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PARTE 2 – CLICHÊS, ARQUÉTIPOS E ENREDOS 1

UNISINOS - CURSO DE REALIZAÇÃO AUDIOVISUAL


ROTEIRO - TRIMESTRE 2003/2
CLICHÊS, ARQUÉTIPOS E ENREDOS

1. CASABLANCA, OU O RENASCIMENTO DOS DEUSES


(trecho do texto de Umberto Eco publicado em "Viagem na irrealidade cotidiana",Ed. Nova
Fronteira, Rio de Janeiro, 1984)

"O filme já começa num lugar mágico de per si, o Marrocos, o Exótico, inicia com um quê de
melodia árabe que se esfuma na Marselhesa. Quando entra para o ambiente de Rick, ouve-se
Gershwin. África, França, Estados Unidos. A essa altura entra em cena um emaranhado de
Arquétipos Eternos. São situações que presidiram as histórias de todos os tempos. Mas
habitualmente para fazer uma boa história basta uma única situação arquetípica. E sobra. Por
exemplo: O Amor Infeliz. Ou A Fuga. Casablanca não se contenta: coloca todas. A cidade é o
local de uma Passagem, rumo à Terra Prometida. Para passar, porém, é necessário submeter-se
a uma prova, A Espera ("esperando, esperando, esperando", diz a voz off no começo). Para
passar do vestíbulo de espera à Terra Prometida, é preciso uma Chave Mágica: o visto. Em
torno da Conquista desta chave desencadeiam-se as paixões. A mediação da chave parece ser
feita pelo Dinheiro (que aparece em diversas cenas, geralmente sob a forma de Jogo Mortal,
ou roleta): mas por fim se descobrirá que a chave somente pode ser dada através de um Dom
(que é o dom do visto, mas é também o dom que Rick faz de seu Desejo, sacrificando-se)
Porque esta é também a história de um turbilhão de desejos, dos quais apenas dois acabam
sendo satisfeitos: o de Victor Laszlo, o herói puríssimo, e o do casalzinho búlgaro. Todos
aqueles que têm paixões impuras fracassam. E então, outro arquétipo, triunfa A Pureza. Os
impuros não chegam à terra prometida, somem antes; no entanto realizam a pureza através do
Sacrifício: é a Redenção".

(...)

"Em torno dessa dança de mitos eternos estão os mitos históricos, ou seja, os mitos do cinema
devidamente revisitados. Bogart personifica pelo menos três deles: o Aventureiro Ambíguo,
misto de cinismo e generosidade; o Asceta por Desilusão Amorosa e ao mesmo tempo o
Alcoólatra Redimido. Ingrid Bergman é a Mulher Enigmática ou a Mulher Fatal. Em seguida
há Ouça Querido a Nossa Canção, o Último Dia em Paris, a Legião Estrangeira (cada
personagem tem uma nacionalidade diferente) e finalmente o Grande Hotel Gente-Que-Vai-
Gente-Que-Vem. (...) De modo que Casablanca não é um filme, é muitos filmes, uma
antologia. E por isso funciona, a despeito das teorias estéticas e das teorias filmográficas.
Porque nele se desdobram, em força quase telúrica, as Potências da Narratividade em estado
selvagem, sem que a Arte intervenha para disciplinar.

"E então podemos aceitar que as personagens mudem de humor, de moralidade, de psicologia,
de um momento para o outro, que os conspiradores pigarreiem para interromper a conversa
quando se aproxima um espião, que as mocinhas de vida fácil chorem ao ouvir a Marselhesa.

"Quando todos os arquétipos irrompem sem decência, são atingidas profundidades homéricas.
Dois clichês provocam riso. Cem clichês comovem. Porque se percebe obscuramente que os
clichês falam entre si e celebram uma festa de reencontro. Como o cúmulo da dor encontra a
volúpia, o cúmulo da banalidade deixa entrever uma suspeita de sublime".
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2. KURT VONNEGUT JR.


(trecho da entrevista publicada em "Os Escritores", Ed. Companhia das Letras, São Paulo,
1987).

Pergunta: Acha realmente que a arte de escrever de forma criativa pode ser ensinada?

VONNEGUT: Mais ou menos da mesma maneira que o golfe pode ser ensinado. Um
profissional pode apontar falhas óbvias no seu modo de mover o taco. (...) Sei apenas a teoria.

Pergunta: Poderia expor a teoria em poucas palavras?

VONNEGUT: Ela foi formulada por Paul Engle, o fundador da Oficina de Escritores em
Iowa. Ele me disse que, se a oficina um dia arrumasse um prédio próprio, estas palavras
deveriam ser inscritas sobre a entrada: "Não leve isso tudo a sério".

Pergunta: E como isso poderia ajudar?

VONNEGUT: Faria os estudantes se lembrarem que estavam aprendendo a fazer brincadeiras.


Se você faz as pessoas rirem ou chorarem por causa de pequenas marcas negras em folhas de
papel branco, o que é isso a não ser uma brincadeira? Todas as grande linhas básicas de
histórias são grandes brincadeiras nas quais as pessoas caem continuamente.

Pergunta: Pode dar um exemplo?

VONNEGUT: O romance gótico. Dezenas de coisas são publicadas todo ano e todas vendem.
Meu amigo Borden escreveu recentemente um romance gótico apenas por diversão. Eu lhe
perguntei qual era o enredo e ele disse: "Uma jovem arruma um emprego em uma casa velha e
depois fica morrendo de medo lá dentro".

Pergunta: Mais alguns?

VONNEGUT: Os outros não são tão engraçados de se descrever. Alguém entra em apuros e
depois escapa; alguém perde alguma coisa e a recupera; alguém é enganado e se vinga;
Cinderela; alguém começa a andar para trás e a sua situação só piora cada vez mais;
duas pessoas se apaixonam e outras atrapalham; uma pessoa virtuosa é falsamente
acusada de um delito; uma pessoa má é julgada virtuosa; uma pessoa encara um desafio
com bravura e tem sucesso ou não; uma pessoa mente; uma pessoa rouba; uma pessoa
mata; uma pessoa pratica fornicação.

Pergunta: Me desculpe, mas esses são enredos muito antigos.

VONNEGUT: Eu lhe garanto que nenhum esquema de histórias modernas, mesmo sem
enredo, dará a um leitor satisfação genuína, a menos que um destes enredos antigos seja
introduzido em algum lugar. Não valorizo enredos como representações precisas da vida, mas
como maneiras de manter o leitor lendo.

Quando eu ensinava redação criativa, dizia aos meus alunos para fazer com que seus
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personagens quisessem algo logo, mesmo que fosse apenas um copo d'água. Até personagens
paralisados pela falta de sentido da vida moderna têm que beber água de tempos em tempos.
(...) Quando você exclui o enredo, quando exclui alguém que deseje alguma coisa, você exclui
o leitor, o que é uma atitude mesquinha. Você também pode excluir o leitor não contando
imediatamente onde a história se desenrola e quem são estas pessoas. E você pode fazê-lo
dormir se não colocar os personagens em confronto uns com os outros. Estudantes gostam de
dizer que não apresentam conflito em seus textos porque as pessoas evitam conflitos na vida
moderna. "A vida moderna é tão solitária...". Isso é preguiça. É o trabalho do escritor
apresentar conflitos, para que os personagens digam coisas surpreendentes e reveladoras,
eduquem e divirtam a todos nós. Se um escritor não sabe ou não quer fazer isso, deveria
retirar-se do negócio.

3. AS 36 SITUAÇÕES DRAMÁTICAS
(Les XXXVI Situations dramatiques, Georges Polti, 1895)

(1) Implorar; (2) o Salvador; (3) a Vingança que persegue o crime; (4) Vingar parente por
parente; (5) Acuado; (6) Desastre; (7) Vítima de; (8) Revolta; (9) Tentativa audaciosa; (10)
Rapto; (11) o Enigma; (12) Conseguir; (13) Ódio de parentes; (14) Rivalidade com parentes;
(15) Adultério mortal; (16) Loucura; (17) Imprudência fatal; (18) Crime de amor involuntário;
(19) Matar um parente ignorado; (20) Sacrificar-se pelo ideal; (21) Sacrificar-se pelos
parentes; (22) Sacrificar tudo pela paixão; (23) Ter que sacrificar a família; (24) Rivalidade
entre desiguais; (25) Adultério; (26) Crimes de amor; (27) Ser informado da desonra de um
ser amado; (28) Amores proibidos; (29) Amar um inimigo; (30) a Ambição; (31) Luta contra
Deus; (32) Ciúme equivocado; (33) Erro judiciário; (34) Remorso; (35) Reencontrar; (36)
Perder a família.

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