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3 Ciéncia e conhecimento cientifico 3.1 0 CONHECIMENTO CIENTIFICO E OUTROS TIPOS DE CONHECIMENTO ‘Ao se falar em conhecimento cientifico, o primeiro passo consiste em diferenci-lo de outros tipos de conhecimento existentes. Para tal, analisemos uma situagZo histérica, que pode servir de exemplo. Desde a Antiguidade, até aos nossos dias, um camponés, mesmo iletrado e/ou des- provido de outros conhecimentos, sabe 0 momento certo da semeadura, a época da co- Iheita, a necessidade da utilizagdo de adubos, as providéncias a serem tomadas para a defesa das plantagdes de ervas daninhas e pragas € 0 tipo de solo adequado para as di- ferentes culturas, Tem também conhecimento de que o cultivo do mesmo tipo, todos os anos, no mesmo local, exaure o solo. J4 no perfodo feudal, o sistema de cultivo era em faixas: duas cultivadas e uma terceira “em repouso”’, alternando-as de ano para ano, nunca cultivando a mesma planta, dois anos seguidos, numa unica faixa. O infcio da Revolucéo Agricola nio se prende ao aparecimento, no século XVII, de melhores ara- dos, enxadas ¢ outros tipos de maquinaria, mas 4 introdugao, na segunda metade do sé- culo XVI, da cultura do nabo e do trevo, pois seu plantio evitava 0 desperdicio de dei- xar a terra em pousio: seu cultivo “‘revitalizava’” 0 solo, permitindo o uso constante, Hoje, a agricultura utiliza-se de sementes selecionadas, de adubos quimicos, de defen- sivos contra as pragas ¢ tenta-se, até, o controle biolégico dos insetos daninhos. Mesclam-se, neste exemplo, dois tipos de conhecimento: o primeiro, vulgar ou po- pular, geralmente tipico do camponés, transmitido de geragdo para gerag’o por meio da educacio informal ¢ baseado em imitagio e experiéncia pessoal; portanto, empirico e desprovido de conhecimento sobre.a composigao do solo, das causas do desenvolvimen- to das plantas, da natureza das pragas, do ciclo reprodutivo dos insetos etc.; 0 segundo, cientifico, € transmitido por intermédio de treinamento apropriado, sendo um conheci- mento obtido de modo racional, conduzido por meio de procedimentos cientificos. Visa explicar “‘por que” ¢ “‘como” os fenémenos ocorrem, na tentativa de evidenciar os fatos que esto correlacionados, numa visio mais globalizante do que a relacionada com unt simples fato — uma cultura espectfica, de trigo, por exemplo. 76 3.1.1 Correlagao entre Conhecimento Popular e Conhecimento Cientifico O conhecimento vulgar ou popular, is vezes denominado senso comum, nao se dis- tingue do conhecimento cientffico nem pela veracidade nem pela natureza do objeto co- nhecido: 0 que os diferencia é a forma, 0 modo ou o método ¢ os instrumentos do “co- nhecer”. Saber que determinada planta necesita de uma quantidade “X" de Agua e que, se nfo a receber de forma “natural”, deve ser irrigada pode ser um conhecimento verdadeiro © comprovavel, mas, nem por isso, cientifico. Para que isso ocorra, é ne- cesséirio ir mais além: conhecer a natureza dos vegetais, sua composicio, seu ciclo de desenvolvimento ¢ as particularidades que distinguem uma espécie de outra. Dessa forma, patenteiam-se dois aspectos: a) A ciéncia nao é 0 tinico caminho de acesso ao conhecimento ¢ & verdade. b) Um mesmo objeto ou fenémeno — uma planta, um mineral, uma comunida- de ou as relagées entre chefes e subordinados — pode ser matéria de obser- yagi tanto para o cientista quanto para o homem comum; o que leva um 20 conhecimento cientffico e outro ao vulgar ou popular é a forma de obser- yacio. Para Bunge (1976:20), a descontinuidade radical existente entre a Ciéncia ¢ 0 co- nhecimento popular, em numerosos aspectos (principalmente no que se refere a0 méto- do), nfo nos deve fazer ignorar certa continuidade em outros aspectos, principalmente quando limitamos 0 conceito de conhecimento vulgar ao “bom-senso””. Se excluirmos o conhecimento miftico (raios e tovGes como manifestagdes de desagrado da divindade pelos comportamentos individuais ou sociais), verificamos que tanto 0 “bom-senso” quanto a Ciéncia almejam ser racionais e objetivos: “sao criticos ¢ aspiram & coeréncia (racionalidade) e procuram adaptar-se aos fatos em vez de permitir-se especulacées sem controle (objetividade)”. Entretanto, 0 ideal de racionalidade, compreendido como uma sistematizagdo coerente de enunciados fundamentados e passiveis de verificacao, € ob- tido muito mais por intermédio de teorias, que constituem o nticleo da Ciéncia, do que pelo conhecimento comum, entendido como acumulagao de partes ou “‘pegas” de in- formaco frouxamente vinculadas, Por sua vez, 0 ideal de objetividade, isto é, a cons- truco de imagens da realidade, verdadeiras ¢ impessoais, nfo pode ser alcangado se no ultrapassar os estreitos limites da vida cotidiana, assim como da experiéncia par- ticular; é necessdrio abandonar o ponto de vista antropocéntrico, para formular hipéte- ses sobre a existéncia de objetos ¢ fendmenos além da propria percepcao de nossos sen- tidos, submeté-los & verificagao planejada e interpretada com 0 auxilio das teorias. Por esse motivo é que 0 senso comum, ou 0 “bom-senso”, nfo pode conseguir mais do que uma objetividade limitada, assim como € limitada sua racionalidade, pois esté estreita- mente vinculado & percepco e 3 ago. 76 3.1.2 Caracteristicas do, Conhecimento Popular “Se 0 ‘bom-senso’, apesar de sua aspiragio & racionalidade ¢ objetividade, s6 con- segue atingir essa condigéo de forma muito limitada’”, pode-se dizer que 0 conhecimen- to vulgar ou popular, Jatu sensu, 6 0 modo comum, corrente ¢ espontaneo de conhecer, que se adquire no trato direto com as coisas ¢. 9s seres humanos: “é o saber que preen- jhe nossa vida didria e que se possui sem o haver procurado ou estudado, sem a apli- cago de um método e sem se haver refletido sobre algo” (Babini, 1957:21). Para Ander-Egg (1978:13-4), 0 conhecimento popular caracteriza-se por ser predo- minantemente: © superficial, isto 6 conforma-se com a aparéncia, com aquilo que s¢ pode comprovar simplesmente estando junto das coisas: expressa-se por frases como “porque o vi", “porque o senti”, “porque 0 disseram”’, “porque todo mundo o diz”; © sensitivo, ou seja, referente a vivéncias, estados de Animo ¢ emogées da vi- da didria; © subjetivo, pois é 0 proprio sujeito que organiza suas experiéncias ¢ conhe- cimentos, tanto os que adquire por vivéncia propria quanto os “por ouvi di- zer"; © assistematico, pois esta “organizagio” das experiéncias nao visa a uma sis- tematizagio das idéias, nem na forma de adquiri-las nem na tentativa de va- lidé-las;, © acritico, pois, verdadeiros ou nio, a pretensio de que esses conhecimentos © sejam nao se manifesta sempre de uma forma critica. 3.1.3 Os Quatro Tipos de Conhecimento Verificamos, dessa forma, que 0 conhecimento cientifico diferencia-se do popular muito mais no que sc refere ao seu contexto metodoldgico do que propriamente ao seu conteddo. Essa diferenga ocorre também em relagdo aos conhecimentos filoséfico ¢ re- ligioso (teolégico). ‘Tryjllo (1974-11) sistematiza as caracteristicas dos quatro tipos de conhecimento: Conhecimento Conhecimento Popular Cientffico Valorativo Real (factual) Reflexivo Contingente Assistemético Sistemético Verificdvel Verificdvel Falivel Falfvel Tnexato Aproximadamente exato 7