobre a reação que este suscita. Todorov acredita que aí se inicia um novo gênero. caracterizava a passagem do natural ao sobrenatural (Ibidem). cit. em seu livro. Para Todorov. “A Metamorfose” parte do acontecimento sobrenatural para dar-lhe. Todorov se interroga não mais a respeito da função do sobrenatural. assusta ou mantém em suspense o leitor. a autora Vera Lúcia Andrade explica: . no curso da narrativa. p. Em outro momento ele se pergunta: “Em que se transformou a narrativa sobrenatural no século XX?” (Op. 177). uma aparência cada vez mais natural. cit. e 3) a função sintática. 2) a função semântica: o sobrenatural constitui sua própria manifestação: é uma autodefinição. que aparece no desenvolvimento da narrativa. e o final da história é o mais distante possível do sobrenatural. Qualquer hesitação torna-se de imediato inútil: ela servia para preparar a percepção do acontecimento inaudito. Daí. Com base na obra A metamorfose. Gênero este que ele desconhece. 179).

e a fusão fantástico/cotidiano é imediata. este estabelece o “status necessário e suficiente para que o leitor dê credibilidade à narrativa” (SCHWARTZ.. . Esta integração é feita graças à extraordinária força dos dados miméticos que configuram o discurso. dúvidas ou desconfianças (Op. Quanto à sua familiaridade com a obra de Kafka. na narrativa fantástica moderna. não foi tarefa fácil. um “suspens” [. Segundo Jorge Schwartz. 1981: 59). declarou que só veio a conhecê-la mais tarde. o misterioso e o curso natural dos acontecimentos convivem pacificamente na linguagem organizada da narrativa (ANDRADE.]. Murilo Rubião foi pioneiro na narrativa fantástica na literatura brasileira. Como exemplo. Não havia uma tradição fantástica no Brasil. o Coelhinho”: O fato da personagem não questionar a presença do coelhinho faz com que nós também o aceitemos no ato da leitura. E Fábio Lucas foi categórico ao afirmar que a literatura de Murilo foi uma aventura solitária.116 Gláuks Nas obras fantásticas tradicionais. o próprio Murilo. Como observou Rui Mourão. Daí a modernidade da obra de Murilo Rubião. Sua narrativa se diferencia da narrativa tradicional. Sendo assim. De fato. Schwartz aborda a narrativa do conto “Teleco. como dito anteriormente. cit. os elementos sobrenaturais não intervêm mais. p. 1985: 22). Sua produção literária.. o elemento sobrenatural intervém no curso normal dos acontecimentos e provoca uma ruptura. A ausência de hesitação diante de um fato sobrenatural é característica também da narrativa de Murilo Rubião. 60). Pelo contrário. O fantástico. ele não se parecia com ninguém que tinha vindo antes. desde o começo de sua carreira. não havendo lugar para surpresas. por meio da linearidade e coerência do sistema discursivo da ficção. a produção de Murilo não tem parentesco no âmbito nacional. esta não interfere na ordem natural do fato narrado. estudada por Todorov.

DELEUZE.. Belo Horizonte. In: Suplemento Literário do Minas Gerais.42. In: Suplemento Literário do Minas Gerais. 21 fev. dez. 1. 1. Mário de Andrade. 7 fev. LUCAS. p. a obra de Murilo apareceu de maneira incomum. 1987. 25. São Paulo: T. A temática dos contos. Félix. p. 1976. assombros e anedotas: os contos fantásticos de Murilo Rubião. 1987.4. Belo Horizonte. era desengajada de qualquer movimento literário no Brasil. Número 11. Isto é compreensível uma vez que. . A literatura menor. ed. GUATTARI. Vera Lúcia. MENDES. Queiroz. In: Suplemento Literário do Minas Gerais. Belo Horizonte. Gisele. p. 1977. LUCAS. ed. Belo Horizonte. Literatura e sociedade. ARRIGUCCI JR. 1981. Davi. Rio de Janeiro: Imago Editora. LINS. 9-28. Fábio. CANDIDO. 9. Álvaro. p. In: Kafka: por uma literatura menor. 8. 3 fls. Belo Horizonte. São Paulo: Quíron. assim como sua narrativa. Tese de doutorado. Realidade e símbolo. A. Fábio. Gilles. Francisco Moraes. Antonio. Referências Bibliográficas ANDRADE. 7 fev. Marbre: une lecture du fantastique chez Pieyre de Mandiargues. Defendida na université de Paris III – Sorbonne-Nouvelle. também não sentiu total certeza em afirmar o que o iniciante produzia. p. In: Suplemento Literário do Minas Gerais. Rubião. pirotécnico da palavra. 1987. 11. Os contos de Murilo Rubião. 2. Murilo Rubião: 40 anos de Ex-Mágico. O caráter social da literatura brasileira. do ponto de vista geográfico temporal. 1987. 7 fev. Rui. Alternativa. 2000. p.Murilo Rubião e a Renovação Artística na Literatura Brasileira 117 Seu mestre. em dezembro de 1985. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. MOURÃO. Minas. DUPIN.

7 fev. Murilo Rubião. 2. Candido et Arrigucci et ce travail. p. 1987. Belo Horizonte. Schwartz. Jorge Schwartz. 1982. VOGT. par rapport à un point de vue géographique temporel. Murilo Rubião: a poética do uroboro. Belo Horizonte. p. que nous pouvons établir un rapport entre les études de Todorov. In: Suplemento Literário do Minas Gerais.3. ___ Murilo Rubião: literatura comentada. 6.8. MOTS-CLÉ: Tradition littéraire.). p. littérature fantastique. 7 fev. São Paulo: Ática. précurseur. Renard. p. Belo Horizonte. O fantástico em Murilo Rubião. São Paulo: Perspectiva. 2. In: Suplemento Literário do Minas Gerais. In: Suplemento Literário do Minas Gerais. Trad. 1987. 1981. innovation littéraire. Carlos. A trajetória de um escritor. 12. Introdução à literatura fantástica. Humberto. p. 1992. (Org. Jorge. 1987. 19 out. SCHWARTZ. 4. SCHWARTZ. Belo Horizonte. . 1987. In: Suplemento Literário do Minas Gerais. C’est grâce à une synthèse du mouvement littéraire et de la période antérieure aux années 40. 1974. 7. WERNECK. 7 fev. In: Suplemento Literário do Minas Gerais. a apparu d’une façon particulière. A ferida exposta de Murilo Rubião. São Paulo: Abril Educação. Tzvetan. Jorge. A construção lógica do absurdo. RESUMÉ: Ce travail a pour but rassembler des discussions de la critique littéraire en ce qui concerne le début de la carrière du conteur « mineiro » Murilo Rubião (1916-1991) étant donné que sa production littéraire. TODOROV. Maria Clara Correa Castello. époque où Murilo Rubião commence sa carrière littéraire. ___. 14 fev.118 Gláuks PEREZ. O mágico da palavra. ed. Belo Horizonte.

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