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CADERNO Nº 17

RELAÇÕES INTERNACIONAIS COMO


CAMPO DE ESTUDOS
Discurso, Raízes e Desenvolvimento, Estado da Arte

Lytton L. Guimarães, Ph.D.

2º semestre de 2001
Cadernos do REL
Publicação do Departamento de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília

Reitor: Prof. Lauro Morhy


Vice-Reitor: Prof. Timoty Martin Mulholland
Década de Pesquisa e Pós-Graduação: Profa. Ana Maria Fernandes
Decano de Ensino de Graduação: Fernando Jorge Rodrigues Neves
Decana de Extensão: Profa. Doris Santos de Faria
Diretor do Instituto de Ciência Política e Relações Internacionais: Prof. Vamireh
Chacón de Albuquerque Nascimento
Vice-Diretor do Instituto de Ciência Política e Relações Internacionais: Prof. Lytton
L. Guimarães
Chefe do Departamento de Relações Internacionais: Prof. Antonio Jorge Ramalho
Rocha
Coordenadora da Pós-Graduação: Profa. Maria Izabel Valladão de Carvalho
Coordenador da Graduação: Prof. Antonio Carlos Lessa

Coordenação Editorial: Profa. Maria Izabel Valladão de Carvalho

Departamento de Relações Internacionais

Instituto de Ciência Política e Relações Internacionais


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Campus Universitário Darcy Ribeiro - Asa Norte
Universidade de Brasília
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Telefones: (55-61)274-7167; (55-61)307-2426 / 2866/2865
(55-61)274-4117
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ..................................................................................... 5
I. O DISCURSO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS .......................... 7
1. A Linguagem Especial de Relações Internacionais ............................... 9
2. O Significado e o Objeto de Estudo de Relações Internacionais ............ 9
3. Modalidades de Relações Internacionais ............................................ 11
4. A Interdependência entre o Doméstico e o Internacional .................... 14
5. O Nível de Análise em RI ................................................................ 17

II. RAÍZES E DESENVOLVIMENTO


1. Precursores e Pioneiros ..................................................................... 20
(1) Alguns Precursores Importantes .............................................. 20
(2) Autores, Estudos e Iniciativas Pioneiras .................................. 23
2. As Raízes de RI como Campo de Estudos .......................................... 27
(1) O Eixo Anglo-Americano: Bases Institucionais ....................... 27
(2) O Estudo de RI Fora do Eixo Grã-Bretanha-EUA ................. 30
3. O Estudo de RI no Brasil ................................................................ 34
(1) O Nacional-Desenvolvimentismo ........................................... 34
(2) Nacionalismo e Política Externa .............................................. 35
(3) Política Externa Independente ................................................ 38
(4) Contribuições da Academia ..................................................... 39

III. O ESTADO DA ARTE ..................................................................... 43


1. RI: Disciplina ou Campo de Estudos? ............................................. 43
2. Os ‘Grandes Debates’ ...................................................................... 43
3. A Auto-Imagem de RI .................................................................... 50
4. Desafios ......................................................................................... 52

NOTAS .................................................................................................... 55

BIBLIOGRAFIA ..................................................................................... 57
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APRESENTAÇÃO

No Brasil, a área de Relações Internacionais se insere formalmente na


Academia com a criação e implantação do curso de graduação (bacharelado) em
RI na Universidade de Brasília, a partir do primeiro semestre de 1974. O curso
foi reconhecido pelo MEC em 1976 e no segundo semestre de 1977 eram
diplomados os primeiros bacharéis em RI no Brasil. Dez anos depois a UnB
inicia o primeiro curso de mestrado em RI do Brasil. Com essas iniciativas, a
UnB inovou e passou a contribuir para a formação de uma massa crítica nacional
na área de RI. Nesse meio tempo, foram surgindo outros centros de ensino e
pesquisa em RI, sendo que a partir da década de 1990 nota-se uma verdadeira
proliferação de cursos de graduação em RI no País. Segundo matéria publicada
na Gazeta Mercantil (maio/2000) existiriam hoje no País mais de oito mil
alunos de graduação em RI.
A produção científica brasileira na área de RI, embora significativa, reflete
interesses individuais e por isso tende a ser fragmentada, sendo praticamente
inexistente a produção para fins didáticos, voltada especificamente para a
formação de alunos de RI. Essa situação obriga professores e alunos a recorrerem
a material editado no exterior, quase sempre em inglês, obviamente mais adequado
para os países de origem. Portanto, é mais do que oportuno começar a preencher
essa lacuna. É esse um dos propósitos do presente trabalho, parte de um projeto
mais amplo, voltado para a produção de material didático destinado basicamente
a cursos de RI.
Na primeira parte do presente trabalho são identificados e definidos alguns
dos componentes do discurso empregado em RI. Na segunda parte procura-se
identificar as raízes de RI como campo de estudos, desde sua inserção formal na
Academia, logo após a I Guerra Mundial, ao seu desenvolvimento. São destacados
alguns precursores e pioneiros, contribuições iniciais e mais recentes no eixo anglo-
americano, na Europa continental e no Brasil. São revistas algumas fases, eventos
e autores, importantes na história política do País, e suas contribuições para o
estudo de RI. A última parte do trabalho é dedicada a um exame do ‘estado da
arte’. É apresentada uma breve análise dos ‘grandes debates’ que teriam ocorrido

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em RI a partir das décadas de 1930/40. Por último é feita uma análise da
‘auto-imagem’ de RI como campo de estudos, seguida de alguns desafios, tendo
em vista principalmente novas gerações de estudiosos brasileiros que se dedicam
ou pensam se dedicar à área.

LLG
Brasília, julho 2001

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS COMO
CAMPO DE ESTUDOS
Discurso, Raízes e Desenvolvimento, Estado da Arte*

Lytton L. Guimarães, Ph.D.**

I. O DISCURSO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS

1. A Linguagem Especial de Relações Internacionais

Ao discutir os instrumentos lingüísticos da política, SARTORI (1981,


cap. I) identifica três fontes distintas do discurso político: (1) a filosofia
política, (2) a ciência ou conhecimento empírico da política e (3) o discurso
comum sobre a política. Imagem semelhante pode ser utilizada no tratamento
dos instrumentos lingüísticos das relações internacionais, que teriam
igualmente três fontes de discurso: (1) a filosofia das relações internacionais,
(2) o conhecimento sobre as relações internacionais com alguma validade
científica e (3) o discurso comum sobre as relações internacionais. O discurso
ou linguagem comum é aquela “que está ao alcance de todos, a linguagem
da conversação ordinária”, é a linguagem usada rotineiramente por todos
que falam o mesmo idioma. No uso da linguagem comum não há
preocupação de definir as palavras cada vez que são empregadas, pois se
subentende que seu significado é conhecido pelos interlocutores. Por isso a

* O presente trabalho constitui parte de um projeto mais amplo que tem por objetivo a
produção de material didático em Relações Internacionais.
** Professor Titular de Relações Internacionais, Universidade de Brasil.

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linguagem comum pode ser imprecisa. O discurso comum sobre as relações
internacionais seria, portanto, aquele utilizado na conversação ordinária,
entre pessoas que possam ter algum interesse por determinado assunto ou
tema específico na esfera das relações internacionais, em decorrência muitas
vezes de um evento histórico importante ou de uma crise, como a crise
financeira que atingiu países asiáticos a partir de 1997, que teve repercussões
nas economias de vários países da própria região e até mesmo no Brasil;
outro exemplo seria o protecionismo à agricultura, praticado pela União
Européia e pelos Estados Unidos, que tem atingido países como o Brasil.
Segundo SARTORI (1981, pág. 13), “A filosofia ... tem um
vocabulário técnico, em que as palavras, mesmo as mais comuns, assumem
um conteúdo significante próprio... Todas as ciências fazem o mesmo: seus
vocabulários adquirem determinadas características de significação. Isto
equivale a dizer que filosofia e ciência são linguagens especiais”. Linguagens
especiais são ‘especializadas’, ‘críticas’, desenvolvidas a partir da linguagem
comum. São críticas porque emergem da reflexão e especializadas porque
são adaptadas aos problemas heurísticos de cada disciplina ou área cognitiva.
As linguagens especiais se caracterizam pela precisão e definição dos
significados das palavras empregadas, e até mesmo pela criação de novas
palavras, quando necessário, a fim de representar novas realidades em áreas
cognitivas específicas.
O conhecimento filosófico sobre as relações internacionais, como em
outros campos cognitivos, busca responder a perguntas do tipo ‘por quê?’
Por quê os conflitos, as guerras, a luta pelo poder hegemônico? Em geral, o
conhecimento filosófico, literalmente, vai além do empírico, dos dados
físicos; portanto, ele é metafísico (metà tà phisiká). A linguagem filosófica,
como linguagem especial, é fortemente conotativa, ou seja, as palavras podem
significar mais do que representam; mesmo as palavras utilizadas na
linguagem comum podem adquirir significado especial. Daí a necessidade
de se adquirir domínio sobre a filosofia das relações internacionais para
entender sua linguagem especial.
O conhecimento sobre as relações internacionais com alguma validade
científica é relativamente recente e permanece pouco desenvolvido quando
comparado com o conhecimento acumulado, por mais tempo, em outras
disciplinas das Ciências Sociais. Daí sua dificuldade em se consolidar, mesmo
porque o conhecimento sobre as relações internacionais é produto da
multidisciplinaridade, pois sobre ele incidem heranças ou influências de
várias disciplinas ou campos de estudo, alguns com orientação

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predominantemente científica, que visam à construção e ao desenvolvimento
de teoria, como a Ciência Política, a Sociologia e a Economia; outros com
tradição predominantemente narrativa ou descritiva, como a História; outros
ainda com características especulativas ou normativas, como é o caso da
Filosofia, da Ética e do Direito. Além disso, há em RI uma inevitável exigência
da prática, o que acaba constituindo uma espécie de constrangimento para
o desenvolvimento sistemático desse campo de estudos. Existem, por
conseguinte, várias perspectivas e várias dimensões nas relações
internacionais. Essas diferentes perspectivas e dimensões proporcionam os
ingredientes para o desenvolvimento da linguagem especial de Relações
Internacionais como campo de estudos.

2. O Significado e o Objeto de Estudo de Relações Internacionais

Exceto para aqueles que ensinam, estudam ou trabalham na área de


Relações Internacionais, a expressão nem sempre tem sentido claro, em
parte porque o próprio termo inter-nacional também não tem, uma vez que
RI não significa hoje ‘interações’ entre ‘nações’, mas entre Estados, governos
e outros atores internacionais.
Pelo menos duas dimensões podem ser atribuídas à expressão relações
internacionais. Em sentido amplo, e mais comumente utilizada, ela se refere
à gama de contatos e interações de natureza diplomática, política, econômica,
militar, social, cultural, étnica, humanitária, que se processam entre atores
internacionais, estatais e não-estatais. Desses atores, o mais importante é o
Estado, responsável pela formulação e implementação da política externa
de um país, através da qual são conduzidas as relações diplomáticas e
negociações de vários tipos entre diferentes atores. As interações realizadas
por organismos internacionais e regionais, ou Organismos Inter-estatais ou
Inter-governamentais-OIG, como por exemplo a Organização das Nações
Unidas-ONU e suas agências (FAO, UNESCO, UNICEF e outras), a
Organização Mundial do Comércio-OMC, a Organização dos Estados
Americanos-OEA, a Organização para Segurança e Cooperação na Europa-
OSCE, a Organização da Unidade Africana-OUA, a União Européia-EU, o
MERCOSUL, e outros, constituem também relações internacionais, assim
como muitas das interações que ocorrem entre Estados e organismos não-
estatatais, como as organizações não-governamentais-ONGs, com atuação
no cenário internacional, como por exemplo a Cruz Vermelha Internacional,

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o Green Peace, o Human Rights Watch, a Anistia Internacional e outros.
Os laços culturais, religiosos, étnicos, entre pessoas que vivem em Estados
distintos podem também ser considerados como um tipo especial de relações
internacionais, assim como as relações econômicas e comerciais entre as
grandes corporações transnacionais-CTN, como a General Motors, a
Volkswagen, a Siemens, a Petrobrás e muitas outras, que operam hoje a
nível global, e inclusive criam centros de produção multinacionais e
desenvolvem produtos mundiais, como resultado de pesquisa e projetos
realizados em diferentes países.
Outro sentido atribuído à expressão Relações Internacionais-RI, aqui
usada sempre com iniciais maiúsculas, refere-se ao campo de estudos
acadêmicos que enfoca as diversas formas de interações anteriormente
descritas, assim como outras questões e fenômenos considerados relevantes
para se compreender e explicar a complexidade do cenário internacional.
Numa fase inicial os estudos acadêmicos de RI se concentravam em questões
de natureza substantiva, como diplomacia, política do poder, ou em
problemas da paz e da guerra, alianças e intervenção militar, e refletiam
freqüentemente preocupações prescritivas ou normativas.
Na medida em que os estudos foram adquirindo sofisticação teórica e
metodológica, passaram a enfocar problemas mais analíticos, de
relacionamento entre dois ou mais fenômenos, ou variáveis, tais como a
associação entre poder e segurança, entre poder econômico e militar, entre
instituições internacionais e estratégias governamentais, e assim por diante.
Algumas sub-áreas de RI foram se definindo, como por exemplo, os estudos
de política externa, os estudos estratégicos, as questões de segurança coletiva,
de proliferação e controle de armamentos, a economia política internacional,
os organismos ou instituições internacionais, a integração regional, além de
outras. Com a proliferação das chamadas questões transnacionais, novas
preocupações foram sendo incorporadas à Agenda Internacional e assim
passaram a despertar o interesse de estudiosos de RI. Em geral, essas questões
transcendem o nível doméstico ou o controle de um único Estado e seu
estudo e tratamento exigem cooperação internacional e freqüentemente
multidisciplinar, como é o caso do narcotráfico, da poluição e degradação
do meio-ambiente, questões amplamente debatidas na Rio-92, dos direitos
humanos, objeto da Convenção de Viena de 1993, do papel da mulher (ou
a questão do gênero) no novo cenário internacional, debatido em Pequim
em 1994, dos problemas relacionados com a população, examinados no
Cairo em 1995, da questão da habitação, analisada em Compenhague em
1996, e outros.

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3. Modalidades de Relações Internacionais

As relações internacionais podem ser de natureza bilateral, isto é,


entre dois atores internacionais, um dos quais é, em geral, um Estado; ou
podem adquirir caráter multilateral, quando envolvem um número maior
de atores, como é o caso, por exemplo, das relações que se desenvolvem na
maioria dos foros internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU,
ou a Organização Mundial do Comércio-OMC, que são compostos por
representantes de vários Estados membros. No entanto, quando o
representante do Brasil junto ao Conselho de Segurança da ONU trata de
assuntos de interesse dos dois países com o representante da Rússia, por
exemplo, os dois representantes se engajam em relações bilaterais ainda que
estejam num ambiente multilateral de trabalho.
As relações multilaterais começaram a adquirir maior importância
com o final das Guerras Napoleônicas e a realização do Congresso de Viena
em 1815. A partir das últimas décadas do Século XIX houve um aumento
gradativo dos organismos inter-governamentais; após a I Guerra Mundial
surgiram novas e importantes instituições dessa natureza, sendo a mais
importante a Liga das Nações. No entanto, é depois da II Guerra Mundial,
com a criação da Organização da Nações Unidas-ONU e de suas várias
agências filiadas e o surgimento de alianças militares regionais como a OTAN
e o Pacto de Varsóvia, ou de arranjos predominantemente econômicos, como
a Comunidade Econômica Européia (hoje União Européia), e mais
recentemente o MERCOSUL, que o multilateralismo adquire maior
importância, que vai se acentuar ainda mais com o fim da Guerra Fria e a
intensificação do processo de globalização da economia.
Baseando-se em alguns internacionalistas, FERNANDES (1998, págs.
21-28), propõe outra classificação para as RI, que poderiam ser reduzidas a
duas categorias fundamentais: (1) as relações pacíficas e as (2) relações
conflituosas. As relações internacionais pacíficas são de natureza amigável e
“consubstanciam-se num conjunto de atos inerentes à política externa dos
Estados, às funções das organizações internacionais e às atividades das
empresas (sociedades) multinacionais e transnacionais”. Ainda que possam
existir, por vezes, elementos conflituosos, as relações desse tipo se
desenvolvem, em geral, cordial e pacificamente. Por outro lado, as relações
internacionais conflituosas se caracterizam por dificuldades de vários tipos,
dando origem a desacordos, contenciosos, litígios, ou até mesmo a conflitos
e guerras.

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Com base ainda em FERNANDES (1998), pode-se identificar três
tipos principais de relações internacionais pacíficas:

(1) relações de reciprocidade, que englobam as relações diplomáticas


clássicas, as relações consulares e as relações diplomáticas de natureza
ad hoc, como as que são exercidas por um cônsul honorário;
(2) relações de cooperação e de coordenação, que se realizam com organismos
de cooperação política, como as que se processam com organismos ou
instituições internacionais como a ONU, a OEA, a OUA, etc., de
cooperação econômica, realizadas com organismos como o FMI, o BID,
a OMC, o PNUD, a ALADI, etc., de cooperação militar, realizadas
com as alianças, como a OTAN, de cooperação científica, como é o
caso da Agência Internacional de Energia Atômica-AIEA, etc.;
(3) as relações de integração, que podem implicar na perda, ainda que
parcial, de prerrogativas de soberania externa, como é o caso de um país
que decide integrar-se a uma federação, sendo o exemplo mais recente
o da Bielo-Rússia, cujo presidente manifestou desejo de integrar seu
país à Federação da Rússia, ou a integração que se desenvolve no âmbito
de uma organização multinacional, como a União Européia ou o
MERCOSUL.

As relações internacionais conflituosas podem ocorrer tanto entre


Estados como entre estes e outros atores internacionais, a exemplo do que
ocorreu em 1999 no conflito ou guerra não declarada entre a OTAN e a
Iugoslávia, em decorrência de ações do governo daquele país com relação à
população de origem albanesa que habita a província de Kosovo, ações essas
consideradas pelos países membros da OTAN, assim como por outros países,
como atentatórias aos direitos dos kosovares-albaneses, justificando assim a
intervenção armada da OTAN, sob a justificativa de se tratar de uma
‘intervenção humanitária’.
Há vários outros exemplos recentes de situações conflituosas, como
foi a guerra do Iraque (1991), que envolveu, de um lado aquele país e do
outro os Estados Unidos e seus aliados (Grã-Bretanha, França, Alemanha,
alguns países árabes, e outros). O conflito foi gerado pela invasão do Kuwait
por tropas iraquianas, com a intenção declarada de anexar este país
independente ao Iraque, ato não aceito pelo Conselho de Segurança da
ONU, com apoio da maioria dos países membros daquela organização. As
relações internacionais conflituosas surgem, muitas vezes, quando um dos
atores internacionais decide impor sua vontade a outro ator, recorrendo à

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força para alcançar seu objetivo. Os elementos preponderantes numa relação
desse tipo podem ser de natureza econômica, política, territorial, como foi
o caso do litígio fronteiriço entre o Peru e o Equador, que levou a pelo
menos duas guerras entre os dois países sul-americanos, mas que parece
agora definitivamente contornado com a entrada em vigor de acordo de paz
firmado pelas partes, graças à intervenção e ao trabalho de vários anos dos
governos do Brasil, dos Estados Unidos, do Chile e da Argentina, países
garantes de um acordo de paz celebrado entre Peru e Equador em 1942.
Outros elementos numa relação de conflito podem ser de natureza étnica,
religiosa, nacionalista, ou uma combinação destes e/ou de outros elementos,
a exemplo do que ocorreu na ex-República Federativa da Iugoslávia, com o
secessão da Eslovênia, da Macedônia e da Bósnia, que se tornaram Estados
independentes.
As várias modalidades de RI descritas anteriormente podem ser
melhor visualizadas na Figura 1.1, cujas categorias não são mutuamente
excludentes, mesmo porque as relações pacíficas ou amigáveis podem
apresentar, em determinado momento histórico ou com referência a questões
específicas, elementos conflituosos, do mesmo modo que as relações
conflituosas comportam fases ou elementos amigáveis, como foi o caso das
relações EUA-URSS durante a Guerra Fria. Por outro lado, tanto as relações
pacíficas como as conflituosas podem ser de natureza bilateral ou multilateral.

1. RI Bilaterais – aquelas que se processam entre dois atores internacionais.


Exemplo: As relações Brasil-Alemaha

2. RI Multilaterais – as que se processam entre três ou mais atores


internacionais. Exemplo: As relações entre os 15 membros do Conselho
de Segurança da ONU

3. RI Pacíficas/Amigáveis – de reciprocidade: relações diplomáticas clássicas,


consulares, de cooperação e coordenação: políticas, econômicas, militar,
científicas, cultural, Técnica, social – de integração: numa federação (Bielo-
Rússia-Federação Russa), numa instituição supranacional (Portugal-União
Européia)

4. RI Conflituosas – contenciosos, litígios, conflitos, guerras (Brasil-EUA


na questão do aço; litígio fronteiriço Peru-Equador)

Figura 1. Modalidades de Relações Internacionais

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4. A Interdependência entre o Doméstico e o Internacional

Dentre os vários trabalhos recentes que tratam especificamente da


interdependência entre questões domésticas e relações internacionais,
destacam-se os de MILNER (1997) e KEOHANE & MILNER (Orgs.,
1996). Uma parcela importante do impacto internacional das políticas
domésticas deriva das reações institucionais às múltiplas incertezas geradas
por estas políticas. Esse impacto seria causado não tanto pelos erros de
julgamento que tais incertezas pudessem causar, mas pelas conseqüências
estratégicas e institucionais de se saber que tais erros podem ocorrer.
O volume organizado por KEOHANE & MILNER (1996) demonstra,
com corroboração empírica, que a internacionalização da economia tem
tido efeitos importantes sobre políticas domésticas. Um dos efeitos mais
claramente demonstrados tem sido a relativa perda de autonomia dos
governos em matéria de política macroeconômica, como resultado da
crescente mobilidade de capital. Quase inevitavelmente, os governos dos
países afetados têm que recorrer a organismos internacionais, como o FMI e
o Banco Mundial, como única alternativa para sair de sérias crises financeiras.
Um efeito que poderia ser considerado benéfico, pelo menos em alguns
casos, tem sido a criação de condições que facilitam reformas políticas e
econômicas domésticas, que em outros circunstâncias dificilmente seriam
realizadas.
A internacionalização tem ampliado a esfera das economias nacionais
que se tornam mais vulneráveis a choque externo, o que tem levado a
profundas crises econômicas, como as que atingiram a maioria dos Tigres
Asiáticos, a partir de 1997. Em conseqüência desses mesmos eventos, a
Rússia e o Brasil foram também forçados a desvalorizar suas moedas em
relação ao dólar norte-americano causando sérias dificuldades às suas próprias
economias e às de outros países, em particular aos de economias emergentes.
A recente crise da economia brasileira, resultante da nova política cambial
que permitu a flutação do real em relação ao dólar dos EUA, a partir de
meados de janeiro de 1999, teve impacto imediato na sua própria economia
e forte repercussão em toda a América Latina e, mais acentuadamente, no
MERCOSUL, empurrando a região para a recessão.
Uma conseqüência imediata da crise cambial brasileira foi a fuga de
investimentos externos. Em março de 1999 o País e o FMI tiveram que
acertar novo programa econômico, modificando o acordo de ajuda
internacional de US$41,5 bilhões, finalizado em novembro de 1998. Como
parte desse novo ajuste o governo teve que submeter ao Congresso,

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apressadamente, novas propostas de reforma bastante duras, que incluíram
aumento de impostos e de contribuições previdenciárias, exigindo assim
novos sacrifícios da população e perdas significativas de poder aquisitivo,
principalmente por parte de milhões de assalariados e, inevitavelmente,
aumento da taxa de desemprego, considerada já bastante elevada. As medidas
em questão foram justificadas como sendo parte de um conjunto de políticas
destinadas a deter a queda do real, manter condições de estabilidade e
confiança na economia brasileira, o que incentivaria o retorno do capital
estrangeiro que foi retirado do país apressadamente, dada a natureza
altamente volátil desse capital.
Entretanto, no contexto do MERCOSUL, as medidas adotadas pelo
governo brasileiro criaram dificuldades que passaram a exigir complexas
negociações entre Brasil e Argentina. Com o Real desvalorizado, o Brasil
passou a contar com condições mais favoráveis para a exportação de seus
produtos para o mercado internacional, inclusive para os parceiros do
Mercosul, ao passo que a Argentina, mantendo paridade de sua moeda com
o dólar norte-americano, passou a ter mais dificuldades para exportar seus
produtos para o Brasil, seu principal mercado.
As medidas tomadas pelo governo brasileiro têm permitido recuperação
da economia mais rapidamente do que se esperava — contrariando previsões
pessimistas então realizadas, mas permanecem incertezas quanto à capacidade
da economia de se recuperar inteiramente, a curto prazo. Conforme indica
relatório da OCDE (maio de 1999), a recuperação da América Latina e,
obviamente, do MERCOSUL, dependerá da capacidade da economia
brasileira refazer-se completamente de uma de suas mais sérias crises dos
últimos anos.
Além de outros aspectos examinados em seu trabalho, KOHANE &
MILNER (1996) concluem que a internacionalização da economia tem
também implicações para a teoria das RI: com base em argumentos
apresentados por ANDREWS (1994), e confirmados no estudo dos autores
já citados, a mobilidade de capital deve ser considerada como uma variável
estrutural do sistema internacional. O fluxo de capitais externos tornou-se
tão importante que a maioria das economias não tem como evitá-lo, nem
mesmo controlá-lo, dado o enorme custo que isso implicaria. Portanto, na
medida que os Estados sofrem pressões da economia internacional suas
reações, consubstanciadas em políticas domésticas, irão variar de acordo
com sua capacidade de arcar com tais custos.
Em seu trabalho MILNER (1997) procura demonstrar como as
políticas domésticas podem afetar as relações exteriores de um país. A autora

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apresenta argumentos contrários ao tratamento que muitas vezes se dá ao
Estado como ator unitário; para ela os Estados são poliárquicos, na medida
em que seus poderes de decisão são compartilhados por dois ou mais atores,
como o executivo e o legislativo, partidos políticos, etc. Milner utiliza um
modelo de teoria dos jogos para representar a atividade política tanto em
nível doméstico como internacional, e ilustra o modelo com a importante
problemática da cooperação entre países. A interação das preferências dos
atores domésticos, dadas suas instituições políticas e níveis de informação,
determina quando a cooperação internacional se torna possível assim como
os termos dessa cooperação.
A revista The Economist publicou interessante matéria com o título
“Clima doméstico define política externa” (reproduzida na GAZETA
MERCANTIL, 27-05-99, página A-12), na qual se examina a “decisão de
excluir o envio de tropas terrestres [norte-americanas] no início da campanha
de bombardeios aéreos...” à Iugoslávia, em 1999. Conforme menciona o
artigo, publicamente o governo norte-americano “afirmou que a decisão foi
tomada para não desagradar a Rússia e evitar um debate paralisante no
interior da OTAN”. Entretanto, em círculos privados e mais chegados à
Casa Branca, admitiu-se que a medida teve como alvo principalmente o
público norte-americano, uma vez que nem o povo nem o Congresso dos
EUA estariam dispostos a aprovar o envio de tropas americanas para mais
um conflito na Europa, que envolveria alto risco de perdas de vida. Havia
ainda a possibilidade de que a iniciativa poderia trazer dificuldades para a
candidatura do vice-presidente Al Gore.
O artigo salienta ainda não ser Kosovo “o único caso de política externa
voltada para os interesses domésticos”, citando como outro exemplo as
dificuldades impostas pelo governo dos EUA ao ingresso da China na OMC,
atitude essa motivada principalmente pelo receio de que, por causa dos
escândalos envolvendo possível espionagem e o alegado apoio financeiro
dado pelos chineses à sua campanha, o apoio do presidente Clinton poderia
causar hostilidade do Congresso. A partir da Guerra do Vietnã, o Congresso
norte-americano e a opinião pública passaram a ter cada vez mais influência
nas decisões relativas à política externa e hoje os EUA talvez sejam o país
onde esse tipo de influência seja mais acentuada do que na maioria das
democracias ocidentais.
Com referência ao tratamento dessa questão no Brasil, embora não
existam, à primeira vista, trabalhos com preocupação teórica, é oportuno
citar trecho de um artigo do Presidente Fernando Henrique CARDOSO
(1994), que reflete não apenas a posição do Chefe de Estado e de Governo,

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que foi também ministro das Relações Exteriores, mas de um cientista social:
“A política externa deve estar intimamente vinculada com os interesses internos
do país. Por isso, a cooperação com o setor privado terá de ser aperfeiçoada, como
fiz durante minha passagem pelo Itamaraty, quando criei o Conselho Assessor
Empresarial para permitir um amplo debate sobre o estabelecimento das
prioridades da atuação diplomática. É importante que a experiência continue e
se consolide, pois a política externa não é obra nem de homens, nem de instituições,
isoladamente, mas do país e da sociedade (....).”

5. O Nível de Análise em RI

A preocupação em definir níveis de análise surge nos anos 1950/60


quando a ordem do dia era introduzir maior rigor científico nos estudos de
RI. A questão derivava de um debate epistemológico mais amplo no que se
refere a duas abordagens utilizadas nas Ciências Sociais: a atomística e a
holistica. A partir da publicação do livro de WALTZ (1979), sobre teoria,
essas duas abordagens passaram a ser mais amplamente conhecidas,
respectivamente, como reducionista e sistêmica. A abordagem reducionista
pressupõe a subdivisão do objeto de estudo em seus vários componentes ou
partes, a fim de se compreender o seu todo, como ocorre freqüentemente
nas ciências exatas, tais como a Física, a Química, a Biologia e outras. Na
abordagem sistêmica a premissa básica é que ‘o todo é mais do que a soma
de suas partes’ e que o comportamento e a construção das partes são ambos
moldados pela estrutura do próprio sistema (BUZAN, 1995).
O debate entre as duas abordagens — atomística e holítica —
continua presente na literatura, embora sugestões alternativas têm sido
propostas, uma das quais refere-se à abordagem identificada como
estruturalista que procuraria combinar as duas anteriores, com base no
argumento de que estruturas e unidades seriam mutuamente constitutivas
(GIDDENS, 1984). Em RI é mais amplamente aceito o argumento de que
as duas abordagens — atomística/reducionista e holítica/sistêmica — são
complementares entre si e seu uso combinado proporciona melhor
entendimento do fenômeno estudado (BUZAN, 1995).
No livro System and Process in International Politics, KAPLAN
(1957) elabora uma tipologia de sistemas internacionais, com base na
distribuição e configuração de poder e alianças. O livro de Kaplan, que
favorecia o Estado como principal unidade de análise, deu início a uma
série de estudos que passaram a utilizar a abordagem sistêmica.

17
Em seu livro pioneiro Man, the State and War, WATZ (1959) procura
analisar as causas da guerra valendo-se de três imagens, cada uma delas
representando um nível distinto de análise: o indivíduo, a sociedade ou o
Estado e o sistema internacional. Baseando-se em ampla revisão da literatura,
Waltz conclui que um grupo de estudiosos atribui as causas da guerra
principalmente à natureza humana; para outro grupo, a guerra se explicaria
pela natureza do Estado; e para um terceiro grupo, as causas da guerra
estariam na natureza anárquica do sistema internacional. O Autor privilegia
este último nível de análise.
Em trabalhos publicados em 1960 e 1961, SINGER analisa o livro
de Waltz e chama a atenção para a importância de se definir o ‘nível de
análise’ nos estudos de RI, tendo sugerido dois níveis amplos: o sistema
internacional e o Estado-nação. Segundo aquele Autor, o sistema internacional,
pela sua amplitude, permitiria o estudo das RI como um todo, ou seja, os
padrões de comportamento entre os Estados e os níveis de interdependência
entre eles. A nível do Estado-nação poder-se-ía enfocar o processo de tomada
de decisão e examinar as condições e processos domésticos que afetam a
política externa. Embora tenha optado por esses dois níveis de análise,
SINGER (1960, p. 90) deixa claro que outros níveis podem também ser
considerados
Seguindo esses trabalhos pioneiros, em particular Waltz e Singer,
vários outros analistas têm optado por esquemas de pelo menos três níveis
de análise: o indivíduo — em geral, os tomadores de decisão, o Estado, ou
outras unidades reconhecidas como atores, e o sistema internacional. KEGLEY
& WITTKOPF (1997), por exemplo, propõem os seguintes três níveis:
(1) o nível individual, que se refere às características pessoais de indivíduos
cujo papel e comportamento são importantes para o processo de tomada
de decisão por parte de atores internacionais (Estados e outros atores);
(2) o nível nacional, que consiste de unidades relevantes para o processo
decisório diretamente relacionado com política externa (sistemas políticos e
econômicos responsáveis por decisões relacionadas com o poder nacional); e
(3) o nível sistêmico, que se refere às interações entre atores globais, estatais
e não-estatais.
Alguns autores admitem que um ou mais desses três níveis podem
ser subdivididos (HOLLIS & SMITH, 1990; YURDUSEV, 1993), enquanto
outros apresentam seus próprios esquemas, como por exemplo, ROSENAU
(1996), que sugere cinco níveis, ainda que com pouco potencial de contribuir
de maneira significativa para melhor esclarecimento da questão, em virtude
de sua complexidade: (1) idiosincrático, (2) papel, (3) governamental,

18
(4) societário e (5) sistêmico. RUSSETT & STARR (1992) propõem seis
níveis, que se justapõem aos sugeridos por Rosenau e oferecem maior clareza
em suas definições: (1) decisores individuais e suas características; (2) os papéis
desempenhados pelos decisores; (3) a estrutura do governo dentro da qual
os decisores operam; (4) a sociedade governada pelos decisores e na qual
eles operam; (5) o conjunto de relações existentes entre o Estado-nação ao
qual pertencem os decisores e outros atores internacionais; e (6) o sistema
mundial.
A questão do nível de análise tem tido importância fundamental nos
estudos de RI, tanto pelas implicações metodológicas como teóricas e
substantivas. O debate em torno da questão tem estimulado novos esforços
no sentido de esclarecer conceitos básicos e imprimir maior rigor analítico
ao estudo de RI, o que contribui também para o aprimoramento teórico
desse campo de estudos. O mais importante não seria definir por uma ou
outra das propostas existentes, que não são mutuamente excludentes, mas
estar consciente da necessidade de se adotar um esquema que melhor atenda
às necessidades e objetivos em pauta.

19
II. RAÍZES E DESENVOLVIMENTO

1. Precursores e Pioneiros

(1) Alguns Precursores Importantes

Questões importantes para o estudo das relações internacionais


contemporâneas estão presentes nos trabalhos de vários pensadores, como
por exemplo John Locke, Jean-Jacques Rousseau (que indaga, por exemplo,
se não seria melhor se o mundo fosse governado por uma sociedade civil),
Jeremy Bentham, John Stuar Mill e muitos outros. Os trabalhos desses e de
outros autores clássicos refletem principalmente preocupações de natureza
histórica, filosófica, jurídica, e de pensamento político, não necessariamente
de RI no sentido hodiernamente empregado. Entretanto, trabalhos dos
autores mencionados a seguir têm tido influência indelével no estudo
acadêmico das relações internacionais.
Na obra A Guerra do Pelopeneso, TUCÍDIDES (471-400 a.C.) relata
21 dos 28 anos da guerra entre Atenas e Esparta, e seus respectivos aliados
(século V a.C). A obra de Tucídides é freqüentemente citada como exemplo
de um dos primeiros esforços no sentido de analisar as relações conflituosas
entre duas cidades-estado então poderosas. Ele vai além da simples narrativa
histórica e procura analisar e explicar eventos e a própria guerra e sua natureza,
destacando a luta pelo poder e as forças por traz dessa luta. Através de
observação sistemática, durante cerca de 20 anos, Tucídides identifica o
medo como a principal causa da guerra e associa o medo com o equilíbrio
do poder entre Esparta e Atenas. Esparta tinha medo de perder o importante
papel que detinha no mundo Helênico, daí sua preocupação em construir e
manter um poder militar e concretizar alianças com outras cidades-estado,
preparando-se assim para enfrentar os atenienses. Atenas, por sua vez, sentia-
se também ameaçada pelo poder militar de Esparta, e assim procurava
fortalecer seu próprio poder, caracterizando-se, portanto, uma verdadeira
corrida armamentista, naturalmente nas características e proporções da época.
DANTE ALIGHIERI (1265-1321), inspirado por S. Tomás de
Aquino, foi possivelmente o primeiro autor ocidental a escrever sobre um
governo universal leigo. Em sua principal obra política, De Monarchia,
escrita em latim entre 1312 e 1313 (não há certeza quanto à data) ele teria
tido a intenção de produzir trabalho de natureza científica, objetivo. Dante
considera o homem como cidadão do mundo, membro de uma sociedade
universal, que seria dirigida por um monarca, na ótica do autor, único a

20
reunir condições de manter a tranqüilidade da paz, justiça e liberdade.
O tema da paz universal é recorrente no pensamento de Dante; entretanto,
seguindo outros pensadores, como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino,
a concepção de paz então dominante era de natureza mais filosófica e religiosa
do que política.1
Nicolau MAQUIAVEL (1469-1527), que viveu cerca de duzentos
anos depois de Dante, também em Florença, foi funcionário público até a
queda da República Florentina em 1512. Daí em diante passou a escrever
tendo como cenário o caos e a instabilidade política então existentes na
Itália. Como Tucídides, Maquiavel escreveu sobre o poder, sobre a balança
do poder, sobre a formação de alianças, e sobre os conflitos entre as diferentes
cidades-estado da Itália e sobre as causas de tais conflitos. Mas um de seus
principais temas foi o que hoje se identifica como segurança nacional:
O Príncipe poderia perder seu Estado caso não se preocupasse com as forças
e ameaças internas e externas. Seu livro O Príncipe é um manual prático de
como alcançar, manter e ampliar o poder. Maquiavel trata de temas específicos
como, por exemplo, como as “cidades ou principados devem ser
governados...”, (Cap. 5), como “os homens, e especialmente os Príncipes,
obtêm aplausos ou incorrem em censura...” (Cap. 15). No Cap. 17 o Autor
trata temas como a “crueldade e clemência”, quando discute as alternativas
entre “ser amado ou temido...” Um dos pontos mais polêmicos de suas teses
é que ele advoga o uso de quaisquer recursos ou meios a fim de preservar os
interesses e manter a segurança do Estado, daí a origem dos termos
maquiavelismo, maquiavélico, etc. Maquiavel oferece também importante
contribuição metodológica, quando procura descrever e analisar o mundo
como ele é, e não como gostaríamos que fosse.
Hugo GROTIUS (1583-1645), jurista e estadista holandês,
propunha que as relações entre os Estados deviam ser regidas por regras e
normas bem definidas, aceitas por todos os Estados; era prático, pragmático.
Para o campo das relações internacionais seu trabalho mais importante é
Law of War and Peace (1625), em três volumes, que trata, como o título
sugere, da guerra e da paz e também de questões que hoje se identificariam
como de segurança nacional. Grotius elabora princípios gerais, baseados na
razão e no ‘direito natural’, os quais deveriam ser observados pelos Estados,
não obstante a inexistência de uma autoridade central em condições de
exigir tal observância. Grotius entende a guerra como parte da condição
natural da sociedade internacional. Entretanto, paralelamente às condições
que conduzem à guerra, encontram-se também as condições que podem
levar à paz, pois ambas as condições são sujeitas às regras e normas que
regem as relações entre os Estados.

21
Thomas HOBBES (1588-1679) em seu livro Leviatã transmite, como
Maquiavel, uma visão pessimista da natureza humana, refletindo assim seu
arraigado materialismo. Para ilustrar suas idéias Hobbes argumenta que
antes do surgimento das sociedades humanas o homem vivia em ‘estado de
natureza’, que seria como uma situação permanente de guerra: cada indivíduo
contra todos os demais. O homem era naturalmente levado a lutar contra
seus semelhantes para se defender e para sobreviver. Em suas palavras:
“... there would be a continual fear and danger of violent death; and life of
man, solitary, poor, nasty, brutish, and short...” Entretanto, Hobbes nunca
chegou a afirmar que tal ‘estado de natureza’ existisse de fato; percebe-se em
sua obra que ele quis demonstrar como a vida poderia ser na ausência de
uma autoridade central: o estado de anarquia persistiria sem um Leviatã,
ou em linguagem atual, sem um poder hegemônico, um hegemon. Sem tal
hegemon seriam inevitáveis a suspeita, a desconfiança, o conflito, a guerra.
Hobbes salienta ainda que na ausência de um contrato social entre os Estados,
não haveria ordem, e sem ordem a civilização e todos os seus benefícios
tornam-se impossíveis: não haveria desenvolvimento econômico, nem arte,
conhecimento, ou qualquer outra coisa de valor.
O filósofo alemão Immanuel KANT (1724-1804), entre outras obras,
escreveu Paz Perpétua, um tratado filosófico publicado em 1795. Suas idéias
sobre a paz derivam do conceito de moralidade e do princípio da razão
prática (praktische Vernunft), através do qual ele relaciona o indivíduo ao
sistema internacional e indaga que condições são necessárias nas relações
entre os Estados para que se possa garantir liberdade e moralidade à pessoa
humana? Para Kant, a primeira condição para a existência de uma paz
permanente entre as nações seria a eliminação das causas potenciais da guerra.
Ele propõe a criação de uma federação pacífica (foedus pacificum) entre
repúblicas democráticas, para a suspensão de hostilidades e garantia da paz.
A paz democrática seria alcançada com a institucionalização, no processo
decisório internacional, das normas e valores dos sistemas liberais já existentes
nas democracias. Para Kant, os problemas políticos internos ou domésticos
dos Estados não seriam resolvidos a menos que se alcançasse harmonia em
nível internacional. Embora muitos autores interpretem Kant como idealista
utópico, ele encarava suas propostas como perfeitamente realizáveis e
compatíveis com a realidade de sua época e do futuro.
George Wilhelm Friedrich HEGEL (1770-1831) passou os últimos
anos de sua carreira como professor da Universidade de Berlim (1818-1831),
onde exerceu o cargo de reitor a partir de 1930. Hegel foi reconhecido, já
nesse período, como o mais importante filósofo da Alemanha, graças à sua
brilhante produção intelectual, que inclui obras como Enciclopédia das

22
Ciências Filosóficas e Filosofia da História. É amplamente conhecida a
influência que a filosofia dialética de Hegel exerceu sobre Karl Marx (que
inclusive publicou em 1843-1844 o trabalho Crítica da Filosofia do Direito
de Hegel) e sobre o pensamento político ocidental. Hegel enaltecia o papel
do Estado e acreditava que o primeiro dever deste era assegurar sua própria
sobrevivência. Para ele o Estado existia independentemente de seus cidadãos,
portanto, teria padrões morais diferentes e superiores às pessoas. Ele propunha
que, sendo os Estados relacionados uns com os outros, como entidades
independentes, e uma vez que a validade dos tratados depende da
continuidade desse relacionamento e, sendo o desejo de todo Estado preservar
seu próprio bem-estar, segue-se que o bem-estar é prioritário nas relações
entre os Estados. Hegel propunha que cada pessoa pode buscar seus próprios
objetivos no contexto da sociedade civil e da classe econômica a que ela
pertencia, mas essa busca pelos objetivos individuais deveria subordinar-se
aos propósitos maiores do Estado. Em sentido ético, o Estado teria primazia
sobre o indivíduo. Dada sua individualidade, o Estado seria seu próprio
árbitro
Carl von CLAUSEWITZ (1780-1831), considera o poder militar
importante, mas propõe que o mesmo deveria estar sempre subordinado ao
poder político (civil). Atribui-se a ele a expressão “... a guerra é uma
continuação da política por outros meios...” Morreu sem completar o
trabalho Da Guerra, completado e publicado após sua morte (uma edição
brasileira desse livro foi publicada pela Editora UnB, com o mesmo título).
Clausewitz trata também de questões estratégicas e de segurança nacional.
Karl MARX (1818-1883) estudou os sistemas econômicos da
antigüidade e de seu tempo, tendo concluído que, em cada período histórico,
o modo de produção, formado pelas forças produtoras e pelas relações de
produção, domina o desenvolvimento da superestrutura (as instituições
políticas, o direito, a moral, a religião, as artes, etc.). Dessa base econômica
dependeria tudo o mais, sendo que o modo de produção dominante criaria,
inclusive, as estruturas do sistema internacional, o que conduziria a relações
de exploração e de dominação da burguesia mundial sobre a classe proletária
universal. Essas relações de exploração e de dominação seriam facilitadas
pela convergência de interesses e uma espécie de aliança tácita entre a
burguesia mundial (da metrópole) e as elites dos países periféricos.

(2) Autores, Estudos e Iniciativas Pioneiras

Alguns autores e estudos pioneiros, publicados no período entre a I e


a II Guerra Mundial, foram importantes para o desenvolvimento inicial de

23
RI como um campo de estudos. Uma preocupação de muitos desses autores
pioneiros era identificar as causas da guerra — cujos efeitos foram devastadores
em toda a Europa — e paralelamente buscar caminhos para a paz, com o
propósito de evitar catástrofe semelhante no futuro. Alguns autores se
voltavam para outras questões, que direta ou indiretamente se relacionavam
com a preocupação básica de guerra e paz, como os problemas de segurança
e desarmamento, o imperialismo e suas conseqüências, negociação
diplomática, balança do poder, geopolítica, etc. Dentre os autores pioneiros
destacam-se Alfred Zimmern, professor da Universidade de Oxford, que se
preocupou com questões relacionadas ao ensino de RI na universidade, tendo
sido severamente criticado por realistas, como Carr e Morgenthau, por suas
propostas consideradas utópicas; Harold D. Lassawell, um dos primeiros
autores norte-americanos a analisar possíveis relações entre a política
internacional e variáveis psicológicas como símbolos, percepções e imagens;
desenvolveu técnicas de análise de conteúdo, utilizadas inicialmente em
estudos da propaganda nazista durante a II Guerra Mundial; Frank M.
RUSSEL cujo livro Theories of International Relations (1936) apresenta
contribuição até então inédita; e Carl J. FRIEDRICH, que estudou o
processo de formulação e implementação de política externa com a obra
Foreign Policy in the Making (1938).
Vários outros estudiosos produziram obras pioneiras que contribuíram
para definir mais claramente algumas das principais linhas de análise que se
tornariam dominantes no estudo de RI, e desse modo ajudaram também a
consolidar definitivamente RI como uma opção acadêmica, incentivando a
pesquisa sistemática e despertando o interesse inicial para a teoria. Dentre
esses autores é importante mencionar, por exemplo, Frederick L. SCHUMAN
com a contribuição International Politics: An Introduction to the Western
State System and the World Community (1933, 1958, 6a. ed.); Nicholas
SPYKMAN, que com o livro America’s Strategy in World Politics (1942,
1970) apresenta uma das primeiras análises sistemáticas sobre a estratégia
dos Estados Unidos na fase inicial de sua participação na II Guerra Mundial.
Na Inglaterra, destaca-se o trabalho de Edward H. CARR, The
Twenty Years’Crisis, 1919-1939, publicado pela primeira vez em 1939 (no
Brasil em 1981, pela Editora UnB, com o tíltulo Vinte anos de crise, 1919-
1939), que apresenta importante contribuição ao debate entre ‘utópicos’ e
‘realistas’. Para Carr, os utópicos se inspiravam no otimismo iluminista do
século XVIII, no liberalismo do século XIX e no idealismo de Woodrow
Wilson. Entre os utópicos norte-americanos predominava a crença de que
os Estados Unidos haviam participado da I Guerra Mundial como parte

24
desinteressada, como ‘campeões da moralidade’; argumentavam que a política
de balança do poder era um fenômeno tipicamente europeu e que a paz e a
harmonia entre os Estados seria alcançada e mantida através da observância
dos direitos e obrigações internacionais. Os ‘realistas’, basicamente
conservadores, davam importância às questões de poder, preocupavam-se
com a segurança e com a manutenção de forças militares, necessárias para a
sustentação das iniciativas diplomáticas. Embora crítico dos utópicos, Carr
conclui, de maneira pragmática mas deixando transparecer sua preocupação
normativa, que as teorias de RI devem conter tanto elementos de utopia
como de realismo.
Após a II Guerra Mundial autores como Martin WIGHT, na
Inglaterra e Hans MORENTHAU, de origem alemã mas radicado nos
Estados, trouxeram novas contribuições que vieram consolidar a orientação
realista nos estudos de RI. O trabalho de WIGHT (1946; 1978; 1985)
sobre política do poder, foi publicado em 1946 pelo Royal Institute of
International Affairs, em forma de uma brochura de 68 páginas, como
parte de uma coleção chamada Looking Forward. Uma versão póstuma,
ampliada, baseada em rascunhos deixados pelo autor (falecido em 1972)
foi publicada em 1978, também sob auspícios do Royal Institute of
International Affairs. Uma tradução desta última edição foi publicada pela
Editora UnB em 1985, com o título A Política do Poder.
Os organizadores da edição ampliada do livro de Wight apontam, no
capítulo introdutório, cinco aspectos que caracterizam a obra: (1) sua
perspectiva é eurocêntrica, ainda que o Autor faça observações gerais
indicativas de que o sistema internacional já não é mais europeu e sim
global; (2) o Autor trata a política internacional como se compreendesse
essencialmente de relações entre Estados, não levando em conta outros atores,
já naquela época considerados também importantes por muitos estudiosos,
como classes, partidos políticos, instituições internacionais, corporações
transnacionais, etc.; (3) a obra trata essencialmente das relações políticas
entre os Estados, manifestando-se muito pouco sobre aspectos econômicos
dos assuntos globais; (4) pelo seu título e conteúdo, a obra é associada à
escola realista, embora não se vislumbre intenção do Autor de apresentar
uma teoria global da política internacional — como MORGENTHAU
(1948) o faz —, mesmo porque ele não descreve sua posição como realista,
não a apresenta como alternativa ao utopismo, nem procura fazer uso da
análise marxista da ideologia — como CARR (1939) o faz —, não ataca o
‘moralismo’ nem propõe que sua análise sirva de inspiração para a prática
— como KENNAN (1952) o faz; (5) o Autor não leva em conta trabalhos

25
posteriores, aos seus primeiros estudos na área de RI, nem leva em
consideração os debates sobre abordagens teórico-metodológicas, nem
tampouco se mostra interessado na escola behaviouralist (não confundir com
behaviorista, ou comportamentalista, uma sub-área da Psicologia), cujas
críticas dirigem-se justamente a premissas metodológicas de obras como a
sua.
Os trabalhos de Wight são de fundamental importância para a
chamada ‘escola inglesa’ de RI. Ele propõe que a política internacional
poderia ser vista de acordo com três tradições: ‘realista’, ‘racionalista’ e
‘revolucionária’, ou respectivamente como ‘maquiaveliana’, ‘grotiana’ e
‘kantiana’. Para o primeiro grupo o cenário internacional seria anárquico,
com a existência, em potencial, de conflito permanente; o segundo grupo
veria o mundo numa mescla de conflito e cooperação, com a possibilidade
de existência de uma sociedade de Estados, com normas definidas e
observadas; o terceiro grupo veria a sociedade internacional como a civitas
maxima, na qual predominaria o humanismo, a justiça e a paz. A proposta
de Wight suscitou, e ainda suscita, muitos debates, principalmente na Grã-
Bretanha. Wight se identificava mais com a tradição grotiana, embora alguns
autores o tenham como um realista. Mas para ele próprio, a fim de se alcançar
um entendimento mais completo da realidade internacional seria necessário
uma combinação das três orientações (SMITH, 1995, p. 11-13).
A principal obra de Hans MORGENTHAU (1954), Politics Among
Nations, foi sem dúvida um dos trabalhos de maior impacto nesse período.
Publicado pela primeira vez em 1948, sua principal contribuição consiste
numa série de proposições que o autor denomina “princípios do realismo
político”, componentes básicos de sua teoria da política internacional. Em
seu livro Man, the State and War, Kenneth N. WALTZ (1959) enfatiza o
papel que organismos internacionais podem desempenhar no processo de
cooperação internacional, ajudando a promover a paz e a harmonia entre as
nações.
A partir das décadas de 1950/1960 surgem novas alternativas teórico-
metodológicas, enfocando questões como o processo decisório, a abordagem
sistêmica, integração, conflitos e teoria dos jogos, dimensões psicológicas e
culturais das relações internacionais, etc. Dentre os trabalhos mais importantes
desse período, de orientação behaviuoralist, destacam-se os livros de J. Davis
SINGER (1965), Human Behavior and International Politics, de Herbert
KELMAN (1965), International Behavior, de J. H. DeRIVERA (1968)
The Psychological Dimension in Foreign Policy. O livro de Richard C.
SNYDER, H. W. BRUCK e Burton SAPIN (1954), Decision-Making as

26
an Approach to the Study of International Politics mantém-se como
referência básica para a análise do processo decisório em RI. Quanto à
abordagem sistêmica, destacam-se as contribuições de Charles A.
McCLELLAND (1966), Theory and the International System e de Morton
A. KAPLAN (1967), System and Process in International Politics.
Nos anos subseqüentes cresce rapidamente a literatura sobre relações
internacionais, tanto em termos numéricos como em densidade teórica e
analítica. Grande parte dessa literatura, cada vez mais sofisticada, passa a
refletir preocupações mais específicas, incentivando desse modo o
desenvolvimento de teorias de alcance médio, ou parciais, não obstante
manter-se também o interesse por esquemas teóricos gerais, mais ambiciosos.

2. As Raízes de RI como Campo de Estudos

(1) O Eixo Anglo-Americano: Bases Institucionais

Nas primeiras décadas deste século surgiram nos Estados Unidos e


na Grã-Bretanha centros de estudos e instituições independentes, dedicadas
ao estudo (não necessariamente acadêmico) das RI e à promoção da paz
mundial. Nos EUA, muitos desses órgãos foram constituídos graças a doações
de milionários norte-americanos, com o propósito de realizar pesquisas e
outras atividades que contribuíssem para proporcionar melhor conhecimento
sobre questões internacionais, tornando esse conhecimento disponível aos
tomadores de decisão que atuavam em diferentes setores do governo,
particularmente em áreas como política externa e negócios exteriores. Os
estudos realizados por esses órgãos eram, e ainda são, publicados em forma
de livros ou relatórios, ou através de artigos veiculados em periódicos
especializados, alguns deles fundados e mantidos pelas próprias instituições.
Esses centros e instituições tiveram importante papel no surgimento dos
primeiros cursos universitários em RI, assim como na sua manutenção até
os dias de hoje. Seu apoio aos primeiros estudos sistemáticos e às iniciativas
de publicação dos resultados de tais estudos foi também de importância
fundamental para o estabelecimento de uma forte tradição de ensino e
pesquisa em RI.
Dentre essas instituições, o The Carnegie Endowment for
International Peace, fundado em 1910, mantém-se com recursos próprios,
sendo suas principais atividades a realização de estudos e pesquisas, a
promoção de seminários, conferências e debates sobre temas relacionados

27
com a paz internacional e a poltica externa dos EUA. Em 1970 a instituição
fundou o periódico Foreign Policy, “a fim de encorajar novos e mais vigorosos
debates sobre temas vitais para a política externa dos Estados Unidos”. O
Carnegie Endownment apoia também programas de estudos em RI e em
Política Externa dos Estados Unidos, principalmente através de bolsas de
estudo e fellowships.
Outra instituição importante é a Brookings Institution, fundada em
1916 graças a uma doação de Robert S. Brookings. Seu objetivo inicial era
promover atividades que contribuíssem para aproximar universidades e o
governo, mas hoje ela se dedica principalmente ao estudo da política exterior
dos EUA. Nos últimos tempos a Brookings Institution tem privilegiado a
análise de questões globais e seu impacto sobre os EUA assim como as
conseqüências mundiais do fim da Guerra Fria. A Instituição publica livros,
artigos para revistas e periódicos especializados e itens noticiosos (briefs)
para veículos de circulação internacional.
Em 1920 era fundado em Londres o Royal Institute of International
Affairs-RIIA, também conhecido como Chattan House, com preocupações
voltadas inicialmente para a realização de atividades que pudessem dar apoio
ao governo britânico na formulação e implementação de sua política exterior.
À semelhança de seus congêneres norte-americanos, o RIIA também cresceu
e se transformou em grande instituição de pesquisa, preservando no entanto
as diretrizes iniciais de produzir não somente trabalhos de natureza
acadêmica, mas também estudos e outras atividades que contribuíssem tanto
para preencher lacunas no governo como no setor privado. O RIIA publica
a revista International Affairs, que há 80 anos mantém-se como importante
foro de debates sobre questões internacionais.
Ainda com referência à Grã-Bretanha, é importante ressaltar o
International Institute for Strategic Studies-IISS, entidade particular,
fundada em 1958, que reúne associados e realiza encontros anuais sobre
temas da agenda internacional relacionados com questões de estratégia e
segurança. O IISS mantém programa interdisciplinar de pesquisas, com a
participação de especialistas e pesquisadores visitantes de vários países. Seus
estudos são divulgados através dos Adelphi Papers, de relatórios especiais e
de um anuário sobre questões estratégicas e de segurança.
Em 1921 foi criado em Nova York o Council on Foreign Relations,
com o propósito de manter os EUA engajados nos acontecimentos mundiais.
Ainda hoje o Council (Conselho) defende a tese que a prosperidade dos
Estados Unidos está inexoravelmente vinculada ao bem-estar de todo o
mundo. O Conselho é um think tank de natureza privada, cujo objetivo

28
mais amplo é compreender e apreender o que se passa no cenário
internacional a fim de alimentar novas idéias que possam ser aproveitadas
por responsáveis pela formulação e implementação da política externa dos
EUA. Nos últimos tempos o Conselho tem dado prioridade a três áreas
principais: Ásia, economia internacional e segurança nacional. O Conselho
publica a revista Foreign Affairs, que completa 80 anos em 2001. A linha
editorial da revista tende mais para a análise de grandes questões
internacionais, de interesse dos EUA. Em geral, os autores são de alto gabarito
e atuam na Academia, em grandes jornais, na política, ou são líderes
destacados em suas respectivas áreas. Os ex-presidentes Jânio Quadros e
José Sarney tiveram, ambos, artigos publicados na revista, nos quais
apresentaram as principais linhas de seus respectivos governos, com ênfase
na política externa.
Outros periódicos que foram surgindo adotam linha mais
rigorosamente acadêmica, dentre os quais destacam-se os seguintes:
International Organization, fundado e mantido desde 1947 pela World
Peace Foundation; World Politics, publicado desde 1948 pelo Center of
International Studies da Princenton University; International Security
Review, publicada pelo Center for International Security Studies; The
Washington Quarterly, publicado a partir de 1978 pelo Center for Strategic
and International Studies, da Geoge Washington University; International
Studies Quarterly, publicado sob os auspícios da International Studies
Association. Há nos Estados Unidos outros periódicos importantes
dedicados, pelo menos em parte, à área de RI ou a algumas de suas sub-
áreas.
Na Grã-Bretanha, além de International Affairs, destaca-se a Review
of International Studies, a revista oficial da British International Studies
Association e que até 1975 circulou com o nome de British Journal of
International Studies. Alguns outros periódicos ingleses, embora dedicados
primordialmente a outras áreas, publicam material de RI; entre eles estão o
British Journal of Political Science, o Interstate, publicado pelo
Departamento de Política Internacional da Universidade do País de Gales,
em Aberystwyth, e Millenium, da London School of Economics and Political
Science.
O estudo propriamente acadêmico de RI teve início formalmente
pouco depois da I Guerra Mundial, quando foram criadas as primeiras
cadeiras (chairs) e departamentos de RI. Na Grã-Bretanha foi estabelecida,
em 1919, a cadeira Woodrow Wilson na Universidade do País de Gales, em
Aberystwyth; logo depois criaram-se cursos também na London School of

29
Economics and Political Sciene e na Oxford University (GROOM, 1994).
Pouco depois foram criados os primeiros cursos regulares de RI em
universidades norte-americanas.
Os EUA saíram da II Guerra Mundial na condição de nova potência
líder no mundo, tanto na esfera militar como econômica e política. Esse
novo papel de superpotência exigiria presença a nível global bem como
atuação nos vários organismos e foros internacionais que começavam a se
multiplicar, com a criação das Nações Unidas e de várias outras organizações
interestatais. Exigiria também novas responsabilidades e novos compromissos
com a manutenção da paz, com a preservação ou construção da democracia
em nome da qual o país participara da guerra. Houve o que se poderia
identificar como uma nova postura do governo e de lideranças políticas e
empresariais com relação ao resto do mundo, uma postura mais cosmopolita
e universalista, que levou a uma presença marcante dos EUA no cenário
internacional, contrariamente ao que ocorrera após a I Guerra Mundial,
quando o país se isolou e, por decisão do seu Congresso, recusou-se a integrar
a Liga das Nações, cuja criação havia sida proposta e defendida com grande
empenho pelo Presidente Woodrow Wilson.
Essa conjugação de elementos e forças, sem dúvida contribuiu para
maior demanda de especialistas em RI e, conseqüentemente, para o
surgimento de novos cursos e de novos programas de RI em universidades
norte-americanas. Paralelamente, houve um grande impulso em programas
de pesquisa, com apoio financeiro de ricas fundações (Ford, Rockfellow,
Kellog e outras), além de uma presença ativa do próprio governo norte-
americano, interessado em manter-se informado e atualizado sobre o que se
passava no resto do mundo. Como resultado, RI se consolidou nas
universidades norte-americanas como uma opção acadêmica e há hoje naquele
país, como em nenhum outro, um grande número de centros e programas
de alto nível dedicados ao ensino e à pesquisa em RI. Como resultado, a
produção acadêmica norte-americana, na área de RI, tem sido a mais volumosa
e a que apresenta maior contribuição teórica, metodológica e substantiva.

(2) O Estudo de RI Fora do Eixo Grã-Bretanha-EUA

Fora do eixo Grã-Bretanha-Estados Unidos os estudos acadêmicos de


RI permaneceram, em grande parte, e ainda continuam em muitos países
europeus, como sub-áreas do Direito Internacional, da Ciência Política, da
Sociologia e da História. Uma exceção é o Instituto de Altos Estudos
Internacionais de Genebra, fundado em 1927 pelo professor William

30
Rappard, com “o propósito de contribuir para a experiência de cooperação
internacional que o estabelecimento da Liga das Nações em Genebra
representava” (IUHEI, 1996/97, p. 3). Portanto, da mesma maneira que as
iniciativas pioneiras da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, a criação do
IUHEI inspirou-se em missão de natureza prática, tendo como bases
filosóficas o internacionalismo liberal dos anos 20: compreender as causas
da guerra e buscar caminhos alternativos para a paz e a estabilidade. Desde
sua fundação o IUHEI tem mantido vínculos bastante estreitos com a
comunidade anglo-norte-americana, especialmente com os EUA, suas
tradicionais fontes de apoio financeiro, através das ricas fundações norte-
americanas.
Na França, a área de RI conta com alguns scholars de renome
internacional, mas não há o que se poderia considerar uma massa crítica de
professores, pesquisadores e estudantes, em parte porque eles estão dispersos
em diversas faculdades ou institutos, em diferentes cursos; não há grandes
centros de formação acadêmica e de pesquisa, em escala nacional, nem
tampouco uma associação acadêmica ou profissional que promova ou facilite
o contato entre os especialistas. Em geral, a literatura de RI na França reflete
forte influência jurídica e histórica e, segundo GOOM (1994), ela é em
grande parte a-teórica. Há naturalmente exceções a essa condição geral,
como as contribuições de autores como Raymond Aron e Marcel Merle,
considerados hoje como ‘clássicos’. Há também um número crescente de
autores competentes, de gerações mais recentes.
ARON (1962), com sua obra monumental Paix et guerre entre les
nations (publicada pela Editora UnB, 1979, com o título Paz e guerra
entre as nações), procura analisar as relações internacionais sob quatro
perspectivas amplas e interrelacionadas: teoria, sociologia, história e o que
ele denomina ‘praxiologia’. Sua análise engloba proposições sobre diplomacia
e estratégia, poder e sua natureza, noções de equilíbrio, modelos bipolar e
multipolar e sistemas internacionais homogêneos e heterogêneos. Entretanto,
a obra de Aron, publicada mais de 20 anos depois do trabalho de CARR
(1939), The Twenty Years’s Crisis, não obstante o impacto inicial que teve
tanto na França como em outros países onde foi publicada, e embora
permaneça como um trabalho importante, não tem inspirado grande número
de seguidores, possivelmente em virtude de seu caracter abrangente.
O livro de Marcel MERLE (1988, 4a. edição), Sociologie des relations
internationales (publicado em português com o mesmo título, pela Editora
UnB, 1981) representa também contribuição sui generis, pela abordagem
sociológica do fenômeno internacional. Merle tem uma produção intelectual

31
bastante ampla, destacando-se entre seus trabalhos os seguintes: Sur le
‘problematique’ de l’étude des relations internatinales en France, publicado
em 1983 na Review française de science politique, La crise du golfe e le
nouvel ordre international (1991), Les relations internationales a l’épreuve
de science politique (1993) e Bilan de relations internationales
contemporaines (1995). A seguinte citação, que aparece na contra-capa
deste último livro de Merle, retrata as condições de RI como um campo de
estudos acadêmicos na França: “Le relations internationales ont longtemps fait
figure de parent pauvre dans la recherche et dans l’enseignement universitaire
français. ...”
Em trabalho mais recente, Bertrand BADIE e Marie-Claude
SMOUTS (1995), Le retournement du monde - sociologie de la scène
internationale, inspirados em Merle, procuram descrever e analisar um
mundo constituído por problemas, processos e estruturas que emanam da
sociedade, da política e da cultura. Em outros trabalhos Smouts analisa a
política exterior e o papel da França na ONU e em operações de paz
(Namíbia, Cambodja, Somália, Iugoslávia). Três gerações de internacionalistas
se reuniram sob os auspícios do CERI para explorar novas perspectivas
decorrentes da conjunção do processo de globalização e o fim da Guerra
Fria. Foram examinadas grandes questões da atualidade, como o
nacionalismo, a construção de uma nova Europa, a economia política
internacional, os novos focos de conflito e sua natureza, questões relacionadas
com a problemática do tempo e do espaço, a ação dos atores transnacionais,
etc. SMOUTS (1998) reúne os trabalhos apresentados e discutidos no
referido evento sob o sugestivo título Les nouvelles relations internationales:
pratique et théories.
Os trabalhos de Alfred GROSSER (1984a, 1984b) sobre política
externa francesa, Affaires exterières: la politique de la France 1944-1984, e
sobre a Alemanha, La Allemagne en occident: La Républic féderale 40 ans
après são contribuições específicas e relevantes, uma vez que Grosser é
conhecido especialista em Alemanha. Dois outros trabalhos seus, publicados
na dédada de 70 e que merecem destaque são: IVème Republique et sa
politique exterieure (1972) e Les politiques exterieures européenes dans la
crise (1976). Uma coletânea organizada por LAÏDI (1993), L’ordre mondiale
relâché, apresenta uma análise conjuntural do mundo contemporâneo, sob
a ótica de vários autores franceses.
Como ocorre na maioria de outros países, inclusive no Brasil, quase
todos os trabalhos anteriormente mencionados refletem muito mais esforços
individuais de professores e/ou pesquisadores que atuam em diferentes

32
instituições, do que propriamente ‘programas’ acadêmicos ou de pesquisa,
sob uma certa coordenação. O Institute français des relations internationales-
IFRI, fundado por Thierry de Montbrial em 1979 é considerado o principal
centro de pesquisa e debate que reúne uma equipe razoável de estudiosos de
RI. Até recentemente ele contava com cerca de 18 colaboradores em tempo
integral e outros tantos que se dedicavam também ao ensino em universidades
ou nas chamadas ‘grandes escolas’ francesas. O Instituto é mantido com
recursos obtidos do Gabinete do Primeiro Ministro, do setor privado, através
de contribuições de grandes empresas e bancos, como a Alcatel, a Renaut, o
Banque de France, o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento, a Câmara
do Comércio e Indústria de Paris, a France Télécom, a Fundação Ford, etc.
Há também as taxas de adesão dos sócios institucionais e de pessoas físicas.
O IFRI promove seminários, colóquios, debates e mantém um extenso
programa de pesquisa, cujos resultados são publicados em Politique
Étrangère, mantida pelo próprio instituto. No decorrer de 2000 foram
publicados vários trabalhos sobre a China, a Rússia, a OMC pós-Seattle, a
Ásia-Pacífico e a Europa.
Os estudos de RI na Alemanha, na Áustria, na Suíça (de língua alemã)
e na Escandinávia só começaram a se desenvolver há cerca de três décadas,
com exceção de contribuições individuais, como a do suíço Daniel Frei e de
alguns autores alemães radicados nos EUA onde produziram grande parte
de suas obras, hoje leitura obrigatória em RI: Hans Morgenthau, Karl
Deutsch, Georg Schwarzenberger, Henry Kissinger e outros. Na Alemanha
há hoje centros de pesquisa, novos veículos de divulgação científica e livros
didáticos, o que reflete a criação e a evolução de cursos de RI em universidades
alemãs. Esse material vem sendo produzido por uma nova geração de scholars,
como Andreas HASENCLEVER (1997), RISSE-KAPPEN (1995),
RITTBERGER (1993) e vários outros. Na Áustria, RI, tradicionalmente
vinculada ao Direito Internacional, tem buscado identidade própria com a
criação de institutos de pesquisa e de cursos universitários.
Na Escandinávia há grande preocupação com estudos para a paz,
conflitos, desenvolvimento e política externa. Nas últimas três décadas lá
surgiram periódicos importantes, como Cooperation and Conflict, órgão
oficial da Nordic International Studies Association e Journal of Conflict
Ressolution. Todos os países escandinavos mantêm institutos de estudos e
pesquisas em RI e áreas afins. Um dos mais importantes é o Stockholm
International Peace Research Institute-SIPRI, que mantém um ambicioso
programa de publicações, principalmente sobre temas relacionados com a
paz mundial, a solução de conflitos e questões de armamento/desarmamento.

33
O Instituto publica também o SIPRI Yearbook on World Armaments and
Disarmament.
Nos países do Mediterrâneo (Espanha, Grécia, Itália, Portugal e
Turquia), é relativamente pequeno o número de instituições e de estudiosos
dedicados a RI, mas nota-se interesse crescente, criação de novos cursos e o
surgimento de novos veículos de divulgação. A situação em alguns países da
América Latina (México, Argentina, Chile, Colômbia e Venezuela) é também
de crescimento relativo da área.
Portanto, pode-se afirmar que, na Europa Continental, e na América
Latina, RI só começou a se desenvolver como campo de estudos acadêmicos
nos anos recentes, quando algumas universidades iniciaram cursos de RI e o
financiamento de pesquisas ficou mais acessível, com o apoio de algumas
fundações e centros de estudos; no entanto, há apenas cinco anos foi fundada
a European International Studies Association — que publica o periódico
European Journal of International Relations — enquanto que nos EUA e
na Inglaterra associações dessa natureza já existem há cerca de oitenta anos.

3. O Estudo de RI no Brasil

(1) O Nacional-Desenvolvimentismo

A década de 50 e os primeiros anos da década de 60 constituem, na


história recente do Brasil, período de importantes reformas e de grandes
preocupações com a interpretação econômica, política, social e cultural da
época e, em particular, com o estudo sistemático do Brasil, sob essas mesmas
perspectivas. A partir de agosto de 1952 começa a se reunir no Parque
Nacional de Itatiaia um grupo de estudiosos que se tornou conhecido como
o ‘Grupo de Itatiaia’. Alguns meses mais tarde o mesmo grupo cria o Instituto
Brasileiro de Economia, Sociologia e Política-IBESP, que editou, entre 1953
e 1956, cinco volumes dos Cadernos de Nosso Tempo. Entre os
colaboradores dos Cadernos estavam Guerreiro Ramos, Cândido Mendes
de Almeida, Carlos Luís Andrade, Ewaldo Correia Lima, Fabio Breves, Heitor
Lima Rocha, Hélio Jaguaribe, Hermes Lima, Ignácio Rangel, João Paulo de
Almeida Magalhães, José Ribeiro Lira, Jorge Abelardo Ramos, Juvenal Osório
Gomes, Moacir Félix de Oliveria e Oscar Lorenzo Fernardes. As grandes
preocupações desses estudiosos, refletidas nos trabalhos publicados nos
Cadernos, incluíam temas como o desenvolvimento do País, o nacionalismo,
a democracia, maior racionalidade no governo, maior participação política

34
da população menos privilegiada, e em termos de política externa, a busca
de uma posição não alinhada para o Brasil (SCHARTZMAN, 1981).
Em 1955 é fundado no Rio de Janeiro o Instituto Superior de Estudos
Brasileiros-ISEB, uma espécie de think tank que reunia líderes intelectuais,
políticos e de outros segmentos da sociedade, a maioria oriunda do IBESP.
Guerreiro Ramos, Nelson Werneck Sodré, Sérgio Buarque de Holanda, José
Honório Rodrigues, Hélio Jaguaribe, Cândido Mendes, Horácio Lafer, e
San Tiago Dantas, entre outros, eram alguns dos membros de seu Conselho.
O ISEB realizava estudos, desenvolvia intensa atividade intelectual, promovia
debates sobre grandes temas, como o papel do Estado na economia, o papel
do capital estrangeiro, o papel dos intelectuais na vida política do País, etc.
Guerreiro Ramos, Hélio Jaguaribe e José Honório Rodrigues dedicavam-se
particularmente aos estudos sobre o nacionalismo e a política externa.
Em seu segundo governo Getulio Vargas (1951-1954) tenta
promover o desenvolvimento nacional com preocupação social, dentro de
parâmetros democráticos. O curto período de governo de Café Filho foi
marcado por ambigüidades, instabilidade e incertezas. Já o governo
Kubistschek (1956-1961) caracterizou-se também por um grande esforço
no sentido de promover o desenvolvimento econômico e social do País, com
democracia. Esse período tem sido identificado como de ‘nacional-
desenvolvimento democrático’ (JAGUARIBE, 1996). Uma das metas da
política exterior do Brasil, nessa época, era a obtenção de recursos externos
para a realização dos programas de governo. O governo Quadros, apesar de
sua curta duração (jan-ago 1961) formula e inicia uma política externa
independente, endossada, consolidada e implementada no Governo Goulart
(1961-1964), cujas raízes ideológicas ou filosóficas podem ser identificadas
nos trabalhos pioneiros do IBESP e do ISEB. Em março de 1964, com o
golpe militar, há uma reversão de expectativas quanto à filosofia do nacional-
desenvolvimentismo democrático e da política externa independente.
Entretanto, o período dos anos 50 a 64, justamente pela sua característica
transformadora, foi de significativa produção intelectual, sendo que análises
importantes das RI do Brasil e de sua política externa, em particular, são
produzidos e divulgados, notadamente a partir dos últimos anos da década
de 50.

(2) Nacionalismo e Política Externa

Em 1958 é lançado o livro de JAGUARIBE (1958), O Nacionalismo


na Atualidade Brasileira, no qual ele critica o chamado ‘modelo de aliado

35
especial’ que os governos de Dutra e Vargas cultivaram nas relações com os
EUA — na expectativa de uma espécie de reconhecimento e algum tipo de
recompensa pela participação do Brasil na II Guerra Mundial. JAGUARIBE
(1958, págs. 32 e seguintes) argumenta que “... o nacionalismo político
reivindica para o país uma posição de maior autonomia” perante os EUA e
a Europa e “se inclina para uma linha neutralista”, que melhor atenderia os
interesses do Brasil. O Autor critica a natureza ambivalente da política exterior
do Brasil e propõe uma nova diplomacia, pois, segundo ele, o Itamaraty já
não gozava da necessária autonomia para a formulação e implementação
dessa política, em virtude da ingerência de outros órgãos, tais como a
Presidência da República, o Congresso, a imprensa, e órgãos de classe. Para
o referido autor, uma linha de política externa neutralista, ou independente,
daria ao Brasil amplas vantagens e lhe permitiria maior espaço em sua atuação
internacional, facilitando uma aproximação com a União Soviética, cuja
política apoiava as reivindicações dos países subdesenvolvidos. As propostas
de Jaguaribe, apoiadas em análise sistemática, suscitaram debate e embora
não fossem unanimente aceitas, representam contribuição inédita e pioneira,
de especial relevância para a análise do processo de implantação dos estudos
de RI no Brasil.
No mesmo ano de 1958 o Instituto Brasileiro de Relações
Internacionais, fundado em 1954 e com sede também no Rio de Janeiro,
publica o primeiro número (Vol. I, No. 1, março 1958) da Revista Brasileira
de Política Internacional-RBPI. 2 Em seu primeiro número a revista
publicou artigos de personalidades importantes, vinculados à área de relações
exteriores, como Vicente RAO (1958), sobre direitos humanos, Raul
FERNANDES (1958), sobre segurança hemisférica, ambos ex-chanceles, e
Hermes LIMA (1958) — que viria mais tarde ocupar o cargo de chanceler,
sobre a Conferência Econômica de Buenos Aires, realizada sob auspícios da
OEA. O número dois publicou artigos de Oswaldo ARANHA (1958),
também ex-chanceler, ex-representante do Brasil junto à ONU e
ex-presidente da Assembléia Geral daquela organização. O artigo de Oswaldo
Aranha é sobre o reatamento de relações diplomáticas com a União Soviética,
tema que na ocasião despertava grande interesse na imprensa, no Congresso
Nacional e em outros segmentos da sociedade. O ex-chanceler defendia o
reatamento das relações com a URSS, rompidas no governo Dutra; para
Oswaldo Aranha, divergências ideológicas não deveriam impedir o
relacionamento do Brasil com países de regime socialista; com tal postura o
Brasil estaria demonstrando à comunidade internacional não apenas sua
maturidade mas também o seu peso político.

36
Durante a década de 60 são publicados outros artigos sobre as relações
do Brasil com o Bloco Soviético, quase todos restritos a relatos das atividades
comerciais, uma vez que não havia relações diplomáticas entre o Brasil aqueles
países. São editadas também algumas obras sobre as relações do Brasil com
outras regiões, entre as quais dois livros de autoria do diplomada BEZERRA
DE MENEZES (1960; 1961), sobre as relações do Brasil com a Ásia e a
África; o Autor procura destacar as perspectivas que se abriam para o Brasil
naquelas regiões. MENDES VIANA (1959) também chama a atenção para
o significado do mundo afro-asiático para o Brasil, enquanto José Honório
RODRIGUES (1962a, 1962b), em dois artigos subseqüentes, analisa as
relações Brasil-Africa, oferecendo uma perspectiva positiva para o futuro
dessas relações.
Nessa mesma época surgem alguns estudos enfocando as relações dos
EUA-América Latina, que incluem o Brasil, entre eles os de autoria de
Roberto CAMPOS (1959), de AMOROSO LIMA (1961), de Lincoln
GORDON (1961) e de VALLE (1961). Nenhum desses estudos apresenta
análise profunda do tema proposto, caracterizando-se mais como ensaios,
com posicionamentos pessoais ou institucionais dos respectivos autores. A
título de exemplo, o trabalho de Amoroso Lima, líder católico e intelectual
de grande prestígio, considerado conservador, destaca o que ele considerava
processo de deterioração das relações EUA-América Latina, e aponta as
seguintes causas para tal situação: (1) o forte nacionalismo dos latino-
americanos, (2) a infiltração e a propaganda comunista, (3) o anti-
americanismo dos movimentos revolucionários, (4) a falta de habilidade
dos diplomatas norte-americanos ao lidar com os latinos, (5) a ação perniciosa
de algumas entidades norte-americanas, como as Fundações Ford e
Rockefeller. Amoroso Lima sugere a intensificação da cooperação cultural
entre os dois países como uma solução a longo prazo para o problema.
Outro tema recorrente no final da década de 50 e início da década de
60 relacionava-se à Operação Pan-Americana-OPA (e seus desdobramentos),
proposta pelo Presidente Jucelino Kubistchek. Em dois trabalhos sucessivos,
TORRES (1958; 1960), por exemplo, examina a criação do mercado regional
na América Latina-ALALC e faz uma apreciação da OPA, concluindo que
ela permanecia como um propósito, mas ainda não era uma “política com
conteúdo programático”. Vários outros trabalhos sobre a OPA são publicados,
os quais procuram descrever seus antecedentes, significado e perspectivas.
Entretanto, esse tema logo se esgotaria, em parte pelo término do mandato
do Presidente Kubischek, que em janeiro de 1961 transmitiu o governo ao
presidente eleito Jânio Quadros, mas também pelas dificuldades de

37
implementação de seu ambicioso programa, que dependia de elevados
recursos financeiros, a serem obtidos principalmente de fontes externas.

(3) Política Externa Independente

Além do estudo de Hélio Jaguaribe, já mencionado, o livro de José


Honório RODRIGUES (1966), sobre interesse nacional e política externa,
representa uma espécie de síntese de suas contribuições no ISEB. Outros
estudos enfocam temas como a política externa do Brasil na América Latina,
a interdependência entre política interna e as relações exteriores, o poder
nacional e as relações internacionais. No entanto, pronunciamentos e
documentos importantes, feitos por autoridades e instituições brasileiras,
como mensagens presidenciais, discursos, relatórios do Ministério das
Relações Exteriores, de missões junto a organismos multilaterais, e outros,
representam contribuições importantes, que merecem ser analisadas de
maneira sistemática, para um melhor entendimento dessa fase das relações
internacionais do País. Uma dessas contribuições é o artigo do Presidente
Jânio QUADROS (1961) publicado na revista Foreign Affairs, no qual ele
apresenta as bases de sua Política Externa Independente, definida
posteriormente, com mais precisão, pelo Chancelor SAN TIAGO DANTAS
(1962), em seu livro com o mesmo título, Política Externa Independente.
As diretrizes da política de Quadros são apresentadas, resumidamente, em
quatro pontos, a saber: (1) empenho na proteção dos interesses nacionais,
cuja principal meta é o desenvolvimento; (2) reafirmação do Brasil como
país membro da comunidade ocidental, por suas raízes e convicções, mas ao
mesmo tempo, busca de aproximação com os povos da Ásia, África e América
Latina, com os quais o Brasil compartilha, também, laços e valores, o que
lhes permitirá realizar esforço conjunto para superar as desigualdades entre
as nações; (3) início de uma nova era de cooperação entre os países das
Américas, de cunho econômico e social, procurando superar diferenças
ideológicas; (4) por não se vincular a nenhum bloco, o Brasil não assumirá
responsabilidades inerentes à Guerra Fria e assim manterá relações
diplomáticas e comerciais com todos os países, o que melhor atenderá
inclusive às demandas do crescimento e da diversificação da produção
nacional.
É dessa fase, também, o chamado discurso ‘dos três d’s’ pronunciado
pelo Embaixador e recém nomeado chanceler, João Augusto de ARAÚJO
CASTRO (1963) perante a XVIII Assembléia Geral das Nações Unidas,
sobre desarmamento, desenvolvimento e descolonização. O chanceler expôs

38
a posição do Brasil na Conferência sobre Desarmamento, que vinha se
realizando em Genebra: “É fácil precisar o sentido de cada um dos termos desse
trinômio. A luta pelo Desarmamento é a própria luta pela Paz e pela igualdade
jurídica de Estados que desejam colocar-se a salvo do medo e da intimidação. A
luta pelo Desenvolvimento é a própria luta pela emancipação econômica e pela
justiça social. A luta pela Descolonização, em seu conceito mais amplo, é a
própria luta pela emancipação política, pela liberdade e pelos direitos humanos”.
As posições do Brasil com respeito às questões de desarmamento e
desenvolvimento já eram conhecidas; entretanto a posição mais firme exposta
por Araújo Castro quanto ao processo de descolonização, particularmente
da África, toma nova feição a partir do Governo Jânio Quadros, sendo
amplamente respaldada por pronunciamentos de seu chanceler, o professor
Afonso Arino de Melo Franco, e pelos chanceleres do Presidente João Goulart,
San Tiago Dantas e o próprio Araújo Castro.

(4) Contribuições da Academia

Os estudos de RI começaram a criar raízes mais sólidas no meio


acadêmico brasileiro — e em algumas instituições independentes de pesquisa
— a partir dos anos 70. Estudiosos e pesquisadores oriundos de várias
disciplinas como Sociologia, Ciência Política, Economia, Direito Internacional
e outras, passaram a se interessar por questões relacionadas com a inserção
do Brasil no sistema internacional, ou com o fenômeno genericamente
designado ‘nova ordem internacional’. Algumas vertentes desse tema mais
geral, que também despertavam interesse, eram a análise da política exterior
brasileira, o comércio exterior, a corrida armamentista, a balança do poder e
a questão da segurança coletiva. Embora alguns desses estudos pioneiros
tenham sido realizados sob os auspícios de órgãos independentes como o
CEBRAP, eles apresentam características de estudos acadêmicos e assim são
considerados, mesmo porque seus autores eram membros da Academia,
ainda que alguns se encontrassem afastados por razões pessoais ou políticas.
Dois desses estudos, de autoria de Carlos Estevam MARTINS (1972; 1975),
são particularmente relevantes por sua qualidade analítica e pioneirismo:
“Brasil-Estados Unidos: Política Externa dos 60 aos 70” e “A Evolução da
Política Externa Brasileira na Década 64/74”. Outros trabalhos relevantes
para a área acadêmica de RI foram publicados nesse período, sendo citados
aqui apenas dois deles: Celso LAFER e Félix PEÑA (1973), Argentina e
Brasil no Sistema de Relações Internacionais; MONIZ BANDEIRA (1973),
Presença dos Estados Unidos no Brasil.

39
Alguns artigos foram publicados em periódicos especializados, assim
como em forma de livros, embora alguns deles reflitam mais o posicionamento
dos autores ou das instituições a que estavam vinculados, ou ambos. Nota-
se uma tendência normativa ou prescritiva em muitos desses estudos,
enquanto que pouca atenção é dada à explicação. Os autores pertenciam ao
serviço diplomático, eram líderes políticos, militares ou dirigentes
empresariais ou de instituições governamentais. São desse período
contribuições do embaixador ARAÚJO CASTRO (1970a; 1970b) sobre
balança de poder e segurança, e sobre o papel da ONU; do embaixador
Gibson BARBOSA (1970) sobre comércio exterior; do tenente-brigadeiro
Nelson F. Lavanère WANDERLEY (1970; 1971) sobre a corrida
armamentista e sobre segurança estratégica; do general MEIRA MATTOS
(1973) sobre o poder militar e a política internacional; do economista
Cleantho de PAIVA LEITE (1974) sobre as relações Brasil-Japão. Em outubro
de 1975 a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados
organizou um painel sobre a Nova Ordem Internacional, com a participação
de representantes do Itamaraty, de professores e de militares; participaram
do evento, dentre outros, o embaixador Expedito REZENDE (1975), que
discorreu sobre a evolução da política exterior do Brasil, o professor Luciano
COUTINHO (1975), que dissertou sobre aspectos econômicos da nova
ordem internacional, o professor Carlos Geraldo LANGONI (1975), que
discorreu sobre as causas e perspectivas da crise mundial e o economista
Carlos von DOELLINGER (1975) que apresentou contribuição sobre
aspectos políticos da crise econômica mundial.
Ainda que não se encontre tratamento teórico nos estudos publicados
no Brasil, nessa fase, algumas tendências podem ser identificadas: estudos
que refletem influência da corrente dependentista, inspirada em teorias
marxistas e neomarxistas, e estudos que se identificam com a geopolítica e
com questões de natureza estratégica e de segurança. Estes últimos estão
mais próximos do pensamento militar então dominante. Uma vertente do
realismo pode ser também identificada. Entretanto, essa vertente parecia
perceber o País e sua inserção no contexto internacional não como uma
grande potência que buscaria defender seus interesses nacionais num meio
internacional anárquico e possivelmente hostil, mas como um ator regional
que procurava contribuir para a manutenção do equilíbrio de poder em sua
esfera de influência.
Nessa fase não existiam ainda cursos universitários para formação
específica em RI, portanto, não havia tampouco corpo docente ou de
pesquisadores dedicados primordialmente à área. O primeiro curso de

40
graduação (bacharelado) em RI passou a existir na Universidade de Brasília
a partir do primeiro semestre de 1974. O curso foi reconhecido oficialmente
pelo Ministério da Educação em 1976, e no segundo semestre de 1977
diplomava a primeira turma de bacharéis em RI no Brasil. A partir de 1980
o então Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da UnB
passou a oferecer Curso de Especialização em América Latina — pós-
graduação lato senso, com duração de um semestre letivo. O curso era oferecido
cada dois anos, no período de 1980/90, com 20 alunos brasileiros e outros
20 dos demais países latino-americanos e do Caribe. A iniciativa recebia
apoio da antiga SUBIN (absorvida posteriormente pela Agência Brasileira
de Cooperação-ABC), da Organização dos Estados Americanos, do
Ministério das Relações Exteriores e da CAPES/Ministério da Educação. O
programa, que contava com a atuação de professores da UnB, de professores
visitantes de outras universidades brasileiras e de países latino-americanos e
caribenhos, propiciou formação e intercâmbio de cerca de 240 participantes;
proporcionou também valiosa experiência que se tornou útil no processo de
implantação, a partir de março de 1984, do Curso de Mestrado em Relações
Internacionais da UnB, o primeiro do País.
Nos últimos anos da década de 70, até o início de 1985, a
Universidade de Brasília promoveu, com certa regularidade, uma série de
eventos internacionais, como simpósios, seminários e conferências, com a
participação de professores e especialistas em Ciência Política e em RI, do
mais alto nível, como Karl Deutsch, Raymond Aron, Henry Kissinger, David
Apter, Robert Dahl, Giovanni Sartori, Norberto Bobbio, Ernest Gelner,
F. A. Hayek, Leszek Kolakowski, Maurice Duverger, Hélio Jaguaribe, Celso
Lafer, Gilberto Freyre, e outros. As contribuições apresentadas individualmente
pela maioria desses conferencistas, que geralmente consistiam numa
retrospectiva e apreciação de sua obra, foram transformadas em livros,
publicados pela Editora UnB, que instituiu também a Coleção Pensamento
Político, cujo primeiro número é o livro de DEUTSCH (1982), Análise das
Relações Internacionais. Essa coleção, constituída de trabalhos até então
inéditos no Brasil, é de inegável importância para as Ciências Sociais em
geral, e para RI em particular. Outra iniciativa da Editora UnB foi a criação
da revista Relações Internacionais, que publicou trabalhos e artigos de autores
brasileiros, assim como traduções de autores estrangeiros. Lamentavelmente
a publicação da revista foi interrompida em meados da década de 80.
Os eventos internacionais promovidos pela UnB, de grande
repercussão não só em Brasília, mas também no Rio de Janeiro e em São
Paulo, onde muitos dos conferencistas do exterior participavam de atividades

41
acadêmicas, previamente coordenadas com a UnB, assim como as atividades
da Editora UnB, com a publicação de obras fundamentais, até então inéditas
no Brasil, representaram contribuição inestimável para a consolidação e o
aprimoramento do programa de RI na UnB e, sem dúvida, em outras
instituições do País.
De fato, poucos anos após a criação pela UnB do Curso de Mestrado
em Relações Internacionais, o Instituto de Relações Internacionais da
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro também passou a oferecer
um programa de mestrado em RI. A USP criou e mantém em atividade o
Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais e Política Comparada, que
se dedica à pesquisa e oferece cursos de curta duração (especialização,
extensão) e promove eventos como seminários, simpósios, debates, etc.
O Ministério das Relações Exteriores criou o Instituto de Estudos de
Relações Internacionas-IPRI, vinculado à Fundação Alexandre Gusmão, que
promove seminários e outros eventos, além de manter uma linha de
publicações.

42
III. O ESTADO DA ARTE

1. RI: Disciplina ou Campo de Estudos?

A expressão campo de estudos acadêmicos é utilizada basicamente


como sinônimo de disciplina acadêmica, embora o conceito de disciplina
possa ser entendido como sendo mais preciso e mais restrito. Pelas suas
raízes e características multidisciplinares, RI se caracteriza mais como um
campo de estudos do que propriamente como uma disciplina, que possui
objeto de estudos mais claramente definido, a exemplo da Sociologia, da
Ciência Política, da Economia e de outras disciplinas das Ciências Sociais.
Em parte por essa característica multdisciplinar e híbrida, uma preocupação
que dominou o estudo acadêmico de RI desde seus primórdios era estabelecer
sua autonomia em relação àquelas disciplinas que constituem suas principais
raízes, em particular a Filosofia, a História, o Direito e a Ciência Política.
Desse modo, era nítido o esforço no sentido de demonstrar sua especificidade
em relação à Filosofia, esforçando-se para tornar RI mais científica e menos
especulativa; quanto à História, e mais precisamente a História Diplomática
ou das Relações Exteriores, considerada mais voltada para o registro do
passado, com características narrativas e descritivas, a preocupação era tornar
RI mais analítica e mais explicativa. Para distinguir-se do Direito, cujas
abordagens refletiam preocupação preponderantemente normativa, RI
tornou-se mais realista ou mais positivista. A fim de se distinguir da Ciência
Política, voltada basicamente para o estudo de fenômenos políticos
domésticos, isto é, dentro dos países, RI procurou combinar o político com
o econômico e o militar, ao mesmo tempo que elegia o sistema internacional
como seu principal objeto de análise.

2. Os ‘Grandes Debates’

Os chamados ‘grandes debates’ em RI teriam ocorrido entre idealistas


vs realistas, nas décadas de 30/40; tradicionalistas (idealistas + realistas) vs
‘cientistas’, nas décadas 50/60; estatocentristas vs transnacionalistas, neo-
realistas vs neoliberais, nas décadas de 70/80; positivistas vs pós-positivistas
nas décadas de 80/90.
Idealistas vs Realistas. Conforme já foi mencionado (CARR, 1939,
1981), os utópicos/idealistas/liberais se inspiravam no otimismo iluminista

43
do século XVIII, no liberalismo do século XIX e no idealismo de Woodrow
Wilson. De fato, um episódio marcante no movimento idealista/liberal foi
o discurso de Wilson perante o Congresso dos EUA, em 1918, no qual ele
propôs a criação da Liga das Nações, a remoção de barreiras ao livre comércio
e a promoção da auto-determinação dos povos. Inspirando-se nas doutrinas
liberais de Rousseu, Stuart Mill e outros, Wilson esperava estabelecer as
bases para uma nova ordem mundial, com paz e prosperidade.
Uma das principais críticas ao idealismo/liberalismo é que embora o
movimento dominasse a retórica política e acadêmica no período de entre-
guerras (1919-1939), pouco se logrou concretizar com suas propostas, sendo
evidência disso o novo conflito mundial. O trabalho de Carr, publicado
quando a Europa já caminhava para a guerra, e de outros autores após a II
Guerra Mundial (MORGENTHAU, 1948) constituem peças fundamentais
para a consolidação do realismo nos anos que se seguiram à guerra.
Tradicionalistas vs Cientistas. A visão realista de mundo, aplicada à
política do século XX, era que o Estado seria o principal ator nas relações
internacionais. Conflitos de interesses entre Estados seriam inevitáveis.
Formuladores de política externa, pautados pela racionalidade e tendo em
vista os interesses nacionais, não podiam deixar de ser realistas, uma vez que
uma das principais preocupações do Estado seria sua própria sobrevivência,
num ambiente internacional hostil. Para manter tais objetivos, nada mais
importante do que a aquisição e a preservação do poder nacional. Portanto,
basicamente conservadores, os realistas se preocupavam com a segurança
nacional e a manutenção de forças militares necessárias para a sustentação
das iniciativas diplomáticas.
Os tradicionalistas se identificam com a ‘escola clássica’, e com a
‘escola inglesa’; ambas coincidem com a visão de Martin Wight, quando ele
propõe que a política internacional poderia ser vista sob três tradições: realista
(maquiaveliana), racionalista (grotiana) e ‘revolucionária’ (kantiana). Na ótica
dos tradicionalistas, RI constitui “uma disciplina humanista de pleno direito,
envolvendo uma perspectiva simultaneamente filosófica, histórica, jurídica
e sociológica. Não é e jamais poderia ser matéria estritamente científica ou
técnica” (PEIXOTO, 1997, P. 29). Esta é, aliás, a posição exposta por BULL
(1966) em trabalho que se tornou famoso pela ardente defesa da escola
clássica e contundentes críticas aos ‘cientistas’ (behaviouralists), cuja defesa é
feita por KAPLAN (1996), em artigo subseqüente, publicados ambos em
World Politics.
A proposta da corrente behavaviouralist, que em RI alcança seu apogeu
nas décadas de 1950/60, era tornar RI uma disciplina científica, com

44
capacidade de explicar e predizer os problemas e questões estudadas o que,
segundo a referida corrente, não era possível através das abordagens
tradicionalistas, que não ofereciam instrumentos teóricos e analíticos,
limitando-se aos estudos descritivos e muitas vezes prescritivos ou normativos.
A proposta se orienta pelo positivismo de Auguste Comte, que por sua vez
advoga o uso de métodos empregados nas ciências físicas e naturais também
no estudos de questões sociais. A abordagem visa à observação sistemática
dos problemas estudados, detendo-se preferivelmente nos aspectos
quantificáveis, permitindo assim maior ênfase no rigor científico. Com base
em tais observações, procura elaborar modelos, inclusive matemáticos,
formular generalizações e construir teoria.
Estatocentristas vs Transnacionalistas. Há referência na literatura a
um debate subseqüente, que teria ocorrido entre estatocentristas e
transnacionalistas. O primeiro grupo incluiria realistas e tradicionalistas,
enquanto que os transnacionalistas incluiriam idealistas e behaviouralists, e
admitiriam a existência de outros atores importantes no cenário internacional
além do Estado. Esse debate teria ocorrido nos anos setenta e por isso mesmo
seria de particular importância tendo em vista o clima político da época —
détente, além de ser uma espécie de precursor da orientação pluralista, que
se desenvolveria na década seguinte, bem como do chamado neoliberalismo
que surgiria nos anos 90 (SMITH, 1995).
Dava-se ênfase ao estudo de regimes e de instituições internacionais,
quanto ao objeto de análise, e à abordagem quantitativa quanto à orientação
metodológica. O transnacionalismo se concentrou mais nos estudos de
economia política, seguindo a ótica liberal, o que provocou críticas das
correntes nacionalista e estruturalista, a primeira identificada com o realismo
e a segunda com o marxismo. Com mudanças no cenário internacional, a
partir dos anos 80, quando se observa um breve retorno ao clima de Guerra
Fria, os transnacionalistas veriam enfraquecidos muitos dos seus argumentos
(SMITH, 1995).
Neo-realistas vs Neoliberais. Em muitos aspectos, este debate seria
uma continuação daquele ocorrido entre estatocentristas vs transnacionalistas,
embora com características mais comuns ao pluralismo, que se desenvolveria
posteriormente. BALDWIN (1993) destaca seis pontos de divergência entre
as duas correntes:

1. Natureza e conseqüência da anarquia internacional: os neo-


realistas acreditam, mais do que os neoliberais, que a segurança física
constitui a maior motivação para as ações do Estado;

45
2. Cooperação internacional: os neo-realistas consideram difícil
de se alcançar a cooperação internacional, em virtude da constante
luta pelo poder e a preocupação de cada Estado com seus próprios
interesses; os neoliberais se mostram mais otimistas quanto à
possibilidade de se alcançar esse tipo de cooperação;
3. Ganhos resultantes da cooperação internacional: os neo-
realistas acreditam que a cooperação internacional só resultaria em
ganhos relativos, ao passo que os neoliberais acreditam em ganhos
absolutos;
4. Problemas centrais: os neo-realistas tendem a considerar a
segurança nacional como problema central, enquanto que os
neoliberais se preocupam mais com a compreensão de questões de
economia política internacional, de modo que as duas tendências
têm perspectivas bastante diferences quanto à cooperação;
5. Capacidade, intenções, percepção: os neo-realistas
concentram-se em capacidades demonstradas (capabilities), enquanto
que os neoliberais se voltam mais para as intenções e percepções;
6. O papel das instituições: os neoliberais acreditam que as
instituições são capazes de contribuir para minimizar o problema da
anarquia, enquanto que os neo-realistas duvidam dessa capacidade
das instituições.

Não obstante sua aparente importância, tanto por aspectos substantivos


como pela sua contemporaneidade, sérias limitações têm sido apontadas
quanto às duas perspectivas e ao próprio debate. Uma dessas limitações
refere-se à maneira enviesada e etnocêntrica que as duas visões refletem.
Segundo SMITH (1995), trata-se essencialmente de um debate ‘ocidental’
ou até mesmo do Atlântico Norte, uma vez que ele reflete visão norte-
americana da política internacional, visão específica e excludente.
O Debate Interparadigmático. A expressão aparece em trabalhos de
BANKS (1984, 1985) e procura refletir o estado da teoria de RI a partir
dos anos 80, quando nenhuma abordagem se mostrava dominante; surgem
assim novas alternativas ou versões modificadas de alternativas já existentes:
(1) realismo/neo-realismo (ou realismo estrutural), (2) liberalismo/
pluralismo, (3) globalismo/neomarxismo/estruturalismo. Vários autores
passam a usar tais classificações ou versões modificadas, como é o caso de
VIOTTI & KAUPPI (1993), que utilizam as categorias realismo/pluralismo/
globalismo, inspirados em RESENAU (1982), que usa os termos state-
centric (realismo), multi-centric (pluralismo) e global-centric (globalismo).

46
Essa classificação tem sido alvo de críticas, principalmente pela
tendência de se identificar cada uma delas com aspectos específicos das
relações internacionais: realismo com guerra e paz, liberalismo/pluralismo
com regimes e instituições, e gloglobalismo (neomarxismo/ estruturalismo)
com pobreza e subdesenvolvimento. Além disso, há muita diversidade de
posições dentro de cada categoria. Outra advertência é que a expressão ‘debate
inter-paradigmático’ transmite a impressão de que de fato houve, ou tem
havido, ‘debate’ entre os três paradigmas, ou entre alguns de seus
representantes, quando na realidade isso não tem ocorrido. Cada grupo (ou
‘paradigma’) tende a cultivar seus próprios interesses e desenvolver seu próprio
programa de pesquisa, formando seus próprios adeptos, que se apoiam e
citam-se mutuamente e possivelmente tomam pouco conhecimento dos
‘paradigmas’ ou grupos potencialmente rivais. Na ausência de debate, haveria
pouca possibilidade de evolução no plano teórico. De acordo com SMITH
(1995, p. 18-21), isso demonstra que o debate interparadigmático esconde
o domínio do realismo em RI e, ao mesmo tempo, seria uma maneira efetiva
de marginalizar vozes dissidentes.
Positivismo vs Pós-positivismo. Nas últimas quatro ou cinco décadas
os estudos de RI (publicados principalmente nos EUA ou influenciados
pela visão norte-americana) têm sido dominados pelo positivismo, que reflete
uma visão unificada da ciência e a adoção de uma metodologia das ciências
físicas e naturais (ou exatas) para analisar os fenômenos sociais. Como
resultado, têm se intensificado as críticas ao positivismo em RI, manifestadas
através de vários grupos, que se auto-intitulam representantes do pós-
positivismo. Alguns desses grupos se identificam com o chamado pós-
estruturalismo francês (Foucault, Derrida, Baudrillar e outros); ao passo
que outros se identificam com a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. SMITH
(1995, p. 24-26) considera-os como “grupos de posicionamento difuso”:

1. Teoria Crítica: para essa corrente, todo conhecimento acerca


da realidade deve ser compreendido dentro de um contexto de
interesses, conforme propõem membros da Escola de Frankfurt, em
particular Jürgen Habermas. Ao contrário do que defendem os
positivistas, conhecimento não é neutro; a ênfase na solução de
problemas, do positivismo, deve ser substituída por uma Teoria
Crítica, ciente dos interesses políticos que ela representa e
comprometida abertamente com emancipação; alguns dos
representantes dessa corrente são COX (1987), HOFFMAN (1987),
LINKLATER (1992);

47
2. Sociologia Histórica: tem raízes na convergência da Sociologia
com RI; de acordo com alguns sociólogos engajados nessa corrente
(MANN, 1993; TILLY, 1990; SKOPCOL, 1979), o Estado,
construído como resultado da guerra, é o produto da interação entre
forças internas e externas, o que contraria as propostas dos realistas/
neorealistas, que acreditam no poder das forças externas como
determinantes da conduta do Estado;
3. Movimentos Feministas: essa categoria é ampla e
diversificada, o que torna difícil identificar pressupostos comuns;
entretanto, o tema central tem sido a ‘construção do gênero’, sob a
alegação de que a teoria de RI tem ignorado a questão; alguns
representantes do grupo são: ELSHTAIN (1987), que discute e
compara as óticas masculina e feminina quanto à questão da guerra,
PETERSON & SOSSOM RUNYAN (1993), que examinam as
desigualdades entre os gêneros, em bases mundiais;
4. Abordagens Pós-Modernas: as principais fontes dessa
corrente são Foucault, Derrida, Nietzche, Heidegger; atacam as
noções de realidade, verdade, estrutura, identidade; posicionam-se
contrariamente ao Iluminismo, negando a idéia de progresso e
opondo-se ao papel homogeneizador da modernização; examinam
como a linguagem, modelos e paradigmas modelam o mundo;
algumas contribuições dessa corrente: são DERIAN (1992),
COCHRAN (1995).

Como fica evidente, os pressupostos dessas correntes são


fundamentalmente distintos da orientação positivista. Entretanto, há
divergências entre elas, sobretudo metodológicas, e elas são mutuamente
incompatíveis, dificilmente combináveis. O que as une é precisamente o
propósito de construir uma teoria de RI como alternativa ao positivismo,
considerado uma filosofia simplista que serve apenas de alicerce para o
realismo e suas vertentes. No entanto, elas não oferecem essa desejada
alternativa.
Teoria Constitutiva vs Teoria Explicativa. Algumas abordagens
buscam oferecer explicação da realidade, dos fenômenos estudados em RI
(na tendência causa>efeito, ou antecedente>conseqüente), enquanto outras
vêem o conhecimento como constitutivo da própria realidade. No fundo,
trata-se de diferenças de visão de mundo: ou o mundo social se encontra
fora da realidade ou é determinado por ela. A maioria dos estudos dos pós-
modernistas, da Teoria Crítica e dos escritos feministas, se encaixa na última

48
categoria, enquanto praticamente toda a literatura do realismo (e suas
vertentes), pluralismo e neomarxismo, se identifica com a abordagem
explicativa.
SMITH (1995, p. 28-29) destaca que no seio da abordagem
constitutiva surgiram duas outras vertentes, com epistemologias diferentes:
as teorias ‘fundacionalistas’ e ‘anti-fundacionalistas’. Segundo ainda Smith,
esse debate seria de grande importância para o futuro da teoria de RI. “Por
muito tempo, sob a sombra do positivismo, as relações internacionais foram
dominadas pela teoria explicativa que tinha por base uma visão antiquada e
fundamentalmente contestada tanto pelo conteúdo da teoria internacional
quanto pela natureza da pesquisa no campo social. Enfocar o debate
fundacionalismo/anti-fundacionalismo trás a teoria internacional de volta a
um lugar mais humilde e mais central dentro das ciências humanas.”
Construtivismo Social vs Neo-utilitarismo. Nos últimos 10 anos ou
pouco mais têm surgido na literatura de RI estudos enfocando uma ‘nova’
abordagem analítica conhecida como ‘construtivismo social’. Nas palavras
de RUGGIE (1998, p. 856), construtivismo “trata da consciência humana
e de seu papel na vida internacional” Em oposição declarada ao neo-
utilitarismo (neo-realismo + institucionalismo neoliberal), construtivistas
alegam “que não apenas as identidades e os interesses de atores sociais são
construídos socialmente, mas que eles compartilham também vários fatores
‘ideacionais’ que emanam da capacidade e da vontade humana sobre as
quais escreveu Weber”. O construtivismo social se inspira em estudos
sociológicos de Max Weber, Emile Durkheim e Georg Simmel, e se coloca
como um novo desafio ao neo-utilitarismo, que por sua vez se inspira nas
propostas de filósofos e economistas ingleses do século XIX, como Jeremy
Behtham e John Stuart Mill. Em termos sucintos, para os utilitaristas,
determinada ação é considerada correta se ela tende a promover felicidade e
incorreta se tende a produzir efeito contrario; mas não apenas a felicidade
do ator responsável pela ação, e sim de todos que são direta ou indiretamente
afetados por ela.
Conforme escreve RUGGIE (1998, p. 856), o construtivismo
“permanece mais uma perspectiva filosófica e teórica ...uma abordagem ao
estudo empírico de relações internacionais.” Nenhuma teoria geral do
construtivismo social encontra-se disponível em outras disciplinas e os
construtivistas de RI ainda não conseguiram formular sua própria teoria, o
que até certo ponto confirma críticas feitas por GOLDSTEIN & KEOHANE
(1993), ou seja, que o construtivismo ainda permaneceria mais como “uma
expressão de frustração” do que um programa viável de pesquisa. Portanto,

49
uma das prioridades do ‘projeto construtivista’ seria prosseguir com novos
estudos empíricos visando à construção teórica. Mas apesar das reconhecidas
limitações, proponentes dessa corrente acreditam ser legítimo o desafio que
oferecem à pressuposição do neo-utilitarismo, segundo a qual as identidades
e interesses do Estado são exógenos e pré-existentes; enquanto que para os
construtivistas os interesses do Estado são endógenos e socialmente
construídos.

3. A Auto-Imagem de RI

Passadas cerca de oito décadas desde sua inserção formal na academia,


RI é hoje, inegavelmente, um campo de estudos consagrado e com
significativo e amplo acervo de conhecimento acumulado. RI constitui campo
de estudos multidisciplinar, com preocupação científica e com contribuições
teóricas, metodológicas e substantivas, mas ao mesmo tempo exibe também
preocupação normativa e de aplicação prática, mais característica de algumas
áreas que podem ser consideradas, ao mesmo tempo, como sub-áreas de RI
e de outras disciplinas, como é o caso de Direito Internacional e Direitos
Humanos, que inegavelmente podem ser consideradas como sub-áreas tanto
de RI como de Direito; ou de Economia Política Internacional e de Comércio
Internacional, que, sob a ótica de RI, procuram combinar a análise política
com a análise econômica.
Entretanto, para muitos autores RI, como campo de estudos, tem
estado fragmentado, refletindo uma constante ‘fermentação’ que conduziria
a um verdadeiro caos conceitual, com um ‘grande debate’ após o outro,
insistindo repetidamente sobre proposições e controvérsias intermináveis,
sem no entanto chegar a conclusões relevantes. O campo continuaria
dominado por duas ou três escolas ou abordagens teóricas, caracterizadas
por profundas e irreconciliáveis diferenças, inclusive com respeito a seu objeto
de estudos. Paralelamente a esse caos teórico, haveria também incertezas
marcantes no que se refere à epistemologia de RI. Muitos estudiosos tendem,
por exemplo, a confundir explicação com o uso de métodos quantitativos,
quando se poderia aceitar explicações to tipo causal sem que as mesmas
sejam condicionadas ao uso de testes estatísticos sofisticados e rigorosos.
De acordo ainda com essa tendência, RI como um campo de estudos,
pareceria refletir, neste início de milênio, a própria confusão reinante no
cenário mundial, resultante das profundas transformações na macroestrutura
mundial que RI procura estudar mas não disporia de ferramentas teóricas e

50
metodológicas para compreender adequadamente e muito menos explicar e
predizer. Entretanto, alguns estudiosos têm procurado mostrar que essa
auto-imagem de caos substantivo, e aparente pobreza teórica e metodológica,
seria exagerada. Argumentam esses estudiosos que o campo de RI apresenta
um paradoxo, pois, exibe uma certa ‘robustez mascarada de fraqueza’. Em
outras palavras, RI como campo de estudos acadêmicos tem estado, por
muito tempo, em melhor forma do que sugere sua auto-imagem.
No Brasil verifica-se, nos últimos anos, uma verdadeira proliferação
de cursos de graduação em RI, a exemplo do que ocorreu nos EUA logo
após a II Guerra Mundial, evidentemente, em menores proporções. Essa
situação é, pelo menos em parte, reflexo das macrotransformações que vêm
ocorrendo no mundo inteiro, sobretudo a partir do final da década de
oitenta.3 Todos esses acontecimentos contribuíram para acelerar o processo
de globalização da economia, com reflexos no mundo inteiro e também no
Brasil, cuja política de maior inserção no contexto regional, com o
MERCOSUL e outros esforços de integração na América do Sul, e no sistema
mundial, vem exigindo maior presença internacional do País, tanto na
condição de global trader, como na de aspirante a global player.4 Todo esse
processo de transformações, sem dúvida, sinaliza maior demanda por recursos
humanos qualificados, não somente em RI propriamente mas também em
algumas de suas sub-áreas, como por exemplo economia política
internacional, comércio internacional, integração e cooperação regional,
processos de negociação internacional, recursos humanos, meio ambiente,
etc., o que seguramente tem estimulado o surgimento desses novos cursos.
Ressalte-se, no entanto, que a grande maioria dos novos cursos
mantém currículos claramente deficientes; é também inegável a carência de
pessoal docente qualificado, especialmente tendo em vista a inexistência de
curso de doutorado em RI no País e as pesquisas e publicações tendem a
constituir esforços individuais de docentes ou pesquisadores, mesmo porque
tem sido bastante limitado o apoio das agências financiadoras aos programas
de RI já existentes, não obstante a tradição acadêmica e a boa reputação que
já alcançaram, no Brasil e no exterior. Outra limitação imposta à área de RI
é a falta de material didático produzido e publicado no Brasil, o que obriga
professores e alunos a valerem-se de textos em inglês, publicados no exterior
(a grande maioria nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha), voltados
naturalmente para as suas próprias realidades e necessidades, e de custo
elevado para professores e estudantes brasileiros.5
A produção intelectual brasileira dedicada especificamente á área de
RI (não incluindo áreas afins ou sub-áreas como História das RI, Direito

51
Internacional, Direitos Humanos), já é relativamente numerosa. Há também
disponibilidade razoável de periódicos dedicados à área ou que aceitam
trabalhos de RI.6 Alguns programas de mestrado e doutorado em Ciência
Política e Sociologia (IUPERJ, USP) também apresentam contribuição
importante, com teses e dissertações, resultantes do processo de formação
de uma massa crítica de cientistas sociais que atuam na área de RI. Há
também os dois programas de mestrado em RI (UnB e PUC-Rio) que,
juntos, já produziram perto de duas centenas de dissertações.
Um exame preliminar dessa literatura (livros, artigos, dissertações,
algumas teses) revela que predominam os trabalhos de natureza narrativa-
descritiva-ensaística. São relativamente poucos os trabalhos calcados em
pesquisa empírica, de natureza sistemática; com raras exceções, tampouco
refletem tais estudos interesse em construção teórica, ou mesmo no uso de
abordagens teórico-metodológicas presentes na literatura internacional há
algumas décadas. Essa tendência em favor do narrativo-descritivo-ensaístico,
marca trajetória contrária à que se observa com os estudos divulgados em
países com mais longa tradição de ensino e pesquisa em RI, que tendem a
privilegiar trabalhos de natureza empírica, analítica, explicativa e preditiva. 7

4. Desafios

O estudo acadêmico de RI começou com a tentativa de se analisar as


causas da guerra, e como desenvolver meios de reduzir sua ocorrência no
futuro. Desde então a agenda se expandiu para incluir várias questões
importantes, de natureza analítica, metodológica e substantiva . E na medida
que o mundo se transforma, mudam também as questões relevantes em RI.
Pode-se dizer que o desenvolvimento da área na Academia é o produto de
pelo menos três influências concêntricas: (1) mudanças e debates dentro da
própria área de RI, (2) o impacto de eventos importantes a nível mundial,
(3) a influência de idéias novas nas Ciências Sociais. Os principais eventos
no século XX (as duas guerras mundiais e a Guerra Fria) influenciaram o
estudo de RI tanto quanto suas disputas internas, como os chamados ‘grandes
debates’ e os debates interparadigmáticos.
Portanto, RI vive hoje uma terceira fase (ou onda, como propõe
BOBROW, 1999) de um longo processo. A primeira fase desse processo
teve início logo após a I Guerra Mundial. Paralelamente ao interesse acadêmico
por questões de guerra e paz, o período se caracterizou também por
movimentos de mobilização, nacionais e internacionais, em prol de um

52
mundo pacífico e justo. Com a Grande Depressão Econômica e o surgimento
de regimes totalitários na Europa e no Japão, o clima de otimismo e esperança
(segundo críticos, de utopia) então existente transforma-se gradativamente,
na medida em que o mundo caminhava para um novo conflito.
A segunda onda se inicia com o fim da II Guerra Mundial. Mais uma
vez o interesse acadêmico se concentra em grandes questões relacionadas
com paz e guerra, mas emergem também outros interesses, como a
maximização do poder nacional e a segurança; democracia, políticas
domésticas, descolonização, ideologia, desenvolvimento. Aprofundam-se as
divergências Leste-Oeste, o que leva à formarção de alianças (OTAN, Pacto
de Varsóvia); a Ásia passa a ter, também, papel importante nas RI.
A terceira onda começa com o fim da Guerra Fria. Intensificam-se o
processo de globalização da economia e a revolução na tecnologia da
informação, ao mesmo tempo em que se acentuam as diferenças entre o
mundo desenvolvimento e os demais países, assim como a busca pela
identidade nacional, gerando conflitos em várias regiões. Muitos dos temas
importantes nessa terceira onda representam continuidade das fases
anteriores, em termos teóricos, metodológicos e substantivos, mas há também
novos desafios e um renovado dinamismo.
No Brasil, a área de RI passa também por uma nova onda, de
expansão, dinamismo e otimismo.8 É esta, portanto, a oportunidade de se
repensar o direcionamento a ser dado à produção intelectual da área, que
deve se preocupar também com a produção de conhecimento novo, inclusive
na área didática, não se limitando simplesmente à utilização e transmissão
de conhecimento já disponível, gerado em outros contextos, com
características socio-culturais, políticas e econômicas distintas. A expectativa
não é, necessariamente, a criação de ‘novos’ modelos, paradigmas, abordagens,
mas a utilização crítica, seletiva, de ferramentas teórico-metológicas já
disponíveis.9 Esse esforço contribuiria também para elevar qualitativamente
o padrão de ensino, na medida em que se torne mais viável a
interdependência entre ensino, pesquisa e produção científica.
Pela sua tradição e qualificação de seu corpo docente, a UnB tem
condições de manter seu pioneirismo, tornando-se núcleo gerador e de
irradiação de conhecimento e inovação em RI, sobretudo em áreas que no
Brasil ainda não foram estudadas de maneira sistemática e com a necessária
profundidade. Para enfrentar esses desafios não se necessitam de grandes
investimentos em laboratórios, por exemplo, mas sim de determinação e de
uma atitude comprometida com a interdependência entre ensino e pesquisa.
Na medida em que tais desafios sejam superados, torna-se mais viável o

53
apoio de agências financiadoras de pesquisa e de aperfeiçoamento didático,
tanto do Brasil como do exterior. Vencer esses e outros desafiados irá, sem
dúvida, contribuir também para a consolidação de uma auto-imagem positiva
de RI.

54
NOTAS
1 Em sua dissertação de mstrado, DORÉ (1996) examina com pormenores as contribuições
de Dante (e também de Guillaume de Rubrouck e Marco Polo) para o estudo das relações
internacionais.
2 Durante vários anos a RBPI foi mantida e dirigida por Cleantho de Paiva Leite. Com o seu
falecimento a revista foi transferida para Brasília onde vem sendo publicada a partir do
volume XXXVI, no. 1 (jan-jun 1993), ainda sob os auspícios do Instituto Brasileiro de
Relações Internacionais.
3 Macrotransformações refere-se aqui aos acontecimentos históricos marcantes, como o
processo de abertura iniciado por M. Gorbachev, com a perestroika e a glasnost, que culminou
com a desintegração da União Soviética, a dissolução do Pacto de Varsóvia e do COMECOM,
a queda do muro de Berlim e a unificação da Alemanha, mudanças nos países da Europa
Centro-Oriental, e o fim da Guerra Fria.
4 De fato, o País vem tendo maior presença e obtendo maior visibilidade internacional, como
demonstram pronunciamentos do Presidente da República e do ministro das Relações
Exteriores, em diferentes ocasiões, como foi o caso do discurso de abertura da Assembléia
Geral da ONU em 1999, de cunho mais assertivo quanto às posições do Brasil em questões
como a do Timor Leste. Outros episódios semelhantes referem-se a contenciosos com os
EUA (sobre patentes de produtos farmacêuticos) e com o Canadá (sobre o contencioso
relacionado à venda de aviões — Embraer vs Bombardier), nos quais o Brasil tem mantido
posições consideradas, em geral, menos tímidas do que no passado recente.
5 Em 1995 a CAPES criou um ‘comitê provisório’ para a área de RI. Esse comitê, que reunia
representantes de quase todas as instituições que mantêm algum tipo de programa de ensino
e pesquisa em RI, reuniu-se na CAPES várias vezes num período de cerca de 12 meses,
tendo apresentado algumas recomendações dentre as quais incluia-se uma ação conjunta
dos principais órgãos financiadores do governo federal — CAPES, CNPq, FINEP — no
sentido de criar um programa especial de apoio à área de RI. Como primeira iniciativa nessa
direção, a CAPES, através de Edital Público, financiou um Projeto Especial de apoio ao
ensino, à pesquisa e a eventos de RI, em todo o País. Entretanto, por razões até hoje não
divulgadas, o Projeto não teve continuidade.
6 Além da RBPI, mencionada no texto, Contexto Internacional (PUC-Rio) e Politica Externa
(NUPRI-USP-Paz e Terra), são periódicos dedicados primordialmente a RI. Os seguintes
periódicos, embora dedicados principalmente a outras áreas, publicam ocasionalmente
trabalhos de RI: Boletim da Sociedade Brasileira de Direito Internacional, Dados, Revista
Brasileira de Estudos Políticos e Parcerias Estrataégicas.
7 Essa observação pode ser verificada ao se comparar, por exemplo, o conteúdo do número
especial da RBPI (Ano 41, Especial 40 anos, 1958-1998), com números especiais de três
periódicos publicados nos EUA e um na Grã-Bretanha: World Politics (1997) e International
Organization (1998), ambos comemorativos dos 50 anos das respectivas revistas, International
Studies Review (1999), da International Studies Association, comemorativa da entrada do
milênio, e The Eighty Years’ Crisis. International Relations 1919-1999 (1998), publicado
sob os auspícios da British International Studies Association-University of Wales Aberystwyth
e, como indica o título, em comemoração dos 80 anos da criação da primeira cadeira de
Relações Internacionais na Universidade de Wales (1919) e dos 60 anos da publicação do
livro de CARR, The Twenty Years’ Crisis: 1919-1939. Não obstante o bom nível intelectual
dos trabalhos, no Número Especial da RBPI predomina o estilo narrativo-descritivo-

55
ensaístico, com ênfase no passado, refletindo naturalmente a tendência geral da literatura
brasileira de RI. As contribuições das demais revistas se voltam para o presente e para o
futuro, predominando o estilo analítico-explicativo-preditivo, com forte embasamento
teórico-metodológico.
8 Uma evidência desse dinamismo, acompanhado de otimismo, foi a criação, em 1999/2000,
do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais-CEBRI, com sede no Rio de Janeiro, nos
moldes do Council on Foreign Relations, do Royal Institute of International Affairs e do Institute
français de rélations internationales. A expectativa é que a nova entidade irá “ajudar a repensar
e redefinir o interesse nacional”. Os resultados dos estudos que realizará irão alimentar os
formuladores e implementadores da política externa brasileira, com o propósito de influenciar
seu processo decisório.
9 Parte desse trabalho já começa aparecer nas dissertações de mestrado mais recentes do curso
de RI da UnB. Mas é preciso ir além, especialmente em se tratando de trabalhos de docentes
e pesquisadores.

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