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Livro o Cristianismo Atraves Dos Seculos

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t Prefácio do autor

O exame dos textos da história da Igreja que temos à nossa disposição revela que a maioria deles reflete um viés denominacional ou teológico. Este texto foi escrito a partir de uma perspectiva conservadora não-denominacional. Uma filosofia cristã da história está na base desta apresentação. Visto que ninguém consegue compreender a história do Cristianismo de forma efetiva sem possuir ao menos alguma concepção dos movimentos políticos, econômicos, sociais, intelectuais e artísticos de cada era da história, os eventos da história da Igreja são associados ao seu ambiente secular. A análise de pessoas, lugares, datas, eventos, idéias e tendências ou movimentos no seu contexto temporal e geográfico adequado nos ajuda a captar o fluxo da história da Igreja. Dei atenção ao impacto do Cristianismo sobre o seu tempo e à marca que o tempo deixou no Cristianismo. Tentei também associar informação, compreensão e interpretação numa síntese relevante que tem valor no presente. Após quarenta anos de uso deste texto, tanto por professores quanto por estudantes na sala de aula e pelo público cristão em geral, sinto-me imensamente grato pelo fato de a sua demanda continuada haver tornado necessária e possível uma ampla revisão da obra. Sugestões de diversas pessoas foram muito úteis para melhorar a precisão e a clareza das informações deste livro. Diversos novos mapas, quadros e diagramas foram acrescentados para ajudar na compreensão dos movimentos históricos e da associação entre eles ao longo do tempo. Foram acrescentadas também várias figuras e ilustrações novas. As bibliografias na introdução, no início de cada uma das grandes eras da história da Igreja e no final de cada capítulo foram ampliadas e atualizadas para colocar à disposição do leitor o melhor material primário e secundário. Muitas seções foram ampliadas e reescritas, por exemplo, as que tratam do escolasticismo, da reforma radical, do Catolicismo Romano e das igrejas no Oriente. O relato da era desde a Segunda Guerra Mundial foi revisado e ampliado significativamente para levar em consideração os novos desenvolvimentos, como a derrota dos governos totalitários de direita da Alemanha, Itália e Japão na Segunda Guerra Mundial e a queda do totalitarismo comunista de esquerda na Rússia e no Leste Europeu em 1989; o declínio das teologias liberal, neo-ortodoxa e radical; o surgimento do evangelicalismo, especialmente no Terceiro Mundo; o declínio do ecumenismo liberal politizado; o desafio que as organizações paraeclesiásticas e as megaigrejas apresentam às denominações; o avivamento protestante recorrente na bacia do Atlântico; a ênfase pentecostal-carismática-terceira-onda no Espírito Santo; mais poder e influência para as mulheres na Igreja; o crescimento global da Igreja apesar de severa perseguição; e um Catolicismo Romano mais aberto. Espero que por meio deste livro muitas pessoas se tornem mais conscientes da sua herança e de seus ancestrais espirituais numa época de ênfase existencialista. Também espero que sejam compelidas a servir melhor a Deus e aos seus contemporâneos por meio da vida, da palavra e de atos. Tenho plena consciência do papel que colegas, professores, estudantes, outros autores e muitas outras pessoas tiveram no desenvolvimento deste texto. Desejo que por meio dele a causa de Cristo seja promovida e a Igreja edificada. Earle E. Cairns Wheaton, Illinois

t Prefácio à nova edição em português
Ao mesmo tempo em que a Reforma explodiu na Alemanha de Lutero (e até antes), as Américas foram descobertas e o movimento missionário ibérico iniciou a sua marcha. Essa tentativa de evangelizar os índios americanos, que começou cedo na primeira metade do século xvi, tem sido muito ignorada pelos historiadores da Igreja de origem norte-atlântica. O movimento da expansão da Igreja geralmente segue a conquista do Império Romano, o surgimento do papado, a Reforma, o cruzar do Atlântico comum estudo detalhado da conversão dos Estados Unidos. Daí em diante, os textos de história falam da expansão mundial do cristianismo através das missões. Para muitos, porém, essa parte final é um pequeno capítulo. K. S. Latourette é um dos poucos historiadores do Primeiro Mundo que dedica amplo espaço às missões católico-romanas que começaram no século xvi. O terceiro volume de sua A History of the Expansion of Christianity (Uma História da Expansão do Cristianismo) dedica 500 páginas às missões católico-romanas desde o século xvi até o século xviii (Three Centuries of Advance. Grand Rapids, Zondervan, 1971). Há autores do Primeiro Mundo que têm se especializado na história latino-americana e dedicado bastante espaço à expansão da Igreja Católica Romana em suas páginas. (Cf. especialmente Lewis Hanke). Autores latinos, com a exceção de Justo L. González, não escreveram histórias gerais da Igreja. O próprio González, Enrique Dussel e a CEHILA estão iniciando a produção de amplo material sobre a história da Igreja na América Latina. Mesmo assim, permanece o fato de que os historiadores da Igreja têm passado muito por alto sobre as missões católico-romanas na América Latina. Justamente por isso, os quatro capítulos escritos pelo prof. Richard J. Sturz e acrescentados à primeira edição desta obra foram mantidos nesta nova edição, pois visam contextualizar a história para estudantes latino-americanos. O primeiro deles é um panorama da conquista ibérica das Américas, destacando a dupla busca: ouro e almas. O segundo trata do período imediatamente seguinte, e leva a história até os períodos colonial e republicano no início do século xx. A implantação do Protestantismo na América Latina nos séculos xix e xx é o tema do terceiro capítulo escrito pelo professor Sturz. O último capítulo dele é uma análise das tendências e uma modesta tentativa para indicar as direções que as igrejas estavam para tomar nas últimas décadas do século xx. As modificações introduzidas na nova edição estão comentadas de forma mais detalhada no prefácio do autor. Essa nova edição que o leitor tem em mãos é parte do projeto de revitalização das obras clássicas do catálogo Vida Nova. A edição anterior foi produzida por mais de 20 anos. Esperamos que a nova edição também continue por muitos anos a abençoar líderes e pastores, preparando-os para o trabalho do Reino. Os editores Abril de 2008

Portanto. tem sido cada vez mais influente na história da espécie humana. Diferentemente do cientista que pode estudar seu material objetiva e diretamente. e podem ser afetadas pelo bem ou pelo mal. dos . A palavra história vem do substantivo grego historia. Deus fez-se homem e viveu no tempo e no espaço na pessoa de Cristo. O historiador que vai tão longe para saber quem ou o que. A história não pode se repetir exatamente mais tarde em outro lugar. Isso leva a um terceiro significado de história como investigação ou pesquisa para estabelecer a veracidade e descobrir dados acerca do passado. um evento real. pode estar em forma de documento ou objeto relacionado ao acontecimento. porque as pessoas podem se comportar de modo semelhante em tempos e locais diferentes. A catedral de São Pedro em Roma. que acontece no tempo e no espaço como resultado da ação humana. ou seja. embora o historiador possa identificar paralelos e padrões. Os gregos. as catacumbas. como um acontecimento. I. considerar o papel do homem na história como um agente livre. genuinidade e integridade de sua informação por meio de um cuidadoso estudo do pano de fundo e do texto de seu material. desde Nabonido. uma bula papal e os mosaicos de Ravena são exemplos de história como informação.18 para descrever seu encontro com Pedro em Jerusalém. Além disso. Ela é a reconstrução subjetiva do passado à luz dos dados. o historiador está subjetivamente limitado porque faz parte de seu próprio objeto de estudo e tem de levar em consideração as ações de Deus no tempo e espaço. Induções válidas também podem ser desenvolvidas à medida que o estudioso observa o surgimento objetivo de padrões em seu material. O cristianismo tornou-se a mais global e universal de todas as religiões que surgiram no passado. Essa palavra foi usada pelos gregos da Ática e significava originariamente aprender pela pesquisa ou investigação.t Introdução A curiosidade pelo passado caracteriza o homem há muito tempo. e compreender que seus dados são indiretos. que é derivado do verbo grego historeo. Os cristãos nutrem um interesse especial pela história porque nela estão firmados os fundamentos de sua fé. O historiador testa a autenticidade. pensavam em história nesse sentido como sendo o produto da investigação. Essa informação sobre o passado. A História é uma ciência distinta com um processo de pesquisa próprio. Um segundo significado para a palavra história é informação a respeito de um acontecimento. a história da Igreja é um assunto de enorme relevância para o cristão que deseja conhecer sua herança espiritual para imitar os bons exemplos do passado e evitar os erros que a Igreja tem cometido com freqüência. ou qual o significado de seus dados. primeiramente. Assim. história pode ser definida. que usaram a palavra historikos como outro termo para história. e refere-se à história mais como evento do que como processo ou produto. tanto no Oriente Próximo quanto no Extremo Oriente. e quando e onde deve também perguntar por quê. Paulo usou o termo em Gálatas 1. até os arqueólogos e historiadores de hoje. Tal acontecimento é absoluto e objetivo e só pode ser conhecido direta e plenamente por Deus. geralmente indireta. Isso sugere um quarto significado de história como interpretação. que significa acontecer. Que é história da Igreja? O substantivo alemão Geschichte é derivado do verbo geschehen. que viveu na Caldéia no século vi antes de Cristo.

A obra do Espírito Santo na Igreja e através dela acrescenta um elemento sobrenatural à história da Igreja. literárias ou vivas. Portanto. além do fato de que ele sofre influência de seus próprios preconceitos. O papel de Deus como um ator na história inviabiliza a idéia de história como uma ciência exata. A produção de uma história da Igreja A. II. O elemento científico A história da Igreja terá um elemento científico. mostradas pelos documentos ou contadas por testemunhas oculares. mas será sempre parcial. muito embora reconheça que ninguém pode ser neutro diante dos dados. O estudo da arte das catacumbas de Roma nos ensinou muito sobre a Igreja Primitiva. O autor de uma história da Igreja terá de usar também as técnicas da crítica literária para avaliar os documentos da história da Igreja. Após esses esclarecimentos. reunidos pelo método científico a partir de fontes arqueológicas. surgirá um consenso acerca do passado. documentais ou vivas. A história como evento é absoluta. uma vez que cada um tratará do material com uma estrutura própria de interpretação. Ela é a história interpretada e organizada da redenção da humanidade e da terra. a história da Igreja é o relato interpretado da origem. ocorrendo somente uma vez no tempo e no espaço. já que o historiador eclesiástico aplica o método científico. Embora a verdade absoluta acerca do passado esteja fora do alcance do historiador. sujeita a erros e interferências de opiniões pessoais do ser humano. baseado em dados organizados. sejam elas levantadas pelo arqueólogo. mas imanente na história e na redenção. ele procurará apresentar a verdade sobre o passado objetiva e imparcialmente na medida em que seus dados o permitirem. à medida que um historiador examina o trabalho de outro. baseado em dados organizados. ou interpretação. Ele também é um agente voluntário que é parte de seus dados. Todo esse material e sua análise respondem as perguntas vitais do método histórico: quem. Essa reconstrução não consegue jamais contar o passado em todos os seus detalhes. o estudante já sabe que história pode ser evento ou acontecimento. O historiador usa o trabalho científico do arqueólogo. pesquisa e interpretação é relativa e sujeita à mudança. Ele terá de privilegiar as fontes originais. além do elemento da liberdade da vontade humana. O historiador da Igreja deve ser tão imparcial na coleta de dados históricos quanto o historiador secular. mas história como informação. do pensamento de seu tempo e das idéias de grandes homens. informação. quando e onde. mas não resultará em ciência exata porque as informações sobre os acontecimentos do passado em que ele se baseia podem ser incompletas ou falsas. Deus é transcendente na criação. . pesquisa ou processo e produto. o que.16 O Cristianismo através dos séculos pressupostos do historiador e do “clima da opinião” de sua época. Entretanto. que revela informações a partir dos vestígios do passado que encontra em suas escavações. As duas últimas perguntas são importantes para o historiador porque os eventos históricos são condicionados pelo tempo e pelo espaço. reunidos pelo método científico a partir de fontes arqueológicas. progresso e impacto do cristianismo sobre a sociedade humana. A história pode ser definida como relato interpretado do passado humano socialmente importante. Geralmente. O trabalho do historiador é científico quanto ao método. é esse o tipo de história ensinada em sala de aula.

já estas procuram relacionar os dados a um supremo ou absoluto eterno.Introdução 17 B. um importante filósofo contemporâneo da história. A escola biográfica ou do “grande homem” é ilustrada pela obra de Carlyle sobre Cromwell. ao contrário de Spengler.2 ilustra bem esse tipo de interpretação. Outro otimista. Estudando apenas a história “debaixo do sol”. adolescência. esses historiadores adotam uma interpretação materialista da realidade. William W. acreditava que toda civilização marcha para uma meta: a terra como uma província do Reino de Deus. Toynbee (1889-1975). em que a Guerra Civil Inglesa de meados do século xvi surge como um reflexo de Cromwell. Morrerá logo. Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). fez da geografia da fronteira o fator determinante. Spengler interessava-se mais pelas civilizações do que pelas nações. The Decline of the West (O Declínio do Ocidente). Aquelas procuram encontrar uma causalidade objetiva e científica no homem. Porém.1 de Max Weber. A civilização ocidental. Apesar de sua abordagem claramente espiritual da história. A obra de Arnold J. A obra de Oswald Spengler (1880-1936). 1930. ilustra esse tipo de interpretação. Nova York. Esses intérpretes da história procuram as causas da história no homem. é um exemplo da escola econômica de interpretação. ele aceitava a crítica bíblica contemporânea e a teoria da evolução. o famoso filósofo alemão do século xix. constituem três das mais importantes escolas de história. Knopf. Nova York. na qual ele alega que o Protestantismo levou ao surgimento do capitalismo. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. maturidade. Scribner. O progresso ocorre por um processo em que sucessivas séries de contradições se harmonizam até que o Absoluto se manifeste plenamente na história. Sweet. Suas interpretações podem ser simbolizadas por uma série de ciclos idênticos sobrepostos um ao outro. dizia ele. em que o tempo é cíclico. 1939. Toynbee concordava com Spengler acerca da importância de se estudar a história das civilizações. decadência e morte. As filosofias da história podem ser divididas em três categorias para facilitar a compreensão: 1. passa por um ciclo de nascimento. Em geral aceitam a evolução biológica e social e vêem o tempo como linear. Sua leitura da história pode ser simbolizada por um gráfico ascendente de níveis crescentes de uma espiral. 2. Obcecados com a idéia de fracasso do homem. O elemento filosófico Os historiadores se dividem em escolas de história e filosofias da história conforme o significado que buscam na história. . Os deterministas geográficos e econômicos. e com ela morrerá também o cristianismo. da escola de interpretação da história da Igreja denominada “de fronteira”. Em seus livros sobre a história da Igreja Americana. natureza ou processo em função do tempo. Um grupo pode ser chamado de pessimista. Um segundo grupo pode ser classificado de otimista. na natureza ou no processo. a mais nova das civilizações. junto com os biógrafos. 1 2 1904 reimpr. São obcecados pelo fracasso do homem na história. Cada civilização. está em seu período de decadência. pensadores como Spengler não vêem qualquer progresso na história. A maioria dos intérpretes otimistas é humanista: eles vêem o homem como o fator principal e determinante da história. via a história como o desdobramento do Espírito Absoluto no desenvolvimento da liberdade humana.

Os otimistas pessimistas abordam a história como teístas bíblicos e procuram encontrar a glória de Deus no processo histórico. os alunos muitas vezes vêem a história como uma recitação monótona de dados desconexos. III. quando Cristo retornar. em que o autor se coloca. pode ser descrito como o dos otimistas pessimistas. O terceiro grupo de intérpretes. ao contrário de favorecer a nação germânica. 3 Grand Rapids. inclusive a religião. Por isso. ele rejeitou a interpretação que este fazia da realidade. a graça que flui dela opera na Igreja Cristã. também pertencia à escola otimista. Esses historiadores concordam com a ênfase dos pessimistas no fracasso do homem não-regenerado. são otimistas em relação ao futuro do homem. God and Man in Time (Deus e o Homem no Tempo). entre Deus e o Diabo. A história torna-se um processo de conflito entre o bem e o mal.18 O Cristianismo através dos séculos Outro pensador do século xix. o Corpo invisível de Cristo. o historiador deve procurar ser o mais artístico possível na sua apresentação dos fatos. O elemento artístico Finalmente. .3 é uma tentativa contemporânea de dar um enfoque cristão à história. A Cidade de Deus. uma defesa e uma exposição do cristianismo por Agostinho (354-430) um dos Pais da Igreja. porém. 3. Os cristãos. com a força divina que os fortalece. Os historiadores modernos não têm se empenhado em fazer uma apresentação literariamente agradável da história como deveriam. assim como Toynbee e Hegel. Baker. como em Marx. 1979. à luz da revelação e da graça divina. A obra de Cristo na cruz é a garantia final da vitória certa do plano divino para o homem e para a terra. embora muitos cristãos não concordem com a identificação do atual período da Igreja com o Milênio. ilustra bem essa interpretação. uma série de lutas de classe culminaria na vitória dos operários e no estabelecimento de uma sociedade sem classes. Observe-se que. Karl Marx (1818-1883). Os antigos historiadores tinham grande apreço pelos valores pragmáticos. Marx propôs que a matéria em movimento é a única realidade e que todas as instituições humanas. Agostinho sustenta que o curso da história humana tem o seu centro na cruz. C. A extensão ou escopo da filosofia da história em Agostinho abrange toda a espécie humana. colocam-se ao lado de Deus na luta contra o mal até que a história alcance a sua consumação no retorno de Cristo. Meu livro. Para ele. A majestade da concepção agostiniana reside na sua atribuição da criação ao Deus soberano. Apropriando-se da lógica de Hegel. O valor da história da Igreja A história da Igreja será apenas um enfadonho exercício acadêmico de recordação dos fatos se não se descobrir o seu valor para o cristão. o que não caracteriza a maioria dos historiadores modernos. no qual o homem não tem nenhuma esperança à parte da graça de Deus. ou a classe operária. Marx enfatizava o poder do homem para redimir-se a si mesmo e ao mundo. são determinadas pelos processos econômicos de produção. didáticos e morais da história. O estudante consciente dos valores apreendidos no estudo da história da Igreja Cristã tem bons motivos para se interessar por essa área particular da história humana. como em Hegel.

Assim. e a proclamação e aplicação futura desse Evangelho numa síntese atual que nos ajuda a compreender nossa grande herança e a inspiração para sua proclamação e aplicação posterior. em 325. durante muito tempo. os presbiterianos recebem a ceia assentados. A resposta à intrigante questão da presença de várias centenas de grupos religiosos nos Estados Unidos pode ser encontrada na história da Igreja. começando com o controle do Concílio de Nicéia por Constantino. A história da Igreja mostra o Espírito de Deus em ação através da Igreja durante os séculos de sua existência. O princípio de separação surgiu bem cedo na história da Igreja e se acentuou com a Reforma. Tennyson. Os problemas contemporâneos da Igreja são muitas vezes esclarecidos pelo estudo do passado. C. Os seguidores da fé reformada ou presbiteriana terão prazer em traçar a origem de sua Igreja desde a Suíça. em seu poema Ulysses. O metodista se interessa pelos primórdios de sua igreja no reavivamento wesleyano que acabou provocando a separação do Metodismo da Igreja Anglicana. A relação entre a Igreja e o Estado tornou-se novamente problemática na Rússia e em seus estados satélites. B. É interessante remontar ao passado da Igreja Episcopal Protestante e ver na luta entre o poder real e o papado a origem da Igreja Anglicana. pois existem padrões e paralelos na história. Crenças e práticas litúrgicas diferentes são mais facilmente compreensíveis à luz da história. A história da Igreja como um guia A reparação dos males existentes na Igreja ou a capacidade de evitar erros e práticas equivocadas é outra utilidade do estudo do passado da Igreja. O presente é certa- . foram uma igreja dentro da Igreja Anglicana e seguiam seus costumes litúrgicos. A teologia exegética está intimamente ligada à teologia prática na medida em que o estudante percebe o impacto da teologia sistemática sobre o pensamento e a ação humana no passado. tornamo-nos conscientes de nossa herança espiritual. A história da Igreja como um auxílio para a compreensão do presente A História da Igreja é também valiosa como explicação do presente. A história da Igreja como uma síntese Um dos valores fundamentais da história da Igreja é a correlação que ela faz entre os dados factuais do passado do Evangelho.Introdução 19 A. O perigo intrínseco da união entre Igreja e Estado através do apoio deste a escolas paroquiais e do envio de embaixadores ao Vaticano é esclarecido pelo lento declínio da espiritualidade na Igreja e pela interferência do poder temporal nos círculos eclesiásticos. Os metodistas se ajoelham diante do altar para a ceia porque. nos relembra que “somos uma parte de tudo que encontramos”. A recusa de muitos ditadores modernos em permitir que o seu povo tenha interesses particulares independentemente de sua vida pública no Estado é mais fácil de ser compreendida quando lembramos que os imperadores romanos achavam que quem tivesse uma religião pessoal estava ameaçando a existência do Estado. e é de se esperar que o Estado venha a perseguir os cristãos assim como fizeram Décio e Diocleciano. Podemos compreender melhor o presente se conhecemos as suas raízes no passado. Por sua vez. As diferenças entre as teologias metodista e presbiteriana ficam mais evidentes quando se estudam as doutrinas de Calvino e de Armínio.

Ninguém estuda a brava postura de Ambrósio de Milão. Ao mostrar o desenvolvimento genético do cristianismo. O aspecto biográfico da história da Igreja é algo que inspira e desafia o estudante. A excelente Igreja na antiga Cartago. pois vemos o poder de Deus operando através da vida de pessoas transformadas pelo evangelho.4). O estudo da Igreja Católica Romana na Idade Média revelará o perigo do eclesiasticismo contemporâneo que parece insinuar-se no Protestantismo. nem a teologia falsa conseguem resistir à força perene da renovação que se observa na história dos reavivamentos na Igreja. Novas seitas aparecem geralmente como velhas heresias travestidas. Há também edificação quando alguém toma consciência de sua árvore genealógica espiritual. A história da vida de Carey foi e continua sendo uma inspiração para a obra missionária. O estudo da história da Igreja exerce uma influência estabilizadora numa época de secularismo. nem a incredulidade interna. A Ciência Cristã pode ser mais bem compreendida quando estudamos o gnosticismo na Igreja Primitiva e as idéias dos albigenses nos tempos medievais.11 que os eventos do passado devem nos ajudar a evitar o mal e imitar o bem. ao recusar a ceia ao imperador Teodósio até que ele se arrependesse do massacre da multidão tessalônica. sem se sentir encorajado a lutar por Cristo contra o mal presente nos altos círculos políticos ou eclesiásticos. os nestorianos na China do século vii e a Igreja Católica Romana no Japão do século xvi desapareceram. O sentido de unidade que surge do conhecimento da continuidade da história produzirá enriquecimento espiritual. inspiração ou entusiasmo. D. mas é impossível não nos sentirmos inspirados pela forma apaixonada como ele aplicou o Evangelho aos problemas sociais. A história da Igreja como uma força motivadora A história da Igreja também oferece edificação. A ignorância da Bíblia e da história da Igreja é a razão principal por que muitos enveredam por falsas teologias e por práticas erradas. devemos lembrar que a Igreja pode ser destruída em uma área particular por causa da decadência interna ou por uma intolerável pressão externa. Podemos não concordar com a teologia de Rauschenbusch. Nem a perseguição externa. mas não os usam como deveriam.6. Paulo acreditava que o conhecimento do passado traria esperança à vida cristã (Rm 15. ele se sentirá parte do Corpo de Cristo. que estimulam uma vida espiritual elevada. um Wesley e um Booth. Desse modo. A disposição e a força que capacitaram Wesley para pregar mais de dez mil sermões e viajar milhares de quilômetros a cavalo são uma repreensão e um desafio aos cristãos que dispõem de meios muito melhores que Wesley para viajar e estudar. Paulo nos lembra em 1Coríntios 10. um Lutero. um Bernardo de Claraval. Entretanto. que inclui um Paulo. .20 O Cristianismo através dos séculos mente o produto do passado e a semente do futuro. É tão necessário para o cristão conhecer sua genealogia espiritual quanto o é para o cidadão estudar a história de seu país para exercer sua cidadania de forma consciente. a história da Igreja está para o Novo Testamento assim como o Novo Testamento está para o Antigo. O cristão precisa conhecer os principais contornos do crescimento e progresso do cristianismo tão bem quanto conhece a doutrina bíblica. um Agostinho. Mesmo os historiadores seculares reconhecem que o reavivamento wesleyano foi o instrumento que salvou a Inglaterra de uma revolução semelhante à francesa. Quem estiver preocupado com o futuro da Igreja nos países onde ela é perseguida ficará mais esperançoso à medida que perceber a indestrutibilidade da Igreja em tempos passados.

em 1801. Se ele procura avisar contra os perigos de uma ortodoxia desligada do estudo e da aplicação dos ensinos da Bíblia. Tenho verificado com prazer como a teologia sistemática tem se tornado mais fácil de entender quando o aluno estuda seu desenvolvimento histórico. pois perceberá a unidade do verdadeiro Corpo de Cristo ao longo dos séculos. mas que. As doutrinas da Trindade. Os esforços de déspotas ao longo dos séculos para eliminar a religião cristã redundam sempre na substituição desta por alguma religião falsa. do pecado e da soteriologia nunca serão compreendidas de forma adequada sem um conhecimento da história do período que vai do Concílio de Nicéia ao Concílio de Constantinopla. um movimento que destacou o estudo sincero da Bíblia e a prática da piedade na vida diária. Divisões da história da Igreja Por uma questão de conveniência. Ninguém poderá entender como se inverteu na política francesa a situação criada pela Constituição Civil do Clero em 1790 para a situação criada pela Concordata de Napoleão.3 e 1Coríntios 15. bem como o ambiente secular da Igreja. ensinadas por Paulo em Atos 17. Se ele quiser alertar sobre os perigos de um misticismo cego que coloca a iluminação cristã no mesmo nível da inspiração da Bíblia. que criou uma reação conhecida como pietismo. O aluno que estuda com afinco a história da Igreja também encontra em seu conteúdo um farto material para ilustrar seus sermões. em 680. a história da Igreja pode ser organizada a partir dos seguintes tópicos: 1. pastor ou professor. aceitam as grandes doutrinas básicas da fé. então deverá estudar os movimentos místicos da Idade Média ou os primórdios do movimento quacre. Quem estuda a história da Igreja jamais se isolará em sua denominação. A história do homem não pode ser divorciada da história de sua vida religiosa. deram aos seus sistemas um elemento religioso.Introdução 21 E. A história da Igreja como força libertadora Finalmente.4. Ele também se tornará mais humilde ao encontrar os gigantes da sua herança espiritual e perceber o quanto lhes deve. Tanto Hitler como Stalin. ao enfatizarem a raça e a classe social. A história da civilização ocidental é incompleta e ininteligível sem a compreensão do papel da religião cristã no desenvolvimento dessa civilização. O elemento político envolve as relações entre a Igreja e o Estado. sem saber como Napoleão destruiu o elemento democrático da Revolução Francesa e criou um novo sistema autoritário em . como ele. de Cristo. Ele se tornará mais tolerante para com aqueles que dele diferem em questões não-essenciais.2. como a morte vicária e a ressurreição de Cristo. A organização da história da Igreja A. seja ele ou ela evangelista. A história da Igreja como uma ferramenta prática A leitura da história da Igreja tem muitas utilidades práticas para o obreiro cristão. a história da Igreja tem um valor cultural. IV. deve atentar para o período da fria ortodoxia no luteranismo a partir de 1648. F.3.

A polêmica. 3. 2.22 O Cristianismo através dos séculos que a Igreja (Católica Romana) era a única que contava. 7. A vida familiar. O cristianismo não continuaria crescendo se parasse de atentar para o problema da apresentação da verdade. arquitetura. A maioria dos sistemas teológicos nasceu num período de luta para enfrentar as necessidades existentes. sociais. uma vez obtida a formação básica necessária. A história de missões tem seus heróis e mártires e é parte integrante da história da Igreja. arte e pregação. A natureza essencialmente pessoal da propagação do cristianismo e as possibilidades ilimitadas de uma igreja fiel a seu Senhor se evidenciam num estudo da propagação da fé. Essas informações serão dadas quando forem apropriadas. mostrando as heresias em que incorriam os vários tipos de gnosticismo. Para interpretar corretamente a história da Igreja é necessário compreender as forças políticas. Outra seção de nosso estudo poderia ser chamada de práxis. através dos presbíteros (presbiterianismo). ou o pensamento de Ireneu. organizada a um nível imperial por Décio e Diocleciano. embora nem todos sejam discutidos detalhadamente em todos os períodos. . A apresentação trata do estudo do sistema educacional da Igreja. A disciplina e as formas de adoração (liturgia) estão ligadas a esse ponto. O estudo das perseguições revela a veracidade da afirmação de Tertuliano de que “o sangue dos cristãos é a semente” da Igreja. Esse capítulo da história da Igreja. que foi realizada primeiro contra o estado político-eclesiástico judeu. sejam os escritos de Justino Mártir. é um aspecto importante da história da Igreja. 4. 5. É o estudo do governo da Igreja. Essa propagação provocou. a perseguição à Igreja. sua hinologia. econômicas e artísticas em operação na história. por ser a religião da “maioria dos franceses”. Integram esse tópico também o estudo da posição do ministro e a evolução da distinção entre o clero e o laicato. através da congregação num sistema de democracia mais direta do que representativa (congregacionalismo) ou através de qualquer sistema elaborado a partir desses três. que envolve o estilo de vida da igreja. que se refere à luta da Igreja para combater a heresia e manter firme a sua própria posição. de credos e da literatura cristã em resposta às heresias. por considerar o trabalho prático na vida do cristão. além da história das estratégias adotadas na comunicação do Evangelho. As épocas entre 325 e 451 e entre 1517 e 1648 se caracterizam pela presença da polêmica. A administração é outro capítulo da história da Igreja. 6. integrada ao sistema muçulmano e ressuscitada pelos estados totalitários seculares de hoje. A propagação da fé cristã não pode ser ignorada. a obra social e a influência do cristianismo sobre a vida diária são partes desse capítulo da história da Igreja. Calvino desenvolveu seu sistema teológico na intenção de criar uma teologia bíblica que não apresentasse os erros do Catolicismo Romano. em muitas circunstâncias. Ela envolve o estudo de missões estrangeiras. Cada um deles pode ser o tema central de estudos fascinantes para os que se interessarem em fazê-lo pessoalmente. respondendo à argumentação de que o Estado era tudo na vida. liturgia. missões nacionais e missões urbanas. A literatura dos Pais da Igreja é um campo extremamente rico para o estudo da polêmica. longe de desencorajar. observando se é feito através dos bispos (episcopado). Ela envolve o estudo das heresias adversárias e da formulação de doutrinas. Cada um desses capítulos será discutido nas áreas em que cada um for mais importante. mostra que a Igreja fez seus maiores progressos nos períodos de perseguição ou imediatamente subseqüentes.

Por essa razão. então. porém.C. e o início do sistema Católico Romano. Os mártires e os apologistas deram a resposta da Igreja a esse problema externo. a atenção será dada ao ambiente em que a Igreja nasceu. . A Luta pela sobrevivência da antiga Igreja Católica Imperial. Logo ela se viu dominada pelo Estado. Nessa época. a periodização da história da Igreja é apenas um recurso artificial para colocar os dados da história em segmentos facilmente perceptíveis e ajudar o estudante a guardar os fatos essenciais. O povo do Império Romano não foi dormir uma noite na Antiguidade e acordou na manhã seguinte na Idade Média. Existe uma transição gradual de uma certa visão da vida e atividade humana que caracteriza uma era da história para uma nova visão que caracteriza outra era. ajuda a estudar um segmento de cada vez e apresenta a visão de mundo daquele período específico. Períodos da história da Igreja O estudante deve se lembrar que a história é uma “túnica inconsútil”. a Igreja teve sua existência constantemente ameaçada pela oposição de fora: a perseguição pelo Estado romano. em parte. como protesto contra a crescente mundanização da igreja institucional e visível. a Antiga Igreja Católica Imperial transformou-se na Igreja Católica Romana. O crescimento gradual do cristianismo nas fraldas do judaísmo e a ruptura desses laços no Concílio de Jerusalém antecedem a pregação do Evangelho aos gentios por Paulo e outros. 100-313 Nesse período. foram a conseqüência natural das disputas teológicas. Os escritos dos Pais da Igreja de origem grega e latina.C. e também a emergência do cristianismo como uma seita separada do judaísmo.Introdução 23 B. que incluía regiões da Ásia. O centro de atividade era a bacia do Mediterrâneo. A construção do alicerce da Igreja com base na vida. e o bispo de Roma tornou-se mais poderoso. Maitland quis dizer que a história é uma seqüência contínua de eventos dentro da estrutura do tempo e do espaço. que teve uma resposta cristã por parte dos polemistas. Os imperadores romanos queriam uma doutrina unificada a fim de unificar o Estado e salvar a cultura greco-romana. O Avanço do Cristianismo no Império até 100 Nessa seção. 5 a. morte e ressurreição de Cristo e sua fundação entre os judeus são importantes para se compreender a gênese do cristianismo. Com essa expressão. não tinham conseguido criar um corpo de doutrina no período da perseguição. O primeiro período da história da Igreja revela a evolução da Igreja Apostólica para a Antiga Igreja Católica Imperial. História da Igreja Antiga. o ofício de bispo foi fortalecido. África e Europa. é conveniente organizar a história cronologicamente. A Supremacia da antiga Igreja Católica Imperial. em parte. um longo tempo de controvérsias doutrinárias. — 590 d. Ao término do período. Será ressaltado também o papel fundamental dos apóstolos nesse período. Os cristãos. Como a divisão da história em períodos auxilia a memorização. A Igreja também enfrentou o problema interno da heresia. O monasticismo surgiu. autores de inclinação mais científica. Seguiu-se. como reação e. 313-590 A Igreja enfrentou os problemas decorrentes de sua conciliação com o Estado sob Constantino e sua união com o Estado na época de Teodósio. A Igreja operava dentro do ambiente cultural da civilização greco-romana e do ambiente político do Império Romano.

A catedral gótica era a expressão da visão sobrenatural e transcendental do período e fornecia uma “Bíblia de pedra” para os fiéis. levada à Europa pelos árabes da Espanha. c.24 O Cristianismo através dos séculos História da Igreja Medieval. Avanços e retrocessos nas relações entre Igreja e Estado. o Islamismo. para as margens do Atlântico. A Igreja Ortodoxa Grega. o Império Carolíngio de Carlos Magno. 1023-1085) e Inocêncio iii (1160-1216). os reformadores de Cluny tentaram corrigir os males dentro da própria Igreja Romana. Ao fazer isso. 800-1054 O primeiro grande cisma da Igreja aconteceu nesse período. A recusa da Igreja Católica Romana em aceitar a reforma interna tornou possível a Reforma. O surgimento do Império e do Cristianismo Latino-Teutônico. Por essa época. isto é. Lentamente. A Supremacia do papado. Esse foi um período de pesadas perdas. A Igreja Romana seria apeada desse poder no período seguinte. diante das levas migratórias das tribos teutônicas. As cruzadas trouxeram prestígio para o papado. sem muito sucesso. que tomou muitos de seus territórios na Ásia e na África. foi integrada ao cristianismo por Tomás de Aquino (1224-1274) numa catedral intelectual que se tornaria a expressão máxima da teologia Católica Romana. A Igreja Medieval. 1305-1517 Tentativas internas de reformar um papado corrupto foram feitas pelos místicos. tais como os místicos João Wycliffe e João Huss. Tentativas de reforma foram feitas também por reformadores primitivos. 590 — 1517 O palco da ação nesse período muda do sul para o norte e oeste da Europa. seguiu seus próprios caminhos com base na teologia criada por João de Damasco (c. A filosofia grega de Aristóteles. desenvolvendo o sistema sacramental-hierárquico que caracteriza a Igreja Católica Romana. A Igreja Ocidental nessa época feudalizou-se e procurou. O declínio medieval e o nascimento da Era Moderna. desenvolver uma política de relações entre a Igreja Romana e o Estado que fosse aceita tanto pelo papa quanto pelo Imperador. 675-c. A expansão geográfica do mundo. 749). lutou para trazê-las ao cristianismo e fundir a cultura greco-romana e o cristianismo com as instituições teutônicas. conseguindo forçar uma supremacia sobre o Estado pela humilhação dos soberanos mais poderosos da Europa. . depois de 1054. a aliança entre o papa e os teutões concretizou-se na organização da sucessão teutônica do velho Império Romano. 1054-1305 A Igreja Católica Romana medieval chegou ao clímax do poder sob a liderança de Gregório vii (Hildebrando. 590-800 Gregório I (540-604) empenhou-se muito na tarefa de evangelizar as tribos teutônicas invasoras do Império Romano. no século viii. por concílios reformadores e por humanistas bíblicos. que lutaram para personalizar uma religião que se tornara institucionalizada demais. A Igreja Oriental nesse período enfrentou a ameaça de uma religião rival. o surgimento das nações-estado e a emergência da classe média eram forças externas que não tolerariam mais uma Igreja corrupta e decadente. a Igreja medieval centralizou ainda mais sua organização debaixo da supremacia papal. a nova visão intelectual secular da realidade na Renascença. Monges e frades espalharam a fé romana e reconverteram dissidentes.

seja na ordenação ao ministério ou em missões. uma força de 1875 a 1929. Missões e Modernismo. América Latina e África. Por meio dos movimentos de contra-reforma do Concílio de Trento. Está ocorrendo um grande crescimento da Igreja através da fundação de megaigrejas e da evangelização em nações asiáticas da região da borda do Pacífico. o pietismo na Europa continental mostrou ser a resposta à fria ortodoxia.Introdução 25 História da Igreja Moderna. 1789-1914 Na primeira parte do século xix. em alguns casos. Como resultado. deu lugar à neo-ortodoxia e seus sucessores mais radicais. as idéias calvinistas da Reforma chegaram à América do Norte através dos puritanos. a fusão orgânica de denominações e a confederação de igrejas estão gerando uma coordenação ecumênica mundial. A reunião pela cooperação em agências não-denominacionais. as forças destrutivas do racionalismo e do evolucionismo levaram a uma “ruptura com a Bíblia” que se manifestou no liberalismo religioso. O cristianismo tornou-se uma religião universal e global em 1995. Racionalismo. 1648-1789 Durante esse período. 1517 e depois Esse período foi iniciado por cismas que deram origem às igrejas oficiais protestantes e à divulgação universal da fé cristã pela grande onda missionária do século xix. o papado conseguiu deter o avanço do Protestantismo na Europa e ter vitórias nas Américas do Sul e Central. calvinista e anabatista. O palco da ação não era mais o mar Mediterrâneo nem o oceano Atlântico. Mais tarde. mas divergem em outros menos importantes estão rapidamente substituindo as igrejas liberais dos ramos tradicionais. outros se separaram e se transformaram em denominações autônomas. 1517-1648 As forças de revolta contidas pela Igreja Romana no período anterior irromperam nesse período. mas o mundo. A Igreja e a Sociedade em tensão desde 1914 A Igreja em grande parte do mundo enfrenta o problema do Estado secular e totalitário e. Sua contraparte protestante foi um reavivamento que criou um amplo movimento missionário no estrangeiro e provocou uma reforma social interna nos países europeus. Reforma e Contra-Reforma. anglicana. houve um reavivamento do catolicismo. O liberalismo. o Estado sob uma forma democrática dividida entre a guerra e o bem-estar social. e novas igrejas protestantes nacionais surgiram: a luterana. A Inglaterra legou à Europa um racionalismo cuja expressão religiosa era o deísmo. Só depois do Tratado de Westfália (1648). o papado foi obrigado a tratar da reforma. Os evangélicos que concordam em aspectos teológicos gerais. os dois lados se acalmaram para consolidar suas conquistas. Tempos de Reavivamentos. sua expressão na Inglaterra foram os movimentos quacre e wesleyano. Embora alguns movimentos tivessem preferido permanecer o máximo possível dentro das igrejas nacionais. que pôs fim à triste Guerra dos 30 anos. dos jesuítas e da inquisição. . Muitas denominações estão dando posições de maior destaque às mulheres. nas Filipinas e no Vietnã e experimentou uma renovação. Por outro lado. Reavivamentismo e Denominacionalismo.

t Cronologia da História da Igreja .

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C.História da Igreja Antiga 5 a. 313-590 . — 590 d. 100-313 A Supremacia da Antiga Igreja Católica Imperial. O Avanço do Cristianismo no Império até 100 A Luta pela Sobrevivência da Antiga Igreja Católica Imperial.C.

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Esse povo. desenvolveram um senso de unidade da humanidade sob uma lei universal. A lei romana se originava da lei 1 Veja também a Epístola a Diogneto. Paulo chama a atenção para a era histórica da preparação providencial que antecedeu a vinda de Cristo à terra em forma humana: “Vindo a plenitude dos tempos. Contra Celso.. como nenhum outro povo até então. esquece-se que não apenas os judeus. foi usado por Deus. dos cultos de mistérios e do culto ao Imperador. caps. mas também os gregos e os romanos. em que há a mesma idéia. a Igreja Cristã. e Orígenes. nem mesmo o império de Alexandre. seguidor do caminho da idolatria.” Marcos também indica que a vinda de Cristo aconteceu quando tudo já estava preparado na terra (Mc 1.4..1 O estudo dos eventos que antecederam o aparecimento de Cristo sobre a terra faz com que o estudante equilibrado reconheça a verdade das afirmações de Paulo e Marcos. I. Nenhum império do antigo Oriente Próximo. Deus enviou seu Filho.15). A aplicação da lei romana aos cidadãos de todo o Império era imposta diariamente a todos os cidadãos e súditos do Império pela justiça imparcial das cortes romanas. A unidade política seria a contribuição particular de Roma. 8—9. a quem ignoravam. tinha conseguido dar aos homens um sentido de unidade numa organização política. . 2. 1. contribuíram para a preparação religiosa para a vinda de Cristo.30. baseada no fato de que todos os homens estavam sob a pena do pecado e que a todos era oferecida a salvação que os integra num organismo universal.O Avanço do Cristianismo no Império até 100 t Capítulo 1 A plenitude dos tempos Em Gálatas 4. Na maioria das discussões sobre esse assunto. Os gregos e romanos ajudaram a levar o desenvolvimento histórico até o ponto em que Cristo pudesse exercer o impacto máximo sobre a história de uma forma até então impossível. para cumprir a sua vontade. Os romanos. Esse senso de solidariedade do homem no Império criou um ambiente favorável à aceitação do evangelho que proclamava a unidade da espécie humana. Contribuições políticas dos Romanos A contribuição política anterior à vinda de Cristo foi basicamente obra dos romanos. O ambiente A. o Corpo de Cristo.

32 História da Igreja Antiga. impedia a circulação e a propagação de idéias. Os romanos de inclinação filosófica explicavam essas semelhanças pelo uso do conceito grego de uma lei universal cujos princípios foram escritos na natureza do homem e podiam ser descobertos por um processo racional. 2. Mitra era o deus da tornou mais fácil para os priluz e da sabedoria. 5 a.C.). que era encarregado de julgar os casos que envolviam estrangeiros. desse modo. Assim. O Império Romano reunia todo o mundo mediterrâneo que contava na história de então. A seita era popular entre os soldados romanos. que matou o touro sagrado. A movimentação livre em torno do mundo mediterrâneo teria sido muito difícil para os mensageiros do Evangelho antes de César Augusto (27 a. à medida que o praetor peregrinus. cidadesestado ou tribos. com sua ênfase na dignidade do indivíduo. que eram parte essencial na educação de todo garoto romano. Um passo adicional no estabelecimento da idéia de unidade foi a concessão de cidadania romana aos não-romanos. ao anunciar a pena do pecado e o Salvador do pecado. Pompeu tinha varrido os piratas do Mediterrâneo. . baseado no costume romano. África e Europa. além de sua tendência a agrupar homens de raças diferentes numa só organização política. ético. Esse mundo relativamente pacífico Mitraísmo. se familiarizava com os sistemas legais dessas nações. A divisão do mundo antigo em grupos.20). foi enriquecido pelas leis de outras nações. — 590 d. Com o aumento do poderio imperial romano no período da expansão imperial. no século v antes de Cristo. Do corpo moribunmeiros cristãos ir de um lugar do do touro saíram todos os espécimes bons da fauna e da flora.C.C. A compreensão de que os grandes princípios da lei romana estavam presentes também nas leis de todas as nações tornou-se cada vez mais evidente para os romanos. ocorreu uma era de desenvolvimento pacífico nos países ao redor do Mediterrâneo. quando Caracala concedeu a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano. antecipou um Evangelho que proclamava a unidade da espécie. uma religião da antiga Pérsia e Índia. pequenos e enciumados um do outro. essa lei foi codificada nas Doze Tábuas. e os soldados romanos mantinham a paz nas estradas da Ásia. todos os homens estavam debaixo de um único sistema jurídico e eram cidadãos de um só reino.14 d. para todos os propósitos práticos. pregando o evangeimortalidade era recebida através de rituais e de um rigoroso sistema lho a todos os homens. A lei romana. Esse processo foi iniciado no período anterior ao nascimento de Cristo e foi completado em 212. A para outro. Paulo lembrou aos da igreja filipense que eles eram membros de uma comunidade celestial (Fp 3. consuetudinária da antiga monarquia. e no direito deste à justiça e à cidadania romana.C. Durante os primeiros anos da república. o código das Doze Tábuas.

Átis. os substitutos que Roma tinha a oferecer em lugar das religiões perdidas nada mais podiam fazer além de levar os povos a compreenderem sua necessidade de uma religião mais espiritual. além de outras coisas.5). Por causa da influência dessas religiões. Elas passavam por montes e vales até chegarem aos pontos mais distantes do Império. que surgiu cedo na Era Cristã. ele estava livre para seguir outras religiões se assim desejasse. as exigências que o cristianismo apresentava aos indivíduos não pareciam tão estranhas. Os romanos adotavam a prática de usar habitantes das províncias no exército como forma de suprir a falta de cidadãos romanos causada pelas guerras e pelo conforto da vida. deve ser lembrado que a Igreja Primitiva lutou contra essas religiões e recusou-se a ter qualquer contato com elas (1Co 8. 5. A adoração de Cibele. com sua ênfase na morte e ressurreição. foi porque os cristãos se opuseram a misturar o cristianismo com qualquer outra religião que eles foram severamente perseguidos pelo Estado Romano. Além disso. Basta ler as diversas apologias para descobrir que foram as reivindicações de lealdade exclusivista do cristianismo sobre a vida do indivíduo que geraram a perseguição severa. um deus-salvador — além de capelas e cultos de adoração. Um estudo das viagens de Paulo mostra que ele se serviu muito desse ótimo sistema viário para atingir os centros estratégicos do Império Romano. foi trazida da Frígia para Roma. O culto de Cibele conclamava seus adoradores ao sacrifício de um touro e o batismo de seus seguidores com o sangue desse touro. a grande mãe terra. Além disso. Todas essas religiões enfatizavam o deus-salvador. Assim é fácil ver o quão impossível teria sido para Paulo sintetizar o cristianismo com qualquer outra religião predominante daquela época. A adoração dessa deusa da fertilidade tinha ritos tais como o drama da morte e ressurreição do consorte de Cibele. Conquanto que um cidadão romano cumprisse as obrigações para com o culto ao Imperador. Tais povos foram deixados num vácuo espiritual que não estava sendo satisfeito pelas religiões de então. De acordo com eles. As conquistas romanas levaram muitos povos a perder a fé em seus deuses. . O mitraísmo possuía. As estradas principais eram construídas para durar séculos. Essa ação estava em contraste acentuado com a tendência romana ao sincretismo.A plenitude dos tempos 33 3. não faria concessões na sua ética e teologia. teve aceitação especial entre os soldados romanos. importado da Pérsia. refeições sacrificiais. No entanto. Além disso. Os provincianos entravam em contato com a cultura romana e ajudavam a divulgar suas idéias através do mundo antigo.2 2 Alguns estudiosos atuais tentaram ver as religiões de mistério como uma das principais fontes do cristianismo. foram guiados pelo Espírito Santo a aceitar a realidade oferecida no cristianismo. Quando muitos descobriram que os sacrifícios de sangue dessas religiões nada podiam fazer por eles. Paulo desenvolveu a simples religião ética de Jesus em uma religião de mistério. O papel do exército romano no desenvolvimento do ideal de uma organização universal e na propagação do Evangelho não pode ser ignorado. atraía o povo somente como um meio de tornar tangível o conceito de Império Romano. O mundo pagão romano descobriu rapidamente que essa nova religião. um Maligno. alguns desses homens converteram-se ao cristianismo e levaram o Evangelho às regiões para onde eram designados. o que parecia suprir as necessidades emocionais do povo. diferentemente de outras. e nelas o cristianismo achou seu maior rival. As várias religiões de mistério pareciam oferecer muito mais que isso como um meio de auxílio espiritual e emocional. O culto ao imperador romano. O culto a Ísis. As estradas romanas e as cidades estrategicamente localizadas às margens dessas estradas foram uma ajuda indispensável na concretização da missão de Paulo. O mitraísmo. É provável que a introdução precoce do cristianismo na Grã-Bretanha tenha sido resultado do trabalho de soldados ou comerciantes cristãos que andaram por lá. importado do Egito. um Salvador nascido miraculosamente — Mitra. Ele tinha um festival em dezembro. uma vez que eles não foram capazes de protegê-los dos romanos. 4. era semelhante ao de Cibele. Os romanos criaram um ótimo sistema de estradas que iam do marco áureo no fórum a todas as regiões do Império.

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