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RENATA DE SOUZA PRADO

MARSHALL MCLUHAN: OBRAS E PRINCIPAIS CONCEITOS

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS 2011

RENATA DE SOUZA PRADO

MARSHALL MCLUHAN: OBRAS E PRINCIPAIS CONCEITOS
Artigo científico produzido para a disciplina de Teorias da Comunicação, sob orientação da Prof. Ana Carolina Temer.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS 2011

MARSHALL MCLUHAN: PRINCIPAIS OBRAS E CONCEITOS
Renata de Souza Prado
Resumo O presente artigo tem por objetivo analisar criticamente a obra e os conceitos de Marshall McLuhan, estabelecendo contrapontos com meios de comunicação de massa e também com o papel social do homem, verificando em que níveis e instâncias existem relações que podem ser úteis para a compreensão do cenário comunicacional moderno. Palavras-chave Comunicação, Escola Canadense, meios, mensagem.

Introdução Marshall McLuhan é um pensador moderno, cujas idéias remontam a um mero centenário. Alguns podem julgar a história recente para que seja digna de credibilidade, mas é fato que seus pensamentos tiveram grande importância para o desenvolvimento da comunicação, principalmente na atualidade, quando o assunto é internet ou redes sociais. O que todos pensavam na década de 60 quando McLuhan começou a se tornar popular era: “E se ele estiver correto?”, como escreveu o jornalista Tom Wolfe, do New York Herald Tribune. O jornalista foi ousado ao supor que McLuhan “era o pensador mais importante desde Newton, Darwin, Freud, Eistein e Pavlov”, De fato o autor canadense se tornou popular: suas frases de efeito e seu carisma o lançaram de uma forma como seu antecessor Harold Innis (cujas idéias precedem as de McLuhan e nas quais encontramos vários pontos comuns entre os dois) não havia conseguido. Ainda assim foi bastante criticado, e vários pensadores consideraram seu trabalho superficial e baseado em determinismo tecnológico. Mas e se de fato McLuhan tenha sido apenas mal compreendido e tenha visionado a antecipação de respostas para as quais em sua época, ainda não havia perguntas? No cenário atual da comunicação digital temos percebido muitas situações que levam a crer nessa máxima, quando se analisam mais atentamente os conceitos e idéias de McLuhan. Nascido em 21 de Julho e 1911 e falecido em 31/12/1980, Marshall McLuhan levou uma vida dedicada às artes e às humanidades. Sua família era estruturada: seu pai era corretor de seguros e sua mãe era a chefe da família, uma mulher culta e viajada, que lhe deu grande incentivo na carreira acadêmica.

Começou a estudar Engenharia, mas acabou se formando em Literatura Inglesa Moderna. Obteve os títulos de mestre e doutor em Filosofia pela Universidade de Cambridge. A maior parte de sua carreira de professor e pesquisador ocorre na Universidade de Toronto, no Canadá, onde inclusive se deu sua aproximação com Innis. Publicou aproximadamente 15 obras, dentre as quais as mais importantes foram: “O meio é a mensagem”, “Guerra e Paz na Aldeia Global” e “Os meios de comunicação como extensões do homem”, seu primeiro livro de grande notoriedade. Somam-se nesse bolo diversos artigos, entrevistas e até mesmo uma participação num filme do cineasta Woody Allen, “Noivo neurótico, noiva nervosa”, de 1977. Seus conceitos, quase sempre traduzidos em frases curtas e de impacto, se popularizaram e criaram vida própria, como a mais célebre de todas: “O meio é a mensagem”. A partir de agora veremos cada um destes conceitos e tentaremos entender porque eles se tornaram tão importantes numa sociedade altamente tecnológica e que avança cada vez mais para um grau extremo de interdependência digital. 1. A evolução das mídias, linguagem e classificação dos meios McLuhan avalia o processo comunicativo de um ponto de vista evolutivo e estabelece três períodos de evolução das mídias: civilização da oralidade, da imprensa e da eletricidade, de acordo com a sua obra “A galáxia de Gutemberg”. Seu ponto de vista avaliativo é quase sempre o técnico e do indivíduo. Análises sociais e econômicas estão sempre em segundo plano em sua obra. Na civilização da oralidade temos a tradição da palavra falada e uma relação social tribalizada, processo que é fragmentado com o advento da imprensa. A palavra impressa tira o homem desse convívio, destribalizando-o. A terceira etapa desse processo evolutivo, com o advento da luz, torna a tribalizar o homem, uma vez que os meios permitem maior interação. Segundo o artigo de Gaëtan Tremblay:
“... as mídias eletrônicas que se sucedem, desde a segunda metade do século XIX, autorizam um retorno à percepção multissensorial e ao pensamento complexo e global, características da oralidade, depois dos séculos da linearidade, da especialização, da hierarquização e da divisão e do sectarismo que seguiram a invenção, a difusão e a dominação da imprensa no mundo civilizado”.

McLuhan também classifica os meios como quentes ou frios. Os quentes correspondem àqueles que prolongam um de nossos sentidos em alta definição, correspondendo esta ao estado de saturação de um sentido (MCLUHAN, 1974, p. 38). Já os meios frios correspondem aos que por transmitirem uma quantidade menor de informação, permitem uma interação maior do indivíduo, como é o caso por exemplo do telefone. Assim como os meios o autor classifica seguindo os mesmos critérios também as culturas, como quando fala que os países atrasados são frios, enquantos os países desenvolvidos são quentes. Essa divisão é importante para McLuhan à medida em que se analisa a intencionalidade da comunicação em seus níveis interpessoais. Analisar essa divisão à luz dos conceitos atuais de ciberespaço, pensando nas possibilidades de comunicação que a internet proporciona, por exemplo, percebemos talvez uma necessidade de evolução do pensamento, ou pelo menos pensar de uma forma diferente. É muito difícil enquadrar a internet, enquanto nova tecnologia numa classificação única. Ela pode ser tanto meio quente, saturada e impossibilitando interações, e também pode ser o oposto permitindo o máximo de interação, mesmo com o máximo de saturação. Segundo as dimensões analisadas por André Lemos (2002) pode-se considerar o ciberespaço como indexador dos mais variados tipos de meios, que cada vez mais estão inseridos numa situação de inter-dependência entre si. Daí vemos também a relação de inter-dependência de um meio com relação a outro. Nenhum meio existe por si só, por exemplo: o cinema sempre se apropria da literatura, da TV ou mesmo de uma história falada. Nos dias atuais percebemos isso também na própria internet: os tópicos populares do twitter quase sempre tem uma relação muito direta com os tópicos de audiência da mídia televisiva por exemplo, como mostrou uma pesquisa recente do IBOPE.
“A principio, o “conteúdo” de qualquer meio ou veículo é sempre um outro meio ou veículo. Por sua vez, a “mensagem” de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas”. (McLUHAN, 1974, p. 22)

É importante perceber neste contexto que segundo o pensamento de McLuhan, a evolução da tecnologia em cada uma de suas etapas provoca

mudanças estruturais na sociedade. Isso acontece meio que ao acaso já que o surgimento de uma tecnologia não ocorre por uma tentativa isolada do desenvolvimento técnico em si, e sim de uma tentativa de transformar, reproduzir e documentar as experiências do homem (MCLUHAN, 1974, cap. 6). 2. As extensões dos sentidos do homem Em sua obra mais popular, o autor defende a ideia de que todos os meios são extensões dos sentidos dos homens, como se fossem o que ele mesmo chama de prótese técnica. Assim, a roda seria a extensão dos nossos pés e da habilidade de locomoção, o telefone a ampliação de nossa fala e assim sucessivamente. É importante destacar neste ponto que a extensão é diferente da projeção, do homem enxergar o seu outro nos meios. A relação é absolutamente simbiótica, e essa simbiose é fundamental para entendermos os processos de transformação da sociedade a cada vez que surge um novo sistema tecnológico. Portanto quando se fala de um meio, trata-se exclusivamente dos sentidos e habilidades do próprio homem enquanto indivíduo e também enquanto ser social embora McLuhan deixe essa análise em segundo plano. Quando se fala em meios, apesar da grande ênfase dos estudos da escola canadense voltados para os meios de comunicação de massa, a significação é mais ampla: o meio é toda e qualquer forma de interação social do homem, e as maneiras pelas quais ele estabelece relações de poder e interação. Quando percebemos por exemplo a relação do homem com a moda ou com o automóvel, isso fica bastante nítido. A mensagem que se quer passar torna-se a própria forma, a representatividade da posse torna-se o conteúdo da afirmação social. Esse sentido da prótese técnica que McLuhan atribui aos meios é cada vez mais imperceptível com a evolução das tecnologias e causa relações distintas e alternadas entre o homem e a máquina, ora de dependência, ora de cooperação e ora de dominação. Tomemos como exemplo a memória: o papel e a caneta foram por um tempo as extensões desse sentido, extensões essas que se evoluíram para o palmtop e hoje estão na nuvem, no ciberespaço. Não precisamos mais escrever os compromissos na agenda e andar com ela a tiracolo conferindo. O Google Agenda organiza as informações, categoriza-as e nos relembra de nossos compromissos. Instaurou-se a relação de interdependência.

Alguns poderão criticar, como já criticam, dizendo que o ser humano está com menos capacidade de memorização (para aproveitar o exemplo supra-citado), está mais impaciente por conta do imediatismo nas respostas que também foi um fruto da própria tecnologia. Mas o fato é que essas transformações não foram isoladas e individuais. O grupo, a sociedade evoluiu, e nas regras que ditam os costumes e a conduta do indivíduo atuais, as transformações foram de uma forma ou de outra, necessárias. E mais do que apenas ser uma extensão, a relação também é de mão dupla, e a tecnologia acaba também por transformar o corpo humano, e aqui vemos uma relação muito clara com o evolucionismo. Para citar um exemplo bem claro, uma pesquisa não muito antiga mostrou que a forma como a mão humana interage com os teclados do celular mudou: as pessoas mais velhas tendiam a usar apenas o indicador (numa época em que o telefone celular servia apenas para fazer ligações e não exigia muita habilidade) enquanto as gerações mais novas usam em escala bastante maior os polegares, por causa da habilidade que exige o manuseio de uma tela touchscreen ou seja por causa das várias funções que um aparelho celular hoje em dia possui. Além da percepção dos sentidos físicos, a tecnologia também altera a percepção de espaço e de tempo do homem, sendo um fator a mais para contribuir na transformação estrutural da sociedade.
“Isso significa que a organização simbólica do homem, o seu sistema de percepção espacial e temporal, sofre o impacto de várias tecnologias comunicativas; é a este nível que os mass media provocam os seus efeitos mais significativos e duradouros”. (GOMES, 1997, p. 115)

Nessa perspectiva de transformação do ambiente, um especial da revista Meio & Mensagem (cujo nome inclusive é uma homenagem ao próprio Marshall McLuhan) traz um depoimento coerente com as máximas mcluhanianas, a seguir: “Ele (McLuhan) está falando que toda tecnologia se torna um ambiente, ou seja, transforma-se em um ordenador social e cultural e, além disso, essas tecnologias vêm afetar nossos corpos e mentes. A emergência de uma nova tecnologia é uma reprogramação sensorial, elas forjam as formas de ver o mundo, representar as coisas e perceber a nossa própria vida”. (REVISTA MEIO & MENSAGEM, nº 1468, p. 42) E ao contrário das críticas que banalizam a sua pesquisa com a acusação de superficialidade, percebe-se que essas mudanças da sociedade em virtude da

tecnologia são muito mais profundas e causam muito mais efeitos do que se imagina. Com o passar do tempo e até mais, com uma reflexão breve sobre o futuro e o rumo que a sociedade toma na sua relação com a tecnologia, vemos que a consulta aos pensamentos de McLuhan sempre se faz válida como um ponto de referência. “Enfrentamos a mesma dor e desorientação sempre que o corpo está estendido ou amputado por novas fontes”. (Idem, p.43) 3. O meio é a mensagem A frase mais famosa de McLuhan é a síntese dos conceitos discutidos até o momento, talvez por isso seja a sua afirmação mais marcante.
“Um dos conceitos mais difundidos de McLuhan é que o meio é a mensagem. Observa ele que toda tecnologia gradualmente cria um ambiente humano totalmente novo. Os ambientes não são envoltórios passivos, mas processos ativos. Por isso no ambiente da era eletrônica, a classificação dos dados cede ao reconhecimento de estruturas e padrões, a frase-chave da IBM. Deste modo, quando McLuhan afirma que o meio é a mensagem, está dizendo que, na era eletrônica, um novo ambiente foi criado, cujo conteúdo é o antigo ambiente da era industrial. O ambiente velho é re-processado pelo novo. Por exemplo, a televisão reprocessou o cinema, transformando-o em seu conteúdo. O ambiente é imperceptível, pois o que percebemos é o conteúdo”. (GOMES, 1997, p.118-119)

Para pensar na definição de meio para McLuhan, é necessário pensar nos sentidos que a palavra adquire. Especialmente no último capítulo da primeira parte de “Os meios de comunicação como extensões do homem”, o autor fala das relações sinestésicas entre um meio e o sentido explorado pela extensão. Ou seja, o meio deve ser pensado como um conjunto de expressões que uma linguagem midiática pode decodificar ao ser apropriada por um outro usuário. Assim, um computador por exemplo não é simplesmente a extensão da capacidade de escrever. Deve-se considerar outras capacidades materiais, que surgem num contexto de transformação social, que acabaram sendo englobadas, por exemplo a função de ver um vídeo, ou ouvir música no computador. Até mesmo a capacidade do computador de assumir o papel de um outro meio, quando por exemplo o usamos para falar com alguém via Skype, substituindo (ou seria incorporando?) as habilidades materiais do telefone. Essa incorporação de meios como vimos anteriormente, é um processo quase sempre complexo para o homem. Temos de um lado a necessidade continuar traduzindo as nossas experiências ou usando os próprios termos de McLuhan,

expandindo nossos sentidos, e de outro a resistência em não poder reconhecer “que a própria forma de qualquer meio de comunicação é tão importante quanto qualquer coisa que ele transmita”. (McLUHAN, 1990, p. 154). Uma vez quebrado esse paradigma e aceita uma nova ordem tecnológica, o indivíduo incorpora essa transformação e passa a conviver melhor com essa “amputação”. Dentre as críticas feitas ao trabalho de McLuhan, é importante verificarmos a questão do determinismo tecnológico, e o quanto isso pode influenciar na interpretação de sua obra. Na obra do autor canadense essa crítica pode ser interpretada de forma que os fatos sejam lineares e seqüenciais, ou seja, é a tecnologia quem determina exclusivamente as condutas do ser humano, seu conhecimento, percepção, cultura e interação com a sociedade. Essa visão para os estudiosos da obra de McLuhan é na verdade uma interpretação errônea das idéias. Para o professor José Marques de Melo, em entrevista, “a academia o achava espetaculoso demais. Ele não cumpria os padrões da universidade e foi um dos raros escritores de seu tempo que ao morrer, mereceram capas de jornais. McLuhan não foi compreendido. Ele foi muito combatido, muito louvado e pouco lido”. (MEIO & MENSAGEM, nº 1468, p. 43). Sem avaliar a fundo essa e as demais críticas a respeito da obra de McLuhan, é impossível não concluir de toda a forma que seus estudos foram revolucionários. Considerando que a maioria das escolas de comunicação focou na emissão, recepção ou mesmo na mensagem, a análise do poder dos meios sem dúvida foi uma nova e bastante válida contribuição. O autor Gabriel Cohn traça um tímido paralelo com um autor que precedeu McLuhan, Walter Benjamim. Em 1936 este autor publicou o estudo “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” em que diz o seguinte: “O tipo e o modo de organização da percepção sensorial humana - o meio em que ela se dá - é determinado não apenas natural mas também historicamente”. Assim, nesse universo, percebemos mais uma vez que a evolução da tecnologia é quem acompanha o processo histórico do homem. A busca pela transformação da natureza e pela retratação da sua realidade é que leva o homem a descobrir a tecnologia, muitas vezes criada com uma funcionalidade distinta, que acaba se transformando de acordo com a necessidade do próprio homem que a criou – a percepção e a transformação da própria realidade humanística levam a uma revisão e reincorporação dos usos dos meios e das tecnologias.

4. A aldeia global O último conceito importante cunhado por Marshall McLuhan é o conceito da aldeia global. Retomando o que foi dito anteriormente, para o autor, nas etapas das três eras midiáticas, o homem passa de um processo de tribalização para posterior destribalização, e por fim um processo de retribalização. É nesse momento que se instaura a aldeia global. Este espaço nada mais seria que um espaço de convergência, em que toda a evolução tecnológica estivesse caminhando no sentido de formar uma aldeia, em que em qualquer instância seja possível a comunicação direta, sem barreiras. Nessa conceituação McLuhan é mais uma vez criticado, pois a aldeia global parece a muitos um estereótipo paradisíaco, uma utopia em que todas as forças convergiriam para a melhoria do ambiente. Segundo os críticos, pelo próprio modelo evolucionista esse cenário já se torna impraticável uma vez que o acesso à tecnologia não é igualitário. E mais uma vez as críticas soam como uma interpretação errônea dos pensamentos do autor. A tecnologia está presente mas não precisa necessariamente chegar a todos para operar transformações na sociedade. É exatamente isso que percebemos na sociedade atual, com a internet. A forma do ser humano lidar com o consumo, com o outro, com as artes e até mesmo com a sociedade é diferente mesmo que nem todos tenham acesso à tecnologia de forma igualitária. Mais importante que o que se diz é como se diz: o meio é fundamental na intercomunicação e muitas vezes depende só dele o sucesso do processo comunicacional no sentido de estabelecer comunicações globalizadas. Quando analisamos os conflitos de países distantes, e acompanhamos em tempo real as notícias que em outrora demorariam muito mais para chegar até nós, percebemos a evolução da tecnologia no sentido de formar a aldeia global. McLuhan chamou esse processo de implosão, que é o resultado das tecnologias fragmentárias e mecânicas. Segundo McLuhan, citado por Gomes (1997, p. 115):
“Durante as idades mecânicas projetamos nossos corpos no espaço. Hoje, depois de mais de um século de tecnologia elétrica, projetamos nosso próprio sistema nervoso central num abraço global, abolindo tempo e espaço(...). Estamos nos aproximando rapidamente da fase final das extensões do homem: a simulação tecnológica da consciência, pela qual o

processo criativo do conhecimento se estenderá coletiva e corporativamente a toda a sociedade humana, tal como já se fez com nossos sentidos e nossos nervos através dos diversos veículos”.

Nesse sentido, a aldeia global é colaborativa e podemos perceber dois lados da mesma moeda nesse cenário. De um lado temos a cooperação, o comportamento tribal no sentido de manutenção da ordem: talvez a utopia criticada na aldeia global de McLuhan tenha algum sentido – a união em favor da melhoria. O compartihamento e o engajamento que hoje são princípios por exemplo das redes sociais, servem para um bem maior: mesmo com um sistema judiciário falho para as questões do ciberespaço, nunca tivemos cidadãos tão engajados e vigilantes. Esse é um avanço considerável para a cidadania. Do outro lado da moeda, temos um drama preconizado por McLuhan: o homem angustiado, sempre apressado, aflito e oprimido pela necessidade iminente pela necessidade de compartilhar:
“Não existe mais a desculpa do conhecimento, pois o mundo foi trazido para dentro dos lares. Tal posição, chocante no final da década de 1960, adquire maior relevância no início do milênio. As tecnologias esboçadas naquela época estão explodindo hoje, configurando o que se convencionou chamar de sociedade do conhecimento. Por isso a pertinência da afirmação do pensador canadense: Esta é a idade da Angústia, por força da implosão elétrica, que obriga ao compromisso e à participação, independente de qualquer ponto de vista”. (Idem, p. 116)

Conclusão É impossível no cenário atual, observando o ciberespaço e a comunicação através da internet e das redes sociais sem pensar nas idéias de McLuhan. Hoje conseguimos ver lacunas e pensar em algumas questões sob uma ótica diferente, como por exemplo quando pensamos nos meios quentes e frios e no quão tênue essa linha fica quando pensamos na internet. Mas é natural. O pensamento humanístico pode e deve evoluir na busca de nossas respostas diárias às questões que afligem a humanidade. A questão é que o cerne, o fundamento das idéias se manteve, e como observado por analíticos da obra do pensador, explica e nos ajuda a entender muitas questões que Mcluhan talvez nem tenha pensado ao transcrever suas teorias. E estas nos ajudam a pensar também no rumo que a comunicação toma e

principalmente, no rumo que a tecnologia toma e na nossa relação com o desenvolvimento dela. O envolvimento simbiótico do homem com a máquina, com esta sendo muito mais que uma reflexão de pensamentos, uma prótese de sentidos físicos e cognitivos nos mostra como fica a relação do homem em sociedade e nos mostra como ficam os valores que interferem diretamente em nossa cultura, nossa educação, nossa arte. Quando pensamos em questões discutidas atualmente como a inteligência artificial, percebemos uma tentativa desenfreada de humanizar a máquina, de fazer com que ela seja cada vez mais parte de nós, ou de projetar um pouco de nós nos meios externos. Por mais que a idéia da aldeia global pareça utópica e inalcançável, por diversos motivos, vemos a materialização dela, pelo menos em parte, na internet, nas redes sociais. Palavras chave dos pensamentos de McLuhan, como compartilhamento cibernética. Através das redes sociais, pessoas de todo o globo parecem estar se unindo em prol de um bem maior, a despeito do que McLuhan previu. A partir do momento da era da eletricidade convivendo com a TV e o computador, como analisamos a nossa forma de vida, nossas maneiras de gerar e transmitir conhecimento? Estamos vivendo numa sociedade multimeios, em que a interação com as diversas formas de comunicação coexistem. Muitos indivíduos já nasceram sem consultar as enciclopédias, e até a nossa relação com o livro escrito é diferente. Alguns só terão contato com a leitura em seus tablets ou monitores. Talvez isso nos torne mais apressados, mais angustiados e imediatistas. Há quem defenda que a forma como interagimos com a tecnologia hoje nos torna menos coerentes, com o raciocínio mais deficitário. Essa mistura chega às nossas formas de educação, nosso convívio com a sociedade, no exercício da cidadania. Alunos e professores formados na cultura do digital, alguns tendo convivido com o livro, outros não. O conceito de leitura obrigatória muda, perpassando uma nova seletividade para o conhecimento. Este aliás não está exclusivamente presente nos livros, na sala de aula, está na TV, na mídia exterior. O aparelho celular, outrora vilão das salas de aula, torna-se aliado. O e engajamento tornaram-se princípios da comunicação

Convivemos pacificamente com o excesso de informação, estudamos com a TV ligada, assistimos a novela ou o jornal e comentamos no twitter. Trabalhamos com dois monitores e no navegador da internet, talvez tenhamos dez abas abertas. Nesse contexto talvez seja fácil se dispersar. Talvez seja fácil também produzir mais idéias, já que a inspiração vem de mais fontes. Assim, pensamos no nosso aprendizado e na transmissão de conhecimento com uma indagação final: seriam os meios meramente formas que determinam a conduta do homem, ou seriam objetos de significação imbricados de pensamento e ideologia? Como a partir de agora a humanidade segue seu curso de produção de informação e como será a incorporação dos novos meios pelos meios antigos? Como será esse processo de amputação? Como as novas extensões do homem ditarão nossa vida em sociedade? Respondendo a essas questões caminharemos realmente num sentido de ampliar os limites da cidadania e refletir as implicações dos conceitos de Marshall McLuhan para a sociedade moderna.

Referências BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”. In: COSTA LIMA, Luiz (Org.)Teoria da Cultura de Massa. São Paulo, Paz e Terra, 1990. COHN, Gabriel. “O meio é a mensagem: análise de McLuhan”. In: Comunicação e Indústria Cultural. São Paulo, TA-Queiroz, 1987. Pág. 363-371. GOMES, Pedro Gilberto. Tópicos de Teoria da Comunicação. São Leopoldo, Editora Unisinos, 1995. LEMOS, André. As estruturas antropológicas do ciberespaço. In:______. Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002, p. 136165. McLUHAN, Marshall. A Galáxia de Gutenberg. São Paulo: Cultrix, 1967. McLuhan, M. Os meios de comunicação como extensão do homem. Tradução de Décio Pignatari. São Paulo, Cultrix, 1974. 4° ed. McLuhan, M. ”Visão, som e fúria”. In: LIMA, Luiz Costa (Org.)Teoria da Cultura de Massa. São Paulo, Paz e Terra, 1990. Revista MEIO & MENSAGEM, Grupo M&M, Ano 33, nº 1468, p. 39-46. 18 de Julho de 2011. ISSN: 0101-3327