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Biografia de Mokiti Okada

LUZ DO ORIENTE

VOLUME
3

Título do Original:"Toho no Hikari - Guekan"


Editora:Sekai Kyusei Kyo – Atami, Japão
Copyright by Sekai Kyussei Kyo – Atami
PREFÁCIO

A publicação de Luz do Oriente, biografia do fundador de nossa Igreja, pela qual ansiei
durante muitos anos, é para mim uma alegria insuperável. Ao relembrar, com todo respeito, o
esforço de longa data empreendido por todas as pessoas relacionadas a esse trabalho até que ele
chegasse à publicação, sinto-me profundamente agradecida.
O título Luz do Oriente foi tirado de uma das caligrafias feitas por Meishu-Sama (nome
religioso de Mokiti Okada), e eu acho que não existe nome mais adequado para enaltecer os
feitos e a espiritualidade de nosso Mestre. Com a publicação deste livro, grande número de
pessoas poderá conhecer tudo sobre Mokiti Okada — um grande praticante do amor e da
justiça, o qual, tendo nascido como cidadão comum, depois de inúmeras provações, tomou-se o
manifestante da Glória de Deus.
"Em breve será iniciada a pesquisa sobre Mokiti Okada", disse Meishu-Sama. Creio, pois,
que também ele esteja se sentindo muitíssimo satisfeito ao ver concretizadas essas palavras, com
a publicação da presente biografia, por ensejo do seu Centenário.
Como filha de Meishu-Sama, vivi durante muitos anos perto dele. Diversas imagens suas
vêm-me naturalmente ao pensamento: às vezes, a figura do pai carinhoso; outras vezes, a figura
do dirigente que vivia unicamente para a Obra Divina e, ainda, a figura cheia de nobreza que se
divertia com as caminhadas ao lado de Nidai-Sama (Segunda Líder Espiritual), que fazia
"ikebana" (vivificação floral) e se interessava pelas obras de arte. Lendo este livro, fiquei
admirada de ver reproduzidas, fielmente, sem nenhum exagero ou adaptação, essas imagens de
Meishu-Sama com as quais tive contato como pessoa de sua família. Quanto mais lia, mais me
sentia atraída, podendo novamente experimentar na pele a grandiosidade daquele que viveu
para cumprir sua missão, e o muito que lhe devemos. Pude, ainda, conhecer diversos aspectos
seus que até então eu desconhecia. Cheguei mesmo a ter a impressão de que ele havia retornado
a este mundo e de que eu ouvia bem perto a sua voz, o que me deixou ainda mais saudosa.
Aprender com Meishu-Sama e dele nos aproximar é, para nós, que seguimos o caminho
traçado por ele em seus Ensinamentos, um grande desejo e também a meta de todo o nosso
esforço. O livro Luz do Oriente é um bom orientador para isso. Desejo que, daqui para a frente,
o tenham sempre em mãos e o utilizem como guia, para corresponderem ainda mais à Vontade de
Meishu-Sama.
ITSUKI OKADA
Terceira Líder Espiritual da Igreja Messiânica Mundial

APRESENTAÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA


É imensa a minha alegria pela edição, em língua portuguesa, do livro "Luz do Oriente".
Em sua edição original, em japonês, o livro foi publicado em dezembro do ano passado,
antecedendo o ano comemorativo do centenário de nosso Mestre; desde então, tem sido muito
apreciado pêlos fiéis japoneses, que nele têm encontrado informações que lhes permitem
conhecer, ainda mais profundamente, o sentimento altruísta característico de Meishu-Sama.
Através de sua leitura constante, nele podemos, ainda, encontrar diretrizes que nos permitem um
melhor posicionamento, nesta época conturbada em que vivemos.
O fato de ele ter sido traduzido e editado em língua portuguesa e estar, agora, ao alcance de
todos os brasileiros é, para mim, motivo da maior satisfação.
Meishu-Sama fundou a nossa Igreja com o objetivo de concretizar o Mundo Ideal de Verdade-
Bem-Belo, um mundo de eterna paz. Paralelamente às atividades religiosas, entretanto,
apresentou, divulgou amplamente e, sobretudo, esforçou-se ele mesmo, desde a época inicial, na
prática de teorias inovadoras nos campos da política, economia, educação, arte, medicina,
agronomia e em todos os demais campos das ciências sociais e naturais. Hoje, por intermédio de
seus seguidores em todo o mundo, o pensamento de Mei-shu-Sama frutificou de diversas formas,
através de atividades como as do Museu de Arte M.O.A., voltadas para a salvação através do
Belo; a Academia Sanguetsu de Vivificação pela Ror, que impulsiona a formação do Paraíso
através das flores; a Agricultura Natural, que visa a promover a verdadeira saúde do homem; os
trabalhos do Instituto de Pesquisas Ecológicas, voltados para a proteção e preservação do meio
ambiente etc.. Temos ainda a M.O.A. que, ultrapassando fronteiras e diferenças étnicas e
religiosas, vem desenvolvendo, com espírito de compreensão e ajuda mútua, inúmeras atividades
educacionais, assistenciais e culturais.
O pensamento e a filosofia de Meishu-Sama, que fundamentam essas atividades, são de uma
amplitude e profundidade imensas. Nem é preciso dizer que, para nós, fiéis da Igreja Messiânica
Mundial, Meishu-Sama é o modelo do qual procuramos nos aproximar mais e mais, estudando-
O cons-tantemente. Nesse sentido, tenho a certeza de que a publicação deste livro, que registra
fielmente sua vida e suas realizações — ao lado da publicação de obras como os Ensinamentos
("Alicerce do Paraíso") e as "Reminiscências de Meishu-Sama" — representa mais uma Luz
para seguirmos seus passos e assimilar-lhe o comportamento, manifestação concreta de seu
espírito.
Hoje, com o desenvolvimento das diversas atividades messiânicas, pessoas de todo o mundo — e
não apenas os membros de nossa Igreja — vêm despertando para o desejo de assimilar o
pensamento e a filosofia de Meishu-Sama. Assim, é grande a minha expectativa de que este livro
sirva para apresentar ao mundo a divina espiritualidade de nosso Mestre, servindo de ponte
para guiar até ele toda a humanidade.
Finalizando, expresso meus sinceros agradecimentos a todas as pessoas que, direta ou
indiretamente, colaboraram para que esta obra viesse a ser editado em língua portuguesa.
TSUTOMU NAKAMURA
Presidente da Igreja Messiânica Mundial

APRESENTAÇÃO DA REEDIÇÃO
A publicação do livro Luz do Oriente partiu do desejo da nossa Segunda Líder Espiritual em
1961. Foi formada a Comissão de Compilação da História do Fundador Mokiti Okada e teve
início a coleta de dados para a sua execução.
Por ocasião da comemoração dos 30 anos da fundação da Igreja, em 1965, foi possível lançar,
como preparação, o livro Reminiscências sobre Meishu-Sama.
Posteriormente, objetivando a publicação de uma biografia completa do Fundador, como
parte das atividades comemorativas do seu Centenário, e graças ao desejo e apoio de inúmeras
pessoas ligadas à Igreja Messiânica Mundial, em 23 de dezembro de 1981, lançamos o livro “Luz
do Oriente”.
Os 72 anos de vida de Mokiti Okada, que desejou ardentemente concretizar a Verdade e
construir a verdadeira civilização, foram repletos de experiências que abrangiam os campos
religioso, empresarial, educacional, artístico e filosófico.
Através de uma investigação o mais fiel possível à realidade, a presente publicação retrata a
ampla trajetória de Mokiti Okada. Embora ainda insuficiente, esta biografia engloba o
cotidiano, o ideal e a filosofia de Mokiti Okada e acreditamos que seja capaz de apresentar uma
visão geral da vida do Fundador.
Estamos convictos de que este livro oferecerá alimento espiritual e será um seguro norteador
para todos nós que, espelhados nos ideais do Mestre, almejamos incessantemente nossa elevação
como seres humanos e como participantes na construção do Mundo Ideal.
Atendendo ao desejo de um grande número de admiradores e adeptos de Mokiti Okada,
reeditamos o livro Luz do Oriente. Nesta segunda edição, corrigimos algumas datas e inserimos
alguns trechos para maior clareza textual. Modificamos, igualmente, expressões que, sob o
prisma do respeito aos direitos humanos, eram consideradas indevidas. Desejamos,
sinceramente, que o presente livro faça parte da leitura diária daqueles que, de uma maneira ou
de outra, possuem afinidade com a Obra de nosso Fundador.
Igreja Messiânica Mundial - Maio de 1994

NOTAS DO TRADUTOR

1- Nos nomes em japonês, utilizamos as seguintes grafias:


a) n - para os sons nasais, mesmos antes de p e b.
b) ss - para representar o som de c, mesmo no caso das palavras que têm sido comumente
usadas com um s só, como por exemplo Osaka, que, neste caso, será escrita Ossaka, pois, do
primeiro modo, em português, seria normal pronunciar Ozaka.
c) z - para se representar esse som, mesmo quando não seja estritamente necessário. Por
exemplo: Kizaemon, que, por estar entre vogais, poderia ser escrito com S.
d) r - no início de palavra deve ser pronunciado com o mesmo som do r de Maria, e não de
Henrique ou rua.
e) sh - pronuncia-se como em inglês ( = ch em português.)
f) h - essa consoante, no início das sílabas, deve ser pronunciada com o som aspirado, como o
r de rico, e não como o h de híbrido, por exemplo, que é mudo.
g) j - deve ser pronunciado com o som dj.
h) g - pronuncia-se sempre com o som que ele tem na palavra guerra.
2 - Devido à diferença entre as divisões políticas e territoriais do Japão e as do Brasil, não foi
possível traduzir os endereços nos moldes brasileiros, dando a idéia exata dos termos. O
endereço, por exemplo, da casa onde o Fundador nasceu é:
Tokyo-to, Daito-ku, Hashiba 2 tyo-me 2 ban
Distrito Federal / distrito / localidade ou bairro / conjunto de quadras / número
Traduziríamos, então, para:
Hashiba, quadra 2, nº 2, Distrito de Daito, Tóquio
D.F. , o que é apenas uma tradução aproximada.
3 - No caso de trechos extraídos de obras que não são publicações da Igreja, foram citadas as
fontes.
4 - Os nomes aqui empregados nem sempre são os de registro. No caso da pessoa ser
conhecida por um nome que não é o de registro, utilizou-se esse nome.

ÍNDICE
PREFÁCIO...........................................................................................................................................10
APRESENTAÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA............................................................................... ...........10
APRESENTAÇÃO DA REEDIÇÃO....................................................................... ...............................11
NOTAS DO TRADUTOR........................................................................................ ...........................12
CAPÍTULO I...................................................................................................................... ...............16
PALÁCIO
DO
BELO............................................................................................................................. ..............16
1.COLEÇÃO DAS OBRAS DE ARTE.........................................................................................................17
a)APRENDIZAGEM DAS BELAS-ARTES...................................................................................................18
b)OS VENDEDORES DE OBRAS DE ARTE COM OS QUAIS O FUNDADOR NEGOCIAVA..................................20
c)DIFICULDADES NA AQUISIÇÃO DAS OBRAS DE ARTE...........................................................................22
d)MOTIVO PELO QUAL AS OBRAS DE ARTE CHEGARAM ÀS MÃOS DO FUNDADOR....................................24
e)O FUNDADOR EVITOU QUE AS OBRAS DE ARTE FOSSEM VENDIDAS PARA O EXTERIOR.........................26
2.O MUSEU DE ARTE DE HAKONE.........................................................................................................27
a)CONSTRUÇÃO..................................................................................................................................27
b)INAUGURAÇÃO.................................................................................................................................30
3.A GRANDE AFLUÊNCIA DE VISITANTES...............................................................................................32
a)MUDANÇA DE OPINIÃO DA SOCIEDADE..............................................................................................33
b)OS INTELECTUAIS DO JAPÃO E DO EXTERIOR......................................................................................33
CAPÍTULO II................................................................................................................. ...................37

GOSTOS
E
PREFERÊNCIAS.......................................................................................................................... ..37
1.CINEMA...........................................................................................................................................39
a)REMINISCÊNCIAS.............................................................................................................................39
b)"OS SAPATOS VERMELHOS"..............................................................................................................40
2.TEATRO E MÚSICA............................................................................................................................43
a)ATORES...........................................................................................................................................43
b)"ROKYOKU" 13)................................................................................................................................43
c)RECORDAÇÕES SOBRE GRANDES ARTISTAS.......................................................................................45
3.ESCALADAS DE MONTANHAS............................................................................................................46
a)VIAGEM AOS ALPES JAPONESES........................................................................................................46
b)A VIAGEM A OKU-NIKO.....................................................................................................................49
4.VESTIMENTAS E ALIMENTAÇÃO.........................................................................................................51
a)TRAJES JAPONESES E TRAJES OCIDENTAIS.........................................................................................51
b)REFEIÇÕES VARIADAS......................................................................................................................53
5."EDOKO" 34) "ISSEYA" 35)................................................................................................................55
CAPíTULO III............................................................................................................. ......................57

DIFUSÃO DA OBRA DIVINA.......................................................................................... ................57


1.O DIA-A-DIA.....................................................................................................................................58
a)REALIZAÇÃO DA OBRA DIVINA COM OS MINUTOS CONTADOS.............................................................59
b)PROGRAMAÇÃO DIÁRIA....................................................................................................................59
1-O DESPERTAR..................................................................................................................................59
2-O BANHO.........................................................................................................................................60
3-UMA VISTA DE OLHOS NOS JORNAIS..................................................................................................60
4-A REFEIÇÃO MATINAL.......................................................................................................................60
5-O BOM-DIA AOS DEDICANTES............................................................................................................60
6-OS CABELOS....................................................................................................................................60
7-AS VIVIFICAÇÕES FLORAIS................................................................................................................61
8-AS ENTREVISTAS..............................................................................................................................61
9-O "NYUREI" 40) E O ALMOÇO.............................................................................................................61
10- APÓS O ALMOÇO...........................................................................................................................61
11- A MINISTRAÇÃO DE JOHREI NOS DEDICANTES.................................................................................61
12- O JANTAR......................................................................................................................................62
13- A EXIBIÇÃO DE FILMES..................................................................................................................62
14- AS CALIGRAFIAS A PINCEL.............................................................................................................62
15- O ESTUDO DAS BELAS-ARTES.........................................................................................................62
16- A MASSAGEM NOS OMBROS...........................................................................................................62
17- O LANCHE NOTURNO E O RELATÓRIO..............................................................................................62
18- A ORGANIZAÇÃO DAS NOTÍCIAS.....................................................................................................63
19- O DITADO DE ENSINAMENTOS........................................................................................................63
20- O DESCANSO.................................................................................................................................63
2.ENTREVISTAS................................................................................................................................. ..63
a)ORIGEM E MODIFICAÇÕES.................................................................................................................63
b)RECEBENDO LUZ..............................................................................................................................67
c)OS PRESENTES OFERECIDOS PELOS FIÉIS..........................................................................................71
3.JOHREI.........................................................................................................................................
....74
a)O JOHREI DO AMOR..........................................................................................................................74
b)MUDANÇA NO MÉTODO DO JOHREI....................................................................................................77
4.ATIVIDADES ESCRITURAIS.................................................................................................................78
a)LIVROS............................................................................................................................................78
b)COLETÂNEAS DE POEMAS.................................................................................................................79
c)ÓRGÃOS INFORMATIVOS...................................................................................................................81
d)DITADO DE ENSINAMENTOS..............................................................................................................82
e)JOHREI ATRAVÉS DAS LETRAS...........................................................................................................83
5.CALIGRAFIAS E PINTURAS................................................................................................................85
a)OS CALOS........................................................................................................................................85
b)COMO UMA MÁQUINA IMPRESSORA..................................................................................................87
c)INOVAÇÃO: MÁQUINA DE FAZER TINTA CARVÃO.................................................................................88
6.AS VIVIFICAÇÕES FLORAIS................................................................................................................89
a)O AMOR PELAS FLORES....................................................................................................................89
b)A CAMPANHA DE FORMAÇÃO DO PARAÍSO POR MEIO DAS FLORES......................................................91
CAPÍTULO IV......................................................................................................................... ..........94

VIAGENS MISSIONÁRIAS.............................................................................. ...............................94


1.PALESTRAS......................................................................................................................................96
2.VIAGENS MISSIONÁRIAS À REGIÃO KANSAI........................................................................................97
a)A PRIMEIRA VIAGEM.........................................................................................................................97
b)A TERRA DA TRANQÜILIDADE............................................................................................................98
c)O TEMPLO HORYU............................................................................................................................99
d)A ÚLTIMA VIAGEM MISSIONÁRIA.....................................................................................................101
3.A DIFUSÃO NO EXTERIOR................................................................................................................104
a)"SALVAR OS ESTADOS UNIDOS".......................................................................................................104
b)A PRIMEIRA PEDRA DA DIFUSÃO.....................................................................................................105
c)ENVOLVIDO PELO AMOR..................................................................................................................106
CAPÍTULO V............................................................................................................................ ......107

APÓS O FLORIR, A FRUTIFICAÇÃO.......................................................................... ...................107


1.A VINDA DO MESSIAS.....................................................................................................................109
a)PURIFICAÇÃO DETERMINADA POR DEUS..........................................................................................110
b)CERIMÔNIA DE COMEMORAÇÃO PROVISÓRIA DA VINDA DO MESSIAS................................................110
c)O PALÁCIO DE CRISTAL E A COLUNA DE LUZ.....................................................................................114
d)O TÃO ANSIADO POTE DE GLICÍNIAS................................................................................................117
2.A ASCENSÃO..................................................................................................................................118
a)A NOTÍCIA CHOCANTE.....................................................................................................................118
b)A DEDICAÇÃO EM PRANTOS............................................................................................................119
c)O SEPULTAMENTO..........................................................................................................................120
CAPÍTULO VI........................................................................................................................ .........122

A ETERNIDADE DA VIDA..................................................................................................... .......122


1.O DEUS-HOMEM ESTÁ AQUI............................................................................................................124
2.CORRESPONDENDO À VONTADE DO FUNDADOR...............................................................................126
POSFÁCIO............................................................................................................................ ......129
SUMÁRIO BIOGRÁFICO DO FUNDADOR................................................................... ..................131
CAPÍTULO I

PALÁCIO
DO
BELO

]
1. COLEÇÃO DAS OBRAS DE ARTE
a) APRENDIZAGEM DAS BELAS-ARTES

O Fundador começou a colecionar obras de arte na época em que era empresário. Desde menino
ele amava as belas-artes, tendo chegado a aspirar à carreira de pintor. Por isso, à medida que sua
vida ia se tornando mais afortunada, foi pouco a pouco comprando objetos de seu agrado.
Por volta de 1917 ou 1918, época em que o diamante Assahi teve uma vendagem surpreendente,
os quadros do pintor Yokoyama Taikan também passaram a fazer parte da coleção do Fundador.
Devido, porém, às sucessivas quedas econômicas, ele foi obrigado a se desfazer de todas as obras
de arte que possuía, só reiniciando sua coleção a partir da primavera de 1944, quando o fim da
Segunda Guerra Mundial já estava próximo.
Certo dia, após uma sessão de cinema, passeando com Yoshi pelos arredores do bairro de
Yuraku, o Fundador encontrou, na Loja Toaru, umas caixas para papel e material de caligrafia
feitas em "maki-e", as quais haviam sido preservadas pela família Maeda, latifundiários da
antiga Província de Kaga. Gostou tanto delas, que decidiu comprá-las na mesma hora. No dia
seguinte, indo entregá-las no Hozan-So (Solar da Montanha Preciosa); o dono da loja disse,
muito emocionado: "Todo freguês, quando vai fazer uma compra, ouve atentamente as
explicações sobre o objeto e, após examiná-lo com o máximo cuidado, ainda pede desconto. O Sr.
Okada, no entanto, assim que viu aquelas peças, comprou-as pelo preço que estava sendo pedido.
Fiquei admirado com o seu senso de avaliação e com as boas maneiras como ele efetuou a
compra."
Pouco depois, o Fundador mudou-se para Hakone, e, desde então, os vendedores de objetos de
arte viviam entrando e saindo de sua casa. Após o término da guerra, a coleção teve início
propriamente dito. Por essa época, o conhecimento artístico do Mestre limitava-se às obras de
"maki-e" e a mais algumas. Com o passar do tempo, foi aumentando a variedade de obras
oferecidas a ele, que, por outro lado, também começou a adquirir livros com fotografias sobre o
assunto. Assim, a cada ano o Fundador ia acumulando estudos e polindo a sua capacidade de
avaliação sobre um novo campo da arte: em 1947 e 1948, o Estilo Rin e as cerâmicas japonesas;
em 1949, os quadros contemporâneos, a pintura tipicamente japonesa e o "ukiyo-e"; em 1950, as
pinturas a tinta carvão "higashiyama", as escritas antigas, as caligrafias a tinta carvão e as
pinturas chinesas dos períodos So e Guen; em 1951, as cerâmicas e porcelanas da China e da
Coréia e as pinturas budistas; em 1952, as esculturas budistas, e assim por diante. O
aprimoramento da sua capacidade de avaliação com referência às obras de arte não teve fim.
Acatando a aquisição desses conhecimentos como uma educação artística dada por Deus, ele
dedicou-se de corpo e alma ao estudo das belas-artes e a cada ano assimilava conhecimentos
sobre novos campos. Levando-se em conta que o estudo de um só campo artístico requer
normalmente dez anos, podemos ver que o seu desenvolvimento não era comum.
O Fundador aproveitava todas as oportunidades para estudar. Lia livros e folhetos explicativos,
freqüentava exposições e procurava aprender com "experts" do ramo. As viagens missionárias à
Região Kansai, iniciadas em 1951, tinham como um dos objetivos visitar as cidades de Quioto e
Nara, que representam o cofre da arte budista. Entre os inúmeros livros lidos por ele, podemos
citar: "Visão Geral das Artes Orientais", obra em quinze volumes que apresenta a história da
pintura japonesa; "Visão Real do Mundo", em doze volumes, que reúne as principais obras da
arte mundial; Amostras de Famosas Peças da Era Taisho", em nove volumes;
"O Catálogo de Hakutsuru", obra em cinco volumes na qual está reunido o acervo do Museu de
Arte Hakutsuru (1) ; o catálogo, em dez volumes, do acervo do Museu de Arte Nezu (2) "]., e
catálogos de obras existentes em templos famosos, inclusive o Templo Horyu-ji.

Figura

"The Eumorfopoulos Collection" e outros livros de Arte lidos pelo Fundador

Entre os livros adquiridos pelo Fundador, merece destaque "The Eumorfopoulos Collection" (3).
É um livro com fotografias de obras de arte oriental cujo título leva o nome de um famoso
colecionador inglês. Confeccionado com a mais elevada técnica de impressão da época, por si só
ele é considerado uma obra de arte. Além disso, teve uma tiragem limitada (na ocasião, só havia
três exemplares), de modo que é um trabalho muito valioso e cobiçado pelos amantes das artes.
Mas o Fundador não estudava só através de livros. Ele procurava ter contacto com pessoas
entendidas no ramo e aprendia muito ouvindo suas palavras. Uma delas foi Yukossaissen Soshu
(1889 - 1953), mestre de cerimônia de chá. que, após o término da Segunda Guerra Mundial,
passou a dar aulas domiciliares a Yoshi, o que deu origem à amizade entre ele e o Fundador. Este
não recebia aulas, mas, quando o treino de Yoshi terminava, punha-se a conversar alegremente
com Soshu, profundo conhecedor de História e especialmente de caligrafia a tinta carvão.
Certo dia, Yoshioka Yassugoro, diretor da revista "Shin Kentiku" ("Nova Construção"), que
também era praticante de cerimônia de chá, acompanhou Soshu à casa do Fundador. Antes da
aula, a conversa girou em torno das belas-artes; quando a aula terminou, retomou-se o assunto
com muito entusiasmo. Em momentos como esses, segundo dizem, o Fundador procurava
aprender com uma humildade admirável.
No verão de 1952, Hashimoto Gyoin (1897 -1978), bonzo-chefe do Templo Yakushi-ji, situado em
Nara, e presidente da Religião Hosso, que é considerado um sábio e também possui profundo
conhecimento de belas-artes, foi visitar o Museu de Arte de Hakone por intermédio de Soshu. A
esse respeito o Fundador escreveu: "Conversamos durante algumas horas, e o assunto se
desenvolveu como se nos conhecêssemos há mais de dez anos." Hashimoto, por sua vez, recorda
aquele encontro dizendo: "O que me deixou impressionado e que pude perceber claramente
enquanto conversava com o Fundador, era o seu entusiasmo em aprender com terceiros. Ele
tomava nota de tudo. Embora estivesse na posição em que estava, vivia sempre voltado para o
alto, estudando, o que acho muito nobre."

Os estudos do Fundador não implicavam em negligência das demais atividades e compenetração


apenas na Arte. Pelo contrário, eram desenvolvidos paralelamente a muitas tarefas, o que o fazia
(1)
- Museu situado no Distrito de Higashi-Nada, na cidade de Kobe, que tem como
acervo a coleção do fabricante de saquê Kano Jihee. Possui obras-primas de cobre
azul, vasilhas de prata e porcelanas da China.
(2)
- Museu situado no Distrito de Minato, em Tóquio, cujo acervo é constituído pela
coleção do empresário Nezu Kaitiro, abrangendo todos os campos das artes orientais.
É particularmente famosa a obra intitulada "Biombo de Flores de Íris.
(3)
- Eumorfopoulos nasceu em 1869 e faleceu em 1939. As obras de sua coleção foram
doadas ao British Museum e ao Victoria and Albert Museum, constituindo, atualmente,
a parte principal do acervo de ambos. O livro em questão foi publicado na Inglaterra
em 1929.
valorizar todo e qualquer minuto. E não se tratava de estudos feitos apenas com o objetivo de
adquirir conhecimentos ou por diletantismo. Era uma jogada séria em que não havia tempo
sequer para pensar, pois, simultaneamente, ele ia adquirindo obras de arte de vendedores
habilidosos.

Figura

O Fundador, à direita, conversando com Hashimoto Gyoin

O Mestre folheava os livros de Arte entre vinte e vinte e uma horas, depois que terminava de
fazer os quadros de caligrafia a pincel, e a partir das vinte e três horas, enquanto ouvia a leitura
dos jornais feita por um dedicante; folheava-os, também, entre meia-noite e duas horas da
madrugada, nos intervalos em que a pessoa incumbida da anotação dos Ensinamentos lia as
Experiências de Fé e os artigos enviados para o jornal da Igreja. Quanto às revistas de Arte,
costumava encarregar um dedicante de lê-las para ele a cada três ou quatro dias, enquanto lhe
cortavam o cabelo. O Fundador jamais desperdiçava o tempo, mesmo que fossem apenas vinte
ou trinta minutos, e tinha um método peculiar que consistia em desenvolver paralelamente, na
medida do possível, duas ou três atividades, coordenando a combinação das tarefas.

Figura

O Fundador consultando livros de Arte na Casa de Cerimônia de Chá Monte e Lua. As flores
que se vêem no fundo foram vivificadas por ele.

Assim, através de estudos incansáveis, em pouco tempo ele adquiriu um profundo conhecimento
sobre as belas-artes orientais em geral, a ponto de surpreender os especialistas. Pela sua aguçada
capacidade de avaliação, os vendedores de obras de arte começaram a sentir respeito por ele.

b) OS VENDEDORES DE OBRAS DE ARTE COM OS QUAIS O


FUNDADOR NEGOCIAVA

Nessa época, a casa do Fundador era freqüentada por inúmeros vendedores de obras de arte.
Entre eles figuravam Yoshida Kotaro, da Loja Mitoko; Setsu Inossuke, da Loja Gatodo;
Yamaoka Shobee, da Loja Hiraido; Mayuyama Junkiti, da Loja Ryussendo; Yokoi Shuzo,
representante de Hirota Fukossai, da Loja Kotyukyo, e outros nomes famosos do mundo
empresarial.
No início, estava combinado que cada um traria os objetos que conseguira adquirir, para o
Fundador escolher; com o passar do tempo, porém, cada comerciante ficou encarregado de
trazer determinado tipo de obra. Ou seja, as lojas Mitoko e Gatodo encarregaram-se das peças
de cerimônia de chá; a Hiraido, da arte budista; a Ryussendo e a Kotyukyo, das peças de
porcelana, e assim por diante. Mais tarde, também passaram a freqüentar a casa do Fundador
Kaneko Fussui e Honda Haruo, comerciantes de "ukiyo-e"; Oguiwara Yassunossuke, de
pinturas japonesas; Kanagai Shiguetoshi, de antigüidades estrangeiras, e outros.
Yamazaki Shiguehissa, que trabalhava no Departamento de Arte da Loja Maruzen, em Tóquio, e
começara a vender obras de arte ao Fundador logo após o término da Segunda Guerra Mundial,
tornou-se membro da Igreja depois da perseguição religiosa ocorrida em 1950, dedicando-se à
coleção do Mestre.
Alguns comerciantes, sabendo que o comprador era um líder religioso, ficavam alerta; outros
duvidavam de sua capacidade de avaliação, mas, quando o conheciam e conversavam com ele,
mostravam-se impressionados pela precisão com que avaliava os objetos e pela sua paixão fora
do comum pelo Belo, passando a respeitá-lo profundamente. Sobre o sentimento que se deve ter
em relação aos comerciantes de obras de arte, o Fundador dizia aos servidores que dedicavam ao
seu lado: "Não se deve pedir abatimento. Convém até mesmo dar gratificações; caso contrário,
quem é que vai trazer objetos de primeira qualidade ou os melhores que existem? É preciso,
inclusive, agradecer aos comerciantes!" A estes ele dizia: "Quero que traga uma peça que faça
minhas mãos tremerem ao pegá-la." Por essas palavras, podemos ver que o Fundador buscava
obras da mais alta categoria. Se fosse algo realmente bom, ele não se importava com o preço.
Para corresponder à sua expectativa, os vendedores sempre lhe levavam as obras-primas que
conseguiam, pensando: "Tenho que vender esta peça a Meishu-Sama!"
Mas o Mestre não tinha essa atenção apenas com os comerciantes. Era seu costume dispensá-la
também aos proprietários, que, por motivos financeiros, não tinham outra alternativa a não ser
abrir mão dessas importantes obras.
O fato que se segue aconteceu no outono de 1952, quando o Fundador comprou o "Amida
Sanzonbutsu", um conjunto de três estátuas budistas posto à venda pelo Templo Bo-ji, de Nara.
As estátuas foram transportadas num caminhão até Hakone e colocadas provisoriamente na
Casa do Trevo. Ele foi imediatamente para lá. Ao vê-las, mostrou-se muito feliz e teve uma
atitude de grande respeito, por ter sido protegido por Buda durante longo tempo. Observando
isso, Yamazaki, que havia feito a transação, falou: "Consegui 500 mil ienes de abatimento".
Entretanto, o Fundador replicou, em tom severo: "Não devia ter pechinchado, principalmente
por se tratar de uma obra pertencente a um templo". O servidor não aceitou a observação, pois o
pensamento de que havia feito um grande esforço para conseguir aquele abatimento era mais
forte. Assim, retrucou: "É mesmo? Mas o vendedor aceitou..." O Mestre, porém, entregou-lhe
500 mil ienes, dizendo: "Vá agora mesmo ao templo levar esse dinheiro. " Como naquela época
ainda não existisse o trem-bala e estivesse cansado, por ter acabado de chegar de Nara, Yamazaki
disse que levaria o dinheiro dentro de dois ou três dias. Mas o Fundador, em tom ainda mais
duro, contestou: "Absolutamente! Pegue o trem desta noite." Vencido pela convicção com que
ele falava, Yamazaki voltou a Nara no trem noturno. O Bonzo-Responsável do templo, ao ouvir
seu relato, ficou profundamente comovido com o sentimento do Mestre e, alegando que não
podia aceitar todo aquele dinheiro, pegou uma parte e devolveu o restante.
Kaneko Fussui, um dos comerciantes que negociavam com o Fundador, dedicara-se à pesquisa
de objetos de arte; em se tratando de reconhecer a autenticidade de obras de "ukiyo-e", era uma
autoridade, não tendo concorrentes. Em 1952, quando eles ainda não se conheciam, um amigo
seu, pertencente ao mesmo ramo, foi pedir-lhe auxílio. Contou-Ihe que o Fundador, achando que
ele nunca lhe levava obras de categoria, dispensara os seus serviços. Penalizado, Kaneko
entregou ao amigo a xilogravura intitulada "Haguino Tamagawa" ("O Rio Tama das Flores de
Trevo"), obra-prima de Suzuki Harunobu, precursor do mestre de cerimônia de chá
Yukossaissen Soshu, e disse-Ihe que a levasse ao Fundador. Este, ao vê-la, perguntou: "Essa peça
não foi escolhida por você, foi?" E acrescentou: "Traga a pessoa que o mandou trazê-la para
mim." Surpreso, o comerciante contou-Ihe tudo e depois transmitiu a Kaneko o desejo do
Mestre.
A calorosa recepção com que foi distinguido no Solar da Montanha Divina, em Hakone, calou
profundamente no coração de Kaneko. Nesse primeiro encontro, o Fundador falou-Ihe com
entusiasmo sobre as belas-artes do Japão, especialmente sobre o "ukiyo-e", e expôs-lhe as suas
próprias aspirações, deixando-o impressionado com a sua paixão pelo Belo e a grandeza do seu
coração.
Na época, em conseqüência de um acontecimento desagradável, segundo dizem, Kaneko vivia
dias ociosos, bebendo para esquecer o sofrimento. Tomando conheci" mento disso, o Fundador,
certo dia, lhe disse: Se você deixar, de beber, eu Ihe garanto vinte anos de vida. " Essas palavras
foram o suficiente para ele abandonar a bebida. O fato ficou famoso entre os comerciantes do
mesmo ramo, e, confirmando o que o Mestre dissera, Kaneko foi abençoado com uma vida
longa, tendo-se dedicado exclusivamente ao
"ukiyo-e" até o seu falecimento, em 1978, aos noventa anos de idade.
Os demais pesquisadores e vendedores de objetos de arte que freqüentavam a casa do Fundador
- e não apenas Kaneko Fussui - também ficavam embevecidos com a grandeza de sua
personalidade. Certa vez, Hashimoto Gyoin disse: "Numa cerimônia de chá, o Sr. Okada nunca é
o único participante importante, mas pessoas famosas, como Setsu Inossuke, Yoshida Kotaro e
outros, arrumam-lhe os tamancos, demonstrando que ele é realmente excepcional. Indivíduos
como esses não são de abaixar facilmente a cabeça, nem mesmo para clientes muito ricos, que
costumam comprar grande quantidade de objetos. Em sessões de cerimônia de chá, portam-se
com muita ostentação, mas, perante o Sr. Okada, são simples arrumadores de tamancos. Vendo
isso, acho que ele é de fato um grande homem."

c) DIFICULDADES NA AQUISIÇÃO DAS OBRAS DE ARTE

O Fundador não efetuou a compra de obras de arte numa situação financeira em que Ihe
estivesse sobrando dinheiro. A construção do Museu de Arte e outras obras dos Solos Sagrados
de Hakone e Atami estavam em andamento, e o dinheiro tendia sempre a faltar.
Conseqüentemente, nem sempre ele comprou os objetos pelo preço ao qual se encontravam à
venda.
De fato, havia comerciantes desonestos que, pensando que o Mestre fosse amador em matéria de
Arte, levavam-Ihe obras pelas quais exigiam preços absurdos. Em tais ocasiões, num só relance
de olhos, ele desmascarava a intenção da pessoa e, saindo do recinto, dizia: "Leve isso embora. "
Depois, rindo, comentava com os dedicantes: "Aquele indivíduo queria me enganar."
Entretanto, quando queriam vender-lhe uma obra-prima, a situação era bem diferente. Para
uma coleção de obras de arte, a época é um fator importantíssimo. Se a pessoa perder a
oportunidade de comprar um objeto, pode estar ciente de que a sua aquisição depois será
impossível. Assim, quando a Igreja estava sem muito capital, o Fundador, às vezes, dava uma
entrada e parcelava o restante.
O quadro "Yuna-Zu" ("Mulheres do Banho Público"), obra-prima da pintura de costumes
no período inicial da Era Edo e considerado Importante Patrimônio Cultural do Japão, foi
adquirido numa época de dificuldades financeiras. Quando Yamazaki, que fazia as transações,
veio pedir dinheiro ao Fundador para pagá-lo, ele respondeu: "Eu não tenho dinheiro, você sabe.
E, em troca do quadro, entregou-lhe quase setenta trajes utilizados no Teatro No. O proprietário
parece que não ficou muito contente, mas, meio ano depois, vendeu-os por um preço várias vezes
maior.

Figura

"Yuna-Zu" ("Mulheres do Banho Público")

Em 1953, houve uma proposta de venda do "Biombo de Ameixeiras com Flores Vermelhas e
Brancas" (Vide foto no início deste livro), da autoria de Ogata Korin, obra que o Fundador há
muito desejava adquirir. Como estava difícil chegar a um acordo no tocante ao preço, Haguihara
Yassunossuke, que servia de intermediário, relatou a situação ao Mestre, sugerindo: "Se o senhor
der mais dois ou três milhões de ienes, conseguirá adquiri-lo. Creio que não é uma quantia tão
difícil de pagar. Que tal oferecer esses ienes a mais?" O Fundador tinha uma profunda
admiração por Korin, mas, ouvindo tais palavras, ficou sério e disse: Minha Igreja está
comprando objetos de arte com os donativos feitos pelo fiéis e por isso não posso despender tanto
dinheiro levianamente. " A partir daí não se deu continuidade às negociações. Um ano depois,
entretanto, chegou ao Fundador uma nova proposta. Haguihara disse, então, que o proprietário
não tencionava abater o preço, acrescentando que, se o biombo fosse adquirido por outra pessoa,
não haveria esperança de consegui-lo nunca mais. Nesse momento, várias idéias devem ter
afluído à mente do Fundador, mas ele acabou tomando uma decisão: "Sendo assim, não há outra
alternativa. Vamos comprar pelo preço que estão pedindo. " E assim foi adquirida essa obra-
prima da arte mundial.
O "Biombo de Ameixeiras com Flores Vermelhas e Brancas" é a obra mais representativa das
belas-artes japonesas. Antes de chegar às mãos do Fundador, teve um destino infeliz. Até o
término da Segunda Grande Guerra pertenceu à família Tsugaru e durante um ataque aéreo
quase foi destruído por uma bomba incendiária caída no depósito onde estava guardado. A caixa
que o embalava começou a queimar, mas, quando ele já ia ser atingido, um empregado da casa
apagou o fogo, salvando-o. Após a guerra, passou de mão em mão; nesse ínterim, ficou
abandonado no canto de um escritório humilde, esteve guardado num barracão que servia de
depósito, enfim, encontrou-se sempre em situações nas quais não seria nada estranho acontecer-
Ihe algum dano. Depois de tudo isso, misteriosamente, foi parar nas mãos do Fundador, que
tanto admirava Korin.
A aquisição do "Biombo de Ameixeiras com Flores Vermelhas e Brancas" tinha um significado
muito importante, tanto para o Fundador como para a Obra Divina.
A afinidade do Mestre com o Estilo Rin remonta ao seu nascimento. Como já foi dito, a
residência de Sakai Utanokami, parente de Sakai Hoitsu, ficava perto de Hashiba e, graças a
isso, um quadro desse pintor era preservado pela família Sakakuraya, proprietária da casa onde
o Fundador morava. Por outro lado, quando este residia no bairro de Tsukiji, época em que se
empenhou no aprendizado de "maki-e" enquanto se recuperava de uma grave doença, sua casa
ficava perto do Templo Tsukiji-Hongan-ji, onde estava o túmulo de Hoitsu. Dessa forma, havia
uma profunda afinidade entre ele e o Estilo Rin, a qual se expressava ora de forma bem clara,
ora de forma menos evidente.
Entre os seguidores desse estilo, o Fundador admirava sobretudo Ogata Korin, tendo
denominado Korin-Do a primeira loja que montou. Mais tarde, no tempo em que era empresário
e criou grande número de produtos, havia, no seu coração, um grande amor por aquele artista,
evidenciado claramente na conversa que, como já dissemos, ele manteve noite adentro com
Okakura Tenshin, por ocasião da visita que lhe fez em Izura, no Estado de Ibaraki, em 1907.
Após a Segunda Guerra Mundial, quando a construção do Solo Sagrado teve início realmente,
surgiram seguidos jardins que concretizavam a beleza do Estilo Rin na Natureza: O Jardim de
Musgos e o jardim situado na frente da Casa de Contemplação da Montanha, em Hakone, e o
Jardim das Ameixeiras e a Colina das Azaléias, em Atami. Assim, a vida do Fundador, marcada
do começo ao fim por uma grande paixão pela Arte, sempre conservou profunda afinidade com
esse estilo, o qual está centralizado em Ogata Korin. Conseqüentemente, a aquisição do "Biombo
de Ameixeiras com Flores Vermelhas e Brancas", considerado a obra mais representativa do
pintor e a obra-prima das belas-artes japonesas,possui um grande significado não só na vida do
Mestre, o qual pregou que o Paraíso é o Mundo do Belo, mas também na Obra de Deus, cujo
objetivo é construir um Mundo Ideal.
O biombo foi entregue no Solar da Nuvem Esmeralda, em Atami, na manhã do dia 4 de
fevereiro de 1954, exatamente o Dia do Início da Primavera, data em que tudo desperta e começa
a entrar em atividade. É o dia alentador em que o poder de Deus aumenta a sua intensidade.
Imediatamente o Fundador mandou que o abrissem na sala de estar e, com muita alegria, olhou-
o por diversas vezes até o entardecer, parecendo não se cansar de olhá-lo. No início de sua
palestra no Culto daquele dia, ele disse: "Hoje ocorreu um fato maravilhoso. Um dia contarei do
que se trata (4) , mas adianto que diz respeito a uma realização de Deus manifestada em forma de
modelo e que é um acontecimento muito alvissareiro. " Tais palavras referiam-se ao "Biombo de
Ameixeiras com Flores Vermelhas e Brancas". Considera-se que a sua aquisição no Dia do Início
da Primavera é uma ocorrência muito promissora, tendo-se visto nela uma prova do
desenvolvimento da Obra Divina.
Uma qualidade que todos os comerciantes do ramo reconheciam no Fundador, era a rapidez
e a precisão com que ele escolhia as obras de arte na hora da compra. Certa vez, voltando de
uma exposição em Tóquio, o Mestre passou pela Loja Ryussen, situada em Kyobashi. Entre as
porcelanas chinesas dispostas especialmente para aquela oportunidade, comprou cinco ou seis
peças, tendo levado poucos minutos para escolhê-las. Numa viagem missionária à Região Kansai,
ocasião em que adquiriu, entre outros biombos, o "Biombo de Casas Altas, Montanhas e Água" (
5)
, da autoria de Kaiho Yusho (6), e o "Biombo de Pessoas Apreciando Cerejeiras e Caçando
Falcões" (7), da autoria de Unkoku Togan (8), ele se decidiu num tempo mínimo. O primeiro já era
Importante Patrimônio Cultural, mas o segundo ainda não havia recebido tal qualificação.
Essa extraordinária capacidade de avaliação do Fundador resultava de estudos feitos com muito
empenho, os quais poliram seu aguçado senso de beleza inato. Aliás, ao invés de falar
simplesmente em "capacidade de avaliação", melhor seria dizer que se tratava de uma
sensibilidade espiritual muito rara, mesclada com espírito religioso. Ou seja, mal ele punha os
olhos numa obra de arte, certamente sentia, no fundo da alma, seu valor artístico e o sentimento
com que o artista a elaborara. Sua coleção é altamente avaliada no mundo das belas-artes, pelo
curto espaço de tempo em que foi feita e pela excelente qualidade das obras que a compõem. Isso
se tornou possível graças à sua paixão pelo Belo, à sua capacidade de avaliação, adquirida
através de esforços incansáveis, e à sensibilidade espiritual que ele recebeu de Deus.

d) MOTIVO PELO QUAL AS OBRAS DE ARTE CHEGARAM ÀS MÃOS


DO FUNDADOR

A aquisição da obra "Mulheres do Banho Público", da qual falamos no item anterior, foi
qualificada, por um negociante de Arte, como um mistério inconcebível pelo senso comum: "O
tão comentado quadro "Mulheres do Banho Público" era propriedade do Sr. Dan Takuma,
gerente da famosa Loja Mitsui. Pois até obras como essa, das quais eu achava impossível as
pessoas se desfazerem, foram atraídas para o Fundador. Por isso só posso interpretar que o
espírito do seu autor, por respeito ao Mestre, tenha ido para perto dele. É algo realmente digno
de respeito."

(4)
- Por determinação da Lei de Proteção do Patrimônio Cultural, já que o "Biombo de
Ameixeiras com Flores Vermelhas e Brancas constituía Tesouro Nacional, o Fundador
não podia tornar pública a sua aquisição até que os registros necessários estivessem
concluídos.
(5)
- Biombo com desenhos pintados a tinta carvão. Importante Patrimônio Cultural.
(6)
- Pintor da Era Momoyama. Suas obras se caracterizam por um ar de insubordinação
que reflete o seu caráter forte, de origem samurai.
(7)
- Quadro de costumes pintado no Período Keityo (1596 - 1615). importante
Patrimônio Cultural.
(8)
- Pintor da Era Momoyama. Admirava a pintura de Seshu, e, baseado nela, criou um
novo estilo. Herdou de Seshu a Casa Unkoku, situada na cidade de Yamaguti, no
Estado de Yamaguti, onde o pintor residiu.
Sobre a famosa série de xilogravura de Ando Hiroshigue (9)"As Cinqüenta e Três Vilas da
Estrada Tokai-Do", também se conta um milagre. Tudo começou quando Honda, comerciante e
especialista em xilogravuras, trouxe uma obra de Hiroshigue. O Fundador, que há muito tempo
desejava adquirir a série mencionada, disse-lhe que, se ele conseguisse a sua primeira impressão,
feita pela Editora Hoei, ficaria com ela na hora. Entretanto, não eram xilogravuras que se
pudessem encontrar facilmente, pois os seus apreciadores não se desfaziam delas com facilidade.
Caso se tratasse de reimpressões, talvez fosse possível consegui-las, mas, tratando-se da primeira
impressão, era preciso esperar pela sorte.

Figura

Primeira impressão, feita pela Editora Hoei-Do, da xilogravura "A vila de Hakone", incluída na
série "As Cinqüenta e Três Vilas da Estrada Tokai-Do", da autoria de Ando Hiroshigue.

De fato, o próprio Honda, que negociava com xilogravuras há quase quarenta anos, nunca tinha
encontrado alguém que quisesse vender aquela série. Sendo assim, ele disse com amargura: "É. .
. a primeira impressão. . ." e foi embora. Entretanto, exatamente na noite desse dia alguém lhe
trouxe o que o Fundador desejava. Acrescente-se que essa pessoa trabalhava com móveis antigos,
sendo, portanto, completamente alheia à arte de "ukiyo-e". Honda ficou perplexo com a grande
coincidência e, no dia seguinte, mais que depressa, foi levar as xilogravuras ao Fundador.
Para comprar um objeto de arte, não basta juntar dinheiro. É preciso amar a Arte de coração,
ter o forte desejo de obter a peça e sorte para concretizá-lo. Assim, só podemos dizer que é um
mistério as obras colecionadas pelo Fundador terem chegado às suas mãos sem que lhe fosse
preciso brigar por elas ou forçar situações. Narazaki Muneshigue, doutor em Literatura e
pesquisador de "ukiyo-e", comenta a incomum coleção do Mestre: "As obras se reuniram
porque a pessoa que as colecionou é virtuosa. Assim, a virtude do Fundador é que possibilitou
sua coleção. E ele conseguiu fazê-la em tão pouco tempo porque, atraídos pela sua personalidade,
todos lhe levavam peças. Creio que é um tipo de coleção muito raro."

O Fundador explica o aspecto espiritual da coleção: "Os espíritos dos autores dessas obras,
que, obviamente, estão no Mundo Espiritual, assim como os espíritos das pessoas que as
apreciavam ou tinham alguma relação com elas, desejando praticar um ato meritório, faziam
com que as peças chegassem às minhas mãos por diversos meios. Isto porque, através desse
mérito, eles se salvariam e subiriam de nível (10) no Mundo Espiritual.
Não é preciso dizer que foi pelo mesmo motivo que conseguimos um museu de Arte como este em
tão pouco tempo. " (Alicerce do Paraíso - Por que as obras-primas chegaram às minhas mãos)

Para formar sua coleção, o Fundador escolheu obras-primas antigas e modernas da arte oriental,
levando em conta a beleza das peças e não seu valor histórico ou arqueológico. A condição
absoluta do seu critério de avaliação é que fossem objetos cuja beleza deixasse todas as pessoas
(9)
- Artista de "ukiyo-e" do período final da Era Edo. Abriu um novo campo na
xilogravura: a representação de paisagens.
(10)
- O Fundador ensina que o Mundo Espiritual está subdividido em cento e oitenta e
uma camadas; é a essas camadas que ele está se referindo.
encantadas, proporcionando-lhes deleite. Essa diretriz básica está fundamentada no amor
altruísta, que deseja dar ao maior número possível de pessoas o ensejo de apreciar o Belo e abrir-
lhes o caminho para a elevação de sua espiritualidade. Assim, o Fundador escolheu somente
obras de elevado valor artístico, que falassem à alma daqueles que as apreciassem. É por isso
que, embora sua coleção seja extremamente variada, todos dizem que ela possui uma diretriz.
Matsunaga Yassuzaemon, empresário famoso e praticante de cerimônia de chá, era conhecido
pelo grande número de obras-primas que colecionou. No Museu Matsunaga, instalado na cidade
de Odawara quando ele ainda estava vivo, expôs sua coleção pessoal ao público. Fez, também,
diversas visitas ao Museu de Arte de Hakone. Numa dessas oportunidades, não poupando
elogios, disse: "A coleção do Sr. Okada é realmente muito ampla. Além disso, a qualidade de
cada área é muitíssimo elevada. Constitui, de fato, uma coleção maravilhosa, que possui uma
linha mestra. "

e) O FUNDADOR EVITOU QUE AS OBRAS DE ARTE FOSSEM


VENDIDAS PARA O EXTERIOR

Como todos sabem, o Japão, logo após a inédita derrota na Segunda Guerra Mundial, passou
por um período muito conturbado. Um dos motivos foi que os nobres, os grandes grupos
financeiros, os proprietários de terras e demais pessoas da classe dominante caíram de uma só
vez. Na época, uma terrível inflação assolou o país inteiro; além disso, em conseqüência da
alteração da moeda japonesa e dos impostos sobre os bens, as pessoas ficaram numa séria
dificuldade financeira. Como resultado, muitos vendiam suas terras, não sendo poucos os que
abriram mão de quadros de caligrafia e antigüidades legados de geração para geração. Dessa
forma, grande quantidade de obras valiosas foram colocadas no mercado, mas como, na época, o
poder aquisitivo dos japoneses era limitado, os comerciantes tiveram de recorrer aos
compradores do exterior, aos quais eles podiam vendê-las por um preço mais elevado. Assim, a
demanda fora do país foi aumentando cada vez mais. Seriamente preocupados, alguns
entendidos diziam: "Se tal situação continuar, em breve as obras-primas da arte japonesa não
poderão ser encontradas no Japão", palavras que hoje soam como piada.

Pela Lei de Proteção do Patrimônio Cultural, as obras qualificadas como Tesouro Nacional ou
Importante Patrimônio Cultural não podiam ser vendidas para o estrangeiro, mas dizem que,
apesar disso, foram feitas, secretamente, muitas vendas. Quanto às que não tinham nenhuma
qualificação, eram como se estivessem abandonadas. A maneira mais eficaz de evitar que isso
acontecesse seria o Estado comprá-las, porém, na situação da época, com um orçamento
limitado, tornava-se impossível comprar todas que fossem aparecendo.

Figura

O artigo onde se diz que o quadro "A Bela sob a Árvore" poderia ter sido vendido ao exterior
por 30 mil dólares. (Propriedade da Biblioteca do Congresso Nacional)
O quadro "A Bela sob a Árvore", uma das obras-primas da coleção do Fundador, também
correu perigo de ser levado para o exterior. Ele fazia par com o quadro intitulado "O Homem
sob a Árvore", o qual fora adquirido pelo Estado, e passara a fazer parte do acervo do Museu
Nacional de Tóquio. Desde a antigüidade ambos eram conhecidos como pinturas representativas
do encontro do homem e da mulher. No verão de 1952, quando "A Bela sob a Árvore" ainda não
havia sido qualificada como Importante Patrimônio Cultural, Mayuyama Junkiti, proprietário
da Loja Ryussen, levou-a à Comissão de Preservação do Patrimônio Cultural, solicitando que o
Estado a comprasse. Entretanto, dadas as condições da época, a negociação não foi possível. Sem
outra alternativa, Mayuyama levou o quadro para o Fundador, em Hakone, e explicou-lhe que se
tratava de uma pintura de costumes feita na Era Tang da China, constituindo uma obra-prima
de elevado valor cultural. Acrescentou que, em outros países, havia pessoas querendo adquiri-la,
existindo, portanto, perigo de que ela fosse levada para fora do Japão. Em face disso, ele pedia
que o Fundador a comprasse, e este resolveu fazê-lo imediatamente, pelo preço que lhe foi
oferecido: 5 milhões e 500 mil ienes. Depois de algum tempo, o acontecimento foi noticiado, com
grande destaque, no jornal "Tokyo Hibi", chegando ao conhecimento de toda a sociedade.
Através do exemplo acima, podemos imaginar facilmente que, naquela ocasião, em que era
intensa a venda de objetos de arte ao exterior, um grande número de obras-primas teriam
desaparecido do país se o Fundador não as tivesse comprado.
Entretanto, não foi por simples patriotismo que o Fundador tentou evitar o êxodo das obras de
arte para o estrangeiro. Ele o fez pela crença de que a arte japonesa manifestava o seu mais
elevado valor estético quando apreciada no ambiente japonês.
Fujikawa Kinji, que ocupara o cargo de diretor do Departamento de Administração do Museu
Nacional de Tóquio e mais tarde se tornou diretor administrativo da Comissão de Proteção do
Patrimônio Cultural, expressou sua simpatia pela construção do Museu de Arte de Hakone
dizendo: "Um mus.eu como esse é o que melhor atende às necessidades atuais do país e por isso
nós lhes oferecemos todo o nosso apoio e ajuda. Portanto, esforcem-se bastante.“ Diante dessas
palavras, o entusiasmo do Fundador tornou-se ainda maior. De fato, na administração do museu
e na criação da Fundação Tomei de Preservação da Arte, Fujikawa colaborou em todos os
sentidos, conforme havia prometido.
Assim, evitando a evasão de obras de arte para outros países e empenhando-se na preservação do
patrimônio cultural japonês por meio de sua coleção, o Fundador tornou-se alvo do mais elevado
respeito por parte dos entendidos na área. Uma prova disso é o fato de que, quando ele ascendeu,
Takahashi Seitiro, presidente da Comissão de Preservação do Patrimônio Cultural, enviou à
Igreja um atencioso telegrama de pesar, rendendo uma sincera homenagem ao mérito do Mestre.

2. O MUSEU DE ARTE DE HAKONE

a) CONSTRUÇÃO

Na Terra Divina, acima da Casa de Contemplação da Montanha, havia uma casinha feita de
sapé, que o Fundador denominou "Tori-no-Ya" (Casa dos Pássaros). Era uma das casas de
aluguel que ali existiam na época do jardim japonês, tendo servido, durante alguns anos, como
local de descanso dos fiéis que vinham para as entrevistas com o Fundador. Entretanto, após a
construção do Palácio da Luz do Sol, em 1948, ela já não era tão utilizada; além disso, estava
muito velha. Sendo assim, ficou decidido que seria demolida. O material aproveitável foi
empregado na construção da sede da Grande Igreja Taissei, situada perto da Terra Divina. Isso
aconteceu no final de 1950.
A Casa dos Pássaros tinha uma área de aproximadamente 100 m2; todavia, depois que ela foi
posta abaixo, o terreno ficou com uma área bem plana e ampla. O Fundador teve, então, a idéia
de construir ali um museu de Arte. A esse respeito ele escreveu mais tarde: "Com a demolição da
casa, formou-se um terreno livre de 500 m2 mais ou menos, e eu fiquei pensando em construir
algo adequado ao lugar. De repente, me veio à cabeça a idéia da construção de um museu de
Arte. O terreno era um pouco pequeno para isso, mas sua localização e o ambiente à sua volta
eram excelentes. Então, em meu íntimo, tomei a decisão de construir o museu. Ora, ainda que
pequeno, um museu de Arte não se faz com pouco dinheiro, e eu não tinha previsão de obter os
recursos suficientes num futuro imediato. No entanto, achando que, se pelo menos deixasse o
terreno preparado, acabaria chegando o momento de poder dar início à construção, pus mãos à
obra. O trabalho ficou praticamente terminado no verão de 1951. Ai, a vontade de construir logo
o museu tornou-se tão intensa, que, sem esperar mais tempo, consultei Abe (11) sobre a viabilidade
do plano. "Se é assim, vou estudar o assunto imediatamente", disse ele. De acordo com a
pesquisa feita, vimos que o plano não era tão difícil de ser concretizado, como pensávamos.
Confiando em que Deus daria um jeito em tudo, iniciamos a obra em outubro daquele mesmo
ano."
De acordo com o projeto do Fundador, o museu teria dois andares; seria um prédio simples, em
estilo chinês, com paredes brancas e telhado azul, tendo uma área de aproximadamente 880 m2.
Haveria seis salas de exposição, sendo três no térreo e três no primeiro andar; no segundo,
seriam construídos dois cômodos em estilo japonês, um de 24,30 m2 e outro de 9,72 m2. A
construção e as instalações eram projetos do próprio Fundador.
Desde que teve início, em outubro, a construção avançou com uma rapidez incrível; nos meados
de novembro, os alicerces e a estrutura já estavam prontos. Em dezembro, iniciou-se a
concretagem do piso dos dois pavimentos; no primeiro, o trabalho foi feito em vinte e quatro
horas ininterruptas. Entre os fiéis que vieram de todo o país para dedicar na construção do
museu, escolheram-se, logicamente, os homens mais fortes, mas, graças ao poder da fé, puderam
ser executados até mesmo os trabalhos que, pelo senso comum, pareciam impossíveis,
surpreendendo inclusive aqueles que o executaram.

Figura

Vista externa do Museu de Arte de Hakone na época de sua inauguração


Concluída a parte externa, teve início o revestimento interno, em março de 1952.

No mês de outubro, como acontecia todos os anos, o Fundador fora para Atami. Entretanto,
várias vezes por mês pegava um carro e ia à Terra Divina inspecionar a obra. Seus passos eram
bem leves. Às vezes ele parava e dava instruções minuciosas. Quando, por exemplo, iam começar
a construir a entrada das salas de exposição, falou: "Na planta ela está muito larga. Que tal
estreitá-la um pouco?" Imediatamente foi montado um caixilho de madeira na medida prevista.
O Fundador mandou que o colocassem no lugar da entrada experimentou entrar e sair, para
definir a medida exata. O mesmo aconteceu com o telhado. Ele estudou bastante para definir-lhe
a curvatura e a cor. Depois de observar as telhas de diversas casas, escolheu a cor do seu agrado e
mandou confeccioná-las através de um pedido especial.
O Fundador dispensou todo o cuidado às salas japonesas do segundo andar, que seriam
utilizadas como salas de visitas. Na porta do lado leste, que dá a montanha da letra "Dai"
("Grande"), foi colocada, entre a veneziana e o vidro, uma armação corrediça, de madeira e
papel, para dar um toque mais suave ao ambiente. Ela foi estudada através de vários modelos,
elaborados com o objetivo de se observar a espessura das linhas da porta e o espaço entre estas,
de modo que a armação se harmonizasse com todo o cômodo. O Fundador determinou, ainda,
que o teto fosse quadrangular, de paulóvnia; que as portas tivessem motivos de xadrez dourado e
prateado; que fossem plantados pequenos pés de bambu na parte leste da sala e que, por entre as
folhas dos bambus, se pudesse avistar a montanha acima referida. Enfim, ele se preocupou com
cada recanto. As linhas desenhadas pelo próprio Fundador, no trecho da parede acima da porta,
(11)
- Secretário do Fundador na época em que foi construído o Museu de Arte de
Hakone.
simbolizam nuvens auspiciosas; mais tarde, o desenho foi utilizado na cortina do Templo
Messiânico.

Figura

Salas japonesas do segundo andar do Museu de Arte de Hakone

A dedicada inspeção do Fundador impulsionava o andamento da obra. Além disso, vendo sua
postura em relação aos futuros visitantes e sua preocupação com os mínimos detalhes, os
dedicantes aprenderam a sinceridade que se deve ter para com a Obra Divina e assim,
solidificaram sua fé. Quando ele percorria as obras, todos paravam o trabalho para
cumprimentá-lo. O Fundador respondia ao cumprimento levantando um pouco o chapéu e
fazendo uma leve reverência. Às vezes, para desfazer a tensão dos fiéis, perguntava-lhes
carinhosamente: "De onde você veio?" "Até quando irá ficar?" etc. Eram palavras simples, sem
qualquer exibicionismo ou ostentação. Devido ao nervosismo, os fiéis geralmente davam
respostas trêmulas, às cegas, suando pelo corpo inteiro, mas depois sentiam o grande amor do
Mestre e ficavam profundamente emocionados.
Em 1951, quando foi anunciada a limitação da construção de prédios grandes, determinada por
regulamento baixado pelo Quartel General das Tropas de Ocupação, todos se puseram a
trabalhar como loucos. Isto porque só os prédios que já tivessem recebido cobertura até o dia
estipulado pelo regulamento estariam a salvo. Então, para que o telhado ficasse pronto até essa
data, por diversas vezes a concretagem se prolongou noite adentro, no período de novembro a
dezembro, contando-se, inclusive, com a participação dos dedicantes encarregados da cozinha,
que se ofereceram voluntariamente para carregar pedras e areia. Se já era pesado executar o
trabalho durante o dia, continuá-lo à noite era desgastante. Mas Deus correspondeu a essa
sincera dedicação de todos. Na montanha, especialmente quando o céu está limpo, as noites de
inverno são muito rigorosas; nos dias, porém, em que o trabalho se prolongava pela madrugada,
o céu cobria-se de nuvens e a temperatura tornava-se mais amena. Sentindo na pele a proteção
de Deus, os dedicantes trabalhavam com alegria, por verem a Obra Divina se desenvolver passo a
passo.
Em maio de 1952, quando o Fundador se mudou de Atami para Hakone, o museu já estava
noventa por cento concluído. Sua figura simples e clara destacava-se entre o verde da primavera,
diante do Monte Soun. Diariamente o Fundador ia até lá e, sem se importar com os estilhaços de
madeira espalhados por todos os cantos, percorria a obra examinando tudo cuidadosamente.
Desde que se iniciara a construção do museu, ele passara a falar cada vez mais, durante as
entrevistas com os fiéis, sobre assuntos relacionados às belas-artes, repetindo frases como estas:
"O Museu de Arte de Hakone é o Palácio do Belo que irá apresentar a arte do Japão ao mundo.
Quando ele estiver pronto, tornar-se-á conhecido também no exterior e provavelmente muitos
estrangeiros virão visitá-lo. "
Numa época em que nem mesmo o governo pôde evitar o êxodo de um grande número de obras-
primas da arte japonesa para o exterior, tendo-se limitado a observar em silêncio, o grandioso
plano do Fundador protegeu antecipadamente, as artes tradicionais do país, colocando muitas
dessas obras ao alcance do povo e divulgando o verdadeiro valor da cultura japonesa dentro e
fora do Japão. Dessa forma, ele abriu os olhos dos fiéis, que até então demonstravam pouco
interesse pelas belas-artes.
A respeito do significado do Museu de Arte de Hakone dentro da Obra Divina, o Fundador disse:
"Ele também é um modelo da Obra Divina. É um símbolo do Paraíso Terrestre. Com o término
dessa construção, estará concluído o protótipo do Paraíso Terrestre de Hakone e, com o passar
do tempo, se processará o desenvolvimento da construção do Paraíso em escala mundial. " Cada
vez que ouviam palavras como essas, os fiéis tornavam-se mais conscientes de que estavam tendo
permissão de participar da mais elevada Obra Divina, e seus corações se enchiam de orgulho e
alegria.
Às pessoas que deram uma contribuição destacada para a construção do Museu de Arte de
Hakone, o Fundador ofereceu quadros com caligrafias suas, feitas especialmente para
recompensar o trabalho por elas executado. Esses quadros, mais de trinta, eram escritos em
sentido vertical, numa linha apenas, sendo próprios para salas de cerimônia de chá. Ele
costumava fazer caligrafias com uma rapidez incrível; dessa vez, entretanto, escolheu, uma a
uma, letras diferentes, e levou tempo para escrevê-las. (As caligrafias do início do capítulo I do
segundo volume e do capítulo III do terceiro volume da presente obra são dessa ocasião).

b) INAUGURAÇÃO

Concluído o prédio, no dia 10 de junho de 1952, começaram a ser instaladas as vitrines; no


dia 11, teve início a disposição das obras que seriam expostas. Nesse período, o Fundador
passava o dia todo no museu, ordenando as peças e dirigindo o preparo da exposição. Tomava
cuidado até com o lugar onde ficaria o cartão contendo explicações sobre o objeto. Nessa
oportunidade, ele também contou com a ajuda de vários comerciantes de obras de arte. À
medida que os objetos iam sendo colocados em seus lugares, volta e meia um deles deparava com
uma peça muito valiosa que soubera estar à venda, e, mostrando espanto, dizia:
Ah, esta também veio parar aqui?!" Palavras desse gênero eram ouvidas a todo momento, e,
enquanto trabalhavam, os negociantes mantinham com o Fundador uma conversa alegre que
não tinha fim.

Figura

O Fundador, no dia 13 de junho de 1952, preparando as peças que seriam expostas no dia da
inauguração do museu.

No dia 14 de junho, véspera da inauguração do museu, o Mestre, esquecendo-se de jantar, ficou


estudando cuidadosamente a disposição das peças até depois das vinte horas. Segurando-as com
as duas mãos e dispondo-as com o maior zelo, atento à direção dos desenhos e à harmonia com a
vitrine, ele transmitia uma imagem repleta de alegria, por finalmente ver realizar-se um sonho
acalentado há longa data.
Após determinar a colocação dos objetos, o Fundador voltou para a Casa de Contemplação da
Montanha; por volta das 23 horas, entretanto, retornou ao museu, acompanhado de Yoshi. Nas
vitrines, claramente iluminadas pelas lâmpadas, estavam dispostas inúmeras obras-primas
colecionadas por ele. Esquecido de que a noite ia avançando, contemplou obra por obra,
parecendo conversar com elas. Quando acabou de percorrer todas as salas, já era quase uma
hora da madrugada. Pela maneira como o Fundador olhava e tornava a olhar para trás e ao seu
redor, ao deixar o museu, até mesmo os funcionários que ali se encontravam sentiram o quanto
ele estava contente por vê-lo concluído e como ansiava pela sua inauguração.
As cerimônias comemorativas da inauguração do Museu de Arte e da conclusão do protótipo do
Paraíso Terrestre de Hakone foram realizadas durante três dias, a partir de 15 de junho de 1952.
Esse museu é o ponto chave da Terra Divina e sua abertura representa a conclusão da primeira
etapa do protótipo do Paraíso Terrestre. Para aquele acontecimento, o Fundador compôs dezoito
poemas, entre os quais os que se seguem:

"Não esqueça que,


De acordo com a Vontade Divina,
O País do Sol Nascente
Está determinado
Para ser o País do Belo. "

"Para purificar
Este mundo cheio de impurezas,
Construí o Palácio do Belo
Nas terras puras de Hakone. "

"Para construir um mundo


De perfeita Verdade, Bem e Belo,
Estou manifestando
O Poder Divino. "

As dezoito composições foram entoadas vigorosamente, em forma de salmo, pelos milhares de


fiéis que assistiram aos Cultos, realizados nos dias 15, 16 e 17. Em todos eles o Fundador fez uma
palestra sobre o significado da conclusão do museu e sobre a Vontade de Deus encerrada nessa
obra. Eram palavras radiantes e vigorosas, que mostravam o largo avanço da Obra Divina dali
para a frente. Após cada Culto, os fiéis se dirigiam para o museu e, muito comovidos, apreciavam
as obras expostas.
O Museu de Arte de Hakone foi aberto aos fiéis antes de ser franqueado aos convidados de fora,
num cuidado inexprimível através de palavras. Consciente de que ele fora concluído graças à
sinceridade dos fiéis, que procuraram corresponder à sua vontade, o Fundador quis
compartilhar sua alegria primeiramente com eles, para louvar-lhes o mérito. Duas semanas
depois, do dia 29 de junho ao dia 1º de julho, agora com a presença não só de ilustres
personalidades do mundo político, cultural, artístico, informativo etc. , mas também de
autoridades locais, o museu foi apresentado à coletividade, expondo-se o objetivo de sua
instituição.
Para a solenidade do dia 29, foram convidadas inúmeras personalidades de Hakone, Atami e
Odawara, e pessoas ligadas à Federação Japonesa de Religiões e à Associação das Novas
Entidades Religiosas Japonesas. O dia 30 foi reservado para pessoas ligadas à Arte e
representantes da imprensa. Estavam presentes os escritores Kawabata Yassunari, Takami Jun,
Niwa Fumio e Yoshiya Nobuko, o calígrafo Onoe Saishu, o escultor Hiragushi Dentyu, o artesão
de "maki-e" Matsuda Gonroku, os pintores Takabatake Tatsushiro, Fukushima Shiguetaro,
Kawabata Ryushi e Nakagawa Kazumassa, o arquiteto Yoshida Issoya, o instrumentista de
"shamissen" Kineya Eizo, o mestre de dança Ito Mitio, o apresentador de programas
radiofônicos Tokugawa Mussei, o diretor do Departamento Cultural da Universidade Hossei
(posteriormente reitor da mesma Universidade) e o crítico de Arte Tanigawa Tetsuzo. Da
imprensa, assistiram à cerimônia, entre outros, Sassaki Mossaku, presidente da revista "Bunguei
Shunju"; Hirose, redator-chefe do Jornal Mainiti; Nishikawa, redator-chefe do jornal "Tokyo
Hibi", e Nakayama, redator-chefe do Jornal Fotográfico Sun. Além dessas pessoas, estiveram
presentes alguns membros da Comissão Especial de Avaliação do Patrimônio Cultural e também
Matsuda Kojiro, presidente da Loja Haku Botan e amigo íntimo do Fundador desde a época em
que este era empresário.
Para o dia 1º de julho foram convidados diplomatas estrangeiros atuantes no Japão e mais
algumas personalidades do mundo das belas-artes. Compareceram elementos da Embaixada da
França e da Itália, alguns membros da Associação de Arte Oriental e do Museu Histórico
Nacional, o deputado federal Dan Ino e também Takada Koin, representante de Hashimoto
Gyoin, bonzo-chefe do Templo Yakushi-ji, cargo este ocupado, atualmente, por Takada.
No convite que enviou a essas pessoas, o Fundador apresentou-se como diretor do museu.
Tokugawa Mussei, um dos convidados, disse que, ao ver escrito no convite "Okada Mokiti -
diretor do Museu de Arte" e não "Líder Espiritual da Igreja Messiânica Mundial" ou "Senhor
da Luz", sentiu que o coração do Fundador era puro como o de um menino, e que ele estava
plenamente satisfeito com aquela designação.
No dia 1º de julho, depois de saudar os presentes, o Mestre falou sobre o significado do
museu. Fez a palestra girar em torno do aspecto cultural não só dessa construção, mas também
da construção do Solo Sagrado. Começou dizendo que a Religião, como se pode ver pela História
Universal, é a mãe da Arte, e que o seu objetivo original é construir um mundo belo, além de
verdadeiro e bom. Acrescentou que a missão do Japão é contribuir para a formação de uma
cultura elevada, deleitando os povos de todo o mundo através do Belo. Para concluir, o Fundador
explicou que construiu os pequenos paraísos do Belo, em Hakone e Atami, com a intenção de
concretizar o objetivo original da Religião, trazendo, assim, uma importante ajuda para o Japão
cumprir a missão que Deus lhe atribuiu.

Figura

Convite para a inauguração do Museu de Arte de Hakone. O Fundador se apresenta como


diretor do museu.

De fato, o Museu de Arte de Hakone foi construído com o propósito de liberar as obras de
arte, que, desde os tempos antigos, eram propriedade exclusiva das classes dominantes. Esse
propósito do Fundador, baseado na firme crença de que a apreciação de tais obras elevaria a
espiritualidade do povo, foi elogiado pelo escritor Nagayo Yoshiro. Respondendo à saudação do
Mestre como representante dos convidados, Nagayo disse que ficou muito impressionado com a
magnífica idéia que ele tivera de colocar o Belo ao alcance do povo e com a sua extraordinária
capacidade de ação.

Figura

Nomes de pessoas convidadas para a inauguração do museu assinados na lista de presença

Figura

O Fundador atendendo os convidados

Nesse dia, o próprio Fundador serviu de cicerone e, valendo-se de tudo aquilo que aprendera
durante longos anos, deu explicações pormenorizadas sobre cada obra. Os visitantes, que
entendiam muito de belas-artes, ficaram surpresos com a profundidade dos seus conhecimentos e
com a sua aguçada sensibilidade, expressa através da apreensão da essência das obras expostas.
Essas explicações estavam baseadas no sentimento do Fundador, o qual não se cansava de
admirar o Belo, e na emoção que este lhe fazia afluir naturalmente. Sua alegria e seu entusiasmo
irradiavam-se por todo o museu, e as pessoas passaram um dia alegre, concentradas na Arte.

3. A GRANDE AFLUÊNCIA DE VISITANTES


a) MUDANÇA DE OPINIÃO DA SOCIEDADE

A inauguração do Museu de Arte de Hakone, noticiada em muitos jornais, chamou atenção como
atividade artística inédita, mudando por completo o pensamento da sociedade em relação à
Igreja. O Fundador ensina que a Religião, conforme se pode ver pela História e pela sua missão
original, deve estar numa relação extremamente íntima com a Arte. Esse conceito nunca foi
muito levado em consideração, de modo que a criação do museu causou surpresa no meio social.
Os jornais compreenderam a intenção do Mestre e noticiaram o fato:

Um museu de Arte rodeado pela natureza


Jornal Fotográfico Sun (27.06.1952)
O Museu de Arte de Hakone reúne até obras-primas de "ukiyo-e"
Jornal "Tokyo Hibi" (02.07.1952)
Beleza artificial dentro da beleza natural - o museu que a Igreja Messiânica Mundial construiu
em Gora.
Jornal Hoti (19.07.1952)

Após a inauguração do museu, muitas pessoas ligadas à imprensa visitaram o Fundador, entre as
quais Issato Tsuneatsu, vice-diretor do departamento científico do Jornal Yomiuri e mais tarde
superintendente desse jornal; Hioki Shoiti da revista "Bunguei Shunju", e Takami Norio, do
Jornal Hokoku. Pela atitude daqueles que vinham colher informações, dava para se perceber que
estavam bem intencionados. Se pensarmos que, no passado, todas as notícias sobre a Igreja
tendiam à zombaria e à censura, poderemos constatar a diferença dos tempos.

Figura

Artigos noticiando a inauguração do Museu de Arte de Hakone

Até então houvera muitos equívocos e mal-entendidos em relação à rápida expansão da Fé


Messiânica, ao Johrei e à Agricultura Natural. Além disso, os fatos desagradáveis ocorridos entre
1948 e 1950 levaram a sociedade a olhar a Igreja com todo rigor; a maioria das pessoas
encarava-a com maus olhos, achando que era uma religião trapaceira. Entretanto, com a
construção de um museu onde se expunham obras de qualidades extraordinariamente elevada
em termos artísticos, evidenciou-se, diante de todos, a realização de um trabalho de primeira
classe em matéria de empreendimento cultural e, graças a isso, os intelectuais do Japão
começaram a reconsiderar sua opinião sobre a Igreja Messiânica Mundial.

b) OS INTELECTUAIS DO JAPÃO E DO EXTERIOR

Entre as inúmeras pessoas que visitaram o Museu de Arte de Hakone, figuram: Assano
Nagatake, diretor do Museu Histórico Nacional; Yanagui Muneyoshi, pesquisador de artesanato;
Umehara Ryuzaburo, pintor de estilo ocidental; Kobayashi Itizo, fundador da Companhia
Ferroviária Hankyu; Kaya Tsunenori, ex-nobre e general do exército; Tanaka Itimatsu, chefe do
Centro de Pesquisas do Patrimônio Cultural; Tayama Honan, pesquisador da Comissão de
Proteção do Patrimônio Cultural; Suzuki Daisetsu, autoridade em budismo de fama
internacional, e Furuta Shokin, seu discípulo mais elevado; Hanayagui Jyutaro, mestre de
dança; Iwai Hanshiro, ator do Teatro Cabúqui, e outros ilustres nomes dos mais diversos setores
da sociedade, todos eles amantes das artes e profundos conhecedores da cultura japonesa.
Sobre a capacidade de avaliação do Fundador, Assano Nagatake comentou: "Para avaliar obras
de arte, não basta ter intuição. É preciso estudar muitas peças de boa qualidade, ouvir
freqüentemente comentários sobre elas, guardar tudo isso na cabeça e torná-lo algo seu. Faz-se
necessário esse esforço, e o Fundador deve tê-lo feito. Ele amava e respeitava profundamente as
coisas boas; não se limitava a estudá-las cientificamente. Ampliava o seu gosto no bom sentido e,
além disso, escolhia as peças com rigor, dando-lhes vida. Assim era ele: conhecia a alegria de dar
vida às coisas. Por outro lado, sua alegria deve ter sido também um sofrimento. E esse
sofrimento, penso eu, também deve ter sido uma alegria."
Antes da Segunda Guerra Mundial, Assano fora membro do Conselho dos Nobres. Desde jovem
apreciara a Arte, tendo ganho muita fama pela sua precisa capacidade de avaliação. Por isso, as
palavras que ele disse sobre o Fundador baseiam-se num sentimento nascido de sua própria
experiência. Os dois se encontraram uma única vez; conhecedores, porém, da alegria e do
sofrimento que acompanham o aprimoramento artístico, conversaram com infinito interesse e
emoção, enquanto apreciavam obras de arte, esquecendo-se até das horas.
Tanigawa Tetsuzo comentou que no acervo do Museu de Arte de Hakone existiam inúmeras
obras qualificadas como Tesouro Nacional ou Importante Patrimônio Cultural. Disse também
que, entre as obras que não tinham recebido nenhuma qualificação oficial, havia muitas de
excelente qualidade, o que o fizera perceber a extraordinária capacidade de avaliação do
Fundador.
Tanigawa também estivera presente à inauguração do museu e enviara seus comentários ao
Jornal Yomiuri. Voltou lá em abril de 1953 e, em seguida, foi visitar o Fundador no Solar da
Nuvem Esmeralda, em Atami. A conversa sobre Arte que tivera nessa oportunidade, foi
publicada no Jornal Hoti numa série de sete artigos.
Como já foi mencionado, durante a construção do Museu de Arte de Hakone o Fundador
afirmou, em tom vigoroso e cheio de convicção: "Quando ele ficar pronto, virão pessoas do
mundo inteiro visitá-lo. Por isso farei com que elas se deleitem ao máximo com a arte japonesa.”
Concluído o museu, essas palavras tornaram-se realidade. A imprensa e intelectuais de outros
países visitaram Hakone, e o nome da Igreja Messiânica Mundial foi noticiada amplamente no
estrangeiro.

Figura

O Fundador (à direita) conversando sobre Arte com Tanigawa Tetsuzo

No dia 15 de junho de l953, data em que se comemorava o primeiro ano da inauguração do


museu, o doutor Braden, professor da "Northwestern University" de Illinois, nos Estados
Unidos, foi a Hakone, onde teve ocasião de dialogar com o Fundador. Uma semana depois este
também recebeu a visita de Remon Cartier, correspondente da revista francesa "Paris Match".
Visitaram-no, em seguida, entre outras pessoas, Avery Brundage, presidente da "The Olympic
Committee"; o doutor Wainly, diretor do "Freer Gallery of Art" de Washington; o doutor Allan
Priest, diretor do "The East Asian Arts Department" do "Metropolitan Museum of Art in New
York"; Madeline David, vice-diretora do "Musée Cernuschi", de Paris; Elise Grilli, professora
da "Sophia University in Tokyo" e correspondente do "The Japan Times"; Waigle Simmons,
correspondente do "The Tokyo Evening News", e o ceramista Bernard Leach.
Na medida do possível, o Fundador recebia pessoalmente esses visitantes, com os quais
conversava familiarmente. Entre outros aspectos internos e externos do museu, todos eles, sem
exceção, mostravam-se encantados com a qualidade das obras expostas; com o fato de as janelas
terem sido feitas de modo a permitirem ampla entrada da luz externa, dando ao interior um
ambiente de serenidade e paz; com a paisagem que se avistava das janelas e com a perfeita
harmonia entre o prédio e o jardim à sua volta.
Em agosto de 1952, o casal Charles Cutting, do "The New Arts Museum de New Jersey, Estados
Unidos, esteve em Hakone e, já próximo de sua volta àquele país, enviou ao Fundador uma carta
que dizia: "É uma grande alegria podermos retornar à nossa Pátria depois de termos visto o seu
extraordinário trabalho. Achamos que, atualmente, o pensamento da sociedade japonesa está
ocidentalizado demais, e pudemos sentir, no seu trabalho, representado pelo Museu, a verdadeira
imagem do Japão."
Todos os visitantes estrangeiros sentiram uma profunda emoção ao verem os jardins e o museu
da Terra Divina, levando para sua terra uma inesquecível lembrança da beleza tradicional do
país. Elise Grilli, que, segundo já dissemos, visitou Hakone no verão de 1953, encontrou-se
algumas vezes com o Fundador e, ultrapassando a diferença de cultura e língua, ficou sua amiga,
identificando-se com ele pelo amor à Arte.
Elise era uma australiana naturalizada americana e estudara arte ocidental. Conhecia um pouco
de arte chinesa, mas até ir para o Japão não tinha quase nenhum conhecimento sobre a arte
japonesa; quando teve contato com ela, ficou encantada com sua riqueza. Visitou museus e
colecionadores do país inteiro e, estudando em contato direto com as obras, desenvolveu grande
capacidade de avaliação. Mas não se limitou a isso: adquiriu, ainda, compreensão da cultura
espiritual do Japão, especialmente do xintoísmo e do budismo (este último, o criador da arte
japonesa) e também da sensibilidade religiosa e artística do povo japonês.
Sobre a Igreja Messiânica Mundial, Elise disse que, no início, achara-a igual a tantas outras
religiões existentes no Japão, mas que, a cada visita que fazia ao museu, essa impressão fora
mudando e ela pudera compreender a sua profundidade e dimensão. À medida que ia lá,
juntamente com Marcel, seu marido, o qual trabalhava na Secretaria Internacional da N.H.K. ,
emissora de rádio e televisão japonesa, gradativamente foi entendendo que a Terra Divina era a
concretização do pensamento do Fundador. Mais tarde, através da conversa informal mantida
com ele no Solar da Nuvem Esmeralda, em Atami, durante uma visita que Ihe fez, conheceu o
princípio religioso da purificação do espírito através do Belo e certificou-se de que as atividades
da Igreja Messiânica Mundial, as quais visam a unir Religião e a Arte, de acordo com a Vontade
Divina, tinham uma possibilidade infinita de concretizar esse objetivo. Tempos depois, por
vontade póstuma do Fundador, o casal Grilli foi presenteado com uma vestimenta usada no
Teatro No. Essa vestimenta, com o consentimento de Yoshi, foi doada por eles ao Haifa Art
Museum, de Israel, onde se encontra ainda hoje.
Assim, independente de sua nacionalidade, todos aqueles que visitavam o Museu de Arte de
Hakone e conheciam o Fundador, saíam contentes. Não apenas porque se sentiam identificados
com ele pelo sentimento comum de amor ao Belo, mas também porque o Mestre não media
esforços para as pessoas apreciarem os objetos de arte com alegria e se sentirem satisfeitas. Na
véspera dos Cultos, por exemplo, ele costumava dizer: "Amanhã vamos mostrar aos fiéis a obra
que adquiri estes dias. " Nas horas em que não havia visitantes no museu, ia até lá, a fim de dar
instruções sobre a troca dos objetos expostos. Quando estava esperando alguém especial, punha
em exposição as peças adequadas ao gosto da pessoa. Enfim, colocando-se na posição daqueles
que iriam apreciar as obras, preocupava-se com os mínimos detalhes, o que deixava as pessoas
profundamente comovidas.
Mas esse zelo não se limitava ao museu. Quando o Fundador recebia uma visita particular,
sempre lhe dispensava uma calorosa atenção, para que ela pudesse sentir tranqüilidade e alegria.
No ensinamento intitulado "Pessoa Simpática", ele escreveu: "Quando vejo uma magnífica obra
de arte, ou uma paisagem maravilhosa, não sinto vontade de apreciá-las sozinho, e até fico
melindrado; nasce em mim a vontade de mostrá-las a um grande número de pessoas, para
alegrá-las. Dessa forma, minha maior satisfação é alegrar o próximo e com isso ficar alegre
também. " Portanto, era pelo desejo de partilhar alegria com muita gente que o Fundador
colecionava obras de arte e fazia vivificações florais. Esse seu sentimento transmitia-se
naturalmente aos visitantes do museu, em forma de grande alegria.
Antes mesmo da conclusão do Museu de Arte de Hakone, o Fundador tornara as atividades
artísticas independentes da Igreja, planejando organizar uma Fundação. Em maio de 1952, ele
entregara à Comissão de Proteção do Patrimônio Cultural o pedido de instituição da Fundação
Tomei de Preservação da Arte, deferido no mês de setembro. Seu objetivo era evitar a dispersão
do patrimônio cultural e das antigüidades, colocando-os ao alcance da sociedade; dessa forma, a
Fundação estaria contribuindo para a formação da educação estética da população e,
conseqüentemente, ajudando na construção de uma nação cultural. Assim, logo depois que o
museu foi inaugurado, as atividades por ele desenvolvidas ficaram posicionadas socialmente e
puderam efetuar-se de forma ainda mais positiva.
O Fundador continuou a colecionar obras-primas da Arte mesmo após a inauguração do museu,
em 1952. Por essa época ele conseguiu adquirir muitas antigüidades do Egito, da Pérsia (atual
Irã), da Índia e da Grécia, e também obras de "ukiyo-e". Especialmente sua coleção de quadros
nesse tipo de pintura foi acrescida de grande número de obras-primas, passando a ser
considerada de primeira categoria, não só quantitativa como qualitativamente.
Com a grande melhoria da coleção, as exposições passaram a ser realizadas com maior
diligência. No dia 1º de abril de 1953 foi inaugurada uma exposição de artesanato da China,
Coréia, Índia, Pérsia, Grécia e Egito. Para ampliar a escala das exposições, o Fundador construiu
um prédio anexo, atrás da Casa do Trevo. Em junho de 1953, foram expostas, nesse local, obras
de "ukiyo-e" da Era Momoyama até a época contemporânea. Contando com a colaboração não
só do Museu Histórico Nacional de Tóquio, que cedeu nove obras de seu acervo, mas também do
Jornal Mainiti e do Jornal "Tokyo Hibi", essa exposição granjeou as atenções do mundo das
belas-artes, pela boa qualidade do seu conteúdo, sendo noticiada em inúmeros jornais. Em abril
de 1954, o Fundador promoveu uma exposição de famosas pinturas "ukiyo-e" na matriz da Loja
Mitsukoshi, em Tóquio, e em maio, na filial dessa loja na cidade de Saporo, no Estado de
Hokaido, uma exposição de famosas xilogravuras, também "ukiyo-e".

Figura

Cartaz da exposição de "ukiyo-e" inaugurada no dia 1º de junho de 1953

Por encontrar-se num período pós-guerra e ser um país perdedor, o Japão estava pobre e seu
povo não tinha tranqüilidade espiritual, vivendo um dia-a-dia penoso. Numa época assim, era
difícil conseguir-se uma oportunidade de contato com obras de elevado teor artístico, de modo
que a experiência do Fundador, dando ao povo essa oportunidade, alcançou grande sucesso.
Tanto em Tóquio como em Saporo, a exposição recebeu, diariamente, um grande número de
visitantes, proporcionando alegres temas de conversas no Arquipélago do Japão, que estava na
primavera.
Ainda em 1954, teve início o primeiro curso no Museu de Arte de Hakone, realizado por três
vezes, entre julho e setembro. Esse projeto tinha como objetivo concretizar o plano do Fundador:
convidar as pessoas à Terra Divina, que ficava longe das impurezas mundanas, e fazer com que,
diante de obras de elevado nível artístico, elas ouvissem explicações dadas por conferencistas de
primeira categoria. Posteriormente, o curso passou a ser realizado duas vezes por ano, no
inverno e no verão, o que veio sendo feito até hoje, para alegria de muitos apreciadores do Belo.
O Fundador continuou fazendo a coleção com o maior interesse. Nos seus últimos anos de vida
terrena, ele adquiriu o "Biombo de Ameixeiras com Flores Vermelhas e Brancas", da autoria de
Ogata Korin, o "Pote de Glicínias", de Nonomura Ninsei (ambos qualificados atualmente como
Tesouro Nacional do Japão) e outras obras representativas das belas-artes japonesas. Graças a
isso, o museu foi adquirindo fama mundial.
"Construindo o Museu de Arte de Hakone, vi os pontos que devem ser melhorados e
aperfeiçoados. Assim, o que irei construir em Atami será ainda melhor", disse o Fundador. De
fato, desde a época em que aquele museu estava sendo construído, ele vinha falando
repetidamente sobre o seu plano de construir outro, em Atami. Afirmava que seria um museu
incomparavelmente mais aprimorado que o de Hakone: teria caráter mundial e disporia de salas
de exposição especiais, para que as obras-primas representativas de várias artes pudessem ser
apreciadas permanentemente. O Fundador mostrou, inclusive, o panorama futuro, dizendo que,
após a conclusão da Terra Celestial com o museu ali construído,o mundo inteiro voltaria sua
atenção para os empreendimentos religiosos e culturais desenvolvidos pela Igreja Messiânica.
Todavia, o Mestre ascendeu ao Mundo Espiritual sem presenciar a concretização desse plano, o
qual se tornou realidade exatamente trinta anos depois da conclusão do Museu de Arte de
Hakone, ou seja, em 1982, o auspicioso ano do seu Centenário, com a inauguração do Museu de
Arte M.O.A., erigido no Monte Fênix, no Solo Sagrado de Atami.

CAPÍTULO II

GOSTOS
E
PREFERÊNCIAS
1. CINEMA

a) REMINISCÊNCIAS

Desde jovem o Fundador gostava muito de cinema. Começou a freqüentá-lo assim que ele foi
introduzido no Japão, em 1896, e por isso podemos dizer que é um dos seus mais antigos
admiradores. Foi um freqüentador assíduo durante mais de cinqüenta anos, exceto em
determinado período, assistindo a filmes não só nacionais como também estrangeiros. Nos seus
últimos anos de vida, via pelo menos quinze ou dezesseis películas por mês, o que significava
duzentas por ano. Atualmente isso não seria de admirar, pois é possível ver filmes pela televisão;
entretanto, como se estava nos anos vinte da Era Showa (1946 -1955), quando esse meio de
comunicação ainda não era muito divulgado, pouquíssimas pessoas devem ter visto tantos filmes,
a não ser aquelas que estavam relacionadas ao meio cinematográfico.
Eis uma lembrança registrada pelo Fundador sobre a época em que começou a freqüentar o
cinema: "No bairro de Nishiki, em Kanda, havia um prédio, o Edifício Kinki, que parecia ter
sido a mansão de algum daimio, tão bem acabada era a sua construção. Utilizavam-no para
conferências. Logicamente, era forrado com "tatami", e os espectadores ficavam sentados à
moda japonesa. O primeiro filme a que assisti nesse local foi uma produção francesa intitulada
"Ukare Enma"; destinava-se às crianças, mas, por ser um filme muito interessante, fez grande
sucesso também entre os adultos. O apresentador chamava-se Komada Koyo e sua característica
era dizer "muito bastante", expressão que o tornou famoso. "
Naquele tempo os filmes eram mudos. Parece que o Fundador viu principalmente produções
francesas, italianas e alemãs. Mais tarde, quando foi introduzido no Japão o cinema americano,
ele ficou encantado com a sua magnitude, com a nitidez das imagens e com a vigorosa
representação dos atores, tornando-se seu fã ardoroso. Assistiu a muitos filmes de "farwest", a
comédias encenadas por Charles Chaplin, Harold Lloyd e Buster Keaton, e também a grandes
produções como "The History of Man", do famoso diretor D. W. Griffith.
Na época em que o Fundador era empresário, seu interesse pelo cinema era tanto, que, toda vez
que estreava um filme, ele ia vê-lo. Por volta das quinze ou dezesseis horas, terminava
apressadamente o trabalho que estava fazendo, telefonava para Yoshi dizendo-lhe que viesse
encontrá-lo na loja, e, juntos, iam a Guinza, Assakussa, etc. Do final da Era Taisho até a Era
Showa, ele se dedicou à pesquisa dos fenômenos espirituais e por isso quase não ia ao cinema.
Passado esse período de dez anos, o primeiro filme a que assistiu foi "A batalha do verão de
Ossaka", uma produção da Shotiku Filmes dirigida por Kinugassa Teinossuke. O papel de
Sakazaki Dewanokami foi interpretado por Hassegawa Kazuo, cujo nome, na época, era Hayashi
Tyojiro. No Cine Shotiku, em Shibuya, o Fundador ficou muito impressionado, inclusive por ser
a primeira vez que assistia a uma película falada. "É realmente uma produção muito bem
feita"disse ele aos dedicantes. "Fiquei surpreso com o rápido progresso do cinema japonês. Vocês
não devem perdê-la. " E dava o dinheiro da entrada àqueles que serviam ao seu lado, para que
fossem vê-la.
Desde então, o Fundador tornou-se fã do cinema japonês. Por volta de 1937 ou 1938, nos seus
três dias de folga durante o mês, tinha o hábito de sair com Yoshi e assistir a dois filmes seguidos.
Entre os que ele viu nessa época, os que mais o marcaram foram "Hurricane", "Chicago" e
"The Great Plains", produções americanas; no cinema japonês, "Tangue Sazen", "Daibossatsu
Togue", "Sengoku Gunto-Den", "Tsuruhati Tsurujiro", "Matsui Sumako" e "Guinrei no Hate".
O Fundador preferia filmes de montagem grandiosa, mas que não visassem à aceitação do
grande público; ou seja, filmes de grande envergadura e com profundidade de conteúdo. Nesse
aspecto, "Guinrei no Hate", dirigido por Taniguti Senkiti e estrelado por Mifune Toshiro, foi um
dos que mais o impressionaram.
O fato que se segue aconteceu em 1949. Tendo sabido, ocasionalmente, que Taniguti Senkiti se
hospedara num hotel de Atami para escrever um roteiro, o Fundador mandou-Ihe, por um
dedicante, uma carta onde se dizia grande admirador dos seus filmes e manifestava o desejo de
conhecê-lo pessoalmente. Alguns dias depois, o famoso diretor visitou-o na Sede Provisória de
Shimizu. Na ocasião, o Fundador teve uma atitude bem franca e aberta, o que, segundo Taniguti,
tornou possível uma conversa agradável entre os dois. Sobre o senso crítico e a personalidade do
Mestre, ele nos diz: "É incrível. Ele enxerga claramente o que os outros espectadores não vêem.
Achei-o extraordinário. Além disso, faz as pessoas rirem com suas gargalhadas, age de forma
natural e não é orgulhoso. Alguém do estúdio me disse depois: "Professor Taniguti, o senhor é
conhecido como pessoa que faz ironia com todas as coisas. Tendo-se encontrado com um
religioso, com certeza o encontro terminou em briga." Entretanto, o que aconteceu foi
exatamente o contrário. Eu voltei muito impressionado, sentindo-me inferior a ele."
No dia em que visitou a Sede Provisória, Taniguti aproveitou o passeio que costumava fazer
diariamente, usando uma roupa bem à vontade. O Fundador recebeu-o de forma hospitaleira e,
na hora em que ele ia se retirar, deu-lhe um envelope com dinheiro e uma caixa de doces. Além
disso, chamou seus familiares e apresentou-o a todos eles, um por um. Estando naqueles trajes,
Taniguti sentiu-se muito sem graça e até suou frio. Ele disse que ficou encantado com a ética
primorosa do Fundador e com a sua consideração pelas pessoas.

b) "OS SAPATOS VERMELHOS"

O Fundador dispensava uma atenção especial aos artistas. Ainda que fossem profissionais,
sentia-se agradecido a eles, pela alegria que procuravam dar ao público. Por artistas de talento,
principalmente, tinha um grande respeito, havendo dito, em várias oportunidades, que gostaria
de poder estar sempre com eles.
As tarefas do Fundador eram executadas com os minutos contados. Assim, é difícil imaginá-lo
recebendo uma pessoa que aparecesse sem avisar e, além disso, usando trajes pouco respeitosos.
Entretanto, como era Taniguti, um artista que produzia filmes magníficos, que tanto alegravam
as pessoas, e a quem solicitara um encontro, ele o recebeu de todo coração.
Mas o Fundador não só tratava bem os diretores de cinema, como lhes prestava sua colaboração
na produção de filmes. Em 1949, a Shotiku produziu, sob a direção de Kinoshita Keissuke, uma
película intitulada "Aliança de casamento", cujos personagens principais eram vividos por
Mifune Toshiro e Tanaka Kinuyo. O Hotel Minaguti-en, situado logo abaixo do Solar da Nuvem
Esmeralda, foi o local escolhido para o encontro dos dois protagonistas. A cena em que um deles
chegava de carro ao hotel estava para ser filmada, e o Fundador, que, na época, ocasionalmente,
estava usando um automóvel americano da marca De Soto, recebeu um pedido da Shotiku para
que lhe emprestasse o carro, pedido esse que, naturalmente, ele atendeu com a maior
cordialidade.
Um dos artistas preferidos do Fundador era Itikawa En'nossuke, do Teatro Cabúqui, que
posteriormente mudou seu nome para En-o. Ele visitou o Mestre em Hakone e assistiu a um
filme em sua companhia, no Palácio da Luz do Sol, tendo registrado o fato da seguinte maneira:
"Meishu-Sama me disse: "À noite vou passar um filme para os fiéis. Você não quer ver
também?" Eu respondi que sim e, na hora determinada, acompanhei-o ao salão do Palácio da
Luz do Sol, onde seria exibida a película. Tratava-se de "A cobra e a pomba", produzido por
Niwa Fumio. É um filme de crítica à Religião e parece estar satirizando a Igreja Messiânica
Mundial. Fiquei admirado por Meishu-Sama exibi-lo para os fiéis, mas ele dava gargalhadas,
dizendo: "Que engraçado! Que engraçado!" Senti-me profundamente tocado pela sua grandeza,
pois, tratando-se de um filme desse teor, normalmente não seria mostrado para membros,
inclusive por razões sentimentais. Meishu-Sama, porém, muito tranqüilo, dizia: "Olhe, existe
também esse ponto de vista. " Falava com todo sentimento, sem nenhum orgulho ou ostentação.
Eu fiquei impressionado, pensando: "Como ele é superior!"

Figura

O Fundador e a comitiva de En'nossuke em frente à Casa de Contemplação da Montanha, por


ocasião do Culto de Outono, em setembro de 1950. Na segunda fileira, a segunda pessoa da
esquerda para a direita é Itikawa Tyusha; em seguida, Itikawa En'nossuke, o Fundador, Yoshi e
Itikawa Danshiro. Na terceira fileira, a segunda pessoa à esquerda é Kineya Eizo; a seguir,
Yoshizumi Kossaburo.

Yoshizumi Kossaburo, artista de "nagauta" (12) que, posteriormente, passou a chamar-se Jikyo,
era muito amigo do Fundador e de sua esposa. Também morava na cidade de Atami e por isso
sempre era convidado para assistir aos filmes passados pelo Mestre. Certa noite, por volta de
1953, ia ser exibido "O trono do leão", dirigido por Ito Daissuke e protagonizado por Hassegawa
Kazuo. Nessa película, retrata-se o rigor do aprimoramento artístico, através da figura de um
jovem que estuda o Teatro No; havia uma cena em que ele treinava a forma de andar carregando
uma pesada vasilha de água. Inteirado do conteúdo, pelo catálogo do filme, o Fundador enviou a
Yoshizumi uma mensagem na qual, depois de lhe falar sobre o tema abordado, disse: "Com
certeza lhe servirá de referência para o seu aprimoramento em "nagauta". Por isso não deixe de
vê-lo. " Com essa apresentação, Yoshizumi agradeceu a gentileza do Fundador e, muito contente,
aceitou o convite.
Na época em que estava se processando a construção dos Solos Sagrados de Hakone e Atami, o
Fundador exibia filmes para os dedicantes, objetivando que eles descansassem do árduo trabalho
realizado durante o dia. Isso acontecia em noites alternadas. Ele deixava preparado o filme e
chamava um técnico especializado, para passá-lo. Certa vez, conseguiu emprestada uma película
que estava levando nos cinemas de Atami e cujo título era "Os sapatos vermelhos". O filme
estava dividido em rolos; quando um terminava, passava-se o seguinte. Os que já tinham sido
rodados eram levados de carro até Hakone, para serem exibidos aos dedicantes de lá. Em
determinado dia, porém, uma densa neblina cobriu o Pico Jikoku, impedindo o carro de andar.
Por esse motivo, o filme chegou tarde e a exibição só foi terminar às duas horas da madrugada.
O técnico que manuseava o projetor pensou que ela seria interrompida, mas, como o Fundador
(12)
- Música que se tornou o principal "ongyoku" de Edo. Baseia-se nas canções para
dança, sendo acrescida, entre outros elementos, do ritmo "joruri". Existem três tipos:
para teatro, para dança e para fora do palco.
(V. notas 14 e 15)
não lhe dizia que parasse, acabou passando o filme até o fim. Nos intervalos, o Mestre ia para os
seus aposentos, trabalhava um pouco e, quando o filme recomeçava, voltava para o Palácio da
Luz do Sol.
Devido ao cansaço do dia, os dedicantes não agüentaram, acabando por dormir no local, mas ele
ficou acordado o tempo todo. Esse episódio mostra claramente que o Fundador tinha uma
grande admiração pelo cinema e que não gostava de interromper algo que já tivesse começado.
O fato que se segue, também relacionado à arte cinematográfica, ocorreu por volta do verão de
1953. Uma revista enviou cartas de pesquisa a várias regiões, e uma delas chegou à casa do
Fundador. Com certeza sabiam que ele era grande fã de cinema. Entre os vários itens da carta,
constava esta pergunta: "Qual é sua atriz predileta?" O próprio Fundador respondeu ao
questionário e, nesse item, colocou o nome de Awashima Tikague, uma artista muito famosa, na
época. Rindo alegremente, ele disse: "Quem manda uma coisa dessas a um religioso é um grande
"cara de pau", mas quem responde a essas perguntas e as envia de volta também o é”.
Quando se iniciou a construção do Solo Sagrado, o Fundador, com aquele entusiasmo que tinha
desde jovem pelas produções cinematográficas, fez três filmes. Um deles mostrava o Solo Sagrado
de Atami e intitulava-se "A Grande Construção"; outro, cujo título era "O Jardim do Paraíso",
mostrava o Solo Sagrado de Hakone; o terceiro, intitulado "Luz do Oriente", expressava o ideal
da Igreja, ou seja, a construção do mundo paradisíaco de Verdade, Bem e Belo.
A filmagem de "A Grande Construção" levou três semanas, tendo começado em fevereiro de
1952, quando a terraplenagem do terreno do Templo Messiânico estava em pleno andamento.
Além do trabalho dos dedicantes, que utilizavam pás e picaretas e transportavam terra em
vagões, filmou-se a figura do Fundador inspecionando a obra.
"O Jardim do Paraíso", produzido na mesma época, mostrava não só a beleza dos jardins da
Terra Divina e das montanhas que rodeiam Hakone, mas também o interior do recém-concluído
Museu de Arte e sua apresentação à sociedade. Nesse filme, o próprio Fundador explicava o
motivo que o levara a construir o protótipo do Mundo Ideal de Verdade, Bem e Belo, dizendo
que, com a construção do museu, ele objetivava apresentar às pessoas as belas-artes do Japão.
A filmagem de "Luz do Oriente" começou em 1953, sob a responsabilidade da "Kimura
Production" e a supervisão da Igreja Messiânica Mundial. O filme colorido, que, na época, era
muito raro, foi importado dos Estados Unidos. Além disso, visando-se a uma produção de
categoria, contratou-se o famoso coreógrafo Ishu Baku, para expressar simbolicamente, através
da dança, a doutrina pregada pelo Fundador. Os encarregados lidavam pela primeira vez com
filme colorido e por esse motivo se mostravam bastante indecisos em tudo que faziam.
Acrescente-se a isso que os filmes coloridos da época eram muito menos sensíveis que os atuais,
razão pela qual, na filmagem de interiores, foi necessário utilizar maior quantidade de luz, além
de outros cuidados especiais.
Os três filmes tinham um objetivo comum: apresentar à sociedade os Solos Sagrados de Hakone
e Atami, transmitindo, fora dos limites da Igreja, o ideal da construção do Paraíso Terrestre e da
criação da Nova Civilização.
2. TEATRO E MÚSICA

a) ATORES
Desde jovem, o Fundador apreciava não apenas o cinema, mas várias outras artes cênicas. Anos
depois, ele escreveu suas reminiscências sobre grandes atores dos mais diversos ramos dessas
artes.
No Teatro Cabúqui, quem recebeu seus maiores elogios foi Itikawa Danjuro, sobre cuja arte ele
disse: "Quando Itikawa aparece no palco, quase não se move. Além disso, não faz nada que se
possa chamar encenação, mas mesmo assim encanta o público cem por cento. É realmente um
mestre". Entre os comentários que fez sobre o ator, o Fundador elogiou sua atuação no papel de
Sakai Saemon-no-jo, no espetáculo intitulado "O tambor de Sakai": "Ele sentou-se sozinho bem
no centro do palco e cerrou os olhos. Com a cabeça um pouco inclinada para baixo, não fazia um
movimento sequer. Ficou num silêncio total durante quatro ou cinco minutos, não parecendo um
ser humano com vida. Engolindo em seco, os espectadores mantinham sua atenção fixa naquela
figura quieta e imóvel. Tudo que Saemon-no-jo fazia, deixava-os encantados, calculando a ação
seguinte. Naquele momento eu pensei: um ator que se senta sozinho no centro de um palco
enorme como é o do Cabúqui e, sem qualquer movimento expressivo, sem dizer uma só palavra,
consegue deixar a platéia tão encantada, é realmente a expressão máxima da técnica
artística".Tomando conhecimento de que Danjuro não gostava da aprovação popular, a ponto
de, quando a platéia aplaudia uma cena, no dia seguinte ele mudar a maneira de representar, o
Fundador reconheceu a elevação de sua arte, dizendo: "Vejo que ele não representa para o povo
e sim para os "experts". "
O Mestre cita, ainda, a célebre atriz de teatro Matsui Sumako, declarando-se impressionado com
sua atuação no papel de Nora, na peça "Casa de Bonecas", de Henrik Ibsen, e no de Carmen, na
peça do mesmo nome, de Prosper Mérimée. Quando Shimamura Hoguetsu, a quem idolatrava
como mestre de teatro, faleceu, em 1918, ela se suicidou no ano seguinte. O Fundador, que,
ocasionalmente, vira Matsui trabalhando numa peça dois dias antes, lamentou a morte da
grande atriz, de apenas trinta e quatro anos. Comentou, então: "Dois dias antes de sua morte,
Matsui estava no palco e não mostrava a menor perturbação. Fiquei, pois, admirado, ao saber do
ato que ela cometera, atribuindo-o à sua consciência como artista.

b) "ROKYOKU" (13)

Uma das manifestações artísticas que o Fundador mais apreciava era o "rokyoku". Entre os
intérpretes dessa arte, tinha grande admiração por Naniwatei Aizo, do final da Era Meiji, cuja
voz lhe parecia incrível sair da garganta de um ser humano. Na juventude, como já dissemos, o
Fundador recitava "rokyoku" durante o banho, provocando risadas em seus familiares. Mesmo
depois da Segunda Guerra Mundial continuou a admirá-lo e muitas vezes trabalhava ouvindo-o
pelo rádio.
O fato que se segue aconteceu por volta do verão de 1951. O Fundador executava uma tarefa
com o rádio sintonizado no programa do mestre de "rokyoku" Kimura Wakae, transmitido às
vinte horas. Nesse dia, Kimura interpretava o número intitulado "Sadanji, o famoso", e o
Fundador parecia pensar em alguma coisa ao ouvir a história narrada nesse "rokyoku", baseada
na vida do ator Itikawa Sadanji, que, pela Arte, rompera um relacionamento amoroso. Itikawa
Sadanji era considerado, juntamente com Itikawa Danjuro e Onoe Kikugoro, um dos três astros
(13)
- V. "Luz do Oriente"1" volume, pág.130, nota 52.
da Era Meiji. Quando jovem, não lhe davam valor, chamando-o de canastrão. Entretanto, o
roteirista Kawatake Shinshiti, posteriormente conhecido pelo nome de Furukawa Mokuami,
descobriu nele algo de especial e o incentivou muito, pedindo-lhe que se esforçasse. Sadanji,
porém, tinha um caso de amor com uma gueixa, o que, segundo Shinshiti, era um empecilho à
sua glória. Com esse pensamento, o escritor foi procurar a moça, pedindo-lhe que se afastasse do
ator durante três anos. Ela concordou e, a partir de então, tornou-se fria de propósito, não
dando mais atenção a Sadanji. Isso fez com que este se compenetrasse no trabalho e, pouco
depois, alcançasse um grande êxito com a peça "Marubashi Tyuya". Sua fama de canastrão foi
esquecida, e ele acabou voltando a se entender com a gueixa.
Quando acabou de ouvir esse "rokyoku", o Fundador contou um caso que lhe acontecera:
"Ouvindo o rádio, agora, lembrei-me de que, quando tinha cerca de quarenta anos, passei por
uma experiência igual. Era uma gueixa muito bonita, de Yanaguibashi, e tinha dezenove anos.
Além de bonita, era muito inteligente. Até hoje nunca vi mulher tão bela. Quando eu a
encontrava, não conseguia tirar os olhos dela e por isso Ihe dizia freqüentemente: "Quando a
vejo, meus olhos ardem. . . " Era realmente muito bonita! E inteligente! Eu vejo a inteligência
das pessoas pela forma como respondem a uma pergunta, e essa moça sempre dava respostas
muito precisas. Meio ano depois que nos conhecemos, ela me colocou na parede, dizendo que
queria morar comigo mesmo que fosse numa casa pequena ou numa sobreloja. Ora, para isso eu
não precisaria de muito dinheiro, e as condições eram excelentes. Ela era jovem, bela, e o normal
seria não pensar duas vezes.
Naquela ocasião fiquei numa grande dúvida. Eu já havia entrado para a Fé e tinha esposa e
filhos. Sabia que, se tivesse relações com outra mulher, estaria cometendo um grande pecado. Se
eu não fosse casado, não haveria problemas; mas eu era. Depois de muito pensar, decidi me
desligar totalmente da gueixa. Prometi-lhe que jamais voltaria a uma casa de gueixas e ela
também me prometeu que deixaria aquela profissão. As pessoas nascidas em Edo geralmente têm
uma crença interessante: se o homem não cumpre uma promessa, não merece consideração da
sociedade. Assim, cumpri o prometido e ouvi dizer que ela também abandonou o trabalho e
casou-se com um homem rico. Entretanto, algum tempo depois, eu ainda não tinha conseguido
tirá-la do pensamento. Os dez poemas que escrevi com o tema “paixão", foram inspirados nela.
O primeiro dizia assim:

"Meus cabelos estão brancos ,


Mas guardo, em meu peito,
Uma paixão que arde como fogo. "

Acho que naquela ocasião fui muito forte, pois consegui me controlar. Quem é capaz de
autocontrole, não se deixando levar pelos sentimentos, tem o seu valor. É. . . aquele caso foi um
teste de Deus. "
Assim, sem nenhuma vergonha, o Fundador contou essa lembrança de trinta anos atrás a um
dedicante que servia ao seu lado.
Em abril de 1953, ocorreu um fato muito interessante, que nos mostra a visão artística do
Fundador. Indo a Quioto em viagem missionária ele almoçou na Vila Primavera-Outono,
acompanhado de Yamaoka Shobee, dono da loja de antigüidades Hiraido, o qual lhe servia de
cicerone. Como de costume, o rádio estava ligado. Depois do noticiário do meio-dia, começou a
programação artística da tarde, com a apresentação de um "rokyoku". Yamaoka, que também
apreciava essa arte, logo viu que era Hiratemiki, personagem do "Tenpossuikoden", e,
reconhecendo a voz do intérprete, disse sem nenhuma pretensão: "É Tamagawa Katsutaro,
não?". Ouvindo isso, o Fundador perguntou:
- Você gosta de "rokyoku "?
- Muito. Comecei a gostar aos doze ou treze anos.
- Quais os seus intérpretes preferidos?
- Naniwatei Aizo e Tamagawa Katsutaro.
Como Yamaoka citou nomes de intérpretes conhecidos e conversou sobre aquele tema por alguns
momentos, o Fundador comentou: "Se o senhor entende tanto de "rokyoku", também deve
entender de outras artes, inclusive de artes plásticas, não é?" Ao ouvir tais palavras, que até
poderiam ser interpretadas como brincadeira, Yamazaki Shiguehissa, ali presente, ficou muito
espantado e disse repentinamente: "Que susto!" Yamaoka, porém, ficou pensando no que aquilo
poderia significar e depois explicou a conclusão a que chegou:
"Na apreciação das belas-artes, da música ou do teatro, entender significa sentir uma espécie de
emoção, o que representa a manifestação de uma sensibilidade espiritual que todo ser humano
possui. Quanto melhores são os sentimentos da pessoa, quanto mais purificado é o seu espírito,
mais pura e intensa deverá ser essa emoção.
Desde cedo o Fundador compreendeu que encaminhar as pessoas para a Fé e fazer com que elas
captem o sentimento do Belo pelo contacto com as obras de arte, no final das contas é a mesma
coisa. Consciente disso, ele fez uma coleção, construiu um museu e incentivou a apreciação da
Arte. Considero-o um grande homem e admiro-o sinceramente.
Dizem que assimilar uma arte vale por ter aprendido todas as manifestações artísticas, tal como
ouvir uma única palavra e entender toda uma frase. O Fundador era uma pessoa assim.
Pensando dessa forma, aquelas palavras ditas com naturalidade (". . . se entende tanto de
"rokyoku", também deve entender de outras artes, inclusive de artes plásticas. . . ") mostram
quão profundo fora o seu contacto com o Belo. "

c) RECORDAÇÕES SOBRE GRANDES ARTISTAS

Desde jovem, o Fundador também apreciava "ongyoku" (14) , especialmente "tokiwazu" (15),
"kiyomoto" (16) , "shin'nai" (17) , "tikuzen-biwa" (18) e "nagauta" (19). Quanto ao "guidayu" (20),
era uma arte de que ele não gostava muito; entretanto, não perdia as apresentações de Toyotake
Rosho, atriz que fez muito sucesso desde a Era Taisho até a Era Meiji.
Diversas vezes foi ouvi-la no Yuraku-za e, através de suas interpretações, passou a interessar-se
por esse gênero artístico, que aprendeu durante cerca de um ano.
Outros grandes nomes citados pelo Fundador são: Rintyu, mestre de "tokiwazu"; Enju Dayu, de
"kiyomoto"; Yanaguiya Mikimatsu, de "shin'nai"; Takano Kyokuran, de "tikuzen-biwa", e

(14)
- Termo genérico com que se designa a música tradicional japonesa.
(15)
- Variedade de "joruri" tipo de "ongyoku" em que o estilo da música é semelhante
ao do "guidayu" (V. nota 20), sendo metade falada e metade cantada. "Joruri" é um
conto musicado em que se utiliza um instrumento de cordas denominado "biwa". O
nome "joruri" fixou-se com a apresentação da peça intitulada "As estórias da princesa
Joruri", a qual fez tanto sucesso que foi retratada, na pintura, por Iwassa Matabee
(1578 - 1651), famoso pintor da Era Edo. Essa obra foi adquirida pelo Fundador e faz
parte do acervo do Museu de Arte M.O.A. - Atami, Japão.
(16)
- Variedade de "joruri" criada mais ou menos entre 1804 e 1918. de ritmo bem
popular.
(17)
- Variedade de "joruri" que se caracteriza por um ritmo triste e conta
principalmente histórias que falam de suicídio. Atingiu o auge da popularidade entre
1772 e 1781.
(18)
- Música tocada com o instrumento do mesmo nome, normalmente de quatro
cordas e às vezes cinco.
(19)
- V. nota 12.
(20)
- Variedade de "joruri".
Yoshimura Ijuro, de "nagauta". Nesta, ele também tece elogios a Yoshizumi Kossaburo, com o
qual, segundo já foi dito, mantinha um relacionamento muito amistoso. Eles se conheceram em
1946. Três anos depois de ter se mudado para Atami, o Fundador percorria a cidade à procura
de um local para construir o Solo Sagrado, quando, por acaso, passou em frente à residência de
Yoshizumi, que, só então, ele ficou sabendo morar ali. Como há muito tempo Yoshi desejasse
aprender "nagauta" e tivesse manifestado vontade de estudar com esse mestre, uma pessoa os
apresentou, e ela começou a receber aulas com ele. Tempos depois, Yoshizumi foi convidado para
ir à casa do Fundador, e assim teve início a amizade entre os dois. Muitas vezes eles tomavam
refeições juntos, iam ver as cerejeiras floridas, enfim, tratavam-se como se fossem pessoas da
mesma família.
O fato que se segue aconteceu pouco depois que o artista conheceu o Fundador. Este, como a
situação alimentar do país não era boa, sendo difícil conseguir arroz, perguntou-lhe certo dia:
- Que quantidade de arroz o senhor consome?
- Em casa, somos só eu e minha esposa. Por isso não consumimos muito.
- Então vou enviar-Ihes pelo menos o arroz. E assim ele fez, inclusive depois que a situação
melhorou. Após sua ascensão, Yoshi continuou a mandar aquele produto ao casal.
Yoshizumi teve oportunidade de contatar muitas vezes com o Fundador. Numa delas, pôde
presenciar um fato misterioso, relativo à luz espiritual emanada do corpo do Mestre. Foi numa
ocasião em que ambos saíram de carro com Rei, tia de Yoshi. Os três sentaram-se no banco de
trás. Yoshizumi ficou no meio. Do lado de Rei, nada de diferente; do lado do Fundador, no
entanto, ele sentia vir um calor tão intenso como se estivesse junto de um braseiro.
Yoshizumi sabia que o Fundador não era uma pessoa comum, mas, com o misterioso fato
relatado, adquiriu maior certeza ainda. O Mestre, por sua vez, respeitava o entusiasmo com que
ele se dedicava à Arte e por isso lhe dava uma atenção especial. "Yoshizumi é uma pessoa da
classe de Tesouro Nacional" dizia ele. Em 1956, confirmando essas palavras, o grande artista de
"nagauta", que, antes da Segunda Guerra Mundial, dera aulas na Escola de Música de Tóquio,
foi reconhecido como lmportante Patrimônio Cultural Imaterial; em 1957, teve a honra de
receber a Medalha Cultural.
Atualmente, os atores de teatro gozam de elevado prestígio na sociedade, mas naquela época isso
não acontecia. O Fundador, no entanto, considerava muito valiosa a atuação desses artistas, que,
deleitando o povo, cultivavam e enriqueciam sua sensibilidade. Através desse pensamento do
Mestre, evidencia-se o sentimento das pessoas nascidas e criadas na zona industrial e comercial
de Assakussa, que, desde a Era Edo, foi um grande centro de espetáculos populares. Ao mesmo
tempo, podemos perceber que é um pensamento ligado à sua convicção de que o Paraíso
Terrestre que ele deu a vida para concretizar - é um mundo onde prospera a cultura que faz as
pessoas vibrarem de alegria.
Ao mesmo tempo em que amava a música japonesa, com a qual se familiarizara desde pequeno,
o Fundador também tinha uma grande admiração pela música ocidental. Ouvia muito, pelo
rádio, compositores como Bach, Hendel, Mozart, Beethoven, Strauss e outros. Um vendedor de
obras de arte que negociava com ele disse que teve uma agradável impressão de novidade ao ver
que um patrício seu com mais de setenta anos, especialmente se tratando de um fundador de
religião, era um ouvinte tão assíduo da música ocidental.

3. ESCALADAS DE MONTANHAS

a) VIAGEM AOS ALPES JAPONESES


Por volta do final da Era Taisho (1912 - 1926), o Fundador visitou diversas regiões, para escalar
montanhas. Escalou quase todas da Região Kanto. Mas o que é que o levava a isso?
Desde a antigüidade, pela sua bela figura, pelo seu aspecto selvagem e altivo, que não deixa as
pessoas se aproximarem facilmente, ou ainda pela violência dos vulcões, que supera em muito a
força humana, as montanhas têm feito as pessoas sentirem respeito pela grandiosidade da
Natureza. Por isso, em toda parte elas são procuradas como local de aprimoramentos religiosos
cujo objetivo é despertar o homem, sacudir violentamente seu coração e polir sua alma. Podemos
mesmo dizer que é natural as montanhas terem se tornado locais sagrados de aprimoramento.
Se pensarmos que no ano 1 da Era Showa (1926) o Fundador retornou à Fé, recebeu a Revelação
Divina e foi se elevando em direção ao topo de sua escalada espiritual, poderemos considerar que
essas seguidas escaladas encerravam um plano profundo, determinado por Deus. No início,
entretanto, para ele próprio, talvez a intenção de se distrair e fazer exercício fosse mais forte.
As maiores escaladas feitas pelo Fundador foram a do Pico Yari-ga-Take e a das montanhas
situadas entre Oku-Niko e Aizu, as quais ele descreveu de forma detalhada. O Pico Yari-ga-Take,
nos Alpes do Norte, constituídos por montanhas abruptas, é muito famoso pela figura peculiar de
suas rochas. Não se sabe ao certo em que ano o Mestre o escalou, mas provavelmente foi no final
da Era Taisho, pois, nos seus registros, consta que, na ocasião, ele estava com quarenta e poucos
anos.
Nos meados de agosto de 1926, o Fundador foi a Matsumoto, em Shinshu, acompanhado de
Yoshi. O caminho montanhoso que, partindo daí, passa pelas Termas Nakafussa e liga-se aos
picos Tsubakuro-Dake e Yari-ga-Take, é hoje chamado de Guinza dos Alpes (21). Está muito bem
conservado, atualmente, e constitui o mais famoso curso de escaladas dos Alpes do Norte, sendo
muito freqüentado; naquela época, entretanto, esse caminho era cheio de mato e muito árduo. O
Fundador escreveu: "Pouco antes de chegarmos à cidade, minha esposa já não tinha condições
de acompanhar a escalada. Tivemos que recorrer a um carregador. A operação processava-se da
seguinte maneira: segurando-se num pau que passava sobre sua cabeça, a pessoa sentava-se, de
costas para o carregador, numa cadeira de madeira que este levava nas costas. Era uma posição
um tanto cômica, que nos provocava risos. E houve outro fato engraçado: no percurso de
aproximadamente 10 km que vai da cidade de Omati até o sopé da montanha, passando por
Ariake, foi necessário o uso de um carro puxado à mão, para atingirmos o topo da montanha.
Isso requeria um "puxador de corda", que tomava a posição dianteira; ali, entretanto, o puxador
era nada mais nada menos que um enorme cão. " Por essa descrição, podemos ver as condições
rudimentares da escalada.
Saindo de Matsumoto, o Fundador e sua esposa chegaram às Termas Nakafussa. Essas termas,
situadas no sopé dos Alpes do Norte, são rodeadas de picos íngremes e possuem uma história
bem antiga. Eles passaram a noite nesse local e, no dia seguinte, um dia de céu bem aberto, que o
deixou num estado de grande expectativa, o Fundador, acompanhado de um cicerone, partiu em
direção ao Pico Tsubakuro-Dake, seu primeiro objetivo.
Como diziam que a viagem, dali em diante, dadas as suas condições, tornava-se impraticável
para as mulheres, Yoshi ficou hospedada no hotel.
O Pico Tsubakuro-Dake tem uma altitude de 2.763 metros. Sobe-se por um caminho margeado
de árvores, que crescem densamente, e, quando estas acabam, a visão se abre, avistando-se o
altivo cume do Pico Daitenjo-Dake. Depois, chega-se a um caminho denominado Onemiti, onde
há flores silvestres por entre pinheiros, cujos galhos tocam o chão.
"Por volta das dez horas da manhã, cheguei à casa de chá situada no Pico Tsubakuro-Dake.
Só se viam montanhas e montanhas rochosas, com seus cumes cobertos de neves eternas,
brilhando ao sol. Essa paisagem magnífica que eu via pela primeira vez me deixou mais do que
maravilhado. Até então, eu havia escalado montanhas de diversos locais, mas nenhum se
(21)
- Guinza é o bairro mais desenvolvido da cidade de Tóquio.
comparava aos Alpes. Não tenho adjetivos para qualificá-lo. " Com essas palavras o Fundador
nos descreve o seu deslumbramento diante da grandiosa paisagem dos Alpes Japoneses, que ele
descortinou do planalto situado atrás de um bangalô denominado "Tsubakuro". Umas vezes
aguda, outras vezes suave, a figura das montanhas enfileiradas, com suas neves milenares,
mostravam toda a magnificência da Natureza. Na ocasião, o Fundador fez uma caminhada
extremamente forçada. Andou, num só dia, cerca de cinqüenta quilômetros, saindo das Termas
Tyubo, percurso que, habitualmente, leva quinze horas. O trecho que ele percorreu à tarde tinha
muitos locais planos, mas, diferentemente de hoje, parece que, naquela época, também havia
pontos bastante íngremes.

Figura

O Pico Yari-ga-Take visto do Pico Tsubakuro-Dake. (Foto fornecida pela Agência Oficial de
Turismo)

Do Tsubakuro, o Fundador seguiu por outro caminho montanhoso e, à tarde chegou a uma
cabana, onde almoçou. Em seguida, continuou a escalada em direção ao topo do monte. A partir
daí, o caminho se tornou perigoso: de um lado, erguia-se um barranco; do outro, havia um vale
profundo. Em alguns lugares a passagem tinha menos de um metro e era preciso andar de
banda. Bem tarde da noite, depois de uma caminhada sentindo calafrios na barriga, o Fundador
chegou à Cabana Sesho, situada próximo do topo do Pico Yari-ga-Take. Estava "morto de
cansaço", conforme descreveu posteriormente. E não era para menos, pois fizera num só dia o
percurso que se costuma fazer em dois. Tempos mais tarde, já com mais idade, ele continuava a
vencer caminhos íngremes com muita agilidade, o que talvez fosse uma característica sua.
Estava-se no mês de agosto - em pleno verão, portanto - mas havia neve em volta da cabana. O
frio era tanto, nessa noite, que o Fundador não conseguiu pregar os olhos. Todavia, quando
amanheceu, a maravilhosa manhã do Pico Yari-ga-Take esperava por ele.
"Do lado de fora da janela" - disse ele - "começou a ficar claro, e então me levantei. Saindo da
cabana a fim de lavar o rosto, encontrei uma pia bem humilde entre os rochedos localizados nas
proximidades. Como estávamos numa montanha de mais de 3.000 metros de altitude, não havia
uma gota sequer de água. Não me restava outro recurso a não ser usar a água da neve derretida,
e por isso pode-se imaginar que eu parecia um gato se lavando. Aspirei profundamente o ar puro,
olhando para o leste. Entre os raios da manhã que estava para despontar, distingui claramente as
linhas das montanhas situadas entre Assama e Kisso, as quais apareciam sobre as nuvens. Bem
longe, acima de todas as cordilheiras, divisava-se a maravilhosa e imponente figura do Fuji.
Parecia um rei! Depois disso, achei que o amanhecer nos Alpes era superior ao que eu vira no
topo desse monte. Interessante é que, ao assinar o livro de hóspedes da Cabana Sesho, observei
que a maioria das pessoas estavam na casa dos vinte anos; as de trinta eram raras, e não havia
nenhuma com quarenta e tantos como eu. Por isso senti até um pouco de orgulho. "
O cume do Pico Yari-ga-Take é uma rocha que parece cortada verticalmente, e por essa razão
recebeu o nome de Grande Lança. O Fundador começou a subir segurando-se numa corrente
que estava pendurada em ângulo reto, mas, como a subida era muito íngreme, ele desistiu de
pisar no topo. Pegou, então, o caminho à beira de um precipício denominado Yarissawa e desceu
para o Planalto Kami-Koti. Antigamente, o nome "Kami-Koti" também podia ser escrito com
letras que, possuindo os mesmos sons, significavam "interior dos muros de Deus" ou "terra de
Deus"; por isso o planalto era tido como local profundamente ligado a Deus. Tendo à sua frente a
Cordilheira dos Alpes e a encantadora paisagem do Rio Azussa, cujas águas cristalinas descem
do coração da montanha, formando diversos lagos no seu percurso, merece realmente ser
considerado um dos principais pontos turísticos do Japão.
Em 1915, desprendera-se do Pico Yari-ga-Take uma avalancha que, barrando o Rio Azussa,
formou o Lago Taisho. Na época em que o Fundador esteve lá, os vestígios da erupção ainda
deveriam estar claros, e, certamente, em vários pontos, havia árvores velhas mostrando seus
troncos e galhos brancos. Quando descia a montanha, o Fundador passou por momentos de
perigo. Tendo caído, foi escorregando pela neve dura. Em outro lance, atravessou uma forte
correnteza agarrado num tronco de árvore, até que finalmente chegou ao Planalto Kami-Koti,
onde passou a noite. No dia seguinte, juntou-se a Yoshi, que ficara esperando-o nas Termas
Nakafussa, e retornou são e salvo para Tóquio.
O Fundador registrou suas impressões com as seguintes palavras: "O Planalto Kami-Koti é uma
grande mata virgem. Nele, existem árvores e ervas que nunca vi em nenhum outro lugar, e o ar
da montanha acaricia-nos a pele. É um mundo totalmente diferente, distante do mundo dos
homens; e tem-se a impressão de que a qualquer momento irá aparecer um eremita de cabelos
brancos." Algum tempo depois que ele fez essa escalada, os ônibus passaram a ter acesso ao local.
Em conseqüência disso o número de turistas aumentou, e o planalto ganhou popularidade em
todo o país, pela sua magnífica paisagem. Naquele tempo, todavia, ele ainda era coberto de mata
virgem e possuía um ar misterioso.

b) A VIAGEM A OKU-NIKO

Ainda nos meados de agosto de 1923, na mesma época em que escalou o Pico Yari-ga-Take, o
Fundador fez outro passeio às montanhas. Foi de Oku-Niko a Oku-Aizu, regressando por
Shiohara. Ele havia programado sair de Yumoto, em Oku-Niko, passar pelas Termas Kawamata
e chegar a Yunishikawa; no meio do percurso, entretanto, errou o caminho e foi parar em
Shiohara, fazendo uma longa viagem de quase 140 km.
Kawamata e Shiohara são tranqüilas cidades termais que ficam numa região montanhosa, entre
os Estados de Totigui e Fukushima. A entrada principal do Parque Nacional de Niko, onde elas
estão situadas, possui uma história gloriosa, por ter recebido a proteção do governo feudal de
Tokugawa, mas essas termas ainda possuem vestígios do esconderijo secreto dos Heike,
derrotados na batalha de Dan-no-Ura, na antiga Era Heian. Com a construção de sua represa,
em 1965, Kawamata tornou-se ponto turístico, por suas águas termais e pelo seu lago. Em 1923,
porém, não passava de uma vila situada numa região fria, onde existiam somente duas ou três
fazendas agrícolas e uma única hospedaria, chamada Seiyu-Kan; assim, não era visitada por
muitas pessoas. O Fundador narrou em tom humorístico uma experiência engraçada que ele teve
nessas termas:
"Naquela estação de águas, só havia um local para se tomar banho, destinando-se tanto aos
homens quanto às mulheres. No início, eu estava sozinho, mas, pouco depois, chegaram três
mulheres de aproximadamente trinta anos, as quais entraram na água como se nem me
estivessem vendo. Assim, eu é que fiquei sem graça. Dali a pouco, no entanto, uma delas me
perguntou:
- De onde o senhor é?
- Sou de Tóquio. E vocês?
- Somos de uma vila do Estado de Totigui. Viemos aqui porque ouvimos dizer que estas termas
tornam férteis as pessoas.
E assim conversamos sobre diversos assuntos mundanos. Foi um episódio inesquecível, que
amenizou minha solidão naquele lugar situado no fundo do mato. "
A água das Termas Kawamata, que aflorava da margem do Rio Kinu, estava cercada com
pedras. O banho, ali, era ao ar livre, sem qualquer cobertura. Mais tarde a água foi encanada e
levada até um estabelecimento fechado, de modo que essas termas apresentam, hoje, um aspecto
totalmente diferente.
Deixando Kawamata, o Fundador rumou para a Fonte termal de Yunishikawa, que ficava ainda
mais dentro do mato. Em certo momento, porém, o cicerone disse: "Patrão, errei o caminho. A
placa que indicava a direção para Yunishikawa estava caída e eu me enganei. Não sei como me
desculpar. Infelizmente me esqueci de trazer o mapa, e talvez tenhamos que dormir ao ar livre
esta noite."
Àquela altura não era mais possível retornar, de modo que o Fundador decidiu ir em frente.
Pouco depois, o cicerone parou e, olhando para o chão, exclamou: "Opa! Há urso por aqui!
Essas pegadas são de urso, e ele é bem grande. Deve ter mais de 75 quilos." Assustado, o
Fundador perguntou: "Não tem perigo não?" Mostrando-Ihe uma faca de marinheiro, o
cicerone respondeu: "Eu tenho isto aqui, não se preocupe". Com isso, o Fundador ficou um
pouco mais tranqüilo.
No trajeto não havia água, e eles tiveram de atravessar várias montanhas com a garganta seca,
até encontrarem um pequeno córrego, onde puderam matar a sede. Estando perdidos,
informaram-se sobre o caminho que deveriam seguir, em cabanas de lenhadores. Por volta das
oito horas da noite, depois de terem andado cinqüenta quilômetros, chegaram às Termas
Yunohana. Ao errarem o caminho, eles tinham atravessado a montanha Tashiro, situada na
divisa dos Estados de Totigui e Fukushima; saíram, portanto, daquele Estado e entraram neste
último.
As Termas Yunohana estão localizadas numa vila do interior de Aizu, na qual se entra beirando
um vale profundo. As margens do Rio Yunoki eram pontilhadas de vilarejos, podendo-se ver
casas populares, em estilo antigo, com cobertura de sapé. Na época -1923 - só havia duas
hospedarias ali: a Kiyotaki e a Yumoto. O Fundador deve ter ficado numa delas. Chegando a
essa hospedaria, com os pés cheios de bolhas, jantou ovos de galinha e cogumelos desconhecidos,
que lhe trouxeram numa bandeja.
Na manhã seguinte, ele partiu rumo a Shiohara, situada a cerca de 68 km daquele local. Como
seus pés ainda estavam muito doloridos, teve de pegar um cavalo. No meio do caminho,
entretanto, encontrou uma subida demasiado íngreme e foi obrigado a descer do animal.
Mancando, por causa das bolhas, conseguiu ultrapassar o cume. Quando estava chegando à vila
Miyori, o sol já se punha. De sua estada nesse lugar, o Fundador nos transmite lembranças
repassadas de humor:

"Eu soube que na vila existia uma hospedaria e fui até lá. Perguntando se havia vaga, recebi a
seguinte resposta: "Está lotada". Fiquei desapontado, mas, como não podia dormir ao relento,
contei o que me havia sucedido e pedi que dessem um jeito. Diante disso, eles limparam um
quarto todo sujo de casulos de bicho-da-seda e me conduziram para lá. Foi então que eu pude
massagear meus pés cansados. "Vocês disseram que não há vaga, mas está tudo tão quieto .. ' -
falei. Aí, uma mulher que devia ser a esposa do dono, disse: "Só há um quarto, e nós temos um
hóspede. De modo que o hotel está lotado. "Sem querer, caí na gargalhada. Até parecia banheiro!
Nisso, um indivíduo - provavelmente empregado da hospedaria - veio me dizer: "Olhe, eu vou
sair para pescar." Pouco depois ele trouxe um peixe chamado "kajika". parecido com gabião, e o
cozinhou. O gosto até que era bom. A tranqüilidade de ir pegar peixe no rio depois da chegada
do hóspede, fez-me ver que realmente estava num vilarejo. e não pude conter o riso. "
No dia seguinte, o Fundador prosseguiu viagem num cavalo da hospedaria. Cavalo muito velho,
de passos inseguros. Além disso, o caminho era estreito e beirava um vale profundo. Há pouco
mais de três anos segundo o Mestre ficou sabendo, uma pessoa montada a cavalo caíra ali e
morrera. Sentindo o perigo que corria, ele desceu do animal e foi andando a pé; um pouco mais
adiante, como o caminho se alargasse, montou novamente. Mas logo em seguida havia uma
subida muito íngreme, e o cavalo tropeçou, caindo de joelhos. O Fundador foi atirado à beira da
estrada, batendo com os quadris; se o caminho fosse estreito, ele poderia ter morrido. Diante
disso, resolveu pagar o aluguel do animal e mandá-lo de volta. Depois de andar mais uns seis
quilômetros, finalmente chegou a Shiohara.
O Fundador sempre gostara de viajar, antes mesmo de ser comerciante, quando ainda era um
homem doentio. Viajou bastante na companhia de Takejiro, seu irmão. Desde jovem lavava a
alma com as belezas naturais e deleitava-se com os contatos humanos que fazia nos locais
visitados. A partir do momento, porém, em que passou a buscar a Deus e alcançou o ponto mais
elevado no caminho da Fé, as viagens e escaladas começaram a ter um novo significado para ele.
À primeira vista, a viagem de Oku-Niko às Termas Shiohara ou a escalada do Pico Yari-ga-Take
parecem viagens de um empresário. Entretanto, o Fundador não as fez simplesmente para
vivenciar a beleza natural, mas pelo sentimento religioso de querer captar ainda mais
profundamente o Plano de Deus dentro da Grande Natureza.

4. VESTIMENTAS E ALIMENTAÇÃO

O Fundador ensinava que todas as coisas existentes no mundo são bênçãos de Deus atribuídas
aos homens, e que por isso Deus fica alegre quando eles se deleitam com essas dádivas. Em
conformidade com suas palavras, o Mestre demonstrava muita alegria ao saborear os frutos do
mar e do campo enviados pelos fiéis; não se cansava de apreciar as flores que desabrochavam no
jardim ou, então, fazia uma vivificação floral com elas, colocando-as no "toko-no-ma"; sentia-se
feliz até com a estampa do quimono que vestia e com um corte de tecido; enfim, sempre
procurava dar vida à beleza que havia ao seu redor. Dessa forma, foi concretizando ele próprio
uma vida de beleza paradisíaca.

a) TRAJES JAPONESES E TRAJES OCIDENTAIS

No dia-a-dia, o Fundador enrolava a faixa do quimono sem muitos cuidados e recebia as pessoas
sem colocar o "Haori" e a gola (22). Por isso, alguns tiravam a conclusão precipitada de que ele
era indiferente em questão de roupas. Na realidade, porém, acontecia precisamente o contrário:
tinha uma sensibilidade muito aguçada em relação à aparência pessoal. Podemos constatar isso
inclusive pelas palavras de Matsumoto Yoshio, encarregado da confecção dos seus trajes
japoneses: "Se a gola não estava exatamente na largura desejada, ele logo percebia e me
mandava refazê-la. Quando o quimono tinha dois ou três milímetros a menos de comprimento,
falava: "Desta vez ficou um pouco curto. " O mesmo acontecia com a quantidade de algodão
colocada nas mangas. Era bastante haver uma pequena diferença, para ele dizer: "Coloque
mais" ou "Coloque menos". Por isso eu achava que seus sentidos eram muito aguçados e tomava
todo cuidado na confecção de seus trajes."
Presume-se que essa sensibilidade do Fundador era resultado dos longos anos de polimento da
sua apurada percepção natural. Ele nos ensinou: "A roupa, a alimentação e a moradia do ser
humano devem ser os mais belos, desde que ele não ultrapasse os limites das suas possibilidades.
Agindo assim, estaremos correspondendo à Vontade Divina. O belo não é apenas uma satisfação

(22)
- Nos trajes a rigor masculinos, no Japão, coloca-se em cima do quimono um tipo de
paletó chamado "haori" e uma gola própria para quimonos, além dc outra peça
chamada "hakama ', que se assemelha a uma saia-calça.
pessoal; ele agrada também aos olhos de terceiros e por isso podemos dizer que apresentar-se
bem arrumado é uma espécie de boa ação." Ainda sobre esse assunto, dizia freqüentemente:
"Não ter vaidade é um absurdo! Todos devem se enfeitar bastante." Mesmo nos últimos anos de
sua vida, costumava brincar: "Não quero saber de ficar parecendo velho não."
Quando se vestia para sair, o Fundador ficava algum tempo escolhendo a gravata, se estivesse de
terno; ou, se estivesse de quimono, o cordão do "haori" que mais combinava com o conjunto.
Seu interesse por gravatas era muito grande, e ele sempre dizia que, observando a gravata de um
homem, sabia a sensibilidade estética e a intensidade da vaidade desse homem.

Figura

O Fundador e sua esposa, na primavera de 1953, escolhendo tecido na Loja Mitsukoshi.

Os quimonos de Yoshi também eram escolhidos pelo Fundador, inclusive os pequenos detalhes,
como por exemplo uma meia-gola. Na época em que era empresário, ele mesmo fazia os desenhos
dos quimonos da esposa e mandava confeccioná-los numa casa especializada, situada em Nihon-
Bashi. Era igualmente rigoroso com as roupas dos filhos. Por isso, em sua casa, quando alguém
fazia uma roupa nova, não ficava tranqüilo até que ele a visse e aprovasse.
Murata Shogo, que, nos dez últimos anos da vida do Fundador, foi seu costureiro, disse: Seu
gosto era muito apurado. Quando eu levava tecidos para as roupas de suas filhas, era ele quem
os escolhia. Se o pai não estava na sala, elas iam mostrar-lhe os tecidos e depois diziam: "Papai
disse que este está bom." O Fundador era extraordinário, porque escolhia não só as suas
próprias roupas, mas também as de sua esposa e de suas filhas."
O Mestre tinha muito cuidado com aquilo que adquiria por sua própria escolha. O costureiro
Matsumoto nos diz: "As pessoas devem imaginar que Meishu-Sama usava roupas muito boas.
De fato, ele escolhia tecidos de ótima qualidade, mas vestia as roupas até que elas rasgassem,
mandando cerzi-las várias vezes; inclusive não se importava de usá-las remendadas. Acontecia,
por exemplo, de o quimono estar com os punhos todo puídos e eu cerzi-los pensando que aquela
seria a última vez. Mas ele o vestia até que rasgasse novamente. Quando isso ocorria, mandava
lavá-lo e cerzi-lo de novo. Realmente não desperdiçava nada." Mas não era por luxo que o
Fundador escolhia artigos bons, e sim porque sabia que o que é bom dura mais. Dessa forma, o
seu senso estético, manifestado até mesmo na maneira de trajar, pode ser resumido com a
palavra "refinamento", que é sinônimo de "elegância." Esse refinamento é uma característica da
desenvolvida cultura metropolitana que, segundo dizem, teve origem na Era Edo, quando os
comerciantes competiam numa beleza que não ficava à mostra. Proibidos de terem luxo embora
fossem muito ricos, eles escolhiam bons tecidos para o forro dos seus quimonos e faziam diversas
peças com a mesma estampa, procurando apresentar-se sempre bem vestidos.
O Fundador, que geralmente se vestia com trajes japoneses, tinha um "tabi" (23) azul-marinho de
que gostava muito. Durante a construção do Solo Sagrado, quando ia inspecionar as obras,
voltava com ele todo sujo, mas não deixava que o lavassem: depois de seco, devia ser esfregado e
batido. Procedia assim porque, se ele fosse lavado, desbotaria, parecendo velho. Aliás, por
economia, costumava usar os "tabi" até que eles rasgassem.
Como era um genuíno "edoko"(Vide nota 34), com certeza o Mestre se importava com o
refinamento mesmo dentro do comum. Aparentemente, não se via nada de especial em seus
trajes; entretanto, observando-se melhor, percebia-se que os tecidos tinham sido bem escolhidos.

(23)
- Meias próprias para se usar com quimono.
b) REFEIÇÕES VARIADAS

O Fundador gostava de qualquer tipo de comida japonesa, chinesa, ocidental ou de outra


procedência mas, no que se refere ao sabor, era tão exigente como em relação às roupas.
Na cozinha japonesa, tinha predileção por "tenpura" (24), principalmente de camarão, tainha,
batata-doce, aipo e pimentão. Apreciava esse prato a ponto de dizer: "Se for tenpura, posso
comer todos os dias." Quando morava em Tóquio, o Fundador costumava ir comê-lo em
restaurantes famosos, inclusive no tradicional Nakassei, situado em Assakussa. No dia 24 de
março de 1930, ele escreveu o seguinte poema em seu diário:

"Fui rezar no Santuário Kannon


E, enfrentando a multidão,
Entrei no Nakassei,
Onde há muito tempo não ia. "

Shida Kiyoshi, dedicante que serviu como cozinheiro do Fundador a partir de 1948, certo dia
tirou o "tenpura" do cardápio que seria apresentado ao Mestre, pois já o servira na véspera.
Não servir um mesmo prato dois dias seguidos faz parte da ética de todo cozinheiro. Assim, ao
ser-Ihe indagado por que fizera aquilo, ele respondeu: "Não posso pôr no cardápio de hoje o que
já pus ontem." Ouvindo essa resposta, o Fundador replicou: "Só porque serviu "tenpura"
ontem, não significa que não posso comê-lo hoje. Aquilo de que eu gosto, quero comer até todos
os dias. " Em seguida, mandou que Inoue Motokiti colasse no quarto do cozinheiro um cartaz
com estes dizeres: "O Mestre gosta de "tenpura". "
Entretanto, como Shida era teimoso, dispensou o "tenpura" em diversas outras ocasiões, e dizem
que, cada vez que isso acontecia, o número de cartazes ia aumentando.
Outro prato que se equiparava ao "tenpura", na preferência do Fundador, era truta assada com
sal. Do início do verão ao final de outubro, época em que liberavam a pesca desse peixe, ele era
colocado à sua mesa quase todas as noites. Para o Mestre, a melhor truta era a do Rio Nagara.
Apreciava também lobo-do-mar, pargo cru cortado em fatias e lavado em água gelada e, ainda, a
parte gorda do atum.
Na comida ocidental, o Fundador gostava de bife temperado com vinho. O molho era feito de
"mirin" (25) e "shoyu" (26). Nas costas do filé faziam-se cortes, para que ficasse fácil de mastigar.
Compunham, ainda, seu cardápio preferido olha e peixe-espada passados na farinha de trigo e
fritos na manteiga. Olho-de-boi cozido em caldo fino e alimentos bem macios, temperados com
maionese, assim como também galinha ensopada, eram muito apreciados por ele. "Curry" de
frango era outro de seus pratos prediletos. No dia 1º de outubro de 1931, o Fundador escreveu
em seu diário: "Passando por Shinjuku, entrei no Restaurante Nakamura-Ya e comi pela
primeira vez "curry" de frango. " E não só ia comê-lo nesse restaurante, como também, depois
que se mudou para Hakone e Atami, mandava lá algum dedicante, para comprá-lo. Mesmo após
a guerra, foi um dos pratos que ele nunca dispensou.
Entre os vegetais, o Mestre tinha preferência por seta, aipo e batata-doce; todos os dias, na
refeição matinal, comia batata-doce cozida no vapor. Caldo de aipo também estava sempre no
seu cardápio. Certa vez em que não o serviram, imediatamente ele disse ao encarregado, meio em
tom de brincadeira: "Que rancor você guarda contra mim para me privar do caldo de aipo?"

(24)
- Fritura de verduras ou peixe passados numa massa fina, feita de farinha, ovo,
água, sal e óleo.
(25)
- Tempero líquido, feito de arroz e malte.
(26)
- Tempero feito de soja.
No almoço, o Fundador costumava comer, entre outros pratos, "curry" de frango, peixe frito na
manteiga, sopa, "tendon" (27) e verdura ensopada com carne. No jantar, geralmente havia sete
variedades; quando ele era servido mais cedo, o Fundador, que sempre ia repousar tarde da
noite, tomava um lanche às vinte e duas horas. Esse lanche era constituído de alimentos simples,
como "sushi" (28), "soba" (29) e "tyazuke" (30), conforme será mencionado mais adiante.
Possuindo um senso estético aguçado, o Fundador não gostava de pratos feitos com muitos
ingredientes ou que tivessem cores berrantes e aparência grotesca. Uma vez, por exemplo, em
que lhe foi servido pargo assado com cabeça, dizem que ele falou: "Dá até medo de comer. Quero
que corte em pedaços menores. " O "moti" (31) do "zoni" (32) servido no Ano Novo tinha sua
medida definida em aproximadamente quatro centímetros. Assim, de acordo com o prato, havia
um tamanho certo para se cortar os ingredientes.
Shida, o cozinheiro a que nos referimos, nos diz: "Meishu-Sama gostava de quase tudo;
normalmente elogiava os pratos que lhe serviam. Ele comia muito rápido, até mesmo a refeição
completa da cozinha ocidental, e não deixava sobrar nada. Entretanto, não é que comesse
bastante de tudo: comia com equilíbrio. Se, por exemplo, lhe enchiam demais a tigela de arroz,
reclamava: "Eu não sou trabalhador braçal, sabe?" E pedia para colocarem menos.
O lanche das quinze horas era constituído de bolo ou doces, entre os quais "kintsuba" e
"kuzuzakura". Mostrando satisfação, o Fundador comentava: "O que é feito em casa é feito com
amor e por isso é gostoso. " Além disso, ele jamais criticava a comida quando havia convidados à
mesa. Em geral, quando se serve alguma coisa às visitas, costuma-se dizer: "Não está muito
gostoso, mas ..." Nessas ocasiões, porém, Meishu-Sama sempre fazia elogios.
Eu sempre o acompanhava em suas viagens missionárias à Região Kansai, participando, nessas
ocasiões, de jantares em restaurantes de primeira classe. Como freqüentemente ele me mandava
fazer os pratos que comêramos, eu procurava saborear muito bem os alimentos. Meishu-Sama
agia assim porque tencionava me transformar num cozinheiro de categoria, e eu me sentia
profundamente grato por isso."
O deputado estadual Kogane Yoshiteru, que certa vez esteve na casa do Fundador, teceu, depois,
os maiores elogios ao frango saboreado nessa ocasião. "Na cozinha francesa - disse ele -
considera-se que o frango de Lion é o melhor do mundo; sendo assim, eu quis experimentá-lo.
Entretanto, ele não supera o frango que comi na casa do Fundador. Para preparar uma comida
saborosa, não basta o cozinheiro ser bom. É preciso que ele receba uma orientação minuciosa do
patrão. Pelos pratos daquele cozinheiro, percebe-se perfeitamente as cuidadosas orientações que
ele recebia. A sopa servida naquele dia também estava deliciosa, mas o sabor do frango era
realmente o melhor do mundo!"
Em 1952, a escritora Oba Satiko visitou Hakone a convite do Fundador. Enquanto eles
conversavam, olhando obras de arte, serviam-lhes chá, doces e frutas, alimentos raros na época.
Mas o Fundador só tomava o chá. Achando isso estranho, Oba perguntou-lhe abertamente o
motivo, e ele respondeu tranqüilamente: "A Igreja está nas minhas mãos, de modo que este
corpo é meu e ao mesmo tempo não é. Assim, eu não como nada fora dos horários estabelecidos,
pois tenho de zelar pela minha saúde. " Transmitindo suas impressões sobre esse episódio, Oba
comentou:"Comer coisas gostosas e raras é uma grande satisfação para todos os seres humanos,
e eu creio que o Fundador não era uma exceção; mas ele se controlava rigorosamente. Se
(27)
- "Tenpura" com molho próprio, colocado numa tigela média, em cima de arroz.
(28)
- Bolinho de arroz coberto com peixe cru.
(29)
- Macarrão de trigo mouro que se come com caldo próprio.
(30)
- Arroz embebido em chá verde.
(31)
- Comida feita de arroz. Cozinha-se o arroz apropriado sb com água e, ainda quente, coloca-se numa espécie de
pilão e vai-se batendo e colocando água até conseguir uma massa pegajosa e consistente; depois, dá-se forma
arredondada à massa.
(32)
- Caldo de peixe, carne ou verdura, ao qual se acrescenta "moti".
tamanha determinação não estivesse fundamentada no nobre sentimento de que seu corpo era
seu e ao mesmo tempo não era, e de que até sua vida pertencia aos fiéis, não lhe seria fácil
praticar o que praticava." Dessa forma, o Fundador nunca deixava de se cuidar, pois não queria
ficar doente e, assim, prejudicar o andamento da Obra Divina.
Como já dissemos, o Mestre comia com gratidão e alegria todos os alimentos que Ihe eram
enviados pelos fiéis, considerando-os como dádiva de Deus. Conseqüentemente, não esbanjava
nem mesmo o que tinha com fartura. Fazia refeições simples e procurava não desperdiçar o que
sobrava. No inverno de 1949, pouco tempo depois que foi residir no Solar da Nuvem Esmeralda,
às vezes ele mesmo preparava para o seu desjejum uma mistura a que dera o nome de
"Assakussa nabe". Colocava sobras de ostras à milanesa e de outras comidas do jantar da
véspera em cima de uma folha de repolho, com a qual forrava uma panela feita de um tipo de
concha chamado "hotate", cozinhava no braseiro e depois temperava com molho, acrescentando
ovo batido. Preparava esse prato como forma de autodisciplina, a fim de não esquecer sua
infância pobre e não desperdiçar alimentos. Levado pelo mesmo sentimento, ele geralmente
mandava que a comida fosse feita dentro dos limites do que havia em casa: quando o
encarregado desse setor ia lhe perguntar qual deveria ser o cardápio do dia, ele primeiro queria
saber de que ingredientes dispunham.

Figura

A panela feita de concha "hotate" usada para preparar a "Assakussa nabe"


O Mestre nunca fora dado às bebidas alcoólicas. Já idoso, tomava um pouco de saquê no jantar,
mas a quantidade era bem pequena: uma ou duas taças (33). Assim, quando o esquentavam em
banho-maria, a vasilha boiava e tombava. Para evitar isso, era preciso segurá-la com dois
pauzinhos. Ele gostava mais de fumar do que de beber. Às vezes fumava cigarro; outras vezes,
charuto ou cachimbo. Mas não tragava. Desde jovem costumava dizer para as pessoas: "Se você
retiver a fumaça na boca, não deixando que atinja os pulmões, ela não será nociva. Pelo
contrário: será até eficaz para tirar o cansaço mental." Na época em que era empresário, como já
dissemos, ele usava no cachimbo pó estrangeiro; mais tarde, passou a gostar de pó nacional,
especialmente da marca "Assahi".

(34) (35)
5. "EDOKO" "ISSEYA"

O que vem a ser um "edoko"? Se quisermos dar uma definição rigorosa a esse termo,
encontraremos muita dificuldade. Há uma teoria, por exemplo, segundo a qual "edoko" é um
cidadão da elite nascido no centro de Nihon-Bashi e criado com muito zelo pela sua ama-de-leite.
Existe, ainda, quem defenda a tese de que "edoko" é o habitante da região situada entre Nihon-
Bashi e Shin-Bashi. Entretanto, costuma-se usar a palavra com sentido mais amplo, aplicando-a
àqueles que são de Edo há mais de três gerações. O próprio Fundador, como seus ancestrais
viveram por diversas gerações na zona industrial e comercial de Assakussa, também se
considerava um "edoko".
Ele sempre agia de maneira natural; geralmente não usava formalidades para dirigir-se a
ninguém. Quando ficava entusiasmado, falava animada e rapidamente. As características de um
(33)
- Uma taça de saquê tem mais ou menos 1/3 de uma xícara de café.
(34)
- No sentido comum, pessoal natural de Edo, antigo nome da cidade de Tóquio.
(35)
- Comerciantes naturais da Província de Isse. Na Era Edo, a maioria deles se caracterizava pela avareza e por
isso o termo passou a designar os avarentos em geral.
"edoko" eram muito evidentes na sua vida diária. O arquiteto Yoshida Issoya, que também era
"edoko" e tinha muita intimidade com ele, comenta-lhe esse aspecto da seguinte maneira :
"O Fundador tinha a parte positiva do "edoko". Em geral, este desiste facilmente das coisas,
mas ele não. Mais ainda: ia sempre em frente, característica que um "edoko" comum não possui.
Era, também, muito franco e não gostava de imposições - outra característica do "edoko".
Jamais queria impor-se como pessoa importante, nem se mostrava como tal, o que é muito difícil
num líder religioso. Agia como pessoa comum e não gostava daqueles que se aproveitam dos seus
poderes. Isso também prova que ele era um "edoko". Pela naturalidade, por exemplo, com que
ficava de "yukata" (36) e "maki obi" (37) depois do banho, não parecia, de maneira alguma, situar-
se entre os fundadores de religião, que normalmente assumem ares de importância.
Creio que não existe ninguém que tome decisões tão rápidas como o Fundador. Na hora de
comprar uma obra de arte, as pessoas geralmente ficam temerosas e custam a decidir-se, fazendo
rodeios, mas isso não acontecia com ele. Aliás ele não gostava de rodeios inclusive no modo de
falar; ficava impaciente, não conseguindo ouvi-los por muito tempo. Tinha, portanto, a
impaciência do "edoko". Em relação à Arte, mostrava uma grande tenacidade, o único traço de
seu caráter, creio eu, que não era próprio dos nascidos em Edo.
Em geral, o "edoko" não serve para ser religioso. Todos os grandes religiosos que têm aparecido
são do interior. No entanto, apesar de ser um "edoko" nascido na zona industrial e comercial de
Edo, o Fundador tornou-se um grande religioso, o que me parece um caso inédito."
Em Ueno, distrito vizinho de Assakussa, local do nascimento do Fundador, situa-se o Templo
Kotoku-ji, onde está a sepultura da família Maeda, latifundiários da antiga Província de Kaga.
O portão de acesso ao templo era tão magnífico que, na infância do Fundador, havia uma
expressão popular: "li mon wa Kotoku-ji" ("Coisa boa é o portão do Templo Kotoku-ji"). A
palavra "mon" (portão), nessa frase, forma um trocadilho como variação de "mono", que
significa "coisa" ou "pessoa". Em certa ocasião, ele ouviu dizerem, por acaso, a respeito de algo:
"É realmente bom!" O Fundador imediatamente retrucou: "Coisa boa é o portão do Templo
Kotoku-ji. "
Quando as pessoas cometiam alguma falha e pediam desculpas, dizendo: "Sinto ter sido
descuidado", o Fundador chamava-lhes a atenção de modo habilidoso: "Não seja descuidado,
seja mais responsável." Ou então falava: "Em situações como esta uma pessoa de Edo diria:
"Seu desastrado! Tome KITEN-GAN e DOJI-KUDASHI" e ainda daria uma bronca daquelas. "
KITEN-GAN e DOJI-KUDASHI são dois remédios imaginários cujos nomes o Fundador criou
utilizando as expressões KITEN (agilidade mental ou vivacidade) e DOJI (burrice ou erro).
Assim, com aquela frase, ele queria dizer: Você deve tomar KITEN-GAN (pílula vivaz), para sua
mente ficar mais ágil, e DOJI-KUDASHI (laxante contra burrice), para não cometer falhas.
Valer-se de expressões como KITEN e DOJI para criar nomes de remédios é bem característico
dos "edoko". O Fundador dizia, ainda: "As pessoas de hoje são muito desatentas. Poucas
reagem rápido a um pequeno sinal."Ele gostava, portanto, de reações imediatas.
Existe, no Japão, um dito popular: "Incêndio e briga são as flores de Edo." De fato os "edoko"
se preocupam muito com incêndio, e o Fundador não era exceção. Por isso, quando ouviam a
sirene do carro de bombeiros, os dedicantes imediatamente deviam pedir informações na
Companhia Telefônica e transmiti-las ao Fundador.
Como vemos, o Mestre tinha muitas características dos "edoko". Entretanto, numa entrevista
realizada no mês de junho de 1949, comparando o "edoko" e o "isseya", ele apontou os pontos
positivos e negativos de ambos: "Não devemos ser "isseya". Digo isso porque eles se mostram
avarentos até nas situações em que se deve realmente soltar dinheiro. Já o "edoko" é frívolo,
volúvel, desapegado, simples. Assim, dependendo do caso, também não devemos ser "edoko".
(36)
- V. "Luz do Oriente",1" volume, pág. 80, nota 30.
(37)
- Faixa apenas enrolada na cintura.
Entre estes, parece não haver gente ruim. Por outro lado, parece que há muitos "edoko" que só
não fazem maldades por faltar-Ihes coragem, não é?" E acrescentou: "Em suma, tudo tem um
limite." Com essas palavras, ele queria dizer que a melhor posição é o caminho do meio, que não
pende para nenhum dos extremos.

CAPíTULO III

DIFUSÃO DA
OBRA DIVINA
1. O DIA-A-DIA
a) REALIZAÇÃO DA OBRA DIVINA COM OS MINUTOS CONTADOS

Após o final da guerra, a Igreja saiu do período de sujeição em que vivia e entrou em cheio no
período de expansão. Assim, a vida diária do Fundador tornou-se atarefadíssima. Ele dirigia a
construção do Solo Sagrado, fazia entrevistas com os fiéis e lhes dava orientações, caligrafava
Imagens da Luz Divina e Ohikari - fontes da atividade de salvação - ditava Ensinamentos,
estudava belas-artes e assim por diante. Desde a manhã até altas horas da noite, seu trabalho era
realizado com os minutos contados. Enumerando o conteúdo de suas atividades, o Mestre
comentou: "Religião, pesquisa sobre política, economia e educação, literatura, critica da
civilização, medicina especializada, pintura, caligrafia, arquitetura, paisagismo, agricultura,
crítica musical e de belas-artes, etc. são aspectos realmente diversificados." E acrescentou: "Meu
objetivo é a salvação do humanidade e eu não me arredo um passo sequer dessa linha. "
O dia-a-dia do Fundador era tão atarefado que, parafraseando o conhecido aforismo "Tempo é
dinheiro", poderíamos dizer: "Tempo é salvação." Conseqüentemente, ele sempre tinha por
perto mais de dez servidores. Quando algum deles não era muito pontual, isso perturbava o
andamento da Obra Divina, de modo que o Fundador costumava chamar-lhes a atenção
dizendo-lhes que procurassem cumprir rigorosamente seus horários.
Certa vez, um dedicante pediu-lhe autorização para ir cortar o cabelo, combinando que estaria
de volta dentro de mais ou menos uma hora. Entretanto, encontrou a barbearia cheia, tudo
indicando que ele não seria atendido dentro daquele espaço de tempo. O servidor ficou
preocupado, mas pensou: "Eu obtive permissão, então vou esperar."
Quando ele voltou, já havia passado bem mais de uma hora. Apresentando-se ao Fundador, este
lhe disse: "Quanto tempo pediu para ficar fora? Não estou reclamando de você ter se atrasado
porque a barbearia estava cheia; mas, se acha realmente que o meu trabalho é importante,
deveria, antes de sair, ter telefonado para o barbeiro, perguntando se poderia atendê-/o dentro
do tempo que combinamos. Ou seja, só deveria ter saído depois de se certificar. Suponhamos, por
exemplo, que você entra num restaurante com a intenção de tomar o trem de determinado
horário. Se dispuser de apenas trinta minutos até essa hora, só faria o pedido depois de ter
certeza que conseguiria comer em trinta minutos, não é? Você pode achar que isso é uma coisa
sem maior importância; mas, se a pessoa não consegue fazer coisas insignificantes, como é que
poderá realizar grandes empreendimentos?" Assim, o Mestre ensinou o espírito de dedicação
dando um fundamento para as suas palavras. Sentindo essa advertência calar-lhe no fundo da
alma, o dedicante refletiu: "Que falta de consideração a minha!"
A intensa programação diária do Fundador era algo que uma pessoa comum não agüentaria nem
por três dias. Ele ia cumprindo-a de acordo com os programas radiofônicos, como se usasse o
rádio ao invés de relógio. Precisão maior seria impossível. Por isso, no aposento onde estivesse,
sempre havia um rádio. Quando ele saía para o jardim, os servidores sempre lhe providenciavam
um aparelho portátil. Na época, a televisão ainda não era comercializada, e o rádio constituía o
principal veículo de comunicação de massa, juntamente com o jornal.
Pela programação que expomos a seguir, será possível ter-se·uma idéia do dia-a-dia do Fundador
no Solar da Nuvem Esmeralda, em Atami, por volta de 1953.

b) PROGRAMAÇÃO DIÁRIA

1- O DESPERTAR
Às 7h 45m, a pessoa encarregada chamava o Fundador, dizendo: "Está na hora." A seguir, ligava
o rádio. Ele ouvia, deitado, o programa "Visita da Manhã", transmitido pela Emissora N. H. K. ,
e levantava-se às 8h.

2- O BANHO

O Fundador tomava dois banhos diários: pela manhã e à tarde. O da manhã, de água termal, era
tomado às 8h e durava dez minutos. A temperatura da água (38°C) era mais baixa do que
comumente se usa (42 ou 43°C).

3- UMA VISTA DE OLHOS NOS JORNAIS

Após o banho, o Fundador passava os olhos nas manchetes de vários jornais, da capital e do
interior, assinalando com um círculo vermelho os artigos que queria ler melhor. Essas linhas
serviam de orientação para o dedicante encarregado de fazer-Ihe a leitura dos jornais, realizada
depois das 23h. Durante os vinte minutos, aproximadamente, em que marcava os artigos, o
Fundador vestia apenas uma "yukata" (38), mesmo em pleno inverno, quando se formavam
barras de gelo fora da casa. Ele sempre dizia: "Embora a água esteja apenas morna, meu corpo
conserva-se bem quente depois que saio do banho. "

4- A REFEIÇÃO MATINAL

Entre 8h 30m e 8h 45m, ouvindo o programa "Caderno de Passatempos", o Fundador fazia


a refeição matinal. Ela era composta de 70% de alimentos de origem vegetal e 30% de origem
animal; a última coisa que lhe serviam era sempre batata-doce cozida no vapor. No jantar,
acontecia o inverso: 30% de alimentos de origem vegetal e 70% de origem animal. Isso mostra o
cuidado do Mestre com o equilíbrio alimentar.

5- O BOM-DIA AOS DEDICANTES

Quando a batata-doce era colocada na mesa, todos os dedicantes vinham dar bom-dia ao Mestre.

6- OS CABELOS

O barbeiro ia à casa do Fundador de dois em dois dias, aparando-lhe alternadamente o cabelo e


a penugem do rosto. Nesse ínterim, um dedicante fazia-lhe a leitura de revistas, em sua maioria,
relacionadas à Arte, inclusive arquitetura, como por exemplo: "Arte Artesanal", "Notícias sobre
Museus", "Cultura Yamato", "Explicações sobre Cerâmica", "Novas Construções" e
"Construções de Todo o Mundo".

(38)
- V. "Luz do Oriente", 1" volume, nota 30, pág. 80.
7- AS VIVIFICAÇÕES FLORAIS

A cada quatro ou cinco dias o Fundador trocava, ele próprio, todas as flores da casa, vivificadas
em mais de dez vasos. Utilizava material colhido no jardim e o que era enviado pelos fiéis. Nessa
tarefa, levava no máximo meia hora.

8- AS ENTREVISTAS

Naquela época, as entrevistas com os fiéis os quais vinham de todo o país, eram realizadas em dez
dias do mês, na Sede Provisória de Sakimi. Começavam às 11h e duravam cerca de sessenta
minutos. Nelas eram lidos ensinamentos do Fundador sobre Religião, Política, Cultura, etc. Em
seguida, ele dava uma orientação bem ampla, com explicações sobre esses ensinamentos e outros
assuntos. Por fim era apresentado um "suntetsu" (39) e a reunião terminava sob as gargalhadas
de todos. A partir do Culto da Primavera de 1952, o Fundador passou a ministrar Johrei coletivo
após o "suntetsu". Nos dias em que não havia entrevistas, em geral ele ficava a manhã toda no
escritório do Solar da Nuvem Esmeralda, revisando os textos dos Ensinamentos.

9- O "NYUREI" (40) E O ALMOÇO


Ao meio-dia, ouvindo rádio, o Fundador dava início ao "Nyurei". Às 12h 30m, serviam-lhe o
almoço.

10- APÓS O ALMOÇO

Entre 13 e 15h, geralmente ele recebia os diretores da Igreja ou vendedores de objeto de arte.
Quando não havia nenhuma visita, ditava Ensinamentos. Às 15h, escutava o noticiário. A seguir,
ouvindo o programa "Hora da Saúde", tomava chá com doces japoneses, como por exemplo o
"kuzuzakura". Depois, ia inspecionar a Terra Celestial, onde estava sendo realizada uma obra de
grande escala, e dava instruções sobre os mínimos detalhes. Nos dias de tempo bom, às vezes o
Mestre descia do carro, na volta, e, caminhando pela cidade de Atami, dirigia-se para o Solar da
Nuvem Esmeralda; outras vezes, passava no Solar da Montanha do Leste e organizava as obras
de arte.

11- A MINISTRAÇÃO DE JOHREI NOS DEDICANTES

Às 17h, ouvindo o noticiário do rádio, o Fundador ministrava Johrei nos dedicantes que não
estivessem passando bem. Se algum deles, fazendo cerimônia, não vinha pedi-lo, era até
repreendido.

(39)
- Máximas curtas e espirituosas.
(40)
- Ato, praticado pelo Fundador, de elevar o Ohikari à altura da testa e introduzir-Ihe espírito.
12- O JANTAR

Às 17h 30m, o Fundador tomava banho novamente. Em seguida, passava os olhos nos jornais
vespertinos, assinalando os artigos com círculos vermelhos, como fazia pela manhã. Às 18h,
jantava. Nessa oportunidade, a família se reunia, e, às vezes, havia visitantes à mesa, passando-se
momentos alegres, entre conversas e risos.

13- A EXIBIÇÃO DE FILMES

Nos dias ímpares, a partir das 19h, havia exibição de filmes na Sede Provisória de Sakimi; entre
outros objetivos, ela era feita com o propósito de divertir o grupo de dedicantes. Geralmente a
sessão durava uma hora e meia, processando-se da mesma forma que nos cinemas, ou seja,
antecedida pela apresentação de um noticiário. Projetavam-se películas japonesas e estrangeiras.
O Fundador, que gostava muito de cinema, esperava ansiosamente por essas exibições, às quais
assistia na companhia de Yoshi.

14- AS CALIGRAFIAS A PINCEL

Nos dias pares, entre 19 e 20h, o Fundador caligrafava as letras da Imagem da Luz Divina e do
protetor. Ele o fazia numa sala do Solar da Nuvem Esmeralda, ouvindo rádio o tempo todo. O
protetor que continha apenas a palavra LUZ era confeccionado com uma rapidez incrível: às
vezes cem em apenas dez minutos.

15- O ESTUDO DAS BELAS-ARTES

Após a sessão de cinema ou de caligrafia a pincel, o Fundador ficava absorvido no estudo das
belas-artes até as 21h. Folheava grandes catálogos de obras de arte, como os do Museu
Hakutsuru e do Museu Nezu, ou livros como "Obras Completas da Arte Universal".

16- A MASSAGEM NOS OMBROS

Às 21h, tinha início o noticiário do rádio, seguido de comentários. O Fundador aproveitava a


oportunidade para descansar um pouco, enquanto um dedicante lhe massageava os ombros.

17- O LANCHE NOTURNO E O RELATÓRIO

Às 22h, ainda ouvindo o noticiário, ele tomava um lanche leve, constituído de sanduíche, fruta,
macarrão, bolinho de arroz temperado ou arroz embebido no chá. Às 22h 30m, quando o
noticiário terminava, os dedicantes que não tinham mais nenhuma tarefa a cumprir davam boa-
noite ao Mestre e se recolhiam. O administrador da Igreja, porém, fazia-Ihe o relatório sobre os
trabalhos do dia e sobre outros assuntos e, em seguida, ouvia as orientações que ele lhe dava.
18- A ORGANIZAÇÃO DAS NOTÍCIAS

Às 23h, tinha início a leitura de jornais, que se prolongava até a meia-noite. O dedicante
encarregado dessa tarefa lia os artigos assinalados pelo Fundador de manhã e à tarde e,
dependendo da ocasião, artigos de revistas. Enquanto ouvia, o Fundador ministrava Johrei em si
mesmo ou apreciava obras de arte. Ele dizia: "Os olhos e as mãos estão desocupados." Aliás, era
um hábito seu realizar duas ou três atividades ao mesmo tempo.

19- O DITADO DE ENSINAMENTOS

Por volta da meia-noite o Fundador começava a ditar Ensinamentos, o que se prolongava até as
2h da madrugada. Geralmente ditava dois ou três, cada um ocupando quatro ou cinco folhas de
papel sulfite. As vezes ele também compunha salmos para os Cultos ou escutava a leitura das
cartas e das Experiências de Fé enviadas pelos fiéis.

20- O DESCANSO

Às 2h, dizendo "Por hoje é só", o Fundador punha um fim nas atividades do dia. No inverno, ele
mesmo apagava o braseiro e, em seguida, o fogareiro colocado sob a mesma. Feito isso, recolhia-
se aos seus aposentos.
Desde que não houvesse nada de especial, era essa a programação diária do Mestre. Contudo,
embora seus dias fossem tão ocupados, ele nunca se mostrava afobado, realizando todas as
tarefas com tranqüilidade e alegria. Era uma vida que, à primeira vista, não tinha nada de
diferente, uma vida bem comum. No "toko-no-ma" da sala de visitas do Solar da Nuvem
Esmeralda, uma sala muito simples, havia uma pintura japonesa e flores vivificadas por ele
próprio. Entretanto, nesse dia-a-dia aparentemente corriqueiro, a grandiosa Obra Divina ia
sendo firmemente desenvolvida.

2. ENTREVISTAS

a) ORIGEM E MODIFICAÇÕES

Como já dissemos, a partir do Segundo Caso Tamagawa, ocorrido em novembro de 1940, o


Fundador deixou a cargo de seus discípulos a ministração do Johrei, o Curso de Iniciação, a
outorga de Ohikari e outras tarefas que vinha realizando desde a fundação da Igreja. Passou,
então, a dedicar-se exclusivamente à caligrafia e à formação de terapeutas.
A partir daquela data, os discípulos outorgavam o Ohikari às pessoas após o curso e, em seguida
encaminhavam-nas ao Solar da Montanha Preciosa. Entre os principais discípulos da época,
figuravam Nakajima Issai, Shibui Sossai e Araya Otomatsu. Tendo ficado com a
responsabilidade da difusão, todos se mostravam ansiosos por relatar ao Fundador a proteção
recebida de Deus e os resultados obtidos, bem como receber a sua orientação direta. Entretanto,
desde o Segundo Caso Tamagawa, tornara-se perigoso um grande número de pessoas reunir-se
com ele ao mesmo tempo. Ficou então decidido que os grupos, dirigidos pelos principais
discípulos, passariam a realizar entrevistas separadamente, e que, logo após, haveria um jantar e
sessão de cinema. As entrevistas com o Fundador nasceram, portanto, com base nos relatórios
sobre a difusão e na orientação.
Com o desenvolvimento da atividade de difusão, os relatórios passaram a constar de duas partes:
listagem dos novos membros e informações sobre a ministração do Johrei. Quando o Fundador
recebia esses papéis, sempre os lia com toda atenção; se algo lhe parecia estranho ou incompleto,
pedia esclarecimentos na mesma hora. Em relação aos presentes trazidos pelos fiéis, ele se
preocupava até em captar o sentimento que cada um depositava neles.
Há um episódio que nos mostra o cuidado com que o Fundador lia os relatórios, apesar da
leitura rápida. Foi logo após o término da guerra, quando o Johrei ainda era praticado como
forma de terapia. O Mestre havia estipulado que o donativo (o preço do "tratamento") fosse no
mínimo 2 ienes. Entretanto, um dos discípulos continuou cobrando 1 iene, achando assim que,
assim estava zelando para que as pessoas não pensassem que estavam sendo exploradas. No
relatório, porém, não conseguiu mentir e preencheu-o com os números reais. O Fundador logo se
deu conta do que acontecera, mas perguntou: "A conta não está errada?" O discípulo, sabendo a
que é que ele se referia, ficou de cabeça baixa, e o Mestre então lhe disse: "Escute: se vieram
trinto pessoas e só foram arrecadados 30 ienes, é porque cada pessoa só deu 1 iene! Eu falei que
deveria elevar o preço do tratamento para 2 ienes, não falei? Você está fazendo Deus de bobo.
Não se preocupe por cobrar mais; faça o que eu digo. Quanto mais caro a pessoa pagar, mais
depressa ela ficará curada. Você não sabe das coisas e por isso age como Ihe parece melhor, mas
daqui pra frente tome mais cuidado!"
Conforme o Fundador explicou a esse discípulo, aqueles que achavam que se devia pedir um
donativo mínimo pela ministração de Johrei, incorriam num grave erro. Agindo de acordo com o
pensamento humano, eles estavam puxando Deus para o lado dos homens e atrapalhando a
manifestação do Poder Divino. Com efeito, procedendo, a partir daí, segundo a orientação do
Mestre, o discípulo em questão obteve contínuos milagres, conseguindo encaminhar muitas
pessoas.
Depois de passar os olhos pelos relatórios, o Fundador ouvia de seus discípulos a narração dos
milagres ocorridos e respondia às perguntas sobre os problemas que eles estavam enfrentando,
sobre a doença, sobre o Mundo Espiritual, etc. Assim era feita a orientação.
Na época em que o Fundador residia no Solar da Montanha Preciosa, como já foi dito, a
vigilância das autoridades era muito rigorosa. Por esse motivo, nas entrevistas, as pessoas faziam
o possível para não mostrar o aspecto religioso do Johrei, limitando-se a referir-se a ele como a
uma terapia, sua forma provisória. Por conseguinte, não se faziam orações nem Cultos e,
obviamente, não se entoavam salmos. Os fiéis eram chamados de cursistas, sendo o Johrei
designado com o termo "tratamento". O número de participantes também estava limitado,
restringindo-se a cerca de dez pessoas, e por isso só quem fosse escolhido pelo dirigente do grupo
tinha permissão de participar. Receber essa permissão era o maior orgulho e alegria para os fiéis
e ministros, os quais iam para as entrevistas com o forte sentimento de estarem representando as
muitas pessoas que não podiam ir.
Após o término da guerra, em 1945, a vigilância da Polícia Especial teve fim. Com isso, a linha
de difusão alcançou uma expansão admirável, e o número de participantes das entrevistas
aumentou, pois os fiéis já não precisavam temer pressões. Nessa época, as entrevistas eram
realizadas na sala "Kami-no-ma" do Solar da Montanha Divina, em Hakone, e no anexo do
Solar da Montanha do Leste, em Atami. Como sempre fizera, o Fundador atendia a todos com
naturalidade, cheio de calor humano. Logo que era colocada na mesa a bandeja contendo
apetrechos como cigarro, fósforo, cinzeiro, lupa, lápis vermelho, "mimikaki" (limpador de
ouvido) e lenço de papel, ele entrava na sala com passos apressados, sentava-se e recebia o
cumprimento das pessoas presentes.
Os fiéis que iam participar da entrevista pela primeira vez e ouviam os dirigentes falar sobre o
Fundador, ficavam muito apreensivos, pensando: "Que figura imponente ele deve ser!”
Entretanto, quando viam o senhor idoso e miúdo, de cabelos brancos, que, à primeira vista,
parecia o aposentado da esquina, mostravam-se surpresos. Logo, porém, compreendiam que
aquele homem com aparência de pessoa comum na verdade era uma criatura simples e terna,
mas que essa simplicidade e ternura encerravam o mais alto grau de elevação espiritual. Assim,
todos eles sentiam muito respeito pelo Mestre.
Quando o Fundador se sentava, iniciava-se a comunicação dos presentes trazidos pelos fiéis. Em
seguida, o representante do grupo fazia o relatório das atividades de difusão. Depois, passava-se
para a sessão de perguntas e respostas, cujo conteúdo era bastante amplo: fenômenos espirituais
misteriosos, enigmas existentes desde a antigüidade, Religião, problemas referentes à Fé e a todos
os campos da vida humana, como Arte, Medicina, Agricultura, Política, Economia, Educação,
Ciência, etc., e até problemas amorosos. O Fundador respondia a qualquer pergunta sem a
mínima hesitação, como que desatando o fio da meada, e de forma minuciosa e cortês. Suas
respostas eram simples e claras, não deixavam margem a qualquer dúvida, podendo ser
compreendidas até mesmo por pessoas sem nenhuma instrução. Às vezes ele repreendia com
rigor; de repente, dizia brincadeiras, fazendo todos darem gargalhadas. Assim, suas orientações
descontraídas encantavam as pessoas que lotavam a sala. Ainda que a pergunta estivesse um
pouco fora do assunto, o Fundador, com a habilidade que Ihe era peculiar, adaptava-se à
situação do momento, de modo a dar-lhe vida. Até mesmo quando a resposta era óbvia, ele
aproveitava a oportunidade para ampliar o assunto, integrando-o dentro dos seus Ensinamentos.
Dava realmente "uma resposta sábia para uma pergunta tola".
O episódio que se segue foi contado por Tokugawa Mussei, grande amigo do Fundador. Certa
vez, visitando o Mestre, ele teve ocasião de assistir a uma entrevista. Entre as muitas perguntas
que fizeram, houve esta: "Estou pensando em colocar uma placa na frente da Casa de Difusão.
Que tamanho o senhor acha melhor?" Rindo o Fundador respondeu sem hesitar: "Um tamanho
que seja bem adequado. " É claro que, sem saber as dimensões da casa - a largura da frente, a
altura, etc. - não daria para se ter idéia da medida da placa. Assim, devemos convir que a
resposta foi magnífica. Mussei disse que se sentiu maravilhado com palavras tão oportunas e
reveladoras de senso de humor.
Entretanto, nem sempre o Fundador respondia às perguntas pacientemente. Àqueles que
pediam explicações detalhadas sobre processos judiciais, dizia: "Isso você deve procurar saber na
Prefeitura. " Se alguém queria se aprofundar muito no conhecimento de fenômenos espirituais,
perguntava: "O que é que esse fato tem a ver com a salvação da humanidade?" Ele sempre
colocava a salvação do homem em primeiro plano, repreendendo severamente as perguntas que
se desviavam do ponto fundamental da Obra Divina.
Figura

O Fundador pregando seus Ensinamentos com familiaridade, numa entrevista realizada por
volta de 1948.

Cada pessoa presente nas entrevistas sentia que todas as respostas do Fundador serviam muito
bem para elas próprias. Ainda que, na hora, não entendessem o sentido de suas palavras, ao
retornarem para o local onde faziam difusão,começavam a compreender naturalmente o que ele
queria dizer e, muitas vezes, conseguiam vencer os problemas com os quais deparavam.
Era comum o Fundador dar respostas diferentes a perguntas iguais, de acordo com a pessoa que
questionava. A uns, recomendava que também lessem romances e não apenas os Ensinamentos; a
outros, dizia para lerem unicamente os Ensinamentos. Até para falhas iguais, havia casos em que
repreendia severamente e outros em que quase nem chamava a atenção. Sua forma de orientar
era magnífica: dava a cada pessoa a orientação adequada, depois de observar as circunstâncias
em que elas se encontravam, e visando a dar-Ihes vida. Ele achava que, embora as ações ou as
perguntas fossem as mesmas, as circunstâncias que as determinavam eram diferentes.
Respondendo da mesma maneira a perguntas iguais e repreendendo de igual forma ações
idênticas, não seria possível valorizar e orientar as pessoas. Inclusive quando aqueles que faziam
as perguntas não estavam presentes na entrevista, o Fundador captava espiritualmente as
condições que os envolviam e as afinidades que possuíam, e dava-Ihes a orientação apropriada. A
entrevista, portanto, não era apenas um local para se transmitir conhecimentos. Era também
uma oportunidade para se questionar os sentimentos e o caráter dos participantes e, ainda, o
comportamento que se deveria ter como pessoas de bom senso.
O fato que se segue aconteceu na época do domínio das tropas de ocupação. Certa vez, em sinal
de respeito ao general Douglas Mac'Arthur, comandante geral das Forças Aliadas, que se
empenhava na reconstrução do Japão, o Fundador presenteou-o com uma tigela da Província de
Satsuma. Antes de enviar-lhe o presente, ele o exibiu aos fiéis por ocasião de uma entrevista. Um
deles levantou a tigela até a altura dos olhos e começou a observá-la. Vendo isso, o Fundador
disse: "Não é assim que se deve apreciar uma tigela." Em seguida, sentou-se, encostou os
cotovelos nos joelhos e ensinou que essa era a forma adequada.
Por ocasião de outra entrevista, assim que o Fundador iniciou a palestra, começaram-se a ouvir
vozes, tosses e soluços. Isso era muito freqüente, pois, só de ficarem perto dele, as pessoas
recebiam Luz e começavam a ser purificadas. Daquela vez, entretanto, a coisa se mostrava um
pouco exagerada. Nisso, alguém teve um violento ataque de tosse. Como ele demorasse a passar,
o Fundador perguntou:
"Você tem um lenço?" E, em tom suave, acrescentou: "Se tampar a boca, o barulho diminui,
sabe?” Dito isso, continuou a palestra.
Mais tarde, as perguntas passaram a ser formuladas por escrito. Durante algum tempo era o
próprio Fundador quem as lia, dando as respostas a seguir; pouco depois, no entanto, um
dedicante lia e ele respondia. Geralmente eram perguntas feitas por pessoas que estavam
sofrendo com doenças e outros problemas e que desejavam ser salvas o quanto antes. Tratando-se
de uma purificação severa, o Mestre queria saber a situação da pessoa depois do seu ingresso na
Fé: "Quando foi que ela se tornou fiel?" "Está lendo meus Ensinamentos?" "Está recebendo
Johrei?" "Já entronizou em seu lar a Imagem da Luz Divina?" "Está servindo a Deus?"

Quando sentia que a pessoa estava percorrendo o verdadeiro caminho da Fé, encorajava-a com
palavras firmes: "Não há perigo. Ela vai ficar boa. " Caso houvesse problemas relacionados à fé,
ele os apontava e ensinava o meio concreto para o fiel superá-los, incentivando-o com muito
amor.
Após a sessão de perguntas e respostas, um dedicante lia um texto ditado pelo Fundador, que, em
seguida, fazia comentários a respeito e falava sobre as tendências do Governo e sobre problemas
sociais e individuais. Por fim, havia a leitura do "suntetsu" e a entrevista terminava.
"Suntetsu" é um tipo de sátira que ironiza a sociedade. O Fundador, "edoko"(Vide nota 34)
típico, escrevia-os de forma muito inteligente e com grande facilidade. Eis alguns exemplos:
"A ingenuidade de ver uma pessoa que não é ingênua como se o fosse. Entende o sentido disso?"
"Quem é menos importante, mais importante quer se mostrar; quanto menos dinheiro tem um
indivíduo, mais rico ele quer parecer; a medicina, que não cura, faz pensar que cura; quanto
mais medroso é o cachorro, mais ele late; quanto mais medíocre é uma pessoa, mais gabola ela se
mostra; quanto mais covarde o homem, mais fanfarrão, ele é. Ah! cansei!"
A partir do Culto do Início da Primavera de 1952, conforme já foi dito, após o "suntetsu" o
Fundador passou a ministrar Johrei coletivo nos presentes. Ele dizia que, ultimamente, a
purificação começara a ficar muito rigorosa, e todas as vezes ministrava Johrei durante cerca de
dez minutos.
b) RECEBENDO LUZ

Na época em que residia no Solar da Montanha Preciosa, o Fundador costumava dizer aos seus
discípulos: "As entrevistas fazem parte da Obra Divina, são uma Providência de Deus." Ele dava
grande importância a essa atividade e advertia severamente aos fiéis que não se atrasassem nem
passassem antes em outro lugar.
Uma vez, um dirigente atrasou-se, e o Fundador o repreendeu duramente, dizendo: "Como é que
uma pessoa que está na posição de orientador se atrasa? Não tem pena daqueles que chegaram
na hora marcada? Eu próprio sou obrigado a esperar para dar inicio à palestra. Quem está em
posição mais elevada deve sempre chegar mais cedo!"
Certo dia, um ministro que fazia difusão em Yoyogui, Tóquio, foi ao Solar da Montanha Divina
levando um novo fiel. Ao chegar lá, cumprimentou o Fundador e disse: "Como hoje é domingo,
eu trouxe uma pessoa nova." Depois da entrevista, o Fundador chamou-o a uma sala separada e
passou-Ihe uma severa repreensão, por ter desrespeitado a Lei da Ordem: "É um absurdo a
expressão "como hoje é domingo", que você usou há pouco. Essa argumentação fundamentada
no tempo é um grande desrespeito a Deus!" E só lhe perdoou depois de ele ter-se desculpado
sinceramente.
O fato que se segue aconteceu logo após o término da guerra. Nihongui Teruko, embora fosse
portadora de cáries ósseas, não costumava faltar às entrevistas. Entretanto, acreditava que
certamente seria perdoada, se algum dia, por estar sentindo muitas dores, deixasse de
comparecer. Ela se preocupava com o transtorno que teria de passar durante a viagem.
Certa vez, devido a uma crise prolongada, Nihongui faltou a três entrevistas consecutivas.
Recebeu, então, uma carta de Tatsue, esposa de Inoue Motokiti, a qual lhe dizia: "Ministro
Nihongui, a senhora precisa vir à próxima entrevista, pois, nas três a que não esteve presente,
meu marido pediu desculpas pela sua ausência. Hoje, por ocasião do Culto, ele teve de pedir
encarecidamente a Meishu-Sama que lhe perdoasse só mais esta vez. Por isso, venha sem falta."
Lendo essa carta, Nihongui ficou assustada e, vencendo todas as dificuldades, compareceu à
entrevista seguinte. O Fundador, então, lhe disse: "Mesmo que só chegue à noite, é preciso que
venha." Nihongui refletiu sobre a sua falta de determinação e, dali em diante, nunca mais faltou
àqueles encontros, por maiores que fossem os obstáculos.
Recebendo tais orientações, os discípulos do Fundador captaram bem o significado das
entrevistas, passando a considerá-las como oportunidades para receberem Luz e força. Assim,
corrigiram sua postura, participando desses encontros com toda a sinceridade.
Em setembro de 1948, um grande tufão que recebeu o nome de "Ion", atingiu de frente o leste
japonês. As estradas de rodagem e as estradas de ferro ficaram muito danificadas e o número de
mortos e desaparecidos chegou a mais de dois mil.
Yamamoto Jiro, que mais tarde se tornou dirigente da Igreja Hozan, sempre ia às entrevistas, em
Hakone ou Atami, pela Estrada de Ferro Tohoku Honsen, partindo de Utsunomiya e passando
por Tóquio. Naquele dia, porém, o trecho situado entre Oyama e a capital estava completamente
paralisado. Pedindo informações, ele conseguiu saber que, apesar de ficar longe, se pegasse a
Tohoku Honsen de volta, passando do Estado de Fukushima para Niigata, chegaria a Tóquio.
Assim, comprou a passagem, mas não sentiu vontade de pegar essa linha. Entregando-se à mercê
do destino, tomou o trem que seguia direto para lá. Em Oyama, pegou a linha Ryomo e foi até
Sano, onde fez baldeação para a linha Tobu Sano, indo até Tatebayashi. Daí para a frente,
porém, o caminho estava intransitável. Enquanto esperava, sem saber o que fazer, Yamamoto
tomou conhecimento de que sairia um trem carregado de material para a restauração da linha
férrea, e pediu que o deixassem viajar nele. Dessa forma, conseguiu chegar a Kumagaya. Daquele
momento em diante tudo correu bem, e ele chegou ileso a Hakone.
Surpreso por vê-lo na entrevista, o Fundador perguntou-lhe: "Como foi que você veio?"
Emocionado com essa atenção, Yamamoto relatou todos os lances da viagem. O Mestre, então,
quis saber como é que ele ia voltar. "Voltarei pelo mesmo caminho", respondeu o discípulo, que,
em seguida, ouviu palavras de encorajamento.
Na volta, quando chegou à estação Ueno, Yamamoto viu que a restauração estava adiantada e
que os trens começavam a andar pouco a pouco. Ficou indeciso, mas resolveu voltar pelo
caminho que dissera ao Fundador, tendo chegado normalmente a Utsunomiya. Só depois é que
entendeu que esse trajeto fora o mais rápido, e não conseguiu reprimir a emoção, dizendo
consigo mesmo: "Será que ele sabia disso?"
Certa vez, em Hakone, chegada a hora da entrevista, após o Culto, o encarregado foi comunicar
ao Fundador o número de pessoas presentes. Ele disse, então: "É muito pouca gente, não acha?"
Apanhado de surpresa, o dedicante respondeu: "Com certeza deve ser porque estamos na época
mais atarefada para os que trabalham no campo." Com expressão severa, o Fundador o
repreendeu duramente: "O quê?! O que pensa você que é o dia do Culto? Os verdadeiros fiéis
comparecem por mais ocupados que estejam, vencendo todos os obstáculos! O fato de se estar
numa época tão atarefada não é motivo para eles deixarem de vir. Caso pensem de forma
diferente, seu trabalho não irá render; entretanto, se tiverem realmente vontade de assistir ao
Culto, Deus fará com que não surjam obstáculos. Portanto, deve haver outros motivos para eles
não terem vindo. Procure descobrir o que aconteceu!"
Indo verificar a razão da ausência dos fiéis, o dedicante soube que eles estavam atrasados, por
causa de um desastre de trem. Então, o Fundador resolveu esperar meia hora para dar início à
entrevista. O servidor ficou envergonhado pelo seu pronunciamento leviano e renovou um
grande respeito pela perspicácia do Mestre, que imediatamente compreendera o seu engano.
O Fundador jamais exigia das pessoas o que ele próprio não praticava. O mesmo acontecia no
caso das entrevistas. Uma vez que dizia aos outros para comparecerem, por maior que fosse o
obstáculo, ele também agia assim.
Certo dia, por volta de 1949, voltando à sua sala depois da entrevista com os fiéis, o Fundador
começou a ministrar Johrei em si mesmo com uma expressão de sofrimento, por causa de uma
forte dor de dente. A dor era tão intensa que ele não conseguia nem levantar a cabeça. Encolhido,
parecia não ter posição para ficar. Assim, por maior purificação que estivesse passando, o Mestre
não mudava a programação de suas atividades e jamais mostrava seu sofrimento perante as
pessoas. Ele fazia uma entrega total de sua vida à tarefa de desenvolver a Obra Divina
juntamente com Deus.
Yamamoto Keiiti, encarregado da leitura dos Ensinamentos, sempre ia cumprimentá-lo assim
que terminava a entrevista, e por isso, inesperadamente, presenciou aquela cena. Refletindo
sobre a postura do Fundador - plenamente consciente da missão a ele atribuída - reconheceu que
seria falta de consideração se eles, que eram dedicantes, também não servissem dando suas vidas.
Nesse momento, Yamamoto teve profunda consciência da postura errada que mantivera até
então.
Dessa forma, a entrevista era uma ocasião de estudo sério, onde a elevada espiritualidade do
Fundador e seu intenso entusiasmo pela obra de salvação do mundo se encontravam com a
devoção e a sinceridade dos discípulos e demais fiéis, sentimentos nascidos desse espírito do
Mestre. Ao mesmo tempo, era uma oportunidade sagrada em que, através do contato com um ser
tão sublime, as pessoas recebiam o virtuoso poder de salvação. Quando os fiéis ali reunidos em
busca do Caminho e da Luz chegavam perto dele, sentiam seus sofrimentos desaparecerem e
ficavam cheios de alegria e gratidão, tendo o maior cuidado para não perderem uma única
palavra sequer do que ele dizia. Banhados com a Luz da Inteligência que desvendava todos os
mistérios, os discípulos recebiam força para viver neste mundo conturbado e, ainda, o poder de
salvar as pessoas do sofrimento.
Indo à entrevista, embora não recebessem palavras especiais do Fundador, até os ministros
que faziam difusão em lugares distantes e enfrentavam problemas aparentemente sem saída,
encontravam o caminho para solucioná-los. Entre os fiéis presentes para agradecer a prova real
de terem sido salvos e relatar essa graça, havia pessoas que, pelo simples contato com ele,
tomavam a decisão de oferecer o resto de sua vida à Obra Divina. Devemos dizer que esses fatos
eram realmente o resultado da influência exercida naturalmente, sobre o coração das pessoas,
pela elevada espiritualidade do Fundador, o qual não usava de moralismo. Ele costumava dizer:
"A fé não se ensina nem se impinge. É algo que se obtém através da virtude." Ou seja, ele achava
que o pregador não faz as pessoas entenderem a fé por meio das palavras: é pela sua virtude que
ele consegue impressioná-las.

Figura

Aspecto de uma entrevista realizada no Alojamento Soun (Palácio da Luz do Sol) em 1948

Nishigaki Jutaro, que voltou de Saigon, no Vietnã do Sul, em 1946, tornou-se fiel dois meses
depois de seu retorno. Ele partira para lá com a intenção de não mais voltar; entretanto, com a
inesperada derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, vira desfeito seu sonho de realizar
empreendimentos naquele país. Além disso, fora preso pelos soldados ingleses, por suspeita de
crimes de guerra, e conhecera a infelicidade da vida num cárcere. Absolvido, tentou levar até o
fim os seus propósitos, disposto até mesmo a morrer, mas não conseguiu realizá-los.
Com a tristeza no coração, retornou à sua terra, para curar essa ferida. Dois dias após sua
chegada, teve a oportunidade de conhecer os ensinamentos sobre o grande objetivo de salvação
da humanidade e a indicação dos meios para concretizá-lo.

Figura

Caligrafia do Fundador: "Kemui" ("Impressionar naturalmente")

Nishigaki sentiu, então, como se um raio de luz penetrasse nas trevas em que estava vivendo. "É
isso mesmo"disse para si próprio. "Achei o lugar onde vou morrer sem remorsos, entregando a
minha vida." A partir daí, começou a fazer difusão ministrando Johrei e, em janeiro de 1947,
levado por um ministro, teve a oportunidade de participar, pela primeira vez, de uma entrevista
no Solar da Montanha do Leste, em Atami. Ao primeiro contato com o Fundador, soltou um
grito que Ihe veio do fundo da alma: "É Deus!" Sentia a parte superior de sua cabeça formigar
como se tivesse recebido um choque elétrico, e ficou prostrado. Captando a excelsa atmosfera
espiritual que envolvia a figura aparentemente comum do Fundador, Nishigaki experimentou
uma alegria que nunca sentira antes, uma sensação misteriosa, que se poderia chamar de
renascimento, de despertar da alma, e que revirava pelas bases sua visão de vida. Desse dia em
diante, abandonou tudo o mais e dedicou-se unicamente à Obra Divina. Centralizado no Estado
de Hiroshima, ampliou a linha de difusão e, quatro anos depois, conseguiu abrir a Igreja Saiko.
Nishimura Yoshimitsu era um jovem que sempre sonhara ir para o exterior, apesar de ser doentio
desde criança. Antes da guerra, com grandes aspirações, fora para a Manchúria. Pouco depois,
entretanto, caiu doente e seu sonho se desfez cruelmente, ficando decidido que ele deveria ir para
sua terra natal descansar. Passado algum tempo, foi convocado pelo Exército e partiu para a
China. Participando de batalhas cruéis, em que seus companheiros iam sendo batidos um a um,
ele se salvou por milagre e, em junho de 1946, retornou ao Japão.
Logo após seu regresso, Nishimura foi novamente acometido de gravíssima úlcera estomacal,
mas, por afinidade Divina, conseguiu salvar-se milagrosamente. Ingressando na Igreja, começou
a fazer difusão num lugar que não conhecia. Compareceu pela primeira vez a uma entrevista em
1947, ano seguinte àquele em que se tornou fiel. Nesse dia, quando o Fundador apareceu, todos
se mantiveram numa atitude de reverência, mas Nishimura, com a cabeça ligeiramente erguida,
observava atentamente cada movimento do Mestre, dizendo consigo mesmo: "Quero saber que
tipo de pessoa ele é." Aí aconteceu algo estranho. Talvez por ação do poder espiritual irradiado
pelo Fundador, Nishimura achou que, de repente, a figura deste foi se distanciando. Esfregando
os olhos, viu que ela voltava ao normal. O fato se repetiu três vezes. Tendo-lhe desaparecido, não
se sabe quando, aquele desejo insolente de desvendar a natureza do Fundador, ele percebeu que
havia abaixado a cabeça naturalmente.
A imagem do Mestre chegava a Nishimura com uma força inexprimível e ele sentiu nisso o
silencioso Poder de Deus. Foi nesse momento que lhe despertou a vontade de devotar-se
inteiramente à Obra Divina. Desde então, com fé inabalável, fez difusão nas Regiões de Kinki e
Kyushu; em 1948, construiria a Igreja Kyokuko, em Assahikawa, no Estado de Hokaido. O
alicerce de sua fé, entretanto, foi estabelecido durante a entrevista no Solar da Montanha do
Leste.

Através de todas essas experiências, vemos comprovadas as palavras do Fundador:

"Estou, agora,
Manifestando milagres
Como os de Cristo,
E crio homens
Que salvam outros homens."

Primeiramente, as entrevistas eram realizadas no Solar da Montanha Preciosa; depois, na sala


"Kami-no-ma" do Solar da Montanha Divina, em Hakone, e, em seguida, no anexo do Solar da
Montanha do Leste, em Atami. A partir de 1948, com o crescimento da difusão, elas passaram a
ser feitas no Palácio da Luz do Sol, em Hakone, e na Sede Provisória de Shimizu, em Atami,
lugares mais espaçosos, que permitiam a participação de maior número de pessoas.
Paralelamente à mudança de local, a forma das entrevistas também foi sendo modificada pouco a
pouco.
Um dos motivos da grande expansão da Igreja no período pós-guerra foi a seguida ocorrência de
experiências milagrosas em todos os cantos do país. E o ponto de partida desses milagres eram as
entrevistas. Como pode ser constatado através de inúmeros relatos, elas continuaram mesmo no
período final da guerra, sob ataques aéreos cada vez mais intensos, com trens sendo
bombardeados aqui e ali; enfim, sob condições em que a pessoa sabia que poderia morrer a
qualquer instante. Com o término da guerra, o medo dos ataques e a vigilância da Polícia
Especial cessaram, mas era preciso enfrentar os trens superlotados. Entrando e saindo pelas
janelas, os dirigentes de Igreja e os fiéis do interior, iam a Hakone e a Atami, para participar das
entrevistas, com este ardente desejo no peito: "Quero conversar com Meishu-sama; quero
encontrá-lo para receber forças!" Os fiéis diziam isto porque sabiam que, para receber a força
que solucionava todos os problemas e obter a coragem para vencer qualquer dificuldade, não
havia melhor recurso que ir até o Mestre. Recebendo Luz nas entrevistas, eles retornavam, com o
coração repleto de alegria, ao lugar onde faziam difusão.
Em 1948, quando se instalou a Sede Provisória de Shimizu, em Atami, ficou estabelecido realizar-
se um Culto antes da entrevista com o Fundador. Nessa época, no Palácio da Luz do Sol e na
referida Sede havia uma Imagem de Kannon pintada pelo Fundador, a qual se utilizava como
Imagem da Luz Divina. O Culto, feito pelas pessoas ali reunidas sob a chefia de um dirigente, era
realizado como forma de reverência à Imagem. Assim, se fizermos uma retrospectiva do
processamento dos Cultos da Igreja Messiânica Mundial, veremos que eles tiveram origem nas
entrevistas, oportunidade em que as pessoas iam ao Mestre buscar a força da salvação e
manifestar-lhe seu amor e gratidão pelas bênçãos recebidas.

c) OS PRESENTES OFERECIDOS PELOS FIÉIS

Os fiéis que iam às entrevistas com o Fundador geralmente levavam diversos produtos para lhe
oferecerem: arroz, batata, feijão, verduras, peixes, frutas, doces, etc. Eram oferecimentos que eles
faziam com todo amor e gratidão, por terem sido salvos do sofrimento, e continham este desejo:
"Quero que Meishu-Sama não deixe de comer isto, de usar isto." Conseqüentemente, durante e
após a guerra- época de escassez material - os produtos eram enviados ainda em maior
quantidade, provenientes de todo o país, pois os fiéis desejavam que, na medida do possível, o
Fundador não passasse por necessidades no dia-a-dia.
Naquele tempo, os presentes eram depositados no salão onde se realizava a entrevista. Depois que
o Fundador se sentava, Inoue Motokiti lhe apresentava cada um deles, citando sua quantidade e
o nome da pessoa que o oferecera. Dizia, por exemplo: "Sr. X, de Tóquio, doce japonês: uma
caixa de "yokan". Após a apresentação dos presentes, o Fundador sempre baixava a cabeça,
expressando sua gratidão. Mais tarde, com o crescimento do número de pessoas que vinham
para as entrevistas, a quantidade de produtos também foi aumentando. Assim, a partir de 1949,
os presentes deixaram de ser apresentados ao Mestre nessas oportunidades, passando a ser-lhe
apenas relacionados por escrito.
O fato que se segue aconteceu em junho de 1945, dois meses antes do término da Segunda
Grande Guerra. Watanabe Katsuiti, que fazia difusão na cidade de Nagoya, dirigiu-se à estação
ferroviária levando uma caixa térmica com truta fresca, conservada no gelo, para oferecer ao
Fundador, que gostava muito desse peixe. Entretanto, devido aos costumeiros ataques aéreos, os
trens estavam parados e não havia previsões sobre a restauração da linha férrea. Ele não sabia o
que fazer, mas, decidido a não desistir da viagem, sentou-se em frente à entrada da estação e,
como que orando, ficou à espera de que os trens voltassem a funcionar. Passado algum tempo -
uma hora, talvez - Watanabe ouviu pelo auto-falante que sairia um trem para Tóquio, e
embarcou nele. Assim, a truta chegou a tempo de ser servida ao Fundador na refeição da manhã
seguinte. Ele estava tomando café numa das salas; quando ouviu a voz do Mestre, o qual viera
até a cozinha fazendo grande barulho ao andar. "Quem assou este peixe? Quem foi, está
querendo pisotear a sinceridade da pessoa que o trouxe fresquinho especialmente para eu
comer" - repreendeu ele. A truta, no prato, parecia uma sardinha esturricada.
Watanabe nunca tinha preparado truta, mas disse: "Eu vou preparar outra." Assou-a com sal e
levou-a ao Fundador, numa bandeja. Entretanto, no seu íntimo, estava muito preocupado, sem
saber se ela ficara no ponto. Pouco depois, dirigindo-se para o banho matinal, o Fundador o
encontrou e Ihe disse: "O peixe estava delicioso!" Ouvindo essas palavras - poucas, mas cheia de
amor - Watanabe sentiu que o cansaço e as dificuldades enfrentadas para chegar ali tinham
voado para longe.
Watanabe Katsuiti era natural de uma vila muito pobre, situada numa região fria, às margens
do Rio Nagara, no Estado de Guifu, e conhecida pela pesca de camarão. Desde pequeno ele
passara por muitos sofrimentos, mas por volta de 1943, quando fez sua primeira visita ao
Fundador, levado por Shibui Sossai, já se havia tornado um próspero negociante, possuindo dez
casas de frutas e verduras na cidade de Tóquio. Watanabe estava, então, na casa dos trinta anos.
Quem o encaminhou para a Fé foi Onuma Teruhiko (posteriormente Responsável da Igreja
Shinsei e também Presidente da Igreja), que, na época, era comerciante como ele, sendo dono de
algumas peixarias na mesma cidade.
À medida que ia tendo contato de perto com o Mestre e ouvindo as suas palestras nas
entrevistas, Watanabe começou a sentir que cada palavra e cada gesto dele eram Ensinamentos
vivos. Certificou-se, também, de que o adjetivo "absoluto", que até então pensava não poder ser
aplicado a nada neste mundo, cabia-Ihe perfeitamente. "Existe uma pessoa como Deus", dizia
ele, traduzindo uma emoção que quase se poderia chamar de medo.
Encantado com o Fundador em todos os aspectos, Watanabe tornou-se fiel no mesmo ano em que
o conheceu. Abandonando toda a fortuna que construíra a partir de uma vara de balança (vara
resistente que se coloca nos ombros, com cargas nas duas extremidades), ofereceu sua vida à
Obra Divina e contribuiu grandemente para o crescimento da difusão na Região Tyukyo. Logo
após o término da guerra, tornou-se dirigente da Igreja Tyukyo e, em 1969, Presidente do
Conselho Administrativo da Igreja Messiânica Mundial.
Quando ganhava presentes, o Fundador dava mais importância ao sentimento das pessoas que
os ofereciam do que ao valor monetário ou à quantidade deles. Recebia com grande alegria até as
coisas mais insignificantes, tratando-as com todo o cuidado. Uma vez, havia, entre os presentes
enviados, uns dez cigarros americanos soltos, mas ele os recebeu com satisfação. Certo dia da
primavera de 1952, o Fundador foi fazer um passeio a pé, saindo do Solar da Nuvem Esmeralda
pela porta dos fundos. Na volta, pediu que cozinhassem espinafre e o levassem para ele.
Imediatamente um dedicante saiu para comprar essa verdura. Mais ou menos dez minutos
depois, o Mestre perguntou se o espinafre ainda não estava pronto, sendo-Ihe informado que o
servidor fora comprá-lo. Ele, então, disse: "Eu não estou com vontade de comer espinafre. É que,
há pouco, quando saí, vi, no lixo, uns molhos um pouco amarelados. Esse espinafre foi trazido de
longe, por um fiel que conseguiu cultivá-lo com muito custo e amor, utilizando o método da
Agricultura Natural, preconizado por mim. Se vocês se colocassem na lugar da pessoa que o
cultivou, não conseguiriam jogá-lo fora assim tão facilmente. " Como se pode ver por essas
palavras, o Mestre sabia muito bem que a sinceridade depositada pelos fiéis nos presentes que
lhe ofereciam, era a manifestação de sua gratidão a Deus, a qual lhe era dirigida unicamente
porque ele desenvolvia a Obra Divina no estado de união com o Criador. Assim, jamais
negligenciava esse sentimento.
Logo após o término da guerra, um missionário que fazia difusão com Hiramoto Naoko recebeu
roupas e alimentos enviados por uma irmã sua que residia nos Estados Unidos e se mostrava
preocupada com a escassez de material existente no Japão. Hiramoto, então, Ihe disse: "Você
deve sua vida a Meishu-Sama. Portanto, em sinal de agradecimento, seria bom oferecer-lhe tudo
isso, do jeito que veio, não acha?" Preocupado, o missionário respondeu: "Meishu-Sama tem um
físico pequeno e não sei se as roupas lhe serviriam." Disse isso porque estas haviam sido
confeccionadas para os americanos, que possuem físico avantajado. Entretanto, Hiramoto o
incentivou: "Não se preocupe. Vamos oferecê-las no sentido de presenteá-lo com objetos raros,
vindos do exterior." Assim, enviaram a encomenda para o Mestre da forma como ela havia
chegado.
Pouco tempo depois, o Fundador mandou chamar Hiramoto, a qual ficou muito apreensiva,
temendo ser repreendida com estas palavras: "Está querendo me fazer de bobo enviando camisas
tão grandes?!" Mas o Mestre lhe disse: "Obrigado por ter me oferecido artigos tão bons."
Hiramoto explicou-lhe que aquilo era presente de um ministro que servia com ela, ao que ele
respondeu: "Ah! é? Então agradeça-Ihe por mim." Hiramoto sentiu-se aliviada e, através desse
fato, aprendeu que "as oferendas feitas com sinceridade sempre alegram o Fundador".
Há, ainda, outro episódio interessante, referente a um legume de que o Fundador gostava muito:
batata-doce. Ele apreciava especialmente a que era produzida em Kawagoe, no Estado de
Saitama, e cultivada, obviamente, pelo método da Agricultura Natural. Certo ano, não se
conseguiu boa colheita de batata-doce no país inteiro, e, entre as que lhe foram enviadas daquele
local, havia algumas bem pequeninas. O cozinheiro foi servindo as grande, mas, no fim, só
restavam as do tamanho de um dedo polegar. Achando que não seria conveniente servi-las, ele
cozinhou batata-doce de outra procedência. Então o Fundador perguntou: "Aquelas batatas
acabaram?" Diante da explicação do cozinheiro, deu-Ihe uma lição: "Eu estou comendo a
sinceridade dos fiéis. Tamanho não é problema. "
Esse episódio, tal como o caso do espinafre, mostra a importância que o Mestre dava ao
sentimento depositado nos presentes dos fiéis, e também o amor e o caloroso cuidado que ele
dispensava aos praticantes da Agricultura Natural. Se o presente era oferecido por ostentação ou
por obrigação, jamais ficava contente, mesmo que se tratasse de um artigo muito caro. Não fazia
nenhum comentário sobre as coisas que as pessoas compravam no meio do caminho, nem sobre
os "quebra-galhos" adquiridos às pressas, depois que elas chegavam, já em cima da hora, seja
por causa da condução ou por negligência. Por outro lado, recebia com gratidão os objetos que
os fiéis lhe ofereciam por realmente gostarem deles, ou que adquiriam depois de tê-los escolhido
com muito cuidado, pelo desejo de alegrá-lo. Assim, captava os sentimentos com que eram feitos
os presentes; quando se tratava de comestíveis, por exemplo, ele sempre costumava agradecer de
coração, dizendo: "Estava muito gostoso, viu?"
Certo dia, o Fundador disse a um de seus discípulos:"Vou dar isto a você. " Em seguida,
entregou a ele um objeto que lhe haviam oferecido. O discípulo achou estranho, não entendendo
essa atitude. Ao chegar a casa, porém, abriu o pacote e, junto com o objeto, encontrou um
cartão, através do qual constatou que se tratava de um presente ganho pelo ofertante.
Compreendeu,então, que, mesmo sem abrir o pacote, o Fundador sabia o seu conteúdo, e viu no
gesto dele um modo de lhe ensinar, sem palavras, os cuidados que a pessoa deve ter ao presentear
alguém e a forma de se expressar a sinceridade. Não significa, entretanto, que o Mestre achasse
errado dar-se a terceiros aquilo que se ganha; o problema estava no sentimento do fiel, que fizera
o presente sem dizer que era um objeto que lhe haviam dado.
No período pós-guerra, em que havia escassez de alimentos, Ishihara Kossaku, discípulo do
Fundador, usou de diversos expedientes para comprar lagosta e "katsuo bushi" (bonito seco
utilizado para fazer sopa de soja) e levou esses gêneros para ele. Quando já estava indo embora,
foi chamado por um servidor, que lhe transmitiu as seguintes palavras do Mestre: "Os alimentos
que você trouxe contém sentimento. Obrigado por tê-los trazido. "Katsuo bushi" é um dos
produtos mais representativos do Japão e a vibração espiritual da palavra "katsuo" também é
muito boa. Se continuar a ter essa sinceridade, a sorte há de lhe sorrir e com certeza você
vencerá (41) o mundo. " Diante de expressões tão calorosas, Ishihara voltou muito contente ao
local onde fazia difusão. Realmente, as palavras do Fundador definiram sua sorte, e ele teve
permissão de encaminhar grande número de pessoas.
Ishihara Kossaku tornara-se fiel em 1944, um pouco antes dessa ocorrência. Desde jovem tinha
um forte sentimento de busca do Caminho; entretanto, apesar de ter tido contato com diversas
religiões, não conseguiu encontrar nenhuma cujos ensinamentos o deixassem satisfeito. Naquele
ano, falaram-lhe sobre a Igreja, e ele recebeu o Ohikari para ministrar Johrei nas pessoas
doentes de suas relações. Ocorriam milagres tão grandes que, atraído por isso, Ishihara leu "A
Medicina do Futuro", livro escrito pelo Fundador. Fascinado pelo seu conteúdo, sentiu vontade
de aprender mais. Como resultado, adquiriu a certeza inabalável de que aqueles eram os
Ensinamentos que ele procurava. Assim, dedicou-se à atividade de difusão centralizado na
Região Kansai, e, em 1947, tornou-se dirigente da Igreja Ohara. Em 1950, logo após a instituição
da Igreja Messiânica Mundial, ocupou o cargo de diretor, e, mais, tarde, atuou como Diretor do
Departamento de Administração. Posteriormente, teve outros cargos, entre os quais o de
conselheiro. Faleceu no dia 22 de fevereiro de 1966, aos sessenta e um anos.

(41)
- "Vencer", em japonês, é "katsu".
3. JOHREI

a) O JOHREI DO AMOR

Conforme já foi dito, o Fundador deixou a linha de frente da difusão em dezembro de 1940, a
partir do "Segundo Caso Tamagawa", em que foi vítima da pressão injusta da polícia. Cinco
anos depois, com o término da guerra, as pressões terminaram. As atividades religiosas voltaram,
então, a ser exercidas livremente, e a difusão cresceu cada vez mais. Foi iniciada, também, em
grande escala, a construção do Solo Sagrado, e a Obra Divina entrou numa nova fase. O dia-a-
dia do Fundador tornava-se cada vez mais atarefado; por conseguinte, era muito raro ele
ministrar Johrei, individualmente, a cada uma das pessoas que o procuravam. Essa tendência já
havia começado em 1940. Entretanto, por mais trabalho que tivesse, não deixava de ministrá-lo
em alguns discípulos nem nos dedicantes que o serviam diretamente.
Por volta de 1946 e 1947 era bem elevado o número de ministros que haviam sido salvos de
severas purificações graças ao Johrei ministrado pelo Fundador. Este sempre dizia: "Quando
alguém me pede Johrei, eu atendo mesmo que já tenha ido dormir e precise me levantar." Era
muito comum as pessoas lhe solicitarem Johrei nos momentos críticos da purificação e, ao
recebê-lo, logo se sentirem aliviadas. Quando alguém ficava agüentando o sofrimento e não lhe
pedia Johrei, por achar que, se o fizesse, iria atrapalhar seu trabalho, ele passava-lhe uma
repreensão, dizendo: "É pecado fazer cerimônia para pedir Johrei. "
Ogawa Eitaro, que fazia difusão no Estado de Niigata, corria perigo de vida e foi salvo graças ao
Johrei ministrado pelo Mestre. Há um episódio comprovador de que este já há muito previa a
importante missão que ele teria na Obra Divina, como dirigente da Igreja Koyo.
O Fundador dava orientações bastante rigorosas, a fim de criar nos discípulos uma fé inabalável,
adequada à posição que ocupavam. Era com amor de pai que ele agia assim, objetivando
transformá-los em valiosos elementos humanos. Entretanto, ao mesmo tempo em que era
rigoroso, preocupava-se com o seu estado de saúde, tratando com carinho especial aqueles que
estavam doentes. Assim, através do Johrei, o sofrimento dos discípulos, purificados no corpo e no
espírito, ligava-se à sua elevação espiritual.
Em maio de 1946, Ogawa Eitaro esteve em Gora, para participar de uma entrevista. Quando
esta terminou, foi almoçar. Repentinamente, começou a ter febre e a sentir dificuldade de
respirar. Ao entardecer, ainda não mostrava nenhum indício de melhora; pelo contrário. Ficou,
então, decidido que ele pernoitaria na Casa dos Pássaros.
Ogawa passou a noite toda no maior sofrimento, a ponto de não conseguir ficar deitado. No dia
seguinte, não estava em condições de voltar para casa. Já não urinava mais e, com o passar das
horas, a febre foi subindo e sua respiração se tornando ofegante. Como ele piorasse, um
dedicante comunicou o caso ao Fundador e este mandou que o levassem à sua presença, para
receber Johrei. Ouvindo do dedicante que Ogawa não podia andar, o Mestre falou: "Caso ele
não possa vir porque não consegue andar, mande-o para casa. Se ele quiser Johrei realmente,
virá mesmo que rastejando. "
Era uma orientação rigorosa, através da qual o Fundador queria dizer que, se Ogawa desejava
ser salvo, deveria fazer todo o empenho para ir à sua presença, do contrário não teria esperança
de salvação. Pensando que, se o Mestre dizia aquilo, é porque de fato o julgava com capacidade
de ir até lá, ele se animou e, arrastando seu corpo, que pesava como pedra, e levando muito
tempo para percorrer apenas 20 ou 30 metros, conseguiu chegar à sala onde o Fundador estava.
Recebendo um Johrei bastante demorado, Ogawa teve um grande alívio. Entretanto, passadas
duas ou três horas, voltou a sentir-se mal. Como o Fundador lhe houvesse dito que, se tivesse
nova crise, fosse pedir-lhe Johrei, ele assim fez, repetindo-o todas as vezes que o sofrimento se
tornava insuportável. Uma dessas crises ocorreu às duas horas da madrugada e, por já ser tão
tarde, Ogawa hesitou em recorrer ao Mestre. Mas a dor que sentia era tanta que, achando que
iria morrer, mandou perguntar se ele poderia atendê-lo não obstante o avançado da hora.
Trouxeram-lhe, então esta resposta: "Ainda estou acordado trabalhando. Por isso venha
imediatamente." Quando o Johrei terminou, já passavam das três horas da madrugada. Depois
de descansar um pouco, Ogawa voltou para o seu quarto. A essa altura, o céu já começava a
clarear, atrás das montanhas de Hakone.
No quarto ou quinto dia, como um dedicante, preocupado, perguntasse se ele ficaria bom, o
Fundador disse: "Não posso deixá-lo morrer; caso contrário, ficarei em apuros." Essas palavras
significavam que, se alguma coisa acontecesse a Ogawa, isso traria obstáculos à Obra Divina.
O enfermo passou quinze dias nesse estado, sem dormir direito e sem conseguir comer. Todavia, o
Johrei do Fundador ia prolongando-lhe a vida. Seu rosto inchara e, como os testículos também
foram inchando cada vez mais, ele não podia andar. Enrolava-os, então, num lenço e, pedindo a
uma pessoa que os segurasse, conseguia caminhar até o local onde o Mestre estivesse. Foi assim
durante dias seguidos. Os ministros que estavam sob a sua responsabilidade vieram visitá-lo e,
muito assustados, perguntaram ao Fundador: "Escutamos falar sobre uma grande purificação -
o Fim do Mundo (42). Mas, quando ela vier, nós passaremos por sofrimento semelhantes ao do
Ministro Ogawa?" Antes a resposta que ouviram - "O sofrimento dele, em comparação com o
Fim do Mundo, é muito leve" - os ministros ficaram duplamente assustados.
Por fim, quando Ogawa estava completamente impossibilitado de andar, o Fundador ia diversas
vezes por dia à Casa dos Pássaros, para ministrar-Ihe Johrei, e dispensava-Ihe várias atenções.
Levou-lhe, por exemplo, um grande "manju" (43) que, na época, era muito difícil de ser
adquirido, e, ao entregá-lo, falou: "Você deve estar com vontade de comer algo doce. "
Escolhendo uma ou duas misturas de sua própria refeição, dizia aos dedicantes: "Levem isto
para ele. "
No décimo quinto dia dessa pesada purificação, Ogawa expeliu uma urina que parecia sangue e,
a partir daí, começou a melhorar, acabando por ficar completamente curado. Mais tarde, o
Fundador explicou: "Na verdade, ele estava com uma doença da qual não sobreviveria.
Entretanto, como sua vida era útil à Causa Divina, Deus não o deixou morrer. '
Nessa época, vários telegramas de "Pedido de Proteção", provenientes dos mais diversos pontos
do país, chegavam diariamente à Casa do Fundador. Tratava-se de um pedido que as pessoas
faziam para que sua purificação terminasse o quanto antes. Nele, o remetente escrevia seu nome,
endereço, idade, sexo, data em que ingressara na Fé, nome da Igreja a que estava filiado e a
situação da purificação. Quando o dedicante lhe relatava o conteúdo desses pedidos, o Fundador
costumava ficar balançando a cabeça em sinal de afirmação, como se estivesse ele mesmo se
certificando do que lhe falavam. Com essa postura, já estava enviando Luz à pessoa que fizera o
pedido. Pouco depois, chegava outro telegrama, só que, agora, contendo os seguintes dizeres:
"Agradeço a proteção recebida." Assim, por mais longe que o fiel estivesse, bastava o seu pedido
chegar aos ouvidos do Fundador para ele receber grande proteção de Deus. A prova disso eram
os telegramas de agradecimento enviados logo em seguida.
O fato que se segue aconteceu por volta de 1948 ou 1949. Como sua esposa, Tamako, tivesse tido
um ataque de eclampsia (44) após o parto e corresse risco de vida, Watanabe Katsuiti enviou ao
(42)
- Nome que se dá à época de sofrimento em que os pecados e crimes serão purificados, antes do advento do
Paraíso Terrestre.
(43)
- Doce de farinha recheado com feijão doce.
(44)
- Estado convulsivo que pode sobrevir logo após o parto.
Fundador um telegrama de "Pedido de Proteção". Em pouco tempo ela melhorou e Watanabe
apressou-se a mandar outro, desta vez, de agradecimento. Uma semana depois, quando se
acreditava que o caso estivesse liquidado, Tamako teve uma recaída. Vendo a gravidade do seu
estado, ele começou a preparar-se para a sua morte. Entretanto, pensando que talvez ela ainda
pudesse ser salva, enviou ao Fundador um novo "Pedido de Proteção". Sentado à sua cabeceira,
tomava-lhe a pulsação a toda hora. Já fazia mais de dez minutos que esta havia parado, mas
Watanabe continuava entoando uma oração, desesperado. Seus seis filhos pequenos, reunidos à
cabeceira da mãe, choravam, dizendo: "Mamãe já morreu. . ." O pai procurou consolá-los: "Não
chorem. A mamãe vai para um lugar muito bonito." Mas ele mesmo sentia o coração apertado,
de tanta tristeza.
Exatamente nessa hora, a pulsação voltou, com batidas ritmadas. Atento às reações da esposa,
Watanabe viu que o seu rosto ia retomando a cor normal e que ela recomeçava a respirar. Dali a
pouco abriu os olhos e, meio atordoada, perguntou: "Onde estou?" "Em casa", respondeu
Watanabe. Mas, sem entender direito, Tamako indagou: "Em casa de quem?" "Na sua casa, não
está vendo?", disse ele. Mas parece que ela não ouviu, pois, em seguida, falou, ainda meio
inconsciente: "Por que me chamou? Eu estava num lindo campo selvagem e ia caminhando,
muito feliz, na direção de um palácio. Entretanto, como todos vocês me chamavam, voltei. Que
pena!
Desde então Tamako foi se recuperando pouco a pouco e, cerca de um mês depois, foi agradecer
ao Fundador, acompanhada do marido. Nessa ocasião, ministrando-lhe Johrei, o Mestre disse:
"Agora já não há mais perigo, mas eu também fiquei assustado quando recebi o segundo
telegrama, achando que a situação não era nada boa. Então, fiz um pedido especial a Deus."
Ouvindo isso, Watanabe desatou a chorar; sua gratidão era tão grande, que ele não conseguiu
dizer uma sb palavra.
Esses telegramas de "Pedido de Proteção" eram tratados com um cuidado todo especial, porque
se ligavam à Obra Divina de salvação. Entretanto, certa vez, um deles demorou a ser entregue ao
Fundador. O dedicante que o recebera teve de fazer um serviço urgente e por isso pediu a outra
pessoa para entregá-lo, o que motivara o atraso. Quando soube disso, o Fundador imediatamente
chamou aquele dedicante e perguntou-lhe:"Por que pediu que outra pessoa me trouxesse o
telegrama que você recebeu? Não sabe que quem pede proteção por telegrama o faz em caso de
extrema necessidade, desejando ser salvo, o quanto antes, do seu sofrimento? Você não entende o
sentimento dos outros porque lhe falta sinceridade! Seja uma pessoa que entende os problemas e
sofrimentos dos seus semelhantes. Isso é ter sinceridade!"
O Fundador costumava repetir: "Quando a gente quer, logo entende o sentimento das outras
pessoas", e também: "Alegrar o próximo é o meu divertimento. " Por conseguinte, ele captava
profundamente o sentimento de todos que procuravam a salvação através daquele apelo
desesperado, não conseguindo deixar de estender-lhes imediatamente sua mão salvadora.
O episódio narrado a seguir mostra a intensidade do amor do Mestre. Trata-se de um fato
ocorrido por volta de 1949, quando ele residia no Solar da Nuvem Esmeralda e as entrevistas
eram realizadas na Sede Provisória de Shimizu.
Certo dia, Miyako, sua segunda filha, começou a passar mal repentinamente, e um dedicante
telefonou para a Sede, comunicando-lhe o fato. Como o Fundador respondesse: "Vou agora
mesmo", uma dedicante chamada Tsunoda Miyoko foi esperá-lo na entrada da casa.
Logo ele chegou, com passos rápidos e a respiração ofegante, segurando a barra do quimono.
Assim que viu Miyoko, falou: "Ah, você já melhorou?! Que bom, não é?" Ocorrera que, como o
nome da dedicante era muito parecido com o da filha, ele entendera errado, pensando que quem
estava passando mal era Miyoko. Esta Ihe esclareceu, então: "Não, não sou eu. É a Senhorita
Miyako." Dizendo: "Ah, é ela?", o Fundador entrou em casa aliviado.
A dedicante, que julgara que ele havia vindo por causa da filha, viu que, na verdade, o fizera por
estar preocupado com ela própria, percorrendo, entre a Sede e o Solar, um caminho de mais de
um quilômetro e, além disso, só de subida. Ao perceber o amor do Mestre, que tinha feito esse
percurso quase correndo, para lhe ministrar Johrei o quanto antes, sentiu que não merecia tanta
atenção e curvou-se ali mesmo, em profunda reverência.

b) MUDANÇA NO MÉTODO DO JOHREI

Assim, o Johrei foi sendo difundido por todo o país, como círculo da salvação, pelos fiéis que
captavam os sentimentos do Fundador. Até 1950, ele era ministrado tocando-se o corpo da
pessoa, mas, a partir de então, passou a sê-lo de uma certa distância (basicamente, cerca de
trinta centímetros). Em dezembro daquele ano, no artigo intitulado "Mudança no método do
Johrei", publicado no nº 84 do jornal "Eiko", o Fundador explicou o significado dessa mudança:
"Por Ordem Divina, mudamos o método de ministrar Johrei e por esse motivo eu gostaria de
que, a partir de hoje, todos procedessem conforme determinamos. A mudança foi feita com base
na grande mudança ocorrida no Mundo Espiritual. O método utilizado até aqui englobava a
parte espiritual e a parte material. Irradiando-se a Luz espiritual pela palma da mão,
acrescentava-se um pouco de força. Força é matéria, e por isso, na medida em que entra a força
material, o poder da Luz diminui. (. . .) Entretanto, de agora em diante, aquela mudança vai se
tornar mais evidente, de modo que é indispensável tirar toda a força material, irradiando apenas
a Luz espiritual. Explicando mais detalhadamente, a Luz Espiritual de Deus chega até o Ohikari
de todos os fiéis através do elo que os liga a mim, sendo irradiada, pela palma da mão, para a
parte afetada do doente. Portanto, daqui para frente devem transmitir a Luz sem colocar força, e
num estado de espirito leve e descontraído. "
Depois dessa publicação, o Fundador, em cada oportunidade, reforçava: "Não se deve pôr força
no Johrei. Tire-a o máximo possível. "

Figura

O Fundador ministrando Johrei coletivo, no final de uma entrevista realizada no Palácio da Luz
do Sol em 1953.

A primeira fase do método do Johrei foi estabelecida em 1934, por ocasião da inauguração do
Ojin-Do, após o Fundador ter-se conscientizado do poder espiritual que lhe fora atribuído por
Deus através da Revelação Divina recebida em 1926. Depois de ter sido praticado de diversas
maneiras, em dezembro de 1950, com o desenvolvimento da Providência Divina, o Johrei teve a
sua forma definida, apresentando-se como método de salvação eterna.
Em 1952, a partir do Culto do Início da Primavera, realizado no mês de fevereiro, o Fundador
começou a ministrar Johrei após o término de todos os ofícios religiosos. Por ser dirigido a um
grande número de pessoas ao mesmo tempo, esse Johrei foi denominado "Johrei coletivo". Desde
então, o Mestre orientou: "Devem estar ocorrendo milagres.
Por isso façam relatórios. " Como resultado, passaram a ser-Ihe enviados inúmeros relatos de
graças, provenientes de todas as partes do país, os quais eram publicados no jornal "Eiko." O
que transcrevemos a seguir é um deles:
"Eu quase nunca ia à Sede, mas, como ouvira dizer que, indo lá, receberia Johrei de Meishu-
Sama, senti vontade de ir, inclusive pelo desejo de ver se ele ministrava Johrei igual ao dirigente
da minha Igreja. Todos os fiéis estavam de cabeça baixa; só eu fiquei com a minha levantada
seguindo suas mãos com os olhos. Continuei nessa atitude mesmo quando ele focalizava o lugar
onde eu estava. Observava com frieza, como se fosse apenas um freqüentador, e não um fiel, em
quem essa atitude seria muito insolente.
Depois que, terminado o Johrei, Meishu-Sama se retirou, eu, como hábito, sem nenhuma
intenção especial, coloquei a mão no rosto e não encontrei as duas verrugas que sempre sentia
sob os dedos. "Ué!" - pensei. Voltando a passar a mão no rosto, cuidadosamente, o fato se
repetiu. Em seguida, procurei as verrugas com os dedos da mão esquerda, mas nem sombra
delas. O que teria acontecido? Ansioso, olhei para um espelho de bolso e vi que realmente elas
tinham desaparecido. Até Meishu-Sama aparecer, as verrugas estavam lá: como podiam ter
sumido? Não se tratava de um objeto; eram parte do meu corpo, de modo que, embora
pequenas, sairia sangue, se fossem cortadas, e o local ficaria dolorido. Mas elas haviam sido
retiradas - não sei quando - sem que eu sentisse dor ou coceira. Disse, então, para mim mesmo:
"Que estranho! Por que será que isso aconteceu?" Entretanto, por mais que pensasse, eu não
conseguia entender. De qualquer forma, fiquei agradecido pelo desaparecimento das verrugas, já
que elas só serviam para atrapalhar. Na hora em que estava reverenciando o Altar para sair,
reluziu em minha mente esta idéia: "Elas desapareceram com o Johrei que Meishu-Sama
ministrou há pouco!" "
Esse é o relatório franco de um jovem fiel que, graças a um milagre recebido através do Johrei
ministrado pelo Fundador, mudou completamente seu pensamento em relação a este.

4. ATIVIDADES ESCRITURAIS

a) LIVROS

As atividades escriturais do Fundador tiveram início na época da fundação da Igreja. Estando-se


numa situação social em que havia controle sobre o pensamento e o livre pronunciamento das
pessoas, todos os atos do Mestre estavam sob a rigorosa vigilância das autoridades e, pouco
depois, até suas atividades religiosas concretas foram proibidas. Por conseguinte, embora ele
escrevesse teses, não podia exprimir-se como desejava, nem publicá-las.
No ano de 1942, por milagre, o primeiro e o segundo volume do livro "A Medicina do Futuro"
foram aprovados para edição. Assim, em 1943, foi possível realizar uma reunião comemorativa
do lançamento do livro. Ainda no mesmo ano, o Fundador publicou o terceiro volume dessa obra
e a obra intitulada "A Verdadeira Face da Tuberculose", em um só volume; infelizmente, alguns
meses depois, esses livros foram censurados, por intervenção da polícia, conforme já tivemos
oportunidade de dizer. Após essa ocorrência, ele deixou de escrever por algum tempo.
Entretanto, com o fim da Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, a liberdade de expressão
ficou garantida, e o Fundador pôde voltar às atividades interrompidas. Inicialmente, reuniu os
três volumes de "A Medicina do Futuro" em um só, publicando-o com o título "Boas-novas do
Paraíso". Trata-se de uma coletânea de textos selecionados daquela obra por ele próprio e
adequados à nova época. No prefácio, o Mestre escreveu :
"O maior e último objetivo da humanidade é, em poucas palavras, a felicidade. Certamente não
há ninguém que negue isso. Entretanto, para aqueles que desejam alcançar a felicidade e
também para aqueles que já a alcançaram e querem preservá-la, "a saúde física",
indiscutivelmente, é algo que não pode ser dissociado dela. Jesus de Nazaré disse que de nada
adianta ter o mundo nas mãos e perder a vida, o que realmente é uma verdade. "
Em setembro de 1948, o Fundador publicou uma coleção de teses intitulada "Assuntos Diversos
sobre a Fé." Se a compararmos com "Boas-novas do Paraíso", obra escrita durante a guerra,
quando não havia liberdade de expressão, poderemos dizer que é um livro de Ensinamentos
escritos livremente, onde ele expõe tudo que desejava, em termos de conteúdo religioso.
Justamente por isso, o Mestre deve ter ficado muito comovido ao relembrar os espinhosos
caminhos que percorrera. No prefácio, ele explica que os textos foram escritos com base em sua
experiência sobre os grandes sofrimentos da vida, como por exemplo o que é causado pelas
dívidas e pela doença. Relembra, também, os seus trinta anos de vida religiosa, em que, com a
proteção de Deus e o apoio das pessoas, veio vencendo esses sofrimentos. O prefácio se encerra
com estas palavras: "Procurei escrever de modo compreensível, tanto para os crentes como para
os descrentes, para os estudiosos e para as pessoas comuns, e ficarei muito feliz se a leitura deste
livro servir, ainda que pouco, para que se atinja o objetivo de paz e tranqüilidade espiritual. "
A partir de "Assuntos Diversos sobre a Fé", o Fundador publicou muitas teses, sendo que o
número de artigos escritos por ele durante toda a sua vida é superior a dois mil. Seu conteúdo
versa sobre Religião, Política, Economia, Educação, Ciência, Arte e todos os outros setores da
vida humana. Assim, as diretrizes para a construção da Verdadeira Civilização foram sendo
lançadas umas após outras.
Entre os artigos escritos pelo Fundador existem os que ele destinou aos fiéis como Ensinamentos,
e também os que foram publicados e vendidos à sociedade em geral, como, por exemplo,
"Manual de Agricultura Natural", "Tratamento da Tuberculose pela Fé", "Salvar os Estados
Unidos", "Coletânea de Milagres da Igreja Messiânica Mundial" e outros. Os artigos saíram nos
órgãos informativos da Igreja, entre os quais o jornal "Eiko" e a revista "Tijo Tengoku". Os
discípulos e fiéis de todo o país esperavam ansiosamente por esses Ensinamentos e, quando eles
chegavam às suas mãos, liam cada palavra com avidez, fazendo deles um alimento espiritual.

Figura

Livros publicados pelo Fundador após a Segunda Grande Guerra

Entre os artigos publicados naquela época, havia alguns cujo conteúdo contradizia os
conhecimentos científico e o senso comum da Medicina então vigentes. Obviamente, isso era
ensinado pelo Fundador através de sua inteligência sobrenatural, nunca vista antes. Entretanto,
após a ascensão do Mestre, inclusive no sentido de evitar choques com o pensamento da
sociedade, achou-se prudente interromper, durante algum tempo, a publicação desses artigos.
Depois de muitos estudos, editou-se a série intitulada "Alicerce do Paraíso", contendo artigos
escolhidos entre as teses de conteúdo exclusivamente religioso.

b) COLETÂNEAS DE POEMAS

Além de escrever Ensinamentos, o Fundador escrevia poemas; no decorrer de sua vida, compôs
cerca de 5.500. São composições onde ele canta a natureza, os sentimentos e também a Religião,
abrangendo, portanto, uma vasta área. Alguns são entoados como salmos, por ocasião dos
Cultos; outros expressam os seus sentimentos em épocas de sofrimento; outros, ainda, cantam
francamente suas emoções, como a alegria e a tristeza, a ira e os desejos que ele sentiu como ser
humano. Nesse sentido, os poemas compostos em forma de "tanka"(45) são um ponto de apoio da
fé e, ao mesmo tempo, dão uma imagem viva e real do Fundador.
Quando as atividades religiosas passaram a ser desenvolvidas oficialmente, com a Instituição da
Igreja Kannon do Japão, o Fundador publicou a "Coletânea de Salmos", editada em julho de
1948. Nela estão contidos os poemas entoados nos cultos em forma de salmos. No prefácio, ele
(45)
- Um tipo de "waka", poema constituído de 5 versos, dos quais o 1º e o 3º são pentassílabos, e o 2º, o 4º e o 5º são
heptassílabos.
comenta: "A poesia "waka" tem um poder misterioso. Consegue-se expressar em apenas 31
sílabas o que não se consegue dizer com milhares de palavras. E o seu poder de mover as pessoas,
então, é inimaginável. O presente livro reúne poemas que eu próprio escolhi e que, entre outros
temas, cantam os sentimentos, a moral e as virtudes, expressando aquilo que eu sentia na ocasião
em que os escrevi. Como não sou poeta, compus a maioria sem pensar muito, exprimindo-me
com naturalidade. Meu único cuidado foi torná-los de fácil compreensão, mantendo a elegância e
a beleza do espirito das palavras. " Podemos observar, portanto, que o Fundador não só compôs
"waka", como também desenvolveu uma elevada tese sobre esse tipo de poema.
Em 30 de novembro de 1949 foi publicada a coletânea poética intitulada "Akemaro Kin'eishu"
("As Últimas Composições de Akemaro"), constituída de 486 poemas compostos pelo Fundador
entre janeiro de 1936 e setembro de 1949. Neles, ele expressa francamente o seu estado de espírito
desde a fundação da Igreja.
No dia 23 de dezembro de 1949, o Fundador publicou a coletânea "Yama to Mizu" ("Montanha
e Água"), a qual foi reeditada em 1º de agosto de 1967. Fazem parte dessa coletânea poemas
escolhidos por ele entre os mil e tantos que compôs de 1931 a 1935 - ano da Fundação da Igreja-
nos torneios literários em que se divertia com os fiéis e nas sessões de poesia realizadas nos locais
para onde viajava.

Figura

As coletâneas de poemas do Fundador

"A flor de lilás contempla


Suas largas folhas caídas,
Rolando, ao soprar do vento. "

Esse poema, que consta na coletânea "Yama to Mizu", figura, também, no segundo volume da
obra intitulada "Showa Manyoshu", publicada pela Editora Kodan em 1980.
Certa vez, em 1935, pouco depois da instituição da Associação Kannon do Japão, o Fundador,
devido ao acúmulo de tarefas da Obra Divina, não havia conseguido preparar os salmos que
seriam entoados no Culto, fazendo-os momentos antes do início da cerimônia. Compôs, em
poucos minutos, mais de dez, ao mesmo tempo em que atendia visitantes e ouvia rádio. O
dedicante encarregado de anotá-los ficou perplexo.
Essa criatividade sobre-humana do Fundador continuou até mesmo nos seus últimos anos de
vida. Ele geralmente escrevia após a meia-noite, dentro do horário em que ditava os
Ensinamentos. Os quarenta e seis poemas da série intitulada "Grande Purificação", compostos
no final de 1949 e publicados no no. 13 da revista "Tijo Tengoku", levaram menos de uma hora
para serem escritos. Apresentamos, a seguir, três deles:

"Este ano, também,


A situação será anormal.
Estou triste porque não posso
Dizer claramente
O que preciso dizer. "

"Purificadas as impurezas
Acumuladas durante longo tempo,
Surgirá o Paraíso Terrestre. "
"Seja qual for a situação,
Aqueles que estão
Protegidos por Deus
Nada têm a temer. "

Inoue Motokiti, encarregado, na época, de anotar os poemas ditados pelo Fundador, relembra o
fato dizendo: "Parece que existem poetas que só compõem dois ou três poemas por mês; Meishu-
Sama, entretanto, fosse qual fosse o tipo de poesia - religiosa, filosófica, sentimental, paisagista,
amorosa - nunca tinha a menor dificuldade. Ditava como se estivesse se divertindo. Ele dizia:
"Posso compor tantos poemas quanto quiser. " De fato, a facilidade com que os compunha, não
só no que se refere à quantidade, mas também à rapidez, era realmente admirável. Quando
escreveu os poemas da série "Grande Purificação", as palavras se sucediam como o fio que sai da
boca do bicho-da-seda, sem se romper. Tirando a média, o Fundador levava um minuto e três
segundos para compor um poema.

c) ÓRGÃOS INFORMATIVOS

Logo após a publicação do livro "Assuntos Relacionados à Fé", em 1948, lançou-se uma
revista mensal e um jornal semanal (este, mais tarde, passou a sair de dez em dez dias). Foram
publicados como órgãos informativos da Igreja Kannon do Japão, quando esta começou sua
jornada.

Figura

Órgãos informativos da Igreja. Em cima, da esquerda para a direita, os jornais "Hikari",


"Kyussei" e "Eiko". Em baixo, exemplares da revista "Tijo Tengoku".

A revista recebeu o nome de "Tijo Tengoku" ("Paraíso Terrestre") e teve o seu primeiro número
editado em dezembro de 1948. As capas dos números 1, 2 e 3 apresentavam imagens coloridas de
Kannon pintadas por Togo Seiji (1897- 1978), pintor que, antes da Segunda Guerra, esteve em
grande destaque, por ter introduzido no Japão o cubismo e o surrealismo europeu. Após a
guerra, ele tornou-se uma das autoridades japonesas em pintura ocidental, tendo reconstruído a
Associação Nika. Nos últimos anos de sua vida, Tog trabalhou para criar e desenvolver a
Fundação Brasil-Japão de Artes Plásticas, instituída pela Igreja Messiânica Mundial, em 1973,
para promover o intercâmbio cultural entre o Japão e o Brasil, tendo sido o seu primeiro
Presidente.
Paralelamente ao lançamento da revista "Tijo Tengoku", o Fundador institui a Empresa
Jornalística Hikari, dirigida por Kossaka Kaitiro e Kanetika Yassushi, dois elementos que
haviam trabalhado no Jornal Yomiuri. Em março de 1949, foi lançado o jornal "Hikari"
("Luz"), cujo nome, atualmente, é "Eiko" ("Glória"). A empresa iniciou suas atividades sediada
no Distrito de Minato, em Tóquio, mantendo, também, um escritório no bairro de Higashiyama,
em Atami. Os serviços gerais ficaram ao encargo de Kossaka e Kanetika, cabendo ao Fundador
participar do trabalho como redator-chefe, repórter e revisor. Por conseguinte, não só ele escrevia
Ensinamentos, em forma de teses, para o jornal "Hikari", como também colaborava todos os
meses na revista "Tijo Tengoku", além de continuar compondo poemas assinados com o nome
artístico de Akemaro. Lia, ainda, as matérias enviadas pelos fiéis, inclusive as Experiências de Fé,
e dava instruções para a redação do jornal e da revista.
Passados cerca de dez meses, Kossaka disse: "O Fundador está realmente se empenhando em
escrever artigos, e a cada número trabalhamos como se estivéssemos sendo perseguidos pelo
serviço. Entretanto, por experiência própria, posso dizer que vai chegar a hora em que ele
perderá o fôlego. Mesmo que tudo corra bem, estou certo de que não passaremos do número 50.
" Havia lógica nessas palavras, mas o Fundador, a cujos ouvidos elas devem ter chegado, disse:
"Perder o fôlego?! Pois se me encontro em dificuldades, por estarem me sobrando artigos!"
Assim, até a purificação que teve na primavera de 1954, ele continuou escrevendo para todos os
números do jornal.

d) DITADO DE ENSINAMENTOS

Os Ensinamentos eram elaborados diretamente pelo Fundador, mas ele os pregava com a
postura de representante de Deus. Conseqüentemente, tratava-os como palavras do Criador,
chamando-os de "Escrituras de Deus". Na mesa onde escrevia, por exemplo, jamais colocava
nada além do necessário para a correção dos textos; a bandeja de cigarros, os fósforos e outros
objetos de uso pessoal eram postos numa mesinha ao lado, um pouco mais baixa. Os textos que
ficavam prontos, ele os guardava, com todo cuidado, numa caixa de papéis utilizada
exclusivamente para esse fim.

Figura

O Fundador corrigindo um texto. Sobre a mesa, a caixa de papéis; na mesinha ao lado, a


bandeja, a toalha de mão, etc.

Até dar ao texto a redação final, o Fundador costumava fazer várias correções em vermelho
(Vide foto no início do segundo volume desta obra). As folhas corrigidas eram passadas a limpo
por um dedicante, nunca sendo jogadas no lixo e sim queimadas, em sinal de respeito. Sua
atitude em relação a esses papéis era a mesma que os fiéis devem ter em relação aos livros de
Ensinamentos.
Existem diversas provas de que o Fundador elaborava seus ensinamentos no estado espiritual de
união com Deus, inclusive a própria forma como ele os ditava. Geralmente começava a ditar bem
tarde, após a meia-noite, depois que, terminadas as tarefas do dia, os dedicantes já tinham ido
dormir e não havia mais movimento na casa. Ao seu lado, na sala, ficava apenas o servidor
encarregado de anotar o que ele ditava. No silêncio da noite, suas palavras jorravam
ininterruptamente, como água cristalina, até as duas da madrugada. O Fundador cumpria
rigorosamente os horários, de modo que, a essa hora, mesmo que estivesse no meio do ditado,
dizia: "Vamos deixar para amanhã", e parava imediatamente. No dia seguinte, depois da meia-
noite, pedia para o dedicante ler a última ou as duas últimas linhas do que fora ditado na
véspera e logo falava: "Ah! já sei." Se ele, para ser gentil, lia um pouco além, era repreendido:
"Não precisa ler tudo isso. Lendo uma ou duas unhas do final, eu entendo. Que desperdício de
tempo!" O Fundador parecia um gravador desligado, com uma fita gravada até certo ponto: ao
ser religado, dava continuidade à gravação. Ditava de forma tão clara, que somos levados a
pensar que as palavras já estavam na sua cabeça, e ele simplesmente as pronunciava.
O Fundador chegava a ditar doze ou treze folhas de papel sulfite por hora; por isso os
Ensinamentos iam se acumulando. Certo dia, ele disse: "Os artigos estão sobrando. Portanto,
estreite as margens do jornal "Eiko" e procure colocar o máximo de letras que puder." Fez-se,
então, o possível para que fosse publicado o maior número de artigos seus.
Mas o Mestre não escrevia apenas para os órgãos da Igreja. Como era uma pessoa para a qual
convergia a atenção da sociedade, jornais e revistas de outras religiões solicitavam sua
colaboração. Era freqüente chegarem pedidos especificando o número de laudas e os temas. Ele
os aceitava sem nenhuma preocupação, dizendo: "Ah! é? Então vamos lá", e começava a ditar,
mostrando muita alegria.
O Fundador ensina que, nos ensinamentos das religiões existentes desde a antigüidade, há
muitos pontos difíceis de serem entendidos, razão pela qual não só surgiram ramificações, como
também, por meio deles, não se conseguiu promover a salvação desejada. Por isso, ao ditar seus
Ensinamentos, ele tomava muito cuidado para torná-los de fácil compreensão para velhos e
jovens, homens e mulheres, de todas as idades e níveis de educação ou condição social.
Conseqüentemente, não se limitava a deixar os textos na forma como os ditara. Corrigia-os
quantas vezes fossem necessárias, fazia modificações ou acréscimos, procurando formas de
expressão mais compreensíveis. Às vezes chegava a passar o Ensinamento a limpo mais de vinte
vezes. Depois que ele ficava pronto, pedia a Yamamoto Keuti, encarregado dessa parte, que o
lesse e lhe desse sua opinião. "Será que, se eu usar essa expressão, os fiéis vão entender o que eu
quero dizer? E você, entende?" - perguntava-lhe o Fundador.

Figura

Caligrafia do Fundador:
"Shinti Nyossen"
("Fonte da Sabedoria Divina")

e) JOHREI ATRAVÉS DAS LETRAS

O Fundador assim resumiu o sentimento que se deve ter ao elaborar um texto: "Os textos
refletem, através das letras, o pensamento da pessoa que os escreveu, o qual é transmitido para o
pensamento de quem lê. Conseqüentemente, tudo aquilo que eu escrevi, guiado pela Vontade
Divina, irradia a Luz de Deus para o leitor. Podemos dizer que este recebe Johrei através dos
olhos, pela Luz irradiada das letras. Assim, quanto mais a pessoa lê, mais aprofunda sua fé, e
mais purificado uai ficando seu espirito. Quanto mais a fé ganha plenitude, mais irrefreável é a
vontade de ler. Por isso, é bom que leiam meus Ensinamentos muitas vezes, até os assimilarem
bem.”
Como já foi dito, o Fundador dispensava um cuidado especial aos textos que ele próprio ditava e
corrigia, tratando-os como "palavras de Deus". Além disso, sempre que tinha oportunidade,
dizia aos fiéis que ler assiduamente as "palavras de Deus" e praticar os ensinamentos nelas
contidos é uma prática fundamental da fé. Dessa forma, exigia-Ihes que prestassem muita
atenção a elas, conscientes da importância que tinham na sua vida religiosa. Obviamente,
mostrava-se ainda mais rigoroso em relação aos dedicantes que o serviam de perto. Quando um
deles cometia alguma falha, logo o chamava e dizia: "Você tem lido os meus Ensinamentos? Tudo
que eu digo e faço, está escrito neles. Cometer uma falha como essa significa que ainda Ihe falta
leitura. Leia com toda atenção pelo menos trinta minutos por dia!"
A vida do Fundador estava sempre centralizada em Deus, e diariamente ele desenvolvia a Obra
Divina sem desperdiçar um minuto sequer. Sendo assim, os dedicantes tinham de tomar os
devidos cuidados para ajustar seus passos com os dele. Ele dizia que, se a pessoa lesse sempre os
Ensinamentos, saberia naturalmente que cuidados deveria tomar para fazer esse ajuste;
portanto, não cometeria falhas.
Pouco tempo depois da publicação do livro "Assuntos sobre a Fé", o Mestre perguntou a um
dedicante:
- Você está lendo "Assuntos sobre a Fé?"
- Sim, estou.
- Está lendo mesmo?
- Sim, já li diversas vezes.
- Com que lugar do corpo você lê?
Embaraçado com essa pergunta repentina, o dedicante respondeu: - Leio com os olhos.
- Isso significa que você está lendo com a cabeça, não?
- É sim senhor.
- Não adianta ler com a cabeça! Leia avidamente com o coração! Vendo suas atitudes, não parece
que você está lendo de fato. Não há nada que deixe transparecer isso. Os Ensinamentos devem
ser lidos para serem praticados e não apenas por ler!"
O Fundador sempre dizia: "Leia os meus Ensinamentos com o objetivo de praticá-los. " Assim,
na sua vida diária, ele praticava tudo aquilo que pregava aos fiéis. Considerando, por exemplo,
que desrespeitar os horários é falta de sinceridade, era muito exigente com os dedicantes, em
relação a isso. Assim, todos os dias, desde o momento em que acordava até a hora de dormir,
seguia rigorosamente a programação que ele mesmo estabelecera. Itsuki, sua filha, que mais
tarde viria a ser a Terceira Líder Espiritual, disse, certa vez:
"Papai, às vezes o senhor também deve estar com sono; mas é admirável, sempre acorda
pontualmente..." Ao que ele respondeu: "É claro que às vezes eu também tenho sono Mas, sabe?
Se eu não cumprir meus horários, não posso exigir que os fiéis o façam. Por isso, eu próprio
tenho de praticar aquilo que ensino. "
Interpretando o pragmatismo como filosofia em ação, o Fundador o adotou no campo religioso,
dizendo: "Pretendo fundir a Religião e a vida real numa relação íntima e inseparável." Assim, ao
pregar seus Ensinamentos, por escrito ou oralmente, sempre se baseava na crença de que eles só
teriam valor se fossem praticados. Em 1952, era freqüente ele dar esta ordem aos dedicantes: "As
pessoas desta casa têm a obrigação de escrever sobre o meu dia-a-dia, para relatá-lo ao fiéis.
Verifiquem com seus próprios olhos se eu estou praticando o que sempre Ihes digo que
pratiquem, e escrevam a verdade, para ela ser publicada no jornal da Igreja." Numa situação
como essa, a maioria das pessoas pensaria: "Ficarei em apuros se eles realmente escreverem a
verdade." Sendo assim, não é nada fácil dizer palavras como aquelas, as quais nos mostram que
ele sempre mantinha autodisciplina e que em sua vida não havia falsas aparências, existindo
perfeita coincidência entre palavras e ações.
Após a perseguição religiosa sofrida em 1950, o Mestre passou a pregar vigorosamente a
importância daquilo que ele escrevia. Eis o que disse a Kawai Teruaki, que, nessa época, lhe
expôs suas idéias sobre o problema da sistematização dos Ensinamentos, pedindo-Ihe orientação:
"A Bíblia foi escrita posteriormente. Assim também, eu prego de acordo com a ocasião, mas
quem vai organizar meus Ensinamentos são vocês. Portanto, não há necessidade de me ficarem
fazendo perguntas a toda hora. " E continuou: "Os jovens, daqui para frente, precisam
compreender bem os Ensinamentos. Se não assimilarem sua natureza ideológica, não conseguirão
realizar bons trabalhos. " Com essas palavras, ele expressou a esperança que depositava em suas
próprias teses.
Em novembro daquele mesmo ano, o Fundador publicou, no número 80 do jornal "Eiko", o
artigo intitulado "É preciso ler os Ensinamentos", onde dizia que, para aprofundar a fé e
adquirir maior poder de salvar as pessoas, os fiéis precisavam ler seus Ensinamentos. Ouvindo
aquelas palavras do Mestre e lendo essa tese, Kawai adquiriu uma compreensão mais profunda
sobre a importância dos Ensinamentos e sentiu a grandeza da missão de editá-los, a qual lhe fora
destinada. Assim, ele compilou os que lhe pareceram mais representativos e mostrou seu trabalho
ao Fundador. Com a autorização deste, publicou-os, em março de 1954, no livro que recebeu o
nome de "Livro de Deus - volume sobre Religião".
5. CALIGRAFIAS E PINTURAS

a) OS CALOS

Os quadros que o Fundador caligrafou durante mais de vinte anos, desde que iniciou a Obra
Divina de salvação do mundo, atingem uma quantidade surpreendente. Nesse período, ele
sempre pegou do pincel com entusiasmo fora do comum. Já tivemos oportunidade de dizer que
suas caligrafias foram elogiadas por um calígrafo profissional; entretanto, além de possuírem
valor artístico, elas constituem o núcleo da Obra Divina, atuando como fonte de diversos
milagres.
Em 1931, o Mestre pintou o "Hinode Kannon"; em 1934, o "Senju Kannon" e muitos outros
quadros. Em 1936, através das atividades da Associação dos Cem Kannon, pintou imagens de
Kannon coloridas e, a partir de 1941, começou a pintar, também, imagens de Komyo Nyorai e
Dai Komyo Nyorai. Ainda na mesma época, com o avanço da Obra Divina, o número de fiéis que
desejavam possuir imagens de Kannon aumentou e ele pintou-as em grande quantidade:
Kannon segurando uma pedra preciosa ou um sutra; em cima das nuvens, sentado
cerimoniosamente; fazendo pregações; vagando pelas nuvens, etc.
Durante a Segunda Guerra Mundial, as intervenções e pressões sobre as novas religiões
tornaram-se bastante rigorosas, e por isso as imagens eram distribuídas como obra de arte às
pessoas que as solicitavam. Na verdade, porém, eram Imagens da Luz Divina, destinando-se a
serem adoradas. Os fiéis continuavam a preservar a fé como um ponto de apoio diário. Assim
reverenciando pela manhã e à noite a figura elegante de Kannon, eles lavavam seus corações,
recebiam esperanças e coragem e conseguiam cultivar uma fé pura.
Desde o outono de 1944, quando se mudou para Hakone, o Fundador também passou a pintar
Kannon em tamanho maior, sobre as nuvens, segurando um galho de vime, sentado em cima de
uma rocha, etc. A partir dessa época, os pedidos de imagens pintadas e caligrafias aumentaram
rapidamente, e ele viu-se ainda mais atarefado. Ao mesmo tempo, simplificou os desenhos e os
métodos de pintura, tornando o trabalho mais prático, a fim de confeccionar o maior número
possível de imagens e poder corresponder ao desejo dos fiéis. Apesar disso, elas não perderam
nem um pouco da sua qualidade. Especialmente os traços do rosto de Kannon tornaram-se de
uma elegância incomparável. Até dezembro de 1946, quando teve sarna e foi obrigado a
interromper essa atividade por algum tempo, o Fundador continuou a pintar com vigor. Sobre
uma das imagens, escreveu:

Figura

Zagyo Kannon,
pintado pelo Fundador.

"Quem poderá pensar


Que é uma figura pintada?
Reverencio a Bossatsu,
Que parece realmente estar vivo. "
Figura

Caligrafia do Fundador:
"Komyo" ("Luz Intensa") Sinete: "Nyorai"
Além das pinturas, o Fundador fez inúmeras caligrafias. No período final da Segunda Grande
Guerra, quando os ataques aéreos se intensificaram, ele caligrafou, em letras grandes,
"Kamikaze" ("Vento Divino"), "Shinryu" ("Deus Dragão") e, ainda, "Komyo" ("Luz
Intensa"), instruindo as pessoas no sentido de que esta última fosse colocada em cima da
Imagem de Kannon na hora dos bombardeios. Por isso, todos diziam que o "Komyo" era "para
afastar bombas".
Contam-se muitos milagres obtidos através das caligrafias do Fundador por ocasião da Segunda
Guerra Mundial.
Em 1943, com a mobilização dos estudantes, Omori Shigueo, que posteriormente serviu ao lado
do Mestre, foi convocado para o Exército logo após ter-se tornado fiel. Na época, formulando
votos pela sobrevivência daqueles que partiam para a guerra, era costume escrever-se uma
dedicatória numa Bandeira Nacional. O estudante, porém, desejando uma caligrafia do
Fundador, fez a solicitação e conseguiu que ele escrevesse, na bandeira onde figura a esfera do
Sol, "Hisho Fuhai" ("Vencer sempre, nunca perder").
Passado algum tempo, ele foi transferido para o esquadrão aéreo, indo para a Ilha de Java, na
Indonésia. Mais tarde, voltou para o Órgão de Serviços Especiais, e, em junho de 1945, pegou o
cruzador "Ashigara", de 10.000 toneladas, rumo a Singapura, local onde executaria sua missão.
Nessa oportunidade, Omori passou por uma experiência milagrosa. Atacado por torpedos, o
navio afundou em apenas quinze minutos, mas ele conseguiu colocar o salva-vidas e pular na
água. Na hora em que ia afundar, o cruzador soltou fogo da proa, porém as chamas não
chegaram a atingir o óleo, que escorreu para a superfície do mar, e logo se apagaram. Além disso,
como, naquela região, a profundidade era de apenas quarenta metros, não chegou a se formar o
redemoinho que acompanha o afundamento dos navios, e, pouco depois, Omori foi salvo pelo
destróier "Kamikaze".
O jovem sempre tinha consigo, junto ao corpo, a bandeira com as palavras escritas pelo
Fundador. Naquele dia, entretanto, como estivesse fazendo calor e se sentisse tranqüilo, por estar
num navio de grande porte, casualmente ele a havia tirado, de modo que ela afundou com o
cruzador. Nessa hora, Omori compreendeu que a bandeira afundara em seu lugar. Dois meses
depois, quando a guerra terminou, ele entendeu que a perda que sofrera estava relacionada à
derrota do Japão.
O caso que se segue aconteceu por volta de 1945, na cidade de Nagoya. Shibui Sossai foi à casa
de Mizuno Eissaku, que, mais tarde, se tornou dirigente da Igreja Korin. De repente, em plena
aula de aprimoramento, ouviu-se a sirene anunciadora de ataques aéreos. Controlando as
pessoas presentes, que iam sair da sala apressadamente, Shibui deu instruções para que se
colasse num papel a caligrafia "Kamikaze", feita pelo Fundador, a qual ele havia trazido para
ali, mas ainda não estava emoldurada. Iniciado o ataque aéreo, o incêndio se propagava,
chegando cada vez mais perto da casa de Mizuno. Entretanto, por milagre, as chamas se
apagaram, deixando intacta apenas a quadra onde ela estava situada.
Os milagres alcançados graças às caligrafias do Fundador não se relacionam unicamente a fatos
ocorridos durante a guerra. Mesmo após o término do conflito, quando as matérias-primas e o
combustível eram escassos, só de se pendurar na parede a caligrafia "Shunko" ("Luz da
Primavera"), o recinto, misteriosamente, ficava aquecido, inclusive durante o inverno. Dizem,
ainda, que, pendurando-se a caligrafia "Keissui" ("Ser abençoado com água") numa casa cujo
poço secara, este voltava a ter água.
No início de 1946, logo depois do fim da guerra, portanto, quando a Obra Divina entrou numa
nova fase, com a rápida expansão da difusão, o Fundador começou a caligrafar mais dois tipos
de Imagem da Luz Divina: "Komyo Nyorai" e "Dai Komyo Nyorai", além de continuar
pintando imagens de Kannon. Alguns meses depois, purificando com sarna, doença que o deixou
acamado, ele não pôde pegar no pincel por uns tempos; no ano seguinte, porém, quando
começou a se restabelecer, passou a confeccionar as Imagens da Luz Divina unicamente com
letras, não pintando mais a figura de Kannon. Segundo o Fundador nos ensina, letra é Espírito e
desenho é matéria, e por isso, aquela tem um nível mais elevado. Daí podermos concluir que essa
modificação foi uma Providência de Deus, decorrente da expansão da Obra Divina.

"Doente, na cama,
Fico a pensar
No incalculável número
De pessoas enfermas
Que existem no mundo. "

A partir dessa época, o "omamori" (protetor) constituí- do pela palavra "Komyo", o qual levava
o sinete "Nyorai", teve esta palavra substituída por "Jo" ("Purificação"), com o sinete "Gyo".
Ao ser instituída a Igreja Kannon do Japão, em 1948, passou a ser caligrafada a palavra
"Hikari" ("Luz"), com o sinete " I ". Criaram-se também, mais dois tipos de protetor,
respectivamente com as palavras "Komyo" ("Luz Intensa") e "Dai Komyo" ("Luz Muito
Intensa"). Mais tarde, as palavras que constituíam as três categorias de protetor foram
substituídas por "Jo", "Joriki" ("Poder Purificador") ou "Joko" ("Luz Purificadora") e "Dai
Joriki" ("Grande Poder Purificador") ou "Dai Joko" ("Grande Luz Purificadora"). Mas logo
voltaram as palavras primitivas, ou seja, "Hikari", "Komyo" e "Dai Komyo", escritas em
sentido vertical, as quais continuam até o presente. A partir de 1962, o termo "omamori", da
época do Fundador, foi substituído por "Ohikari" ("Luz Divina"). Assim, o Ohikari usado pelos
fiéis sofreu diversas modificações, traçando a sua história de acordo com a Providência de Deus
nas diferentes épocas.
Certo dia, por volta de 1954, enquanto cortava o cabelo, o Fundador disse a Saegussa
Toshissaburo, seu barbeiro: "Experimente tocar minha mão." Saegussa mostrou-se muito
surpreso ao tocar a mão que lhe foi estendida, pois julgava-a macia e delicada, mas via que era
dura e cheia de calos. O Mestre, então, Ihe disse: Estes calos, eu os criei segurando o pincel para
caligrafar o Ohikari dos fiéis, sabe?" Ao ouvir essas palavras, o barbeiro sentiu-se
profundamente comovido, pensando: "Puxa! Como ele se esforça pelos fiéis!"
Obviamente, o Fundador colocou tanto empenho nas caligrafias e pinturas porque o Poder de
Deus atuava através delas, ou seja, elas tinham um papel central na Obra Divina. Assim, durante
toda a sua vida, pintou cerca de 7.000 figuras de Kannon e Nyorai e, incluindo os protetores, fez
pelo menos 1 milhão de caligrafias.

b) COMO UMA MÁQUINA IMPRESSORA

Em seus últimos anos de vida, como já dissemos, o Fundador, nos dias pares, fazia caligrafias
durante uma hora ou uma hora e meia após o jantar. A Casa do Trevo, em Hakone, e uma sala
do Solar da Nuvem Esmeralda, em Atami, estavam destinadas a esse fim.
Assim que se sentava, com o papel à sua frente, o Mestre pegava no pincel e, num só fôlego, fazia
várias caligrafias, com tanta rapidez que parecia uma máquina impressora. Certa vez ele disse,
rindo: "Para uma pessoa se tornar um operário treinado assim, é preciso três anos." No caso da
Imagem da Luz Divina e dos quadros - estes, escritos horizontalmente - onde eram caligrafadas
letras maiores, confeccionava 100 em 30 minutos; no caso de protetor que só tinha uma palavra
("Hikari"), fazia de 500 a 600 em uma hora. Uma pessoa comum não conseguiria caligrafar tão
rápido assim.
Para confeccionar muitas caligrafias em pouco tempo, o Fundador inventou o seguinte método.
Preparava de antemão cem folhas de papel apropriado, intercaladas com jornal. Quando
terminava de dar vigorosas pinceladas na primeira, o dedicante encarregado desse servir retirava
a folha junto com o jornal, puxando-a rapidamente, em sentido lateral. Ao término dessa
operação, o Fundador já havia acabado de fazer a caligrafia seguinte. Assim, era um serviço
ininterrupto, no estilo de uma corrente de motor. Para que ele fosse executado sem interrupção,
sempre havia três dedicantes do sexo masculino ajudando o Mestre, fazendo-se necessário um
certo período de treinamento para eles conseguirem acertar seu ritmo com o dele.
Além de escrever essa grande quantidade de caligrafias com muita facilidade, o Fundador
sempre o fazia ouvindo rádio. Às 19h, quando o trabalho tinha início, era a hora do noticiário.
Às 19h 30m, transmitiam-se programas com atrações musicais: os programas "Niju no Tobira" e
"Tonti Kyoshitsu". Às 20h, entre outros programas, havia a transmissão de uma peça teatral. O
Fundador sempre fazia caligrafias ouvindo essas transmissões. Se escutasse, no noticiário, algo
relevante, que Ihe chamasse a atenção, logo pegava o lápis vermelho e anotava no papel que
ficava numa bandeja. Anotava de modo sintético, escrevendo, por exemplo,"Origem da
corrupção", "Problema da bomba atômica", etc. , e esses dizeres serviriam de tema para os
Ensinamentos que ele ditaria mais tarde.

Figura

O Fundador caligrafando com uma velocidade sobre-humana, ajudado por dedicantes. Ao seu
lado, está colocado um rádio.

Certo dia, no início da primavera de 1953, enquanto caligrafava a palavra "Hikari", o


Fundador ouvia pelo rádio a sátira "Kabuki Moyuden", de Yamano Itiro. Começou, então, a
contar: "Ainda há pouco estavam falando sobre Sawada Shojiro, não é? Antes, eu era um
freqüentador assíduo das representações de Sawasho (Abreviação de Sawada Shojiro) e a que
mais ficou gravada em minha mente foi uma peça sobre samurais, do final do governo feudal.
Havia uma cena em que Sawasho feria alguém. Ele era muito rápido em desembainhar a espada
e ferir as pessoas. No cinema eles fazem muito assim (deixou o pincel e apanhou dois atiçadores
de braseiro), ficam digladiando por longo tempo, mas na realidade parece que era diferente. Os
gestos de Sawasho eram realmente calmos, mas, na hora de ferir, ele feria ligeiro. Sua figura
ainda permanece diante dos meus olhos." Assim era o Fundador.

Figura

Bandeja que era colocada em todo lugar onde o Fundador estivesse. No papel, há anotações
feitas a lápis vermelho.

c) INOVAÇÃO: MÁQUINA DE FAZER TINTA CARVÃO

O preparo da tinta necessária à enorme quantidade de caligrafias feitas pelo Fundador também
era uma tarefa trabalhosa. A confecção de 500 protetores requeria uma tigela grande, cheia. Ele
não gostava de tinta comprada pronta, mas de uma que se preparava esfregando carvão com
água, dentro de uma vasilha retangular, própria para esse fim, denominada "suzuri". Dava
muito trabalho fazê-la adquirir a consistência certa para ficar brilhante.
Nessa época, o preparo da tinta era tarefa do grupo que dedicava na construção do Solo
Sagrado. Nos dias de chuva, quando os serviços externos tinham de ser interrompidos, eles
preparavam cerca de dez "suzuri" bem grandes. Era um trabalho pesado para quem quer que
fosse, e, além disso, demorado. Assim, as pessoas procuravam maneiras de torná-lo mais fácil.
Deixavam o carvão de molho na água ou então cozinhavam-no e esfregavam-no no "suzuri" ou
numa tigela-ralador, depois de amolecido. Entretanto, o Fundador logo reconhecia a tinta
preparada dessa forma e chamava a atenção da pessoa, dizendo: "É melhor esfregar o carvão no
"suzuri", pois a tinta fica brilhante. É uma tarefa cansativa, mas também é um aprimoramento
para quem a executa. "
Por volta de 1949, um dedicante resolveu inventar uma máquina para preparar tinta. Ela
funcionaria como um amolador. Ao invés de esfregar o carvão, ele teve a idéia de fixá-lo e fazer o
"suzuri" girar. Fez uma, para experiência, tendo conseguido ótimos resultados ao testá-la.
Imediatamente foi relatar ao Fundador e pedir permissão para usá-la. Mas, também nessa
ocasião, o Mestre, disse, sorrindo: Eu não sou fabricante de guarda-chuva nem de lanterna de
papel. Que idéia é essa de fazer tinta com máquina? O carvão deve ser esfregado com amor!
Principalmente a tinta destinada às letras da Imagem da Luz Divina e do protetor, que poderiam
ser chamados de vida da fé, não pode ser preparada com um pensamento tão leviano. Por mais
trabalho que dê, prepare-a com as mãos " Assim, a máquina de preparar tinta acabou não sendo
usada.
Esfregar o carvão e preparar a tinta na consistência adequada eram encargos bem difíceis,
enquanto não se estava acostumado. A consistência da tinta usada para caligrafar a Imagem da
Luz Divina e os quadros com letras escritas em sentido horizontal, era diferente daquela que se
usava para confeccionar os protetores. E não havia um medidor que a marcasse; por isso era
preciso regulá-la com o sexto sentido.
Assim que se sentava para caligrafar, o Fundador mexia ligeiramente a tinta, com o pincel, e logo
reclamava: "Hoje ela está muito grossa. " Como, na próxima tigela, o dedicante a preparasse um
pouco mais fina, ele chamava a sua atenção: "Hoje está muito fina." Aí a pessoa preparava a
tinta pela terceira vez, pensando que agora ia acertar, mas o Fundador, mexendo-a, dizia, rindo:
"Já está na hora de aprender a consistência certa. " Assim, os dedicantes novatos iam sendo
ensinados aos poucos.
Certo dia, tomando a tinta carvão como exemplo, o Fundador falou a respeito do "meio-termo":
"A tinta carvão está na consistência certa quando parece fina e grossa ao mesmo tempo. A
melhor consistência é quando não se sabe se ela está fina ou grossa. Quem consegue fazer isso é
um herói. Se dizemos a uma pessoa comum que a tinta está grossa, ela faz fina demais; se
dizemos que está fina, ela faz muito grossa. São pessoas exageradas, extremistas. A medida certa
é algo facílimo. Todos dizem que é difícil, mas não há nada tão fácil. Tudo que eu faço é assim. "
Dessa forma, o Mestre falava sobre princípios secretos da fé em conversas comuns, orientando os
dedicantes que o serviam de perto. Conhecendo seu sentimento, até o simples preparo da tinta
carvão servia de importante aprendizado para polir a fé e, também, de oportunidade para
praticá-la.
Já dissemos que o Fundador dispensava um grande cuidado aos textos que escrevia,
considerando-os como "Escrituras de Deus" Em relação às suas caligrafias, ele procedia da
mesma forma. Tinha um zelo todo especial pelas Imagens da Luz Divina, que seriam objeto de
adoração. Inicialmente, chamava um profissional para colocar-lhes moldura, adotando como
norma só outorgá-las aos fiéis depois que elas estivessem totalmente prontas.

6. AS VIVIFICAÇÕES FLORAIS

a) O AMOR PELAS FLORES

Quando jovem, o Fundador quis ser pintor e, mais tarde, profissional de "maki-e". Entretanto,
não se tornou uma coisa nem outra; seguiu o caminho da Religião. Mas continuou, durante toda
sua vida, a dispensar um grande amor à Arte, nunca deixando de apreciar as coisas belas. E
entre as coisas belas que estavam mais próximas, amou sobretudo as flores, cultivando-as em seu
jardim mesmo quando morou em casas pequenas. Depois que se mudou para o Solar da
Montanha Preciosa, cujo terreno era bem espaçoso, iniciou um verdadeiro cultivo, passando a
ter flores das quatro estações do ano. Assim, a flor se tornou inseparável de sua vida.
O Fundador fazia do tratamento das plantas uma tarefa diária. Sempre que tinha tempo, andava
pelo jardim e podava-as, tirando-lhes os galhos supérfluos e dando-lhes um belo formato. Na
época em que residia no Solar da Montanha Preciosa, além de flores, começou a vivificar árvores
e ervas do jardim em vasos e cestos. Fez uma quantidade infinita de vivificações, durante quase
vinte anos, até o final de sua vida. Com base nessa experiência, ensinou a postura com que as
flores devem ser vivificadas: "Eu jamais forço o formato das flores; vivifico-as da maneira mais
natural possível. Com isso, elas ficam bem vivas, durando bastante. Se mexermos muito, elas
morrem e perdem a graça. Sempre que vou fazer uma vivificação, idealizo antes o seu formato,
corto as flores e coloco-as imediatamente no vaso, e assim a vivificação fica mais bonita."
Para vivificar flores num vaso, o Fundador levava dois ou três minutos; quando demorava mais,
não chegava a gastar cinco. Em meia hora, vivificava mais de dez vasos. Essa rapidez era um dos
seus fortes. Freqüentemente ele dizia: "Se ficarmos perdendo tempo, a flor morre. E vivificação
feita com flores mortas não é vivificação. "
As pessoas geralmente se preocupam em saber se o material a ser empregado nas vivificações
absorve bem a água. Mas o Fundador não tinha a menor preocupação com isso. Utilizava
qualquer planta da estação. A esse respeito, ele escreveu: "É preciso conversar com as flores e
vivificar seu sentimento. Se não fizermos isso, elas não ficam contentes. Não ficando contentes,
murcham logo. As flores não gostam de ver negligenciadas as suas características, isto é, de serem
arrumadas com muita técnica, como faz a maioria das pessoas." Assim, talvez porque o
Fundador vivificasse o sentimento das flores conservando-lhes as características é que suas
vivificações duravam mais que o dobro do normal, causando surpresa a todo mundo.
Provavelmente pelo fato de não absorverem muito bem a água, o bordo e o bambu não são muito
utilizados pelas pessoas, mas o Fundador gostava de usar esse material. Mesmo que nada fizesse
no local do corte, deixando-os ao natural por três ou quatro dias, eles custavam a perder o viço.
Às vezes, o bambu chegava a durar mais de uma semana, e o bordo, cerca de duas.

Figura

O Fundador cuidando de camélias na Terra Divina, em 1953.

Os materiais empregados pelo Fundador duravam bastante, mas não apenas pelo fato de serem
vivificados em pouco tempo. Podemos dizer que a causa principal dessa duração era o poder
espiritual do Mestre, através do qual a vida das plantas era vivificada ao máximo.
O caso que se segue, aconteceu na época em que o Fundador residia no Solar da Montanha
Preciosa.
Em junho de 1940, Takato Nobumassa foi àquele local participar de uma entrevista. Como ainda
era cedo, ficou aguardando na sala de espera. Nisso, o Fundador apareceu, para fazer uma
vivificação com peônias brancas trazidas por uma dedicante. As flores estavam caídas, sem vigor;
entretanto, ele tirou-as da vasilha uma a uma e foi vivificando-as sem dificuldade. Depois que
terminou, colocou uma das mãos nas cadeiras e, envergando o corpo para trás, ficou olhando
para elas. Nesse momento, Takato viu claramente as peônias irem se erguendo pouco a pouco.
Isso levou cerca de um minuto. Ao presenciar o poder espiritual do Mestre, que tão rapidamente
fez reviver flores sem vida, ele sentiu um respeito tão grande, que ficou paralisado.
Por volta de 1951 ou 1952, o Fundador costumava vivificar as flores a cada três ou quatro dias.
No caso de estar em Hakone, ele o fazia logo depois do desjejum, numa sala da Casa de
Contemplação da Montanha, arrumada especialmente para esse fim. Um dedicante forrava uma
esteira, reunia os vasos e preparava as flores enviadas pelos fiéis e o material colhido pelo
Fundador. Este, indo para o jardim com uma tesoura na mão, escolhia as flores, cortava-as e
imediatamente as colocava na vasilha que o dedicante Ihe levava. Fazia isso para que elas
ficassem o menor tempo possível em contato com o ar. Assim, depois de colher o material
desejado, vivificava as flores de um só fôlego. Ao terminar, dizia: "Leve estas para a sala
japonesa; estas, para a sala ocidental", e assim por diante, dando instruções aos dedicantes sobre
o local onde elas deveriam ser colocadas. Nessas horas, ele parecia muito contente.
Em ocasiões especiais, as vivificações das salas japonesas do segundo andar do Museu de Arte de
Hakone e a do "toko-no-ma" do Palácio da Luz do Sol eram feitas pelo Fundador. Em tais
oportunidades, ele ia fazê-las no próprio local. Certa vez, encontrando um pé de lírio com
algumas flores num canto do Jardim de Bambus, colocou-o no ombro e subiu ao segundo andar
do museu, onde o depositou num "sobasseiji" (46) que havia preparado. Tirou duas ou três folhas
e a vivificação ficou pronta. Essas flores, aparentemente vivificadas sem muitos cuidados,
combinaram de forma esplêndida com o "toko-no-ma", dando à sala um ambiente de
inexprimível alegria.
Em outra ocasião, o Fundador vivificou, no "toko-no-ma" do Palácio da Luz do Sol, um grande
galho de magnólia silvestre das montanhas de Hakone, com algumas flores brancas, também
grandes. Usou um vaso de porcelana da mesma cor, feito por Itaya Hazan, artesão que ele
apreciava muito. De um lado, o galho estendia-se rente ao chão; do outro, fora vivificado em
direção ao céu, de forma bem esguia: Horiuti Teruko, que, tendo ido lá por casualidade, viu essa
composição, descreve-nos a emoção sentida naquele momento: "Fiquei tão impressionada com a
elegância e a altivez contidas naquela magnífica vivificação feita com magnólias, que cheguei a
suspirar. Desde então, nas horas em que estava desanimada, eu sempre me lembrava dela. E
como ela me incentivou!"
Itikawa En'nossuke, que se tornou amigo do Fundador desde a apresentação teatral que fez no
Culto do Outono de 1950, comenta suas vivificações: "O que mais me impressionou, logo que o
conheci, foram as flores que enfeitavam a sala. Sempre que eu ia visitá-lo, a seu convite, havia
flores no "toko-no-ma", vivificadas por ele mesmo. Eram vivificações diferentes das que se vêem
comumente. Tinham um aspecto harmonioso, mas apresentavam algo de especial. Talvez sua
originalidade decorresse do fato de Meishu-Sama ser uma pessoa superior; entretanto, achei que
eram realmente obras de um mestre."

b) A CAMPANHA DE FORMAÇÃO DO PARAÍSO POR MEIO DAS


FLORES

Quando o Fundador recebia uma visita, procurava agradá-la ornamentando a sala com obras de
arte que ela apreciasse. Por conseguinte, também no caso das flores, não fazia vivificações apenas
para si mesmo. Ele se deleitava com a sua beleza em companhia da família, dos fiéis e dos
visitantes. Assim, vivificava as flores com grande respeito, e por isso, em toda oportunidade,
falava sobre elas. Por exemplo: "Não há pessoas más entre as que amam as flores", "O Mal não
gosta de flores", "As flores dão boa influência ao Mundo Espiritual", etc. E elas também
serviram de tema para os seus poemas, como os que seguem:

(46)
- Vaso chinês de porcelana esmaltada das Eras Ming e Shin. Tem uma cor verde-escura um pouco amarelada.
"Quem deseja igualar-se
À beleza das flores,
Possui um coração
Que a elas se assemelha.”

"Quem desvia os olhos


Do sentimento humano,
Da lua, da neve e da flor,
Não possui espírito elevado.”

"Amar as flores
Na primavera,
E o bordo no outono,
É corresponder
Às bênçãos de Deus. "

Em maio de 1949, o Fundador escreveu um ensinamento intitulado "A Campanha de


Formação do Paraíso por meio das Flores", no qual orientou: "Vamos nos esforçar para que haja
flores no interior das residências, nos locais de trabalho, enfim, em todos os lugares onde houver
pessoas, fazendo com que, por meio delas, este mundo se transforme num Paraíso. " E não foi só.
Também mandou que se tirassem fotografias coloridas de suas vivificações. Os trinta e nove
"slides" que existem das flores vivificadas por ele, são fotografias tiradas em 1953 por Yoshioka
Yoji, posteriormente diretor do Museu de Arte de Hakone.

Figura

A altéia que o Fundador vivificou na Casa de Cerimônia de Chá Monte e Lua, por ocasião da
visita de Hashimoto Gyoin.

Entre essas fotografias, vemos vivificações coloridas, com um galho verde de bordo e pequenos
crisântemos amarelos em "nejime" (47); vivificações exuberantes, com buquê de noiva e azaléia
(Vide páginas coloridas no início do segundo volume desta obra); vivificações requintadas, de
bambu ornado com campainha; vivificações modernas, com duas tulipas num cesto, etc. As
vivificações do Fundador possuem as formas mais variadas, mas estão em perfeita harmonia com
os vasos. O conjunto é original e, ao mesmo tempo, delicado, descortinando um magnífico
mundo de beleza.

As primeiras fotos foram tiradas em 15 de março de 1953, e, na entrevista realizada


imediatamente após, o Fundador fez uma explanação cujo ponto central era o trecho que se
segue:
"Ultimamente têm aparecido vivificações esquisitas. Elas matam as flores, razão pela qual não
agradam, mesmo que o formato seja bom. Por isso, é preciso expressar ao máximo os melhores
características naturais das flores. Foi para levar ao conhecimento de todos a verdadeira forma
de vivificá-las que mandei fazer estes "slides". Seja como for, é uma forma revolucionária. Serve

(47)
- Material que se coloca na base dos ramos principais para dar graça e, ao mesmo tempo, fixá-los.
como ensinamento, mostrando a maneira como devem ser feitas as vivificações; além disso,
através das flores assim vivificadas a pessoa recebe Johrei. "
Graças a essas fotos coloridas, dezenove anos mais tarde, em 15 de junho de 1972, maravilhoso
dia do Culto do Paraíso Terrestre, foi criada a Academia Sanguetsu de Vivificação pela Flor -
herança do sentimento que o Mestre depositou nas flores.
CAPÍTULO IV

VIAGENS
MISSIONÁRIAS
1. PALESTRAS

A partir de 1950, além de difundir a Fé através do Johrei e das publicações, como vinha fazendo
até ali, o Fundador decidiu empenhar-se também na difusão direta, por meio de palestras. Para
tanto, criou-se um departamento de propaganda na Sede e, em fevereiro de 1951, realizou-se a
primeira palestra.
No local escolhido - o auditório Kyoritsu, situado em Kanda, na cidade de Tóquio - reuniram-se
mais de quatro mil espectadores. O interesse foi tão grande que, como o recinto não comportasse
tanta gente, havia pessoas do lado de fora. De pé, todos os fiéis ouviam atentamente a leitura das
palavras de saudação do Fundador, formando-se um ambiente cheio de entusiasmo.
Após a saudação de Ogussa Naoyoshi, presidente do Conselho Administrativo, Makino Joseph,
secretário da filial do periódico "The Hawaii Herald" em Tóquio, o qual fora salvo graças ao
Johrei, apresentou sua experiência de fé, manifestando o firme propósito de se dedicar à difusão
da doutrina messiânica no Havaí. A seguir, Wasseda Ryuuemon e Suzuki Shogo, respectivamente
deputado e ex-deputado estadual, subiram ao palco e relataram as experiências que tiveram
como fiéis, salientando a importante missão da Igreja Messiânica Mundial: promover a
felicidade dos homens e a paz do mundo.
A partir dessa palestra, que alcançou grande sucesso, foram realizadas outras, em diversas
regiões do Japão: em março, no auditório do Colégio Feminino Tyukyo, na cidade de Nagoya;
em maio, no Naka-no-Shima Public Hall, em Ossaka, no Edifício Saitama, em Urawa, e no
Hibiya Public Hall, em Tóquio; em setembro, nas cidades de Odate, Hanamaki e Sendai,
situadas na Região Tohoku; em outubro, nas cidades de Kumamoto, Hakata e Shimo-no-Seki;
em novembro, em Nagano e Utsunomiya. O Fundador demonstrou grande interesse por essa
atividade, quando não podia participar diretamente, sempre transmitia sua mensagem através
de um texto.

Figura

Espectadores atentos à palestra do Fundador no Hibiya Public Hall.

A palestra realizada no Hibiya Public Hall, no dia 22 de maio de 1951, merece ser lembrada na
história da Igreja Messiânica Mundial. Após as palavras sucessivas de Ito Mitio, fiel e mestre de
dança; de Tokugawa Mussei, que fez amizade com o Fundador depois de sua participação no
espetáculo teatral apresentado no Culto do Outono do ano anterior; de Suzuki Shogo e de outras
pessoas, o Mestre subiu ao palco e falou durante cerca de trinta minutos para mais de três mil
espectadores, entre fiéis e não fiéis. Essa foi a primeira palestra em que, desejoso de salvar o
mundo, ele explicava à sociedade em geral a essência dos Ensinamentos.
Descrevendo o que sentiu na ocasião, o Fundador disse: "Quando chegou a minha vez de subir
ao palco, as palavras me foram brotando naturalmente e acabei falando sem me prender ao texto
que havia preparado há muito." Assim, movido pela atmosfera reinante, ele deixou transbordar
seu sentimento, seguindo os ditames do coração.

Figura

O Fundador, no Hibiya Public Hall, falando entusiasticamente sobre o verdadeiro mundo


civilizado.
Primeiramente, apontou que este mundo em que vivemos, mergulhado na tendência unilateral
de considerar a Ciência como código de ouro, não é absolutamente o mundo civilizado pelo qual
a humanidade anseia. Em seguida, esclareceu que o Mundo Ideal, ou seja, o verdadeiro mundo
civilizado, é aquele onde os problemas da humanidade estão resolvidos, a segurança de vida é
assegurada e todos são felizes, não só espiritual como materialmente. "Para tanto"disse ele - "é
preciso que as pessoas tomem conhecimento da existência do espírito e que se desenvolva a
cultura espiritual. Com base nesse conhecimento e no desenvolvimento paralelo das duas
culturas - espiritual e material - é que surgirá a verdadeira felicidade. " Assim dizendo, o
Fundador pregou com vigor que aquela era a hora de se dar impulso à verdadeira cultura
espiritual, voltada para a existência do espírito. Indicou, ainda, que a época presente, sem
dúvida alguma, é o momento em que o Mundo Ideal está sendo construído pela Providência
Divina e que ele era o executor dessa construção. E foi além: disse, com toda convicção, que,
possuindo a Força de Deus e a Verdade, cabia-lhe a missão de criar a Nova Civilização,
encaminhando os homens à mais alta felicidade.
Nesse dia, o Fundador usava terno azul marinho e gravata vermelha, traje que combinava muito
bem com seu rosto rosado e seus cabelos brancos. O ardente desejo que ele mostrava de salvar a
humanidade, fazia-o parecer bem jovem. Foram apenas trinta minutos, mas a convicção e o
fervor religioso que transbordavam de suas palavras simples impressionaram profundamente os
espectadores.

2. VIAGENS MISSIONÁRIAS À REGIÃO KANSAI

a) A PRIMEIRA VIAGEM

A partir de maio de 1951, o Fundador começou a empreender anualmente, na primavera e no


outono, viagens missionárias à Região Tyubu e à Região Kansai. Eram viagens promovidas com
o objetivo de ministrar Johrei e fazer palestras para os fiéis dessas regiões, cada vez mais
numerosos, encaminhando-os a uma fé mais elevada e pura. Além disso, ele aproveitava tais
oportunidades para contactar não só com a essência da arte sacra, através de obras
historicamente famosas da região, principalmente de Quioto e Nara, como as construções
religiosas, as estátuas e quadros de Buda e os quadros representando Deus, mas visitava também
os jardins em estilo japonês. Portanto, eram viagens de objetivo religioso e aprimoramento
artístico, em que o Fundador saboreava e estudava a arte tradicional do Japão nos próprios
locais onde ela foi cultivada.
No dia 29 de maio, ele partiu de Atami em direção do oeste. No meio do trajeto, passou pela
Igreja Tyukyo, situada na cidade de Nagoya, onde fez uma palestra para cerca de quinhentas
pessoas, entre ministros e dirigentes de Igrejas da Região Tyubu. Em seguida, no mesmo carro
que o levara até ali, dirigiu-se para Quioto.
Passando-se por Kameyama e pelo Pico Suzuka, começa-se a divisar a Ponte Seta-no-Karahashi,
de onde se avista o Lago Biwa. É uma ponte famosa, por ser cantada em poesia desde a
antigüidade. O cair da tarde no Lago Biwa constitui uma das oito paisagens mais belas de Oumi,
e desde tempos remotos é conhecido pelo nome de "O Entardecer de Seta". Esse lugar é, ainda, a
entrada leste para Quioto.
Naquele dia, mais de cem discípulos e fiéis da Região Kansai foram recepcionar o Fundador à
beira da ponte. A partir de então, tornou-se costume recepcioná-lo aí toda vez que ele ia àquela
região.
O Mestre passou a noite numa das casas do Sr. Kimura e, no dia seguinte, percorreu vilas
imperiais, templos budistas, museus, etc. Entre outros lugares, visitou a Vila Imperial Katsura,
famosa pela beleza de seu jardim e pela técnica de sua construção, a mais elevada da arquitetura
japonesa; o Templo Saiho-ji, conhecido pelo seu jardim de musgos; o Templo Ryoan-ji, cujo
jardim de pedras lhe granjeou fama; o Mosteiro Honen, que está situado na zona leste de Quioto
e continua a seguir os ensinamentos de Honen; a Vila Imperial Shugakuin, de aspecto grandioso,
onde se utilizou topografia natural de forma magnífica, na zona norte da cidade; o Templo
Seiryo-ji, da seita Jodo, em Sagano, no qual existe uma estátua de Buda em cujo ventre foram
colocados os órgãos internos feitos de tecido; o Templo Daitoku-ji, sede da seita Daitoku-ji da
Região Rinzai, de onde saíram célebres bonzos, como Ikyu e Takuan ; a casa do empresário
Nomura Tokushiti (48), que fez fortuna em apenas uma geração e, na velhice, dedicou-se ao
mundo do Teatro No, e o Templo Nishihongan-ji, sede geral da seita Hongan, da Religião Jodo
Shinshu. No Mosteiro Honen, próximo ao Templo Guinkaku-ji, o Fundador fez duas palestras
para milhares de fiéis: uma ao meio-dia e outra às 15h 30m. No dia 31, houve outra palestra,
desta vez na Igreja Daijo, em Ossaka.
Em todos os lugares visitados pelo Fundador durante aqueles três dias, o rosto das pessoas
brilhava de felicidade - seja o das que o recepcionaram, seja o das que se reuniram para ouvir
sua palavra; inclusive, podiam-se observar alguns fiéis com as palmas das mãos unidas, em sinal
de respeito. Diante de tão pura imagem de devoção e êxtase religioso, o coração do Mestre
também transbordou de infinita alegria.
Nessa viagem missionária, além de muitos jardins famosos e templos antigos, o Fundador visitou
cinco museus: o Museu de Arte Sumitomo (atualmente Museu de Antigüidades Sen'oku), na
cidade de Quioto, cujo acervo é constituído principalmente de peças de bronze de eras antigas da
China; o Prédio Yurin, de arte chinesa, edificado pelo empresário Fuju Zensuke; o Museu
Histórico Nacional de Quioto; o Museu de Arte Municipal de Quioto e o Museu de Arte
Hakutsuru, situado em Kobe. Este último, especialmente, causou uma forte impressão ao
Fundador, que, sobre ele, registrou: "Sinto grande respeito pelo elevado discernimento do Sr.
Kano, proprietário da referida casa, falecido recentemente, com a idade de noventa anos, e pelo
seu mérito de haver colecionado somente obras de primeira qualidade. (. . .) Naquela viagem,
essa foi a melhor colheita que fiz. " O Fundador visitou o Museu de Arte Hakutsuru três vezes:
na primavera e no outono daquele ano e na prima.vera de 1953.

b) A TERRA DA TRANQÜILIDADE

Na viagem a Quioto, o Fundador captou uma importante Vontade Divina: construir, aí, o
terceiro Solo Sagrado, o qual se somaria aos de Hakone e Atami. Ele pregou a necessidade desse
Solo Sagrado com base na percepção espiritual de que, concluído o de Hakone, que representa o
Fogo, o de Atami, que representa a Água, e o de Quioto, que representa a Terra, estaria
constituída a Trindade que daria o impulso final à Obra Divina. E seus propósitos se
concretizaram na primavera de 1952, quando empreendeu a terceira viagem missionária àquela
região.
Em Sagano, local situado na parte noroeste de Quioto, existe um lago de águas abundantes e
tranqüilas, chamado Hirossawa. Desde tempos antigos considera-se que esse é um lugar ideal
para se apreciar a lua, especialmente no outono. Nessa estação, as pessoas de Quioto costumam ir
apreciá-la na beira do lago. Ao redor, no sopé das colinas que se erguem suavemente, desde as
montanhas de Mio até Atago, ainda restam paisagens campestres de épocas longínquas.
No dia 30 de abril de 1951, o Fundador visitou Sagano e, tendo gostado do local à primeira vista,
deu instruções para que se procurasse um terreno nas redondezas. No ano seguinte, em ocasião
bem propícia, foi colocada à venda uma propriedade situada próximo ao Lago Hirossawa.
Pertencia a Ussami Kanji, que se destacou muito na China, durante a guerra, e foi presidente
dos Transportes Kahoku. As negociações começaram imediatamente, mas não foram levadas
adiante, pois o preço era muito alto. No outono daquele mesmo ano, entretanto, como a família
(48)
- Primeiro presidente da Companhia Nomura de Seguros. Possuía, também,uma casa de veraneio em Atami.
Ussami estivesse necessitando de capital urgente, elas se reiniciaram, sendo a compra efetuada
sem mais delongas.
A propriedade foi adquirida um pouco antes da viagem missionária empreendida pelo Fundador
no outono de 1952. Por isso, ele deu-lhe o nome de Vila Primavera-Outono, passando, desde
então, a utilizá-la como ponto central de suas viagens à Região Kansai. Mais tarde, conseguiu-se
adquirir o terreno e a casa situados do outro lado da estrada (atual Casa Beira do Lago), e o
Fundador chamou o conjunto de "Terra da Tranqüilidade", determinando-o como terceiro Solo
Sagrado.
Misteriosamente, a afinidade do Mestre com a família Ussami não se limitou àquela
oportunidade. Em 1953, sua coleção de obras de arte foi enriquecida com a aquisição de uma
obra-prima de fama mundial pertencente à referida família. Tratava-se do "Kodan Kanyo Seiji
Taiko", vaso de porcelana verde feito na China, durante o Período Nanso, no forno administrado
pelo próprio govemo da Província Ko.

Figura

Nakamura Ebiji, em frente à Vila Primavera-Outono, recebendo instruções do Fundador


relativas à construção do jardim.

O Fundador depositava ,grandes esperanças na Terra da Tranqüilidade, localizada em Quioto,


lugar rico em matéria de cultura tradicional do Japão. Assim, em janeiro de 1953, Nakamura
Ebiji, dirigente da Igreja Shinsei, foi encarregado de dirigir a construção do jardim daquele Solo
Sagrado. Por ocasião das viagens missionárias feitas na primavera e no outono, o Fundador
sempre ia ao local, onde ouvia o relatório sobre a obra e dava diversas instruções. Nakamura,
com a colaboração dos demais dirigentes que faziam difusão na Região Kansai, colocou grande
empenho nessa construção, baseando-se nas orientações recebidas. Assim, a Terra da
Tranqüilidade foi tomando um aspecto adequado à serenidade de Sagano.
Nakamura Ebiji ingressou na Fé em 1944, quando seu filho, graças ao Johrei, ficou curado da
doença de que sofria. Recebeu aulas com Shibui Sossai e, após tornar-se fiel, começou a
ministrar Johrei em parentes e pessoas de suas relações, presenciando milagres cuja ocorrência
ele nunca pudera imaginar. Com isso, tomou a decisão de abraçar a carreira missionária.
Entretanto, pouco depois, foi convocado para a guerra, incorporando-se ao Exército. Na tropa,
continuou a ministrar Johrei ativamente e, terminado o conflito, iniciou a difusão em Ossaka.
Com seu ardor messiânico e sua grande capacidade de compreender os problemas do próximo,
em pouco tempo a difusão expandiu-se de forma espantosa, e alguns anos mais tarde ele teve a
permissão de abrir a Igreja Shinsei. Posteriormente, ocupou cargos de elevada importância,
vindo a falecer no dia 4 de dezembro de 1962, com quase cinqüenta e seis anos.

c) O TEMPLO HORYU

Nas duas viagens missionárias feitas a Quioto em 1951, o Fundador visitou os principais
monumentos da região. Na viagem a Nara, realizada na primavera de 1952, visitou o Templo
Kofuku-ji e o Santuário Kassuga Taisha, que prosperaram bastante sob a proteção dos
Fujiwara, com os quais tinham profunda afinidade. Nessa ocasião, ele esteve também no Templo
Todai-ji, a maior construção em madeira do mundo, edificada a pedido do Imperador Shomu;
no Templo Toshodai-ji, cujo fundador foi Ganjin Wajo, bonzo chinês da Era Tang que, indo para
o Japão, transmitiu os ensinamentos de Buda aos bonzos japoneses; no Templo Hokke-ji,
construído como sede dos templos de freiras do país, por ordem da Imperatriz Komyo, esposa do
Imperador Shomu, e no Templo Horyu-ji, situado na Vila Ikaruga, onde ainda se conserva a
Cultura Assuka (49).
O fato que se segue aconteceu um pouco antes da viagem a Nara, quando Kawai Teruaki,
Moriyama Jitsutaro e Iwamatsu Sakae, dirigentes de Igrejas situadas na Região Kansai, foram
inspecionar os locais que seriam visitados pelo Fundador. Os três rezaram no Santuário Kassuga
Taisha e, na volta, depois de terem combinado tudo que era necessário, sentiram-se atraídos para
o Santuário Kinryu (Dragão Dourado). Chegando lá, perceberam que estava tudo muito limpo e
viram uma jovem fazendo a limpeza sozinha. Dirigiram-lhe um leve cumprimento e, diante do
santuário, entoaram uma oração. Nisso, subitamente, ela sentou-se no chão, em visível estado de
transe. Terminada a oração, eles bateram-lhe de leve nas costas, perguntando-lhe o que
acontecera. A jovem disse, então, que morava perto de Nara e que todos os seus familiares eram
adeptos fervorosos de certa religião. Naquela manhã, rezando diante do altar, ela recebera a
seguinte ordem do Alto: "Um homem Divino que tem o grande objetivo de salvar a humanidade
virá a Nara. Antes, discípulos seus virão inspecionar a cidade. Ao entardecer eles irão ao
Santuário Kassuga Taisha, devendo passar, também, pelo Santuário Kinryu. Este lugar é pouco
freqüentado e está muito sujo; por isso vá até lá e faça uma limpeza." Assim, algumas horas
atrás ela havia começado a limpar o local.
Aquela viagem missionária não passava, então, de simples projeto, e só um número bem limitado
de pessoas tinha conhecimento dela. No entanto, um adepto de outra religião fora avisado,
antecipadamente, sobre a qualificação espiritual do Fundador, o itinerário de sua viagem e até os
preparativos que estavam sendo feitos; e tudo sem o mínimo erro. Diante dessa ocorrência,
Kawai, Moriyama e Iwamatsu sentiram-se invadidos por um grande respeito e compreenderam
ainda mais profundamente o Plano Divino e o poder do Mestre.
Moriyama Jitsutaro era um dos discípulos que sempre cuidava dos preparativos para as viagens
missionárias da época, servindo, também, de cicerone. Em 1943, um de seus tornozelos, que ele
fraturara durante a infância, inflamou, causando-lhe uma dor violenta. Sentindo-a diminuir com
Johrei ministrado por sua mãe, tornou-se fiel em setembro do mesmo ano, quando Nakajima
Issai foi à cidade de Kobe, em Mikague, para ministrar aulas e outorgar protetores. Cerca de três
anos depois, Moriyama deixou seu cargo de diretor de empresa e abraçou a carreira missionária.
Mais tarde, passou por sérias dificuldades financeiras e também por sofrimentos físicos, em
conseqüência de uma grave enfermidade; entretanto, através das entrevistas com o Fundador,
recebeu força e coragem para vencer esses problemas, tornando-se construtor dos alicerces da
futura Igreja Jisho, inaugurada em 1948. Em 1950, passou a ser um dos diretores da Igreja,
trabalhando, desde então, como encarregado das publicações. Utilizando sua experiência dentro
da sociedade e sua ampla cultura, Moriyama formou a base das atividades escritas e editoriais
da Igreja. Faleceu no dia 13 de abril de 1981, com quase setenta e oito anos.
Entre as sete viagens missionárias do Fundador à Região Kansai, merece destaque a visita ao
Pavilhão Yume, um salão octogonal situado no lado leste do Templo Horyu-ji. Este templo foi
construído no início do séc. VII pelo príncipe regente Shotoku Taishi. Segundo dizem, ele o
construiu na intenção da cura de seu pai, Yomei (585 - 587 D.C), o 31º imperador, o qual estava
doente. No Pavilhão Yume, onde ficava absorvido no estudo das leis búdicas ou lendo
interpretações das escrituras budistas trazidas da China, às vezes o príncipe Shotoku recebia
avisos de Deus.
O Fundador visitou o Templo Horyu-ji no dia 29 de abril de 1952. Sabendo que o Kusse
Kannon, imagem principal do templo, seria exposto aos visitantes, postou-se diante do Pavilhão
Yume com grande respeito. Abertas as duas bandas da porta central e também o "zushi" (50) que
(49)
- Cultura budista que floresceu principalmente na Região de Assuka, em Nara, do final do séc. VI à primeira
metade do séc. XVII.
(50)
- Móvel budista onde se guardam imagens, sutras, etc.
havia no recinto, apareceu a imagem, esculpida no Período Assuka. Dizem que ela era da altura
de Shotoku Taishi e nunca fora mostrada a ninguém, estando sempre embrulhada num pano,
como buda secreto. Justamente por isso, passados milhares de anos, não havia perdido seu brilho
dourado; os olhos semi-abertos e perspicazes olhavam silenciosamente para longe. Diante dessa
imagem, o Fundador sentiu que pouco a pouco foi diminuindo a distância entre os dois, os quais
foram se tornando um único ser. A respeito dessa experiência, ele escreveu: "Quando me coloquei
diante da Imagem de Kannon, a energia espiritual que ela emanava começou a penetrar em
mim. Era uma sensação inexprimível e eu tive vontade de chorar. Isso significa que há muito
tempo Kannon estava esperando por aquele momento. De fato, para os deuses também existe o
tempo certo. Até que este chegue, eles nada podem fazer. Kannon esperara pelo tempo certo até
então, no Pavilhão Yume do Templo Horyu-ji. "

Figura

O Fundador na visita ao Templo Horyu-ji no dia 10 de abril de 1953

d) A ÚLTIMA VIAGEM MISSIONÁRIA

No dia 10 de abril de 1954, abençoado com um bom tempo primaveril, o Fundador partiu rumo
à sétima viagem missionária à Região Kansai, tendo pernoitado na casa de Fujieda Massakazu,
responsável pela Média Igreja Meshia, situada na cidade de Nagoya.
Fujieda, cujo nome de registro era Shigueru, veio a casar-se com Itsuki, a Terceira Líder
Espiritual, tendo ocupado cargos importantes dentro da Igreja, inclusive o de Presidente. Em
1942, quando cursava a Universidade Keio Guijuku, fora acometido de tuberculose e, lutando
contra a morte, que ele via aproximar-se, ficou em tratamento durante dois anos. Em 1944,
recebendo Johrei, pôs-se a vomitar sangue repetidamente e foi salvo da situação perigosa em que
se encontrava. Cheio de alegria e emoção por ter renascido, tornou-se fiel nesse mesmo ano e
decidiu seguir a carreira sacerdotal. A partir de 1949, por determinação de Nakajima Issai,
difundiu a doutrina messiânica em Nagoya, empenhando-se com todo entusiasmo no
desbravamento dessa atividade nas Regiões Tyubu e Kansai. Com seu caráter humano, afetuoso
e fiel, Fujieda cativou o coração de grande número de pessoas e teve um papel muito importante
na expansão das atividades de difusão após a guerra. Faleceu no dia 3 de fevereiro de 1978,
véspera do Culto do Início da Primavera, aos cinqüenta e cinco anos incompletos.
No dia 11, após ter passado a noite na casa de Fujieda, o Fundador fez uma palestra para
quatro mil espectadores no Ginásio Kanayama, situado na Região Tyubu. Em seguida, partiu
para Quioto. Como de costume, foi recepcionado na Ponte Seta-no-Karahashi, pelos dirigentes
de Igrejas da Região Kansai. Quando já passavam das 18h, chegou à Vila Primavera-Outono, na
Terra da Tranqüilidade, sendo recebido por muitos fiéis.

Figura

O Fundador na palestra feita no Nara Public Hall, no dia 12 de abril de 1954, em sua última
viagem missionária.

Contam-se diversos episódios misteriosos ocorridos nessa viagem missionária, que, aliás, foi a
última. Entre eles, o que aconteceu no terceiro dia.
Atendendo ao desejo demonstrado tempos atrás, pelo Fundador de fazer uma palestra em Nara,
os dirigentes que se ocupavam dos preparativos dessa viagem tentaram alugar o Nara Public
Hall para o dia 12 de abril. Entretanto, o salão já estava alugado para essa data, e não havia, na
cidade, outro recinto que comportasse uma platéia numerosa. Vendo a necessidade de alugá-lo a
qualquer custo, eles insistiram. Ficaram, então, sabendo que uma firma de eletrodomésticos, em
combinação com seus fregueses, havia convidado um grande número de pessoas para visitarem
Nara, tendo alugado aquele salão para ali almoçarem, caso chovesse. Os dirigentes fizeram novo
pedido, prometendo que, com chuva ou sem chuva, a palestra terminaria na parte da manhã e
até a hora do almoço o local estaria desocupado. Assim, conseguiram finalmente alugá-lo.
O Nara Public Hall estava bastante estragado, de modo que, com a colaboração dos fiéis, fez-se
uma limpeza geral; trocaram-se, inclusive, os papéis de parede. Ao fim, o recinto nem parecia o
mesmo.
Todos os dirigentes locais, preocupados com o tempo, oravam para que não chovesse. Na manhã
do dia 12, porém, caiu um temporal em Quioto e em Nara. Eles sentiram um peso no coração ao
pensarem nas dificuldades que os fiéis encontrariam para participar da palestra, e na confusão
que haveria depois. Apenas o Fundador tinha um sorriso nos lábios e continuava tranqüilo como
de costume, dizendo: "O Deus Dragão (51) fará com que tudo corra bem. "
Quando o carro do Fundador, proveniente de Quioto, aproximava-se de Nara, um sol bem fraco
começou a raiar, só voltando a chover depois que ele terminou a palestra e que todos os fiéis
haviam deixado o salão.
Na tarde desse dia, o Fundador dirigiu-se para o Templo Murou-ji, situado na Vila Murou, no
Estado de Nara. Vulgarmente chamado de Altos Campos das Mulheres, ele é conhecido pelo seu
belo pagode de cinco andares, no estilo característico do final da Era Nara. Foi construído no
início da Era Heian, para cultuar Ryuketsujin, o Deus Dragão das cavernas de Murou. Nesse
velho templo dentro do mato, também ocorreram fatos misteriosos.
A visita havia sido decidida poucos dias atrás; antes de sua realização, os diretores foram ver o
local. Depois de explicarem por que o seu Líder Espiritual desejava visitar o templo,
perguntaram se ele poderia ser recebido no salão nobre. Entretanto, foi-lhes respondido: "Para
os senhores ele pode ser um Líder Espiritual muito importante, mas nós só poderemos deixá-lo
entrar no salão nobre se o reconhecermos digno dessa honraria." Sem outra alternativa, os
diretores foram embora, pensando em arranjar um local apropriado para o descanso do Mestre
naquela oportunidade.
No dia combinado, quando o Fundador chegou ao Templo Murou-ji, acompanhado de sua
comitiva, o Bonzo Responsável foi recepcioná-lo vestido cerimoniosamente e, além de
encaminhá-lo ao salão nobre, limpo e arrumado, tratou-o com a maior gentileza possível.
Achando tudo muito estranho, os dirigentes quiseram saber o que havia acontecido para aquela
mudança de pensamento. Foi-lhes dito, então, que, segundo uma lenda, o templo era protegido
pelo Deus Dragão desde os tempos antigos e, quando ele ia receber a visita de uma pessoa Divina,
começava a chover algumas horas antes. Quase no momento da chegada do visitante, a chuva
parava, e assim o terreno do templo ficava completamente purificado. Naquele dia, à hora do
almoço, ainda chovia torrencialmente, mas às 14h, quando o Fundador chegou, o sol brilhava, e
a água do Rio Murou, que corre em frente ao templo, estava límpida, mesmo depois da chuva.
Assim, eles constataram que realmente o visitante era uma pessoa Divina e por isso apressaram-
se a fazer os preparativos para recepcioná-lo adequadamente.
Caminhando pela montanha, afastada do povoado, o Fundador não se cansava de deleitar-se
com a arte budista, que ali florescera esplendidamente. No colorido entardecer primaveril, ele e
Yoshi subiram novamente no carro e partiram, encantados com o belo pagode de cinco andares.
Naquela noite, durante o jantar no Hotel Nara, o Fundador revelou uma parte do mistério que
ocorrera. "Eu estive muito contente o dia todo" - disse ele - "e talvez ninguém entenda essa
minha alegria. A chuva que hoje caiu foi mandada pelos dragões. Estes, na verdade, são deuses,
mas, em conseqüência dos pecados que cometeram, tornaram-se dragões. Eles querem ajudar a
Deus na construção do Mundo de Miroku; entretanto, na condição de dragão, não o conseguem.

(51)
- Considera-se que o Deus Dragão comanda a chuva.
Para tanto, precisam voltar à sua qualificação divina original, o que só conseguirão banhando-se
de Luz. Assim, hoje, aproveitando minha vinda a este lugar, milhares de dragões expressaram
sua gratidão com a chuva que caia à frente do meu carro. Essa gratidão é transmitida a mim, e
por isso eu me sinto tão feliz que não consigo conter as lágrimas.
No dia seguinte, 13 de abril, a comitiva do Fundador dirigiu-se para a Montanha Yoshino,
considerada um lugar sagrado de aprimoramento, tal como Kumano, em Kishu (atual Estado de
Wakayama). Na região existem muitas ruínas e correm inúmeras lendas.
Foi em Yoshino que o príncipe Oama, filho mais novo do Imperador Tenji, iniciou o famoso
levante de Jinshin, ocorrido durante a disputa pela sucessão ao trono, entre ele e seu irmão, o
príncipe Otomo.
Alguns séculos depois, Minamoto no Yoshitsune, perseguido pelas suspeitas de Yoritomo, seu
irmão mais velho, viu-se obrigado a viajar sem rumo. Durante algum tempo, esteve unido a
Shizuka, a quem amava muito; entretanto, como a perseguição se fazia intensa, acabou fugindo
para Oshu (atual Região Tohoku). Foi em Yoshino que se deu a triste despedida entre os dois
amantes.
Nos meados do século XIV, o Imperador Godaigo derrubou o governo feudal de Kamakura e
recuperou o poder, mas só governou por pouco tempo, pois foi traído por Ashikaga Takauji. Em
situação difícil, fugiu de Quioto para Nara, acabando por esconder-se em Yoshino, onde tentou
preservar o governo imperial do sul enfrentando o império do norte, erigido por Takauji.
Motoori Norinaga, autoridade, do Período Tokugawa, em literatura clássica do Japão, dedicou-
se de corpo e alma a seu estudo, procurando elucidar, através dela, os tempos antigos, a começar
pelo livro "Kojikiden". Por intermédio de sua mãe, ficou sabendo que nascera após o pedido
feito a Deus pelos pais, no Santuário Mikumari, em Yoshino. Expressou, então, o desejo de que,
após sua morte, plantassem uma cerejeira da montanha, de belo formato, em frente ao seu
túmulo.

Assim, se por um lado a Montanha Yoshino traz recordações tão tristes, por outro, ela é
conhecida pela beleza de suas inúmeras cerejeiras, que formam um só bloco, conforme consta no
testamento de Norinaga. São milhares de árvores, que, ante a aproximação da primavera,
começam a florir todas ao mesmo tempo, desde o sopé até o topo da montanha, num belíssimo
espetáculo de colorido suave. Entretanto, no ano em que o Fundador fez a sua última viagem
missionária, a primavera começou cedo e as cerejeiras de Yoshino já estavam com folhas.
Naquele 13 de abril, assim que o Fundador e seus acompanhantes começaram a subir a
montanha, os que estavam no carro da frente perceberam que o carro dele não os seguia.
Retornaram, então, apressadamente, encontrando-o parado a algumas centenas de metros, com
o capô levantado. O motorista, que averiguava o motor, não via nada de errado, só fazendo
inclinar a cabeça, como se não entendesse o que estava se passando. Nisso, o Fundador
perguntou: "Que santuário é este? E a quem cultua?" Todos viram, então, que estavam quase
em frente à entrada de um santuário. Inteirando-se de que se tratava do Santuário Yoshino, onde
é cultuado o Imperador Godaigo, o Mestre disse: "Não podemos deixar de fazer uma prece
aqui." A seguir, desceu do carro, foi até o altar e entoou uma oração.
Qual teria sido seu pensamento e que teria ele orado para o espírito daquele imperador, cujo fim
fora tão trágico? Os componentes da comitiva, dando-se conta da misteriosa afinidade que os
encaminhara para lá, seguiram os gestos do Fundador, orando contritamente. Terminada a visita
como se nada tivesse acontecido, o carro subiu a montanha com a maior facilidade.
No meio do percurso, a caminho de Naka-no-Senbon (52), logo após visitarem o Zao de
Kinpussem, que é o templo principal de Yoshino, os viajantes ouviram dizer que um pouco
adiante havia um carro atolado, e novamente pararam. O Fundador desceu
despreocupadamente e começou a percorrer, com os outros turistas, as lojas de "souvenirs" que
vão até One. Enquanto caminhava sob as árvores já despetaladas, ele provavelmente pensava no
infortúnio de Yoshitsune e na expansão do budismo naquela região montanhosa. Para os seus
acompanhantes, esses momentos tornaram-se uma lembrança inesquecível; não só porque foi o
último dia da viagem missionária à Região Kansai, mas também porque foi a última
oportunidade que a maioria deles teve de vê-lo com saúde.

3. A DIFUSÃO NO EXTERIOR

a) "SALVAR OS ESTADOS UNIDOS"

Iniciada na época em que o Fundador realizava as viagens missionárias, a difusão no exterior


teve grande expansão. Em 1950, quando a Igreja Kannon do Japão e a Igreja Miroku do Japão
foram unificadas, dando origem à Igreja Messiânica Mundial, o Mestre disse: "Até agora, a
atuação era de Kanzeon Bossatsu, sendo, portanto, de âmbito oriental. Mas, com o avanço do
tempo, é preciso dar um grande salto e salvar toda a humanidade. Assim, faz-se necessário
ampliar a atividade de salvação, tornando-a mundial. "
Um dos motivos decisivos para dar-se início à difusão mundial foi a viagem, para os Estados
Unidos, de Tatematsu Bunji, fiel da Igreja Wako, situada no Estado de Saitama. Ele viajou em
bolsa de estudos, no verão de 1951, e, durante o ano em que esteve nesse país, enviou ao
Fundador diversos relatórios sobre a incidência de doenças entre os americanos.
Há muito tempo o Fundador tinha em mira os Estados Unidos para ali dar início à difusão
mundial. Tratava-se de um país que, apesar dos seus poucos anos de história, desenvolvera
bastante a civilização ocidental, criando, em termos materiais, a mais rica civilização do mundo.
Por isso, ele achava que seria fácil notar as falhas existentes por trás do esplendor da civilização
material.
A previsão do Fundador acertou em cheio no alvo. Os relatórios de Tatematsu mostravam que o
número de pessoas acometidas de câncer, doenças do coração e até tuberculose era cada vez
maior na sociedade americana. Para salvar os Estados Unidos dessa situação periclitante,
corrigindo os erros da civilização contemporânea, o Fundador decidiu editar a obra intitulada
"Salvar os Estados Unidos", a qual foi anunciada nas páginas de propaganda dos jornais e
vendida ao público em geral através das livrarias de todo o país. Devemos dizer que o título era
extremamente chamativo, pois o Japão havia perdido a guerra para esse país e lograra reerguer-
se a muito custo, graças à sua ajuda; além disso, conseguindo a tão desejada independência em
1952, mal acabara de entrar para a sociedade internacional. Psicologicamente falando, estava-se
numa época em que havia aumentado o sentimento de inferioridade em relação ao Ocidente,
surgido desde a Era Meiji; no que se refere aos Estados Unidos, esse sentimento chegava a ser até
ridículo. Ora, numa época assim, a publicação de um livro com aquele título era totalmente
inesperada, tendo despertado grande curiosidade na sociedade japonesa.
A escolha dos Estados Unidos, entre tantos outros países, e o ardente empenho do Fundador na
difusão da doutrina messiânica em território americano, tiveram por base um profundo
(52)
- O sopé da Montanha Yoshino é denominado Senbonguti e, à medida que se vai subindo, a montanha recebe os
nomes Kuti-no-Senbon, Naka-no-Senbon e Oku-no-Senbon. Em Naka-no-Senbon existem muitas hospedarias,
constituindo o ponto de mais movimento.
significado espiritual. A esse respeito ele disse, tempos depois: "O representante da cultura
materialista - a cultura horizontal - é os Estados Unidos; o representante da cultura espiritualista
- a cultura vertical - é o Japão. A união do vertical e do horizontal é que dará origem à
verdadeira cultura. Assim sendo, a tarefa mais importante é unir a cultura americana e a
japonesa.

b) A PRIMEIRA PEDRA DA DIFUSÃO

Desde o ano de 1950 o Fundador dizia: "Vou entregar a difusão nos Estados Unidos à Sra.
Higuti. " Formada em inglês pela Universidade Feminina de Tóquio, Higuti Kiyoko foi
professora conferencista da Universidade Feminina Nipon e durante longo tempo esteve ligada
ao ensino da língua inglesa. Em 1944, encaminhada pela Afinidade Divina, tornou-se fiel,
decidindo seguir a carreira missionária. Viveu unicamente para a difusão; na época, dedicava-se
a essa atividade dentro do Japão, como dirigente da Igreja Niko.
No início, Higuti não conseguia acreditar nas palavras do Fundador, achando que tudo não
passava de um sonho. Um ano depois, entretanto, chegou à sede da Igreja Messiânica Mundial
uma carta vinda do Havaí, a qual lhe foi entregue, para que a lesse. Nela, uma senhora que se
tornara fiel no Japão em 1950, dizia estar obtendo curas de doenças umas após outras, com a
ministração de Johrei; em conseqüência disso, havia muitas pessoas desejando ingressar na Fé.
Com a permissão do Fundador, Higuti logo começou a dar-lhe orientação por correspondência,
tendo enviado protetores por via aérea. Formaram-se, assim, uns trinta fiéis. Todavia, como
continuavam aparecendo pessoas que desejavam filiar-se à Igreja, ficou difícil dar conta do
trabalho apenas por troca de cartas.
Portanto, algo que até um ano atrás parecia um sonho, foi se tornando realidade. Higuti sentiu
uma profunda emoção ao ver as palavras do Fundador concretizadas sem o menor erro. Além
disso, bem nessa época chegaram cartas de Los Angeles esperando pela Mão Salvadora, e, dessa
forma, o Protetor da Salvação do Mundo foi enviado também para o continente.
Por determinação do Fundador, ficou decidido que iriam para o Havaí a Ministro Higuti Kiyoko
e o Ministro Ajiki Haruhiko. Entretanto, na época, a entrada de estrangeiros nos Estados Unidos
ainda era controlada rigorosamente e o governo americano fazia restrições em relação às novas
religiões de outros países. Assim, estava difícil os dois ministros conseguirem permissão para
entrar no país. Certo dia, Higuti, cujo desejo de partir o quanto antes e levar a Luz de Deus às
pessoas sofredoras era cada vez maior, relatou ao Fundador as dificuldades encontradas. Ele,
então, disse calmamente, sem dar muita importância ao caso: "Isso está acontecendo,
obviamente, porque existe alguma coisa atrapalhando. Como se trata de uma grande
transformação, pois é a primeira vez que a Verdadeira Luz será irradiada no Mundo Espiritual
do Ocidente, a oposição de Satanás é terrível, sabe? Mas Deus já decidiu; por isso não há com
que se preocupar. Com certeza é preciso esperar o próximo ano e a passagem do Dia do Início da
Primavera, pois esse dia é um marco de grandes mudanças. " Ao ouvir essas palavras, ela sentiu
que no seu coração soprava uma brisa primaveril e que fora purificada.
Durante os preparativos para a viagem, Higuti teve febre alta, sentindo-se muito mal. Por isso,
foi diversas vezes receber Johrei com o Fundador, que, nessas oportunidades, orientou-a sobre a
maneira como deveria desenvolver a difusão americana. Um dia, ele falou: "Primeiramente vá
para o Havaí e depois para o continente." Higuti disse que sim, mas, no fundo, sentia-se
insegura. Sua própria fraqueza e o tamanho dos Estados Unidos pesavam-lhe muito na
consciência. Na época, o simples fato de um habitante de país vencido na guerra ir para lá, era
motivo de profunda reflexão. Assim, quanto mais ela meditava sobre a importância de sua
missão, mais preocupada ficava, sem saber se conseguiria executá-la. Como que enxergando essa
preocupação, o Fundador incentivou-a: "Da parte de Deus, há muito tempo já está decidido que
você irá para os Estados Unidos. Agora chegou o momento em que isso vai se concretizar.
Portanto, como Deus está encaminhando tudo, você não precisa preocupar-se tanto. "
Ajiki Haruhiko, que acompanhou Higuti ao Havaí, foi receber Johrei do Fundador pouco antes
de partir. Chegando bem perto dele, quase que encostando joelho com joelho, o Mestre lhe disse,
enquanto ministrava Johrei em cima de sua cabeça: "Levando-se ao conhecimento das pessoas
do mundo inteiro os malefícios causados pelos medicamentos e os tóxicos contidos nos remédios,
o mundo será salvo, sabe? A salvação da humanidade depende unicamente disso." Ajiki havia
lido muitas palavras semelhantes, nos Ensinamentos do Fundador, mas estas, ouvidas
diretamente dele, penetraram intensa e profundamente em seu coração.

c) ENVOLVIDO PELO AMOR

Os problemas relativos à viagem de Higuti e Ajiki para os Estados Unidos foram rapidamente
resolvidos no começo de fevereiro de 1953, conforme o Fundador havia previsto, e no dia 11 desse
mesmo mês eles partiram rumo ao Havaí.
Com a chegada dos dois ministros, a difusão cresceu surpreendentemente. Menos de um ano
depois, o número de fiéis já se elevava a mil e quinhentos. Em agosto do mesmo ano, o governo
daquele Estado americano concedeu permissão para instituir-se a Igreja como pessoa jurídica, e,
em fevereiro de 1954, foi concluído um templo com a capacidade para mil pessoas, na cidade de
Honolulu. No dia de sua inauguração, setecentas pessoas participaram da solenidade, segundo
noticiou o jornal "Eiko" naquela oportunidade. Higuti sempre escrevia relatando o crescimento
da difusão, e suas cartas, publicadas nesse jornal sob o título "Notícias do Havaí",
proporcionavam grandes emoções aos fiéis de todo o Japão.
Na mesma época em que Higuti e Ajiki partiram para o Havaí, o pintor Arashi Tomoshigue foi
para Los Angeles, a convite do prefeito da cidade. Arashi tivera seu filho salvo de uma
purificação em 1944 e desde então professava uma fé ardorosa. Em Los Angeles, ele começou a
fazer difusão da Fé Messiânica como Ministro Substituto, tendo encaminhado cerca de vinte
pessoas em apenas seis meses. Higuti esteve lá diversas vezes, para dar-lhe apoio; em algumas
oportunidades, demorou bastante tempo. Em maio de 1954, ela e Arashi fizeram o pedido de
instituição de pessoa jurídica para a Igreja no Estado da Califórnia; em junho, compraram uma
casa, a fim de utilizá-la como sede das atividades, e, em outubro, receberam a autorização. Em
novembro de 1955, Higuti tornou-se Ministro Responsável da Igreja de Los Angeles. Assim, os
alicerces da Igreja nesta cidade foram sendo edificados com passos firmes.

Figura

Higuti Kiyoko e Ajiki Haruhiko partindo para o Havaí no Aeroporto de Haneda, Tóquio.

Entretanto, o caminhar da difusão no continente e no Havaí - primeira etapa da difusão no


exterior - nem sempre foi suave. Todas as vezes que se lhe deparavam muitos problemas e tarefas
difíceis, Higuti procurava apoio nas orientações do Fundador. O fato que se segue aconteceu
antes da construção da Igreja de Honolulu.
Com o crescente aumento do número de fiéis, em decorrência dos milagres ocorridos
diariamente, as Ofertas de Gratidão também começaram a aumentar. Exatamente nessa época,
estava se desenvolvendo, em larga escala, a construção da Terra Celestial de Atami. Achando que
colocar a construção do Solo Sagrado em primeiro plano era a base da salvação do mundo,
Higuti desejava utilizar nela o dinheiro ofertado pelos havaianos. Estes, entretanto, ansiavam
construir uma igreja no arquipélago, de modo que ela ficou muito indecisa, sem saber qual era o
procedimento correto. Consultando o Fundador, recebeu dele a seguinte orientação: "Cada
pessoa tem uma missão. Você não precisa se preocupar com dinheiro. Lembre-se de que todas as
riquezas do mundo pertencem a Deus. Para a Sede, Ele envia a quantia necessária através de
pessoas sinceras. Quando o tempo chegar e os fiéis começarem a entender a Verdade, será
surpreendente. Ao invés de se ocupar dessas coisas, pense em salvar logo o mundo. Por isso, faça
o que as pessoas estão querendo e tranqüilize-as. Compre logo um terreno, construa uma casa e
mostre a elas, de forma concreta, que as Ofertas de Gratidão estão sendo usadas aí mesmo.
Assim, elas verão que o nosso objetivo é salvar as criaturas, e não, juntar dinheiro. "

Figura

A situação da difusão no Havaí, publicada nas páginas do jornal "Eiko"

Ouvindo essas palavras cheias de amor ditas pelo Mestre, que sabia separar muito bem a
Vontade de Deus e o desejo das pessoas, Higuti desatou a chorar, de tanta emoção.

CAPÍTULO V

APÓS O FLORIR, A
FRUTIFICAÇÃO
1. A VINDA DO MESSIAS
a) PURIFICAÇÃO DETERMINADA POR DEUS

No dia 14 de abril de 1954, ao término da sétima viagem missionária à Região Kansai, o


Fundador retornou a Atami. Do dia 15 ao dia 17, tiveram prosseguimento as entrevistas com os
fiéis na Sede Provisória de Sakimi, sem ele mostrar o menor cansaço pela longa viagem. A
"Exposição de Obras-Primas de Pinturas Ukiyo-E", que estava sendo realizada na matriz da
Loja Mitsukoshi, em Nihon-Bashi, desde o dia 9 de abril - véspera da partida do Fundador para
a viagem missionária - terminou no dia 18 com pleno êxito, recebendo 143.500 visitantes.
Quando Ihe entregaram esse relatório, ele ficou muito contente.
Por volta das 14h do dia 19, ocorreu um fato que ninguém previa. Enquanto organizava as obras
de arte que colecionara, o Fundador sentiu-se mal repentinamente, caindo de cama com
sintomas de derrame cerebral. Seu estado inspirava cuidados, mas no quinto dia ele já conseguia
ficar sentado no leito.
O Mestre viera desenvolvendo as atividades da Obra Divina com os minutos contados, desde que
acordava, às 7h 45m, até às 2h da madrugada; a partir dessa purificação, entretanto, ele
procurou descansar, abandonando todas as tarefas, tais como escrever a matéria para os órgãos
informativos, fazer caligrafias e realizar entrevistas. Até então, estas eram feitas nos dias de final
5, 6 e 7; nove dias ao mês, portanto. Sem condição de dar prosseguimento a essa atividade e
muito preocupado com os fiéis, o Fundador mandou gravar uma mensagem para ser transmitida
a eles. Dizendo que sua purificação fora determinada por Deus e tinha um importante
significado na Obra Divina, pedia-lhes que continuassem dedicando com tranqüilidade. Ao
tomarem conhecimento de que ele estava acamado, por algum tempo os fiéis sentiram o coração
apertado, mas, ouvindo suas palavras, recobraram a calma.
Durante essa purificação, o Fundador passou dias seguidos com intensas dores na cabeça e nos
pés, não conseguindo alimentar-se nem dormir à noite. No quinto dia, estava dormindo um sono
leve, quando repentinamente acordou em prantos, chegando até a soluçar. Assustada, Ota Rei,
que se encontrava ao seu lado, perguntou-Ihe se estava se sentindo mal, ao que ele respondeu:
"Não, não estou. É que acabei de ver a situação do Fim do Mundo. É bem pior do que eu
imaginava e por isso me sinto muito triste. Afinal, quem mais sofre com a destruição da
humanidade é Deus, sabe?"
A tia de Yoshi e o dedicante que estava perto ficaram profundamente emocionados com o
sentimento do Fundador, que, mesmo purificando, ainda assim se preocupava com o destino da
humanidade.
Quando o Mestre entrou em purificação, as construções básicas da Terra Celestial já haviam
terminado. Em outubro de 1953, realizara-se o Culto da Cumeeira do Templo Messiânico e, em
junho de 1954, as linhas externas do templo, projetadas por ele em estilo Le Corbusier,
começaram a mostrar sua figura majestosa, só faltando o acabamento interno. Naquele mesmo
mês foi realizado, no Monte Paisagem, o Culto de Consagração do Terreno do Palácio de Cristal.

b) CERIMÔNIA DE COMEMORAÇÃO PROVISÓRIA DA VINDA DO


MESSIAS
Nesse ínterim, ocorreram transformações misteriosas no corpo físico do Fundador, entre as
quais o aparecimento de cinco linhas verticais, nitidamente marcadas, na palma de sua mão
esquerda, desde a ponta dos dedos até a base da mão. Como achasse muito estranho, um dos
dedicantes que o serviam diretamente comentou o fato com um fisionomista que se dedicara a
esses estudos durante longos anos, perguntando-lhe o seu significado. O fisionomista chegou à
seguinte conclusão: "Significa a vinda de Deus". Durante sua purificação, às vezes o Mestre
ficava olhando fixamente para aquelas linhas, dando a impressão de ter descoberto nelas um
sentido muito profundo.

Figura

A primeira entrevista com os dirigentes de Igreja após a purificação

O segundo fenômeno misterioso relaciona-se aos cabelos do Fundador. Desde jovem, como já
dissemos, ele possuía cabelos completamente brancos, quase cor de prata. Pois ao mesmo tempo
em que lhe surgiram as linhas na palma da mão, começaram a nascer-Ihe fios de cabelo preto
como de criança na parte posterior da cabeça, em três locais. O barbeiro Saegussa, que
trabalhava nessa profissão há mais de vinte anos, disse nunca ter visto um caso semelhante.
No dia 5 de junho, os dirigentes de Igrejas e os principais ministros foram chamados ao Solar da
Nuvem Esmeralda, em Atami, para uma breve entrevista com o Fundador; era a primeira, desde
o início de sua purificação, em abril. Nessa ocasião, ele disse: "Fala-se sobre a vinda do Messias.
não? Pois o Messias (53) nasceu. Não são apenas palavras; é realidade mesmo. Eu próprio fiquei
surpreso. E não se trata de renascer, mas de nascer novamente. É esquisito nascer depois de
velho, mas o mais interessante é que minha pele ficou delicada como a pele de um bebê e, além
disso, como podem constatar, surgiram-me estes cabelos pretos. Ao vê-los, o barbeiro disse que
parecem cabelo de criança. Os fios brancos foram sumindo gradativamente e só nasciam fios
pretos. (. . .) Esse Messias tem a posição mais elevada na hierarquia do mundo. No Ocidente, ele
é considerado o Rei dos Reis. Assim, a minha vinda se reveste da maior importância, pois, graças
a ela, a humanidade será salva. "
Dez dias depois, ou seja, em 15 de junho de 1954, foi solenemente realizada no Templo
Messiânico, que estava noventa por cento pronto, a Cerimônia de Comemoração Provisória da
Vinda do Messias. Nesse dia, o estado do Fundador não era bom, tendo ele subido ao Altar com
muito custo, ajudado por terceiros. Como ficaram sabendo que poderiam encontrá-lo, depois de
dois meses sem vê-lo, os fiéis ali se reuniram em número superior a dez mil, provenientes de todo
o país. Era a primeira vez que o Mestre aparecia em público desde o início de sua purificação.
Estava todo vestido de branco e fez uma saudação bem simples. Nessa oportunidade, o
Presidente da Igreja, Okussa Naoyoshi, comunicou aos presentes a deliberação de chamá-lo, dali
em diante, pelo nome Meshia-Sama (Messias) e não mais Meishu-Sama.
Após dois meses de purificação, o Fundador sentira-se firmemente convicto de que era hora
de mostrar abertamente a Verdade, ou seja, que ele viera ao mundo com a missão de salvá-lo.
Achou que os fenômenos misteriosos representados pelas linhas que lhe apareceram na mão e
pela mudança observada em seu cabelo indicavam a chegada desse momento. Assim, nos dois
meses que sucederam a Comemoração Provisória da Vinda do Messias, revelou a toda a
sociedade o advento do Salvador do Mundo, apresentando-se ele próprio como sendo o Messias.
figura
O Fundador na Cerimônia de Comemoração Provisória da Vinda do Messias
Em várias oportunidades o Fundador havia se referido ao termo "Messias". Na entrevista
realizada em setembro de 1948, por exemplo, dissera, em resposta a uma pergunta: "Essa
palavra é hebraica e por isso é um pouco difícil de ser entendida em japonês. Significa "Senhor
da Salvação do Mundo", ou, simplesmente, "Salvador". Os cristãos acreditam que Jesus Cristo é
o Salvador, mas, na verdade, ele é o Senhor da Redenção, o que é bem diferente de "Senhor da
Salvação do Mundo". Redentor é aquele que redimiu os pecados de todos os povos; tornando-se
(53)
- Relacionando-se ao conceito cristão e judaico de Fim do Mundo (semelhante ao conceito budista de Fim das
Leis), surgirá um Salvador que salvará o mundo e o fará renascer. Esse Salvador é chamado de Messias; no
budismo, segundo se presume, corresponde a "Mirokubutsu".
representante desses pecados, sacrificou sua vida para ser perdoado. Salvador não é aquele que é
perdoado, e sim o que perdoa. Bem, darei maiores explicações com o passar do tempo."
Essa interpretação, na qual nenhum especialista em judaísmo e cristianismo chegara a pensar,
era resultado de uma assimilação total do significado do termo. Com base na convicção de que o
Fundador era o Messias, nossa Igreja, durante certo tempo, foi denominada Igreja Messias
Mundial. Sobre o assunto ele compôs um grande número de poemas, dos quais transcrevemos
três:
"Kanzeon Bossatsu,
O nome da Grande Piedade,
É sinônimo de Messias. "

"Que alegria
Adorar o Messias
Que desce envolto em Luz,
Às vozes de Aleluia!"

"Grande Messias
É o sagrado nome
Daquele que promoverá a salvação
No Fim do Mundo!"

Ainda a propósito do assunto, o Fundador referiu-se diversas vezes ao oratório intitulado


"Messias", da autoria de Hendel, compositor alemão (1685 - 1759). É desnecessário dar maiores
esclarecimentos a respeito dessa música, pois se trata de uma obra mundialmente famosa, mas
dizem que, no primeiro concerto em que ela foi executada, o Rei da Inglaterra tirou o chapéu,
gesto que, a partir daí, se tornou uma tradição. Outra composição a que o Fundador não
poupava elogios, é o conhecidíssimo coral "Aleluia", sobre o qual dizia: "Foi preparado por
Deus." Aliás, ele chegou a instalar um "box" de orquestra dentro do Templo Messiânico, para a
realização de concertos.
Depois que o Fundador passou a ser chamado de Messias, suas orientações diárias tornaram-se
ainda mais rigorosas. Assim que entrou em purificação, ele falou a um dedicante: "Daqui para
frente será o Mundo do Espírito, o Mundo do Pensamento. Enquanto o corpo físico está em
movimento, a ação é limitada. É quando o corpo já não se move que dá para se fazer um grande
trabalho. " Na época, frisou repetidas vezes que os fiéis deveriam voltar seus corações para ele,
procurando captar seu sentimento.
O Fundador sempre fora rigoroso em relação às faltas cometidas pelos dedicantes, tais como
mentir, mistificar e transferir a responsabilidade dos erros para outrem. Após a purificação,
entretanto, seu rigor tornou-se ainda maior; ele chamava a atenção e repreendia até as falhas
mais insignificantes. E agia assim não só com os servidores, mas também com Yoshi, a quem
dava orientações bastante severas.
Após a Cerimônia de Comemoração Provisória da Vinda do Messias, realizada no dia 15 de
junho, o Fundador transferiu-se para Hakone, conforme fazia todos os anos. Enquanto
convalescia, ocupava o seu tempo inspecionando o andamento da construção que tanto o
preocupava, apreciando as obras de arte, etc. Como tinha dificuldade de caminhar, usava uma
cadeira de rodas, e, todos os dias, ao entardecer, dava uma volta pela Terra Divina e pelo Museu,
o que era uma grande alegria para ele. Na época, todos os locais onde havia degraus de pedra
foram forrados com tábuas, para que a cadeira de rodas pudesse passar com facilidade.
Os musgos enviados pelos fiéis de todo o Japão haviam criado raízes firmes, e o Jardim dos
Musgos, muito original, sem outro que o igualasse, já estava concluído. Do outro lado dos trilhos
do bondinho que parte de Gora, no local denominado Colina Komyo, começara-se a preparar o
terreno para construir o santuário fundamental da nossa Igreja — o Santuário da Divina Luz.
Devido às dores que sentia e à falta de apetite, o Fundador estava abatido, mas seu entusiasmo
pela Obra Divina era ainda maior do que antes. Da cadeira de rodas, dirigia seu aguçado olhar
para todos os cantos e continuava dando orientações precisas. Depois que se transferiu para
Hakone, esteve um pouco melhor durante algum tempo, chegando mesmo a dar alguns passos no
Palácio da· Luz do Sol. Entretanto, a alteração de seu estado era muito acentuada. Por diversas
vezes ele perdeu totalmente o apetite e foi acometido de dores violentas. Numa dessas crises,
chamou Yoshi e Ihe disse: "Se eu continuar como estou, sem conseguir comer, em breve deixarei
este mundo. . . "

Figura

A cadeira de rodas usada pelo Fundador

Nessa época, mesmo quando estava passando mal, o Fundador examinava diariamente as obras
de arte, escolhendo ele mesmo aquelas que seriam expostas.
O fato que se segue aconteceu no dia 6 de setembro. O Fundador estava na Casa de
Contemplação da Montanha, olhando para a caligrafia do Mestre Daitokoku. Desde que entrara
em purificação, ele nunca se sentira tão bem como nesse dia. De repente, disse: "Sinto que a
minha mão direita é minha. " Logo em seguida, mandou que Yoshi e um servidor lhe tocassem
essa mão, para se certificarem de que ela estava se movendo melhor que de costume. Nisso, sua
região abdominal começou a roncar fortemente. Ao ouvir o ronco, o Fundador exclamou: "É
isso! É isso!" E, demonstrando estar realmente alegre, acrescentou: "Como é gratificante ter a
permissão de dissolver este bolo assim tão rápido! Já era tempo, não? Logo vou ficar bom. Olhe,
uma grande parte já foi dissolvida. Quando ele se dissolver por completo, será maravilhoso!"
Yoshi e sua tia Rei alegraram-se também, dizendo: "Vai ficar bom logo, logo! E quando Rei
prognosticou que em breve ele poderia fumar de novo, o Fundador pegou um cigarro, abriu bem
a boca e tentou segurá-lo com os lábios. Ao perceber sua dificuldade, Yoshi envergou a ponta do
cigarro, de modo a facilitar-lhe o trabalho. Aproximando novamente o cigarro do rosto, ele
conseguiu segurá-lo, com uma exclamação de alegria: "Que bom! Que bom!" Rei, vendo-o tão
contente, felicitou-o com um largo sorriso.
Embora estivesse purificando, às vezes o Fundador fazia um pouco de humor ao orientar os
dedicantes. No dia 18 de setembro, por exemplo, noticiava-se a aproximação de um tufão. Apesar
do vento forte, o Mestre ocupava-se das obras de arte, como de costume. Quando estava
colocando no "toko-no-ma" uns "jiku-mono" (pinturas e caligrafias em rolo de Yokoyama
Taikan e Hashimoto Kansetsu, perguntou a um dedicante: "Ainda não há previsões sobre o
tufão?" Em face da resposta que recebeu - "Eu estava pensando em lhe falar sobre isso neste
momento" - disse: "De nada adianta ficar só pensando. Suponhamos que eu estou pensando em
dar-Ihe um anel. Muito bem, agradeça pelo anel!" E riu. Nessa hora, outro servidor, pegando
apenas o final da conversa, falou: "Estou tão agradecido que não sei como lhe expressar minha
gratidão", e todos caíram na gargalhada.
Durante sua convalescença em Hakone, o Fundador ficou instalado na Casa de Contemplação da
Montanha. Daí, certo dia, apontando para o local onde estão atualmente os Sepulcros Sagrados,
comentou: "Em breve estarei residindo ali para sempre." Imaginando simplesmente que talvez
ele pretendesse construir uma casa nova naquele local, o dedicante que estava ao seu lado não
teve a menor preocupação. É muito provável, entretanto, que, nessa hora, o Fundador já
estivesse pressentindo que ia morrer. Não seria por isso que ele apressava a Obra Divina,
esforçando-se para inspecionar as obras apesar do estado em que estava, e para ler diariamente
os relatórios sobre a situação da Igreja e da sociedade?
A respeito do lugar onde estão os Sepulcros Sagrados, o Fundador já havia feito um prognóstico
logo depois da guerra. No ano de 1946 ou 1947, Araya Otomatsu, que fazia difusão na Região
Tohoku, foi a Hakone, levando uns fiéis para a entrevista. O Mestre mostrou-lhe pessoalmente a
Terra Divina, cuja construção já tivera início. Chegando àquele local, disse a Araya: "Aqui será
minha morada eterna, sabe?"

Figura

O Fundador na entrevista concedida à Imprensa no Templo Messiânico

Entre o verão e o outono de 1954, enquanto o Fundador descansava em Hakone, começaram a


correr diversos boatos. No início de setembro, os jornais publicaram notícias sobre sua morte.
Boatos geravam boatos, tudo indicando que a situação não ia parar ali. Assim que ele retornou a
Atami, preocupado com os fiéis, convidou representantes dos jornais "Assahi", "Mainiti",
"Yomiuri" e jornais da cidade, e deu-Ihes uma entrevista no dia 9 de novembro, desfazendo
todas as dúvidas.
Entretanto, o estado de saúde do Fundador, que parecia relativamente melhor no início do verão,
não se apresentava muito bom no dia da entrevista. No dia 3 de novembro, logo depois que ele
voltou para Atami, consta, em seu diário, o seguinte registro, feito por um dedicante: "Total falta
de apetite. Por volta das 10 horas, eu pedi à minha esposa que chamasse sua tia, pois queria
conversar com ambas, inclusive sobre questões relativas a testamento."

Figura

Artigos de jornais noticiando o estado do Fundador

Anteriormente, por ocasião de algumas entrevistas com os fiéis, o Fundador suportara dores de
dente muito fortes, mantendo diante deles a atitude de sempre. Durante a entrevista com a
Imprensa, naquele dia, em plena purificação, ele também não deu a menor mostra do que estava
sentindo, tendo posado sorridente para as câmeras. Agiu assim para não preocupar as pessoas e,
especialmente, pelo zelo de não se tornar um empecilho para o andamento da Obra Divina.

c) O PALÁCIO DE CRISTAL E A COLUNA DE LUZ

Já dissemos que o Palácio de Cristal começou a ser construído no dia 17 de setembro de 1954.
Como o Fundador quis apressar-lhe a conclusão, a obra foi realizada dia e noite e, em menos de
três meses, em cima do Monte Paisagem, tendo abaixo a Colina das Azaléias, erguia-se uma
construção toda peculiar, com o formato da metade de uma esfera. Daí, tem-se um panorama
maravilhoso, podendo-se avistar, como se estivéssemos vendo um quadro, a magnífica paisagem
que se estende da Baía de Atami até o longínquo Izu, Sagami e Bosso.

"O mundo onde não é possível


Ocultar nenhum crime ou pecado,
Chama-se Mundo Cristalino. "

No poema transcrito, o Fundador referiu-se ao Mundo Ideal com a expressão "Mundo


Cristalino", por ser o cristal um corpo que não possui impurezas. Pela mesma razão, deu ao
prédio, concluído no dia 11 de dezembro, o nome de Palácio de Cristal, tomando-o como símbolo
do Mundo Ideal.
Naquele dia, o Fundador deixou o Solar da Nuvem Esmeralda e dirigiu-se para o Palácio de
Cristal, onde passou a noite. Chamou, então, os dirigentes e, antecipando-lhes que seria breve,
disse: "Finalmente entramos no verdadeiro eixo da Obra Divina. Daqui para frente acontecerão
muitos fatos estranhos, por isso não vacilem. . . " Em seguida, Abe Seizo, seu secretário,
sintetizou os objetivos daquela construção, salientando dois pontos. Em primeiro lugar, que o
Palácio de Cristal fora construído por Ordem de Deus como protótipo do Paraíso Terrestre e,
assim, jamais poderia ser exclusividade da Igreja. O Fundador queria que o maior número
possível de pessoas se deleitasse com aquela paisagem pitoresca, verdadeira dádiva dos céus. Em
segundo lugar, que a estrutura da Igreja seria reformulada e, portanto, só deveriam ser
escolhidos para a ordenação sacerdotal elementos humanos qualificados com base em três
pontos: grande força de Johrei, capacidade de salvar e converter muitas pessoas e prestação de
relevantes serviços a Deus.

Figura

Interior do Palácio de Cristal no dia 11 de dezembro de 1954, vendo-se o microfone instalado


para a entrevista do Fundador com os dirigentes da Igreja.

Os fiéis que se reuniram na Terra Celestial com o objetivo de recepcionar o Fundador, não
sentiram vontade de ir embora nem mesmo quando ele entrou no Palácio de Cristal, às 13h; cada
um ficou no lugar onde achava melhor. Exatamente nessa hora, começou a subir do canto do
acrílico, na parte sul do prédio, algo semelhante a uma névoa branca, que, pouco a pouco, ia
emitindo um brilho dourado. Enquanto algumas pessoas que perceberam o fenômeno gritavam:
"Olhem! É Luz! É Luz!", aquela luminosidade foi se expandindo até envolver todo o Palácio.
Nisso, bem no centro, apareceu nitidamente uma gigantesca Coluna de Luz, lançando magníficos
raios brancos em direção ao céu. Katsuno Massahissa, que mais tarde se tornou dirigente da
Igreja Komyo, assim descreveu a ocorrência:
"Terminada a recepção ao Fundador, eu ia seguindo em direção ao Palácio de Cristal, pelo
caminho íngreme situado do lado leste da Colina das Azaléias. Por causa das plantas, não
conseguia enxergá-lo do lugar onde estava, mas, subitamente, ouvi gritarem: "Olhem! É Luz!. .
." Olhando para cima, vi, no centro do telhado do Palácio de Cristal e um pouco para a esquerda
(lado do Templo Messiânico), uma Luz bem forte cujos raios, formando como que uma coluna,
alcançavam o céu, brilhando ofuscantemente. Fiquei realmente impressionado. Os fiéis que me
acompanhavam também puderam ver o fenômeno, o qual durou apenas alguns instantes, talvez
dois ou três minutos. Foi um breve espaço de tempo, mas ainda me lembro como se fosse hoje.
O aspecto majestoso daquela Coluna de Luz era algo não só emocionante mas irresistível, que fez
com que eu me curvasse. Na ocasião, eu estava sofrendo muito, devido a um problema de
relacionamento humano, mas, com o grande milagre ocorrido nesse dia, meu sofrimento voou
para longe. E não foi só. Essa experiência é, até hoje, o sustentáculo de minha fé. "
No Culto do Natalício do Fundador, em 23 de dezembro, ele esteve presente, o que já não
acontecia desde a Cerimônia de Comemoração Provisória da Vinda do Messias, seis meses antes.
Por aqueles dias seu estado físico era relativamente bom e, na véspera, ele chegara até ficar em
pé sem ajuda de ninguém. No dia 25, falou: "Meu corpo começou a ganhar forças. "
Depois que entrara em purificação, o Fundador pedira aos fiéis para enviarem salmos, dizendo-
lhes: "Os salmos, na verdade, devem ser feitos e oferecidos pelos fiéis, e não por mim. " Assim, no
Culto comemorativo do seu 72o. natalício, foram entoados, em forma de salmo, quatro poemas
compostos por Yoshi, entre os quais os dois que se seguem:
"Deitado, agora,
No Solar da Nuvem Esmeralda,
Aguardo em silêncio
O momento determinado pelos céus."

"A grandiosa oração


Que se ouve ecoar
No Monte Límpido,
Comemora o dia
De seu nascimento."

O primeiro poema traduz o pressentimento do Fundador; o segundo é uma expressão do


sentimento de Yoshi como fiel, comemorando o seu natalício.
No dia 1º de janeiro de 1955, por ocasião do Culto do Ano Novo, vencendo as dificuldades, o
Fundador apresentou-se perante os fiéis, sentado na cadeira de rodas, e fez a seguinte saudação:
"Creio que está difícil me ouvirem bem, pois ainda não consigo falar muito alto, mas só o fato de
ter melhorado e poder me dirigir aos senhores já é uma alegria imensa para mim.
No início do ano, o Fundador ainda continuava dispensando atenção às obras de arte. Dava
rigorosas orientações a Yoshi e aos dedicantes sobre os cuidados que deveriam ter ao lidar com
elas. Eram orientações completas, dadas com grande entusiasmo, como se ele estivesse querendo
transmitir os ensinamentos que lhe restavam pregar.
O fato que narramos a seguir aconteceu no dia 28 de janeiro: Encontrando um papel colado
numa caixa onde estava guardada uma peça de cerâmica japonesa, o Fundador perguntou: "O
que está escrito aqui?" Onishi Akio encarregado de preparar as obras que ele iria examinar,
ficou atrapalhado com aquela pergunta inesperada e, sem verificar muito bem, disse: "Não
consigo ler". O Fundador dirigiu-se, então, a Yoshi: "E você?" Primeiro ela disse que também
não sabia, mas, examinando melhor, conseguiu ler corretamente. No papel estava escrito:
"Propriedade dos Akaboshi". Aí o Fundador orientou Onishi : "Você não pode tomar atitudes
levianas à toa,.sem refletir, pois, assim, vão achá-lo um ser limitado. Se você agir sem pensar bem
no que vai fazer, não se poderá dizer que é um grande personagem. É preciso estar sempre atento
aos mínimos detalhes, para não deixar passar nada despercebido e, dessa forma, não dar margem
a brechas. A família Akaboshi, de Kyushu, é muito famosa. Se você estivesse numa luta de
espadas, teria perdido a máscara e o colete, e já não estaria vivo. É preciso não deixar nenhuma
brecha por onde possam apertá-lo." As pessoas que ouviram essas palavras, não conseguiram
ficar alheias, recebendo-as como se fossem dirigidas a elas próprias.

Figura

O Culto do Início da Primavera, onde se deu o último encontro do Fundador com os fiéis

Baseando-se na atitude de Onishi, que ficara atrapalhado com uma pergunta inesperada, o
Fundador ensinou a importância de estarmos sempre tranqüilos e procurarmos descobrir a
essência de todas as coisas com as quais lidamos. Ao mesmo tempo, mostrou que é muito
importante a pessoa estar sempre preparada para não vacilar diante de qualquer pergunta, seja
ela qual for.
Alguns dias depois, no Culto do Início da Primavera, realizado a 4 de fevereiro, vestindo um
"ho" (54) dourado e andando com suas próprias pernas, o Fundador foi até o centro do palco do
(54)
- Casaca que as autoridades civis e militares vestem quando vão ao Palácio Imperial. A cor é definida de acordo
com a hierarquia.
Templo Messiânico e fez a seguinte saudação: "Hoje, depois de muito tempo, estou conseguindo
dirigir estas palavras aos senhores. Gostaria de dizer muitas coisas, mas, quando falo um pouco
mais alto, sinto a cabeça estalar. Por isso, depois que me recuperar mais um pouco, pretendo
falar bastante. Creio que não vai demorar muito. (. . .) Peço que aguardem mais um pouco."
Ao ouvir a voz do Fundador, vigorosa, apesar de baixa, os sete mil fiéis que lotavam o Templo
Messiânico encheram seus corações de esperança, achando que em breve ele ficaria
restabelecido. No entanto, aquele Culto do Início da Primavera de 1955 foi a última vez em que o
viram com vida.

d) O TÃO ANSIADO POTE DE GLICÍNIAS

Três dias depois, ou seja, 7 de fevereiro, a purificação do Fundador intensificou-se. Sentindo


dores violentas, ele passou o dia inteiro na cama, descansando. No dia seguinte, porém, como
estivesse um pouco melhor, foi à Terra Celestial, sob os olhares aflitos dos dedicantes, que se
preocupavam com sua saúde. Do carro, passou para a cadeira de rodas e começou a percorrer as
obras, observando o seu andamento.
Era surpreendente ver a figura daquele ser que, ultrapassando as limitações do corpo físico, mais
fraco a cada minuto, queria manter a liderança da construção do Solo Sagrado enquanto
estivesse vivo, no ardente desejo de dar sua vida pela Obra Divina. Ao verem-no de volta ao
Solar da Nuvem Esmeralda, depois da inspeção das obras, os dedicantes sentiram-se aliviados.
Na tarde daquele mesmo dia, o Fundador teve a maior alegria de sua vida: chegou-lhe às mãos o
Pote de Glicínias, que há muitos anos ele desejava possuir. Esse pote é uma obra de Nonomura
Ninsei, ceramista que, tendo ido para Quioto no início da Era Edo, tornou-se o pai da cerâmica
"Kyoyaki". Ninsei era considerado um mestre de torno, e, de fato, a riqueza da forma do pote é
inigualável, assim como também a exuberância de seus desenhos, que mostram as glicínias em
pleno florir, balançando-se ao vento num belo colorido. É realmente uma obra-prima
representativa desse artista.
No final de 1954, assim que soube da possibilidade de adquirir o Pote de Glicínias,
imediatamente o Fundador firmou o propósito de comprá-lo. Entretanto, por tratar-se de uma
obra-prima e estar indicado para receber a qualificação de Tesouro Nacional do Japão, seu preço
não baixava de 3 milhões de ienes, quantia que a Igreja não possuía em mãos. Diante disso, o
Fundador resolveu abrir mão do Solar da Montanha Preciosa, em Tamagawa, propriedade que
há muito tempo estava em litígio. Solucionou a questão amigavelmente e decidiu aplicar na
compra do pote a quantia obtida.
Quando o Pote de Glicínias foi entregue em sua casa, o Mestre estava sentado numa cadeira,
olhando para o jardim. No momento em que tiraram a peça da caixa de madeira que a
embalava, ele ficou admirando-a calado, com profunda emoção, parecendo saborear uma intensa
alegria. À sua volta, havia um profundo silêncio. Naquela noite, quando foi dormir, o Fundador
colocou o pote junto à sua cabeceira.
De início, estava previsto que o Pote de Glicínias só seria entregue muito depois do dia 8, mas
repentinamente, por necessidade do seu proprietário, a data foi antecipada. Na tarde do dia 9, o
estado do Fundador agravou-se, e ele ficou semi-inconsciente. Assim, se o pote tivesse chegado
um dia depois, ele não teria podido colocar ao seu lado essa obra-prima pela qual esperara
durante tanto tempo, nem teria tido o prazer de acariciá-la. Após a ascensão do Mestre,
considerando um grande milagre a chegada do pote às suas mãos enquanto ele ainda estava com
vida, as pessoas que fizeram as negociações disseram: "Que bom que ele tenha chegado a tempo!
Que bom que Meishu-Sama tenha tido essa alegria!"
2. A ASCENSÃO

a) A NOTÍCIA CHOCANTE

Na noite do dia 8 de fevereiro, o Fundador adormeceu muito contente, mas, pela madrugada,
começou a se sentir mal e daí em diante não conseguiu dormir direito.
Na tarde do dia 9, depois de ter dado instruções sobre a construção em Atami e também sobre a
reforma do anexo do Museu de Arte de Hakone e a preparação de sua reabertura, ele foi para a
sala de visitas, onde ficou muito tempo olhando fixamente para as velhas ameixeiras vermelhas e
brancas, que estavam em pleno florir, e para as flores de cerejeiras "hikan". No silêncio do Solar
da Nuvem Esmeralda, em cujo jardim batia o fraco sol do início da primavera, que estaria
pensando o Fundador enquanto apreciava as flores? Pensaria na sua vida atribulada que teve
início num ponto de Assakussa? Ou no futuro da Obra Divina, que deveria continuar avançando
firmemente, mesmo depois que ele não estivesse mais neste mundo? Eis um enigma indecifrável
pela eternidade, até mesmo para os parentes que estavam ao seu lado.
A última crise do Fundador teve início exatamente nesse momento. Ele falou que estava sentindo
algo anormal no peito e, quase carregado pelos dedicantes, foi levado para o quarto. Deitado na
cama, dormia, acordava e voltava a dormir. Nesse ínterim, vez por outra, falava com Yoshi e com
Rei, que estavam cuidando dele, mas suas palavras foram ficando cada vez mais espaçadas.
No amanhecer do dia 10, o Fundador entrou em coma. Desde a noite anterior, o Presidente
Okussa e os demais diretores permaneciam reunidos à sua cabeceira, orando pelo seu
restabelecimento, mas, às 15h 33m desse dia, ele encerrou sua vida de setenta e dois anos.
Pela manhã, como o Mestre continuava em perigo de vida, tinham-se enviado telegramas a todos
os dirigentes de Igreja do país, com a seguinte mensagem: "Venha urgente à Sede". Recebendo
esses telegramas e imaginando o que havia acontecido, todos eles pegaram condução
apressadamente, rumo a Atami.
A ascensão do Fundador foi anunciada aos órgãos de comunicação, pelo Presidente Okussa
Naoyoshi, às 18h do mesmo dia, sendo transmitida ao país inteiro no noticiário das 19h.
Prestando atenção às notícias, um dirigente que sentia o seu coração angustiado desde o
recebimento do telegrama e, a essa hora, ainda estava na estação do local onde fazia difusão,
inesperadamente ouviu o nome da Igreja Messiânica Mundial. Sentindo como que uma facada
no peito, aguçou os ouvidos. Escutou, então, a triste notícia da ascensão do Fundador. Disse a si
mesmo que aquilo era um boato, mas, pensando que talvez fosse verdade, empalideceu, suas
pernas começaram a tremer, e ele ficou sem ação. Tristonhos, os fiéis que estavam com ele
também não disseram uma só palavra. As lágrimas rolavam de seus olhos sem parar, e eles não
sabiam o que fazer.
Uma dirigente de Igreja que, casualmente, foi ao escritório de Atami naquele dia, sem saber de
nada, encontrou todo mundo triste e desanimado. Apesar disso, ela não imaginou que havia
acontecido o pior, e perguntou a um dos presentes como estava passando o Fundador. Quando
ouviu a resposta, desatou a chorar.
Os fiéis reagiram das formas mais diversas. Ao tomarem conhecimento da triste ocorrência,
tinham uma reação de dor, e não apenas de tristeza, e seus corações ficavam sombrios. Os que
acreditavam que o Mestre era eterno e, sem saber desde quando, encaravam-no como um ser que
havia superado a morte, jamais poderiam supor que teriam de enfrentar sua ascensão.
No dia 11, apesar de ser fevereiro, o mês mais frio no Japão, o corpo do Fundador permanecia
quente, e seus braços e pernas ainda estavam macios. Os dedicantes hesitavam em colocá-lo no
caixão, pensando que a qualquer momento ele iria reviver e abrir os olhos.
No dia 9, exatamente na hora em que o Fundador terminara todas as suas tarefas Divinas,
ocorreram estrondos misteriosos e mudanças na pressão atmosférica, numa vasta extensão que ia
do leste ao oeste do país. No jornal "Assahi" do dia 11, foi publicado um artigo com a manchete:
"No oeste do Japão, mudanças na pressão atmosférica. Estrondos não identificados em Oshima e
arredores". Esse artigo dizia: Segundo relatórios recebidos pelo Setor de Meteorologia do
Observatório Central de Tóquio, no dia 9, por volta das 15h 30m, houve estrondos de origem
desconhecida no Observatório Meteorológico de Tomissaki (55), de Oshima, de Miyakejima, de
Shizuoka, etc." Mais tarde, negou-se a relação de causa e efeito entre os estrondos e a mudança
da pressão atmosférica, permanecendo não identificada a verdadeira causa do fenômeno. Teria
sido um mistério manifestado no Mundo Natural, prenunciando a ascensão do Fundador?

b) A DEDICAÇÃO EM PRANTOS

Ante o inesperado acontecimento, os diretores da Igreja realizaram, na mesma noite, uma


reunião de emergência e, seguindo a vontade do Mestre, acolheram Yoshi como. Segunda Líder
Espiritual. Nessa reunião, ficou decidido realizar o Culto de Sepultamento no dia 17 de fevereiro
e construir o Sepulcro Sagrado na Terra Divina de Hakone, para aí enterrar o corpo do
Fundador. Mais tarde, soube-se que, misteriosamente, o local escolhido coincidia com o lugar
onde ele dissera a alguns discípulos e dedicantes que deveria ser construída sua morada eterna.
Tomando conhecimento de que, em 1954, no seu último verão em Hakone, o Fundador falara a
um dedicante que, em breve, estaria residindo ali para sempre, as pessoas relacionadas àquela
decisão novamente foram tocadas pela sensação de mistério.
A construção do sepulcro foi considerada uma obra milagrosa realizada pelos dedicantes, que,
erguendo-se de dentro de sua tristeza, trabalharam dia e noite para terminar o trabalho a tempo
do Culto de Sepultamento, o qual seria realizado dali a uma semana.
Situada dentro do Parque Nacional Fuji-Hakone-Izu, a Terra Divina é também uma região
paisagística. Por isso, era proibido construir sepulturas no local e enterrar corpos sem cremar.
Mas esse difícil problema também foi vencido milagrosamente, graças ao ardoroso empenho dos
discípulos. Quem se empenhou mais intensamente para obter a compreensão do governo do
Estado de Kanagawa, explicando o verdadeiro motivo das pretensões da Igreja, foi Ishihara
Torayoshi, que, mais tarde, ocupou o cargo de conselheiro. Anteriormente, ele trabalhara na sede
da delegacia daquele Estado e tinha muitos conhecidos nesse setor. Quando era chefe da
delegacia do Estado de Hiroshima, Ishihara sofria com os sintomas da radiação causada pela
bomba atômica, mas fora salvo por intermédio do Johrei, tornando-se fiel. Continuou a
trabalhar na Sede da Igreja mesmo depois da ascensão do Fundador, vindo a falecer no dia 2 de
maio de 1980, aos setenta e oito anos incompletos. Graças à sua atuação e à de outros discípulos,
o "Pedido de Construção de Cemitério Privado", entregue no dia 12, foi deferido oficialmente no
dia 15.
A obra teve início com o desmatamento e aplainamento do terreno. Derrubou-se o aclive
acentuado e aterrou-se a parte baixa, para aí se construir uma sepultura redonda constituída de
três camadas, respectivamente com 12,7m, 11m e 9m de diâmetro. Na época, os integrantes do
Grupo de Dedicação não chegavam a cem, mesmo juntando os de Hakone e os de Atami; além
disso, entre eles também havia mulheres, de modo que, na realidade, era uma obra impossível de
ser realizada em número tão limitado de dias. Recorreu-se, então, a uma firma construtora;
entretanto, ao ser-Ihe apresentado o projeto e mostrado o local da construção, ela recusou o
serviço, dizendo que não poderia terminá-lo dentro do tempo estipulado. Obviamente, a situação
(55)
- Posteriormente, Observatório Tateyama. Localiza-se na cidade de Tateyama, no Estado de Tiba, perto da
Montanha Nokoguiri, onde o Fundador recebeu a Revelação da Transição da Noite para o Dia.
não permitia adiamento do prazo, sendo, portanto, necessário realizar o trabalho com a força dos
fiéis. Pediram-se dedicantes nas Igrejas mais próximas, e, até que todos os preparativos ficassem
prontos e a obra fosse iniciada, já era dia 14. Mas, tão logo ela teve início, foi efetuada sem
interrupção. Durante o dia, todos trabalhavam e, à noite, faziam revezamento a cada duas ou
três horas.

Figura

Construção do Sepulcro Sagrado, realizada dia e noite, ininterruptamente, sob o rigor do


inverno.

O inverno de Hakone é rigoroso, e, à noite, faz frio a ponto de se sentir os ossos congelados.
Entretanto, a tristeza superava a baixa temperatura, e a dor no coração era maior que a dor
causada pelo frio, o qual penetrava na pele. Alguns dedicantes, carregando terra e usando pás,
relembravam a figura e a voz do Fundador e não conseguiam reprimir os soluços.
Na hora do descanso, tanto os fiéis como os profissionais tiravam um cochilo com a roupa de
serviço mesmo e, na hora do revezamento, acordavam e recomeçavam a trabalhar. Soma Naoji e
outras pessoas encarregadas da obra não tinham tempo sequer para tomar banho, fazer a barba
ou trocar de roupa, ficando realmente sem dormir e descansar. Devido ao frio e ao excesso de
trabalho, o desgaste físico era intenso; por isso, todos aqueciam o corpo tomando água quente
com açúcar e feijão doce com caldo, preparados para eles, e engoliam ovos crus, a fim de
ganharem força. Se, por um acaso, chovesse ou nevasse, a terra ficaria enlamaçada, o que
dificultaria muito o serviço. Entretanto, naqueles quatro dias, felizmente quase não choveu nem
nevou, de modo que a obra pôde ser desenvolvida conforme fora programada. Relembrando a
época, Soma Naoji disse, comovido: "Trabalhamos realmente sem dormir e sem descansar.
Quando penso naqueles dias, fico atônito, sem saber como pudemos agüentar. Até nós, que
executamos a tarefa, não conseguimos acreditar, quando ela ficou pronta. Ao lembrar-me
daquele momento, não posso conter as lágrimas." O Sepulcro Sagrado foi construído pelas mãos
de 1200 dedicantes e 555 profissionais, em pouco mais de três dias, iniciando-se no dia 14 e
terminando na manhã do dia 17. Originariamente, ele era formado de três camadas de terra e
não estava revestido com as pedras que o revestem hoje. À sua volta, não existiam as calçadas de
pedra nem os gramados que existem atualmente, mas apenas alguns pinheiros altos e velhos, que
ainda se erguem no local e em volta de cujas raízes só havia montes de terra preta.

c) O SEPULTAMENTO

No dia 17 de fevereiro, às 2 h da madrugada, apesar da temperatura abaixo de zero, um grande


entusiasmo envolvia os últimos momentos da obra. Nessa mesma madrugada, no Solar da Nuvem
Esmeralda, em Atami, com as ameixeiras vermelhas e brancas sobressaindo na escuridão da
noite e o perfume do incenso pairando silenciosamente no ar, realizou-se um Ofício Religioso
diante do ataúde do Fundador. Sob a liderança de Yoshi, que havia sucedido a ele como Segunda
Líder Espiritual, a Oração Amatsu-Norito foi entoada serenamente. Ao término da cerimônia,
com todo sentimento, os presentes depositaram flores no ataúde, e, em seguida, este foi carregado
nos ombros por dez pessoas e colocado no carro funerário, atravessando a cidade rumo ao
Templo Messiânico, quando ainda não tinha amanhecido.
No Templo Messiânico, os preparativos para o Culto de Ascensão já estavam prontos. No
palco, onde fora pendurada uma foto do Fundador em tamanho real, e de ambos os lados da
nave, havia mais de cem coroas de flores, enviadas pelo Ministro da Educação e Cultura, Ando
Massazumi, pelo Ministro da Agricultura e Florestamento, Kono Itiro, e por outras pessoas. Os
fiéis, que tinham começado a chegar à noite, elevavam-se a mais de dez mil na hora do culto,
lotando até o espaço externo do templo. Naquela época, ainda não existiam poltronas no interior
da nave, e os participantes ficavam todos de pé; apesar disso, não havia espaço nem para as
pessoas se moverem.

Figura

O Ofício Religioso realizado perante o ataúde do Fundador no Solar da Nuvem Esmeralda

A cerimônia teve início às 9h, com o som grave dos instrumentos musicais. Quando a oração
do Culto de Ascensão começou a ser entoada, todos, a cada palavra que era dita, começaram a
relembrar a figura do Fundador. Aqui e ali ouviam-se soluços abafados, que foram se
multiplicando e ecoando pelo templo como o barulho das ondas, quando a maré está subindo. A
seguir, foram apresentadas palavras de condolências por altas personalidades representativas do
mundo religioso, político, financeiro, artístico e cultural, entre elas Miki Tokutika, líder da
Entidade Religiosa P.L. Dando seqüência à cerimônia, leram-se os telegramas enviados à Igreja.
Lamentando imensamente a ascensão do Fundador, Takahashi Sei'itiro, que, na época, era o
presidente da Comissão de Preservação do Patrimônio Cultural, enviou as seguintes palavras:
"Expresso o meu mais profundo respeito em relação ao trabalho por ele executado não só
instituindo como se dedicando à Fundação Tomei de Preservação da Arte, para preservar as
belas-artes japonesas, e também dirigindo o Museu de Arte de Hakone, atividade através da qual
ele divulgou o patrimônio cultural do país e contribuiu para a elevação da cultura. Eu tinha
grandes expectativas de uma contribuição ainda mais longa de sua parte, de modo que expresso
respeitosamente meu profundo sentimento pela sua súbita passagem e minha mais elevada
consideração."

Figura

O ataúde do Fundador, ladeado de flores, no Culto da Ascensão.

Figura

Através das palavras dos participantes e dos telegramas enviados, as pessoas presentes ao Culto
de Ascensão sentiram mais uma vez o grandioso trabalho realizado pelo Fundador, o qual
abrangia não apenas o aspecto religioso, mas vários outros aspectos da cultura, inclusive o
artístico.
Quando a leitura dos telegramas terminou, Yoshi a Segunda Líder Espiritual, com uma
vestimenta funerária de cor branca, fez o Ofertório de Gratidão. Sua figura mostrava a tristeza
de ter perdido aquele que era seu Mestre e esposo, mas revelava a firme decisão de vencer a dor e
prosseguir o trabalho que ele havia deixado.
As 11h, o ataúde foi novamente levado para o carro funerário, que, acompanhado por um
carro-guia e seguido por mais de trinta veículos, passou por Odawara e rumou para Gora, em
Hakone. Imediatamente após a chegada àquele local, foi realizado solenemente o Culto de
Sepultamento, frente ao Sepulcro Sagrado, que acabava de ser concluído.

Figura

O Fundador descansando eternamente no Sepulcro Sagrado


No Sepulcro Sagrado, havia uma abertura lateral voltada para o nordeste, com a entrada na
direção sudoeste. Como que deslizando, o ataúde foi sendo colocado vagarosamente no fundo
dessa abertura, até ficar depositado no centro da sepultura esférica. A seguir, os familiares do
Fundador, os dirigentes de Igreja e os dedicantes que o serviam de perto foram, um a um,
colocando uma pá de terra para fechar a entrada do sepulcro. Assim, o corpo do Mestre ficou
descansando eternamente nesse local, com a cabeça voltada para o nordeste e os pés para o
sudoeste.

CAPÍTULO VI

A ETERNIDADE DA
VIDA
1. O DEUS-HOMEM ESTÁ AQUI

No dia 4 de outubro de 1952, o Fundador dialogou, em Hakone, com Issato Tsuneatsu, vice-
diretor do Departamento Científico do Jornal Yomiuri:
- Apenas o senhor possui essa bola de Luz?
- Exatamente.
- Sendo assim, caso daqui a uns cem anos o senhor venha a partir para o Mundo Espiritual, ela
passará a não existir. . .
- Pelo contrário. Eu irradiaria a Luz do Mundo Espiritual. E seria melhor ainda, pois o corpo
físico atrapalha.
Assim, nesse diálogo, o Mestre disse claramente que, embora viesse a ascender, continuaria a
enviar Luz aos fiéis, e até com mais intensidade.
Entre as muitas caligrafias feitas pelo Fundador há uma com os dizeres "A vida eterna", os quais
significam que, após o término da vida terrena, o espírito continua a viver eternamente no
Mundo Espiritual. E ele costumava afirmar: "Quero salvar o maior número possível de pessoas",
palavras onde está contida sua plena determinação e seu desejo ardente de salvar o mundo. Ora,
desde a sua ascensão até o presente, diversos milagres vieram acontecendo sucessivamente, como
antes. Além disso, de vários pontos do mundo são transmitidas as vozes de alegria daqueles que
foram salvos. Esse fato, mais do que tudo, é uma confirmação do que o Mestre disse, ou seja, que
no Mundo Espiritual, onde está vivendo para sempre, ele continua realizando a Obra Divina.
Com o passar do tempo, o Fundador foi se conscientizando, cada vez mais profundamente, de
sua relação íntima e inseparável com Deus. Em 1926, como já dissemos, Kanzeon Bossatsu atuou
sobre ele e comunicou-Ihe todos os mistérios, como por exemplo a afinidade entre seu nascimento
e sua missão, a Transição da Era da Noite para a Era do Dia, e a Providência Divina. Através
dessas Revelações, o Fundador soube que, no seu ventre, havia uma bola de Luz que lhe fora
atribuída pelo Criador. Na época, já consciente da sua união com Deus, ele falou: "É realmente
misterioso. Eu não passo de um boneco movido por um manejador de marionetes. E não é só. A
partir daquela época eu entendi diversas coisas que até aí não entendia. No início, esse
entendimento era limitado, mas, com o passar dos anos, foi se tornando maior. Tempos atrás,
ouvi dizer que o conhecimento adquirido através de estudos chama-se inteligência humana, e o
conhecimento adquirido sem aprendizado, Inteligência Divina. Achei, então, que se tratava disso,
com certeza: da Inteligência Divina. Assim que eu me deparo com algo, logo sei as causas e as
conseqüências. Não há nem tempo para pensar. O interessante, porém, é que isso só acontece
com as coisas necessárias. Recebo várias perguntas dos fiéis e as respostas logo me vêm à boca.
Nessas horas, acho engraçado, porque aprendo com as minhas próprias palavras." Em outra
oportunidade, o Fundador disse: "Meu corpo é usado livremente por Deus. Ele salva todos os
povos utilizando-me como seu instrumento. "
Por outro lado, alguns fatos nos mostram o Mestre um passo atrás de Deus. Em 1948, quando foi
acusado da suspeita de sonegação de impostos, ele perguntou a Vontade Divina a esse respeito,
mas Deus nada lhe respondeu, como mais tarde ele próprio relatou: "Deus não disse uma só
palavra, limitando-se a dar gargalhadas. Entendi, então, que ele estava dizendo para eu não me
preocupar. Com o passar do tempo, vi que realmente não havia motivo para preocupação. Aí fui
eu quem começou a gargalhar. Coisas assim aconteceram diversas vezes. Esse, como vemos, é o
exemplo de um caso em que o Fundador recorreu à ajuda de Deus. Assim, ora no estado de união
com Ele, ora separado, ia desenvolvendo a Obra Divina.
Em 1950 - um quarto de século depois da Revelação de 1926 - durante a perseguição religiosa
que sofreu, o Fundador viveu um importante acontecimento através do qual consolidou ainda
mais seu estado de união com Deus. Eis como ele se refere ao fato:
"Quero falar sobre a minha pessoa no presente. Já falei a respeito da misteriosa Ação Divina
ocorrida quando eu estava preso, durante o "Caso Shizuoka", ou seja que naquela oportunidade
entrou em meu corpo o Deus 00000 (56), o mais elevado e sagrado de todos. Em decorrência da
Providência Divina naquele momento, assim que fui libertado fiz mil quadros de caligrafia com a
frase "As flores caem e nascem os frutos" e os distribui entre os principais fiéis. A partir de
então, já não precisei mais perguntar as coisas a Deus, como vinha fazendo até ali, pois, uma vez
que o Espírito Divino estava em meu corpo, a distância que havia entre Deus e o ser humano
desapareceu por completo, e eu atingi o estado de união com Deus. Ou seja, uma vez que eu sou
Deus e homem, o que eu realizo é diretamente feito por Deus. Por isso basta que eu aja de acordo
com a minha própria vontade.”
Em diversas oportunidades o Fundador referiu-se ao seu estado de união com Deus, inclusive
num poema:

"Fico a pensar em mim ,


Que sou homem sem ser homem,
Que sou Deus sem ser Deus.

Existem, ainda, Ensinamentos sobre o assunto, entre os quais "O Estado de União com Deus",
que consta no início do primeiro volume da presente obra. Nele, o Fundador ressalta que a
pessoa que alcançou verdadeiramente esse estado é totalmente diferente dos mensageiros da
Vontade Divina e dos ministros de Deus: todas as suas palavras e ações vêm diretamente de
Deus.
Nessas condições, o poder virtuoso do Mestre manifestava-se também, claramente, nos protetores
que escrevia. No caso do protetor que tinha a palavra "Hikari", conforme foi dito no item sobre
as caligrafias e pinturas, ele conseguia escrever 500 folhas em uma hora, com grande facilidade, o
que significa que, em média, escrevia cada folha em 7 segundos. Além disso, antes de caligrafar
essa palavra, não fazia nenhum tipo de benzimento ou purificação, nem tampouco orava.
Escrevia ouvindo rádio e conversando. Apesar disso, a pessoa que levava aquele protetor
pendurado no pescoço, era agraciada com o poder de salvar milhares de criaturas, tirando-as do
sofrimento e encaminhando-as para a felicidade.
Mas isso não acontecia apenas com os protetores. O Fundador escreveu: "Possuindo um poder
tão grande como este, não há nada que eu não possa entender. Como os fiéis bem o sabem, nunca
fiquei em apuros para responder a qualquer pergunta, fosse ela qual fosse. É freqüente pessoas
que moram longe e estão sofrendo com alguma doença, me pedirem proteção através de
telegramas e receberem graças com essa simples atitude. Isto acontece porque, quando tomo
conhecimento do telegrama, em poucos instantes uma parte da minha Luz se subdivide e chega a
essa pessoa. Através do elo espiritual que nos liga, ela recebe a graça. A Luz se multiplica
milhares e milhares de vezes, sendo irradiada para qualquer lugar, por mais distante que seja.
(56)
- Esses cinco zeros foram escritos pelo próprio Fundador; em português,corresponderiam às incógnitas x, y, z
etc. Cada 0 corresponde a uma letra japonesa que comporia o nome desse Deus ao qual ele se refere.
Constitui, portanto, um tesouro precioso. Falando de forma mais compreensível, o que irradia de
mim, em suma, é uma granada de Luz. Obviamente, a diferença entre a minha granada e a
granada comum é que esta mata, e a minha vivifica as pessoas; a comum é limitada, e a minha,
ilimitada. "
Nas entrevistas, o Fundador freqüentemente dizia aos fiéis que, em caso de extrema urgência, era
bastante eles dizerem: "Grande Mestre (57), peço-Ihe proteção." Com efeito, confirmando suas
palavras, há inúmeros exemplos de pessoas que, em situações de emergência, como acidentes de
trânsito ou incêndio, diziam, em pensamento: Meishu-Sama, proteja-me, por favor", e se
livravam do perigo, salvando suas vidas. Cada um desses exemplos concretos prova que o
Fundador vivia em estado de União com Deus, constituindo, de fato, um milagre da presença do
Deus-homem.

Figura

Caligrafia do Fundador:
"Shinjin Zaiji"
("O Deus-homem está aqui")

2. CORRESPONDENDO À VONTADE DO FUNDADOR

Assumindo a posição de Líder Espiritual como sucessora do Fundador, Yoshi, em reverente


oração, fez o seguinte juramento diante do Altar: "Na reunião de diretores realizada
imediatamente após a ascensão de Meishu-Sama, foi decidido, por unanimidade, acolher-me
como Segunda Líder Espiritual, obedecendo à vontade que ele manifestou antes de ascender. Eu
aceitei essa decisão. Assim, darei continuidade ao plano de construção do Paraíso Terrestre,
empenhando-me no Servir neste Mundo Material. Para isso, peço que ele me proteja do Mundo
Espiritual."
Com efeito, alguns dias antes de sua ascensão, o Fundador dissera a Yoshi: "Se, devido às
circunstâncias da Obra Divina, eu vier a ascender, estarei protegendo-a do Mundo Espiritual.
Por isso, aqui no Mundo Material, você deve dedicar-se à sagrada obra de salvação do mundo - a
construção do Paraíso Terrestre. " Era uma ordem rigorosa que ele Ihe dava não como esposo,
mas na posição de quem transmitia a Providência de Deus. Em tom bastante comovido,
prosseguira: "Eu exigi muito de você, não foi?" Naquele instante, Yoshi começara a entender que
o rigor com que ele a tratara era um aprimoramento necessário ao objetivo que tinha em mente.
A cerimônia de investidura da Segunda Líder Espiritual foi realizada no Templo Messiânico, às
10h do dia 30 de março de 1955, véspera do Culto de Cinqüenta Dias de Falecimento do
Fundador. Nesse dia, reuniram-se ali sete mil fiéis, além de um grande número de convidados
especiais. Aqueles, sob o impacto da ascensão do Mestre, por algum tempo sentiram-se perdidos,
mas, erguendo-se de dentro da tristeza, solidificaram a decisão de seguir em frente, procurando
captar a vontade dele, liderados pela Segunda Líder Espiritual.
Verificando os registros, observamos que, pouco mais de um ano antes da ascensão do Fundador,
entre janeiro e março de 1954, época imediatamente anterior ao início de sua purificação, ele
falara repetidamente e com muito entusiasmo sobre os seus planos em relação ao futuro, nas
entrevistas realizadas na Sede Provisória de Sakimi, em Atami. Esse fato nos leva a pensar que,
prevendo a purificação que teria início em abril e até mesmo sua ascensão, o Fundador fez os
preparativos para recebê-las. Logo no início de 1954, por exemplo, ele disse: "Quanto ao museu,

(57)
- Tratamento dado ao Fundador antes de 1950.
ficará para o ano que uem. Creio que ele será comentado mundialmente, atraindo a atenção do
mundo inteiro. A obra ainda está na metade, mas, quando estiver totalmente concluída, causará
assombro. Como resultado, surgirá esta pergunta: "Afinal de contas, o que é a Igreja Messiânica
Mundial?" Sabendo que se trata de uma Igreja dirigida por um indivíduo chamado Okada
Mokiti, quererão saber quem é esse indivíduo. Assim, estou certo de que terá início uma pesquisa
sobre ele. " Com essas palavras, o Fundador quis dizer que, quando as pessoas do mundo inteiro
lerem os seus livros e começarem a entender os erros da Medicina e da Agricultura,
compreenderão que a Igreja Messiânica Mundial não é uma religião comum, e que, expandindo-
se o que ela diz e faz, indubitavelmente o mundo ficará melhor.

Figura

Yoshi, apresentando sua decisão como Líder Espiritual, na Cerimônia de Investidura.

Por ocasião de uma entrevista realizada nos últimos dias de janeiro, o Mestre contou um episódio
muito interessante, relacionado a Elise Grilli, repórter do "The Japan Times", à qual já se fez
referência anteriormente.
Sentindo-se identificada com o pensamento e as atividades do Fundador, Elise não lhe poupava
palavras de elogio. "Os protótipos do Paraíso Terrestre de Hakone e Atami tornar-se-ão, no
futuro, locais mundialmente famosos como as cataratas do Niagara" - disse a jornalista. Tendo
chegado ao Japão em 1948, ela comprara um terreno, construíra uma casa, que mandou forrar
com esteiras, e iniciara uma vida igual à dos japoneses. Amara o país, segundo declarou, por ter
descoberto que seu povo possui qualidades extraordinárias, que nenhum outro possui.
Em janeiro de 1954, Elise Grilli fez propaganda das idéias de Okada Mokiti a representantes de
grandes jornais japoneses. Nessa oportunidade, disse a eles: "Tenho tido contacto com diversas
pessoas importantes do Japão, mas acho que o Sr. Okada Mokiti é a mais magnânima de todas.
Por que vocês não escrevem isso em seus jornais?" Surpresos, os jornalistas disseram: "Ali há
algo que não é muito bom"; explicaram, em seguida, que, no julgamento ao qual fora submetido,
o Fundador tinha sido considerado culpado e que o cumprimento da pena estava adiado. Então
Elise retrucou: "E que importância tem isso? É algo tão insignificante. . . Quando se inicia uma
grande obra, sempre se cometem falhas, e, às vezes, até se infringem as leis. Não é bom, mas é
inevitável. Ao invés de nos atermos a esses detalhes, devemos pensar nos propósitos do Sr.
Okada. Ele está declarando que vai construir o Paraíso Terrestre, isento de doença, miséria e
conflito. Existe obra tão grandiosa como essa? Em verdade, não há outros exemplos em todo o
mundo. Foi através do Sr. Okada que eu descobri a magnanimidade dos japoneses. Por que
vocês não escrevem isso em seus jornais?"
Pouco tempo depois, numa entrevista realizada nos meados de março, o Fundador falou a
respeito de uma senhora americana que Elise Grilli lhe apresentara. Chamava-se Ellen Pusey
(casando-se, passou a chamar-se Ellen D. Conant). Fora enviada ao Japão como bolsista da
Fulbright, para passar dois anos pesquisando o patrimônio cultural do país, especialmente a
obra do célebre pintor Takeuti Seiho. Com esse objetivo, foi visitar o Fundador, para conhecer
sua coleção. Takeuti Itsu, filho mais velho de Seiho, acompanhava-a como intérprete e cicerone.
Na conversa que teve com Ellen, nessa ocasião, o Fundador ficou sabendo que os Estados Unidos
tinham grande interesse pela cultura japonesa. Parece que, tomando conhecimento disso, ele
deixou ainda mais claro o seu plano de contribuir para a paz mundial através da divulgação das
belas-artes, colocando como centro do intercâmbio de âmbito mundial o museu que deveria ser
construído em Atami. Pelas palavras ditas aos fiéis na entrevista do dia 16, as quais
transcrevemos a seguir, podemos conhecer parte do plano do Fundador: "Imagino que o Museu
de Arte de Atami será um órgão semelhante ao Setor de Patrimônio Cultural da UNESCO; um
órgão que, natural e gradativamente, irá cultivar o pensamento artístico em escala mundial e
aonde os especialistas de cada país ou quaisquer pessoas que desejarem, poderão vir uma vez por
ano ou por semestre, levados pelo objetivo de construir um museu em sua pátria ou promover o
intercâmbio de valiosas obras de arte com o Japão. Portanto, se isso acontecer, o Museu de
Atami será uma obra grandiosa. Naturalmente, como se trata de uma Providência de Deus para
construir o Paraíso Terrestre, é claro que acontecerá, e o rumo que as coisas começam a tomar é
realmente interessante.
Nessa época, o Fundador escreveu um artigo intitulado "O que é Igreja Messiânica Mundial",
em cujo início ele diz:"Ao escrever estas palavras, quero, antes, esclarecer que a nossa Igreja não
é pura e simplesmente uma religião. Em parte, a Religião está incluída nela, mas é óbvio que não
constitui o seu todo. Então, poderão me perguntar por que Ihe dei esse nome. Foi por não ter
outra alternativa, uma vez que se trata de uma obra de salvação inédita, nunca sequer
imaginada, em toda a história da humanidade. Ao invés de dar-Ihe outro nome, achei que esse
era mais compreensível e familiar; entretanto, para ser fiel à verdade, nossa Igreja é uma religião
que supera a Religião, ou seja, é uma Ultra-religião." Por essas vigorosas palavras, ficou definido
que as atividades da Igreja Messiânica Mundial são obras de salvação ultra-religiosa, nas quais
está incluída a Religião.
Por ocasião das entrevistas, o Fundador falou repetidas vezes sobre seu grandioso plano:
"Quando os protótipos do Paraíso Terrestre de Hakone e Atami estiverem concluídos, a Igreja
Messiânica Mundial será conhecida no mundo e, paralelamente, seus Ensinamentos e sua obra
de salvação serão compreendidos. Certamente também terão início os estudos sobre o indivíduo
chamado Okada Mokiti. A conclusão do Museu de Arte de Atami, em especial, irá contribuir
enormemente não só para as atividades culturais de âmbito mundial mas também para a paz do
mundo e a criação da Nova Civilização. Essa é a missão original da nossa Igreja. E devemos
acrescentar que esse momento finalmente está chegando. " Tal plano está florescendo,
atualmente, em diversas regiões do mundo, correspondendo ao maior desejo do Fundador. Do
Reino dos Céus, ele certamente está contemplando-as com alegria.
Após a ascensão do Mestre, a Igreja não caminhou apenas por estradas lisas e planas. Diversos
obstáculos a esperavam. Quantas vezes a sua própria existência esteve em perigo! Entretanto,
mesmo nessas horas, a crise foi superada graças à mão de elementos que se empenharam em
seguir até o fim os desejos dele, conseguindo transformar os problemas em purificação, para um
avanço ainda maior da Obra Divina. Em todas essas ocasiões, as pessoas envolvidas sentiram a
grande proteção e orientação que ele lhes dava, do Mundo Celestial.
O Fundador disse: "Brevemente chegará uma época em que, mesmo existindo alimentos com
fartura, não haverá nada que possa ser comido." Passados pouco mais de trinta anos, qual é a
situação que vemos à nossa volta? Defensivos agrícolas e águas de esgoto, poluição dos produtos
provenientes do campo, dos rios e dos mares, gêneros alimentícios em conserva, produtos com
aditivos, etc. Entre os alimentos que adquirimos, quantos será que podemos comer
tranqüilamente? Ainda que fosse por esse único fato, não poderíamos deixar de tirar o chapéu
para a precisão das previsões do Fundador.

Figura

O Fundador na Terra Divina, em Hakone.


Os Ensinamentos da Igreja Messiânica Mundial abrangem problemas relativos à Saúde, Política,
Economia, Cultura, enfim, todos os problemas da sociedade humana, para os quais se aponta a
solução correta. Considerando que, com a fusão da civilização material do Ocidente e a
civilização espiritual do Oriente, nascerá a Nova Cultura, que irá proporcionar ao homem a
verdadeira felicidade, o Fundador mostra os caminhos concretos para alcançá-la.
Erguendo-se das cinzas da derrota na Segunda Guerra Mundial, o Japão está nos primeiros
lugares do mundo em termos econômicos, mas torna-se desnecessário repetir que, por trás dessa
prosperidade, ele carrega um grande número de problemas. E não só o Japão, mas todos os
países do mundo, apesar do avanço da civilização material, deparam com dificuldades seríssimas
e sofrem devido às contradições e à desordem. Além disso, o mundo preserva o equilíbrio com a
farda dos armamentos nucleares, de modo que a paz não passa de uma máscara. Certamente
nunca houve época como os dias atuais, em que, agonizando na insegurança e no sofrimento,
tantas pessoas esperam, do fundo da alma, uma salvação celestial. Urge, portanto, que
divulguemos para todo o mundo os Ensinamentos da Verdade esclarecidos pelo Fundador e o seu
poder de salvação.

"Na época atual,


Noite da véspera
Da destruição do Mundo,
Vou manifestar o Poder
Do Deus da Salvação. "

"Que venha logo o dia


Em que, pela eternidade,
Viveremos tranqüilos no Paraíso
Onde não há inverno nem noite. "

Em 1972, no bairro de Hashiba, situado no Distrito de Assakussa, onde, noventa anos antes, o
Fundador nascera, foi erigido um monumento em sua memória. As palavras que transcrevemos
abaixo, escritas na base de pedra, foram pronunciadas por ele no dia em que foi instituída a
Associação Kannon do Japão. Quando as lemos agora, não podemos deixar de sentir que sua
consciência como Luz do Oriente e seu fervoroso e eterno desejo de construir o Mundo de Luz,
de perfeita Verdade, Bem e Belo continuam a existir mesmo depois de sua ascensão.

"Deus é Luz.
Onde há Luz, existe paz, felicidade e alegria.
Onde não há Luz e Claridade,
Existe conflito, pobreza e doença.
Vós que desejais Luz e Prosperidade, Vinde!
Vinde e Louvai o nome de Deus;
Assim sereis salvos!"

POSFÁCIO

"Luz do Oriente" é uma obra elaborada com o objetivo de apresentar os setenta e dois anos da
vida tão diversificada de Mokiti Okada, fundador da Igreja Messiânica Mundial, em
comemoração do seu Centenário. Nela, a vida daquele a quem os fiéis chamam de Meishu-Sama
(Senhor da Luz), aparece narrada em dois volumes (58). No primeiro, aborda-se desde o seu
(58)
- Na edição em português, o segundo volume foi desdobrado em dois. Portanto, a obra ficou constituída de três
volumes.
nascimento até a fundação da Igreja; no segundo, narram-se principalmente as experiências
vividas por ele dentro das modificações ocorridas na Igreja desde que ela foi fundada até a
ascensão do Mestre. Os fatos narrados têm por base um grande número de informações
fornecidas não só pelos fiéis, como também pelas pessoas da sociedade em geral, durante cerca de
vinte longos anos, desde que foi instituída a Comissão de Elaboração da Biografia do Fundador,
em 1961.
Tomamos especial cuidado em evitar as ficções encontradas na maior parte das biografias. Com
o desejo de apresentar a figura de Meishu-Sama como ele realmente era, esforçamo-nos para
somar estudos e pesquisas sobre cada um dos inúmeros dados que nos forneceram, a fim de
reproduzi-los de forma correta, tornando clara a narrativa.
Transmitir as realizações de Meishu-Sama em sua totalidade é algo que está fora de nosso
alcance, por ainda sermos muito imaturos. Assim, acreditamos que os leitores não tenham ficado
plenamente satisfeitos, e por isso pedimos que nos desculpem quanto a este ponto. Por outro
lado, ficamos felizes pelo fato de termos podido contar com o diário que o Fundador nos deixou,
escrito em forma de poemas, os quais abrangem o período que vai do início da Era Showa até o
fim da Segunda Guerra Mundial, época em que, vivendo uma vida cheia de atribulações, seu
pensamento sofreu grande modificação. Graças a esse diário, foi-nos possível complementar as
falhas dos dados, esclarecer partes obscuras e fazer a verificação e comprovação de fatos.
Outro motivo para nos sentirmos realmente gratos é que, como todos sabem, não obstante a
cidade de Tóquio, onde o Fundador passou grande parte de sua vida, ter sido vítima de duas
grandes calamidades - o violento terremoto ocorrido na Região Kanto e a Segunda Guerra
Mundial - os dados que fundamentam partes importantes da biografia, como aspectos da
infância e da juventude do Mestre, restaram como que por milagre.
Desde que se instituiu a Comissão de Elaboração da Biografia do Fundador até a publicação da
presente obra, foi incontável o número de pessoas que colaboraram conosco colhendo material.
Nesse período, em momentos inesperados e proveniente de fontes inesperadas, recebemos a
comunicação de fatos totalmente novos para nós, inclusive dados valiosos. Inúmeras vezes
tivemos experiências que só poderiam ser atribuídas à proteção de Meishu-Sama e à atuação
invisível dos precursores que hoje estão no Mundo Espiritual. Se a Comissão pôde elaborar e
publicar esta biografia em tão pouco tempo, foi graças à ajuda desses precursores e também à
compreensão e colaboração de pessoas que trabalham no mais diversos setores, dentro e fora da
Igreja. Aproveitamos a oportunidade para oferecer-lhes a nossa oração de agradecimento e
manifestar-lhes toda a nossa gratidão.
Por fim, com profundo respeito, queremos comunicar a publicação de "Luz do Oriente" e
expressar o nosso mais profundo agradecimento ao falecido Reverendo Moriyama Jitsutaro, que
tanto ansiou para ver publicado esse trabalho, ao qual ele se dedicou de corpo e alma, durante
longos anos, como presidente da comissão encarregada de elaborá-lo; ao falecido Reverendo
Minoura Jiro, que muito se esforçou na organização dos dados colhidos; ao escritor Asso Ei, a
quem coube sua redação, e ao grande número de dirigentes que colaboraram conosco.

Atami, 23 de dezembro de 1981


Comissão de Elaboração da Biografia do Fundador
SUMÁRIO BIOGRÁFICO DO FUNDADOR

ANO IDADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS


1882 0 - 23/dezembro - Nasce
emTóquio, Assakussa, no
ro de Hashiba,
n° 2, Distrito de
1889 7 Daitõ.
- Entra na Escola
Primária
Básica Nishin -
Tóquio.
1890 -
Promulgação
do Decreto
referente ao
Ensino.
1891 9 - Transfere-se para a
Escola
Primária Assakussa
quio.
1894 - Guerra
entre
Japão oe a China.
1896 14 - Conclui o Curso
Básico
Escolada
Primária
1897 15 Assakussa.
- Entra no Curso
Preparató-
rio da Escola de Arte
Tóquio. Meio ano
deixa-o, por causa
ença na vista.
mente, contrai
duas vezes.
também, de
desenganado pelos
cos, restabelece-se
dieta vegetariana.
1902 20 - 10/fevereiro - Morre
Shizu,
sua irmã mais velha.
1904 - Guerra
entre o
Japão e a Rússia.

ANO IDADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS

1905 23 - 22/maio - Morre


seu pai. Abre a loja de
dezas Kõrin-Dõ na Rua
essu, quadra 2, Distrito
Tyüõ, em Tóquio.
1907 25 - Abre a Loja Okada,
ataca-
dista de objetos de
na quadra 1, n° 5, no
ro de Kyõ-Bashi,
de Tyüõ, em Tóquio.
- Junho - Casa-se com
Aiha-
raTaka.
- Visita Okakura
Izura, no Estado de
- A partir dessa época,
rante cerca de dez
contrai várias doenças.
1909 27 - Expõe adornos para
cabe-
lo na Exposição de
Infantis, promovida
Loja Mitsukoshi, e
Prémio de Bronze.
1912 30 - 25/maio - Falece Tori.
sua
mãe.
1914 32 - Expõe adornos para 1914 - Primeira
cabe- Guer-
lo na Exposição ra Mundial.
realizada no Parque
em Tóquio, e recebe o
feu de Bronze. Nessa
ca, inicia-se a transação
a Loja Mitsukoshi.
1915 33 - Inventa o "Diamante
Assa-
hi", requerendo
deste artigo em dez
Além disso, obtém
de onze novos
produtos.

ANO IDADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS

1916 34 - Pensa em fundar um


dico que
males sociais e se
nhasse em corrigi-los.
vários negócios para
guir capital.
1919 37 - Primavera - O Banco
Sõko
abre falência, e o
passa por sérias
- 11/junho - Morre
Taka,
sua esposa.
- Dezembro - Segundo
mónio: com Õta Yoshi.
1920 38 - Transforma a Loja 1920 - Crise
Okada financeira
em Sociedade mundial
Logo a seguir, o
entra em crise
o Fundador sofre um
gran-
de prejuízo.
- Junho - Ingressa na
Omoto.
- 11 /outubro - Nasce
sua filha primogénita.
1921 39 - Empenha-se em
reerguer a Afasta-se
Loja Okada.
porariamente da Fé.
- 31 /dezembro - Nasce
maro, o filho
primogénito.
1923 41 - 1° /setembro - Sofre 1923 - Grande
nova-
mente grande prejuízo terre-
moto na região
causa do grande da ilha principal do
ocorrido na região quipélago
ilha principal do
go Japonês.
- 3/outubro - Morre
ro.
- 2/dezembro - Nasce
maro, o segundo filho.

ANO IDADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS

1924 42 - Aumenta sua atração


Fé; dedica-se ao
Espírito Divino.
milagres.

1925 43 - 15/agosto - Nasce 1925 - Promulgada


Miyako, a
a segunda filha. "Lei de
da Ordem da
Nação".

1926 44 - Dezembro - Através


velação Divina,
za-se da sua própria
Alcança o estado de
shinjitsu".

1927 45 - 4/junho - Nasce


Itsuki, a
terceira f ilha.

1928 46 - 4/fevereiro - Deixa a


admi-
nistração da Loja
cargo de funcionários
dedicar-se de corpo e
à Obra Divina.
1929 47 - Confecciona
"miteshiro" e
concede-o a seus
- 1 l/abril - Nasce
shi, o terceiro filho.
- 23/maio - O Dragão
rado, guardião de
torna-se também
do Fundador.

1930 48 - 1º /junho - Erige a


Torre
Miroku no jardim do
fü-Sõ, em Õmori.

ANO IDADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS

1931 49 - 15/junho - Recebe, no 1931 - Guerra da


to- Man-
po do Monte chúria.
Estado de Tiba, a
ção sobre a Transição
da
Era da Noite para a
Dia no Mundo
Espiritual.
1932 50 - 24/março - Nasce 1932 -"Caso 5.
Kunihi- 15".
ro, o quarto filho.

1934 52 - l°/maio - Abre o 1933 - O Japão


Õjin-Dõ sai da
e inicia o "Tratamento Liga das Nações.
ritual de Digitopuntura
Estilo Okada", no
Hiraga, quadra 1, n°
4,
Distrito de Tiyoda, em
Tó-
quio.
- 15/setembro - Deixa a
ligião Õmoto.
- 11 /outubro -
milagrosa da
Kannon de Mil Braços
foto espiritual.
- 17/novembro -
quadro da imagem do
non de Mil Braços.
- 4/dezembro -
oração Zenguen-Sanji.
- 23/dezembro - Culto
visório da Instituição
Nipon Kannon Kai no
-Dõ.
1935 53 - 1º /janeiro - Culto 1935 - "Segundo
Oficial Ca-
de Instituição da Dai so Õmoto."
Kannon Kai na Sede
sória do bairro de
quadra 1, Distrito de
da, em Tóquio.

ANO IDADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS

1935 53 - 1º /outubro -
Adquire a
(continuaçã mansão n P 3 do
Kaminogue, Distrito
de Se-
tagaya, em Tóquio, e
instala a Sede Geral
Nipon Kannon Kai.
Deno-
mina-a Gyokussen-Kyõ
posteriormente,
Montanha Preciosa.
- IO/outubro - Culto de
cialização da Sede
Solar da Montanha
sa. No terreno do
sen-Kyõ, inicia a
sobre Agricultura
Natural.
1936 54 - 15/maio - 1936 -"Caso 2. 26".
Instituição da
Dai Nipon Kenkõ
(Associação Japonesa
Saúde).
- 1º /julho - Comunica
solução da Dai Nipon
non Kai, no Culto
de Agradecimento.
- 28/julho - Recebe,
legacia de Polícia
litana, a "Ordem de
ção da Prática de
tos".
houve a dissolução
da Dai Nipon Kenkõ
kai.
- 5 a 6/agosto - Detido
Delegacia de Õmiya,
Estado de Saitama.
- 10 a 20/agosto -
Detido
pela Delegacia de
wa ("Primeiro Caso
gawa") .

ANO IDADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS

1936 54 - 15/outubro -
Conclusão
(continuaçã do Fujimi-Tei (Solar
o) da
Contemplação do
Fuji), na parte sudeste
Hõzan-Sõ.

1937 55 - 22/outubro -
Anulada a
"Ordem de Proibição
da
Pátrica de
Tratamentos."
1940 58 - 28 a 30/novembro - 1940 - Baixada a
Deti- "Lei
do pela Delegacia de das Organizações
magawa ("Segundo giosas."
Tamagawa") .
- 1º /dezembro -
das atividades de
to. Empenha-se, a
dessa época, na
de discípulos.

1941 59 - Requer, atendendo 1941 - Segunda


aos de- Guer-
sejos de pessoas ra Mundial.
e empresários, o
de Prática de
Nesse ano, faz viagens
Tanba, Moto-Isse e aos
tuários Kashima, Katori,
etc.
1944 62 - 5/maio - Muda-se
para o
Solar da Montanha
em Gora, Hakone
Divina - Solo Sagrado
Hakone) .
- 5/outubro - Muda-se
o Solar da Montanha
Leste, em Atami.

ANO DADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS

1945 63 - Adquire o terreno 1945 - Fim da


localiza- Segun-
do no Monte Izu da Guerra
em Atami (Terra Promulgada a "Lei
Solo Sagrado de Atami) . Pessoas Jurídicas
Natureza
Religiosa."
1946 64 - 15/agosto -
Conclusão do
Kanzan-Tei (Solar da
templação da
na Terra Divina.

1947 65 - 30/agosto - 1947 -


Instituição da Promulgada a
Nipon Kannon nova Constituição
(Igreja Kannon do Japão.
Japão).
1948 66 - Outubro - Instala a
Sede
Provisória do bairro de
mizu, em Atami.
- 30/outubro -
Associação Miroku do
pão.
- 8/novembro -
Ministério da Fazenda
rente a problemas
sobre im-
postos.

1949 67 - 25/fevereiro -
Instituição
da Igreja Miroku do
- Maio - Conclusão do
-Ryõ (Alojamento
Ligeira) posteriormente
nominado Nikõ-Den
cio da Luz do Sol) , na
ra Divina.
- 5/junho - A
Miroku do Japão filia-
Igreja Miroku do Japão.

ANO IDADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS

1949 67 - 25/agosto - A
"Criminal In-
(continuaç vestigation Division"
Tropas de Ocupação
tiga as instalações da
sob a suspeita de que
escondia barras de
diamantes, etc.

1950 68 - 4/fevereiro - 1950 - Guerra da


Instituição da Co-
Igreja Messiânica reia.
com a fusão da Igreja
non do Japão e Igreja
ku do Japão.
- O Fundador passa a
minar-se a si mesmo
SHU", Senhor da Luz.
- 13/abril - Ocorre um
de incêndio em Atami
Sede Provisória de
é poupada dessa
- 8/maio - São
as instalações da
a acusação de
- 29/maio a 19/junho -
Fundador é preso
acusação de suborno.
- 15/junho - Ocorre
nómeno Divino
prisão na Delegacia
Regio-
nal de Ihara, no
Shizuoka.
- Verão - Conclusão do
guetsu-An, (Casa de
mónia de Chá Monte
Lua).
- 23/dezembro -
mento do método do
rei. Mudança da Sede
visória para o bairro
kimi, em Atami.

ANO DADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS

1951 69 - 5/fevereiro - Anuncia 1951 - Alteração


a re- da
estruturação da Sede "Lei das Pessoas
Sistema Regional. dicas de Natureza
Reli-
giosa".
- 22/maio - Faz a
titulada "A Criação da
va Civilização", no
rio Hibiya, em Tóquio.
- 29/maioa 1° /junho-
meira viagem
região oeste da ilha
pal do Arquipélago
nês. A partir dessa
1954, realiza viagens
sionárias duas vezes
por
ano, na primavera e no
tono.
1952 70 - 15/junho - Conclusão 1952 -
do
Museu de Arte de Promulgação
do Tratado de Paz
na Terra Divina. São Francisco.
- 18/outubro -
Adquire localizado
terreno o às
gens do Lago
em Saga, Quioto (Terra
Tranquilidade - Solo
do de Quioto) .
1953 71 - 11 /fevereiro - Início
da di- na América do
fusão
- 15/junho - Conclusão
Terra Divina. Culto
morativo da conclusão
Paraíso Terrestre de
Hako-
ne.
- 16/outubro - Culto da
meeira do Templo
nico, na Terra Celestial.
- 1º /dezembro -
mento da Comissão de
vulgação da
Natural.

ANO IDADE HISTÓRICO FATOS RELACIONADOS

1954 72 - 4/fevereiro -
Adquire o
"Biombo de
com Flores
Brancas", da autoria
Ogata Kõrin .
- 19/abril - Tem uma
cação com sintomas
melhantes aos de
cerebral.
- 15/junho -
Realiza,Messiânico,
Templo no a
mónia de
Provisória da Vinda
Messias.
- 9/novembro -
com repórteres no
Messiânico.
- 1 l/dezembro -
do Palácio de Cristal.
noita nesse Palácio.
1955 73 - 4/fevereiro - Realiza o
Cul-
to da Primavera, no
plo Messiânico.
-se pela última vez
fiéis.
- 8/fevereiro -
"Pote das Glicínias", da
toria de Nonomura
- 10/fevereiro -
15h 33m, no Solar da
vem Esmeralda,
bairro de Minakuti, em
Ata-
mi.
- 17/fevereiro -
Culto de Ascensão,
Templo Messiânico.
- 30/março - Cerimónia
Investidura da
der Espiritual da
Sra. Okada Yoshi,
do Fundador.