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Revista Sinais Sociais v.1 n.3

Revista Sinais Sociais v.1 n.3

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  • SUMÁRio
  • EDiToRiAL
  • BioGRAFiAS
  • o PRoBLEMA Do CoNTRoLE DA PoLÍCiA EM CoNTEXToS DE VioLÊNCiA EXTREMA:
  • REFERÊNCiAS
  • UMA ANÁLiSE DA FREQÜÊNCiA E Do ATRASo ESCoLAR DAS CRiANÇAS BRASiLEiRAS1
  • EMoÇÃo AGREGADoRA
  • DiSCRiMiNAÇÃo RACiAL E EDUCAÇÃo No BRASiL
  • TRAGÉDiA DA CULTURA E MoDELAGEM DA iDENTiDADE

v.

1 nº3 janeiro > abril | 2007
SESC | Serviço Social do Comércio Administração Nacional

iSSN 1809-9815 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p. 1-180 | JANEiRo > ABRiL 2007

SESC | Serviço Social do Comércio | Administração Nacional PRESiDENTE Do CoNSELHo NACioNAL Do SESC Antonio oliveira Santos DiREToR GERAL Do DEPARTAMENTo NACioNAL Do SESC Maron Emile Abi-Abib

CooRDENAÇÃo Gerencia de Estudos e Pesquisas / Divisão de Planejamento e Desenvolvimento CoNSELHo EDiToRiAL Álvaro de Melo Salmito Luis Fernando de Mello Costa Mauricio Blanco Mônica Pereira dos Santos
secretário excutivo

Sebastião Henriques Chaves Produção Gráfica - Assessoria de Divulgação e Promoção / Direção Geral
projeto gráfico

Vinicius Borges
revisão

Rosane Carneiro

Sinais Sociais / Serviço Social do Comércio. Departamento Nacional - vol.1, n.3 (janeiro/ abril. 2007) - Rio de Janeiro, 2006 v. ; 29,5x20,7 cm. Quadrimestral iSSN 1809-9815 1. Pensamento social. 2. Contemporaneidade. 3. Brasil. i. Serviço Social do Comércio. Departamento Nacional

As opiniões expressas nesta revista são de inteira responsabilidade dos autores.

SUMÁRio
EDiToRiAL4 BioGRAFiAS6 o PRoBLEMA Do CoNTRoLE DA PoLÍCiA EM CoNTEXToS DE VioLÊNCiA EXTREMA8

oS CASoS Do BRASiL, DA ÁFRiCA Do SUL E DA iRLANDA Do NoRTE

Cristina Buarque de Hollanda

UMA ANÁLiSE DA FREQÜÊNCiA E Do ATRASo ESCoLAR DAS CRiANÇAS BRASiLEiRAS36
Danielle Carusi Machado

EMoÇÃo AGREGADoRA66
Elter Dias Maciel

DiSCRiMiNAÇÃo RACiAL E EDUCAÇÃo No BRASiL122
Romero C. B. da Rocha Valéria Pero

TRAGÉDiA DA CULTURA E MoDELAGEM DA iDENTiDADE156
UMA LEiTURA DE WEBER E SiMMEL

Valéria Paiva

conduza a busca de respostas eficientes para as questões que nos comovem e. a todos inquietam e exigem soluções duradouras. E. ameaçam nossas integridades física e moral. por isso. A estes artigos somam-se mais dois que tratam. não soluções permanentes. através dos escri- 4 . e não a emoção. Três temas que são abordados no terceiro número da revista Sinais Sociais tratam de questões que estão na ordem do dia dos debates na sociedade e no mundo acadêmico: violência. algumas vezes. ao nosso juízo. com a divulgação destes artigos. no Brasil. Pode-se afirmar que os assuntos trazidos ao debate nacional não ocorrem como necessidade dos meios de comunicação em alavancarem suas vendas. hoje. Trazer argumentos sólidos baseados em estudos e pesquisas para a reflexão de todos é. Produzir respostas no calor dos acontecimentos tem demonstrado não ser um bom caminho. uma época caracterizada por temas que reiteradamente são postos em evidência para discussão. discriminação social e educação. embora isto naturalmente ocorra. Eles tornam-se assuntos comuns a todos nós pelo fato de trazerem feridas que sangram nossa sociedade e agridem nossa consciência cidadã.EDiToRiAL Vive-se. Nesse sentido. da importância da literatura como fonte de conhecimento e compreensão do mundo e outro sobre a importância ainda dos modelos de análise da sociologia clássica. o terceiro número da revista Sinais Sociais aborda o problema do controle da polícia em situações de violência extrema. Pela seriedade e substância dos estudos realizados. Atender ao clamor das ruas pode garantir aplausos momentâneos. a revista Sinais Sociais cumpre seu papel de disseminador de análises sobre problemas nacionais que pedem urgência em seus equacionamentos. respectivamente. o atraso escolar das crianças brasileiras e as questões da discriminação racial e da educação no Brasil. necessário para que a razão. acreditamos que.

Os artigos estão dados. Presidente do Conselho Nacional do SESC Antonio Oliveira Santos 5 . Agora. para se ter uma melhor compreensão do processo de modelagem da identidade dos indivíduos na sociedade contemporânea.tos de Weber e Simmel. cabe lê-los e sobre eles refletir.

com graduação e mestrado em Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. e de ensaios e artigos sobre Educação. O título da sua tese de doutorado é Escolaridade das crianças no Brasil: três ensaios sobre a defasagem idade-série. sendo professora colaboradora da Escola Nacional de Ciências Estatísticas. Em 2005. a autora foi premiada por concurso da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) em convênio com a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs) para desenvolver pesquisa sobre o tema do controle externo de polícia.Cecierj. Literatura e Religião. no período de 1992 a 1996. recebeu premiação da Fundação Ford em parceria com o Iuperj para desenvolvimento de estudo comparado entre modelos de segurança pública no Brasil e na África do Sul. Professor Pleno da Fundação Getúlio Vargas no Curso de Pós-Graduação do Instituto de Estudos Avançados em Educação (Iesae). Especializou-se em Economia do Trabalho e Bem-Estar Social e Economia do Setor Público. em 1991 e 1992. No mesmo ano. a autora publicou seu livro Polícia e Direitos Humanos: política de segurança pública no primeiro governo Brizola no Rio de Janeiro. Professor Adjunto de Metodologia da Pesquisa em Ciências Sociais no Curso de Pós-Graduação em Educação na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente trabalha como técnica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Em 2004. Danielle Carusi Machado Economista. Elter Dias Maciel Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). e doutorado no Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio). Cultura. em 1973. Autor do livro O drama da conversão: análise da ficção batista. Diretor-Presidente do Centro de Ciências do Estado do Rio de Janeiro . 6 . pela Editora Revan.BioGRAFiAS Cristina Buarque de Hollanda Mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). com concentração em Sociologia do Conhecimento e Sociologia da Religião. no período de 1978 a 1990.

2006. 2004. Publicação: Leibniz. Valéria Pero Concluiu doutorado em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2002. (org) Desemprego: trajetórias. In: Textos Econômicos. atuando principalmente nos seguintes temas: mercado de trabalho. In: XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA. identidades e mobilizações. In: Encontro Nacional de Economia. Tem experiência com pesquisas na área de Mercado de Trabalho. UFPE. 2004. Entre seus artigos recentes. Editora Senac. Desigualdade de Renda e Pobreza. São Paulo: v. São Paulo.Anpec. 2005. H. Arnauld e Os decretos livres divinos em cadernos espinosanos. JOÃO PESSOA: ANPEC. 2002. com Dimitri Szerman. Valéria da Silva de Paiva Doutoranda em Sociologia e mestre em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Is the Brazilian Fiscal Responsibility Law (LRF) Really Binding? Evidence from State-Level Government”. “Duração do (des)emprego formal e mobilidade ocupacional”. ANAIS DO XXV ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA. nº2. e HIRATA. microcrédito e avaliação de políticas públicas. Obteve a Graduação em Ciências Sociais na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). favela. pode-se citar: “Mobilidade social no Rio de Janeiro”. N.IX. 7 . Iuperj. 2005.“Mobilidade Intergeracional de Renda no Brasil”. João Pessoa. XXXIII Encontro Nacional de Economia . in: GUIMARÃES. Natal. Revista de Economia Mackenzie. Principais artigos de elaboração mais recente: “Economic Efficiency Evaluation of Public Sector at Specific Countries”.Romero Cavalcanti Barreto Rocha Romero Cavalcanti Barreto Rocha concluiu graduação em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 2002 e mestrado pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2005. mobilidade social e de renda. Atualmente é estudante de Doutorado em Economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio). 2002.

DA ÁFRiCA Do SUL E DA iRLANDA Do NoRTE1* Cristina Buarque de Hollanda 1* A pesquisa que utilizei para a redação deste artigo foi possível graças a financiamentos da Secretaria Nacional de Segurança Pública e da Fundação Ford. 8 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. p.o PRoBLEMA Do CoNTRoLE DA PoLÍCiA EM CoNTEXToS DE VioLÊNCiA EXTREMA: oS CASoS Do BRASiL.1 nº3 | p. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .

South Africa and Northern Ireland. o artigo especula caminhos possíveis para o caso brasileiro. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. the author investigates different ways of dealing with police violence. África do Sul e Irlanda do Norte. This article focuses on the problem of external police control in Brazil. the article speculates possible solutions for the Brazilian case.p.O artigo trata do problema do controle externo da polícia no Brasil.1 nº3 | p. a autora investiga modos distintos de lidar com o problema da violência policial em expressão limite. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 9 . which brought considerable innovations in treating the issue. Through a comparative perspective. Em perspectiva comparada. Based on South African and Northern Ireland institutions. que constituem experimentos de vanguarda no tratamento do tema. Com base nas instituições sul-africana e norte-irlandesa.

1973) tivessem apetite menos voraz que os atores do clássico cenário hobbesiano da “guerra de todos contra todos”. a melhor potência de suas ações estaria garantida num ambiente organizado pela unificação dos juízos sobre o bem e o mal. O primado da segurança tem vínculo estreito com a organização do julgamento sobre os assuntos de natureza pública. dotada da previsibilidade necessária ao livre empreendimento individual. era o medo da morte violenta a principal motivação dos homens para voluntariamente constituírem um pacto que os organizava em sociedade. Se alguma margem de desvio do universo formal não compromete a normalidade da rotina de funcionamento do Estado. p. Já no século XX. Mais uma vez. A idéia de um monopólio legítimo dos recursos de retaliação por parte do Estado deveria atenuar a angústia dos julgamentos difusos e cambiantes ao sabor dos desejos e caprichos de cada homem. também a clássica definição weberiana de Estado (Weber. os contextos de grave disparidade entre desempenho ide- 10 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. portanto. no limite. a própria condição de possibilidade do máximo aperfeiçoamento dos homens. A segurança constituía. Mesmo na sua versão minimalista. E mesmo a migração do contratualismo para o campo liberal não significou alteração dessa premissa fundacional. Entretanto.Não existe consenso sobre a idéia de Estado. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . É nesta chave que deve ser compreendida a importância do tema do controle de polícia. a legitimidade de sua intervenção violenta está gravemente comprometida. Se a polícia escapa à sua designação formal. 1991) conferia centralidade à expectativa de uma vida segura e infensa aos arroubos individuais. isso significa. parece haver razoável convergência em torno da expectativa de segurança associada a ele.1 nº3 | p. Ainda que os homens de Locke (Locje. A supressão do arbítrio generalizado instituiria uma ordem segura. 1979). o tema da segurança assumia lugar central na reflexão sobre a constituição da ordem estatal. Quando as agências de forças do Estado escapam à unidade moral de referência e recuperam sinais de dispersão do juízo. o divórcio da legalidade que originalmente justifica sua existência. Na tradição contratualista iniciada por Hobbes (Hobbes. a substância estatal é animada pelo tema da segurança. típicos do hipotético estado de natureza.

al e real das polícias podem alcançar efeitos devastadores na dinâmica de legitimação da ordem política. aprisionado pelo paradoxo de uma vigília soberana. A premissa é de que o desafio das situações extremas. seu livre funcionamento à revelia das normas destinadas a regular sua existência. independente de suas particularidades. tampouco o tema pode ser suprimido do repertório de preocupações de um Estado democrático sem prejuízo para o reconhecimento social deste. inscritos em contextos nacionais díspares. com o tipo de ação das suas agências de força. que protagonizaram experiências de vanguarda na resistência à violência policial. Tendo em vista a importância do tema do controle de polícia para a garantia do princípio de imparcialidade do Estado. A legitimidade do Estado democrático tem vínculos estreitos. Os governos desses dois países confeccionaram instituições estritamente orientadas para alterar o tipo de interação entre suas agências de força e largos segmentos marginalizados de suas popula- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. não significa obstáculo para a migração de modelos de controle da polícia para contextos alheios ao da sua gestação. produz o abatimento da expectativa moral associada ao Estado. que relegam a suas próprias agências de segurança a suposta investigação de seus crimes e não admitem interlocutor externo (Lemgruber. Irlanda do Norte e Brasil. a democracia não poderia se diferenciar dos governos autoritários. No contexto das democracias modernas. isto é. alcançaram graves níveis de antagonismo entre suas populações e polícias.p. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 11 . Se o problema clássico de como vigiar os vigias está fadado a um impasse lógico. sobretudo da força letal. por motivos peculiares às suas trajetórias de formação social. Sem controle de polícia. Este foi o caso da África do Sul e da Irlanda do Norte. Em última instância. um dos desafios centrais da política é justamente o de limitar seu próprio uso da força. pode resultar em soluções inovadoras. 2003). o descontrole da polícia. portanto. são igualmente confrontados com expressões limite do problema da violência policial. África do Sul.1 nº3 | p. este artigo se dedica ao mapeamento sucinto de três experimentos de vigília da polícia que. Embora a especificidade de cada uma das histórias nacionais em pauta inspire ajustes próprios. descoladas da rotina das instituições.

com repercussão em níveis diversos de organização da vida social. A origem da instituição esteve situada num movimento mais largo de conciliação política entre unionistas e católicos nacionalistas. Importante notar que 12 dos policiais militares presos por suspeita de envolvimento neste episódio já acumulavam acusações de outros 25 crimes. mas de processos políticos de grande porte. a gravidade do tema da violência policial. Vinte e nove pessoas foram aleatoriamente assassinadas nas calçadas e bares daqueles bairros. Dois inquéritos. No caso da África do Sul. a formulação do Police Ombudsman for Northern Ireland resultou de grave impasse político entre os segmentos católico e protestante da população. com sinais claros de autoria policial. Os motivos especulados para o crime foram a disputa por influência política local e o conflito de procedimentos entre adeptos do antigo comandante do Comando de Policiamento da Baixada (CPB) e o novo quadro dirigente que o sucedeu na região. dentre homicídios e seqüestros. As organizações de controle brasileiras padecem de precários poderes e recursos e são claramente incapazes de lidar com os níveis crescentes de insatisfação com a polícia. Ambos foram privados de perí- 12 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. não inspirou iniciativas com projeção similar a que tiveram as novas instituições sul-africana e norte-irlandesa. o TEMA Do CoNTRoLE DE PoLÍCiA No BRASiL Em 31 de março de 2005 aconteceu nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados a maior chacina da história do estado do Rio de Janeiro. foram instaurados para apurar o caso. Na Irlanda do Norte. um na Polícia Civil e outro na Polícia Federal. p. tendo um deles sido reconhecido por testemunhas como assassino de seis jovens em Belford Roxo. em 7 de setembro de 2001. embora motive tímidos esboços de ação no campo do controle. mas se estendeu a setores diversos da vida social. No Brasil.1 nº3 | p. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . por contraste.ções. o Independent Complaints Directorate foi criado no contexto de democratização do país. que não esteve restrito à ampliação dos direitos políticos. A criação de mecanismos externos de controle da polícia não resultou de meros ajustes formais na legislação.

perda de colegas de trabalho por motivos direta ou indiretamente ligados ao exercício da profissão. A precariedade das organizações formais de controle da polícia se fez evidente neste episódio. são julgados todos os crimes policiais militares. respectivamente. dado que a idéia de policiais investigando policiais está fadada à descrença pública. o ethos policial não é destoante. é a principal expressão institucional desse corporativismo. a 78% do contingente policial do país2. de monitoração e investigação dos procedimentos policiais faltosos – foram protagonizados por comissões externas da Câmara dos Deputados e da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e também por um serviço de inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. nas proximidades da delegacia onde o caso foi registrado. claramente vinculados aos autores da chacina. que se encarrega das investi2 Esta informação consta no artigo de Fiona Macaulay: Problems of Police Oversight in Brazil. no Brasil. Ao início das investigações sucederam-se ainda crimes avulsos e igualmente arbitrários. Se em todo o mundo as particularidades do trabalho policial – exposição permanente a risco de vida ou mutilação do corpo. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Os campos de competência das ouvidorias e do Ministério Público – que são.1 nº3 | p. tiveram atuação periférica neste caso. Nas cortes militares. a intenção ou não do crime avaliada pela própria polícia. Sendo. Pg 9. dentre outros – favorecem a formação de fortes laços de identidade profissional. que por definição devem conduzir ou ao menos acompanhar a investigação de crimes policiais.p.cia adequada por terem sido as cenas do crime descaracterizadas antes da chegada dos profissionais especializados. A sobrevivência de um sistema paralelo de justiça militar. O imperativo da investigação independente (ou da sua aparência) foi improvisado com vistas a dotar os inquéritos em andamento de alguma transparência e legitimidade aos olhos da população. que se reporta às polícias militares estaduais e. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 13 . com exceção de homicídio intencional de civis cometido por profissional em serviço. contudo. portanto. especialmente recrutados para apuração deste crime. As instituições de controle externo da polícia.

mantidos sob competência da Justiça Militar (Macaulay.gações preliminares de toda queixa criminal. Em 2002. 1999). o oficial militar acusado e devidamente protegido por subterfúgios de tipificação criminal se mantém a salvo do processo criminal e pode sofrer apenas sanções internas. Além desse padrão de desvio. o controle interno da polícia – composto pelas corregedorias e. Os demais foram absolvidos por ausência de provas de responsabilidade individual (Macaulay. Na prática. a intervenção policial em favor próprio já se inscreve no momento imediatamente posterior à deflagração do crime. revelando enorme apreço pelo tema da disciplina (Muniz. 2002). dos 153 policiais levados a julgamento pelo assassinato de 19 trabalhadores sem-terra em Eldorado dos Carajás. as corregedorias são compostas pelos próprios policiais – à di- 14 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Nos casos de crimes policiais coletivos. com alteração da cena e conseqüente comprometimento das evidências para apuração. p. Isto significa que. de modo que a culpa se despersonaliza e recai sobre a corporação policial como um todo. não raro os homicídios são descritos como “morte por resistência da vítima à prisão” ou “em decorrência de legítima defesa do policial” e. em 1996. como foi o caso mencionado da chacina. no caso das polícias militares. Destinadas ao controle interno da corporação. Além da recriação usual da alegação criminal segundo jargões policiais eufemísticos. assim. Nessas redes de proteção penal. esses tribunais são dotados de notável margem de manobra em favor dos interesses policiais. ainda que um crime extrapole a jurisdição da corte militar – em geral por sua exposição na mídia e pela pressão externa que deriva disso –. Não raro infrações menores (como um pequeno atraso ou uma farda malpassada) são punidas com excessiva severidade. resulta em ex-policiais homicidas que se empregam em agências de segurança privada ou se reintegram à polícia de outro estado da federação. sendo a expulsão da corporação a pena máxima. Ou seja. 2002). as evidências do envolvimento de policiais individuais são facilmente suprimíveis. incrementado pela própria justiça militar – tende a priorizar questões disciplinares em detrimento das criminais. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . a destruição de provas é um procedimento usual que inviabiliza investigações consistentes. apenas dois foram condenados.1 nº3 | p. em casos de grave incursão criminal.

ferença das ouvidorias, que supõem alguma autonomia de seus quadros com relação à polícia – e costumam valorizar excessivamente os meios, que se tornam fins em si mesmos e apontam negligência dos fins originais da polícia. Formalmente designadas para a apuração das queixas de civis contra a polícia, as corregedorias na prática se voltam para o controle do tipo de relacionamento do policial com a corporação. Desta maneira, contribuem para a precarização das relações da polícia com o público, corroborando a perspectiva da excessiva proteção interna. É relevante notar que os policiais alocados nas corregedorias, e inclusive o próprio corregedor, não gozam de uma carreira especial no interior da corporação, estando diretamente sujeitos à pressão dos colegas sob investigação, ao lado dos quais poderão voltar a trabalhar num futuro próximo (Macaulay, 2002). Não há, portanto, um ethos diferenciado entre controlador e controlado, visto que todos se pautam no princípio de pertencimento ao mesmo corpo profissional e não recebem estímulos diferenciados dentro da instituição. O corporativismo tende, enfim, a prevalecer sobre a suposição de neutralidade investigativa e impor apuração nitidamente desfavorável ao reclamante. Como contraponto a tal pulsão corporativa, foram criadas estruturas de controle semi-autônomo e autônomo com vistas à garantia de um olhar externo e isento para as queixas de crime policial. As ouvidorias de polícia, implementadas a partir da segunda metade dos anos 90 em muitos estados do país, foram regulamentadas pelo Fórum Nacional dos Ouvidores de Polícia, criado em 1999, e devem cumprir o papel de controle semi-autônomo. Ainda atreladas ao modus operandi policial, dado que não dispõem de poderes e recursos para investigação própria, as ouvidorias devem monitorar os inquéritos para garantir que seu andamento obedeça a critérios de isenção. Nas situações em que avaliar inadequação dos métodos policiais, estas organizações devem então se reportar ao Ministério Público e sugerir sua intervenção. Em Quem vigia os vigias?, Julita Lemgruber, Leonarda Musumeci e Ignacio Cano (Lemgruber, 2003) descrevem com rigor de detalhes o cenário precário de cinco ouvidorias de polícia no Brasil. São elas: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do

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Sul e Pará. Em linhas gerais, o diagnóstico dos autores é de que o descompasso entre a existência formal e real dessas organizações está, em grande medida, fundado na falta de profissionalização de seus membros, na dependência orçamentária das secretarias estaduais de Segurança e nas suas escassas possibilidades de ação e influência sobre a polícia. As ouvidorias constituem-se, portanto, em estruturas esvaziadas de poder cuja designação de controle está inteira e contraditoriamente atrelada aos próprios procedimentos policiais. As corregedorias de polícia são seus principais interlocutores e uma forte tensão caracteriza esse diálogo compulsório que está na própria base de ação dos ouvidores. O problema da falta de transparência policial se impõe como obstáculo ao trabalho do ouvidor, que dispõe de tímidos e insuficientes mecanismos para superar as estratégias de autoproteção policial. Não habilitadas a conduzir investigação independente, as ouvidorias são, enfim, reféns da distorção corporativa policial contra a qual se estabeleceram. O princípio da autonomia, basilar na definição do controle externo, é ainda seriamente comprometido pela indistinção aparente entre a sede da ouvidoria e os batalhões de polícia. Das cinco organizações estudadas por Lemgruber, Musumeci e Cano, quatro estavam localizadas em prédios anexos a unidades policiais, comprometendo inteiramente a imagem dessas instituições como organizações autônomas. A confiança que deveria derivar da independência formal das ouvidorias é inteiramente comprometida nesse ambiente de miscelânea geográfica com a polícia. Nesse contexto, é razoável que a população não tenha clareza ou simplesmente desconheça os objetivos das ouvidorias, muitas vezes confundidas com as corregedorias ou simplesmente ignoradas de todo. Ainda segundo o relato dos autores, o cotidiano dessas organizações é marcado pelo improviso. Seus funcionários não são submetidos a qualquer treinamento para exercício da função, que implica habilidade específica para lidar, dentre outros, com pessoas sob forte tensão emocional e sujeitas a risco de vida. O despreparo também é evidente no tratamento das informações confiadas às ouvidorias, que constituem documentos sigilosos e, como tal, deveriam estar protegidas por controle rígido de acesso, o que não acontece na prática.

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À evidente precariedade legal e estrutural das ouvidorias os governos estaduais costumam opor a nomeação de reconhecida figura pública para o posto de ouvidor. A expectativa associada é de que o reconhecimento social dos ouvidores, combinado à sua dedicação e afinidade vocacional com os fins da ouvidoria, deverão produzir alguma legitimidade para a instituição. E, de fato, as ouvidorias que alcançaram algum sucesso no desempenho de suas funções foram indubitavelmente marcadas pelo empenho pessoal de sua equipe, e apenas residualmente pelo suporte institucional do governo. Neste breve mapa do tema do controle de polícia no país, lugar de destaque ocupa ainda o Ministério Público, a partir da Constituição de 1988 (Moraes Filho, 1996). Como “fiscal da lei”, tem a atribuição de exercer o controle externo das polícias (art. 129, inciso VII da Constituição Federal de 1988). À diferença das ouvidorias, dispõe de poderes de investigação independente, podendo simplesmente recusar as conclusões dos inquéritos policiais e opor a eles seus próprios resultados, produzindo desdobramentos judiciais inteiramente diversos daqueles que resultariam das apurações policiais. Além disso, o Ministério Público tem designação proativa, o que supõe movimentos de antecipação ao evento criminal. Isto é, visto que a observação atenta dos desvios policiais pode revelar rotinas de criminalidade, o Ministério Público estaria apto a elaborar estratégias de prevenção e controle dessas rotinas e impôlas à polícia. Dispondo, portanto, de maiores poderes que as ouvidorias, trata-se da mais importante instituição de controle externo de polícia do país. Contudo, ainda que disponha de poderes muito superiores aos da ouvidoria, igualmente padece do profundo descompasso entre descrição de competências e capacidade real de atendimento às queixas. Seu desempenho efetivo está definitivamente aquém do seu potencial legal. Este cenário de profunda inadequação institucional ao volume e qualidade da demanda social por controle de polícia não significa necessário desajuste de todo tratamento formal do problema, mesmo em situações extremas de conflito. As organizações sul-africana e norte-irlandesa, conforme descrição a seguir, ilustram a idéia de

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Como seria possível transformar o modus operandi largamente consolidado pelo cotidiano policial e simultaneamente superar o vazio de confiança entre polícia e população marginalizada? Dado o protagonismo recente da polícia na tarefa de repressão aos negros. responsável pelas torturas e desaparecimentos. 18 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. que representavam cerca de 80% da população do país. o governo emergente precisava inventar uma nova identidade para aquela instituição. 2003:14). 2001). O uso desmedido e injustificado da força contra a população negra.1 nº3 | p. A democracia na África do Sul trouxe para a agenda política nacional o desafio de superar o grave trauma social do Estado segregador. Para boa parte da população sul-africana. A tarefa de lidar com a memória recente da violência de Estado não foi trivial para a transição democrática iniciada na década de 90. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . apesar de contar basicamente com o mesmo material humano. Diante desse grave impasse. ÁFRiCA Do SUL E o Independent ComplaInts dIreCtorate A menção traumática às forças de segurança do Estado sul-africano é central nos testemunhos para a Comissão de Verdade e Reconciliação. esse período da história foi sinônimo de banalização da violência pelas forças de segurança do Estado.que o universo formal pode dispor de instrumentos razoáveis para alterar rotinas consagradas de uso da violência policial. A impossibilidade de fazer tábula rasa do passado e reinventar o presente sem vínculos com o modelo político esgotado significou a necessidade incontornável de uma reforma fundada na memória da segregação e da violência. o desaparecimento inexplicado de presos. p. um oficial sênior da Scotland Yard em viagem de estudos à África do Sul em 1993 não escapou de uma recomendação tão intuitiva quanto improvável: “fire every officer from colonel to general and rebuild command and control from scratch” (Stenberg. a rotinização da tortura nas delegacias e a descoberta posterior de inúmeros cemitérios policiais clandestinos consolidaram a imagem de uma polícia extremamente violenta e arbitrária. implementada em 1995 como estratégia para lidar com a memória do Apartheid (Karin. e não na sua recusa.

o de levar adiante uma reconfiguração institucional capaz de lidar com as marcas profundas do passado que se projetavam no presente e moldavam as expectativas de futuro. não raro mobilizado pelos brancos (Gibson. Os fóruns improvisados pretendiam uma solução alternativa ao caminho judicial e produziam espaços de catarse coletiva que eram o próprio avesso da idéia de esquecimento. o Independent Complaints Directorate (ICD). A premissa que sustentou o experimento é a de que a memória do sofrimento não poderia se limitar aos dramas pessoais de quem padeceu da exclusão social violenta. enfim. em todo o país. Foi este princípio do perdão sem esquecimento que orientou o experimento institucional no pós-Apartheid e que teve sua principal expressão na Comissão de Verdade e Reconciliação. Para driblar o antigo monopólio militar de investigação dos crimes policiais. o ICD foi constituído como organização civil submetida ao Ministery for Safety and Security e inteiramente autônoma com rela- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. confissões de agressores e depoimentos de vítimas de crimes cometidos por agentes oficiais. O objetivo era romper com o passado sem negar as suas marcas. instrumento que teve centralidade na transição política pacífica no país. Era preciso compartilhá-la com a nação e invalidar o tema do desconhecimento.O desafio que se impunha ao governo da transição era. ele me disse: “We forgive. fundou formalmente a possibilidade de o governo reconhecer e apurar as faltas policiais. 2004).” E este é justamente o ponto central da filosofia da nova democracia na África do Sul. but we don´t forget. Ao instituir investigação autônoma das denúncias de desvio de conduta policial. criado em abril de 1997. procedimento que simplesmente inexistia na cena política anterior. A frieza e o formalismo das instituições deveriam ser capazes de abrigar e superar a marca do sofrimento e os rancores entre as raças.p. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 19 . As outras novidades do repertório institucional inventado pelo novo governo para lidar com a marca social da violência de Estado estiveram também fundadas nesse princípio do reconhecimento. Durante quase seis anos os voluntários envolvidos com as comissões registraram. Numa conversa informal com um taxista negro que viveu infância e adolescência em Soweto na época do Apartheid.1 nº3 | p.

Seu diretor executivo é nomeado pelo ministro e submetido à aprovação dos parlamentares. a de investigar ou monitorar a apuração policial de todas as denúncias de más condutas ou violências. Fora do seu período de trabalho. ao final de cada investigação. em casos de homicídio ou grave lesão corporal. enfim. que se destina prioritariamente às denúncias de sérias violações de direitos e homicídios sob custódia policial ou em decorrência de ação da polícia. as respectivas investigações e recomendações associadas. Isto significa que. de 1995. pela polícia. O ICD está estruturado em cada uma das províncias e em uma sede nacional. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . A escolha por investigação ou monitoramento é em função da gravidade de cada caso reportado. 20 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.ção à polícia nacional sul-africana. Nos eventos que envolvem. As queixas chegam ao escritório da instituição encaminhadas diretamente pelos próprios reclamantes e/ou. para isso. instituição similar ao Ministério Público no Brasil. não são considerados policiais e por isso não deverão ser investigados pelo ICD. A constituição de 1996 lhe concedeu plenos poderes de investigação dos crimes policiais. o ICD encaminha ao DPP as provas reunidas e suas conclusões sobre atribuições de culpa. obrigada constitucionalmente a transmitir informações desse tipo. portanto. inteiramente autônomas com relação à estrutura policial. A cada seis meses a instituição deve reportar ao Parlamento as denúncias que lhe foram encaminhadas. acusação criminal. e não apenas falta disciplinar. além de acesso irrestrito a todo documento policial. o principal interlocutor da organização é o Director of Public Prosecution (DPP). o ICD dispõe de estruturas próprias. conferindo-lhe. seguidas ou não de morte. que só são investigados se acusados de alguma irregularidade cometida durante exercício da atividade policial. A principal atribuição da organização é. e se reúnem em um departamento específico da instituição. As definições e os modos de condução das investigações estão previstos no South African Police Service Act. além de recomendações de punição e/ou 3 A única exceção é feita para os servidores voluntários da polícia.1 nº3 | p. mas pela própria polícia. À diferença das ouvidorias brasileiras. poderes de polícia para lidar com a polícia. atribuídas a policiais no exercício ou não de sua função profissional3. p.

e de preferência não-residentes na província onde serviram para a polícia. Por outro lado. por exemplo. o investigado deve ser deslocado. ao mesmo tempo. que tem poderes de direcionar o processo e pedir esclarecimento de pontos eventualmente con- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. quando direcionadas à polícia. e sugestões disciplinares. Quanto às denúncias que não acusam grave agressão física ou ameaça à vida. mesclando investigadores com e sem passado profissional na polícia. Antes de qualquer deliberação judicial. portanto. são encaminhadas para monitoramento. o mandato da instituição está restrito ao relato das investigações e a instituição não dispõe de nenhum mecanismo formal para conduzir a decisão final do DPP. portanto. espera-se inclusive que o ICD recomende o tratamento que a polícia deve dispensar ao acusado ou grupo de acusados. Nesses casos de implicação criminal. Um dos dilemas originários desse segmento da instituição foi o de recrutar profissionais com experiência em investigações policiais e. Dentre os ex-policiais. quando dirigidas ao DPP. A solução foi compor uma equipe mista.p. Embora os relatórios para o DPP possam sugerir penas. houve uma preocupação em recrutar investigadores com perfil diferenciado. envolvidos em atividades de policiamento comunitário. os dirigentes do ICD acreditam ter sido possível contornar o problema da fidelidade corporativa aos antigos colegas policiais e ao mesmo tempo contar com profissionais experientes. profissionais sem conhecimento específico poderiam não estar devidamente qualificados para as investigações. sua designação investigativa. para serviços internos que não incluam contato com o público. o ICD também pode se reportar à polícia.absolvição judicial para cada policial investigado.1 nº3 | p. Quando a investigação está em andamento. Isso significa que suas recomendações podem acumular exercícios de tipificação penal (e penas correspondentes). Em todas as circunstâncias. o ICD não extrapola. A admissão de ex-policiais poderia comprometer o princípio da autonomia. Desta maneira. por exemplo. o que significa que a própria polícia é encarregada de investigar o caso e em seguida prestar contas ao ICD. O fato de reportar-se ao DPP não anula. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 21 . assegurar a independência de seus quadros com relação à polícia. interface com a corporação do suposto agressor.

existe também uma segunda matriz de ação. é a polícia que conduz a apuração até o final e requisita ao ICD aprovação dos resultados da investigação. em que se supõe acatamento da polícia a seu repertório de recomendações sem que um mecanismo legal efetivo garanta esse alinhamento. Ao atentar para padrões de desvio no exercício da profissão policial. os recursos e os quadros profissionais são considerados muito aquém da demanda realmente existente. Muito pelo contrário. processadas. p. os poderes de monitoramento e recomendação encontrariam. e não apenas restritas a casos particulares de desvio criminal. E dessa matéria-prima pode também derivar planejamento de ações específicas para antecipação ao crime. entretanto. que é de gerência de informação e pesquisa. 22 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. do agregado de queixas pode resultar um mapeamento valioso do tipo e da freqüência das ocorrências criminais. A concentração da instituição nas ações a posteriori não exclui. Contudo. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . Caso haja insatisfação com o andamento e/ou resultado da investigação policial. o ICD produz recomendações mais gerais. Em linhas gerais. Embora o ICD não tenha alcançado a maturidade institucional compatível com as expectativas de mudança associadas a ele. portanto. Na prática. As principais críticas à instituição incidem sobre esses casos de monitoramento. analisadas. buscando identificar problemas sistêmicos nas polícias. o benefício em relação à situação anterior é inestimável. A capacidade de atender às demandas por investigação ainda está distante de suas metas regulamentares e o repertório de ações preventivas ainda é exploratório.siderados obscuros. trata-se de assegurar que todas as queixas sejam devidamente recebidas. registradas e compartilhadas por todos os profissionais do ICD em todas as províncias. a possibilidade da prevenção. Na maioria das vezes. O setor deve ainda observar com minúcia o universo de reclamações encaminhadas para a instituição. Além das atividades de investigação e monitoração. e não raro sucumbiriam a ele. como costuma fazer. no final do processo. sem dúvidas demonstrou avanços neste sentido. a instituição pode assumir a investigação para si e exigir da polícia todos os documentos e informações para tornar viável tal mudança de competência. o obstáculo do corporativismo policial.1 nº3 | p. Também a estrutura. que constituem a própria atividade-fim da instituição.

divididos no Ulster Unio- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. um movimento pacífico de reivindicação dos direitos civis. que incluiu acordos e curtos períodos de gestão compartilhada com os católicos. contudo. A disputa do território irlandês por católicos e protestantes tem história longa.polICe ombudsman for northern Ireland: o CASo NoRTE-iRLANDÊS A violência também é marco incontornável da conturbada história política e social da Irlanda. os ingleses significavam ameaça à sua soberania e seus costumes. A incapacidade do governo em lidar com esta nova modalidade de resistência católica e o respectivo fracasso em corresponder minimamente à sua pauta de reivindicações acabou por estimular a rearticulação do movimento católico republicano em bases armadas. A consolidação das diferenças aconteceu ao longo de séculos. O alvo do IRA passou a ser o exército inglês nas províncias do Norte. os irlandeses representavam o atraso e a ocupação indevida de terras que lhes eram caras. A dissidência resultou na divisão do país em 1921. As campanhas do IRA pela unificação nacional atravessaram o século. Aos olhos ingleses. segundo designação dos protestantes. e em grande medida ainda são: os unionistas. permeada pelo ódio recíproco. separando as 26 províncias do Sul das seis do Norte. inseridos ou não na política formal. Os principais atores políticos de atuação local. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 23 . alternando épocas de recuo com tempos de maior recrudescimento no uso da força. políticos e sociais (Terence. 2004). que assumiram contornos religiosos. Às forças do Estado inglês somavam-se informalmente os grupos armados protestantes partidários do arranjo político que garantia a supremacia inglesa. floresceu. A instabilidade da cena social produziu mutações freqüentes nos arranjos locais de poder.1 nº3 | p. ou na Irlanda do Norte. conforme denominação católica. de nítida inspiração norte-americana. A organização armada da militância católica era apenas um dos atores em disputa. o projeto católico da Irlanda unida. Naquele ambiente rotineiramente abalado pela violência do Estado e dos chamados grupos paramilitares. a partir de meados nos anos 60. eram. A anexação da porção norte do país ao governo inglês não findou.p. A arqueologia do conflito na região revela a consolidação de antagonismos inconciliáveis. Aos olhos irlandeses.

adeptos da causa republicana ou unionista. notavelmente marcada pelo uso da força. Instituída em novembro de 1999. estão em boa medida concentrados nessa tensão ainda presente na relação com as forças de Estado. a maior concentração de protestantes na porção norte do país fez dos católicos uma minoria local. O processo de pacificação de um ambiente com sinais tão profundos do conflito.1 nº3 | p. p. Esta trajetória social tortuosa esteve. sobretudo quando se refere a um acúmulo social de centenas de anos. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . e o governo irlandês. embora tenha marcos claros na história.nist Party e no Democratic Unionist Party. o governo inglês. tende a ser lento. gradual e permeado pela desconfiança. pautadas no princípio da força como instrumento de autonomia política. ao longo dos anos de conflito. é importante notar que a memória da opressão não é facilmente suprimível. a transição deve envolver soluções institucionais capazes de lidar com as expectativas e repertórios emocionais dos diferentes grupos sociais. protagonizada pela maioria de policiais protestantes. A criação do Police Ombudsman for Northern Ireland buscou justamente cumprir o desafio de produzir a confiança na polícia. esteve seletivamente voltada para a minoria católica. a violência policial na Irlanda do Norte. as organizações paramilitares católicas e protestantes. os nacionalistas. que não condena as ações armadas do IRA na causa da independência irlandesa. aplacar o sentimento de injustiça do segmento católico e abolir a idéia de parcialidade associada ao Estado. divididos entre os partidários do Social Democratic and Labour Party e o Sinn Féin. Assim. a instituição resultou do amadurecimento de outros experimentos de controle externo da polícia ensaiados desde fins dos anos 70 na Irlanda do Norte. Como no caso sul-africano. Além da disposição compartilhada para a conciliação. uma sensação de injustiça associada à polícia. Este segmento mais vulnerável aos desmandos do poder estatal acumulou. Embora a população na Irlanda seja de maioria católica. seja pelos grupos paramilitares. Os rancores que ainda rivalizam os principais grupos da sociedade local decerto não se resumem aos temores católicos diante da polícia protestante. seja pelo próprio Estado inglês. o que lhe custou a exclusão das conversas oficiais. enfim. 24 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

o princípio da independência assumiu forma mais aperfeiçoada. O momento de intervenção da comissão deslocava-se. A instituição dispõe de orçamento próprio e está diretamente submetida à Secretaria de Estado da Irlanda do Norte (Secretary of State). resultantes ou não do registro de queixas. portanto. A tarefa de averiguar alegações contra a polícia deixara. Diante do universo variado de SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. o que significou uma inscrição profissional mais ativa e menos cerceada pela polícia. em movimentos sucessivos de consolidação da autonomia com relação à estrutura investigada. A possibilidade do reconhecimento social positivo de uma estrutura de controle da polícia estava. a falta de legitimidade da polícia aos olhos de boa parte da população residia no fato de os policiais. Em linhas gerais. o Police Ombudsman for Northern Ireland consolidou avanços fundamentais no tratamento formal das alegações contra policiais. claramente identificados com um dos grupos sociais em conflito. de depois para durante as investigações. Em 1987. pautado nos moldes das organizações de oversight já vigentes na Inglaterra e em Wales. a trajetória que culminou na criação de um Ombudsman incrementado por plenos poderes de polícia (para lidar com a polícia) e investigação criminal consistiu. portanto. em que o controle incidia sobre investigações concluídas. A partir de então. o novo Independent Comission for Police Complaints (ICPC). A principal inovação da instituição com relação ao modelo anterior esteve na determinação de monitoramento simultâneo ao processo investigativo.Em 1977. devendo supervisionar e orientar a investigação policial dos casos mais graves de alegada má conduta policial. com a edição de um novo Police Act.p.1 nº3 | p. A possibilidade de direcionamento das investigações significou um salto qualitativo com relação à situação anterior. adequava-se mais às necessidades específicas da Irlanda do Norte. Os funcionários do Ombudsman são civis e inteiramente destituídos de laços com a polícia. portanto. Dentre outros motivos. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 25 . portanto. investigarem a si próprios. fundamentalmente atrelada à capacidade deste órgão de desassociar sua imagem daquela da instituição investigada. Com relação à extinta estrutura do ICPC. apenas revisava as investigações policiais e avaliava a imparcialidade de seus resultados. o Police Complaints Board. de ser exclusiva da própria polícia.

demandas da população, a designação de definir quais são as queixas meritórias de investigação ou resolução informal migrou para a nova instituição de controle independente. Isso significa que todas as reclamações, tal qual na África do Sul, independente do nível de gravidade associado a elas, são em primeiro lugar comunicadas ao Ombudsman, que pode ser acessado diretamente pelo público através de telefone, e-mail, fax, correio convencional ou visita pessoal à sede da instituição, em Belfast, onde estão concentradas todas as atividades da instituição. No caso de o reclamante encaminhar sua queixa a algum distrito policial, este tem obrigação de reportá-la imediatamente à organização de controle externo. A nova instituição assumiu, portanto, a tarefa de avaliar qual tratamento deve ser dispensado a cada queixa. Da triagem pode resultar a destinação de casos aos investigadores independentes ou, nos episódios de menor gravidade, à própria polícia, sempre sujeita, contudo, à monitoração dos controladores externos. Em circunstâncias de insatisfação com o tratamento policial das queixas, o Ombudsman tem autonomia para tomar para si investigações originalmente destinadas à polícia. A essa estrutura incrementada foi ainda acrescido o poder de iniciativa de investigação em situações consideradas desfavoráveis ao interesse público. Isto significa que nenhuma queixa precisa ser formalmente registrada para que a organização se lance na investigação de um caso que considera passível de investigação. Além das designações de tipo reativo, a nova instituição, ainda na linha de sua precursora sul-africana, também tem atribuições de antecipação ao crime e às causas mais gerais de insatisfação da população com a polícia. A avaliação atenta dos registros de queixas permite a observação de padrões de descontentamento, que podem inspirar recomendações mais gerais sobre conduta policial e, assim, evitar episódios futuros de transgressão. Esse recurso é ainda associado a pesquisas quantitativas e qualitativas destinadas a investigar a opinião da população com relação à polícia e ao próprio Ombudsman. Embora não obedeçam a um modelo ou periodicidade fixos, essas pesquisas são importante instrumento de complementação das recomendações de ordem geral da instituição. O novo formato do controle de polícia não se circuns-

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creve, portanto, ao princípio de reação, mas se lança também ao desafio de antecipar-se aos episódios mais ou menos graves de insatisfação com a polícia. Para conjugar reação e prevenção, o Ombudsman abriga duas sessões principais: a de investigações e monitoração e a de políticas e práticas, que acumula as funções de pesquisa, produção de estatísticas e controle de qualidade. Do universo de reclamações registradas, cerca de 30% não chegam a mobilizar os investigadores, sendo concluídas nesse setor de queixas e resoluções informais. Boa parte dos registros simplesmente não são considerados adequados ao mandato da instituição e são descartados de sua agenda de intervenções, com devidas explicações aos reclamantes. Um dos princípios de seu estatuto de fundação é o de que a insatisfação com a polícia não lhe pode ser apontada genericamente, como desgosto com alguma estratégia operacional da corporação. A queixa encaminhada deve se reportar a um policial ou um grupo de policiais em específico. Se a identificação do suposto(s) policial(is) desviante(s) não foi feita no momento da infração alegada, o Ombudsman se dedicará a localizá-lo(s) com maior detalhamento possível da queixa e recursos a documentos e registros policiais. O fundamental para o registro do caso é que membros individuais sejam apontados. Quanto à resolução informal, não prevê punições disciplinares ou notificações ao Director of Public Prosecution. Quando submetido a este método, o desfecho favorável de um caso significa simplesmente que o reclamante decidiu encerrar a contenda após ouvir explicações do policial e eventuais pedidos de desculpas. As queixas submetidas a esse tipo de tratamento devem resultar em conciliação direta entre polícia e reclamante, com monitoração do Ombudsman. A decisão de encaminhar uma queixa para a resolução informal depende da não-identificação de implicação criminal do caso e da concordância do reclamante com o procedimento. Apesar desse tipo de solução ser denominado informal, não está isento de formalidades. Ao aceite do reclamante com o método seguem-se etapas bem definidas de tratamento do caso registrado, com controle estreito dos passos da polícia pelo Ombudsman.

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O relatório da instituição referente ao biênio 2004/2005 informa que 74% dos casos encaminhados para a resolução informal tiveram sucesso, 25% não tiveram sucesso e 1% resultaram em desistência. O alto índice de satisfação com o método informa sobre o tipo de expectativa dos reclamantes ao registrarem uma queixa contra a polícia. Dificilmente esperam punições severas contra os alegados agressores e não são motivados por uma lógica dura de reciprocidade. Em geral, basta-lhes o reconhecimento do suposto erro e a retratação. Nos casos de menor gravidade, tal tipo de conciliação é reconhecido pelos profissionais do Ombudsman como o mais eficiente, do ponto de vista do tempo e qualidade da resolução. Quanto às investigações, são iniciadas quando a gravidade da queixa não é considerada, pelo Ombudsman ou pelo reclamante, compatível com a resolução informal. Também a solicitação do Secretário de Estado, do Chefe de Polícia, da ouvidora ou de um reclamante insatisfeito com o resultado da resolução informal pode instaurar um processo investigativo. Este processo, que tem o mesmo status e poderes da investigação policial, inclui basicamente dois recursos. O primeiro deles é a entrevista com o reclamante, com a(s) testemunha(s), se existirem, e com o(s) policial(is) acusado(s), não podendo nenhuma das partes recusar-se à contribuição. O segundo instrumento é de natureza material: inclui toda sorte de documentos policiais disponíveis, além de informações da perícia, que é plenamente autônoma com relação à polícia e goza de autonomia no orçamento e na definição de seus quadros profissionais. Além das investigações referidas a casos recentes, a instituição se ocupa ainda da chamada investigação retrospectiva. Do troubled past irlandês muitas ainda são as mortes não explicadas. Dos incontáveis crimes cometidos pela polícia e pelo exército nos anos mais duros de repressão, vários não foram apurados com o rigor esperado pelas famílias. Muitas investigações foram arquivadas sem a devida acusação criminal do(s) culpado(s). Com a criação do Ombudsman, foi aberta a possibilidade de rever as investigações policiais alegadamente negligentes. Não se trata, portanto, de reinvestigar os casos, mas de investigar as investigações policiais conclusas e avaliar suas possíveis falhas e omissões. A condição para o registro deste

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estarem muito idosos ou não se disporem a colaborar com a investigação tornam a apuração muito árdua e dificilmente passível de resolução. são todos casos que envolvem um tempo enorme de apuração e também grande incerteza quanto às possibilidades efetivas de resolução.1 nº3 | p. Não é surpresa o fato de que cerca de 80% dos registros deste tipo são de famílias católicas. Seus métodos e tempos são essencialmente distintos. Tendo em vista a demanda crescente deste tipo de investigação. A despeito do altíssimo custo material e temporal das investigações e também das fortes possibilidades de frustração associada a elas. Em outubro de 2005. sobretudo do segmento católico. desde janeiro de 2005 uma equipe de investigadores foi especialmente designada para esta modalidade de solicitação. ao investigador retrospectivo cabe também um olhar relativo ao tempo ao qual se reporta. O desafio de pensar em todas as limitações policiais de métodos e estruturas da época em que a investigação foi empenhada deve ser preocupação permanente de seu trabalho. e consolidar a imagem de imparcialidade do Ombudsman. Além disso. Por todos esses motivos. A escassez e/ou desorganização de documentos da época combinada ao fato de suspeitos e testemunhas já terem morrido. uma série de dificuldades específicas corresponde a este tipo de investigação. a investigação de 40 casos de crimes cometidos por policiais há vinte ou trinta anos estava sob investigação.p. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 29 . Embora o Ombudsman não tenha nenhuma obrigação formal em responder a esse tipo de demanda. especialmente vulneráveis ao sentimento de injustiça policial. as chamadas investigações retrospectivas foram consideradas muito importantes para o objetivo de produzir confiança da população na polícia. a escolha da ouvidora em não descartá-las tem clara orientação política. o setor de investigação retrospectiva é bastante diferenciado do tipo de trabalho mais corrente no Ombudsman.tipo de demanda é uma argumentação consistente dos motivos pelos quais o reclamante considera a investigação policial insuficiente ou então a indicação de alguma nova prova material ou testemunhal do caso. quando foi feita esta pesquisa. Em primeiro lugar. Segundo o diretor do setor recém-criado. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

embora não tenham ainda atingido o nível de maturação pretendido. Embora sua designação formal esteja referida ao momento posterior à incidência do crime. Naqueles países. portanto. para aceitação crescente da instituição dentre policiais e comunidades. Ao contrário das ouvidorias brasileiras.Se o pouco tempo de funcionamento da instituição inibe considerações mais acuradas sobre seu impacto social. No elenco de vantagens comparadas das organizações estrangeiras com relação às nossas estão as políticas de prevenção associadas às suas rotinas de controle. a novidade sul-africana e sua similar norte-irlandesa constituem importante subsídio para reflexão aplicada ao caso nacional. têm tido êxito razoável na conciliação entre movimentos de reação e prevenção criminal. portanto. o princípio de autonomia dos controladores foi combinado a dotações orçamentárias substantivas. ruptura necessária com os clamores generalizados por prevenção. que demandará razoável incremento de pessoal. deverão migrar da polícia para um novo setor de conciliação da instituição. O movimento geral da instituição. as pesquisas de opinião com altos níveis de detalhamento apontam. Os experimentos internacionais estudados. entretanto. apesar de uma ou outra expressão de insatisfação. p. por exemplo. além de significativa ampliação de poderes. de maturação e crescente legitimidade social. CoNSiDERAÇõES FiNAiS E SUGESTõES PARA o CASo BRASiLEiRo Se as instituições brasileiras de controle claramente não são capazes de lidar com a quantidade e gravidade dos crimes policiais. As resoluções informais. o potencial de antecipação ao desvio tem merecido maior atenção por parte dos gestores dessas organizações. Dispondo de melhores estrutura e recursos que sua similar sul-africana.1 nº3 | p. Muito pelo con- 30 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. a radicalidade dos experimentos esteve localizada em momentos de inflexão de suas histórias políticas. O tema vigília da polícia não significa. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . A monitoração permanente da imagem pública da instituição e da polícia orienta a adequação às expectativas mais difundidas com relação à polícia e ao próprio Ombudsman. é. seus resultados são mais próximos das expectativas iniciais e suas projeções para o futuro próximo são de expansão das atividades.

necessariamente. apesar de reportarem-se a crimes de natureza e gravidade diversa. Da incidência do controle devem resultar registros minuciosos para um valioso banco de dados de onde podem ser inferidos padrões de criminalidade policial e estratégias associadas de antecipação ao crime. Um deles é a já mencionada interrupção de rotinas de criminalidade pela observação minuciosa dos padrões de desvio policial. alterando a impunidade tradicionalmente associada aos crimes policiais e.p. o triunfo das estruturas de Ombudsman da polícia reside. na sua capacidade de ressignificar a interação entre polícia e população. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 31 . incrementando a confiança depositada na polícia. O controle deve ser flexível o suficiente para acompanhar a capacidade incessante de metamorfose do seu objeto. O outro caminho é a contenção da violência policial por efeito do trabalho bem conduzido das instituições de controle. são basicamente três. Este é o caso da disposição antecipatória já formalmente prevista para o Ministério Público. O sucesso daqueles experimentos se funda na supo- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. deste modo.trário: a consecução cuidadosa do controle produz. embora dificilmente escapem à resistência corporativa. a configuração ideal das estruturas de controle pode incluir soluções que contornem o caminho legal. passível de minimização por soluções simples que envolvem conciliação entre agressor e agredido. Isto é. muitas vezes.1 nº3 | p. indiretamente. O refinamento desse instrumento deve permitir a detecção da dinâmica criminal e suas ondas migratórias. A grave influência que os pequenos desvios de conduta policial podem ter na degradação das relações da população com a polícia é. No Brasil. na África do Sul. E dois são os caminhos possíveis dessa reinscrição temporal. revelam que a expectativa das vítimas não é. efeitos antecipatórios. As comissões de Verdade e Conciliação. e o recurso conciliatório norte-irlandês. de justiça formal. A primeira delas deve incluir um método de resolução de pequenos conflitos. Quanto às medidas de remodelação das estruturas de vigília da polícia que dependem de alteração legal. Maior benefício teria o mecanismo de controle da polícia se efetivamente configurado como diretamente reativo e indiretamente preventivo. tal qual seus similares sul-africano e norte-irlandês. como o norte-irlandês. no médio ou longo termo.

1 nº3 | p. que padece de grave dispersão in- 32 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. a criação de um sistema de perícia independente. o Ministério Público. Ao contrário do Ministério Público. o novo formato faria os peritos independentes da esfera de influência policial.sição de que a agressão não inspira necessariamente o desejo de retribuição exata da carga de sofrimento originalmente impingida. p. processos investigativos. é uma das condições basilares de autonomia do controle. Transformado numa autarquia ou numa fundação com autonomia funcional. se tomado como termo de comparação o cumprimento de longos. e muitas vezes infrutíferos. A supressão do status militar dos peritos sem dúvida suscitaria protestos. unicamente destinadas à tarefa do controle. seja este a ouvidoria ou o Ministério Público. Contudo. a especulação de uma cena radical de alteração do quadro do controle de polícia. Por fim. tornando-os aptos a prestar serviços para dois clientes: a própria polícia e o organismo independente de controle da polícia. conforme o modelo norte-irlandês. como testemunhada na África do Sul e na Irlanda do Norte. administrativa e financeira. Isto provavelmente significa níveis razoáveis de satisfação por parte das vítimas. Não raro o clamor por justiça é suprido por retratações informais que revelem arrependimento do agressor. poderia encontrar maior benefício no incremento das ouvidorias de polícia. São estes poderes os de polícia para o trato com a polícia e os de investigação criminal para acesso irrestrito a documentos policiais de toda sorte. Tais são as condições de possibilidade para um padrão de intervenção condizente com a expectativa de um controle independente da polícia. além de notável simplificação de procedimentos. Considerando o mapa do controle já existente no país. mas o benefício da medida certamente superaria o estorvo associado. parece ser um abrigo conveniente para medidas de fortalecimento e autonomização das estruturas de investigação criminal da polícia. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . foram essas alterações que deram o tom da radicalidade das reformas empenhadas. Na África do Sul e na Irlanda do Norte. A segunda medida importante de redesenho das estruturas de controle de polícia implica forte incremento da sua capacidade de ação por uma dupla concessão de poderes. em razão do conjunto de poderes de que já dispõe e do razoável respaldo e prestígio públicos de que goza.

vestigativa em razão das diversas e excessivas demandas que o mobilizam, as ouvidorias têm um claro foco de ação. A gravidade e a especificidade do problema da violência policial inspiram, afinal, tratamento exclusivo.
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36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .UMA ANÁLiSE DA FREQÜÊNCiA E Do ATRASo ESCoLAR DAS CRiANÇAS BRASiLEiRAS Danielle Carusi Machado 1 1 Gostaria de agradecer Phillippe Leite e Alinne Veiga pela ajuda na formatação dos dados. 36 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p.p.

1 nº3 | p. Two main aspects that affect level of schooling of children are highlighted in literature: family income and mother’s education. portanto. ocorreu uma melhora dos indicadores educacionais brasileiros.Ao longo da década de 90. and. the main educational issue for children is related to their progression in school. e podem ajudar mais no processo de aprendizagem. with low educated mothers. The mother’s education level impacts directly and indirectly her children’s education: higher educated parents have higher income. tem efeitos indiretos e diretos sobre a educação dos filhos: pais mais educados possuem um nível de rendimentos mais alto. 36-65 37 . (ii) a repetência escolar e (iii) a saída precoce da escola. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. more resources to invest in their children’s human capital. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. therefore. Três fenômenos interagem entre si para determinar o atraso escolar: (i) a idade de entrada na escola. pertencente à classe de renda mais baixa e cuja mãe tem o menor nível educacional. por sua vez. Throughout the nineties educational indicators in Brazil improved. and they are also better tooled to assist their learning process. o total de recursos familiares é chave para determinar o montante gasto no investimento do capital humano. (ii) failure to progress due to underachievement. Despite this. Focando no grupo de crianças de 7 a menos de 9 anos de idade. this work will delimitate income and mothers education variables on onset of schooling. Destacamos dois principais aspectos ressaltados na literatura capazes de influenciar o nível de escolaridade das crianças: a renda familiar e a educação da mãe. As entry and permanence in school involve costs. of lower income stratum. mais recursos direcionados ao investimento de capital humano dos filhos. Focusing on children from seven to under nine years of age. and (iii) withdrawal. procuramos delimitar o impacto que as variáveis das mães e da renda têm sobre o ingresso escolar. Como a entrada e a permanência na escola envolvem custos. o maior problema com relação à escolaridade das crianças no Brasil relaciona-se ao seu progresso ao longo do sistema escolar. A educação da mãe. Three phenomena interact to determine the age-grade lag: (i) age on onset of the education cycle. family financial resources determine investment in human capital. Apesar desses avanços.

11 pontos percentuais abaixo da registrada em 1992. inclusive nas áreas cuja carência educacional era mais expressiva.0 96.0 84. como pode ser visto no Gráfico 1 abaixo. 38 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.0 94. % 98.4% em 2003.0 92. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .0 88. vários anos. em 2003 esta proporção subiu para mais de 97%. Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE).0 90. Enquanto em 1992 cerca de 87% das crianças de 7 a 14 anos de idade freqüentavam a escola.i. como no Norte e no Nordeste. Houve também aumento significativo da freqüência escolar das crianças.1 nº3 | p. ocorreu uma melhoria dos indicadores educacionais em todas regiões do Brasil. iNTRoDUÇÃo Ao longo da década de 90.0 1992 Gráfico 1 Taxa de escolaridade das pessoas de 7 a 14 anos de idade 1993 1995 1996 1997 1998 1999 2001 2002 2003 fonte: pnad/IbGe.p. a taxa de analfabetismo das crianças brasileiras de 7 a 14 anos de idade ficou em torno de 9.0 86.

A repetência escolar: mesmo que ela ingresse na escola na idade correta. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.5% das crianças entre 7 e 15 anos de idade. Dureya. Se a criança está matriculada na escola. Conforme veremos na seção II. deverão incorporar as mudanças legais ocorridas a partir de 2005. Analisamos alguns dos principais fatores que influenciam a não-freqüência escolar das crianças em idade de estarem na escola e o acúmulo da defasagem idade-série. ela está no nível compatível com sua idade e formação? O atraso escolar — calculado a partir da idade da criança e da série escolar considerada legalmente adequada para a sua faixa etária — é comum em diferentes países do mundo. a idade de entrada obrigatória na escola era de 7 anos e a educação fundamental era constituída de oito anos. Hanushek. 1998. O ingresso na escola: se ela não entra no sistema escolar na idade considerada legalmente correta (7 anos). analisamos a evolução da escolaridade até o ano de 2003. pode não conseguir progredir continuamente no sistema escolar. Três fenômenos interagem entre si para determinar o acúmulo da defasagem idade-série de uma criança: 1. Logo. Investigamos esses três pontos conjuntamente usando dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2003 (Pnad/ IBGE).1 nº3 | p.3 3. 1992). Análises posteriores. que possam vir a ser feitas com dados mais recentes. em 2003. Neste período. 36-65 39 . 1995. Restringimos a análise aos 2 Destacamos que. toda a análise feita neste artigo seguirá este arcabouço legal. sobretudo nos países menos desenvolvidos (Glewwe e Jacoby. segundo Barros e Lam (1993). No Brasil. mas principalmente por suas taxas de repetência. o maior problema com relação à escolaridade das crianças no Brasil relaciona-se ao progresso ao longo do sistema escolar. 3 As diferenças entre o grau de escolaridade atingido pelas crianças no Nordeste e em São Paulo não são explicadas pelo atendimento escolar. freqüentando um nível educacional abaixo do correto para a sua faixa etária. A saída precoce do sistema educacional: ela se ausenta da escola antes de completar o ciclo educacional básico obrigatório (evasão escolar).2 2.Apesar desses avanços. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. aproximadamente 20. neste artigo. tinham defasagem idade-série. a obrigatoriedade e a idade de entrada foram modificadas.

Saha (2004). 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . o atraso escolar associado à não-freqüência à escola pode estar ocorrendo principalmente devido a dois fenômenos: (i) a entrada tardia na escola. a não-freqüência escolar é geralmente influenciada pela entrada tardia no sistema educacional. Leon e Menezes (2002) também mostram que um dos fatores capazes de explicar a evasão escolar é a experiência de repetência que desestimula a permanência na escola. Barros. No artigo.fatores familiares. Como a entrada e a permanência na escola envolvem custos. Kassouf (2001). Mendonça e Velazco (1996). Crianças de 14 a 15 anos de idade. 40 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.p. a não-freqüência à escola está associada ao processo de abandono da vida de estudante. Como o grupo de crianças de 14 a 15 anos é afetado pelas diversas óticas que determinam o atraso educacional — evasão. mas talvez devido aos desincentivos criados pela repetência ou insucesso escolar. logo. o 4 A taxa de evasão escolar sempre foi alta entre as crianças mais pobres.4 Essas crianças já ingressaram anteriormente no sistema escolar. 5 Para citar alguns autores desta literatura: Marteleto (2004). repetência e ingresso tardio —. Calculamos a probabilidade de as crianças de 7 a 15 anos freqüentarem ou não a escola e identificamos as características individuais e familiares que mais influenciam essa probabilidade. de 7 a 8 anos de idade. como a renda total. Esse autor mostra que a principal causa do abandono escolar é o histórico de repetências das crianças. Para as crianças mais novas. dentre outros. destacaremos alguns aspectos já abordados na literatura5 que influenciam o nível de escolaridade das crianças: a renda familiar. Barros e Lam (1993). Dureya (1998). segundo Ribeiro (1991). o nível de escolaridade dos pais e a inserção econômica da mãe no mercado de trabalho. podem ter saído da escola não de forma precoce como o grupo etário anterior.1 nº3 | p. Menezes-Filho et alii (2000). restringimos a análise da existência de defasagem idade-série a esse grupo. Psacharopoulos e Arriagada (1989). Para as que têm entre 9 e 13 anos de idade. a educação e a inserção econômica da mãe. Os motivos da não-freqüência escolar diferem entre os grupos etários mais novos e mais velhos. por isso fizemos todas as estimativas separadamente. por sua vez. (ii) a saída muito precoce da escola.

fazemos um breve resumo sobre o sistema educacional brasileiro. menores tendem a ser as dificuldades e os custos de aprendizagem dos filhos.6 A educação dos pais. O apoio dos pais é sempre um insumo de grande importância na produção de escolaridade — quanto mais alta a escolaridade dos pais. Destaca-se que analisamos também o impacto dessas variáveis sobre o atraso escolar das crianças mais velhas. descrevemos alguns números gerais sobre a educação. com a criança na escola. não conseguem destinar parte do seu tempo para monitorar o estudo dos filhos. traçamos nossas considerações finais. educação. apresentamos a base de dados e os principais conceitos utilizados. ii. portanto. 2003. pois tem com quem deixar seu filho durante o dia.). o sistema educacional brasileiro era dividido em duas etapas: o ensino primário e o médio. Na seção 7.total de recursos familiares é chave para determinar o montante a ser gasto no investimento do capital humano. o SiSTEMA EDUCACioNAL BRASiLEiRo No início da década de 60. etc. lazer. por exemplo. O primário 6 Existe uma grande discussão sobre os critérios de alocação desses recursos entre os membros da família e entre os diferentes tipos de despesas (alimentação. focamos no atraso escolar das crianças de 14 a 15 anos de idade. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. descrevemos os fatores familiares e individuais que influenciam a probabilidade de a criança não freqüentar a escola. Os segundos relacionam-se às preferências bem como às economias de escala no processo de aprendizagem. ou seja. O efeito inverso também pode ocorrer. A entrada da mãe no mercado de trabalho pode influenciar a freqüência da criança na escola positivamente. 36-65 41 . mais recursos para serem direcionados ao investimento de capital humano dos seus filhos. conforme Thomas (1990). Wolfe. tem efeitos indiretos e diretos sobre a educação dos filhos (Currie e Moretti.1 nº3 | p. pois as mães que trabalham. na seção 4. na seção 5. na seção 6. Os primeiros estão associados ao fato de que pais mais educados possuem um nível de rendimentos mais alto e. por sua vez. a mãe pode ter uma atividade profissional. O artigo está organizado da seguinte forma: na seção seguinte. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. na seção 3. 1982).

5. gerando diferentes problemas. O perfil dos professores e a prática pedagógica adotada não eram integrados ao antigo ensino primário de quatro anos.7 A educação média era destinada à formação dos adolescentes. Com a reforma. Todas as crianças a partir dos 7 anos de idade deveriam se matricular na escola primária. escassez de material didático etc. como prédios nãofinalizados. e conseqüentemente. a 8ª.1 nº3 | p.era composto por. sendo factível sua extensão para seis anos. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .p. Para a matrícula na 1ª Série do ciclo colegial o pré-requisito era a conclusão do ciclo anterior. 1996). no mínimo. de quatro para oito anos a escolaridade obrigatória. dificultando a progressão dos alunos no sistema educacional.024. A expansão do sistema físico foi feita de forma desordenada e sem planejamento. grau. A extensão das matrículas na escola pública até a oitava série do ensino fundamental foi obtida mediante a adoção de soluções emergenciais. Criou-se o ensino de 1º grau composto de oito anos letivos (da 1ª. A inscrição na Primeira Série do ciclo ginasial somente era feita após a conclusão do curso primário e a criança deveria ter ou fazer 11 anos ao longo do ano letivo. Muitas crianças moravam afastadas das escolas que ofereciam as séries do ciclo ginasial de 5ª. dificultando a progressão do aluno na nova etapa. desestimulando a continuidade da escola. Essa fase era constituída por dois ciclos: o ginasial e o colegial. a 8ª série) e o ensino de 2º. Existiam vários problemas de infra-estrutura. a estrutura curricular do 1º ciclo ginasial não se adequou à nova clientela que ingressava nessa etapa da vida escolar. o Estado teve que ampliar a capacidade de atendimento da sua rede escolar. A partir da reforma do ensino de 19718. 42 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. assim.692 de 11-08-1971. que correspondiam ao ensino médio colegial. Além disso. 9 É importante destacar que alguns destes problemas apresentados após a reforma de 1971 persistem nos dias de hoje. ampliando.9 7 Lei nº. formado por três ou quatro séries anuais. de 20-12-1961. quatro anos. (Nunes. sobretudo de evasão escolar e acúmulo de defasagem idade-série. 4. 8 Lei nº. incorporou-se à escola primária básica de quatro anos a antiga escola secundária de 1º ciclo (ginasial). O ginasial tinha quatro séries anuais e o colegial pelo menos três séries. incorporando estudantes que finalizavam o primário.

fundamental para a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos gerais adquiridos no ensino fundamental.O processo de mudança da legislação educacional a partir da década de 90 originou-se com a promulgação da Constituição de 1988. Em 2003. a maioria na faixa etária de 18 a 31 anos. 36-65 43 . a Emenda Constitucional de 1996 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996 previam a progressiva universalização e gratuidade dessa fase do ensino. Adolescentes que não conseguiam seguir o curso regular também tinham a opção de se matricularem nos cursos supletivos de ensino fundamental. Esta etapa escolar era formada pelo antigo ensino regular de 1º. sendo obrigatório e gratuito na escola pública. passava a constituir a etapa final da educação básica. Enfatizamos que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996 abordou a necessidade do ensino obrigatório de nove anos e 10 O ensino superior é constituído pela graduação ou pelos cursos universitários no nível de pós-graduação. existiam aproximadamente 4.3 milhões de pessoas freqüentando curso superior e 300 mil inscritos em cursos de mestrado ou doutorado. portanto.1 nº3 | p. pelo ensino fundamental (duração mínima de 8 anos) e pelo ensino médio (duração mínima de 3 anos) — e pela educação superior. O ensino fundamental tinha duração de oito anos. O ensino fundamental de oito anos foi confirmado como obrigatório e gratuito.10 A educação infantil constituída do curso pré-escola e da creche (não obrigatória) representava o primeiro degrau da educação básica. grau: 1ª a 4ª e 5ª a 8ª séries do primário e do ginásio. Apesar de educação média não ser obrigatória para as pessoas. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. O ensino médio. destinado aos adolescentes de 15 a 17 anos. atingindo. todas as crianças entre 7 e 14 anos completos de idade. A duração desses cursos depende da carreira seguida por cada estudante bem como da faculdade na qual está matriculado. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. O sistema educacional brasileiro passou a ser composto pela educação básica — formada pela educação infantil (crianças de zero a 6 anos de idade). A Constituição de 1988. também passou a ser parte do ensino básico e obrigação do Estado. antigo ciclo colegial. sua finalidade era o desenvolvimento integral da criança até 6 anos de idade. respectivamente. mesmo para aqueles que não tinham finalizado esta etapa escolar na idade considerada apropriada.

respectivamente. uma criança que tem 7 anos em setembro pode não freqüentar a escola simplesmente porque fez aniversário no segundo semestre. o movimento de ampliação do ensino fundamental deve começar a generalizar-se.1 nº3 | p. ao invés da ocorrência de evasão ou de repetência.114/2005 tornou obrigatória a matrícula das crianças de 6 anos de idade no Ensino Fundamental11. con11 “O ensino fundamental. Apesar do ingresso na escola para todas crianças com idade entre 7 e 14 anos ser considerado obrigatório em 2003. iii. Em 2005. que aprovou o Plano Nacional de Educação (PNE).1% das crianças de 7 e 8 anos de idade. não estavam no sistema escolar. 44 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. obrigatório e gratuito na escola pública a partir dos seis anos”. a Lei nº 11. 6º. conforme Lei nº 11. A partir desta data.3% e 2. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . o atraso educacional estaria associado principalmente à entrada tardia no sistema. iniciando-se aos 6 anos de idade. A partir dos 4 até 6 anos. CARACTERÍSTiCAS GERAiS DA ESCoLARiDADE Cerca de 1. onde se estabeleceu a progressiva implantação do Ensino Fundamental de nove anos. 12 Destacamos também que o questionário da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios é aplicado no mês de setembro de cada ano. aproximadamente 6. alterando os Arts.5 milhões de crianças estavam inscritas no curso pré-escolar. Como podemos ver na Tabela 1 adiante. 32 e 87 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9. apenas na Lei nº 11. representando 11. existiam algumas que não estavam inscritas no ensino fundamental. Esta meta foi contemplada pela Lei nº 10. e.4 milhão de crianças brasileiras freqüentavam creches em 2003.274/2006 que o ensino fundamental obrigatório começa a ter duração de nove anos.394/1996).deste ser iniciado aos 6 anos de idade. Nesse caso. cerca de 4.7% do universo de crianças com menos de 3 anos de idade.172. com duração mínima de oito anos.p. na creche ou no curso pré-escolar. com a inclusão das crianças de 6 anos.12 Existia também o grupo de crianças que entrava na escola. de 9 de janeiro de 2001. Contudo. logo. ainda não tinha a idade adequada para freqüentar a escola. no início do ano.114/2005.

em 2003 existiam 9.7% Valores relativos sim 95.9% 98.3% 2.0% 10.5% 1. 2003. Tabela 1: Crianças de 7 a 15 anos de idade segundo a freqüência escolar.tudo não dava continuidade aos estudos. certamente devido à evasão escolar e não necessariamente ao ingresso tardio na escola.1% 1.5% 98. a proporção de crianças matriculadas na escola por faixa etária crescia até os 11 anos de idade para posteriormente declinar. A maioria matriculada no ensino regular (8.3% Total 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% fonte: pnad/IbGe. Segundo os dados da Pnad.5 milhões). Para os que não conseguiram prosseguir no curso regular. tendo em vista que muitas já tinham uma parte do ensino fundamental. 2ª e 3ª série).3% 98.0% 89.3% não freqüentavam a escola no ano de 2003. O ensino médio correspondia à etapa final da educação básica.2% 96.6% 94.1 nº3 | p. 36-65 45 .5% 98.5% 1.4% 6. Brasil Freqüentam escola? Valores absolutos idade 7 8 9 10 11 12 13 14 15 7 a 15 anos não 144 804 71 254 57 203 50 041 48 651 56 826 111 762 202 925 366 940 1 110 406 sim 3 236 087 3 297 385 3 281 495 3 262 866 3 193 969 3 163 600 3 193 316 3 173 058 3 196 932 28 998 708 Total 3 380 891 3 368 639 3 338 698 3 312 907 3 242 620 3 220 426 3 305 078 3 375 983 3 563 872 30 109 114 não 4. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. 6. De acordo com a quinta coluna da Tabela 1.7% 97. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. ao invés do supletivo.8% 3. com duração mínima de três anos (1ª. deixando o sistema educacional antes do término do curso fundamental.3% 3. Das crianças com 14 e 15 anos completos de idade. há também o curso supletivo de ensino médio.7% 96.0% e 10. O público-alvo é formado pelas crianças que terminaram o ensino fundamental.7% 1.3 milhões de brasileiros freqüentando essa etapa escolar.

15 . A idade média nos cursos supletivos é mais elevada. Gráfico 2 Distribuição das pessoas por idade (segundo o curso que freqüentava) . descrevemos a função densidade populacional segundo os grupos de idade para cada etapa ou curso escolar descritos acima. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .2 . destinando-se principalmente aos estudantes que não conseguiram seguir o curso regular na idade adequada.05 0 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 idade regular ensino fundamental supletivo ensino fundamental fonte: pnad/IbGe.3%). Podemos notar que o curso regular de ensino fundamental é freqüentado principalmente por crianças entre 5 e 14 anos de idade (81.No Gráfico 2 abaixo.1 .p. Grande parte dos alunos do ensino médio tem entre 16 e 18 anos de idade. regular ensino médio supletivo ensino médio 46 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 2003.1 nº3 | p.

14 Como pode ser visto no Gráfico 3. (ii) freqüentavam a escola. No tocante ao assunto de nosso interesse.iV. (iii) não freqüentavam a escola e nunca tinham freqüentando anteriormente. Seguimos esse padrão para definir a defasagem idade-série. a proporção de crianças com defasagem escolar aumenta continuamente com a idade. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. podem ser cruzados os dados das pessoas da mesma família e do domicílio. (ii) não freqüentavam a escola. Aproximadamente 56% das crianças com 15 anos de idade possuem de13 Tocantins é o único estado da Região Norte onde a área rural é investigada. mas não tinham os anos de estudos compatíveis com a sua idade e (iii) não freqüentavam a escola e não tinham os anos de estudos compatíveis com a sua idade.1 nº3 | p. A partir do uso dos microdados. caso contrário. BASE DE DADoS E CoNCEiToS A base de dados utilizada para investigarmos os principais fatores que influenciam a freqüência escolar e a defasagem idade-série é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE) de 2003. • Defasagem idade-série: igual a 1 para todas as crianças da nossa amostra (7 a 15 anos) que: (i) evadiram da escola.13 Contém informações sobre diversas características sociais. em 2003: (i) freqüentavam a escola (grau e série). conseguimos obter informações sobre as crianças que. como renda familiar per capita ou composição familiar. mas que já tinham freqüentado anteriormente (o grau e a série que freqüentaram e concluíram). Com esses dados. econômicas e demográficas das pessoas residentes nos domicílios. 36-65 47 . SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Essa pesquisa amostral abrange todas regiões brasileiras. com exceção da área rural do Norte. 14 Uma criança que segue um padrão de escolaridade normal em 2003 entra na escola com 7 anos de idade e termina a 8ª série do primeiro grau com 15 anos. permitindo a construção de indicadores sobre condições de vida e bem-estar social. construímos dois indicadores que refletem o processo de escolarização das crianças: • Freqüência escolar: igual a 1 se a criança está na escola e 0.

renda total familiar per capita16. se a mãe está economicamente ativa. imputamos os dados do chefe ou cônjuge da família do sexo feminino. 2003. 8 9 10 11 12 13 14 15 fasagem escolar. como muitas crianças fazem aniversário no segundo semestre. Para todas crianças de 7 a 15 anos (66. A idade reportada na Pnad é de setembro de cada ano e.1 . 16 Todas as variáveis da mãe foram construídas a partir do número da ordem da mãe.5 . 48 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . região e se área rural).1 nº3 | p. local de moradia (área metropolitana. escolaridade da mãe.p.3 .Gráfico 3 Proporção de crianças com defasagem idade-série segundo a idade . elas não eram obrigadas a entrar no sistema educacional se tivessem 7 anos em setembro. Além dos aspectos educacionais. construímos alguns indicadores sobre as condições de vida e as características individuais das crianças que influenciam o ingresso e o progresso na escola. Para as crianças que não tinham mãe presente no domicílio. se está ocupada e se tem um em15 Optamos por incluir no universo pesquisado crianças com 15 anos de idade. cor. como: sexo.15 essa porcentagem é de 31%.6 mil crianças).4 mean of repet . faixa etária.2 .0 7 fonte: pnad/IbGe.

funcionário público estatutário. quando pertinentes. quando focamos no impacto da escolaridade da mãe. total de irmãos e irmãs mais novos e mais velhos.prego formal17.). 9 a 13 anos. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Na análise econométrica. total de irmãs mais novas e mais velhas. O modelo probit utilizado para estimar essa probabilidade mostra a relação entre as variáveis dependentes (freqüentar ou não a escola e ter ou não defasagem idade-série) e as variáveis explicativas (características educacionais dos pais etc. existem apenas duas respostas: sim ou não. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. estamos comparando crianças idênticas em todos os demais aspectos. queremos estudar aspectos que afetam a escolaridade da criança. São basicamente duas perguntas: (i) se a criança freqüenta ou não a escola. trabalhador doméstico com carteira assinada e empregador. A vantagem em fazer esse procedimento econométrico é podermos identificar o efeito de cada uma das variáveis separadamente. 17 Definimos como ocupação formal as seguintes alternativas: emprego com carteira de trabalho assinada. O objetivo desta análise é identificar a existência ou não e. Nesta seção. no impacto dos fatores familiares sobre a freqüência escolar. Serão investigados os fatores que influenciam a probabilidade (ou chances) de a criança estar na escola e de a criança ter defasagem idade-série. verificar o sentido das possíveis relações entre as variáveis dependentes e as explicativas. Logo. militar. 36-65 49 . seja a freqüência ou a defasagem idade-série. V. O objetivo da análise por grupos etários é mostrar se existem grandes diferenças. Para cada uma delas. PRoBABiLiDADE DE FREQÜENTAR A ESCoLA Neste artigo. com exceção dessa característica.. 14 a 15 anos) e identificamos os principais fatores que influenciam as diversidades encontradas nestas probabilidades.1 nº3 | p. Por exemplo. sem a influência das demais. e (ii) se a criança tem ou não defasagem idade-série. esses tipos de fenômenos devem ser estudados através da aplicação de modelos de variáveis dependentes binárias. as diferenças encontradas com relação à freqüência escolar dessas duas crianças seriam explicadas pelo grau de instrução da mãe. estimamos a probabilidade de a criança freqüentar ou não a escola para os três grupos etários (7 a 8 anos.

01 coeficiente -0.360 0.005 -0.343 0.034 0.007 0.009 -0.64 6.097 -0.p.056 1.000 0.003 0. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .02 0.72 1.006 -0.188 -0.043 0.004 0.1 nº3 | p.005 0.003 0.047 0.058 0.042 0.090 0.047 0.101 0.167 Pr(dfreq) = 0.002 0.31 0.35 4.001 0.003 1 0 0 1 0 0 34.351 14 482 305.A variável dependente é igual a 1 se a criança está na escola e 0. caso contrário.020 0.49 0.091 0.003 0.013 0.82 1 1 0 0.095 0.025 0.004 X 1 0 50 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.025 0.074 Dp robusto 0. A Tabela 2 apresenta os resultados encontrados nas estimações usando o modelo econométrico probit.068 0.9785 * * * ** * ** *** * * -0. Incluímos como variáveis explicativas as características descritas na seção anterior.055 0.115 0.028 -0. Tabela 2 Estimação probit da probabilidade da criança estar na escola 7 a 8 anos de idade Estar na escola ser menino ser de cor não-branca domicílio localizado na: área metropolitana área rural Região Nordeste Região Sudeste Região Sul Região Centro-oeste idade da mãe mãe está na PEA mâe está ocupada mãe tem uma ocupação forrmal total de irmãs e irmãos mais novos total de irmãs e irmãos mais velhos total de irmãs mais velhas total de irmãs mais novas log da renda familiar per capita anos de estudos completos da mãe constante observações: Wald chi2(25) -0.055 * Efeito marginal -0.056 0.001 -0.008 -0.135 0.092 0.0207 -0.008 0.008 0.062 0.003 0.081 0.015 0.115 -0.027 0.119 0.

***significativo a pelo menos 10% efeito marginal foi calculado com referência aos valores da coluna X Tabela 2 Estimação probit da probabilidade de a criança estar na escola (continuação) 9 a 13 anos de idade Estar na escola ser menino ser de cor não-branca domicílio localizado na: área metropolitana área rural Região Nordeste Região Sudeste Região Sul Região Centro-oeste idade da mãe mãe está na PEA mâe está ocupada mãe tem uma ocupação forrmal total de irmãs e irmãos mais novos total de irmãs e irmãos mais velhos total de irmãs mais velhas total de irmãs mais novas log da renda familiar per capita anos de estudos completos da mãe constante observações: Wald chi2(25) -0.187 -0.338 0.071 0.006 0.071 282.076 0.005 0.002 0.035 0.Prob>chi2 Pseudi R2 0. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.58 1 1 0 0.004 Dp robusto 0.000 0.064 0.057 0.75 coeficiente -0.040 -0. 36-65 51 .69 0.015 0.049 0.000 0.000 X 1 0 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.001 -0.004 0.490 35.034 0.057 1.46 4.074 0.006 0.000 0.074 0.022 0.9887 * * ** *** * * * -0.94 0.002 0.088 -0.140 0.044 * Efeito marginal -0.002 0.292 0.002 -0.0987 fonte: pnad/IbGe.016 0.036 0.9887 0.046 0.076 0.002 0.000 0.083 -0.002 1 0 0 1 0 0 38.024 0.77 5.058 0.053 -0.1 nº3 | p.004 0. 2003 nota: desvio padrão ajustado para existência de cluster (crianças dentro das mesmas famílias) *significativo a pelo menos 1%.002 -0.40 0.148 0.008 0. **significativo a pelo menos 5%.001 0.000 -0.071 0.87 0.018 0.145 Pr(dfreq) = 0.002 0.029 0.013 0.

079 0.071 0.142 Pr(dfreq) = 0.26 0. **significativo a pelo menos 5%. ***significativo a pelo menos 10% efeito marginal foi calculado com referência aos valores da coluna X Tabela 2 Estimação probit da probabilidade de a criança estar na escola (continuação) 14 a 15 anos de idade Estar na escola ser menino ser de cor não-branca domicílio localizado na: área metropolitana área rural Região Nordeste Região Sudeste Região Sul Região Centro-oeste idade da mãe mãe está na PEA mâe está ocupada mãe tem uma ocupação forrmal total de irmãs e irmãos mais novos total de irmãs e irmãos mais velhos total de irmãs mais velhas total de irmãs mais novas log da renda familiar per capita anos de estudos completos da mãe constante observações: Wald chi2(25) Prob>chi2 0.035 0.008 -0.90 5.144 0.049 0.065 0.61 0.055 0.235 14 633 542.043 -0.p.013 0.018 0.005 -0.94 0.0675 fonte: pnad/IbGe.11 0.022 -0.042 0.028 0.004 0.003 0.048 0.010 0.000 0.051 0. 2003.007 0.017 0.Prob>chi2 Pseudi R2 0.005 0.09501 * * * ** * * 0.070 0.005 0.057 0.006 -0.210 Dp robusto 0.021 0.059 0.031 0.002 0.008 0.119 0.080 -0.004 0.67 coeficiente -0.002 -0.054 -0.017 0. nota: desvio padrão ajustado para existência de cluster (crianças dentro das mesmas famílias) *significativo a pelo menos 1%.046 0.040 * Efeito marginal -0.001 -0.026 X 1 0 52 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p.052 0.097 0.002 0.060 0.54 4.034 0. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .077 0.015 0.000 0.034 0.008 1 0 0 1 0 0 41.001 0.002 0.44 1 1 0 1.

0863 fonte: pnad/IbGe. a probabilidade de freqüentar a escola é maior nas regiões Sul e Sudeste e menor no Nordeste e no Norte. A probabilidade de as meninas abandonarem os estudos ou adiarem a entrada na escola devido à inserção em atividades produtivas seja diretamente no mercado de trabalho ou ajudando os familiares é menor que dos meninos. grande parte dos efeitos estimados segue a direção esperada. nota: desvio padrão ajustado para existência de cluster (crianças dentro das mesmas famílias) *significativo a pelo menos 1%. O coeficiente de “ser menino” é negativo e significativo para todos os três grupos etários. ***significativo a pelo menos 10% efeito marginal foi calculado com referência aos valores da coluna X De acordo com a Tabela 2. Os meninos têm uma probabilidade menor de freqüentar a escola do que as meninas. de 14 a 15 anos de idade. No grupo etário mais novo (de 7 a 8 anos de idade) esse efeito parece ser mais forte. Com relação ao local de moradia das crianças. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Como pode ser visto na terceira coluna da Tabela 2. **significativo a pelo menos 5%. Se a residência for na área rural ou na metropolitana.6 pontos sua probabilidade de freqüentar a escola quando comparada a uma criança de cor branca da mesma faixa de idade.Pseudi R2 0. sugerindo que para os meninos o ingresso tardio na escola é mais comum do que para as meninas. uma criança de 14 a 15 anos de cor não-branca reduz em 2. Por outro lado. Controlando pela renda familiar per capita e demais características que influenciam o ambiente social no qual a criança está inserida.1 nº3 | p. 2003. 36-65 53 . a probabilidade de ingresso na escola das crianças mais novas é retraída. Crianças de 7 a 8 anos de idade que moram na área rural têm menor probabilidade de freqüentar a escola que outras crianças da mesma faixa etária. observamos que o efeito de não ter cor branca não afeta significativamente a probabilidade de freqüência escolar dos dois grupos etários mais novos. para as crianças mais velhas. essa característica tem um forte impacto na probabilidade de sair da escola. Esse impacto negativo pode refletir escassez de infra-estrutura escolar (escolas mais distantes) SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

e. Apenas para o grupo de crianças de 9 a 13 anos de idade. Apesar de as mães alocarem menos tempo para as crianças. No tocante à renda familiar per capita. possivelmente. tendo em vista que a renda familiar calculada a partir da Pnad capta apenas os recursos familiares em um ponto no tempo. O efeito da escolaridade da mãe parece ser mais forte para as crianças entre 14 e 15 anos de idade. O nível de instrução dos pais capta alguns desses aspectos. 54 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. via renda permanente. minimizando os custos de aprendizagem. seu efeito é mais importante para as crianças com idade entre 14 e 15 anos.8 ponto a probabilidade de a criança de 14 a 15 anos freqüentar a escola. um ano a mais de estudo completo da mãe aumenta em 0. a escola é um lugar onde podem deixá-las enquanto estão no mercado de trabalho. enquanto para os outros grupos etários esse valor fica entre 0. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .3.p. Ou seja. Como pode ser visto na terceira coluna da Tabela 2. a ida das crianças à escola influencia positivamente a participação da mulher no mercado de trabalho. As crianças ficam na escola durante a jornada de trabalho das mães.2 e 0. também tem um efeito direto: mães mais educadas podem auxiliar mais as crianças. A escolaridade da mãe.18 O coeficiente do grau de instrução da mãe é positivo e significativo para todos os grupos etários. o fato de o trabalho infantil ser mais amplo nestas localidades. o fato de a mãe estar ocupada aumenta sua probabilidade de estar na escola. Na verdade.1 nº3 | p. evitando que permaneçam em casa sozinhas. resultado bem comum nesta literatura. parte da correlação entre a escolaridade dos pais e a dos filhos é explicada pelos aspectos permanentes da renda familiar. além de agir indiretamente na probabilidade da freqüência à escola. O acréscimo de um ponto no logaritmo da renda familiar per capita eleva em um ponto a probabilidade de a criança de 14 a 15 anos freqüentar 18 As decisões da mãe quanto ao ingresso no mercado de trabalho e quanto à inserção de seus filhos na escola são tomadas de forma simultânea. Dado os controles de renda familiar e do nível educacional das mães. O procedimento mais correto seria modelar conjuntamente essas duas decisões. as características que descrevem a inserção profissional da mãe não são significativas.

36-65 55 . Na curva cinza. consideramos que todas as crianças tinham renda familiar igual à mediana da renda familiar per capita. maior contato com pessoas instruídas no ambiente familiar. devido a uma concorrência maior pelo volume de recursos da família e pela disponibilidade de tempo dos pais. A única diferença entre as duas curvas apresentadas é o total da renda familiar per capita. cadernos. conforme Thomas (1990). normalmente mais pobres.). possivelmente porque elas podem ser obrigadas a alocar uma parte do seu tempo para cuidar de seus irmãos mais novos. sobretudo os mais novos.). enquanto. os irmãos podem acumular tarefas de cuidar dos mais novos. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. plotamos a probabilidade estimada da freqüência escolar para cada grupo etário. Outros fatores capazes de afetar a entrada da criança na escola bem como o investimento dos pais no capital humano dos filhos relacionam-se aos critérios de alocação intrafamiliar de recursos. A curva cinza sempre está acima da preta. Quando desagregamos por grupos etários. imputamos o valor da renda do quinto centésimo da renda familiar per capita. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Ter mais recursos afetaria. segundo uma população de referência. Os acréscimos na renda familiar podem ter um papel não desprezível no acúmulo de capital humano. o efeito do total de irmãos é negativo principalmente para as crianças com menos de 13 anos. na curva preta. Por outro lado. caso sejam usados na obtenção de bens facilitadores do aprendizado escolar (compra de livros. O total de irmãos impacta negativamente a freqüência à escola. etc. No Gráfico 4. neste caso.1 nº3 | p. Algumas conclusões podem ser retiradas do gráfico: (i) A probabilidade de freqüência escolar decresce com a idade. Os coeficientes negativos estimados indicam que quanto maior o número de irmãos. Em famílias maiores. etc. crianças de famílias mais ricas estão usualmente inseridas em um contexto sócioeconômico e cultural favorável ao acúmulo de capital humano (melhores escolas próximas ao local de moradia. positivamente o processo de aprendizagem das crianças.a escola. menor a freqüência à escola. (ii) Crianças com renda familiar mais alta têm probabilidade mais elevada de freqüentar a escola do que crianças pertencentes às classes de renda mais pobres.

A não-freqüência à escola afeta principalmente o grupo etário de crianças mais velhas.7 e 0.1 nº3 | p. Grande parte desse público já freqüentou a escola e não prosseguiu os estudos. Na próxima seção focaremos exclusivamente neste grupo etário e abordaremos a probabilidade de acumularem defasagem idade-série. Com a retração da renda familiar. A literatura educacional tem como esta- 56 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. PRoBABiLiDADE DE TER DEFASAGEM iDADE-SÉRiE Como o processo de acumulação de capital humano das crianças não está completo. Essa redução é de apenas 0. a probabilidade estimada de freqüentar a escola cai 3 pontos porcentuais para esse grupo etário. Vi. a taxa de progressão pode ser uma boa medida para captar o aprendizado. (iii) O efeito da renda familiar parece ser mais forte para as crianças de 14 a 15 anos de idade do que para as mais novas.77 log renda familiar per capita = mediana (4. 2003.4 ponto para as crianças de 7 a 8 e de 9 a 13 anos. respectivamente.Gráfico 4 Probabilidade estimada de freqüentar a escola segundo as faixas etárias 100% 99% 98% 97% 96% 95% 94% 93% 92% 91% 90% 7a8 9 a 13 14 a 15 log renda familiar per capita = 2.p.78) fonte: pnad/IbGe. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .

Uma proxy para o atraso educacional é a defasagem idade-série das crianças. repetência e evasão. A proporção de alunos que interrompe os estudos após experiências de repetência é maior que daqueles que saem da escola sem terem repetido. como Bonelli e Veiga (2004).belecido o fato de que quanto maior o atraso educacional menor o nível de escolaridade atingido. portanto. Logo. a probabilidade de uma criança de 14 a 15 anos que mora na área rural ter defasagem idade-série aumenta 0. em escolas de melhor qualidade. As que moram nas regiões Sudeste e Sul também possuem menor probabilidade de terem defasagem idade-série. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. possivelmente pelo lado da infra-estrutura escolar. Do universo de 15. 36-65 57 . mais da metade têm defasagem idade-série (52. no caso brasileiro. esses jovens acabam por atingir um nível de escolaridade mais baixo. Por outro lado. escolas de baixa qualidade e com poucos recursos podem adotar a promoção automática. Como pode ser visto na Tabela 3. analisaremos os fatores que influenciam a defasagem escolar das crianças de 14 a 15 anos de idade.327 crianças da nossa amostra nesta faixa etária.19 Logo. sendo o atraso da criança não necessariamente condicionado à falta de recursos familiares ou escolares. essas relações podem ser confusas tendo em vista que. as regras de promoção podem ser mais rígidas. Os resultados (ver Tabela 3) para sexo e cor da criança são iguais aos encontrados para a probabilidade de freqüentar a escola. uma política que vise combater as desigualdades educacionais deveria também abordar as desigualdades no progresso ao longo do sistema escolar. O logaritmo da renda familiar per capita e o nível educacional das 19 Leon e Menezes-Filho (2002) mostram que um dos fatores capazes de explicar a evasão é a repetição. que também descrevem a relação entre a evasão escolar de jovens e o atraso educacional. Nesta seção.6 ponto comparativamente a outras crianças da mesma faixa etária que habitam em localidades urbanas. Ser menino e de cor não-branca aumenta a probabilidade de a criança estar atrasada na escola. 20 Segundo Horowitz e Souza (2004).1%).1 nº3 | p. apesar de a defasagem idade-série também captar aspectos relacionados à qualidade da escola. sobretudo daquelas que estão finalizando o ciclo fundamental (na faixa etária de 14 a 15 anos)20. Existem outros autores. pois todas as possíveis causas do atraso podem ser captadas: ingresso tardio na escola. O local de moradia influencia de alguma forma a probabilidade de a criança ter defasagem idadesérie. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.

240 -0.007 -0.16 -0.02 -0.26 0.08 0.033 0.062 0.48 -0.001 0.p.036 0.007 -0.037 0 0 0 1 0 0 41.042 0.043 0.060 -0.09 0.038 0.004 * * * * ** * * * ** * * 0.1 nº3 | p.042 0.44 1 1 1.11 0.146 0.12 -0.026 0.05 -0.138 -0.017 0. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .001 0.18 Dp robusto 0.175 -0.024 0.54 4.00 0.019 0.mães contribuem positivamente para a progressão escolar das crianças.015 0.67 coeficiente 0.02 -0. resultado similar ao encontrado para a probabilidade de freqüentar a escola. menor a probabilidade de a criança estar atrasada.90 5.064 -0.008 -0.62 -0.070 X 1 0 58 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.02 0.37 0.045 -0.050 0.61 0.022 0.031 -0.07 0.39 0.026 0.050 0.028 * * Efeito marginal 0. Tabela 3 Estimação probit da probabilidade de a criança ter defasagem idade-série 14 a 15 anos de idade Estar na escola ser menino ser de cor não-branca domicílio localizado na: área metropolitana área rural Região Nordeste Região Sudeste Região Sul Região Centro-oeste idade da mãe mãe está na PEA mâe está ocupada mãe tem uma ocupação forrmal total de irmãs e irmãos mais novos total de irmãs e irmãos mais velhos total de irmãs mais velhas total de irmãs mais novas log da renda familiar per capita anos de estudos completos da mãe 0. Quanto maior a renda familiar per capita da família e maior o nível educacional da mãe.02 -0.062 0.002 0.15 -0.042 0.08 -0.

Além disso. **significativo a pelo menos 5%. as crianças que possuem irmãs mais velhas têm uma menor probabilidade de estarem com defasagem escolar. nota: desvio padrão ajustado para existência de cluster (crianças dentro das mesmas famílias) *significativo a pelo menos 1%.4387 fonte: pnad/IbGe. 2003. Primeiro. Neste caso. Com relação à defasagem idade-série. permitindo que as crianças mais novas se dediquem à escola.2189 0.109 Pr(dfreq) = 0. entrem juntas na escola.4 ponto mais alta do que a de uma criança sem irmãos.constante observações: Wald chi2(25) Prob>chi2 Pseudi R2 1. Logo. Dois fatos podem explicar o fenômeno.25 0. mais novos ou mais velhos. No Gráfico 5. Segundo. estimamos a probabilidade de a criança de 14 ou 15 anos de idade ter defasagem idade-série segundo o grau de escolaridade das mães e diferenciamos pelo nível da renda familiar (conforme Gráfico 4 anterior). ter defasagem idade-série é de 0. o efeito é positivo e significativo.29 14 633 2646.3 a 0. Por outro lado. o atraso escolar pode estar relacionado à entrada tardia para as crianças mais velhas. O número de irmãos e irmãs não influenciava de forma significativa a probabilidade deste grupo etário de estar na escola. quanto maior o número de crianças no domicílio. Possivelmente. a capacidade de monitoramento do estudo por parte dos pais é reduzida tendo em vista o maior número de crianças no domicílio. de forma a fazer algumas economias de escala.1 nº3 | p. pais podem preferir que as crianças. 36-65 59 . o atraso pode estar relacionado à ocorrência da repetência escolar. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. as irmãs mais velhas assumem as tarefas domésticas na ausência dos pais. A probabilidade de uma criança de 14 ou 15 anos com irmãos. ***significativo a pelo menos 10% efeito marginal foi calculado com referência aos valores da coluna X A principal diferença com relação às estimativas da probabilidade de freqüência escolar está no efeito da composição da família. mesmo com diferenças de idade. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.000 0. talvez maior a dificuldade de concentração das crianças para o estudo.

2%). 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . log renda familiar per capita = 2. O nível educacional da mãe tem um papel fundamental no progresso escolar da criança. 2003. mesmo na presença de uma mãe com pelo menos onze anos de estudo completo (37% versus 26. a probabilidade estimada de terem Gráfico 5 Probabilidade estimada de as crianças de 14 e 15 anos de idade terem defasagem idade-série segundo a escolaridade da mãe 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% sem escolaridade 4 anos de estudo 8 anos de estudo 11 anos de estudo log renda familiar per capita = mediana (4.p.Para as crianças de renda mais baixa. Como pode ser visto no Gráfico 5.1 nº3 | p.78) fonte: pnad/IbGe. À medida que o grau de instrução das mães aumenta. a probabilidade de seus filhos terem defasagem idade-série é reduzida.77 60 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. a probabilidade de acumularem defasagem idade-série é sempre superior. para crianças com mães sem escolaridade.

Entre as crianças mais velhas. Logo. há uma grande discussão sobre os determinantes da desigualdade de renda e pobreza.2 (9 a 13 anos). CoNSiDERAÇõES FiNAiS No Brasil. 36-65 61 . o efeito da cor não foi significativo quando se controla pelas condições econômicas da família. Resultado similar é encontrado para o grau de instrução das mães. mostramos que as crianças entre 14 e 15 anos estão mais vulneráveis ao abandono da escola que as crianças dos grupos etários mais novos. apenas em 0.3 (7 a 8 anos) e 0. Um ano a mais de estudo da mãe aumenta em 0.6 pontos sua probabilidade de freqüentar a escola quando comparada com uma criança de cor branca da mesma faixa etária.1 nº3 | p. Grande parte do debate político atual sobre a redução das desigualdades de renda foca na necessidade de diminuir as disparidades no acesso à educação (tanto em termos de freqüência escolar quanto de progresso ao longo do sistema educacional).defasagem idade-série é superior a 60% nos dois níveis de renda familiar selecionados. Outro ponto que merece ser ressaltado é que o problema de ingresso na escola das crianças mais novas (entre 7 e 8 anos de ida- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Ou seja. Nos outros dois grupos de idade. os resultados das seções 5 e 6 servem para traçar as principais características dos grupos etários de crianças que estão mais sujeitas a não-freqüência escolar e à defasagem idade-série. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Vii. Uma criança de 14 a 15 anos de cor não-branca reduz em 2. sendo consensual o papel da desigualdade nas oportunidades educacionais. as restrições de recursos familiares impactam mais o prosseguimento dos estudos das crianças de 14 e 15 anos do que das crianças mais novas. enquanto para os outros grupos etários.8 ponto a probabilidade de a criança entre 14 e 15 anos de idade freqüentar a escola. as que têm renda familiar per capita mais baixa têm uma probabilidade de freqüentar a escola muito menor do que as crianças das outras faixas etárias também com renda baixa. Primeiramente. A cor somente foi importante para explicar diferenças na freqüência escolar das crianças de 14 e 15 anos de idade. sobretudo entre as crianças e os adolescentes.

a freqüência escolar das crianças mais velhas pode ser pre- 62 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. devem ser dadas as condições para que as famílias mais pobres consigam manter seus filhos na escola. Com relação à defasagem idade-série. formado pelas crianças no limite de terminar a escolaridade obrigatória (de 14 e 15 anos de idade). Em termos de política educacional. A política educacional muitas vezes deve ser vinculada a uma política de assistência social mais ampla. como zonas rurais. Ou seja. como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) e o Bolsa Escola. Isso fica evidente quando observamos os dados com relação à composição da família. Ter irmãs mais velhas tem o efeito de reverter o aumento da probabilidade de a criança ter defasagem idade-série. Destacamos que o grupo etário mais vulnerável à defasagem idade-série. Além disso. Seria interessante ter uma política educacional que incentivasse a continuidade dos estudos desse público. provavelmente porque assumem o papel de “mães” na ausência dos responsáveis diretos. devendo ser continuadas e expandidas. A renda familiar e a escolaridade das mães são características que explicam grande parte das diferenças encontradas na probabilidade das crianças dessa faixa etária terem defasagem idade-série. foi o mais velho. sobretudo aquelas que não têm irmãs mais velhas. à capacidade de dar continuidade aos seus estudos. e. as crianças mais vulneráveis a problemas no ingresso à vida escolar são as moradoras de áreas com maior carência de uma boa infra-estrutura e organização das escolas. Em famílias mais numerosas. portanto.de) é mais grave para os meninos e para as crianças que moram na área rural. principalmente daqueles mais afetados pelo atraso educacional normalmente provenientes de famílias mais pobres e mais numerosas.p. destacamos que as crianças que vivem em famílias numerosas parecem ser mais vulneráveis ao atraso educacional. Algumas dessas ações já vêm sendo efetivadas. Nestas regiões. Políticas de erradicação do trabalho infantil e de ajuda às famílias mais pobres são fundamentais para garantir a presença das crianças na escola. notamos que afeta mais da metade das crianças entre 14 e 15 anos de idade. a incidência do trabalho infantil também é mais grave. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .1 nº3 | p.

pode estar ocorrendo devido à inexistência de um sistema de creches que atenda à população mais pobre. conforme sugerimos.judicada assim como a progressão no sistema educacional.1 nº3 | p. podendo prejudicar seus estudos. Filhos mais velhos muitas vezes assumem o papel dos pais e tomam conta de seus irmãos mais novos. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. 36-65 63 . Parte desse efeito. ••• SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

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216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.1 nº3 | p. 66-121 .EMoÇÃo AGREGADoRA Elter Dias Maciel 66 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

a utilização da literatura.1 nº3 | p. supomos. Even philosophical treatises tend (fortunately. uma vez que o romancista fala de vida e da extensão maior daquilo que o homem recolhe ao longo de sua existência. However. o que faz que pensemos também naquilo que nos constitui de forma mais abrangente. Isto. O que estamos tentando mostrar é que a contribuição da literatura ao longo dos tempos não tem sido incorporada como devia em função de sua real importância. Mas convém que se note ao longo do texto que é possível falar em sabedoria. In allowing for the inclusion of those components we do not normally use in our “rational” and “logical” thinking we make huge discoveries and progress in terms of human development as a whole. That means the contribution of literature over the years has not been incorporated on the basis of its actual importance as it shows how much we rely upon imagination in building our thoughts. far less today) to ignore the contribution of knowledge sociology. since the novelist speaks of life and the extended meaning of what a man apprehends during his lifetime. Isto significa que o ponto de vista do observador também se oferece ao leitor para ser incorporado em visão crítica. Although on occasion the use of literature is mentioned both in school programs and texts dealing with specific knowledge. ao mostrar o quanto se deve à imaginação na formulação do pensamento e o quanto se antecipou aos diversos ramos do conhecimento. which puts the observer in the picture as an element to be analyzed. thus leading us to comprehensively reflect on what we are made of. not a neutral stakeholder. e não aceito como neutro. while outrunning the various fields of knowledge. tanto nos programas escolares como nos escritos que tratam do conhecimento específico. desvendamos enormes descobertas e avanços ao próprio desenvolvimento do ser humano como um todo. Mesmo nos tratados de filosofia (felizmente cada vez menos) há forte tendência no sentido de ignorar a contribuição da sociologia do conhecimento que insere o observador. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. seja qual for. the subject is just barely grazed upon in a way that detracts from its actual contribution. I believe this was clear in the testimonies collected during this study and in the way they were selected. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. como elemento a ser analisado. Ao permitir a inclusão desses componentes que não utilizamos normalmente em nosso pensar “racional” e “lógico”.Embora seja às vezes mencionada. 66-121 67 . That means the reader is also offered the observer’s perspective to be incorporated into the critical view. creio que ficou mais evidente através dos diferentes depoimentos que recolhi ao longo deste trabalho e da maneira com que os selecionei. it is worth noting along the text that it is possible to talk about wisdom. é feita de forma superficial que desfigura sua real contribuição.

o prazer da beleza é também a consciência de sua evolução como ser humano. portanto. Em face do crescente sofrimento de parcelas cada vez maiores da população mundial. 1969:135) Os efeitos da “pressa” em alcançar maior justiça social. (Finkelstein. O que percebe é real. de certa maneira. “educa” o ser humano. O mundo. Através do trabalho junto às coisas do mundo. conforto mínimo (o que significa estruturalmente ausência de dignidade). os grupos de esquerda. mas quero destacar duas: uma positiva e outra negativa. e esta negativa. quando não esquecida. entretanto. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Embora mencionada. a natureza torna-se alienada. bem como evidenciou que muito do que se pensou não era apropriado às várias facetas da realidade. optaram por formas de ação que lhes pareciam as mais adequadas para a transformação da sociedade. Outra conseqüência. mas é necessário que desenvolva o poder da percepção. o homem descobre não só a estrutura e utilidade dessas coisas. Reconhecer a beleza é. em minorar a maldade da cruel distribuição da riqueza nos últimos tempos podem ser detectados por diferentes aproximações. Mas. transformando-as para uso humano. que não têm acesso à educação. à medida que um trabalha sobre o outro. O tempo se encarregou de mostrar que tanto as formas quanto a pedagogia de alguns movimentos estavam equivocadas. mas também suas qualidades sensitivas.O prazer da beleza é resposta humana à riqueza sensorial do mundo exterior. há que ressalvar como positivos os sentimentos que deram origem à indignação com a injustiça e à busca de uma sociedade solidária. se deu em função do esquecimento de importantes dimensões do pensamento (e da existência) na arquitetura da nova sociedade. A primeira se relaciona com o reconhecimento de que a sensação de urgência se deu em função de um sentimento solidário para com o homem. responder à natureza “humanizada”. o que evidencia. em eliminar a desumana distância entre ricos e pobres. em tudo e por tudo. então.1 nº3 | p. em várias partes do mundo. 66-121 . a dimensão estética ficou relegada a um plano dogmático e castrador. que o instrumental uti- 68 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. assim. Vista como comodidade. alimentação.

Não é mais possível pensar que a noção de totalidade possa excluir simplesmente o estético das formulações humanas. da literatura e da escultura são abordadas pela estética. de certa maneira. em oposição às linguagens artísticas em si é que. pois se encontram no cerne de nossas atitudes e vivências. mesmo em uma sociedade injusta.).1 nº3 | p. como se sabe. mas para que se perceba melhor o que se passa no campo de toda a produção que se dá SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. ou de situações ideais para a sua formulação adequada. A estética trata do corpo. (Eagleton. de forte carga de uma lógica positivista. etc. Não é de se estranhar que.eivadas. até hoje.lizado para fundamentar a busca da transformação social era aquele que emanava das ciências (história. Para superar o quadro seria preciso que os agentes que conduzem a luta por uma sociedade fraterna desenvolvessem uma relação maior com a arte. que. economia. uma vez que se trata de forjar um novo pensar que permita ao homem imaginar um novo mundo. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Essas relações não podem ser encaradas com leveza. embora mantenha um pé na realidade cotidiana. As diferentes manifestações destas relações que se expressam através da música. a dimensão cultural esteja ausente da maior parte de nossas análises de conjuntura. uma nova sociedade. 66-121 69 . Esta deficiência se dá exatamente porque a fundamentação buscada é aquela que expõe a falta de “lógica” das posições adversárias e não a procura da evidência clara das relações entre conhecimento e existência. também eleva a expressão supostamente natural e espontânea a um nível de elaborada disciplina intelectual. política. E o que há de peculiar no discurso estético. “sistematiza” o estudo e a compreensão dessas formas de expressão. da pintura. ou como se pudessem esperar um tempo indefinido na expectativa de melhores dias.. ou das relações deste corpo com o meio ambiente: a natureza e a sociedade. 19--:8) As abordagens que são feitas no âmbito da estética devem ser incorporadas não para mais um debate de idéias.

agregará as considerações que serão feitas. Elas sem dúvida que levam à realidade mas uma realidade cuja inteireza não pode ser confundida com a socialmente dada. bastante significativos. Hermann Broch e Thomas Mann. As personagens são vítimas de uma engrenagem que as consome e avilta (mesmo os que aparentemente são mais fortes). que.no seio de uma organização social. Penso. (Costa Lima.1 nº3 | p.O Jovem Tõrless. O primeiro escreveu um texto. exatamente porque. 1978). As- 70 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. As palavras em um romance não são apenas signos que apontem para a realidade exterior. aí sim. ARTE E CoNHECiMENTo Para atingirmos à radicalidade desta conclusão teríamos que lidar com a ficção. 66-121 . em três exemplos de produção literária. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. neste instante. Nova Fronteira. de certa forma. seus inter-relacionamentos e os efeitos que exercem sobre determinada população. O Jovem Tõrless (Musil. no momento. a centralidade das citações e dos exemplos se dará em torno do romance. 1966:71) Embora a preocupação seja com a arte. que lançam luzes sobre um período dramático de nossa história: Robert Musil. Isto não se faz senão à custa de trocar-se a ação imediata pelo entendimento que prepara uma ação possível e futura. notadamente na Alemanha. Seria interessante tratar aqui dos rumos e das preocupações que se manifestam no mundo da atividade artística mas. Robert . no início do século (o livro é de 1906). Nenhuma obra de ciência. Por assim dizer. nenhuma pesquisa social nos poderia indicar. com a vida passada ao plano imaginário. a palavra ficcional viola a realidade para melhor alcançá-la e então dizêla. em geral. onde fala do clima que se formava na Europa. RJ. incidem as lacunas dessa visão “apressada” da realidade. A trama se desenvolve num internato onde se expressam de forma larvar as manifestações totalitárias por meio das quais o sistema invade e estilhaça o ser humano. o último ponto atingido pela reificação do indivíduo. com veracidade. i. o que mais interessa é o que a arte pode nos dar a conhecer.

destruindo as formas de resistência que a cultura existente (simbolizada por uma senhora idosa. Em Hermann Broch. líder ou liderado. homem ou mulher. elaborada entre fugas da perseguição política e de doenças. vai. 66-121 71 . de início. o animal de muitas cabeças. Para o momento ficamos com a constatação de que o autor detectou aqui e ali. impelidos pela mais profunda escuridão de nossa vida. sem mãe. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. mais tarde. O indivíduo. tínhamos seguido a dança de um demente. desequilibrado. sábios ou doidas.1 nº3 | p. O encantamento trata da psicologia de massas. parte do animal da noite”. através do nazismo. vai dizer: “uma história de fortes ramificações políticas. que vivemos ou dançamos somos partes. com uma população de camponeses. sucumbe. De certa maneira é importante pensar no que se passou em sua mente quando reagiu contra aquilo que parecia uma redução do al- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. essas manifestações da existência. do do qual era parte. O encantamento. as configurações e os movimentos que se expressarão com toda a nitidez. Obra sofrida. Por último convém recordar Mário e o mágico. Em comentário feito em 1940 Broch fala da importância da obra literária para captar esses estados da alma. joga fora as responsabilidades básicas de solidariedade e respeito. É preciso se perguntar como. Também o intelectual. mesmo de forma incipiente. tínhamos dançado ao redor dele. gradativamente. pelas formas sorrateiras de sedução utilizadas por um forasteiro. Embora o próprio autor tenha protestado. o clima de supressão. ridicularizado a princípio. Mãe-Gisson) oferece. que se inclina em segredo sobre a psicologia do fascismo e também sobre a psicologia da liberdade”. em Dezesseis anos. vamos sentir aquilo que se passou. o médico narrador. seguido de ilusões de superioridade. mais tarde. ele mesmo. nós.sim. aos poucos. por quais processos Musil intui o que se manifestará mais tarde. em êxtase ao delírio quando reconhece que “a colheita pertencia ao louco. do qual todos nós. de Thomas Mann. mas ressalta o importante viés do romance para expressar a alma individual e de como ela se entrega ao comportamento coletivo. vindo de fora. contra os que viam o conto como uma manifestação de engajamento político. do qual eu sou parte.

que Coleridge chamou de “imaginação construtiva”. De qualquer maneira é a história da manipulação de vários indivíduos que aderem entusiasmados ao espetáculo e de um homem que passa a se comportar como um fantoche. no indivíduo-autor e que nem sempre fazem parte do acervo de determinada prática científica. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. um repensar os dados da experiência sensível.1 nº3 | p. quando libera a imaginação. Mesmo sem a formação de um intelectual.). 72 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Mas essas ligações se dão através de sentimentos. configurações sociais totalitárias ou sedutoras (manipuladoras). ou mesmo do conhecimento de senso comum circundante. Torna-se nítido. Quais os elementos que entram em sua composição e em que difere do trabalho científico ou da elaboração filosófica. não pode se sentir cerceada em nenhum dos seus aspectos. que pesquisava intensamente antes de produzir suas obras. A integridade de uma obra é conseguida através das ligações que o autor consegue realizar entre diferentes aspectos do mundo que o circunda. A liberdade de criação se vê ameaçada toda vez que é reduzida a provar algo. 66-121 . O ver do artista é sempre um transformar. como o médico de O encantamento. 1985:36. emoções. aqui e ali em seus trabalhos. do Romantismo até nossos dias. invadem o seu cotidiano. considerações importantes e pioneiras sobre o que se passa em uma sociedade quando. no plano do conhecimento do mundo (ainda a mimesis) e no plano da construção original de um outro mundo (a obra). Pela sua própria natureza a criação. que seu temor era fundamentado. paixões e intuições que estão. uma vez que acontecem com certa freqüência as tentativas de “enquadrar” uma obra ligando-a a certa teoria ou encaixando-a em determinada posição política. Temos assim de pensar no significado intrínseco da criação de uma obra de arte. Mesmo em se tratando de Mann. tenha sido descobrir nas grandes obras de arte a ação de um princípio formal básico. nos dois textos. ao mesmo tempo. por diferentes razões. um combinar. (Bosi.cance de sua obra. em sua maioria. Creio que uma das maiores conquistas do pensamento estético moderno. há. pelo qual o trabalho do artista se desenvolve.

anteriormente. Quando não nos remetem. Trata-se. insistem no perigo de atitudes ou piegas ou que embotam o raciocínio. mas do aguçamento da percepção através da imaginação criadora. Os dados colhidos (a descrição. É possível dizer. dos dados que se encontram em determinado momento. Essa “liberdade” vem através da busca incessante de novas formas de expressão e de uma procura — às vezes desesperada — que permita trazer para fora. assim. os elementos fundamentais que se manifestam no labor artístico. conhece. o artista cria um novo dado da realidade e. os elementos. o que é mais importante. o que se confunde é informação com conhecimento. única segurança que temos. eliminando as potencialidades da imaginação e da criatividade. de forma clara. Temos a experiência. muitas vezes. Curioso é que no afã de privilegiar as regras do que chamamos de racional vamos. De uma forma simplificada é preciso pensar que. Enquanto vê. ao analista “que deve tratar destes assuntos”. imediatamente. 66-121 73 . Lidando com os mesmos dados que o observador de senso comum. o encontro com um bom autor de ficção abre perspectivas até então fechadas e. que é socialmente construída. fazem parte da realidade. as estatísticas).Estão aí. mas de dimensões fundamentais da experiência humana. aos poucos. observa. não obrigatoriamente.1 nº3 | p. de encontrar resistência toda vez que mencionamos a necessidade de um desenvolvimento pleno do campo da afetividade. de um novo ângulo apenas (embora isto se dê com freqüência). Se ainda não conseguimos alcançar uma explicação satisfatória SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. num primeiro momento. Isto significa que quando observo o mundo circundante não o faço sem trazer comigo elementos amplos. mas não são a realidade. que o novo e o original se dão em função de novas agregações que o artista fornece. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. suscitar formulações que estavam latentes na ação e no pensamento de determinados indivíduos. ele combina e recombina. sem dúvida. não somente no campo da afetividade. No entanto. entre os acadêmicos. É certo também que o estado de espírito em que se encontra o observador permite (ou não) que ele constate algo que não conseguira. ou mesmo do trabalho sistematizado. vislumbrar. acumulados por todo o meu ser e não somente através de uma operação lógica proveniente de meu treinamento racional. em composições originais.

Neste ponto é necessário que se reconheçam as conquistas feitas pelos romancistas que. geralmente o fazemos dentro da “lógica” aceitável das posições de Freud. era o “grande defensor da necessidade da fé religiosa”. 74 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. por exemplo. não somente porque não era um crítico literário. 66-121 . “não foram os psicólogos. mas por tentar utilizar-se de dados biográficos (alguns discutíveis) para demonstrar aspectos de sua própria teoria. suas conclusões sobre o “perturbado russo” não deixam de simplificar em demasia uma obra que se consuma ao longo dos anos como uma contribuição inequívoca à existência como um todo. na troca de idéias que teve com o amigo Stefan Zweig e com E. antecederam os avanços da própria ciência. principalmente quando aborda a diversidade humana de maneira inteiramente original através do imenso painel que constrói por meio do que Bakhtin vai chamar de romance polifônico (Bakhtin. que revelaram os mais profundos recessos da alma contemporânea. exatamente nos mergulhos que deu no inconsciente dos homens. 1981). no dizer de Fritz Schnidl. Um dos exemplos disto pode ser encontrado. Quase sempre nos esquecemos de seu percurso. de suas dúvidas e de sua poderosa imaginação. Assim. em muitas ocasiões. se alguém se detiver cuidadosamente. Carr e outros sobre Dostoievsky. De qualquer forma todos os outros trabalhos que surgiram sobre o romancista indicam que Freud não foi capaz de fazer justiça à sua obra.para determinadas manifestações de nosso ser interior. Quando aceitamos pressupostos da psicanálise.H. para muitos. Não é justo especularmos sobre o que se passou sem que incorramos no mesmo equívoco de simplificação e até de injustiça na apreciação de uma trajetória intelectual. O segundo é a suspeita de alguns comentaristas de que a observação de Zweig. de nosso ser total. posto que homens de ciência.1 nº3 | p. Há aqui dois elementos a considerar: o primeiro relaciona-se com a constatação de que coincidem o trabalho de Freud sobre O futuro de uma ilusão. a pior atitude é aquela de negar ou ignorar suas manifestações. mas. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Mas não deixa de ser curioso que Dostoievsky foi pioneiro. que. sim. Não deixa de ser proveitosa uma incursão pelos meandros de seu pensamento e de encontrar alguns percalços em sua trajetória. com a análise que fazia sobre Dostoievsky.

Voltaremos à questão mais adiante. Acho que é assim mesmo.. mil delicadezas. mas o que quero destacar é a peculiaridade e a extensão da elaboração romanesca.os homens de gênio. Mas este não é um fato isolado. (Proust. quando não se equivoca completamente. 1987). reivindica uma percepção maior de algo que captou em suas reflexões sobre a existência. pois acontece todas as vezes que se utiliza a literatura como demonstração dos postulados da psicanálise (Iser. 1999:202-203). Não posso evitar a reprodução de uma passagem de Proust. embora um pouco longa. 1 “Ora.” SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 1957:237). Jamais o mundo saberá tudo quanto lhes deve e principalmente o quanto eles sofreram para lhes dar o que deram. que ultrapassaram todas as fronteiras” (citado por Frank.. em risos espasmódicos. em lágrimas. na maioria das vezes. de Tchekhov: É a mesma coisa por toda parte: em todas as carreiras os homens que têm idéias são nervosos e vítimas desse tipo de sensibilidade exacerbada. os belos quadros. o exame científico de uma obra de arte normalmente a mutila.1 nº3 | p. E outro trecho. Tudo o que conhecemos de grande nos vem dos nervosos. em insônias. e numa angústia de morrer que é pior que tudo isso. 66-121 75 . pois lhe digo mais. Já lhe disse que sem enfermidade nervosa não há grande artista. o tenha melindrado. em urticárias. Difícil saber se foram realmente essas as causas.). Apreciamos as finas músicas. 1996. pois nesse caso ela estaria fadada ao mesmo destino que a literatura já sofreu com a psicanálise: servir de ilustração às suas premissas. como corre o risco de considerar como expressão fatual as premissas da ficção. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. mas não sabemos o que isto custou aos que os inventaram.1 Não só é uma atitude perigosa porque reduz a dimensão do próprio texto literário. Foram eles e não outros que fundaram as religiões e compuseram obrasprimas. que. mas por enquanto basta termos em mente que. em asmas. em epilepsias.. não há grande sábio. uma concepção antropológica da literatura não pode buscar os padrões de sua descrição noutra disciplina.. (Tchekhov.

Entendo o que disse Proust como algo que vai além de certo desconforto ou de adaptações ao meio social.A essa altura creio que devemos agradecer às “perturbações” do mencionado russo. Mais do que isso.1 nº3 | p. em qualquer época e a qualquer nação a que pertença. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. 1987:20). O caráter da cena e o tom da lenda contribuem juntos para lançar o espírito nesse estado de sonho que o transporta brevemente à plena clarividência.). e portanto inteligível à primeira vista (. retrata. determinados aspectos cambiantes desta mesma realidade. o que quer que isto seja. creio que esta angústia de morrer tem se dado com muita freqüência entre os artistas. Wagner explica porque se utilizou das lendas na composição de suas obras: A lenda. O que permanece é justamente a constatação de que a imaginação criadora não se submete à ditadura do que — sejam os governos. tem a vantagem de compreender exclusivamente o que essa época e essa nação têm de puramente humano. Um escritor. minuciosamente. Pareceme que as expressões da normalidade pequeno-burguesa não são o ambiente propício para reflexões que questionem o mundo circundante. além daquilo que se costuma pensar como neurose ou coisa que o valha. Parece-me que a permanência ou relevância de algumas obras reside exatamente neste confronto.. um enfrentamento com a “realidade”. e o espírito descobre então um novo encadeamento dos fenômenos do mundo que os seus olhos não podiam perceber no estado de vigília ordinário. com sua linguagem própria. (Wagner. mas de uma sensação de que a vida como está sendo experimentada no comportamento acomodado não vale a pena. o que é muito mais do que reproduzir. mesmo quando feitas pelas ciências — nos impõem. e de apresentá-la de uma forma original muito pronunciada. 66-121 . A imaginação criadora pode constatar que o que está à sua volta diminui as potencialidades humanas e sufoca o que existe de mais significativo ao ser do homem.. sejam as interpretações oficiais da realidade. Esta necessidade permanente- 76 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. independentemente da época ou da situação em que produz.

e isso pode acontecer. a obra de arte conhece um momento de invenção que libera as potencialidades da memória. Não seria de se estranhar.mente crítica da estética e do romance. que compromete a formação do próprio indivíduo. mas porque o extenuado observador contemporâneo foi tocado em algum ponto de sua sensibilidade adormecida pelo cotidiano vulgar. e isto se dá com mais freqüência do que pensamos. o trabalho do artista seria o de demonstrar os desacertos e as frustrações que. demasiado caro. 66-121 77 . mesmo tão próximos de sua solução. em particular. no entanto. mas apenas mais um desafio para que aprofundasse as questões fundamentais que envolvem o ser humano inserido neste contexto. da fantasia: é a alegria pura da descoberta que pode suceder a buscas intensas ou sobrevir num repente de criação. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. cobra um preço. da percepção. Mesmo que o romancista aceitasse. que algumas pessoas de certa formação sucumbam aos chamamentos de uma religiosidade totalmente criada pela mídia. as frustrações e os anseios dos indivíduos aí colocados. antropológica ou econômica. deixando de lado toda a exuberância e as manifestações de vida e movimento que estão tão próximos. os desejos. de determinado período. que não nos déssemos conta da própria floresta. Alfredo Bosi: Como o jogo. a interpretação de determinada análise. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. É curioso. faz sempre novo o ato da criação. constatar como nossa formação profissional e nosso comportamento familiar podem estar distanciados dessas questões que são vitais para o ser humano. 1985:16). se não espantoso. e nos víssemos de tal forma envolvidos em nosso trabalho. Ainda se supondo que tenha existido uma ordem social e política próxima à perfeição. Heureca! (Bosi. os sonhos. seu trabalho não se tornaria mais fácil ou desnecessário. Compete a ele desentranhar as relações sociais. O distanciamento. Ainda nesta perspectiva.1 nº3 | p. Certamente não foi pela argumentação apresentada e nem pelo tratamento exacerbado e limitador que se dá à emoção. não foram alcançados. É como se abríssemos uma picada numa floresta. seja sociológica.

a memória. Também por aí podemos entender melhor o conhecimento que a arte nos oferece. os estados de felicidade. (Borges. Poderíamos dizer que. a mitologia. ora alegria. seria interessante comparar com o que disse Giordano Bruno: “os homens não são como as abelhas e as formigas. o fato estético”. Kundera percebe com clareza tudo isso quando afirma que a lembrança é uma forma de esquecimento. sentindo ora tristeza. houve seletividade e quando selecionamos. 66-121 . para o homem não é a repetição. pois o clima criado por ele nos enleva. ou estão por dizer algo. isto é mais fácil de detectar. mesmo sobre os mesmos fatos. sentimos no presente (deixo de lado para os especialistas. quiçá. através de dimensões que. e nos relembramos da infância e da juventude. os rostos trabalhados pelo tempo. deixamos de lado um universo de dados e acontecimentos. quase sempre. 1986:177). Uma das experiências mais cativantes do pensamento vagabundo é remexer o passado em busca de novas descobertas. ela nunca é a mesma. é. certos crepúsculos e certos lugares. esta iminência de uma revelação. à medida que as experiências do presente lançam novas luzes sobre aqueles mesmos dados — sem dúvida. que não se produz. as obsessões da neurose). de certa maneira. querem dizer-nos algo. quando estamos sós. mas sempre saudades. 78 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. de elaborações originais sobre o acontecido. é a aquisição do novo”. nos inspira e nos conduz a constatações novas.A acuidade de Borges pode ser de extremo valor no reforço do que estamos tentando levantar: A música. de novos ângulos. nossos vícios de pensamento não nos permitem sequer vislumbrar. ninguém pode imaginar que nos lembramos de tudo. Ela é móvel porque móvel é o passado. não nos damos conta de que.1 nº3 | p. Uma vez que não nos lembramos de tudo. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Além disso. ao repetir a lembrança. no mundo do romance. já acontecidos. O que cristaliza o passado é o dogmatismo do presente ou o esclerosamento. Se colocamos a lembrança como uma forma de esquecimento como vimos acima. mas nunca cristalizados. A seletividade de nossas memórias se dá em função dos estímulos que. ou algo disseram que não deveríamos ter perdido. Às vezes.

uma súmula privilegiada e até insuperável (. 1968:55). mas como os trata.1 nº3 | p. amplo.O objetivo de todo artista é deter o movimento.) Pode talvez dizer-se que o papel do escritor é o de fazer ‘reviver’ a estrutura histórica pela narração que dela faz”. já é incorporado o reconhecimento de que o sujeito investigador se oferece. mesmo com um bom número de recalcitrantes (que de certa maneira ainda tentam esconder seus interesses profissionais ou de classe). Como o homem é mortal a única imortalidade possível para ele é deixar atrás de si algo que seja imortal. princi- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. (Faulkner. ao crivo de seus leitores e críticos. tiveram de empreender para desmistificar a tradicional posição positivista do sujeito cognoscente e do objeto a ser conhecido. juntamente com suas investigações. de modo que cem anos depois. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Arrisco aqui uma observação: sempre pareceu mais fácil esse reconhecimento por parte daqueles que escolheram as artes. essas conquistas. representam um enorme esforço que intelectuais. Faulkner deixa entrever a linha divisória. quando um estranho o fitar. 1971:109). já que é vida. que é vida. Assim. Pelo que diz acima.. (Macherey. que separa a atividade artística das outras operações intelectuais. uma vez que fazem parte tanto do próprio sujeito como do campo a ser analisado. Lukács. como entidades separadas. Embora seja um capítulo interessantíssimo. Hoje em dia. não somente por tratar de temas que a ciência muitas vezes evita. por meios artificiais e conservá-lo fixo. mas de uma realidade parcialmente construída por mim. muitas vezes tênue. como Goldmann. entre outros. incluindo vários marxistas. Não se fala tanto mais em “apresentar um objeto cientificamente descrito”.. ao mesmo tempo. e historicamente antecipa um reconhecimento que só recentemente as Ciências Sociais incorporaram. ainda assim com certa relutância: aquele da inevitabilidade (e necessidade) da inclusão dos elementos subjetivos na investigação. O conhecimento adquirido através da arte é específico e. “o escritor não pretende analisar toda a estrutura de uma época: deve deixar-nos uma imagem dela. somente mencionadas aqui. e mais recentemente Jameson e Eagleton. 66-121 79 . já que sempre se moverá. ele se mova novamente.

Em tempo: no momento não estou nem um pouco preocupado com as diferentes escolas a que os autores imediatamente acima estejam filiados ou classificados. que sem interesses particulares não teríamos nenhum conhecimento.1 nº3 | p. Ainda na perspectiva marxista: ocorre. Mas o que disse acima deveria nos levar a uma configuração que se dá ainda em muitos setores de nosso mundo acadêmico. Assim. porém. e não preconceitos que o colocam em risco. chegamos a um ponto em que se falar de “imaginação criadora” com Baudelaire. 66-121 . A pretensão de que o conhecimento deve ser “isento de valores” é. os autores mencionados acima. no entanto. e traduzido para o português em 1993. como campo de suas preocupações. (Eagleton. embora importantes. traz enorme contribuição para que se entenda o papel e a necessidade dos estudos estéticos nos dias de hoje. tornando difícil a possibilidade de um trabalho que incorpore algo “constitutivo do interesse” do investigador. o que leva o pesquisador iniciante a tratar de assuntos ou matérias que. porque não veríamos qualquer utilidade em nos darmos ao trabalho de adquirir tal conhecimento. 1983:15). como. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. As escolhas realizadas por estudantes em cursos de pós-graduação para a elaboração de suas teses. um JUÍZO de valor”. ou ainda em “conhecimento estético” com Baumgarten não pode mais causar estranheza. Sendo fundamental para o campo artístico é. Os interesses são constitutivos de nosso conhecimento. de certa forma.palmente a literatura. 80 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. por exemplo. distante de alguns setores de pesquisa. Eagleton é um teórico da literatura e seu excepcional trabalho A ideologia da estética vem a ser um dos mais atualizados e penetrantes estudos contemporâneos nesta área. não levem em conta seus interesses ou aspirações. embora já seja possível divisar reações a isso. Em função das pressões existentes ou da limitação excessiva de campo de estudo são. “teoria da formatividade” com Luigi Pareyson. Publicado em 1990. condicionadas pelos especialistas que fazem parte do corpo docente. em si.

O que estou buscando é o reconhecimento da importância do que se pode conhecer através das artes e do seu significado para a ação e para a reflexão. o pensamento experimental não deseja persuadir mas inspirar. Lukács ou Goldmann. não estou deixando de lado o fato de que representam posições que. mas simplesmente para reafirmar que a arte desestrutura posições e que criar significa mais que reproduzir. aqui e ali.. e sim às possibilidades da imaginação criadora. 66-121 81 . imediatamente. Na verdade isto não era necessário como argumentação. para mim. e nos lembramos dos artistas e pensadores perseguidos pelo nazismo. pela própria natureza da criação artística. pôr em movimento o pensar. A verdade não tem nada a ver com as canções. etc. na antiga URSS. Posso adiantar o quanto foram. a qualidade e a relevância de sua produção não estão ligadas. dar um pontapé na barricada que ele mesmo ergueu em torno de suas idéias. ora de Jameson. a uma profissão de fé. importantes. ou seja. ela só tem a si mesma. tiraria SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Williams. Kundera. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. as reflexões de Baudelaire sobre o Salão de 1859. é uma atividade que ameaça verdades estabelecidas. Tudo o que faz o charme. A poesia não tem a verdade como objeto. mesmo porque. se chocam (e isto realmente acontece). Poucas vezes um texto teve tanto significado ou despertou tanto prazer em minhas andanças. Desta maneira.como também com a postura de todos os mencionados ao longo destas reflexões. o que se pode constatar é que essas dimensões do pensamento que mencionei até agora não podem ser submetidas a nenhum poder e nem se deixar escravizar por qualquer ideologia. a graça. ora de Borges. ou a uma teoria específica. Quando pensamos nas vicissitudes sofridas pelos livros de Dostoievsky. Baudelaire. inspirar um outro pensamento. Talento e esforço não têm sido apanágio de nenhum partido político ou filiação ideológica. é por isso que um romancista deve sistematicamente dessistematizar seu pensamento. o irresistível de uma canção. Os modos de demonstração da verdade são outros e estão alhures.1 nº3 | p. se busco o depoimento.

216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. como em nossos dias. a arte nos predispõe a uma maior flexibilidade em relação às maneiras de pensar estabelecidas. 66-121 . as correspondências e analogias. com o condão de lançá-las todas em todas as di- 82 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. de perguntar pela natureza da imaginação ou de como o termo vem se afirmando em nossa percepção. embora seja difícil conceber um homem de imaginação que não seja sensível.1 nº3 | p. além do conhecimento que proporciona. alguma força que acione este estar no mundo e torne possível o deslanchar da percepção e da criação. permita que outros estados. calmo. análise e síntese de todas as outras. da possibilidade provocadora da arte na direção de novos pensamentos. op. ele é portanto. retirado de Novas notas sobre Edgar Poe.da verdade sua autoridade e seu poder. o humor demonstrativo repele os diamantes e as flores da Musa. (Baudelaire. o inverso do humor poético. Chega o momento. O trecho acima. A imaginação é uma faculdade quase divina que percebe. de novas criações. além da vigília. tanto no tempo em que viveu. uma atmosfera através da qual seja possível acionar todas as configurações da colocação do homem no mundo. do relacionamento do homem com o mundo. Referese à imaginação como a rainha das faculdades. cit:53). Enquanto Kundera nos fala da inspiração. já deve estar claro que se trata de estabelecer um clima. A imaginação não é fantasia. A imaginação não é tampouco a sensibilidade. as reações íntimas e secretas das coisas. Gradativamente se vai percebendo que. antes de tudo e fora dos métodos filosóficos. No entanto. op. impassível. então. de certa forma sintetiza os comentários que tece no famoso texto O salão de 1859. permitam a clarividência. Baudelaire se firma na aproximação sensível e sua importância para a formação do indivíduo. Algo que. (Baudelaire. em absoluto. Frio. As reflexões de Baudelaire sobre a imaginação influenciaram vários críticos e ensaístas. como diz Wagner. publicado em junho e julho na Revue Française. cit:57).

pelo menos. copiando-o por falta de imaginação. pois a diluição das intuições originais. Uma teoria da produção literária deve mostrar-nos aquilo que o livro “conhece” e “como conhece” (Macherey. racional ou a manifestação mística. para alguns.:66). dura. deverão encontrar respostas adequadas quando cessarmos de colocar razão e imaginação como opositores excludentes. Todas estas questões. isoladamente. que as requisita todas ao mesmo tempo”. harmonizar e conferir significados é uma atividade que só pode ser exercida plenamente pela imaginação. no que mostrou. Utiliza interessante figura quando menciona o uso que algumas pessoas fazem do dicionário. aqui levantadas. Creio que hoje se vai tornando cada vez mais consensual a aceitação de que a existência inclui os dois momentos sempre. mais uma vez. os considerassem como antípodas. cit.. 66-121 83 . pois SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Mesmo se.1 nº3 | p. “todas as faculdades da alma humana devem ser subordinadas à imaginação. tanto da fé católica como das crenças protestantes. para que fecunde as relações humanas. op.reções na busca do conhecimento e da expressão. Já se passaram anos. Seria uma expressão fria. não conseguem agregar. Talvez seja oportuno continuar com Pierre Macherey: A ficção não deve ser confundida com ilusão. etc. é o substituto ou mesmo o equivalente dum conhecimento. os artistas. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. sem alma que em alguns países se transformou em “beatices. convinha que. Assim. Pergunta o que seria da “virtude sem imaginação”. indivíduos que “de tanto contemplar. séculos em que esta posição de antagonismo dividia os pensadores. aguda percepção. Se podemos fazer justiça a seu pensamento. uma vez que o raciocínio lógico. Considera-a indispensável a todas as facetas do pensar. talvez se possa dizer que na multidimensional existência do homem a tarefa de selecionar. ainda seja difícil aceitá-los (e lamentavelmente isto ocorre). se esquecem de sentir e de pensar”. e em outras no protestantismo”. substituíram o pensamento de seus precursores e pensadores por regras rígidas de comportamento.

Quando percebemos. principalmente quando o autor consegue juntar. num ritual religioso é “doce e humano” em relação ao homem de finanças que sacrifica populações inteiras em benefício próprio. de maneira feliz. permitindo que.pertencem ao mesmo mundo. dando possibilidade ao homem de avanços que até então permaneciam bloqueados. Esta transformação faz avançar a percepção. honrosamente. ou seja. principalmente. Fica mais claro o que isto representa quando vemos um filme. que inclui “o mundo externo ao artista e o próprio artista” (Baudelaire). do sonho e da vigília (Broch).1 nº3 | p. No campo fértil do romance. 66-121 . sem receio. que permite que se trate. aí sim. não somente novas combinações. mas o transforma através de novas perspectivas e novas combinações. mas possibilidades novas de pensamento e ação. se fale em realidade. há uma invenção da realidade sobre a qual se trabalha (Octavio Paz). O mundo da ficção. Nossa reação imediata é de repulsa e condenação. ao trabalhar. Gostaria aqui de citar um exemplo mencionado pelo próprio Baudelaire. ao mesmo tempo em 84 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. que considera que o sacerdote que oferece presas humanas que morrem porque querem morrer. que a evolução no campo das ciências humanas. como se dá essa interação. ainda é difícil para muitos a aceitação de uma constatação simples que resulta do reconhecimento de que. ou lemos um relato antropológico em que estes sacrifícios aparecem. é possível pensar que hoje temos maior proximidade com o mundo artístico em geral. O romancista (como o artista em geral) não vê o mundo de forma simplesmente fotográfica. nova. com prazer. permitindo que uma atitude utópica (suspensão dos limites tópicos) se instaure de maneira constante. e deve fazê-lo de maneira cada vez mais consciente. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Pelo o que conhecemos dos resultados desses famosos encontros de cientistas de diferentes formações. o cientista seleciona e isola elementos constitutivos da realidade para conseguir as condições necessárias às suas observações. portanto. é exatamente esse em que o escritor descortina. a vida aparece com mais nitidez. independentemente do que esta palavra tenha significado. no sentido de considerar que o sujeito investigador faz parte da pesquisa. O drama da produção artística implica uma luta constante entre o desconforto dos desacertos da vida e do mundo e as possibilidades de uma realização mais plena e.

com mais acerto. E aqui uma constatação que muitas vezes escapa ao observador não afeito ao mundo da ficção. a situação de populações. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. a miséria e a degradação imperam exatamente por causa da especulação financeira. povos e até países onde a injustiça. de 1984 fico mais próximo ao que realmente acontece à minha volta do que quando leio os entusiásticos relatórios econômicos que defendem o atual sistema. o leitor vai se familiarizando com um universo de conhecimentos mais amplo e de certa maneira diverso daquele que normalmente é encontrado no trato lógico e racional. A ficção não nega o real mas é um modo diverso de sua apreensão pelo discurso (Coelho. a fome. 1979). diariamente. A imaginação “compõe” a realidade de maneira diferente. Aos poucos. de Cem anos de Solidão. expressar tanto a diversidade da vida como dos próprios discursos. Quais são as posições mais absurdas que nos alienam da “realidade” que nos circunda? Aquelas que nos apontam sempre os acertos de um sistema econômico que defende com unhas e dentes os méritos da globalização enquanto vemos o aumento assustador do desemprego e da miséria. Neste campo se torna possível. de A Ratazana. Não podemos esquecer que as reações diferentes perante as mesmas imagens se dão exatamente porque há posturas diversas atrás destes olhares. quando a concentração de rendas é cada vez mais absurda e desumana. quando vemos que um poder paralelo se impõe a cada dia com mais nitidez (tráfico de drogas). no convívio com os romances em particular e com as obras de arte em geral. O exemplo citado mostra a necessidade de uma atitude permanentemente utópica que permita superar as limitações de nosso “ver” habitual. A realidade que construo inclui minhas experiências anteriores e pode ligar os mesmos fatos observados pelo meu vizinho de maneira diferente. 66-121 85 . quando nos deparamos todos os dias com a mendicância nas ruas.1 nº3 | p.que aceitamos com certa naturalidade. embora não negando as conquistas da ciência e nem estando alheia a elas. Isto significa e exige que seja utilizada com mais freqüência nos processos educacionais e nas tentativas de uma visão mais ampla da própria existência. ou aquelas que (independentemente da filiação partidária mais comezinha) nos falam de uma sociedade cada dia mais humana e cruel? Quando me recordo de A Metamorfose.

Em primeiro lugar. a ciência inventa a realidade sobre a qual opera. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. (Paz. mas a esta altura já se pode ver que é uma tarefa impossível e. Creio que nos bastaria acompanhar o excepcional ensaio de Octavio Paz e perceber com ele que a ambigüidade do romance se dá exatamente porque fala de uma sociedade que se inaugura como crítica de todas as suas conquistas e seus costumes. 66-121 . o CAMPo Do RoMANCE A ciência moderna escolhe e isola parcelas da realidade e só realiza suas experiências após criar certas condições favoráveis à observação. ii. o romance é um juízo implícito sobre esta mesma sociedade. os infortúnios e fracassos se acumulam (ao lado 86 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p.Uma constatação precisa ser destacada: meus sentimentos. desnecessária. De certo modo. minhas emoções e minha razão a partir desses textos (sonambulescos. mas que não expressa nem uma sociedade melhor ou vitoriosa e nem consegue a liberdade necessária ao existir mais pleno e realizado. Afirma a liberdade. É certo que nosso espírito analítico se sinta tentado a definir. de certa maneira. nega os deuses. ao passo que os relatórios que defendem o sistema apresentam-se para mim como fria manipulação de dados que escondem o fato de que a economia pode ir bem. As necessidades crescem. é uma pergunta sobre a realidade da realidade. ao mesmo tempo em que estabelece leis rígidas para que não a destruam. como se viu. mas subverte os elementos críticos quando se vê ameaçada por eles. Apóia-se no racional. como preferimos considerar aqui. 1982). se quiserem) mostram com muito mais acerto o mundo em que realmente vivo e que rapidamente se deteriora. tem sua expressão maior no momento em que o homem assume a centralidade do universo através de um discurso aparentemente inquestionável. O romance. mas presencia eclosões intermitentes de volta às crenças (cada vez mais simplistas) em deidades caricatas e limitadas. conceituar o romance. Diz-se fortemente apoiada no homem e sua autonomia. Épica de uma sociedade que se funda na crítica. mas o homem vai mal.

o romance não soluciona os problemas que levanta e nem é um canto ou uma ode. torna distantes os princípios que diz defender. de verificar o que dizem os próprios romancistas sobre o seu trabalho e as diferentes transformações pelas quais passa a cada inovação. por ser um campo onde operam as diferentes manifestações do espírito. diferentemente da epopéia e do teatro grego. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. gostaria de trazer à tona algumas das considerações sobre Jorge Luis Borges. Mais que isso. mas não conseguiu que os conflitos constantes permitissem o menor vislumbre de sua realização. ou de alguns ateus sobre a importância de O idiota. Ou seja. Às vezes certas discussões são um tanto tolas quando tratam de sua contribuição. criticamente. é biografia. de certa forma.de prodigiosos avanços tecnológicos) e expressões cruéis de repressão e privação têm sido constantes num mundo que insiste sempre na tecla da igualdade e da liberdade. de certa maneira. positiva ou negativamente. apenas no campo teórico. e nem se atrela às interpretações oficiais. ou o narrar simples de fatos SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. uma irrealização. Por ser um campo aberto e produzido com a liberdade necessária à sua execução. de certa maneira mostram. as “verdades” provisórias de determinada cultura. é análise crítica. no momento. sem procurar relacioná-lo com o contexto. em outro capítulo. Apenas para citar exemplos. Não são capazes de compreender que a própria expressão de uma impossibilidade (no caso do príncipe Michkin) traz em si a visão crítica de uma religiosidade que. os momentos em que esta se encontra. mas vê. por exemplo. o romance não se submete apenas às estruturas dominantes. é história. tachado de “reacionário” por alguns elementos de esquerda. é poesia. traduz a sua importância.. ao se adaptar e organizar. Basta rememorar.1 nº3 | p. Paz mostra de maneira clara que. É a expressão de uma ambigüidade e.. uma vez que tangencia outras práticas e atividades: é prosa. sofre também mutações que. expressa a visão crítica que. 66-121 87 . em uma atividade que sofrendo as variações e oscilações de uma sociedade. Mesmo se tentássemos uma definição. Por isto mesmo estamos falando em um “campo”. não é o repetir. quantas vezes foi declarado morto e quantas guinadas significativas sofreu a cada obra notável e inovadora. Afinal o que queremos dizer quando falamos em ficção? Teremos oportunidade. isto não resolveria o problema.

ora recorrendo aos poderes estabelecidos para se beneficiar. perde. os aspectos fortemente revolucionários que proporciona não se expressam (necessariamente) através de um discurso condenatório. mas a vida humana. Quero lembrar aqui exemplos de como isto se dá. mas uma criação livre que aponta para a utopia. diríamos. Esta “malandragem” se explica pela forma com que o texto é escrito. revolucionário. resolvendo os próprios problemas. a existência é captada com nuances insuspeitadas numa síntese privilegiada. Concordando com a maior parte dos próprios romancistas e críticos. Em A dialética da malandragem. mostrando. por isso mesmo. algo importante: uma vez que não se submete aos ditames predominantes de certa cultura ou de alguma teoria da moda.1 nº3 | p. não é um panfleto apaixonado e contundente contra o sistema vigente. Não é uma severa descrição sociológica. aqui. não se submete. Repito. com acuidade. não está preso a fatalidades e. é possível perceber como o indivíduo que se dedica à conquista de terras e poder não só acaba por não se realizar como destrói as relações à sua volta. mas através da forma. de Graciliano Ramos. elementos vitais para uma vida que tenha significado até o ponto em que esta se esvazia de qualquer significação. não só no estudo de suas relações com a sociedade circundante. Antonio Candido mostra que numa sociedade autoritária. o romance Memórias de um sargento de Milícias descreve a situação em que se colocam as camadas médias da sociedade oscilando permanentemente entre ordem e desordem. o romance é por sua natureza ambígua. por exemplo. O indivíduo “livre” para acumular e conquistar. uma situação existencial que se expressa numa cultura de flexibilidade entre dependência e desobediência. Candido chama também a atenção para o fato de as descrições não serem tão minuciosas quando se trata de caracterizar costumes e lugares. não só explica muitas de nossas manifestações culturais. creio. E. A tomada de consciência dessa configuração. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Por ser criação. como deveria servir de fundo aos estudos de nossas religiosidades. aos poucos. Em São Bernardo. ora quebrando as regras. Não deixa de ser um desafio para que se retomem as análises do protestantismo pietista. 66-121 .passados. mas subverte. mas no interior das próprias regras de comportamento. mas uma constatação 88 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

porém. Está. a concretiza) e a intensidade com que as relações humanas é retratada torna palpável a maneira com que um romance maduro e original traz à tona conhecimentos indispensáveis à análise da realidade circundante. declarou sacrossanta a liberdade. como as vitórias se voltam contra o próprio indivíduo.). é o fato de que a utilização banalizada da literatura como mero entretenimento encobre a riqueza e a pertinência de um texto no que tem de mais penetrante e revelador. enquanto conquistava o planeta. a irresponsabilidade com que trata os menos favorecidos. Não importa a constatação de que (à semelhança do narrador) SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 66-121 89 . vejamos a retomada da obra de Machado de Assis. Ou seja. vão mostrando através desse “inimigo” o que faziam as elites do país. através da contribuição de Roberto Shwarz em Um mestre na periferia do Capitalismo. no texto. África.extremamente pertinente de uma situação em que tanto as conquistas. a louvação desabrida do individualismo mostra como este próprio leva a conseqüências tanto alienantes como desumanas. Mais ainda. ainda hoje. O que impressiona. op. cit. Concluo aqui com Octavio Paz: A revolução burguesa proclamou os direitos do homem. o assunto dos textos anteriores vira forma. pisoteou-os em nome da propriedade privada e do livre comércio. de certa maneira. neste romance da maturidade de Machado. mas submeteu-a às conveniências do dinheiro. no caso o romance. e América Latina os horrores do regime colonial. reduzia à escravidão velhos impérios e estabelecia na Ásia. Finalmente. Toda a arbitrariedade de uma conduta de classe aparece. onde comenta a “volubilidade” do narrador de Memórias póstumas de Brás Cuba. com maior penetração. A estrutura social está presente (e a forma.1 nº3 | p. ao mesmo tempo. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. As oscilações do narrador. como o que significa a forma da obra. e afirmou a soberania dos povos e a igualdade dos homens. colocada a natureza das relações que se estabelecem em uma ordem dada e o que isto pode representar para situações existenciais concretas. para tornar mais claro tanto o campo. mostrando a “desfaçatez” das elites brasileiras. (Paz. que não só determina o ritmo da narrativa como constitui a forma própria do livro.

66-121 . as elaboradas análises psicológicas e as extensas digressões. vez por outra. ao falarmos do romance estamos trazendo à tona uma produção que sofre mutações de recursos. ficamos ainda mais impressionados com os estudos e levantamentos feitos para a sua execução (correspondência com teólogos. a impressão que fica é a de que. Em nosso tempo os romances bem realizados têm percebido com uma acuidade incomum a deterioração das propostas proclamadas por um sistema que no fundo é castrador e fortemente impositivo. farão do romance um porta-voz dos avanços minuciosos das ciências e da própria filosofia. Se pensarmos que os concertos de Brandemburgo serviam de fundo de conversação para as recepções das elites. mas não adianta ficarmos imaginando as possíveis frustrações de Bach.1 nº3 | p. Assim. Estas obras tratam dos elementos transformadores fornecidos pela ambigüidade da própria sociedade. Como dissemos. formas e estilos que refletem sua própria ambigüidade. se utilizam da arte como ilustração. mas também sua enorme capacidade de renovação e inovação. sua dimensão crítica e o conhecimento que pode oferecer são domesticados para uso dos Brás Cubas contemporâneos. novas formas. em função de sua ambigüidade (Paz) e em função de suas possibilidades reveladoras. Assim a leitura de um Kafka pode ser assimilada. Então. o papel desestabilizador do romance. citações que abrilhantam suas festas e conversações. no máximo. naquilo que tem de essencial. Em A gênese do Doutor Fausto. em suas estantes-decoração. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Quando não são utilizados para “ilustrar” alguma palestra. os mesmos romances de onde são tiradas. mas o que acontece é o aparecimento de novas sínteses. seu fim é decretado com certa constância.as mesmas elites tenham em casa. quando hoje mesmo isto é feito com obras-primas da literatura por nossos “educadores” e por acadêmicos desinformados. Quando acompanhamos o Thomas Mann de A montanha mágica. servem de pura diversão para as horas vagas. a partir daquele momento. ou o reconhecimento das próprias impossibilidades. é totalmente sacrificado por essas atitudes que. Mais ainda. consultas feitas a especialistas e artistas 90 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. o alcance da obra. como a verificação angustiada das remotas possibilidades do homem numa existência em que as forças sociais exteriores são tão exacerbadas que a vida interior é apenas um simulacro. isto entristece e preocupa.

1 nº3 | p. gradativamente. Não é a prisão do passado. como tal. 19--:88) SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Musil. tanto os da razão como aqueles da imaginação. diz: A imaginação é provavelmente o mais antigo traço mental tipicamente humano. É esta primitiva força humana — a imaginação — que engendra as artes e é. incluindo. por seu turno. Os componentes tanto racionais como não-racionais da vida estão colocados de maneira a fazer do romance a “suprema síntese intelectual” (Kundera. São também nítidas suas digressões sobre a construção das personagens e as dificuldades encontradas para que guardasse o que é essencial no texto. numa perspectiva daquilo em que o homem pode se tornar. mas a existência. é provavelmente a fonte comum do sonho. mas um acompanhamento cuidadoso vai. no O homem sem qualidades (romance-ensaio?).de diferentes áreas. que esses trabalhos não examinam a realidade-mito. mais uma vez. mais antigo do que a razão-discursiva. Susanne Langer. é claro. 1986). mas tudo isso sem que se transforme em uma reflexão sistematizada que descaracterizasse o romance. pode passar também essa impressão. mas o acionamento dos mecanismos potencialmente transformadores do homem. abordando o tema da importância cultural da arte nos Ensaios Filosóficos. sendo assim um campo privilegiado que se propõe a abarcar “a vida humana como um todo” e uma atividade do espírito “que nunca dissociou o indissociável” (Sábato). 66-121 91 . 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. da religião e de toda observação geral verdadeira. da razão. e mais. sem por ela ser subjugado. além dos debates com músicos da época). (Langer. é possível uma perspectiva mais livre (embora não menos complexa. diretamente afetada por suas produções. de forma a realizar uma síntese privilegiada da existência do homem num momento de forte desintegração social. Na perspectiva da síntese a obra bem-sucedida mostra as possibilidades de se participar de forma ativa da chamada realidade. estudos e participação em diversos saraus musicais e concertos. Todos os movimentos e as tentativas (não importa se para muitos elas não o consigam) mostram. ao contrário) sobre a própria situação do homem no mundo. fazendo perceber que é a tentativa genial de movimentar todos os recursos. Uma vez que não se toma mais a existência como campo exclusivo do racional e do lógico.

66-121 . Quando o li pela primeira vez. teria de sacrificar qualquer preocupação 92 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. em derivar dos fatos econômicos básicos as concepções políticas jurídicas e demais concepções ideológicas. são importantes porque mostram que a perspectiva atual difere muito. iii.1 nº3 | p. ávido que estava por conhecer mais detalhadamente uma rigorosa análise de conjuntura. antes demais nada. negligenciamos o lado formal em função do conteúdo: o modo e a maneira como essas concepções. supostamente. que nas coisas de Marx e minhas não foi regularmente destacado de modo suficiente. mas. fui tomado pela agradável sensação de que estava lendo um romance. em relação ao qual recai sobre todos nós a mesma culpa. 1989:17) Os depoimentos imediatamente acima vêm do campo da reflexão sistematizada. falta apenas ainda um ponto. Sempre me impressionou a beleza literária do Dezoito Brumário e o quanto um relato histórico pode ser preciso e rigorosamente analítico sem perder a agilidade de uma narrativa de ficção.. Na verdade o que estava gravado em minha mente era a idéia da sisudez e densidade que deveriam caracterizar uma análise sociológica que. PERCURSo No mais.. bem como os atos mediados através delas.E Bachelard: A imaginação não é como sugere a etimologia a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade. É uma faculdade de sobre-humanidade. (Bachelard. Com isto. por isso mesmo. surgem. e de certa maneira encerra esta dicotomia que por longos anos emperrou uma série de reflexões e impediu que nossos sistemas educacionais tenham deixado as artes em geral para o canto daquelas atividades relacionadas com “quando houver tempo”. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Nós todos colocamos inicialmente — e tínhamos de fazê-lo — a ênfase principal. Não deixa de ser apaixonante um passeio pelas considerações que Marx e Engels tecem no terreno da literatura. etc.

Vou rememorar alguns desses elementos. assertivas e considerações que não poderíamos esquecer. Daí a importância de Eagleton. Aos mais interessados num estudo mais demorado e minucioso sobre a matéria seria interessante consultar os trabalhos de Adolfo Sánchez Vasquez. Dando uma olhada em anotações que todos fazemos ao longo de nossas trajetórias. pois em lugares que percorremos anteriormente encontramos. houve certo descaso em relação ao que se convencionou chamar de “escritos do jovem Marx”. além de citar os “escritos”. além de uma percepção um tanto ligeira de alguns textos de Marx. No entanto um passeio pelas anotações específicas mencionadas acima pode exigir de nós um longo e pesado volume. significativa parte dos acadêmicos e cientistas sociais pensa assim. A ideologia da estética. tão evidente por si. Mas creio que uma especial atenção deve ser dedicada ao capítulo O sublime no Marxismo. ou ainda o capítulo Introdução aos escritos estéticos de Marx e Engels. mas para recuperar certo clima e trazer de volta algo que nunca deveria ser esquecido ou simplesmente deixado de lado. não no sentido de “provar” alguma coisa. quando. tanto de Marx como de Engels com a literatura. que mostra com mais clareza o que foi realmente o envolvimento. para alguns. Pelo que posso observar. ainda nos dias de hoje.1 nº3 | p. que se encontra nos Ensaios sobre literatura de Lukács. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. 66-121 93 .com estilo ou estética para que o posicionamento científico não sofresse “distorções” prejudiciais. As idéias estéticas de Marx. É realmente impressionante como o texto denso e (boa parte das vezes) truncado aparece como corolário de competência e erudição. Este último. Mas parece que. acrescenta uma análise breve e concisa dos desacertos que várias vezes os “pseudo-marxistas ou os marxistas vulgares” cometiam através de suas interpretações mecanicistas. que se encontra no já citado texto de Eagleton. como se fossem novidades. Sobre literatura e arte. ainda não alcançara a plenitude de sua produção. A respeito do próprio Dezoito Brumário ele destaca: “No início SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. podemos ver o quanto aspectos importantes daquilo que lemos pode ser colocado em lugar secundário e permitir até o esquecimento.

(Perrone-Moisés. Estou mais preocupado com o lado negativo da configuração que se torna hegemônica em nossos dias. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. não é desconhecida de ninguém a quase inexistente relação com aquele da ficção.1 nº3 | p. tem até dificuldade de manter. uma vez que isto já foi feito. no ensaio intitulado Leitura de Balzac. realça o conhecimento que este trouxe a aspectos importantes da configuração social circundante. com suas simplificações grosseiras e os efeitos prejudiciais de uma falta geral de trato com a literatura. Uma vez que a academia. Goldmann. 66-121 . O percurso desenvolvido por inúmeros pensadores no horizonte de reflexão do marxismo. Benjamin e mais recentemente Eagleton e Jameson. 1999). com citações abundantes. Bakhtin. que as análises empreendidas nessa perspectiva reconhecem a 2 Adorno já apontara. como Luckács. 94 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. mostra. O realismo de Balzac é um realismo dos processos e não dos fatos imediatos. na proporção desejada. entre significante e significado. que o esteta clássico em Marx considera insuportável. Quanto a demonstração ou prova. certamente a principal obra semiótica de Marx. muito diversa do nacionalismo hegeliano ou comtiano.19--). creio que não é realmente necessária. a consulta permanente ao texto científico. hoje. que a discussão um tanto gasta sobre literatura (se é engajada ou não) pode deixar de reconhecer o específico da contribuição que lhe é própria. E o capítulo todo é uma demonstração de como a literatura e a estética não eram preocupações passageiras e muito menos um pescar de citações que pudessem ilustrar passagens dos próprios escritos. ele retrata as grandes revoluções burguesas como vivendo exatamente esse hiato entre forma e conteúdo.” (Eagleton. mas uma relação intrínseca e constituinte de seu próprio modo de pensar. não deixando de lado o reconhecimento das limitações políticas de seu autor realista predileto. com clareza. Convém recordar que Marx.deste texto. Na verdade não é do escopo de nosso trabalho percorrer os mesmos caminhos. mas apaixonada e épica. Balzac. o mundo do vídeo. (Perrone-Moisés. que a visão certeira desse escritor não é objetiva. Mostra ainda. mas o de discutir e propor as ilações possíveis de semelhante percurso. 1999)2.

O romance é “menor” se for considerado como documentário.contribuição inequívoca da literatura como conhecimento e como compreensão da realidade. pois. vista através de um dos seus setores. E sobretudo porque dissolve o que há de sociologicamente essencial nos meandros da construção literária. Na verdade as posições mencionadas não são SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. tornando-a mais compreensível e. em certa medida.” (Candido. Por outro lado vemos. de captar um movimento que perpassa a sociedade. mas por ser construído segundo o ritmo geral da sociedade. porque o considera como fonte de conhecimento através exatamente da forma elaborada. não por ser documentário. a pressuposição de que um romance só deveria ser considerado como tal se trouxesse a exatidão de um documentário. que a ficção não pode e não deve se preocupar com a “verdade histórica”. de um lado. Dialética da malandragem. as discussões em tomo das produções literárias. “Romance profundamente social. mais acessível às nossas indagações. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. mostra. mas o que realmente acontece é que cresce de importância à medida que o crítico e o leitor são capazes de visualizar como a forma representa realmente movimentos constitutivos da realidade que se pretende enxergar. Digo talvez. de Manoel Antonio de Almeida. ou “maior” se se limita “apenas” à ficção. que com raras exceções. Percorrer os caminhos da polêmica em torno da qualidade e relevância da obra já ajuda a compreender o porquê de muitas aproximações inadequadas. Como o romance pode incluir elementos da realidade que não são possíveis em descrições chamadas científicas. 1970). mas a tentativa de descobrir. mostram que havia. e. porque não se trata aqui de uma descrição pormenorizada da sociedade daquele tempo. 66-121 95 . Antonio Candido comentando Memórias de um sargento de milícias. que talvez explique de maneira mais adequada a própria brasilidade. trabalho que deve ser feito por historiadores e sociólogos.1 nº3 | p. se devem ou não ser “engajadas”. hoje um clássico. o que se dá é uma abrangência maior do que aquelas que se podem alcançar através das limitações fornecidas pelo “rigor” com que falo de uma dada realidade e que não me permite incluir como estes indivíduos pensam a própria existência. A oscilação entre ordem e desordem criou e moldou um comportamento. do outro. Em estudo já mencionado. com clareza.

. o que ressalta. O que preocupa.. com a acuidade característica. ao tomar decisões. é que o nosso próprio ser deixa de ser apreendido por nós mesmos e o quanto nos distanciamos da realidade que. vários elementos importantes em suas incursões no campo da literatura. amantes. ou seja. as duas formas de conhecimento deveriam fertilizar-se mutuamente. E. Estamos informados de que na literatura o esclarecimento vem tanto pelas portas da fantasia como pela representação do real. da incomunicabilidade. o quanto estão em interação constante e o quanto nós mesmos lidamos com eles. e assim por diante. Num romance. ao fazer amigos. é possível perceber que A metamorfose nos fala. “Não foi de todo consciente”. 66-121 . nos cerca. repito. no convívio diário com os filhos. conscientemente ou não. Ressaltemos 96 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. não importa. Tanto mais impressionante porque nos faz sentir o isolamento. mais importante ainda. “Não foi intencional”. quando não estamos afeitos ou ligados de alguma maneira à literatura. o que acontece na produção literária. O campo da literatura inclui o intenso debate de críticos entre si e. aí sim. permite a construção da realidade de maneira mais ampla. “A personagem acabou por crescer em direção não planejada”. ao sofrermos com as próprias indecisões. Ou seja. A dificuldade que percebemos é que esta complementaridade deveria ser em ambas as direções. Robert Musil entendeu e captou o mundo de Kafka por ocasião do aparecimento de seus primeiros escritos.1 nº3 | p. de maneira assustadora. mais do que simplesmente entendê-lo. é o que encontramos muitas vezes em entrevistas com os autores. na maior parte das vezes. exatamente porque percebeu que em textos sonambulescos este conseguiu falar do drama da incomunicabilidade humana em sentido mais amplo e do distanciamento entre os homens em seu tempo. com os próprios autores. Essa liberação. Mesmo não tendo experimentado em sua literalidade o amanhecer em forma de um grande inseto. companheiros e em nossas atividades profissionais diárias. às vezes. Marx percebeu. Sobre esta complementaridade é que tentamos chamar a atenção. é mais fácil perceber os elementos tanto racionais como irracionais da vida.excludentes. etc. mas complementares. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. em relação às regras costumeiras de raciocínio.

quando ele diz que. têm. para. como em nota do próprio O capital. 31 de julho de 1865. 154. em alguns encontros para debates e discussões realizados pelos prisioneiros políticos. Seu constrangimento se deu em função de sua profunda honestidade intelec- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Cena IV. mais uma vez. lembrar São Bernardo. Aliás. ao falar sobre economia. Fausto. etc. Oeuvres. “Como Shakespeare descreve magistralmente a essência do dinheiro!”. conjuntura. Antes vamos recordar uma pequena passagem de Memórias do cárcere. “A minha propriedade é a forma. E de que maneira!” Notas Sobre as Recentes Instruções Prussianas Relativas à Censura. para melhor entender o quanto se envolviam com a literatura e o quanto esta fazia parte de sua correspondência. pelo menos o mérito de constituírem um todo artístico completo” Carta a Engels. Melmoth Reconcilia). 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.por enquanto dois deles: como fonte de conhecimento da realidade e como elaboração adequada do próprio conhecimento. diz nos Manuscritos. 1970).A obra prima desconhecida. seria interessante uma análise mais demorada de todos os autores mencionados por Marx ao longo de todos os seus escritos e também como ele e Engels liam textos novos que lhes eram enviados por diferentes escritores. ficava encabulado perante os conhecimentos demonstrados por alguns deles. (Ramos. Ela constitui a minha individualidade espiritual: Le style c’est l’homme. em cartas de 14 de dezembro de 1868 e 25 de fevereiro de 1867. Mas. analisar a percepção dos efeitos devastadores do dinheiro na vida dos indivíduos e da própria sociedade. há trechos bastante esclarecedores. e ainda “sejam quais forem as insuficiências dos meus escritos. pág. de Graciliano Ramos. em seguida.1 nº3 | p. Fica evidente que reconhecia as limitações de seus conhecimentos em relação ao quadro político de sua própria época. reproduzindo longo trecho do Timão de Atenas. T. MECA. Ato I. mesmo reconhecendo o que considera como limitações do posicionamento político do mesmo. São várias as citações que faz de Balzac e da contribuição que este dá para que se conheça melhor a sociedade em que viveu. No que diz respeito à elaboração do próprio conhecimento. Não só chama a atenção de Engels para determinados contos (O cura da aldeia . voltando à questão do que se conhece através da literatura. Cita também Goethe. convinha. 66-121 97 . 1.

a quem amava. e os freqüentadores de sua mesa aparecem como entes que não só lhe são submissos.). especificamente. é de uma subserviência que não deixa margens a dúvidas. O próprio pároco. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. é como Paulo Honório não consegue realizar-se como ser humano. somente como leitor apaixonado e não um crítico). Madalena. no entanto. 3 A objetividade não prospera muito entre os vivos. também comensal. e. pode ser visto também em obras de ficção feitas anteriormente. não a temos visto muito em nossos tratados da sociologia da religião ou textos de antropologia. em geral. Pode-se ler o quanto a luta pelo aumento da propriedade e dos bens acaba por fazê-lo insensível e incapaz de comunicar-se com aqueles que o circundam.tual e também de sua integridade ao registrar fatos de sua trajetória como ser humano. vai aos poucos sendo afastada. uma vez que é devorado por uma estrutura social que torna as pessoas. representa muito bem as atitudes do clero. é que é capaz de nos transmitir elementos que não são captados pela “sintaxe trivial da razão”. para mim. e é ainda mais miserável em um meio cujo ponto alto é a condensação de destinos humanos em momentos isolados de força poética. e que existe num mundo em que tem de abrir mão de elementos importantes de sua própria realização como tal. como têm pouca importância em sua trajetória. insensíveis a aspectos importantes do indivíduo como criatura social. 1988). mas. Os fatos crus sobre uma pessoa não são necessariamente “as melhores cores com que pintar seu retrato” (Carlsen.1 nº3 | p. Por essa razão. o que apenas mostra como a observação da realidade. por meio da imaginação. Isso. o artista percebe elementos constitutivos da realidade que as costumeiras análises científicas não conseguem. a escolha entre ficção e documentária é. delírio. pode ser extremamente fértil. Mas quando lemos São Bernardo entramos em um mundo que só pode ser construído por alguém cuja imaginação era privilegiada (o termo é utilizado aqui no sentido que Spinoza e outros contemporâneos o faziam: como percepção e não como sinônimo de sonho. 1998 )3.. pelo menos. sim. ou seja. 66-121 . no dizer de Carlsen (Carlsen. em certo sentido. 98 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Ao mergulhar no texto (embora. etc.. no meu caso. puramente uma questão de estilo. Esta percepção. o que se consegue ver. Embora a figura seja encontrada em muitas de nossas observações. em suas relações com os poderosos de algum lugar.. com surpreendente nitidez.

mas “falam” de uma realidade que nos ensina. o racionalista. (Eagleton. representam o conflito. de certa maneira. pensar. ele faz o mesmo consigo mesmo: “Quanto menos você comer. e que não podem. mais dois textos da própria produção literária que mencionam. mais você poupa e maior se tornará o tesouro que nem as traças ou os vermes podem consumir . pintar. devotando seus esforços. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.o seu capital”. ao mesmo tempo.. Muito ainda pode ser dito sobre a importância da literatura em uma perspectiva que ultrapasse a mera ilustração ou diversão. as posições que permanecem em conflito em nossos métodos de análise.como a forma de um trabalho de literatura expressa a real configuração de uma sociedade. Thomas Mann coloca em debate dois interlocutores que.1 nº3 | p. o outro inanimado. Eagleton. Mas não deixa de ser redundância penosa a repetição destes truísmos. apesar de anestetizado. Tanto o capitalista quanto o capital são imagens de mortos-vivos. mas ativo”. cantar. No entanto a discussão atual vem mostrando o quanto permanecemos viciados em um tipo de raciocínio racionalista. sair para dançar. for ao teatro. fruto da confiança ilimitada (característica de uma época) na razão. beber. que representa SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 19--:149). Continua: “Quanto mais o capitalista renuncia ao seu prazer. que nos instiga e que recupera elementos da vida social do tempo em que foi produzido. à modelação deste alter-ego zumbi. um animado. por exemplo. mais satisfações de segunda mão ele é capaz de colher.. 66-121 99 . em A ideologia da estética. esgrimir. recorre aos Manuscritos para tornar mais claro o processo de como isso se dá: Mas se o capitalista rouba o trabalhador de seus sentidos. amar. Em A montanha mágica. em seu lugar. comprar livros. teorizar. São eles Settembrini. Tomemos. Em Graciliano a economia de palavras e o texto curto e incisivo não só revelam o escritor rigoroso e possuidor de impressionante universo vocabular. ou não deveriam estar fora de nossa erudição acadêmica. ou para beber. e o jesuíta Naphta. etc.

como o mundo religioso se utiliza desta mesma razão. neste caso. traz à mesa enigmas para a perspectiva cristã ao mesmo tempo em que questiona a instituição religiosa. Também não há dúvidas de que o enredo reconstrói a sociedade.1 nº3 | p. os indivíduos estão inseridos num mundo de doenças e suas enfermidades representam o quanto o conjunto da sociedade vive em condições de limitações e falta de perspectiva existencial. o isolamento e a incomunicabilidade estão presentes em nosso cotidiano. de certa maneira. de certa maneira. ambos encarnam posições existentes na sociedade da época. Simbolicamente. colaborando com a “construção social da realidade”. Em nenhum momento Aliocha é o salvo e Ivan o herege. ultrapassa de muito o chamado romance de idéias. como tal. Bakhtin. tornando claros os movimentos predominantes em seu bojo. mas ambos representam os movimentos controversos de uma existência. Não há dúvida de que. no entanto. representadas no Sanatório Berghoff. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. ao mesmo tempo em que lança novos esclarecimentos sobre a mesma. que. Em tempo: ao colocar em um sanatório seus personagens. Interessantíssima a controvérsia amistosa entre Ivan e Aliocha de Os irmãos Karamasoff. estamos perante personagens que encarnem somente o pensamento a que se filiam. convive com e assimila. A compreensão do homem em uma sociedade múltipla onde convive com a diversidade de formas interpretativas e que. pois avança na direção da complexidade do próprio pensamento. Repito que o que está em jogo é nossa capacidade de assimilar o texto. podemos assistir a um debate em que o pensamento iluminista europeu (encarnado pelo próprio Ivan). Não cabe nem perguntar. em A poética de Dostoiévski avança vários pontos no que toca à compreensão do autor quando formula a aproximação do mesmo através da perspectiva do “romance polifônico”. Mann faz aquilo que uma grande parte dos escritores utiliza como recurso literário — mostra que. se os objetivos do texto foram alcançados e nem questionar se esta é a melhor maneira de apresentar a realidade. o que elas representam. uma percuciente análise da sociedade de seu tempo nos é apresentada. 66-121 . de fato. 100 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Em nenhum momento. A contingência. Quando o primeiro propõe a lenda do Grande Inquisidor. em sua percepção. mas aqui subordinada aos aspectos mágicos da religião.

Após ter “renascido” da farsa de sua execução. cada um a seu modo. a dolorosa experiência mostrou algo que talvez permanecesse oculto. Creio que essas questões estão intimamente relacionadas com as da literatura e. aos “homens de bem”. E é nas Recordações da casa dos mortos que encontra aquilo que chama de “ouro sob o pó”.1 nº3 | p. não estanques e que fora da racionalização ideológica as antinomias convivem num curioso lusco-fusco. com exclusividade. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. que os referidos pares são reversíveis. suas personagens não aparecem como representantes de determinadas idéias. e o outro com a assimilação precária. Voltamos aqui aos comentários de Antonio Candido. mais especificamente. 66-121 101 . sem esse convívio forçado.Mas neste ponto convém lembrar um pouco uma passagem da vida de Dostoievsky que pode lançar luzes sobre como chegou a construir sua gigantesca obra. foi deportado para a Sibéria. mas quantos perderam o sono por sua causa? (Kierkegaard. a propósito de Memórias de um sargento de milícias: E uma das grandes funções da literatura satírica. simplesmente. 1964). reduzida ou simplificada do ideário de uma religiosidade por parte da maioria daqueles que dizem aceitar seus postulados. muitos daqueles foras-da-lei apresentavam riquezas insuspeitadas. Estou trazendo de volta às nossas lembranças o inquietante texto do pensador dinamarquês em função de dois problemas que quero abordar: o primeiro se relaciona com as diferenças de interpretação no mesmo horizonte de reflexão. Assim. Pelo menos para ele. LiTERATURA E EDUCAÇÃo Gerações sem conta souberam de cor. ou seja. mas como indivíduos que trazem em si as contradições da existência. 1970:67-89). onde conviveu com criminosos e marginais de todos os matizes. iV. do realismo desmistificador e da análise psicológica é o fato de mostrarem. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. (Candido. a história de Abraão. virtudes que comumente são atribuídas. palavra por palavra. com o uso que fazemos dela.

Mesmo sem nos prendermos às formas caricaturais que apresentam um bom número de manifestações religiosas. o que importa é que sobre vários aspectos da realidade ele tenha insistido na provisoriedade de suas próprias conquistas.1 nº3 | p. Mais do que nunca o Credo quia absurdum parece saltar aos nossos olhos. No entanto. tenho a firme convicção de que não fazem parte das considerações da grande maioria dos cristãos e. Descartes tenha procurado refinar um método racional de análise. o que quero ressaltar é que.” (Descartes. sendo ou não lenda. as reflexões contidas no texto de Kierkegaard permanecem atuais. seguramente. embora continuando crente. Se isto acontecer será somente para um número reduzido de pessoas. Não é o aprendizado específico de um corpo de doutrinas ou de reflexões teológicas. Lembreime imediatamente da frase que serve de epígrafe a este capitulo. porém sim somente mostrar de que modo pude dirigir a minha. Kierkegaard cita trechos de Descartes que ressaltam suas próprias dúvidas. Não é somente o fato de que. “A minha finalidade não está aqui em ensinar qual o método que cada qual deve seguir para dirigir bem a razão. 2002). não dos nossos mestres de hoje. 66-121 . tanto entre os cristãos. Gostaria de ir um pouco mais longe com algumas constatações sobre o que normalmente se sucede no decorrer da existência de cada um: recebi há pouco o número 178 da revista Superinteressante (julho. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. o fato é que “demonstrações e evidências” são criação das mentes dos próprios fiéis. 1957:13). Uma das razões é que a literalidade de interpretação do texto bíblico sempre foi contestada em boa parte dos textos teológicos e outra é que aqueles que crêem não o fazem por constatar evidências. como no terreno daqueles que não compartilharam de suas crenças. Dentre elas destaco a afirmação de que os patriarcas Abraão e Moisés jamais existiram.As reflexões que levanta dificilmente seriam ou foram encaradas com leviandade por parte de seus leitores. mas a maneira particular com que o crente organiza sua mente e aceita o que resultou desse arranjo que vai garantir sua 102 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. e acrescento: não creio que alguém vá renunciar às próprias crenças por mais essa descoberta. Antes mesmo de colocar as próprias reflexões. No entanto. que traz entre suas matérias um artigo sobre descobertas recentes da arqueologia sobre a Bíblia.

não se pode deixar de lado que esses mecanismos visualizados através de várias abordagens reconhecem também que existem razões e motivações existenciais profundas para que isso se dê. é que competem aos teólogos. o indivíduo traz em sua estrutura psíquica o suporte de seu ser que o impede de sair fora de si mesmo. como queria Proust). Embora tenda a considerar pessoalmente que no interior das organizações religiosas o que se passa é um crescente muro de proteção (à semelhança de mecanismos de defesa) que impede que o desagradável. ou seja. e ao recusar SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. são apresentadas as reflexões sobre a vida que compõem o mundo interior do indivíduo inquieto perante as dificuldades com que se defronta. As raízes do existencialismo estavam assim lançadas (não somente por esse texto). e durante a trajetória que durou três dias até a montanha de Monja. quando falava de que tanto dogmas como crenças estão enraizados no substrato psíquico dos arquétipos. principalmente de Hegel. por trazerem as reflexões que duvidavam de quaisquer certezas. ao rejeitar o pensamento sistematizado. não deixa de ser oportuno lembrarmos um pouco de Jung. creio que não deixa de ser curioso e fértil considerar que tenha sido uma lenda elaborada para que se colocassem em pauta problemas realmente existentes na vida do homem inquieto (ou nervoso. Não se deve responsabilizar simplesmente um corpo de fiéis pelo fato de que seguem um líder despreparado ou desequilibrado. Mas não deixa de ser curiosa a constatação de que. mostrando que não há fórmulas verbais que resolvam tais questões. Ao elaborar cuidadosamente algumas destas possibilidades. A pertinência com que Kierkegaard coloca os problemas do homem não depende das considerações sobre se a história do patriarca realmente aconteceu ou se seria uma lenda. mencionavam a angústia da solidão e do sofrimento interior e o desespero de saber que a verdade quase sempre escapa ao homem. Como hoje o fato acontece com uma freqüência preocupante.fidelidade ao grupo e sua aceitação do que ali se passa. 66-121 103 . o incerto e o duvidoso possam se desenvolver. As exceções de praxe.1 nº3 | p. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Para quem aceita o convite feito por estas reflexões. O que temos em Temor e tremor são as possibilidades do que se passou pela cabeça de Abraão ao receber a ordem de sacrificar o próprio filho. estas sim.

e. Kierkegaard tornou-se o precursor de significativa corrente de pensamento que inclui. mas como portadora de uma diversidade de pensamento que a tornam viva e possível. se reconheçam as tendências atuais de se prender. Costa Lima realça o fato de que. Finalmente. O campo do romance tem sido mais fértil para que estas constatações apareçam. Essas mesmas configurações são encontradas no já mencionado texto de Dostoiévsky.1 nº3 | p. no Absalão. 66-121 . de certa maneira. sem sermos obrigados a nos mutilar. Comentando a produção de Jerôme Bosch e referindo-se à sua época e à de seus contemporâneos. pelo contrário. Em educação talvez devamos reservar espaços maiores para que esse campo nos ajude a perceber melhor o que nos cerca. a arte era considerada como assente ou “natural” à própria historicidade. Para Bosch a arte existia. a partir do que apontava Eagleton: como esta obra se aproxima do que normalmente consideramos como literatura! Com isto não quero dizer que falta a ela a costumeira sistematização do filósofo. chamamos polifonia. 104 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. então devia existir. como ficam evidentes as contribuições de uma reflexão que não se submete a regras rígidas e nem cerceia a imaginação. A imaginação encontra aí o terreno propício para que a infindável realidade seja captada de maneira mais adequada e as sínteses privilegiadas de uma obra bem realizada conseguem nos dizer mais um pouco do que alcançamos com nossa objetividade costumeira. Pois estão aí colocadas não só as possibilidades diferentes a partir de um fato ou de um acontecimento como também as diversas posições que são aceitas como compondo a mesma existência. 1966:12). para o artista em geral. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. sinto a necessidade de fazer uma observação. mas. reduzindo o alcance de nossas investigações. cristãos e ateus e até pensadores que não se enquadram nestas perspectivas. e que (é o que quero destacar) o relacionava com seu mundo. A personagem central não aparece como representante de pensamento único. Ainda mais! As recentes descobertas da arqueologia não lhe tiram o valor. Embora sejam indiscutíveis os “momentos” da atividade artística destacados por Pareyson — o fazer. e creio.para si a denominação de filósofo. (Costa Lima. a partir de Bakhtin. mas mostram as possibilidades do que. ao longo de sua trajetória. o conhecer e o exprimir —. Absalão de Faulkner.

procurando nos romances frases e citações que pareçam propícias a reprimendas de caráter moralista. sob o prisma de meu interesse específico: o romance. ou mesmo de “máximas” utilizadas para o bom comportamento. é impossível deixar de pensar em suas possibilidades educacionais e. gostaria de realçar a questão do relacionamento com o mundo e de suas possibilidades educacionais. Consigo entender que pode haver um receio (até certo ponto válido) de ver textos universalmente conhecidos e fundadores serem utilizados por algum mestre-escola despreparado. no momento o que desejo realçar é o relacionamento do autor com o mundo que o circunda e aquele com o leitor. os pentecostais. mais recentemente. 66-121 105 . e se isto exigisse o elenco de reflexões feitas a partir do texto e aquelas que SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. por estes. como fazem. Tenho observado ao longo dos anos de ensino que esta não é uma temática que tenha sido abordada com a freqüência e a constância que a arte e. especificamente. os pietistas. abordada. na adolescência. Creio que o mesmo risco se pode correr em relação aos textos literários. embora inclua os momentos mencionados acima. Se tivesse.1 nº3 | p. Deixando de lado a história das controvérsias. na visão do próprio professor. em sua maioria. em muitos sentidos. trazer à tona seus elementos formadores e transformadores. em particular. Percebe-se que tanto críticos como artistas têm posições diferentes. os puritanos e. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Ao incorporar um texto que. uma vez que faz parte da cultura de uma época.ora a um ou a outro destes itens. Este relacionar-se com o mundo. Não deixa de ser patética e constrangedora (independentemente do fato de como se considera a Bíblia) a forma caricatural e oportunista com que é. de Romain Rolland. a literatura devem ocupar. a leitura do Jean Christophe. tem sido o campo que talvez tenha gerado mais controvérsias no terreno dos debates sobre a arte em geral e sobre a estética em particular. às vezes opostas. neste instante. de enumerar o quanto foi importante para mim. Como mencionamos acima o fato acontece com freqüência no protestantismo em relação à utilização da Bíblia. mas não é disto que estamos falando. foi a visão privilegiada de determinado autor. quando opinam sobre o seu trabalho e. o que tornaria mais claras as possibilidades de influência e importância para o indivíduo que lê.

cada vez mais. hoje é mais fácil dizer que parte da atitude de ignorar os textos literários revela muito mais o desconhecimento deles do que uma atitude de reflexão cuidadosa. 106 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. discordar do que estou dizendo. antecipa as conquistas da filosofia e da ciência. mas o que preocupa é por que não debatemos estas peças em nossas digressões sobre a sociedade. 1986:34). Assim. Sei que poucas pessoas poderiam. uma relação dialética entre os dois campos (ciência e literatura) e. nosso trabalho intelectual e nossa maneira de ver e relacionar-nos com outras pessoas? O que não tornamos claro para nós mesmos é o quanto estas produções influenciaram nossos passos. Vimos. que é indiscutível que ela traz conhecimento. sobre sua influência em nossas vidas. difundida também a necessidade de integração. mesmo que ainda sofra percalços e resistências. a resposta. (Kundera. anteriormente. De qualquer maneira. que esta é uma tendência que vem se impondo.. limitando. produz saber e. nossas escolhas e nossa própria maneira de fazer ciência (mesmo que tenha sido. ele pratica a fenomenologia (a busca da essência das situações humanas) antes dos fenomenólogos. a luta de classes antes de Marx. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. mais sentimos que vem sendo. de forma não-consciente). não se pode apenas indagar somente sobre o que é possível conhecer através da literatura.anotei. quanto mais nos apercebemos disso.1 nº3 | p. A pergunta que cabe aqui é: qual a importância disso tudo em nosso existir e que reflexos tiveram sobre nossa vida afetiva. Sabemos. Um de nossos objetivos é o de mostrar que está se tornando mais constante o entendimento de que há uma interpenetração fecunda. no entanto. 66-121 . tendo-os lido. não raro. Que soberbas descrições “fenomenológicas” em Proust. teria que produzir um volumoso texto. que não conheceu nenhum fenomenólogo. etc. O relacionamento que mantemos com o mundo circundante (natureza e sociedade) faz com que constatemos a importância da imaginação criadora. Posso pensar também no quanto os Karamasoff e Hamlet serviram de embasamento para sérias reflexões sobre meu próprio existir. O romance conhece o inconsciente antes de Freud. na maioria das vezes. sob pena de condicionar.

e. As longas citações que Marx faz ao longo de vários textos mostram o quanto Shakespeare e Goethe anteciparam considerações importantes a respeito do dinheiro. componentes necessários a qualquer abordagem numa configuração social. Em primeiro lugar um fato: Os Buddenbrook. desumanização. Tal fato não deveria provocar sur- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. somente possível numa conjuntura que nos aproxima do pensar totalitário.. questionável. em 1904-1905. muitas vezes.1 nº3 | p. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. e A ética protestante e o espírito do capitalismo. de Thomas Mann. ou de sua peculiaridade e abrangência. isolamento. o que parece ter sido completamente esquecido na maior parte dos pronunciamentos dos economistas de hoje. Mas sabemos que as posições atuais são fruto de um pensamento único. aí sim. trazendo elementos esclarecedores sobre relações humanas.Na mesma perspectiva podemos acrescentar algumas observações complementares. Milan Kundera. imposto pelo domínio exercido sobre os meios de comunicação. O texto de Mann não trata somente da “decadência de uma família alemã”. perguntar — o que podemos saber? Comentando “O que é literatura?”. duas declarações destes autores que me parecem complementares: Na verdade. a teoria literária é. suas reflexões sobre estética e especificamente sobre literatura). mostra que a distinção entre “fato” e “ficção” é. 66-121 107 . Talvez fosse mais indicado iniciarmos um passeio sobre a natureza mesma desse conhecimento. como é comumente comentado. transformações pessoais. Eagleton mostra que não é possível separar os textos de ficção dos ensaios sobre eles produzidos. inicialmente. menos um objetivo de investigação intelectual do que uma perspectiva na qual vemos a história de nossa época. ou seja.. foi publicado em 1901. Ao mencionar estudos críticos. mas das relações entre o protestantismo e capitalismo de modo original. e com Terry Eagleton (em sua posição de crítico e profundo analista da sociedade contemporânea. As considerações que pretendemos fazer nesta etapa se relacionam mais diretamente com as posições expostas por um escritor. em si mesma. etc. tornando palpáveis as configurações descritas posteriormente por Max Weber. Tomemos. peças de teatro e os próprios ensaios.

de forma mais ampla.). a discordância sempre presente são uma demonstração viva de que a existência humana (o que implica dizer. 66-121 . O romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral.presa. Ao mesmo tempo em que mudam as condições de vida. (Eagleton. E. (Calvino.. é totalmente ilusória?. altera-se significativamente a forma do romance. esses romancistas descobrem “o que somente um romance pode descobrir” mostram como. todas as categorias existenciais mudam subitamente de sentido: que é a aventura se a liberdade de um K. inevitavelmente envolverá crenças mais amplas e profundas sobre a natureza do ser e da sociedade humanos. Finalmente.. Vejamos agora Kundera: É nesse sentido que compreendo e compartilho a obstinação com que Hermann Broch repetia: descobrir o que somente um romance pode descobrir é a única razão de ser de um romance. pois qualquer teoria relacionada com a significação. e o que o autor se propõe a fazer quando escreve. linguagem. interpretações da história passada. que existe. cit. valor. versões do presente e esperanças para o futuro. 1983). com Ítalo Calvino: Minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura com seus meios específicos nos pode dar. sentimento e experiência humanos. o porquê do clima de controvérsia que vimos mencionando em relação ao terreno da literatura. problemas de poder e sexualidade. 1990). mais adiante: Em contrapartida.1 nº3 | p. op. Podemos sentir. (Kundera. O conhecimento é a única moral do romance. o debate intenso. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Ao lado de algum aspecto negativo. nas condições dos “paradoxos terminais”. 108 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

pode-se sentir em Rimas um prenúncio de crise religiosa. Mas. antes da produção de sua obra maior. repito. enfrentando crises tanto financeiras quanto sentimentais.natureza. não excludente de outras. Creio ser possível considerar o Decamerão como tendo seu principal enfoque na percepção de que a natureza fornece elementos fundadores para a conduta humana e que sua ignorância ou negação desvirtua a própria vida. e finalmente a disposição (pois esta é a essência do ser) favorável à mudança e a eterna desconfiança em relação à estabilidade. além de extensa. pode ser extremamente fértil. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. não o impede de produzir esse texto que vai se tornar tão importante para outros autores e para a percepção da própria realidade. que. Seu estilo ousado e a originalidade de seu texto fazem com que entre em choque com o pensamento dominante de sua época. Fala-se de sua influência sobre o próprio Shakespeare e da riqueza e variedade de suas personagens. Acredito que é muito mais fecundo considerar esse clima numa perspectiva dialética e complementar. trata-se de uma perspectiva mais fértil. ora se negam. 66-121 109 . Sempre me pareceu que a percepção mais ampla desse clima (ou relação) era mais visível no campo da literatura. A exaltação da beleza. de certa maneira. no auge de sua aceitação como escritor e como figura de certa influência na sociedade. ora se complementam. No entanto. e. pois reflete mais adequadamente a essência das relações entre os homens que comportam e incluem esta ambigüidade e que permite que se exprimam por diferentes formas que. Quero trazer dois exemplos que me parecem propícios: um deles diz respeito à relação do artista com a própria obra (Bocaccio) e outro ao método empregado na produção da obra (Mann). Mas é preciso que se pense aqui a dialética como uma disposição inarredável para se receber e perceber o novo e a compreensão do manancial imenso das contradições do que chamamos real. é sempre mais aberta a novas posições. recebe a visita de um monge SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. no entanto.1 nº3 | p. em 1362. e a sociedade) exige necessariamente esse clima que. citado acima. tanto a moralidade cristã quanto o cânone literário. Concordando com o trecho de Eagleton. a centralidade dos amores terrenos compõem e fornecem o húmus fertilizado da vida humana. possibilitando assim o aproveitamento mais completo de uma produção que.

Petrarca. mostrando o quanto a ausência da imaginação pode prejudicar toda e qualquer atividade humana. Baudelaire se refere também a outros campos. instando para que se dedicasse a estudos religiosos e à renúncia de suas obras anteriores. o que é a virtude sem imaginação? É como dizer virtude sem piedade. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. A crise que já se manifestara. de quem se tornara amigo anos antes. Mas o que nos interessa especialmente é o fato de que a multiplicidade. as diferenças de pontos de vista e de posições existem no mundo em que todos vivemos (e o artista está apto para perceber tudo isso) e que a escolha não exclui necessariamente nenhuma delas. recentemente falecido. trazendo magníficas obras nas quais podemos enxergar melhor o drama da vida humana. No entanto. ao mesmo tempo em que se destaca a perspectiva em que a literatura é produzida. 110 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. de esterilizante. Chamo a atenção para o incidente com o intuito de mostrar que vários autores. pois. que viveram em épocas semelhantes ou inteiramente diferentes. virtude sem céu. de cruel. conseguiu dissuadi-lo. embora mais tênue anteriormente.1 nº3 | p. 66-121 . e felizmente para o acervo da humanidade. a da imaginação. recrudesce e ele se sente tentado a entrar para um convento. teve uma visão profética quanto à proximidade de sua morte. enfrentaram crises de natureza parecida ou diversa que poderiam (e de fato algumas aconteceram) mudar o rumo de uma produção ou até a negação de sua inspiração fundamental. 1993). e em outros o protestantismo. Se não há engano devemos a Petrarca a reafirmação da perspectiva com que Bocaccio construiu sua obra. Enfim ela representa um papel poderoso mesmo na moral. mas elege a que lhe parece mais adequada. que. E é aí que se reveste de importância o que Baudelaire percebeu quando tratava do universo da arte e das dificuldades pelas quais passam os artistas em sua relação com as diferentes visões-de-mundo à sua volta. permitam-me chegar a esse ponto. em certos países.que lhe transmite a notícia de que um homem santo de Siena. em função do desencanto. um número significativo permaneceu com sua visão-de-mundo. algo de duro. das pressões externas ou de perseguições. (Baudelaire. tornouse a beatice.

além de romance. que seriam mais representativas desta visão. Mas dedica maior atenção às obras de Broch e Musil. além de serem também considerados como autores exemplares. lembremo-nos de que nos falou em uma perspectiva que incluiria significação. Ou seja. Musil e Broch. e também de sexualidade e esperanças. precisa ser: ensaio. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. sentimentos. etc. reforça uma tendência atual: “Hoje em dia. voltando a ele mesmo. a definição ou o alcance do próprio romance sofre alterações conforme as tendências de uma época ou as relações com a sociedade. Eagleton alerta para o fato de que o próprio objeto da literatura é de difícil definição.1 nº3 | p. aumentando o leque através do qual conhecemos e a multiplicidade do que podemos conhecer. 66-121 111 . O texto citado anteriormente de Kundera se refere a um leque razoável de escritores.Desta tomada de posição. que são selecionados como representantes especiais do período abordado. e continua argumentando que. novos caminhos podem aparecer.. de certa maneira. Como existe uma dificuldade básica em definir literatura. valor. especificamente. o romance envolve relações totais do ser humano sem excluir os elementos que (talvez) não possam fazer parte de certas práticas científicas. mas de um movimento mais amplo que abarca outros indivíduos. 1975). cremos que vai ficando mais claro que a prática da literatura e. e continua com Jules Romains. embora se detenha especialmente em Kafka. de Hesse.. Como se vê. linguagem. embora sabendo que muito se pode conhecer. o Jogo das pérolas de vidro. É o tempo que transcende as limitações de uma data específica e aquelas peculiaridades de um indivíduo iso- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Dos Passos e Joyce. mas. que. Ressalta (o que me parece bem importante) que um autor dessa envergadura não trata do tempo de determinado indivíduo e não se limita à psicologia deste. Carpeaux enumera algumas das importantes obras que representaram esta posição: o Doutor Fausto do próprio Mann. Hazel. pois só assim o leitor poderia acreditar na “verdade da ficção” (Mann. tratado científico. um romance precisa ser mais que um romance”. obra de história e reportagem. principalmente A morte de Virgílio e O homem sem qualidades. O outro exemplo que quero trazer vem de uma declaração de Thomas Mann. ou através desta escolha. onde aborda o conteúdo dessas obras. não se pode prever nem classificar a priori o que se pode conhecer através dela.

112 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. quer dizer. ou melhor. A imaginação alimenta a utopia. esta busca um campo que não pode se limitar à psicologia do indivíduo. cit:11). as possibilidades do homem num mundo em que os fatores exteriores tornaram-se tão esmagadores que as causas interiores não pesam mais nada. Estas reflexões conduzem. Creio que isso ficou claro também quando pensamos em São Bernardo. da ignorância. 66-121 . de Manuel Antonio de Almeida. ou à análise sociológica de determinado período e nem se prender à uma análise de conjuntura que apenas ressaltasse as lutas pelo poder ou às situações totalitárias. Ao comentar Kafka. um modo de exercitar o pensamento de forma inclusiva em relação à imaginação. nossas intuições poderiam aflorar mais freqüentemente.lado.” (Kundera. E é também isto que pode explicar. por exemplo. O que se passa no interior de nosso pensamento pode ser racionalmente apreendido (não controlado) para que não se perca em situações artificiosas. através das excelentes abordagens de Antonio Candido e Roberto Schwarz. Assim. o que possibilitaria o processo produtivo. assim penso. é o que posso perceber. na direção de uma “pedagogia da imaginação”. e Memórias de um sargento de milícias. a permanência e a importância das tragédias. como sugeriu Calvino. de Graciliano Ramos. Ao pensarmos nas limitações do mundo do presente é sempre possível imaginar um mundo melhor e recuperar as esperanças no futuro. op. ou seja. E conclui: “Apreender um eu. Como as coisas se situam normalmente o que se passa é que — mesmo com o fantástico desenvolvimento da tecnologia — as configurações do cotidiano mostram o acentuado desenvolvimento da injustiça.1 nº3 | p. ainda. Mas. em meus romances. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. mas que floresça de forma produtiva e enriquecedora. apreender a essência de sua problemática existencial. Assim. da fome. argumenta que este não pergunta quais as motivações interiores de determinado indivíduo e sim quais são.. É o que quer dizer com “a busca da essência das situações humanas”. relacionar e finalmente de criar. etc. um romance bem-sucedido não é a soma desses elementos todos. no fundo. Em tal postura o aprendizado deixa de ser simples memorização ou a apreensão de regras. mas a síntese privilegiada que permite visualizar os indivíduos em suas relações com a natureza e a sociedade circundantes. do teatro grego. mas fundamentalmente uma atitude de ligar.

216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. in- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. do misticismo com o cálculo. porque fora o enunciado. E aí. Valéry vê o demônio da lucidez. a utopia. ainda não conseguimos vislumbrar as mudanças de currículo. é (com caríssimas exceções) alguém que. por exemplo. mostraram por diferentes maneiras. avisaram. A literatura vem a ser o terreno em que essas combinações de conhecimento enriquecem o aprendizado da vida em todas as dimensões possíveis. op cit:81). mas o curioso é que nas atitudes pedagógicas isto ainda não se expressa com clareza. uma constatação importante: é preciso lembrar que um autor de romances. diferença de análise e de perspectivas e não a um resultado único. quanto o reencontro com vislumbres e inspiração para atitudes em direção ao futuro. ainda. Nas chamadas posturas pós-modernas as combinações ciênciaimaginação têm sido enfatizadas. que era necessário recuperar o que a humanidade tende a esquecer: a necessidade permanente de buscar um mundo melhor. As diferentes combinações permitem um olhar variado e/ou matizado para os dados da experiência. o engenheiro literário que aprofunda e utiliza todos os recursos da arte. tantas vezes repetido. 66-121 113 . o psicólogo da exceção. Num processo de ensino esse aspecto é fundamental. mesmo porque a posição atual do professor é semelhante (grosso modo) a um doméstico titulado. Nunca é demais lembrar o quanto determinados romances (quase sempre produzidos por indivíduos insatisfeitos e atentos para os estrangulamentos sociais. que executa meramente tarefas dentro de programas que lhe são entregues. como foi dito anteriormente. exatamente em função da perspectiva em que foram produzidos. Mas é preciso estar atento para o fato de que esta atitude produz diversidade. fala-se muito sobre algo que não se concretiza. Em Edgar Allan Poe. o gênio da análise e o inventor das mais novas e sedutoras combinações da lógica com a imaginação. no Poe visto por Baudelaire e Mallarmé. ou seja.A esperança fertilizada pela imaginação possibilita encontrar e trazer à tona tanto os momentos do passado em que vozes libertadoras e movimentos sociais trouxeram perspectivas mais ricas e promissoras à experiência humana. de qualquer natureza) prenunciaram.1 nº3 | p. (Calvino.

como queria Kierkegaard em relação à história de Abraão. com maior eficácia. mas quando o texto me tira o sono. mesmo. o mais provável é que eu me torne um potencial descontente. retrata a sociedade. conforme o caso. para o romancista em particular ou para o artista em geral. enfatizando seus estrangulamentos. as perspectivas criadas e as visões diferenciadas trariam.1 nº3 | p. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. e a posição pode gerar atitudes criadoras. 66-121 . uma vez que passariam a pertencer tanto ao mundo de quem ensina como de quem aprende. além de trazer uma visão mais ampla do próprio romance (que não foi captada na extensão devida por Mário de Andrade. produzem conhecimento. somente este aspecto mostra a importância da literatura numa proposta pedagógica. não ofereço perigo. pois o clima. Roberto Schwarz o examinou com cuidado e o coloca em perspectiva de significativo avanço da crítica literária no país e o quanto nos fez compreender melhor o período em que foi escrito.satisfeito com o mundo à sua volta. suas distorções e empedrejamento. quando não ameaço diretamente um bom negócio. insatisfeito. as mudanças de atitudes em relação aos atos de ensino e aprendizado. mostra o quanto os aspectos formais de um texto bem sucedido ampliam e. é um indivíduo que. A atitude de mergulhar em seu próprio interior representa. um insatisfeito que passe a incomodar os que me cercam. como também trouxe um conhecimento maior de nossa própria cultura: 114 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. por exemplo). Mesmo que não fosse por outros. denuncia as formas opressoras do que acontece em suas relações com a sociedade. As atuais relações entre os professores e as entidades às quais pertencem não são de molde a possibilitar mudanças que impliquem alterações administrativas ou que alterem os lucros. um mergulhar na própria sociedade. Talvez essa seja uma das dificuldades em se conduzir as atitudes pedagógicas para uma valorização do romance. Ou seja. Enquanto leio os Karamasoff para me ilustrar ou como entretenimento (se isto é possível). CoNCLUSÃo O texto de Candido. Como já foi mencionado.

faz avançar algumas considerações importantes na direção do que devemos tomar como significativos avanços das academias de todo o mundo no sentido de incorporar com maior pertinência as contribuições da arte. articulada ao processo social. Gostaria de concluir estas considerações através daquelas que faz um crítico de arte ao comentar o cinema contemporâneo. sem o que deixa de existir. Este trabalho. a uma estrutura composta de duas outras: a forma da obra. pela natureza das coisas. (Schwarz. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. generalidade que antes dele o romancista havia percebido e transformado em princípio de construção artística. o que importa é conhecer as relações que daí derivam. ao considerar esta como reflexo mecânico daquela. Ao passo que no plano da realidade. na revista alemã Lettre. 66-121 115 . conhecimentos e bibliografia. ela pode não existir de modo literariamente disponível. Em outras palavras. o condão da literatura está em poder de avançar na direção da dialética da própria existência e não apenas no rumo de explicações que têm sido até agora limitadas pelas próprias regras. a forma ainda a mais secreta. Trata-se de Boris Groys. se responde à finura de seu objeto. embora esteja intuída. Como a questão para Marx era considerar o trabalho como atividade humana fundamental. a qual é o ponto de partida da reflexão. Convém recordar que grande parte das dificuldades encontradas por alguns marxistas ainda se relaciona com a interpretação distorcida de conceitos como infra-estrutura e superestrutura. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. inconsciente ou intelectualizada. noutras palavras. ou melhor. que tem de estar construído de modo a viabilizar e tornar inteligível a coerência e a força organizadora da primeira.No plano da literatura. de chegar a uma estrutura de estruturas.1 nº3 | p. tendo em mente engendrar a generalidade capaz de unificar o universo estudado. professor de filosofia da Universidade Karlsruhe: comentando alguns filmes atuais em Deuses escravizados. produz um conhecimento novo (grifo nosso). portanto geradora do pensamento. 1999). a qual para quem escreve se compõe de vida prática. tem de ser apreensível pela imaginação. Nestes o crítico tem de construir o processo social em teoria. e o quanto as influências recíprocas se complementam. Trata-se.

216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.. seja lá sobre o que escreva. (Groys. Ainda: Isso porque. que o passado é móvel e que depende de nossa movimentação vê-lo sob ângulos diferentes. toda teoria é sobretudo um texto — e portanto uma fração da literatura. uma explicação de como a indústria cinematográfica é e funciona “na realidade”. a ciência econômica etc.1 nº3 | p. Sem prejuízo do que todas estas veneráveis ciências são capazes. Quando. o teórico se declara em condições de adotar uma posição externa em relação à arte. a análise do poder. a análise econômica. Assim o teórico. é também imagem — isso foi muito bem evidenciado em nossa época pela arte conceitual. Não consideram a possibilidade de que a própria realidade. 66-121 . Esses produtos da fantasia não fornecem.4 4 “Cada estação da vida é uma edição. Fatos que pareciam desimportantes ou até mesmo sem significado aparecem sob novas luzes à medida que nos movemos. sendo incontornável. Para sabê-lo. implica também o seu próprio ato de escrever. muito mais úteis parecem ser a sociologia. esses monstros. incorrem num erro fundamental.. portanto. vampiros. inclusive toda a sociologia. Aprendemos. que corrige a anterior. à primeira vista. com as mesmas ênfases. apenas significa esclerose prematura ou mesmo definitiva. 2001). e que será cor- 116 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. ao longo de nossa própria experiência. etc. de seu lado. perguntará alguém: por que o espectador levará a sério este tipo de auto-reflexão? Afinal. como já constatara Platão. se narradas do mesmo jeito. alienígenas e máquinas pensantes parecem mais produtos de uma imaginação totalmente pueril.Diz ele: Ora. possa ser um filme mal produzido. apenas manifesta com isto sua incapacidade de refletir a dimensão da própria produção do seu texto. Sabemos também o quanto a repetição de determinadas passagens de nossa existência. jamais pode esquecer que a alta reflexão da escrita por meio da arte. que não cabe tomar a sério. Ao mesmo tempo todo texto.

representam significativo avanço na percepção tanto do universo social como da contribuição individual no campo da cultura em geral e do conhecimento em particular. interpretado e exorcizado”. rigida também até a edição definitiva. a meu ver. Mas o avanço significativo se dá. Suas observações sobre a coincidência de interesses e da fecunda interpenetração das abordagens de cada uma. provisórias em face da imensidão e da complexidade do que se considera como realidade. na busca da explicação.” Machado de Assis . a esta altura das reflexões.1 nº3 | p. é realizado por ambas as atividades. mas também da ciência. Ficamos um pouco intranqüilos quando pensamos em poesia (afinal a existência dos trabalhos artísticos acaba nos convencendo disto). para compreender e explicar. que o editor dá de graça aos vermes. Menciona o fato de que é um diálogo ou controvérsia que se renova sempre. reconhece o quanto deve à imaginação. compreendido. Ainda no horizonte de reflexão do marxismo não se pode esquecer do oportuno ensaio de Octávio Ianni Sociologia e literatura. S. “O que poderia ser a realidade em geral é delimitado. às vezes. opaca e infinita (grifo nosso).Creio que é preciso refletir sobre as lacunas de nossa formação acadêmica e começar a pensar que. Roland Barthes pode causar-nos certa inquietação quando nos fala que o texto só nos é prazeroso quando fala ao nosso corpo porque este tem idéias diferentes das que usualmente expressamos. (Ianni. mostrando como se dá uma troca bastante frutífera entre ambas. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. mas convém recordar que Barthes falava de todo e qualquer texto (Barthes.13). embora uma necessidade. estamos apenas repetindo um jogo cujas regras compreendemos com certo esforço e nos causa medo quebrá-las.Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1970). 1998). ou esclarecer” (p. intrincada. taquigrafado. Creio que se vai tornando mais comum a aceitação de que as delimitações de área e de campo são. que. Edigraf. sociedade e literatura. Percebe-se também que a invenção não é um apanágio das letras. quando reconhece que uma vez que “a realidade é complexa. Paulo (11). no volume Sociedade e literatura no Brasil. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. a reflexão é levada a taquigrafar e selecionar. 66-121 117 .

Na verdade isto se dá também com o mais empedernido dos cientistas. religião e capitalismo e racionalização e alienação. com raras exceções. Ao exigir maior liberdade para suas atividades. mas a percepção desencadeada pela imaginação traz a possibilidade de saltos insuspeitados e essenciais. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. duas constatações são essenciais: Em primeiro lugar essa compreensão sempre foi mais aceita no campo da produção artística. ao exame permanente não só dos leitores imediatos como das gerações futuras. sobre a vida. Assim. Voltando a Ianni. talvez seja necessário dizer o porquê desse percurso 118 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Não se trata de discutir sua relevância. e da própria natureza. 66-121 . por um lado. todas as construções são provisórias e todos os discursos incompletos. Isto nos leva à constatação. mesmo sendo também lógico e racional. quando continua mostrando como são importantes “os contrapontos” nação e narração. cada vez mais firme. mas devem ser sempre aceitas com as reservas de quem reconhece sua provisoriedade. ou melhor. Concluindo. Em segundo: sendo a realidade infinita. filho do racionalismo. convém ressaltar que o que pode despertar a imaginação é determinado “clima”. Além do mais. Não a teme. ou por súbita paixão. o artista se coloca em certa oposição. não vê por que reprimir o mundo dos sonhos e o clima da imaginação. pois são altamente necessárias e até imprescindíveis. ao positivismo e outros ismos provenientes do iluminismo. Inicia-se assim um processo mental de associações que despertam constatações reveladoras sobre a existência. mas a deseja e deseja ardentemente porque percebe o quanto é necessária à composição de sua própria vida. criado talvez por se estar ouvindo a abertura do Tanhauser. Não importa (e é até desejável) que depois o indivíduo faça encadeamentos lógicos e racionais que permitam a continuidade das explicações. convém percorrer os caminhos desenvolvidos em seu ensaio. de que não só as teorias não abarcam a realidade como são intrinsecamente insuficientes para dar conta da existência humana.1 nº3 | p. todos (artista e cientista) estão também se oferecendo. com suas limitações. O problema existe apenas quando ele não o reconhece. quando oferecem os resultados de seu trabalho aos outros.Dentro da perspectiva em que tento trabalhar. por outro.

A ideologia da globalização não deseja apenas ser hegemônica. Esta trajetória me pareceu oportuna para que se reconheça que houve sempre. mas o que se tem. como os teóricos. a miséria e a ignorância estão alcançando índices assustadores. nesta perspectiva. a fome. clareza quanto à importância da literatura em geral e do romance em particular. o nível de uma guerra civil.1 nº3 | p. de certa maneira. por que não recorrer a uma perspectiva que se tem caracterizado pela defesa dos mais fracos e o oferecimento de um mundo melhor? Os erros do passado. Dessa forma. ••• SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. tanto pela teoria como pelos literatos. sem dúvida. vamos deixar que o próprio Marx conclua: Mas a dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopéia estão ligadas a certas formas do desenvolvimento social. que. (Marx. A violência. a tentar demonstrar que o que está aí foi determinado pelas imutáveis forças cósmicas (parece que já estão dando um descanso a Deus). 1979). o que podemos ver são seus arautos. tanto por parte de Engels como por Marx. 66-121 119 . em certos aspectos. Guardando as devidas ressalvas. bem sucedido em mascarar o que chamam de realidade. não podem ser comparados aos que tem efetuado o sistema. Pelo domínio dos centros de decisão. no terreno de marxismo. Este domínio tem sido. relatada até por órgãos de informação semi-oficiais. Quando a discussão não é um tanto canhestra sobre se tal romance é “engajado” ou não. A dificuldade reside no fato de nos proporcionarem ainda um prazer estético e de terem ainda para nós. porque é muito mais fértil do que as tendências atuais que o pensamento único quer impor. no país. pois a pauperização crescente. mas única e absoluta. apenas aperfeiçoa seus mecanismos totalitários. principalmente os economistas de plantão. o valor de normas e de modelo inacessíveis. a lamentar é sua pouca utilização nos dias de hoje. pelo monopólio da mídia. o desemprego. temos presenciado menções isoladas quando o texto nos fala diretamente de algum conflito ou mesmo de atitudes diretamente revolucionárias. tanto os da ação política.pelo manancial marxista: em primeiro lugar. desde que foi denunciado. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. atinge. Já mencionamos aqueles que se dedicaram à crítica e ao estudo da literatura.

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há discriminação no Brasil. The hypothesis is that the smaller wage rate return from increasing schooling for blacks than for whites has impact on blacks’ school attainment.1 nº3 | p. utiliza-se o embasamento teórico dos modelos de discriminação estatística. remunera menos os negros com escolaridade semelhante à dos brancos. according to which the employer uses race as a proxy for non-observable characteristics such as quality of education. Os resultados alcançados são que a diferença de retornos escolares entre brancos e negros é significativa e negativa para os negros e que. em que o empregador utiliza raça como proxy para características não-observáveis como qualidade educacional e. A hipótese levantada pelo trabalho é que a diferença de retornos salariais esperados com aumento da escolaridade entre brancos e negros explica.Este artigo analisa fatores explicativos para menor escolaridade dos negros no Brasil comparada a dos brancos com características pessoais e familiares semelhantes. Como conseqüência. black people have less incentive to acquire more education. em alguma medida. os negros possuem menos incentivos que os brancos para adquirir mais anos de estudo. To assess this hypothesis. Para isto. por isso. mesmo controlando por qualidade escolar. This may explain the less payment for blacks with the same level of schooling than whites. Therefore. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 123 . the theory of statistical discrimination is applied. even after controlling for family’s background and income. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. a menor média de anos de estudo dos negros. This work investigates the reasons for the low level of schooling for the blacks when compared to the whites in Brazil. The results show that the difference of the rate of return from education between blacks and whites has a negative (and significant) impact on blacks’ school attainment.

como sua produtividade. ou até mesmo do consumidor ou do governo. Stiglitz (1973) criticou o modelo de preferências por discriminação com o argumento de que a discriminação no mercado de trabalho advinda das preferências por discriminação só é sustentável se existirem falhas de mercado 124 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. remuneração mais baixa que os brancos em nosso país? Como diminuir essa desigualdade? Sob o ponto de vista do mercado de trabalho. No entanto. então. Dentre os aspectos que preocupam os pesquisadores está a discriminação racial. onde é apresentada uma teoria em que a discriminação no mercado de trabalho se dá através de preferências por discriminação tanto do empregador quanto do empregado. existe esse diferencial salarial? O trabalho seminal na literatura econômica sobre a questão é o livro de Becker (1957). as firmas poderiam obter lucro contratando os agentes de menor salário até o ponto em que os salários se igualariam. que resultaria na discriminação do mercado de trabalho.1 nº3 | p. outras explicações foram dadas para a existência de discriminação no mercado de trabalho. Por que. desde gritos de torcida em nossos estádios de futebol até impedimento de casamentos inter-raciais pelos pais. como raça ou sexo. Isto geraria um custo nãomonetário para a pessoa que possui essas preferências. Exemplos de atos discriminatórios podem ser encontrados sem nenhuma ajuda de testes empíricos no nosso dia-a-dia.iNTRoDUÇÃo A elevada desigualdade de renda no Brasil tem sido um dos temas mais estudados pela literatura especializada em economia no país. é no mercado de trabalho que está o foco desse estudo. Como se conceituaria discriminação racial no mercado de trabalho? Será que ela realmente existe? Quais são as explicações para a sua existência? Por que os negros e os pardos têm. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. O diferencial de rendimentos entre raças no mercado de trabalho brasileiro é visível. um indivíduo é discriminado se o contratante levar em consideração na escolha do emprego e do salário não apenas aspectos objetivos. em média. mas também aspectos subjetivos. se agentes têm mesmas características econômicas (produtividade) e uns ganham menores salários que outros. 122-155 . Posteriormente. Num mundo de concorrência perfeita.

ou ainda. sexual etc. este trabalho é o primeiro sobre discriminação do país a utilizar uma proxy de qualidade escolar. tais como salário mínimo. então. Como na média os negros. por exemplo. cartas de referendo etc. Além disto. têm mais dificuldade de conseguir emprego por causa do grupo a que pertencem (racial.. conforme argumenta Heckman (1998). então. muitas vezes. Entretanto. entre outros. Para Arrow (1972. No Brasil. gerando dificuldades para mensuração da discriminação. diversos artigos utilizam o teste das Forças Armadas (AFQT) como proxy para qualidade escolar e cruzam com os dados longitudinais da pesquisa de domicílios. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 125 . O desafio do pesquisador empírico se traduz em identificar trabalhadores igualmente produtivos. a variável observável raça é utilizada como proxy para produtividade e alocam os negros para atividades que exigem menores habilidades e remuneram menos. que poderiam gerar algum tipo de segregação.). não é só do ponto de vista teórico que o conceito de discriminação é polêmico. Do ponto de vista empírico.ou barreiras institucionais.. A minoração do problema de inferir a produtividade com êxito pode ser a melhoria dos dados utilizados para a estimação. ou são alocados em postos de trabalho inferiores.). 1973) e Phelps (1972) existe o que eles chamam de discriminação estatística. a dificuldade é ainda maior. a literatura empírica estaria sobreestimando a importância da discriminação.1 nº3 | p. se mistura aos efeitos atribuídos à discriminação. A grande questão é que. são menos produtivos por causa de variáveis não-observáveis. Arrow (1998) apresenta ainda uma outra explicação em que inclui a importância das interações sociais através das redes de influência (conhecimentos. sindicatos. há ainda o problema nos erros de medida para a identificação da renda exata que os trabalhadores recebem através dos dados de pesquisas por amostragem em domicílio que. Assim. A principal dificuldade está em inferir através dos dados a produtividade dos trabalhadores. Nos EUA. não existe esta possibilidade. em que uns recebem rendas menores no mesmo trabalho. por exemplo. se existem grupos que têm uma maior probabilidade de possuir características não-observáveis que têm correlação com produtividade num nível que diminui a última. é possível inferir uma proxy para qualidade escolar diretamente ligada à pessoa que recebeu aquela qualidade escolar. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Entretanto.

A segunda analisa a literatura teórica que utiliza o modelo de discriminação estatística. na medida em que o mercado de trabalho adota não somente critérios de produtividade para a contratação e a remuneração dos trabalhadores – como. DiSCRiMiNAÇÃo RACiAL E NÍVEL DE ESCoLARiDADE No BRASiL EViDÊNCiAS DA LiTERATURA A idéia deste trabalho surgiu a partir do trabalho de Silva (1992). 122-155 . é necessário estimar. aqui entendida com a influência da diferença dos retornos de escolaridade entre brancos e negros sobre a escolaridade dos negros. Para tanto. a média das provas do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) de matemática aplicadas ao terceiro ano do ensino médio por raça e por estado. Assim sendo. ainda existia uma diferença no nível de escolaridade entre brancos e negros. no qual ele constata que. se essa discriminação tem efeito sobre a escolaridade dos negros. mesmo controlando para todas as variáveis de histórico familiar. tem-se um sistema em que os negros têm menos incentivos a estudar. por exemplo. se existe de fato discriminação salarial contra os negros e. Assim. A quarta seção apresenta os principais resultados. primeiramente. em seguida.qual seja. os negros têm menos eficiência em converter histórico familiar em vantagens para anos de estudo. E a pergunta que veio à tona foi: por que isto acontecia? 126 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. mas à média da qualidade escolar de seu estado e de sua raça. SEÇÃo 1. escolaridade formal – mas também aspectos subjetivos ligados à raça. um dos principais objetivos deste trabalho é medir a influência da diferença de retornos à escolaridade entre brancos e negros na escolaridade dos últimos.1 nº3 | p. A hipótese deste trabalho é que a discriminação salarial esperada contra os negros tem influência na decisão de obter escolaridade formal. Em outras palavras. não é possível associar diretamente o indivíduo à sua qualidade escolar. A seção seguinte mostra a metodologia aplicada para estimar a influência da discriminação salarial esperada sobre escolaridade dos trabalhadores. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. assim como algumas estatísticas descritivas. a primeira seção do artigo apresenta uma análise da literatura sobre discriminação racial e educação no Brasil. Ou seja. Então.

tem que haver evidências de que os retornos à escolaridade são diferentes para negros e brancos.8% em 1999. a partir da decomposição do diferencial de renda entre raças em três componentes: i) diferença na qualificação. nas regressões sem controle de ocupação. No entanto.2% em 1999.3%. Já a parcela de negros com mais de onze anos de estudo subiu de 2.7% em 1992 para 3. Entretanto. 11. ii) discriminação na inserção e iii) discriminação no salário.A hipótese deste trabalho para responder a essa pergunta é que as diferenças de retornos de escolaridade entre raças estão influenciando na decisão de estudar dos negros. A percentagem de negros com menos de quatro anos de estudo caiu de 55. Henriques (2001) mostra que as diferenças entre as médias de escolaridade entre brancos e negros são grandes. principalmente. Estes dados mostram uma melhoria na escolaridade da população brasileira na década de 1990. sendo de 2.5% tinham menos de quatro anos em 1992 e 26. Para Silva e Hasenbalg (2000). a melhoria da educação nesta década é explicada.3% em 1999. apesar da discriminação intra-ocupacional não ser significativa. Em compensação 32. A taxa de analfabetismo entre os brancos com mais de 15 anos era de 8. para que tal esteja ocorrendo. Os resultados desse artigo mostram que há discriminação tanto na inserção. enquanto que para os negros era de 19. A discriminação na inserção é definida pela diferença da taxa ajustada pelo método Oaxaca-Blinder. Ou seja.1 nº3 | p. em primeiro lugar. Entre os brancos. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 127 .1% tinham mais de onze anos de estudo em 1992 e 12. existia uma forte diferença entre retornos de escolaridade no que ele chamou de status ocupacional. pela melhoria em três tipos de deter- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.3 anos de estudo em 1999. a interocupacional é significativa. para a taxa ajustada com controle para ocupação.4% em 1999. quanto depois do controle por ocupação. considerando o histórico familiar na regressão de salários. não se verificam significativas diferenças no retorno à escolaridade no salário dos negros e dos brancos.8%. Os homens negros ganhariam 10% a mais se não houvesse discriminação na inserção e 27% a mais se não houvesse discriminação nenhuma. tanto para brancos quanto para negros.5% em 1992 para 48. O próprio Silva (1992) constatou que. Soares (2000) chegou a um resultado semelhante com a Pnad de 1998.

as diferenças educacionais por raça que contribuem para as desigualdades educacionais no Brasil e. com a eliminação das diferenças educacionais. E. que transferiu a demanda educacional para locais com melhor acesso às escolas. por conseguinte. de moradia e de recursos físicos que facilitam os estudos. em média. Os autores argumentam ainda que a desigualdade salarial entre trabalhadores brasileiros com a mesma instrução é bastante parecida com a dos EUA. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.55 nos EUA). mas a do Brasil ainda é um pouco maior (a variância dos logaritmos é de 0. em alguma medida. a metodologia aplicada para testar a hipótese do trabalho. com suas estimações. O segundo tipo está relacionado aos recursos educacionais ou ao capital cultural representado pelo nível de escolaridade dos pais. ter-se-ia uma redução de 40% da desigualdade de renda.09 nos EUA). 128 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Barros. apresenta-se uma análise descritiva sobre as diferenças de escolaridade entre brancos e negros no Brasil e. o que influencia na melhoria dos anos de estudo das crianças existentes. Para se ter a precisa idéia da importância da educação para a desigualdade salarial brasileira. que tem melhorado ao longo do tempo.1 nº3 | p. As famílias atualmente têm. Neste ponto. em seguida.59 no Brasil e de 0. tal como melhorias nas condições de renda. No entanto. O primeiro tipo refere-se a determinantes econômicos. O último tipo de determinante referese ao componente demográfico sobre a estrutura familiar.52 no Brasil e de 0. 122-155 . menos crianças com idade escolar. Para retratar a situação brasileira. Este artigo explora a hipótese de que os ganhos salariais com aumento de escolaridade menores para os negros podem explicar. é importante verificar que a diminuição da taxa de fecundidade e da população em idade escolar relativamente à população idosa tem influenciado também na estrutura das famílias. destaca-se o processo de urbanização ocorrido nas últimas décadas. a desigualdade salarial entre trabalhadores com níveis educacionais diferentes é muito maior no Brasil que nos EUA (a variância dos logaritmos é de 0. Nesse sentido. para a elevada desigualdade de renda.minantes. Henriques e Mendonça (2000) conseguem. explicar a origem de quase 60% do total da desigualdade de renda brasileira observada. Isto significa que a educação é a responsável por 66% de todas as causas possíveis de serem identificadas estatisticamente como responsáveis pela desigualdade salarial.

essa seção apresenta uma análise descritiva do perfil educacional e de renda dos grupos geracionais por raça e região.1 nº3 | p. quando serão introduzidas as variáveis de controle para explicar os ganhos salariais. Com base nesta pesquisa.2).. no entanto. Nesta seção. No Brasil. escolaridade e posição na ocupação e (2) pessoas de 11 a 25 anos de idade que responderam a pergunta sobre escolaridade e cujos pais responderam as perguntas sobre renda e escolaridade. Sendo assim. Esta divisão de coortes se deve à metodologia aplicada neste trabalho para estimar a discriminação racial. a região mais escolarizada é a Região Centro-Oeste com média de 7.9. A segunda é a Região Norte com média de 7. serão consideradas também as pessoas que vivem na zona rural. 1 Na próxima seção. A média da escolaridade dos negros no Brasil é de 7. as diferenças entre raças no que diz respeito à renda e à escolaridade são grandes. uma vez que a Pnad não cobre a zona rural da Região Norte e as médias desta região ficariam enviesadas para cima1. serão utilizadas apenas as médias urbanas. a Região Norte é a de pior escolarização (9. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 129 . o universo de análise será dividido em dois grupos: (1) pessoas de 26 a 70 anos de idade.1.5 e a dos brancos de 9. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. entre os brancos. ocupadas na semana de referência da pesquisa e que responderam às perguntas sobre renda. Verifica-se que entre os negros. em que os retornos salariais à escolaridade dos ocupados com idade entre 26 e 70 anos podem influenciar o nível de escolaridade dos jovens de 11 a 25 anos.7.UMA ANÁLiSE DESCRiTiVA SoBRE RENDA E ESCoLARiDADE PoR RAÇA E REGiÃo A fonte de dados utilizada neste trabalho é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do IBGE para o ano de 2003. Em compensação. conforme pode ser visto na Tabela 1. como ficará mais claro na próxima seção.

enquanto para os brancos é de 10. com R$ 625 para os negros e R$ 1.Escolaridade e renda per capita médias por região e por raça entre as pessoas de 26 a 70 anos em áreas urbanas Região Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-oeste fonte: pnad 2003 Renda mensal média Negros e pardos 593 604 506 625 596 772 Brancos e amarelos 1161 962 912 1244 1130 1439 Escolaridade média por região Negros e pardos 7. Como era de se esperar. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. A Tabela 1. e a Região Sudeste. São elas também as de maior escolaridade entre os brancos e duas das três de maior escolaridade entre os negros.2 9.Tabela 1.5 7.0 A diferença de escolaridade entre brancos e negros na Região Norte é a menor quando comprada com as outras regiões. com R$ 506.5 10. Entre os brancos.6 7. em termos de renda mensal média.244 para os brancos.9 Brancos e amarelos 9. enquanto a dos brancos é de R$ 1. pelo menos em termos de anos de estudo completos.1 as diferenças de renda entre raças para as pessoas de 26 a 70 anos por região.0.4. quanto entre os brancos.9 9. já que o Nordeste também é a região menos escolarizada entre os negros e a segunda menos escolarizada entre os brancos.9. Nota-se também que 130 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.7 9. com 9.3 7. com renda média de R$ 772 para os negros e de R$ 1. Observa-se também na Tabela 1. tanto entre os negros. com 10.1 . com R$ 912. A renda mensal média brasileira dos negros com idade entre 26 e 70 anos é de R$ 593. o Nordeste é a região mais pobre. Isso evidencia.3 7. seguida pela Sudeste. Pode-se verificar que a média de escolaridade nesta coorte de idade para os negros é de 8. a região mais escolarizada também é a Centro-Oeste.439 para os brancos. As regiões mais ricas são a Centro-Oeste.3 9.2 revela que a escolaridade média das pessoas com 11 a 25 anos é maior do que a das pessoas de 26 a 70 anos.7 7. então.1 nº3 | p.7. Isto representa uma melhoria nas condições da educação no país. 122-155 .161. um elo entre pobreza e baixa escolaridade.

6 10.6 8. os negros da Região Norte têm melhor média de escolaridade apenas que os da Região Nordeste.Escolaridade e renda domiciliar per capita médias por região e por raça entre as pessoas de 11 a 25 anos em áreas urbanas Região Renda domiciliar per capita média Negros e pardos Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-oeste fonte: pnad 2003 254 237 205 289 275 331 Brancos e amarelos 486 378 356 524 510 546 Escolaridade média por região Negros e pardos 8. Isto está refletindo uma melhoria maior na educação das regiões Sul e Sudeste. Isto significa que não só as pessoas estão estudando mais.0 Brancos e amarelos 10.14 para 1. Note que entre pessoas de 11 a 25 anos de idade. diminuindo a disparidade entre os dois. entre as quais os negros da Região Norte só perdiam para os do Centro-Oeste em média de escolaridade.5 A tabela mostra também a renda domiciliar per capita média das regiões por raça.2 9.1 nº3 | p. A Tabela 1.73.8 10.a diferença de médias entre raças cai de 2. o Sudeste é a região mais escolarizada e o Nordeste e o Norte as que apresentam os menores níveis de escolaridade média.8 9.2 apresenta também a média da renda domiciliar per capita destas pessoas de 11 a 25 anos por estado e por raça.4 9. o que pode diminuir a importância da discri- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. ao contrário do que se via entre as pessoas de 26 a 70 anos de idade. Observa-se que a região mais rica para os brancos é a Sudeste e para os negros é a Centro-Oeste. como também essa melhoria tem sido levemente maior para os negros que para os brancos. Isto pode estar refletindo o fato de que o Distrito Federal tem uma grande quantidade de funcionários públicos.1 9.2 . Entre os brancos. A renda domiciliar per capita dos negros é pouco mais da metade da média dos brancos. Uma análise por região é também feita na mesma tabela.3 9. com R$ 254 para os primeiros e R$ 486 para os últimos.7 8. quando comparada à melhoria na educação da Região Norte. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 131 .5 10. Tabela 1.

enquanto a de negros é de 16.16 0.885. Percebe-se ainda que a percentagem de brancos com apenas um ano de estudo completo é de 6. O Nordeste é a região mais pobre tanto entre os brancos. Verifica-se que.26 8. enquanto os brancos com a mesma escolaridade ganham R$ 361.73 4.07 Salário médio em R$ por anos de estudo Negros e pardos 274 304 327 355 412 412 421 470 516 535 581 736 1024 1128 1232 2042 Brancos e amarelos 361 423 452 499 573 586 604 659 730 758 838 1058 1330 1642 1658 2885 132 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Por último. na ausência de controles.042. enquanto os brancos com mesma escolaridade ganham em média R$ 2.78 4.92 2.04 4.1 nº3 | p.7%.89 2.36 3.71 3. os brancos ganham mais que os negros para todas as faixas de escolaridade.11 1.4%. é apresentada na Tabela 1. Os negros com um ano de estudo ganham em média R$ 274. quanto entre os negros.54 22.38 18.3 a diferença de rendimentos entre brancos e negros por anos de estudo. Tabela 1. 122-155 .23 7.15 2.48 Brancos e amarelos 6.71 10. Já os negros com dezesseis anos de estudo ganham em média R$ 2.07 3.92 12.3 – Salário médio em R$ e % de trabalhadores por anos de estudo completos e por raças entre as pessoas de 26 a 70 anos Anos de estudo 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 fonte: pnad 2003 % de trabalhadores por anos de estudo Negros e pardos 16. Além disso.24 6.35 5.91 15.41 1.59 3.84 7.27 1.01 4.98 12.26 1.90 1.93 1. enquanto a de negros é 4. podemos ver que a percentagem de brancos que completam dezesseis anos de estudo é de 15%.81 0.minação.2%.

a princípio. a hipótese de que os retornos salariais com aumento da escolaridade são maiores para os brancos que para os negros. mais de 60% dos brancos completaram o primeiro grau. a diferença da renda média entre brancos e negros vai aumentando com o número de anos de estudo. mais de 50% dos negros não completaram sequer o primeiro grau. Chama a atenção também a curva de evolução da renda em relação aos anos de estudo.1 nº3 | p. Isto pode ser observado pelas tendências lineares para as rendas médias por escolaridade e raça mostradas no gráfico. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 133 . SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Esse comportamento sustenta.1. Gráfico 1.1 – Renda média em reais por anos de estudo e por raça 2000 1800 1600 Renda média por raça 1400 1200 1000 800 600 400 200 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Escolaridade 11 12 13 14 15 16 renda média negros renda média brancos linear (renda média negros) linear (renda média brancos) fonte: pnad 2003.Um fato que chama bastante a atenção é que mais de 50% dos negros têm escolaridade menor ou igual a seis anos de estudos. Enquanto isso. Ou seja. Como pode ser visto no Gráfico 1.

11 275.65 309.29 286.19 332. 122-155 .62 315.80 281. Essas relações das diferenças de retornos escolares entre raças e as decisões de escolaridade dos negros serão objetos de investigação do próximo capítulo. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.13 258. Tabela 1.58 335. menos que os brancos.59 276.05 285. esta diferença cresce à medida que aumentam os anos de estudo. o que pode desestimular os negros a investirem em capital humano.Observa-se. a Tabela 1.4 – Exame de matemática do Saeb 3º ano por estado e por raça Estados e Brasil Brasil Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco fonte: saeb 2003 Saeb 3º ano Negros 283.76 296.45 245.15 317.45 284.97 286. que os negros com mesmo número de anos de estudo ganham.50 Brancos 310.42 267.56 300.55 Alagoas Sergipe Bahia Minas Gerais Espírito Santo Rio de Janeiro São Paulo Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Mato Grosso do Sul Mato Grosso Goiás Distrito Federal Estados Saeb 3º ano Negros 273.51 287.34 280.51 284. em média.57 314.07 317. assim.40 322.01 270.11 269.86 275.40 270.94 293.88 290.70 291.30 297.83 264. Além disso.1 nº3 | p.4 apresenta os dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) de 2003 sobre as provas de matemática aplicadas ao terceiro ano do segundo grau para mostrar as diferen- 134 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.75 270.50 Brancos 283.37 284.68 287.06 277.52 323.65 261.72 289.30 276.47 Por fim.59 291.93 299.69 268.75 315.03 261.33 293.79 301.61 340.82 268.41 310.35 325.29 296.

através de preferências por discriminação. no controle das regressões que serão feitas. que tentam explicar a discriminação através de questões culturais. e um grupo é discriminado ganhando salários menores.3. estendida por Arrow (1972. A dificuldade da explicação era que se os agentes têm características econômicas semelhantes (tais quais as que afetam produtividade). vale mencionar os trabalhos de Cornell e Welch (1996) e de Arrow (1998). Por último. SEÇÃo 2. à luz da teoria microeconômica que estava em vigor na época e ainda está até hoje. as firmas poderiam obter lucro contratando os agentes de menor salário até o ponto em que os salários se igualariam. enquanto para os brancos é de 310. indicando que a qualidade da educação dos negros é menor que a dos brancos. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Verifica-se ainda que essas médias são menores para os negros em todos os estados brasileiros. será apresentado a seguir de forma mais detalhada.ças de qualidade escolar por estado entre as raças. Percebendo que esta explicação não se sustentava num mundo competitivo em certas situações. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 135 . Na próxima seção será discutido de que forma poderemos utilizar os dados do Saeb como proxy de qualidade escolar. A média brasileira dos negros é de 283.1 nº3 | p. O primeiro a encontrar uma explicação racional para a existência da discriminação foi Becker (1957). de interações sociais e redes. Uma outra corrente iniciada por Phelps (1972) e pelo próprio Arrow (1972) explica a discriminação pela crença de empregadores na existência de diferenças na média da produtividade entre grupos. Note também que os resultados do Saeb das regiões Sul e Sudeste são mais elevados. então. seja por parte do empregador.3. do empregado e até mesmo do consumidor. Stiglitz (1973) tentou mostrar como as falhas de mercado poderiam resultar na discriminação descrita por Becker. TEoRiA DA DiSCRiMiNAÇÃo ESTATÍSTiCA E METoDoLoGiA EMPÍRiCA O grande desafio da teoria econômica sobre discriminação no início da segunda metade do século XX foi conseguir explicar a discriminação sob o ponto de vista racional. É neste modelo que este artigo irá se concentrar e. 1973). portanto.

preferências por discriminação parecem ser menos razoáveis para racionalizar a discriminação.u) = 0. V (u) = σ2u. Podem-se encontrar explicações deste tipo em Phelps (1972). O empregador quer inferir sobre a qualificação dos trabalhadores que estão buscando o emprego a partir desta observação. A idéia é que o empregador tem informação imperfeita a respeito dos candidatos ao emprego. por exemplo.TEoRiA DA DiSCRiMiNAÇÃo ESTATÍSTiCA Em lugares onde há uma miscigenação tão grande. Bons resumos estão também em Arrow (1998) e Cain (1986). por conseqüência. mas consegue isto apenas com um erro: y = q + u. a explicação mais aceita é a que utiliza diferenças nas características produtivas para elucidar diferenciais de salário. Assumindo que q e u têm distribuição conjunta normal e não são correlacionados. pode-se especificar a regressão reversa: q = α (1 . anos de estudo. Arrow (1972 e 1973). diferentes. como. Assumindo que os empregadores pagam os trabalhadores de acordo com sua produtividade. eles vão ser pagos de maneira diferente para uma mesma medida de y. temos: w = E (q | y) = α (1 . como no Brasil. então. isto só explicaria discriminação indivi- 136 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 122-155 . 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.γ) + γy + e onde "e" é o distúrbio e 0 ≤ γ ≤ 1 é o coeficiente de determinação (r2) entre q e y e pode ser interpretado como a medida de confiança de y como preditor de q. Entretanto. E (y) = E (q) = α. Rothschild e Stiglitz (1982) e Spence (1973). Suponha que exista uma característica observável.γ) + γy Desta equação segue que se dois grupos possuem médias. e onde y é a característica observável. com E (u) = Cov (q. e onde.1 nº3 | p. α. q a qualificação do trabalhador e u o erro. Stiglitz (1973).

dual e não entre grupos, já que, na média, os empregadores estariam pagando a média dos grupos, ou seja, ao mesmo tempo que estariam pagando menos que a produtividade para alguns negros, estariam pagando mais que esta para outros. Então, por mais que a média dos rendimentos fosse menor para os negros, isto seria reflexo da menor produtividade média desse grupo. Existem duas maneiras de tornar racional a discriminação entre grupos. Uma desenvolvida por Aigner e Cain (1977) estipula aversão ao risco na função utilidade (ou lucro) dos empregadores. Outra, mais convincente, foi sugerida por Rothschild e Stiglitz (1982), que especificam uma função produção que depende diretamente de alocar os trabalhadores de qualificação “q” nos trabalhos corretos. Portanto, subestimar ou sobreestimar a qualificação de trabalhadores são atitudes ineficientes, o que faz com que o salário esperado, e não apenas sua variância, dependa dessa alocação. O modelo, então, funciona da seguinte forma. Suponha que, por alguma razão não-observável, tal qual qualidade da educação ou fatores culturais, os negros com mesma educação formal que os brancos sejam, em média, menos produtivos que os últimos. Os empregadores usariam, então, a variável raça como proxy dessas características não-observáveis. Isto pode fazer com que os empregadores contratem os negros para ocupar postos de trabalho que requerem menos qualificação e têm menores salários também. Nesse caso, trabalhadores negros com mesmo nível de escolaridade e de qualificação (qualidade escolar e histórico familiar equivalentes) dos brancos seriam julgados pela raça e, por conseguinte, alocados em postos de trabalho inferiores. A idéia central deste trabalho está baseada nesta teoria. Sabendo que vão ser julgados pela raça, os negros podem estar subinvestindo tanto nas características não-observáveis – tais como esforço na escola, busca por melhores escolas, entre outros – como também nas características observáveis, em particular, no nível de escolaridade. Assim, existiria uma racionalidade para o menor nível de escolaridade média dos negros relativamente aos brancos, já que receberão menores salários do que os brancos com a mesma escolaridade ou serão empregados em postos de trabalho de menores qualidade e remuneração do que os brancos com mesmo número de anos de estu-

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do. Em outras palavras, os negros teriam menos incentivos a se esforçar na escola e a adquirir escolaridade, uma vez que terão menores retornos a esses investimentos. Logo, a magnitude do investimento em educação dos negros é menor, a média de qualificação continua sendo mais baixa e o julgamento estatístico acaba se confirmando, tornando-se um ciclo vicioso. Arrow (1998) argumenta que, em estatística Bayesiana, a posteriori é suficientemente rica para contribuir para a priori. Ou seja, com o tempo os empregadores seriam levados a perceber que cometeram erros e equalizariam os salários das pessoas igualmente qualificadas. No entanto, como o principal aspecto que assume atitudes discriminatórias é a segregação, os empregadores não têm essa possibilidade. METoDoLoGiA EMPÍRiCA: ESTiMANDo A iNFLUÊNCiA DA DiFERENÇA DE REToRNoS à ESCoLARiDADE ENTRE BRANCoS E NEGRoS SoBRE A ESCoLARiDADE DoS NEGRoS Nesta seção, será apresentada a metodologia empírica realizada para tentar estimar como a diferença esperada de retornos à escolaridade entre brancos e negros influencia na determinação do nível de escolaridade dos negros. A idéia surgiu a partir do artigo de Silva (1992) que verifica um gap em termos de anos de estudo entre brancos e negros, mesmo considerando pessoas com as mesmas características familiares, como, por exemplo, renda e escolaridade dos pais. Então, se não é a restrição de riqueza e crédito e nem o histórico familiar, qual seria o motivo dos negros estudarem menos do que os brancos? Algumas razões podem existir. Pode ser que os negros tenham preferências distintas determinadas pelas diferenças de background familiar ou por questões culturais. Pode ser que exista um peer effect (efeito grupo), ou seja, dado que a média de anos de estudo dos negros é menor, isto pode estar influenciando as decisões pessoais de cada um. A hipótese deste trabalho é que a discriminação esperada, mais precisamente, a diferença dos retornos de anos de estudos entre brancos e negros pode ser um dos motivos que influenciam a menor escolaridade dos negros. Os dados usados para testar esta hipótese serão extraídos da Pnad 2003. A dificuldade empírica encontrada foi como inferir a variável

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discriminação esperada. A solução encontrada foi usar as diferenças de retornos escolares entre brancos e negros como proxy para a discriminação esperada. Assim, foi estimada uma regressão de renda por estado para as pessoas ocupadas de 26 a 70 anos com intuito de verificar se essas diferenças de retornos à escolaridade realmente existiam e se eram significativas. Em seguida, na regressão de determinação do nível de escolaridade para pessoas de 11 a 25 anos foram introduzidas essas diferenças nos retornos escolares para verificar sua influência na escolaridade dos negros. Esta metodologia está calcada na idéia geral de que as crianças e os jovens desta última coorte (ou seus pais) utilizam as diferenças de retornos à escolaridade existentes no mercado de trabalho atualmente para inferir como serão tratadas no mercado de trabalho no futuro que, por conseguinte, tem influência na determinação do nível de escolaridade. Para tanto, a metodologia pode ser dividida em duas etapas. A primeira consiste na estimação dos retornos à escolaridade das pessoas ocupadas no mercado de trabalho com idade entre 26 e 70 anos. Isso será feito a partir do modelo de regressão de renda por escolaridade por estado e para brancos e negros. A segunda etapa consiste em analisar se essas diferenças de retorno à escolaridade influenciam o nível de escolaridade dos negros. Nesse ponto, utilizou-se o modelo de regressão do nível de escolaridade dos negros considerando como variável explicativa as diferenças de retorno à escolaridade por raça e por estado. A seguir, apresentam-se os passos para aplicar a metodologia descrita. O primeiro passo consiste em estimar os retornos salariais à escolaridade, o que será realizado a partir das seguintes equações do modelo de regressões: (1) (2)

l Wine = β n S ine + ∑ α nek X inek + ε ine n e
k

l Wibe = β b S ibe + ∑ α bek X ibek + ε ibe n e
k

onde W é o salário, S é a variável de anos de estudo e X um vetor de variáveis de controle. O subscrito i representa o indivíduo, o subscrito n representa as variáveis para os negros, o subscrito b re-

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140 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. foram retiradas as variáveis empregado sem carteira assinada (a título de comparação com as demais ocupações) e trabalhador rural (a título de comparação com as categorias urbanas).1 nº3 | p. A justificativa é que grande parte da segregação é causada por questões discriminatórias e não existiriam motivos para. estaremos interessados apenas na diferença dos coeficientes de retornos de anos de estudos entre brancos e negros das regressões sem esses controles. de acordo com literatura descrita na primeira seção. na sua maioria. Segue abaixo a lista de variáveis X usadas como controle: • • • • • • • • • • • idade idade2 sexo urbano metropolitano urbano não-metropolitano funcionário público empregado com carteira assinada empregador doméstico trabalhador para uso próprio trabalhador conta – própria Assim sendo. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. no grupo dos brancos.presenta as variáveis para os brancos e o subscrito e representa o estado de residência do indivíduo. No grupo dos negros foram incluídos os negros e os pardos e. a intenção deste trabalho. negros com mesmo número de anos de estudos que brancos estarem ocupando. os brancos e os amarelos. Então. por exemplo. Apesar das regressões considerarem as variáveis de posição na ocupação do trabalho principal. No entanto. será mantida uma dummy para funcionários públicos. 122-155 . é comparar os retornos de anos de estudo sem controlar por ocupação. posições que remuneram menos. sob a hipótese de que a inserção nesta categoria estabelece critérios que não podem ser discriminatórios. apesar de manter também as variáveis de ocupação para comparar os resultados. Foi realizada uma regressão desta para cada estado e para cada raça incluindo as pessoas de 26 a 70 anos de idade.

( β b − β n ) é a variável ese e tadual de diferença de retornos salariais à escolaridade estimada a partir dos modelos (1) e (2) e V é um vetor de variáveis de controle listadas abaixo: • • • • • • • • • • • idade (idade/10)2 renda domiciliar per capita escolaridade do pai escolaridade da mãe sexo urbano não-metropolitano urbano metropolitano Número de crianças na família Saeb Beneficiário de programa social de educação O resultado esperado é que a diferença de retornos de anos de estudo tenha coeficiente negativo para os negros e positivo. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 141 . Para tanto. serão calculadas as estatísticas t dessas diferenças com intuito de avaliar o nível de significância a 5%.1 nº3 | p. A idéia é que a discri- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. para os brancos. Assim.O passo seguinte do trabalho é verificar para quais estados as diferenças dos retornos de anos de estudos são significativas. conforme as equações que seguem: (3) (4) S ine = γ n ( β b − β n ) + ∑ δ nV ink + φ in e e k ∧ ∧ S ibe = γ b ( β b − β n ) + ∑ δ bVibk + φ ib e e k ∧ ∧ ∧ ∧ onde S é número de anos de estudo. ou muito próximo de zero. as equações (3) e (4) foram estimadas somente para as pessoas residentes nos estados em que as diferenças de retorno à escolaridade são significativas. O terceiro passo da metodologia é verificar se essas diferenças de retornos à escolaridade entre negros e brancos podem explicar o nível de escolaridade das pessoas com 11 a 25 anos.

e V é um vetor com as mesmas variáveis de controle utilizadas nos modelos (3) e (4). Espera-se também que todas as variáveis de controle acima tenham efeito positivo sobre a escolaridade das pessoas. A equação é rodada para todas as pessoas de 11 a 25 anos da Pnad 2003. se o indivíduo é negro residente no Rio de Janeiro foi colocado para ele o coeficiente de anos de estudo do modelo (1) dos negros do Rio de Janeiro e se o indivíduo é branco de São Paulo foi colocado para ele o coeficiente de anos de estudo dos brancos de São Paulo. dado que o preço (retorno) que se paga por ele é maior. Por fim. com exceção da variável número de crianças na família. ∧ 142 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. indicando que retornos de renda maiores estão associados a níveis de escolaridade maiores. o quarto passo é estimar o efeito dos retornos salariais à escolaridade sobre o nível de escolaridade por raça. Por exemplo. e ∧ ∧ k onde β re é o retorno estimado nos modelos (1) ou (2) do estado e para a raça r. Observe que no passo anterior foi estimado o efeito da diferença dos retornos à escolaridade entre brancos e negros e agora é o efeito dos retornos absolutos estimados pelos modelos (1) e (2).1 nº3 | p. gerando o seguinte modelo: (5) S ire = µ β r + ∑ λVik + ϕ i . Espera-se que a variável β re tenha coeficiente positivo. levando-se em conta os resultados dos modelos de discriminação que mostram que os lugares com maior discriminação têm uma menor renda tanto para negros quanto para os brancos (só que a diminuição das rendas dos brancos é bem pequena) [ver Becker (1957)]. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. e outra puxando para baixo. 122-155 .minação esperada pelos negros não gera incentivos para os brancos estudarem mais porque tem duas forças agindo: uma incentivando os estudos.

122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 143 .296*** (38.1 apresenta os resultados dos diferentes modelos de determinação de renda e revela que.22) 0.030*** (18.67) 0. 10% menos que os brancos. em média. mostrando a importância dessa variável para explicação do diferencial de renda por raça.27) 0. ou seja.61) 0.49) SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.62) 0.0001*** (9.105*** (20.531*** (114.239*** (32.00006*** (3.49) 0. RESULTADoS A Tabela 3. cai para 15%. Tabela 3.484*** (107.82) -0.0001*** (6.26) -0.59) 0. os negros ganham 28% menos que os brancos.452*** (94.31) 0. verifica-se que os negros ganham. Assim como nos trabalhos de Darity.013*** (8.134*** (21.11) 0. fica praticamente no mesmo nível.279*** (59.1 .1 nº3 | p.47) 0.74) 0.125*** (224.75) 0. Rodgers e Spriggs (1996) e Gottschalk (1997) para os EUA.55) 0.41) 0.Regressão da renda para pessoas de 26 a 70 anos (i) Anos de estudo idade idade2 Sexo Urbano metropolitano Urbano não metropolitano Cor 0.304*** (39.001 (0. esta diferença diminuiu para 16%. Guilkey e Winfrey (1996).0001*** (5.60) 0. Por último.84) 0.69) 0.78) 0.207*** (31.80) 0.05) 0. Quando se introduz a variável sobre qualidade escolar.125*** (17.SEÇÃo 3.149*** (25.15) 0.221*** (29.103*** (180.250*** (34.32) (ii) 0.029*** (17.531*** (113.20) (iii) 0.73) (iV) 0. Já no modelo com as variáveis de posição na ocupação e uma dummy para o Nordeste.072*** (107.161*** (26. idade.125*** (224. sexo e residência em área urbana da pessoa. considerando as mesmas características relativas à escolaridade. esses resultados sugerem a existência de discriminação salarial no mercado de trabalho brasileiro.19) 0. no modelo completo com acréscimo das variáveis sobre características da família.

44) 0.50 4.67) 0.582*** (59.54) 0. diferentemente da maioria dos artigos em relação aos EUA2.1 nº3 | p.59) 2.011*** (20.59) 0.273*** (59.44 fonte: pnad 2003.057*** (5.268*** (43.268*** (39.000*** (123. 122-155 .416*** (96. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.28) 0.001*** (9.200*** (91.662*** (70.280*** (46.405*** (49. Valor absoluto da estatística t em parênteses * significante a 10%.65) 0. ** significante a 5%.010*** (18.99) 0.Saeb Nordeste Funcionário público Empregado com carteira Empregador Doméstico Uso próprio Conta própria Escolaridade do pai Escolaridade da mãe Renda do pai Renda da mãe Constante observações 3.001*** (7.22) -0.014** (2. por exemplo.453*** (48.037*** (4.50) 0.410*** (25.70) 0.28) -0. 144 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.91) 0.11) 0.99) 0. *** significante a 1% No entanto.378*** (26.016** (2.15) 114606 0.68) -0.000*** (90.90) -0.61 R-quadrado 0.26) 114606 3. verifica-se no Brasil que as diferenças nos retornos salariais 2 Ver. Heckman (1998) e Maxwell (1994).43 0.898*** (82.00) 114606 0.85) -0.22) 114606 0.298*** (57.65) -0.004*** (29.31) 0.27) -0.

79 3. a diferença de retornos escolares foi significativa.100 0.64 5.033 0. Amazonas e Roraima.puc-rio.038 0.42 0.104 0. conforme pode ser visto na Tabela 3.01 4.145 0.047 0.18 0.50 1.140 0.56 4.105 0. Nota-se que metade destes estados fica na Região Norte.041 0.097 0.142 0.096 0.058 0.028 0.149 0.106 0.112 0.141 0.41 7.95 4.096 0.034 0.116 0.135 0. em apenas seis dos 27 estados brasileiros a diferença de retornos escolares não é significativa.97 12. Sergipe.01 1. Santa Catarina.097 0.099 0. De fato.136 0.57 5.09 7.83 3.93 11.052 3.à escolaridade entre negros e brancos são significativas.160 0.90 3.020 0.011 0.114 0.016 0.108 0.2.78 1.100 0.078 0.121 0.br SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.032 0.026 0. onde a base de dados é mais precária e o número de observações é menor3.079 0.140 0.081 0.030 0.124 0.90 4.095 0.012 0.122 0.023 0. Tabela 3.128 0.080 Brancos e amarelos 0.133 0. São eles: Piauí.055 0. Em todos os outros estados.041 0.102 0.159 0.Diferenças de retornos escolares entre brancos e negros Estados Coeficiente de Educação Negros e pardos Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia Minas Gerais Espírito Santo Rio de Janeiro 0.125 0.098 0. Acre.76 Diferença de retornos Estatística t 3 Para ver os resultados das regressões por estados entrar em contato com os autores através do e-mail romero@econ. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 145 .087 0.129 0.1 nº3 | p.2 .

122-155 .092 0.262 quando controlado pela variável de qualidade da educação e continua significativo a 1%. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.68 1.085 0.168 0.03 para 0.131 0.088 0.São Paulo Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Mato Grosso do Sul Mato grosso Goiás Distrito Federal fonte: pnad 2003 0.051 13.038 0.126 0. Este resultado confirma a hipótese do trabalho. por exemplo.3 apresenta os resultados dos modelos (3) e (4).117 0. mesmo quando controlado pela média de qualidade escolar dos negros de cada estado. O coeficiente da variável diferença de retornos escolares entre raças é -5.090 0.024 0.121 0. de que os retornos salariais à escolaridade relativamente menores dos negros são significativos para explicar a menor escolaridade dos negros em relação aos brancos.11 5. que uma mudança na diferença de retornos de 0.97 8.103 0.02 aumentaria em 0.035 0. O coeficiente desta mesma variável é não-significativo para os brancos.121 0.124 0. Podemos ver também que idade é significativa a 1% em todos os modelos.09 A Tabela 3.032 0. ou seja. 146 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. As duas variáveis têm coeficiente positivo para explicar anos de estudo. Além disso. quanto maior a idade e a renda domiciliar per capita maior 4 Foram incluídos somente os estados em que essa diferença é significativa.930 e é significativo a 1%.044 0.096 0.082 0. percebe-se que para os brancos a diferença de retornos escolares entre brancos e negros não é significativa.00 3.87 5. controlando ou não por qualidade.06 a média de anos de estudo dos negros. o coeficiente permanece significativo e negativo.090 0. Isto significa. qual seja.127 0.1 nº3 | p.013 0.19 6. O coeficiente muda para -6. O mesmo acontece para renda domiciliar per capita. como também era esperado. Verifica-se que a diferença de retornos escolares tem coeficiente negativo e significativo para explicar número de anos de estudo. em que a diferença de retornos salariais à escolaridade é uma variável explicativa na regressão de determinação do nível de escolaridade das pessoas de 11 a 25 anos4.44 7.038 0. Nota-se também que.

122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 147 .153*** (21.128*** (23.18) 0. significativamente.96) 1. ser beneficiário de programas sociais para educação e morar em centros urbanos influenciam de forma positiva para a escolaridade.77) 0.000*** (16.250*** (29.00) -4.54) 0. Pode-se notar também que as variáveis número de crianças na família e sexo têm coeficiente negativo e são ambas significativas a 1%. as mulheres estudam mais que os homens e que o número de crianças na família influencia de forma negativa na escolaridade das crianças.720*** (27.39) 1.000*** (11.262*** (3.906*** (23.432*** 0.73) -4.000*** (11.41) 0.1 nº3 | p.75) -0. em famílias maiores.229*** (23.68) 0.000*** (15. em média.088*** (17.158*** (27. Por último. Note que a escolaridade da mãe tem o coeficiente maior que escolaridade do pai para explicar anos de estudo das crianças e jovens.80) 0.21) 0.42) -0.127*** (24.847*** (25.159*** (25.902*** (22.249*** (26.42) -1.79) -4. Tabela 3.449*** Brancos e amarelos -0.05) 1. as crianças são colocadas para trabalhar mais cedo.721*** (26. para ajudar no sustento da casa.00) 1.83) 0.3 .850*** (22.155*** (26.59) 1.49) -4.086*** (18.25) 1.02) -1.Regressão de anos de estudo para as pessoas de 11 a 25 anos Negros e pardos Diferença de retornos escolares idade (idade/10)2 Renda domiciliar per capita X 100 Escolaridade do pai Escolaridade da mãe Sexo Urbano não-metropolitano -5.930*** (3.131*** (25.423*** -6. Isto significa que.63) 0.69) 0.03) 1.tende a ser a escolaridade.17) 0.10) 1.245*** (20.064 (0.582 (0.132*** (24.94) 0. Uma possível explicação é que. Percebe-se também que a qualidade escolar é significativa a 1% e positiva para explicar anos de estudo.470*** SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. As variáveis escolaridade do pai e escolaridade da mãe também têm o mesmo comportamento.

221*** (9.00) -0. se o indivíduo é branco em Pernambuco é colocado para ele o coeficiente de anos de estudo da regressão de salários dos brancos do estado de Pernambuco. Tabela 3.49) Urbano metropolitano Nº de crianças na família Beneficiário de programa educacional Saeb 3º Constante -11. *** significante a 1% A Tabela 3.818*** (28.122*** Brancos e amarelos 2.(20. Este modelo é rodado com todas as pessoas brasileiras da amostra de 11 a 25 anos de idade.33) (16.496*** (2.749*** (37.91) -12.4 apresenta os resultados do modelo (5) da seção anterior.92) 1.1 nº3 | p.82) 1.643*** (19.18) 0.566*** (4.085*** (4.Regressão de anos de estudo para pessoas de 11 a 25 anos Negros e pardos Retorno idade (idade/10)2 12.35) (24.098*** 148 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.76) -4.498*** (3.35) 1.013*** (9.4 .59) 0.59) 15637 17335 17335 15637 observações estatística z entre parênteses (erro padrão calculado com bootstrap) * significante a 10%.69) -0.54) (17.85) -0.22) 1.87) 0.21) 0.16) 0.082*** (4.92) -16. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.83) 1. ** significante a 5%.742*** (19.632*** (18.754*** (37.464*** (19.231*** (8.89) -0.669*** (17. 122-155 .35) -14.446*** (5.011*** (8.45) 0.593*** (14.480*** (5. onde se considera como variável explicativa para o nível de escolaridade os retornos escolares absolutos de cada estado e cada raça. Por exemplo.174*** (15.862*** (25.57) -4.08) 1.

15) Renda domiciliar per capita X 100 Escolaridade do pai Escolaridade da mãe Sexo Urbano não-metropolitano Urbano metropolitano Nº de crianças na família Beneficiário de programa educacional Saeb 3º ano Constante -13.883*** (42.51) -0.49.(35. mas sua importância é bem menor. passando agora a ser 2.063*** (32.166*** (9. Quando controlado por qualidade da educação este coeficiente continua significativo a 1%.89) 0.000*** (15.42) -0.57) 0.415*** (5.609*** (36.79) 1.55) 1.19) 0.05) 0. maior tende a ser o nível de escolaridade da pessoa. o que significa que um aumento de 0. Ou seja.113*** (29. ** significante a 5%.1 nº3 | p.152*** (9.00) 0.167*** (41.19) 0. Isto significa que um SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.166*** (40.351*** (28.517*** (7.121 os anos de estudos das pessoas.49) -16.43) -1. *** significante a 1% Percebe-se que o coeficiente de retornos escolares é positivo e significativo a 1%.174.80) 0.30) 1.27) -1.110*** (29.01 no coeficiente de anos de estudo da regressão de salários aumenta 0. O coeficiente é de 12. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 149 .23) 0. quanto maior o retorno salarial à escolaridade (quanto mais se paga por um ano a mais de estudo).071*** (35.842*** (32.93) 0.63) 1.32) 36340 36340 observações estatística z entre parênteses (erro padrão calculado por bootstrap) * significante a 10%.985*** (31.000*** (14.63) (35.016*** (21.615*** (30.

sem falar das formas de preconceito direto. que eram significativas na regressão anterior. A diferença da qualidade de educação é uma amostra nítida disto. e sim. A questão está longe de ser resolvida e merece nossa atenção. em média. que os negros com 26 a 70 anos residentes em áreas urbanas ganham. por exemplo. É importante frisar. CoNCLUSÃo A diferença de renda média entre brancos e negros no Brasil é uma verdade histórica que deve preocupar os pesquisadores das áreas de ciências humanas como um dos vários graves problemas relativos à distribuição de renda e justiça social. A situação no mercado profissional é explorada neste trabalho e mostra. como gritos de torcida.016 o número de anos de estudo. social. Assim.1 nº3 | p. O fato é agravado por uma racionalidade existente em atitudes discriminatórias (en- 150 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. A diminuição da importância dos retornos escolares quando incluído o controle de qualidade também está de acordo com a nossa hipótese de que parte da diferença de retornos salariais à escolaridade se deve a diferenças na qualidade escolar.aumento de 0. A questão é que esses problemas não são facilmente separáveis. por fim. Muito se ouve a respeito que o problema no Brasil não é racial. continuam significativas neste modelo. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Todas as demais variáveis. já que a influência dos retornos salariais à escolaridade na decisão de estudar das pessoas é bastante diminuída quando incluímos o controle de qualidade da educação. Existem várias formas de preconceito racial veladas no Brasil.01 nos retornos escolares aumenta em 0. políticas de melhoria na qualidade da educação que diminuam as desigualdades raciais dos rendimentos escolares podem contribuir para reduzir o diferencial de escolaridade entre brancos e negros no Brasil. por exemplo. O resultado capta este efeito. 122-155 . Um ponto a mais no desempenho nas provas aplicadas pelo Saeb para o terceiro ano do ensino médio aumenta em 0. que a variável que representa qualidade escolar tem grande importância para explicar anos de estudo.024 a escolaridade das pessoas. apenas 51% do que ganhavam os brancos com as mesmas características.

A diferença de retornos é não-significativa para os brancos. Este trabalho sugere que essa lógica comportamental pode estar ocorrendo no Brasil. E. a ligação entre a discriminação no mercado de trabalho e os incentivos a investir em características que darão altos retornos em termos de renda. assim. os negros ainda ganham. Em todos os outros 21 estados brasileiros houve a confirmação da hipótese de retornos diferentes. já que a importância do capital humano na renda já está devidamente comprovada. Entretanto. o trabalho aponta para o fato de que o Brasil precisa melhor conectar suas pesquisas de domicílio com pesquisas a respeito de qualidade da educação e outras formas de capital humano. quanto maior a diferença. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 151 . pode ser racional para os empregadores discriminarem grupos que tenham piores médias de características não-observáveis.1 nº3 | p. Como mostra o modelo de discriminação estatística. A hipótese principal era de que os retornos salariais com aumento da escolaridade no Brasil eram menores para os negros que para os brancos e esta diferença geraria menos incentivo para os negros estudarem. em média. Nesse sentido. em apenas seis dos estados brasileiros a diferença de retornos escolares entre brancos e negros não foi significativa. Outro resultado importante é que as médias das características acima mencionadas são bem piores para os negros que para os brancos. Levando este resultado para a segunda parte do trabalho verificamos que a diferença de retornos escolares esperados entre raças é significativamente negativa para a escolaridade dos negros. pior ainda. Mesmo controlando por várias características individuais (como escolaridade. condição na ocupação e qualidade escolar) e por características familiares (como riqueza e escolaridade dos pais). sexo. região. área de moradia. Daí surge a principal questão discutida no trabalho. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Ou seja. De fato. idade.tendendo isto como tratamentos diferentes para pessoas igualmente produtivas). 10% menos que os brancos. perpetuar diferenças salariais. menos incentivos os negros têm para estudar. a discriminação pode diminuir os incentivos nos investimentos em capital humano e. é importante mencionar a dificuldade para encontrar uma proxy para qualidade escolar que realmente fizesse essa característica ser constante na regressão.

como boa parte da discriminação toma forma de segregação. em alguma medida. pelo raciocínio acima. a existência de discriminação. pode ser analisar os efeitos que políticas discriminatórias podem ter nos incenti- 152 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. os empregadores vão passar a perceber que negros e brancos com iguais características observáveis são igualmente produtivos e não terão mais motivos racionais para discriminar. Além disso. Estes resultados abrem margem para sugestões de políticas públicas. alguns argumentam que tal tipo de política pode gerar também incentivos à diminuição do esforço na hora de adquirir a formação. se condicionadas a completar graus de escolaridade. Não obstante. o que leva. Entretanto. Se a razão dada pelos modelos de discriminação estatística realmente explica.1 nº3 | p. Por exemplo. podem também ser importantes. políticas de ação afirmativa. a melhorar as médias dos negros em características não-observáveis e diminui a racionalidade para a discriminação. Além disso. Uma possível extensão deste trabalho. como cotas de emprego. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Para tanto. mesmo controlando para outras características. Assim. o fato de receber benefícios de programas sociais para educação também são significativamente positivos para explicar escolaridade. seriam necessárias políticas que visem à melhoria da qualidade da educação com diminuição das desigualdades raciais. Um sistema de cotas para universidades pode também gerar benefícios antidiscriminatórios. a qualidade escolar. já que isto pode gerar mais facilidade para se construir a posteriori [ver Arrow (1998)].Outro resultado importante é que em lugares onde há um retorno escolar maior existem mais incentivos para estudar. a escolaridade dos pais. já que ficaria mais fácil conseguir emprego ou entrar na universidade [ver Ferman e Assunção (2005)]. gerar incentivos a adquirir anos de estudo. uma política apropriada para reduzir atitudes discriminatórias é investir em características não observadas pelo empregador de forma a melhorar as médias dos negros em relação a essas características – qualidade escolar. em lugares onde as universidades públicas têm maior qualidade do ensino. por exemplo. garantir que uma parcela importante das vagas seja ocupada por negros significa estar investindo na qualidade escolar destes. essas políticas podem. portanto. por exemplo. 122-155 .

seguindo a linha de Arrow (1998) e também de Cornell e Welch (1996). tentar verificar se sociedades que diminuíram a segregação conseguiram por esta razão diminuir a discriminação.1 nº3 | p. já que isso pode gerar uma melhor inferência a posteriori dos empregadores a respeito dos trabalhadores de grupos diferentes. ••• SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Outra questão interessante é. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 153 .vos para adquirir capital humano (no sentido de mais anos de estudo).

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TRAGÉDiA DA CULTURA E MoDELAGEM DA iDENTiDADE UMA LEiTURA DE WEBER E SiMMEL Valéria Paiva 156 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 .1 nº3 | p.

A sociologia clássica pode ainda hoje contribuir para a compreensão do problema da modelagem da identidade na sociedade contemporânea. Max Weber and Georg Simmel are references to the study of this question. Diante desse mesmo diagnóstico. The comparison between authors is still worthwhile if we consider the persistence of their diagnosis. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. os autores ofereceram respostas distintas. encontra na sociabilidade um caminho para que a subjetividade não seja representada como o são os demais papeis sociais. Max Weber e Georg Simmel são referências para o estudo desta questão. The classic sociology even today can contribute to understand the selffashioning process in contemporary society. a perda de liberdade e de sentido da vida. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 157 . The individuals have become a mean to wider and impersonal social process. Simmel. Both authors have observed how modernity implied in loss of freedom and meaning to individuals’lives. They also became unable to make use of world objects in an active way to the development of their personality. Weber and Simmel proposed different responses. Weber provides us with a heroic model of self shaped by vocation. Weber nos apresenta um tipo heróico de sujeito modelado pela vocação como uma espécie de relação de fé secularizada com os valores últimos. Simmel’analysis of sociability show the way to subjectivity not to be represented as the rest of social roles are. Tanto Weber quanto Simmel observaram como a modernidade implicou. por sua vez. O indivíduo teria se tornado um meio para processos sociais mais amplos e impessoais. no que se refere ao indivíduo.1 nº3 | p. A comparação entre os dois autores é nesse sentido frutífera se considerarmos a persistência de seu diagnóstico. In face of this same diagnosis of time. perdendo a capacidade de utilizar de maneira ativa os objetos do mundo para o desenvolvimento de sua personalidade. By his turn.

da arte. da ciência. 2 Como afirma Weber. O nódulo central das questões que serão expostas aqui está relacionado à percepção de que. em alemão Entzauberung. em todas as épocas. mas a partir de nós próprios que temos que ser capazes de criar este sentido. que “desencantamento em sentido estrito se refere ao mundo da magia” e que o termo desencantamento. por outro. Temos de admitir que ‘cosmovisões’ nunca podem ser o resultado do avanço do conhecimento empírico. e que. 1999:113). Pierucci. por um lado. cf. tanto Simmel quanto Weber perceberam que o resultado dos processos de racionalização – nas esferas da economia. portanto. – foi uma perda de sentido para o indivíduo. Pela expressão desencantamento do mundo se entende o longo processo de desmagificação promovido pelo monoteísmo cristão e levado a cabo pela ciência. pouco usual e desencantamento do mundo ter se tornado. da religião. podemos identificar na obra dos dois autores um padrão de modelagem da identidade caracterizada pela renúncia. Por outro lado. como afirma Antônio Flávio Pierucci. “o destino de uma época cultural que ‘provou da árvore do conhecimento’ é ter de saber que podemos falar a respeito do sentido do devir do mundo. Os indivíduos seriam forçados a renunciar a possibilidades alimentadas em relação a um si mesmo ainda sentido como totalidade diante da emergência da subjetividade como uma esfera social específica. 2000. cuja conseqüência foi regular de maneira duradoura – e não pontual. como no caso da magia – a conduta individual. Schluchter. Mesmo exercendo um papel significativo nesse processo. 2003:7). 2003). não a partir do resultado de uma investigação. de acordo com um dever ser cotidiano1 (cf.1 nº3 | p. por um lado. por mais perfeita e acabada que seja. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . Na 1 Apesar do termo desmagificação ser. para outras pessoas. existem. os ideais supremos que nos movem com a máxima força possível. como a questão da modelagem da identidade foi posta por Max Weber e Georg Simmel. neste artigo. etc. a partir da noção de tragédia da cultura.Procuramos analisar. uma expressão corrente nas ciências humanas. é necessário não perder de vista. A noção de tragédia é normalmente relacionada à diagnose weberiana da sociedade moderna como desencantada e sujeita a um politeísmo de valores. a esfera científica não se encontraria para Weber em posição de atuar como instância objetiva doadora de sentido para o mundo2. na forma de uma luta com outros ideais que são. significa literalmente desmagificação (Pierucci. 158 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. tão sagrados como o são para nós os nossos” (Weber.

Weber. Como veremos. aqui. Na sociabilidade não imperaria a atitude intelectual típica às interações da vida urbana. Simmel. Weber enxergou na vocação um caminho para o ressurgimento de personalidades fortes. por um lado. a agência individual e. vem da sensação de fragmentação da personalidade. o do reconhecimento. o sujeito weberiano é levado a escolher entre valores últimos e assumi-los como espécies de deuses. à capacidade de os indivíduos renunciarem. por sua vez. e do excesso de estímulos psicológicos que atuariam conjuntamente para a percepção quantitativa do mundo e do outro. as diversas ordens autônomas e impessoais (cf. na medida em que a adesão a uma esfera de valor específica imbui o sujeito de uma nova missão. a subjetividade passaria a ser representada como o são os demais papéis sociais. A condição para a sua existência se vincularia. com conseqüências imprevisíveis. a partir de suas escolhas valorativas (cf. a atribuição de sentido ao mundo deve ser realizada pelo próprio indivíduo. 1999. Albergaria.medida em que o processo da racionalização tornou as outras esferas de valores igualmente legítimas. a análise simmeliana das condições necessárias ao pleno desenvolvimento da personalidade nas sociedades modernas já apontava para um tema cuja importância contemporânea também é inegável.1 nº3 | p. não somente ao que os diferencia em termos quantitativos. por outro. 2002). O caráter trágico. da incerteza e do desconforto causados pelo contato. entre. Consciente da impossibilidade de pensar a vida em termos holísticos. em sua interação com o outro. como o dinheiro. como um modelo renovado de conquista do mundo. como resultado da virada axiológica que pressupõe o comprometimento do indivíduo com seus valores últimos. no entanto. Visto de hoje. A discrepância em relação à história da recepção das obras de Weber e Simmel e à consideração sistemática do ethos individual que cada uma delas disponibiliza torna infrutífera a tarefa de traçar pa- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. mas também àquilo que os diferencia qualitativamente. Do contrário. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 159 . Diante desse horizonte. viu na forma pura de sociabilidade um espaço preservado dos mecanismos impessoais. 2005). o diagnóstico weberiano sobre a necessidade de se escolher entre valores últimos anuncia um desafio: o da dessacralização desses valores como condição para se chegar a acordos intersubjetivos. A renúncia aparece.

no entanto. Essa virada interpretativa permite hoje nuançar a crítica que. os textos metodológicos e. que favorecia a atenção ao processo de racionalização funcional e portanto de burocratização da sociedade moderna. através dos trabalhos de Reinhard Bendix. o que certamente dificultava seu acesso a um público mais amplo. Friedrich Tenbruck e Wolgang Schluchter.ralelos contínuos entre os dois autores. como afirma Tenbruck. Segundo ele. não somente a racionalização técnica representada pela burocratização. como in3 Até então a sociologia da religião não ainda havia sido completamente traduzida para a língua inglesa. que valoriza o observar-se a sociedade ocidental do ponto de vista de um vasto processo de racionalização de longuíssima duração. 2003:21). tendo em vista a construção de seu próprio diagnóstico da modernidade. com seu livro seminal e inexaurível. juntos. O desenvolvimento do racionalismo ocidental (1979)” (Pierucci. elas estabelecem com os temas da identidade e da renúncia. Com a recuperação dos textos que compõem sua sociologia da religião. os trabalhos de Tenbruck e de Schluchter como marcos da inflexão nos estudos sobre Weber. com seu artigo de 1975 sobre ‘a obra de Max Weber’ (1975). É necessário. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . Por isso. mais conhecido pelo título em inglês “O problema da unidade temática nas obras de Max Weber’ (1980). Depois abordaremos esses mesmos temas em Simmel. aponta. 1980). por exemplo.) Dois autores em especial lideraram a grande inflexão nos estudos da obra de Weber que se desenhou na segunda metade dos anos 70. já conhecida do público. e Wolfgang Schluchter. Habermas lança à teoria social weberiana. 160 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. eles personificam o turning point do interesse acadêmico por sua Sociologia da Religião: Friedrich Tenbruck. reconhecendo a importância decisiva do livro de Bendix de 1960 (Max Weber: An Intellectual Portrait). “Em matéria de racionalização. a primeira parte do artigo será dedicada ao exame da vocação e da ética da responsabilidade em Weber.1 nº3 | p. levar em consideração que a ética da responsabilidade só veio a receber maior atenção dos intérpretes no final da década de 60 e na década de 70. Economia e sociedade receberam até esse momento a maior parte da atenção dos intérpretes. (. focalizando principalmente sua análise sobre a sociabilidade. neste autor. o que provavelmente contribuiu para que a burocratização tenha se tornado “o grande tema” relacionado a Max Weber (cf. o velho ângulo de observação à la Mannheim (1962). dada a relação que. A ética protestante. principalmente. entretanto.. Flávio Pierucci. foi cedendo espaço a um ponto de vista mais abrangente em termos históricos.. Tenbruck. mas o processo de racionalização ocidental como um todo assumiu uma centralidade até então desconhecida na obra de Weber3.

já que as esferas erótica e estética possuem um valor delas próprias” e “reconhecendo a autonomia do ‘amor pelo amor’ e da ‘arte pela arte’ Weber modificou decisivamente o arcabouço conceitual d’ A ética protestante 4 A teoria da ação comunicativa (1987) pode ser vista. de dependência em relação a estruturas supraindividuais. o processo de alienação dos indivíduos dos meios necessários para a consecução de seus fins e. de fato. e a perda de sentido. Goldman. já apresentado como um programa de pesquisa em Para a reconstrução do materialismo histórico. Weber. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Recentemente. “Weber estava provocado e fascinado pela noção dos valores éticos não serem somente os normativos. 1987). produzida pela submissão dos indivíduos à racionalização técnica do mercado e do Estado. 5 A tese da perda da liberdade corre o risco de se tornar vaga se não é enfatizado que Weber percebeu. no movimento feminista alemão no início do século. Vale lembrar que foi Karl Löewith (1993) quem primeiro procurou relacionar racionalização em Weber com alienação em Marx. Weber teria percebido a possibilidade de uma justificação ética dos valores próprios a cada esfera particular (e da racionalização moral implicada por isso) somente a partir de seu envolvimento. 1997). Segundo ele. não parece questionar a tese central da possível aproximação dos dois autores nesse sentido (cf. Souza. Harvey Goldman faz uma crítica ao sentido específico que Löwith justapôs os conceitos de racionalização e alienação que. no entanto. Para Habermas. de 1968.capaz de perceber o potencial de racionalização valorativa que teria ocorrido de forma paralela à racionalização técnica no desenvolvimento da sociedade ocidental4 (cf. provocada pela fragmentação da vida social em esferas de valores autônomas5 (cf. nesse sentido. nesse sentido. com isso. Habermas. 1995). Klaus LichtBlau afirma que. também Catherine Colliot-Thélène (1995) retomou essa relação em seu Max Weber e a história. como a obra central onde Habermas desenvolve sua preocupação com um novo tipo de solidariedade social.1 nº3 | p. buscando compreender a racionalização a partir de um esquema dualista (racionalização técnica e racionalização moral). teria generalizado o diagnóstico marxiano da alienação dos indivíduos dos meios de produção. junto com o de Marianne Weber. paralelamente ao surgimento das esferas de valores. em seu livro clássico de 1932. a ênfase posta por Weber na relação entre conduta eticamente orientada e religião o levou a observar uma correspondência entre a perda da liberdade. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 161 .

então o sujeito se apresenta como a tradução para o plano analítico da idéia de caráter. Isso para ele também explicaria o fato de. Cohn. 1979. a questão dos paradoxos inevitáveis a que essas ações estão expostas e o tipo de personalidade que surge a partir de seu enfrentamento. ainda. Como afirmou 6 Sobre a relação crítica que Weber estabeleceu com o desenvolvimento do movimento feminista em direção a uma síntese ética supostamente possibilitada pela esfera erótica ver também Schwentker. mas realista quanto à necessidade de escolher entre eles7 (cf. Em outras palavras: se uma exprime a visão ‘realista’ e ‘desencantada’ de Weber. 1979). os últimos textos weberianos receberem maior consideração de seus comentadores e. a outra incorpora os valores básicos aos quais ele adere. uma grande atenção ser dada aos textos A Política como Vocação e A ciência como vocação. a juventude alemã organizada no movimento estudantil (cf.em relação a sua teoria da modernidade”6 (Lichtblau. pois. no que diz respeito à possibilidade de uma justificação ética das ações. a dominação como destino e a noção de sujeito como caráter. 1996. 190. tradução do autor). 1996). Os paradoxos inevitáveis relacionados à tentativa de agir no mundo de maneira ética surgem. escritos em torno de 1918. Nesses textos. Os textos A ciência como vocação e A Política como Vocação adquiriram. especialmente pp. podemos encontrar explicitamente formulada para Weber a questão da possibilidade de ações eticamente orientadas no interior das esferas de valores. Mas eles têm. Schluchter. e Schluchter. 7 Segundo Gabriel Cohn. uma outra particularidade: a de terem sido escritos em meio à Primeira Guerra Mundial e para um público especial. Esses dois fatores deram aos textos um tom profético que os distingue dos outros textos weberianos: neles. maior importância com a recuperação da sociologia da religião e com a volta dos debates sobre os problemas éticos no mundo contemporâneo. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 .53-59. 1979:138). são explicitamente postos em tensão em relação ao significado da vida para o indivíduo portador de valores. recentemente. 1995: 187. para aproveitar um insight de Gabriel Cohn.1 nº3 | p. como veremos. 162 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. sobretudo os de autonomia e liberdade” (Cohn. “Se a dominação pode ser identificada antes com a figura do destino. porque Weber procurou evitar uma suposta correspondência entre a perda de sentido e a perda da liberdade na vida moderna.

2002:96). em contrapartida. seguindo Leon Tolstoi. coloca a questão de se a ciência seria capaz de fornecer uma resposta para as questões sobre o que devemos fazer e como devemos viver. e se ela ainda poderá ou não ter alguma utilidade para quem formule corretamente a indagação” (Weber. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 163 . nesse contexto. Em A ciência como vocação.1 nº3 | p. texto que servirá de base à primeira parte deste artigo. se formulamos a questão de uma maneira diferente (“corretamente”): “Nós o fazemos (ciência). no entanto. pois podemos considerar o empreendimento científico tanto sob o ponto de vista prático quanto sob o ponto de vista de seu significado para a vida pessoal. é ser ultrapassado. equipamentos. no entanto. a significação de se dedicar toda uma vida a uma atividade cujo progresso é potencialmente infinito e para a qual. a se referir à lógica do desenvolvimento científico como uma lei (Weber. o caráter trágico da vida moderna é introduzido quando Weber. por finalidades exclusivamente práticas. segundo Schluchter. A ciência como vocação e A política como vocação formam uma unidade independente dos demais textos de Weber: eles são textos filosóficos na medida em que têm a pretensão de encorajar os ouvintes e os leitores tanto à auto-reflexão quanto à reflexão sobre o sentido do momento histórico que estavam vivendo. Em nenhum outro lugar. na acepção mais ampla da palavra. Weber respondeu tão claramente à situação política e intelectual de seu tempo (cf.Wolfgang Schluchter. por finalidades técnicas: para sermos capazes de orientar nossas atividades práticas dentro das expectativas que a experiência científica coloca à nos- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Schluchter. A idéia de utilidade é chave nesse ponto. Uma segunda utilidade para a ciência surge. Do ponto de vista prático. 1996). Não seria evidente para o autor. Devemos considerar. qualquer contribuição individual tende a perder progressivamente o seu valor. nesse sentido. a utilidade da ciência é contribuir para o aperfeiçoamento técnico da vida humana: criando objetos. por maior que seja a sua qualidade. Weber chega. 2002:99). em primeiro lugar. que o destino desse conhecimento e de toda produção científica. A única questão que resta é o sentido no qual a ciência não dá resposta. materiais e principalmente conhecimento (idéias). ou. “É inegável (diz Weber) que a ciência não dá tal resposta.

diz Weber) podemos forçar o indivíduo. 2002:96). aqui. a prestar a si mesmo contas do significado último de sua própria conduta.1 nº3 | p. Qual a atitude do homem de ciência para com a sua vocação – ou seja. 164 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. da esfera artística – é regulada pela idéia de progresso. isso só tem sentido para os homens práticos. 2002). podeis 8 Não é nosso objetivo aqui analisar a concepção de ciência para Weber. Mesmo não podendo responder questões últimas da existência (pelo sagrado). 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . ou pelo menos podemos ajudá-lo. Uma posição que pode ser pensada como estando relacionada a um racionalismo científico “ortodoxo”. 2004:187). de acordo com suas conseqüências previsíveis e os meios disponíveis: “Na prática. Muito bem. 2002:105). “é inegável que a ciência não dá tal resposta”). o de Karl Popper (cf. e tampouco pelo valor do que é bom (pela justiça) e do que é belo (pela arte). se formos competentes em nossa empresa (o que devemos pressupor. o fato de que para o autor a esfera científica – diferente. por dizerem respeito a escolhas individuais relativas a valores.8 “Assim. Isso não me parece pouco. para além do evidente progresso técnico” (Nobre. Paiva. mesmo em relação a nossa vida pessoal” (Weber. como conhecimento reflexivo. não é em relação aos significados últimos da existência (em relação ao que devemos fazer e a como devemos viver) que a ciência pode emprestar seus conhecimentos (como vimos anteriormente. no entanto. pois. À vocação para a ciência estão relacionadas a dedicação do cientista a um trabalho voltado para o aperfeiçoamento dos métodos de pensamento e a busca constante por clareza e esclarecimento que fazem com que possamos ter consciência (e com isso potencialmente responsabilidade) sobre o significado de nossos atos.sa disposição. esclarecer o significado de uma conduta que o indivíduo pode ou não assumir. Deve-se ter em mente. “sustentar melhor a legitimidade da reflexão científica. a ciência. como. Ao separar juízos de fato e juízos de valor Weber conseguiu. se ele estiver em busca dessa atitude pessoal?” (Weber. 1994). Apesar da referência que Weber faz à vida pessoal e a significados últimos. como afirma Renarde Freire Nobre. exerceria assim um função importante: ela forneceria instrumentos para avaliação de decisões que são extracientíficas. com a contínua superação de um conhecimento pelo outro (cf. Weber. por exemplo. por exemplo. O que a ciência pode fazer é. Não obstante.

É isso que permite ao indivíduo acrescentar. Adquirir consciência sobre a necessidade da escolha leva o sujeito a agir com responsabilidade. ou seja. tereis de usar tais e tais meios para colocar em prática vossa convicção. segundo a experiência científica. 2002). Justificará o ‘fim’ os meios? Ou não? O professor pode apresentar-vos a necessidade de tal escolha. pensai. considerando racionalmente os meios alternativos que podem ser utilizados tendo em vista um fim. A consciência dos paradoxos entre meios e fins a que estão sujeitas as condutas não anula o fato de estarmos atrelados a uma esfera específica de valor. dominado por uma postura intelectualista. então. Entretanto estamos diante do mesmo paradoxo fundamental: os meios têm conseqüências que. a relação entre os meios e os fins e os problemas que advêm dessa relação são ainda mais explícitos por ser a violência o meio típico da política. 1979). então. a relação entre o fim perseguido e suas conseqüências e a importância relativa desse fim em relação a outros possíveis. nem o peso de destino que Weber atribuiu a essa condição da vida moderna. diz respeito à responsabilidade ética decorrente da escolha entre diferen9 No ensaio A política como vocação.1 nº3 | p. a esfera de valor específica em que está inserido. mas está também de acordo com uma ética da responsabilidade (cf. como Weber o afirma. e fragmentado em múltiplas esferas sociais. tais meios talvez sejam de tal ordem que sua rejeição talvez vos pareça imperiosa. Schluchter. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. podem não ser desejáveis por entrarem em contradição com os fins perseguidos (cf. agora pessoal. e não mais mágica. mas é uma possibilidade de o indivíduo intervir no fluxo do seu destino como agente. Uma conduta orientada por essa análise de valores é não somente racional. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 165 . Ora. Se tomardes esta ou aquela posição.”9 Escolher conscientemente entre meios e fins e prestar contas sobre a conduta implicada por essa escolha certamente não é pouco.tomar esta ou aquela posição em relação a um problema de valor – simplificando. ao sentido próprio. Weber. simplesmente que escolher entre o fim e os meios inevitáveis. uma segunda camada de sentido. que diz respeito à relação entre um princípio regulador abstrato e uma conduta particular. O sentido de falarmos em vocação em um mundo social desencantado. nos fenômenos sociais como exemplos. por favor. mesmo quando podem ser antecipadas. Tendes.

Essa escolha pressupõe uma dedicação coerente que implica. não conhecemos nenhum grande artista que tenha feito qualquer outra coisa que não fosse servir à sua obra. Percorrer o caminho da vocação científica significa. e apenas a ela” (Weber. por sua vez. um ato radical de renúncia (Nobre. mas. mas esse paradoxo é. é que esse sentido está relacionado também a uma responsabilidade existencial. Weber. que a noção de vocação traz à tona. servir nos termos weberianos a um só Deus ou a um só demônio e aceitar as conseqüências: “No campo da ciência. comumente pensada como uma totalidade. o conceito ‘valor’ não encontra uma definição unívoca na obra weberiana. 2002). Em A ciência como vocação. deve expressá-los claramente e não se abster a tomar uma posição. como contrapartida. agora sim em relação à existência. 2004:184). no entanto. O cientista deve renunciar a seus juízos valorativos e dessa atitude depende sua integridade intelectual. Podemos. apresentado em termos existenciais: a possibilidade de sermos uma personalidade. a uma esfera de valor específica10. somente quem se dedica exclusivamente ao trabalho ao seu alcance tem ‘personalidade’. isto é. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . sob as condições modernas. Definido assim. a experiência pessoal não deve ser pensada em termos holísticos. Weber relaciona o significado para a vida de se aderir aos valores científicos com o fato de que. Também nesse trecho podemos observar o paradoxo entre os meios e os fins. no entanto.1 nº3 | p.tes valores últimos. escolher não percorrer diversos outros caminhos possíveis. A constituição da personalidade implicaria. o político. apesar de ser usado com freqüência. aqui. 2000:23). Valores têm a ver com reivindicações valorativas que apontam para normas de validade e para pretensões de validade. em analogia ao conceito de finalidade (zweck) “definir ‘valor’ como imaginação de uma validade que se torna motivo de uma ação. depende de aderirmos livremente – pois se trata de uma escolha – a um meio entre outros possíveis. 166 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. E com isso chegamos ao ápice dramático do texto weberiano no que toca à noção de identidade. ao contrário. o homem religioso realiza um sacrifício intelectual em função de sua fé (cf. Essa adesão pressupõe 10 Segundo Wolfgang Schluchter. E isso é válido não só para o campo da ciência. o conceito ‘valor’ mostra ao mesmo tempo seu fundamento numa teoria de ação e também numa teoria mentalista da consciência” (Schluchter. renuncia à ética da fraternidade. 2002:95). antes de tudo. O que gostaríamos de ressaltar.

156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 167 . a adesão quase religiosa a uma esfera de valor. A solução weberiana pressupõe a tomada de consciência desse processo e. Mesmo que o indivíduo possa justificar suas escolhas e sua conduta com relação a uma esfera de valor específica. mas à inconsistência entre fins últimos. a arte e a religião. pré-assumida pelo indivíduo como sua vocação. Em que vão se basear-se-ão essas escolhas. O que estamos sugerindo aqui é relativamente simples. Mas a vocação também se apresenta no mundo moderno como uma escolha. de acordo com os princípios que orientam a ação no interior da esfera científica. a ciência e a religião. que um indivíduo pode ou não assumir como seu. A conseqüência dessa condição da vida moderna – a que comumente chamamos de politeísmo de valores – é a perda de sentido. Se pensarmos na generalização desse comportamento do ponto de vista agregado. esse indivíduo vai ter que realizar. A modernização levou a uma organização diferenciada da vida social. um valor último. e poderão ser justificadas. por exemplo. com isso. primeira e essencial. do ponto de vista individual. expressa. se elas forem realizadas com responsabilidade? Elas serão baseadas. o politeísmo não nos leva a um pluralismo no que diz respeito aos valores. no entanto. Com isso. Pensemos agora em condutas possíveis. diz Weber. a ciência é um meio possível. onde nenhuma esfera de valor pode se impor de maneira legítima sobre as outras. vai estar fundada? Como seria possível. caso quiséssemos ser compreendidos pelos outros. não somente ao SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.ao mesmo tempo uma atitude de renúncia e uma ação dirigida para um fim livremente escolhido. a possibilidade de uma esfera superior arbitrar conflitos valorativos entre. ao longo de toda a sua vida. Assim como a política. sua adesão aos valores dessa esfera e a fidelidade incondicional que Weber acredita que a adesão a esses valores deve implicar não pode ser justificada. em escolhas às vezes trágicas entre meios e fins que. ou a ciência e a arte. Pensemos por exemplo em um indivíduo que tenha assumido a ciência como sua vocação. resultando. em termos de conflitos. por fim. em uma conduta dotada de sentido e força moral. justificá-la? Somente nesse contexto a idéia de servir a um só Deus adquire toda a sua tonalidade trágica. Não se põe mais. digamos. E em que essa escolha. o indivíduo poderá prestar a si mesmo contas do significado último de sua conduta.1 nº3 | p.

Albergaria. tradução do autor). A vocação é uma saída necessariamente solitária cujo sentido não pode ser intersubjetivamente compartilhado por se tratar de uma entrega radical. requer a aceitação do politeísmo do mundo moderno. 12 Harvey Goldman defendeu. requer uma metafísica individualista. Mesmo sendo idealmente funcionais umas às outras. Essas condições estão relacionadas a um tipo particular. de organização social na qual as múltiplas esferas sociais se tornaram autônomas. a mera possibilidade de múltiplos deuses é logicamente absurda (cf. principalmente no que diz respeito à metáfora “politeísmo de valores” (cf. 2005). um desdobramento das múltiplas potencialidades ou inclinações do sujeito. Mas é essa entrega que. Para Weber. Wilson. novos meios de autodomínio e formas de empoderamento para permiti-lo dominar novamente as instituições que criou. que “Para readquirir a vitalidade que já possuiu antes. Esses deuses dão aos indivíduos uma ‘missão’. 2000). nesse mesmo sentido.1 nº3 | p. a vida como um todo não poderia ser ela mesma uma realização. como os meios dados para (se atingir) um propósito escolhido livremente” (Löewith. isto é. permitiria ao indivíduo enfrentar a perda de sentido do mundo preservando a sua autonomia13 (cf. na visão de Weber.nível institucional. uma espécie de relação de fé secularizada estabelecida exclusivamente entre o indivíduo e seus valores últimos12. como homem e como político. Schluchter. nova. em primeiro lugar. tradução do autor). impõem demandas que os põem em tensão com a ordem existente e fornecem a base de uma forma de conduta que fortalece para permitir o indivíduo dominar o mundo” (Goldman. como no plano da intersubjetividade11. 168 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. fundando as opções valorativas na subjetividade. relativo às múltiplas esferas de valores. Em segundo lugar. 1993:6970. porque histórico. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . Ele negou o valor intrínseco de todas as instituições modernas. Weber nos apresenta um tipo heróico de sujeito. que se agarra à única possibilidade dada pelo destino de ter algum domínio sobre o processo de modelagem de sua identidade. mas as afirmou. No interior de uma tradição cultural modelada pelo monoteísmo cristão. agora requer. as es11 Deve-se estar atento para “os limites e a sugestividade” do trágico como figura retórica para a compreensão da sociedade moderna. 1995:165. sob as condições da vida moderna. o Ocidente. 13 Como afirma Karl Löewith: “a jaula de ‘subordinação’ se torna o único espaço disponível para a ‘liberdade de movimento’ que era a principal preocupação de Weber. 1994). aliado ao desejo dos indivíduos de postular ou reconhecer seus valores últimos como ‘deuses’. no entanto.

21).1 nº3 | p. ela o evitaria. 1992). 2000). até. Antes. a especialização não levaria à ausência de personalidade. em todas as esferas da vida14.. Segundo David Frisby. conseqüentemente. Simmel percebeu com a mesma inquietação de Weber a preponderância que os meios na vida moderna passaram a ter sobre os fins. Nesse contexto. é esse o diagnóstico que encontramos: “O desenvolvimento da cultura moderna é caracteri14 Parece ser consensual que o período em que Simmel se ocupa com a sociologia propriamente dita é restrito à década de 1890: durante esse período ele escreve a maior parte de seus textos metodológicos na tentativa de fundar a ‘sua’ sociologia e a maior parte dos textos que vão compor A filosofia do dinheiro (FD) são escritos ou aparecem em uma primeira versão (cf. de saber em relação ao que podemos positivamente chegar a um acordo (cf. no entanto. pelo contrário.feras de valores se organizam a partir de princípios últimos não compatíveis entre si. Waizbort. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 169 . por causa disso é que Friedrich Tenbruck vai afirmar que quando Weber começar a se destacar na sociologia Simmel já terá abandonado suas pretensões sociológicas (ib. Segundo ele. inevitavelmente nos leva a perceber os seus limites. um dos três textos que servirão de base à segunda parte deste artigo. mas a perda de sentido também dessa entrega solitária e radical. Frisby. devido à vinculação dos valores a escolhas existenciais. ser considerados por sua temática como sendo parte do ‘complexo’ da FD. conflitantes. e gostaríamos. 2000. Pensar nessa tentativa em termos contemporâneos. cf. de indivíduo. como Weber havia observado. ao contrário. no entanto. e. 509ss. Quase ao final do famoso texto The Metropolis and the Mental Life (1904). na maior parte das vezes. impedindo que a fragmentação da vida social atingisse o núcleo do sujeito.. pois. somente a consciência sobre o caráter subjetivo da escolha entre eles. Schluchter. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.). Simmel na verdade não chega a abandonar nas décadas seguintes suas posições e seus insights sociológicos desse período. já que o empreendimento weberiano nos esclarece sobre o que não podemos chegar a um acordo. A ética da responsabilidade e o modelo de identidade por ela implicado representam uma tentativa de evitar a correspondência entre a perda da liberdade e a perda de sentido no mundo moderno através de um modelo específico de relação entre o indivíduo e o mundo. Para Leopoldo Waizbort há uma série de textos anteriores e posteriores que podem. O que nos permite atualmente visualizar um diálogo entre valores não é. mas os incorpora ao projeto de constituir uma ‘Cultura Filosófica’ (ib.

a. de 1908. Se o homem é um ser de cultura é porque 15 “O desenvolvimento histórico moveu-se em direção a um firme aumento do hiato entre a produção cultural objetiva e o nível cultural individual. ele já é: um ser de cultura. na ciência assim como nos objetos do ambiente doméstico. e durante toda a sua vida. 1971c: 234. o refinamento do gosto expresso nos juízos valorativos. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . originalmente. com isso. tradução do autor). A dissonância da vida moderna – em particular aquela manifesta no aperfeiçoamento técnico em todas as áreas e na profunda insatisfação com o progresso técnico – é causada em grande medida pelo fato de as coisas estarem se tornando mais e mais cultivadas. As formas de comportamento.1 nº3 | p. O fato de os indivíduos servirem à produção de objetos da cultura objetiva e ao mesmo tempo não se apropriarem deles para seu desenvolvimento é uma inversão do sentido original da relação entre os homens e o mundo dos objetos porque. o indivíduo superaria o seu estado natural e se tornaria o que. Incorporando esses objetos na medida em que eles são e porque eles são significativos para a sua essência individual.). 16 Os objetos do mundo exterior devem ser entendidos como sendo todo tipo de produção (material e simbólica) historicamente acumulada: “Porque a cultura existe somente se o homem traz para o seu desenvolvimento algo que é externo a ele. tradução do autor). 1971c:230. na linguagem assim como no direito. A cultura é uma relação orientada para o desenvolvimento do indivíduo que continuamente. enquanto os homens são menos capazes de retirar da perfeição dos objetos uma perfeição de sua vida subjetiva” (Simmel. Este caráter externo e objetivo não é para ser entendido somente em sentido espacial. isto é. 1971a:337. cujo crescimento diário é seguido somente de forma imperfeita e ainda com uma grande distância pelo desenvolvimento intelectual do indivíduo” (Simmel. está incorporado um tipo de espírito. t. onde seu sentido preciso e o caráter trágico que dele resulta se tornam plenamente compreensíveis à luz da definição simmeliana de cultura15. 170 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.zado pela predominância do que se pode chamar de espírito objetivo sobre o espírito subjetivo. na técnica de produção assim como na arte. Esse mesmo diagnóstico recebe uma nova formulação em Subjective Culture. incorpora objetos do mundo exterior16. os meios (os objetos produzidos) passam a ocupar o lugar do fim (o desenvolvimento individual). a educação do tato moral que torna o indivíduo um agradável membro da sociedade – tudo isso são formações culturais nas quais a perfeição do indivíduo se enraíza através das esferas reais e ideais externas ao seu eu” (Simmel.

também está posta em A ciência como vocação. é também o diagnóstico a que Simmel chega em sua análise do papel do dinheiro: o dinheiro. vendem e consomem. conhecimento e problemas. Ainda que a expressão nos termos de um hiperdimensionamento da cultura objetiva (ou “espírito objetivo”) em relação à cultura subjetiva nos remeta a um vocabulário tipicamente simmeliano. Ele faz isso porque tem a capacidade de reduzir as diferenças qualitativas em diferenças quantitativas. 1971:230-1. saindo de si. e o que ele aprende é sempre algo provisório e não definitivo. 2002:97). como tal. que “O homem civilizado. e portanto a morte para ele é uma ocorrência sem significado. entre aquilo que é produzido e que faz parte da cultura objetiva do mundo e o sentido que as coisas têm para o indivíduo na proporção em que ele pode experimentá-las. apontada por Simmel. Weber conclui. Ele aprende apenas a minúscula parte do que a vida do espírito tem sempre de novo. como um meio impessoal – “sem caráter” – despersonaliza e tira o caráter de todos os objetos que os indivíduos produzem. em relação ao homem. no mesmo sentido e com o mesmo pessimismo de Simmel. pode ‘cansar-se da vida’.somente ele – em seu estado natural – tem um centro interior que se cultivado pode levá-lo à sua perfeição específica. a cultura objetiva deveria ser um meio através de que. mas não ‘saciar-se’ dela. pelo seu progresso ela imprime à morte a marca da falta de sentido”17 (Weber. vender e consumir. mas não mais adere cultura em seu sentido específico” (Simmel. colocado no meio do enriquecimento continuado da cultura pelas idéias. e assim fazendo retira qualquer sentido profundo (enraizado na personalidade) que poderíamos encontrar em produzir. ao 17 A carência de sentido para a vida. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. tradução do autor).1 nº3 | p. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 171 . a vida civilizada. As conclusões de Simmel sobre as conseqüências da vida urbana para a subjetividade são. A dissonância. é sem sentido. E porque a morte não tem significado. Por isso. o indivíduo pudesse retornar a si mesmo: “Onde não há inclusão de um produto objetivo (da cultura) no processo de desenvolvimento do espírito subjetivo. em relação ao diagnóstico weberiano. onde esse espírito não retorna a si mesmo com a inclusão de um objeto (cultural) como meio e degrau de seu caminho para perfeição – pode-se realizar valores da ordem mais alta em si mesmo ou fora de si mesmo. na modernidade.

potencialmente. As mesmas condições que possibilitaram o surgimento de uma esfera de/para a liberdade individual se refletiram. mas cuja condição para se realizar depende da singularidade inerente a cada personalidade ser reconhecida pelo outro social. que as grandes metrópoles capitalistas oferecem e exigem. Elas são menos trágicas no sentido de que Simmel não lamenta a falta de certezas que. a possibilidade de uma contínua mudança em direção à realização daquilo que se quer ser e que em seu estado natural todo indivíduo já é: um conjunto possível de múltiplas disposições e inclinações que. impedindo seu pleno desenvolvimento ou impelindo a um desenvolvimento desequilibrado e parcial que seria bem ilustrado por algum quadro modernista como metáfora de um subjetivismo caótico. que a análise simmeliana das conseqüências para a subjetividade da vida nas modernas cidades capitalistas revela as contradições inevitáveis a que estão expostos os indivíduos nascidos sob essa configuração histórica. As instituições modernas. que nos remete a um tema tão contemporâneo como o do reconhecimento.mesmo tempo mais e menos trágicas. Significam a um só tempo liberdade dos laços tradicionais – familiares. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . e dentre elas principalmente o mercado capitalista. É nesse ponto. tanto subjetivos. A falta de certezas oferece. Somente quando a diferença está ligada ao reconhecimento e como distintos um do outro os indivíduos se tornam insubstituíveis é que podemos afirmar que usufruímos da liberdade adquirida no processo de desenvolvimento histórico que culminou na modernidade. do ponto de vista subjetivo.1 nº3 | p. tanto negativa quanto positiva. a transitoriedade e os deslocamentos possíveis. estruturam-se a partir dos princípios de calculabilidade e 172 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. levarão à constituição de um estilo de vida absolutamente único e singular. quanto objetivos. políticos e religiosos – que limitavam o espaço de desenvolvimento individual e liberdade para o cultivo das peculiaridades e individualidades que fazem de cada um. na vida subjetiva. Uma pequena utopia nascida com o individualismo moral e adicionada de matizes estéticos que é atraente ainda nos dias de hoje. alguém incomparável diante de todos os seus semelhantes. O caráter provisório. se desenvolvidas. com efeito. como o outro lado da moeda. marca as escolhas que os indivíduos realizam cotidianamente ao longo da vida. representam para Simmel uma fonte de liberdade para o indivíduo.

Agindo intelectualmente os indivíduos mobilizariam prioritariamente a parte racional de suas mentes. As estruturas supra-individuais (como o Estado) aliadas à divisão social do trabalho e à generalização de uma economia monetária. sons e interações fugidias de todos os tipos que estamos continuamente estabelecendo com desconhecidos ou semidesconhecidos. de um ambiente cujo contínuo SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Os conteúdos e as formas sociais de vida mais amplas e gerais estão relacionados aos conteúdos e às formas que a subjetividade adquire. porque o aumento tanto quantitativo quanto qualitativo de contatos sociais leva o indivíduo a se retrair e reagir intelectualmente. típicos de uma sociedade costurada por uma organização racional da economia. subjetivamente. Nas relações afetivas. no sentido de autopreservação: porque tem a finalidade de proteger a subjetividade da massa de estímulos internos e externos. Mas para Simmel seria um engano pensarmos que esses mecanismos que permitem a autonomia da cultura objetiva não interferem diretamente em como os indivíduos constituem sua identidade. por serem mediadas por estruturas supra-individuais. às interações em que está inserido. aqui.previsibilidade. implicou como contrapartida que relações antes pessoais fossem marcadas por uma dupla distância: objetivamente. diz Simmel. conseguimos formar uma imagem mais ou menos clara da personalidade individual do outro.1 nº3 | p. Mas o que significa e quais são as conseqüências trágicas para a vida subjetiva dessa atitude intelectual em relação ao mundo? A economia monetária e a postura intelectual (do ponto de vista psicológico) atuam no mesmo sentido para reduzir as diferenças qualitativas em diferenças quantitativas. mas por outro lado a parte mais adaptativa da vida subjetiva. que em si mesmos são indiferentes uns aos outros (cf. as pessoas ao contrário lidam umas com as outras de maneira puramente objetiva. mediando as relações entre os indivíduos. Nas relações intelectuais. por um lado menos sensível e mais distante do centro interior da personalidade. Essa mediação. Adaptativa. assim como nas monetárias. do tempo e do espaço. justapondo os indivíduos em uma rede quase-infinita de interdependência. e não mais emocionalmente. enfim. 1971a:326). como se fossem números. que se baseiam na individualidade das circunstâncias e dos participantes. da profusão de imagens. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 173 . Simmel. permitiram a autonomia da cultura objetiva.

como desdobramentos da postura intelectual. A autopreservação. Simmel. a vida moderna imporia aos indivíduos uma espécie de fracasso psicológico experimentado cotidianamente. no sentido específico de cultura que vimos acima. porque a incapacidade de perceber as coisas e os outros qualitativamente e de ser percebido qualitativamente constrange o desenvolvimento da cultura individual. O caráter trágico do diagnóstico simmeliano se deve. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . em segundo lugar. um tipo específico de conformação da subjetividade. O que Simmel denominou como o caráter blasé dos habitantes das grandes cidades – que não são mais capazes de operar distinções entre o valor dos objetos – e sua atitude de reserva em relação aos outros definem. porque a intensidade e a quantidade desses estímulos seriam insuportáveis do ponto de vista psicológico e mental. Diante de um desenvolvimento nunca antes visto da cultura objetiva. conseguida a custo da desvalorização do mundo objetivo. assim como era inevitável para Weber que os indivíduos se inserissem em uma ou outra esfera de valor e se submetessem a seus imperativos ético-funcionais. É inevitável assumir uma postura intelectual em relação ao ambiente e aos outros. em primeiro lugar. à inevitabilidade desse modo de agir. as conseqüências desse processo para Simmel independeriam do grau de consciência ou inconsciência com que ele é psicologicamente vivido. 1971a: 330). acaba por arrastar a personalidade em direção a um sentimento de autodesvalorização (cf. E é nesse sentido que seu diagnóstico pode ser ainda mais trágico do que o weberiano: somada à possível falta de liberdade e de sentido. ou seja. Talvez não explicitamente em tom de resposta. Esse tipo de adaptação humana ao ambiente é trágico.1 nº3 | p. que priva o indivíduo do reconhecimento. e certamente não como um modo heróico de enfrentar as condições da vida moder- 174 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Em contraste com Weber. típico aos habitantes das cidades. mas incapaz de absorvê-lo para o cultivo de sua personalidade. encontra-se um indivíduo capaz de perceber esse desenvolvimento. Não existe a possibilidade de escolhermos daqui em diante agir de maneira diferente. reagir emocionalmente aos estímulos do ambiente.movimento e mudança exigiriam uma energia não disponível caso fosse percebido e apreendido emocionalmente.

se se quiser dizer. ninguém pode ter satisfação a custo de experiências contrárias. tradução do autor). mas ele tem em relação aos outros espaços sociais a singularidade de exigir a intervenção efetiva dos indivíduos como agentes que o constituem e garantem a sua permanência e. aqui. 2000. como em Weber. 1971b). assim fazendo. no entanto. Como uma forma estilizada de interação entre os indivíduos. atenuado para que as características individuais de um participante não impeçam que os outros participantes igualmente contribuam para o desenrolar do jogo e o jogo possa assim ser jogado: “a sociabilidade cria. Trata-se de um mundo artificial não por ser falso. Simmel parece ter identificado na atitude de distância da sociabilidade uma saída para essas contradições. Frisby. A sua especificidade é permitir uma interação entre iguais. de insatisfação. Com isso. ou pelo menos um espaço em que elas não imperariam. por definição. mas também permitir uma interação para a qual cada um contribui na sua distinção. a sociabilidade se definiria por seu caráter artificial: ela seria uma espécie de mundo artificial (cf. A idéia de artificialidade é mais importante do que à primeira vista pode parecer por trazer à tona a qualidade de coisa fabricada da sociabilidade. a sociabilidade dos salões pressupõe um individualismo qualitativo. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 175 . cf.na. Em relação ao mundo exterior marcado por um individualismo quantitativo. que também deve ser. por parte dos outros” (Simmel. se constituem como personalidades. Como em Weber. como agente. O espaço da sociabilidade é somente um espaço possível entre outros.1 nº3 | p. porque nela – por princípio – o prazer do indivíduo é sempre contingente ao prazer dos outros. Simmel introduz novamente o indivíduo em cena. As regras do jogo da sociabilidade são o tato e a discrição e o seu espaço típico é o interior e é por isso que os comentadores de Simmel assinalam que a sociabilidade simmeliana é pensada segundo o modelo ideal dos salões burgueses que ele mesmo freqüentava e os salões burgueses pensados como o seu ideal de sociedade (cf. 1981). 1971b:132. sem atritos. Simmel. um mundo sociológico ideal. mas por ser construído. Waizbort. A sociabilidade exige dos participantes da interação que eles re- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Para sua existência a presença mesmo escondida do artífice – e no caso da sociabilidade dos artífices – faz-se imprescindível. a solução simmeliana implica um tipo de renúncia.

Para escapar ao hi18 O mundo da sociabilidade se apresenta como um mundo ideal. como um sujeito cujas múltiplas potencialidades e disposições não se desenvolvem a partir de estímulos externos. também em Simmel. seus sofrimentos – pois alguém já disse que no sofrimento todos são irredutivelmente diferentes”18 (Waizbort. 2000:450-1). O homem distinto é um homem absolutamente pessoal. em que as questões do mundo objetivo e subjetivo só penetram na medida em que e quando servirem ao desenrolar das relações. O caráter coletivo da sociabilidade que evoca. resultando em um estilo de vida único e singular. enfim. trata-se de uma renúncia cuja intenção só é alcançada se for realizada coletivamente. mas através de estímulos externos a partir do próprio centro interior. mesmo que se trate apenas de uma relação de distintos. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . o ambiente dos salões burgueses. como já foi assinalado. é que se torna possível usufruir do bem fundamental proporcionado pela sociabilidade: ser reconhecido como uma personalidade. como afirma Leopoldo Waizbort. imersos em uma atmosfera ainda aristocrática. 2000:428-9). de simetria e equilíbrio. quer dizer. A renúncia não pode ser representada. “também os elementos mais pessoais e individuais dos envolvidos precisam ficar de fora do âmbito da sociabilidade: seus problemas. a ponto de fazer o distinto sair de sua satisfação de si mesmo. que tocam a comparação. e principalmente em relação a esse: “Para não perturbar a forma artística da sociabilidade”. Resultando. seja objetiva seja subjetivamente. suas dificuldades. de uma solução individualista e pessoal no mais alto grau: a de reservar a própria subjetividade. em vidas com sentido. seja em relação ao mundo puramente pessoal. que no entanto reserva inteiramente a sua personalidade. apud Waizbort. com a recusa orgulhosa de qualquer comparação” (Simmel. A distinção representa uma combinação absolutamente única de sentimentos de diferença. e transferir sua essência para uma relação com o outro. 176 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.nunciem àquilo que os diferencia. Quando todos os que estão interagindo socialmente renunciam àquilo que os diferencia. pela imagem weberiana de uma entrega radical e solitária por parte do indivíduo a um único Deus ou demônio. de sua reserva e acabamento interior. Ao contrário. torna às vezes difícil perceber que se trata. seja em relação ao mundo objetivo e exterior. por todos os participantes da interação.1 nº3 | p. aqui. Ideal que vale também para os indivíduos da sociabilidade simmeliana caracterizados pela distinção: “a diferença não pode sobressair demais.

em tensão com o mundo. Essa não é. Diferente de Weber. No conflito entre esses dois caminhos possíveis de definir a relação do indivíduo com a totalidade social Simmel identificava o nó da história de seu tempo (cf. ••• SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Pois foi com a modernidade que o individualismo primeiro quantitativo e depois qualitativo surgiu como tipos distintos – o individualismo liberal do século XVIII e o individualismo romântico do século XIX. ao contrário do que poderíamos imaginar. Simmel. sua solução não ensejava o surgimento de personalidades fortes. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 177 . Mais pessimista que Weber. abdicar de impor às suas relações aquilo que de si mesmo é mais pessoal.1 nº3 | p. como pode parecer. talvez. mais individual. o indivíduo deve. Simmel enxergou que as coisas caminhavam em direção contrária. assim como representam os diversos papéis sociais que lhes são impostos. E se torna ainda menos se consideramos a influência cultural dos estudos sobre a vida psicológica e. principalmente. O modelo de sociabilidade simmeliano está intrinsecamente atrelado às condições históricas que ele vivenciou e sem as quais seu modelo não seria possível. da psicanálise durante todo século XX. os indivíduos para Simmel devem escolher se reservar para precisamente não cair na armadilha de representarem sua personalidade individual.perdimensionamento do individualismo quantitativo. reforçado pela economia monetária. Diante da possibilidade anunciada pelo desenvolvimento histórico de apresentar socialmente sua individualidade. uma exigência fácil de ser cumprida. 1971a:339).

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.Esta revista foi composta nas tipologias optima. na Set Print Gráfica e Editora. em corpo 26/16/9/8 e impresso em papel off-set 90g/m2.5 e iTC officina Sans. em corpo 10/9/8.

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