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24- O Fascínio de Angélica (Anne e Serge Golon)

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Título: O fascínio de Angélica Autor: Anne e Serge Golon Título original: Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1989

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Publicação original: Gênero: Romance Histórico Digitalização e correção: Nina Estado da Obra: Corrigida Todos os anos, no início do verão, o governador da Nova França, Sr. de Frontenac, convocava os maiores representantes das Cinco Nações iroquesas para uma reunião de paz. No lugar chamado Cataracuí (atual Kingston, no iago Ontário), que se atingia subindo o no Saint-Laurent, para além de Montreal, eram discutidos os principais pontos de litígio dessa paz franco-iroquesa, sempre precária. Os iroqueses gostavam de negociar tanto quanto de fazer a guerra. E os representantes da Liga Iroquesa compareciam a essas reuniões de bom grado. Ainda mais que sabiam que, na companhia de Onôncio (a "Alta Montanha", nome dado ao primeiro governador, Montmagny, de estatura imponente), receberiam resentes e realizariam banquetes. Em pé de guerra, no momento em que Angélica pensava nunca mais separar-se do marido, o Conde Joffrey de Peyrac, os iroqueses foram responsáveis por mais uma separação do casal. E outra vez os inimigos se aproveitam disso... "Oh! meu querido tesouro", suspira o Conde de Peyrac. "Você tem o dom da felicidade!" Na proa do navio que descia o rio Saint-Laurent, no Canadá, Angélica perscrutava o horizonte. Dentro em breve, se o vento continuasse favorável, iria encontrar-se novamente com o marido, o Conde Joffrey de Peyrac. Embalada pelas ondas, deixou seu espírito errar. A traumática experiência em Salem, de onde ressuscitara com os dois filhos gémeos, Raimundo Rogério e Gloriandra, parecia já envolta na aura de irrealidade do esquecimento. Tantas coisas tinham-se metamorfoseado desde aquele verão! No entanto, sua viagem a Montreal deixara-lhe um pressentimento funesto. Se a Duquesa de Maudribourg não morrera — e disso já não tinha evidências — poderia ainda prejudicá-los? Sua missão não se encerrara com o fim do jesuíta, o Padre d'Orgeval? Uma pancada surda tirou-a do devaneio. O canhão da frota de Gouldsboro os saudava. Ao ver o marido imponente no comando das naves, uma certeza a dominou: ninguém podia mais atacar seu amor. Ela, no auge de seu fascínio, ainda era amada por Joffrey, um dos grandes nomes da América do Norte. Ele era seu rei, sua pátria, seu refugio! O fascínio de Angélica Anne e Serge Golon Após a estada em Salem, na Nova Inglaterra, onde tiveram os gêmeos Raimundo Rogério e Gloriandra, Angélica e o márido, o Conde Joffrey de Peyrac, estavam de volta a suas rras na Nova França. Em Gouldsboro, ainda a bordo de seu novo navio, o Arc-en-Ciel, eram recepcionados pelos huguenotes liderados por Mestre Gabriel Berne e comandados pelo governador Colin Paturel, amigo de outros tempos de Angélica. Enquanto os recém-nascidos eram cuidados com desvelo pela jovem Severina Berne e pelas moças de Salem, Ruth, Noémia e Agar, Angélica preocupava-se com seus próximos desafios: enfrentar as damas huguenotes do lugar e as influências nefastas da desaparecida Duquesa Ambrosina de Maudribourg. ESTADA EM GOULDSBORO CAPITULO I As Damas de Gouldsboro — No quarto da Diaba Fazia um dia lindo quando o Arc-en-Ciel lançou âncora diante de Gouldsboro. Enquanto esperavam a execução das manobras, que consistiam em reunir as bagagens na ponte, descer as chalupas ao mar, ajudar os passageiros a se acomodar — e que passageiros nas pessoas de Raimundo 2

Rogério e Gloriandra de Peyrac! —, os primeiros emissários de Gouldsboro se apresentaram ao navio e subiram pelas escadas de corda ou pelos cordames. Entre eles, o ativo e empreendedor Marcial Berne, irmão mais velho de Severina, e seu grupo de jovens patrulheiros da baía, ladeado pelo fiel escocês George Crowley, que se gabava de ser o primeiro colono do lugar, e do velho chefe Massaswa com sua flotilha de índios que quase não se via no resto do ano, mas que surgia como por milagre de todas as angras circundantes assim que o pavilhão do Conde de Peyrac era avistado no horizonte. No fim de um instante, todo mundo estava reunido em volta dos pequenos pacotes brancos carregados por suas amas-de-leite e babás, e a manobra não progredia mais. Enfim, conseguiram dispersar o ajuntamento, e Angélica obteve, depois de muito insistir, algumas notícias e algumas respostas a suas perguntas. Todos estavam de acordo. O outono seria longo, e o sol do verão indígena, sempre especialmente quente e imutável, prometia brilhar pelo menos até os últimos dias de outubro, se não até meados de novembro. O que permitia permanecer pelo menos uma ou duas semanas nas praias, sem correr o risco de ser surpreendido pelos primeiros frios durante a viagem de volta para Wapassu, com os pequenos príncipes. Houve, todavia, um contratempo. O navio Gouldsboro, que deixara o porto de atracação em junho em direção à Europa, como fazia anualmente, ainda não voltara, assim como a embarcação menor, Le Rochelais, encarregado de uma missão especial e secreta no Mediterrâneo. Esse atraso não podia ainda ser considerado inquietante, mas o Gouldsboro e seu Capitão Erikson os habituara a vê-los efetuar ida e volta através do oceano com tanta celeridade e êxito, que acabaram por esquecer que podiam, como os outros, encontrar pela frente tempestades, calmarias ou piratas. Ninguém encarava a possibilidade de um naufrágio. Foram tranquilizados, na hora seguinte, graças a uma mensagem que lhes foi entregue pelo corsário holandês, um amigo que bordejava nas paragens e que os avisava que encontrara a embarcação ancorada num fiorde da ilha Royale, onde esperava o Le Rochelais, mais lento que ele, antes de começarem a contornar juntos a Nova Escócia e chegar ao porto. Só podiam esperar que eles chegassem antes da partida obrigatória para o Alto Kennebec, pois esses navios seriam carregados de mil objetos, instrumentos e mercadorias preciosas para a in-vernagem, e seria lamentável não poder, encaminhá-las para Wapassu. Enfim Marcial Berne ia partir para estudar em Harvard. Seu pai não queria vê-lo tornar-se um pirata da baía Francesa. Iria depois para Newport e, em seguida, para Nova York, fazer comércio. — Fique bravo, fique com raiva, fique! Eu vi tudo isso antes de você! — cantarolou Severina, esfregando um mdicador no outro e apontando-o para ele. — Não lhe contarei nada! La Rochelle francesa, sua volubilidade, seus maneirismos tradicionais, que não morrem depressa, brilhavam ao sol... E Angélica preparou-se para enfrentar Gouldsboro e suas damas. Os laços que uniam Angélica à parte majoritária da população, os huguenotes franceses de La Rochelle, eram profundos, indefectíveis, mas ambíguos, e, a priori, continuariam a sê-lo para sempre. Censuravam-na por tê-los obrigado a subir no navio de Joffrey de Peyrac, um pirata, a seus olhos. Ela pedira-lhes misericórdia de joelhos quando se rebelaram contra ele durante a travessia, merecendo por isso a forca. Em circunstâncias em que toda mulher honesta deveria esconder-se de vergonha, pois ela era acusada de adultério com Barba de Ouro, ela os enfrentara com uma desenvoltura desconcertante. Sabia que, aos olhos deles, não importava o que fizesse, sua conduta tinha sempre alguma coisa de chocante. Enquanto o Arc-en-Ciel entrava na enseada, Angélica, com a luneta assestada, viu na primeira fila, num grupo compacto e dominador, identificáveis por suas roupas escuras e suas belas coifas brancas, aquelas que tinham sido as damas de La Rochelle e se tornaram as Damas de Gouldsboro, tão arraiamiúda pareciam, ao lado delas, os outros habitantes do lugar, não menos numerosos. Angélica, que gostava delas por tudo o que tinham vivido juntas e que desejaria agradar-lhes e receber sua aprovação, suspirava, pois sabia que sempre lhes inspirava, não importava o que fizesse, um sentimento de reprovação. Que ela tivesse se introduzido entre elas em La Rochelle, inicialmente como humilde criada, para se revelar a seguir dama de alta nobreza, isso não mudava nada de nada, explicava de bom grado a autoritária Sra. Manigault. Pois, quer fosse a empregada de Gabriel Berne quer fosse a mulher do pirata ao qual deviam sua salvação e sua instalação no Novo Mundo, ela sempre os havia 3

Na confusão do desembarque. onde reunira uma fortuna resgatando os tesouros dos galeões espanhóis. sobre o qual acabara de obter. ela ocupava em seus corações sombrios. dar-se ao trabalho de tratar todo mundo com cuidado e não chocar ninguém. que ali permanecessem eflúvios do mal destruidor. para que se incomodassem. pelos preciosos inocentes que trazia de Salem. ela sentia rapidamente que sua vinda perturbava o equilíbrio de sua existência bem regrada. Joffrey de Peyrac. que ela era uma mulher fantasiosa. ampliado de um cercado fechado por uma paliçada de estacas. Por isso. portanto. enquanto seus carregadores subiam a praia com orgulho. e era ali que Angélica ia se instalar com suas malas e cofres. objeto de alegres clamores. e escabelos. O forte tinha dois andares e comportava. mas acabariam por convir que a amavam muito. eles. das autoridades do Massachu-setts. entre duas explorações na hinterlândia ou de reconhecimentos ao longo das violentas costas de um território. a demoníaca amiga do Padre d'Orgeval. jóias. vindo das Caraíbas. arrepiada de terror. os huguenotes de La Rochelle. após discutirem o assunto. O quarto estava mobiliado com um grande leito. bibelôs." Com exceção da sábia e terna Abigail. tinha certeza de que iria.. esse forte fora por muito tempo a única habitação digna desse nome.. as mulheres se sentem frustradas se não dedico a cada uma minha atenção exclusiva. tal como ela era. Angélica se lembrou de que a Sra. Mas. talvez Champlain ou pescadores ingleses surpreendidos pela invernagem. uma noite. Não porque fossem inglesas. Desde que tinham ido. para ser. abordaram na praia num silêncio quase religioso. eles se informariam sobre se se poderia mudá-la ou melhorá-la. ao vê-las com cara de enterro. em seguida. carregadas cada uma na cabeça de um marinheiro. foram de preferência muito mais solícitas com a parteira irlandesa e suas moças. o que não era frequente nessas regiões. "para que a afeição que medevotam me traga com tanta frequência desconfortos e perigos? Os homens brigam entre si.dirigido com a mesma autoridade e os dominara com a mesma maneira desenvolta. os lábios apertados numa censura reprimida e sem se poder determinar a propósito de quê. a despeito de si mesmos e a despeito de muitos escândalos. como marido e mulher. ladeada de lojas e entrepostos diversos para os víveres e as armas. Angélica preocupara-se principalmente em designar o lugar onde ia alojar os pequenos heróis do dia. Angélica sabia também que. no momento de fazê-lo subir para o quarto maior. Edificado sobre as ruínas de antigos fortins pelos primeiros visitantes do lugar. em todo caso demasiado independente. Mas os reencontros eram sempre difíceis. "O que foi que fiz ao céu". Ali se podiam dispor objetos de toalete. uma vez mais. causar-lhes muitas razões de descontentamento. ali se acantonava com sua tripulação e suas levas de mercenários. Havia também um armário. E foi tomada de pânico. Só era responsável pelo lugar importante que. naturalmente para o forte que se dirigiram os carregadores dos bercinhos de Raimundo Rogério e Gloriandra. por minha causa. Angélica e Joffrey de Peyrac não tiveram nunca a oportunidade de residir por muito tempo ali. pela enésima vez. Receou. a esse ponto do litoral do Maine. Tinham conservado o costume de se alojar em seu forte de madeira. cujas cestinhas de vime. Era inútil. divisara num canto um 4 . que ela possuía uma mentalidade muito diferente da deles para que não houvesse atritos ou mal-entendidos. de Maudribourg. enquanto as duas jovens babás eram sistematicamente postas de lado. Dame Angélica de La Rochelle ou de Gouldsboro. mesa e poltronas. com revestimentos e tapeçarias nas paredes para proteger contra o frio e a umidade. Fora nesse quarto que. De imediato. que se erguia na extremidade da ponta rochosa e que fechava a angra. depois de separá-las e decidir para que outros lugares ou casas deviam ser encaminhadas. transformada posteriormente em porto. pouco inclinados à indulgência e a capitular diante da sedução. Em cima. Foi. perguntava-se por vezes Angélica. no fim de alguns dias. rústico mas sólido. embaixo. e depositar as diversas mercadorias trazidas da Europa pelos navios. tinha de resignar-se com as outras. Acabara por compreender que não dependia dela que as coisas fossem diferentes. não tendo jamais tido consciência de que estivesse tratando com gente séria e senhora de seu destino. se não leviana.. que não a queriam diferente. ali se hospedara. o andar era ocupado por um amplo quarto e dois outros menores. o direito de estabelecimento e explorações das minas de prata.. Reconheceriam. uma grande sala comum que servia também de escritório para o comércio e a troca. acordando. mas elas adivinharam logo o lado suspeito de sua personalidade e o lugar privilegiado que ocupavam no coração de Angélica. as damas abominaram Ruth e Noémia. e que estavam muito contentes por vê-la entre eles.

às vezes. e muitos mais deveriam sabê-lo. abrindo as mãos num gesto que significava: é assim. 5 . Depois. — O gato apareceu em nossa casa em primeiro lugar — gritou. Fazendo sinal a Ruth e Noémia para que aseguissem... — O gato? — Ele não estava aqui? — Com efeito. sentou-se contra o batente da porta. — Por que nos olha assim? — perguntou Ruth. retomavam sua marcha processional. que se levantara prontamente. e que se mantinham tranquilos. sentada à cabeceira de Ambrosina. neutra.. transparente. solene e bem nutrido. onde as duas mágicas passavam com a discrição de fantasmas acostumados a não serem vistos pelo olhar dos homens. Depois. a génese dos crimes. cuidar dele. não tendo ainda notado que os tinham separado de novo. reinava uma luz pálida. Mais seres do que você imagina vivem com poderes secretos. se possível. no entanto. colocados em suas cestas sobre"a mesa de madeira. Rapidamente. Uma claridade suave. o Senhor Gato. E nesse mesmo dia ele aparecera. à sua anulação. trocando ideias num tom de conversa banal. o segundo irmão de Severina e que era para ela um de seus filhos adotivos de La Rochelle. subiu com elas. Mandou que o cortejo esperasse na sala de baixo. das moças de Salem: Ruth.. nós a esperamos para a refeição.. entregou-a a Ruth Summers. héctico e vacilante em suas patas finas. olhava as idas e vindas das duas silhuetas. CAPITULO II Os Huguenotes e Bertille Mercelot E como perguntasse sobre o jovem Laurier Berne. Dame Angélica. uma expressão de dor crispava-lhe o rosto. — Venha depressa. enfeitiçadas. entre as poças d'água. ora à direita. enquanto Angélica. Tantas forças e tantos tesouros que nos foram revelados se perdem. Era em volta desse leito que as pobres Moças do Rei. com a varinha entre os dedos. — Sabemos tão pouco sobre os mistérios que escoltam os seres humanos. e Ruth arrumou sua varinha com gestos precisos de dona de casa no saco què a cigana. pelos caminhos de Goulds-boro. Agar imediatamente retirou da mochila a varinha de feiticeira e. ela viveu aqui! Como explicam isso? Ruth voltou-se para Noémia. — E.."ser"' sombrio. voltaram-se para Angélica. Angélica. Senhor Gato! Pequeno génio do Bem. Depois.. explicou-lhes o que acontecera naqueles lugares e pediu-lhes que procedessem a um exame das influências nocivas que deviam ali existir e.. viu-o correr. Ela o pegara no colo para aquecê-lo. que não tinha forças para miar. em nossos dias! Mas o papel e o objetivo de Satã é privar o homem de seus dons místicos e afastar dele as ajudas divinas. tão fraco. subjugadas. contra sua saia. e ela não concluía o giro. que atual-mente passeava. murmurando fórmulas. ao pé do promontório. sofriam a ascendência do demónio súcubo. Fixava-a com seus olhos dilatados. o vira ali. com seus grandes olhos de cigana à espreita. tão cheia de esperança e de confiança. o que permitiu à multidão contemplar mais de perto os dois bebes. com uma tal expressão de espera. — O gato captou tudo — declarou esta. não maior que a mão do grumete que devia tê-lo jogado na praia. Nesse aposento tinham começado as mentiras e daí partiram as ordens de morte. ora à esquerda. sacudindo a cabeça. permanecendo também na soleira. Ele não passava então de um miserável gatinho de navio. Noémia seguindo-a com gestos de mãos que se erguiam como que para captar não se sabe que correntes invisíveis.. como que surgido do assoalho. — Nada! — repetiu Angélica. Subitamente. Enviado para captar o Mal. inspecionando com uma mistura de medo e de intensa curiosidade o conjunto do quarto. — Então nadai — disse Ruth. — Então? — interrogou Angélica.. sua pequena silhueta frágil girando sobre si mesma. Tendo o sol se deslocado. uma atrás da outra. lhe estendia. a luz do dia misturada ao reflexo do céu no mar. Mas.

mas também. estava na hora de todas as pessoas de bom senso reconhecerem uma coisa. que saltava aos olhos. Os que em La Rochelle a viram crescer contavam que. Mercelot. Na ausência de sua madrasta. Para evitar um assunto de preocupação latente na comunidade de Gouldsboro. de Peyrac. em volta do diplomata visitante.. que ela reencontrara em Salem. você sabe. o Sr.» — É o pequeno Carlos Henrique. E quando Severina contou como a insolente. Mas. ela já semeava a cizânia entre os garotos do Bairro das Muralhas. ensinavam às-pequenas hu-guenotes da cidade a se manter eretas e a fazer gentilmente a reverência. como se estivessem lhe explicando algo estarrecedor que ela não compreendesse. era difícil negar essa superioridade. dispostos por Severina. a atmosfera estava calma. e isso desde que nascera. ainda bem pequena. do mesmo modo que ela.Na casa dos Berne.. considerando um insulto à sua pessoa não o reconhecer. com os quais aprendia a ler a Bíblia na casa de duas moças muito honestas. filha única e herdeira de uma considerável fortuna. Depois da passagem de Bertille por suas pequena oficina. boas notícias da Europa. Carlos Henrique! — disse ela. o seria nos cálices de estanho. ali. carregada de filhos?! Abigail teve uma expressão dubitativa e acariciou a cabeça da criança. Notando uma outra cabeça loura. na baía Francesa.. Sendo uma menina inteligente e que aprendia mais depressa que as outras. Paz. impulsiva e ardente. e mesmo fascinante. uma. e que. depois. Bertille Mercelot sempre se julgou irresistível. sem malícia e dedicadamente. continuou: — Concordo! Reconheço que o clima de Gouldsboro é um dos mais agradáveis. enquanto tomavam assento em volta da grande mesa de madeira e mestre Gabriel Berne. acabaram por constatar que. nem bem refeita do parto. que são tias dele. que ela afirmava por sua simples e incomparável presença. e suas companheiras de infância acabaram por admitir. sem Bertille Mercelot. pelo menos.. Não houvera piratas. por medo à Sra. de seis meses. o verão parecia ter trazido apenas satisfações. de quem gostava muito.. Por ser bonita. mas nem por isso recuou em 6 . Ê preciso desculpá-los. Sara e Débora. Quando chegou à idade de atrair o olhar dos homens. elas tiveram de renunciar a prosseguir com seus ensinamentos. todo mundo se entendia melhor em Gouldsboro. que viajou para acompanhar seu pai. as línguas de desataram. boas chegadas e boas partidas de navios e o feliz nascimento dos gémeos de Peyrac. bons negócios e comércio. Elisabeth. boa pesca. Angélica perguntou o nome do pequeno vizinho. declararam. ingleses em busca de desforra sobre os postos da Acácia Francesa. a outra.de tirar do tonel um pouco do vinho de uma remessa nova. — Ah! sim. que é apenas uma vizinha. sobre a mesa. que era bela e desenvolvida para seus três anos. voltando para casa. tevê de enfrentar a difícil escolha de atrair todos eles. Manigault. Ela respondeu. Uma nuvem de tristeza passou pelo rosto das pessoas presentes. e que a gente sente o coração leve e cheio de amizade pelo próximo. seu esposo. não era apenas devido aos triunfos do verão — boas colheitas. mas alguns ousando cochichá-lo ao ouvido de outros.. porque tinham se livrado de Bertille Mercelot. em sua opinião. mas que tinha o hábito de manter os grandes olhos sempre arregalados. de dois anos. Abigail. Sem ousar dizê-lo em voz alta. aberta com o próprio facão. reides iroqueses ou guerra santa de abenakis contra o herege. se comportara com a Sra. devida a um próspero comércio de papelaria. suas encantadoras filhinhas. os Manigault. Com um braço em volta dos ombros de seu pai e de sua segunda mãe. o desaparecimento da mãe verdadeira de Carlos Henrique. o Senhor Gato. começaram a congratular-se: naquele ano. em vez de sempre recorrerem a você. cordial. Apo-lina. para ajudá-lo com suas escritas. reencontrava Abigail. tinha muitas novidades para contar. Se aquele ano. à Nova Inglaterra. Bertille. que Bertille Mercelot nascera para ocupar o primeiro lugar em tudo e para deixar aos outros apenas os restos. nós ficamos cuidando dele. entristecida. Bertille Mercelot. — Assim seja — aprovou Severina. que coroava tudo. não parava de fazer o papel de pomo da discórdia. corsários atracados nas ilhas para vistoriar os navios que chegavam da Europa com seus carregamentos de provisões. não podiam cuidar dele? ou suas filhas. portanto. sempre muito autoritária. onde. indesejáveis entre esses bacalhoeiros estrangeiros. com mansidão: — Você sabe como eles se sentem em relação a este pobrezinho. curta e modesta. — Seus avós. e um pouco de costura e de tricô.

. um pequeno temporão. O que provocou a indignação geral. Com efeito.. Beijavam o pobre Carlos Henrique e recomeçavam a falar de —Bertille Mercelot. Bertille Mercelot era a esposa de Garret. por muito tempo entristecidos e revoltados. Era difícil distinguir num primeiro olhar as paixões que dormitavam sob essa água parada. pois era casada. — Mas ela já é casada. enquanto Gabriel Berne abria as ostras com um gesto peremptório. por quais meandros de que trágicos acasos? A encantadora Jenny Manigault poderia prever em sua juventude feliz e mimada de La Rochelle que. e Angélica achava repousante. acrescentaria dois dramáticos privilégios: o de ter posto no mundo a primeira criança de Gouldsboro. atualmente. — Não. depois de Salem. Jeremias crescia. iroqueses ou algonquinos. Jeremias. se o bom entendimento estabelecido por Colin Patu-rel tivesse um dia razões para se romper. com sua família. e isso havia quase dois anos. a gente sempre se perguntava qual seria o próximo lar que ela ia tentar destruir e. Ela sabia como desviar os espíritos de sua responsabilidade em uma querela. para ousar a linguagem papista. Esta sempre tivera ciúmes de Jenny.sua ambição de atrelar a seu carro o maior número possível. pois essa família de ricos burgueses só tinha um filho homem. — Cuidado com o que falam diante do menino! — É verdade! Tenham cuidado. pelo alívio que isso lhes trouxera. ele pode compreender. contemporâneas de Bertille. mas não se via como. Tia Ana. Ela sempre sonhara em entrar para a família dos Manigault. Suas outras filhas eram belas e boas. e desaparecera para sempre. ela só respeitava Colin. Era um equívoco habitual sugerir. opinou que era preciso casar a perturbadora Bertille. mediam. fora raptada por um grupo de índios que andavam por ali. que era um pouco distraída. e o de ter sido a primeira a pagar seu tributo à cruel América: alguns dias depois de sua festa de purificação. Laurier trazia um prato de camarões e de ostras frescas. oficial num regimento de Saintonge. a fim de encontrar uma solução para o problema. Mas. que fica correndo os bosques em vez de vigiar sua mulher! — Se Jenny Manigault não se tivesse deixado raptar pelos índios. 7 . mas. e mesmo assim. " ter-lhe-iam dado o Bom Deus sem confissão". como Tia Ana. pois. com o tal Garret. suas palavras ao mesmo tempo doces e avinagradas. por ter nascido hugue-note. que são igualmente importantes e sem importância. que eram as melhores pessoas do mundo e que nunca perceberam que sua filha adorada era uma rameira. as imprudentes incursões de Bertille entre eles não seriam estranhas. nascida nos primeiros dias de seu desembarque. nascido depois de quatro filhas. com esses piratas arrependidos do outro lado do porto. que era preciso arranjar-lhe um bom marido. e Abigail Berne. a quem chamaram de Carlos Henrique. à sua fuga de proscritos. o genro dos Manigault. fosse por poupar seus pais. Ora. Duras primícias a oferecer aos deuses selvagens da América do Norte para obter a graça de sobreviver e" recomeçar ali uma nova vida! Na casa dos Manigault. seus comadrismos. quando se dirigia com os seus para o campo de Champlain. de bom nascimento. davam-lhes lugar à mesa e recomeçavam a falar em todos os sentidos sobre Bertille Mercelot. belo rapaz. e muito mais ainda quando a viu casar-se. nos caminhos do exílio e que. portanto libertinos por natureza. Tinham pois paciência com ela. ele é pequeno demais. Com Bertille. agora que seu pai tivera a boa ideia de levá-la ém sua visita aos moinhos de papel da Nova Inglaterra. o governador. Tia Ana e a velha Rebeca chegavam. tagarelar com toda a tranquilidade com os amigos sobre assuntos referentes à vizinhança. a ferida começava a cicatrizar-se. fosse por cegueira. não se sabia se não se deixariam lograr um dia por seus tra-jetos. a mais velha. Gabriel Berne servia generosamente o vinho branco da Garon-ne. antes dela. uma das mais importantes de La Rochelle e uma das mais importantes dentre os armadores. papistas. seria um dia lançada. o peso que suas dissimulações exerciam sobre a comunidade. com Joseph Garret. pelo menos para não abandoná-los às outras. fariam dele um ativo armador do Novo Mundo e. nunca se soube. vocês o sabem muito bem! — Com esse cretino do Joseph Garret. e muitos insistiam nele até o momento em que observavam que ela já tinha um marido.

o ambiente que reinava no coração do verão em questão seria julgado idílico e falariam dele com frequência. por sua vez. que são tão zelosos de seu monopólio e consideram que todas as peles da América do Norte pertencem a eles. Nas crónicas futuras. formando um destacamento de bons militares.. todos na mesma situação. comentariam essa volta do Arc-en-Ciel. quando eles moravam em seu suntuoso palácio particular. e depois. Era preciso principalmente conseguir que seu marido voltasse dos bosques. convenceriam Garret a voltar. todos pioneiros da América. se associara aos bosslopers ou bushrangers. tocante. CAPÍTULO III 8 . demonstrara na ocasião mais precipitação do que juízo. belos. que já imaginava privado de todo apoio. em vez de seguir os bushrangers ingleses para negociar peles. como antigo oficial do rei. junto à sua jovem mulher e ao filho. Ele não poderia ser mais útil ali. der com os franceses do Canadá. os três decidiram que. que entrara na enseada carregado de auriflamas e de "armadouras" escarlates. meia holandesa. visitas e alianças. Gabriel Berne aprovou Angélica em suas opiniões. Apesar de ter servido de alvo aos maus propósitos de Bertille. ás vezes com as voltas de Joseph. não podiam suportar sua presença. Abigail teve um sobressalto e suspirou: "Pobre rapaz!". com a chegada dos navios da Europa. que por conta de uma companhia meio inglesa.para começar. mas que acabavam por agradar em virtude de seu gosto por festas e sua. E. devotada. e ela poderia ter pensado que havia uma diferença em se tornar parente dos Manigault de La Rochelle. ocupando-se da milícia. Bertille. considerava-a apenas uma criança um pouco tola. " Pobrezinho"! olhando para Carlos Henrique. que é um francês reformado. antes de mais nada.. isto é. — Mas o que vai ser desse menino com uma mãe tão ruim? Angélica continuava a esperar que se tratasse apenas de futilidade. tendo os avós Mani-gault também se desinteressado desse neto que lhes lembrava um luto cruel e. como em outra parte qualquer. ao invés de tentar convencer os Manigault a cuidar de seu neto. como eram designados os exploradores de bosques ingleses que iam até os índios comprar ou pegar as peles. seduzindo e desposando desde o primeiro inverno o jovem viúvo desamparado. ela se sentiria bem ali. e que tinham voltado dessa vez com as duas crianças milagrosas. herege. Por isso. todo mundo em Gouldsboro estava aliviado pelo fato de Bertille estar ausente. acompanhando os oponentes ingleses. paterno e materno. e a volta do Conde e da Condessa de Peyrac. criando-lhe obrigações e responsabilidades cívicas que o retivessem em casa. E a existência em Gouldsboro era suficientemente difícil para que virassem as costas ao prazer e se deixassem envenenar por moças maléficas como Bertille. e continuavam a chamá-la de Bertille Mercelot. Em suma. iria também para Harvard. teve de convir com isso também. Bertille não gostava do pequeno Carlos Henrique. Mas nada era melhor que a ausência de Bertille Mercelot. Se lhe construíssem um dia em Gpuldsboro uma casa bonita. pegando a criança com grandes demonstrações de afeto. e a população se apegava cada vez mais à sua cidade. Em sua casa não se falava nunca em Jenny. o anúncios de visitantes interessantes à baiáia Francesa. como um navio real. Fazendo pouco dos prognósticos demasiado sombrios. essas duas personagens que não eram iguais aos outros. morta sem sepultura onde pudesse ser pranteada. como foram os imigrantes dos primeiros tempos. em vestidos de veludo. Abigail. Ela o deixava na casa da vizinha Abigail. que a jovem se emendasse. Isso não a aproximara em nada dos Manigault. Isso lhe permitiria exibir-se. que por vezes se pensava odiar. para que dissessem que ela era perfeita. Os negócios iam tomando jeito. ricos ou pobres de nascimento. se um dia ela. ou dos semináufragos sob um teto de colmo e cabana de achas ou pranchás de madeira. não dou muito tempo para sua cabeleira. uns amores em suas almofadas bordadas. Algumas vezes voltava para casa. tal como as que ela vira na Nova Inglaterra. na Nova Inglaterra. se encontrava a maior parte do tempo em casa dos pais. que ali eram negociadas em pequena escala. Iam falar com o Governador Paturel. Bertille. com efeito. Acabavam de compreender que não se enganavam ao considerá-la um verdadeiro veneno. Haveria também a volta do Gouldsboro e do Le Rochelais com seus carregamentos soberbos. seu esposo. observou-se.sede de viver. Suas reaparições coincidiam. sempre caridosa. a fim de não desagradar ao índios? — Em compensação — disse ele —. temer ou rejeitar. a nova família Garret nunca deu muito certo. havia um movimento louco de troca e de comércio.

. tendo sido recolhida por um de seus tios da ilha Martinicus. então isso não lhe chamou a atenção. E eu também vou ter um! Não é lindo tudo isso? Sua exuberância não tinha nada de britânico e a palavra "naufrágio" pôs Angélica na pista correia. evidentemente grávida.. E depois. É verdade que eu era a caçula. mas que. ou às vezes cordialmente misturadas quando se tratava da longínqua ilha de Monégan ou dos estabelecimentos da foz do Kennebec. e uma grande parte da população sob a jurisdição de Colin Paturel era agora estranha para Angélica. De Maudribourg. Angélica. estou feliz por revê-la — disse a jovem. Pelas onomatopéias que eram trocadas quando botes e chalupas traziam os ocupantes de um navio para a praia podia-se saber de que pontos da costa ou de que ilhas chegavam. — Venha. — Quem é você. andando rapidamente e fez de conta que não escutava a voz fresca e jovem que a chamava: "Sra. e tão pequena que nunca me chamavam pelo nome. resolveu fazer-se de surda a esses chamados que. Os acontecimentos datavam de quase dois anos. ofegante. sem sua barriga redonda. de la Roche-Posay estar entre os que chegavam. no dia do naufrágio. Não podia ser apresentada a todos e. vinte vezes por dia. você me tirou da água e me carregou como um bebé. iria sobretudo rever seus amigos e as pessoas conhecidas que vinham a Gouldsboro para encontrá-la. viu que se tratava de uma mulher. — Oh! Sra. que se atrasara novamente em casa dos Berne. Queria também dar uma olhada nos gémeos. não é de admirar: o naufrágio. pois. e esta não teve outra saída senão abraçá-la.. E parece que agora tem dois bebés. e desde então não teve mais notícias delas. sentiu um frio percorre-lhe a espinha. — Verdade? Não me reconhece? Eu. Sra. censurando-se por haver-se descuidado deles. acompanhe-me até o forte. de Peyrac. . os piratas. com a preocupação de voltar para o forte a fim de "se arranjar" um pouco. durante sua permanência. no caso de a Sra. jogou-se espontaneamente em seus braços. talvez inglês. de Mau-dribourg. mas era sempre desagradável para ela falar a seu respeito. você deixou suas companheiras e sua benfeitora. nossa Benfeitora? Angélica. Foi forçada a parar e retroceder. vozes inglesas ou francesas. Pelo que compreendi. minha cara.acadianos de Port-Royal. — disse. há dois anos? — Isso mesmo! Sou eu. advertira-a várias vezes. em Port-Royal. tentava passar sem ser notada. olhando de lado. — Queria tanto que me desse notícias de minha irmã! Chegando perto de Angélica. Poderia dar-me notícias de minha irmã e da Sra. passaria por uma menina de doze anos. Estava. será que você é uma das Moças do Rei cujo navio se chocou contra os rochedos diante de Gouldsboro. vendo o enxame. Mas Ester era muito mais alta e desenvolvida que esta jovem. Angélica pensou na jovem Ester Holby. desferindo-lhe com ar sinistro um provérbio russo. Havia anunciado a chegada dos. que atravessava a praça correndo. depois de ter escapado a um massacre perpetrado pelos índios abenakis e em que perdera toda a família. a Sra. embaraçada. que viajara com ela na barca de Jack Merwin. apesar e talvez por causa do número de pessoas que assumiam sua guarda e cuidados no barco. estou longe de esquecê-la. — Sra. dos quais várias bandeiras guardavam a entrada. com tudo o que acontecia.de vasquinhas e de toucas que se debatia em volta dos dois tesouros. de Peyrac! Angélica. até a do mercador holandês Peter Boggen. a pequena Germana. 9 . Tinha na cabeça uma bonita touca de renda e um capuz de lã branca. — Será que.. pequena e vivaz. Tomou o braço da jovem. assim que punha os pés na rua. no entanto. de Peyrac! Sra. e sim diziam: a pequena ou a menina. e que se apressava um pouco pesadamente na areia para encontrá-la. de Peyrac!. chegavam a ela. hesitando — . de origem circassiana.Relações acadianas Gouldsboro tornara-se tão povoada que as pessoas não mais se conheciam. não se lembra? Germana Maillotin. de Peyrac!" Todavia. fruto da sabedoria e dã experiência popular: "Uma criança que tem sete babás fica caolha!". Um velho marinheiro. minha cara? '— Não me reconhece? A jovem tinha um leve sotaque áspero.

fora o primeiro a contrair com ela legítimas núpcias. nada devia distingui-la do grupo aflito que cercava a Sra. Mas não tardará muito. mas gostaria muito de ter notícias dela e de minha pobre irmã. Tinha um rostinho astuto. — Ela se casou? — Não. que percebera sua emoção. e. Pobre náufraga! Do La Licorne e da vida! A Acádia a recolhera. mas tive de continuar. de Maudribourg.. inconfundível. sobressaltou-se e pulou. havia uma dezena de Moças do Rei que faziam parte da escolta da duquesa.cajado da gorda Petronilha Damourt. Ficou com lágrimas nos olhos e disse a si mesma que o parto a tornara sensível demais. que se deixaram enganar pelos belos olhos e a devoção da enviada do Padre d'Orgeval. vê-la na praia correndo para nós e lançando-se à água para me salvar. no navio. já o esperava. ficou comovida. Mas eu estava a mais no comboio. com a bênção de toda as pessoas de bem. às vezes. de Baumont. que vinha vender seu carvão em Port-Royal. vim hoje. — Quer dizer então que você não soube que a Sra. — Fui criada na Pitié. falou disso. pois tem muitos pretendentes. alegre-se. ela não parava de cutucar. minhas companheiras para Que-bec. depois. amável. A jovenzinha. mas não ousei acreditar. apesar do medo do naufrágio. estava farta de todas aquelas coisas e. que escapara a tantos contratempos. — O homem da costa leste dizia também que vocês haviam trazido. que está muito contente com seus serviços e com seu génio alegre e impulsivo.. o Sr. Mas era de alegria. como você é bondosa! Sempre foi um anjo para nós! Como foi belo chegar a Gouldsboro e. ao chegar a Gouldsboro. porque minha irmã era tudo o que eu tinha no mundo. Então pensei que. vou poder dormir em paz. de Maudribourg morreu? — disse Angélica. Aristides Beaumarchand. Agora que estou tão feliz. escondi-me quando o inglês as fez subir. Tinham chegado ao forte. Angélica. ministros. com minha irmã mais velha. em sua elocução precipitada. 10 . tivera principalmente de tirar para fora da água a enorme Petronilha Da-mourt. E acrescentou. alguém da costa leste. e que posso estar segura. se minha irmã estivesse em Quebec. Mas. antes de levá-la para ver as crianças. mas fico contente com isso e. Angélica julgou lembrar-se de que. que. Não faz muito tempo.— Sim. poderia ter tentado me dar notícias e procurar saber o que me acontecera. Fui ali admitida desde os quatro anos de idade. rezando as horas de joelhos ou seguindo-a em grupo eque.. com uma gravidade de órfã prematuramente amadurecida: — A bondade de uma mulher compensava a maldade da outra. Como ela. A pequena Germana. quase não saíam do anonimato. em seu navio! Eu estava com medo. dos habitantes pobres de Paris. conheci em Gouldsboro um marinheiro que me agradava e com quem queria me casar. com o coração apertado. Fui bem educada. acontece que posso dar-lhe excelentes notícias dela. como ela dizia. como nos propôs o Sr. Angélica tivera bastante dificuldade para se aproximar de algumas e obter suas confidências. mas nunca houve mulher mais malvada que ela no mundo. de Maudribourg só queria minha irmã. Ainda que isso não seja um bom sentimento — persignou-se —. mas. Enquanto isso. a Meiga.. no comboio de jovens imigrantes. prisioneiras. esqueço todas essas tristezas. que tinha sido assassinada por lhe haver falado. acredite. Angélica. que não "servia para nada". — Como se chama sua irmã? — Henriqueta. E a primeira vez que ouso deixar nosso caro Port-Royal. Angélica a fez sentar-se na sala de baixo para servir-lhe uma bebida fresca. Governador Paturel. a engraçada.. Colbert não nos teria escolhido para povoar o Canadá. já que a pequena se alegrava por ter sido salva por ela. religiosos. e ela insistiu em não me deixar para trás. pirata fugitivo que só merecia a forca e que. Juliana. Maria. A mim. Delfina du Rosoy.. Agora que é você quem o diz. Mas ela quer fazer sua escolha. A Sra. empregou-se como camareira em casa da Sra. me queimava com brasas ardentes do seu aquecedorzinho. dóceis ou aterrorizadas. benfeitores. e até. no entanto.. senão o Sr. sob o. eclesiásticos. enquanto nossa mãe estava encerrada no Convento das Mulheres Arrependidas. — Pois bem. Ela andava enquanto falava e agora. ainda não. despertava um outro sotaque. como acontecia toda vez que evocava a situação daquelas pobres moças e jovens senhoras entregues a um ser tão demoníaco. — Morta! Você irá me achar pouco caridosa. — Pobres crianças! — disse Angélica. Receando menos encontrar nossa Benfeitora. que era o fim de nossa viagem. conseguira esquivar-se reunindo-se ao Irmão da Costa. de Peyrac e você. nesse naufrágio. — Oh! Angélica.

Mas era preciso pensar. comprido. estavam estabelecidos simpáticos e solícitos vizinhos. como você vê. e não coragem. — Venha ver-nos em Port-Royal — insistia a Sra. Angélica observou a Germana que ela nâo parecia ter desposado seu marinheiro de Gouldsboro. vinho. com todo o seu bando. agora. que jamais conhecera a sensata e alegre Henriqueta sob esse prisma. Ela perdia a voz. — Ah! como estou contente! Minha irmã tinha tanto apego à Sra. Em vão. O estabelecimento em questão tinha já três ou quatro anos de fundação. quando uma influência negativa cessa. e que algumas vezes receava ter imaginado ou exagerado. parecia não mais me ver. que dormiam em seu quarto. óleo. Ela estava pronta a segui-la até o inferno. elas voltavam à normalidade. Para mudar de conversa. apesar dos bons cuidados de Radegunda de Ferjac e do capelão11 . O Sr. A jovem que estava diante dela era ingénua e simples. — Como são engraçadinhos! — admirou a pequena Germana Maillotin. de Maudribourg. As crianças trazem alegria ao lar. em Grandpré. que era como que sua escrava. E que essa mulher era como um vampiro que enfraquecia suas vítimas e lhes devorava a alma. e a tecer panos para lençóis e camisas. quinquilharia e tecidos. chumbo. que eu receava. Radegunda de Ferjac. As palavras e considerações da pequena parisiense confirmavam tudo aquilo que acabaram por atribuir à personalidade de Ambrosina. feliz. Aprendi a fiar a lã. com efeito. ao saber de sua morte. Empalideceu. Felizmente. Fora de sua órbita. a Sita. Um colono de Port-Royal tinha ido para lá secar os pântanos. como um vampiro batendo as asas de sua grande capa preta forrada de cetim vermelho. Era uma verdadeira doença. não se fazia ideia das dificuldades que um governador de estabelecimento tinha para manter seu posto nesses países da América. pois. o linho. servindo-a como uma sombra. o que não a impedia de ter um esposo. e Quebec inteira elogia seus méritos. no dia seguinte. à maneira holandesa. — Bom. a um convento. supliquei-lhe: "Fique comigo em Port-Royal". Eu também gostaria muito de ter gémeos. pois. e nos últimos tempos. daí o seu sotaque. como não tivera oportunidade de voltar para o outro lado da baía. que isso acarretasse o fim de minha irmã. de la Roche-Posay tinha ficado. O Sr. Quando nosso filho nascer. As meninas tinham levado suas belas boneca de Salem. faltou-lhe coragem. — Quer dizer que ela é alegre. ativa? — Certamente! Ela tem muito sucesso. e que lhes fazia muita falta quando os navios da companhia não chegavam. casara-se com um escocês. no primeiro andar. pois sempre receava incursões de navios ingleses. disposição para o trabalho e gosto pelo cultivo da terra e pela criação de animais. e era melhor ter cuidado. Estavam bem guardados pelas filhas da parteira irlandesa. em enviar as mais velhas para a França. para aperfeiçoar sua educação. a vida renasce — disse Angélica. porque ficara em Port-Royal. uma das maiores alegrias de sua existência de pequenas nobres exiladas. transformaram em pastos e vergéis. não longe de Port-Royal. A visão da louca Ambrosina acabava de atravessar seus pensamentos. influenciado pelo de seu marido. Os setores de território protegidos eram raros na costa norte da península de Acádia. Falara espontaneamente. vamos partir com alguns casais jovens para nos estabelecermos numa outra aldeia onde estão precisando de braços. A moça riu e disse que. sobretudo para abastecer os pioneiros com ferramentas e produtos manufaturados da Europa. Viera de seu feudo com os numerosos filhos e a governanta. era isso principalmente o que faltava aos franceses. ajuda essas senhoras em suas obras. A castelã de Port-Royal estava agradecida pelos presentes que lhe foram enviados com os produtos de primeira necessidade. Então. que bordavam e tricotavam à sua cabeceira. de Peyrac prometera ajudá-los.Germana olhou-a com espanto. — A menina é redondinha e o menino. E a vida para os pobres senhores franceses mudou. descendente dos soldados de Sir Alexandre. depois de protegê-las com pequenos diques. como já se fizera nos arredores do primeiro estabelecimento. de La Roche-Posay. dizia sua mãe. Não tenho medo de trabalho. Mas as fortes marés tinham-se acumulado nas enseadas das terras finas que os acadianos. antes de tornar a embarcar. A jovem acadiana admirou os bebés. e seu julgamento confirmava que não houvera nenhum exagero naquele que haviam feito sobre a Duquesa de Maudribourg. Subitamente.

de Peyrac — suplicou a Sra. enquanto perguntava a si mesma se teria um dia oportunidade de ir navegar do outro lado da baía. supõem que estamos enriquecendo desavergonhadamente e que conspiramos com os ingleses. apesar de ter vindo da Nova França. — Nós. acho que estão felizes conosco. um lugar encantador.. Enfim. que só se lembram de nós para cobrar taxas e direitos. suas grandes campinas ao redor das quais se elevava o mugido dos rebanhos. mas muito bela e culta também. Mas era sincera ao afirmar que gostaria de rever Port-Royal. — Os funcionários do rei. E depois. — Volte a visitar-nos. além disso. quando nos vem ajudar a resolver um litígio com os ingleses ou os piratas holandeses ou outros. solenemente. CAPITULO IV 12 . Prometa-me que voltará. que só têm valor por borboletearem no círculo do rei. não é? Ela deixou suas Moças do Rei em minhas mãos. suas duas igrejas. Você tem notícias deles? Sim. — Por que não envia suas filhas para as ursulinas de Quebec ou para a casa de Margarida Bourgeoys. que era um pouco estranha. que se há de fazer? Não podemos mudá-lo. — A mulher continuou: — Houve muitos comentários em Quebec porque elas não foram para lá? Esse contratempo se deu totalmente independente de minha vontade. só pensava em percorrer a floresta ou andar de barco. apanhar peles. guarnecida de cerejeiras e de bosquezinhos de tremoços gigantes. E hoje. espero que não tenhamos problemas com a administração "lá de cima". sua guarda. E mais fácil consegui-lo saindo de um convento renomado de Paris do que daqueles de nossas pobres colónias. jamais em paz. de telhados de ripas ou de colmo. em Montreal? — perguntou Angélica. Não nos queixemos! Com isso. Parece que seus filhos e o jovem Castel-Morgeat. ganhamos três noivas para os jovens celibatários de nossa comunidade como essa moça. de la Roche-Posay fez uma careta. não encontrariam bons partidos. e é preciso passar por isso. pescar truta ou salmão. no último verão. por simples prazer. da Acádia. quando não era invadida pelo nevoeiro. e as moças. sem nenhuma cerimónia. pelas agruras que ali atravessara. seu moinho de rodas. As grandes famílias do Canadá nos olham do alto. que se ornamentava com uma tão suave cor malva. que são tão desprezados pelas pessoas pretensiosas da sociedade. com seus filhos. Pois só o vemos precipitadamente. E também seu esposo. e gostamos muito delas. de Maudribourg. que gostava dessa vida e que tinha sido muito feliz com seu marido em seu forte de madeira. sempre em pé de guerra. toda essa juventude sofria a influência da selvageria local. Germana. pois Samuel de Champlain fundou Port-Royal com o Sr.. — Prometa-me que voltará para uma temporada em nossos domínios — insistiu —. se possível. sua criadagem. Mas não perco as esperanças de chegarmos um dia a isso. não nos entendemos muito bem com essa gente já "de cima" — disse ela com um gesto da mão indicando o norte. depois de participar de uma caçada. na corte. estão nesse momento no serviço de armas como corte sãos. abandonados por nossos compatriotas. Elas se escondiam para não ir embora. A Sra. em que veio com aquela grande dama benfeitora. confesso-lhe que gostaria que minhas filhas tivessem uma formação mais refinada. quando já tínhamos até esquecido há muito o que os provocara.. tivera. onde ficava Quebec. Mas. quando somos periodicamente arruinados por esses imprudentes inimigos e.preceptor. e é um nunca acabar de processos e arrazoados! Ela suspirava. obtendo um cargo de dama de companhia junto a uma princesa de alta classe. com suas casas de madeira. depois convinha em que preferia esse Novo Mundo. que cuidavam de ensinar-lhes latim e boas maneiras. dominando a vasta extensão de água da baía de Port-Royal. cara Sra. de Monts muito antes de Quebec. de la Roche-Posay.. quando crescessem. Tudo é tão complicado. e os correios tão lentos! Os aborrecimentos nos caem na cabeça. visitar os índios para fazer com eles grandes festins. se quisermos chegar a Versalhes. ao alvorecer. sob o pretexto de que construíram suas casas antes de nós na América do Norte. certamente traria notícias. que desejava pedir-lhe notícias de sua irmã. Eram todas moças de qualidade. capital da Nova França. que estava sendo esperado. Jamais culpou a inocente aldeia acadiana. Angélica prometeu e tornou a prometer. a Sra. quando isso é totalmente falso. e o Gouldsboro. — Todos nós guardamos uma lembrança muito favorável de sua estada aqui.

Roubaix. cruzes. E fora. pois tinham sido impiedosamente perseguidos até o século XVI. muitos deles deixaram seu refúgio alpino. Depois de alguma reflexão. O denominador comum com a população de Gouldsboro era que eles eram de origem e de língua francesas. ficaram indignados por ver que ali se encontravam católicos. na ausência de Manigault e de Mercelot. sentado numa poltrona de espaldar alto. tinham se misturado aos dissenters ingleses. ver as procissões e as bandeiras? O olhar azul de Colin Paturel observara-os. exilados como eles. sentia dificuldade em situá-los. igrejas. que nos equiparamos a vocês na observância da religião. Segundo o que Lorde Cranmer lhe explicara. quem comprara para os neerlandeses o terreno da Nova Amsterdam. tipo cátedra de bispo. esquecendo-se de que fora um dos que mais se insurgira contra isso. que vira todo tipo de fórmulas entre os filhos de Cristo. não estava mais bem informada do que ele. Talvez ela soubesse indicar-lhe de onde eles vinham e o que queriam. e que se arriscavam a encontrar padres capelães e até jesuítas. foram queixar-se ao governador. quando não estava a vagabundear pelo mar. chegando a Gouldsboro. onde estavam enterrados os últimos sobreviventes. que lhes dessem oportunidade de se encontrar com seus compatriotas franceses. era a primeira vez que ela os via. que era amigo de seu filho mais velho e pertencia à Religião Reformada oficial. em Leyden entre outras. 13 . Tratava-se do grupo de valões e de valdenses. estudava e conferia com cuidado a lista de nomes. Marcial Berne. misturaram-se a ela. Gabriel Berne. atrás de uma enorme escrivaninha de carvalho coberta de maços de papéis. Angélica disse-lhe que. perseguições e exílio. voltados para si mesmos.As esperanças do escravo Siriki — Os cordeiros e os lobos Colin Paturel mandara-lhe um recado através de seu escrevente. encontrados em Salem. no desconforto de suas andanças. O governador precisava pedir-lhe conselho para estatuir sobre a sorte de novos forasteiros. Façam como nós ou voltem para o local de onde vieram! Então. Quanto os valdeuses. dissera-lhes com arrogância: — Em Gouldsboro é assim! Nós. pois. que inspecionava os canteiros dos estaleiros. Sem levar em conta a ausência do Sr. os recebia. após sua cessão à coroa da Espanha. refugiados da Nova Inglaterra-. Arras. aquela nascida depois do Edito de Nantes. Desde então. antes mesmo dos cátaros do Languedoc. Julgava-os exterminado há muito tempo. de modo que se encontravam em grande número entre os peregrinos do Mayflower. Ele. depois nas Províncias Unidas. quando veio a Reforma. servia-lhe de secretário. tinham seguido as vicissitudes dos calvinistas franceses. Pedro Minuit. perplexo. descendentes dos "pobres de Lyon". entre outros. sofrendo tréguas. um valão. na região vala. Escreveu um bilhete para ser levado a Gabriel Berne. suas tradições e sua língua francesa. Tendo-a convidado a sentar-se. Habituados a ouvir falar inglês à sua volta. de Pey-rac. que se tornou Nova York. O que os caracterizava é que eram. O rapaz. estavam habituados a viver entre estrangeiros. porque. que fugiram da Inquisição espanhola quando esta se instalara em Flandres. que diziam missa. à exceção de Natanael. onde havia toda uma colónia inglesa. acomodamo-nos a isso. os outros. Refugiados inicialmente nos Países Baixos. destinada a impressionar os litigantes ou reivindicadores que ele recebia em determinadas horas. Mas . Era uma mistura curiosa. huguenotes de La Rochelle. um rebelde que censurava a Igreja por suas riquezas. Angélica sugeriu que fossem instalados no acampamento Champlain. Delft e Amsterdam. de que Natanael de Rambourg fazia parte. Iriam realmente impor-lhes ouvir aqueles sinos. De fato. que. os valões eram originários dos primeiros reformados calvinistas do norte da França e de Lille. mais do que. isto é. uma seita cristã fundada no século XII por um tal João Valdo. ele achava que a opinião de uma mulher o ajudaria a compreender melhor uma decisão que tinha de tomar em relação a pessoas cuja mentalidade e cujas reações não eram muito simples e que não lhe era fácil adivinhar. Colin sorriu. Era exatamente isso o que esperava dela. pediu-lhe que o desculpasse por tê-la incomodado. O antigo pirata. talvez se sentissem menos deslocados e mais distantes dos sinos "papistas". que pedira aos huguenotes de la Ro-chelle. Encontrar para os recém-chegados um modus vivendi que os ajudasse a pacientar.

petições e contratos que lhe punham sob os olhos e que lhe pediam que assinasse e julgasse! — O pastor Beaucaire teve a paciência de me ensinar. e havia como que um ingénuo orgulho em seu olhar por fazer-lhe essa surpresa. ou o capelão ou o cirurgião. meu caro Siriki — encorajou-o Angélica. e esse sonho. surda e terrível. Seu olhar ia de um para outro com ansiedade. mas o velho negro Siriki. eu não tivera muita necessidade de ler e escrever. para os bordados dos punhos nas extremidades de uma renda da largura de uma mão. sempre tinha a bordo um imediato. -mas com o aumento de minha tarefa. se tiver algum a nos fazer. Era. fez alusão à triste situação. com muita dignidade. — Você sabe ler?. Angélica sabia que ele não iria direto ao assunto. Pois aquela que estava vestindo quando deixara La Rochelle. Devo isso a Gouldsboro. Era. Ele já a amarrara em volta do pescoço. Ela é de sua terra natal". com o pacote sobre os joelhos. Angélica aconselhou-o a pedir ajuda às filhas da parteira irlandesa. Sentou-se na ponta de uma cadeira. o serviçal dos Manigault. tempo. uma descendência. que lhe era infinitamente penosa. Angélica percebeu um detalhe novo. a grande mulher negra que o Sr. gritara: "Ela é de sua raça.. — exclamou. Ao presente juntaram-se dois galões de fio de ouro. np-colégio de Har-vard. ele. Depois. O cargo lhe conviria. avô adotivo. E também sala de justiça e gabinete do governador. Ele seria estimulado a ficar. peritas em trabalhos de costura. começava a esgarçar-se. e que ele sentiria não poder vestir para servir seus amos à mesa. e preciso encontrar alguém capaz de substituí-lo. que o atormentava havia já algum tempo. Essa sala. Carlos Henrique. inabitual. De um belo vermelho-amaranto. que. e isso lhes permitiria conheceram-se melhor. Mas teve ainda de engolir a saliva várias vezes e verificar a apresentação de seu jabô de renda. — Aprendi a fazê-lo! — disse ele. formando um peitinho. era evidente que não tinha vindo ao seu encontro na casa do Sr. Não era Natanael. Não duvidava de sua bondade. Paturel apenas paraexpressar seu reconhecimento. Entretanto.. a mesma sala onde os dois homens se enfrentaram. que Angélica soube o que a intrigava. tornara-se a casa comum e ocartório do lugar. a pequena Jenny. listas dos navios. Apertava contra o peito.na mente.Desde sua entrada na sala. que era a de reunião do Conde de Peyrac e às vezes a dos banquetes nos primeiros tempos de sua instalação na costa.. e verificou-se que eu não tinha uma cachola tão dura para aprender. para cuidar da escrita. em toda Gouldsboro. Sabe escrever?. parecia. — Fale. sua mãe.. de Peyrac lhe trouxeram de sua viagem. Jeremias Mani-gault. erguendo os olhos de seu trabalho. que Angélica e o Sr. e procurava-o com os olhos. Ele vai para o colégio. — Oh! Colin. tendo deixado ainda grumete o Havre-de-Grâce. como uma inovação que nunca lhe teria ocorrido ao espírito. a fim de que pudesse mandar fazer uma nova libré. Abriu novamente os olhos e fixou Colin Paturel: 14 . a personagem que apresentava maior distinção e o Porte mais nobre. onde eu era o meu próprio mestre. Essa série de acontecimentos lhe havia inspirada o desejo — baixou as pálpebras a fim de reunir coragem antes de se entregar a uma tal confissão — de garantir para si. Siriki meneou a cabeça. Uma longa e delgada silhueta aparecia na soleira e se esgueirava para o interior. — Você sabe que é com a maior alegria que escutaremos e acederemos a seu pedido. assim como os outros filhos dos Manigault. como uma coisa preciosa. um pobre escravo. gosto e possibilidade de aprender a ler: nas galés de Mulay Ismael? Vagando pelo mar da China e por todos os azimutes? No início. Foi ao ver Colin Paturel mergulhar sua pena no tinteiro e lançar um olhar para a lista de nomes que copiava. de Peyrac comprara em Rhode Island. começaria pelo incidente menos relacionado ao que tinha. provavelmente. pois criara. entre os passageiros que desembarcavam do Arc-en-Ciel. Falou portanto primeiro de seu jovem mestre. o jovem Marcial Berne me ajudou. agora ele serve de secretário para classificar os dossiês. Angélica pensou em Natanael de Rambourg. por assim dizer.. que atingia a idade de onze anos e que os pais pensavam em mandar estudar com os novos ingleses. um pacote. Explicou a Colin que havia "alguma coisa" entre o jovem nobre exilado e a pequena Severina Berne. Até então. Antes disso. uma peça de casemira fina. Siriki. Ficaria mal a um governador não poder decifrar e julgar por si mesmo todos os papéis. subitamente tomara corpo quando avistara. que afastava do lar dos Manigault uma criança de três anos.. Alguma coisa nele. desde os quatorze anos. Nos navios. do qual podia se considerar. antes de se decidir a falar. mas mantinha o pescoço muito ereto. onde encontraria oportunidade.

pensando em sua bela casa de La Rochelle. O que dissera Severina a propósito de Kuassi-Ba eram apenas suposições. Ele. e vendidos em leilão. antes de atingirem os quarenta anos. Não conheço toda a sua história. Peixes dignos das praias evangélicas eram despejados e separados nos tablados do porto. às nossas crianças pequenas que correm pela praia. Um lar sem crianças engendra a tristeza. Tendo afinal dito tudo sobre seu grande sonho. com cinquenta anos. Manigault me comprou. Eu lhes dizia de minha tristeza de ver ir-se meu pequeno amo Jeremias. Falava sempre. — O que compreendi — explicava — é que nada impedia que. que é uma das línguas veiculares da África. das costas do Atlântico às do oceano Índico. sultão do reino do Marrocos. persuadiam-no cada vez mais da bem-vinda chegada de seu sonho. de Sara Manigault. — Prestei atenção em suas palavras. pois ela se cala. por diversas razões. Mas ela ignorava-o também. a primeira mulher de Mulay Ismael. e desse país vinha também o Grande Eunuco Osman Ferradji. da orla da floresta ao sul e do deserto ao norte. não tivera tempo de interrogar seu marido. ficou em silêncio. Então. de um lote que devia embarcar para as índias Ocidentais. Mas já observara que os negros. Depois que ele saiu. Isso lhe daria o ensejo de passar calmamente alguns momentos com seus amigos. ficam de cabelos brancos. A pobre Sara não resistirá. Angélica. me capturaram. Angélica quis se incumbir de levar a missiva para Gabriel Berne. e as donas deca-sa tinham muito trabalho para preparar as reservas de inverno. porém. viessem se misturar criancinhas cor da noite. Siriki. e Kuassi-Ba. Estava doente. também subitamente. Ela nasceu na Martinica. retirou-se. 15 . era o único que sabia acalmá-la quando se abandonava a crises de melancolia. Eu era muito moço quando os mercadores árabes. Era a língua da grande sultana Leila. Siriki. retomando seu arrazoado. De mercado em mercado. Os povos de lá são nómades. não quis insultar um irmão de infortúnio. em sua casa. de Peyrac fizera sua aquisição. sentindo que seu caso estava em mãos amigáveis. o banto da floresta. não deixou transparecer nada. Olhou para Angélica com esperança. eu a conheço. radiante. que mudariam um pouco quando a tempestade ou o gelo tornassem perigosa a saída dos barcos ao mar. se Colin sabia de alguma coisa. cheguei a La Rochelle. pedia humildemente a Colin Paturel que falasse por ele com a "nobre dama do Sahel". . Colin Paturel o interrompeu. parecia mais jovem do que ele. pisoteado e quebrado pelos cavalos dos dragões do rei. Ela fala o swahili. Colin reconheceu não estar bem a par dessa aquisição de escravos. e no aparelho de faiança de Bernard Palissy. às nossas crianças da cor branca da lua. com uma indulgência protetora. Somália. e o outro.— Notei que o senhor conversava com ela e conhecia o idioma de sua tribo. que tivera de abandonar em sua fuga pela charneca. considerada uma mulher autoritária e que maltratava as pessoas que a cercavam. em Gouldsboro. não tinham provavelmente passado dessa idade. às nossas crianças índias cor de ouro. meu sonho se tornou cada vez mais próximo. que poderiam ser as minhas. a mãe. e muito altos. — A jovem negra "marrona" que a senhora comprou também vai logo pôr no mundo uma criança. — Eu me informei — continuava Siriki. no centro da África. E que me importam essas línguas africanas que não compreendo? O que entendi é que seu filho logo vai nascer em Gouldsboro. Amo Manigault teve piedade de mim. — È isso! Não estou certo — murmurou Siriki. lançados em sua perseguição. que ele assumia. Sudão. que tivera de deixar precipitadamente certa manhã. Pois ignorava com que intenção o Sr. — Está enganado. Siriki. — Perdão. Depois. parecem logo adultos de trinta anos e. mas nenhuma reminiscência me veio à cabeça. não conhece senão a linguagem dos grandes macacos. cujo pai é esse banto africano da floresta que a acompanha. Todas essas preocupações com a família. Em todos os lugares ine consideraram negro demais e muito alto para a minha idade e sem nenhuma serventia. que havia muito tempo se consideravam "antigos". Deus o abençoe!' Angélica não se surprendia por ouvir o "velho" Siriki falar de si mesmo como de um jovem escravo comprado por um mercador que. vindos pelo Nilo. desde a puberdade. Os dois eram oriundos dessas regiões de Sahel. criadores de búfalos selvagens. e ali o Sr. e. caso ela estivesse livre para escolher seu destino. — Com efeito.

com sua graça habitual. na iluminação do coração. Ela tampouco gostava delas. as mesmas maneiras suaves e comedidas de se deslocar sem agitação. Ela terminou um pouco depressa sua frase. Ruth Summers estendeu a Angélica um envelope de pergaminho cujo lacre de cera estava partido. felizmente. um pouco virginal. Mas Abigail. em Gouldsboro as especiarias não faltavam. que subiam rumo à casa dos Berne. a seus olhos. francesa de La Rochelle. Depois de ter falado da situação dos valões. Aquele também que. não existe nada mais absconso que os termos jurídicos empregados num documento oficial de intimação ou de convocação. Perguntou a si mesma por que tinham tornado a vestir suas capaz alemãs.. em sua preguiça de pensamento e em seu modo de ser expulso do rebanho. apoiada ao batente. se em oito dias não se apresentassem diante do tribunal da cidade. como cenouras. escolhidos entre seus conhecidos 16 . E a própria Angélica permaneceu de pé. no entanto. acompanhadas de Agar. Só Agar se ajoelhara na soleira. em qualquer língua. segundo o aspecto recomendado pela religião calvinista a seus adeptos do sexo feminino. e uma dezena de concidadãos. nabos. pobres inocentes. Puderam explicar que essas palavras incongruentes significavam que. perguntava-se a que ela se devia e não encontrava explicação para essa rejeição que mesmo as melhores pessoas lhes opunham. ao vê-las. pois o tempo passava e ainda tinha de fazer outras visitas. que emanam de um supremo tribunal reunido para decidir a sorte de simples indivíduos que. Paturel — disse Abigail. colocava filés de cavala e de arenque em jarras cheias de água e vinagre.Abigail. ao abrigo da qual ele se refugiou. inglesas do Massachusetts. se não surpresa. batatas. assim como Abigail. à sua saudação. Que mais se podia censurar-lhes. Olhando-as vir em sua direção. onde não parecia preocupada em encontrar senão o olhar do gato. sentado com-pungidamente no canto de um guarda-louça e piscando intermitentemente em sua direção. colocou uma bilha de água e bebidas sobre a mesa. ora para o interior da casa.tanto mais quanto o inveja. explicações. Sentiu-se penalizada. por suas palavras ou por seu comportamento. uma semelhança fraterna entre Abigail e as magas quacres de Salem: a dignidade e o pudor contidos. As palavras em inglês dessa missiva pareceram-lhe muito herméticas. Depois de cozidos em fogo baixo durante alguns minutos e preparados com bem pouco sal. Olhando por sua vez naquela direção. olhando ora para o horizonte. modestas mas não sem graça. e teve de pedir-lhes. Ficou a porta. a elas. tinham esse meio sorriso cheio de modéstia e de bondade acolhedora. mal sabem ler ou falar. não a elas. capital do Estado do Massachusetts. cujas mãos abertas e o olhar luminoso só distribuíam caridade? Ouviu. o que deixou Severina sonhadora. Pediu-lhes que entrassem e se sentassem. Não era o caso de Ruth e Noémia. Angélica viu duas silhuetas escuras de penitentes. Todavia. mas as duas moças nada aceitaram. eram escorridos e conservados em covas feitas na própria terra e não caiadas. por diversas vezes. que vê na beleza.. — Vou avisar Marcial que já se arranjou alguém para sucedê-lo nas escritas do Sr. dos valdenses e dá passagem de Natanael de Rambourg. ajudada por Severina. como se o olhar que lançara pela abertura ensolarada da porta lhe houvesse revelado alguma coisa ou alguém cuja visão a surpreendesse. como nos outros estabelecimentos franceses. na parte de trás.. dirige suas forças de ódio contra os que. suas "casas e bens" seriam queimados. com muita frequência. acompanhanrfo-a até a porta. Ruth e Noémia. Existia. e. sempre virtuosa. Elas eram eruditas. na imagem demasiado perfeita da serenidade e da felicidade um reflexo do Paraíso perdido e que renega . se diferenciam-da lei comum. pois. no mesmo lugar onde também se guardavam tubérculos e raízes. Sem uma palavra. Angélica despediu-se. mas ao melancólico instinto do ser abatido. fortemente condimentada. que aumentavam o encanto de sua beleza loura. pois se tratava de uma carta do tribunal de Salem. com o movimento de reticência que percebera em Abigail. Como Abigail. que procurava deixar a casa pelos fundos. os passos de Severina. Ruth e Noémia. esperando-as. de manter a cabeça bem levantada. permaneceu ao lado delas e respondeu em inglês. Angélica não se iludia sobre a desconfiança que elas inspiravam.

Felizmente. nem possuídas. Quando vocês subiam a bordo do Arc-en-Ciel. podado e rasgado até a sensibilidade da madeira descascada. Se não as viam no dia em que essas calamidades aconteciam. era porque tinham passado a noite montadas em sua vassoura. Salem reclamava suas magas quacres. Angélica foi tomada pela angústia. meditações alimentadas pelos sermões cotidianos e o uivar das tempestades do Atlântico. Havia períodos de clemência. fazer estragar a carne na salgadeira. às piores sevícias. com sua morte. exposição ao pelourinho. em nome da moral. A mímica das altas personagens que foram ao porto e que davam ordens aos milicianos de sua escolta para prendê-las não me passou despercebida.. Salem não podia dispensá-las. elas estavam perdidas. — Eu lhes suplico. a fim de que voltássemos o mais rápido possível para salvá-lo. levando o homem a se voltar para si mesmo e para seus santos livros. mas ao pensar na sorte que. A realidade das ameaças que as espreitavam não deixava dúvida. em seu lugar. julgados e condenados. — Ruth — disse. Assim vão e vêm os sentimentos dos homens. seriam convocados. Não podia esquecer que a sentia fortemente. — Mas que bicho os mordeu? — exclamou Angélica.. Loucos. voltavamlhes naquele momento. Lady Cranmer teve muito trabalho para obter dos juízes este documento. — Do que mais lhes podem acusar e por que crime as condenam? Ruth sacudiu a cabeça. o queijo no escorredor. sem emoção. decidisse que não eram culpadas. No infortúnio. Salem. ao passar na frente da cerca-de uma casa. o que os tornava incorruptíveis e deixava entrever muita coisa sobre suas competências e seu furor. onde seriam mergulhadas seguidamente até que a água. Se as manifestações da intolerância puritana tinham-se apagado um pouco de sua memória. cedo ou tarde. atormentada pelo medo da morte. ao enforcamento. naquela Nova Inglaterra de alma tão gelada quanto suas margens. como o "que acabavam de atravessar. empurrados "pelo Diabo". Samuel Wexter está muito mal. os soldados não ousaram intervir. Em Salem. ao degredo ou. da qual foram encarregados pelo céu e pelo povo. prisão. de coração tão árido quanto sua terra. sofreriam. povoada de seres transidos de frio e de terror sagrado.. cuja mensagem de amor ela esquecia cada dia um pouco mais entre aqueles homens de cérebro obsedado por vosões de chamas e que se atormentavam incessantemente com os Mistérios da Palavra. Acusavam-nas ali de. podiam se lançar sobre elas e violentá-las. o que não poderiam fazer sem provocar um confusão com os merce17 .. não podiam sair de sua cabana do fundo dos bosques sem se expor todas as vezes às piores humilhações. o assobiar das rajadas de neve em volta da casa ou da Meeting House. lapidações. Não era uma brincadeira. Esta carta é uma armadilha. entre essas "terríveis pessoas de -bem". em voz alta. mulheres ciumentas podiam. escarros. amarradas a uma cadeira na água do lago. o congregacionalismo. surpreendi a expressão de muitos rostos entre a multidão que nos cercava e fiquei apavorada. quando as escutava falar de suas vidas. de fazer secar no pé as abóboras do jardim. aqueles ministros investidos de poderes desmedidos e que zelavam pelos interesses divinos. — Eu sei o que se esconde por trás disso. e as secretas ternuras que os mais rigoristas não podiam deixar de dedicar a seus pais ou filhos. dirigida por essa ramo do cristianismo atormentado. enegrecer o linho que estava fervendo na lixívia. Sua segurança de cada dia naquele lugar se mantinha por milagre. mas viria o inverno. Lá em Salem. Um dos marinheiros do barco de pesca que me trouxe esta carta contou-me que o velho Sr. aqueles eruditos e pastores que trabalhavam pela purificação da Igreja.amigos quacres ou outros. Não apenas ao pensar que essas duas maravilhosa criaturas iam desaparecer de seu horizonte. embaciar os espelhos. esse credo nascido de Cristo. paralisada por um medo constante do inferno e pelo temor a um Deus oni-potente e sem perdão. que retarda os trabalhos dos campos e os tráficos no mar. com-uma consciência ainda mais feroz e minuciosa do que a que utilizavam em seus interesses monetários. quando iam para o sabá. assaltá-las em plena praça do mercado e desfigurá-las com unhadas ou com vinagre fervente. dentre as quais eram comuns os insultos. A acumulação das acusações contra elas as levaria uma dia ao pé do cadafalso ou a-serem. não voltem para Salem. Mas isso não passava de remissão. em que outros acontecimentos tinham desviado os espíritos inquietos de sua maníaca vigilância.

— Ela continuou: — O velho Samuel Wexter pode hoje permitir-se uma serena filosofia. Parou. se inquietará. cara aos ingleses puritanos e aos reformados em geral. As curas que vocês operam não serão suficientes para que um dia as consciências se abram e para que lhes façam justiça e as deixem em paz. e menos ainda de prisão 18 . sobretudo o de Boston ou de Salem. vocês sabem. sem terem-nas feito pagar por seus crimes. nem de maus-tratos. senão porque sua vida estava ameaçada? Ele. — Angélica continuou: — Se voltarem para lá. que. lembrará que se deve ficar sempre atento para servir a Deus. de inteligência. pois é uma fatalidade que se abate sobre todo governo coercitivo não ver outfa saída para obter obediência a não ser a perseguição ao bode expiatório. Digam-me. graças sobretudo à presença de nossos homens da tripulação. como essas guerras indígenas e esses massacres de inocentes nas fronteiras. fazer uma retratação pública. procuraram honrar e não insultar gravemente. percebendo subitamente um momento de graça. ela continuou: — Oh! conheço-os muito bem! Parece que os estou ouvindo! Eles têm preciosas qualidades. de condenar. e os juízes. cujos sermões atraíam multidões! Mas ele reclamava mais liberdade para as consciências. se organizaram para viver aqui em bom entendimento. Seus poderes benéficos as preservaram até aqui. é verdade. dizendo-se que essa forma de discurso. — Depois de uma pausa. e que. por diversas razões. Suplico-lhes. no temor de que os mandamentos não sejam respeitados com suficiente rigor. e todos. que. não poderão escapar ao castigo. Receio por vocês. Mas eles despertam. assim. Ruth e Noémia escutavam-na numa bela imobilidade de fiéis durante um sermão. pude adormecer sua desconfiança. que fundou o Estado de Rhode Island. lhe prestavam a atenção que inspira uma voz patética e convincente. haverá sempre alguém que quererá ser mais exigente que o outro e que fará um sobrelanço. onde pensavam que a pequena Agar. e que bastavam para que uma sentença de morte fosse pronunciada. mas por erros como a inobservância dos ofícios. na obsessão de que um relaxamento ou uma indulgência aparentes induziam ao mal as almas fracas. de fé e de coragem. para apaziguar a cólera do Senhor. nunca mais poderão escapar desses lugares onde a perseguição contra vocês não cessará daí em diante. em suma. numerosos e bem-armados. crimes ou outra violência contra a sociedade. Este é o motivo pelo qual querem que voltem. Não toleram a ideia de que a mão de sua justiça não possa mais abater-se sobre vocês. que era um dos pastores mais ciosos de Salem. Mas via nos lábios das duas interlocutoras um sorriso resignado. Permaneçam aqui em Gouldsboro. e sua cólera é ainda maior contra vocês. e essa expressão de dúvida lançou-a novamente em seu desejo de encorajá-las a ficar e. para o pobre povo que perde a cabeça. enquanto em Salem. sempre haverá alguém em seu governo que. E é menos o bem vocês fazem que os encoraja a serem pacientes com vocês do que a certeza de que. todo habitante do lugar pode receber sua proteção. que mandou enforcar muitos "pecadores" por crimes que não tinham nenhuma relação com os de direito comum: furtos. parecia influir sobre elas. e fiquem sabendo que não foi por acaso que meu esposo os dispôs dessa forma. durante os anos em que era responsável pelo governo da cidade. mas podem também voltar-se contra vocês. apesar de ser mulher. Ninguém é perfeito. Roger William. E puderam constatar que tinham razão. como as designam. Não é uma loucura que se possa racionalizar. por que ele o abrigou a fugir em pleno inverno para a floresta. O braço não pode mais parar de golpear. que as desgraças que se abatem sobre os justos. impediu-os de rête-las à força em terra. meio sem fôlego. pois ela" é considerada de direito e de razão e está profundamente arraigada neles. leis religiosas menos severas. se quisesse. tendo John Wintrop rompido com Salem e fundado Boston apenas para proclamar leis ainda mais intolerantes e rígidas? Digam:me: estou enganada? Elas sacudiram a cabeça negativamente. como o que conhecemos nessa estada em Salem. Ninguém pode ameaçá-las de morte. mas. estou enganada? Julguei mal o espírito da Nova Inglaterra. sob a jurisdição do Sr. As mais diversas pessoas. se devem à negligência culposa. se deliberarem que eles procedem de Lúcifer. mas. é preciso imolar aqueles pelos quais o escândalo acontece. mais caridade cristã. não partam. como eu. que tinham diante de seu ardor em reclamar justiça e liberdade para elas. atitudes. até a menina em seu berço. que pese em sua consciência a censura divina por ter deixado fugir "criaturas do Diabo". — Creiam-me. provando por condenações que o torpor perigoso cessou. um pouco desiludido. Nossos alabardeiros espanhóis as cercavam. de nações e de religiões diferentes. até que a loucura se apodere deles. Paturel. e pela estima que eu tinha por eles.nários. estaria em mais segurança. — Suplico-lhes. refexões incrédulas ou que contrariavam seu poder. ao esquecimento dos preceitos. salvar suas vidas. não voltem.

crendo que éramos. livres e felizes e amadas entre os nossos. em nossos dias. Porque nós amamos e curamos por um poder que se pode supor vindo de Satã! Que governo. você o disse:" um dia. que só tem para defendê-la duas mulheres réprobas. Paturel saberia a quem confiá-la. creio que em Providence ou em Nova York. e de acalmar por sua simples presença. — Que governo poderia nos acolher. pudemos. Ali existe uma escola. mas via o mesmo doce sorriso paciente em seus lábios e compreendia que elas recusariam. e. e esta é sua fraqueza. e se as pessoas más. de me cobrir novamente com as vestes 19 . — E depois. vai conceder a William Penn uma carta.. seu simples olhar.. não poderão fugir pela floresta para alcançar a Providence's Plantation em Rhode Island ou New Haven. aqui. Agar. criadas como eles por Deus conforme Sua imagem. E por isso todo mundo olha para você. os mesmos terrores me torturam. Como uma estrela. um refúgio para os quacres. Mas este não era destituído de audácia. Ficar aqui. se vêem repreendidos. que eu seja insensível a seus apelos à prudência e que eu negue que suas advertências tenham fundamento. Não creia. Tinham. — Às vezes. poderia fazê-lo. Mas.. estejam dispostas a acolhê-la. Mas o Amor a protege. graças a sua generosidade sem limites. pode. aproveitem a oportunidade que lhes foi dada de sair ao mar para pedir asilo em outras colónias. sim. nesse estabelecimento que ele e você fundaram? Integrar-se numa dessas comunidades que se esforçam por viver em bom entendimento e o conseguem? Agar. quando penso nesta cara criatura que me foi confiada. os libertinos ou os que usam os punhos ou armas brancas. um jovem quacre de alta posição. eles também nos expulsarão. — Não. que fora. diga-me." essa oportunidade talvez não se renove. — Como lhe agradecer. e sinto uma terrível vontade. Ruth Summers colocou os braços em volta dos ombros de Noémia Shiperhall.. mas não nós. — Ruth e Noémia. Vocês têm compatriotas e correligionários. Ruth. Se voltarem a Salem. para protegê-las. criaturas humanas entre seus irmãos. uma casa.. — Pelo menos. uma casa de orações. Durante nossa viagem. fundadas como protesto con-tra o rigorismo do Massachusetts. viver no esquecimento de nossa maldição. os ladrões. desta pobre menina selvagem abandonada. e pela paz e a defesa dos cidadãos do lugar.. em lembrança aos serviços prestados pelo pai. isso não mudaria nada. Você é única. você sabe disso. o filho do Almirante Penn.. quando considero a sorte de Agar. seus humores belicosos. Falava com a esperança de obter sua adesão. os que saíram ilesos de ataques indígenas e que não puderam voltar para suas aldeias. fora de sua proteção mágica? — disse Ruth com um terno sorriso de ironia. sentido crescer a hostilidade à sua volta. ou em outra parte — disse ela vendo que Angélica estava prestes a gritar: "Então venham conosco até Wa-passau". os causadores de distúrbios. Mas pode-se também ficar assustado com a direção que a estrela indica. acrescentou: — Você é uma mulher única. Depois de um momento de silêncio. Tentem reunir-se ao grupo deles. Ali encontrarão. trata-se apenas de Amor e de Caridade.. que. A cada dia. queria fundar uma colónia. sim. elas mesmas em perigo constante. e o rei.. ela. que conquistou a Jamaica para a coroa da Inglaterra. encontramos. vingativos ou sectários. O Sr. e não poderá nos preservar para sempre. Seu pai apoiou-o em seus projetos. por maior que seja o poder que você tenha recebido como apanágio de reter as feras prontas para saltar. minha irmã. a maior parte refugiados. colocando-a ao abrigo dos perigos que a espreitam através de vocês. absolver esses pecados? E. punidos ou expulsos. Estão agrupados num local tranquilo chamado acampamento Champlain. no entanto. para o almirante. talvez exista uma esperança.. a fim de criar um território onde todos os quacres possam ficar em casa e não se arriscar a nada. minha irmã? Graças a você. o temor das infelicidades que as espreitam me acabrunha.. à sua imagem. aos governos mais liberais. Parece que. no Connecticut. de tornar-me "como as outras". se tiverem paciência. ainda que ela seja uma pobre "cigana". A realização desse projeto não tardará. é sempre com justiça.arbitrária. diz. Pois ainda não chegou o tempo em que haverá outras mulheres como você sobre a terra. era desastroso ter um filho que tivera a loucura de se tornar quacre. também nós. Não duvido que haja em Gouldsboro famílias ou pessoas de bom coração. por mais constante que seja seu coração. por mais inabalável e generosa que seja a proteção das armas de seu esposo. portanto. com espírito cristão. escutem-me. Ruth olhou-a com ternura. a cada noite. e assim poderão zelar por Agar.. ou lhes construirão. eles despertam. sozinhas. durante algumas semanas.

eu lhe suplico. escarnecida. a se atirar sobre nós e nos despedaçar. Levantando os olhos. Noémia. Tinha-lhe horror. O velho senhor está doente. — Mas eles as matarão. São filhos. ainda que o fogo interior de minha vida se transformasse. e não lamento de forma alguma esse amor que nenhuma palavra pode descrever. O véu rasgou-se.. Sentia forças em mim. Seu olhar pousou com doçura na jovem mulher a seu lado. talvez — replicou Ruth. torce as mãos à sua cabeceira. Estivera prestes a pedir-lhes que tirassem suas altas toucas fechadas. Se se tiver sido privilegiado por ele uma única vez na vida inteira. durante anos. de Peycrac e o Sr. o fariseu. ajudar sua própria natureza a triunfar sobre a putrefação que lhe corroía as feridas. diga-me. corri para arrancar Noémia do lago gelado e aceitei o Caminho. Os dons curativos saíam-lhe das mãos e do olhar. deixando-nos a vida. o guardião da lei. eu sei. Angélica deixou-se cair. sequestrada. mas afirmo apenas uma coisa: éproibido esquecer o êxtase. Poderia tê-la ajudado a lutar contra sua febre. o que você pensa delas? Um soluço respondeu-lhe. era fustigada em praça pública. — Depois de uma pausa. submetida a todo tipo de tormento para que o Diabo saísse dela. fazem-nos um presente inestimável. mas seu coração humilhado. ela continuou. me revoltei. Paturel recorreram ao capitão de um navio que voltava na hora da maré e as levaria a bordo. Fui atingida pelo Amor. o dique rompeu-se. silhuetas frágeis encapuçadas de preto.comuns. — Recolhi Noémia e amei-a. procurava-o para ouvi-lo e sobretudo para falar-lhe desse sentimento desconhecido de amor que lhe fascinara o coração em sua visão. na estrada de Damasco. O sr. Mas receava acrescentar à minha infelicidade de ser quacre a de ser apontada como feiticeira. E assim. a fim de revê-las uma vez mais com seus cabelos dourados nos ombros. depois do flagelo. e ela os distribuía. às três. quando sabem que estamos perto deles e estão seguros de que a todo momento poderemos sofrer nosso castigo. pois as coisas iam-se apagar e perguntariam um dia se não haviam sonhado com elas. recusava o caminho indicado. pela revelação do Amor divino. nossos pobres filhos. Até o dia em que fui atingida uma segunda vez. — Ela.. e não é tanto seu corpo que está doente. como você mesma notou. hereges entre hereges. desarmadas. cujo pensamento ela ignorava. elas voltaram para cuidar das bagagens. eu recusava. Tinham ainda de reunir alguns trastes. no fundo de cada um de nós. e todos eles precisam de nós. que eles doutrinam e que se mantêm prontas. procurava o ancião Ananias para pedir-lhe apenas que lhe devolvesse a visão? Não. Eles as apedrejarão. sua filha. devemos retornar a Salem. ao contato com eles. Revestia-me deleitosamente da libré comum e me tranquilizava por ter-me tornado uma pessoa igual às outras. Olhou-as descer-o caminho. tocado. a gente se lembra de que o céu se abriu. ele continua a guiar e iluminar nossas certezas nas trevas. Deixei-a morrer. ainda que seja apenas para apaziguar sua terrível cólera de homens justos ou para acalmar o terror imbecil de sua ovelhas. num tom sofrido: — Poderia ter curado minha mãe. primitivo. Então. Deixou-as distanciarem-se. Ele. e eles nos esperam. a um único sinal desses temíveis pastores. — Oh! Abigail.Estava paralisada pelo medo. — Mas. e de maneira ainda mais terrível. Ruth Sonímers baixou as pálpebras e disse. Cara senhora. desde os primeiros tempos. esgotada. nem no que eles lhe faziam. Lembro-me então de que esta sempre foi minha pior tentação e meu único pecado verdadeiro. sempre suportou sem um murmúrio a sorte que lhe era destinada pelo céu. podem permitir-se ter mais paciência. de recolocar meu pescoço sob a canga da lei que "eles" exigem. Mas não via o mal. nem no que fazia. e que devo expiá-lo. Depois de avisá-la. Pois cada hora de felicidade vivida pelo homem constrói a Jerusalém celeste. Como é doce renunciar a tudo e ser expulsa da barreira dos justos por uma tal luz! Você acredita que São Paulo. Iam. ensanguentada. loucas talvez. Com essa falta cometida. Poderia salvar minha mãe quando a levaram. a fim de se persuadir de que eram realmente os anjos que tinham vindo. eu renegava toda a minha educação. Ele também existia entre aqueles que têm nosso nome na Bíblia. e Lady Cranmer. Desde os sete anos de idade. pouco a pouco. por causa da presença de Abigail. Ignoro aonde nos leva o Caminho. rindo. Não ousara. dia após dia. Rever-se-iam no momento das despedidas. Eu. em cinzas. batida. Era desonrada. — Um dia. O medo de ser expulsa do rebanho é um medo animal. Eles as enforcarão. Dias e dias. de minha parte. Por mais amargo que sejam às vezes seus frutos. viu que sua amiga tinha o rosto mergulhado entre as 20 . no banco junto à mesa.

O que mais afligia o ancião era ter-se deixado levar em sua cólera a lançar uma blasfémia.. fora visitá-lo e encontrara-o queimando em febre. E os adultos voltaram em grupo. O governador de Orange vingou-se muito bem de nós. tínhamos uma língua comum — gemia — e que. mas carregaram-nos rapidamente de volta para dentro. nos olhavam de longe com nossas golas brancas.. quando desembarcavam para prover-se de água doce ou comprar víveres frescos. milady — garantiu o capitão — . Mas a discussão reconfortara-a um pouco. Por isso. Wii-liam. Eu penso. creio que foi por causa delas que ele escreveu: Eu os enviarei como cordeiros entre os lobos.. depois de ter deixado essas damas sãs e salvas em bom porto. a avó de Rose Ann. Angélica pensava em Samuel Wexter. — Não se desole.mãos. "Éramos mais pobres que os mais pobres". sempre enfeitados. em direção às primeiras casas em torno da praça. as maiores e as mais resistentes. desapareciam de vista. contara-lhe Mrs. — Que Deus me perdoe. assim como em relação às passageiras que um capitão aceitava levar a bordo e que devia defender com um rigor impiedoso. Levaram-se os bebés à praia para as despedidas. tal era a piedade que sentiam por nosso despojamento. e alguns nos ofereciam pequenas jóias." Os tempos tinham mudado. pois ventava muito... As três mulheres. nossas roupas escuras. CAPÍTULO V As partidas para Salem — A descoberta de Severina Berne O navio que as conduzia era uma embarcação da Inglaterra que voltava a Londres. enviando-o para nossos muros. apagava-se por trás de um promontório. Não existem concessões possíveis.". Eram de espécies tão opostas. certamente. mas ainda existia um contrato de honra de proteção por parte dos flibusteiros em relação aos piedosos deserdados das orlas. Avisarei Andros. A cena com o jesuíta o arrasara. e Angélica quis confirmar se fariam escalas em Massachusetts. — E. Enfim. dançando sobre a crista branca das vagas. latim ou não. sempre vi as discussões entre teólogos da Reforma e do catolicismo terminarem mal. Que Deus me perdoe por tê-las julgado. empregaríamos. O esquife que as levava ao navio na enseada se afastou. tanto um como o outro. ergueu novamente a cabeça. no entanto. Não pensei nisso. a passo lentos. Cortava-se a língua a um pobre-diabo por menos que isso.. Ruth tinha razão. que era entre esses rudes homens do mar que as pobres puritanas se encontravam mais seguras. Certamente. e ele fora para a cama no dia seguinte. — Os ingleses tomaram-lhes a Nova Amsterdam e os territórios da Nova Holanda.. julgando-o mais atingido em sua alma que em seu corpo. muito mal. A chalupa diminuía. 21 . com mais facilidade do que nossos idiomas mútuos: o latim. todo navio que faz a travessia do Atlântico começa por deter-se em Boston para se abastecer de maçãs. Mas as de Salem são tão boas quanto as de lá e nos contentaremos com elas. Angélica. nesta estação. modestamente sentadas entre as sobrecasacas vermelhas dos oficiais e os tricórnios engalonados. "e" esses ferozes bandidos do mar. Os holandeses nunca perdem uma oportunidade de nos meter em apuros. carregam-se tonéis cheios na coberta. encapeladas aquele dia. repisando as acusações que o irascível interlocutor lhe lançara ao rosto e as que não tivera sangue-frio para devolverlhe. Elas são as mais belas. pouco antes de partir. Mas jamais teriam pensado em nos fazer mal. Sir Samuel.. para a saúde da tripulação. — Esses jesuítas são hábeis em nos tirar do eixo. A jovem rochelesa calvinista levou um certo tempo para dominar sua lágrimas. — Não teriam dado a esses escritórios o progresso que lhe demos. Nunca se ouvira dizer que piratas e flibusteiros tivessem alguma vez molestado as virtuosas mulheres dos primeiros estabelecimentos religiosos da costa norte da América.

Angélica pensava nas palavras muito importantes que Ruth lhe dissera e sobre as quais precisaria refletir. "Como ovelhas entre os lobos!. os seres e as coisas. O mar impávido se retiraria. depois voltaria. pois ele só estaria naquele lugar por uma distração de São Pedro. à sombra. muitas coisas acontecem quando não se está ainda pronto. e a colocar o pé na areia e a correr.. a estender os braços e os punhos. batalhas. — Oh. dirigido pelas Sra. obscurecendo o sol. Angélica observava que sublinhavam. Um bando de pássaros passou piando.. girando. abandoná-los. que igualmente se encontrava perto. Carrere e seus filhos. buscando a maré alta dos pontos para pousar. Joffrey enlaçara-lhe a cintura. seus ramalhetes de espuma. para ver apenas a beleza das flores dos jardins.Ou apreciar as delícias do chá da China. O canto dos grilos e das cigarras nas dunas e junto 22 . "Minha vida era outra. tinham colocado o pé. partidas.Esperaram o navio singrar em direção ao horizonte.. com o original Lorde Cranmer. enquanto a multidão se dispersava e grupos de pessoas se dirigiam para o Albergue Sob o Forte.." Todavia. O que iria acontecer-lhes em Salem? — Ah! eu não poderia viver na Nova Inglaterra — suspirou.. e em seguida fugiam para longe. deveria ter oposto minha força àquela que se erguia diante de mim. Ruth dissera-lhe "Você é uma mulher única". Eles a provocavam. esqueceria os incovenientes das intransigências puritanas. de Peyrac não se poria imediatamente a decidir alguns acertos para tornar a situação menos." depois lançaria para o céu. na verdade.. sob sua guarda e sua dança. "Aprendi a odiar o mar e os pássaros que passam. Falara dos poderes. chegadas. Cranmer.. às tempestades. abrasiva? — continuou Peyrac. — Esqueceria o mau humor de Mrs. — Mas todo mundo está contra mim! — disse ela. — Certamente. ao cabo de algumas horas. o ódio por um ser? Seu pensamento voltou a deter-se nas duas mulheres caridosas que tinham voltado. bainha fremente que avançava às escondidas em galope. a dor com que Ruth se expressara ao dizer: "poderia ter curado minha pobre mãe. Sr. nascimentos.. batendo nos rochedos. levando seu segredo de amor e de ternura. a Sra." despertara o eco que atormentava sua consciência quando pensava no jovem Emanuel: "Eu poderia tê-lo salvo. — Em que lugar. As outras pessoas não viam nenhuma coincidência. o amor. aos acontecimentos ocorridos em Gouldsboro. até deixar apenas um deserto de algas pardas até o horizonte.. sim. mais tarde: quando estivesse em Wapassu. — Conte! Conte o que mais você fará quando estiver no inferno — implorou a pequena Honorina. dessas forças ocultas que Angélica possuía e que a feiticeira Melusina reconhecera nela. para deixar a praia. no mesmo tom de brincadeira afetuosa. Prefere-se naquilo que está estabelecido" Voltou a subir a praia. Mas essa era uma ideia dela.. Nesta mesma areia. Ela o faria entrever o perdão de sua pena. A vida obriga-nos a selecioná-los. tão bela e constante em toda parte! Ficaram Um bom tempo no albergue. E as pessoas continuariam a ir e vir.. para se interessar por seus amores atormentados. trazidas pelos índios. como estavam habituadas às pescas milagrosas.. a natureza. o ciúme. não encontraria alguns encantos? Não é verdade. — E o faria. -Mas a infância tem as mãos cheias de tesouros. Estavam habituadas a essas nuvens de pássaros. gostavam de seu amor pela vida. Os dias começavam a ficar mais curtos.. Ela sentia seu caloroso sentimento expressar-se através das brincadeiras. enquanto os irmãos Car-rére acendiam QS candelabros no teto e as lanternas. Angélica olhava os pássaros pensando na confissão de Ambro-sina. Apareciam com frequência e chegavam como a tempestade. continuou viagem. Mas não naquele momento.. negligenciá-los. em sua infância.o que teria discernido ao primeiro olhar. parou. quando a cortina ainda não se rasgou.... Paturel? — Certamente — respondeu. às peles. poderia perfeitamente — disse alegremente a voz de Joffrey junto dela. uns trazendo o ódio. quando não se deseja ver bem claro. tentando entender-se com algum diabrete um pouco menos mau que os outros. depois de passado o primeiro choque... no fim de algumas horas. porque você os amava. mas. Poder-se-ia exprimir mais intensamente a inveja. outros. . — No próprio inferno. o sólido normando. como uma manifestação pessoal. — . com todas as velas abertas.. rindo. que andava por ali entre eles.

aos bosques tornava-se menos veemente. Mas podia-se prever a chegada do Gouldsboro para dali a dois dias, e os preparativos para a caravana, exceto algumas encomendas que seriam acrescentadas quando o navio chegasse, já tinham sido feitos. — Vou ter de arranjar um escriba — observou o Governador Paturel. — Que quer dizer? — perguntou Angélica. Foi assim que soube que Natanael de Rambourg tinha voltado com o navio inglês. Ele resolvera voltar para Nova York, a fim de poder discutir com o intendente Molines as possibilidades de entrar na posse de sua herança, composta de terras e fazendas, na província do Poitou, na França. Avisara ao governador e ao Sr. de Peyrac sobre suas intenções, pedindo-lhes o obséquio de adiantarlhe uma soma em dinheiro e assinar-lhe algumas letras de câmbio, que lhe permitiriam viver decentemente até chegar a Nova York e pagar sua passagem a bordo dos navios ou das diligências pastais que já circulavam com bastante regularidade entre Boston e as margens de Hudson. Angélica, com efeito, pareceu ter visto um ou dois chapéus puritanos numa chalupa, mas pensava que se tratasse de valões ou de valdenses decepcionados, que estivessem voltando para lugares menos contaminados, e estava longe de pensar que sua região, o Poitou, lhe pregaria uma peça. — Poderia ao menos apresentar-me seus cumprimentos! Que sujeito engraçado esse Natanael! Do lado de fora, os Berne vagavam, procurando Severina. Ao saber da partida do jovem Rambourg, inquietaram-se, pois não a encontravam em parte alguma. Talvez tivesse ido esconder-se, para dissimular um sofrimento atroz. — E se tivesse embarcado com ele? Foram de casa em casa interrogar os vizinhos e os transeuntes, primeiro com um tom despreocupado, que se tornava, porém, mais nervoso à medida que continuavam as respostas negativas. Gabriel Berne subitamente quase quebrou sua lanterna, num gesto de fúria. Conteve-se para não jogála ao chão, tal era sua cólera contida. Deu meia-volta e declarou que ia ao porto procurar uma barca, um iate, um navio, qualquer coisa que fizesse vela para o sudoeste. Passaria ali o inverno, se fosse preciso, mas perseguiria aquela ordinariazinha até a Virgínia, o Brasil, a Terra do Fogo. Sempre fora uma cabeça-dura, indisciplinada. Sempre quisera ser menino. Ele lhe ensinaria como uma mulher deve se comportar e ficar em seu lugar. Mas, também, ela tivera maus exemplos... Angélica acompanhou Abigail, toda trémula, até sua casa. — Estou transtornada. Receio por Severina. Gabriel é muito bom, mas no fundo é violento e desconhece a força que tem. Pode se tornar muito perigoso, se deixar explodir sua cólera. — Eu sei como é! Não fique com medo. Vou falar com ele,' e não o deixaremos partir sem chamá-lo à razão. Alguém irá com ele, se for necessário. Pela porta aberta da casa iluminada, a voz de Severina escapava, cantando os versos do salmo 129, Saepe expugnaverunt me musicado por Cláudio Goudimel: — "Desde minha juventude, fizeram-me mil assaltos Mas não puderam vencer-me e me destruir". A sala comum estava acesa. Severina instalara a pequena Elisabete diante de sua sopa com leite e acalmara a garota com um pedaço de pão. Laurier colocava as tigelas na mesa para o jantar. Enquanto vocalizava, Severina continuava a fazer as conservas, manejando a concha como .teria feito com uma batuta de maestro, escumando o cozido, depois arranjando os filés de cavalas e de arenques nos potes com vinagre. — Onde você estava? — Não muito longe... — Nós a procuramos por todo lado. — Por quê? Enviaram Laurier para avisar Mestre Berne. Angélica saiu mais tranquila. Ia dar um jeito de interceptar Gabriel Berne no caminho de volta e pedir-lhe que não bancasse o pater familias romano com a filha. Pois, sob o peso do medo e da cólera que havia sentido, era capaz de darjhe uma surra, quando não tinha nada a cei^urar-Ihe. Certamente conseguiria acalmá-lo perguntando-lhe o que quisera dizer ao falar de "maus exemplos recebidos por sua filha"... Ela, Angélica, que levara a jovem a uma viagem de recreio, tinha algo a ver com a alusão?

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Um passo leve alcançou-a no caminho. Severina deslizou um braço sobre o seu e ergueu o rosto para ela. Uma lua fina e uma sementeira de estrelas começavam a difundir uma luz suave ao redor e se refletiam nos olhos negros da adolescente. Disse, com fervor: — Obrigada. — Por quê, minha cara? — Por essa carta sobre o amor que me leu. Pensei novamente em seus termos e sobretudo naqueles do parágrafo sobre o amor dos amantes. O Verdadeiro Amor. Isso me ajudou a compreender o valor do que eu sentia... A não confundir o interesse, o divertimento e o sentimento. A não me perder, nem me deixar assustar por fantasmas... Tomou-lhe a mão para pousar-lhe os lábios. — Obrigada... E tão bom que você exista! CAPÍTULO VI Presépio negro — As razões de Joffrey de Peyrac Ainda não era Natal, e, se o nevoeiro espesso que envolvia a natureza não consentia em fundir-se abruptamente senão para deixar entrever o fantasma de uma silhueta humana tateando com o pé seu caminho ou a girândola de uma pequena bétula subitamente transformada em ouro ou o intenso braseiro de uma cerejeira silvestre que resolveu revestir, antes das outras, sua folhagem vermelha, se o grande manto cinza e vaporoso, que a baía dos Franceses gosta tanto de exibir, bancando a misteriosa e a tímida, quando não existe outra mais ousada e desenvolta, se essas cortinas, velas e echarpes de sonho descorado faziam reinar, naquele dia, uma claridade invernal enganadora, ninguém esquecia que estavam apenas nas primícias do outono. E, no entanto, com o número de pessoas que se puseram a caminho, cheias de alegria e curiosidade, cada qual querendo se munir de um pequeno presente, com o frágil apelo de um sino abafado pelas brumas, mas que convidava curiosos e trabalhadores a parar suas brincadeiras ou suas tarefas e se dirigir, intrigados e enternecidos, a uma pobre cabana, havia como que uma evocação de Natividade e de Epifania em volta do presépio. Só que o Menino Jesus era negro. Por mais discreta que tenha sido a passagem desse nascimento durante a noite, na casa de toras de pinheiro onde se alojaram os escravos comprados em Rhode Island, seu anúncio correra desde a alvorada de uma ponta a outra da região e até no acampamento Champlain, onde o Pastor Beaucaire teve a ideia de tocar o sino de sua capela para avisar seus fiéis. Apesar da neblina, as famílias puseram-se a caminho, a pé, a cavalo ou em carriola, de que já havia três modelos, além dos carros de boi. Em Gouldsboro, sendo ou tendo sido a maioria gente do mar, navegantes,, mercadores ou habitantes dos portos, não tinham do que se admirar à vista de indivíduos de pele negra. Existiam muitos na França, entre os domésticos dos grandes senhores, e até em Versalhes, para estarem habituados, e a chegada de um pequeno grupo de negros passava quase despercebida, misturada ao desembarque de todas as mercadorias que era preciso descarregar e despachar ao mesmo tempo. Mas o nascimento de uma criança negra, pela primeira vez entre eles, despertou-lhes o entusiasmo. De temperamento fogoso e não entediado, estavam sempre prontos a saltar ao menor pretexto de novidade e de júbilo. ' As crianças, principalmente, se agitavam de curiosidade ao pensar em ver como era feito um bebe negro, como se, em seu espírito, os negros adultos que tinham tido a oportunidade de ver tivessem sido pintados dessa cor depois. Ficaram um pouco decepcionados, pois o recém-nascido que lhes mostraram, encolhido nos braços de sua mãe, era antes de um tom avermelhado bem escuro. - A mesma cor das nozes de palmeira com as quais fazem seu óleo vermelho na floresta — comentou um antigo flibusteiro que fizera várias expedições ao centro da Africa, aparentemente a serviço de um negreiro. Os índios presentes achavam-no de sua cor, o que ao mesmo tempo os lisonjeava e inquietava. Mas a maior parte das pessoas avisadas observavam aos presentes as partes genitais do recém-nascido, de um belo violeta-escuro, bem escuro, o que significava que dentro de alguns dias o homenzinho ia se tornar 24

inteiramente negro, como um pedaço de antracita, tanto mais que o pai e a mãe eram muito pretos, sem qualquer traço de mestiçagem. A jovem negra, estendida no chão, recoberta por um tecido leve com desenhos coloridos, os ombros apoiados em uma almofada de crina, sorria com essa expressão de satisfação e de repouso das mulheres para as quais um parto talvez seja a única ocasião que lhes é concedida, em toda a sua vida, de poder se mostrar em público numa atitude de descanso. E não só sem incorrer em censura, mas para, circunstância também rara, receber felicitações e cumprimentos. Com uma consciência muito ciará de sua importância e de seu papel, ela aceitava a presteza dos curiosos que se acotovelavam à porta, e havia disputas para passar à frente. Mas ninguém, entretanto, ousava penetrar no interior para oferecer os presentes preparados. Eram detidos em seu impulso pela presença dos outros ocupantes da casa, que mal se viam na penumbra que a luz do dia, bastante fraca, quase não dissipava, filtrando-se através dos pequenos caixilhos das duas janelas revestidos de pele de peixe seco. Era difícil distinguir os traços e as expressões dos companheiros da jovem parturiente. Viam-se apenas seus olhos brancos, incrustados com uma íris escura e fixa, pupilas que se deslocavam aos pares seguindo seus movimentos: em pé, sentados, à direita, à esquerda. Era impressionante! Um pequeno fogo na terra lançava de tempos em tempos uma luz e modelava um rosto. Descobria-se, de pé, um pouco afastado, um homem de uns trinta anos, vestido com a camisa e as ceroulas de pano branco dos escravos das Antilhas que trabalhavam nas plantações de cana-de-açucar. Ele segurava seu chapéu de palha trançada diante dele, com as duas mãos, numa atitude de polidez digna, que deviam ter-lhe ensinado, ainda criança, a observar diante do amo. Não era o pai, afirmavam alguns, avisados não se sabe como. O pai era aquele que estava no fundo do quarto, sentado, imóvel contra a parede, com os braços em volta dos joelhos. Sua face simiesca provocava murmúrios; e o viajante da Africa começou a contar histórias de homens das florestas que eram na realidade grandes macacos muito negros, muito ferozes, avistados entre os ramos, difíceis de matar e, muito mais, de capturar. Ele os vira, mas não de muito perto. A grande mulher sudanesa e seu filho de dez anos inspiravam, por outras razões, desconfiança. Mantendo-se à cabeceira da parturiente, deixava supor que, se assistira sua irmã em escravidão, não fora sem desprezo, pois ela era de outra raça, superior àquela dos bantos da floresta. A jovem mulher parturiente era a única que parecia à vontade e confiante.JVlantendo a pose graciosamente, e com as pálpebras baixadas sobre o filhinho em seus braços, fazia o possível para que cada visitante pudesse vê-lo e admirá-lo, pois, naquela dia, ele era o herói. — -Não podiam cobrir essa criança? — perguntavam as donas de casa, Respondiam-lhes que, se a mãe achava conveniente expô-la assim nua, tinha suas razões. Não se deve contrariar essa gente em seus costumes, e provavelmente ela desejava fazer aos visitantes a delicadeza de avisá-los sobre o sexo da criança, sem que tivessem o trabalho de perguntar. E, além disso, apesar do nevoeiro, não fazia frio. O tempo estava úmido, morno... A criança não corria o risco de ficar doente. Tagarelavam muito no nevoeiro, em volta da barraca, quando Angélica chegou, em companhia de Honorina e de algumas criadas. Joffrey de Peyrac e Colin Paturel chegavam no mesmo momento, trazendo ao novo cidadão de Gouldsboro suas homenagens, e Siriki os acompanhava em sua libré amaranto, Carregando um copinho, girando um olhar ansioso, e visivelmente muito emocionado com a oportunidade que lhe permitia, sob o pretexto de entregar um presente da parte dos Manigault, aproximar-se mais da dama de seus pensamentos, a bela Akashi. Os três visitantes, como eram altos e tocavam o teto, tiveram de se ajoelhar. Pela manhã, o Conde de Peyrac mandara trazer víveres, frutas, leite e o corte de tecido de chita estampada com a qual ela se cobria. Entregava-lhe agora uma seleção de outros tecidos bem dobrados, floridos também, e outros, de cor viva. A Sra. Manigault enviara Siriki com algumas bagatelas. Ela achava ridículo deslocar-se pelo nascimento de um negrinho, ela, cujo marido controlava, em outros tempos, o comércio de "madeira de ébano" que transitava por La Rochelle, mas, já que todo mundo o fazia e queria levar seu presente, não ficaria em dívida. Os brincos de argolas, os colares de cornalina, os alfinetes e broches pontilhados de falsos brilhantes, jóias de pacotilha reservadas às tratativas com os reis africanos e das quais ela trouxera — por quê? — alguns saldos, encantaram a jovem mulher, pelos menos tanto quanto a pequena 25

em nós. O ouro e as armas não bastavam para triunfar. — E as mulheres. quando ele se realiza. Apenas o apelo cavernoso das sirenas de nevoeiro. e franqueamos o ano e ganhamos. a coragem para atravessar a prova da sobrevivência. e além disso não possuíamos nada. aceitar ofensas e fadigas sem jamais se queixar. quase decepcionada com você.. fetiche que levava ao pescoço quando o raptaram e do qual jamais se separara. Podiam julgar-se num deserto ou nos limbos de um sonho. Julgava-a tao tola que não pudesse compreender quais eram seus objetivos. censurando-o por não me fazer confidências suficientes. com um constante bom humor e fé em nossa vitória. soava do alto da plataforma para anunciar que as refeições estavam na mesa... Disse-lhe naquela ocasião: "Temos de vencer um ano." Eu a vi carregar lenha nas costas. E isso já há quase três meses. os alcançava intermitentemente e. o chefe dos garçons.. A neblina dessa vez tornava-se tão densa que não se via mais. Tudo estava por construir. — Por que "enfim"? — Porque não me disse ainda por que os comprou quando passamos por Rhode Island antes de ir para Nova York. lançado pelos pescadores que tentavam voltar para a margem sem fazer colidir seus barcos. que era de cumulá-la. evitar as armadilhas. antes mesmo de se ter plantado uma estaca. surpreso. Eu a vi enfrentar os perigos. O que era meu comércio de chocolate em Paris ao lado do que você constrói. sem se desinteressar pelo mínimo detalhe. Siriki deslizara para junto de Angélica.esmeralda de Caracas que Colin Paturel lhe ofereceu. a gente continua em alerta. — E agora. cuidar dos doentes... tinham mesmo assim atingido seus ouvidos. eu me perderia. por que não me questionou no primeiro dia? — Com efeito. num carinhoso movimento de contrição. em vez de se alegrar. de seus propósitos?. vendo-o movimentar-se como comprador entre os mercadores. Certamente. Você me traz todas as felicidades numa bandeja de ouro. o ruído das vozes já se amortecia. Então. cumular. enquanto. Quanto a essa aquisição de escravos negros em Newport. Lembra-se de quando chegamos aqui? Tudo eram ruínas atrás de nós.. ademais. pouco antes. "a ponta dos sapatos". Não lhe oculto nada. as notas longínquas espaçadas da trombeta de caça que o Sr. voltava ao forte. Não adiantava ser o mais atencioso dos maridos. passar fome. enfrentar a fúria iroquesa sem tremer. Tinha uma espécie de receio. eu não haveria de querer saber tudo.. e ela bem que merecia. Colin fez-lhe um sinal. que tem o dom da felicidade. pelo menor elo da corrente de que necessita para forjar sua vitória e assegurar nosso poderio. suas intenções para o futuro próximo ou distante? Pensava que ela era indiferente ao que ele fazia? Subitamente ela caiu em si e deixou a cabeça pousar no ombro dele. você. Só temos de ser felizes. Mesmo porque.. que haviam se eclipsado com tal celeridade que pareciam ter passado através das paredes. a fim de lhe pedir conselho. e eu me atormento por ninharias! Joffrey sorria. não viram mais sinal da grande negra e de seu filho. meu anjo? 26 . hoje. eu estava inquieta. mais ainda. sinto vertigens. Joffrey levantou a sobrancelha. perturbada. recomendando que a criança a usasse para afastar a má sorte. — O homem demora a entrar na realidade da felicidade — disse ele. olhando à volta. — Oh! meu caro senhor. vai enfim me explicar por que fez a compra desses escravos? — perguntou um pouco mais tarde Angélica. A alguns passos da cabana. apoiada ao braço de seu marido. Luta-se para atingir um sonho. Era preciso. — Receio de quê. com a segurança dos homens que fazem sua escolha e a desenvoltura que esse tipo de comércio confere a eles. eu sou tola! Quando penso nas mil tarefas que assume e nos mil planos que trama. se minha diligência a intrigava. sim. segundo uma expressão corrente. do que realiza! E eu só fico me deixando mimar. posso realizar meu sonho. Ia uma vez mais zombar dela. de lhe oferecer enfim essa vida agradável e livre que você sabia tão bem desfrutar. Tis-sot. ainda assim havia coisas que lhe escapavam! Não era normal que ela quisesse ficar a par de suas preocupações. se não mais. realizar uma proeza e. Ela julgava hábil de sua parte aproveitar-se da oportunidade para entregar a Akashi um presente pessoal? Mostrou na concavidade da mão uma pequena máscara triangular esculpida em marfim. avisando-o de que ainda não iniciara as negociações..

revelados e diferentes de nós mesmos. O "por que" e o "porquê" confundem nosso instinto. oferecem-no aos deuses. Ria a ponto de perder o fôlego. Avançamos no caminho. Ela observou-lhe. O abismo entre nós. Que um aspecto de você. Oh! meu querido tesouro. — Não! Falo do caminho no qual andamos.. que. ia aparecer e me revelar que você era. com uma voz contida. ia condená-la. — De saber o quê. de lança em punho. não sei. o piar de uma gaivota invisível responder a esse riso... vou 27 . É verdade que a bela Akashi pertence à região dos garimpeiros de ouro de um rio de que não se conhecem todos os meandros. Receio que tenha apenas conseguido fazê-los ficar insuportáveis. levada para sempre àquela situação servil à qual seu exílio.. esses aspectos e esses rostos. não só de todas as minhas provações. como não tínhamos parado de avançar desde o-dia em que o raio atingiu meu coração... ele mudava e vivia mais ao sabor de sua fantasia.. Assim. meu coração? — Sei lá. — Tão distante que me surpreende ter sido eu aquele que atravessou tantos acontecimentos sozinho. privada de seus poderes sobre seu povo. por ora. já que você necessita de "porquês". mas sem rigor. quando não o via aparecer. para si mesmo. O Sr. privada de seu povo? — Procurava uma esposa para Kuassi-Ba? — A ideia me ocorreu.. talvez. a mim. Tissot sabia que. entretanto. Kuassi-Ba participou. sem você. que se assemelhava à sultana Leila. pequena dama? — disse. e sua guarda espanhola parava de andar de lá para cá. fingindo-se ofendida.. tinha apenas de mandar seus ajudantes para a cozinha para aquecer seus pratos. falando um inglês impecável. — Não seria a primeira vez. Joffrey de Peyrac inclinou a cabeça para trás numa gargalhada. que ele ainda não lhe contara por que comprara essas pessoas em Rhode Island. longe de seu reino. o Trovador do Languedoc.. e pude confiar-lhe o andamento dos canteiros de extração e de transformação do mineral segundo meus processos químicos. Que queria empregar escravos. tão feminina! As pessoas da casa do conde conheciam sua maneira de viver quando ele estava em Gouldsboro. na névoa acima deles. minha querida. Por que fui zanzar pelo mercado de escravos em Newport? Por que me pareceu intolerável ver a grande mulher peuhl. e isso era de uma importância capital. E o Rescator não ia ao batistan de Cândia para adquirir odaliscas? — E não se arruinou comprando a mais bela mulher de olhos verdes do mundo e que lhe escapava por entre os dedos? E punha-se novamente a rir. — O que há de tão engraçado? — perguntou Angélica. continuando enquanto isso a tratar de um número infinito de questões pendentes... nossos desejos. Os ecos de sua alegria repercutiam no nevoeiro. que é uma força preciosa em nós. E um sábio... mas não desejo que ela nos leve muito depressa ao forte. e ouviu-se.. Perguntou-lhe se não estava com frio e jogou uma aba de sua capa sobre os ombros dela. passeava com ela. naquele estado de humilhação e sem recursos. como os outros.. que estava. E um perito em minas. que julgava saber tudo sobre a Arte de Amar. Voltando a seus domínios. e. não querendo contrariar o severo código que regia os dias partilhados entre preces. sobretudo devido a essas ideias tão inesperadas concebidas por ela! Mas ela lhe agradava assim.. — O "Mediterrâneo? Você não sente como tudo isso está distante. mas de todos os meus trabalhos. pois não estou certo de que esse método de pensamento e de julgamento possa aplicar-se a todos os nossos impulsos. compõem nossa história de amor... principalmente. — Seguimos uma trilha. mas sem razão. dobrar-se à disciplina e às horas de seus anfitriões. por exemplo. Nada mais que isso. comprando a bela mulher somali. E. nossos medos ocultos e indefiníveis. — O que eles fazem com esse ouro? — Jóias. O filósofo Descartes quis tornar os franceses conscientes das razões de seus atos... vira-o muito seguro. Continuamos no caminho certo? — Espero que sim — disse ela com vivacidade. — E se eu lhe dissesse.. estudos e trabalho. Na Nova Inglaterra. nesse ponto.. Você possuiu escravos no Mediterrâneo. que me era desconhecido.— De saber. Puseram-se a rir os dois.

ainda mais divididas entre franceses e ingleses. sem se preocupar com o comércio das peles com o qual a Nova França seria prejudicada. depois. Cavaleiro de La Salle. vendo-a ficar silenciosa. Colbert e de seus serviços indiferentes quanto a sustentar melhor a obra de civilização. o outro em Saint-Domingue. assim como a um tio ou um irmão da moça que lhes dera guarida. suscitada em mim por um vago pressentimento que me fazia recear pelo bem-estar da criança que esperávamos. Ninguém em torno. como também me dizia o holandês. com pressa e terror. diziam os olhos voltados para ele. de pôr um paradeiro nas discussões com o bispo. Era preciso apressar-se a responder. por que um beijo não pode ser eterno? CAPITULO VII Notícias de Quebec Um pequeno navio transportava um correio completo de Quebec. e Florimond.. . uma ama-de-leite poderia substituí-la no aleitamento. que continuava a excomungar os "viajantes". Estávamos na América e não em nossas províncias da França. com efeito. ainda que essa razão tenha sido. creio que você foi bem sensata para não questionar naquele dia. de Frontenac. não poderia dizê-la tampouco. Descartes. um na ilha de Saint-Eustache. o destino mais uma vez brincou com nossos planos. Bem. Joffrey foi ao seu encontro no forte e sentou-se perto dela para ajudá-la a separar as cartas das autoridades. E até o fim do mundo eles se beijaram. solto no mundo. não podia ainda sujeitar-se ao esforço de escrever. vira-se no norte. Estava familiarizada com a vida dos brancos e me disse que já tinha amamentado um filho de sua ama. Eu o adoro. Eis a história que os trouxe a Rhode Island e.contar-lhe que a comprei porque o capitão holandês disse que ela era invendável. Compreendendo que Angélica. e enfim sobre a intolerável ingerência dos jesuítas nos negócios de Estado. onde se pode encontrá-las facilmente. Queria assegurar-me de que. como pudemos constatar. vejo-a novamente abrir os olhos inquietos e vou tentar. uma mulher. Pois a verdadeira razão que me levava a procurar alguém no mercado. Apanharam-nos três meses mais tarde e os venderam. a procurar. juntos. de enfrentar a incompreensão do rei e do Sr. — O menino? — Olhe bem para ele da próxima vez que o vir e compreenderá. — Você me deixa louco! Por que. se fosse preciso. devolveram-na de graça. e seus lábios tornavam a se juntar. culpados de levar aguardente aos selvagens. 28 . e ela se revoltou e fugiu para as montanhas com um escravo africano que acabava de chegar. Olhavam um para outro. Mas a expedição mudara bruscamente. apesar do prazer que sentia em receber notícias de seus amigos. fantasia do jovem louco. Estavam juntos. dar-lhe uma explicação que agradaria ao Sr. ela mesma. mas não daquele tipo. o governador. — Vamos! — disse ele finalmente. que me pareceu preencher todas as condições. Uma "mercadoria calamitosa". morreram algumas horas depois. aquele explorador à procura do mar da China ao qual Joffrey de Pey-rac já concedera seu apoio financeiro para uma expedição para lá do lago de Illinois. Havia também um recado do Sr. que não sabia o que fazer com ela. ainda assim. Você me escutou? — interrogou-a. ela e seu filho feiticeiro. . as do Sr. Mas seu próprio filho foi vendido logo depois. que dela fazia parte e que se supunha estar no sul. Quando o capitão passou de volta por lá. A névoa molhava seus lábios de sal. Notei essa jovem negra "marrona" de Saint-Domingue. Mas. se beijaram. a fim de aproveitar a embarcação que voltava ao Saint-Laurent e devia atingir a cidade antes que o rio fosse tomado pelos gelos. "Eu o adoro". para nossa casa. — Com toda a minha alma. Acho que fiz com eles um contrato verbal que satisfazia a ambas as partes. Os dois plantadores que a compraram.. do intendente Carlon. todas eivadas de longas queixas sobre as dificuldades de manter o orçamento da colónia. Silêncio. Em suma." Pararam em seu lento passeio. "só tenho olhos para você nesta terra. mas da qual trouxera preciosas informações sobre as margens da baía James e da baía de Hudson. Só queria uma coisa: pousar os lábios nos seus.

vinha do Sr. avisava que ia para a França a fim de obter subsídios para uma nova viagem ao. o inspetor-geral. que matou . tiveram de reconhecer que o animal incriminado só podia ser o "glutão" domesticado de Cantor. ou menos nos fazer prisioneiros. desde nosso primeiro encontro. de La Salle. e nos suprimir na mesma ocasião. para onde certamente não podia levá-lo. acerca de seu fiel companheiro da América. como teria feito um mandado de prisão contra um bandido de alta periculosidade. empregava com frequência suas aptidões militares junto à milícia ou nas expedições do exército. ela se comprometera a transmitir-lhes de sua parte um processo verbal que emanava do Cartório Real em que lhes reclamavam o "pagamento da multa de dez libras de Tours e cinco sóis por contravenção ao artigo 37 do Regulamento de Polícia estabelecido pelo Conselho Soberano sobre a sugestão do intendente e que estipulava que era proibido deixar vagar pelas ruas em liberdade os animais domésticos. antes de embarcar para a França. Uma carta bastante curta. Le Bachoys fazia em sua carta a crónica da Cidade Baixa e das aventuras galantes do inverno. dirigidas a Angélica. A Sra. d'Houredanne também falava do glutão. Maisonneuve. vira o bicho duas ou três vezes durante o inverno. Tinham-lhe dado o nome que designa em inglês essa grande lontra. Não deve ainda estar a par de sua morte. devia tê-lo devolvido à floresta. a fim de poder com elas alimentar-se. — Pode ser que seja outro carcaju. pois tinha uma quizília contra nosso Wolverines. Wolverines. Monge-guerreiro. 29 . mas encantadora. que não executou aquele dia a missão de que estava encarregado e que consistia em queimar Katarunk. — Caro Cláudio! — murmurou. As outras missivas. tão detalhadas quando possível. chamado às armas como o desejava sua ordem. Foi graças a isso e ao sentimento de simpatia que lhe inspiramos. o Sr. e que sabiam com certeza pertencer a eles.. Intrigados. numa época de tanta penúria para a amizade como a representada pelos seis ou oito meses de inverno. mas que permanecera em Quebec ou nas vizinhanças.O Sr. de Chambly:Montauban sustenta a reclamação do escrivão. Depois de estudá-los. a quem chamavam o Senhor de Wapassu. caldeirões virados etc.Illinois. contava que sua criada inglesa. Mas a Sita. lembrava-se de um dos mais generosos associados de suacomandita. Na longa epístola que acompanhava seu envio de dois livros. se estes se mostrassem com disposição para prejudicar a população.. bastante surpresos. Sua filha. no momento da fundação de Ville-Marie du Mont-Réal. de Frontenac como membro do Grande Conselho de Quebec. em sua carta. Mas o Sr. nosso posto. Estava muito feliz por ser avó. durante o inverno e principalmente a noite. — Sacrificou por nós seu entendimento profundo com Sebastião d'Orgeval.seu horrível e cruel dogue. de carcaju. e presentemente assistia o Sr. que continuava a morar em sua velha casa da Cidade Alta. Dobrou a carta. barreiras demolidas. dando noticiasse reclamando-as. e embora o caso lhe parecesse mesquinho e estúpido. de Chambly-Montauban. aves roubadas. pois é um coração sensível e amoroso. — Ele não estava meio apaixonado por você? — perguntou Joffrey. seu melhor amigo desde a juventude. o Cavaleiro de Malta que fora em outros tempos um dos primeiros companheiros do Sr. de Gouldsboro e de outros lugares. O que será que vai dizer quando o souber? Suponho que sua dor será imensa. A Princesa de Cleves e A regra dos jesuítas. causara todo tipo de prejuízo aos particulares. Diversas vezes. eram de caráter amistoso. debruçaram-se sobre a papelada em questão e os considerandos que lembravam a Angélica as brigas urbanas e homéricas de Ville-d'Avray com o escrivão de Quebec. O jovem. Cantor. um animal de sua comitiva. casada com o Sr. A respeito de seu genro. Seguia uma lista de prejuízos: baldes de couro furados. Jessy. E que chegou a ponto de expor sua cabeça no galho de uma árvore. — Acho que ele ama a nós dois. que tem às vezes o tamanho de um carneiro novo. acabara de ter um filho. de Loménie-Chambord. inspetor-geral das estradas da Nova França. de Peyrac. em que sociedade da Nova França ficava isolada do resto do mundo pelo gelo do Saint-Laurent. Primeiramente. e que os franceses chamam de glutão e os índios. de suas relações de Quebec. E ambos confessaram que nunca tinham se perguntado sobre as decisões tomadas por seu filho caçula. — Ele já estava quase selvagem de novo enquanto estávamos em Quebec — observou Angélica.

uma parte das peles dos Grandes Lagos. Essa união. escalpelado. Todavia. não fizesse progressos na elocução. segundo ele. se encontrava com abundância. ela também! Devia estar feliz. Mandara enviar-lhes um bilhar. cara Angélica. Sidónia. de Mercourville perguntava ao Sr. Ermelina continuava esperta. A srta. que é como um ser humano disfarçado. e o forte de Missilimakinac. com menos de quatro anos! Constatação que só se podia fazer porque ela também escrevia.rondando a casa de Ville-d'Avray. "trabalha para o bem da colónia e de sua população. Desde a primavera. Mas ninguém ainda se preocupava com isso. Eu o ajudo a receber os potentados e a resolver as desavenças. Apresentada às ursulinas. Parecialhe útil iniciar-se nas leis que os regiam. se apresentaram em Quebec. mas renunciaram a puni-la por sua fugas quando lembraram que fora graças a uma dessas bruscas fantasias da caçulinha que uma parte da família fora salva dos iroqueses. Esse velho explorador de bosques. "Apenas o Sr. casara-se com a nora. parece. e que estipulava que eles tinham "direito de se dedicar ao comércio e a negócios bancários". onde se vendia até carne e também tamancos. quando estes. A Sra. de que eram beneficiários os jesuítas. Escrevo para ele muitas notas e libelos. Tinham também um armazém na Cidade Baixa. d'Houredanne. talvez tenha reconhecido nele um velho conhecido. sabia ler correntemente. cuja inteligência e malícia os confundem. do qual todos sentiam muita falta. que ele não suportava. sem dúvida alguma. até o ano seguinte. Os índios temem o carca-ju. e o rei comparecia a sua partida quase todas as noites. muito gulosa. além do-mãis. que levara a vida mais dissipada e mais vagabunda. ao lado do carvão. de Frontenac. dotada de uma inteligência pouco comum. continuava a fugir como uma enguia. certa noite sem lua. que. pois sabia que a Sra. ria sempre sem que se soubesse por quê. levá-la-iam ao santuário de Sainte-Anne-de-Beaupré. ou. Talvez tenha ficado surpresa ou assustada demais. E se. de Peyrac tinha por ela um carinho especial. Isso podia evitar os erros desagradáveis como o que cometera o Sr. feitoria que recolhia tudo o que vinha do norte. Talon". pelo qual se interessavam. poder-se-ia dizer. subindo o rio a partir de Tadoussac. por vocação. Depois de ter-lhe concedido o milagre de fazê-la andar. ou cega. Tinha razão. ou melhor. Um trambolho! Mais ainda que os teares! Era moda joga bilhar em Versalhes. não convinha a padres vindos para cuidar das almas e nâo para fazer fortuna à custa do próximo. a santa avó de Jesus Cristo não seria sovina em relação à palavra. ao passar por seus estabelecimentos do golfo de Saint-Laurent poderia fazer-lhe um carregamento de gesso. em sua luta contra esses religiosos. Eles dizem que é possuído pelo Diabo. Tinham posto fim a suas indignações apresentando-lhe o texto de uma das prerrogativas papais. nada no mundo vale mais que amar um ser e dedicar-se a ele. com dois fortes construídos nas pontas de terra que enquadram o estreito que liga Tracy ao lago Huron: o Forte de Sainte-Marie. denunciara ao rei e ao ministro seu espírito vergonhoso de lucro e que. de Mercourville. dizia. avançara até a porta-janela e olhara através dos vidros para a cachorra cananéia. Faço o que posso para assisti-lo e tomei assento no palácio.. Desse assunto. de Peyrac se. curiosamente. que. d'Houredanne explicava longamente por que enviava a Angélica a regra dos jesuítas. pois não falava. nenhum dos amigos de Peyrac teve queixas contra ele. Ninguém em Quebec saía do turbilhão de lancar-lhes ao rosto seus direitos e deveres. tudo o que vinha do sul. Por outro lado. Ele revelara que eles desviavam. como uma borboleta. Falou a seguir do caso de Elói Macollet. nunca se sabe. a epistolaria passava ab do Marquês de Ville-d'Avray. com esses bichos. a pobre Sidónia. não latira. que não teria conserto e que tomava proporções escandalosas. que era muito "a favor" dos jesuítas — foi coroada pelo nascimento de dois filhos gémeos — imaginem. era evidente que o bicho. Ermelina era uma pequena miraculada de nascença. acrescentava a Sra. um dia. Mercourville. mulher do juiz da Cidade Alta e presidenta da Confraria da Sagrada Família. que. atravessando o apartamento da Sra. cada um combatendo por seus interesses e pela glória de Deus. Depois. reprovada pelas pessoas da Igreja como um incesto e que só pudera ser feita graças à ignorância de um monge recoleto ou capuchinho — pois os filhos de São Francisco de Assis professavam que a ignorância era uma virtude. de Maintenon. tinha feito muitos estragos na cidade." A Sra. em proveito próprio. não o viram mais.. a pequena Ermelina. começava falando de sua última filha.. Quantas lembranças a partilhar com seus caros amigos De Peyrac! Ermelina era. ele saltara a mureta que fechava o pomar da Sita. que 30 .

interrogou-se Angélica. certamente. A Sra. Não queria vê-la fatigar-se em redações árduas e absorventes. lido por sua voz "divina" — palava em moda que Angélica não hesitava em empregar. — Talvez isso resolva nosso caso entre Siriki e Kuassi-Ba. e prediziam para esses "filho de velho" o mais lamentável destino. e sobre cujas intenções a gente podia se enganar. ele não se dava conta de nada ou parecia não se dar. d'Houredanne sempre adivinhava suas necessidades e soubera que ela tiraria grande proveito de um conhecimento mais profundo sobre pessoas que tivera de suportar. mas. de chofre — que a tocava de perto. Sem falar de inimigos. e de contratos matrimoniais. como explorador de bosques que levava aguardente aos selvagens e como pai incestuoso. "Gostaria muito de saber como nosso Elói reagiu a esse ostracismo da cidade". a fim de apanhar alguns castores. a menos que soubesse e compreendesse a que obrigações estavam submetidas. Leria novamente com um prazer infinito a bela história da Princesa de Cleves. de Mercourville recolhera pessoalmente do alegre compadre. da maneira mais completa possível. Levantou-se para ir conversar com Kuassi-Ba e prometeu redigir a carta à Sra. agora que ele lhe dera "ocupação" com seus rebentos. já não contava. certamente. apesar do que pensava o Sr. onde residia. Angélica poderia juntar-lhe um bilhete curto. de Mercourville não lhe ocultava nada. nada se equipararia ao prazer que tivera ao ouvi-la. Era uma pena para seus amigos. mas bem sossegado em sua poltrona em Paris. sobre os adversários que reconhecidamente procuram destruí-la por todos os meios possíveis. e essa leitura poderia ajudá-la —"mas não conte muito com isso". Colbert. que também morrera como um bravo nas mãos dos iroqueses. seria sensível a ela —. de Mercourville. os objelivos dos quais era inútil tentar desviá-las. pela voz "divina". ela. e soubera do casamento da maior parte delas. que nunca a deixara. que chegara inclusive a segui-la até o frio clima do Canadá. que frequentara as sabichonas do bairro do Marais. ela acabara por confessar a sua ama. e talvez. que o amava e sempre o amara. bem diferente do da Martinica. Já não gostavam dela antes. e onde criara todos os seus filhos. calorosa e sinceramente. para uma pequena viagem. Angélica alegrava-se por sabê-la tão feliz e podendo gozar da companhia agradável e amorosa do Sr. se imaginava incapaz de ler ou escrever. de proje-tos de negócios. Foi por ela que Angélica foi informada sobre a situação de suas protegidas. frequentemente bem-inspirados. pois essa tinha sido sua filosofia durante a vida toda. as ordens que não podiam transgredir. Mas. portanto. Agradeceu-lhe também. Quando da estada do Conde e da Condessa de Peyrac em Que-bec. pois. Ninguém daí em diante falava com ela. Perrina Adélia fora tocada por um terno sentimento por seu negro Kuassi-Ba. que agora se restabelecera e não tinha mais de passar os dias no fundo de sua alcova. onde nascera. que. Macollet. quais eram os compromissos que não podiam trair. Sentimento que. de Mercourville' eram sempre uma interessante mistura de mexericos. que não estava no lugar dele. por outro lado. Duplamente excomungado. Angélica respondeu apenas à Srta. ainda que a armadura de defesa do sistema dos jesuítas lhe parecesse solidamente cavilhada em todos os pontos e mais inatacável que o famoso 31 . ela reconhecia ser prudente e judicioso informar-se. como outrora. destinado a transmitir muitos beijos a toda a família e especialmente a Ermelina.Esta. ela não o impedisse mais de partir novamente para os Grandes Lagos. na paróquia de Levis. o opúsculo sobre a regra dos jesuítas e a estrutura interna e pouco conhecida de sua ordem. Car-lon. que precisava ser estudada em vários pontos. em Paris. sabendo que a Sita. a propósito da grande peuhl — observou o conde. de listas de quinquilharias. da antiga leitora da rainha. Ele amava essa jovem. disse. havia apenas alguns dias. a presidenta da Confraria da Sagrada Família também falava de casamento. não era arranhando a terra do Canadá que se podia alimentar toda essa família! Tais eram as declarações que a Sra. de Maudribourg. As cartas da Sra. brechas que permitiriam pô-los em desvantagem. mas por uma questão — sublinhou. inpetto — a encontrar as falhas da couraça. com a oportunidade de consagrar longas horas à leitura em voz alta. d'Houredanne. Dessa vez.sofrera tanto por ser estéril durante sua união com o filho de Macollet. o ministro da Marinha e das Colónias. as Moças do Rei da Sra. Perrina Adélia. pois tratava-se de sua irmã de leite e escrava negra. d'Houredanne. Agradecia-lhe o envio dos livros e fazia-lhe mil recomendações. após tê-la feito definhar a ponto de transformá-la numa sombra de si mesma e de ter causado todo tipo de inquietações entre seus amigos. A Srta. que bem o merecia.

pois haviam encontrado o cadáver de seu marido na soleira da fazenda de onde fora raptada com outros membros da casa. Na parte que ia juntar à carta de seu marido. juntara uma certa soma. o acaso fez com que houvesse parentes da família William. d'Houredanne. tendo uma última esperança em sua intervenção para obter notícias dos parentes desaparecidos havia vários anos. Outros ainda. podia falar francamente sobre a questão dos jesuítas. não era dessas pessoas ávidas por detalhes sobre a beleza e as façanhas de recém-nascidos de menos de um mês. a fim de desposá-la. d'Houredanne. na verdade. Angélica pensou na Sra. estamos prontos a resgatá-lo e a adotá-lo. a pagar um resgate. Angélica resumiu as notícias referentes a eles. tendo conseguido. conduzidos para o norte por seus raptores abe-nakis. 32 . E o cunhado de Jessy. O Conde e a Condessa de Peyrac tinham partido. valetes. se houver um único sobrevivente. levando sacos cheios de papéis."quadrado" dos mercenários helvéticos. Angélica começou a falar do caso de Jessy. d' Houre-danne com a satisfação do dever cumprido. interrogando os tratistas de peles ingleses. ou até duas. Mas dizia-se que. franceses caridosos resgatavam ingleses para batizá-los. Quanto aos outros cativos. Pelo menos em relação a Jessy. Jessy. em Boston. era mais aleatório. que gostava de manter-se informada sobre tudo e que estava bem a par das coisas. espigão gigante do campo de batalha. páginas ainda. um homem de Salem que desejava comprá-la de novo. Angélica podia tratar imediatamente de seu caso. no Saint-Laurent. dos lados de Montreal. em reides vindos da Nova França. Era o fruto de combinações complicadas. Sabia que ela era viúva. defendido por lanças gigantes. Não notou a reflexão sobre o quadrado suíço. Uns bushloppers me disseram que ele foi comprado por franceses da ilha de Montreal. iria pedir-lhe que refle-tisse sobre as personagens — missionários. Durante os últimos anos. e isso a obrigaria a escrever uma. os outros. que. os homens com o chapéu sobre o estômago. no momento de deixar Salem e de subir a bordo do Arc-en-Ciel. Cada um'se apressava. também viúvo e provido de uma numerosa prole e de um honesto comércio de couro curtido em Salem. Era o mesmo que procurar uma agulha num palheiro. aos quais estavam prontos. Não escreveu ao Sr. era um pedido de casamento. pois tinha ainda de falar-lhe sobre o caso de sua cativa inglesa. uns pelos recentes raptos do Alto Connecticut. a de meu irmão mais velho. embora soubesse que. que fora casada por tão pouco tempo e que nunca tivera filhos. um grupo de homens e de mulheres que os esperava aproximara-se deles. a criada da Srta. viajantes. saber onde se encontravam os desaparecidos. por terem ouvido dizer que os senhores de Gouldsboro e de Wapassu mantinham boas relações com os governos de Quebec e de Montreal. sem contudo omitir os argumentos que pudessem dar algumas possibilidades a sua intervenção. e as investigações entre as dezenas de tribos dispersas seriam árduas. Deve estar hoje com quinze anos. de Loménie-Chambord. Esse homem. Com efeito. esforçando-se por resumi-lo. e já estava começando a ficar cansada de segurar a pena. Eles insistiam: — Meu filho está vivo. numa atitude tímida e deferente de pessoas que têm um pedido importante a fazer.. aqueles cativos que passaram por Wapassu numa primavera. A Srta. Recusavam o ouro e prometiam que fariam o possível para estabelecer com seus vizinhos da Nova França negociações em favor das pessoas que lhas foram recomendadas. Entre eles. de Mercourville. irmãs. também conseguira descobrir com certeza onde ela residia e suplicava qeu fizessem chegar a ela uma mensagem. — A família William. conheço-a bem. e. com a Srta. pois o numerário era raro.. estendia bolsas recheadas de moedas de ouro.. que estava disposto a gastar para obter sua libertação. cujo aspecto aterrador lhe fora descrito pelo militar suíço de Wapassu. membros de confrarias de caridade — a quem podia dirigir-se para obter informações sobre o destino de cativos ingleses. Em meus sonhos vejo meu irmão adjurando-me a salvá-la. pois sentia-se esgotada e sabia que se sentiria na obrigação de falar-lhe sobre a morte do Padre d'Orgeval. assim. — A mulher de meu irmão é uma boa mulher. d'Houredanne em Quebec. Vinham de diferentes pontos da Nova Inglaterra. concebera o projeto de resgatar sua cunhada. Era uma delegação de famílias das quais certos parentes tinham sido raptados pelos índios batizados. Eles continuavam nas mãos de seus amos índios. Juntava a sua mensagem uma carta de um parente de Jessy. queriam encarregar os visitantes franceses de apresentar e sustentar suas propostas de resgate. lacrou a missiva da Srta. crianças.

Tomado pelos ingleses. — Sou da Aquitânia. se possível. que dirigiam o Conselho das Mulheres ou exerciam a função de sacerdotisa. Não pudera vê-los em julho. Pois esse brilhante oficial era também gascão e. as tribos a sobreviver e a evitar o extermínio. em nome do rei. depois novamente pelos ingleses. Ao fazê-lo experimentava um leve sentimento de impaciência. que dominava a embocadura do Penobscot. Agradar às damas é nossa divisa. pois era mais a ela que o jovem se dirigia. o Barão de Saint-Castine administrava as tribos da região: abenakis.CAPÍTULO VIII A carta de Florimond A carta de Florimond chegara pelo Barão de Saint-Castine. de onde era originário. 33 . em viver com sua família indígena enquanto ajudava. que se saía muito bem sob a égide de seu pai idoso. devolvido aos franceses. Saint-Çastine. com certo atrevimento. ma-lecites. fora o primeiro a pedir ajuda a Peyrac. Pentagouet tinha sido no começo do século um pequeno escritório comercial. epidemias e alcoolismo. em seu forte. finalmente reconquistado pelo Barão de Saint-Castine. filhas de chefes. que as colocava acima das outras. suriqueses. dentro da qual ela se divertia em revirar-se. ocupado a seguir pelos holandeses. a sós. detalhes que você só conhecerá depois. em Versalhes. Saint-Castine trouxera-lhe da França una longa capa de veludo azul-escuro. de Peyrac. roupas curtas que mostravam joelhos encantadores acima de botas de pele bordada. Ela também estava ali. O Gouldsboro e o LeRochelais deviam estar contornando a Nova Escócia do lado de Port-Mouton. Durante sua ausência. sabendo que ninguém ignora que uma mãe não pode esperar para ler as linhas traçadas pelas mãos de um filho querido. Quando deixaria de sofrer por eles? De inquietar-se? De lamentar havê-los perdido tão depressa? Saint-Castine tivera razão de dar a carta a Angélica. aplicando-se em lhe comunicar as notícias da corte. o mestre oculto que era então o fanático jesuíta p'Orgeval. pois lhe darei de viva voz outros detalhes sobre seus amáveis rapazes. Estavam muito bem de saúde. como um bilhete de namorado. vinha saudálos. — Barão. trajando naquele momento seu vestido de pele franjada. construído pelo aventureiro francês. com sua fortuna. afastada. ele reinava inconteste como um benevolente potentado. onde se detivera por muito tempo. Tirou do gibão uma carta redigida por Florimond a seus pais e estendeu-a a Angélica. não só como um pai. os filhos mais velhos dos Peyrac: Florimond e Cantor. e ainda não esquecemos os ensinamentos da Arte-de amar. Desposara a bonita princesa índia Matilde e sucederia a seu cunhado Massaswa. dando-lhes por vezes o julgamento de decisão suprema sobre os homens e os chefes. Isolado de sua obra. que haviam construído uma sólida fortaleza de madeira com quatro bastiões. você conhece muito bem as mulheres — disse-lhe Angélica. Isso era habitual entre as índias de alta posição. em virtude de uma história de herança no Béarn. como o Sr. tarrantins. o Sr. de Saint-Castine vira. Os ventos e nevoeiros os atrasavam. O Sr. do Forte Pentagouet. Estava preocupado sobretudo em enriquecer-se com as peles. deixara o governo de Pentagouet para sua mulher Matilde. a fim de evitar a "seus" índios batizados as guerras santas às quais os empurrava Quebec e. que acarretavam para eles guerra e fome. Desse encrave francês. pela última vez. que ela aprecia ser a primeira a fazer a leitura e. mais ainda. Antes de embarcar para Honfleur. de Peyrac não ficará privado. vizinho deles. cognominado Hatskon Ontsi. Ora. Pentagouet era atualmente considerado a capital da Acádia. Quebrou os lacres de cera e desdobrou as folhas cobertas pela fina e rápida escrita de seu filho mais velho. ao saber que eles estavam de volta. e acima do qual tremulava a bandeira com a flor-de-lis. de alegria e de melancolia. mas cuja autoridade de sagamo-re permanecia grande e respeitada. Suas longas tranças negras davam-lhe um ar infantil. fascinante e inteligente princesa. mas como se fosse um chefe escolhido por eles. Vá ler sua carta sem se preocupar conosco. — E por isso que elas o amam. envolvendo-a no corpo e abrindo-a alternadamente como asas. quando voltava da França. quando este morresse. Sieur Cláudio de La Tour. Usava. etchemis. o Homem Negro ou o Casaco Negro.

em suma". ainda assim. acariciando-lhe o rosto com o dedo. quando chegamos a Versalhes? Ele foi me procurar.. me sorri. Continua a ser almirante da frota real e lançou para os oficiais da Marinha o uso de uma peruca de um louro muito pálido.de dinheiro e de promoção. desde que eu faça dançar suas damas e rir seus cortesãos. falando de todos e de cada um.. lembrou-se de mim. rapazes e moças. dois pequenos Bourbon de sangue. no pânico em que se encontrava de perder o amor do rei. ou mais acomodados pela idade. a corte estava se tornando séria e entediante.. Esse encantador adolescente era o filho legítimo que a Sra. minha mãe. quase branco. Ana Diana de Frontenac. de Vivonne foge de mim. que infalivelmente tendiam a se mostrar. de Montespan tivera com seu marido. e analisara com muita justeza que este. falou-me daíeliz tarefa que me esperava com o 34 . Diga ao Sr. em menos de um ano. o delfim. e eu lhe faço entender que minha memória sobre esse ponto é nula. até nova ordem. por seu modo de vida e sua animação. Tissot que ele continua a ter seu pequeno exército de prata. assim como o direito de usar saltos vermelhos. que deslumbrasse. "Eu lhe disse. Monsieur. Angélica sorriu ao saber que a Sra. de Montespan.O Sr. considerada a favorita em ascensão. julgava que ali havia muitos maledicentes para afirmar. de Montespan. Tinham um código entre si que lhe permitia ser compreendido por ela sem nomear as pessoas conhecidas. Luís Pardaillan de Grondin. cognominada "A Divina". um após outro. acabava de pôr no mundo. apesar de já ter atingido os quarenta anos. que ela estava em pleno desfavor e que o rei se desinteressava dela. aspirando o vento da corte. divertida com a coincidência. e. esse privilégio está reservado aos oficiais da Marinha Real e vai inspirar o desejo de usá-la. sua contemporânea. "Dois quase gémeos. de baixar o pavilhão em sua luta jurídica movida contra o rei. Os aduladores estão apaixonados por ela. Florimond sacudia todo mundo." Ele continuava. mas. Ora. se fosse preciso. que se tornara Marquesa de Maintenon. ". asserções que pareciam. de Montpensier. mas muito corajoso e atencioso em seu cargo de príncipe.. festas. com audácia e insolência. as pessoas logo adormeceriam —.. ele me mantém a seu lado. quando fora pessoalmente apresentar-lhe sua homenagens. que assenta muito bem à juventude dos rostos que com ela se enfeitam. o compreendiam. O último estava nascendo quando Florimond confiava sua missiva a Saint-Castine. que o Sr. Os pequenos bastardos reais tinham sido imediatamente confiados às mãos competentes daquela que criara seus filhos mais velhos. viúva Scarron. nesse caso. Ela lhe lançara aquele olhar agudo que dirigia incessantamen-te a uns e outros. teatro e carnaval. O soberano suspirava de alívio e podia proceder à legitimação de seus bastardos e dotá-los de títulos principescos. a Sra. pensou Angélica. em seis meses — que estou dizendo? em três — todo mundo aqui aprenderá a dançar. Florimond. sempre seria ávido por festas e por ver-se cercado de uma corte brilhante. Antes de minha vinda. dentre elas a Srta. Dá-me a entender que não quer que falemos de um exílio que quer ocultar. que nunca se cansavam das danças. poucos desses jovens. e pedia aos jovens nobres. justamente. imprudentemente. que lhe roubara a mulher. a prima do rei. ou por demais absorvidos por sua intrigas.. Também ela o reconhecera. os mais velhos. Estava consciente de que o círculo mais essencial da corte seria sempre da idade do rei."O rei me consente tudo. Francisca d'Aubigné. as embaixadas estrangeiras. naturalmente. Por isso. mas permanecer como o sangue vivo da corte." Florimond fizera amizade com p Duque d'Antin. o Marquês de Montespan. Florimond navegava às mil maravilhas no meio dessas intrigas. Cercavase dos sólidos pilares do divertimento entre as alegres damas. — Ah! o pequeno pajem insolente — dissera-lhe. Tinha necessidade de nomear seus amigos e seus inimigos para conduzir o combate que lhe permitisse permanecer a rainha de Versalhes. Se o rei me nomear para os exércitos. que ele entronizava no Santo dos Santos de Versalhes. Longe de adular as pessoas de posição e de dobrar-se a seus caprichos ou manias — pois. embora eu tenha sido nomeado oficial da Casa do Rei dentre os cem fidalgos de alabardas. como que debicando o que sabia interessá-la. Príncipe de Conde foi um dos primeiros a vir ao nosso encontro. Ele está um pouco gordo. Este acabara. desmentidas pelas recentes paternidades reais. desejosos de fazer carreira. Ele evitara levar consigo o irmão. não imitar. por receio ou deferência.

Sucedia-lhe um dia ventoso. Em vão tentava persuadi-lo de que seus esforços eram inúteis. O nevoeiro da véspera dissipara-se.. de Montes-pan por toda parte.. como na água gelada de um batismo de teologia concentrada. Cantor diverte-se com isso e lança uns olhares provocantes com destreza. tinham mergulhado na atmosfera de Harvard. de Montpensier contou-me que. Sozinha. não tinha razões para se preocupar. e Ana-Francisco de Castel-Morgeat nos assiste muito bem. e sabíamos perfeitamente que era menos a voz de Cantor que lhe importava que o olhar de seus olhos verdes.. o caldeu. pois a melancolia nesse soberba deusa pode se traduzir da maneira mais perigosa. nem da lembrança imperecível que deixava nos espíritos em toda parte por onde passava. a partir do instante em que lhe apresentei meu irmão mais novo. perguntava-se o que poderia pensar o jovem Florimond. para evitar que ela mergulhe em melancolia quando duvida do amor do rei. perto de Boston. como o chamava Nathanael. ele segue a Sra. "Monsieur. esquecendo em seguida. a física. a literatura inglesa de Cyne-wulf a Milton. Aprenderam o hebraico.. "Meu irmão Cantor frequenta assiduamente o Sr. A meu conselho. e elaboramos uma dosagem conveniente de sua presença nas paragens de Sua Majestade. para onde os enviara seu pai. a próxima primavera e uma nova carta de Florimond para saber o que significava a frase sibilina que encerrava sua epístola: "Encontrei o traje de ouro. E recebeu deste a autorização de tocar órgão na capela do rei.cargo de 'mestre dos prazeres do rei'. o príncipe"." Após essa incursão a Versalhes. fenómeno de transes em que caem certas pessoas que. assimilaram artes e ciências ensinadas: a lógica. a geometria. neles alguma coisa de que não pudesse felicitar-se. era pouco tolerado na corte. a prosódia. junto ao berço onde dormiam as duas crianças. e a vitória que obtivera sobre a Holanda devolvera-lhe a juventude. era antes um filósofo. que tinham sido seus pequenos companheiros dos anos de aflição. O príncipe estava em suas lembranças. Lulli. "A Srta. Conferindo-lhe o comando de um exército no momento da Guerra da Devolução. por John Harvard. tiveram a felicidade de conhecê-la. aonde acompanhamos Sua Majestade. emocionado. Vemo-las mudar de fisionomia. quando era.. pensando justamente no que era preciso pensar no momento em que devia pensá-lo. como me repete com frequência o Sr. enquanto outras fogem. empalidecer. a astronomia. criado de quarto do rei. depois deixou de me dar atenção. Depois de terem se habituado a correr os mares. o príncipe estava 'acabado'. e algumas ficam com lágrimas nos olhos. de nós dois. Agora que conhecia melhor o espírito puritano. o ornamento desta corte. Havia. passando por 35 . durante o qual o mar mostrava bruscas violências. procurava por cortesia fazê-lo falar. um ancião arrastando lamentavelmente sua gota. Sua estima pelos dois filhos acentuara-se desde que estivera na Nova Inglaterra. "Meu irmão Cantor e eu desempenhamos um papel que ninguém pode preencher. eu sou reconhecidamente o mais falante. enquanto fazia fortuna resgatando o ouro espanhol nas Caraíbas. Cantor. mas isso nãò seria compatível com sua posição de fidalgo. "o jovem libertino ateu". logo percebemos. nos confins de América. a aritmética. a política. afastado dos campos de batalha onde cometera o engano de exercer seus talentos militares contra o jovem soberano durante a Fronda. no grupo das vozes graves. quando se encontrara com seu irmão na universidade fundada em Cambridge. aperfeiçoaram o latim e o grego. pensando em outra coisa. Bontemps. Angélica evocava os filhos mais velhos. o rei ressuscitou-o. Oferece festas soberbas no Castelo de Chantilly. a gramática. Diverte-se menos quando se trata do rei. há quinze anos. Esse grande homem de guerra. apesar das indignações do jovem Rambourg contra o "leviano" Florimond? Não tão leviano assim. "Sonhador. caprichoso. continuava Florimond falando de Luís de Conde. senhora minha mãe." Ah! Ah! Não estavam indo nada mal os jovens cortesãos! Sua mãe. Poderia ter voltado a seu lugar no coro.. "Surge-nos como um tranquilizante exemplo da magnanimidade do rei e da maneira como ele sabe perdoar e esquecer as ofensas. pois. era um contraste surpreendente reencontrar a calma do quarto do forte e ouvir as surdas pancadas das vagas que batiam contra os alicerces dos rochedos sobre o qual ele se edificava. não duvidando de nada." Seria preciso esperar. enrubescer.

Raimundinho de Peyrac. a personagem solene evadida de regiões misteriosas e que tivera tanta dificuldade para se ligar à terra. seus odores de musgos secos. apesar do desejo de pegá-la também nos braços. Mais uma menininha! A surpresa! "Gloriandra de Peyrac. aflorou-lhe a bochecha redonda. ainda há pouco tão brilhantes é interrogativos. para chamar a atenção. viu como suas pupilas tinham se tornado escuras. meu homenzinho? Você me vê? De súbito. Ele teria os olhos negros de Joffrey de Peyrac. não quis acordá-la. Depois. um apelo tímido. Profundezas de um fiorde. voltava pelo Sa-guenay com um bom acervo de informações e de cartas. que vacilava. A FELICIDADE CAPITULO IX No caminho da mata — As três amas-de-leite Do alto da falésia. ainda se via o mar. com suas marés e suas conchas. Sentia-se quase intimidada por esses olhos de azeviche." WAPASSU. Com o dedo. — Você é meu. e atualmente desfilava pela corte do rei da França para ali organizar as mais brilhantes festas. através dos ramos dos sicômoros. que eles percorreram em seguida. meu homenzinho. apertando-o com paixão. ela julgou surpreender na pequena boca o esboço de um sorriso. Um pequeno rangido que se renovou. ervas que tornavam benignas suas picadas. O garotinho tinha os olhos abertos e. Dois pequenos punhos como botões de rosa fechados sob o queixo e uma enorme mecha de cabelo negro sobre o travesseiro. perto dele. Angélica. gelado. pousava a face contra sua cabeça sedosa. 36 . Ele explorava as margens da baía de Hudson. e muitas matérias mais. Depois de um instante. — Você viverá. se embaciaram de sono. Recusou-se a acreditar: "Ele é ainda muito pequeno". após um instante. mal coberto por um penugem loura. Uma extensão azul pontilhada de um rebanho de ilhas alongadas que. Pegou-o com cuidado. Ainda não era hora de alimentá-lo. elevou-o diante dela e segurou-o com as duas mãos. homenzinho. Era a floresta. pareciam crocodilos verdes ou esqualos escuros. Florimond partira com o Cavaleiro de La Salle para Illinois e trouxera-lhe desse região. sua mãe! — Você me viu! Você me reconheceu! E ele já deixava de ser aquela emanação dos deuses. bagas maduras e cogumelos. e o encontro do primeiro lago de esmeralda. a fez levantar-se e dirigir-se para o berço. respirava o perfume delicado de sua pele fina e tépida. gritos de gaivotas e de corvos-marinhos revelavam o estuário marinho. seguindo as pistas indígenas. E com um estremecimento. sem cólera. que tinham vestido sua libré de topázio queimado. tinha certeza: ele a via. é nosso! Depois recolocou-o no berço. no calor dos ouros rutilantes de um bosque de bétulas. onde havia muitas serpentes. cuja água salgada continuava. que pareciam imensos em seu fino e pálido rosto alongado e que continuavam a fixá-la. Ficará grande. Tornava-se um bebé. Matara um urso cinza a faca. Meu terceiro filho! — E retificou: — Nosso terceiro filho. Olhava para ela e. aproximou-o do coração. seu silêncio. conforme a estação. Dessa vez. ele sorriu outra vez. pela primeira vez. acentuado pelo crânio calvo. o que lhe dava um ar altivo e vacilante de macaco chinês. Angélica. se esforçava por mantê-la erguida com suas próprias forças. Sorriu para ele fazendo pequeno movimentos com a cabeça: — Você me vê. os últimos aromas salinos do vento se apagaram.Bacon e Shakespeare. no entanto. observou sua irmã. Envolvia com os dois braços sua doçura abandonada. Ele. sustentando com uma a pequena cabeça. Encontrara-os novamente corcoveando no cimo de vagas imensas. movida por outra curiosidade. seus olhos. e ele não deu sinais de impaciência. a subir para o ponto mais distante das terras. Ela dormia. ligeiramente dourada.

depois a uma outra. a presença dos cavalos dava a essa viagem um pouco da tensão de uma proeza. durante vários anos. que era preciso acompanhar pelas linhas das cristas para não se perder no funco de estreitos precipícios. Reconheceram ou julgaram reconhecer. do outro lado do rio. atravessadas pela luz do sol e brilhando como os mil fogos de um vitral. que ela reconhecia cada detalhe do caminho. Caminhavam através do musgo escarlate dos aceres. No fim de alguns dias. A primeira parte da viagem devia ser feita a cavalo. que chegava do norte como urn incêndio. nem com o barulho das águas numa garganta selvagem. seu terreno árido. Honorina esquecera seus sapatos e trocara com o chefe dos metallaks. Joffrey de Peyrac empenhava-se em seu primeiro projeto de fazer penetrar os cavalos no interior. Nessa mesma praia. onde Erikson os apanhara. saindo das águas". passou ao larga da missão deserta de Norridgewook. pois ali repousavam os despojos de cinco grandes chefes iroqueses assassinados. Passaram também não muito longe de Katarunk. de Gouldsboro. de etapa em etapa. Bruscamente. Essa estrada levava. o antigo posto incendiado. o incêndio os alcançava. atravessando-o pelo vau acima do posto do holandês Peter Boggan. as primeiras a empalidecer. A menina lembrou-se orgulhosamente desse episódio. como as vagas de um oceano. arriscando-se a atrairse a atenção. um pouco mais acima. Pararam à beira do lago onde outrora. a uma primeira mina de prata que estava sendo explorada. e que era preciso reabastecer. Mandara trazê-los da Suíça por Génova. Joffrey de Peyrac. repetia. Joffrey de Peyrac nâo desejava esse desenvolvimento que levaria forçadamente os mineiros a transformar suas modestas cabanas de pioneiros em postos de trato e de comércio. para tornar os deslocamentos no próprio lugar. mas jamais se recuperara do choque de ter visto arder sua reserva de peles. a do Padre d'Orgeval. esfolados de rochas. em Wapassu. e os lavores das terras cultiváveis ao redor mais fáceis. carregando os víveres nas costas.Todavia. Lembrando a aventara de sua primeira caravana. Os mulos representavam dessa vez uma inovação. O animal era guiado por um dos suíços do grupo do Coronel Antine. será jamais tão belo quanto 37 . contra uma pele de fuinha ou de marta. no máximo. ela se banhara e onde alguém. continuando para noroeste. Os viajantes seguiam um caminho que fora aberto na floresta ou traçado através de peneplanície. através de trilhas. Começava-se a pensar em aumentar alguns dos estabelecimentos. e seu temperamento tornara-se acrimonioso. escavada por falhas que se elevavam de quedas em cascatas. Montarias comuns das regiões montanhosas. até os vales altos. extenuada pelo calor. enquanto chegava a Wapassu com sua família. por trás das árvores. nas folhagens de um verde ácido e o amarelo das bélulas. Suas impressões de então tinham permanecido gravadas.. Os rios e suas múltiplas ramificações eram as estradas naturais dessa região difícil. instalando ali casais da costa. para permitir também alcançar as minas que se encontravam muito distanciadas das vias navegáveis. encontraram o irlandês 0'Connell. que daí em diante se tornara um santuário. e assim. dos franceses sobre sua presença e sobre seus trabalhos. os bebés foram instalados cada um numa cesta. durante os primeiros anos. sempre suspeitosa. Mulheres montadas como amazonas sucediam-se para cuidar das crianças. Esses homens contratados para seu serviço eram celibatários. Nos flancos de uma mula mansa. a vira "nua. a caravana atingiu o Kennebec. Nada. não passando dos sobosques cor de sangue senão para desembocar de catedrais de abóboras púrpura e rosa. Algumas notas de cobre ou de ferrugem. ia poder inspecionar os pequenos postos ocupados cada um por cinco ou seis mineiros. aos platâs aplainados. Ele era um empregado devotado e diligente. pelas equipes cantoneiras de Gouldsboro. Um pouco depois. as cores do outono mostravam-se apenas timidamente. não se anunciara senão ao fundo por nuanças rosa e ferrugem no flanco das montanhas. do alto das falésias. tão vivas em sua memória. que fora. esses animais tinham um casco firme e não se assustavam com as pedras que deslizavam sob seus passos. Até então o avanço do outono. até as montanhas num amontoamento indefinido. O relevo da região não se prestava a isso. Mopuntuk. responsável por uma mina ali perto. Angélica reencontrou os transportes de admiração que experimentara em sua primeira passagem ali. o diamante que seu pai lhe dera.

às margens do Merrimac. Mas ela fizera com o homem que a comprara em Newport um contrato. discuti-los. Pessoas de Wapassu viriam ao seu encontro. que o acusam de encontrar o Diabo. George Shapleigh. que até então os seguira. que não deixara de colocar-lhe um problema na consciência. ao amanhecer. de Pevrac embarcaram para o Alto Kennebec. naquele outono. as mercadorias "e uma parte dos animais. Não tinham feito outra coisa. ela seria dali em diante mais rápida e menos cansativa. as pessoas da caravana do Sr. enquanto os dogues e os guardas de seus amos se lançavam em sua perseguição. seu marido banto e seu irmão mais velho. teria sido judicioso donominá-la "a enseada das Três Amas-de-Leite". Quer fosse bom ou mau o ano. Não estava mais em idade para conhecer uma região como a que ele percorrera e explorara havia trinta anos. Por outro lado. Com ele. Ds fontes do Androscoggin. Seu marido correu-lhe atrás e a trouxe de volta. que não parava de aumentar e entre a qual havia cada vez mais crianças. decifraria todos os livros que ele trouxera e ele a ajudaria a cuidar da população de Wapassu. não havia uma flor. mas minha concubina. Depois. Mas o objetivo estaria próximo. Apesar da subida do rio. Foi o velho medecin's man quem abriu o debate. a jovem negra que fazia parte da expedição declarara diversas vezes que tinha reivindicações a fazer. Estava decepcionada. — Mas você não corre o perigo de encontrar seus compatrio tas puritanos? — perguntou Angélica. Não era subir montanhas com uma criança nas costas que a contrariava. em que estação e em que lua colhê-las. Na história das descobertas de terras novas. seria preciso retomar os cavalos. nos quais iam se acomodar os passageiros e ser colocadas as bagagens. O problema é que ele gostava de suas trilhas pagãs. — Conosco você não tem nada a temer dos franceses. botes. uma planta. Mas o velho Shapleigh exibiu seu ar de mocho ranzinza. ela. Talvez tivesse sonhado em passar o inverno em Wapassu. A viagem prosseguia com velas. chalupas. remos ou pangaios. ele sentia na verdade o cheiro deles pairando no ar. George Shapleigh. para o acampamento da noite. uma raiz que ele não soubesse onde encontrar. Depois alcançaram a angra onde esperavam barcas. a mina prosperava e era uma das mais rendosas. surgindo à sua soleira com seu bacamarte e sua caçada diabólica? Era pois preciso encarar a separação da pequena Gloriandra de sua ama-de-leite. Venha conosco. de modo a que o lugar perpetuasse sua lembrança. ou outros ficavam uma estação com ele. pois tinha esperanças de manter o precioso médico durante todo o inverno junto dela. aonde eles iam. começaram a parlamentar. os pioneiros gostavam de nomear os lugares onde ocorrera este ou aquele acontecimento. a mesma terra. — É sua esposa pelo amor que lhe dedica e por sua vida em comum. que era dócil e de temperamento estável. não havia as mesmas plantas. Mas ela o fizera compreender que era preciso levar em consideração seus sentimentos e suas inclinações. A jovem índia. Pelo menos. Lá em cima. longe de seus bosques e de seus atormentadores. com seus grandes óculos com aros de tartaruga sob a aba de seu chapéu de fivela. Enquanto descarregavam as montarias e já se preparavam. fora procurar o Conde e a Condessa de Peyrac a fim de avisá-los de que chegara o momento de deixá-los e voltar a seus penates. no trecho'interrompido de Mexilak. de exploração de costas ou de rios. ao lado de Casco.Katarunk! Seus assistentes deixavam-no e depois voltavam. Você continua a ser muito puritano. com a intenção de partir novamente no dia seguinte. os mesmo musgos. esse velho réprobo. a mesma lua! E depois. por que não confessava que não podia deixar de ir assustar os trabalhadores ingleses. Depois de alguma 38 . Imediatamente justificou-se dizendo que nunca subira tanto para o norte e que não tinha vontade de ir cortar o cabelo "nesses danados franceses canadenses e seus selvagens". achou entretanto legítimo marcar seu desprazer fugindo para os bosques com sua própria filha nas costas. já fazia alguns dias. Se essa tradição fora respeitada quanto à enseada onde. e lembre-se como o trataram no Nova Inglaterra quando foi a Salem! Eles o meteram na prisão e quase mataram sua esposa! — Ela não é minha esposa — disse Shapleigh tristemente —. e que.

fora a causa de suas hesitações. no fundo da baía Francesa. e depois vai dar sua bênção e um colar para sua noiva. a Bela. Manigault. Aquilo que lhe revelara o Conde de Peyrac acerca da lembrança imorre-dourà que ele tinha deixado no coração de Perrina Adélia.Ou a corda — dizia Ademar. mas preferia a afável Perrina à nobre peubh. provavelmente. substituindo Iolanda junto ao pequeno Raimundo Rogério. Alternadamente. por esse motivo.. que tinha uma silhueta encurvada e pernas disformes. que absorviam várias horas de seu dia. e o vestido e blusa que devia ter aprendido a vestir. acontecia que não podia cumprir seu compromisso. Siriki. Ora. Não sabia se corresponderia à chama de Perrina. Outorgou-se o nome de Granadina como patronímico familiar a todo o lote de escravos que conseguira salvar-se. Era por isso que seu irmão e ela mesma usavam nomes bíblicos. pois pertencia aos povos nus. mas Angélica sentia vivamente o halo de abandono que cercava essas duas criaturas insólitas que não pareciam não ser de parte alguma. pois às vezes se perguntava se lhe fazia gosto casar-se. Iolanda só gostava de viver em casa de sua mãe. mas Angélica o repreendeu. Colocou sua mão sobre o ombro do velho Siriki. em proveito de seu rival Siriki. junto ao Conde de Peyrac. o que a mortificava. toda enrolada numa capa escura. Ame-os muito. Marcelina. Segurando-o contra o corpo. censuravam-se um ao outro por terem feito fracassar um projeto que podia ter-lhes trazido a fortuna. Manigault.. entre os quais seus pais. Mercourville em Quebec. enquanto Angélica montava.. — Arranje-se com sua Sra. fora separado de sua mulher e de seus filhos. Você é tudo o que ela possui no mundo para protegê-la e devolver-lhe um pouco de seu reino. O casal de africanos e seu filho recém-nascido e o homem que os acompanhava. outras tomaram o seu lugar.reflexão. a fim de elucidar as aspirações diversas de cada um e ver ao menos se a cordata gémea de Raimundinho podia passar.. Ela vai gritar.. — .. o chamavam de "feiticeirinho". que não era o tio. O que os induzia a prosseguir caminho atrás dela para Kennebec. na pessoa de sua irmã. porque o navio que levava seus pais escravos afundara numa das pequenas ilhas do arquipélago das Granadinas. aceitara-o: amamentar seu filho branco quando tivesse posto o seu no mundo. Kuassi-Ba abandonara de bom grado. Isso os afastava muito da Nova Inglaterra. e porque fora persuadido a tornàr-se o assistente de Kuassi-Ba em seus trabalhos de química mineral. foram também encorajados a tomar parte na viagem. em sua concessão de Chignecto.. e ela fora observada em Gouldsboro pela sua interpretação dos salmos. continuava. de Peyrac. A jovem negra marrona chamava-se Eva Granadina. Ou então — e quanto a isso ambos concordavam — na esteira e sob a proteção tutelar da Sra.. que tinham sido comprados por um plantador huguenote francês da ilha de Saint-Eustache. Num determinado momento. a criada negra da Sra. em Wapassu. vira a certa distância a peubl. sem prejuízo. A tripulação e a carga quase foram perdidas ao mesmo tempo. por não ter dado à luz a tempo. cuja beleza incontestável não compensava para ele a distância que sentia por não pertencer ela à sua civilização. Você sabe muito bem que é a única pessoa a quem ela atende e que você consegue tudo o que quer com ela. para não ficar separado de tudo o que lhe restava de sua família. por ter dado asilo aos fugitivos. de pé.. Ao se endireitar.. 39 . Jeroboão Granadina. aos dois! Foi preciso ficar um dia mais da etapa em Kennebec. Ame-a bastante. O casal Iolanda e Ademar não parava de questionar a continuação de seu périplo para o Kennebec. — Todos sabem o que acontece aos franceses que vão para a Nova Inglaterra! Com efeito. suas pretensões matrimoniais quanto à bela Akashi. Siriki viera segurar o arreio de seu cavalo e aproveitara a oportunidade para pedir-lhe que falasse a seu favor com a Sra. do seio ambarino da índia ao seio de ébano de Eva Granadina. protegia do vento o filho. O contrato continuava válido. — Ame-a bastante. razão pela qual. O fato de permanecer em Gouldsboro significava que ele fizera um acordo com a escrava doméstica dos Manigault. Siriki! Você é de sua raça. para que ela autorizasse seu casamento. julgara ter chegado a hora. seu irmão. Na partida de Gouldsboro. mas o irmão mais velho da jovem mulher e que.

Havia duas pequenas construções para "fazer suadouro". tédio. os Malaprade. Os Jonas. e onde se encerraram como animais. Os soldados. Após terem suado até secar. os lugares foram transformados. Vastos galpões permaneciam disponíveis para permitir aos índios visitantes dar uma pitada e fazer livremente suas trocas ou permanecer ali alguns dias quando os levavam feridos ou doentes. fora para Angélica e seu marido o campo fechado da primeira prova realizada de costa a costa. saíam e rolavam. doenças. Sem ficar fora da paliçada. tinham trabalhado muito bem. e se agrupar sob a bandeira azul com o escudo de prata do Conde de Peyrac. o armazém de pólvora. como último argumento. Os habitantes tinham-se multiplicado. da Europa ou de diferentes colónias da América. lenhadores. e. A partir de então. o cavaleiro de Porguani.. por sua conta. e. No interior da paliçada. Um outro leite o mataria. de etapa em etapa. nos dois últimos verões. Nos quatro cantos da muralha edificara-se um forte bastião com seteiras. ou jogavam-se no lago gelado. para se justificar a seus próprios olhos. nus. seus homens e trabalhadores por pouco não morreram de fome. no andar inferior. carpinteiros. Começava-se. còTnóem Gouldsbo-ro. Aquela do terrível inverno em que o conde. entrepostos. pois. separados de seus amigos das margens por quilómetros e quilómetros de deserto gelado. desmunicia-dos. Acrescentavam-se-lhes salas comuns. areia e palha. no primeiro inverno. Ao contrário. Mas lolanda. Cada família. longe das habitações. promiscuidade. que consistia em encerrar-se numa cabana hermeticamente fechada. Prosseguir? Voltar? E viu-se o momento em que a moça ia ficar com três bebés nos braços. na confluência das estações. por se congratular entre amigos de longa data. lojas. no coração do Maine. fora escavado ao abrigo da visão em subterrâneos cujas paredes tinham sido recobertas com uma camada de argila. Abandonaram o primeiro pequeno "fortim" que as nevadas enterravam quase inteiramente. dez cavalos de lavra e de tiro. e faria calar-se Ademar. de preferência. seis vacas e seus bezerros. na neve. Pois. mantinham um vapor sufocante e escaldante. jogados numa cabaça de água. pois para ali foram levados aquecedores alemães ou helvéticos. até a obra.. provida de caves e celeiros repletos. uma vintena de homens. tornada autónoma. elevaram-se fazendo-las cercadas de jardins aqui e ali. Cada bastião representava por si só uma pequena fortaleza que podia aguentar um duro assalto ou um cerco de algumas semanas.. com todas as defesas de um forte bem armado e os confortos de uma moradia onde as famílias residentes tinham cada uma seu apartamento. abandonados. elevava-se uma confortável construção de dois andares. tendo por baixo um corpo de guarda que podia servir de alojamento. granjas e — maravilha! — estábulos e estrebarias. prometeu a Angélica. que protestava que não era ele quem sonhava ser cozinheiro dos ingleses. sinal da quietude em que se vivia. Wapassu. durante intermináveis meses.lolanda e Ademar reiniciavam suas tergiversações. onde pedregulhos super aquecidos. CAPÍTULO X Anjos na neve Depois de seu reencontro. de Peyrac estaria em segurança. mulheres e algumas crianças. cozinhas. Os índios haviam aprendido com os brancos a excelência desse costume. ameaçados pelos índios e os franceses do Canadá. Enfim. encontravam-se as áreas comuns. cuidava de uma vaca e de um porco. reunindo suas forças para resistir a todas as armadilhas do inverno: frio. sempre vira em sonhos que apenas junto à Sra. que conferia dureza e formava um revestimento que absorvia a umidade e mantinha a secura requerida para a prote-ção da preciosa pólvora e das munições. com um torreão de madeira. fome. As longas ausências dos proprietários do feudo poderiam ter acarretado entre eles. Angélica já não podia conhecer pessoalmente todos aqueles que tinham vindo povoar Wapassu. frio e escorbuto. A questão foi resolvida. tinham sido conduzidos. lembrava que Raimundinho era frágil e que ela o salvara. havia reservas de víveres. a alguma distância do forte. que é colocado. que 40 . Não falariam mais disso. sua família. artesãos e práticos de todo o tipo que o Conde de Peyrac contratara e fizera vir. estabelecida num vasto perímetro. dominando o lago de Prata. Não longe.. com excremento bovino misturado a algum outro ingrediente de uma pedra recozida e moída.

sem esperar ver atenuar-se sua rígida permanência. que deviam mais ao acaso de seus nascimentos que a uma convicção da alma. um para celebrar a missa. durante um ofício a que haviam asssistido da soleira da porta. os temperamentos mostravam o melhor de si mesmos. Sua diferença de credo. arrancando. dia após dia. Mas os reformados de Wapassu estavam habituados a coisas piores. não apenas encontrava todo mundo vivo. Ali. mas em ótimas relações de amizade e estima mútuas. vivera-se lado a lado com um jesuíta. considerado o capitão e o único mestre a bordo. Com a preocupação de não desagradar o próximo e não ferir suas convicções. Longe dos olhares de outras pessoas que os constrangessem a endurecer sua atitude. diante do Conde de Peyrac. seguira em sua fuga para as Américas seu tio. Wapassu ia receber um ministro do culto na pessoa do sobrinho do Pastor Beaucaire. Aunis ou Vendée. passaram. que dizia missas todas as manhãs! Elvira. Jonas. Antes de proceder à edificação da capela. As pessoas ali eram levadas a ser pacientes. Jonas para Elvira e aquela. 41 . e era preciso lidar com pessoas de escol. violada e depois lançada num poço pelos dragões do rei. um vizinho. vir pedir-lhe que lesse em voz alta alguns versículos. os "missionários de botas". e isso não pesava a ninguém. As consciências sentiam-se à vontade e em seu direito. E quando. Mas até então nenhuma Bertille Mercelot aparecera para "misturar sua gota de verdasco e fazer talhar o molho". enquanto assistia seu tio nos trabalhos da paróquia. Carrere. huguenotes de La Rochelle. gansos brancos. Longe de separar os representantes das duas religiões. reconhecido como seu conselheiro e chefe espiritual. Refugiado com seu filho em La Ro-chelle. A maioria daqueles que ali estavam tinham sofrido bastante com as intolerâncias sectárias e estéreis. de humor alegre e constante. acompanhado de um menino de dez. à perseguição. devastada por uma "campanha de abjuração". Naquele ano. católico escrupuloso e fervoroso. abria sua Bíblia. Não trabalhavam bastante para o senhor. Mestre Jonas. que era uma prova de resistência contra o espírito de sizânia e de intolerância. do Padre Masserat para Heitor. casada com Gabriel Berne. Em Gouldsboro. que ele escutava com prazer manifesto. gansos bernachos. o italiano. outro para os reformados. o outono estava mais adiantado.permaneciam no lugar. perturbações e querelas. Certamente. sua prima. a piedade manifestada por seus fiéis tranqiiilizavaos mutuamente. Todas as opiniões eram respeitadas. tinham decidido que. concediam-se viver com mais flexibilidade e benignidade. Abigail. um pedaço de terra pagã à selvageria. Originário de uma província do Oeste da França. No fortim da primeira invernagem. . e esse casal decidira começar uma nova vida de pioneiros. o Pastor Beaucaire e a filha deste. patos. e julgavam-se perfeitamente casados diante de Deus e dos homens para assinar seus nomes no registro oficial de Wapassu. Mas Wapassu era desses lugares ondcas coisas correm bem por si mesmas. cada um contribuía com sua parte. e batizando para crianças inocentes um lugar onde não seriam condenadas. a sobrinha dos Jonas. debatera com os reformados sobre o lugar onde havia menos risco de serem importunados pelos murmúrios e cânticos do ritual católico.. sinal de que o inverno seria rigoroso. sentado junto ao átrio. depois de um longo período de luto fechado. Essa era a mentalidade de Wapassu. antes de nascer. de mãos dadas. fortuita. o Padre Masserat. católico. não era raro ver Porguani. à prisão ou ao banimento? . não lhes parecera um obstáculo suficiente para desdenhar e romper a maravilhosa história de amor que se tecera entre eles. estava-se em território livre. um viúvo de uns trinta anos.Após reunir-se em conselho. em cada ala da grande cosntrução central. seria arrumado um cómodo. acabava de desposar uma das graciosas filhas da Sra. Em Wapassu. constelando o céu com cruzes de pontas pretas. fumando seu cachimbo comprido. e receber a benção do Sr. O término do inverno. As abelhas tinham feito suas casas no alto dos ramos. na grande sala comum onde se reuniam no inverno após o trabalho. Os cisnes. a fim de que pudessem reunir-se e rezar ou cantar seus salmos sob a égide do Sr.. esse jovem pastor perdera sua esposa. cada um usava de discrição e tato para praticar sua religião. Um oratoriano de uma certa idade fora encarregado de oficiar para os católicos do lugar. desposara Heitor Malaprade. graças não se sabe a que influências benéficas.

colocados para secar. cerejas-silvestres. fechassem a boca para mastigar e não arrotassem? 42 . Esses hóspedes de destaque não tinham. abóboras. Esperava-se a chegada de uma reserva maior de sal para terminá-los e armazená-los nas caves. Numa das cadeiras dos antigos. faziam com os índios metallaks. que. Esse alimento dos países de clima frio era famoso por evitar o escorbuto. estavam sendo preparados. Tonéis de repolho azedo. frutos de faias. anualmente. quando bastava jogar nas costas as preciosas e indispensáveis caldeiras para deixar as cabanas. antes que os índios fossem embora. até os andares e as grandes salas do térreo. que iniciara Angélica no sabor da água de fonte da região. As aldeias naquele tempo se agrupavam em torno dos recipientes imóveis. misturavam-se às fumaças das cabanas carboníferas da elevação fronteira. Gritos. perto dessas grandes panelas de madeira talhadas em cepos de árvores não desenraizadas e onde os índios do norte faziam cozer suas papas de milho antes que os brancos tivessem trazido da América o caldeirão de ferro ou de cobre. como os chamava a Sra. Uma última sessão de retalhamento. As tribos então eram talvez menos nómades que agora. Jonas tinha pressa de mostrar a Angélica em que ponto estavam os trabalhos referentes às provisões de inverno reunidas durante o verão. divertiam-se muito olhando os índios comerem. grelhados perto da lareira e dourados. corte. fruto de colheitas ativas e de cuidados dispensados às primeiras culturas. os agricultores de Wapassu tinham-se dedicado sobretudo a preparar grandes pastos para a criação de animais. e em geral todas as crianças. na outra cozinhavam os diferentes pedaços de um alce.. onde se fabricava carvão de lenha para o inverno. sob os telhados. A água. filhos de brancos. Quartos de grandes abóboras cor de rosicler assavam sobre brasas. enfiados em cordões finos e resistentes e estendidos em enfiada de uma viga a outra dos forros. Tomás e Honorina. Bartolomeu. cozinhavam feijões. para agradar os índios. para a alma!" O festim teve lugar na colina. fazer seus quartéis de inverno. que exige vigor e paciência. risos e sons de flautas e de clarinetas orquestravam as refeições. sob sua gelatina transparente. assavam betardas em espetos. pequenas peras. que era do Aunis. onde a água derramada era levada à ebulição por bolas de pedra incandescentes. o Sauerkraut alemão. E também dizia: "o alimento é para o corpo. nos "sótãos". como nabos e cenouras. depois um último festim. Totalmente sem sal. rábanos e de raízes. a fim de poder reunir uma quantidade suficiente de forragem para a sobrevivência dos animais domésticos. Homens e rapazes tinham voltado da última caçada. haveria som mais agradável de se ouvir nos confins da casa que o piar alternado de duas batedeiras para manteiga que trabalhavam ativãmente para transformar esse leite numa bela barra amarelo-clara de manteiga perfumada pelo odor das flores de Wapassu? A robusta Iolanda não demorou muito a se apresentar como voluntária para se revezar nessa fatigante tarefa. Oferecia-se ao sagamore Mopuntuk os caroços de gordura do intestino do alce que tinham um certo cheiro de tripas e eram comidos crus. em cestos suspensos por polias. Para os estômagos delicados. regados por caldo de frutas ácidas dos bosques.A Sra. ápésár de monótono. As culturas ainda eram modestas. Aljém dos repolhos. havia a suprema reserva de madeira. quando comiam.. Òs mais deliciosos aromas se elevavam. defumação seria realizada. Os cântaros de leite colocados nas mesas familiares todas as manhãs representavam o resultado desse trabalho. e aveia para os cavalos. em pequenos grupos. Seu chefe era Mopuntuk. arrastando-a cada vez mais longe. secando tanto quanto possível terras das cercanias dos lagos. que enxugassem as mãos. que podia ser transportada. E. prato seleto. Ware! Ware! a água! a água!. Um pouco de centeio. E. insubstituível para manter a energia durante as longas caminhadas ou os longos carretos. Jonas. Em caso de penúria. maneiras muitos mais repreensíveis que as suas. nozes. assim como os diversos cogumelos. Bagas dos bosques. a quem censuravam com tanta frequência por se comportarem mal à mesa! Agora teriam condições de vir recomendar-lhes que não comessem com os dedos. repetia em al-gonquino. avelãs. raízes de bardana eram cozidas em água salgada e as bolotas podiam ser consumidas depois de se jogar fora a primeira água. foram juntados. e também os pés do animal.

a fim de assegurar-se de sua qualidade. A palma foi dada a Joffrey de Peyrac. francesas ou inglesas. depois. tendo feito a digestão durante um longa sesta beata. um sujeito. sem virar a cabeça. No fim do ágape. com uma negligência que parecia ter praticado a vida inteira. enquanto margeavam mais uma vez a beira do lago. depois lançava para trás os ossos. propôs. capturadas durante reides. 43 . os pedaços. isto é. Encerrado o incidente. As mulheres tinham arrumado os utensílios e limpado as vasilhas. passado de boca em boca. distribuir a cada um umapequena "gota". Certo! Os índios eram sujos. e se fosse preciso comer com os dedos e escarrar na própria fornalha do cachimbo. para coroar a festa. e os índios caçadores se foram. mas um insulto aos deuses. que. Alguns. Quando se servem os deuses. de um comerciante a outro. que conhecia mal a mentalidade dos índios do interior. mas tão alegres. Era principalmente sua atitude que encorajava os europeus a se sentirem à vontade. ligando-se mais à tribos de adoção do que jamais o haviam feito com suas famílias brancas. com a intenção de acrescentá-lo a suas reservas de várias pintas. foram reclamar seu "dedal". em meio à fumaça do tabaco da Virgínia. não veria nisso nenhum inconveniente. comia-os com a mesma compunção religiosa que seus hóspedes. Mopuntuk e os outros chefes pegaram Honorina e seus amigos e os colocaram nos ombros ou nas costas a fim de dar uma voltar a galope pela campina. a paisagem suntuosa dos últimos dias de outono adquirira uma feição mais despojada. esses ritos para ele só importavam por reatar os laços de compreensão humana entre as duas raças estrangeiras. O sol empalideceu. As crianças conseguiam isso imediatamente. Mopuntuk indignou-se. de uma maneira completamente desaconselhada pelo manual A civilidade pueril e honesta. E aquele dia. em que se lia uma atenção ao mesmo tempo deferente e fraterna. e que eles conservavam visando à grande bebedeira sagrada a que seus irmãos e eles se entregariam antes do fim do inverno. tinha um jeito inimitável dé se agachar junto a um índio. e que tinham se habituado à convivência com seus raptores. sob qualquer vestimenta. A água-de-fogo dos brancos era para os índios fonte de delírio sagrado. um riquinho de álcool. correspondente a um dedal de costura. Nessa água. sem se desfazer de sua dignidade de grande senhor. tão convencidos de seu decoro. que não ficavam embaraçados ao vê-los enxugar os dedos em seus mocassinos. antes de desaparecer sob as árvores cinzentas. houve um concurso para ver quem conseguia comer melhor à moda indígena. Na verdade.As crianças olhavam suas mães pelo canto dos olhos com triunfo: era tão divertido arrotar como verdadeiros índios! E as mães faziam de conta que não percebiam nada. tendo os metallaks comido até ficarem derreados e. ou pegar na escudela uma parte de carne e oferecê-la a eles. que uma fina película de gelo já empanava. da panela. dentre os recém-chegados. Ele puxava o cachimbo. Pegava com a ponta dos dedos. não era apenas a chegada do frio que a fazia tremer ligeiramente. e conheciam muitas histórias de crianças canadenses. sem manifestar a menor hesitação. Sob a névoa dourada do sol. fazia parte de sua natureza. Fizeram-lhes sinais do alto da colina. o reflexo de suas vivas silhuetas parecia turvo. Os gritos. os risos e os cantos recomeçaram. deve-se servi-los sem mesquinharia! Proibiu a seus guerreiros aceitar a oferta ridícula e mesquinha. A sutil claridade do dia se obscureceu. Quando Angélica olhava à sua volta. não lhes provocaria nenhum transe! Beber apenas uma quantidade tão pequena era considerado pelo chefe dos metallaks não apenas um triste desperdício. após experimentá-la um pouco. Existe um parentesco espiritual entre as crianças e os selvagens. Foi um erro. para seguir os índios em suas wigwams. estendendo para a face acobreada seu rosto inteligente. Beber apenas um pouquinho. Este. medida francesa. entre os brancos. Elvira dizia que sentia que seus meninos poderiam perfeitamente deixá-la de um dia para o outro. às escondidas. Mistura de indulgência e de consideração. pacientemente amealhadas durante o verão.

já que os mandamentos não bastam. e numerosas patrulhas de soldados mercenários comandados por Marcelo Antine faziam todos os dias reconhecimentos nos arredores. Longe de tudo. O dia seria diferente. fora da beleza paradisíaca que confere à paisagem por sua brancura rutilante de mil fogos. do alto dos bastiões e do torreão. Num impulso unânime. o negro banto. a preparar-se para descobrir e enfrentar sem terror e sem manifestar espanto pueril.. deverse-ia agradecer-lhe pela desenvoltura e o arbítrio com-os quais ela se atravessa diante das resoluções humanas e faz pouco de seus planos e decretos.. tão rústico era seu aspecto. depois eles se dispunham em círculos diante da grande porta e esperavam. olhara sem terror sua primeira neve. Se se soubesse compreender os sinais de sua aparente loucura. eram criados por seu pai vinham nos dias de frio refugiar-se também no castelo. explicava à menina. com uma alabarda duas vezes mais alta que ele. eles piscavam suas pálpebras frágeis sob o brilho do sol dourado que a neve refletià como um espelho. Ouviam os passos de seus pequenos cascos redondos e duros saraivar na madeira da ponte levadiça. Penetrara nesse elemento desconhecido com a impassibilidade de um guerreiro primitivo para quem o mundo. punham-se a zurrar. Se tardavam muito em abrila. cáustica. do que adivinhar. as decisões cegas da natureza. mais que maldizê-la.. Esta era uma das razões pelas quais Angélica gostava de neve. de grandes orelhas. com Honorina sentada a seus pés num tamborete. durante a noite. que pareciam talhados a machado em madeira. A vigilância afrouxou um pouco a seguir. É que a neve. por esse ardor em fazê-los participar de sua alegria. iam procurar refúgio no castelo. Caprichosa. Havia no Portou uma raça de pequenos burros pretos muito peludos. As mulheres tiveram de tirá-los do berço e levá-los para fora. Eva Granadina. o velho Guilherme. "Ele os protegerá do incêndio!" 44 . que se apaixonara pelas histórias da infância de Angélica. esquentando-se todos juntos na grande cozinha! Temiam-se as incursões dos soldados salteadores e pilhantes. ou alemão. pôs a perder rios de ouro e mudou o curso da história. ficavam muito sós. como o mundo que lhes foi dado é belo!" Lucas M'botê. que é uma guardiã vigilante. atendendo às súplicas de Honorina. De tal forma que. Nada mais delicioso. No ano de sua volta de Quebec. Enrolados em peles. era um pouco como Wapas-su. As crianças entravam em férias. Tinham em casa um mercenário suíço. mostrara tanto entusiasmo ruidoso e frenesi em se enrolar na vaporosa brancura quanto a juventude do lugar. e acionava-se a ponte levadiça de correntes enferrujadas. no inverno. no calor da casa. que também via a neve pela primeira vez. Sim. Era preciso tomar outras providências: era imperativo fazer um bolo. em perigo. Aqueles que. a claridade baça da neve caída. pequenos príncipes. não tinham parado de espreitar constantemente. só restam. é um reservatório sem fim de armadilhas e de surpresas mágicas que lhe ensinam. nos limites de sua aldeia. Dura estação para os animais e para aqueles que não têm alimento e calor suficiente. A neve e o frio garantiam para os humanos a paz. Que cacofonia! — Conte! Conte mais sobre os pequenos asnos pretos — suplicava Honorina. pareciam dizer-lhçs: "Olhem! Olhem. possuía essa clemência de afastar um flagelo ainda mais destruidor: a guerra. sem ruído. Por exemplo. E as crianças. Em compensação. traz consigo um silêncio e como que uma trégua que não é apenas imaginária. o velho castelo poitevin que adquiria um aspecto tão bonito quando suas duas ou três grandes torres redondas se encapuzavam com gorros brancos e pontudos! Monteloup. se se tenta passar além. quando caiu a primeira nevada. a tempestade que afundou a Invencível Armada espanhola diante das costas da Inglaterra aniquilou anos de preparação minuciosa e muito bemdisposta. através dos vidros constelados de geada. quando levantavam. evocava sua infância no Castelo de Monteloup. as sentinelas. foram buscar os gémeos para mostrar-lhes a primeira neve. Angélica dera aos Jonas o cão "boboca" que ela salvara da tempestade e de seus torturadores. desde a mais tenra idade.Durante toda a estação do verão e até o fim do outono. zomba da força de inseto do homem e às vezes se zanga.. como Curt Ritz. para erguer uma barreira entre o homem e a execução de seus intentos de violência. Os aldeões dos lugarejos. Angélica julgava lembrar-se de que sempre amara a neve e enquanto escolhia suas plantas medicinais para arrumá-las em caixas de casca de bétula. como os mulos.

Seus olhos azuis continuavam a olhar uma imagem interior. e seus novos filhos crescerem. tendo quase sido devorado pelos lobos. aos seis meses. nada tinham de etéreo.Dizia-se que esse tipo de cão percebia um início de sinistro em qualquer canto da casa. sempre pouco guarnecido. Diz-se sobre uma criança: "Ela é bonita!" ou "Ela é feia!" Ora. foram obrigados a acorrentá-lo. Gloriandra. sem ruído. mantinha-se bem ereto e recusava. dizia Honorina. No verão. Angélica achava tempo para escovar longamente. onde se trocavam presentes em memória aos reis magos. pensava Angélica. um azul de centáurea. Mas. observava em torno dela. tivesse se refugiado em seu mundo. juntos se agarraram com uma das mãos e depois se sentaram. como se tivesse sido conduzido subitamente à consciência de seu estado frágil de miraculado-ressuscitado. Joffrey. e que depois se fizera religiosa. "A filha de Joffrey!" Pegava-a nos braços e passeava com ela. nenhum incêndio — Deus seja louvado — se manifestara em Wapassu. deitar-se novamente. vê-la acordar. de um azul profundo e no entanto claro. Era feio. feio e bonito. Elvira e as crianças gostavam dele. pois não "latia". e Honorina mantinha-se acordada. Entretanto. até então. não servia para nada. desde o começo. ainda mais estreito e pálido. sonhando em levar-lhes carroças 45 . seus gestos. com uma força insuspeita. Desde que Cantor a fizera escutar o concerto dos lobos. não se podia opinar sobre a excelência de seu faro nesse aspecto. deitava-se sobre as pequenas meias encharcadas para fazê-las secar mais depressa. os belos cabelos de Honorina. No inverno. que buscavam comida. Punha por terra o julgamento popular que gosta de se expressar por opinões categóricas. O jovem Raimundinho. decidiram que ele era belo: suas bochechas estavam ficando mais cheias. que se encantava com sua beleza e lhe fazia muita festa. não atraíam sua atenção mais que o reflexo do sol ou o brilho de um objeto. ao mesmo tempo. seu nariz revelava-se ridiculamente pontudo. sem apelação. Juntos. Nas noites de muita geada. e. Em contrapartida. ouviam-se os lobos. e amiúde ficava sentada em sua caminha. Avisado por ondas que só ele captava. como se. tivesse seguido um caminho pessoal. Mas tornarase um cão feliz. e ele gostava de todas as crianças. O Natal. Em outros momentos. ela sabia ser curiosa. quando seu gémeo dava o impulso. Quando caía a neve. mas os humanos. era belo. tampouco tinha êxito. era também o momento de imolar um ou dois porcos. pelo fato de ter requerido menos atenção que seu irmão ao vir ao mundo. Não se via senão esse olhar e sua pequena boca bem modelada. ele oferecia as características de ser. com cabelos negros que começavam a encaracolar-se. como um louco. lançava-se contra as paredes. Raramente ficava encolerizada. mas que ele mantinha com um orgulho de infante espanhol. ergueram a cabeça para lançar um olhar por cima do berço. nem marrons. suas vozes. perdera-se muitas vezes. A vida se organizava no interior da casa. contra as janelas. uma vez sentado. traduzindo uma opinião geral que ninguém contesta. felizmente. depois a Epifania. abria os olhos. nem pretas. Mas. falando-lhe: — Como você é bela! Como você é delicada! Mas Gloriandra recebia os cumprimentos com indiferença. e as cerimónias de matança iniciavam a lista das festa e comemorações da estação."cor de café quente cheio de espuma marrom". "Os olhos de minha irmã Maria Inês". nos quais ele levava a passear as crianças que ainda não andavam. Haveria o Advento e os costumes diversos que o acompanhavam. a um leve trenó. no inverno. sob seu crânio redondo. o olhar imperioso de suas pupilas escuras. retomava uma aparência sofredora. seu rosto. Quando se surpreendia em seu rosto alongado. Para devolver-lhe o sentimento de seu valor. todas as noites. Dir-se-ia que ela não parava de escutar dentro dela o coro dos anjos. todo feito de devoção. Fora isso. a fim de evitar que lhe acontecesse algo de ruim. rememorando aquela que fora uma encantadora dama de honor da rainha. atrelavam-no a uma pequena'charrete ou. e também imperiosa. o que o deixara triste. de tez dourada. E como. para passear com ela. Tinha sua utilidade. sempre ficava condoída pelos uivos dos pobres lobos. ela o seguia logo com uma convição e um vigor que.

editores e livreiros faziam fortuna. a frouxidão e a mediocridade dos grandes homens da Bíblia. pelos exercícios do espírito. a covardia e. não a chocavam muito. As alternativas do inverno: dias de tempestade. que era preciso aproveitar para retirar portas e janelas e cavar trincheiras através do pátio. de todos os abandonos. Florimond pudera começar a enviar-lhes mais abertamente essas múltiplas brochuras.. e que fazia soar o trovão em feixes vermelhos.— Não se inquiete. seria preciso servi-los. em círculo diante da porta. que expulsava para dentro de deserto sua criada Agar e se jovem filho porque sua velha esposa tinha ciúme do menino Ismael. Misteriosas encomendas. A intervenção do anjo tornava-a sonhadora. a essa menininha engraçada que se magoava com o sofrimento dos seres inocentes. mas tomara gosto. um número considerável de livros. e. Jonas.os dias acordo com sua fome. Sabia que não a consolaria assim. Não sabem que foram vencidos. para agradar-lhe. sentiam-se ávidos por se evadir. retorcendo os braços sob o sol. Jonas para ler em sua Bíblia a história de Agar. Para que nunca tivessem fome. que não podia ser umas salvação por si só. através das disputas teológicas. "Os lobos não eram infelizes".. Os lobos não são infelizes. acontecia de ele. Honorina pedia com frequência ao Sr. e se perdem e morrem. que pareciam e eram vendidos como "pãezinhos" e satisfaziam às aspirações de sonho. fugindo. incurável. afastados por bebedeira ou outros reveses. Nesse relato bíblico. brancos e azuis. como Abraão. Fazia-os entrar no forte.. Eles a aguardavam lá fora com esperança. espanhola ou neerlandesa. insustentável provação de assistir à agonia do belo Ismael querido. pois ele sabia tudo. Para os lobos. dias de gelo que faziam doer até os ossos assim que se punha o nariz para fora.. que era o centro das edições clandestinas de obras proibidas em seu país de origem. reunindo produções vindas de Londres ou de Paris. não é? Os lobos não são menos corajosos que os homens. o grande senhor que comandava o mar e os iroqueses. que tinha em si um senso agudo.. de uma lógica implacável. muitas vezes via Amsterdam. fantasia. entre outros. que se enfeitava com flores e se chamava Agar. inglesa. de todos os repúdios. ler em voz alta romances que mendigos e màrafonas escutavam chorando. ritmavam a vida cotidiana. em memória à pequena cigana que encontrara em Salem. E o destino dos lobos não comer todos. Dizia-lhe: . Você prefere ter fome a ficar presa.de boa carne. injustamente rejeitado e condenado. Apenas que levaram sua vida de lobos direitinho. romances em prosa ou em verso.. isso faz parte do jogo. ela fingia acreditar nele. O Sr. o chamado dos lobos. 46 . pequenos burgueses. seu pai. aparecer subitamente à sua cabeceira. artesãos e até os miseráveis. mas a jovem Honorina não se deixava enganar. por subversão religiosa ou política. Deixava que ele prendesse as cobertas sob o colchão. das asperezas da vida cotidiana. ele colocava um bálsamo momentâneo em suas feridas. meditação e fome de saber de uma sociedade que saíra totalmente inculta de cem anos de guerras de religião. vindo à sua cabeceira. Na França. Devia saber. E que era seu pai. amortalhamento. Os serões ganhavam uma grande importância. todos os anos. a verdade da narrativa que ela acompanhava etapa por etapa. com sua voz solene e devota. a fadiga da mãe e da criança. Angélica vira antigos escribas e professores da Sorbonne. No Pátio dos Milagres. atravessar o inverno. a intolerável. Interessava-se por ela. em língua francesa. dissera ele. Burgueses. e olhavam com seus belos olhos oblíquos dourados. — Esse anjo poderia ter chegado um pouco mais cedo — dizia. Perseguir e ser perseguidos é um jogo. tentava fazer dele um herói admirável. E fechava os olhos com um ar de sabedoria muito composta e pouco habitual nela. ao. procurar pastagens. E os livros. E seus raciocínios. Os navios da Europa traziam. Ela era toda instinto. Eles não exigem tanto ser alimentados quanto ser livres. pela imaginação. o que o fazia sorrir de ternura. a sombra pequena de uma palmeira compassiva. O que mais esperar dos adultos? Mas gostava da cena do deserto. volta do sol. preparadas antecipadamente. Quando ficava assim sem conciliar o sono em seu pequeno leito a escutar. longe. para ser explícito. acreditar um pouco nele. depois de novo anúncio das tempestades. Sua atenção a satisfazia. e a humanidade dos sentimentos das mulheres: a morte de seu filho. esperavam em Cádiz o navio de Erikson. a caça é um jogo. ocultavam uma profunda desconfiança em relação às explicações das "pessoas grandes". a angústia da sede. Mas. para os animais.

na casa de Mrs. no inverno. seu marido. Ele fabricava as balas em moldes e as pequenas peças de chumbo. que ia novamente embora na primavera quando os seus prosseguiam viagem. Lemon White. — Como ele era? Angélica interrompeu o que estava fazendo: colocava num saquinho a tília dourada. Em volta da muralha. olhos como os das corças. Tornara-se usual ir à casa dele prover-se de chumbo. Tinha. Tinha boas reservas de víveres. 47 . já notei.. as cabanas indígenas. e isso podia durar dias. Instalações mais amplas e mais aperfeiçoadas ocupavam agora toda uma ala do grande forte. — Ele tinha olhos castanhos muito suaves. só filetes de fumaça se elevavam no ar cristalino. fuzis de pólvora ou de mecha e pistolas. recusou-se a deixar sua toca. Só o inglês mudo. Eles também tiveram anjos que vieram salvá-los in extremis. Ele se àlofava no antigo forte de Wãpassu. Trabalhava ali da manhã à noite. um pouco à moda de Elói Macollet. às vezes. — Eles sempre chegam tarde demais. Honorina guardou na cabeça a expressão. Nácar branco tocado por cinza-pérola e por um pouco de verde. e ficou surpresa ao ouvir sua mãe responder-lhe: — Sim. pois estava equipado para aguentar muito tempo.— Não é o papel dos anjos — explicava o Sr. Angélica e Joffrey olhavam a ondulação lívida da paisagem. seus filhos. Esperava ter sido.. com uma expressão extasiada.. isto é. Bartolomeu e Tomás. e a localização das habitações fora dos muros. branco como uma hóstia. afastado. também tive um anjo que veio quando nasci? — perguntou um dia a Angélica. Ao longe. digamos. na companhia de uma índia. A sorte de Lemon White inspirava menos temor. E tinha uma espada na mão. que tivera a língua cortada pelos puritanos por ter blasfemado. o da primeira invernagem. que permanecia em sua wigwam. Por ali passavam. — Como o Arcanjo São Miguel? — Sim. cruel. In extremis. Jonas. vento frio. — Como estava vestido? — Não me lembro muito bem. e toda a comunidade lhe trazia mosquetes. sentir-se na obrigação de pôr o nariz fora e distanciar-se alguns passos da casa comportava riscos de morte. Pássaros negros em bandos. pois levar-lhe um pedaço de pão ou uma tijela de sopa. Os anjos dos gémeos também estavam vestidos de preto. espessa trazidas pela fúria dos ventos. Ao segundo anúncio de tempestade. — In extremis. ralos. em outros tempos. na mesma intimidade do primeiro inverno de Wapassu. Ficava para fazer a manutenção do material e da forja das primeiras oficinas de mina de onde haviam tirado lingotes de ouro e de prata. uma vez mais. Lembrava-se de ter ouvido repetidas vezes em Salem. sucata e pólvora. CAPITULO XI O drama de Jenny Manigault Do alto do torreão. revelando as pinhas ou as intumescências dos tipis. via-se a crista de um monte. Olhava os gémeos debater-se em seu bercinho e mostrar suas mãozinhas um ao outro. Apertaram-se um pouco.. Honorina ficou satisfeita. emergindo das nuvens. onde até os sinais da floresta pareciam desaparecidos. aqueles que tinham construído suas casas fora da muralha julgaram mais prudente pedir hospitalidade no forte: Elvira. precediam a chegada das nuvens de neve . Parece-me que estava vestido de preto. "In extremis! In extremis!" — E eu. Cranmer. seus companheiros de brinquedos. como os carros dos demónios polares.. Vivia sozinho.. O céu estava nacarado. a intervenção do Altíssimo é mais estrepitosa. arriscando-se a morrer de fome e de frio. numa plataforma de madeira. O blizzard. Lemon White transformara o fortim em oficina de conserto e manutenção das armas. colubrinas. Honorina reencontrava. Assim. soltando gritos sinistros. Era bonito e jovem. desfavorecida pela sorte. pequenos canhões do forte.

de levar às praias o maior número possível de peles. trazendo feijão para salvá-los.permanentemente. uma vez saciados. viram os iroqueses chegar. peças limpas. da magnífica raposa ruiva. frascos ou potes de unguentos. preparavam-lhes no pátio grandes caldeirões de sagamité. e ainda menos para semear abóboras e ervilhas e um pouco de trigo-mourisco. A febre que os assalta. Depois das mais ferozes tempestades. comprimidos em torno da grande mesa. Eu os reconheço. Outrora. sob um vento infernal. apanhar em armadilhas animais de pele e recolher as peles para o comércio. atualmente fechadas por tábuas. Desde o mês de março. com sua lareira. sempre em grupos familiares. Vinham a cada ano em maior número e mais cedo. nus. esperavam receber o que comer. Mas. Isso significava que eram cada vez mais numerosos os nómades que esgotavam suas reservas de inverno bem antes que as perspectivas da primavera pudessem fazê-los esperar o fim da miséria e da possibilidade de reinicia a caça. patsuiketts. Era um fenómeno que levara Saint-Castine a pedir a ajuda de Peyrac para evitar que os índios da Acádia fossem inteiramente dizimados pela dupla exigência do comércio de peles e das santas expedições guerreiras. tomava muito lugar. um quartinho recuado e oficinas que se prolongavam nas galerias de minas. como o de Ulisses. não lhes deixa tempo para perfumar e moquear carne e peixe para suas provisões de inverno. conduzi-os eu mesmo ao combate mais de uma vez. começavam. ter de desmontar as cabanas para dirigir-se a outras aldeias menos miseráveis. construída à maneira de certos pioneiros da Nova Inglaterra. condimento de bagas e de rábanos ácidos. Com o mudo. dispersavam-se em grupos de famílias. muito pequeno. Em contrapartida. Havia um cómodo. por meio de sinais. Jonas não hesitava em adicionar-lhe três ou quatro velas de sebo para derreter. que ele não utilizava. 48 . pois eles apreciavam que sua alimentação fosse bem gordurosa. como marmotas ou ursos. onde ela e Joffrey tinham dormido. O inglês contentava-se com a grande sala comum. como costumavam fazer na primavera. Angélica. no inverno. evocavam algumas anedotas. sobretudo as raízes eseus rizomas. Os abenakis eram nómades e. então os primeiros frios os encontrarão desprovidos de tudo. às vezes do castor branco e da raposa bem preta. não o utilizava. os últimos a fugir de sua área de origem. Notara que o inglês. lince. assim como pólvora composta segundo a fórmula elaborada pelo conde. muito deferente. permanecia fechado. de colocar e retirar armadilhas. "A troca desenfreada que é feita em nossas águas durante o verão. "Se tiverem de responder ao chamado de uma campanha guerreira entre os hereges. depois de vê-los morrer de fome os milhares durante dois invernos. Mas a maioria não ia embora. voltados para si mesmos. chamados "os que vieram em fraude". se a situação se tornasse insustentável. Pois isso. a caçar castor. especialmente no inverno. vivendo em alguns acampamentos. entre esses. razão pela qual não se podia movê-lo dali. um mingau de milho triturado com pedaços de carne ou de peixe seco. bacalhoeiros e baleeiros. procuraram refúgios na missão de Norridgewook. flores e bagas secas. Agora subiam para Wapassu. que gostava de ir à casa do_ mudo em suas caminhadas. Pediulhe para guardar ali uma parte de suas reservas de símpleces." Entre os que se apresentavam aquele ano. sakokis da região de Sako de New-Hampshire e. tinha vivido sua primeira noite de Epifania na América. prosseguiam seu caminho. os índios começaram a chegar. havia alguns que escaparam à guerra do Rei Filipe. aquele onde tinham-se alojado os Jonas e as crianças. no cabide de armas. com o risco de. prontas para o uso. decidi mudar de política. Sob suas baixas abóbadas enfumaçadas. O fenómeno não deixava de ser inquietante. impede-os de se entregar à caça e à pesca de salmão e aosalevinos. com os navios estrangeiros. usando para os montantes raízes de árvores. reencontrava-se com prazer na habitação. mas sempre limpo e aquecido por uma canaleta de seixos que formava uma chaminé com quatro aberturas. Levavam peles de gambás. pois chegavam ao forte quase mortos de fome. bem azeitadas. acuados pelo frio e pela fome. A cama mantinha-se coberta com peles. Alguns apenas passavam e. O quarto. e a Sra. Davam-lhes tabaco. por outro lado. lontras. de valor incalculável. Uma coisa que Angélica lamentava na pequeno fortim era o grande leito que Joffrey mandara esculpir e construir. tendo quando muito o álcool trocado nos navios e os escalpos de inimigos à cintura.

Uma jovem índia. depois articularam num francês um pouco agudo. quando a neve endurecida permitia calçar as raquetes. estavam prestes a erguerem-se como cogumelos em volta do forte. bastante fraca. por uma renovação espontânea do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. para fazer com que os chefes de família compreendessem que tinha chegado o momento de voltar à caça. após caminhadas na neve e sob o vento durante as quais tinham perdido os velhos e quase todas as crianças de pouca idade. Depois do que. Angélica dirigiu-se à grande sala de acolhimento. com a condição de que lhe arranjassem um intérprete. Tinha muito trabalho para acolhê-los. Seus lábios se distenderam nurri* sorriso.seu encontro fitando-a com tanta intensidade que ela teve a impressão de ser "alfinetada" por esse olhar. em suas vestes e perneiras de camurça. em se aproximar do forte. a fim de falar com a Dama do Lago de Prata. No centro da sala. pois os povos do sul estão mais acostumados a "arranhar" o inglês. mais uma vez no fim do inverno.mantinha agachada a um canto. esquartejado pelos yennglies de Boston. os kanikas. vieram dizer-lhe que havia entre eles uma índia "estrangeira" que se juntara à sua caravana nos arredores do lago Umbago e que. untadas com gordura de urso. De acordo com o seu dialeto. ou as wigwams arredondadas. o que era surpreendente. a mulher parou e fez deslizar de suas costas uma criança de três a quatro anos. recobertas por lascas de madeiras. mal atadas por cordões de vergalho. pouco falante. pensou. assumindo todos os riscos. seus companheiros de viagem observaram. Angélica. retiradas ao olmo ou à bétula. achavam que ela pertencia a uma tribo dos pema-cooks. Receosa. a fim de compensar as perdas de reservas que os submeteriam a todos. assegurando-lhe não haver perigo. Ele falara com ela e a convencera a não temer os brancos. Era sua única vaidade. e escoltaram-na até ali. que passava a metade do inverno com eles em Wapassu. mas bem enunciado: 49 . primeiro de espanto. um reflexo claro. estavam despenteadas. A tez da mãe e da criança era escura. três varas cercadas de pedaços de cascas costuradas. havia dois dias. Angélica julgou adivinhar na ondulação de uma cabeleira crespa. Apareceu. que viviam dispersos e que a derrota daquele a quem chamavam o Rei Felipe. Mas o velho chefe. determinara que a língua mais conveniente de ser empregada com ela era o francês. Suas tranças. que nada tinha de índia. que ela encontrava a cada estação. Foi preciso aproveitar um belo período de janeiro. renas canadenses ou então tocaiar o urso adormecido em seu covil. tendo conseguindo conversar com a estrangeira. fizera recuar mais para o norte. ensinado pelos Togas Negras. Angélica tomou nota de suas explicações e se dispôs a receber "a estrangeira". Ela parecia ter um vocabulário bem rico. não abrira a boca senão para dizer-lhes que tinha de voltar a Wapassu. só se pondo a caminho depois de engolido o último bocado de carne-seca ou de milho. Certa manhã. levantou-se ao vê-la e foi ao. disse em francês: — Eu a saúdo. aliviados por terem chegado a uma sombra tutelar. cuidar deles. "Um pequeno inglês cativo". ao mesmo tempo curiosas e desejosas de um pouco de ajuda. que ela hesitava. não comportavam ornamentos e. mas devido à camada de gordura que revestia seu rosto. "que talvez estejam enviando com essa pobre mulher para ser trocado por víveres. algonquinos nómades do sudoeste." A fixidez dos olhos brilhantes da índia era quase constrangedora. Como o capuz da criança tinha caído. Seus lábios entreabriram-se.Os tipis pontudos. Como se chama? Sua interlocutora pareceu surpresa. dizendo que sua linguagem não lhes era familiar e que ela parecia conhecer apenas algumas palavras de seu idioma. o escorbuto. às agruras da fome e às ameaças do mal-de-terra. que se . prendendo-lhe os cabelos. advertiu que. Angélica dirigia-se a uma das salas onde as mulheres com seus filhos se apresentavam. enrolada numa manta de pele de castor. à perseguição de alguns alces. Quase todas as manhãs. Sacudiram a cabeça. que uma longa viagem tornara desgastadas. instaiavam-se com a certeza de serem salvos e a garantia de que os armazéns dos brancos estão sempre cheios de víveres. Uma faixa de contas cingia-lhe a testa. sujas e em frangalhos. supervisionar a distribuição de úteres e encorajá-los a voltar o mais depressa possível para as suas wigwams ou para suas aldeias provisórias.

esforçando-se por sorrir de novo. — Já faz vários anos que você se encontra em terra americana e deve saber. perturbadoras. era preciso reconhecê-lo. Angélica abriu espontaneamente os braços. pois Jenny recusava-se a sentar-se numa poltrona ou num escabelo. para aqueles que não as esperam mais. Jenny deu uma gargalhada. Eu não teria me recusado. sim. que. Dame Angélica! É você. criada ou esposa. No seio das montanhas verdes onde a tribo atingira seu covil. tendo entre elas a boa chama da cozinha. interrogadores. Jenny? — Da região dos pemacooks. afastando-se. vendo os de Angélica pousar. um reide permitia-lhes obter mercadorias. para ousar reaparecer entre os meus munidas do fruto de uma violação que proclamaria minha vergonha! Se digo que este é meu filho. são sempre dilacerantes. Dame Angélica. como se tivesse acabado de revelar uma farsa. Um deslocamento os levava para perto de lugares habitados. uma expressão incrédula e assustada crispou os traços da visitante. — Oh! Dame Angélica. Um brilho de malícia fez brilhar seus olhos.. conversaram confidencialmente. atrai a desgraça para uma wigwam.. — Pergunta-se de quem é essa criança? Pois bem! Ela é. realmente! Pensei tanto em você e rezei tanta aos céus para protegê-la dos perigos nesta terra maldita. refugiados nas montanhas. — Como estou feliz por revê-la.. — Não vamos chorar! — disse Jenny. e a filha mais velha dos Manigault fez o relato de suas vicissitudes. — Carlos Henrique! Olhando-o mais de perto. levavam uma existência nómade. não havia motivo para isso. Sentadas ambas na pedra da lareira. — Jenny! Minha pobre Jenny! Inicialmente atordoada.. o francês alerta e um pouco cantante das mulheres de La Rochelle.. e depois. com toda a justiça. na criança que a acompanhava. Angélica perscrutava o fino rosto sob a faixa de contas. meu pequeno Carlos Henrique. para os índios. É Carlos Henrique. aquele corpo magro e tremulo estremecer de pena e de reconhecimento. a fim de que pudesse um dia ter a felicidade de revê-la! Seu francês voltava-lhe rapidamente. abrindo na sombra do capuz de pele seu habitual olhar inquieto. de Gouldsboro. Isso se resumia assim: muitos pobres diabos. Como não se pronunciasse. você também não me reconhece? Oh. seja ela cativa. eu sou Jenny Manigault! Um silêncio embaraçado pontuou essa revelação inaudita. E você mesma ajudou a trazê-lo ao mundo.— Dame Angélica! Não me reconhece? Rememorando todas as índias que a tinham abordado de Quebec a Salem. mas dessa vez. ao qual pertenciam.. Manteve-se diante de Angélica. E Angélica sentiu. não queriam fazer comércio de peles. era o pobre Carlos Henrique. — Não estou entendendo nada! De onde você saiu. tanto quanto eu. O ramo dos wonolancetts. de onde fugi. — Será possível? Então. contentando-. à frente de um grupo. Fora confiada à mãe do sagamore 50 . Jenny Manigault passara os anos de cativeiro sem nenhuma possibilidade de mandar notícias aos seus. Não parecia compreender as mudanças ocorridas em sua aparência desde o dia nefasto em que fora raptada por índios desconhecidos e conduzida ao fundo das florestas. e que jamais tive ou tro senão..se em caçar e pescar para comer.. fora do tempo. é que ele o é. as ressurreições. onde seu rastro se perdera. desde o fim da confederação dos narra-gasetts. a meu amo Passaconaway. involuntariamente.. Fora capturada por um chefe dos pemacooks que errava por ali. mas eles se mantinham afastados das correntes estabelecidas. você pelo menos abriu os braços! Catástrofes ou bênçãos. mas. Reencontrava-se a jovem rochelesa impulsiva de outros tempos. minha! — Certamente. dispersara-se numa multidão de tribos. e escolheu seu nome. dia após dia. uma mulher constrangida. e a jovem índia "estrangeira" lançou-se a eles. nem guerra. sob as peles miseráveis..

como no início do mundo. Continuava a alimentar todos os dias projetos de fuga. "Quando cruzava com índios de outras tribos. Passaconaway foi com eles. Eram muito amáveis e alegres. Ainda tinha leite nos seios.Passaconaway. duas ou três tribos nómades dos wonolancetts. se não for consentida. Ouvindo falar francês.. e persuadida de que não poderia escapar a uma horrível sorte. prometendo-lhes. longe de tentar aproximar-me de meus compatriotas franceses. aproximando-nos. seria a prova de que o aceitava e consentia em entregar-se a ele. e que se descobrissem que eu era huguenote. "Os guerreiros voltaram pouco depois. Daí em diante fiquei em liberdade. um posto de comércio. Mas lembrei-me de que. Contavam ir até Boston para acabar com os hereges. grande paixão que ela lhe inspirara e a confissão de seu desejo ardente. no entanto. pois Jenny recusara qualquer outra bebida e também qualquer alimento. chegar a Gouldsboro. "Entretanto. uma vez que. e as mulheres me cuidaram para fazê-lo secar. Duas vezes. à casa de meus parentes. não tem mesmo nenhum valor. consagrei-me ao pensamento que não cessava de me obsedar: evadirme. de meus dias e minhas noites durante esse período que foi tão-somente uma série de esforços que eu realizava. logo compreendi que tudo dependia de mim. com o pensamento voltado para o ponto dessa praia onde deixara meus parentes.. tranquilizada. entretanto. diziam. apresentaram-se visitantes. Os grupos guerreiros abenakis voltaram para ir em socorro do Rei Felipe. Então. Senhores do Canadá os comandavam. "Uma primeira vez. eu fizera tudo para evitá-lo e. para os selvagens. Nenhuma violência me seria feita. Os homens partiam em expedições. "Eles recrutaram alguns guerreiros entre os jovens da tribo. se os seguissem em seus reides contra as aldeias inglesas. Ajoelhava-se e apresentava uma escudela cheia de sementes de abóbora secas. e perguntando onde ficava a de José Garret. e que era a esses fanáticos que minha família devia seu exílio. eu me escondia. — Aterrorizada. fosse levando-me para Montreal para me batizar. diziam. "E atingi Gouldsboro. após diversos assaltos e pilhagens. nome que significa "filho de urso". 51 . não podendo compreender as razões de minha desconfiança. o chefe Passaconaway ia até a entrada da cabana onde a jovem era obrigada a fazer o papel de criada. a entrega de uma mulher a um homem não tem valor. levada por um único instinto: sobreviver e chegar. Esse gesto simbolizava a. encontrar os meus. me arrastariam. muitos presentes e vantagens. assim como os ingleses. escondendo-me de uns. — Não poderia reconstruir a génese de minhas caminhadas. andei! — continuou. na Nova França. interrogando outros. "Longe de procurar fazer-me reconhecer por eles.. meu bebé. a intolerância papista era ainda mais rigorosa. das regiões de onde eu fora raptada. Foi durante sua ausência que me evadi. dessa vez. "Compreendi que tínhamos nos deslocado para o leste. que na própria França. Nesse domínio. Logo percebi que não seria possível fugir. "Passaconaway reconstruiu a aldeia no sítio de um antigo burgo de sua nação que reunira. Passaconaway notara que." Angélica mandara trazer água fresca. mas ninguém vinha até nós. portanto. julgando discernir em minha conduta que ele começava a me agradar. um grupo de guerreiros composto de al-gonquinos. concebera novas esperanças. fosse entregandome a seus abenakis. meu esposo. a campanha abortara. Se ela pegasse uma semente de sua oferenda. aproveitando uma canoa. abenakis e alguns huronianos passaram por nossa aldeia. após um silêncio. e. que os ingleses cortavam em pedaços. — Andei.. meu pequeno Carlos Henrique. Todas as noites. um navio enfim que descia o estuário do Kenne-bec e que me deixasse não longe de Mont-Désert. cheguei enfim a meu objetivo tão esperado. É surpreendente descobrir que. quase me precipitei para eles para pedir-lhes ajuda. obrigava nossas pequenas tribos a tomar partido ou afastar-se do teatro de guerra. indo de uma casa a outra. O círculo de montanha em torno de nós parecia deserto. Não perdia nenhuma oportunidade para obter informações sobre os caminhos que pudessem levar-me até lá. Minhas recusas não acarretaram sobre mim nenhuma sanção. certa época. Penetrei na aldeia. e até o paraíso. e minha sina de cativa seria ainda pior. de um grande sagamore narrangasett a quem chamavam Rei Filipe e que os franceses apoiavam. pois a revolta'no sul. no início. e não se priva de fazer sentir seu poder. Nossa aldeia teve de se desfazer. a mulher que trabalha rudemente é rainha e senhora.

nem um lenço de batista para enxugar minhas lágrimas. durante sua narração.. E ele só a deixara quando recebeu dela a promessa de que iria até lá. nem de correr atrás deles. Bertille pediu-lhes que fossem buscar ajuda. apenas ele se lançara em minha perseguição. Vou-me embora! Mas não deixarei meu filho a essa vagabunda. lhes mostrara seu pobre rosto pintado. e aqui estou! Ela se levantou e fez levantar-se a criança. Quando ficou bem perto de mim. e compreendi que estava misturando meu francês com o dialeto índio e que me julgavam uma índia louca e bêbada. à luz do fogo.para confiar Carlos Henrique a Dame. sem que ninguém tivesse a ideia de se interpor. instalada como dona. Carlos Henrique. e o pobre Siriki sabia. morta! Compreendeu. seu esposo! Era ele. num tom de garotas que querem deliberar sobre suas querelas sorrateiras —. Foi preciso algum tempo para perceberem que se tratava de Bertille Mercelot. e ele me indicava uma solução. — Ela sempre foi assim. desconhecido. cara a cara. eu lhe garanto — disse. que. quando. mais ferozes e uivantes que gatas bravas. mais do que o fazia em outros tempos? Peguei-a pelos cabelos. não mais existiam. com aquela mesma voz profunda e grave com que nos aconselhava e encorajava. Não pude deixar de reconhecer que ela se tornara muito bonita. insinuando-me maldades. Mas não podia arrastar meu filho e minha aventura. nos quais não parara de pensar aqueles anos todos.Angélica.. Deslizou para perto de mim. Meu marido. Ele me desposou. Angélica deplorou que José Garret. sim — afirmou Jenny. penetrando na casa que me indicaram como a sua. ajudando Bertille a levantar-se. mastigando uma raiz de jujuba. ela deu de ombros. em que sentira o punho duro que apertava seu coração afrouxar e deixara correr as lágrimas. que maltratava uma índia desgrenhada. com as vestes de pele esfarrapadas. pequena Jenny!" Viu aparecer o velho Siriki. Vocês me traíram. aos olhos deles. do mesmo modo como vinha outrora. soube imediatamente que era meu filho. levando-o. o lar. Riram quando comecei a gritar. encostada a ela. ela se aproximou de mim. disse-me com uma voz baixa e sibilina: 'Você vai partir. índia suja?'" Jenny interrompeu-se mais uma vez. Eram fantasmas a seus olhos. tomei coragem. naquele instante. Acredita que consegui enfrentá-la naquele dia. compreende? E você está morta. tomando Angélica como testemunha. ensebada. às escondidas. mantivera-se bem-comportada. — Ele me lembrava minha infância. sacudindo a cabeça com fatalismo. Eu ia voltar para as florestas. Depois de um instante de silêncio. o caminho da salvação: você Dame Angélica. Imbecil! Desencantada. confessou. ex-ceto pelos olhos e pelos cabelos brancos. a qual.. De noite. e vocês me tiraram tudo. Mas ela estava lá! Fingiu não me reconhecer. prosseguiu a narrativa de sua triste aventura. Mas. meu filho. tão aturdido e horrorizado quanto os outros. — Mas ele estava lá. os pés descalços esfolados. minhas irmãs e eu. e sua bela touca logo ficou em frangalhos. "Pequena Jenny. 52 . "As pessoas de Gouldsboro que acudiram viram-se diante de duas harpias engalfinhadas. Foi o único instante."Imagine minha cólera. Então. Não me levava dessa vez uma guloseima. essa puta!'" Com a criança nos braços. reerguendo-se finalmente. a família. como devia ser ela mesma. minha decepção mortal. encontrei ali Bertille. gritei-lhes: '"Sou Jenny Manigault. aqueles dias felizes em que nos fazia rir e dançar sacudindo seus anéis de ouro. Reconhecera-o. que o vento do crepúsculo balançava. também ele. onde lampejava um olhar que não lhes pareceu. Seus olhos brilhavam com uma expressão cruel e furiosa. que era a melhor coisa que eu poderia fazer. Jenny Manigault! Hoje sou eu a mulher de José Garret. Outras pessoas estavam presentes. assim que os adultos viravam as costas. A criança. mas ela se dominava. E não era ele! Um estranho! O esposo. quase invisível na penumbra. nos consolar quando éramos castigadas. pôs-se a falar-me de Wapassu. ela fugira. "Agarrando o pequeno Carlos Henrique.. Naquele dia... Jenny explicou que ele desenhara um mapa na areia. meu horror. seu esposo. a fim de que ela pudesse chegar até ali. estivesse ausente de Gouldsboro naquele dia. Ela o vira. Quando ficamos a sós. sentada junto a uma fogueira às margens de uma riozinho e assando algumas raízes para saciar a fome da criança uma voz elevou-se por trás das moitas. — Compreendi sua intenção. Eu! Apenas eu.

Carlos Henrique? Está contente por havê-lo trazido até ela. Jenny — repetiu Angélica. que não cessava de arder junto a mim. de realizar um último esforço. A Religião Reformada já nos trouxe bastante desgraça. A primeira ideia que veio à cabeça de Angélica. — Que importa? . ele me deu forças para seguir os conselhos de Siriki. Subitamente. ele a reconhecia. Não queria ter deixado La Rochelle... Jenny. eu poderia me lançar para a minha recompensa. Seu filho nasceu na Religião Reformada. Fechou seus belos olhos de francesa do sul. um outro sonho substituiu aquele que.. chorando. que exalavam um odor azedo. carregando-a. — Oh! ele a ama! — exclamou a pobre mãe. honrada. — Hoje. o exílio... — Por piedade. É a ela que devemos tudo: as intrigas e as perseguições que envenenaram nossa juventude. A única coisa que peço é que ele seja seu filho.. estéril e destruído. pois. indefectível. — Oh! é apenas gordura de urso — disse ela. e no inverno ela aquece e protege contra o frio. — Para os wonolancetts? — Sim. as mãos. durante todo esse tempo.. gritando. não é. Sei que viver sob sua proteção e cercado de sua afeição é a melhor coisa que lhe pode acontecer. me tornava inconsciente do decorrer dos dias e dos anos. mas preservada. a fim de cumprir meus últimos deveres em relação a essa pobre criança. isso é uma loucura. constante. — É a primeira vez que o vejo sorrir! Que felicidade! Vou poder confiá-lo a você. como lhe prometi durante nossa viagem? Você a conhece.. — Vou voltar para lá! Para a minha tribo. Veja em que me transformei nessa terra da América. como lhe disse.. uma vez tendo atingido seu forte e entregue a criança a seus cuidados. — Está bem — disse Angélica. Ei-lo! Entrego-o a seus cuidados. em passar toda a sua existência no fundo de uma wigwam. apesar do inverno. no reino da França. que não queria cuidar de seu neto. Andei. ficou em transe. e suas pálpebras apareceram brancas na máscara bronzeada e coberta da gordura que untava sua pele fina. Manigault. foi que lhe seria preciso explicar-se como o Sr. não me recuse sua ajuda por causa dessas tolices de religião! Suplico-lhe! Pegue-o! Eduque-o! Eduque-o como quiser. Você fugiu. avançando. Invadindo pouco a pouco meu espírito e meu coração. sem que eu o compreendesse.— Você conhece Dame Angélica. os braços. — Mas não vai matar-me. e você. e nós somos católicos. Enquanto andava. desconcertada por essa decisão. possuída pelo pensamento de que. Jenny. eu sei. de uma etapa a outra. cercada de cuidados. pregado a mim como um dente doendo. e quem sabe se seu amo não a punirá cortando-lhe a cabeça? — Que me mate! Morrerei prazerosamente em suas mãos — sorriu. eu lhe prometo. Chega de Bíblia e de intransigência. Deu um lento sorriso que a iluminou toda. Mas. e agora. O menino ergueu os olhos para Angélica e esboçou um sorriso. contemplando-o com admiração e desespero. eles são tão sujos! Jenny Manigault lançou um olhar indiferente para seus andrajos de pele. mas que ele escape finalmente à danação de ser huguenote. — JennyL. Eu devia a esse amor não apenas estar viva.. falso. você. feliz. no verão. e até para sua coberta. para meu amo. torcendo as mãos. A jovem lançou-lhe um olhar espantado. carregando o menino. num tom de queixa infantil. Você não está pensando. — Jenny. nascida na Europa. calçada com raquetes quando a neve caía. no coração da floresta. na eira varrida de meu antigo sonho. outro sonho o substituiu. me impedia de participar da vida. Ele é protestante. cativa ou companheira de um sagamore índio! — Por que não? — Mas. "Então. não é? Acariciava-lhe a bochecha. é impossível! Como pode pensar. os mocassinos. sobre seu ardor meridional. devíamos. numa família de maneiras nobres. Aquela que me espera lá longe. mimada. — Isso protege bem dos insetos e dos moscardos.. — La Rochelle! La Rochelle! — murmurou. não querendo aumentar a tristeza da pobre criatura —. que pretende fazer? Quais são suas intenções?.. mas não admitiria jamais que ele fosse criado entre papistas.. — Mas. Pôs o rosto entre as mãos.. e sobretudo me ocultava a magnificência de uma amor silencioso. já sem argumentos — . quando a 53 . com efeito. não abandonaremos Carlos Henrique.

à noite ele se transformava num ser incivilizado. nem por isso.por trás de seus traços impassíveis. pois ele era encantador e bom. viu apenas um grupo de famílias índias que. e surpreendia-me por ter-me convencido de que desposara o melhor partido da cidade. que pela primeira vez estava vazia àquela hora. Dame Angélica! Agradeço ao céu por me conceder que a última fisionomia que eu pudesse contemplar. "Um bonito militar. chamouo com uma surpresa alegre. nua sob as cobertas de peles. Jonas. e de cortesia durante o dia. cumprimentar-se sacudindo as mãos. e compreendo suas reticências. apresentar-me a cabaça de sementes de abóbora que exprimia a febre de seu desejo. Voltou lentamente para a sala. a constância com a qual vinha. Jenny olhou-os. que eu o detestava. infligindo-me às vezes sofrimentos e desconfortos. zangar-se com minhas recusas e testemunhar-me seu desagrado. não é? — disse corajosamente a Sra. Angélica. mas não conseguiu distingui-la entre as mulheres que. O menino levantou vivamente a cabeça e precipitou-se ao seu encontro. 54 . E eu sonho. ainda estupefata. Jenny Manigault dever ter-se misturado a elas. para satisfazer com esse gesto a longa espera de meu amo Passaconaway. Quando chegou à entrada do forte. CAPÍTULO XII Sobre as intenções de Honorina Se Angélica tivesse conseguido alcançar a pobre Jenny. aproveitando uma caravana que se deslocava e que me levava um pouco mais longe. Honorina entrou correndo" ha sala e. Jonas e de sua sobrinha Elvira. antes de deixar para sempre as praias de meu nascimento. — Adeus! — gritou. satisfazendo a gula de seu desejo sem preocupar-se com minhas repugnâncias. de longe. — Estavam aí? — perguntou. — Eu sei õ que você pensa. como se estivessem se escondendo.tempestade se elevava. estação após estação. e leio a emoção sutil que estremecerá . Depois. sem. calçadas com raquetes. Angélica compreendeu que tinham ficado petrificadas de horror. melhor do que eu. Andando. à visão da moça. às vezes semanas. seguiam os guerreiros. poderiam. e quase se sobressaltou de surpresa diante da presença da Sra. com as costas curvadas. — Por que não apareceram? Viram com quem eu estava conversando? Menearam a cabeça afirmativamente. Eu revia Passaconaway. vibrando com sua paixão por tanto tempo contida. carregando fardos e crianças. minha antiga vida se desligava de mim. se afastavam para a floresta. Vocês. fosse a sua! Virou-se e evadiu-se da sala sem correr. tentaria convencê-la de que era necessária a seu filho. o encantador Garret que a sociedade rochelesa me invejava. querendo retê-la. mas com a presteza e a desenvoltura alada das índias. pela expressão delas. reconhecendo imediatamente Carlos Henrique. mas não conseguiu alcançá-la. Nunca existiu. saltar de um pé para o outro e fazer um ao outro caretas provocantes e encantadas. mas franco e resoluto. que se mantinham atrás do canto da lareira. — Era a pobre Jenny. Sonho com a noite em que minha mão vai estender-se para a tigela oferecida. Dame Angélica. pedir a hospitalidade a alguma tribo errante. — Agimos mal. eu lhe abrirei os braços e verei seu belo corpo dourado se inclinar para o meu. diziam. por vários dias. Mas há uma coisa de que tenho certeza. — Sim. eu retomava a pista. precipitou-se. já bem maltratado pela existência. Eu o comparava com o outro. que foram amigas dela em La Rochelle. sem querer jamais reconhecer. convencê-la a ficar conosco. cujo porte me seduziu. Mas. de constrangimento. um marido cheio de atenções." Abriu os olhos e dirigiu a Angélica um olhar cheio de desafio. Sonho com esse momento em que. Fixaram em Angélica olhos culposos. — Adeus. Seus grandes olhos trágicos voltaram-se para Angélica. "E agora esse passado apagou-se totalmente. É que as entranhas desse selvagem não serão jamais tão bestiais como as desse cretino do Garret! Nesse momento.

não fora. — Sim. a revelação da paixão amorosa. solicitados pelos exercícios permanentes da caça e da guerra. depois da amarga decepção que tivera em Gouldsboro. ela compreendeu isso. a senhora. gostavam do amor. A roupa de baixo e as vestes que usava quando fora arrastado por sua mãe não passavam de farrapos inomináveis. i Nascida num lugar protegido. e seu pai a matará. sapatos. onde tudo a assustava. perto deles. e todos os cuidados que lhe foram prodigalizados consistiram em untá-lo com gordura de urso para protegê-lo das picadas de insetos e mantê-lo aquecido. não teria se exposto a isso. — Ainda não — murmurou Angélica. Eram vestes de droguete. Jonas chorava. tem razão. Pensava em Jenny Manigault. Angélica dobrou as roupas devagar. O nascimento de seu filho. A concupiscência desenfreada desordenada dos brancos constituída para eles um perpétuo tema de surpresa e de desprezo. Isso acabara por formar como que uma resina sobre a pele. para a América. Tinham as proibições. Lembrar-se-ia da índia que o levara. E. do desejo. O selvagem. Estou segura de que está triste. — E melhor assim — disse afinal. costumes que respeitavam e que tornavam seus impulsos mais raros. ficaria tranquilo com essas presenças afetuosas. Como não a tivessem ouvido. e que o apertava em seus braços.. e nas metamorfoses que nela se operaram por culpa dessa tragédia brutal. nem menos atencioso que seu marido branco. o "encantador" civilizado. Desenraizada brutalmente. uma tragédia que espreita todas as mulheres do mundo: o rapto. Desde o outono. à beira da água. renunciou a dar-lhes explicações. jovem protestante de La Rochelle. não fossem as perseguições religiosas. Para vesti-lo. e certamente menos exigente. entretanto. pouco a pouco. com o lenço nas mãos. A Sra. cercado por uma numerosa família. a gola de batista branca. com as pernas dobradas. Elvira trouxe as peças que estavam muito justas em seus meninos. Houvera uma fuga com a família. Era preferível que a pobre Jenny. Estes eram guardados por uma ou outra das filhas da nutriz irlandesa. Não se podia retirar tudo de uma só vez. 55 . Os índios. Armaram uma cama com grade no grande quarto onde dormiam os gémeos. não poderia mostrar-se mais brutal. Sua vida fora sacudida. Sara não lhe perdoará nunca. Depois. Desencoscorá-lo nào foi tarefa fácil. A Sra. as meias. mas não o praticavam sem comedimento. Poderia igualmente ter sido raptada por iroqueses. Estendia-se na cama com docilidade. que na noite anterior dormira em uma cabana de selvagens e estava novamente em lençóis brancos? — Estou convencida de que sentiu que ela era sua mãe — disse Angélica a lolanda. tivera. maltratada. no fundo das florestas. abandonando-se a ele. não as tivesse visto. que. arrancada a uma forma de vida que lhe parecia perfeita. vindas da França. perambulava com Jenny de wigwam em wigwam. — As crianças não se enganam sobre as coisas. Nunca mais voltará para a casa do pai. Jonas. Raptaram-na porque era uma mulher e porque agradara ao chefe. ele. Mas está de tal modo acostumado a que o levem de um lado para outro. cuidadosamente conservadas. Jonas. — Eu conheço os Manígauk. — Sra. que lhe dava para comer raízes cozidas na brasa. zombavam e viviam ao sabor do tempo. chorando? Sentiria sua falta? Será que se perguntava para onde ela fora. cuidava dos bebés. fora raptada por um bando de índios abenakis de passagem por ali e que a confundiram com uma inglesa. Carlos Henrique. da felicidade do corpo. projetada numa existência assombrosa. tão boa! Não entendo. entre aqueles selvagens que riam.Angélica foi sentar-se no escabelo. —: Com efeito. que a teriam confundido com uma francesa. Carlos Henrique vestira obedientemente a longa camisola de dormir branca que lhe emprestaram. e. — Foi mais forte do que eu! — Eu não teria coragem de abordá-la — murmurou Elvira. assoandò:se. segundo suas confidências. — Sua irmã em religião! — Ela foi presa de um pagão — gemeu a Sra. Jonas continuava a chorar.. O quarto de Honorina não ficava longe. isso satisfaria sua vida e apagaria o resto.

meu menino. Dom Alvarez. Consciente de desagradar. — Não me olhe assim — intimidava-a Honorina. deixando-se embalar com deleite. Procurava pretextos contra a irmãzinha de olhos de anjo. se matizavam de malva. — Será que eu não lhe bastava? — perguntou a Angélica —. ia levá-lo para viver entre os selvagens. e de uma maneira que. — Ela só sabe dizer isso. E o melhor meio de me vingar dela\ Você-não me escapará. as amas-de-leite. como uma pássaro feliz. Subitamente. essa idiota! Embaraçada pelo timbre dessa voz que ela adivinhava acerbo. Gostaria de estar em seu lugar. Tinha dois olhos que pareciam ouro. tinham definido sua cor azul-clara e que. luzindo como uma pedra fria. mas com a qual se acomodara até então. Apesar disso. — Ela se chama também Eleonora. que. e sob essa mão carinhosa. Essa mulher lhe fazias promessas aterradoras: "Desta vez é a você que atingirei. Angélica. são eles todos que tomam meu lugar. desta vezf Sua língua pontuda passava-lhe por entre os lábios.. que. tudo!. eu o batizei. a Envenenadora!" Urrava em seu sono.. Joffrey. — Sim. preocupados. Terá suas chances. meus brinquedos. mas agora você só dá atenção a eles. Era mais novo que ela. contemplando-o. em volta de seu leito. mas gostavam de brincar um com o outro. murmurando: " Minha querida! Minha querida!". sua instalação no círculo da família. Eles vão incendiar minha casa. — Mas eu também falo com você e lhe pego no colo. o bemestar de sua personagem. todos reunidos.. "Atravessou o Atlântico co-nosco. passava longos momentos a escutar com um ar atento os vocalises de Glo-riandra. sempre os pega no colo. você já existia antes deles.-Foi a primeira criança de Gouldsboro... — A mulher de olhos amarelos. — Então me tomou também o nome. o bebe fixava nela seus olhos claros. Acabaram rindo juntas. — Minha querida. Angélica riu e acariciou a fronte teimosa. perto do berço dos gémeos. — Unem-se contra mim — chorava Honorina. quem? — tentava em vão fazê-la responder-lhes..Puxou-lhe o lençol sob o queixo. pensava. Honorina sentia-se inundada de suor. apagado. afirmava a vida. em sua inquietação. eu lhe prometo. Honorina começava por ver um rosto de mulher que a olhava com uma expressão tão malvada que a deixava petrificada como uma láparo diante de uma serpente. — Eu a vi! Eu a vi! Ela vai pôr fogo em Wapassu. Trepada num banquinho. E agora é ele. congelada. meu quarto. o bebe se voltava para seu gémeo. Não se poderá dizer que lamenta ter vindo ao mundo. como podíamos abandonar Carlos Henrique? Essa índia que veio. — E você também tem um nome que significa "honra"! Honorina julgava que isso criava obrigações mais constrange doras e menos brilhantes que a glória. adivinhou. prendeu as cobertas. como para pedir-lhe testemunho ou ajuda. — Sorte dele." Honorina entendia-se bem com Carlos Henrique. — Mas quem. no ventre de sua mãe. a pequena emburrada acabou por ceder aos mimos e a se abandonar contra seu ombro. Nós o protegeremos. será que você tem realmente necessidade de se cumular de todas essas crianças? — Minha querida. aos seis meses. "Sempre teve coragem". você se lembra. seria definitiva. a presença. como serpentes vermelhas 56 . e as sentinelas montadas do corpo de guarda correndo. pareceu despertar nela um tormento latente que a presença dos gémeos suscitara. mas pálido. e não lhe faltará apoio. Fala com eles. Mas Honorina perdia o ânimo. — Ela tem um nome que significa "glória" — lamentava com ar triste. cujo apartamento ficava no mesmo andar. paralisada! "Dama lombarda! Dama lombarda. as noites da criança foram entrecortadas por pesadelos. Ela tem cabelos negros como as serpentes.

planavam acima deles. A opinião franco-canadense. "Será possível que a horrível criatura possa voltar nos sonhos? Que seu espírito venha atormentar minha filha para vingar-se?" Honorina afirmava que havia um Homem Negro que segurava por trás a mulher de olhos amarelos. falaram e falaram disso.. Os assobios do vento verrumavam. a resistência e a paciência. sem prestar atenção à menina. dos mortos ou dos vivos.por dentro. como um incessante lembrete da fragilidade dos homens entregues aos elementos. o Padre d'Orgeval. os. Era um jesuíta! É o que se ganha por falar diante das crianças. esses golpes dos quais nunca nos recuperamos ou nos recuperamos mal e que levam muito tempo para se curar. a força do Grande Espírito que faz viver o O sopro da vida. que estavam atravessando a fase mais difícil do inverno: os corpos e os espíritos se fatigavam. Quantas vezes.. e para outros. Teria de crer que era apenas remissão? Que nem tudo estava resolvido.. o distanciamento do jesuíta permitira às pessoas reencontrar seu sangue-frio e um julgamento mais ponderado. que -as influências maléficas. ou destruidores. e a invasão dos índios perturbava a ordem dos trabalhos. "Parece que está descrevendo Ambrosina. Maria Madalena. antes muito exaltada e superexci-tada contra eles. julgado? Eram o joguete de uma ilusão enganadora. que viram as coisas de perto. veemente.. e o Conde e a Conde e a Condessa de Peyrac passaram em Quebec uma temporada de inverno cheia de prazeres. Ambrosina de Maudribourg e seu guia e confessor. Inatingíveis. a longo prazo. decidido. Seu sentimento de vitória e de ter triunfado sobre seus inimigos e sobre os mais difíceis obstáculos era falso? Não. diziam consigo mesmos. quando. reconhecera formalmente Angélica como não sendo a Diaba da Acádia. como se aspirassem através de uma natureza benfazeja a força invisível do Oranda dos índios. Principalmente quando são dotadas de uma imaginação tão desenfreada como a dessa pitoresca garotinha. Ela possuía mais inclinação para isso que ele. Eram os mais fortes. a Duquesa de Maudribourg. Era preciso repisar essa história? A visionária. uma barreira de negativas igualmente fortes.. nem atingi-los com golpes mortais. de pé no alto do torreão de Wapassu. tomando-o pelos dois braços a fim de poder olhá-lo de frente. por outro lado. Ele não fazia nada. que se mantinha atrás dela. terminado. mantendo-se apoiados um ao outro na glória do sol. Contentou-se em responder que. virara como uma luva. Ela experimentou. que ouvia tudo o que se dizia. Os mais negros complôs não podiam mais atingi-los. Era como um fantasma.descansos e até as rezas. que escutava! A Diaba da Acádia e o Homem Negro. Mas nunca a viu!" O medo se insinuava. Teria preferido vê-lo cair na risada e tratá-la docemente de louca. Ambrosina estava morta e enterrada. com certeza. que não poderiam jamais prejudicá-los. não era profeta. 57 . que os iroqueses chamavam de Hatskon-Ontsi: o Homem Negro. E eram momentos tão perfeitamente estáticos que viviam lá em cima do torreão. O destino encarregara-o de muitas funções. sem acrescentar aquela. de um ainda perigoso milagre.. concluído. E era por isso que não era menos atento a seus pressentimentos. Não se podia esquecer. mas ela lhe obedecia. designada como personagem infernal. — Será que "eles" vão sair do túmulo? Joffrey segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-a nos lábios. ou decisivos. Assim como o tpuro quando pára de ver agitar-se diante dele o pano vermelho. O Padre d'Orgeval também. Doravante. que para alguns era Joffrey de Peyrac atrás de Angélica. a Diaba. Não lhe escapara a história da visionária de Quebec sobre a aparição mítica da Diaba da Acádia. contemplavam com uma alegria infinita a região "que lhes fora dada"? Seus peitos enchiam-se de ar frio e vivificante. a propósito dessas aprensões referentes a Ambrosina. Enganara-se? Não! Impossível! Quase censurava a Joffrey que ele não opusesse às interrroga-çòes que fazia em voz alta. graças a Deus. apertados um contra o outro.. nos puros e cristalinos dias de inverno. nem aos sonhos de Honorina. — Responda-me — disse-lhe ela um dia. não tinham mais poder contra eles.

como um vampiro. Desse modo. Honorina. apresentava-se na hora de dormir. que despertara nela um ciúme oculto em relação aos bebés. em suma. Angélica sabia que ele partilhava sua opinião de que essas manifestações nervosas não significavam apenas a exteriorização de um ciúme profundo e doentio na criança.. o espírito da Diaba tornara a insinuar-se entre eles e se apoderara de sua filha para confundir tudo e prosseguir em sua vingança. Entravam em toda parte. muito trabalho. Gloriandra tampouco estava isenta dos borrifos. que parecia ter melhorado. se não tivessem tanta coisa para fazer. continuava persuadida de que Ambro-sina aparecera a Honorina em sonho. Era bem de seu feitio. Todas as provisões. Com seu pincel pingando cola. e sem que Angélica pudesse intervir claramente e fizesse parar os comentários. misturavam-se a tudo. Aproveitando-se de uma falha. Angélica. muito malcheirosa.. Angélica fez sua filha beber sábias misturas de tisanas calmantes. Honorina. Essas exclamações emanavam de vozes diferentes. E preciso ter bom coração. com a ajuda de seu cúmplice. por sua vez. Infelizmente para a menina. Dizia-se: "Ela está com ciúmes! Não gosta do irmãozinho nem da irmãzinha!" Sem más intenções. a fim de ficar à altura do berço de Gloriandra e de Raimundo Rogério. Fora ela que arranjara o grande balde de cola. ter-lhes despertado a desconfiança e feito observar que não a viam realmente o dia inteiro. Angélica ouviu um grito agudo de mulher. cortara os cabelos. Mas apenas de um lado. o pequeno Tomás. desaparecia. de um momento de ciúme infantil. Ele vinha do quarto dos gémeos. de uma fraqueza. Eram prontamente chamados à razão. afinal natural. de horror do grito de Elvira quando. voltava! Joffrey de Peyrac também suspeitava disso? Seria por esse motivo que se calava. Queriam participar dos ofícios. Depois outro e um terceiro. descobrira Honorina. ambos sentados e atentos à operação.. mas não era isso. Honorina untava o crânio do bebé Raimundinho e tentava -colar-lhe a mecha avermelhada de seus cabelos sacrificados. No chão estava colocado um balde de couro cheio de cola de peixe. confessar-se. 58 . Talvez estivesse há muito à espreita e. Honorina preferiria que seu obra estivese concluída antes de ver surgir todos esses curiosos. Cortara sozinha seus cabelos. Onde? Quando? Como? Era segredo e continuaria a ser. mas tinha-a levado até então com êxito. Era uma cola de peixe muito boa. O que explicava que só houvesse um lado cortado.. fazia para si um penteado à moda iroquesa. O que deveria. para corrigi-la faziam vistas grossas. comungar. Do mesmo modo. Obedecia. novamente se tranquilizou e pareceu encontrar novamente a alegria de viver. diziam. Em suma. sem que fossem obrigados a procurá-la até no celeiro. Alguém dedicava-se a "discutir" com eles os fins últimos em intermináveis conversas. de cachimbo na boca. após lavar as mãos e o rostinho sem fazer fita. que estava empapado. de terror. subitamente. falavam disso. as amas-de-leite divisaram da soleira da porta um espetáculo que lhes fez pagar caro sua negligência. estava empoleirada em seu costumeiro escabelo. Sua empresa custara-lhe. muito adesiva. quando se falava diante dele dos pesadelos de Honorina? Em todo caso. estava bem-comportada como um anjo. Certa manhã. as provisões de tabaco se esgotavam. o que para as pessoas significava que nâo incomodava ninguém e não dava motivos pára que falassem mais dela. Segurando com uma mão a longa mecha sedosa e acobreada e com a outra um pincel de pêlo de marta de que se serviam para diversas caiações. Talvez houvesse um pouco disso. no primeiro inverno em Wa-passu. mas sem nenhum perigo para o pobre Raimundo Rogério. ficou triste. que. mas reaparecia nas horas de refeição. Não compartilhava da opinião de que as noites perturbadas de Honorina se deviam à presença de Carlos Henrique. Alguns levavam a mal a descoberta de que estavam sob o mesmo teto que os ingleses ou os "hereges que tinham crucificado Nosso Senhor". Por ter deixado o domínio deles sem vigilância durante um breve instante. Conseguira subir o balde até o quarto sem derrubá-lo.Todos eram batizados. mas lembravam a mistura de estupor. após ter cortado os próprios cabelos. diziam. mais uma vez.

Elvira estava ligada a Honorina e devia cuidar da garota. Quando Raimundinho fosse grande. pois tinha consciência de ter trabalhado arduamente durante vários dias a fim de realizar com propriedade uma ideia mirífica e generosa. Eva. Iolanda. cheias de remorsos. quando for maior. ia fabricar uma pomada para esfregar no pequeno crânio de Raimundinho. — Faço tudo para lhes provar. Ele me agradecerá. e o Sr.. não dá certo. cuja voz se tornava estridente e enfurecida. enquanto isso. Angélica segurou-a. as jovens mulheres e adolescentes. não eram más... Seus irmãos as chamavam "Honn!" — Florimond algumas vezes.. "Honorina! Ho-no-ri-na!". Era na época da primeira estada em Wapassu. as amas-secas. Gritou: — Quero meu pai! Onde está meu pai? Joffrey de Peyrac estava dando um giro.. Bem . Elvira. Por que esperar que Uta-kê venha rachar-lhe o crânio? Diante do silêncio que acolhia suas palavras. estavam agora tentando explicar-lhe que era preciso esperar que Raimundo Rogério tivesse seus próprios cabelos. desajeitadas e pouco claras'.. fazendo-o soar por muito tempo como uma concha marinha ou uma trompa antiga... fora do forte. Angélica acabara de ter uma ideia: graças à iniciativa de Honorina. Têm de pertencer à própria pessoa. Na volta. a primeira pergunta ia ser: "Por que você fez isso?" Tomou a dianteira. Honorina tivera boas intenções. e depois a cólera. era pena os cabelos dela. o início de seu nome. filhas da parteira irlandesa. Só voltaria à noite. Era uma das frases de Severina quando ralhava com ela: "Você me agradecerá. Fabricara uma cola de peixe notável.. Melhor isso que fazer um drama. o riso feriu-a mais que as censuras. Angélica fez o possível para acalmar seu desespero.. e todos. que não parava no lugar e geralmente não estava muito longe. Meu pai falou. Vi muito bem que o Sr: De Ville-d'Avray usava cabelos que ele tirava e punha num cogumelo à noite. 59 .Depois de ter inspirado estupor. pensou. não era a primeira vez. Com frequência. Os cabelos não podem ser colados. gritando: — Vocês fazem pesar sobre mim uma intolerável servidão. mas em local de difícil localização. o gracejo do espetáculo provocou risos. que detestava procurar sua meia-irmã.. protestava Elvira. Governador Paturel quando recebe o almirante inglês! — Mas são perucas! — Pois bem! Eu lhe fiz uma peruca. para que seus cabelos crescessem mais depressa. Ela saltou do tamborete.sabia onde ela se encontrava. continuava á esgoelar-se a jovem padeira de La Rochelle". No entanto.. um nome das Escrituras". O curso dos dias continuou sem choques. e até o Sr. — Por que estão rindo? Raimundo Rogério está muito contente. Por que.. mas Cantor.. Em vez de felicitá-la. sempre —... vieram buscá-la para passear e dar uma grande volta de trenó índio. e. assim. que os amo. o desânimo a tomou. Honorina soluçava. e os risos abafados que espocavam. tinham ralhado com ela? Por que caçoaram dela? Depois de limpar as crianças. então. mas. a pobre Elvira apelava a Cantor. a gente se habituava. e nada lhes agrada. naturalmente. "Mas não é um nome pronunciável. Diziam que ela só respondia quando a chamavam assim. gritava então. mas eles cresceriam de novo. Honorina tinha de se haver com todas aquelas mulheres. de Frontenac. — Não é verdade. talvez por isso mesmo.. Tem portanto de ter os cabelos ruivos como os meus. com os cabelos sacrificados de Honorina iriam tentar fazer-lhe uma pequena peruca.. ficaria muito emocionado ao saber o que sua irmã mais velha fizera por ele. Todos sentiam que as intenções da menina. E.. A gente grande não é muito rápida para captar as evidências. a menina estava calma. "Cantor! Can-to-or!".. pois ele é o "conde ruivo". Aí está! Essa era sua ideia!. Silêncio. quando for maior! Como ousam deixá-lo com o crânio careca quando sabem muito bem que os iroqueses não gostam de carecas e que lhes quebram a cabeça quando as vêem? Pensei que tinha de usar meus cabelos. Aquela devia ser uma citação de um romance de cavalaria..

) "Honn". "mas há também ursos. escarnecia Cantor. todos os cachorros procuravam mordê-la. se não se tem medo deles. (Honorina puxava o lençol para cima da cabeça a fim de poder rir à vontade. Honn. como se estivessem me escalpelando. "E bem verdade que seu pai é muito sábio! Você deve ter herdado dele. que ela está lá embaixo.sua faca de escalpo. podem se sentir obrigados a escalpelála.) 60 ." "Vou tentar". a morderão também. incrédula. Está tentando pegar um esquilo em sua toca." O menino colocava as duas mãos formando corneta em volta dos lábios e chamava. como que atraída por um ímã. "Não tenho coragem nem de estender a roupa lá fora. que eu vi?" "Meu espírito pode passear sozinho." "Se continuar com essas caraminholas na cabeça. "simples linces. isso vai acabar lhe acontecendo. estamos em pleno dia." "Tá-tá-tá. fingindo acreditar que ela quisera chamar Honorina. quando você estava em La Rochelle. deveria acalmar-se e então saberia." "Mas ela não pode estar lá. e mesmo os índios. "Você não sabe pronunciar direito o nome dela. O lince caça à noite. JIO máximo. Mas ainda tenho muito que aprender.." "Eu tento. e o depositava no dorso da outra. O que eu sei é que meu pai lhe recomendaria não se assustar a todo instante. "Ela não vai lhe responder". sim. senão até os cães índios. enquanto estou ocupado com outra coisa. enquanto suas lembranças desfilavam. segurando novamente o inseto. assim que estou longe da casa. Honn. lamentava-se Elvira." "É sua irmã. Honn. tigres." "Ah!". confessava Elvira. Honn!". maravilhava-se a inocente moça. e assim não há perigo de que ela faça besteiras. "mas onde devo procurar Honorina?" "Justamente.. suplicava Elvira. Ela. Os índios não são gente ruim. Está vendo como imagina coisas. sem esforço: "Hohonn!. Teriam medo de se queimar. Isso vai entretê-la durante horas. para que tome bastante sol e vento. Vá! Você tem cada ideia idiota!" "Se fossem só os índios"." Dizendo isso. e não 'U-u-u'. em que atrás de cada árvore há um índio que nos espreita com. "Assim não.. "não é um grito. prometera Elvira.. como um lobo gripado.Cantor aparecia. "Eu não sou ama-seca. Mas com seu medo você conseguirá assustá-lo e obrigá-lo a picar-me. Dame Angélica me recomenda que a estenda longe da casa." Elvira soltava um grito de pavor. a chama. dizia mais uma vez Cantor. dissera Elvira. como eu. é um som. "Senhor! um escorpião!" "Não grite". cara Elvira!" "Como você sabe?". que não pensariam nisso. Mas." (Honorina rebentava de riso sob as cobertas. e você poderá acariciá-lo!" "Não faça isso!". atrás daquela árvore podre. que segurava um inseto. dizia Cantor. os insetos não ouvem a voz humana. "Felizmente. Eu sabia. ou até a morderam algumas vezes. Ela sempre corre não sei para onde neste país aterrador. meus cabelos parecem mexer. que são muito mansos. resmungando. bastante depressa. sem o saber.. compreende? Um som que não é preciso gritar porque ele sozinho alcança longe.. se veio pelo outro lado da floresta. Aposto que." "Tenho tanto medo"." "Ora!". quando ele não está com vontade alguma de fazê-lo. Cantor! O que foi?" "Venha! vou lhe mostrar um escorpião." Honorina surgia. como lhe dissera Cantor. continuava ele.'olhando naquela direção sem ver nada se mexendo nas folhagens vermelhas e douradas do verão indígena.. de trás de um velho tronco. pode assustá-los com sua cabeleira cor de fogo: jamais tocarão em sua cabeleira. em vez de todos esses discursos para explicar que você está paralisada pelo medo. As ideias podem provocar os atos. "Como você pode sabê-lo. tentava gritar a jovem. levantava sua mão.. "Você não me deixa pegar o esquilo.

lançara uma manta aos ombros. e aumentava sua convicção de ter um pressentimento cor-reto. Suas saias tornavam-se mais pesadas. quase entornando o tinteiro. como num pesadelo indistinto. que escrevia tranquilamente diante de sua mesa? Quem a empurrava para tal loucura? Foi tomada pelo medo... a criança já estava meio enterrada pelas vagas de neve soprada que.. mais mental do que físico. tateava. quando caem dos ramos das árvores. Era um grito rouco. Podiam preparar-se para um ou dois dias inteiros de retiro no território comum.CAPÍTULO XIII "Agora. Para calafetar melhor. HonnL. sua inquietação por Honorina. como às vezes fazia. através da ventania: "Mamãe! Mamãe!" Mais tarde. o que não se justificava. "Domine-se!. a ela. da maneira como havia descido as escadas. disse a si mesma. Não tinha ainda receio de ter-se perdido e não poder voltar atrás. mas dessa vez muito mais real: "Mamãe! Mamãe!" A voz chorava em meio às rajadas de vento. "Reflita. Suas forças estavam decuplicadas. correndo com dificuldade. puxava e apertava contra o coração. sem estar certa sobre o que.. encontrava a cabeça de cabelos eriçados — Honorina estava sem o gorro —. " Honn! Honn!. unindo suas trevas à obscuridade precoce dos dias. a voz de Honorina.. "Ela passou por aqui! Não posso perder um segundo!. Lágrimas gelavam em sulcos em suas faces. acrescentava algumas linhas à epístola que começara a escrever para seus filhos e na qual trabalhava em seus momentos de tranquilidade. atravessado as salas sem ver ninguém e sem que ninguém a visse. Sua voz tremia. iam se reconstituir mais longe. pela tempestade. Avançava. só um coelho!. Angélica se lembraria com inquietação de sua impulsividade cega e. Seus lábios gelados recusavam-se a mover-se. diminuir as correntes de vento e atenuar os ruídos dementes do exterior. . que a chamava lá fora. Maltratada pelo vento e pela neve fustigante. Parou. nem o de estar tomada pelo frio e cair sob o choque. Saíra para o pátio da muralha. Embaraçava-se e caía. Essa quietude acabava de ser atravessada por uma ideia ao mesmo tempo incongruente e terrível: "Ela foi embora!" A tempestade erguera-se desde a manhã. agarrava-se às vestes duras de gelo — vestira-se de menino. tinha certeza. Angélica sentiu a pele congelada do rosto redondo contra a sua. uma vez submerso o obstáculo. "Que estou fazendo aqui? Não. não muito bem. ouviu o chamado. Mas era a voz de Honorina que dizia: — Só achei um coelho na armadilha.." Quando a encontrou. mas esquecera as luvas. apesar da quase impossibilidade de ali mover-se num universo de turbilhões sufocantes.. o mesmo. "Honn." Não chegava aínalizar o nome pronunciado. Angélica lançou-se para a frente." Então. Honorina não saiu! Não havia nenhum motivo para isso!" Então. Era pois verdade que saíra. de passagens furiosas de vento que quase a lançavam ao chão. Que capricho trespassara-lhe o coração subitamente como um raio? Ouvira. Enfiara suas botas. que lhe saía da garganta. roubando as roupas de Tomás Ma-laprade.. poderei partir livremente" "Ela foi embora!" Angélica endireitou-se bruscamente. que loucura a invadira. acabavam de colocar todos os batentes diante das janelas. como os pássaros. que tivera a ideia insensata de ir desarmar armadilhas com esse tempo! 61 . Sentada à sua escrivaninha. Com os dedos entorpecidos. Angélica apégava-se ao que podia. Suas mãos nuas tornavam-se insensíveis. mas também. alcançara com dificuldade uma pequena porta na paliçada e viu que ela estava entreaberta. retirava-a de seu sudário.." Avançava.. desvairada. inarticulado.

— Quem era o senhor que você chamou na tempestade? Angélica tinha então gritado tão alto? — O Abade de Lesdiguieres. e a mão que segurava a de Honorina escava escaldante. Angélica arrastou-se para a beira do buraco.Agora era preciso voltar para o abrigo antes de ficarem congeladas ali. Quanto tempo. se afastavam. com voz espantada. Mas jamais perdia o rumo quando alguma coisa a intrigava. Isso já durava dez minutos. mas limpo. Os rastros de sua caminhada para o abeto eram visíveis. perseguida pelos soldados. de um negro de tinta. Era uma trégua. Começava a dar-se conta de sua conduta.. Bastava descer rumo ao forte.. enquanto. a massa sólida e quadrada do forte de Wapassu em suas muralhas. com luzes filtrando-se aqui e ali. dilacerada por cruéis flechas geladas. Seus rastros já estavam apagados. A neve desabava sobre ela.. e. — Soube-o. nuvens tenebrosas. percebia-se. o gibão e as calças emprestadas de Tomás. Pedaços de neve. viu um céu de prata negro. quando percorria as florestas. recuando cada vez mais para o horizonte. se perderiam. — Como você soube que eu tinha saído? — perguntou Honorina. gelava-lhe o pescoço. — Então existem anjos em toda parte? — Sim. que tinham se congelado em seus ombros. Soube-o. depois de alguns passos. Honorina fungou: — O vento foi embora — disse. Foi muito ruim o que você fez. mas isso não era nada. mal recobertos por um pouco de poeira. Porque estou muito ligada a você. Estava quentes. Agora sabia em que direção ir. para a esquerda? Segurava Honorina na noite sibilante e nas borrascas de neve. enquanto caminhava. Angélica e sua filha içaram-se para fora. Reencontravam o sulco do caminho que levava até a muralha e a pequena porta pela qual ela saíra. E as de Honorina também. titubeando nos montes de neve. quantos dias duraria a tempestade? Notariam sua ausência no forte?. desprendiam-se e caíam. de varrer essa poeira da superfície endurecida.. Enquanto andava. a neve subia. Devia ir para a direita. no centro dos espaços lívidos. com o único objetivo.. uma hora. que importa. E dessa vez o medo verdadeiro apoderou-se dela. 62 . com ar contrito. Imóvel. Olhando para a entrada do abrigo entre os ramos.. refeita de suas emoções. O anjo que apareceu quando você nasceu. Suas roupas ficaram subitamente recobertas por pequenas pérolas de vapor. chocou-se com uma raiz de árvore.. há anjos em toda parte — aquiesceu Angélica. como outrora. E se o fizessem. simplesmente... como se tivessem acabado de ser expostas diante de um forno.. Angélica sentia que os pedaços de gelo derretiam em seus cabelos e que lhe deslizavam pelo rosto. ao que parecia.. parecia vogar um pouco bêbada no lago negro do firmamento agora livre. Devia estar junto ao bosquezinho. ou menos?.. Joffrey estaria à frente. ilhazinhas de paz e de calor. aterrorizadoras. As raízes nodosas de um abeto meio desenterrado formavam com a extensão de seus ramos baixos recobertos de neve uma abóbada sobre uma espécie de orifício no qual caiu. Um pouco mais embaixo. Mesmo um destacamento de homens treinados não poderia arriscar-se a sair.. Angélica não acreditava ter fechado os olhos. depois conseguiu deslizar para dentro. Um vento de ressonâncias de harpa eólica continuava a soprar. Honorina! A menina baixou o nariz. Sentia-a tiritar. não sabia para que lado ir. Isso não é motivo para que recomece a me pregar sustos desse tipo. Abade Lesdiguieres! Lesdiguieres! Ajude-me! Avançou ao acaso.. para permitir que se avançasse mais facilmente. Era o calor de seu corpo que os dissolvia. Em volta delas. Não podia acreditar em seus olhos: uma meia-lua de prata brilhante se i-nelinava. Ela seria a causa de sua morte!. na obscuridade zebrada. Uma ideia ocorreu-lhe com a lembrança dos enforcados da Pedra das Fadas: o anjo tutelar de Honorina! — É tempo de se manifestar. no limite de suas forças. sacudida como ela mesma pelo vento que as gelava até os ossos.

sua mãe.. nem pelo repouso. Esse devaneio durou muito tempo. A batalha invisível ia recomeçar? Pouco a pouco. Essa confissão custava-lhe.. que a colocava sob seu poder. Contou-lhe a escapada de Honorina. e -a você. A neve era má. Subitamente. Você foi buscar-me na tempestade como foi buscar o cão boboca. — Estou contente — declarou —. enquanto se debatia contra as forças desencadeadas da neve e do vento. — Queria levá-lo a Gloriandra ou a Raimundo Rogério. detesto-as. Pousou sua cabecinha de cabelos hirsutos nos joelhos de Angélica e ficou assim com o rosto escondido durante muito tempo. Era preciso esperar. — Faço tudo o que posso para lhe provar que os amo.. Em seu quarto. Angélica não sentia vontade de falar nem de responder a perguntas. para retomar as tarefas interrompidas pela tempestade. com ar severo. à noite... Enfim. — O que mais ela nos reserva? — dizia Angélica ao marido. pois agora vou poder partir de verdade. que deixara o forte para viver uma aventura de explorador de bosques e ir buscar uma pele para Raimundinho e Gloriandra. Viram-na atravessar rapidamente. Pensara: "Ah! Como minha casa é boa! Queria de toda maneira voltar para casa. minha pobre mãe'— disse ela —. nem felicitar-se. Sabia também que os "milagres" só aconcem quando forças de destruição iguais se desencadeiam. quando ouvira o chamado: "Honn!. senão teria indicado que a expedição não durara mais que uma meia hora. lançou um olhar para o relógio de pêndulo. com criança nos joelhos. de ter conseguido alcançá-la a tempo. Mas só achei um.. e agiu de modo a que não as fizessem." Experimentara a traição de uma natureza da qual julgara até então ser uma aliada. Antes. que felicidade. eu acredito em você. que ão podia reparar nem pelo sono. mais próxima e acessível. e a alegria de apertar Honorina viva em seus braços.. arrastando atrás de si Hpnorina. e eu. Acrescen tou com doçura: — E o amor de sua mãe.. — Deve ter medido sua coragem — disse ele — e suas forças. esse sentimento de abatimento dissipou-se. — Que queria fazer com esse coelho? Honorina hesitou. Mas que horrível impressão depois. sempre é preciso duas coisas.ter sido avisada a tempo. transportou-a. 63 . muito má. e eu não conseguia ver o caminho. escolheu a que possivelmente iria prevalecer.. Depois de olhá-la bem de frente. através das borrascas.. levantou a cabeça e seu rosto expandiu-se num largo sorriso. quando avistara. E como Angélica não dizia nada. eu não conseguiria encontrar o caminho para casa... era essa a explicação. Mudou de tom e dirigiu sua atenção para Angélica. Honorina deslizou com vivacidade de seus joelhos. mas ele parecia parado. E agora era ele quem a punha sobre os joelhos.. que me esperava. agora acredito. Lembrava-se de seu orgulho por ter encontrado o coelho. Acontecera alguma coisa. pois todos queriam aproveitar a calmaria. Como ia saber? Entre várias explicações. que estava cheio de gente. mas você sempre recusará-acreditar-me. de.Angélica deslizou para o pátio.. mas você não acredita em mim! — Eu também faço tudo o que posso para lhe provar que a amo — disse Angélica —. Sentia-se muito egoísta por amar tanto sua fraqueza.". nunca mais vou desmontar armadilhas.. eu não teria coragem.. Via-a tão quente. uma fadiga anormal. sua bem-amada. A tristeza que se-ntira na voz de Angélica a transtornara. Na casa. A outra armadilha estava mais longe... que voltara tão repentinamente. minha mãe. — Sim. Mas não podia saber o quê. sua mulher misteriosa e insubstituível. quando compreendera que a neve ia enterrá-la e que tinha realmente — realmente — cometido uma tolice dessa vez. pegoú-lhe as duas mãos com a gravidade que assumia quando ensinava alguma coisa aos gémeos. Se não tivesse ido. decepcionada. ela se insurgiu. sentou-se na poltrona de espaldar alto. com cerza.. vindo em sua direção. vestida de menino e segurando um coelho branco pelas orelhas. que alívio. Com eles.. Estava cansada.

na Nova França.. apesar de saber que isso não estava em seu poder. lançara esta flecha parta: "Agora. apertando os lábios para manter-se sério. uma carta de Molines a Angélica a informava de que a sequência de sua investigação sobre seu irmão. levava à certeza de que ele se achava instalado. Sua pequena aluna de olhos verdes. havia muitos anos.. a França. —O que mais ela nos reserva? — repetiu Angélica. — O destino. Mas.Teria desejado tranquilizá-la. Josselino de Sancé. Quero aprender a ler e a cantar. A VIAGEM A MONTREAL CAPÍTULO XIV Retorno a Gouldsboro — Notícias de Josselino de Sancé — O veneno de Bertille Mercelot — O sepulcro da Diaba Naquela primavera.. mais como uma prova de seu valor do que como uma dor. a caravana se mobilizou assim que os deslocamentos se tornaram possíveis. e o que se passava em sua cabecinha acabava por suplantar as outras preocupações e acontecimentos da vida do forte. Honorina franziu o cenho e não demonstrou entusiasmo. o corpo-acorpo. Joffrey apertava Angélica contra si e a embalava. de que Honorina "pedia-lhes audiência". Os que nos conhecem demais julgam-se no direito de nos tornar a vida 64 .. Fora um valão. — Alegre-se. nem abatido. para o verão. Uma noite. as mulheres. A notícia emocionou profundamente Angélica e atenuou a melancolia que se apoderava dela e a entristecia ao pensar em se separar de Honorina. nem ensinado tudo.. tinha alguns motivos para se parecer com a Condessa Angélica de Peyrac. levar-lhe docinhos nos dias de festa: um tio. para a casa da Srta. Os dois viram-na entrar. que fornecera a Molines a preciosa informação que lhe permitiu seguir esse Jos do Lobo até Sorel e. quando fizera sua primeira viagem. voltando ao regaço de sua terra natal. Essa criança se encarrega do seu. Esses reencontros deviam contrariar seus sonhos de autonomia e independência. Pedira que lhe vestissem seu vestido de festa. o que explicava que não houvesse mais ouvido falar dele. Não se livrava de uma família — a sua —. o catolicismo. E. poderei partir livremente". pois não há ninguém como "eles" para confiar na gente. mas sob um nome falso. primos. cheia de apreensão. Assim. no entanto. e de sua religião. sabia que suas palavras eram insuficientes. e é preciso que me prepare. — Cada qual deve carregá-lo. que poderá rodeá-la. — Tenho coisas importantes a fazer em outro lugar. até seu estabelecimento atual. Angélica dizia-lhe que Honorina prometera. seu tio Josselino de Sancé. como elas. e dessa vez. sacrifício que não deixava de atormentar seu pequeno coração. sem estar ferido no coração. na ilha de Montreal.. solenemente. grave. apenas ajudá-la a cumpri-lo. um pouco dessa força masculina que lhe permitia enfrentar os combates. Não podemos cumpri-lo em seu lugar. Bourgeoys. Quero ir para Montreal. onde. aonde chegara pelo rio Hudson e pelo lago Champlain. o destino — dizia ele. Ficaram vários dias na expectativa sobre as intenções de Honorina. e aqui jamais conseguirei isso.. até Ville-Marie. As mulheres! Onde alcançá-las? Para onde se evadem? Os trovadores não tinham dito tudo. que não fugiria novamente. pois não nos conhecem. assim como Honorina. minha querida. encontrado em Long Island. Teriam de encarar. uma tia. tentando comunicar-lhe. você vai ter uma família em Montreal. a luta. Sonhava em poder lidar apenas com os "outros". Mariângela do Lobo. para ali deixar Honorina sob os cuidados da instituição mantida por Margarida Bourgeoys. primas! Encontrei meu irmão mais velho. o designavam comu-mente pelo patronímico meio enigmático de Senhor do Lobo. senão para recair sob o jugo de outra. pois era simplesmente sua sobrinha. mais tarde. Madre Bourgeoys tinha razão. e não a consolavam. seu escudeiro foi avisá-los. cercado por sua numerosa família. — Quero ir embora — declarou. a navegação para o Saint-Laurent.. pelo amplexo de seus braços vigorosos. Em Gouldsboro.

Via essa viagem com seus pais à sua frente e considerava-a infindável. Por precaução. pois era a vontade da pobre mulher. não deu atenção às reações da jovem. esperariam para desmamar os bebes quando tivessem dobrado o cabo do primeiro ano' de vida. como aqueles cãezinhos. ou "as pessoas de sua casa. Quiseram partir mais cedo para as orlas e tinham chegado demasiado cedo para ter notícias da França e de seus filhos mais velhos. Abigail estivera a ponto de falar-lhe.. pois. O coração da menina bateu de alegria. Seria apenas por causa de Natanael que Severina tinha aquele brilho nos olhos? Angélica só pôde ver sua amiga Abigail rapidamenté. acossando-nos em todos os recônditos de nosso pensamento e de nossas intenções. Molines não falava dele. entusiasmada pelo anúncio do reencontro de seu irmão mais velho. Angélica desejava estar de volta no início do verão para cuidar de algumas colheitas de plantas ou de raízes e rizomas.. o que não provava nada. Levava suas duas caixas de tesouros. dos Malaprade e de todas as 65 .. nascida dentro das leis do casamento de uma honrada linhagem de burgueses huguenotes de La Rochelle. que não tinha vontade de dispensar-lhes. dessa vez. disse-lhes. Esqueceu suas inquietações e desânimos. Angélica viu rapidamente o Sr. estavam se preparando. ao forte de Wapassu e de suá decisão de voltar a viver com os índios raptores. era uma pena não poder acompanhar todo o desenrolar dessas metamorfoses. Angélica.insustentável. mas Gabriel Berne entrara na sala. Teria de recair sob esse domínio canibal das pessoas adultas de seu parentesco? "Pois o homem terá por inimigo as pessoas de sua família". Jenny.'còl"ócou-os a par da visita de sua filha mais velha. e a Sra. Carlos Henrique ficaria em Wapassu durante sua ausência. — Se não fosse Mestre Molines lhe oferecer essa faca! — disse Angélica. pensou Angélica. pois não deviam esquecer que se tratava de uma criança. que não dava notícias. Antes de deixar Gouldsboro. o Sr. Jonas. Severina tornava-se bela.. persuadiu-se de que ela lhe ocultara uma preocupação. antes. de cutelaria inglesa de Chester-field. mas dava no mesmo. já pronto para zarpar. treinados para a caça pelos índios. Carlos Henrique. sua arca e suas flechas. Molines juntara à sua carta um pequeno pacote destinado a Honorina. Angélica. Eu me pergunto se não estará cuidando de seu estabelecimento como fez para minhas irmãs e para mim. Não se podia acompanhar tudo!. Angélica ouvira Honorina dizerlhe: "Confio-lhe meu irmão e minha irmã". mas mudavam tão rapidamente.e mais tarde. Não era ainda a faca de escalpo de seus sonhos. Tão sucintamente quanto possível e sem os floreios e precauções habituais. Falou-lhes de seu desejo de confiar a ela. Marrigault. Estavam bem de saúde e em boas mãos. sob os bons cuidados dos Jonas. que penetram até o mais profundo dos territórios para importunar o pobre coelho. Por ora. que parecia feliz e começava até a rir algumas vezes. era um verdadeiro teatro. Em sua carta. e ela estava no sétimo céu. pois ele tinha às vezes um temperamento muito rude. Lamentava não estar presente a cada ano que passava na época da bela estação em Wapassu e. deixavam também. um canivete para damas. Por ocasião de sua visita aos Berne. abandonando seu ar estarrecido e interrogador. Na volta. que cada dia trazia surpresas maravilhosas. que não queria levar consigo. os avós do pequeno Carlos Henrique. em sua Bíblia. de Peyrac e ela tratariam do assunto com eles. De comum acordo. — Mas ele é para você como um verdadeiro avô. reconhecendo ao mesmo tempo a filiação que os ligava à criança e lhe conferia os mesmos direitos de família que a seus outros descendentes. da melhor qualidade. e Angélica prometia estar de volta para esse primeiro e solene aniversário. e que não havia. em Wapassu. Ele também mostrara-se frio e distante. e que seu esposo e ela não apenas aceitavam de bom grado essa tarefa. Bela demais. más também não se furtariam a ela sob nenhum pretexto. com a qual conversara quando de sua passagem por Nova York. mas com essa pequena lâmina prometia a si mesma muitos trabalhos difíceis e absorventes. à noite. O Conde e a Condessa de Peyrac só ficavam o tempo necessário para transferir suas bagagens para o Arc-en-Ciel. Ela encontrou ali uma pequena faca de cabo trabalhado. Pedia-lhes apenas que refletissem no ato oficial que deveriam redigir e que homologaria seu assentimento. lia solenemente o Sr. Por ora. o filho Carlos Henrique. nenhuma razão para que se visse deserdada no futuro. para aquele tolo de Natanael de Rambourg. não queria abandonar os gémeos por muito tempo.".

Não tinha nenhuma curiosidade. por todas as Informações interessantes que me deu. Deu notícias de seus pais. via Nova Inglaterra e certas ilhas das Caraíbas. que. pois. uma das filhas do Marquês de La Roche Posay. nascimentos. não havia morrido. — Obrigada. garantia a vigilância do porto. Nada detinha sua atividade. "Oh! não é de ontem! Ah! Você não sabia?" . os escravos negros. me tivesse perguntado sobre seu enteado. falou de projetos de viagem para o verão. casamentos.-Fiquei de cama um mês inteiro por um simples resfriado. Um brilho de fúria enfeou o rosto de Bertille Mercelot. Especialmente. que não deixariam de ter alguns aspectos sórdidos e deprimentes para ela. — De que você se queixa? Ele é seu agora. Ele quase não interrompia seus giros pela baía Francesa e. seu prazer de revê-la e sua admiração por reencontrá-la sempre com tão bom aspecto e aparentando uma saúde a toda prova. que fora seu imediato na flibusteria. com a maior confiança. nem vontade de assistir a suas discussões. certamente. Sorte dele. uma notável resistência às provas físicas e morais. havia provavelmente alguma verdade na-história da princesa índia. até então. e irmã da esposa de Saint-Castine. devia ter alguma intenção. foi forçada a constatar que era dotada ainda de uma boa dose de ingenuidade. Os Manigault estavam refazendo sua fortuna. embora reconhecesse nas pessoas de La Rochelle. que não tinha intenção de falar com ela. sua tristeza real. e não caiu na armadilha. Ademais. acrescentara que ele visitava. de Barssempuy. "Como você faz. Colin Paturel estava ausente. Angélica deu de ombros. e ainda estou me arrastando!" Enfim. Os avós Manigault bastavam-Ihe. se imaginava que a filha do papeleiro Mercelot queria conversar sobre a irrupção da pobre Jenny e sobre o desaparecimento da criança. ao contrário. uma competência comercial ímpar. Ela deu um jeito de colocar-se no caminho de Angélica. para as transações da "madeira de ébano". assim que as tempestades mais glaciais passassem. em vez de me dar notícias do senhor governador. Tinham inclusive reatado seus próprios negócios em La Rochelle. Siriki desposara a bela Akashi. Mas. que reinava em uma das ilhas do estuário de Penobscot. podiam já pôr em execução suas próprias empresas. Dame Angélica? Eu a invejo. Não podendo evitar Bertille. que as frequentes ausências deste deviam-se às visitas que ele fazia a uma princesa índia. se a Santinha do Pau-Oco a abordava. estava cada vez mais deslumbrante. especialmente nos Manigault. tarrentina. Não foi o que sempre quis? 66 . e. que para ali tinham ido mais pobres que Jó. Em compensação. Carlos Henrique Garret. Colin Paturel não vivia mais "sozinho". Nem sequer suscitaram a questão de saber em que religião ela seria criada. mencionou.pessoas dedicadas que o cercavam de afeto e com as quais eles mesmos tinham deixado seus gémeos ainda bebés. recomeçaria a visitar os feudos e postos acadianos ou ingleses. poupados porque esquecidos pelos "conversores" do reino. interessados nos negócios de todo tipo do Conde de Peyrac. Angélica compreendeu que toda essa exibição de amabilidade tivera o único objetivo de fazê-la saber. O Sr. Angélica conseguiu vê-lo a sós antes de enfrentar os Marrigault e informá-lo sobre a sorte de Jenny e de seu filho. pedindo-lhe notícias. seu horror profundo pelo destino de sua filha. Mas eu a estimaria mais se. onde os plantadores huguenotes franceses continuavam a ser muito poderosos. esperava dela explicações. E era por esse motivo que defendera os direitos a essa fortuna de seu neto. Parecia. entre duas informações aparentemente benévolas sobre as intrigas amorosas em curso — e eram de se esperar casamentos assim <jue o governador voltasse —. com uma solicitude enternecida muito bem encenada. o pequeno Garlos Henrique. Mas. sua indiferença pela criança. Bertille não sabia mais o que inventar para derramar seu fel. com vistas a casar-se. com uma franqueza convincente. lembrando-se a tempo de que elas eram ainda muito novas. Colin estava ausente. sem parecer tocá-los. fez um ar indulgente para julgar querelas que. Em sua ausência. mas não Bertille Mercelot. em Port-Royal. diversos acontecimentos na comunidade: mortes. de seus negócios. Deixou-os a se debater com sua consciência. Bertille. graças a Deus e à sabedoria do governador. A jovem. assim como a maior parte de seus correligionários e compatriotas de La Rochelle. que teriam de bom grado apagado da memória. haviam terminado bem e chegou até a certificar. sobre os dois encantadores bebés. apenas tagarelou sobre banalidades. dos mercados e dos canteiros de consertos. muito feliz.

Estava prevista para logo. dissera-lhe Abigail. depois sacudiu a cabeça. ela os escondia e os hospedava em seu albergue. certamente. — Tenho aqui um segredo de amor que me ajuda a sobreviver. a longo prazo. Se uma Ambrosina de Maudribourg. seu vigor diligente. nos rudes trabalhos da estação: cortar madeira. Dizem que eles são muito teimosos. quando se tratava de cortar lenha. parecia mais lânguida do que elas. Sua amiga. A jovem Severina. luciferiana. através dos pilares de granito das grandes personalidades. a flutuação medusiana de uma Bertille. conseguia destruir alertamente um destino. podia-se ver nessa força subterrânea — a da gota d'água amoldando a crosta terrestre — dada a pessoas insignificantes. contava-lhe que ela também tinha faro para descobrir os "mariposas" (os protestantes) entre os forasteiros e. nos impulsos de seu coração generoso. se a consigna não fosse respeitada. A maçã estragada do cesto estraga todas as outras.Dava o que pensar o poder das palavras escolhidas e manejadas por certos seres. contratando assassinos. — Não. Mas Severina não se deixou convencer. Tendo por punição o fato de que. e seus esbirros mais preocupados em detectar os protestantes que os bandidos ou as mulheres de vida fácil que pudessem se infiltrar clandestinamente entre eles. Via que a adolescente estava decepcionada de que Molines não lhe desse nenhuma notícia de Natanael de Rambourg. aprisionados. Em Quebec. entre as tripulações que arribavam a Quebec. derramando veneno. Severina ficava cada vez mais bonita e era cortejada. apesar de sua saúde perfeita. O verme na fruta apodrece toda a fruta. gerente do belo albergue Ao Navio de França no porto. se se podia lutar contra uma Ambrosina. os Manigault. Por mais valorosa que fosse uma obra. que tinha uma outra importância. mais vigorosa. ao chegarem navios de imigrantes. fora morar com ela e sua criada Rebeca. inteligente. expulsos e reduzidos à miséria. ela mesma vira. Angélica teria convidado de bom grado Severina para acompanhá-los nessa viagem a terras francesas. Após essa constatação. como as de Bertille Mercelot.. em contrapartida. Garreau d'Entremont. desejando dar uma ajuda às duas velhas. e você sabe como lá em cima nossos compatriotas franceses são obstinados em proibir aos huguenotes penetrar na Nova França. perversa. Gonfarel. por causa de alfinetadas insidiosas. fazer fogo. — Não se preocupe — respondeu Severina pousando a mão no coração. submetidos a todo tipo de maus-tratos para fazê-los abjurar e. merecida pelo primeiro erro. Severina hesitou. se conseguia destruir inteiramente uma alma. o tenente da polícia. sempre pronto a ajudar os perseguidos. procuram cada huguenote como cães na pista de uma caça e que interpelam toda pessoa nova que suspeitam pertencer à Religião Reformada. Dame Angélica. e mesmo estúpidas. — Não confio muito. e seu capitão estava sujeito a pesadas multas. e inclinar o espírito a uma doutrina pessimista por parte daqueles que professam que o Mal na terra é mais forte que o Bem. Eu pertenço à Religião Reformada. Nossas escalas serão curtas.. Parece-me que isso lhe faria bem. chegando a dar-lhes os meios para deixar Quebec. 67 . Dedicava muito tempo ao estudo junto a sua tia Ana. aparentemente anódino. para encontrar-se ali com enviados do Massachusetts ou ter tempo para encontrá-los em Salem. e. chamada a Polaca. assim que a clemência do tempo o permitisse. Angélica não insistiu. de todo modo. e em sua preocupação de derrotar os "escrevinhadores" da polícia. não deixava de inspirar. Ele parecia ter-se evaporado na natureza. Dramatizando. antes que fossem detidos. ao vento do oceano. Se. Discutiu-se a questão dessa viagem que a distrairia. — Não somos obrigados a anunciá-la como tal. Não me sentirei tranquila e não desfrutarei a ocasião de me encontrar um pouco na França. o sinal da maldição humana. eram proibidos de descer a terra. encontravam marujos reconhecidamente protestantes. Mas havia em seu rosto uma certa melancolia. na época mais rigorosa de inverno. Sabia que não havia nenhum exagero no que ela dizia. pois Joffrey de Peyrac e Angélica não pretendiam demorar rnais do que alguns dias em Quebec ou em Ville-Marie: o Sr. a Sra. era. acabando a vastidão de seus crimes por designá-la à justiça dos homens. ficava-se impotente contra o trabalho de sabotagem de uma Bertille Mercelot. e dedicou-se a sua viagem para o Canadá e Montreal. corpo e tudo. sobretudo femininos. de Peyrac desejava estar de volta no início de agosto. evocê não correrá risco algum descendo em terra em nossa companhia. e a da edificação e do sucesso de Gouldsboro era uma obra de alto valor. que as sociedades e impérios desmoronavam. minha pequena Severina. Você fará parte de minha comitiva. Angélica esqueceu Bertille Mercelot. tarefas que lhes custava assumir. — Gostaria de levá-la. carregar fardos.

O contorno da grande península fez-se sem incidente e. Os bacalhoeiros maluínos e bretões reassumiram a posse de suas praias sazonais. o Demôiiio Branco. vinha a propósito para dissipar eventuais divergências. no momento.. reinava in-conteste. mas o entendimento e a neutralidade que estabeleceram com os iroqueses sempre irritaram os franceses e. com efeito. Os habitantes permanentes ou ocasionais do rincão. e o conjunto tinha a cor das lembranças que podiam ocorrer a Angélica. os navios da primavera deviam têla levado. Delirante. 68 . que derretia ao sol para ser recolhido em preciosas garrafinhas. a terceira das crianças malditas estava morta: Sebastião d'Orgeval. portanto. As pessoas de Wapassu não eram responsáveis de modo algum por essa morte. o irmão de leite de Ambrosina. Os territórios estavam sob a jurisdição do Conde de Peyrac.. desde os dramas que ali se desenrolaram. A atividade do verão estava em seu auge. à fímbria dos bosques de pinheiros vermelhos que o calor começava a cobrir de um pó cinzento. perseguido pelo arpão do baleeiro basco. — Quem? — A mulher de olhos amarelos. enternecendo-a. Quanto a Angélica. não a vejo em meus sonhos. Durante esses dois dias em Tidmagouche. Ele-dizia: "no momento" por prudência. a convenceria a subir até o alto. se acontecia de passarem perto dessa pedra gravada com o nome de uma nobre dama. os "cadafalsos". na costa leste. Ambrosina murmurava: "Éramos três crianças malditas. influenciar as boas relações com Quebec. suas astúcias para obter objetos raros sem pagar. suas maquinações sobre dinheiro. não excedeu a dois dias. sua animação. isso poderia trazer à tona sentimentos de desconfiança e de rancor em relação àqueles que se pretendiam em paz com os terríveis inimigos da Nova França. agora que os iroqueses haviam feito perecer um de seus maiores missionários. o cúmplice. descobria-se a longa baía. Essa viagem. assim como dos carregamentos de carvão-de-pedra que se extraía de Canso e que encaminhavam para os estabelecimentos da baía Francesa e da Nova Inglaterra. Poderia apostar que ninguém devia preocupar-se com ela. o Homem Brilhante. muito menos de caridade cristã. e. evocaram seu petulante amigo. Do forte de quatro torrinhas a meia encosta. entraram no golfo de Saint-Laurent precedendo o estuário do grande rio. A escala de Tid-magouche. Com Joffrey e Honorina. as brumas dando aos navios ancorados silhuetas longínquas. além de um pequeno iate e de um sloop de duas velas. Como Honorina. adivinhou em quem estava pensando quando se encontrava em Tid-magouche? Curiosamente. e o penetrante odor de peixe. sua agudeza.. para o corte e secagem dos bacalhaus. as questões com seu caro Alexandre. jazia a tumba de Ambrosina de Maudribourg. pequenos navios cabotavam ocupando-se das tratativas e do transporte de víveres para as tripulações. Ville-d'Avray fazia muita falta naquelas praias. depois de ter passado o estreito de Canso. Um pouco mais alto.. ela disse: — Desde que deixei Wapassu. Joffrey não parecia considerar que isso pudesse. que a acompanhava em seus passeios. A evocação do pequeno marquês levou-a à alegria. Zalil e eu.O Arc-en-Ciel zarpou. na curta falésia. estavam erguidos. ela via correr ali. Zalil.. sem poder transmitir a notícia antes dos gelos. sabendo que os melhores resultados estão à mercê da fragilidade das opiniões humanas e da versatilidade das paixões. mesmo-para se certificar de que a perigosa criatura estava bem morta. Angélica apertou mais a mão de Honorina. não eram lugares onde se quisesse demorar. Esperavam ter notícias dele em Quebec.. o náufrago que empunhava um porrete de chumbo. onde reinavam alternativas de cinza e de amarelo. cintilava. nas florestas do Dau-phiné: Ele. Era a primeira vez que voltava àquele local. A Nova França devia agora ser avisada dessa morte. nenhuma'atração de curiosidade ou de morbídez. Odor de bacalhau e de poeira negra que as alcofas cheias de pedaços de antracita espalhavam. Supondo-se que o Padre de Marville tivesse se dirigido para a Europa. apesar de sua vontade de não evocá-las. não era fácil expulsar todas as imagens. fugindo. escoltado por três outros navios de cento e cinquenta a duzentas toneladas. a Benfeitora." Atualmente. sal e óleo de fígado de hacalhau. o padre. Angélica pôs tudo em ação para seguir as instruções dadas pelo filósofo Marquês de Ville-d'Avray a respeito da Diaba e de suas torpezas: esqueçamos. e quando a luz das marolas. ignoravam a quem ou a que ela se referia. de olhar de safira. traçadas em longas linhas horizontais superpostas. Nos arredores.

todo arranhado. em sua primeira viagem. n? margem norte do Saint-Laurent. embora não confirmadas. sempre precária. limpo. vestido com belas roupas bordadas pela Rainha Ana da Áustria. com Honorina. um forte de trezentas e cinquenta toesas de torre. divertira ou escandalizara os habitantes. a que denominou Forte Frontenac. Durante o ano. subitamente. Não quisera ver o corpo da Duquesa de Maudribourg trazido do bosque onde estava meio presa dos animais selvagens. A única maneira de remediá-lo. mas ainda impressionantes. mas. ele realizava um giro por lá. mas. arrancá-la à fúria dos homens encolerizados. — . alguns anos antes. — Socorro? — Sim. sem renunciar a ir aos mares Doces. Sabendo de sua vinda iminente. a cada ano. Eu devia acompanhá-lo como intérprete. subindo. pontos de litígios e essa paz franco-iroquesa. Convocava os representantes das Cinco Nações iroquesas a comparecer. a ser ridicularizado. Sr. ainda com forças menores. Aproximando-se da pequena cidade que. na foz do Saguenay. pois a notícia não podia ser divulgada nem confiada a ninguém. Leia! Desde que o Sr. pois sabiam que conduziam sua filha à Instituição Nossa Senhora de Ville-Marie. tencionara rever o Menino Jesus de cera na capela dos jesuítas. deixar correr na Nova França um perigo mortal. para tirá-lo dessa dificuldade. a fim de discutir. Ao voltar. Alegrava-se com essa escala em Tadoussac e. se ele se enganasse. ela era cada vèz mais ou menos rompida. — O Sr. de Frontenac. e. — Ela era bela? A criança hesitou. mas jamais esqueceria a face desfigurada da orgulhosa mulher quando conseguira. — Como costuma fazer todos os anos. tendo nas mãos um envelope com o sinete do Sr. 69 . censurou-se. no lago dali em diante chamado lago Frontenac. Era em nome dele que ali estava. Honorina passou-lhe os dedos pela face. Perguntavam-se se o gato iria se empoleirar na cruz gigante com as armas do rei. de ter reações tão epidérmicas quando se tratava de uma história afinal antiga e que concluía com vantagem para ela. um amigo muito fiel que. não deixaram de colocar uma espada de Dâmocles acima de nossas cabeças. depois de iniciar o Conde de Peyrac na língua falada pelos selvagens e nas relações com as tribos da América do Norte. e me enviou para esperálo no ponto ameaçado. onde devia encontrar o chefe das nações iroquesas. com Marcelina e Iolanda. Angélica teve uma má impressão. ele os veria. no Ontário. se desenrolara da melhor forma possível.— Como era ela? — Tinha olhos como os de um animal feroz e cabelos como chamas negras.Seu rosto estava todo machucado. no início do verão. o que. Apesar da alegria de revê-lo. o Saint-Laurent para lá de Montreal com uma flotilha de quatrocentas canoas.. com os "principais". Tadous-sac. fora o primeiro posto de pele dos franceses. era bela. avistaram uma figura familiar e reconheceram Nicolau Perrot. até ali. Precisava parar.. edificara. por uma vitória sangrenta mas total. seja por um massacre dos colonos franceses ou o suplício de um missionário jesuíta. CAPITULO XV Novas ameaças de ataque iroquês separam Angélica do marido Aquilo que os esperava em Tadoussac devia estragar um pouco a sequência de uma viagem da qual os três esperavam retirar tanto prazer e que.. de Frontenac enviou-me a vocês — disse-lhes o célebre explorador dos Grandes Lagos. Angélica estremeceu violentamente. se continuasse a avançar. de Peyrac. de Frontenac. — Sim. ele se preparava para deixar a ilha de Montreal e seguir para o Forte Frontenac. e se teriam ainda a sorte de ver uma baleia e seu baleote brincando ao sol poente. no lugar chamado Cataracuí. era enviar-me à sua presença. seja por um ataque traiçoeiro dos iroqueses contra as nações aliadas. na embocadura do rio Saguenay. pelo menos.. O tempo permanecera fresco e o céu. voltara a prestar serviços junto ao governador da Nova França. pedir-lhes socorro. e ele não podia renunciar a sua expedição e voltar atrás sem que isso o levasse. trouxeram-lhe notícias alarmantes que. só pôde pensar em você.

Considerando os mapas. O intérprete canadense estava encarregado de avaliar a situação e o fundamento desses rumores. pudesse voltar a Montreal e em seguida a Quebec. atravessavam o lago Ontário. depois. Nem na França se viam carruagens e cavalos andar assim tão depressa. sua escolta de algonquinos e de huronianos. Com seus botes. as mulheres e seus filhos". Numa região sulcada por rios. que certamente vinha com embarcações e tripulações bem armadas. com toda a impunidade. se aproveitaria da reunião. Um dia aqui. passando de mão em mão os cachimbos da paz de pedra vermelha ou branca e festejar em sua companhia. de Frontenac gostava de partir para os Grandes Lagos. onde massacraram os selvagens. que não queria acreditar na iminência de sua chegada ao Saguenay. Colbert um relatório que dizia: "Os iroqueses. compareceriam em grande número à reunião em torno de Cataracuí do grande Onôn-cio. a "Alta Moantanha". pelo menos até que ele. o Sr. ouvindo falar dos "viajantes" ou dos militares. não muito longe do lago Champlain. seus presentes. Depois. Joffrey mostrou-lhe no mapa a passagem preferida desses demónios iroqueses que se escondiam tão depressa quanto surgiam. e suas flotilhas representavam uma força de guerra de uma mobilidade sem igual. Enviava-lhe Nicolau Perrot. Ora. incíinavam-se a atribuir a vitória do projeto dos iroqueses às prestidigitações de seus feiticeiros. frequentemente a canoa era o meio de locomoção mais rápido. soltando seus gritos de guerra com talento e todo tipo de gracejos. mas soava novamente um alerta nas proximidades do lago Nemiskan. quando as aldeias dos Cinco Lagos se encontravam a centenas de léguas dali. suas auriflamas com a flor-de-lis. Ora. ribeirões sem número que se reuniam pelos próprios lagos em cadeias não descontínuas. entraram no Sague-nay e nas profundezas das terras. falava-se deles na Acádia ou no alto do rio Hudson. capelães. época em que o Sr. E o Sr. que reteria o governador e o grosso de suas tropas. massacrar os mistassins no norte. logo saberiam. pondo-se a caminho para os postos de trato. depois de expulsar todos os seus vizinhos. Frontenac deixara Quebec como uma cidade quase aberta. porque ele se esmerava em fazê-los rir. mas reduzi-la a cinzas. o riacho Rupert. Então. que era de uma estatura imponente. intérpretes. o lago Mistassins e. Saía-se muito bem nesses encontros. seus militares. ele. de Frontenac dera-se conta de que se suspeitava que um grupo de iroqueses pertencentes às tribos mais ferozes e mais velhacas. Frontenac. que. de Peyrac subia o rio com a intenção de ir até Montreal com sua família. havia vinte anos. julgavam-nos de volta a seu vale. dias mais tarde. Gualberto de la Mel-loise enviara ao Sr. Mesmo subindo os riachos e calculando o transporte por terra em certos trechos. Isso também era uma tradição mais ou menos anual dos iroqueses. de sair pelo Saguenay e dirigir-se para Quebec. Esse grupo arriscava-se a renovar a surpresa de dois anos antes. duas vezes mais longos que os dos algonquinos e feitos de casca de olmo costuradas em pedaços muito grandes. a baía James. no centro. Montmagny. daí. ademais. por cima das florestas — disse Angélica. a realidade de um dom de ubiquidade perturbador que planava sobre aqueles que tinham a ousadia de percorrer essas imensidões. fumar com eles o acre tabaco de seus campos. —. alcançavam o Alto Utauais. aos quais os representantes da Liga Iroquesa compareciam de bom grado. Nao era a primeira vez que ela sentia. a fim de fazer-lhes observações. — Julgar-se-ia que as pessoas desse país voam pelos ares. o Saguenay. e que eles conservavam para seus sucessores. podiam fazer de trinta a quarenta léguas por dia. Tinham. no momento de deixar Montreal com suas canoas. váriasrotas. pedia-lhe que suspendesse o curso de sua viagem e que montasse guarda na entrada do Saguenay. pois o medo dos iroqueses atormentava os algonquinos da região. Eles sabiam que ali receberiam presentes e realizariam banquetes. os annieronnons ou agniers ou mohawks. nome dado ao primeiro governador da Nova França. eram surpreendidos em suas reuniões de verão e massacrados por tribos inteiras.Mas os iroqueses gostavam de negociar tanto quanto de fazer a guerra. caindo como um raio. para ir. O mais pobre contingente de iroqueses que ali desembarcasse podia não apenas fazer um massacre. que o assistiria. Por isso. todas inacreditáveis. 70 . sabendo que o Sr.Como eles podem cobrir tais distâncias em tão pouco tempo? A rapidez com que os iroqueses e quase todos os selvagens se deslocavam em bandos dava vertigem. Se um contingente inimigo subia pelo lago Saint-Jean.

ao qual deviam sua volta às boas graças do rei Luís XIV. ao avistá-la entre as nuvens. restrito. os infelizes só tinham a ajuda dos franceses. assim como o Sr. Senão. Assim o decidiria a história. O tempo pôs-se de acordo com a situação.Quanto aos indígenas do lugar — montanheses. A decepção era grande para Angélica. o Arc-en-Ciel e o Le Rochelais. trabalhado por um joalheiro apaixonado por sua obra. Nesse momento. não dispunha de qualquer defesa de peso no lagar. já o tinham dito. os dias de verão são contados e o tempo de navegação. tirando da água e da floresta sua ração diária. Assim que o perigo fosse afastado e que o Sr. crees. o que ela vai dizer de não vê-lo acompanhá-la até Ville-Marie? — Falarei com ela. após confiar sua filha aos bons cuidados de Margarida Bourgeoys e ver seu irmão Josselino de Sancé. não acontecerá nada. no lago Piguagami entre outros. acostumara-os. arriscamo-nos todos ao perigo. Se eu guardar a entrada do Saguenay. mas para aterrorizar e exterminar. Angélica. nessas regiões do setentrião. Ademais. CAPITULO XVI Estada em Quebec A ausência de Joffrey mudava. dois navios ficariam ao largo de Tadoussac para interditar a passagem das flotilhas inimigas. a fim de descer em grupos o Saguenay em direção ao Saint-Laurent. Os grupos de guerra deixavam em sua esteira a terra queimada. A situação não podia ser mais bem definida. se ainda estivessem vivos. retomou seu aspecto de relicário lavrado. Nesse ínterim. O hábito do comércio com os brancos e com os navios do Saint-Laurent. mas a população de Tadoussac e a de Quebec. pois não vinham para pilhar nem para conquistar. A cidade apareceu sob uma cortina de chuva. Pois. no inverno. parecia que um novo episódio desse tipo se preparava lá em cima. mas ela compreenderá. nesse momento inteiramente agrupado a sudoeste dos Grandes Lagos. Ora. torrinhas e campanários de telhados revestidos de chumbo que. para Angélica e sua filha. Quebec. não tinham tempo nem os meios de se querelar. provida de um exíguo contingente militar. a se reagrupar em certos pontos. E também para mim uma decepção. maskapis —. Uma violenta tempestade atrasou a. disseminados por um vasto território infestado de pernilongos e moscas. que não tivessem sido passados na "grelha". a trocar oS "ramos de porcelanas" e a resgatar alguns prisioneiros. Pequenos canhões foram transportados para terra a fim de reforçar a defesa do fortim. mistassins. a chegada de Peyrac e de sua frota foi um desses milagres. nos rincões nublados dos fiordes de falésias rosadas. tendo cumprido sua missão. e não eram apenas os índios que estavam ameaçados. Joffrey julgaria se era melhor continuar em direção a Quebec ou esperar que Angélica. Era nessas ocasiões que se percebia que ela sobreviveria à custa de "milagres". a cor das coisas. Em cada terreno. Os iroqueses aproveitavam-se disso para surpreendê-los e cortá-los como carne para patê. A presença de Joffrey e a de Nicolau Perrot dava a segurança de que os soberbos iroqueses se deteriam à vista dele. que. a guarda dos navios de Peyrac diante do Saguenay poderia ser retirada. Tissot. sem que houvesse derramamento de sangue. permaneciam pacíficos. contavam seus mosquetes. às vezes a mais de cem quilómetros. molhados. fosse encontrá-lo. no verão e no outono. Naquela conjuntura. Kuassi-Ba e o escudeiro permaneciam junto à Sra. com seus sinos. estivesse de volta à capital de seu governo. Contra esse flagelo. chegada a Quebec. O Conde de Peyrac não podia recusar um serviço de uma importância vital ao governador da Nova França. Era bem assim que o encarava Frontenac e também os habitantes de Tadoussac. com o sloop. não apenas um amigo. era preciso fazer esse jogo. 71 . continuariam até Quebec. A Nova França. quando as expedições se encontrassem. mas também um "conterrâneo". bem distantes. Foi preciso esperar o sol para que decidissem desembarcar. rutilavam ao sol. seria necessário consagrar alguns dias a fumar o cachimbo da paz. depois Montreal. — E Honorina. com inquietude. de Peyrac e sua filha. um gascão como ele. Sob o comando de Bars-sempuy e de Vanneau. Forrada de verde. flagelada por dois raios de luz oblíquos que desciam sobre ela como que para abençoá-la. enquanto Peyrac e Nicolau Perrot adentrassem o terreno. de Frontenac. Os vizinhos. batizado como Saint-Jean. Foi decidido que.

na orla dos bosques. semifechada e. a fim de ajudar nas colheitas. de Frontenac deixou apenas alguns mutilados e veteranos que não têm o que fazer a não ser jogar cartas. d'Houredanne. mas deixada vazia. de não dar com um adepto do Padre d'Orgeval. junto aos senhorios. em suas paróquias. iam para os feudos. dos amores da Princesa de Cleves. No decorrer desses três ou. e polindo com energia objetos preciosos que ele apreciava muitíssimo. Em suma. no máximo. 72 . que felizmente Angélica encontrou no palácio da intendência. seja por esperar uma acolhida mais solícita. deve haver umas enxergas no galpão. com a maior parte de seus postigos fechados. e minha casa não se esvazia como de hábito. cortados por tempestades rumorosas e muitos dias de folga. Parecia que ali só se podiam tramar lúgubres empresas. as comunidades. Quebec parecia uma grande casa a que tivessem aberto todas as janelas para arejá-la.não pôde conter um sorriso. o anúncio dos ofícios. o seminário. uma maravilhosa cidadezinha francesa. armazenar e preparar os campos para as sementeiras de outono esvaziava a cidade. o Sr. no inverno. Para toda a companhia. Não encontrara ninguém em casa. que ela não conhecia. entre seus muros espessos e sob seus altos telhados de três andares de forros. lembra? E para seu belo grupo de oficiais tenho quartos também. considerando-se as boas relações mantidas desde a suapassagem pela Nova França. A criada exclusiva do marquês estava ali sozinha. sentira uma pontada no coração diante da residência onde. — Ah! cara Angélica. sob suas chuvas de tempestade. tendo. enquanto a família sai para um piquenique. depois de abrir-lhe. Angélica compreendera que a melhor coisa a fazer era continuar sua viagem para Montreal. compensara a decepção experimentada de não encontrar no lugar rostos. As famílias. Monsenhor Le Lavai estava em viagem pastoral ao longo do rio. a não ser os dos valetes ou intendentes encarregados de entregar-lhe cartas e recados da parte de seus senhores ausentes. as horas de preces escandidas da Santa Casa ou das ursu-linas. — Hospede-se em minha casa — disse-lhe sua exuberante amiga. as ursulinas. levavam. Sua atitude fria e. A cidade de verão era bem diferente da cidade de inverno. A Cidade Alta. com os colchões nas janelas e os móveis no jardim. Silhuetas esparsas vagavam por ali sem animação. estava ali apenas Jessy. como os homens. e. soltando grandes exclamações de alegria que ressoaram até o fundo da Place de PAnse-au-Matelot. No Castelo São Luís. os vizinhos eram convidados a escutar a leitura que fazia a Srta. têm seu tempo de graça. Angélica fora recebida pelo coadjutor. E os porcos domésticos tinham ido pastar em rebanhos para lá das planícies de Abraão. esperando seu governador. amigos. gerente do albergue Ao Navio de França. os velhos rancores continuariam? Mas ninguém disse nada a esse respeito. Estava contente por tornar a descer à Cidade Baixa. recebia divinamente as "potestades" no palácio. bem à frente. quatro meses de verão. e os carrilhões do ângelus. — As cidades. "Na Cidade Baixa sempre fica gente. pareciam desertas e ainda mais austeras. e quando nunca se sentia segura. mas o que Angélica pressentia demonstrou ser correto. como que cega. todo mundo estava no campo. quando pensava nela. os jesuítas. a cativa inglesa. Desde a primeira noite. d'Houredanne. de Ville-d'Avray quando ele quebrou o tornozelo. de um calor opressivo. pareceu-lhe menos amável. seja porque o eclesiástico em questão possuía uma natureza tímida e pouco expansiva. mas Angélica. E para os soldados de sua guarda. os braços. depois a Rue de la Closerie. Estando este morto. aquele no qual coloquei o Sr. subindo a Rue de la Petite-Chapelle. não abrira a boca senão para o estritamente necessário. — O que irá fazer na Cidade Alta? Está vazia e morna como um velho ninho abandonado. como era também a época das expedições militares. nunca mais haverá em Quebec uma estação como a que ela conheceu quando você estava entre nós! A fina e encantadora senhora saltitava alegremente. a casa de Villed'Avray. suas estações abençoadas — observou a Srta. uma vida intensa e calorosa. Quebec. a Santa Casa — que. continuavam a desfiar sem parar. permanecia como uma jóia insólita. dificilmente correta lembrara vergonhosamente a Angélica a época em que a cidade se dividia a seu respeito. As sólidas construções conventuais — o bispado. onde a acolhida de Janine Gonfarel. a Polaca. o melhor vinho. a tarefa urgente de colher. nas noites de grande nevada. Cuidando dela. nccoração da América do Norte. outrora. Mas reservei para você o quarto mais bonito. do alto do patamar. estendida em seu leito. mas. Quando se apresentara no arcebispado. abordando alguém.

do arcebispado. entre os colonos doentes que chegaram e que foram levados à Santa Casa. Isso está se tornando cada vez mais rígido. os honrava. Quando Madre Catarina de Santo Agostinho soube que. Angélica garantia junto ao responsável que dependia. está tudo em ordem. — Não se preocupe — sussurrou-lhe a Polaca —. Angélica aspirava já os eflúvios do bom guisado da Sra. Sua Majestade Luís XIV. e ocuparam o lugar durante cinco anos. e todas as almas piedosas estavam vigilantes. pois Joffrey discutira com ela essa questão dos protestantes. naturalmente. Angélica não o contradisse. interrogaram os marinheiros em terra e os mestres. traidores de seu Deus e de sua pátria. Só o conhecia de vista. Acabou por pedir-lhe que se sentasse e mandou oferecer-lhe um quarto de vinho branco. foi ameaçada. do cartório e do Departamento Viário. e abjuraram sua heresia publicamente e com um fervor admirável. ao mesmo tempo.Angélica congratulava-se com esse arranjo. sobretudo quando se destinava a combater um perigo tão insidioso e mortal quanto o de ver introduzirem-se no seio do feudo católico do Novo Mundo esses portadores dos germes da heresia protestante. capturaram Quebec em 1629. homens do prebostado — "uns escrevinhadores. é assim que os chamo. Todas as companhias mercantes têm em seu contrato uma cláusula que os proíbe de introduzir na Nova França adeptos de Calvino e de Lutero. A Nova França pode considerar-se a única província francesa realmente purificada do flagelo. entre sua tripulação e seus empregados. suas doutrinas culpáveis. ela. — Mas nós temos "franquias" assinadas pelo Sr. devia haver inúmeros protestantes disfarçados. Este foi com o governador em sua expedição ao lago Frontenac. Em sua primeira estada. pediram para falar com os capitães. tornaram-se doces como anjos. Sempre gostara de brincar com os moleques do porto na Cidade Baixa. desejando ser intruídos na verdadeira religião. A Polaca observou-lhe que. Carlon. expulsaram Champlain. Felicitava-se por não ter levado Severina Berne. e não falou de inspecionar os navios nem de fazer cada homem declinar seu credo. pois isso não era totalmente verdadeiro em relação aos homens da tripulação. no final de quinze dias. Depois das histórias de Salem. Descendo novamente para essas terras pouco hospitaleiras. não tratara com a personagem. Honorina ficou encantada. as da Nova França pareciam-lhe anódinas. compatriotas. sem saber se ele era sinceramente amigável ou se queria que ela compreendesse que ele não era otário e que 73 . que arrumavam entre as casas recantos de praia para ali chafurdar e fazer flutuar seus barquinhos. delegado peia Administração Real. foi secretamente procurar uma relíquia de osso do mártir Padre Brébeuf. Pois bem! todos esses homens refratários e dissimulados. dizia ele. o governador. e o representante do prefeito da cidade e do porto veio pessoalmente me cumprimentar e me trazer as homenagens do Sr. poderiam professar livremente. e. durante sua ausência. A Nova França. d'Avrenson. Ela ganhara importância e perorava: — Uma vigilância das mais constantes permitiu-nos alcançar um resultado. em terra francesa. No início. em nome da Inglaterra. do escritório dos Negócios Religiosos. exprimia seu pesar por ter de aplicar as mesmas formalidades a hóspedes tão amados da Nova França. Ela cruzou os dedos por trás das costas. os irmãos Kirke. do prebostado. que o Sr. Angélica já ouvira falar dessa história do pó de osso. Mas a lei devia ser a mesma para todos. trata-se apenas de verificar se não há. não podia esquecer os males Causados por esses trânsfugas. de Frontenac recomendara calorosamente antes de se afastar. pois essas questões interessavam à salubridade do porto comprometida pela introdução de indesejáveis na colónia francesa. por terem atravessado os mares. Poucos não foram detectados. que. adeptos da Religião Reformada. mas deixou todas as instruções concernentes a nós. E sabia-se com que amizade o rei da França. mas seu interlocutor pareceu contentar-se com suas declarações. de Frontenac e o Sr. mas fingiu que a ouvira pela primeira vez. transformou-a em pó e colocou-a nos alimentos dos supostos protestantes. que não houvesse nenhum adepto da RPR — Religião Pretendida Reformada — a bordo de seus navios. uma vez que os huguenotes refratários imaginavam que. mais do que as outras. Dizia-se nas altas esferas que o controle de dois navios e do sllop que chegaram no fim daquela manhã não tinha sido feito com bastante rigor. além disso. Temem-nos mais do que a uma epidemia de peste. Mostrava-se amável. uns escrevinhadores" — tinham vindo rondar no porto. Gonfarel.

Estão habituadas a comer coisas sólidas. — Algumas vezes eu me pergunto. E durante esse tempo os chapéus se encolhem. permanecia na enseada com o Sr. pouco frequente. Na sala particular da Sra.. Por isso.. que lhes era dada de conversar a sós. Desde que se fala de revogar o Edito de Nantes. se a cotação do castor baixar — gemia a Polaca —. que enchem o estômago. uma mercadoria preciosa. O Arc-en-Ciel.. era mais agradável. Janine Gonfarel. um certo tino comercial. se inquietava. E ali se retirava de um poço interno uma água muito fresca. na França. mas que. e isso constitui o fundo das notícias que nos trazem da França. d'Urville que. onde só contamos com essa riqueza? — Falam mesmo que a pele vai diminuir? — surpreendeu-se Angélica.. bem instalado. não se podia mais retê-lo. os comerciantes de 74 . eclodia. a Polaca disse que. porém.. Os chapéus de "feltro de castor" eram uma bela moda de outros tempos. mandar fazer uma casa burguesa em Quebec ou na ilha de Montreal e oferecer à sua futura esposa vestidos de seda e de renda. homens afortunados. em vez de uma torrinha de. As peles são uma doença. o bochechudo. Na cozinha de verão pegada à casa. A Polaca esvaziava sobre a mesa grandes cestos de feijões e de ervilhas verdes. queriam ser vistos demais. Não pelo garoto. O calor continuava a ser uma provação. nunca tivera um tostão no bolso."— Os mendigos só tinham direito às raspas. que mandaram vir dos antípoles a tão alto preço! Ah! esses grandes e belos chapéus que tinham tanta elegância quando eram retirados para uma grande saudação: você se lembra de Rodoguno. por muito tempo desprezada como adorno até pelos índios. um guisado de boi ao vinho tinto cozinhava em fogo lento. — É um belo alimento. A tempestade que se formava durante o dia. olhando o homem afastar-se. uma febre para todos os jovens e. Era preciso preparar a pequena embarcação Le Rochelais para receber seus passageiros. ele fica cada vez mais importante. Polaca. no comércio tão florescente do castor.outra para escolhê-los enquanto falavam. nos quais se podiam colocar belas plumas bem eretas ou um penacho de faisão dourado ou de tetraz. havia alguns anos. para resistir ao frio. — Ainda não. ao lado da grande sala onde se sentavam à mesa seus clientes e de onde podia examiná-los através de um postigo. podia. pois dava para o norte. que vai nos acontecer no Canadá. — E se fosse ele o espião do rei — disse a Polaca. e seu garoto. estimava ela. ainda que se esfalfasse durante a vida inteira. que fizera da pele desse animal. mas pelo mercado desse artigo precioso. cujo calado era demasiado grande para subir o rio para lá de Que-bec. — Já faz tempo que ele foi para os bosques. Um corajoso rapaz que. que iam recolhê-las entre os selvagens. e que ia dar um golpe fatal. Para não desperdiçar a oportunidade. Mas as pessoas daqui não o apreciam.continuava a desconfiar dos estrangeiros "independentes" de Gouldsboro que haviam fundado a fortuna de seu estabelecimento na introdução de sessenta huguenotes de La Rochelle em terras da Acádia. Saía de suas discussões reanimada e mais filosófica. faço questão de minha horta. via com bons olhos o reencontro com uma cidade onde deixara conhecidos amáveis. depois de alguns passeios nas regiões altas. — Diga-me. a França enviava seu excedente de peles para os Países Baixos e para a Holanda. naquele ano. — Mas. e mesmo de Calembredaine? Angélica perguntou-se o que escondia a homilia da Polaca em favor dos grandes chapéus. — Nunca esqueci que os belos legumes são refeições de príncipes — dizia a Polaca. chamada a Polaca por aqueles que a conheceram num período esquecido de seu passado. dissimulavam seu rosto quando na. E sobre isso e sobre toda essa gente que envenena o próximo na corte da França que se fala. e elas se sentavam uma diante da. que desejava conservar. ainda não o vi. Angélica transferiu para dali a dois dias a aparelhagem para Ville-Marie. Conversar com a Polaca continuava a ser um prazer raro para ela. Transpirava-se e tinha-se muita sede. a pele. a única maneira de se enriquecer! Entretanto. e dos "viajantes". cujas abas ficavam cada vez mais estreitas. Fazia rolar as ervilhas na palma da mão com prazer. finória e tendo adquirido pela posse de bens. Gonfarel. nem sempre. — Baixando a voz. cauda de filhotes de avestruz. Ah! Quando nos devolverão aqueles des chapéus de feltro com abas largas que abrigavam noss< mens da chuva e do sol. e olhe lá! Isso quer dizer que não conheciam o seu gosto. o Egípcio. — Tão moço! — Forte como ele é. E voltavase a essa bendita moda dos chapéus redondos.

o futuro. e. as fortunas que se edificam tão lentamente e desmoronam tão rapidamente. os sonhos. A Polaca continuava pessimista: — A pele está ameaçada. e a única perspectiva de suas vidas que se iniciavam subvertia os dados da deles. Angélica cochilava. além disso. tudo teria sido diferente.. não a impedia de ter adquirido essa faculdade de se sentir. Carlon.. encontram todo tipo de argumento. No fim. e o castor é o chapéu. — E. E.. os peões de outra. — Vamos ver Basílio. Não mais peles! Que faremos? Produz-se um bom trigo. A Polaca escutava-a com interesse. Ela os segurava por uma ponta e esta se enganchava. No grande e belo quarto onde a Polaca os instalara queimava-se erva-cidreira para afastar os pernilongos. Quando estava em Salem. mas. enquanto escolhia os feijões verdes —. Pequenos chapéus. sem o ser. a Nova França. muito vigiados. as crianças que crescem. arbitram os medos e outros que se perdem como água na areia. O que era fatigante é que. era preciso desenrolar a meada numa outra direção. Talvez tenha uma ideia sobre os chapéus. dentro do inextricável encavalamento: o rei. madeira aparelhada para cobrir os telhados. talvez. E. em toda parte. ouvindo marulhar a maré ao pé das casas da Cidade Baixa. os navios. e que traziam de volta produtos "franceses. segredos. Era preciso admitir que isso se estendia às outras peles.. bastantes castores no mercado.... um pouco do lugar por onde passava. os exploradores de bosques. E era esse o papel que tinham de desempenhar para reunir todos esses cantos Jo mundo a que estavam afeiçoados e a que pertenciam por laços de nascimento ou de escolha. ainda que isso fosse fruto de um constrangimento. tornava mais grave e mais sutil a escolha de suas decisões 75 . a Nova Inglaterra... numa saída incerta. sua razão de ser. tão devagar e tão depressa. que dava vontade de segui-lo. lontras. aproveitou bem seu repouso. Enfim. os franceses continuam a travar uma luta feroz contra os ingleses para não os deixar traficar a pele em nenhum território que lhes seja acessível. Ela pusera no mundo duas crianças. raposas. mas não navios para enviálo.Liege e de Amsterdam compraram duas vezes menos e avisaram que estavam também saturados. quando estava em Quebec. devida às dispersões do calor. — Conseguimos tirar o monopólio da Moscóvia. Mas é preciso pensar antecipadamente. as leis que incham até estourar como um sapo e que ocupam toda a parte anterior da cena. Ele arr muita gente atrás de si. o Sr. a ruína. comunicando-se os encantos de seus mundos opostos. ele também tem bom faro. no entanto — comentou Angélica. mas. A noite estava clara no enquadramento da janela aberta. nem bem terminava uma partida. açúcar para fabricar o rum que eles exportavam novamente para lá. os navios ancorados. Era um pouco dessa espécie errante — pela força das circunstâncias —. as ambições. de castor. Os ruídos do porto eram discretos. Ele impunha uma coesão na ação. Sempre gostara dos movimentos da beira do cais. Os franceses nunca estavam satisfeitos. vinhos e perfumes ou melado. o intendente. principalmente. fazia tanto calor! Entretanto. à noite. visons. E não se podia hesitar. pois há falta de frete. repousavam nesse único comércio. esse dueto de terra e água. onde não havia essa bebida. sentia-se de outro lugar. senhores vagabundos. Joffrey aceitara ajudar Frontenac junto aos iroqueses. Estavam comprometidos. já se dispunham no tabuleiro. parecendo impacientes para voltar ao largo. animais. ao contrário. bamboleantes. Insuflava um tal fermento de vida. sentia-se francesa. Quando as pessoas não querem que isso mude. outros se impõem. a fim de lastreá-los. Indícios inquietantes. menos pedidos. e sua rispidez era compreensível. no entanto. mas que constituem o prazer de terra firme. pois o orçamento da colónia e sua subsistência. parecendo que cada um cochichava ao outro confidências. mas nunca mais haverá tantos pedidos de castor. Criam problemas para ele. Que contraste com o trabalho de formigas que haviam visto na Nova Inglaterra! Angélica descreveu a atividade das colónias inglesas. Homens desaparecem. a ruína não se dê tão cedo. e. Com ele ausente. A lua devia esconder-se por trás da neblina pesada exalada pelo rio e a flcJresta. Era-o. nem sempre permitidos.. talvez essa seja uma simples ideia minha. Não mais estavam fora. Ela pode manter-se ainda por muito tempo. é preciso buscá-la cada vez mais longe. Com Honorina adormecida ao seu lado. se esforçou. Angélica ficava mais sensível a uma mudança. mas. e a fauna díspar dos cais em torno de pequenos fogos. E já se recomeça a encher de cascalho os navios que voltam à França. Se Joffrey estivesse lá. que enviavam à Terra Nova ou às ilhas víveres.

que nem sempre sabem o que lhes reserva a volta de um rio.. na proteção do rei. Ela não teria escutado suas negativas. não foi insensível a seus encantos? Desses falatórios. É que a proteção do rei permanecia concedida a eles. uma vez mais. e queria pedir-lhe que interviesse junto a sua "loura". dos exploradores. É verdade o que contam? Que Sua Majestade. Essa mulher. Era-lhe reconhecida e tinha-lhe amizade por ter ela cuidado de seu macaquinho que estava morrendo de uma inflamação dos brônquios e do qual ninguém queria tratar. a Sra. mas a exclamação ao mesmo tempo extasiada e um pouco inquieta de quem mede a importância dos trabalhos que lhe são atribuídos e que duvida de que consiga realizá-los com êxito. No dia seguinte. E Angélica perguntava-se quais seriam as inúmeras tarefas que a criança estaria avistando em seu sonho. A partida nem bem começara. como havia tempo estava suplicando. Ao saber que Angélica estava de passagem por Quebec. Pousou um beijo na testa branca e abaulada de Honorina. Bourgeoys para aprender a ler e a cantar. periodicamente. de Peyrac em Quebec. meu amorzinho?. Em todo caso. Acariciava sua bela cabeleira. fez-se carregar numa cadeira assim que soube que Angélica estava no porto. mais importante a estabilidade do presente. apesar da autorização do rei. de Peyrac e você irão se apresentar em Versalhes. Não sei o que entenderam sobre sua situação no Novo Mundo. não é? Parecia persuadida de que eles iam voltar para a França dentro em breve. como você me recomendou. Tinha notícias da corte. Angélica olhava Honorina dormir. seus cabelos tornavam a crescer mais belos e com uma coloração mais pronunciada de cobre vermelho.e das empresas do futuro. e que. espalha-se a noticia de que vocês estão de volta à França. de que tinham acabado de chegar. certo dia. — Esses homens do correio real que recebi em minha casa quando chegaram os navios disseram-me que seus filhos são muito apreciados por Sua Majestade. sabendo que ela a conhecia e poderia talvez convencê-la a desposá-lo. cujas razões teriam escapado a ela. Sua fortuna repousava nos acordos comerciais com a Nova Inglaterra. Cada qual se desolava por seu lado. A pessoinha que dormia contra seu ombro escolhera ser entregue às mãos da Srta. no caminho de sua vida. de Peyrac. de Vivonne. Não era um queixume desencorajado. Parece que na corte. Um militar de uns trinta anos apresentou-se no albergue Ao Navio de França. sem esmorecer. que queria fazê-la compreender que a volta da qual ela falava era.. na França. — Tomo muito cuidado com ele na época de muito frio.. que o Sr.? Honorina suspirou em seu sono e murmurou: — Oh! Tenho tantas coisas a fazer!. em sua generosidade para com a Nova França. Florimond e Cantor estavam na corte." — Mas. muito problemática. O macaco estava gozando de plena saúde desde então.. em outros tempos. Angélica retinha um fato. ninguém poderia prejudicá-los na Nova França. E eles estavam no meio dessa tela tecida ainda com fios grossos. Houve até um boato. e o tabuleiro perdia-se nó nevoeiro. "Que vai ser de mim sem você. mas tudo estava ainda muito confuso. "Talvez seja ele quem se opõe a minha volta. Quando você voltar à corte. que tinha má reputação e que fora exilada da corte por ser a mais rematada trapaceira no jogo que se possa imaginar. A única coisa que sabia é que era preciso continuar.. Ah! quando acabará esse duro exílio? Quando o rei me perdoará? Ele perdoou a você... mas surpreendiam-se por não encontrá-la em Quebec. Ouvira falar da presença da Sra. eu. o caminho dos"descobridores". julgando ter sido o único a ter perdido tudo. enquanto isso durasse. no Novo Mundo. interceda por mim. 76 . assim como o Sr. que se consumia longe de Versalhes. Você falará por mim quando o vir em Versalhes. Sei muitas coisas sobre ele. avançaria para um país desconhecido.. A cada sacrifício que Honorina infligira a ela com suas tesouradas. — começou Angélica. de Campvert foi visitá-la. o que se pode dizer é que vocês são esperados por Sua Majestade. dobrando o cabo Vermelho para Montreal. que já tinham sido recebidos pelo rei. Isso não lhe desagradava..

mas porque tinha posto na cabeça que só se casaria com um oficial ou um fidalgo. nos trabalhos braçais. pelo tempo que a dita negra era capaz de servir. conhecidas como zelosos conversores de hereges.— Está falando de uma loura! — exclamou a Polaca. que a levara para a França numa viagem que fora obrigada a fazer. na senhoria de La Roche-Posay. aonde voltavam para preparar as grandes festas marianas e as procissões que percorreriam a cidade de alto a baixo. que não conhecia provavelmente a jovem. ao mesmo tempo. não compreendia por que não o usaria para designar aquela que habitava seus sonhos e que era contudo uma negra muito bela. que. já que falavam de Sagrada Família. a casar-se com Perrina Adélia. que ela pedia ao Sr. que costumavam utilizar os prisioneiros para substituir. para onde eram enviadas para se casarem com os jovens canadenses. informações que lhe pedira em sua carta do último outono. de Frontenac ao lago Ontário. possuidores de ingleses trazidos por eles. autoriza Armando César. era um dos membros mais ativos da Confraria da Sagrada Família e dedicava-se às obras de caridade. Entristeciam-se por ainda não terem filhos. casada Mercourville. Tratava-se da Mourisca. devia estar na cidade. de JVIaudribourg. e à Sra. e um jesuíta. e a Sra. seu negro. Henriqueta tampouco tinha urgência de se casar com um canadense. Recomendava-lhe algumas pessoas em Ville-Marie. um pouco sozinha. pois conhecia a vkla dura dos feudos isolados. na ilha de Martinica. pois seu marido. de Baumont. não se esquecia de lhe comunicar alguns nomes e indicações que pudessem lhe ser úteis em sua procura dos cativos ingleses na Nova França. a Sra. Desconfiava que ali se falaria dos projetos de núpcias entre Kuassi-Ba e Perrina. a menos que Henriqueta arranjasse um marido por lá. 77 . os guerreiros que morriam em combate. Para começar. Acho que ficará feliz por ser avisada. em Port-Royal. julgara lamentavelmente ter compreendido. de Mercourville mandara preparar uma minuta de contrato. Angélica leu sem entusiasmo o projeto em questão: "O Conde de Peyrac. nascida D'Ambert. Angélica recolhia assim algumas notícias sobre suas protegidas. alferes. Senhor de Peyrac e de outros lugares. de Peyrac encontraria muito mais gente em Que-bec. estabelecido segundo os termos um uso para esse tipo de acordo. tratariam disso quando ela voltasse a Ville-Marie. muito estimado por todos. E. e das quais todos os cidadãos de Quebec queriam participar. a Sra. sua escrava negra. Esse casal. de Peyrac conduziram até Quebec. como butim de seus reides de represálias nos estabelecimentos da Nova Inglaterra. nessa oportunidade. de Peyrac a gentileza de estudar. "Isso em consideração por trinta anos de serviço — mais ou menos — do dito Armando César e também após a expressão da satisfação. Voltando ao projeto Kuassi-Ba-Perrina. no rio Saint-François. a fim de que pudessem discutir-lhe as modalidades quando de sua passagem na volta. capelão da missão de Saint-François-du-Lac. inclusive a noiva de Kuassi-Ba. uma das primeiras que ela abriu dentre as que lhe foram entregues ao chegar. que se encarregara de suas companheiras após a morte da Sra. Ela ainda não arranjara marido. que recebia. de Mercourville participava-lhe que se encontrava na senhoria da Pointe-auxBoeufs com todo o seu pessoal. Advertia-a amigavelmente que essa questão dos cativos ingleses era uma questão delicada. solenidades que só podiam desenvo!ver-se com tanto aparato na capital. a negra da senhora baronesa. de Mercourville. Se o enlace se desse no início de agosto. a Moça do Rei que chegara com o contingente do La Licorne e que o Sr. acompanhara o Sr. Para o casamento. viúva dotada de Morne-Ankou. para o pa-wa dos iroqueses. a fim de acertar umas questões de "herança. por parte da baronesa. Sempre obsequiosa. Continuava a serviço da Sra. Ambas estariam de volta no ano seguinte. O termo "loura" era tão familiar aos soldados para designar a noiva ou a namorada que ficara no país. a bênção anual do ostensório. Os ingleses eram o butim dos índios aliados. onde havia um grande contingente de abenakis batizados. seria breve. Disseram-lhe também que Delfina du Rosoy. — Se ela voltar. Angélica relia a carta da Sra. avise-a de que sua jovem irmã está bem casada na Acádia. a Sra. não porque lhe faltassem pretendentes. educada em Paris pelas Damas de Saint-Maur. que o bravo rapaz.

"O abaixo-assinado, Messire Jeammot, cura da paróquia de Pointe-aux-Boeufs, atestará ter considerado as ditas declarações conformes e, por conseguinte, lhes dará a bênção nupcial por eles solicitada. "Os casados se comprometem a servir ambos durante três anos, depois do que serão declarados livres. "Assinado: Joana de Mercourville, nascida... etc." — Mas assim não vai dar certo de modo algum — exclamou Angélica, ainda de pé na sala na qual a Sra. Gonfarel acabava de introduzi-la. Primeiro, estava chocada por falarem de Kuassi-Ba, o qual, pela primeira vez, lhe diziam chamar-se Armando César, como de um escravo comum. Havia muito tempo que fora liberto. Que pena que Joffrey não estivesse ali! Poderia encarregar-se da melhor maneira possível dessas questões, com muito jnenos dispêndio de energia e de contrariedade. Decididamente, só gostava de Que-bec quando se tratava de cuidar de coisas frívolas, agradáveis e pessoais, diplomáticas, a rigor. Isso sem dúvida se devia ao ar francês que ali se respirava, mesmo em pleno verão, e que desviava os espíritos dos deveres ingratos. A Polaca encorajou-a nesse sentido. — Fale sobre isso quando voltar. Deixe isso de lado. O assunto amadurecerá como o vinho na adega... Angélica não quis mostrar essa minuta de contrato a Kuassi-Ba. Talvez estivesse decepcionado por não ter reencontrado Per-rina, mas não disse nada, e ela o sentia mais preocupado em zelar por ela, Angélica^ e por Honorina. O que vinha para ele em primeiro lugar era poder voltar a Tadoussac após cumprir sua missão: proteger e defender, se fosse preciso, pelas armas, o que ele sabia ser para seu amo, Joffrey de Peyrac, o mais precioso tesouro, a que ele chamava "a Felicidade do Amo". Angélica não duvidava de que, se lhe acontecesse qualquer coisa, Kuassi-Ba estava pronto a suicidar-se no mesmo lugar. Já era bem difícil para ele pensar que iam deixar Honorina era casa de estranhos. Ao contrário dela, o ar da Nova França lhe inspirava uma profunda suspeita. Quando de seu último inverno em Quebec, não deixara um só momento de ostentar uma expressão muito sombria. Andava pelas ruas de Quebec com mais desconfiança que nas de Paris, à noite, antes que o Sr. de La Reynie tivesse mandado colocar as lanternas. Raramente ficava tranquilo, e seus olhos não paravam de espreitar de um lado e outro. Por isso, durante essa viagem, em que se sentia encarregado de pesadas responsabilidades, ela procurou não lhe causar aborrecimentos, passeando descontraidamente, sem avisá-lo de suas andanças. Em Quebec, ficariam apenas três dias. Não tinha vontade de demorar-se ali. CAPITULO XVII No Alto Saint-Laurent Com efeito, uma vez transpostos os dois promontórios gémeos de Quebec e de Levis e dobrados o cabo Diamant e o cabo Rou-ge, a subida do rio adquiriu um sabor de desconhecido, de coisa nunca vista, com surpresas ocultas que, antes deles, deviam ter experimentado os primeiros brancos, franceses: Cartier, Cham-plain, Dupont-Gravé, cujas naves, sempre para a frente, subiram esse rio-mar ainda imenso e que, no entanto, se encolhia, levando sua esperança de desembocar um dia no mar da China. Acabaram por atingir um limiar de corredeiras intransponíveis. Ali, na maior dentre um enxame de ilhas que formavam o fim da rota navegável, no cimo de uma pequena montanha, Cartier plantara uma grande cruz com as armas do rei da França e batizara a colina de monte Royal. Era o fundo da armadilha do Saint-Laurent, no coração da floresta americana — quem ousaria ali voltar? Um século mais tarde, um bravo fidalgo da Champanha, o Sr. de Maisonneuve, e sua equipe de aventureiros de Deus, cujas duas mulheres, Joana Mance e Margarida Bourgeoys, plantavam na mesma ilha uma outra cruz e fundavam Ville-Marie, colónia de povoamento, destinada a levar a palavra sagrada do Evangelho aos infelizes índios nascidos na ignorância do paganismo. Era uma época já distante e, no entanto, apesar dos esquifes e dos navios com que cruzaram durante o percurso e os ceifeiros avistados nos campos, continuava a reinar uma impressão de selvagem, de barbárie latente. A história das margens desse rio era cheia de emboscadas e de massacres de povos e de nações em guerra, de tribos exterminadas, reprimidas, enquanto outras tomavam seu lugar e eram exterminadas por sua vez. 78

Época dos colonos vindos da França, por menos numerosos que fossem no início, pobres, dispersos, um punhado de grãos lançados ao vento dos espaços, época pontilhada de ataque dos trabalhadores do campo, de combate a um contra cem, de corridas descabeladas para.o forte e sua paliçada, com uma nuvem de iroqueses urrando no encalço de trabalhadores, de lavradores, de carpinteiros, de serradores de pranchas bruscamente assaltados, escalpelados ou raptados, levados para o fundo das florestas, torturados de uma maneira espantosa, cortados em pedaços e jogados no caldeirão para serem cozidos e comidos. Fizeram apenas uma breve escala em Trois-Rivieres. Era uma pequena cidade ao mesmo tempo cheia de animação e frequentemente deserta. Aqueles que ali eram encontrados pareciam sempre prestes a partir para esta ou aquela direção que a encruzilhada de água, mais complicada que um delta, lhes propunha. Na confluência do Saint-Maurice com o Saínt-Laurent, atrás de suas muralhas de estacas, tinha deixado de ser, desde o envio do regimento de Carignan-Salliere, a vítima preferida dos iroqueses. Somente além, a cinquenta quilómetros dali, é que se começava a ver, com mais frequência, na fímbria dos campos onde se agitavam os homens ceifando, as mulheres amarrando feixes de feno ou respigando, homens armados fazendo sentinela. Se Joffrey de Peyrac estivesse presente e se não houvesse a perspectiva da separação de Honorina, Angélica teria, sem dúvida, encontrado mais encanto nesses horizontes nublados, mais cinzentos que azuis, atravessados por raros clarões de sol pálido. Tinha pressa de chegar. Honorina saltava num pé só na coberta do barco. Esquecera, dizia, as brincadeiras que faziam, empurrando com um pé um seixo chato de uma lajota a outra no grande vestíbulo das ursuli-nas. Cantarolava também as canções que ali aprendera, tentando lembrar-se da letra: Rouxinolzinho selvagem, Ama-seca do rei, DameLombarde, Junto de minha loura, como ébom, como ébom... que lhe trouxera à lembrança o namorado da Mourisca. Ficaria muito orgulhosa de mostrar a Madre Bourgeoys que podia cantar com as outras meninas. Havia nela muito boa vontade. Com a idade, uma menina bem-comportada, que desejava fazer-se amar, suplantava sua natureza primeira, impulsiva e suspicaz. Uma dessas canções, cujos versos" eram enunciados com ardor pela menininha, chamou a atenção de Angélica: — "Rouxinolzinho do lindo bosque, Rouxinolzinho do lindo bosque, Ensine-me o veneno, Ensine-me o veneno, Para envenenar meu marido, que tem ciúme de mim. Vá lá naquelas encostas, Lá o encontrará, A cabeça de uma serpente maldita, lá a cortará. Entre duas lâminas de ouro e de prata, Depois a moerá." — São essas as canções que ensinam nas Ursulinas? — surpreendeu-se Angélica. — É a história de Dame Lombarde, a envenenadora — explicou Honorina. — Mas é uma história trágica! enfim... inquietante. Angélica viu-se levada a falar com Honorina sobre sua própria infância. Explicava-lhe que, se não estivera no convento quando era mais jovem, era porque eles eram de família nobre, mas pobre. Honorina pôs-se a fazer perguntas precisas: como era ser nobre mas pobre? Foi preciso falar das tapeçarias de Bérgamo nas paredes úmidas, que estavam bem desgastadas. Mas, exceto por esses detalhes sobre as tapeçarias que caíam em frangalhos, não encontrou outros. Se suas irmãs e ela tremiam em sua cama nas noites de inverno, era mais de medo de fantasmas que de frio. Elas se mantinham aquecidas, as três juntas, na cama grande. A mais velha era Hortênsia. — Onde ela estaria naquele momento? — Na França. — Mas onde, na França? — Em Paris, provavelmente. — A outra, a pequena, era Madelon. Madelon morrera. Fora por causa da pobreza que ela morrera? Ou do medo? Angélica tornou a 79

sentir a aguda pontada no coração que frequentemente sentia ao pensar em Madelon. Conservava a impressão de que Madelon morrera porque a defendera mal. — Não fique triste! — disse Honorina, colocando a mãozinha em seu punho. — Não foi por sua culpa. Como era seu pai? Que fazia sua mãe? Ela cuidava das plantas para as tisanas? Não, mas cuidava dos legumes e das frutas do pomar. Angélica via passar, num plano inferior, como um sol, o grande chapéu de palha amarrado como uma echarpe, e a silhueta delgada e digna de sua mãe aproximando-se das latadas onde as peras estavam maduras. Ela, Angélica, a selvagem, estava numa árvore e, agachada num galho, espreitava com seus olhos verdes. Que estaria fazendo naquela árvore? Nada. Espreitava. Atenta para não ser surpreendida. Todavia, sua mãe não diria nada... Angélica, quando criança, gostava de espreitar, olhar. Absorvia o instante a ponto de fixálo em todos os detalhes: o zumbido das moscas, o odor delicioso das frutas mornas. — Graças a ela, nossa mãe, a Baronesa de Sancé, comíamos coisas gostosas. — Os olhos dela eram como os seus? Angélica dava-se conta de que não se lembrava mais de quem, seu pai ou sua mãe, tinha olhos claros como ela, olhos de um matiz que, em certas crianças, tinha se tornado mais azul ou mais verde. Perguntaria a Josselino, seu irmão mais velho. Ainda não acreditava inteiramente nesse reencontro. Um pouco depois de Trois-Rivieres, o rio se alargava para formar a extensão do lago Saint-Pierre. Era famoso por ser muito batido de vento. Uma leve tempestade não tardou a sacudir os navios. Do tombadilho do Le Rochelais, avistaram canoas índias que se debatiam entre as vagas. Barssempuy veio dizer que uma delas, na qual julgara distinguir a silhueta de um eclesiástico, parecia estar afundando. Baixaram à água uma chalupa e-, pouco depois, sob as rajadas de uma chuvinha fustigante, subiam o bordo os dois índios cuja canoa acabava de afundar e seu passageiro, um Toga Negra, que se apresentou sob o nome de Reverendo Padre Abdiniel. Angélica aprendera então a ficar de atalaia quando tinha de tratar com um jesuíta. Aquele pareceu-lhe neutro, sem hostilidade nem simpatia. Agradeceu-lhe a ajuda que lhe haviam concedido. A canoa de pequeno porte na qual embarcara com dois catecúmenos, que, como ele, se dirigiam a Saint-Françoisdu-Lac, fora desviada do rumo nos rochedos, onde uma insidiosa aresta perfurara o casco feito de cascas de bálsamo que, no entanto, era bem sólido. Depois, antes que seus ocupantes pudessem pular na água e chegar a terra firme, os redemoinhos reconduziram a embarcação para o meio do rio. Mastigando ativamente, para amolecê-lo, seu revestimento de borracha e de resina, os remeiros tentaram tapar a brecha enquanto ele retirava a água. Mas, apesar de seus esforços, não tiveram tempo de se manter na superfície quando lhes chegaram os socorros. Graças a Deus, no Saint-Laurent, nunca faltavam barcos ou navios para vir em auxílio dos navegantes em perigo. Era a grande fraternidade do rio. Angélica verificou numa olhada à carta da Sra. de Mercourvil-le o nome do jesuíta que ela recomendara a propósito dos prisioneiros ingleses, e viu que o acaso lhe fora favorável. Estava na presença do capelão da missão índia onde alguns deles poderiam estar. O padre confirmou seu ministério junto aos abenakis naquele vasto acampamento, antigo posto de trocas, onde a maioria dos batizados dessas nações estavam reunidos. Angélica aproveitou o trajeto necessário para conduzir os sobreviventes à foz do rio Saint-François, onde o resto da flotilha os esperava, para falar-lhes das propostas de resgate que trazia do Massachusetts. Parentes-de cativos levados para a Nova França pediram-lhes que as comunicassem a quem de direito, sabendo que, sendo franceses e católicos, podiam interceder por eles junto a seus .compatriotas. O Sr. de Peyrac e ela aceitaram interceder, num espírito de caridade. Seu hóspede, que ela recebia na sala de jogos do castelo de popa e que, embora estivesse encharcado, recusava agasalho e bebida quente, dizendo que, com o calor da estação, não era ruim tomar um banho frio, escutou-a atentamente, depois perguntou-lhe se poderia dar-lhe alguns nomes. Começou fafandolhe da família William. Depois de alguns instantes de reflexão, ele declarou que, com efeito, aquelas pessoas não lhe eram desconhecidas. Lembrava-se muito bem de sua chegada ao Forte de Saint-François-du-Lac. Era uma facção de etchemins que os levaram da Nova Inglaterra havia cerca de dois anos. Lembrava-se bem, tanto mais que fora chamado à cabeceira do referido William, que estava com uma ferida arruinada na 80

para serem mutuamente ajudados na construção de suas casas. o inimigo maroto que a todo momento podia surgir dos bosques. E arrisco-me a atrair a atenção sobre minha fraqueza em convertê-la. quando tivesse decidido a data de sua partida. Com razão lhe disseram que. e quando se estava realmente próximo do objetivo. que a capturara. as Regiões da Aurora. distinguiu-se um desembarcadouro de madeira e. Fora comprada por um homem da tribo dos canibas. De sua parte. o missionário e suas ovelhas os deixaram. Ele. se quisesse saber do paradeiro dos prisioneiros ingleses. como o indicava seu nome "aqueles-que-se-situam-perto-dos-lagos". Casado com uma mulher da ilha de Orléans. não deviam se embaraçar com as boas maneiras como em Quebec. As redondezas de Ville-Marie de Montreal conservavam a mentalidade dos pioneiros que se ligaram entre vizinhos como uma só família. e esse não seria o momento a. apesar de seus esforços. e a Sra de Verrieres. depois de ser batizado por um chefe abenaki da tribo dos Lagos. pois ela não quis ser batizada. Só ficara. convertidos ou não. a sudeste. "Eles" não deixaram de lembrar. pois ele era o caminho natural de volta para seu território de origem. pois ninguém ignora a grande amizade que nos une. tinha já cinco ou seis filhos. O piloto que os conduzia desde Trois-Rivieres aconselhou-os a descer e a se apresentar em casa dos senhores do lugar. Nesse lugar. Para lá de Sorel e do forte construído na embocadura do rio Richelieu. julgando inútil perturbar sem necessidade a pobre moça. Parecia-lhe que a tal menina fora resgatada por pessoas generosas de Ville-Marie-du-Montréal. como o testemunhavam as barcas. viera à Nova França na companhia de seu tio. que ficara viúva com duas crianças: um menino de cinco anos e uma menina. pois o caniba. infelizmente. seu lugar de origem. Lembrou-se igualmente da mulher. canoas. voltando para o sul. a esse propósito. durante a marcha para a Nova França. ele era o bulevar natural que costumavam tomar de empréstimo para levar a guerra ao Saint-Laurent. seria preciso ir até Montreal. um paroquiano muito bom. ela não sabia quantos dias permaneceria na ilha de Montreal. Um pretexto a mais para prejudicar esse pobre intendente. que a batizaram e adotaram como sua própria filha. e naquele dia festejavam o batismo de uma recémnascida. o Sr. Na região. preferia ficar permanentemente em sua missão. A capital não queria ver perambular ingleses pelas ruas. Angélica agradeceu-lhe e encarregou-o de transmitir a notícia de um resgate que a família dos William em Boston estava pronta a oferecer pelos sobreviventes da família. prisioneiros na Nova França. d'Houredanne lhe dissera que recebera sua carta do outono passado. junto a um grande número de vizinhos. Ficou combinado que. que chamavam também de rio dos abe-nakis. Se a questão fosse suscitada.dequado. 81 . Angélica estava satisfeita por ter encontrado tão facilmente a pista dos William. ao longe. e não ia disputá-los com seus amos huronia-nos ou algonquinos dos acampamentos de Loreto.. empunhando seus tacapes. pois. "eles" não a soltarão. nascida na floresta. uma neblina espessa obrigou a flotilha a margear e lançar âncora. ele a esperaria se possível com a cativa na foz do rio Saint-François. A fim de não atrasar sua volta para Quebec. em Saint-François-du-Lac a viúva William. Carlon está à beira do infortúnio. com o rio Hud-son e o lago Champlain. resolveram escolher domicílio no Canadá. seu amo etcbemin Quandequiba. batéis. e os dois. mas o jesuíta assegurou que ela ainda estava lá. a receber auxílio contra os iroqueses. a única coisa que ela ganharia seria ser enviada a seu amo selvagem abenaki. Quando de sua breve passagem. a ceifar seus campos e. Eram poucos os que estavam em Quebec. a Srta. amarradas ao longo da ribanceira. onde todos aqueles funcionários reais se esfalfavam por manter a etiqueta de Versalhes. o Capitão Crevecoeur. Através do nevoeiro. sobretudo. pois o Sr. por ocasião do licenciamento das tropas. — De qualquer modo.. O piloto insistia. Não pudera. portanto. convencê-lo a abjurar de sua heresia antes de se apresentar diante de seu Criador. prisioneiros ou não. chamado o rio dos iroqueses. um alferes do regimento de Carignan-Salliere. O garotinho fora adotado. que sou jansenista. enviaria ao Padre Abdiniel um mensageiro para avisá-lo em Saint-François-du-Lac.perna e que morreu pouco depois. mas que não tinha entregue a mensagem a sua criada Jessy. luzes que se projetavam num grande halo que se difundia por trás da muralha de uma paliçada.

a dona da casa foi sentar-se junto à sua convidada e falou com ela frente a frente. em almofadas. A Sra. e muitos solares como aquele eram cercado de muralhas. Era um padre do seminário de Quebec. vastas poltronas. a oeste da ilha de Montreal. tenho quase certeza de que o fidalgo de quem você fala é meu irmão mais velho. se não parentes. tanto mais que correu o boato de que você vinha a Montreal munida de provas desses laços familiares. Mas há mais que isso. A Sra. casais dançavam no pátio. pronto para se precipitar ao menor chamado. Mas sua aparição neste dia será para nós um dos acontecimentos mais emocionantes de nossa vida. Há alguns anos. elas costumam preceder aquele ou aquela que está encarregado não apenas de levá-las. construído de pedras e coberto de ardósias. A cerimonia religiosa dar-se-ia. A Sra. o famoso "caldo" dos canadenses. Lamentavam que tivessem chegado demasiado tarde para partilhar o banquete. de Verrieres fez à orquestra um sinal para que continuasse com a música. a zurrapa. admitirei de bom grado que somos. as jovens se misturavam aos mais velhos com uma civilidade afetuosa e alegre que provava que as distâncias e o frio respeito que se concediam aos ancestrais das famílias não erguiam nenhuma barreira entre elas. Ora. que desviaram a atenção. Por isso. embora ainda não tenha visto nem avisado de minha chegada. — Somos então parentes por afinidade. cujas terras ficam na ponta dos Olmos. itinerante no verão. A um gesto dela ou a uma expressão. continuavam atarefadas em volta dos caldeirões. O dia do batismo de sua recém-nascida pareceu-lhe marcado por um feliz presságio. Josselino de Sancé de Monteloup. tamboretes. Fizeram-na sentar-se.Naquela região. de Verrieres levou Angélica para o salão onde os convidados acabavam de retornar à dança. acabava de chegar. que se atrasara no nevoeiro. mas iam poder restaurar suas forças com sorvetes e docinhos. um forte. após a festa. mas nem por isso seria menos piedosa. à menor fumaça suspeita que se erguesse acima dos trigais. graças ao nevoeiro. não me surpreenderei se você estiver já a par desses fatos. Sim. — Pois bem. com efeito. pela aparição inopinada de uma grande dama de figura legendária. As damas estavam sentadas e. de quem os montrealenses se declararam um pouco sentidos por não haverem ainda recebido a visita. Assim. mesas de centro. deixava prever uma construção de madeira. não é possível que a semelhança seja apenas fortuita. — Minha cara. caíam na gargalhada e trocavam sorrisos cúmplices. você me dá também a confirmação de uma notícia sobre a qual não estava ainda certa. mas também das bebidas alcoólicas. pois. aguardentes e licores. Vieram anunciar que o cura que devia proceder ao batizado. Aproveitando-se da chegada do prato de doces e conservas e de uma das novas bebidas. um vivo movimento de curiosidade e de entusiasmo apoderou-se da assembleia. No Canadá. de Verrieres saiu para buscar-lhe uma limonada. receberam a mais cordial acolhida e. de paróquias em senhorios e concessões uns isolados dos outros. que você era a irmã do Sr. a paliçada. ladeada por torrinhas de quatro ângulos. de Verrieres não escondeu sua alegria. com lágrimas nos olhos. Como anunciara o piloto. Com efeito. Como fazia calor e a tarde estava apenas começando. era preciso estar constantemente alerta. todas as bocas estavam abertas num sorriso alegre e. móveis de boa qualidade. A Sra. E é o que nos causa nossa emoção. A Sra. Agora que a vi. de tempos em tempos. nos flancos da casa. que deviam ter vindo de Paris. Todos os olhos estavam fixos em Angélica. e até brigavam. Apesar da neblina. a seus pés. Era uma vasta sala mobiliada com sofás. que partiu para o Novo Mundo com a idade de dezesseis anos e do qual nunca mais tivemos notícias. perdoe nossa surpresa e nossa diversão que podem lhe parecer desprovidos de cortesia. seus cavaleiros servidores. Agora. do Lobo. era o momento das bebidas refrescantes. Verrieres seria o primeiro a ser honrado. por causa da semelhança que existe entre você e uma das suas filhas. como em Wapassu. temos certeza. o aparecimento de visitantes estran-' geiros vindos do rio aumentou a alegria geral. ela era quase um castelo de dois andares. duas pessoas inclinavam-se uma para a outra cochichando com expressões e meneios de cabeça. mas revelar-lhes o conteúdo ou confirmá-lo. de Verrieres abraçou-a efusivamente. destinados à digestão da pesada refeição do meio-dia. ao menos ligadas por afinidades próximas. Uma de minhas irmãs é esposa dele! Houve uma movimentação do lado de fora. Parecia que estavam numa das salas do Castelo São Luiz. ao mesmo tempo estupefatos e aprovadores. diziam repetidamente. Angélica. Mulheres na cozinha de verão. sua filha. 82 . quando se soube quem ela era.

os quais continuavam inapreciáveis como garantia para qualquer comércio sério.. CAPITULO XVIII Acolhida em Montreal — Visita a Madre Margarida Bourgeoys Ali estava. em seus feudos paliçados. Eram mais agradáveis. e Angélica teve de dar algumas informações sobre os seus. — Até breve.confortável nas proximidades de suas próprias moradias. Depois recordou-se também do que soubera sobre a família de seu irmão. irmãs. Honorina. o Barão de Longueil e seu cunhado. nobre. e ele supunha que esse senhores que sustentavam com seus fundos as principais expedições dos exploradores de bosques em busca de peles não estavam descontentes por se beneficiar. e ao qual ela se misturara com o máximo prazer. desmoronou. Lamentou-se a ausência do Sr. Angélica estava também um pouco aturdida. de seus telhados e de seus campanários. e as damas. assim como suas filhas. portanto. sem prestar-lhes muita atenção.O Sr.. Tiveram de levá-la da soleira da casa até sua cama. vencida pelo sono. Ela foi. Se não enxergavam melhor do que à chegada. o esperavam. de Peyrac era de bom augúrio. parentes. tudo servia para queimar no alambique. era porque a obscuridade começava a cair. mas. militar. que ficara à vontade para estancar sua. que lhes poupava uma campanha de verão contra os intratáveis inimigos. da terra e da floresta.sede e seu apetite esvaziando o fundo dos copos. Joana. um mosquete no outro.. a tratar com a metrópole francesa ou com as potências comerciantes estrangeiras. cálice e escudelas abandonados na mesa. mandaram acrescentar à longa lista de nomes de santos protetores da recém-nascida. confins das águas. viajante. por intermédio de viajantes como Nicolau Perrot. Embriagados por conversas e bebidas. de uma pequena reserva de prata pura. Luísa. o Sr. escondido no último ramo de uma árvore quando o funcionário real fazia sua inspeção. pois. sobre ele. puseram à disposição de Angélica e de sua filha um pequeno solar muito. tendo por trás a frisa estendida. Maria Madalena. No porto. raramente usadas. preferiam essa solução. como aqueles pioneiros ingleses. era com dificuldade que se desligavam uns dos outros. essa sobrinha que se parecia com ela. com amizade e atenção. graças ao Mestre de Wapassu. azulada. mas que. o monte Royal. acolhida. começava a sentir-se íntima do habitante do Alto Saint-Laurent. Após pedír-lhe permissão. Aquelas mulheres e homens. Havia muito tempo. mas. foi preciso voltar aos navios. o Sr. Graças a essa vaga vertigem. trigo de frumento ou da índia. de Verrieres continuavam a ver nesses contratempos o sinal de que a presença da Sra. Ville-Marie. Le Moyne. às "boas bebidas" canadenses. sobretudo sobre a brilhante e temida Mariângela. de foice ao ombro. pois fizera as honras. no Poitou. antes de dormir. seus sobrinhos e sobrinhas. bem-vinda nessa colónia onde os bônus-papéis substituíam com desvantagem o dinheiro vivo. a audaciosa. Reconhecidos e solícitos. 83 . montrealense de gorro azul. e sobretudo suas esposas. vigiando no Saguenay a progressão dos iroqueses na região dos mistassins. Helena^ o da célebre e bela visitante: Angélica. seiva de ácer. seu pequeno vulcão extinto de nariz achatado. e a Sra.muito tempo com Angélica sobre a família de seu irmão. irmãos. cujo ponto de partida se situava nas cataratas de La Chine. indiferentes à preocupação de sujar suas belas roupas de festa. centeio. ninguém dissera uma palavra. assim como Honorina. de Peyrac. Frutas dos pomares e das florestas. sabendo os serviços que este prestava ao governador e a todos. mais aturdidos. e. A Sra. os Sancé. cevada. eram consideradas mestres no fabrico do "vinho caseiro". parentes entre si e de uma das mais ricas e ativas famílias do lugar. que diziam ser seu irmão. a santa. em suma. de Verrieres falara durante. duros como a rocha e totalmente indisciplinados. esses grandes nomes de Montreal estavam em negociações com o Conde de Peyrac. refletiu que não lhe faltaram descrições de sua cunhada. Le Ber. uma espécie de habitante das fronteiras à francesa. seguindo nisso o exemplo de um bando de crianças ruidosas e ávidas. lembravam-lhe as pessoas de Brunswick Falis. Tendo o nevoeiro se dissipado. talvez de ouro. e a Sra. Negócios que passavam pelos caminhos do interior. do Lobo..

as salas de estudos. como uma casa de família. no primeiro dia. foi até elas. dançando e batendo as mãos e saltando de um pé para o outro: — "Nos primeiros dias de maio. No fim de uma aléia. considerada correta para esse tipo de transação. o celeiro onde se guardavam as charretes. Ao ver suas visitantes. avistava-se uma longa casa de pedra. Era um grande dia. a Srta. branco. carne. Bourgeoys pôde dedicar-se a elas. Madre Bourgeoys não largou a mão de Honorina. As salas eram amplas. com três janelas de cada lado da porta central. Tratariam dela com todo o carinho. viram os dormitórios. A dignidade e os conhecimentos do mordomo impressionaram-nas. guarnecidas de uma enxerga de palha e cobertas xadrez azuis e cinza. pesado em lotes. O que darei a minha mãe? Nos primeiros dias de maio. aves. colocamos cortinas de sarja verde. um de seus primeiros benfeitores. à direita. provida de duas salinhas secundárias. voa. se fosse preciso. crianças cantavam. Uma perdiz que voa nas florestas. havia o parlatório. Assim que pôde. mais do que a Angélica. Ali. Depois de terem examinado e enumerado as peles. por um entreposto que completava o conjunto da área comum. aquele em que se acolhia uma nova interna e principalmente vinda de tão longe. — No inverno. propôs a Honorina irem ver uma ovelha no prado e seus dois cordeirinhos. Encontraram Madre Margarida Bourgeoys. Depois. Angélica notou que. e seguiam-se alinhadas. que as crianças colhiam nos prados. quando o telheiro e o carpinteiro se retiraram com seus bens colocados em um carrinho de mão e seu fuzil-padrão de medida à bandoleira. tanto no verão como no inverno. legumes. Adivinhando que estavam com sede. e seu teto coberto de ardósias e perfurado por sete lucarnas. escoltada por Kuassi-Ba e o Sr. a despensa para as frutas. prataria e cristais recobertos por uma toalha branca. separadas no centro por um corredor que atravessava a casa de um lado a outro e se abria.. na direção oeste da cidade. Que adorável educadora! No andar superior. 84 . No outro. um preto e o outro. a fim de que nossas crianças fiquem bem protegidas durante a noite do frio intenso e das correntes de ar. começou por oferecer-lhes um grande copo de água fresca tirada do poço. as honras dos lugares. frutos e de patês e tortas de carne ou de caça. Ao lado das grandes construções conventuais e habitações senhoriais da capital. entre duas campinas plantadas com árvores frutíferas. uma grande cozinha. Angélica. de dois valetes que lhe pudessem indicar o melhor lugar para abastecer-se de víveres frescos. Tissot com seu cesto de louça. camareiras. outros jardins e grandes colinas que desciam até o rio. Num lado desse corredor. a capela onde a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e o belo crucifixo oferecido pelo Sr. de Fan-camp. de Barssempuy. beijou-as. vendo chegar o Sr. No centro do pátio. fechada apenas por barreiras de madeira. um cozinheiro e seus ajudantes." Havia um poço no canto do pomar que se prolongava à esquerda por um prado plantado com macieiras e. Ele pediu apenas a ajuda.foram ajudar na instalação das visitantes e de seus homens. medido a altura dos pacotes através de meio comprimento de um cano de fuzil. Uma carrugaem leve conduziu-os até a entrada da concessão. sobre outro pátio. durante toda a sua visita. se achasse esses últimos de boa qualidade. pois essa era a doença da região. a reserva dos rábanos. esse copo de água era o prjmeiro gesto de hospitalidade. nos fundos. foi conduzida para a casa que. Camas de madeira simples. Garantiram a Angélica que durante toda a sua permanência ela poderia considerar-se em casa. fazendo-lhe. voa. Mas as damas de Montreal compreenderam que a última proposta era inútil. ela era modesta mas acolhedora. Voltaram em seguida para a bela casa baixa. o refeitório. estavam adornadas com buques de flores frescas. que estava pagando os serviços feitos no conserto do telhado depois do inverno com pacotes de peles de castor. abrigava as irmãs da Congregação de Nossa Senhora e suas jovens alunas e internas.. com grandes lareiras. informou-se sobre sua saúde e pediu-lhes que aguardassem um pouquinho enquanto terminava de acertar suas contas. disse ela. pedir tudo de que precisasse: domésticos. O que darei a minha mãe? Uma perdiz que voa. que eram cercadas por uma grade de madeira.

de Peyrac que mantivesse Honorina junto dela até que pudesse ir à casa de seu irmão. E. A congregação só aceitava como internos as meninas. chamadas "maçãs podres" ou "olha-podrida". em cada prato. Sendo o clima mais ameno do que em Quebec. poderia sentir-se próxima da criança. que eram o regalo da bela estação e que preparavam como conserva em pequenos cubos que ofereciam aos doentes e às crianças no inverno. na ponta Saint-Charles.' França. deixaria na Congregação de Nossa Senhora a menina. vira chegarem ao estábulo. Inaugurara também uma sala de lavor. com ar jovial. para não se diferenciarem daqueles que as cercavam e que tinham vindo servir. . No refeitório. mas também sérias e múltiplas competências: administrar uma casa. E eis que vinham procurá-ias para abrir escolas em Champlain. preocupavam-se principalmente em evitar as picadas dos pernilongos e dos mosquitos. e sem contrariar-se com a declaração de Honorina. — Não sei fazer nada — respondeu Honorina com ar compungido. a fim de poder instruir gratuitamente. Troyes. pois era inovadora em todos os sentidos. quase sempre totalmente ignorantes dos mínimos rudimentos de cozinha ou de costura. continuavam a ser recebidos para o primeiros anos. Angélica percebera a inteligente atividade que essa modesta champanhense.. Suspendiam às guardas das camas bolas feitas com noz-moscada. A comunidade ganhava a vida com trabalhos externos e vivendo de sua fazendola e da criação. minha criança? Diga-me — pediu a religiosa. com afeição. e Margarida Bourgeoys aquiesceu de bom grado a responder-Jhe. — Sabe fazer essas "olhas-podridas"? — perguntou Madre Bourgeoys a Honorina. Em toda parte que podia. mas os meninos da cidade. — Pois bem! nós a ajudaremos a ser menos desajeitada e lhe ensinaremos muitas coisas — respondeu a diretora.. depois de oito anos durante os quais nenhuma criança conseguira atingir a idade de aprender a ler. pudessem aprender os rudimentos dessa bela e honrosa tarefa que requer boa vontade e amor. Fundara a primeira ordem religiosa para mulheres não enclausuradas e conseguira autorização para que a roupa usada por ela e suas companheiras fosse apenas a roupa comum de uma dona de casa de condição modesta. disse ela. Margarida Bourgeoys supunha que a Sra. a fim de que as jovens imigrantes que chegassem. na Sagrada Família e na ilha de Orléans. para atingir a maioria das crianças canadenses.No verão. não sabendo fazer uma sopa ou remendar uma peça — a ponto de às vezes perguntar-se. que então começaria sua vida de interna. Assim. a primeira menina e o primeiro menino de quatro anos e meio. em La Chine. numa areia cinza. em Quebec. Em toda parte da casa reinava um delicioso aroma de melões e de frutas. de Peyrac ficaria ainda alguns dias na ilha de Montreal. a Srta: Bourgeoys fez a Angélica uma proposta que levava em consideração a dificuldade que iriam ter mãe e filha de se separar e que serviria para desatar sem brutalidade laços bem naturais entre corações sensíveis. dispondo de um contingente bastante pequeno de religiosas. a fim de apresentar a criança a seus parentes. que deixara tão ousadamente sua cidade natal. — Que sabe fazer. Angélica não podia deixar de fazer perguntas sobre os primeiros tempos da pioneira de Montreal. Na volta. "Benfeitora" —. cravos-da-índia e toda uma série de ingredientes de cheiro forte. perto do rio. ela abria pequenas escolas para os habitantes distantes da ilha. Interrogando-a. as irmãs deviam contentar-se com pouca coisa para si mesmas. — Sou muito desajeitada. Fazia questão também que a escola fosse gratuita. obter as notícias que lhe dariam e. tinham a propriedade de afastar os insetos. de quatro a sete anos. colhiam-se ali muitas ameixas e maçãs que já vergavam seus galhos no pomar e. como em outros tempos. uma irmã e uma noviça tinham preparado uma merenda e. melões cortados em fatias aromatizavam o ambiente. Essas bolas. pois gostava de lembrar-se do dia em que. no fundo dele. na Cidade Baixa. desde os primeiros tempos da colónia. colocado à sua disposição para servi-lhes de escola. brotavam pequenos melões. Aconselhava à Sra. Honorina sacudiu a cabeça negativamente. No final dessa primeira visita. como todos os habitantes da Nova França. quando 85 . desenvolvia não sem despertar controvérsia. "Sem véu nem escapulário". Enquanto degustavam a polpa delicada com colheres de prata dourada — doação de uma. como tinham até então se alimentado na França —.

mas não parecia ter pressa em constituir um lar. A adolescente deu uma gargalhada. que ficara na Congregação de Nossa Senhora até-os doze anos. o Caminho do Rei. — Você é Mariângela do Lobo? — perguntou.. tomem uma refeição leve e vão para a cama cedo. Asseguraram-lhe secretamente. quase todo mando. hesitava em erguer a aldrava de bronze. ainda que fosse um pouco apenas. há apenas quinze anos. grandes campos onde pastavam ao fundo vacas. ' Ademais. pois. Aquela que se transforma em corça nas noites de sábado? A fada que zela pelas colheitas. O ferimento era de pouca gravidade. e o rosto de Angélica iluminou-se e em seguida entristeceu-se. será colocada à sua disposição uma carruagem — quem teria acreditado. "Se for esta a sobrinha Mariângela. era uma mulher da elite. do que a casa de tipo normando do lado de Quebec. ao cair. A porta se abriu pouco depois. ouvira dizer que o Cavaleiro de Loménie-Chambord se encontrava presente. Impulsiva. iria romper um silêncio de quase trinta anos. encontraria um homem com seus quarenta anos que fora aquele menino de sapatos grossos. Angélica. minhas queridas crianças. a fim de apresentá-la. atrás daquela porta. uma bela habitação que evocava mais os solares do oeste da França. A religiosa coordenou o providencial reencontro de Angélica com seu irmão. convidando as pessoas mais importantes e mais destacadas da cidade. a casa a que chamavam "a castelania". O som da aldrava ressoou durante muito tempo. CAPITULO XIX Josselino.. Para distraí-la desse pensamento. com Honorina a seu lado. constrói castelos e protege as crianças das doenças. sou eu. mas é preciso fazer baldeação em La Chine. quase quinze léguas de comprimento. Josselino de Sancé de Monteloup. ela não se parece tanto assim comigo". Brígida Luce de Pierrefond. à separação. a Vendée. que se verificou ser positivamente o Sr. — Eis o que lhes sugiro. de Peyrac. desconfiava que. Tomem. Mariângela. 86 . — Nosso pai disse que você viria. tinha atualmente quase dezesseis anos. do alto desses degraus que precediam a grande porta de carvalho com motivos em pontas de diamantes. É isso? Angélica aprovou com um meneio de cabeça. Uma das filhas mais velhas casara-se recentemente. Viram brilhar uma cabeleira loura. um olho claro as examinava. — E você é a fada Melusina. de Frontenac e o exército a caminho dos Grandes Lagos. o que o obrigara a abandonar o Sr. o brilho de um lago ou de um braço de rio. Podia também reconhecer. Voltem à casa para onde desceram. e o novo governador da cidade tinha a intenção de dar uma recepção em sua homenagem. Quando nos habituamos à navegação. e o domínio do seu irmão fica na extremidade oeste. isto é. — Sim. Mariângela deslizou o braço sob o de Angélica. Amanhã bem cedo. Chega-se mais depressa de canoa. que ela já a conhecia de longa data. seu irmão mais velho. que. do Lobo. sua cunhada. até o último momento. a primeira noite em terra é sempre difícil. a paisagem do domínio. e penso que gostarão de seguir meu pequeno percurso.. pois Madre Bourgeoys julgava que sua volta se devia a um ferimento que réceberanuma escaramuça estúpida com os utauais. o que surpreendia. o irmão mais velho Depois de galgar cinco degraus de um patamar de pedra. Madre Bourgeoys esperava que estivesse completamente tranquila acerca do destino de sua filha e já acostumada.chegasse o dia de embarcar e afastar-se. Ela lhe garantiu que a mulher do Sr. num país onde se contraíam núpcias desde a idade de catorze anos e considerando-se sua evidente beleza. Madre Bourgeoys insistia em que uma multidão de pessoas desejava encontrar a Sra. Mas. o Poitou. Estava sendo cuidado na Santa Casa de Joana Mance. a Bretanha. pensou Angélica. do Lobo. que um dia veriam carruagens em Ville-Marie? Mas nossa ilha é grande. Nào se sentiria surpresa de ver surgir toda aquela família que lhe haviam descrito tão profusa e completamente.

Angélica logo compreendeu. Não era bom em nada. Com saltos de libélula. acostumada a partilhar com o homem os perigos e a vitória. E tinha esquecido que sabia escrever. Não se parecia com seu pai. afastou seu livro. E igualmente natural foi o sentimento de exigir que aquele estranho respondesse a suas perguntas. no qual uma galeria de balaústres de ferro forjado contornava a habitação. Devia ser muito rico. apoiados a um vaso de flores. Ao sair de uma taverna. robusto. pois agora a evocação de Melusina afastava as últimas dúvidas. de seu lado. que pode fazê-ío". que permanecia plantada no meio do salão. pois insistira em que Angélica e Honorina ficassem pelo menos aquela noite. da melhor geração. Muito menos que Dionísio. qual de nossos pais tinha os olhos claros? — Nossa mãe — respondeu. eram os dos rapazes De Sancé? Cantor. era uma dessas belas. Josselino franziu o sobrolho. Eles se olharam. hesitaram. Mas que não servia para nada. Josselino. — Diga-me. — Gontran os pintou. Para manter-se na Virgínia ou em Maryland. foi a uma escrivaninha e pegou duas plaquetas de madeira. com seu grande chapéu de feltro um pouco amassado. Senti-rne entre estranhos e. — Você podia pelo menos ter-nos escrito! — disse-lhe Angélica. cabelos castanhos meio compridos. já que você não é sequer hugue-note. você. — Diga-me. Poderia tê-lo cruzado na rua ou no cais de um porto sem ter sequer suspeitado que fosse seu irmão. O Barão Armando. — Não tinha vontade de confessar meus fracassos. e Josselino designou-lhe uma poltrona. Ora. era preciso não ser francês e. que colocou sob os olhos de Angélica. Todavia. um francês me disse: "Mas. quase que sabia falar. ao ficarem novamente face a face no grande salão. — Adelina! Isso mesmo! A menina tem razão. Angélica confessou que não se lembrava do primeiro nome de sua mãe. E provavelmente não tinha escolha. vá viver na Nova França. entre inimigos. A mulher de Josselino parecia-se com sua irmã. era preciso realmente ser protestante. pois meu sotaque era motivo de riso. pouco a pouco. Como ela. O tratamento direto viera-lhe espontaneamente. enquanto visitavam o domínio. que tinham dificuldade para sorrir. pois seu marido parecia pouco interessado nas questões de gestão e de comércio. Era uma mulher inteligente. Aprendi o inglês. Essas pequenas pinturas eram de uma semelhança espantosa. provavelmente para ir avisar os outros membros da família. de Verriere. decidiram ao mesmo tempo abraçar-se. a jovem saíra. hesitando. sentou-se novamente. Olhos castanhos. Reconhecia-o. — Escrever? A quem? — perguntou Josselino. Levantou-se. — Adel ina — anunciou a pequena voz de Honorina. Levantou-se ao vê-la. Brígida Luce pousava nele um olhar de adoração e parecia considerá-lo uma dessas crianças que. entre os quatro e vinte anos. a Sra. Uma larga escada de pedra levava ao andar superior. A mãe de família afastara-se pára preparar o quarto e dar um giro pelas cozinhas. desajeitado e ao mesmo tempo ousado. pareciam ter herdado mais de seu temperamento agradável e petulante do que do de seu pai. quando foi visitar-nos em Quebec. avistou um homem. como em outros tempos. que ela controlava tudo. Um ar cheio de si. Trouxe-os comigo.Atravessaram um vestíbulo cujas paredes estavam revestidas de quadros e de troféus de alces e de veados. meio a custo. Estava apenas com os protestantes. mas sem corpulência. que lia sentado em uma poltrona de estilo antigo. Angélica sentiu-se feliz em pensar que seu irmão. Josselino. Era grande.. tinha a mesma expressão. No salão em que entraram. — Ouvi o Sr. um rapaz que queria ver o país. Ouviam-se passos e exclamações no vestíbulo. Molines dizê-lo. Colocou-os numa mesa baixa diante dele. o antigo 87 . recriara em torno dele uma casa de bom tom. eu não era nada.. a baronesa e sua capelina de palha. Meus estudos? Tornar-me escrivão público? notário? escrevente? quem procuraria um notário francês? Eu era um estrangeiro em toda parte. Decidi subir até Albany-Orange. às vezes. em todos os Estados ingleses em geral. Eram os retratos do Barão e da Baronesa de Sancé. aqueles lábios. sólidas e espirituais filhas do Canadá. mas irritava-me. sob seus ares divertidos. cruzou as longas pernas. pois era o irmão mais velho.

quando não de facões. Invernara no Forte Sainte-Anne. desprezavam-nos. O que posso fazer. assombrava seus anos de juventude e o colocava diante de uma barreira intransponível. no Poitou. para nos manter. pagou por isso também. depois porque a lembrança do irmão de seu pai que se convertera à Religião Reformada. um francês huguenote do norte.. Foi a última vez que abriu a boca por muito tempo. anunciara-se sob outro nome. Encontrava novamente naquele momento aquele rapaz que lhe dissera: Tome cuidado. o valão que informaria Molines e que se lembraria do nome falso dado por ele ao comandante do posto. — As mulheres de Sancé tinham talvez um temperamento mais forte do que nós porque tinham mais possibilidades. se não mais. e não existia de fato nem para uns nem para outros. Era um bom cavaleiro. Angélica disse a si mesma que Joffrey. Elas procuravam advertir-me de que não aceitasse o destino que me esperava: ser vendida a algum velho rico ou a algum fidalgote grosseiro e obtuso das redondezas. pouco a pouco.forte holandês. portanto. como bom gentil-homem. e pelo fato de nosso pai ocupar-se. quando se ralava em conversão. Nem mesmo um bom aventureiro eu era. apenas o suficiente para não ser notado como "súdito de Roma". seja como for. nem seja o que for. Nunca teria podido. partiu novamente. de machados ou de cacetes? Assim. nem aldeões. ajudando a transportar madeira. e pagou caro". chegara às margens do lago de Saint-Sacrement. O mesmo que ela podia seguir em seu périplo solitário. nem nobres. conseguira passar insensivelmente de seus companheiros ingleses reformados a seus compatriotas franceses católicos. mudando de nome. e atingiu Montreal.. pelas mesmas razões. — É verdade. conveio consigo mesma. nessas fidalguias perdidas: enterrar-se ou vender-se. já lhe disse. O manejo da espada? Que fazer com ela nesse país onde se falava por meio de mosquetes. e sim pobres considerados ricos. — Pela mesma razão. — Nosso pobre avô com suas lamentações! Daquilo que aprendera nos colégios da França. — Naquele momento — disse Josselino —. onde os exploradores de bosques ingleses e franceses eram às vezes encontrados. deixando em cada etapa um pouco de sua indumentária de pequeno nobre papista. mergulhando a pena em seu tinteiro de chifre. da criação de mulos e de jumentos. Em minha juventude. onde a fronteira entre a Nova Inglaterra e a Nova França era mais que indistinta. é verdade! — disse Angélica. Os selvagens riam-se de mim.. Ah!. contar fardos de pele. a sua. conservar as armas. contestada. Lembro-me de suas últimas palavras. Porque não éramos nada. Jos do Lobo.. Foi-ali que encontrou Bii la Luce e a desposou. teríamos de ter mantido nossa posição. Na primavera. Josselino. tive a oportunidade de caçar lobo e javali com nosso pai. mas nada de cavalos. a prática de sua religião. — Oh! sim. pois introduzir-se nos meandros de suas crenças luteranas ou calvinistas revoltava-o antecipadamente. Montreal está 88 . podia jogar tudo fora. eu achava isso pior ainda que a sorte que esperava as mulheres de minha família. vai-se recolher a pele junto aos índios caçadores. aquela criança que eu amava tanto! criança que eu amava!". No Forte Sainte-Anhe. soubera romper com soberba o círculo que paralisava a nobreza. com o que me ensinaram? Caçar? O quê? Aqui. debruçado sobre um pergaminho. através das colónias inglesas. desembocou no Saint-Laurent. do lago Saint-Sacrement ao lago Champlain. — Os rapazes De Sancé sempre foram muito suscetíveis. — Não.. abandonando também. mas não concedendo à dos reformados senão uma atenção prudente. estes não conheciam nem a escrita. Bebera uma última pinta de cerveja com seu amigo. Nessas paragens. sob Sorel. — E como você fez fortuna? — Não fiz absolutamente nada. "Mas. Nesse país de selvagens para onde havia ido.. não se caça. primeiro porque isso lhe parecia pelo menos tão tedioso quanto a religião que se lhe deparava. na Aquitânia. minhas irmãs. e a quem as imprecações e queixumes do avô de barba quadrada no Castelo de Monteloup não ces de evocar: "Ah!. nem um bom explorador de bosques. recusando-se a falar essas línguas estrangeiras e. que o colocava por vezes em perigo. e as plumas não tinham importância a não ser aquelas que os índios podiam espetar em seus birotes oleosos ou em sua cimeira de escalpo. pela qual nunca fora muito entusiasmado e devido à qual o colégio dos jesuítas lhe inspirara repugnância. eu me tornara completamente mudo. Nem fortuna. as raquetes para neve.

e sobre o qual ninguém sabia coisa alguma. quando o revisse. e congratulo-me por ter saído de lá.. onde nos tornamos o que somos.de. estupefata e arregalando os olhos. — Em todo caso. guarda para sempre em sua malhas'invisíveis os irmãos e as irmãs. — Dionísio? Não se lembrava do irmão. Era o último. para que isso haveria de me servir. — Eu me pergunto de que maneira acabaram se casando! Era evidente que havia entre eles uma história sem palavras. ignorando aqueles que ela mesma capturou. a fim de que o antigo intendente dos Plessis-Bellieres pudesse continuar. que surgira subitamente em Montreal. lançada no frio e na noite desde a expulsão do Éden.bem provida de carne. pois eram muito diferentes.. Nem sabia de onde ele vinha. — Confesso que me desagradou durante muito tempo — confessou Josselino — que minha mãe. pode nos custar a cabeleira! Puseram-se a rir. jamais sonhei em voltar para o velho castelo em ruínas. — E para onde sonhamos voltar. fosse também sua mãe. creio.! Concordaram em que o apego fraterno é como uma rede de passarinheiro.. como nos postos afastados.. talento no qual me exercitei com nosso vizinho Isaac de Ram-bourg. — Não é mais o mesmo homem! — exclamou. sob o mesmo teto. não contava nada — disse Angélica. Estávamos. Achava impudente a pretensão da parte de todos esses abelhudos que ela também fosse mãe deles. E procurou em sua bolsa o envelope contendo os documentos que o "velho" Molines lhe enviara pedindo-lhe que os desse a seu irmão para que os assinasse. Josselino estendeu a mão para sua mulher. — A propósito — disse Angélica —. Brígida Luce sacudiu a cabeça com uma mímica que significava que. — Emana dele um tal encanto! — murmurou Brígida Luce. isso separa. pois nunca tinham brincado juntos. Sendo ele o mais velho e ainda vivo. Mas uma coisa aisda. 89 . — Não — disse Josselino —. contentes por descobrir que a vida os iniciara quase nas mesmas palhaçadas com as quais se divertiam.. Nem cavalos nem matilha.. Angélica viu sua cunhada parar na soleira da porta.. na vasta terra hostil. quando ele me anunciou que uma de suas irmãs viria visitar-nos. Concordaram em que o que mais ligava os membros de uma família talvez fosse a vida comum que os reunia nos primeiros anos de sua existência em torno da mesma. que nunca imaginaram ser tão sólido. apesar de sua indulgência. tem o direito de ser. tenho comigo papéis para que você assine. nas florestas do Novo Mundo.. Mas apurei o ouvido antes de me aproximar e nunca o tinha ouvido falar durante tanto tempo. a dirigir os negócios de sucessão ou outros dos "jovens" Sancé de Monteloup. a força do amor inexpresso. Angélica e seu irmão conheciam-se tão pouco! Os mais velhos iam para o colégio e os mais jovens só os viam nas férias. que retomara o domínio e ali vivia com sua numerosa família. Não era tampouco resultado de um temperamento semelhante.. Quanto a tocar o corno. Não se alimentam mais de caça. — Foi ela que me salvou — disse ele. Então?. que me idolatrava em meus primeiros anos. como fizera até então. Indagaram-se sobre a natureza desse elo misterioso. por uma maneira de ver as coisas devido a sua educação comum. de Nova York. Independe do fato de se ter saído do mesmo seio e da mesma semente. diga-me. mas é uma-surpresa. que. Brígida Luce estendeu a mão.. — Ele não falava. Encarregava-se de examinar as folhas e pediu a Angélica que se dignasse a explicar-íhe o conteúdo. ei-nos aqui maravilhados por descobri-los tão numerosos. Quanto a irmãos e irmãs. O apego fraterno é outra coisa. noivos. Não havia entre eles nenhuma lembrança de cumplicidade. era preciso que ele. nós-já nos conhecíamos havia várias semanas. desfalecente. eu ignorava tudo sobre seu passado.. pois. Brígida Luce foi sentar-se ao lado deles e confessou que nem se lembrava mais de quando ouvira pela primeira vez o som da voz de Jos do Lobo. transferisse seu título de herdeiro para seu irmão Dionísio. Angélica. havia mesmo assim coisas que ela não compreendia. ao contrário. por vezes. Quanto a rir.. tão taciturno. Seria por terem o mesmo nome? Talvez. — Até um dia desses. tendo renunciado a sua carreira. Por terem o mesmo sangue? Não. Não é isso o que nos une. o lugar onde nossa fraqueza de criança.oficial para repovoar a velha fortaleza de Monteloup. onde fazer estalar um galhinho sob o pé. Estava acostumada ao desinteresse total que seu marido manifestava por esse tipo de questão.

O tempo. pois a ama-de-leite Fantina nos avisara. e eles convieram em que nada era mais difícil de arrancar do espírito do que as reaçôes ou opiniões da infância. que Molines sempre fora velho e Hortênsia. felizes por se sentirem livres. Assim. em seu berço. o que soube eu dele.. nasceu de uma estrela. não pode comparar. Ela é diferente. por mais que vivamos. soubera persuadi-los a todos. apesar de todos esses anos.. — Creia-me — disse Brígida Luce. o que eu era a seus olhos? — perguntou Angélica —. quando de seu nascimento. Angélica ficou apenas uma noite com Honorina no Solar das Faias. Obrigada. num entendimento já fraterno. apertando os lábios em torno do longo cabo de seu cachimbo para reter um sorriso." E nunca conseguimos nos desvencilhar disso. Mas. Gontran era um intratável esquisito que abandonavam a seus pedaços de carvão de lenha ou suas cochinilhas moídas. aquela que o destino fez de você. Não se ousava falar a respeito disso. — Ela é abadessa. — A ama-de-leite tinha razão. uma pequena manhosa sorrateira. que fazia chorar tia Pulquéria por minha indisciplina e minha fantasias? — Você. — Eu lhe escreverei — prometeu Brígida Luce. os filhos de Sancé de Monteloup. entretanto. mas no momento e em relação a seu único mundo. Hesitava-se em decidir se você era a mais desavergonhada ou a mais encantadora.. até Raimundo. não apenas para contar histórias uma a outra. CAPITULO XX A despedida de Honorina 90 . com os olhos brilhantes —. Maria Inês. e que. E quanto mais olho para você. ele a revê tal como desejaria que ela fosse? Note que eu nunca o acharia capaz de tanta finura. — Compreendo-a — disse um pouco mais tarde Angélica a sua cunhada. — Não! Maria Inês era da mesma espécie ousada e dissimulada daquele micróbio do Alberto. Tinham ainda muitas coisas a dizer. esta que aí está é uma fada. meu irmão de quinze anos? Elas riram mais uma vez. você era Angélica. Raimundo. mas todo tipo de troca de ideias. Pressentiam que se criariam entre elas laços que seriam menos devidos à obrigação familiar do que a um parentesco de alma. Em todo caso. como se fossem velhas conhecidas. de quinze anos. passava depressa demais. a uma irmã encontrada após trinta anos. encantados por estar de acordo. Sempre o achara tão resmungão! Mas a opinião de uma jovem sobre seu irmão mais velho. os três mais velhos. Hortênsia e eu. mas a criança não sabe nada. Reiteraram a certeza de um próximo reencontro. eu. um pedante.. — Ele é prior! A esse altura todos riram com vontade. reconheceram. eles. a quem devo esse milagre. uma criatura prodigiosa. a nós. Uma verdadeira erva daninha. mas cujo estranho olhar azul não esquecera. que ele guardou dela uma lembrança lisonjeira. quanto mais observo aquela em que você se tranformou.. cuidado. uma megera. mas inquietante. Sacudiu a cabeça. Lembro-me de seu ar solene. que parecia um verme branco e tinha sempre ranho no nariz. Raimundo. — E eu. por mais que façamos. faltam-lhe elementos. a ama-de-leite Fantina. quase ameaçador: "Ela é diferente! E uma fada! Nasceu de uma estrela!. — Pode alguém exprimir de modo mais encantador. um garoto doentio. minhas irmã.. aguda. Despediram-se. é a primeira vez que o vejo rir assim. poderia apostar! Você está aqui diante de mim e eu penso: Atenção. da qual ele pouco se lembrava. daí essas lembranças vagas e sem matizes. Ela julga por uma intuição animal. não é o que existe de mais limitado e de mais arbitrário na questão de apreciação sobre o valor potencial e fundamentei do indivíduo que ele será um dia? Ela fez essa observação. Sua observação exterior é as vezes justa.Angélica nunca teria pensado em imaginá-lo sob esse ângulo. com efeito. mas também o bastião do castelo e sem qual nada de sua vida teria subsistido entre aquelas velhas paredes. mais sinto despertarem minhas antigas certezas. essas imagens ou retratos fixos e cuja cor pouco variará.

pensar. Objetivava talvez poder decifrar rapidamente esse texto. — Apenas a canção da envenenadora. — Pois bem!. Se é evidente que Florimond se parece muito com seu pai. enquanto ela ainda conservava o privilégio de sua tenra idade: o de exprimir ingenuamente seu pensamento e sua visão. Quando a gente é criança. Honorina calou-se. dentre os quais à lenda do Rei Artur e a Paixão de Santa Perpétua. isto é. A pequena mala de Honorina tinha sido entregue. Mariângela é apenas minha sobrinha. — Certamente. não teria mais oportunidade de dialogar com Honorina. Era por isso que a entregava às mãos de educadores. — Sabe que houve um tempo em que você estava sozinha comigo? Eu só tinha a você. Não havia ameaças de tempestade. que o lia muito bem. não pensa nisso.— Dir-se-ia que essa Mariângela é sua filha — disse Honorina. e você sempre foi assim. assim como um grande saco no qual Honorina quisera levar diferentes objetos a que estava apegada. Sabia já que a guerra separa as pessoas. de Loménie. como teria desejado reter esse momento em que levava sua filha para uma nova vida e que era um momento que jamais voltaria. Teria aprendido o que é preciso fazer. novos. sobrinho de L'Aubignieres. Parece-se comigo pelo acaso de nosso parentesco. eu o procurei. durante muito tempo. Felizmente você estava ao meu lado. mesmo quando era bebé.. — Com quem me pareço? — insistia Honorina. A gente vai com o arco e as flechas ou o fuzil e depois. as forças estão renovadas. a criança receberia suas palavras com outro entendimento. Por muito tempo. e os pássaros cantavam desatinadamente no pomar. o que teria sido de mim? — Onde estava meu pai? — Muito longe. Voltando da casa de seu irmão bastante tarde. Cantor teria muito mais de seu tio Josselino.. com quem me pareço? — perguntou Honorina. A noite é um mau período para ultrapassar certas etapas. e Angélica gostaria de deter seus passos. a fim de surpreender o jovem Marcelino. diferente do daquele momento.Eu não a vejo mais — murmurou Honorina para si mesma. Se eu não tivesse sua companhia para me consolar. — Ela era bela? — perguntou Honorina.. uma bela presença. — E eu. Quando a revisse. De manhã. Angélica retinha seus passos. e sobretudo. não chegar nunca. 91 . reencontramo-nos e ele lhe disse: "Sou seu pai".. Um dia. — Você sabe cantar muito bem. — Eu me lembro. que ela mantinha a cabeça ereta. Angélica trapaceara um pouco com relação às convenções estabelecidas pela Srta... aparentemente satisfeita. — Por que no outro dia você declarou a Madre Bourgeoys que não sabia fazer nada? — perguntou Angélica. Tínhamos sido separados. Mas lembro-me de que diziam que tinha nobreza. isso não se discute.. em compensação. — Mas sou eu que sou sua filha. Algumas vezes. teria aprendido a se guiar pelos raciocínios comuns. — O que os separou? — A guerra! Percebia que Honorina iria refletir sobre isso. o arco e as flechas dadas pelo Sr. pois algumas vezes era tão engraçado o que ela exprimia! Quando a visse novamente e falasse com ela. não dizer.. não levou imediatamente Honorina para sua nova residência. não se volta. Parou e ajoelhou-se diante dela para ficar no nível de seu olhar. — Não sei. o caminho de volta nunca é fácil. — Como você vê. entre outros. e livros. um porte de rainha. — Mas você disse que minhas canções eram. com um ar descontente. Fazia um lindo dia. Creio que você tem alguma coisa de minha irmã Hortênsia. acontecem coisas boas. uma bonita maneira de andar. — . em latim. inquietantes\ — retorquiu Honorina. Bourgeoys. infantis.. minha queridinha. suas duas caixas de tesouros. dizer. — Era muito difícil reencontrá-lo e. e seria uma pena. com você. Subiam a aléia que conduzia à casa de Margarida Bourgeoys.

— Faça suas despedidas a sua mãe — disse-lhe a Srta. Estavam se instalando naquele momento. Os sulpicianos eram os senhores. Isso os persuadira de que. A criança não reclamava a presença da mãe e estavam totalmente satisfeitas com ela.. mas não obteve resposta e começou a compreender. vivendo na ponta do mosquete.. Angélica apertou a menina nos braços. sobretudo crianças. sem se preocupar com a opinião <k> -governador-geral. Na manhã da partida. Bastavam-se a si mesmos. No final das contas. mas Angélica não conseguiu localizar o menor fio que conduzisse àqueles que pudessem ser devolvidos a suas famílias na Nova Inglaterra. E. a de Nossa Senhora de Montreal primeiramente. — Pensaremos em você todos os dias. Seduzir os montrealenses exigia mais tempo e persistência do que dispunha. enquanto reiniciavam a caminhada para a casa. davam mostra de mais heroísmo. Angélica. Enviou-lhe uma mensagem. "Ele me evita!. e logo ela compreendeu que as contrariava com sua insistência. por que está triste? — perguntou. era comedida. E julga-me responsável por ela. Bourgeoys. seu melhor amigo. Estava totalmente convencida disso. As pessoas pareciam muito empenhadas em satisfazê-la. A ilha de Montreal sempre pertencera às sociedades independentes e de credo religioso. isto é. caridade cristã e virtude que os outros. de Quebec ou de TroisRivieres. Não desejava mais ficar em Ville-Marie. por causa dessa opinião' acerca de si mesmos. sua obstinação em querer lançar novamente nas trevas de sua incredulidade os convertidos seria julgada ímpia. depois a do Seminário de São Sulpício de Paris. mas como convidados. Bourgeoys enviou-lhe um recado aconselhando-a a fixar a data de sua partida de Montreal a fim de decidir sobre o dia em que iria abraçar uma última vez sua filha." E a causa dessa frieza: "Deve ter recebido a notícia da morte do Padre d'Orgeval. O Tenente Barssempuy declarou-se pronto para a aparelhagem.Honorina meneou a cabeça." Tivera desde o primeiro instante a intuição de que a morte do jesuíta lhe seria mais prejudicial do que sua sobrevivência. — Porque penso que.. A Srta. se tiver necessidade de mim. estarei tão longe. eu a chamarei — disse Honorina.. e lhe disseram que o oficial. dirigiu-se à casa das religiosas. mas trocavam olhares umas com as outras. os proprietários. estava alojado na casa dos senhores de São Sulpício. — Como no dia da tempestade. Honorina chegou correndo ao parlatório. tendo ganho almas para a verdadeira religião e gasto seus escudos para essa santa obra. Por muito tempo e ainda agora mantiveram-se nas primeiras linhas do terror iroquês. em todas as coisas. formada por devotos leigos. Os habitantes tinham o direito de nomear seu governador. Eram pessoas muito seguras de si mesmas. Eu a chamarei e você virá. CAPITULO XXI Uma dúvida aterradora Nos dois dias seguintes. — Então. quando a neve quase me afogou. procurou encontrar o Cavaleiro de LoménieChambord. Tinham sua própria consciência. o que explicava por que os jesuítas foram mantidos afastados.. um pouco mais livre. abnegação. que se restabelecera de seu ferimento. e a acolhida que reservavam aos estrangeiros na ilha. se alguma vez você estiver em perigo.. Muitos zelosos bati-zadores de hereges em Montreal haviam resgatado prisioneiros ingleses. — Se eu precisar de você. piedade. não apreciavam intromissão em seus negócios. — Eu a avisei de que ela podia transmitir a seu pai nossa opinião de que você é uma criança muito boa. viessem da França. Apresentou-se à Santa Casa de Joana Mance. 92 .

prometeu a si mesma Angélica. como se fosse surda e muda. Mantinha os olhos abaixados. e não evidenciou nenhum interesse em revê-la. mas seu orgulho está ferido. cantando entre suas companheiras. estavam desejosas de resgatá-la. a repetindo-Ihe que queriam resgatá-la e que sua filha Rose-Ann estava bem. vindas de Portland e Boston. ou por um grande chefe do interior que o transformaria num hábil guerreiro. O Le Rochelais lançou âncora. No limite da propriedade. Madre Bourgeoys apertou-lhe a mão por diversas vezes. Reencontrou-se no Le Rochelais. "Nos primeiros dias de maio. que está muito satisfeita. muito magra. e eu observo de longe que ela fala e chora com ele. Angélica deixou com o padre os endereços e nomes dos parentes de Mrs. ela adotara um atitude passiva. Chuviscava. adotado por uma viúva. ele não desdenharia o resgate. como prometera ao barão. na ilha sulpiciana de Montreal. pois essa mulher recusa obstinadamente o batismo e a boa palavra. do Lobo tinha se deslocado até lá. eclipsou-se guardando a visão da pequena Honorina na beleza de seus sete anos. apertou a mão inerte e magra da pobre puritana e partiu. Tinha. imitando Severina. alinhados na praia. Sua roupa era uma mistura de seus antigos trajes já esfarrapados e de uma capa e um colete de peles. sem querer voltar-se. um grupo de pessoas. 93 . — Não tema nada — disse. na entrada do rio Richelieu. temos um homem chamado Daugherty. eu me porei a caminho para revela. que a esperava. Angélica deu-se a conhecer. Vestia-se como as índias com uma daquelas cobertas conseguidas nos postos de trocas. Angélica tentou mais uma vez tirá-la de sua apatia. expansiva. E é bem desagradável. Angélica fez-se conduzir à praia. Le Moyne. que tendo recebido a graça. d'Arreboust. meu amorzinho". por sua provação. entretanto. Despediu-se. a reclusa. sem dizer nada. e o círculo de alguns amigos que se reuniram para acompanhá-la até o embarcadouro evitaram-lhe os pensamentos melancólicos. formado pelo jesuíta. Ela falou-lhe das pessoas de sua família que vira em Salem e que. dois selvagens e uma mulher. Era realmente Mrs. uma caridade de alguma pessoa das obras. — Duvido que seu amo aceite — disse o jesuíta —. e a luz estava cinzenta quando os navios chegaram ao local do encontro. asseguravam-na de presenças caras a seu coração até naquele canto do mundo. de se aproximar da verdadeira luz da Fé. ela continue a opor a essa sinal da afeição de Deus por ela uma tal recusa. e Angélica. Não pudera falar com o Sr. mas totalmente amorfa e abatida. existe — reconheceu o diretor da missão —. dirigindo-se a ela em inglês. agitando sua echarpe para outras echarpes e lenços que. passíveis de assaltá-la. Por um índio do Sr. A inglesa não deu qualquer sinal de compreensão. Ele pede algumas vezes e obtém autorização para visitar a prisioneira. Angélica voltou-se para o jesuíta. Essa escolta alegre. — Tenho aqui um segredo de amor que me ajudará a viver e a sobreviver. Restava-lhe mais uma boa ação a cumprir. O próprio Sr. seus cabelos grisalhos trançados à maneira índia e presos numa faixa de lã colorida. brincando de roda. — Terá perdido o uso de sua língua natal? Não existe ninguém no campo dos abenakis entre outros cativos ingleses com os quais pudesse conversar? — Sim. concluiu. sapatos franceses nos pés. de cinco anos.Honorina preparara-se para aquele momento. Daugherty devia ser o "engajado" dos fazendeiros ingleses que tinha sido resgatado e adotado por uma família piedosa de Ville-Marie. estava de pé junto à água. O que darei a minha mãe?" "Nos primeiros dias de maio. William. Voltou para o espaço ensolarado. mandara avisar o Padre Abdiniel da data de sua volta. William. no meio do rio. Recuou um passo e colocou a mão sobre o coração. Desde que lhe haviam tirado seus filhos e principalmente o menor. de Loménie-Chambord nem visitar a Sra. Angélica teve a surpresa de encontrar toda a família de seu irmão. um bom trabalhador. caso ela viesse a se interessar por sua proposta e seu amo selvagem o consentisse. Perto do velho forte. retendo ao mesmo tempo o riso e as lágrimas.

mesmo no fim do inverno. Angélica sabia que não tinha nenhum motivo para se enervar. Angélica estabelecera as condições de entrega. com nuvens de vapor que se elevavam das ruelas. Não por causa da incúria dos serviços portuários. mas totalmente insensível e incapaz de compreender o que uma mulher que perdera seu marido e à qual privaram de seus filhos podia sofrer. sobretudo agora que as abas dos chapéus estão encolhendo e que a ruína nos ameaça. muito usual no temperamento francês. e Angélica começou a arquitetar o projeto de ir buscar os gémeos e voltar para passar o inverno em Quebec. Em sua passagem. — Não sonhe! — disse a Polaca. peremptoriamente. Tudo o que sabiam era que os navios do Sr. descalços na lama gelada no caminho de Charenton! A gente quase voava. — Tá-tá-tá — dizia a Polaca. tinha virtudes terapêuticas inigualáveis. poucas 94 . Era mais o desconforto. Angélica gostaria de explicar-lhe esse laço que se criara com sua filha.. Mas nenhuma notícia nesse sentido chegava à jusante do rio. solidamente sustentado por "boas bebidas" encerradas em sua adega. ribombando surdamente. o Sr. Tinham chegado antes das últimas datas previstas para a volta ao Maine. Depois de ter visto a pobre Mrs. Joffrey poderia ainda reunir-se a ela ali e avistar-se com Carlon. a ausência das pessoas responsáveis e o hábito.. descendo. azul com escudo de prata. — Somos todas iguais! Enrascadas numa armadilha nesse particular também. Em sua lembrança. Seria uma sensação de perigo? Não. D'Urville e Barssempuy pediram alguns dias para fazer a ins-peção dos navios. acreditou não ter motivos para condoer-se de sua própria sorte. flutuando sobre o navio. O comportamento do padre jesuíta. acentuado pelo calor forte. à força. pois.. ao que se soubesse. Não era o fato de ser obrigada a andar de lá para cá no porto que lhe dava a sensação de que as horas se arrastavam e que aumentava sua impaciência de sair de Quebec. reunir as tripulações e proceder ao carregamento das mercadorias. estão vivos. quem retomara. Por pouco.. o coração de uma mãe! Você se lembra. Pelo menos. Cantor dos ciganos. passavam uns aos outros a indicação: "Uma mulher de olhos verdes carregando um bebe de cabelos ruivos".. A tempestade acumulava-se. no decorrer daqueles anos.. a corrente. meus amigos. William. — Isso está longe! Eles estão grandes. Em Quebec. E a trança é complicada. quando é preciso. não mau. vindo do tempo em que os esbirros do reino. que se esmeravam em agradar-lhe. de Peyrac continuavam a montar guarda na entrada do Saguenay. já trivial. nem isso. nem sacos. As crianças são apenas mais um laço na trança de nossa vida. E cabe a cada uma de nós nos livrarmos dela. que eram tão abundantes que. quando fomos arrancar seu Cantor das mãos dos ciganos? Que corrida. Um laço de amor. que ele e Nicolau Perrot haviam-se metido no interior e que. de só fazer as coisas no último momento. lançados em sua perseguição. — E o que direi eu. a vida não oferece tempo para lamúrias. sabia em que mãos se encontrava sua filha e logo reencontraria seu esposo. E é meu filho único. livre. cujo filho corre os piores perigos entre esses selvagens que a qualquer momento podem escalpelá-lo ou assá-lo na grelha?! Principalmente porque ele é rechonchudo. deixando à contra-ordem apenas o tempo para chegar. Isso não quer dizer que não estejamos prontas a defender nossos filhos. nem tonéis tinham ainda sido levados para o porto. preferiam mascar couro a comê-las. mas. O coração de uma gata furiosa. Tissot.. sendo únicos nisso. eis o que é. de-seu feudo. deixara-a gelada. que lhe lembrava sua última escala com Honorina. e mergulhava a cidade numa baforada de ar quente de serra. explodindo amiúde em chuvas quase tropicais. nenhum iroquês surgira no horizonte. em tornar-lhe menos penosos esses" primeiros dias de separação de sua filha. O lirismo de Polaca. Não estavam atrasados. a Polaca a sacudiu.Era um alívio estar de novo a bordo do pequeno iate. não se esqueça! Mais do que os cintos dos índios. tínhamos asas. num momento desses. Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa: para mulheres como nós. com a debandada do verão. Esse contratempo não lhe pareceu de bom augúrio. Havia. sentir-se cercada por amigos sinceros e devotados como Barssempuy. Haviam comprado do intendente Carlon uma grande parte de seu trigo excedente e reservas de enguias defumadas do Saint-Laurent. Que mais você quer? É preciso olhar à nossa frente. Kuassi-Ba. fora ela quem fizera tudo. sob a proteção da bandeira independente. seja nada mais que um laço. A ausência de Honorina pareceu-lhe insuportável no início.

O prédio do prebostado. cujo cimo ultrapassava seu telhado pontudo e suas torrezinhas. voltando a Tadoussac. entregando-lhe uma missiva da parte do senhor tenente de polícia Garreau d'Entremont. de estar levando para la a luz. — Eu sabia que sua estada entre nós seria breve. senhora. de Campvert. Todavia. sem. Antes tivesse feito isso. Garreau atacava.. por isso. não hesitei. Ele fora fretado em grande parte às custas da coroa da França e sustentado. Sobretudo quando um sargento fardado de alabardeiro pediu-lhe. — Estou muito feliz em revê-la. e ele também deve ter sentido isso. a fim de que a viagem de volta pudesse prosseguir com a satisfação de ter resolvido os negócios importantes. no fundo de seu gabinete de trabalho revestido de couro escuro. lindamente ornada com um vestido branco leve e uma capa de seda com gola em leque. — Fez bem. Angélica não teria hesitado. por ora. no La Licome. que se dignasse segui-lo até a senescalia. nenhum balanço que permitisse estimar as perdas sofridas. ele disse de chofre que precisava terminar com a investigação sobre o La Licome. ele a esperaria lá embaixo. parecia mais que nunca um javali agachado na parte mais escura do mato. ele não mudara muito. depositando seus passageiros à mercê dos feudos ou das aldeias escalonadas ao longo do litoral. permaneceu de pé diante dele. em adquirir sua passagem numa das grandes barcas fluviais que o Sr. quando se viu cercada por quatro arqueiros do prebostado. No interior. Sempre tão empertigado. vestida de branco e ornada de jóias. por uma socieade beneficente intitulada Companhia de Nossa Senhora de Saint-Laurent. tinha um aspecto ainda mais sinistro. os cornanditários impacientavam-se. em toda aquela obscuridade. Como fora combinado.possibilidades de que. provavelmente embaraçado pela providência que lhe impunha. Sentia-se que estava decidido a resolver o problema. e muitos documentos espalhados diante dele. robusto. E. Angélica aquiesceu ao pedido que o bilhete confirmava em termos corteses. mas que não permitiriam adiamentos. a invasão do verde exuberante dava um ar de mistério às casas e às paredes de pedra cinzenta dos conventos. os mesmos olhos redondos. fazia menção a vinte e sete Moças do Rei que tinham embarcado. Na Cidade Alta. é claro. Ter-se-ia poupado um encontro bem desagradável. enquadrado e como que guardado por grandes árvores — olmos. sem informações válidas. sem expressão. Garreau d'Entremont. Teve a impressão. na última moda. o que a levou de volta a uma Quebec mais familiar. não se enxergava nada. como que preocupada possivelmente por aquilo que ele iria dizer-lhe. do qual surgiria a ameaça de uma dúvida aterradora. se não houvesse a sala dos fundos do albergue Ao Navio da França para esperar. saía da casa da Sra. ninguém pensava em acender velas. como estava previsto. Julgava lembrar-se de que haviam 95 . havia quase três anos. pois sua voz ríspida marcou uma alegria sincera ao saudá-la.. mas às vezes vivos. como estavam no verão e no meio do dia. CAPITULO XXII Novo interrogatório com o policial d'Entremont — O destino das Moças do Rei Angélica. querendo reaver o que tinham desembolsado. ao penetrar ali. Pelo que podia julgar. Mas. O relatório. Topin pilotava e que desciam diariamente o Saint-Laurent. nas despesas de estabelecimento. Sem notícias. ele pensasse em retomar a subida do rio. aceres e carvalhos —. que lhe fora enviado e que tinha diante dele. não tinha nada melhor a fazer do que deixar os oficiais e os mestres terminarem suas tarefas em Quebec. Ela não sentia necessidade de sentar-se e. a fim de deixar mais rapidamente a cidade. que a convidara para um jogo de cartas em torno de um bufe de carnes frias e de saladas. a embarcação que afundara completamente ao largo de Gouldsboro. onde este desejava falar urgentemente com ela. disse ele. E.

ou prepara-se para fazê-lo. — Onde estão as outras? — Algumas ficaram em nossos estabelecimentos da baía Francesa. por não poder obter as tais informações por parte daqueles que estavam envolvidos no caso do naufrágio do La Licorne. Agora esses barcos piratas. Fora bem inspirado. confessavam-se abertamente como membros da expedição organizada pela Duquesa de Maudribourg com o apoio de Colbert e de outras pessoas de bem desejosas de ganhar o céu. Angélica sentiu queimarem suas orelhas. pelo menos tão grande quanto a Europa e de milhares de quilómetros de litoral. repetiu. ato julgado de pirataria. Isso pareceria suspeito. que tinham todas sido salvas. a companhia é formal. Garreau indicou sua satisfação com meneios de cabeça. e cuja dispersão por um território. Posso lhe afirmar. idade. Não se trataria dessas duas embarcações. — Ora — prosseguiu —. como fora obrigado a fazer durante anos. com insistência.. Ele lembrou-lhe que a falta de informações sobre acontecimentos ocorridos nas costas da província da Acádia. o que já agravava seriamente seu orçamento. e entendera que devia agora enviar à França informações precisas em vez de "chover no molhado". mas três navios. gente de Gouldsboro. — Aqui está. ciosos de sua independência. e quero que confesse se perder-se dessa maneira e vir naufragar na baía Francesa quando se pretende atingir Quebec não poderia também parecer suspeito. apoiado por pessoas importantes. nem tenho nenhuma vontade de me entregar a esse trabalho de amanuense. E que estes teriam sido confiscados por vocês. enviada de Paris. com sobrenomes. Angélica insurgiu-se. conseguiriam deslindar esse imbróglio. Já não basta tê-las salvo. 96 . não tornava a tarefa fácil para ele. O Conde de Peyrac e eu mesma preferimos cem vezes assumir essa despesa a nos envolver mais com essa história. escoltado até aqui. pagando mal o dízimo. Há também em Quebec moças a quem a senhora dotou para que pudessem casar-se. que apenas o La Licorne naufragou em nossas costas.. referindo-se a eles. — Isso não tem importância. Os habitantes da província da Acádia tinham fama de negligentes no cumprimento de suas obrigações. cúmplices de Ambrosina.. Ville-d'Avray se adjudicou o direito como "presa de guerra"? Tenho as minutas da reunião em que seu destino foi estatuído. a Sociedade Nossa Senhora de Saint-Laurent pretende igualmente que não houve apenas um navio perdido nessa expedição.repetido. mas o número das que chegaram a Que-bec não passava de quinze ou dezesseis. na maioria dos casos? — Precisamente. Ele consultou suas anotações. se não um ano. de minha parte. quando pensara que. e usava-se à socapa. de Peyrac por uebec iria fazê-lo ganhar vários meses. Ela afirma ter fretado no início dois outros navios. unia das quais o Sr. O requisitório era urgente. — Ninguém o nega. — Três? Isso é novidade. cuidado delas. o homem que usava uma maça de chumbo. Estendeu-lhe bruscamente um maço de papéis.. as dificuldades que tinham para obter um relato coerente das testemunhas tinham várias vezes levado uns ou outros da administração colonial ou metropolitana a se perguntar se não estariam procurando ocultar-lhes sabe lá quais exações. Terá de pedir para reaver seus fundos. em relação a cada nome. a palavra "náufragos". — Impossível! — Como assim. por milagre. O acaso da passagem dos navios do Sr. aquele demónio branco. impossível? — Ninguém vai admitir que não procurem recobrar sua dívida quando a administração francesa lhes propõe isso. — Em que sentido? — Vão querer saber as razões que os levam a não querer prestar contas nem dar explicações mais detalhadas. o que aconteceu. considerada parte integrante da Nova França. por ela. nomes. e da Sra. e que Zalil levava. Tenha a bondade de escrever em cada um deles. manobras ou fraudes que teriam sido perpetradas nessas regiões distantes. — Entretanto. — Não sou escrivão do tribunal. a lista completa dessas vinte e sete jovens. traficando com os ingleses. declarou. lugar de origem etc.

. onde bruxuleava uma luz glauca através das árvores copadas do verão. apesar de sua conduta. verdadeiros "náufragos". Sei o que valem. Contra a senhora sobretudo — precisou. Garreau. que quer o senhor de mim? — Esclarecer muitos e muitos pontos que permanecem obscuros.geral dos jesuítas. quando ainda se encontrava em Gouldsboro. — Enviou de lá essas informações. o intendente. — O sagitariano tem tenacidade. com seus boatos que correm. fingindo desencorajamento. seu nome é pronunciado. Sua irmã de leite! "Éramos três crianças malditas". Sagitário — resmungou. ele já fora para os lados dos iroqueses. tendo escapado com vida. assassinada.. — Não compreendo. Garreau d'Entremont baixava os seus para a carta que tinha em mãos e permanecia pensativo. Está mais credenciado que eu a lhe responder. tão depressa e estando tão longe? Para lá dos Grandes Lagos! E impossível! Teria ele o dom da visão dupla? O chefe da polícia hesitou. — E levantamos os olhos para o céu quando o peso da lentidão humana. encaminhadas aos cuidados dos "dados". Indignada. encarregado por estes. — Então. o Sr. vendo-o franzir o sobrolho. Confesso que não compreendo como o senhor. o que a tornaria responsável por sua morte! — Eu riria. Ele pareceu fazer uma trégua e forçou um sorriso. quem. esteve Angélica a ponto de dizer. quando foi considerado um dos mais brilhantes intendentes da Nova França. vindos da baía Francesa e da costa leste. Sr. o Reverendo Padre Marquez. Escute meu conselho e interrogue-o.— As pretensões dessa sociedade piedosa me parecem bem estranhas. Assim. Senhor tenente de polícia. se não quiser cair em desgraça.. seguindo as diretivas ulteriores que ele lhes comunicaria. mais rapinantes de destroços do que os que o senhor acusa. que infestavam a baía Francesa. após fazer uma breve pausa. o grande jesuíta que morreu como mártir dos iroqueses. que.. ou missionários devotados à sua pessoa. contava Ambrosina. — Eu lhe reitero minha pergunta. — Foi o Reverendo Padre d'Orgeval — disse ele bruscamente —. 97 . Ela sacudiu a cabeça. devem ter chegado ao Reverendo Padre Duval de Paris. foi testemunha ds combates que tivemos de travar com eles para que não causassem mais prejuízos. que a sua influência e sua presença junto a ele.. Como podia ele saber disso. Voltou-se um pouco de lado.. pois esse também é meu signo. "ele. Za-lil e eu. dão-me a entender que a Duquesa de Maudribourg não se afogou no naufrágio. — Poderia dizer-me quem propagou essa infâmia? — São boatos que correm.. fez essa acusação contra a senhora. de elucidar a questão. que é coadjutor. "Eu sei". não pára de querer responsabilizar-me por todos os pecados de Israel. nesta correspondência. tão galante. e quando chegamos a Quebec. — Sempre pareceu conceder menos importância às anexações territoriais do Sr. — Isso não lança descrédito e suspeita sobre todos os propósitos que ele tinha durante os anos precedentes. naquela época. que lhe disputava seu domínio missionário da Acádia... de Peyrac. — O Centauro. O Sr. só mais tarde teria sido. sim. De todo lado que me vêm apelos e reclamações. De que signo é o senhor? Signo astrológico — especificou Angélica. Os dois navios? O senhor sabe muito bem que se tratava de foras-da-lei. — Duvido. agora compreendo por que continuo a ter estima pelo senhor. — Mas isso é uma loucura! Como poderia ele estar a par do naufrágio do La Licorne? Nós trazíamos a notícia. nos aflige. O Sr. esses. recomendava ele. Carlon.. Agarramo-nos com os quatro cascos ao chão. Carlon está atualmente numa posição delicada que não lhe permite ajudar muito.. designando-a com seu grande dedo gordo. a Duquesa de Maudribourg era meio aparentada com ele. e superior dos jesuítas da França. caro Sr. de má vontade. — Eu sei! Eu sei! Infelizmente. — Oh! O senhor.. e que. Minha opinião é que o senhor está diante de uns grandessíssimos trapaceiros. senhora." Angélica receava que seus sentimentos transparecessem em seu rosto. olhando para a janela. se o assunto não fosse tão lúgubre — disse Angélica. — Em que mais ele estava metido? — Pelo que pude compreender. d'Entremont. em intenção. nas montanhas do Dauphiné. ela protestou.

informação que vinha do feiticeiro da Cidade Baixa. Angélica representava não sabia que perigo. Mas ela continuava virada. O Padre d'Orgeval afirmava que era a senhora a responsável. de olhar brilhante e vingativo. que prega a razão. mas no ponto em que se cruzavam a linha do pescoço e o ângulo do rosto. palpitava. se se colocasse como postulado que uma pessoa que ele convocava à sua presença para saber a verdade e que lhe mentia era culpada. mesmo estando além dos Grandes Lagos. depois de apresentá-la de longe a Angélica. tinham o mesmo desejo de justiça. o seguinte: Sebastião d'Orgeval. suas últimas adjurações. horas antes de seu suplício. no fundo. — Não é a essas cartas. e de onde se destacava a ponta negra dos cílios que. e sua grande virtude parecia ter-lhe merecido dons geralmente pouco acessíveis à natureza humana: levitação. e de outro discípulo de Satã. O Mal não vinha nem de uns. e nunca pude infirmar como inexato um fato de que ele me houvesse avisado antes. cujas cópias me foram enviadas pelo Reverendo Padre Duval. era uma natureza de elite. de luz prateada. estava próxima. Ele constatava que ela mentia. para Garreau. denunciados atualmente como caducos e perigosamente sujeitos a erro! É verdade. Pois eles não eram inimigos. têmporas. é evidente. Ela continuou a olhar pela janela. ela o era. No fundo. não lhe queria mal. por esses lados. segundo as recomendações imperativas feitas à nova polícia. até a beira do suplício. bochechas. lembra-me agora que o senhor lançou contra mim a acusação de que matei o Conde de Varange. pelo menos a de Cristo. o Conde de Saint-Edme. que recorrerei diante de um tribunal secular. todavia. numa última correspondência que confiou ao Padre de Marville. Não acha algo de inexplicável nessa sanha de perseguir e caluniar uma pessoa que ele nunca viu? — Ou perfeitamente explicável! Caso o Reverendo Padre d'Or-geval soubesse. diante deles. ele! Ele percebeu sua emoção e sua cólera. Só podia ver-lhe o perfil que a claridade vinda da janela orlava de um traço um pouco vaporoso. nem de outros. tudo sobre seus atos e julgasse de seu dever revelá-los a mim e pedir justiça. a mensagem de Paz de Deus. não sem um certo sarcasmo. A voz de Angélica adquiriu uma conotação zombeteira: — Não me diga que o senhor. de fonte segura. Podia censurá-lo por ser um excelente policial? Uma vez mais. pratica os métodos de nossos pais. — Mas é nelas que baseia suas convicções? — Sim. Trago sua mensagem e nela a senhora está condenada". — Claro que não! Pegou uma caixinha da mesa e. pisava em falso. acrescentaria. Pensava no Padre de Marville. e que dissera: "Trago suas últimas vontades. O resto. E que mais poderia fazer senão mentirlhe? Sabia que ela mentia. senhor tenente de polícia? — ironizou ela. sendo acusada por seres dos quais. o grande brinco de diamante colocava como que uma estrela cintilante. de ver triunfar o Bem. no entanto. evanescente. — Até a beira da "morte — murmurou —. que tinham encontrado em Salem. o Velhaco Vermelho. 98 . cabelos. por instantes. estava na sombra. e talvez dom de ubiquidade. fechou-a numa pequena escrivaninha e retirou a chave. — Desaparecimento e morte pelos quais sou também responsável? — indagou. menos ainda sobre as quais basearei as peças de acusação de um processo. Ela lhes aparecia como culpada e. um discípulo de Satã. ele me acusou. cujo brilho puro fascinava. de fato. — Ele! Mais uma vez. Eles se pareciam. e que dizia não dar fé senão a provas materiais concretas. Ele sempre sabia tudo. que não lhe concedeu atenção. que eu julgava adepto da filosofia de Descartes. — Com efeito. — Que também desapareceu sem deixar vestígio — insinuou Garreau d'Entremont.— Ainda que não seja de uma tão grande impossibilidade es tar a par de tudo. e. na ponta da orelha. dom de vidência. que conheci muito bem. amigo de Varange. suas últimas reivindicações. Um fato é certo. — Mais um processo que permanece aberto e sobre o qual me importunam até que eu possa fornecer as provas e as circunstâncias de sua morte. — São as visões devidas a seu dom de vidência que o senhor batiza como fontes seguras.

senhor tenente de polícia. — Certamente. É uma simples formalidade. e duvido muito que esse ministro. diante da senhora e do Sr.. Algumas pessoas.. que foi ela quem matou Varan-ge e que todo esse bando.. Sr. — Não seria razoável pensar que apenas as declarações do Padre de Marville.mesa. Mas o mundo tem memória curta! Ora. Foi preciso que meu escrivão fosse me importunar com um correio tão urgente e ameaçador que acabava de chegar por um navio da França para que eu retornasse imediatamente. informei-me sobre o senhor. rolos e dossiês que atravancavam sua. inquieta. uma vez prevenida. e disseram-me que estava no campo. estou perdendo completamente a cabeça. — Em minha senhoria. — O senhor já disse isso. "Aí está.— Que pena! — murmurou. Bourgeoys. inclusive Carlon e Ville-d'Avray. Sua graça e suas generosidades obtiveram para si mesma muitos amigos. aproveitam 99 . — Mas. Estou sozinha. eu estava no campo!— exclamou ele. procure fazer-me essa lista das moças. agiu sem discutir corrrSua Majestade.. triste. que a opinião pública lhe é favorável na Nova França. oculta-me não sei que história sinistra sobre o La Licome e sobre essa Sra. mas não me ocorreria que o senhor só se preocupava em me ver para colocar-me de novo sob acusação. O rei continua a dispensar-nos sua amizade. estou numa situação muito difícil. — Compreendo-o perfeitamente. bastem. Sr. — Quando de minha primeira passagem para Montreal. de Peyrac. intrigas e tráficos de influência que não se consegue saber nunca qual é a verdadeira instância que se acha por trás das ordens com que eles nos bombardeiam. e não lhe quero mal por isso. a senhora não é tão virtuosa! E não creio em sua inocência. a senhora possa precaver-se. Mas ela pode sofrer uma reviravolta. Os jesuítas são pessoas sérias. e que lamento muito. Estou prevenindo-a. que é ponderado e não se imiscui em superfluidades desse tipo. de Frontenac no rio Sague-nay. continuava: — A senhora imagina. — Escute-me. O tenente de polícia parecia atormentado. Temos muitasprovas disso. Apesar disso. fazendo-me cúmplice. que não gosta de nós e talvez procure animar os espíritos devotos contra nós. . esteja a par disso. com razão. exista por trás disso uma intriga montada por hábeis escroques. Duvido que façam pressão doravante contra nós junto a Sua Majestade. Sabia que a brevidade de nossa viagem e as atividades da estação não nos permitiriam senão reencontros breves. — Que quer dizer? — Eu me alegrava por rever meus poucos amigos de Quebec. continuar sozinha minha viagem para ir confiar a educação de nossa filha à Srta. Colbert se encontra por trás dessas demandas excessivas e ridículas. Colbert. para manter sua posição na corte. como sempre. a morte e o martírio do Padre d-Orgeval autorizam ainda mais o valor de seus últimos escritos. quando sei perfeitamente que está mentindo impudentemente. Não pode ignorar a ajuda que meu marido está dando neste momento ao Sr. senhora. — Mas repito-o. mas isso implica tantas ramificações. Garreau. E subitamente ela dedicou-lhe um sorriso tão cheio de doçura e de amizade. Levantou-se e pôs-se a andar de lá para cá para acalmar sua tensão interior. Se o Sr. de Maudribourg. dizem.. esse correio? Ele fez um gesto de exasperação que dispersou os papéis. na qual certamente encontrarei cadáveres suficientes para prender todo mundo". para que se possa saber o que aconteceu com aquelas que. Peço-lhe. Isso não a compromete em nada e me permitirá ganhar tempo e descobrir quem se interessa com uma obstinação inexplicável por essa questão de ressarcimento de fundos.. — Quem pode apressá-lo assim por um negócio de tão pouca importância? De onde emanam essas ameaças. mas para que. — Uma coisa é certa. Não creio em sua inocência. de seus últimos anátemas. Certas línguas que se calam para lhe ser agradáveis podem se destravar. com efeito. teriam embarcado na França. receando não encontrá-la mais. Não é apenas para ser-lhe desagradável que não lhe oculto nada sobre o que me foi comunicado. num tom quase desesperado. — Serviços do Sr. e é esse o apoio e a amizade que encontro junto ao senhor? Ela percebeu que ele fechava os punhos e parecia tremer de uma raiva impotente. pensou ele. Talvez. que ele ficou desconcertado. d'Entremont. Tive de separar-me dele. — Eu não sei quem "eles" têm ao seu dispor.

Vou transmitir suas 100 . vindo aquele depois do último. — O Sr. Creio que sei a quem me dirigir para preencher certos vazios de seu questionário concernente ao naufrágio do La Licorne e ao estabelecimento das Moças do Rei. vou procurar fazer essa lista da melhor forma possível. a fim de ali colocar os papéis. e as associações e sociedades só foram constituídas para obter certas autorizações recusadas a particulares. e as digressões mundanas não nos trariam nada de positivo. e inconfessáveis. senhora. Deixou-o com o mesmo sorriso terno e condescendente que perdoava. por que empalideceu desse modo? — perguntou Angélica. d'Entremont não é um mau sujeito. que tremia como uma folha. coragem. — Vamos. Terei de observar-lhe isso um dia. volúpias. querendo minimizar as coisas. que aniquila o dragão do Mal. e foi soar a campainha da casa de Delfina du Rosoy. resignada —. Mas não lhe prometo nada mais que isso. Não quis deixar para mais tarde a visita que planejava fazer. aviamentos. — Eu me lembro. a travessia do oceano várias vezes. e ficaria surpresa se estivessem pedindo esclarecimentos com a intenção de reembolsá-los. se me pede desta forma. de querer saber tudo sobre os motivos íntimos do indivíduo. e a que ou a quem serviu o fruto de suas generosidades.. e o lapso de três ou quatro anos para a conclusão de uma investigação como essa nada tem de tão surpreendente. — Então. Por isso. muito mais que isso.qualquer oportunidade e chegam até a subornar clérigos ou funcionários de ministérios para estar a par dos litígios em pendência de que possam se apoderar. se julga no direito de reclamar seja lá o que for. Vamos. Um funcionário que possa apresentar nas altas esferas peças bem completas e inatacáveis não deseja. Delfina. más por ora não estou em condições favoráveis. evidentemente. é sua maneira de servir ao rei e a Deus. terríveis? Isso nunca — protestou a pobre Delfina.. — Falar novamente daqueles dias. estão desejosos de saber o que foi feito de seus adiantamentos. quase fechandolhe a porta no nariz. ainda que não muito consciente. Mas a jovem esposa do alferes não se deixava convencer. Trata-se apenas de dizer qual a situação atual de cada uma das Moças do Rei que embarcaram com você no La Licorne. foi produto da caridade da parte dessas senhoras da Sagrada Família. de Maudribourg. Deveriam julgar-se mais devedores do que reclamantes da Sra. O javali fossador está em nosso encalço e vejo-o seguir obstinadamente um caminho que poderia levá-lo mais longe do que desejaríamos. se considerarmos que a administração. por vezes. Parece que. de que foi a senhora e o Sr. no caso da Nova França. O sorriso feliz da jovem mulher ao vê-la apagou-se quando ela soube do objetivo da visita. Delfina. É aceitável como exigência e não c assim tão repentino.. de Peyrac que nos adiantaram nosso dotes. seu espírito de sagacidade não se deixa enganar. — Mãos à obra — continuou Angélica. e isso também pede um exame atento. sentando-se diante de uma mesa. nunca se mostra rápida em seus intercâmbios. não acho que tenha sido tão lesado por esse caso. e não posso fazê-lo sem seu auxílio. Pode-se acrescentar a isso um gosto certo. Angélica procurou convencê-la. serão seus herdeiros? — Ela não tinha herdeiros. — Não compreendo por que a Sociedade de Nossa Senhora do Saínt-Laurent. quase o ameaçam. e nisso ele está em perfeito acordo com seu modelo São Miguel. por princípio. Ela fazia o possível para divertir e tranquilizar Delfina. — Com efeito! — O resto. Ademais. por que esse súbito interesse por nossa sorte? — Já lhe disse: as companhias e sociedades financiadoras de sua expedição para a Nova França. casada com o simpático Gildas de Majéres. e os funcionários responsáveis pela distribuição dos créditos concedidos pelo "Estado do Rei" para seu estabelecimento aqui. louça. e fazer um infeliz confessar deve ser uma de suas inconfessadas. mas Garreau está enfurecido. mas não estaria encarregado dessas duras e sinistras funções se não tivesse uma propensão natural para colocar o próximo em maus lençóis. A expedição foi quase inteiramente financiada pela fortuna da Duquesa de Maudribourg.. roupas. e que as cartas e respostas necessitam. o melhor a fazer é aceder a seu pedido de informações precisas. — Está bem — disse ela. a senhora se lembra. Dê-me esses maços de papéis. Creio que me lembro. da França. — Mas. Quanto ao Estado do Rei — continuou Delfina —. ou outra associação qualquer. eu me curvo. — Isso tampouco me diverte. também.

No final da lista. para agradar. e sua vida de pioneiras corajosas testemunhava que o rei tivera razão em lhes dar uma oportunidade. como Pedri-na Delarue. uma jovem ingénua e sem defesa. — suspirou. e um dia percebe-se que ela nos devorou até o osso. órfã. conheciam. sob sua égide. no caso de algumas. segundo ele. Henriqueta estava na Europa com a Sra.. — Será que algum dia poderemos pôr fim a elas? — murmurou tristemente Delfina. um destino mais favorável. cedo ou tarde acabará nos atingindo. contente. — O grande amor de Barssempuy. estimulada. — Maria Joana Delille. — Isso a afeta muito? — perguntou Angélica. Era solteira. — Seja como for. a Quebec. — Era realmente este o número de nosso contingente quando embarcamos em Dieppe — conveio Delfina. Angélica seguia com os olhos sua redação. acrescentando a cada um algumas palavras que notificavam o que havia acontecido às jovens em questão.. esclareceu: — Aquela que chamávamos de Maria. diante da expressão interrogativa de Angélica.. que garantia seu futuro. a fim de realizar o povoamento das colónias de Sua Majestade. Por cortesia. Delfina nomeou-se e acrescentou. É um dever enfadonho. pelos cuidados das religiosas do Hospital Geral. — Sem filhos.. Garreau. concordo com você.. títulos e qualificações de seu esposo. se a suspeita quer cavar e minar mais fundo. os nomes. parando nesse nome. Vicente de Paulo. Mas vai ser por pouco tempo... — É a Mourisca. Mas. — Delfina. como eu. Haubourg de Longhcamps e noiva de um oficial da milícia. de Baumont. — Essa é exatamente a maneira que eles . Era a única. Catarina de la Motthe residia em Trois-Riviéres e fora saudá-los com sua pequena família quando de sua passagem em dire-ção a Montreal. Tem talvez 101 . e. é o que dizem. Joana Michaud casara-se com um morador de Beauport e dera um irmão e uma irmã a seu pequeno Pedro. — Poderia tê-lo desposado. entre suas companheiras casadas. utilizam para preparar armadilhas e.observações ao Sr. que tinham recolhido em Gouldsboro e levado a salvo para a Nova França. pegar com elas pessoas de bem. — Quem é esta Lucira d'Ivry? — surpreendeu-se Angélica. mas só chegaram dezesseis. e se. que não nos compromete de maneira alguma. Estamos perdidas. por palavras. aquelas que Quebec havia tomado a seu cargo. sob o jugo da sutil Benfeitora. e. qualquer que seja nossa defesa. coloca-se o dedo nelas. tinham sido escolhidas por sua bela aparência e seu caráter agradável. Angélica deixou para mais tarde uma conversa com ela a esse respeito. por boa vontade e porque isso parece anódino ou por sermos convencidos a isso.. enfim. morta — disse ela. Devia estar revivendo em pensamento o insidioso processo que a fizera cair. o mais das vezes. Angélica renunciou a tirá-la. Ela espera ser pedida em casamento por um duque ou um príncipe. de constatar que aquelas pobres deserdadas. É o que vai acontecer. pediu-lhe que verificasse se a lista organizada pelas diferentes companhias estava correta e de acordo com a cifra de vinte e sete Moças do Rei embarcadas no La Licorne em tal data. que ainda não segurava nos braços um bebe. não pinte a situação com cores tão trágicas! Não se declare vencida de antemão! Vencida por quem? Vamos começar a fazer esta lista.. a Meiga. nosso desejo de não reclamar nada de nossas despesas parecerá suspeito. Vou designá-la como intendente da Sra. Rolanda Dupanier. — Certamente! E principalmente a Gildas.. cedo ou tarde. meu marido. Pôs-se a conferir certos nomes e copiou-os em seguida numa outra folha. desenhando as letras com amor. Margarida Trouvée. Estava quase tremendo. depois. pegou uma pena de ganso e começou a apará-la —. mas de uma boa família burguesa. que. o órfão. o nome de família traía a origem de crianças recolhidas na soleira das portas pelos êmulos do generoso Sr. até a alma. em sua maioria. que também tem certas desconfianças. E. poderemos dizer-nos que fizemos o que era preciso para pôr fim a essas lembranças ruins. Sabemos o que aconteceu com ela. Todas bem-educadas. colocando-lhe sob o nariz os papéis. Delfina escrevia os nomes de onze ausentes com uma mágoa contida. de tal ano. de seu marasmo. apesar de tudo. ela.

sua aia.. onde tinham seus prometidos. que a senhora conhece. — Inscrevamos Aristides como auxiliar de boticário da Santa Casa de Quebec. Isso parecerá respeitável. que lhes garantiu que mandaria buscá-las em Port-Royal. menos Juliana. sob a proteção do Sr. Mas sempre se poderá indicar o lugar de seu túmulo. ficou na costa leste. pediu-lhe a mão. de la Roche-Posay! — insistiu Delfina. Confiou-lhes uma carta ao Sr. Colbert para os celibatários do Canadá. — Germana Maillotin. Esse inglês horroroso mandou jogar seu corpo no mar.. Pensando melhor. em Tidmagouche. Deram ambas um sorriso meio indulgente. Mas houve. Falaram anteriormente com o senhor governador. levou-nos em seguida até Tidmagouche. Essa época de Tidmagouche. se elas não aparecessem.. que sabemos estarem casadas. — Não. Agora me lembro. onde o Comandante Phipps nos desembarcou. Antonieta Trouchu. Era um lugar um pouco assustador no início. Falava apenas de nosso grupo de moças e mulheres enviadas pelo Sr. O esforço de memória. Elas puseram na cabeça a ideia de voltar para Gouldsboro. com efeito. que viajou por sua conta. e não de Henriqueta Maillotin. — Aqui estão pois mais três. Vejo aqui Juliana Denis. tias. pois estavam desprovidas de tudo. essa decisão que a senhora tomou em relação a três de nossas companheiras de autorizálas a voltar a Gouldsboro. temos três em Gouldsboro. Posso dar-lhe o nome de seus esposos. —O Sr. entre essas vinte e sete que citou no início? — perguntou Angélica. que se lembrou de que Delfina. Não vou falar de Maria. a Bela. Em Port-Royal. — Sim. deixava-a encharcada de suor. antes de nossa partida para o Saint-Laurent. Ou foi em La Héve. Mas é preciso que eu volte em pensamento ao momento em que deixamos Gouldsboro durante aquele funesto verão. com uma voz átona. — Sim! Falta Henriqueta Maillotin — disse Delfina. depois dos dramas que acabavam de ali ocorrer. que se casou com aquele Beaumarchand. pois já a contamos. que não foram recenseadas em Quebec. O que vou escrever? — Morte acidental durante uma escala. que tinham levado Honorina. meio desencorajado. — Contou Petronilha Damourt. de la Roche-Posay. de Peyrac. parece-me que. Malaprade.. a irmã de 102 . não me lembro. não pôde mandar buscá-las. Luísa Perrier. Delfina levantou-se para acender uma vela. ficaram em Port-Royal e estão atualmente nas Minas de Beaubassiri — informou Angélica. — Então. que foi morta ali. Estávamos sem dote. isso daria apenas dez. de Maudribourg em mãos dos ingleses. com aqueles hereges e piratas. de Peyrac deu-lhes autorização para retornar para lá com o SansPeur. Sei que ele lhes ordenava que cuidasse de seus casamentos e lhes conferisse roupas e dote. como pretendia. Maria Paula Navarin. Duvido muito que alguém se preocupe com ela mais adiante. Suspirou. —Confesso que não me lembro — disse Angélica. no momento da partida com o inglês que nos fez prisioneiras.. O Sr. mas de onde vêm estas aqui? —Já vamos ver isso. Esta. Em compensação. Febres ou enjoos. pelo que dizia Henriqueta. Paturel sobre elas. —Finalmente. Tinha as têmporas úmidas.. Governador Paturel é tão bom! Ele foi um pai para nós. Estando a Sra. e todas nós tivemos de suportar seu mau humor. a Meiga. acrescentado ao desagrado de evocar esses dias penosos. um dos filhos de Marcelina. sim! — disse Angélica.. pois um acadiano. Começavam a ver a coisa mais claramente. — O Sr. mortas e vivas.. irmãos e irmãs que querem saber de seu paradeiro. discutido esse projeto. foi no navio. de Baumont? — Eu lhe falei de Henriqueta Goubay. esposa de Aristides Beaumarchand. Isso nos fará ganhar algum tempo. começou a lembrar-se de ter.tios. provocava-lhe uma impressão confusa. — Mas você não disse que ela voltou para a França com a Sra. Perdêramos nossas caixinhas reais no naufrágio do La Licorne. Não queria deixá-la exaltar-se. — Como lamentei ter deixado Gouldsboro. Estava furiosa. mesmo que inscrevêssemos entre elas Juliana. três de nossas companheiras conseguiram esconder-se em casa da Sra. mas logo nos sentimos seduzidas pelo calor humano que ali reinava. Éramos então realmente vinte e sete. —Uma dentre nós morreu durante essa viagem para Boston e vejo seu nome aqui: Aline Charmette. — Elas lamentavam tanto não ter podido se esconder também em casa da Sra. e o chefe de polícia poderia mostrar-se satisfeito. Falta uma.. não é?. e da Sra. entre as onze. Não. tendo nos socorrido em La Héve. nutria por Colin Paturel um sentimento de ternura. —Sete.

cada um sabe tudo acerca de seu vizinho... suplantando seu tom desesperado. — Por que você não me falou disso então? Delfina passou a mão pela testa. E não teria se casado com um acadiano na costa leste? — Teríamos sabido através de Marcelina ou de Maria Paula Navarin.. ela desmaiou. posso afirmar que não deixei. que seguia para Quebec. depois de passado o perigo. no momento em que os índios chegaram.. lançando-se sobre o corpo de seu irmão Zalil. em seu jargão administrativo.Germana. — Exato. inclinada sobre a lista que acabavam de fazer. Tudo o que sei é que estava conosco ainda em Tidmagouche. uma vez mais. Essa horas ficaram gravadas em minha memória. Os brancos da costa leste e da baía Francesa. e tive de arrastá-la à força para protegê-la no forte. esforçava-me ao máximo por esquecer todos esses horrores. e mandou buscar-lhe um cordial. Nicolau Parys nos pediu que nos refugiássemos quando os índios chegaram para escalpelar todo mundo. e tive de esbofeteála para deter aquela histeria. por seu estado. Angélica verificou-o com uma olhada e compreendeu por que não conseguira ao mesmo tempo tranquilizar e induzir em erro a pequena Germana de Port-Royal. no espaço de um relâmpago. por causa disso. de Maudribourg. havia duas Henriquetas. Devo ter pensado que ela também fora com os Malaprade para Gouldsboro. nos avisaram que podíamos sair e nos arriscar para fora da muralha. sua irmã não teria vindo informar-se sobre ela. e lembro-me de que o Sr. Era muito ligada à Sra.. Ela dizia que a duquesa era vítima de um complô. são pouco numerosos e muito dispersos. mesmo afastado. Contemplou sonhadoramente as páginas cobertas por uma escrita cerrada. quando. então. depois de tantos anos? — suspirou Delfina. como da Acádia. — Não sei.. Estávamos tão abaladas. Não era por esse lado que se devia procurar. ouviam-se gritos horríveisr Os índios escalpelavam todos aqueles que não tinham se escondido. de uma pequena família dali em diante acadiana. quando já estávamos no mar e vogávamos através do golfo de Saint-Laureqt. Arrastaram-na à força para o abrigo.. E depois palavra de honra. Ela mesma estava como que louca. Ela urrava. reencontrava sem dificuldade a lembrança de um gentil casal. Então. ignoro.. — Mas. Fora. de Maudribourg e não suportava que a condenassem. — Como é estranho! — murmurou —. nem admitia que nossa benfeitora confessara ela mesma seus crimes. o que aconteceu com a outra Henriqueta. 103 . — Do que tenho certeza é que ela se encontrava entre nós no forte onde o Sr. disse Angélica: — Você tem certeza de que Henriqueta Maillotin não podia estar entre as casadas de Port-Royal? — Nesse caso. E esta. a irmã de Germana Maillotin? Delfina lançou-lhe um olhar em que. Parys interessou-se por ela... e posso pois testemunhar que estava conosco. brilhou a expressão de pânico que a caracterizara por tanto tempo. — Em que circunstâncias você teve a impressão de tê-la visto pela última vez? — Como vou me lembrar.. bem conhecida na baía Francesa. CAPÍTULO XXIII As duas Henriquetas Então. Calaram-se novamente. esforçava-se por colocar diante de cada nome um rosto. que nossa hora tinha chegado. Mas todos nós estávamos meio loucos naquele momento. Em Quebec recensearam-nos como sendo dezesseis Moças do Rei. e como tenho medo de repente! Depois. e Angélica. então. Entretanto.. e esse número já lhes parecia alto. a cabeceira de Henriqueta. não sei o que aconteceu com ela. não houve oportunidade. — Já lhe disse. Por meu'lado.. Todas nós tremíamos e julgávamos. Posso ainda lembrar-me de que discutimos no momento daqueles terríveis acontecimentos.. mas. cujo estado me preocupava. que a tinham deixado enlouquecer por maldade. — E depois? — Percebi que ela não estava em nosso grupo. Eles saíram da floresta! Ela se debatia e queria correr para ajudar a Sra.

Trata-se mais de um sonho. drogada. Naquela confusão. Atormentada pelo fim trágico da duquesa. — Não! Ficaríamos sabendo. Pode ser que possa dar-me informações que não pensamos em pedir-lhe quando voltamos. ela vira para mim seu rosto e eu percebo. de Maudribourg. — No entanto. esgotada. a menos que tenha mudado muito. mas. Creio que não devo lhe ocultar um detalhe. — Oh! Senhora. e. preferiria essa explicação e sabê-la viva a afrontar esse mistério que pesa sobre sua desaparição e que esconderia. Paturel. interrogarei o Sr. nem mesmo real. em seu lugarl Deixou-se cair numa cadeira. Tendo uma de suas companheiras ascendido a uma situação elevada. que é outra pessoal Outra! Entendeu?. — Mas não de Henriqueta! A menos que estivesse aniquilada. ela gostava às vezes de se vestir de modo espalhafatoso. encontraram seu corpo meio devorado pelos animais selvagens. — Ora! — Isso seria bem próprio dele. voluptuosa. e muito amigos dos franceses. isso explicaria a presente investigação. há dezenas de anos. que volta sem cessar.Durante esse massacre. Adivinhou em que ela pensava. no dia seguinte. a senhora se lembra. um pesadelo.. E. influenciável. sim. não consigo controlar-me. — Não me parece que Henriqueta tomaria tal tipo de iniciativa. antes de se afastar e prosseguir sua colheita macabra. Quando eu voltar. ferida. Angélica mantinha-se com Iolanda e Marcelina. Delfina sacudiu a cabeça. o vermelho de sua saia. na praia.. — E por que não se deixaria influenciar pelo velho Parys? Num certo sentido.. ela parece um pássaro brilhante das ilhas que se choca com as grades de uma gaiola... ainda que ele não se refira a nenhum fato preciso. avisto entre os troncos e os ramos o faiscar de seus trajes. o olhar vazio. Sei que a morte está no seu encalço e evito chamá-la. pois é seu direito decidir sobre ela!". talvez tenha se casado com um pirata do SansPeur e esteja vogando pelos mares quentes das Caraíbas. lançara-lhe: "Ela era sua inimiga! Sua cabeleira lhe pertence". Era antes passiva. como residente em Gouldsboro. no entanto. uma pasta mole nas mãos da Sra. declarara. de um pesadelo que tenho com frequência. isto é. Vamos. Entretanto. Tive uma ideia. mas deixo-lhe sua vida. — Não deixe sua imaginação desnortear-se. senhora — não me julgue uma louca — . que eu desfrutava das doçuras de 104 . E que vai morrer. de Maudribourg. Os índios malecitas e mic-macs são convertidos pelos missionários. E uma outra! Não consigo discernir quem seja essa mulher-que foge através da floresta. e. "Eu sei quem está atrás dessa porta. o azul de seu manto.. apesar de dotada de encanto e propósito. Você assinalou que o velho Nicolau Parys parecia interessar-se por ela. — O pior — murmurou Delfina. embriagada.. — Não se atormente. por ora. Não era muito inteligente. organizaram-se as partidas que ambas acabavam de evocar. — Tenho certeza que sim. mas sei de fonte segura e sem remissão que não é ela. Delfina a deteve.. o amarelo de seu corpete. diante da porta da casa onde repousava a Diaba. cada vez que o esquecimento misericordioso se instalava em mim. depois de ter passado um inverno em Quebec. desejaria atribuir importância a uma expedição da qual ela participou... e Piksarett. Mas. E possível que a tenha encorajado a acompanhá-lo à Europa. No fim. Daqui a pouco.. com os escalpos gotejando sangue da cintura. quando Angélica saía com seus papéis. e. a bela... graças ao apoio do velho Parys. vejo-a correndo por entre as árvores das florestas. soberbo em sua ironia protetora. teriam esquecido a jovem Henriqueta Maillotin? — Teria sido raptada pelos índios? — disse Delfina. parara diante dela. com um arrepio. ferida. eu sei. Então. Delfina esboçou um pálido sorriso. é preciso que eu lhe diga toda a verdade.. que não é ela. vamos ser tranquilizadas. e dou um grito. depois de uma ausência de quase um ano. Quem sabe. Que vestiu as roupas da Sra. — É apenas um sonho. senhora — respondeu a jovem com uma voz não muito convencida. Durante a noite a duquesa conseguira fugir. não pudera ir muito longe. — Deus a ouça. em sua fuga alucinada. inscrever essa segunda Henriqueta na lista. Angélica observou-a e lamentou achar-lhe as faces encovadas. num salto.

iriam levar-lhe seus olhos. com seus modos de sereia sedutora. convincente. que perambulava vertendo seu veneno um pouco em toda a parte. encorajando-me a explicar a natureza desse sonho cuja constância provava perfeitamente que tinha em mim raízes tenazes que era preciso arrancar. — Encontraram o corpo da duquesa. não queria tornara mergulhar nessas histórias de loucos. uma chuva fina e cortante fustigava as vidraças.. as Moças do Rei da Sra. que é impossível a quem quer que seja dizer o que aconteceu com ela. mesmo Henriqueta Goubay. que nenhuma delas. de Maudribourg. disse-nos ela. meu esposo apertava-me com perguntas. onde poderiam se refugiar sem ser logo encontradas? — Cúmplices. menos transtornada pelas reminiscências do passado que por uma certeza aterradora: outra tomou o seu lugar. tropeçava com o nome de Henriqueta Maillotin. esses pesadelos em que ela aparece a persigam. Uma apreensão que vinha alimentar o pesadelo familiar a impedia de evocá-la na presença das outras. que era uma moça muito boa. Delfina confessava ter-se já entregue à contabilidade que acabavam de fazer. na semi-obscuridade. — Desfigurado. Esta julgava ter visto quem a golpeara na meio da noite e. quando ela desembarcou em Gouldsboro. cada vez que uma espécie de tímida felicidade começava a florir em mim. — Você não acha. que tudo se mistura em suas lembranças? Seu sonho lhe mostrou a duquesa fugindo com suas roupas.. o dia de seu triunfo. seremos obrigadas a estabelecer hoje.. e. confrontar nossas lembranças.. Sei agora o que eu receava descobrir. entre amigos escolhidos. Não queria tampouco ouvir mais falar que houvera uma Am-brosina. Sentia uma vontade malsã de encontrar minhas antigas companheiras. Mas será que as usava naquele dia em Tidmagouche em que foi desmascarada? — Sim! Eu mesma ajudei-a a vesti-las. de fazer perguntas sobre sua sorte às pessoas que a cercavam. e que a hierarquia dos anjos seguia suas pegadas — pois os anjos da guarda não bastavam mais —. em sua memória. não tinha desejo de falar do passado.uma vida pacífica ao lado de um ser amado. Mulheres como ela encontram seus cúmplices. revia a silhueta vaga e meio apagada dessa antiga companheira da qual ninguém mais falava. Ficava depois vários dias presa de uma ansiedade profunda. O que. esse pesadelo voltava e eu acordava tremendo. A voz de Delfina estava surda. de procurar saber. antes do pôr-do-sol. a cada vez. afinal e forçosamente. por esse milagre que os homens ingratos chamavam "acasos felizes". Mas eu não conseguia dizer nada e soluçava em seu ombro. mesmo índios. erudita. uma outra presença poderia passar despercebida! — Suponho que elas tenham se evadido dessa maneira e tenham conseguido chegar à floresta. — O quê? — Que o desaparecimento de Henriqueta estava ligado ao da Sra. — É muito pouco um sonho — opôs-se Angélica. mas cujas rememorações punham todos de cabelo em pé. sob sua grande capa negra forrada de vermelho. Não era. — Eu sempre soube. bela. enfaticamente. de Maudriboug. ao contrário. Só a reconheceram pelas vestes. o dia em que decidira fazê-la morrer e que. com efeito. — Não é de admirar que. — Não vamos mais longe! Angélica não queria. ademais. ou da região. Angélica esforçou-se por falar com calma. interrogá-las. A penumbra não contribuía muito para dar à sua conversação um aspecto menos opressivo. Foi ela quem a ajudou a fugir da cabana onde era guardada por Marcelina. que meu sonho apenas nos manda um sinal e nos adverte sobre a verdade. Ela as queria como um símbolo. outra pessoa morreu em seu lugar! Em vão. salvando in extre-mis uns e outros. homens de tripulações sobreviventes. E que uma delas desapareceu. cujas cores vistosas nos surpreenderam a todos. Afirmou: 105 . sabendo. depois das provações que você atravessou junto àquela mulher. Voltara a sentar-se no pequeno sofá e obrigara Delfina a sentar-se ao seu lado. Além do mais. nos arredores. da qual parecia ser a única a lembrar-se. enter-necedora. recenseando uma depois da outra. interrogando-as.. Proibia-me de fazer isso. Mas por que dar-lhes essa interpretação? — Porque é a única explicação lógica para o desaparecimento da filha mais velha dos Maillotin.

. — Não acho. todos eles! — murmurou Delfina. uma situação que permitiria recomeçar suas armadilhas e puxar os cordões de suas vinganças. uma pessoa desse tipo. — Que riam. se estivesse viva. ao contrário.. — Acalme-se! Você se exalta inutilmente. suficientes apenas para trazer a paz e um pouco de esquecimento ao coração das vítimas amedrontadas. sob um nome falso. vestida com as roupas da duquesa. isso é apenas a conclusão de uma longa e enfadonha investigação administrativa. O túmulo que lá está em Tidmagouche seria então da pobre moça assassinada? Não. — E ela. Angélica sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo dos pés à cabeça e eriçar-lhe a raiz dos cabelos. uma nova personalidade.. evocando "o Arcanjo que se ergueria um dia e intimidaria a testa imunda a destruir a Diaba. por trás dessas investigações e interrogatórios. Ainda não voltou. Deixou a América. — Precisamente. — Isso me surpreenderia! Nada. já que Ambrosina não estava morta. reencontrar. impaciente e rabugento. a abandonaram aos animais selvagens da floresta. — Eu o abraçarei quando tornar a vê-lo. devidamente embrulhado num pedaço de algodão engomado... não quero ter de penetrar novamente em seu antro. Pois isso implicaria que Am-brosina podia estar viva em algum lugar do globo. e os funcionários e escrivães que se encarregam de coletar as peças ririam muito se soubessem os dramas que estamos fazendo em torno de suas garatujas.. isso implica que. Tudo se ligava. — Em que navio? — No de Nicolau Parys. ocultava-se Ambrosina. Angélica zangava-se por ouvir Delfina falar da duquesa no presente. Juntou ao pacote. Garreau d'Entremont. o despertar do caso do La Licorne talvez seja seu primeiro sinal — sugeriu Delfina. à moda índia. Se Delfina adivinhou corretamente. Mas. e que doravante não poderia fazer mais nada para ajudá-lo.. a Diaba. por ele. nas palavras do Sr. Deveria ter pensado antes nisso. ter-se-ia manifestado mais cedo. — Não! Eu a conheço bem! Conheço-a muito bem! — Duvido que esteja viva. das quais o Marquês de Ville-d'Avray adjudicara uma delas como compensação pela perda de seu L'Asmodée. depois de a deixarem irreconhecível. quem sabe?. e que o Marquês de Villed'Avray segurava pelo pei-tinho. estava viva. 106 . — Voltou-se para a janela: — Continua a chover. o que teria acontecido com ela? — Fugiu. O navio esperava na enseada enevoada para levantar âncora. Acho. exigindo dele. concederam-lhe exata-mente o tempo necessário para renascer de suas cinzas. quem tivera a ideia de recolocar isso "nos bastidores do poder"? Convenceu-se de que isso era bem próprio do obstinado procurador. que se encontrava na corte do ministro da Marinha. você verá. E se fosse Tardieu de La Vaudiera. homologados pelas sociedades benfeitoras como fazendo parte da expedição da Duquesa de Maudribourg. — Mas ainda pode voltar. sua saúde alterada.— Foi assim que as coisas ocorreram: eles mataram Henriqueta e. a visionária que falava também no futuro. Estabelecer. Nunca ficara bem clara a questão das "presas de guerra" do Conde de Peyrac." Angélica observara-lhe: "Você se exprime como se ela ainda estivesse por aí nesta terra e não houvesse terminado sua missão infernal junto a nós!" E a pequena religiosa lançara-lhe um olhar de medo por trás de seus óculos redondos. sua beleza destruída. Delfina. para que a julgassem morta. Revia o velho Nicolau Parys pronto para embarcar. Em seus contatos. Em minha opinião. permite supor que haja. assim como algumas vezes fizera Madre Madalena. que lhe entregasse a receita de leitão laqueado. que julgavam morta e enterrada. mas redigida de maneira a fazer compreender ao tenente de polícia civil e criminal que ela julgava ter-se dedicado muito. você tem entre sua criadagem algum valete ou um moleque que possamos encarregar de levar papéis à senescalia? Apesar de minha amizade e estima pelo Sr. num tom de conciliábulo. uma missiva amável. Impossível. d'Entre-mont. das Ursinhas.. que esses anos bem curtos. Calou-se sobre a alusão que o tenente de polícia fizera aos dois navios dos piratas. Tudo o que peço à misericórdia de Deus é que meus pressentimentos estejam errados! — Eles estão.

como se seu coração tivesse sido condenado a não poder lançar âncora em parte alguma. Ele tem uma carreira a defender. o assunto era inesgotável. era uma adolescente agora. a felicidade no Amor ou seu fracasso. meu pequeno tesouro. todavia. "Gostaria tanto de dar-lhe uns docinhos!".falasse dos gémeos. olhava aquele horizonte que lhe era caro. a saúde ou a doença. pois não havia razão para isso. Nada ameaçava. Mais feliz que uma borboleta nos prados. descendo sinuosamente para a Cidade Baixa. mostrava todos os seus dentinhos redondos num riso que parecia inspirado por um espetáculo ou uma visão das mais aprazíveis. Mas estou tão contente por vê-la! E a abraço bem forte! Seu discurso continuava a divertir enormemente Ermelina. A grande superfície do rio descobria-se como um lago dourado. não perca jamais seu segredo! Continua muito gulosa? "É verdade! a mãe dela me escreveu que ela ainda não falava. antes de começar a descida pelo Caminho da Montanha.. Angélica lançou-se pois à descrição de Gloriandra e Raimundo Rogério. certamente. — Você não mudou!. colocando de lado aquele assunto obsedante.. Só teve tempo de vê-la chegar. "Gostamos de mimar a inocência. Compreendo que sejam temidos por aqueles que querem ter "poder absoluto sobre os homens e suas consciências! O sol reapareceria entre as nuvens. depois falou de seus progressos. Delfina pediu-lhe em seguida que. tendo seu filho! Beba as tisanas que lhe recomendei e a poção de Eufrosina Delpech. — Se a interrogarem. involuntariamente. Mas também nesse ponto a maldição pesava sobre eles.. Passos ligeiros corriam atrás dela. — Não pense mais no passado — insistiu Angélica —. é por medo e por causa de sua lembrança que você se inflige. têm em suas mãos a Vida e a Morte. preocupe-se com sua felicidade e com sua saúde. mas maravilhada. Angélica. Angélica deu-lhe o nome de algumas plantas que ela poderia obter com o boticário e explicou-lhe como misturá-las e prepará-las. Esperaram que a chuva parasse. Tomaram a decisão de não mais falar a seu respeito.. Tinha crescido. e. se amavam. voando em seu vestido branco. suas proezas. envie os curiosos ao intendente Carlon. Ermelina parecia estar bem de saúde. Você conceberá e será feliz. Enxurradas de água corriam da praça para a catedral. Dizem que é excelente para estimular os ardores do amor. e as folhagens resplandeciam como uma faiança envernizada. Saberá resistir. quando oferecera a Honorina o pequeno arco e as flechas.. com velas e botes como sombras negras atravessando-o em toda a sua extensão. a concepção ou a esterilidade. que ria com um riso cristalino. Mas Angélica sentia-se indecisa. não tenho docinhos.. uma punição. censurava-se Angélica. — Oh! minha querida criança.. Quanto a você. Ela odiava tanto a felicidade! Derrote-a.. estou desolada." O que faria agora com esse fogo-fátuo? 107 . o que resgataria sua triste vida órfã. — Ermelina! O bebezinho guloso! Não era mais um bebé. Uma chama maliciosa brilhava-lhe nos olhos.. Pensou numa reflexão do Cavaleiro de Loménie-Chambord. Ela e Gil-das. Como se explica que ainda não seja mãe de família? Não quer filhos? Delfina protestou: um filho! Era seu sonho mais dileto. curandeiros. A jovem mulher acabou por sorrir. — Vocês. Que felicidade! Ermelina.. Apenas ela o merece. o sol ardente do verão. ' Finalmente se separaram." Muda. que estavam tão crepitantes de faíscas de alegria que era difícil definír-lhe a cor: a água de um lago ao sol. que ela tornara seu em sua vontade de não se deixar afastar da França.CAPITULO XXIV Novo milagre da menina Ermelina — Adeus a Quebec Angélica saiu da casa de Delfina. a tez rósea e animada. Tudo estava tranquilo.

— Encontro-a mandando beijinhos ao céu. — Isso é hora de me falar disso. e a Sra.. porque essas crianças são limpa-thaminés de nascença. como se acabassem de saber que não a tornariam a ver por muito tempo para vir-lhe explicar problemas espinhosos. Sou da Auvergne. todo mundo invadia o albergue Ao Navio de França e o cais à beira do qual as chalupas esperavam. sem ter falado com Car-bonnel. — Sim! E daí? Estavam definhando. minha querida! Não escape mais assim — disse Angélica. Ermelina. Vieram como pequenos valetes com o Sr. estou lhe dizendo. e subir e descer sempre como camelos. cara amiga. dor. seus vales altos e fechados. mais contente por tê-la visto do que se toda a cidade lhe desse acolhida.ordenações foram respeitadas.. não voltaremos para a França. Não tardariam a morrer.. — Não.. Sol. Angélica acabava de aprontar suas malas enquanto ouvia da melhor maneira possível o que cada um tinha a dizer-lhe. que teve de afastarse. Adeus. — Você compreende. sentem falta de suas marmotas. das palavras gregas nostos. pobrezinhos. chegava à penumbra das cerejeiras. — Mas você nunca ficou doente de nostalgia que eu saiba. de Peyrac passarem pela França. como outrora.. repetia. você sabe. rindo: — Até logo! Até logo.. — Por piedade. volta. Posso me lembrar desse tempo antes que minha mãe me vendesse a um recrutador de escravas que passava por lá e procurava moças para os soldados. De qualquer maneira. que Carbonnel manda descer pelas chaminés para verificar se as. senão. aquele que desapareceu. — Vou partir amanhã.. Estava apenas dando adeus à garotinha dos Mer-courville.. Eis que a ama-de-leite Perrina. deveriam pensar em levar os pequenos sa-boianos. e vejo-a como uma aparição. Seja porque se anunciava a festa de Santa Ana. e al-gia. envolvidas com o desconhecido." Uma voz suave gritava atrás dela: — Até logo! Até logo. No exército. Vá também levar algumas guloseimas às crianças do batistério que estão no seminário ou no Convento das Ursulinas. o silêncio. Como naquele dia de tempestade em que a garota por pouco não voara. — Ei-lo que chega. estava pensando em você. toda preta no verão.. o que eram os Garreau d'Entremont. Era a doença dos montanheses. dizia-se começando a distanciar-se. não? — Com as mulheres.Não era a primeira vez em Quebec que se via com Ermelina nos braços. Escute. batia o recorde. Polaca! Não há mais tempo. Le Bachoys. que trazia de volta os citadinos.. Ao lado disso. preocupada da mesma maneira. depois que ela fugia. A Sra. vou mandar-lhe uma bolsa.. mas vou mandar-lhe Kuassi-Ba para que você possa falar um pouco com ele. as Ambrosinas e suas escuras carroças de medos e de ódio? Tinham eles poder contra os efeitos desse encanto? — Oh!. interessava-se por eles porque sabia o nome de sua doença. — . Era a Sra. Sol. de bom coração.. e 108 . Sei do que estou falando. É por isso que as amo e que me fascinam. E. ela. E Angélica. Polaca? Não posso encarregar-me assim dessas crianças. nos últimos momentos da manhã. nos braços de Perrina. sim. — Toda a família Mercourville já voltou para casa — disse a ama-de-leite negra. dizia ela. "As crianças são estranhas".. inventaram um nome erudito para essa doença pela qual só eram atingidos os homens vindos das regiões de montanhas: a nostalgia. O único remédio para isso era mandá-los de volta para casa. Gonfarel. Voltou-se: Ermelina. o silêncio dos picos que olham para eles. os do cartório.. as saias enfunadas pelo vento. entregava-lhe a trânsfuga. é diferente. Se um dia — dizia a Polaca — o Sr. Quebec despertava. que a tivera à sua disposição cotidianamente. o que criava um verdadeiro tumulto. Perrina. seja-porque no momento de sua partida um sobressalto sacudia a cidade entorpecida. pão de centeio e queijo. E a Polaca. de Varange. Toda branca no inverno. E enviava-lhe beijos com as duas mãos. A fome. "mas são tão maravilhosas! Durante muito tempo permanecem habitadas pelo mistério. Trate de arranjar-lhes uma passagem num navio e confie as crianças a um eclesiástico caridoso que as encaminhe para sua Sabóia natal. nisso.

como no dia em que aparecera pela primeira vez em vestido azulgelo e seu manto de pele branca. Dessa vez. varridas por aquele súbito retorno da chama da afeição de Quebec por ela.não deixe de dar minhas boas lembranças a Madre Madalena. Para Kuassi-Ba. a costa. no Saguenay. — Ela se chama Lucila d'Ivry. Você compreende como estou impaciente por reencontrálo e saber como tudo terminou. ela. A contrariedade de se sentir de novo mantida à distância por seus amigos franceses — fosse por causa dos prisioneiros ingleses ou por causa do fim do Padre d'Orgeval. A ilha de Orléans lá embaixo. e era isso que nem ele nem ela conseguiam fazer. mas não havia mais tempo. o céu plúmbeo no horizonte piscava. a ponta resplandecente do pequeno campanário de Beauport onde morava uma das Moças do Rei. — suplantara o desgosto pela separação de Honorina. com seus clarões pálidos. "Por quê? Por quê?" Sobre a extensão das águas. nos escritórios do Sr. deixar uma mensagem.. por trás do nevoeiro de calor que a azulava como sob uma chuva de cinza fina. Enquanto iam e voltavam sob Quebec. sem que precisasse fazê-lo voluntariamente. com toda a distinção. dizia ela. Na noite anterior. que tinha origem em Paris. le Bachoys crispado de angústia. Que primeira vez? Para quem? Para Ermelina. Sob o efeito de relâmpagos silenciosos. cada um não podendo separar-se sem mais daqueles junto aos quais tinham vivido até então. iluminando intermitentemente a multidão ali reunida. Era evidente. Angélica avistou o rosto rubicundo da Sra. um pouco atenuada pelo reencontro com seu irmão. a de Levis. como se a visse afastar-se pela última vez. Os cais estavam repletos de gente. Kuassi-Ba vira Perrina Adélia. O Sr. O piloto garantia que a tempestade não iria cair e que se distanciaria. tinha começado a falar! Iriam de qualquer maneira agradecer a Santa Ana de Beaupré. levada por esses ventos que os impeliriam para a frente e lhes permitiriam entrar pelo canal em direção ao norte. de Peyrac o esperava e tinha de ficar ao lado da Sra. e que chamavam de Mourisca. negro protetor junto à sua lourice. uma estrela de diamante brilhando em seus cabelos. E o que aconteceria a Ermelina e às outras crianças. o rei da França. — É justamente sobre isso que tenho de me informar — disse Angélica. e Angélica detalhava-lhe os contornos não sem uma certa melancolia. seu domo quase perfeito de grande esqualo adormecido.. escoltada pelo grande Kuassi-Ba. com o turbante de penacho que tremulava acima das cabeças e o sabre curvo que fazia parte de sua libré. Depois. Brandia seu grande leque de plumas de peru selvagem num último sinal de adeus.. Preocupações lancinantes. ainda que sua graça e beleza lhe merecessem um nome mais cristão. que abrigava Sidónia Macol-let. de Peyrac até que ela encontrasse o marido. a brancura de suas habitações espaçadas a meia encosta ou agrupadas nos ancoradouros. ministro da Marinha e das Colónias de sua Majestade. a Sra. a uma jovem que não lhe desagradara quando a vira em Gouldsboro. só prometia complicações judiciárias. a fim de saber se podia subir até as ursulinas para tentar encontrar ou. começara a andar. Luís XIV. pelo menos. Repetiu-lhe o que lhe haviam dito a Sra. a feiticeira.. reconduzindo-a ao imbróglio do La Licorne. — A Mourisca é ambiciosa. o que me privou de sua companhia.. Essa agitação tinha a vantagem de aturdi-la. os navios tiveram de bordejar por um tempo infinito. — Meu esposo está lá. geralmente tão jovial. e à própria Sra. tal como a fada do setentrião. Colbert. — Por que não me falou isso mais cedo? Ele acabara de saber que ela não tinha encontrado marido. Era preciso decidir-se depressa. — Volte! Volte! O calor estava abafado. A primeira vez que vira Angélica. E o escudeiro se aproximava. oleosas de tão calmas que estavam.. e a carga do "javali" da prefeitura de Quebec colocara-a lindamente refeita. se insinuava. de Mercourville. que as coisas tinham acontecido como da primeira vez. mas que. a ilha onde reinava Guilhermina. de Mercourville e Delfina. e seus "filhos 109 . de Mercourville foi ao porto. apesar das aparências. Com a condição de que não houvesse nenhuma flotilha de iro-queses descendo o Tadoussac. sem Perrina Adélia? Era uma pena tratar com tanta pressa essas questões de coração. nem se discutia. Nenhum sopro de ar. a incestuosa.. Uma emoção contida propagou-se de uns para outros enquanto ela subia na chalupa.

. Ruth e Noémia tinham também seu lugar. mas também os mais determinantes de sua vida.. minhas pobres magas. Eu as encontrei. Muitos homens: o amor a protege. por ora. dois fantasmas em suas capas negras de leprosas. Mas nunca duvidei. até revestir o anonimato do mar. deixava seu espírito errar. Não era o esquecimento. se o vento continuasse a soprar favoravelmente. elas lhe contavam suas existências patéticas. Amor triunfante! Amor triunfante! Fora o que repetira a vidente. azul para o espírito. e que lhe permitira compreender melhor o que havia padecido seu irmão Josselino. "Nem sequer sou uma amiga fiel para vocês. Quando voltará para seu clima da Nova França.. quando Ruth Summers.de velho". Viraas em sonho. mas uma impressão de irrealidade permanecia ligada àquelas duas silhuetas. aquele em que aparecera o Louco com um cinto dourado. depois o nariz do cabo Tourmente ao longe. mais perto. em Salem. estando o velho nos Grandes Lagos. colocara diante dela os tarôs. e.como que querido apagar momentos que se inscreviam entre os mais extravagantes. do 110 . assustou-se por ter esquecido e. Entre elas. Desejou reencontrar-se na intimidade do quarto dos espelhos. Gouldsboro. Não era um sonho. elas se tornaram presentes. constrangida por sua singularidade. "morte". Como fora estúpida por não querer saber o fim que talvez lhe revelasse o que ocorreria em seu destino. O que dizia o último arcano. enfim.. tinha alguns vislumbres. a pequena capela da boa Santa Ana dos Milagres. que tinham despertado sua revolta. a terceira estrela-de-davi? Apelava inutilmente à sua memória. Não! o que se passara na Nova Inglaterra.. E o Sol: um homem que adorou como signo o Sol. Das duas primeiras estrelas. humilhados. cuidando dela. Nos nevoeiros que se fechavam amiúde sobre o rio. "dominados". Wapassu. E não foi o acaso que nossos dois filhos da felicidade tivessem nascido em Salem e ressuscitassem por suas mãos!" Estava fechado o círculo. dentro de alguns dias. Dizia fazer um esforço para trazê-las à superfície da vida. nada tinha de etéreo. do Homem Brilhante e da Papisa. voltada para aquele horizonte onde. Tentava lembrar-se do que dizia o último "arcano". indo de pelourinhos a enforcamentos. rosa para a carne. Quando. O RIO CAPITULO XXV A volta do círculo Depois. eram menos os deslocamentos dos pequenos grupos importunados.. de seus finos sinos e campânulas. às duas cabeleiras louras que se misturaram aos instantes perturbados e extáticos de sua. inclinara-se para esquecer Salem e seus prodígios. Embalada pela onda. Sou a ingrata francesa papista que. Isso significava que o rei continuava a estender sobre eles a sua proteçao.. iria encontrar-se novamente perto de seu marido.. O vento fresco e macio começava a ter gosto de sal em seus lábios. com certeza. como se fosse preciso escondê-los do olhar de Deus. tenta não se lembrar muito do que ela deve a criaturas tão estranhas e repreensíveis. E a mão de Ruth Summers virava as grandes lâminas de coloridos simbólicos. foi a descida do rio que se alargava. E de novo Quebec e os florões de sua coroa de prata pura. Eram persongens de carne e osso que construíam um mundo numa febre mística. Angélica mantinha-se de preferência na proa do navio. e que afastara por uma espécie de receio...

não é ele! — Quem queria que fosse? — disse o Sr. os marinheiros vão e vêm para a terra ou no tombadilho dos navios. tinham construído e tinham mudado. Os soldados. intrigas e sevícias que lhes eram infligidas quase como originárias de um mal necessário que engendrasse a dor de viver e de crescer nas costas da América. tomando-lhe o instrumento. para lá de um cabo. Enfim. uma pancada surda alcançou-os. O mundo não é cego. Alternadamente. — Estou vendo perfeitamente o Sr. desonradas. tinham-se instalado. assegurar-se de que voltava são e salvo! Todos os dias. Tinha tanta pressa de revê-lo. No mesmo instante. Se a Duquesa de Maudribourg estava viva — e alternativamente. Os estrangeiros de Goulds-boro. a Papisa.que essa espécie de tranquilidade na imensidão. como os grandes generais que. ao largo. à proa de seu navio. no fim daquela manhã. d'Urville. depois de conhecerem horas de glória. parece:me alegre. via a Papisa e o Homem de Brilhante. Podia dizer-lhe tudo. o campanário pontudo e a grande cruz de Tadoussac descobriram-se tendo. apareceram. de que possibilidades disporia atualmente para prejudicá-los? Sua missão não se encerrara com o fim do jesuíta. a situação desenvolvera-se de tal maneira que Joffrey de Peyrac estava se tornando o árbitro entre os povos da América do Norte: franceses. fizera em pensamento a volta do círculo. Ele estava lá. Via-o sorrir. a Benfeitora. esperava que. como a Angélica de Orlando furioso. seu irmão de infância? E. reconfortante. É provavelmente porque já nos viram e estão se preparando para recebê-la. de Arios-to. podendo perfilar-se honrosamente ao lado dos Estados coloniais semi-independentes da coroa britânica: "Você é quase como nós". na enseada. com ele e essa missão. navios ancorados. Ambrosiana. E provavelmente lhe faria os mesmos discursos que dirigia a si mesma. abrindo o fiorde negro e gelado do Saguenay. Já em Salem. tocá-lo. acorrentada a seu rochedo. O próprio país tomara um novo aspecto. vêem-se na banalidade mesquinha de sua falta de ocupação. E mandava-o para os iroqueses com a certeza de que somente ele podia deter sua fúria selvagem. trazendo Joffrey ao seu encontro. a imagem definiu-se. Ele é apenas fraco e não tem um desejo verdadeiro de justiça e de amor. — Ele está lá? Angélica não conseguia manter a objetiva de sua luneta diante do olho. da Nova França. Tadoussac estaria à vista. Depois de multiplicar suas curas. Todo mundo parece tranquilo. a Piedosa. se não desejável. E tivera a confirmação de sua importância por essa ajuda que o Governador Fron-tenac. Angélica tivera uma visão de sua influência quando vira os novos-ingleses considerá-lo um dos seus. morriam enforcadas. — É ele! Não. As altas falésias rosadas. foi tomada pelo pânico. Tantas coisas tinham-se metamorfoseado desde aquelas semanas de verão maldito! Ninguém podia mais atacar seu amor naquele momento. o equilíbrio das forças adversárias. 111 . reduzidos às rasas dimensões dos seres comuns. elevando-se. Contar-lhe-ia suas apreensões a respeito de Ambrosina. de Pey-rac e. Ele assemelhava-se a ela. a impaciência de reencontrar Joffrey intensificou-se ainda mais. Em alguns anos. Falavam dessas perseguições. as casas. ingleses e nações indígenas. esta não assustava ninguém. Angélica estava convencida disso e julgava a coisa inverossí-mil —. amaldiçoadas. Estou começando a perceber um certo tumulto. "E se ele não estiver lá? E se lhe tiver acontecido alguma desgraça com os iroqueses? Se Utakê o matou?" Via-se já sentada eternamente nas praias de Tadoussac. lhe pedira como um aliado e como um irmão no qual tivessetoda confiança. mas a cada dia sua esperança era frustrada. devia terse extinto a chama diabólica. Havia como que uma espécie de banalidade na crueza que conseguia torná-la natural. uma embarcação viesse à sua frente. esperando sua volta. através da grande extensão cinzenta do rio margeado de franjas de névoas. um pouco mais longe. com a cabeça entre as nuvens. E quando se anunciou que. depois. parece-me reconhecer o Sieur Per-rot. Ruth e Noémia não sentiam revolta. fossem de origem iroquesa ou algonquina. no início fracos e vulneráveis. Quando Angélica. ouvi-lo.

mais uma vez. ela o via destacar-se do grupo. que "ela" voltara. para Montreal. a mão da impaciência a oprimia como se um ca-taclisma súbito — a aparição de um monstro adormecido sob as águas do Saguenay. que vira iluminar os de Raimundo Rogério na primeira vez em que ele gargalhara. — Deus seja louvado! Estamos na Nova França é não na Nova Inglaterra. meu amigo". duas salvas de canhão do Arc-en-Ciel ecoaram o sinal de reconhecimento. por exemplo — pudesse retardar o instante de estar junto dele e de constatar. Era ele. ela correu para ele e jogou-lhe os braços em volta do pescoço. talvez de urn pouco de inveja. Assim que a chalupa do Arc-en-Ciel abordou. apoiados um ao outro. descendo pelo lago Mistassini. era também para seus familiares e todos aqueles que. E por quê? Porque. seu sentimento de alívio e de júbilo crescia. de sua realidade. no momento de reencontrá-lo. se era algumas vezes motivo de surpresa em seu meio. destinadas a aproximar os navios da margem. Senão. sozinha. juntos. durante essa campanha. dos desertos e das montanhas". Desconfiados de início. não. ela respirava pela metade. aquele-que-faz-troar-o-trovão. nem por algumas semanas! Ele a afastou para melhor contemplar seu rosto iluminado por uma tão. podia se escandalizar com seu entusiasmo? O amor que sentiam um pelo outro. que ela tão bem conhecia! Um corpo vivo! Um homem vivo! A cada instante em que o encontrava. sabe-se lá! Não são coisas confessáveis. ingénua e sincera alegria! Em seus olhos escuros faiscava aquele brilho alegre.duas horas no pelourinho! Adorava seu sorriso. entre os seus. as coisas estavam melhores! — E os iroqueses? — Estavam lá. pela força de seu abraço que se fechava sobre ela e a aprisionava. So uma coisa era importante: garantir-se de sua presença pela sensação do corpo dele contra o seu. sem preocupar-se com os espectadores que os cercavam. de seu calor vivo. agora que "eles" estavam de novo juntos. E quem naquele lugar. uma garantia de segurança. a dois passos de um rio que conduzia às regiões mais selvagens do mundo.— Como vê. e Utakê entregara ao Conde de Peyrac um wampum que dizia: "Este colar contém minha palavra: não farei guerra aos franceses. Teconderoga. ou entre os independentes franceses de Tadoussac. O que importava se ela não se comportava com a compustura de uma grande dama francesa! Tadoussac. Mas. em grande número. existe um fio invisível que nunca se rompe. e que viaja através dos rios. e a dúvida não foi mais possível. era exatamente o último lugar em que teria de se preocupar com a etiqueta. E seu coração disparou. dessa vez. Parecia que me esperava: "Entre nós. em vez de rejubilar-se. jurava: não o deixaria mais separar-se dela. Enquanto eles permanecerem fiéis ao homem branco de Wapassu. o sorriso do Conde de Toulouse. sua pátria. pouco a pouco adquiriram o hábito de considerá-los. um pouco caçoísta. um amuleto. Um pouco mais tarde. uma garantia de perenidade e de vitória. muitos. sentiram-se ansiosos. Utakê à frente. da rudeza da pele de seu rosto bronzeado e da doçura de seus lábios. mais uma vez. Com o olho colado à luneta. a Dama do Lago de Prata. intranqúilos. Durante toda essa viagem... alguma coisa está acontecendo! — Reconheceram-nos. seu refúgio.. e a frota nos saúda. e que os dois passavam. como costumam ser os homens de mar ou de guerra em relação a uma mulher. longe dele. que ele estava bem vivo. Mais algumas bordadas e manobras sob o vento. A dúvida não era mais possível. Teconderoga. Ah!. 112 . inúmeros cachimbos trocados. Houve confabulações. sorrindo em meio aos vivas e hurras lançados pelas tripulações e os habitantes de Tadoussac que haviam acorrido. não deixara um momento de estar presa de temores tão informes quanto injustificados. se colocaram sob a sua égide. E ali. fiel ao encontro. velho posto de peles. dar alguns passos. já teríamos merecido umas boas. Daqueles que acompanharam o Conde de Peyrac ao Sangue-nay. seu rei. Vou mandar responder de nosso bordo.. pouco à vontade.

17. 11. como teria dito Joffrey que. Certamente falaria disso com ele — nem que fosse apenas para desfrutar o prazer de ser confortada em seus braços —. As negras asas debatiam-se contra o brilho dessa luz que subia como um sol levante. por muito tempo ainda. a esperança que Angélica depositara no Novo Mundo. 23. E — paradoxalmente — Angélica nunca deixara de temer que esses mortos continuassem o combate contra ela com mais força do que se estivessem vivos! Não seria isso um pouco de "superstição poitevine" de sua parte. 4. a Favorita do Rei Angélica e o Pirata Angélica.Assim. Cativa no Harém Angélica. 20. 21. 19. 10. 8. não se mostrara ilusória. Só permaneciam na liça sombrios espíritos de dois seres de que a morte se apoderara. mas esses dois adversários irredutíveis. 9. se afastavam. que haveria outras provas a atravessar. os pássaros da infelicidade. 6.. encarniçados contra eles. Ordem ideal de leitura das aventuras de Angélica: 1. de onde não se pode mais ser expulso. Rebelde Guerreira Angélica. 5. de poder recomeçar uma vida nova. 7. acontecesse o que acontecesse. Clandestina. mas mais tarde. Apenas ela os via. 24. 22.. Pelo menos. de ver apagar aquilo que quebrara a antiga. 18. Rainha de Quebec O Inesquecível Natal de Angélica Angélica e o Perdão do Rei Angélica e as Feiticeiras de Salem O Fascínio de Angélica No próximo volume Angélica e a Estrela Mágica 113 . de encontrar um clima propício ao cumprimento de suas personalidades. se lhe contasse a intervenção de Gar-reau e os receios que tinha tido de que a Diaba não tivesse mordido em Tidmagouche. Os pássaros das trevas adejavam em volta do halo de luz de sua vida. 12. 16. A volta deles. 14. Pois ela e Joffrey tinham atingido as praias da serenidade interior e da esperança. Eles confirmavam seu pressentimento de que nem tudo estava resolvido. Os Amores de Angélica O Suplício de Angélica Angélica e o Príncipe das Trevas A Vingança de Angélica Angélica e as Insídias da Corte Angélica... 15. realmente jamais poderiam triunfar. haveria para eles muitas horas de felicidade a serem vividas... mortos ou vivos. e sabia também-que. 13. 3. 2. Maldita Angélica no Barco do Amor Angélica no Fim do Arco-íris Angélica na Floresta em Chamas Angélica e a Caçada Mortal Angélica e Seu Amor Proibido Angélica Ultrajada Angélica e a Duquesa Diabólica A Satânica Rival de Angélica Angélica e o Complô das Sombras Angélica. sorriria e zombaria gentilmente dela. suas mortes eram admiradas pelos vivos.

sequestros. vão interpor-se no caminho da Marquesa dos Anjos e sua felicidade tão sonhada.Poderia A ngélica considerar-se realmente segura da felicidade ao lado do grande amor de sua vida. fizeram da heroína uma das personagens mais famosas do mundo. em 1928. traduzidos para vários idiomas e transpostos para o cinema. lançado em 1959. já casados. em Toulon (França). 114 . Fugas.. mineralogia e química. hostilizada mais uma vezpelos inimigos saídos das sombras. enigmáticas. acerca de seu futuro? Agora que pairava a suspeita de que a diabólica Duquesa Ambrosina de Maudribourg talvez não estivesse morta. além de uma longa separação do marido. Angélica e a Estrela Mágica. Marquesa dos Anjos. foi imediato. viajara como jornalista. acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). com o dinheiro de um prémio literário. cruzara o misterioso continente em busca de ouro e diamantes... ANNE E SERGE GOLON OS AUTORES: ANNEE SERGE GOLON Serge Golonbikoff nasceu em Bukhara (URSS) em 1903 e Simone (Anne) Cnangeuse. para onde Anne. ameaças de morte. a nossa heroina viverá momentos dramáticos. As cartas. o CondeJoffrey de Peyrac? O que diriam as cartas do taro. nas mãos das feiticeiras de Salem. Angélica não tinha mais certeza de nada.. Çonheceram-se e casaram-se na Africa. sorriam sobre seu destino. Anne resolveu entrevistá-la De volta à França. em 1952. Atraída por sua fama. Estes. Serge era uma celebridade na época: formado em geologia. animando os autores a produzirem novos volumes. tiveram a ideia de escrever uma novela histórica ambientada no século XVI: Serge colhendo as informações no Arquivo de Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado já na infância. O sucesso de Angélica. No próximo volume.

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