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Modulo Impacto Novas Tecnologias

Modulo Impacto Novas Tecnologias

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  • UNIDADE 29
  • UNIDADE 30
  • GLOSSÁRIO
  • BIBLIOGRAFIA

MÓDULO DE

:

IMPACTOS DAS NOVAS TECNOLOGIAS SOBRE O TRABALHO E A SAÚDE

AUTORIA:

Dr. DANIEL PERTICARRARI Dra. FERNANDA FLÁVIA COCKELL

Copyright © 2008, ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil

Copyright © 2007, ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil

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Módulo De: Impactos Das Novas Tecnologias Sobre O Trabalho E A Saúde Autoria: Dr. Daniel Perticarrari Dra. Fernanda Flávia Cockell

Primeira edição: 2008

CITAÇÃO DE MARCAS NOTÓRIAS

Várias marcas registradas são citadas no conteúdo deste módulo. Mais do que simplesmente listar esses nomes e informar quem possui seus direitos de exploração ou ainda imprimir logotipos, o autor declara estar utilizando tais nomes apenas para fins editoriais acadêmicos. Declara ainda, que sua utilização tem como objetivo, exclusivamente na aplicação didática, beneficiando e divulgando a marca do detentor, sem a intenção de infringir as regras básicas de autenticidade de sua utilização e direitos autorais. E por fim, declara estar utilizando parte de alguns circuitos eletrônicos, os quais foram analisados em pesquisas de laboratório e de literaturas já editadas, que se encontram expostas ao comércio livre editorial.

Todos os direitos desta edição reservados à ESAB – ESCOLA SUPERIOR ABERTA DO BRASIL LTDA http://www.esab.edu.br Av. Santa Leopoldina, nº 840/07 Bairro Itaparica – Vila Velha, ES CEP: 29102-040 Copyright © 2008, ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil

Copyright © 2007, ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil

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A

presentação

Neste módulo você irá estudar os principais impactos das novas tecnologias empregadas para o trabalho. É importante ressaltarmos, que por tecnologias entende-se não apenas o aparato técnico, mas as novas formas associativas e organizativas do trabalho. Destaca-se, dessa maneira, o estudo de casos específicos que apresentam os desdobramentos da reestruturação produtiva, meio-ambiente, trabalho noturno, comunicação e cognição para o trabalho. As unidades baseiam-se em textos e apresentação de estudos de casos específicos na utilização do desenvolvimento do módulo. Dessa forma, o módulo pauta-se em artigos especializados sobre o tema, de autores de reconhecida importância acadêmica e científica e publicados em periódicos de amplo conceito e divulgação nacional e internacional. Tal procedimento justifica-se pela necessidade de entender os impactos da introdução de novas tecnologias no mundo do trabalho em termos amplos, ou seja, sociais e não apenas estritamente técnicos – o que engendra significativos desdobramentos para os trabalhadores e o ambiente, em que pese a saúde dos indivíduos. Se dedique à leitura dos textos, buscando aprofundar seus conhecimentos sobre cada assunto. Bons estudos!

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Trabalho Noturno e Gênero. Copyright © 2007. Industrialização.O bjetivo Apresentar diversos estudos que demonstram como as novas tecnologias empregadas têm incidido de maneiras distintas sobre os trabalhadores. em que pesem as condições ambientais. E menta Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho. Ergonomia. Privatização. Cognição e Trabalho Informatizado. Ergonomia. cognitivas e de saúde. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 4 . Desenvolvimento Industrial e Saúde. Reestruturação e Condições de Trabalho. Comunicação e Ruído. de trabalho. Riscos e Meio-Ambiente.

Dra. Johnson & Johnson. comitês de ergonomia e projetos de intervenção ergonômica nas empresas: UNILEVER. SOICOM. 2007. PMMG. FUNEP e UFSCar. Atualmente. 2003. Mestre em Política Científica e Tecnológica pela UNICAMP. Têm experiência em treinamentos.S obre o Autor Dr. Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos. 2004. CRB. Desenvolveu pesquisas na área de ergonomia junto à UFMG. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 5 . Daniel Perticarrari Pós-Doutorado pela UNICAMP – Faculdade de Educação. Desenvolveu e desenvolve projetos de pesquisa científica junto à UFSCar. Graduada em Fisioterapia pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Copyright © 2007. Telemig Celular. 2001. e CARDIFF UNIVERSITY – Inglaterra. Doutor em Sociologia Industrial e do Trabalho pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – SP. Companhia Mineira de Metais. Fernanda Flávia Cockell Doutora em Engenharia de Produção (Saúde e Trabalho) pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – SP. UNICAMP. entre outras. Mestre em Engenharia de Produção (Ergonomia) pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – SP. 2008. 1999. Multibrás (Brastemp). nas áreas de Sociologia do Trabalho e Saúde do Trabalhador. participa de projeto de pesquisas na UFSCar e UNICAMP.

................................................................................................................................................................ 55 Ergonomia................................... 46 ERGONOMIA..................................................... 9 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho .................................................................... Comunicação e Ruído .................................................................................................................................................................... 14 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho ............................ 9 UNIDADE 2 ... 46 UNIDADE 9 ........... Ciência e Tecnologia .....................................................S UMÁRIO UNIDADE 1 ................................................................................................................................................. Comunicação e Ruído .................... 42 Saúde e desenvolvimento............................................................... 29 UNIDADE 5 ........... 65 UNIDADE 13 ........................................... 65 Interação e Ruído............ 36 UNIDADE 7 .... 32 UNIDADE 6 ............ 22 Desenvolvimento Industrial e Saúde ............................................................... 70 Copyright © 2007.................................................... 32 Saúde e Desenvolvimento ........................................................ 14 UNIDADE 3 ............................................................... ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 6 ............................................................................................................................................... 42 UNIDADE 8 ................................................................................................. 60 Modelos de Comunicação..................................................... 22 UNIDADE 4 ...... 29 Saúde........... 60 UNIDADE 12 .................................................................................................................................................................................. 36 Saúde e Desenvolvimento .............................................................................................................................................................................................................................................................................................. 55 UNIDADE 11 ................................................................................................................................................................. 50 Ergonomia........................ COMUNICAÇÃO E RUÍDO .................................................................................... 50 UNIDADE 10 ...............................

.................................................................... 125 Trabalho Noturno e Gênero ......................................................................................................................................................................... 125 UNIDADE 24 ................................................ Riscos E Meio-Ambiente .......................................................................................... 109 UNIDADE 21 ....................................................................... 143 Copyright © 2007............................................. Riscos E Meio-Ambiente ....................................................................................................................................................................................................... 104 UNIDADE 20 ................................................................................ ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 7 .................................... 120 UNIDADE 23 ........................... 94 UNIDADE 18 ................................................ 73 Ergonomia e Sistemas Informatizados ........................................................................... 78 UNIDADE 16 ............................................................................................ 94 Ergonomia e Cognição: Considerações Finais ........... 117 Industrialização....................................... Riscos E Meio-Ambiente ................................................ 133 UNIDADE 26 ...................................................................................................................... 129 UNIDADE 25 .......................... Cognição e Trabalho Informatizado .................. 136 UNIDADE 27 ................................................................................................... 87 Estratégias Operatórias .............................................. 70 UNIDADE 14 .... 133 Trabalho Noturno e Gênero ................................ 129 Trabalho Noturno e Gênero ................................................................................................................. 117 UNIDADE 22 ... 78 Ergonomia Cognitiva ...................... 96 UNIDADE 19 ........... 136 Trabalho Noturno e Gênero ....................................................................................... 87 UNIDADE 17 ............................................................................................................................................................................................................ 104 Industrialização......................... 73 UNIDADE 15 .. Riscos E Meio-Ambiente ............................................................................................... 109 Industrialização..................................................................................................................... 96 Industrialização. 120 Trabalho Noturno e Gênero ..................................................................................................................Ergonomia........................................................

. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ............. 182 Copyright © 2007............................................................................................ 148 Privatização.... 148 UNIDADE 29 .................................................................................................................................... Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ...........................Privatização......................... ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 8 ...................................................................................................................................... 155 UNIDADE 30 ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ 143 UNIDADE 28 ..................... Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ... 162 GLOSSÁRIO ..................... 162 Privatização......................................................................... 171 BIBLIOGRAFIA ................... 155 Privatização............................... Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ......................................................

apresentaremos partes deste artigo. Esses impactos repercutem sobre os processos de trabalho. as condições de trabalho e a saúde. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 9 . Em seu artigo “Novas tecnologias nos processos de trabalho: efeitos da reestruturação produtiva” a autora nos oferece bases fundamentais na compreensão das principais transformações no mundo do trabalho e os seus efeitos sobre o trabalho. Bom estudo! Introdução A economia internacional enfrentou nos anos setenta do século XX. um quadro de crise estrutural que acarretou um processo de aprofundamento da globalização do capital através da integração e da internacionalização de várias etapas do processo produtivo. não só do homem para o trabalho. Nas unidades 1 e 2. Essa crise trouxe consigo a imposição de um amplo processo de reestruturação do capital. ou têm alterado. a introdução de novas tecnologias desencadeou uma gama de efeitos e impactos sociais sobre o trabalho os quais alteraram. toda a forma como a sociedade tem se estruturado.U NIDADE 1 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho Objetivo: Demonstrar os principais impactos da introdução de novas tecnologias sobre o trabalho Nos últimos anos. a fim de Copyright © 2007. como do homem em sociedade. Vania Herédia apresenta elementos essenciais para o entendimento dessas questões. a qualificação dos trabalhadores.

A reestruturação do capital em países de economias avançadas se fez com inovações técnicas. na qualificação da força de trabalho. sustentada na demanda. ágil. multifuncional com fins de dar consistência a esse modelo que se baseia na economia de escopo. pelo uso da força de trabalho polivalente. Mas será que realmente pode ser interpretado apenas pelo lado do capital como forma de mais-valia relativa? Essa justificativa é explicada através do paradigma industrial e tecnológico. com recuperação do aumento da produtividade e já com a presença de novas tecnologias. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 10 . que é justificado por muitos autores como uma melhor otimização dos recursos humanos nos processos produtivos do capital variável. começou a ocorrer uma diminuição dos coletivos operários e uma mudança na organização dos processos de trabalho. na saúde do trabalhador e consequentemente nas políticas de ocupação. Esses efeitos repercutiram nos processos de trabalho. organizacionais e financeiras. com a presença da automação microeletrônica. no modo de acumulação flexível.instalar um novo modo de acumulação como meio de sair da crise e também de manter o equilíbrio do sistema capitalista como um todo. Processos de trabalho no contexto da reestruturação produtiva A introdução de novas tecnologias desencadeou uma série de efeitos sociais que afetaram os trabalhadores e sua organização. afetando diretamente a questão do emprego. permitindo que. O uso de novas tecnologias trouxe em muitos países a diminuição do trabalho necessário. que se traduz na economia líquida do tempo de trabalho. Essa economia do tempo de trabalho levou ao chamado "desemprego tecnológico". adotado a partir dos anos oitenta. nas próprias condições de trabalho. essas economias enfrentassem uma expansão sustentada pela estabilidade de preços. Copyright © 2007. durante a década de oitenta. uma vez que.

Esse dado reflete que a economia líquida do tempo de trabalho ocorre e que essa circunstância é um fator do desemprego tecnológico. "sobre o flagelo do desemprego e a concorrência entre os jovens treinados para lidar com a nova tecnologia e os operários especializados de meia-idade"[1]. conforme afirma Falabella (apud NEDER. à medida que é afastado do processo de trabalho pelas causas decorrentes dessas novas exigências mercantis do modo de acumulação. de suas potencialidades frente à recolocação no mercado como meio de enfrentar o desemprego tecnológico. defendendo seus principais interesses políticos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 11 . como o Brasil. são mantidos os níveis de emprego. as discussões normalmente não ocorrem e quando acontecem têm fins socialmente estabelecidos pelas classes hegemônicas. o desemprego tecnológico é minimizado por planos de desenvolvimento e reorganização social. rompendo com o modelo fordista que caracterizava a força de trabalho pela sua especialidade. nos quais. A rigidez do fordismo é substituída pela idéia de flexibilidade e pela polivalência que o trabalhador deve desempenhar no uso de suas funções. apesar de não ser o único. precisa-se começar a discutir a possibilidade de políticas que girem em torno de medidas reivindicatórias. devido à linearidade de seu sistema. Nos países avançados. Porém existe uma discussão contínua promovida pelos seus sindicatos. Dessa maneira.A flexibilidade e a polivalência são elementos condicionantes desse padrão de produção. apesar do uso de novas tecnologias.15-16) no que diz respeito à diminuição ou ao desaparecimento de seus coletivos de trabalho. O operário que anteriormente controlava apenas uma máquina ou uma operação de uma máquina passa a ser responsável por uma ou várias máquinas que executam diversas operações e que muitas vezes pode ser operacionalizada no próprio escritório.p.1988. Já nos países não avançados. Copyright © 2007. que permitam ao trabalhador ter conhecimento daquilo que pode ocorrer consigo.

no início da década de oitenta do século passado. acompanhada de desemprego. para combater a inflação e enfrentar a recessão. sem que tenha ocorrido uma reestruturação na produção. Vale lembrar que as políticas econômicas adotadas naquele período. uma nova estrutura da própria família. Entretanto. sem preparar a população para as suas consequências. que ensejou ao país sofrer uma forte deterioração da capacidade operativa dos empreendimentos econômicos. não se pode esquecer que. de emprego e do uso de novas tecnologias. de investimentos nas áreas produtivas. bem como uma deterioração de importantes setores da infraestrutura econômica. nas condições de trabalho. uma forte sangria financeira para o pagamento dos juros da dívida externa. que envolvem aumento da produção e da demanda. leis. relação campo-cidade. os Copyright © 2007. uma nova divisão do trabalho entre grupos. Certamente essas discussões afetam a "ordem social". Essas políticas foram marcadas por uma economia oligopolizada. houve uma forte recessão econômica no Brasil. sem serem questionados os aspectos que concernem às questões econômico-estruturais. nos planos de ocupação. aparece atualmente com muita frequência a discussão de que a reestruturação produtiva acarreta desemprego tecnológico. trazendo consigo uma série de efeitos como baixo índice de investimentos nas atividades produtivas. uma escola funcional. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 12 . Na literatura disponível de sociologia do trabalho. pois questionam regras. de produção. A diferença entre países avançados e não avançados está no fato de que enquanto os primeiros fizeram a revolução tecnológica e investiram em novos processos de produção.Essas medidas não podem ser avaliadas. reduziram o ritmo de crescimento da economia. novas incorporações de categorias ao mercado de trabalho. Esses poderiam ser bons motivos para se discutir o futuro de uma sociedade que começa a ser ameaçada pelo uso excessivo de máquinas e que tem claros os impactos imediatos dessas políticas tecnológicas que são usadas na competição econômica. padrões de consumo. uma diferente visão de espaço e de utilização de energias naturais e respeito à natureza.

a economia internacional enfrentou nos anos setenta do século XX. tecnologicamente viáveis. pela flexibilidade. quando o capital aproveitou-se dela para redefinir suas relações com o trabalho e impor novas formas de produção. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 13 . com um parque industrial incapaz de acompanhar os avanços da revolução tecnológica e as exigências do comércio mundial. ou seja. expandiu-se o desemprego tecnológico. Pode-se dizer que. precárias e intensas e fortalecendo o capital pela adequação de processos modernos. um quadro de crise estrutural que acarretou um processo de aprofundamento da globalização do capital através da integração e da internacionalização de várias etapas do processo produtivo. com investimentos financeiros públicos e privados. novos padrões de desempenho gerais na economia foram impressos. Essa crise trouxe consigo a imposição de um amplo processo de reestruturação do capital. Simultaneamente à reestruturação produtiva proposta. Questão para ser discutida: Até que ponto as tecnologias da informação podem resultar em benefícios sociais ou acarretar em problemas de saúde. para salvaguardar as relações entre capital/trabalho. no contexto da crise econômica. com a marca do novo modo de acumulação. principalmente.segundos permaneceram naquele período defasados. mental? Copyright © 2007. ferindo certamente o trabalho por relações e práticas tradicionais. Fórum 1 – Novas tecnologias e efeitos sobre o trabalho Como foi dito. a fim de instalar um novo modo de acumulação como meio de sair da crise e também de manter o equilíbrio do sistema capitalista como um todo.

essencialmente. como do homem em sociedade. a terceirização. foca-se. a qualificação dos trabalhadores.U NIDADE 2 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho Objetivo: Demonstrar os principais impactos da introdução de novas tecnologias sobre o trabalho. Nesta unidade. Bom estudo! Terceirização. nos processos de terceirização. precarização e flexibilidade. Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 14 . precarização e flexibilidade O uso de novas tecnologias envolve a assimilação de uma cultura empresarial onde haja a integração entre as propostas de modernização tecnológica e racionalização. a terceirização e a flexibilidade Nesta unidade continuaremos apresentando o artigo de Vania Herédia que apresenta elementos essenciais para o entendimento das questões relacionadas à introdução de novas tecnologias que desencadearam uma gama de efeitos e impactos sociais sobre o trabalho que alterou. no processo produtivo e na qualificação da força de trabalho. Dos diversos efeitos que derivaram dessa orientação. as condições de trabalho e a saúde. não só do homem para o trabalho. Nem sempre o uso de novas tecnologias é apenas um processo técnico na medida em que pressupõe uma nova orientação no controle do capital. a precarização. em especial. em substituição ao taylorista-fordista. toda a forma como a sociedade tem se estruturado. Esses impactos repercutem sobre os processos de trabalho. a precarização e a flexibilidade aparecem com constância como características do paradigma flexível. ou tem alterado.

Com esses dois aspectos. Martins. são introduzidos novos métodos de organização.A terceirização. sem esquecer a qualidade. comunicação. essas medidas permitem às indústrias tornarem-se eficientes pela flexibilidade. alimentação. A terceirização em muitas indústrias do pólo metal-mecânico da Região Nordeste do Estado do RS foi testada inicialmente em setores não ligados diretamente ao setor produtivo. É a imposição das tecnologias gerenciais de qualidade. Entretanto. [.[2] Essas duas modalidades mostram como o Brasil resolve as exigências dos novos paradigmas industriais.1994. marketing. sem muitas vezes investimentos em tecnologia. torna-se possível enfrentar a competitividade e promover produtividade pela qualidade. foram agregadas às primeiras. manutenção. Limpeza. As mudanças organizacionais acabam confundindo-se com ambientes modernos. segundo Faria (apud Ramalho. áreas como a de recursos humanos.] E a outra tem como finalidade reduzir custos". Permite também uma diminuição nos custos. adaptando às condições existentes as exigências do mercado quando relaciona competitividade e produtividade. com a finalidade de avaliar seus efeitos e simultaneamente verificar o controle sobre esses processos. Em nome da racionalização produtiva e da especialização flexível. Essas indústrias começaram o processo de terceirização pelas áreas de apoio ao setor produtivo e foram ampliando os serviços que entrariam nesse processo.. 43).p. saúde. Uma delas "objetiva alcançar tanto elementos de produtividade quanto condições novas de competitividade. após essas primeiras experiências. A agilidade na produção permite maior controle das partes e domínio do todo. Com essa estratégia. assistência social foram as primeiras áreas de apoio a serem terceirizadas e. e a modernização facilita a concorrência. A flexibilização implica a redução de quadros de funcionários. 15 Copyright © 2007. assistência jurídica.. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . a terceirização é adotada como estratégia para gerar maior produtividade com competitividade. transportes. diminuindo as hierarquias na administração e reduzindo também o número de trabalhadores no chão de fábrica. ocorre de duas formas no Brasil. segurança patrimonial.

Alguns impactos sociais das novas tecnologias: resultado de um estudo 16 Copyright © 2007. muitas vezes na condição de estar à margem do sistema.A partir das experiências realizadas. O trabalhador. Um dos resultados visíveis da reestruturação produtiva foi a precarização pela saída de trabalhadores do mercado formal de trabalho para os setores informais. pois poderiam comprá-los a um custo menos elevado. a terceirização feita nas áreas de apoio à produção se manteve. Entretanto. Com frequência. para não perder totalmente sua dignidade. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . na condição de desempregado. A precarização do emprego aponta para a instabilidade das relações de trabalho e para a desvalorização da qualificação dessas relações. lhe oferece parte daquilo que perdeu como marca de que está fora do sistema. e outras acabaram sublocando a força de trabalho necessária para a atividade produtiva. A opção pelo mercado informal. A entrada no mercado informal lhe parece provisória. versatilidade e garante a competitividade que o mercado impõe. e essa argumentação na literatura pode ser vista como um elemento de flexibilidade. A terceirização é um processo que exige um constante replanejamento. A precarização influi em quem está fora do processo e também em quem está dentro. não vê alternativas e possibilidades de continuar com o vínculo empregatício. acaba se transferindo para o setor informal. perdendo a possibilidade de assegurar direitos que havia conquistado ao longo de sua vida operária e. No discurso empresarial aparece a justificativa de por que a terceirização promoveu agilidade no processo produtivo. Ela estabelece alguns parâmetros. muitas avançaram na concepção de que não necessitavam produzir todos os componentes de seu processo. as grandes indústrias recontratam seus antigos funcionários para o trabalho necessário e o fazem através de contratos de trabalho temporário ou mesmo pela subcontratação de serviços. mas acaba se distanciando da possibilidade de retorno ao trabalho assalariado.

A justificativa da eliminação de postos de trabalho foi de que a modernização tecnológica permitiu reorganizar o trabalho. 60 )[5]. Constata-se que os critérios de qualificação profissional perpassam as exigências da escolaridade formal. principalmente porque as mudanças tecnológicas Copyright © 2007. com fins de manter padrões de qualidade. criando uma distância da escola com o mundo do trabalho. equipados com novas tecnologias. ligado ao processo tecnológico e ao crescimento produtivo". Entretanto a relocação de trabalhadores entre setores é problemática quando a indústria não possui programas de requalificação de sua força de trabalho. Estar atento às exigências do mercado e responder às suas demandas não é uma tarefa simples.1998. reduzindo a força de trabalho empregada. Segundo Geller (apud. visando garantir a produtividade. mas uma readequação de trabalhadores nos setores produtivos para se integrarem no processo. Habilidades como ler. Diante dessas possibilidades. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 17 . Ficou visível nesse estudo que a produtividade é a alavanca das decisões de novos investimentos e de seus resultados. A mudança tecnológica é "um processo contínuo que conduz a novas competências e à reclassificação de postos" (p. principalmente pelas duas situações provocadas pela inovação. pode ser uma forma de questionar se houve a recomposição do emprego em favor de postos de trabalho de baixa qualidade. racionalizando-o e readaptando-o a novas funções produtivas. escrever. Esses dados apontam para o que aparece na literatura sobre o tema. p.Discutindo a premissa de que a reestruturação produtiva em algumas regiões gerou supressão de postos de trabalho. calcular não bastam para qualificar um trabalhador tecnicamente. 64). a do desemprego e a do deslocamento dos trabalhadores e sua reabsorção no mercado de trabalho. a redistribuição de trabalhadores entre setores é um fenômeno contínuo. ou seja. ou de forma precária. Apenas 20% dos entrevistados responderam que em suas indústrias não houve eliminação de postos de trabalho. o estudo feito aponta que 80% dos entrevistados afirmam que houve eliminação de postos de trabalho nos setores industriais. e concomitantemente desemprego tecnológico.

1996. decorrentes das mudanças de paradigmas. p. Ela não traz necessariamente o desemprego"[6]. seguido de redução do tempo de trabalho (28%). Essas colocações indicam a ambiguidade dos efeitos. conduz ao desemprego. O raciocínio apresentado nesse questionamento se confirma na explicação de Mattoso (apud LEITE.têm sido acompanhadas por mudanças organizacionais. Para esse autor. ao mesmo tempo. Quanto aos principais efeitos obtidos com a introdução de novas tecnologias. possibilita duas coisas: aumento de produtividade e redução do trabalho vivo envolvido na produção. A subordinação ao capital financeiro internacional impede o enfrentamento do fenômeno. menor número de trabalhadores. qualidade do produto (12%). Por outro lado. quando coloca que a tecnologia "em si mesma. programas de qualidade total. controle Copyright © 2007. se existisse uma política macroeconômica voltada ao pleno emprego. redução de estoque (4%). o estudo aponta em primeiro lugar para a redução do tempo de trabalho. os efeitos da inovação seriam diferentes. Apenas um pequeno número de entrevistados afirmou que as inovações não afetavam as condições de trabalho. de um lado o trabalhador é protegido pelas mudanças quando o ambiente de trabalho instala novas tecnologias que permitem a substituição do trabalho perigoso pelo trabalho controlado e quando essas alterações são feitas em áreas de insalubridade. diminuição de acidentes de trabalho. redução de custos com a força de trabalho (4%).6). em segundo lugar para a reeducação profissional e em terceiro lugar para mudança substancial no fluxo de produção. racionalização da produção (12%). ocasionadas pelo tipo de trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 18 . a eliminação de estoques. Os efeitos das inovações tecnológicas relacionadas às condições de trabalho. e 4% não responderam ao questionamento. ou seja. Das inovações organizacionais mais frequentes aparecem: a mudança de layout. o estudo indica que o aumento de produtividade (36%) é muito importante. diminuindo os acidentes e evitando uma série de doenças de trabalho. vistos pelos entrevistados são: maior proteção do trabalhador nas áreas de insalubridade. Quanto aos efeitos que a automação desencadeia nos setores de produção. a introdução de tecnologias. a substituição do trabalho humano pelas máquinas reduz o trabalho vivo e. e a dispensa da força de trabalho.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 19 . multifuncionalidade e polivalência. os principais ganhos e os motivos de terceirização na área social. a parceria com trabalhadores da própria indústria. as organizacionais e tecnológicas fazem parte do paradigma flexível que. Quanto aos principais ganhos. Essas inovações. compatíveis com os preços do mercado. A diminuição dos quadros hierárquicos é marcada pela flexibilidade profissional. Copyright © 2007. a posse de equipamentos para satisfazer as necessidades da indústria. Chama a atenção que a qualidade do produto. o que demonstra uma certa incongruência com o discurso presente sobre a qualidade nas indústrias. não aparece como destaque. a especialização. e outros motivos (16%). com colaboração e qualificação. constatou-se que a totalidade delas utiliza serviços terceirizados e que o principal critério utilizado para a contratação desses serviços é definido pelos custos dos serviços (56%). implantação inicial de células nos processos de trabalho (integração vertical) e produção estabelecida pelo mercado sob a forma de encomenda.de qualidade integrado ao processo. a tecnologia do terceirizado e os custos adequados.169) "tem papel-chave na modificação da dinâmica da luta de classes. segundo Harvey (1993. [7] Em decorrência das inovações organizacionais apresentam-se as seguintes mudanças: a presença de uma nova cultura empresarial voltada para a educação e o treinamento da força de trabalho. Apenas 4% dos entrevistados responderam que não há ganhos com a terceirização. Desses foram citados: necessidades externas urgentes para a satisfação dos clientes. salientaram a importância da diminuição dos gastos sociais. movida por ambos os lados. as indústrias apontaram para a racionalização do processo produtivo. no domínio dos mercados de trabalho e do controle do trabalho”. a fim de assegurar a filosofia de trabalho e manter uma negociação dos custos dos serviços (28%). Para discutir o processo de terceirização foram questionados aos entrevistados os critérios utilizados para a contratação de serviços terceirizados. p. seguido da diminuição dos custos sociais e para o aumento da produtividade. Das indústrias pesquisadas. enquanto ganho obtido. Desses ganhos.

Considerações finais O processo de modernização tecnológica não ocorreu dissociado da lógica da acumulação capitalista. O estudo aponta para a eliminação de postos de trabalho nos setores industriais equipados com novas tecnologias. Constatou-se também que muitos processos de terceirização promoveram precarização da força de trabalho. Logo. O estudo aponta ainda que o processo de terceirização adotado nessas indústrias foi promovido para obter racionalização do processo produtivo. reduzindo a força de trabalho empregada. com fins de manter padrões de qualidade. as mudanças marcadas pelas inovações técnicas e organizacionais demonstram a penetração da automação microeletrônica nos processos de trabalho como paralelamente a implantação de novos paradigmas organizacionais. uma vez que a introdução das tecnologias é produzida pelo capital e não pelo trabalho. Copyright © 2007. As indústrias de transformação do pólo metal-mecânico de Caxias do Sul investiram em automação microeletrônica através da instalação de equipamentos com microprocessadores. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 20 . A justificativa da eliminação de postos de trabalho foi de que a modernização tecnológica permitiu reorganizar o trabalho. racionalizando-o e readaptando-o a novas funções produtivas. pois possuíam tanto condições técnicas como financeiras para garantir sua operacionalidade. diminuir gastos sociais e aumentar a produtividade.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 21 .EXERCÍCIOS DISSERTATIVOS: 1. Em que medida as novas tecnologias empregadas podem afetar as condições de trabalho? Copyright © 2007.

marxista e schumpeteriano. Em seu texto intitulado “Desenvolvimento. Tomou-se a ideia de corte estruturalista. onde a indústria e as inovações constituem os elementos determinantes do dinamismo das economias capitalistas e de sua posição relativa na economia mundial. leremos o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. Tomou-se a ideia de corte estruturalista. na área da saúde essa visão é problemática. Todavia. Copyright © 2007. Introdução O presente artigo situa a questão da saúde no contexto do desenvolvimento nacional e da política industrial. onde a indústria e as inovações constituem os elementos determinantes do dinamismo das economias capitalistas e de sua posição relativa na economia mundial.U NIDADE 3 Desenvolvimento Industrial e Saúde Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial Nas próximas cinco unidades. marxista e schumpeteriano. uma vez que os interesses empresariais se movem pela lógica econômica do lucro e não para o atendimento das necessidades da saúde”. Todos os países que se desenvolveram e passaram a competir em melhores condições com os países avançados associaram uma indústria forte com uma base endógena de conhecimento. de aprendizado e de inovação. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 22 . complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial. Todos os países que se desenvolveram e passaram a competir em melhores condições com os países avançados. Para tanto. entraremos em contato com a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial.

No Brasil. este debate norteou as contribuições da economia clássica do desenvolvimento para pensar a superação da dependência e do subdesenvolvimento. com base em dados sobre o potencial de inovação no Brasil e de comércio exterior. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 23 . A mudança e a estratégia de desenvolvimento requeriam rupturas na estrutura econômica e de ordem política e institucional. constitui um direito de cidadania e uma frente de desenvolvimento e de inovação estratégica na sociedade de conhecimento.associaram uma indústria forte com uma base endógena de conhecimento. Desenvolvimento e política industrial: a tradição estruturalista na sociedade do conhecimento A questão do desenvolvimento e da política industrial sempre permeou o debate em torno do papel do Estado para a superação das condições de atraso nos países subdesenvolvidos. esta visão é problemática. sempre contrários à ideia de que as forças naturais de mercado levariam a uma convergência na renda per capita e no padrão de vida dos indivíduos. Furtado. O objetivo do presente trabalho foi mostrar. simultaneamente. equidade e integralidade. Citam-se diversos autores. A noção de complexo industrial da saúde constitui uma tentativa de fornecer um referencial teórico que permita articular duas lógicas distintas. É neste contexto teórico que políticas desenvolvimentistas foram perseguidas em diversos países da América Latina no período de 1930 a 1980. uma vez que os interesses empresariais se movem pela lógica econômica do lucro e não para o atendimento das necessidades da saúde. Tavares. A indústria era tomada como o núcleo Copyright © 2007. como: Prebisch. na área da saúde. Cardoso de Mello. como a desconsideração da lógica do desenvolvimento nas políticas de saúde levou a uma situação de vulnerabilidade econômica do setor que pode limitar os objetivos de universalidade. a sanitária e a do desenvolvimento econômico.5 entre muitos outros de tradição cepalina. Isso porque a saúde. de aprendizado e de inovação. Cardoso & Faletto. Todavia.

ao desenvolvimento e à redução da dependência frente aos países desenvolvidos. Em síntese. de acordo com Tavares (1979). numa fase posterior. entrar nas indústrias pesadas de insumos básicos e de bens de capital. Nessa segunda fase. a endogeneização da geração de progresso técnico. progressivamente. Assim. Sinteticamente. não era natural e envolvia saltos qualitativos e rupturas na estrutura produtiva. mas apenas extrair algumas ideias mais importantes para o caso do Brasil por parte de autores que compartilhavam. o papel do Estado se mostrava central. A industrialização permitiria. a despeito da problemática nacional ser tratada em profundidade. Os instrumentos utilizados iam desde a reserva de mercado para o segmento privado nacional e estrangeiro até a constituição de empresas estatais de grande porte. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Isso levaria. possibilitaria um padrão de desenvolvimento mais inclusivo e igualitário. a melhoria na inserção internacional – ou na linguagem cepalina. termos de troca entre bens industriais e primários. da desigualdade. No nível político. as questões do modelo de desenvolvimento. a indústria também permitiria uma nova aliança entre a burguesia industrial e os trabalhadores em detrimento dos segmentos "atrasados" primário-exportadores. à época. da exclusão eram incorporadas segundo uma visão simplista da relação entre o Estado e a sociedade. para os objetivos do presente artigo. permitindo o financiamento da acumulação de capital e a coordenação dos investimentos complementares. da tradição cepalina e desenvolvimentista.central da estratégia daqueles países que almejassem superar a situação de dependência e sua localização na periferia do sistema econômico. Numa primeira fase. fazer uma crítica mais aprofundada desta visão. passaria pela implantação de indústrias "leves" de menor necessidade de capital e de tecnologia para. O processo de industrialização. Não cabe. em conjunto com outras políticas. inclusive na infra-estrutura econômica. como a de reforma agrária. a um só tempo: a produção de produtos com maior valor agregado. 24 Copyright © 2007. a luta pelo desenvolvimento era a luta pela industrialização.

inclusive. o crescimento e diversificação do setor manufatureiro e a política industrial estavam na raiz da superação da dependência e da mudança na divisão internacional do trabalho. Como consequência.Os interesses internos de classe associados ao capital internacional. em grande parte. Independentemente das críticas e do processo concreto de expansão do capitalismo periférico em certas situações ter sido extremamente excludente e desigual. sem considerar a dinâmica capitalista interna. política e social. desconsiderava-se a realidade endógena do desenvolvimento das forças capitalistas no Brasil num quadro de desenvolvimento nacional. em termos mais atuais.16 2005). perpetuavam a dependência e a incorporação dos segmentos de baixo da pirâmide social (Cardoso & Faletto. a questão do desenvolvimento foi reduzida.5 1982). Isso une todos os autores citados. Ou seja. tendo a indústria como o núcleo dinâmico da geração e difusão do progresso técnico. mas também é essencial ter uma base sistêmica e industrial capacitada para a geração de conhecimento e de inovação (Kim & Nelson. de um país atrasado e dependente (Cardoso de Mello. tardio no contexto histórico da fase avançada (ou oligopólica) do capitalismo mundial e do passado escravagista e colonial. que partem dos trabalhos de Schumpeter sobre o desenvolvimento centrado no processo de inovação. 1979). a base de conhecimento e de aprendizado constituem os fatores dinâmicos mais destacados da competitividade empresarial e nacional. a capacidade de prospecção e de absorção da tecnologia da fronteira internacional. que focam sua preocupação no processo de Copyright © 2007. O caráter sistêmico da inovação. atualmente se percebe claramente que para o desenvolvimento econômico não basta ter capacidade produtiva. pode-se afirmar que o modelo tipicamente cepalino não distinguia entre capacidade produtiva incorporada em máquinas e equipamentos e a capacidade tecnológica. foi pouco considerado. Ou seja. pouco enfatizava as competências requeridas a um processo contínuo de aprendizado e de constituição de uma base endógena de inovação que permitisse a introdução de melhorias permanentes nos bens. Ou seja. Na realidade. econômica. serviços e processos produtivos. elevando. à relação entre o centro e a periferia. Do ponto de vista das teorias mais recentes. como a brasileira. não considerados adequadamente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 25 .

a despeito dos problemas já mencionados relacionados à desigualdade. 1997). A revolução neoliberal ocorrida no final dos anos 70 e nos anos 80. a experiência brasileira era apresentada como um exemplo emblemático de fracasso do modelo de substituição de importações. negando o papel de indução e coordenação do Estado e acusando as políticas adotadas de ineficientes e ineficazes. Neste processo. de modo distorcido e falacioso. Na mesma direção.desenvolvimento. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 26 .11 2001). tendo por base seu papel de motor do progresso técnico e da difusão de inovações para todo o sistema. Ignorou-se que as bases materiais de um capitalismo mais desenvolvido tinham de fato se constituído entre os anos 1950 e 1980. o alvo principal do ataque foram as políticas desenvolvimentistas e a política industrial. A percepção cepalina estruturalista constituiu uma referência muito forte que norteou as trajetórias de desenvolvimento perseguidas pelo Brasil entre os anos de 1950 a 1980. em particular (Gadelha.2 1993. A experiência bem sucedida dos países do Leste Asiático foram inclusive (re) lidas. Mesmo sob um modelo excludente e concentrador. Isso foi enfatizado em documentos de referência da crítica e da proposição de um novo modelo (BIRD. como casos bem sucedidos de desenvolvimento sem intervencionismo seletivo do Estado na estrutura econômica. inclusive para a agricultura e para os serviços. O resultado deste ataque e do esgotamento efetivo do modelo anterior frente aos novos desafios engendrados pela globalização assimétrica e pela terceira revolução tecnológica foi mais de duas décadas Copyright © 2007. e como contraponto aos casos bem sucedidos. cujas ideias ainda são muito presentes nas políticas públicas vigentes. contrariando todas as evidências históricas. particularmente nos anos de autoritarismo. modelo que ficou marcado como de substituição de importações. essa visão do desenvolvimento esteve por trás de um processo vigoroso de crescimento econômico (acima de 8% ao ano em média) acompanhado de fortes mudanças na estrutura produtiva. 1. atacou de modo incisivo a estratégia de desenvolvimento adotada. à exclusão e à precária base de inovações. Agências internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BIRD) adotaram em suas normas e políticas a visão de que o papel essencial do Estado deveria ser criar os fundamentos ao bom funcionamento de uma economia de mercado (seguindo o marketing conforming approach).

8. No campo da saúde. Todavia. o que remete à necessidade de um tratamento multissetorial integrado. O SUS teve as diretrizes da 8ª Conferência Nacional de Saúde de 1986 como marco. em grande parte.de estagnação macroeconômica e de involução na estrutura industrial implantada (Coutinho. engendrando uma das mais importantes formas de articulação federativa e de participação da sociedade civil nas políticas públicas nacionais (Cordeiro.3 2000) e. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . em termos conceituais. tendo se assentado num movimento político e social vigoroso (o movimento ou "partido" sanitário). esta forma tradicional do tratamento da questão tecnológica e da inovação no 27 Copyright © 2007. o setor saúde desenvolveu-se na contramarcha das reformas liberalizantes. Embora estratégica para a racionalidade do sistema e para o atendimento das necessidades de saúde. em termos gerais. por sua vez.7 2001). e contraditoriamente. a percepção promovida pelo movimento sanitário e na academia de que a saúde não poderia ser tratada setorialmente. essa visão integral da saúde e de sua relação com o desenvolvimento nunca abordou sua relação com as estratégias para a atividade industrial e para a geração e difusão de inovações em saúde. de modo ainda mais abrangente.8 2005). em direção contrária a esta visão restrita do papel do Estado. representou a vitória do paradigma neoliberal na estratégia nacional que vem permeando as sucessivas políticas econômicas implantadas desde então. na própria Constituição Brasileira de 1988 e na Lei Orgânica da Saúde (Lei n. instituídas. Observe-se que esta última foi aprovada pelo Congresso Nacional em pleno Governo Collor. envolvendo a questão da promoção (Buss. Também é importante. que. Essa era numa perspectiva voltada eminentemente para a regulação do processo de incorporação de tecnologias pelo sistema de saúde. mediante análises econômicas do tipo custo-benefício em suas diversas vertentes. apenas como combate às doenças. do próprio padrão nacional de desenvolvimento. Ela está relacionada às condições gerais de vida. são lançadas as bases do Sistema Único de Saúde (SUS) justamente no final dos anos 80 e início dos anos 90.080 de 19/9/1990). exceto na tradição das pesquisas e das ações relacionadas à Avaliação Tecnológica em Saúde (ATS). Assim sendo.

a saúde como uma frente importante de inovação. Copyright © 2007. onde a dependência econômica aparece em diversas formas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 28 . geração de renda e emprego e de desenvolvimento num contexto de globalização excludente e assimétrica (Lastres et al.campo da saúde não abrange a saúde em uma outra dimensão.17 2005). inclusive. Isto é. e de modo importante. na produção de bens e serviços em saúde.

Seguindo a própria lógica da concorrência capitalista (em bases oligopólicas). portanto.U NIDADE 4 Saúde. mediante a constituição de uma base endógena de inovação em saúde e da montagem de uma indústria competitiva. Ciência e Tecnologia Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial. Isso coloca como desafio para os países menos desenvolvidos a entrada de novos paradigmas tecnológicos. de desenvolvimento econômico. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 29 . continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz.20 1995). de geração de emprego e renda e. é uma das áreas líderes nos sistemas nacionais de inovação em conjunto com o complexo industrial-militar (Rosemberg et al. ciência e tecnologia Nesta unidade. uma marca estrutural expressiva também no campo da saúde.T&I). A dependência e o subdesenvolvimento deixam. Copyright © 2007. Lembre-se de que em seu texto intitulado “Desenvolvimento. equânime e integral. de apropriabilidade privada dos frutos do progresso técnico e de exclusão de pessoas. regiões e países. portanto. a produção empresarial em saúde também constitui uma fonte de intensa geração de assimetrias. Invariavelmente. ciência e tecnologia A literatura contemporânea sobre desenvolvimento mostra que a área de saúde constitui uma frente importante para as atividades de ciência e tecnologia (C. complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”. de inovação. restringindo a evolução da atenção à saúde e a construção de um sistema universal. Saúde.

isso requer uma atualização para sua adequação a uma sociedade em que as bases competitivas se assentam crescentemente no Copyright © 2007. políticas industriais e de inovação para os distintos setores. mediante a negação de políticas ativas e seletivas para a estrutura produtiva nas áreas de maior dinamismo como a de saúde. Por sua vez. apenas sob uma lógica defensiva voltada para proteção dos interesses e da pressão da indústria para a absorção de novos produtos e processos no sistema. acabem atuando na mesma direção do modelo neoliberal. torna-se necessário incorporar os temas ligados ao desenvolvimento das atividades econômicas e à política industrial. Nessa direção.Em síntese. relacionou a saúde como um campo vital para o desenvolvimento nacional em bases empresariais. como se fossem duas dimensões independentes. coloca-se a necessidade de acoplar uma nova agenda voltada para a concepção de políticas de desenvolvimento das atividades produtivas. não se pode tratar o padrão de desenvolvimento na sociedade do conhecimento de um lado. por raras vezes. inclusive para a área de serviços. de industrialização e de superação da dependência dos países menos desenvolvidos. observa-se um duplo e contraditório ataque para a inovação em saúde vinculada ao desenvolvimento das forças produtivas dos setores industriais. A questão que se coloca é complexa. uma vertente associada ao campo do pensamento crítico sanitarista que sempre defendeu a ampliação do papel do Estado para a constituição de um sistema equânime e universal. Do outro. de uma vertente neoliberal que simplesmente descarta o papel do Estado na política industrial. mas seu enfrentamento mostra-se absolutamente necessário. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 30 . Assim. O tratamento em separado. À agenda usual da pesquisa e da política de saúde. Todavia. mas que. Deve envolver políticas científicas. esse modelo tem procurado vetar os processos endógenos de desenvolvimento. de outro. tecnológicas e. e o sistema de saúde. fundamentalmente. inadvertidamente faz com que as forças sociais. que historicamente vêm lutando por um sistema de saúde amplo e inclusivo no Brasil. notadamente no campo político. De um lado.

se distinguindo do simples processo de acesso e aquisição de informação.   A prospecção permanente de tecnologias portadoras de futuro. envolvendo uma forte transformação do próprio Estado com a flexibilidade e novos requerimentos. financiamento e regulação. e desafios da terceira revolução industrial. 1999). Entre esses temas de caráter analítico e normativo.  A análise da constituição de uma base endógena de conhecimento em áreas estratégicas do sistema produtivo da saúde. tácita e sistêmica. pesquisa. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 31 .  A análise e promoção de atividades localmente interligadas que configuram arranjos produtivos locais em saúde. Copyright © 2007. envolvendo um amplo conjunto de organizações de produção.  A constituição de redes técnico-produtivas.  Esforço para introduzir mudanças institucionais no setor produtivo e nas instituições de suporte. seguindo a premissa de que o aprendizado ocorre com base numa capacitação local. podem ser destacados:  O estudo da dinâmica industrial e de inovação nas indústrias da saúde e sua articulação com o sistema de atenção à saúde. sobretudo no âmbito financeiro e das organizações de pesquisa e de tecnologia.conhecimento e na inovação (Cassiolato. O estudo para a montagem de sistemas regulatórios não tradicionais no campo da saúde como os ligados à propriedade intelectual e.

econômico e político que se desenvolve o conceito de complexo industrial da saúde (Gadelha. Novamente. 20024 e 200312). Procura-se captar. Remete. a interação entre saúde e desenvolvimento. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 32 . em última instância. a dimensão sanitária e a econômica. Tal relação vai além da concepção de um sistema de atenção adequado. O grande desafio é a constituição de um modelo que permita uma reestruturação da base produtiva nacional na direção do dinamismo econômico e da superação do atraso em áreas críticas para a atenuação da desigualdade e da exclusão social. simultaneamente. numa perspectiva de pensar.U NIDADE 5 Cruz. Copyright © 2007. ao mesmo tempo. no limite possível. a exemplo dos equipamentos eletrônicos. continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo “Desenvolvimento. como é o caso de todos os segmentos que fazem parte do complexo da saúde. complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”. da biotecnologia e dos novos materiais. o dinamismo e atenuação da dependência econômica em áreas estratégicas no atual contexto histórico. O complexo industrial da saúde: em busca de uma visão integrada É nesse contexto histórico. para sua inserção numa estratégia de desenvolvimento que privilegie. lembre-se que em seu texto intitulado Saúde e Desenvolvimento Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial Nesta unidade.

Assim..12 2003. tanto por crescentemente se organizar em bases empresariais quanto por configurar o mercado em saúde. como construção política e institucional. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 33 . num mesmo contexto.. Essas atividades produtivas estão inseridas num contexto político e institucional bastante particular.A noção de complexo industrial da saúde é a um só tempo. equipamentos. Copyright © 2007. esta atividade está completamente inserida no complexo. Isso confere organicidade ao complexo. configura "(..)" (Gadelha. p.. 523). nas matrizes de insumo-produto nas contas nacionais) e/ou de conhecimentos e tecnologias (. um corte cognitivo.) um conjunto selecionado de atividades produtivas que mantêm relações intersetoriais de compra e venda de bens e serviços (sendo captadas. Como mostra a Figura 1. analítico e político. permitindo articular. materiais diversos ou produtos para diagnóstico. envolvendo a prestação de serviços como o espaço econômico para o qual flui toda a produção em saúde. por exemplo. a produção de serviços e bens tão diferentes como medicamentos.

A perspectiva é sistêmica, relacionada, portanto, ao conceito de sistema nacional de inovação em saúde (Rosemberg et al, 1995). O conceito de complexo industrial da saúde privilegia como elemento crítico desse sistema a atividade produtiva, considerando que o núcleo da vulnerabilidade econômica do País na área da saúde é a fragilidade do sistema industrial e empresarial brasileiro. A capacidade de inovação do País é determinada pelo potencial de transformação de conhecimentos em bens e serviços novos ou melhorados em sua qualidade e/ou processo produtivo. Essa capacidade, no Brasil, é descolada da base científica e tecnológica nacional e das necessidades do sistema de saúde, principalmente pela baixa capacitação empresarial em realizar atividades de pesquisa e desenvolvimento (Gadelha, 2005). Nesta perspectiva, podese afirmar que constitui um esforço de recuperar a perspectiva estruturalista, enfatizando a questão do desenvolvimento, da dependência e da política industrial e de inovação na área da saúde, no contexto histórico da globalização assimétrica e da revolução tecnológicoindustrial em curso. Tomando essa referência teórica do complexo industrial da saúde no contexto do padrão nacional de desenvolvimento, e tendo por foco seu potencial de inovação e o perfil das atividades que são efetuadas no País, trata-se agora de situá-lo frente à histórica questão da dependência e do desenvolvimento. Os dados mais recentes sobre a capacidade empresarial de inovação foram levantados pela Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (PINTEC) 2003 (IBGE, 2005). Esta iniciativa recente e de grande relevância evidencia a baixa intensidade de inovação das indústrias da saúde, com dados específicos para a indústria farmacêutica (fabricação de produtos farmacêuticos) e de equipamentos médico-hospitalares, embora nesta última categoria estejam incluídos outros produtos não relacionados à saúde (instrumentos de precisão e ópticos, automação industrial, cronômetros e relógios). Os dados específicos são reveladores, mesmo considerando que relativamente, à média da indústria essas atividades estão bem posicionadas. Em termos gerais, a taxa de inovação
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parece elevada: 50,4% das empresas farmacêuticas e 45,4% das empresas de equipamentos introduziram alguma inovação de produto ou processo entre 2001 e 2003. Todavia, os dados mais desagregados mostram que essas atividades se concentraram largamente na aquisição de equipamentos para a melhoria de processos e em produtos e processos novos para as empresas, mas não para o mercado nacional. Foram gastos com atividades internas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) apenas 0,53% das receitas líquidas nas empresas "inovadoras" farmacêuticas e 1,22% nas empresas de equipamentos que introduziram alguma inovação no mercado. Outros dados, cujo detalhamento não caberia no presente artigo, mostram também a pouca importância na relação com instituições de C&T para a realização de atividades de P&D, o reduzido nível de cooperação e alianças para o desenvolvimento de inovações e o impacto reduzido dos programas governamentais. Apenas 16% das empresas inovadoras receberam algum apoio do Estado nos dois setores, sendo o risco econômico de mercado (condições de mercado e riscos econômicos) o fator mais crítico que tem limitado ou mesmo bloqueado as estratégias mais intensas de inovação. Por trás desses indicadores, torna-se necessário abrir o complexo da saúde pelos seus segmentos, procurando captar o perfil das atividades produtivas realizadas no Brasil. Para tanto, os melhores indicadores são os relacionados à balança comercial, uma vez que espelha em quais segmentos o País é capacitado ou dependente de importações. Como a noção de complexo industrial remete fundamentalmente para a base produtiva existente no País, este indicador é muito mais relevante do que outros relacionados a publicações científicas e mesmo patentes. Esses últimos indicadores, no Brasil, refletem muito mais a capacitação em pesquisa aplicada e não necessariamente o potencial de inovação que sempre deve ser relacionado à base empresarial.

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Saúde e Desenvolvimento Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial e dependência do comércio exterior Nesta unidade, continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. Novamente, lembre-se de que em seu texto intitulado “Desenvolvimento, complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”.

Dependência do comércio exterior Com base neste referencial teórico, a situação de dependência foi caracterizada mediante um levantamento e sistematização dos dados de comércio exterior para o complexo da saúde em seu conjunto e para cada um dos segmentos. As informações utilizadas foram aquelas disponíveis nos bancos de dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (SECEX, Rede Alice). Em linhas gerais os seguintes procedimentos metodológicos foram adotados, conforme Gadelha (2002): Base de informação primária. Essa base foi concentrada no período de 1997 a 2001, uma vez que em 1997 houve mudança expressiva na classificação dos produtos comercializados fruto da substituição da Nomenclatura Brasileira de Mercadorias (NBM) para a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM).7 Para captar o ocorrido nos anos 90, tomaram-se como base os estudos setoriais disponíveis, que se mostraram adequados e suficientes para os objetivos pretendidos (Negri & Giovanni, 2001). As dificuldades na base NCM para a identificação dos segmentos
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Devido ao fato dos intermediários e dos fármacos poderem ser usados em outras indústrias. cosméticos. quando inseridos em categorias mais abrangentes e pouco definidas como as dos itens "outros" ou em que o uso do produto não é específico à área da saúde. Todavia. a despeito destes problemas inerentes ao padrão de classificação adotado pela NCM. Copyright © 2007. vacinas.industriais da saúde consistiam em problemas de identificação dos produtos. análises clínicas e até na indústria de plásticos (aditivos para borrachas e plásticos e corantes). Embora houvesse essas dificuldades. Em todo caso. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 37 . Nesse recorte estão contemplados os fármacos e os intermediários utilizados em sua produção. Esses produtos podem ser usados em indústrias de alimentos. antisoros. é possível a obtenção de alguns valores superestimados. reagentes. Fármacos. o risco de se subestimar alguns valores também é presente pelo fato de os produtos químicos inorgânicos utilizados na indústria farmacêutica e alguns orgânicos terem ficado de fora da análise. pôde-se trabalhar numa base primária mais homogênea. soros e toxinas. Segmento farmacêutico. em decorrência dos propósitos específicos do estudo. Incluíram-se medicamentos apresentados na forma de doses ou acondicionados para venda a retalho. produtos imunológicos. Não foram considerados sangue humano. sangue animal. outras frações do sangue. toxinas e outros produtos incluídos na análise específica dos segmentos de vacinas. Foi mantido o recorte de subitens do capítulo de produtos químicos orgânicos (Capítulo 29 do NCM). hemoderivados. extratos. além de alguns códigos poderem envolver substâncias não farmacêuticas. substâncias humanas ou animais preparados para fins terapêuticos ou profiláticos e medicamentos não apresentados em doses. Foi adotado o procedimento usual de separar medicamentos (produtos formulados) e fármacos (princípios ativos). Na indústria de medicamentos foram utilizados os itens que constam no Capítulo 30 da NCM onde se concentram os produtos farmacêuticos. sem perder de vista a dinâmica desses segmentos no período inicial da liberalização comercial. os valores agregados constituem um bom indicador do desempenho global do segmento.

Porém. complementada com o recorte utilizado pela associação setorial (Associação Brasileira da Indústria Médico-Odontológica . classificou-se os subitens da NCM em quatro grupos. Os reagentes de diagnóstico/laboratório em suporte e os reagentes para determinação dos grupos/fatores sangüíneos foram excluídos do grupo de materiais de consumo (grupo 4).ABIMO). os produtos imunológicos modificados. não permitiu um nível de desagregação recomendado para uma avaliação da competitividade dos diferentes produtos. entre outros relacionados ao sangue e seus derivados. Foram agregadas às frações do sangue. os valores são bastante próximos e comparáveis com os apresentados na literatura e pela associação empresarial. os meios de cultura e os reagentes de diagnóstico em suporte. infelizmente. o corte metodológico procurou fazer uma seleção dos produtos item a item. Em que pesem as inclusões e exclusões efetuadas. incluindo os reagentes para diagnóstico de origem microbiana. uma vez que incorporam bases tecnológicas bastante distintas. não estão desagregadas na forma do Programa Nacional de Imunizações (PNI). a saber: grupo 1: instrumentos médico-hospitalares. pois estes dois itens foram incluídos no segmento de reagentes para diagnóstico. os reagentes para determinação dos grupos/fatores sanguíneos. Não obstante. grupo 2: aparelhos e equipamentos eletromédicos. incorporam tanto os bens acabados quanto os insumos importados e o atendimento do mercado público e privado. grupo 4: materiais de consumo. Seguindo a metodologia de Furtado & Souza9 (2001). O diagnóstico no período recente.Equipamentos e materiais. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 38 . odontológicos e laboratoriais. Hemoderivados. Tomaram-se como base para a análise as vacinas para medicina humana que. em diferentes capítulos e posições da NCM. Copyright © 2007. Reagentes para diagnóstico. infelizmente. grupo 3: próteses e órteses. Vacinas. fruto das necessidades específicas e do corte analítico adotado no estudo.

estes valores atingiram um patamar reduzido frente ao final dos anos 90. analisando o período como um todo. chegando o déficit a um valor inferior a US$2. levantaram-se as informações em dólares (FOB . sendo também o de maior valor nas importações (US$4. conforme mostrado na Tabela 1. atingindo um valor real de US$3.Free On Board) para o complexo e para seus segmentos no período 1997 a 2004. houve um claro impacto da Copyright © 2007. portanto.Soros e toxinas. Com base nesta metodologia de tratamento da balança comercial em saúde. o corte foi imperfeito pela diversidade do uso. O ano de 1998 foi o de pior desempenho no déficit comercial. que permitem uma visão geral de sua evolução. Em 2003. este quadro da balança comercial do complexo não é muito alentador quando se efetuam considerações de ordem macroeconômica e uma análise mais desagregada por produtos e blocos de países. Em termos gerais. valores reais para subsidiar a análise. Do ponto de vista macroeconômico. antisoros polivalentes. parece ter havido melhoria nas condições externas do complexo relacionas à balança comercial. antitoxinas de origem microbiana e outros produtos. Todavia. antitetânico. tendo-se. Procedeu-se à atualização monetária para o ano de 2004 com base no Índice de Preços ao Consumidor (IPC) dos Estados Unidos.5 bilhões pela primeira vez nos oito anos analisados. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 39 . foram incluídos os soros antiofídicos.8 bilhões. fruto da redução nas importações. toxinas. Neste caso.48 bilhões) efetuadas pelas indústrias do complexo.

Em 2004. Nos anos de 2002 e 2003 o déficit se reduziu acentuadamente atingindo seu menor valor neste último ano. a própria política social vinculada ao acesso e à inclusão. que levou à valorização da taxa de câmbio desde o início de 2003. política industrial e condições de saúde fica evidente. Como há certa defasagem entre a evolução do câmbio e seu resultado nas importações e nas exportações. as importações voltaram a crescer em quase 20%. pode-se inferir que o elevado patamar das importações até 2001 foi. da forte desvalorização cambial ocorrida em 1999.12 2003). ao menos num primeiro momento. A relação entre padrão de desenvolvimento. mais baratas) frente à oferta local. em parte.evolução da taxa de câmbio no desempenho do setor. Esse cenário se mostrou muito atraente para a entrada de capital. portanto. pode levar a uma pressão nos gastos de saúde (encarecimento em reais das importações) incompatível com as disponibilidades orçamentárias. uma valorização cambial. como a assistida no presente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . retardados no tempo. Qualquer movimento na taxa cambial pode levar a uma explosão do gasto em saúde ou com as importações. o que fica claro é que o modelo econômico de ajustamento externo e interno interfere diretamente nas ações de saúde. pode levar a uma explosão das importações e ao aumento da demanda de divisas externas para fazer frente às necessidades de saúde. Aqui já aparece uma primeira fonte de vulnerabilidade econômica do complexo industrial da saúde: sua forte dependência das condições externas e da política macroeconômica. sendo mais forte do que avaliado em trabalho anterior (Gadelha. decorrente da taxa ter sido excessivamente valorizada até 1999. fruto dos efeitos. limitando seus graus de liberdade e. Sob outra conjuntura macroeconômica. . tornando as importações do complexo competitivas (ou seja. 40 Copyright © 2007. mostrando o risco de excessiva dependência externa para viabilizar a política de saúde e seus objetivos. a desvalorização do câmbio. fato possivelmente relacionado à nova valorização cambial associada ao ajuste macroeconômico efetuado com base em elevadas taxas de juros. antes de gerar seus efeitos na redução das aquisições externas e no aumento das exportações. Em ambas as situações. Sob uma determinada conjuntura.

por 61% das vendas externas. que a dependência de importações se concentra nos produtos de maior intensidade tecnológica e de conhecimento. sobretudo). sendo ainda mais relevantes numa perspectiva de desenvolvimento em longo prazo. em termos da linha de produtos. após o salto no déficit comercial no final dos 80. As exportações brasileiras em saúde se destinam majoritariamente para blocos menos desenvolvidos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 41 . É isso que explica que. em 2004. à taxa cambial. logo. Para executar as ações de saúde.Todavia. Confirmando esta indicação da concentração da dependência nos segmentos mais dinâmicos. o patamar de importações do País nunca é inferior a US$3 bilhões. 73% das importações foram provenientes dos países mais desenvolvidos na União Européia e do North American Free Trade Agreement (NAFTA . A Tabela 2 mostra. não há muita sensibilidade das compras externas frente ao preço e à taxa de câmbio. Copyright © 2007. 18 2001). uma clara assimetria nas relações internacionais brasileiras. portanto. 2003) analisados anteriormente. Enquanto isso. Há. o País acaba tendo que importar produtos de alta tecnologia dos países mais desenvolvidos a qualquer custo. sendo que o Mercosul e o "Resto do Mundo" participaram. como também evidenciaram os dados do IBGE15 (PINTEC. a análise do destino e origem por blocos econômicos confirma essa hipótese. Para estes casos.EUA e Canadá. há também questões estruturais que a análise dos dados permite evidenciar. a competitividade local se vincula a produtos e processos de menor intensidade de tecnologia. Já nos segmentos e mercados sensíveis aos preços e. evidenciando a dependência de tecnológica em produtos mais intensos em termos de conhecimento provenientes dos países mais desenvolvidos. estimado em US$700 milhões com base na literatura existente (Negri & Giovanni.

com as importações já atingindo quase US$300 milhões. No caso dos hemoderivados a situação é explosiva. Setor industrial e saúde Na área de equipamentos e materiais. no contexto da revolução microeletrônica e das condições cambiais. que foi uma das que mais reduziu as importações ao longo do período. Copyright © 2007. lembre-se de que em seu texto intitulado “Desenvolvimento. Se não forem implementadas ações urgentes de desenvolvimento e produção industrial. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 42 . Nesta unidade. triplicando no período analisado em termos reais. a dependência se concentra nos equipamentos eletrônicos. diversos produtos para diagnóstico. que certamente constituem os bens de maior complexidade e potencial de inovação. mas. complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”. Novamente.U NIDADE 7 Saúde e desenvolvimento Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial. continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. em alguns casos de modo muito acentuado. No campo das tecnologias de base biotecnológica (hemoderivados. o País pode vir a ter sérias dificuldades em sua bem sucedida política de acesso a estes produtos. em que pese o campo das indústrias de base biotecnológica. Há uma indústria importante de fabricação instalada no País e que deu boas respostas frente à demanda local. vacinas e soros e toxinas). todos estão elevando suas importações. sua capacidade competitiva no futuro pode estar claramente ameaçada.

considerando que o salto tecnológico entre as atividades laboratoriais e as industriais é relativamente menor frente a outros setores. tendo havido uma expansão muito acentuada no último ano do período. Seu estudo. da fronteira tecnológica se deslocar ao término do período. uma Copyright © 2007. O conceito de complexo industrial da saúde. o déficit permanece crônico. ao se relacionar justamente a necessidade de articulação da lógica sanitária com a lógica econômica do desenvolvimento na área da saúde. da dinâmica econômica setorial. mediante compromissos de importação durante o período de absorção tecnológica. Em síntese. a análise da balança comercial do complexo industrial da saúde reflete como o padrão nacional de desenvolvimento induz a uma precária especialização da base produtiva e a uma inserção internacional fortemente assimétrica.No caso dos reagentes para diagnóstico. na área de vacinas e de soros e toxinas (Figura 8). se mostra útil. este processo pode ser resultado das estratégias dos principais produtores nacionais (BioManguinhos/Fiocruz e Butantan) de estabelecer acordos de transferência de tecnologia com as grandes líderes da indústria mundial. Esta situação reflete a perda de oportunidade para entrar num segmento tecnológico promissor em termos da capacidade de interação entre o sistema de C&T e a indústria. com um crescimento acentuado nas importações e no déficit comercial. com ênfase na questão da inovação e do padrão de especialização do País no contexto mundial. evidenciou a desconsideração. tornando o sistema de saúde vulnerável e dependente. há o risco. a despeito dos dados serem muito agregados. Todavia. Por fim. há uma clara piora na situação comercial. nesta perspectiva. Em parte. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 43 . Isso traz como consequência. inerente a estes tipos de contrato. analítica e normativa. recolocando a questão da dependência. o que deveria constituir um desdobramento natural da concepção ampla (e não setorial) da saúde. Considerações finais e perspectivas Os resultados permitiram evidenciar a necessidade de pensar a saúde no contexto geral da estratégia de desenvolvimento e da redução da dependência do País.

Esse modelo deve privilegiar. No período recente. Ademais. A concessão de incentivos fiscais às empresas. 1. algumas medidas genéricas para a melhoria no ambiente institucional vêm facilitando e flexibilizando a relação de instituições de pesquisa com o setor produtivo privado (Lei n. também atua na direção de se criar um ambiente favorável à inovação e aos investimentos nas indústrias da saúde. do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e de outras iniciativas relacionadas aos investimentos públicos em medicamentos e hemoderivados. incorporou segmentos-chave do complexo industrial da saúde. esta análise coloca a questão da articulação da política industrial com a política de saúde no centro de uma estratégia de desenvolvimento do complexo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . A indústria farmacêutica. ao mesmo tempo.antes conhecida como a "MP do Bem"). hemoderivados e vacinas. foram dados. que inclui medicamentos. No campo da política industrial. Como desdobramento político. foi selecionada como uma das quatro opções estratégicas relacionadas às áreas de elevado dinamismo e intensidade de conhecimentos."Lei da Inovação"). ainda que insuficientes. Além disso. equidade e integralidade. 10. podendo implicar em riscos aos objetivos de universalidade. numa percepção ampla.196 de 21/11/2005 . a Política Industrial. com uma articulação para priorização dos equipamentos médicos no âmbito desta política. incluindo os investimentos em tecnologia (Lei n. numa releitura contemporânea. a dinâmica de inovação e desenvolvimento da indústria e a inclusão social. uma das outras opções estratégicas são os bens de capital. lançada em novembro de 2004. alguns passos importantes. fármacos. Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE). Esta política já implicou na mobilização de instrumentos importantes de financiamento (como o Programa de Apoio de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva Farmacêutica – Profarma.973 de 2/12/2004 .extrema vulnerabilidade à política nacional de saúde. mediante a intervenção da recém-criada Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). tendo como pano de fundo o debate e a perspectiva de um novo modelo de desenvolvimento para o País. 44 Copyright © 2007. retomando a perspectiva estruturalista colocada desde Furtado (1961).

na prática concreta. além de um conjunto de políticas setoriais. e um sistema de saúde inclusivo e igualitário. Em síntese. ATIVIDADES OPTATIVAS: 1. Um país que pretende chegar a uma condição de desenvolvimento e de independência requer. do poder de compra associado à política de saúde para o desenvolvimento tecnológico e industrial constitui um exemplo destacado de que a dicotomia entre as duas lógicas ainda persiste. na própria estrutura do Ministério da Saúde. Estabelecem-se diretrizes inclusive no Plano Nacional de Saúde vigente. excepcionais e para Aids. Nessa direção. como para os medicamentos genéricos. Além disso.No campo da política de saúde. foi criada a Secretaria Nacional de Ciência. tecnológico e industrial em saúde. deixando a questão industrial de ser tratada de forma independente da questão da geração de conhecimentos. Não obstante. pode-se afirmar que a questão do complexo industrial da saúde começa a fazer parte de inúmeros documentos de política (na forma de "Complexo Produtivo da Saúde"). Tecnologia e Insumos Estratégicos. Discuta em que medida o setor de biotecnologia e saúde pode contribuir com ganhos em CT&I nos países em desenvolvimento. A não utilização. a necessidade de superação desta dicotomia mostra-se essencial. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 45 . estratégicos. Copyright © 2007. ainda há muito a avançar em uma ruptura cognitiva e política com as visões antagônicas que ainda separam em campos muito estanques as necessidades da saúde e as necessidades do País no desenvolvimento industrial. o contexto atual se mostra muito mais favorável do que foi no passado. passando a haver um locus específico voltado para o desenvolvimento científico. ao mesmo tempo. indústrias e fortes e inovadoras. Este talvez seja um dos mais importantes desafios estratégicos do Sistema de Saúde brasileiro.

usuário. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. consumidor. doenças. A inserção das interações do Sistema Homem-Máquina nas categorias do processo comunicacional demanda a explicitação de alguns conceitos e a análise de alguns modelos da comunicação. renova-se concomitantemente a Copyright © 2007. resultam ruídos ergonômicos desconfortos. incidentes e acidentes . dores. Desde suas origens. A crítica aos modelos lineares e o estudo dos modelos de convergência da comunicação permitem integrar os componentes do modelo sistêmico básico da Ergonomia no que existe de mais atual na Teoria da Comunicação. você terá acesso ao artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. operador. A leitura do presente artigo nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. COMUNICAÇÃO E RUÍDO Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nas próximas unidades. E acrescenta mais adiante: "as comunicações entre o homem e a 'máquina' definem o trabalho". a Ergonomia utiliza o modelo de Shannon e Weaver para explicitar as interações entre os homens e as máquinas. Deste modo.que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . Ergonomia e Comunicação MONTMOLLIN (1970) define a Ergonomia como a "tecnologia das comunicações nos sistemas homens-máquinas". ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 46 .U NIDADE 8 ERGONOMIA. Destes processos.

Suas proposições. O sistema proposto por esses autores (engenheiros de telecomunicações) baseia-se principalmente na teoria matemática da informação. um máximo de informação e um mínimo de ruídos. portanto. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 47 . por Claude E. em sua generalidade. como uma técnica da engenharia de comunicações. Copyright © 2007. calcular o grau de receptividade da mensagem. Apresentava-se. sobretudo. através de aparelhos elétricos e eletrônicos. logo se demonstraram utilizáveis em outros setores que não aqueles cobertos pelo campo da engenharia. com a transmissão de mensagens pelos canais físicos (telégrafo.ou seja. no entanto. University of Illinois Press. Shannon e Waren Weaver. frequentemente foi acompanhada por um certo abandono das bases matemáticas. Claude E. Na origem. Esta passagem. poderiam ser abordados através do instrumental de Shannon e Weaver. rádio etc). com a utilização eficiente dos meios ou canais disponíveis . Seu objetivo era medir a quantidade de informação suportável por um dado canal em dadas circunstâncias. os engenheiros da Bell Telephone elaboraram esta teoria para determinar quais as condições de uma transmissão eficaz de uma dada mensagem entre um emissor e um receptor e explicar as perturbações possíveis. Shannon e Waren Weaver propuseram uma formulação definitiva desse modelo em sua obra. The Mathematical Theory of Communication (Urbana.abordagem ergonômica das relações entre o homem e a máquina nos sistemas homemtarefa-máquina Sistema de informação e processo de comunicação A Teoria da Informação foi formalizada. Verificou-se que os fatos da comunicação. nas primeiras décadas deste século. prever e corrigir as distorções passíveis de ocorrer durante a transmissão. 1949). Preocupa-se.

esquerda-direita. em RABAÇA e BARBOSA (1987).Modelagem do processo comunicacional Shannon e Weaver definiram comunicação como "todos os procedimentos pelos quais uma mente afeta uma outra". O conceito de ruído (tudo que interfere na transmissão e dificulta a recepção da mensagem) também está presente no modelo de Shannon e Weaver. e o seu ouvido o receptor" (Warren Weaver). o cérebro do outro é o destinatário. No entanto. Os elementos essenciais desse modelo. são os seguintes: 1) Uma fonte de informação seleciona. mas o seu modelo objetivava a engenharia eletrônica. 4) O destinatário recebe a mensagem e a interpreta. uma mensagem. o meu cérebro é a fonte de informação. unidirecional. da comunicação. meu sistema vocal é transmissor. essencialmente. de um modelo linear. de acordo com um código predeterminado e os transmite através de um canal adequado. como num passe de mágica esse modelo foi transposto em sua totalidade para o domínio do tratamento da comunicação humana. e abstraía as pessoas envolvidas no processo. Aplicou-se o modelo de Shannon e Weaver aos mais diversos contextos: à biologia. à psicologia. à linguística. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Cabe mencionar que a comunicação interpessoal é uma preocupação de Weaver: "quando falo com outra pessoa. Trata-se. 3) O receptor decodifica ou demodula os sinais recebidos para recuperar a mensagem original e transmite a mensagem para o destinatário. ressaltava a comunicação eletrônica e o equipamento de circulação de informação. 2) O transmissor converte a mensagem em sinais. 48 Copyright © 2007. à sociologia. como diz COELHO NETTO (1980). de um conjunto de mensagens possíveis.

Foi Norbert Wiener quem elaborou a noção de feedback ou de retroação que considera a possibilidade de “resposta” do destinatário da mensagem. Copyright © 2007.tudo o que vai. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 49 . em capacidade numérica de absorção de mensagens e a manipular a questão da interpretação humana como se fosse uma série de caixinhas mecânicas. Passou-se a falar em quantidade de informação.Os trabalhos referentes à teoria da informação deram lugar a múltiplas aplicações no domínio das ciências humanas. Ao esquema unidirecional da teoria da informação de Shannon e Weaver acrescentou-se um fluxo inverso que parte do destino para a fonte . tal como o esquema de Shannon e Weaver evidencia muito bem.a cibernética. cujas características essenciais foram descritas por Norbert Wiener (1948). em limiares de percepção. É a reação do efeito sobre a causa. Num sistema cibernético. em contracorrente. ao mesmo tempo em que se desenvolvia um novo campo científico . do receptor para o emissor constitui um fenômeno de retroação. o feedback permite a regulação cíclica: a modificação de uma das grandezas de saída reage sobre as grandezas de entrada a fim de manter o equilíbrio do sistema.

nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. A inclusão de efeitos foi uma quebra importante com os modelos anteriores. e com que efeito?" A adição do canal como um elemento específico foi uma resposta ao crescimento de novos meios de comunicação. em que canal.U NIDADE 9 Ergonomia. telégrafo e rádio. O estudo dos efeitos inicia um novo campo: o enfoque comunicacional da mudança comportamental humana. Destes processos. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. dores.desconfortos. Copyright © 2007. A leitura do presente artigo. Nesta parte a autora apresenta alguns exemplos de modelos lineares de comunicação. doenças. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. operador. que atendiam principalmente a propósitos descritivos.que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . Comunicação e Ruído Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade. Alguns exemplos de modelos lineares da comunicação = Lasswell O modelo do cientista político Harold LASSWELL (1948). resultam ruídos ergonômicos . como dissemos. incidentes e acidentes . tais como imprensa. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 50 . para quem. consiste em "Quem disse o quê.usuário. consumidor. em RABAÇA e BARBOSA (1987).

o próprio Berlo adverte que "é perigoso assumir que um (dentre esses elementos) vem primeiro. aos antecedentes ou intenções da mensagem. e uma outra relativa às condições em que a mensagem foi recebida.Lasswell propõe um modelo que visa primacialmente orientar o exame dos diversos aspectos da comunicação de massa . Copyright © 2007. embora o modelo de David K. 2) Diz o quê . Isto contradiz o conceito de processo. 5) Com que efeitos (impacto produzido pela mensagem sobre a audiência) – implica análise do efeito."O comportamento da fonte não ocorre independentemente do comportamento do receptor ou vice-versa. outro por último.implica uma análise de audiência. mensagem.o estudo desse item implica uma análise de controle.o estudo de cada uma dessas questões implica modalidades específicas de análise do processo comunicacional: 1) Quem (fatores que iniciam e guiam o ato da comunicação) . canal.implica uma análise dos meios. 4) A quem (pessoas atingidas por esses meios) . a fonte e o receptor são interdependentes". uma questão referente às causas. 3) Em que canal (meios interpessoais ou de massa) . receptor). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 51 . e comunicação é um processo". ou que eles sejam independentes uns dos outros. BERLO (1963) seja essencialmente linear (fonte. Pode-se ainda acrescentar ao modelo original de Lasswell. = Berlo ROGERS e KINCAID (1981) observam que. Em qualquer situação de comunicação. Berlo afirma: .implica uma análise de conteúdo.

como a persuasão. Na comunicação humana. Berlo afirmou: "Poder-se-ía argumentar que o modelo F-M-C-R não se pretendia um modelo de comunicação. uma razão para empenhar-se em comunicação. embora não o sejam para as comunicações mais importantes: "Eu não reconheço assunções subjacentes ao determinismo causal linear que possam considerar a maior proporção dos eventos da comunicação.A partir de BERLO (1963). Berlo conclui que o interesse na comunicação está mudando. torna-se necessário o segundo ingrediente. anos depois de estabelecer o modelo F (fonte) . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 52 . necessidades.a tradução de idéias. a mensagem existe em forma física . objetivos e intenções num código. Copyright © 2007. para "comunicaçãocomo-troca". Berlo acusa a "fertilidade limitada da tradição de pesquisa" na qual ele foi treinado (principalmente o enfoque psicológico da pesquisa experimental baseada na pesquisa unidirecional). O objetivo da fonte tem de ser expresso em forma de mensagem.M (mensagem) . onde modelos lineares foram mais satisfatórios. informações e um objetivo a comunicar. Berlo acusa ainda que os modelos lineares do processo "faz-isto-para-os-outros". e que se desenvolveu como uma ajuda áudio-visual para facilitar a memorização de relações da comunicação". que não considerava nenhum dos testes de modelagem teórica. intenções. podemos dizer que toda a comunicação humana tem alguma fonte .C (canal) .R (receptor). principalmente da persuasão direcional. são apropriados para a maioria das comunicações humanas. Segundo ROGERS e KINCAID (1981).uma pessoa ou um grupo de pessoas com um objetivo. num conjunto sistemático de símbolos. Berlo aceitou as críticas ao modelo linear: "nossa visão da pesquisa (com o foco sobre os efeitos da comunicação) e nossa visão da comunicação (como um processo) são contraditórias". com ideias. Estabelecida uma origem.

Dizia ele: "A mudança mais dramática na teoria geral da comunicação durante os últimos 40 anos foi o abandono gradual da idéia de uma audiência passiva. 53 Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . especialmente quando se transmitiam as mensagens por meios de comunicação de massa. liderou o movimento pelos modelos relacionais. Estes modelos descreviam um ato simples de comunicação. Acorde ROGERS e KINCAID (1981). Os seres humanos nem sempre usam a informação do modo que a 'fonte' pretende. ou da maneira que é necessariamente interpretada pelo observador/ pesquisador. em comparação com o livro 'Cybernetics' de Norbert Weiner (1948). mais tarde. da comunicação do que o modelo cibernético. manipulando mais do que sendo manipulada por uma mensagem . mas não o processo de comunicação. nos anos 70. para 1948 ou 1949. com a vantagem do ponto de vista de hoje. O professor Wilbur Schramm. e a sua substituição pelo conceito de uma audiência altamente ativa e altamente seletiva. um modelo linear de comunicação se adaptava melhor ao campo.Crítica dos modelos lineares da comunicação Os modelos lineares da comunicação eram úteis para o propósito de desenhar experimentos de laboratório. Podia-se justificar tal assunção nos estudos de propaganda e persuasão. 1981). "A maior diferença entre os fenômenos físicos e a comunicação humana é que os 'objetos' da comunicação humana (diferentemente das bolas de bilhar) têm seus próprios propósitos. Muitos aspectos importantes da comunicação humana não se adaptam aos modelos lineares e tendem a ser ignorados pelas pesquisas de comunicação baseadas em modelos lineares. que apareceu mais ou menos na mesma época. um dos reprodutores do modelo linear na década de 50. então emergente. que assumem a causalidade unidirecional dos componentes do modelo em relação aos efeitos da comunicação. Estes fatores são explicitamente considerados no modelo de convergência da comunicação" (ROGERS e KINCAID. ao olhar para trás. Evidentemente.um parceiro integral no processo de comunicação". imagina-se porque o livro de Shannon e Weaver teve um impacto tão grande no estudo científico da comunicação.

“(. destinada em primeiro lugar ao mesmo que fala: donde se conclui que falar é falar-se. visto que é capaz de ao mesmo tempo emitir uma mensagem decifrando-a. num certo sentido.KRISTEVA (1988) ao analisar a relação entre a linguagem e o pensamento afirma que se a linguagem é a matéria do pensamento. a mensagem destinada ao outro é. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 54 . também não existe sociedade sem comunicação. é também o próprio elemento da comunicação social. e em princípio. A autora enfatiza o papel ativo do receptor ao afirmar que a linguagem é um processo de comunicação de uma mensagem entre dois sujeitos falantes pelo menos. "Do mesmo modo.) cada sujeito falante é simultaneamente o destinador e o destinatário da sua própria mensagem. Tudo o que se produz como linguagem tem lugar na troca social para ser comunicado.. o destinador-decifrador só decifra na medida em que pode dizer aquilo que ouve". Copyright © 2007. não emite nada que não possa decifrar”. Do mesmo modo que não há sociedade sem linguagem. Assim..

Nesta parte a autora apresenta novos modelos comunicacionais. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”.desconfortos. na recepção de mensagens. como resultado. resultam ruídos ergonômicos . o reforço das convicções muito mais do que abalá-las. operador. fórmula deveras feliz para designar o processo de decodificação das mensagens. a seleção espontânea ou semivoluntária efetuada por cada um. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. portanto.por exemplo. Comunicação e Ruído Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade. por via de uma persuasão possível. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 55 . Copyright © 2007. é constituída por diversas etapas a que Jean-Noel Kapferer (1978) chama os caminhos da persuasão. Inúmeras observações registradas de modo empírico testemunham a favor da tese da exposição seletiva . Destes processos. como dissemos.usuário.que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . dores. A leitura do presente artigo.U NIDADE 10 Ergonomia. Toda e qualquer campanha de opinião teria. uma campanha ilustrativa da relação existente entre o câncer e o tabaco foi acompanhada por 60% de não-fumantes e apenas por 32% de fumantes. doenças. incidentes e acidentes . Novos paradigmas para a modelagem comunicacional: A abordagem relacional Acorde BALLE (1995). consumidor.

e. Daí a importância decisiva do contexto cultural. Segundo a teoria da “Gestalt Psychologie”. São postos em evidência dois aspectos essenciais: a seletividade e a intensidade. O fenômeno da retenção seletiva prolonga e encerra a lista dos mecanismos psicossociológicos que presidem sub-repticiamente. mais do que voluntariamente. sobretudo da vontade mais ou menos consciente de ser intensa “ou não. A atenção depende do nível de “alerta” do organismo. por vezes. a percepção do essencial. nem sequer constitui condição necessária. A compreensão da mensagem não é condição suficiente para sua aceitação. isto é. de acordo com Jean-Noel Kapferer (1978): “São as propriedades relacionais que criam a forma e não a reunião de cada uma das subpartes.Assim. A última sequência no processo de recepção é a memorização ou. Contra todas as expectativas. são múltiplas as observações que mostram que as mensagens não são forçosamente “aceitas” em razão de sua “memorização”. à seleção de mensagens. Quanto ao processo da compreensão. A percepção constitui sempre um processo ativo que se realiza no contexto de uma cultura. Ou então. esta ideia preconcebida é solidária de uma concepção simplista e errônea do processo de recepção das mensagens. a percepção. o único capaz de conferir uma significação última às mensagens difundidas. em sentido mais amplo a aceitação da mensagem. Copyright © 2007. A atenção distribui-se sempre entre vários objetos e depende. Na verdade. a recepção das mensagens surge como um processo que compreende quatro fenômenos distintos: a atenção. a psicologia da forma. a teoria clássica da informação propõe-nos hoje a única definição operacional possível: “Há compreensão quando há correspondência entre os sentidos da mensagem atribuídos pela fonte e pela audiência”. a compreensão e a memorização. A aceitação é a última passagem obrigatória nos caminhos da persuasão. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 56 . precede a percepção das subpartes.” A percepção decorre igualmente de uma decodificação. constante. sendo esse mesmo nível tributário do contexto ambiental.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 57 .o que determina o resultado de uma comunicação persuasiva é o conteúdo das respostas “cognitivas”que desencadeia. acaba por transformá-la profundamente. e não o conteúdo da própria mensagem. McLuhan chama atenção para uma evidência um tanto esquecida. mas o modo como esta é transmitida e. a de que a mesma mensagem poder ter efeitos significativamente diferentes sobre a sociedade e seus membros. portanto. o meio através do qual é transmitida. Qualquer mudança de opinião ou de atitude constitui um universo tridimensional:    A dimensão cognitiva (as opiniões em que se vai fixar a mensagem). mas a forma como esta é transformada ou transfigurada pelo meio. O que importa não é o conteúdo da mensagem. com o famoso aforismo “o meio é a mensagem” McLuhan. Nessa perspectiva. Considerando que a investigação sobre os meios de comunicação incide sobre setores múltiplos e diversificados. destrói de imediato a maneira como até então os efeitos das técnicas de difusão ou de comunicação eram encarados. segundo o tipo de veículo que assegura sua transmissão. Copyright © 2007. A memorização das mensagens não segue forçosamente pari passu sua “eficácia”. Isto significa. falar de auto persuasão em lugar de persuasão . por conseguinte. Designa-se por “persuadibilidade” a capacidade de o destinatário de uma comunicação se deixar convencer ou influenciar. acorde BALLE (1995). A dimensão conotativa (as intenções de ação do receptor). mais ainda. Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem foi publicado em 1964. num sentido mais amplo. que o modo de transmissão da cultura influencia essa cultura e. A dimensão afetiva (o grau de confiança atribuído ao comunicador). Daí resulta a ideia de que as técnicas uniformizam as sociedades e lhes impõem um modo único de utilização e de pensamento. o que importa não é tanto o sentido da mensagem (o significado).Seria preferível.

de suas crenças. juntamente com seus intrumentos e seu objeto . se aplique a uma relação social. idéias. Copyright © 2007. tal como a liberdade. Essa influência reside na adoção progressiva e sub-reptícia de um modo de apreensão e de percepção inculcado por via da familiaridade com os meios de comunicação. de valores. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 58 .. uma representação interacionista da atividade de comunicação. aplica-se a uma relação social. Ao contrário dos esquemas lineares dos anos 50 e 60.Segundo McLuhan. A abordagem “interativa”. opiniões. a de um “ator” em face a um outro “ator”. como a liberdade.. expectativas”. como afirma BALLE (1995). a de um “ator” face a outro “ator”. seria preferível considerar a hipótese de ajustes recíprocos entre os “emissores” e os “receptores” de uma mensagem.” (BOUDON. o paradigma da ação sugere que se pensem em conjunto os temas da comunicação. ele possui a capacidade não apenas de selecionar as mensagens que lhes chegam. Estes interpretam os respectivos comportamentos recíprocos e agem com base nessa interpretação. é necessário que cada um interprete os comportamentos do outro e que atue com base nessa interpretação pelo menos tanto quanto em função de suas próprias intenções. mas também de interpretá-las e de julgá-las em função de sua situação social e pessoal. Mais que uma manifestação de sentido único. Adotar-se-ia. ao mesmo tempo. o importante não é essa inculcação progressiva e mais ou menos clandestina de ideias. porque faz sentido para os atores posicionados no entrelaçamento das redes de interação e de comunicação. mas também os meios que utilizam e as formas que podem assumir. dado que esta. de juízos. “O receptor não é uma cera sobre a qual se viria imprimir a mensagem. “Uma mensagem difunde-se no corpo social a partir do momento em que se revela capaz de superar um conjunto de etapas. volta às costas para uma interpretação demasiado mecanicista da influência dos meios de comunicação sobre a sociedade ou sobre seus membros .ele convida a distinguir entre si as atividades de comunicação.para que a comunicação. levando em conta não só os objetivos que se propõem. 1986).

Ao contrário. Os fenômenos de comunicação devem ser considerados como uma troca de mensagens entre atores sociais. Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 59 . mas também da ideia que têm dos meios de que dispõem e das pressões que sofrem. agem em função não só dos objetivos que se impõem. sejam eles “emissores” ou “receptores”. Antes de dar continuidades aos seus estudos é fundamental que você acesse sua SALA DE AULA e faça a Atividade 1 no “link” ATIVIDADES. a interpretação que podemos qualificar de dialética ou de interacionista considera que os “usuários” dos veículos.

A leitura do presente artigo.usuário. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. dores. como dissemos. Em sistemas vivos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 60 . Modelo de convergência da comunicação ROGERS e KINCAID (1981) observam que o reducionismo.desconfortos. consumidor. resultam ruídos ergonômicos . cada pedaço separadamente. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. então. Durante os anos 60. onde as partes são altamente interdependentes.U NIDADE 11 Modelos de Comunicação Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. O mesmo não ocorre com as ciências biológicas e sociais. incidentes e acidentes . surge um enfoque diferente Copyright © 2007. química e outras ciências físicas. apresenta-se como tema prioritário nas ciências ocidentais: retalhar as coisas e estudar as partes. doenças. operador. Este enfoque atomístico mecanicista da ciência funcionava para a física. reduzem-se as ambiguidades através do isolamento de um ou de uns poucos elementos num processo total e examinam-se. Nesta parte a autora apresenta o modelo de convergência da comunicação. o mecanicismo atomista não dá conta da interação entre as partes. O método é assim atomístico e mecanicista. Destes processos. há algum tempo.que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem .

1979): Copyright © 2007.não ocorre no contexto do subsistema ecológico de ideias. A assunção central da teoria de sistemas é a asseveração de que o todo é mais do que a soma de suas partes. separada de seu ambiente e dos outros indivíduos. nas interações do sistema com seu ambiente e no controle ou autorregulação da direção.do pensamento científico para preencher a lacuna das ciências biológicas e sociais: a teoria geral de sistemas. A partir do ponto de vista de Bateson. A comunicação não é um produto ou efeito ou o que sobra do contexto depois que o pedaço que queremos explicar foi retirado do contexto. A teoria holística de sistemas concentra-se em conjuntos. 'input/output' e 'sistemas abertos' penetraram o vocabulário da maioria dos cientistas da comunicação. 2) A falta de métodos adequados de pesquisa para estudar as relações da comunicação. nas relações entre as partes. Existem dois obstáculos principais para a adoção do enfoque sistêmico no estudo da comunicação humana: 1) A falta de um modelo de comunicação que possa representar adequadamente a interdependência de relações entre as partes. mas sim como uma parte deste subsistema. é consistente com o princípio básico da teoria geral de sistemas. A rejeição da ideia de que o indivíduo seja uma entidade isolada. Muitos pesquisadores abraçaram a teoria dos sistemas com grande entusiasmo.seja uma elocução ou uma ação . = Assertivas básicas do modelo de convergência da comunicação (KINCAID. Conceitos como 'feedback'. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 61 . E a teoria de sistemas é uma das principais influências teóricas do modelo de convergência da comunicação. a comunicação .

Copyright © 2007. 8) as implicações positivas dos termos não devem obscurecer outras alternativas do processo de comunicação. pois cada componente implica seu oposto: concepção errônea.através dos vários estágios do processamento informacional humano . 6) os componentes do modelo de convergência se organizam em três níveis de 'realidade' (ou de abstração): físico. 2) o processo de comunicação não tem início nem fim. 7) uma vez que a interpretação e o entendimento da informação alcançam o nível de interpretações partilhadas e o entendimento mútuo. o processamento da informação deve conduzir ao entendimento mútuo. que criam . e . 3) a informação e o entendimento mútuo são os componentes predominantes do modelo de convergência da comunicação. à concordância mútua e à ação coletiva. 4) o processamento da informação no nível do indivíduo envolve percepção. entendimento. crença e ação. psicológico e social. 9) quatro combinações possíveis do mútuo entendimento e de acordo são factíveis: a. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 62 . Mútuo entendimento com acordo. 5) quando a informação é partilhada por dois ou mais participantes.potencialmente. pelo menos novas informações para posteriores processamentos. interpretação equivocada.1) toda a informação é consequência de uma ação.a ação pode se tornar consequência da informação. mas somente relações mútuas entre as partes que dão significado ao conjunto. o que se considerava como processamento da informação individual torna-se comunicação humana entre duas ou mais pessoas que possuem o propósito comum (mesmo se por um breve momento) de se entenderem. interpretação. divergência e descrença reduzem o entendimento mútuo e conduzem à discordância e ao conflito (um tipo de ação coletiva).

de modo a alcançar o mútuo entendimento.devido à incerteza inerente à troca de informação. A convergência do entendimento de cada participante com os outros nunca se completa. Portanto. O modelo de convergência da comunicação define a comunicação como um processo no qual os participantes criam e partilham informações uns com os outros. A incerteza inerente do processamento da informação e b. redes). 11)Circuitos de informação (ou seja.b. Embora entendimento mútuo seja o propósito ou a função primária da comunicação. ele nunca é alcançado em sentido absoluto . mas não completá-lo. não se requer um mútuo entendimento perfeito. Vários ciclos de partilhamento de informações sobre um tópico podem aumentar o entendimento mútuo. 10)O esquema do modelo de convergência se perde na indicação da natureza dinâmica do processo (como a maioria das representações diagramáticas). Mútuo entendimento com desacordo. c. O mútuo entendimento como o propósito básico da comunicação. a comunicação cessa quando um nível suficiente de entendimento mútuo foi atingido. Divergência mútua com acordo e d. os sistemas conceituais que os Copyright © 2007. Divergência mútua com desacordo. mas recupera-se o dinamismo do modelo ao considerar dois importantes fatores: a. Felizmente para maioria dos objetivos. incerteza e propósito são os elementoschave da explicação cibernética e os componentes do modelo de convergência tornam-se dinâmicos com a adição dos princípios básicos da cibernética. Geralmente. nunca é perfeita. Os códigos e conceitos que alguém tem disponíveis para o entendimento são aprendidos através da experiência. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 63 .

Por meio de várias interações ou ciclos de troca de informações.participantes usam para os entendimentos só podem se aproximar de outros dentro de algum limite de erro ou incerteza. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 64 . Devem obter maior precisão e atingir os limites de tolerância requeridos para o opósito em questão . Copyright © 2007.implodir um edifício ou falar de um dia de sol. dois ou mais participantes do processo de comunicação devem convergir em direção a um maior entendimento mútuo do significado de cada outro ator do processo.

incidentes e acidentes . Destes processos. O ruído ergonômico nas comunicações homem-tarefa-máquina A realização do trabalho implica a interação entre o homem. tal interação se explicita através de atividades de tomada de informações. como dissemos. comunicações orais. Auditivos .U NIDADE 12 Interação e Ruído Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade. painéis sinópticos. movimentação corporal e deslocamentos espaciais. acionamento de comandos. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. dores.mostradores. alarmes. sons emitidos durante o funcionamento e o desempenho - Copyright © 2007. consumidor. resultam ruídos ergonômicos . A máquina. homens. visuais e auditivas.campainhas. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. operador. De acordo com MORAES (1992). telas. máquinas e ambiente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 65 .usuário.que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. doenças. A leitura do presente artigo. gestos.desconfortos. o grupo social e o ambiente fornecem informações ao operador através de signos:   Visuais .

Ocorrem então mudanças de estado que enviam novas mensagens e reinicia-se o ciclo que envolve mudança e transformação dos protagonistas e do ambiente com vista ao alcance de determinadas metas. trata informações. O homem recebe os sinais e decodifica os signos e age. um perfume que evoca uma imagem) . por exemplo. discrimina e interpreta informações.  Sinestésicos (sinestesia . Esta interação se dá num determinado ambiente que implica coações e constrangimentos ruídos . vibrações. por exemplo. salgado. Sinestésicos (sinestesia . define estratégias e toma decisões .trepidações. o peso e a posição dos membros) . palavras e sons. movimenta o corpo e assume posturas conforme exigências de visualização. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 66 . A partir dos seus sistemas sensórios perceptivos detecta.sensações de contato mecânicas (rigidez e maciez). doce.que perturbam a comunicação entre homens e máquinas. palpação e audição.azedo. deslocamentos. Táteis . maus cheiros.     Barulhos de engrenagens e correias. Palatais – gostos. de descargas de ar. Olfativos .como. aromas.relação subjetiva que se estabelece espontaneamente entre uma percepção outra que pertença ao domínio de um sentido diferente.sentido pelo qual se percebem os movimentos musculares.odores. manipulação. Copyright © 2007. térmicas. e envia mensagens através dos sistemas efetores e atua sobre os comandos das máquinas e equipamentos. deslocam-se no espaço – atividades parentes e observáveis. ácido. através de processos cognitivos seleciona. como. cor da chama e temperatura.atividades não aparentes -.

e que podem ocorrer tanto no processo inicial de codificação (tradução de uma intenção para uma forma) quanto na decodificação (quando então a mensagem pode ser recomposta não com o significado visado pela fonte mas segundo o significado que interessa. veículo) transporta os signos. 3) Um canal físico (medium. intencionalmente ou não. ruído “é todo fenômeno que se produz na ocasião de uma comunicação. 1) Uma fonte de informação produz mensagens. 2) Um transmissor codifica a mensagem. 6) Esse processo de transmissão está sujeito a sofrer as influências e alterações provocadas por uma fonte física de ruídos (elementos perturbadores da forma da mensagem ou 'engineering noise'). não pertencente à mensagem intencionalmente emitida" COELHO NETTO (1980) apresenta o ruído com subdivisões . conscientemente ou não. 5) Um destinatário.ruído físico e ruído semântico. responsáveis pela distorção do significado da mensagem. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 67 . Copyright © 2007. 4) Um receptor decodifica os signos a fim de recompor a mensagem. 7) O mesmo processo está sujeito a ruídos de tipo semântico.Ruídos ergonômicos nas comunicações homem-tarefa-máquina Para EPSTEIN (1986). transformando-a em signos. pelo destinatário (retroalimentação ou 'feedback'). ao destinatário). recebe a mensagem. pessoa ou coisa. 8) A fonte controla os efeitos da mensagem sobre o destinatário através da análise de signos enviados.

quando do projeto do modelo conceitual de sistema.  O calor ou o frio em demasia. prejudica a tomada de informações auditivas.e dos componentes acionais .  A mesma dificuldade quando da tomada de informações se dá como decorrência da deficiência de iluminação .  O mesmo barulho implica redução da capacidade de atenção. painéis . pedais . alavancas. ocasionam problemas posturais e prejudicam a concentração. chaves seletoras. cotovelos e pés determinam constrangimentos posturais. legibilidade e compreensibilidade dificulta a percepção e consequentemente o processamento das informações visuais.que produz reflexos e ofuscamento da visão. acarretam desconforto térmico.comandos manuais e pediosos -.que prejudica a acuidade visual . botões de pressão. como chapas de aço. assim como as alturas. Copyright © 2007. acarretando uma sobrecarga cognitiva para os operadores e produzindo ruídos semânticos.  O barulho das máquinas ou da manipulação de determinados materiais.atrapalham. consoles. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 68 . retardam e impedem a pronta e correta intervenção do operador.volantes.  A topologia dos componentes informacionais . com prejuízos para a recepção de mensagens e seleção de informações. em termos de visibilidade.ou o excesso . ou frequentes alterações de temperatura.  A desconsideração dos modelos mentais dos usuários.  A posição e consistência de movimentação dos comandos .mostradores. profundidades e angulações de bancadas. apoio para braços.Seguem-se alguns exemplos de ruídos ergonômicos que perturbam as comunicações entre homens e máquinas:  A apresentação das informações. telas.

que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. como também das metas do sistema homem-tarefa-máquina e das exigências da tarefa. dores. Cumpre ainda observar ruídos semânticos. A partir do modelo de convergência da comunicação o ergonomista trata as comunicações como processos de interação no qual os usuários. constrangimentos interfaciais e físicos ambientais e restrições do ambiente tecnológico. manutenedores. com o objetivo de facilitar o entendimento mútuo. equipamentos e ambientes. a ergonomia considera que os “usuários”. equipamentos. sejam eles “emissores” ou “receptores”. que tem como seu principal interlocutor o usuário. conhecer o conteúdo do trabalho e os modelos mentais dos diferentes atores projetistas. portanto. espaços. Embora entendimento mútuo seja o propósito ou a função primária da comunicação. Segundo o enfoque interacionista. máquinas. no trabalho e no lazer.Resultam desconfortos. operadores. incidentes e acidentes. ele é prejudicado pelos ruídos ergonômicos e pela incerteza inerente à troca de informação em sistemas abertos. Importa. supervisores. trabalhador. sistemas de informação e ambientes. operadores. compradores. operador. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 69 . sempre tratou das comunicações e interações dos homens com outros homens. utensílios. Copyright © 2007. consumidores. agem em função não só dos objetivos que se impõem. criam e partilham informações uns com os outros e com máquinas. consumidor. A ergonomia. doenças.

após novos insucessos. Incentivada pelo cartaz ela se encaminha até o terminal e tenta efetuar o pagamento. passa o cartão. insere o cartão. você lerá o artigo de Júlia Issy Abrahão. lê novamente as instruções. Lê as instruções iniciais. digita a senha. cognição e trabalho informatizado”. uma fila de mais ou menos 20 pessoas aguardando atendimento do único caixa aberto.U NIDADE 13 Ergonomia. Imagine uma pessoa que decide pagar a fatura do cartão de crédito em uma grande loja de departamentos. etc. e à sua direita um terminal de autoatendimento. desta vez. Cognição e Trabalho Informatizado Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. Tenta mais uma ou duas vezes e. nos processos informatizados (internet. Copyright © 2007. disponível. lê as instruções e não consegue.). navegabilidade. bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. sob os olhares das pessoas da fila. A leitura do presente artigo nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. intitulado “Ergonomia. desiste e entra na fila aumentando o número de usuários que o único caixa deve atender. opta por um comando. digita a senha e não consegue atingir o seu objetivo. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. dirige-se ao Atendimento ao Cliente e se defronta com o seguinte cenário: à sua esquerda. e um grande cartaz que anuncia: "é rápido e fácil". ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 70 . Reinicia a operação. Ergonomia. no trabalho informatizado Nas próximas unidades. escolhe a opção. Ela não desiste. Ao chegar. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. cognição e trabalho informatizado.

Ou talvez.Esta situação é mais comum do que se pode inicialmente supor. em face à realidade acima descrita. por que os clientes da loja não conseguem executar suas tarefas nesta máquina? Por que alguns clientes sequer tentam novamente usar o terminal. Cabe ressaltar. pode-se hipotetizar que o modelo subjacente à concepção destas novas tecnologias não contemplou as competências dos seus usuários exigindo que se adaptem a elas independente do custo e/ou do sucesso. Assim. Copyright © 2007. é pertinente indagar se é possível que os progressos tecnológicos resultem em facilidades de uso. No entanto. por outro lado. aqui. Estas limitações são diferenciadas entre os indivíduos devido à sua formação. em segundo ao sentimento de frustração diante da máquina. apesar do mesmo se encontrar disponível e ele ter que se submeter a uma fila? A resposta mais evidente é que para o usuário a tarefa não é tão fácil quanto aparentava e o custo de lidar com esta tecnologia acaba sendo maior do que a permanência na fila. a sua participação é incipiente. porque o "medo" do fracasso o impeça de tentar e se descobrir incompetente para lidar com essas "coisas modernas". a maioria desses artefatos pode produzir constrangimentos por não terem sido projetados incorporando a lógica e as características do usuário ou quando o fazem. experiência. Enfim. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 71 . Os benefícios da introdução tecnológica na sociedade são indiscutíveis. que o termo constrangimento assume. favorecendo a interação e evitando atribuir aos usuários a "eterna função de variável de ajustamento". Na interação homem artefato deve-se considerar que esse homem possui recursos perceptocognitivos limitados (por exemplo. em relação à quantidade e tamanho das letras que ele pode perceber e à quantidade e qualidade das informações que ele pode tratar simultaneamente). idade e familiaridade com a tecnologia. Por que um terminal de autoatendimento que se intitula "rápido e fácil" não consegue atender aos clientes da loja? Ou. um duplo significado: em primeiro lugar refere-se aos limites que a interface impõe aos sujeitos no que tange as operações possíveis e.

Este artigo busca. aponta a função destes conceitos e como a sua incorporação pode facilitar a interação dos homens com os artefatos informatizados. articula conceitualmente as representações para ação e as estratégias operatórias na conformação das competências. dentre outras questões. em 2004.Esse papel do homem. de forma crítica. nos anos 1940. originou-se a especialidade denominada Ergonomia. em 1949. com o objetivo de explicitar por que um equipamento extremamente moderno. Para tanto. Uma das primeiras demandas nessa direção surgiu. o processo de implantação de novas tecnologias na atualidade. que deveria facilitar a conduta dos pilotos da aviação. identificando os processos cognitivos envolvidos e sua importância para a concepção destes artefatos. foi constituída uma equipe interdisciplinar. vem sendo debatido desde a Segunda Guerra Mundial. para a incompatibilidade entre a percepção humana. Essa é a mesma problemática que perpassa. apontar o papel dos processos cognitivos na (re) concepção de artefatos tecnológicos tais como os Sistemas Informatizados – SIs e propor o conceito de competência como eixo de análise. na perspectiva da ergonomia. não era operado com a eficiência e a eficácia esperadas (Wisner. agregando o usuário ao processo. cujo objeto de estudo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 72 . Finalmente. Copyright © 2007. a desistir de utilizar o terminal de autoatendimento e entrar na fila para pagar sua fatura. Para responder a esta demanda. Assim. como "eterna variável de ajustamento". a localização e a forma dos mostradores e controles. 1994). era similar à situação que levou o cliente da loja. O resultado das análises apontava.

e historicamente sua evolução é consequente às transformações da atividade humana. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. Constituiu-se. A Ergonomia e os Sistemas Informatizados A Ergonomia possui um caráter essencialmente aplicado.U NIDADE 14 Ergonomia e Sistemas Informatizados Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. fazendo uso de conhecimentos produzidos em diversas áreas do saber. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . intitulado “Ergonomia. mas também a evolução de cada uma delas. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. cognição e trabalho informatizado”. Essa interdisciplinaridade. você continuará lendo o artigo de Júlia Issy Abrahão. enquanto área do conhecimento. A análise em situação real 73 Copyright © 2007. a Ergonomia tem sido requisitada a avançar na elaboração de um corpo teórico e metodológico que contemple a análise tanto dos sistemas informatizados quanto do seu impacto para os usuários. de acordo com Pacaud (conforme citado por Wisner. e nas consequências da introdução da informática nas situações cotidianas. como foi dito. navegabilidade. A leitura do presente artigo.). 1996). Com base nesta premissa. etc. A abordagem ergonômica encontra na interdisciplinaridade um de seus pilares. no trabalho informatizado Nesta unidade. bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. nos processos informatizados (internet. com o propósito de responder a uma demanda específica. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. favorece não somente o diálogo entre áreas distintas.

Nesse sentido. de atividades que envolvem os processos e operações cognitivas. exige do usuário do sistema uma capacidade de abstração e representação da ação que. mesmo sem ter acesso a todos os componentes e às informações. especialmente. No exemplo acima. A Ergonomia no estudo dos SIs analisa diferentes variáveis. aparentemente. permita que as tarefas sejam executadas de forma eficiente e eficaz. tais como monitoração. a dimensão cognitiva envolvida neste tipo de tarefa. aparentemente. O primeiro refereCopyright © 2007. Este papel. atualmente. principalmente. uma sequência de ações claras e com as opções de entrada de dados que lhe permitisse o controle do processo e o feedback para as suas ações. não foram contempladas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 74 . Daniellou. Para tanto ele deveria buscar nas opções de interface da máquina (a tela como fonte de informações e o teclado para inserção de dados). interpretação. tratamento de informações. ao tentar interagir com o terminal de autoatendimento. 1984). 1999. mediado por aparatos e não por pessoas. O que levou este usuário a fracassar na sua tarefa? O que se pode depreender desta situação é que. uma lógica que lhe permitisse efetivar uma ação. resolução de problemas e memória (Sperandio. No entanto. Guérin. as exigências são. esperar-se-ia uma linguagem inteligível. tais como a utilidade e a usabilidade do sistema e.constitui a sua principal ferramenta. Rasmussen (2000) corrobora este pressuposto ao afirmar que a inserção tecnológica aumenta as exigências de natureza cognitiva. o cliente tinha um objetivo que. o usuário é convidado a assumir um papel mais ativo em situações do seu cotidiano. A Ergonomia aplicada aos sistemas informatizados busca estudar como ocorre a interação entre os diferentes componentes do sistema a fim de elaborar parâmetros a serem inseridos na concepção de aplicativos que orientem os usuários e que contribuam para a execução da tarefa. Duraffourg & Kerguelen. Nesta perspectiva. Laville. solicitando frequentemente do usuário um processo de resolução de problemas e de criatividade. norteando a ação ergonômica e delimitando os instrumentos e procedimentos mais adequados para a análise (Abrahão & Pinho. Dois eixos principais norteiam a análise de sistemas informatizados. 1991/2001). algumas destas condições. era claro e simples: pagar o carnê.

Yang e Cho (2004) quando propõem que no futuro as interfaces serão baseadas no corpo. Copyright © 2007.se à utilidade do sistema. ou seja. as necessidades e os limites de seus usuários. não se trata somente de torná-lo mais atrativo ou agradável. adotados cada vez mais por empresas. quando são de difícil interpretação ou quando são desenhados a partir de uma compreensão distante da realidade de trabalho. se este possui os recursos (funcionais e de performance) necessários à realização das tarefas para as quais ele foi concebido. a literatura é rica em exemplos que apontam os riscos de se conceber os sistemas informatizados sem incorporar as características. 1993). 1998. visando agilizar processos e a tomada de decisões. Ferreira. modificando as formas de inserção e acesso às informações e evoluindo as interfaces hoje existentes. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 75 . Apesar da importância da estética na navegação (Lavie & Tractinsky. Tomando o exemplo dos ERP's. 1993). Entretanto. segurança e até mesmo de confidencialidade. Um exemplo de utilidade pode ser ilustrado pelos Sistemas Centralizados de Informação – ERPs. relacionada à análise da qualidade do sistema em facilitar o seu manuseio e sua aprendizagem pelo usuário (Senach. Han. a sua interface e lógica de funcionamento podem dificultar ou até impedir a ação dos usuários. 1988. Por motivo de controle. É oportuno acrescentar que os sistemas são utilizados por usuários comuns e não somente por especialistas. o sistema informatizado cumpre o seu papel de centralizar as informações da empresa e disponibilizá-las aos diferentes atores. Um exemplo é dado por Kim. há pouca discussão sobre sua utilidade para a execução da tarefa. Neste sentido. Nesta perspectiva. considerando que estes permitem acessar informações de diferentes setores em diversos níveis. 2001. estas informações nem sempre são disponibilizadas para leitura ou inserção de dados a todos na empresa. Scapin. e que os SIs tendem a se tornar cada dia mais interativos. na execução de tarefas específicas (Cybis. 2004). O segundo eixo enfoca a usabilidade.

mas também a não inserção dos usuários. Neste enfoque. A autora analisou a interface gráfica deste sistema e identificou inadequações tais como: a linguagem adotada (incluindo termos técnicos de informática. eficiência. Scapin (1993) aprofunda a noção de usabilidade salientando que os problemas mais comuns observados na concepção de interfaces podem ser associados não somente à falta de conhecimentos prévios sobre a tarefa. a usabilidade deve ser avaliada em função de suas propriedades intrínsecas (referentes à lógica estrutural do sistema). uso da língua inglesa e ícones pouco representativos das suas funções). a usabilidade seria determinada pela tarefa a ser executada. Segundo Nielsen (1993). não desconsidera a visão técnica necessária à concepção dos sistemas informatizados. portanto. resultando em uma interface mais adaptada aos seus usuários. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 76 . Daí a dificuldade em se estabelecer parâmetros universais bem definidos para a análise de todas as interfaces gráficas e evidencia a necessidade de uma metodologia que se ajuste às suas especificidades. com objetivos distintos. de suas propriedades extrínsecas (relacionadas à sua adequação à situação. Não faz sentido. revelando uma lógica mais funcional do que operacional. Um exemplo ilustrativo desta problemática foi descrito por Castello-Branco (2002) na avaliação e implantação de um sistema informatizado em um Restaurante Universitário – RU. a usabilidade é composta por cinco atributos principais: facilidade de aprendizado. a população usuária (indivíduos com ampla Copyright © 2007. O autor ressalta que homogeneizar as interfaces não garante a usabilidade.A visão antropocêntrica. mas legitima que as características da população devem guiar as decisões de cunho técnico. remetendo mais uma vez a um modelo tecnocêntrico de concepção. analisar um sistema informatizado fora do seu contexto de uso. Estes atributos são avaliados à luz da tarefa a ser executada e pelo custo dos mecanismos cognitivos ativados pelos usuários. uma vez que elas são concebidas para diferentes tarefas e usuários. Para Senach (1993). baixa taxa de erros e satisfação do usuário. facilidade de memorização. na qual o usuário passa a ter um papel fundamental. às exigências das tarefas e aos seus usuários).

observá-lo em ação a fim de compreender a sua lógica e. A introdução de sistemas informatizados pode auxiliar o cotidiano dos indivíduos. Os sistemas informatizados solicitam aos usuários uma modelização dinâmica da situação (representações). baixo nível de escolaridade e nenhuma prática com SIs) e. aliada à análise da situação real dos usuários. a aquisição de novas competências para realizar uma atividade que eles dominavam há mais de uma década. resultou em diferentes tipos de erros na operação. Tal procedimento impôs aos usuários do sistema a necessidade de reestruturação de sua representação sobre o trabalho e. A incompatibilidade. Esse é o desafio teórico e metodológico colocado à Ergonomia Cognitiva. incorporar ao SI elementos que facilitem a ação. A utilização dos preceitos da usabilidade. observada na implantação do sistema. na concepção do sistema do RU. Esses procedimentos. podem aumentar a probabilidade de erros de julgamento. mas. assim. e a utilização de estratégias heurísticas que minimizem o custo cognitivo e o tempo necessário para sua resolução. não foram consideradas as características dos usuários e a possibilidade de transferir para a interface os conhecimentos e a experiência dos mesmos.experiência no seu trabalho. permite compreender as relações estabelecidas entre o sistema informatizado e a situação. Constatou-se que. consequentemente. já não tão jovens. Trata-se de uma estratégia para envolver o usuário que realiza uma tarefa específica e. A discrepância entre os procedimentos adotados anteriormente à informatização e os atuais sugere que não foi considerada a possibilidade de transferência do conhecimento do fazer antigo para o novo. para tanto. portanto. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 77 . Copyright © 2007. exigindo dos trabalhadores. é necessário incorporar na sua estrutura a lógica do funcionamento cognitivo humano e compatibilizar o sistema informatizado com este funcionamento. do seu fazer. tal como proposta pela Ergonomia. a tarefa a ser desempenhada (já que o software servia a diferentes setores do RU). no entanto. bem como o impacto destas na ação dos usuários do sistema.

etc. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 78 . Os processos cognitivos.). bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. os autores apresentam o campo de atuação da ergonomia cognitiva. nos processos informatizados (internet. 1997). você continuará lendo o artigo de Júlia Issy Abrahão. não são estáveis. 1997). no trabalho informatizado Nesta unidade. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. Nesta parte. eles se adaptam ao que deve ser realizado. navegabilidade. A leitura do presente artigo. Ergonomia Cognitiva A Ergonomia Cognitiva – EC é um campo de aplicação da ergonomia que tem como objetivo explicitar como se articulam os processos cognitivos face às situações de resolução de problemas nos seus diferentes níveis de complexidade. é afetado por ela (Hollnagel. 1991. segundo Weill-Fassina (1990) e Weill-Fassina. ao mesmo tempo. Nesta perspectiva. O seu papel é compatibilizar as soluções tecnológicas com as características e necessidades dos usuários (Marmaras & Kontogiannis.U NIDADE 15 Ergonomia Cognitiva Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. ela é solicitada a contribuir com um referencial teórico e metodológico que permita analisar como o trabalho afeta a cognição humana e. É importante salientar que a EC não tem como meta elaborar teorias gerais sobre a cognição humana (Green & Hoc. intitulado “Ergonomia. nas condições Copyright © 2007. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. 2001). cognição e trabalho informatizado”. como foi dito. Rabardel e Dubois (1993). Hollnagel.

os processos de aquisição. mas sim. muitas vezes. ao solucionar os problemas decorrentes da discrepância entre o que é prescrito (tarefa) e a realidade encontrada. explicar a gênese dos erros e dos incidentes imputados à falha humana. apreender a articulação que ele constrói e que o leva a realizar determinada ação. Nessa relação. ou seja. subjaz o pressuposto de que cada novo artefato altera a natureza da tarefa a ser realizada e exige dos usuários competências diferenciadas para ação (Marmaras & Kontogianis. por essa via consegue. em um contexto de ação e voltada para um objetivo específico. 1999). compreenderem como os indivíduos regulam a situação de trabalho. dos movimentos. Da mesma forma. assim. Da mesma forma. tanto os de natureza fisiológica quanto cognitiva do ser humano e. É nessa perspectiva que a EC busca compreender a cognição humana de forma situada e finalística. dos gestos. do músculo. que a Ergonomia não estuda o funcionamento do olho. novos artefatos são concebidos no intuito de solucionar problemas de desempenho humano. Weill-Fassina (1990) propõe. Marmaras & Pavard. O procedimento de análise e intervenção adotado nessas circunstâncias considera as capacidades e os limites. como um dos objetivos da análise dos processos cognitivos. para a EC interessa compreender o "porquê" desta "falha humana". por exemplo. 2001. à EC interessa a expressão da cognição humana. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 79 . a expressão desse funcionamento por meio do olhar das posturas. Copyright © 2007. Nesse sentido. trabalho/cognição humana. processamento e recuperação de informações constituem um importante objeto de estudo (vide Figura 1).existentes. assim. A EC investiga esses processos para compreender como um indivíduo gerencia o seu trabalho e as informações disponibilizadas para.

Estes processos. Tais competências são constituídas a partir da sua ação em uma situação articulando: (a) as representações que ele utiliza para compreender a situação e (b) as estratégias de ação em um determinado contexto. representação para a ação. os processos cognitivos envolvidos em cada uma delas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 80 . em última instância. agregam informações e delimitam a quantidade e qualidade dos conhecimentos evocados. A relação entre estas variáveis (representações e estratégias) não é sequencial e/ou linear. A seguir. ao interagirem. ressaltando a interação existente entre eles e a dinâmica dos processos cognitivos envolvidos. estratégias operatórias. Copyright © 2007. apresenta-se o conceito de competência. Ditos de outra forma. dão suporte às competências dos indivíduos.

solicitando constantemente o uso da memória e da atenção. Esses mesmos ícones nem sempre são semelhantes do ponto de vista funcional nos aplicativos (por exemplo. É por meio dessas competências que os usuários são capazes de realizar suas tarefas. Apreender sobre em que bases se constroem as competências do usuário é fundamental para que a EC possa sugerir alterações no contexto da situação e até mesmo na concepção de interfaces informatizadas mais adaptadas. não são competências gerais). que guardam entre si semelhanças percepto-cognitivas (ícones.As competências O conceito de competências é definido por Montmollin (1990) como sendo a articulação de conhecimentos (declarativos e procedimentais). são aprendidas no decorrer da atividade. como afirma Montmollin (1995). na opinião do autor. só é coerente falar de competências quando relacionadas a uma tarefa a ser cumprida. disfuncionamentos e aprimorar o seu procedimento na situação (Montmollin. Um exemplo de construção de competências é apresentado no estudo de Sarmet (2003) em que ele analisa a atividade de tutores em um curso de Educação a Distância via internet. Podem-se apreender as competências construídas pelos tutores Copyright © 2007. são organizadas de forma a se atingir um objetivo. tipos de raciocínios e estratégias cognitivas que o sujeito constrói e modifica no decorrer da sua atividade. os tutores utilizam diferentes aplicativos. as competências não estão relacionadas à noção de excelência do desempenho. e principalmente de antecipar os possíveis erros. uma estrutura que permite dar significado e propiciar a ação humana no contexto real. representações. barras de menus). Para realizar suas tarefas. Leplat (1991) aponta como características principais das competências: são construídas e desenvolvidas com o objetivo de executar uma tarefa específica (logo. 1986). as teclas de atalho "control+N" podem acionar a função "negrito" em um aplicativo e a função "novo documento" em outro). Elas formam. Para a EC. Portanto. Assim. uma vez que só o resultado de sua utilização pode ser observado. cores. as competências são inerentes a todos os indivíduos. Em última instância. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 81 . e são noções abstratas e hipotéticas. é inadequado afirmar que só é competente aquele que realiza com perfeição a sua tarefa.

As representações são criadas pelo usuário no contexto da ação. "retrabalho") da solicitação constante da memória e da atenção em seu desempenho. conhecimentos e habilidades. dependendo da especificidade da informação armazenada. Ambas atribuem às representações o papel de armazenar as informações sobre o mundo. 1993). pelas características apresentadas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . As representações para a ação são abordadas por Teiger (1993). 82 Copyright © 2007. Essas representações para a ação são entendidas como um conjunto de crenças. são fundamentadas nas representações que eles constroem a partir da sua ação para poder agir.. diz respeito à sua elaboração.na medida em que eles utilizam seus conhecimentos e experiências com o intuito de minimizar o efeito dos custos (erros. criadas para alcançar um objetivo. As competências dos indivíduos. É por meio das representações que os indivíduos selecionam as informações relevantes e os procedimentos mais adequados para se realizar uma tarefa. expresso na forma de uma ação. As representações pela e para ação Le Ny (conforme citado por Montmollin. scripts. É um processo continuo e dinâmico. Ou seja. estão condicionadas às variações na natureza da atividade nas situações reais (Weill-Fassina & cols. e a outra técnica. funcionando como mediador entre a ação (última) e a cognição (Ochanine. seja na forma de modelos mentais. mapas ou imagens. É a ação que as definem e as modificam. a partir da noção de "processo" e de "objeto das representações". são formadas a partir de suas representações pela e para ação. As representações são constituídas pela e para a ação. 1966). A primeira. como um conjunto de características e valores relacionados a um objeto. como sendo a expressão de um conhecimento por meio de um conjunto de signos. estruturado pela experiência do sujeito (Teiger. 1995) discute as representações sob duas perspectivas: uma psicológica. a partir dos elementos disponíveis na atividade. 1993). A segunda refere-se às representações. esquemas.

Teiger (1993) e Weill-Fassina (1990) conceituam as representações como um construto dinâmico: flexível, adaptativo, situado – na medida em que são elaboradas e utilizadas no decorrer da ação, com um objetivo específico, agregando elementos oriundos de novas experiências; e, sobretudo econômico, uma vez que são compostas somente pelas informações mais relevantes. Esta noção remete ao conhecimento que é representado na memória, e que é central para o conceito de representações para ação. Silvino e Abrahão (2002) demonstraram, a partir de um estudo em uma organização pública de caráter jurídico, a influência das representações dos trabalhadores na utilização de um sistema informatizado de autuação. O estudo sugere, considerando o tempo gasto para a realização e pelos modos operatórios adotados na execução da tarefa, que a representação dos usuários mais experientes mostra-se mais eficaz. O fato da representação para ação agregar somente as informações mais relevantes, o que constitui uma forma de gestão dos recursos cognitivos (economia), é apontado também por Amalberti (1991) em seus estudos sobre os modelos mentais, cujas características apontadas pelo autor são a incompletude, a falta de limites claros, a pessoalidade, a instabilidade e a não cientificidade. A luz das teorias produzidas pela Psicologia Cognitiva, a representação é por vezes discutida como o resultado de um processo de memória que pressupõe a codificação da informação, o seu armazenamento e a sua evocação. Os estudos sobre memória buscam compreender como o conhecimento é mantido e recuperado, bem como os fatores que podem auxiliar ou dificultar esse processo. O modelo tradicional de memória propõe uma estruturação em três níveis: memória sensorial responsável pela manutenção, em um curtíssimo espaço de tempo, dos estímulos captados pelos órgãos sensoriais, memória de curto prazo – manutenção dos estímulos relevantes por um período curto de tempo, e memória de longo prazo, na qual as informações são armazenadas sem uma limitação temporal (Best, 1995). Um modelo desenvolvido mais recentemente e com suporte empírico, enfatiza a estrutura da memória em termos de "memória de trabalho" e de "memória de longo prazo", a primeira
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como uma parte ativada da segunda. A memória de trabalho funciona como um gestor da memória, e as informações recuperadas são reconstruídas nela, a partir do material existente na memória de longo prazo (Anderson, 2000; Best, 1995; Sternberg, 2000). Cabe ressaltar, que este modelo é uma "evolução" teórica do anterior, o da estrutura do modelo tradicional da memória. Assim, a memória de trabalho não perde a característica de manutenção e troca de informações por um curto espaço de tempo de acordo com o contexto. Isso é importante já que o contexto gera pistas que permitem a "reconstrução" da memória a cada evocação, o que lhe atribui um caráter dinâmico. É relevante salientar que este modelo trata da estrutura geral da memória (Sternberg, 2000). Enquanto processo, Anderson (1983) sugere que a memória pode ser compreendida atuando por uma distribuição em redes, sugerindo que a informação é armazenada em traços (nós) que estão ligados entre si, e que podem ser ativados ou não. Neste sentido, pode-se pressupor que as representações para ação constituem-se em um conjunto de traços de informação recuperados na memória de longo prazo e ativados na memória de trabalho. Se, as representações estão estreitamente associadas ao processo de memória como os conhecimentos representados se articulam para a construção das competências dos indivíduos? Uma forma integrativa das representações pode ser apreendida no modelo Cognitive Architecture Process – CAP proposto por Anderson (1983). Este modelo agrega o conceito de redes semânticas para o conhecimento declarativo e de regras de produção para o conhecimento procedimental, que são organizados, conectados e apoiados em relações de significado e frequência de utilização. Não são cópias fiéis do objeto representado; ao invés disso, trata-se de (re) construções consequentes à ativação de um padrão de conexões na rede a partir dos conhecimentos que a compõe. Neste modelo integrativo, a ativação da rede obedece à disseminação de um padrão de ativação que é limitado. Assim, quanto mais frequente é a ativação de um "caminho" entre dois nós, mais forte ele se torna e maior a probabilidade de ser ativado novamente, quando o conceito for estimulado outra vez, fortalecendo o processo de aprendizagem.
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No entanto, o padrão de ativação se modifica constantemente, já que em um determinado contexto, os padrões se enfraquecem ou fortalecem por meio do uso (evocação). Quanto à flexibilidade inerente a esse modelo, ela guarda similitudes com as características atribuídas pela EC às representações para ação, seu caráter: a) Incompleto (uma vez que nem todas as informações referentes ao objeto são recuperadas); b) Econômico (pois tende a estruturar a informação agregando traços frequentemente recuperados em conjunto, bem como transformando conhecimentos declarativos em procedimentais, reduzindo o custo associado ao processo), e; c) Voltado e construído pela ação (pois se modifica a cada recuperação, elevando ou reduzindo a probabilidade de evocação, adequando-se ao contexto).

Em EC, é interessante compreender como as representações são (re) constituídas e utilizadas nas situações reais. Como nem todos os elementos da ação humana são conscientes e verbalizáveis, cabe ao ergonomista explicitar as representações juntamente com o usuário, por meio de observações da atividade, verbalizações espontâneas e entrevistas. A partir da explicitação das representações e da identificação dos elementos relevantes da situação, é possível estruturar sistemas informatizados mais eficientes e eficazes, uma vez que a partir deles podem-se conceber sistemas que forneçam ao usuário pistas claras que indiquem as possibilidades mais adequadas de ação. A evolução dos softwares que utilizam padrão WIMP –"Windows, Icons, Mouse e Pull-Down Menus", quando comparados aos seus predecessores, associa as representações gráficas às denominações utilizadas e procura associar elementos do cotidiano para facilitar o seu uso. No entanto, pistas podem também criar armadilhas num contexto específico (Evans, Gibbons, Shah & Griffin, 2004). Assim, comandos como "recortar" e "salvar" tentam estabelecer uma forte associação entre os instrumentos "tesoura" e "disquete" com as ações esperadas.
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ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 86 . é preciso compreender como ele utiliza essas representações nas situações reais. ainda. Ela traz. a falta de uma representação direta com as ferramentas do dia-a-dia pode induzir a erros. a Ergonomia faz uso dos conceitos de estratégias e modos operatórios. Copyright © 2007. Como no exemplo do Windows citado acima. bem como os procedimentos necessários para executar esta ação (vide Figura 2 item a). que se manifestam na forma de ações. operacionalizando suas representações para gerir os constrangimentos da situação de trabalho e/ou dos aparatos tecnológicos. Mesmo para usuários experientes. que é o desejado. Por outro lado. sua função associada ao comando disponibilizado.Neste caso. não basta ao ergonomista buscar as representações para ação. Para apreender as bases sobre as quais foram construídas as competências do usuário. a tesoura se assemelha mais a um objeto comum na realidade de escritórios. o estímulo visual do ícone. atua como pista que ativa e disponibiliza para uso informações da memória relacionadas ao conceito do que significa recortar um trecho do texto que está sendo redigido. Assim. o comando "colar" está associado a um símbolo que não guarda relação direta com a ação que ele representa. que representa uma tesoura. Nesse sentido. Contudo. em vez do ícone "colar" (vide Figura 2 item c). levando-os a acionar o ícone de "copiar" (vide Figura 2 item b). facilmente identificado pelas pessoas. para pessoas com pouca experiência este símbolo não atua como uma pista forte (em alguns casos como pista alguma) do padrão de ativação para as competências necessárias à ação "colar".

Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. no trabalho informatizado Nesta unidade. As estratégias operatórias são definidas por Silvino e Abrahão (2003) como sendo um processo de regulação que pressupõe mecanismos cognitivos como a categorização. navegabilidade. 1995). etc. intitulado “Ergonomia. o indivíduo é capaz de operacionalizar um conjunto de procedimentos para alcançar o objetivo planejado. Aos procedimentos dá-se o nome de modos operatórios (Guérin & cols.. As estratégias resultam. como foi dito. Após a seleção das estratégias. você continuará lendo o artigo de Júlia Issy Abrahão.U NIDADE 16 Estratégias Operatórias Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. possibilitando a ação (Montmollin. Copyright © 2007. entre outros fatores. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 87 . bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. Nesta parte os autores apresentam as estratégias operatórias que resultam e envolvem o raciocínio na resolução de problemas. pode ser entendido como um conjunto ordenado de passos que envolvem o raciocínio e a resolução de problemas. de forma geral. 1991/2001). publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. nos processos informatizados (internet. A leitura do presente artigo. cognição e trabalho informatizado”. a resolução de problemas e a tomada de decisão. As estratégias operatórias O conceito de estratégias. das possibilidades de interpretação das informações do ambiente de trabalho e da evocação de conhecimentos e experiências contidas na memória do trabalhador.). nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente.

1992). resultando em um procedimento que permite a ação (resolução de problemas). bem como. As características perceptuais e contextuais relacionadas aos elementos a serem codificados podem facilitar ou dificultar sua vinculação a uma categoria adequada (Barsalou. Nesse processo de dar sentido à realidade. Cada informação presente na situação mobiliza estes processos. ela tende a organizar a realidade segundo uma lógica que se apóia em crenças. as verdades que o institui enquanto sujeito. 2000). categorização. Estes processos envolvem o momento de percepção. selecionando e tratando as informações relevantes para atingir os objetivos almejados.consequência de uma regulação entre o que deve ser feito. Nesse sentido. a interpretação e elaboração das informações captadas: atenção. o que poderia ocasionar julgamentos e ações inapropriadas na realização de uma atividade. valores e normas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 88 . Copyright © 2007. Pelo menos quatro processos cognitivos estão envolvidos na estruturação e utilização (por meio de estratégias e modos operatórios) das representações. e determina aspectos da realidade que serão descartados e outros retidos. sendo um deles. ou seja. a atenção que também é dirigida pela experiência e conhecimentos logo. e quais as consequências para o seu desempenho em determinadas tarefas. A atenção é compreendida como o processo que permite a captação e o tratamento ativo de informações (Sternberg. auxiliando na compreensão de como uma nova associação se estabelece. as condições disponíveis para sua execução e o estado interno do individuo. Este processo gera uma outra configuração que é enriquecida em função da variabilidade conjuntural e até mesmo estrutural das situações reais. entram em ação outros mecanismos. O processo de categorização busca identificar como as informações são percebidas e como elas se articulam com as que estão armazenadas no sistema de memória do individuo. As teorias sobre a atenção buscam explicitar como o ser humano processa determinadas informações privilegiando outras. ela é seletiva. memória e resolução de problemas.

Um dos princípios norteadores dos estudos sobre a atenção está relacionado à quantidade de estímulos diferenciados presentes em cada situação e a significação que o sujeito atribui a cada um deles. por exemplo. nesse sentido. seria inviável para o ser humano processar cada elemento do contexto. as variáveis que considera pertinentes para a sua ação. 1992 conforme citado por Sternberg. A similaridade de estímulos de tarefas concorrentes. como o de Anderson (1983). segundo as suas competências. as características dos estímulos do ambiente podem facilitar ou interferir no controle consciente da atenção. Para os autores. considerando que existe um limite para a atenção a diversos estímulos simultâneos. "filtrando" informações irrelevantes para a execução de determinada tarefa. do problema a que ele está confrontado. Logan. Estudos realizados por Pashler. que podem redirecionar o foco de atenção sem o controle do sujeito. 1988). Outros estudos procuram compreender o efeito de tarefas interferentes no desempenho dos indivíduos. sobretudo. até certo ponto. como é distribuída sua atenção e a partir de quais elementos da situação se estabelece uma hierarquia sobre o que é mais 89 Copyright © 2007. dependendo das informações contidas na sua memória e das associações que ele é capaz de estabelecer para elaborar uma representação. 1997. Neste sentido. controlar o foco da atenção para estímulos ou contextos específicos. Na EC. ele não pode ser considerado completamente automático. uma vez que o indivíduo é capaz de. mas. por isso ele seleciona. Johnston e Ruthruff (2001) apontam que o processo de atenção não ocorre somente em função do estímulo apresentado. é um fator que dificulta a realização da tarefa principal (Duncan & Humphreys. sem um direcionamento ativo do indivíduo. Estudos. a exemplo dos estímulos mais discrepantes. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . em tempo real. 2000). buscam definir como ocorre o processo de automatização de procedimentos oriundo da prática do indivíduo e da quantidade de situações semelhantes presentes na sua experiência. procura-se compreender quais são as estratégias elaboradas que favorecem não somente o direcionamento atencional. tornando o processo de recuperação das informações mais rápido e permitindo que o indivíduo direcione seus recursos atencionais para outras tarefas (Boronat & Logan.

Ao se identificar na situação real. o seu estado final (os objetivos a serem alcançados). por exemplo). ou por outro lado. os estudos buscam compreender como os elementos de uma determinada situação são analisados e como os indivíduos utilizam as informações disponíveis para encontrar uma solução. as informações e as estratégias utilizadas no processo. 2000). que os protocolará e dirá ao requerente que o processo será julgado e a resposta será dada no prazo de X meses. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 90 . conforme citado por Sternberg. pode-se supor que a dificuldade em obter alguns benefícios via internet. rotas de trânsito e horário de funcionamento. bem como pela representação das alternativas possíveis de resolução e pelos obstáculos existentes. seja a data do julgamento seja a necessidade de encaminhar mais documentos) e (c) dos caminhos para a resolução (como Copyright © 2007. pode-se definir os parâmetros de transformação ou critérios de flexibilização a serem incorporados no processo de forma a facilitar a seleção das informações pertinentes. Imagine que alguém vá pedir um benefício na Agência da Previdência Social. A teoria de Newell e Simon (1972. pressupõe que este processo é composto: pelo estado inicial do problema. menos é adequada para obter respostas. a localização das agências. De acordo com essa teoria. B e C. as pessoas utilizam uma representação para compreender a situação e agir. que são as ações possíveis que alteram o estado atual para uma situação mais próxima ao estado final. o indivíduo lança mão de regras de produção. Naturalmente. o requerente tem ciência (a) do estado inicial do problema (qual é o problema. quanto mais distante da situação-problema. ou pegar a segunda via de um imposto qualquer passe pela dificuldade ou impossibilidade de formular o problema a ser resolvido. ele apresenta uma série de documentos ao atendente. ou pagar contas. Essa representação. Após muito tempo na fila. como já foi dito. Neste enfoque. informará ao cidadão que ainda são necessários alguns documentos que poderão ser obtidos nos órgãos A. No que se refere à resolução de problemas. (b) do estado final (qual o resultado: o documento protocolado e mais informações sobre o processo. Neste modelo.relevante ao desenvolvimento da atividade. este é um processo que engloba a análise dos elementos do problema e a busca pela estratégia mais adequada. Neste caso.

Assim. que pode ser considerada um caminho para a resolução. maiores serão as chances de resolução (Keren. mais longos ou mais curtos. sofrimento e perda de tempo evidente. pode-se chegar ao resultado final por diferentes caminhos. Os problemas mal estruturados. A representação do espaço do problema. como resolver o problema (Anderson. elas são: a) dinâmicas. por sua vez. porque as decisões têm que ser tomadas em um tempo específico. 1984). (2002) pontuam. o problema apresentado pode ser definido em função das informações que disponibiliza. b) limitadas temporalmente. não disponibilizam informações suficientemente estruturadas que permitam a construção do espaço do problema. 2000. Desta forma. que é construída pelo indivíduo no momento da resolução. a depender da concepção da interface (lógica do site).fazer: ir à Agência com os documentos e protocolar o pedido). Até a possibilidade de ajuda. 2002. Quesada e cols. neste contexto. o estado final desejado. Copyright © 2007. Quesada. o indivíduo sabe o que deve ser feito. Ou seja. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 91 . os procedimentos e os obstáculos para sua solução. o indivíduo não é capaz de interpretar. já que a maioria das variáveis não está relacionada linearmente entre si. e c) complexas. Segundo os autores. Quesada. Na internet. está associada à clareza das informações disponibilizadas e à experiência anterior do sujeito. Kintsch & Gomez. pois ações anteriores podem determinar mudanças no ambiente e o ambiente da tarefa pode mudar sem a interferência do sujeito. Apesar do trabalho. as possibilidades de resolução podem ser inúmeras ou somente uma. 2000). Cañas & Antolí. 1983. Os problemas bem estruturados são aqueles que apresentam claramente o estado inicial. que no "mundo real" as resoluções de problemas adquirem características que as diferenciam de situações de laboratório. e quanto mais correta for essa representação. de forma pertinente. dependendo de como se monta o problema. com precisão. Sternberg. consiste em encontrar uma resposta previamente redigida ou enviar um e-mail com a pergunta.

Essa variabilidade de características pode ser ilustrada pelo estudo conduzido por Sarmet (2003). que ele está submetido a panes e disfuncionamentos nos aplicativos utilizados. 2000). Sternberg. dependendo do grau de complexidade da questão. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 92 . os seus dados revelam que o tutor não tem controle do seu meio de comunicação e. Como os recursos cognitivos são limitados. com o intuito de agilizar os processos de resolução de problemas e decisão utilizando o mínimo dos recursos disponíveis (Gingerenzer. Copyright © 2007. ou mais representativa da solução para problemas de categorias semelhantes (representatividade). 2001. com um espaço de problema mal delineado e cumprir a sua jornada de trabalho sem saber quais serão os problemas que deve resolver ou qual o estado final para cada uma das demandas colocadas pelos alunos. Ele pode solucionar a demanda de um aluno em dois minutos ou em uma hora. As heurísticas mais comuns dizem respeito à utilização da estratégia de solução mais facilmente recuperada na memória (disponibilidade). identifica como a situação de interação entre o tutor e os alunos é permeada pela imprevisibilidade. Na maioria dos casos. em função de uma interpretação inadequada dos elementos do contexto. Além disso. 1990. dinamismo e incerteza. a análise de todos os elementos do contexto. os indivíduos elaboram "atalhos mentais" denominados de heurísticas. A utilização de heurísticas. a multiplicidade das ferramentas e a própria dinâmica inerente à tarefa de tutoria compõem um quadro que prima pela variabilidade. Holyoak. justamente por serem baseadas em análises parciais da situação. 1999. 1990). ou ainda problemas de conexão na própria internet. Aliados a estes fatores. Ao tutor cabe a atribuição de lidar com todas estas variáveis. bem como das alternativas de ação disponíveis se mostra inviável (Holyoak. Marmaras & Kontogianis. no entanto. que pela via da análise ergonômica do trabalho. Todd & ABC Group. pode aumentar a probabilidade de erros e acidentes. elas elevam a eficiência e a eficácia das ações.

o terminal de autoatendimento. quanto mais se incorpora o usuário na (re) concepção de sistemas informatizados mais se pode aproximar a lógica de funcionamento. é parte do seu fazer compreender como se dá a interação entre os elementos do sistema estudado. gerando os melhores procedimentos para solucionar a questão proposta. quanto mais o sujeito se especializa nesta operação mais ele reforça a probabilidade de recuperação dos conhecimentos necessários para agir.Todos estes processos se articulam e se manifestam na competência do sujeito ao utilizar seus conhecimentos e representações. Copyright © 2007. Dada a importância do papel da interface como elemento mediador. Desta forma. retomando o primeiro exemplo que introduziu este artigo. tornando-o competente. gerando estratégias operatórias que resultam na ação mais adequada. Nesta lógica. Os processos atencionais e de categorização auxiliam o indivíduo a determinar o que analisar na situação de trabalho e quais representações e conhecimentos buscar na memória de longo prazo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 93 . visando à realização da ação. é relevante estudar como se dá a interação entre o usuário e o sistema informatizado. Considerando que a EC tem como foco principal a análise da situação real. a interface e a linguagem às representações e às estratégias que eles utilizam em sua ação.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 94 . nos ofereceu um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. também. A leitura do presente artigo. a eles são Copyright © 2007. nos processos informatizados (internet. navegabilidade. De fato. de acesso restrito. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. É bem verdade que os conhecimentos disponíveis sobre o homem em ação vêm se desenvolvendo no rastro das novas tecnologias e permanecem. Conclusão O processo de informatização pode ser avaliado sob duas perspectivas até hoje distintas: uma que é a do especialista e a outra a do usuário. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. se manifesta sob a forma de erros frequentes e sofrimento ao ser confrontado quotidianamente a esses artefatos nos mais diferentes espaços de sua vida. intitulado “Ergonomia.). bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. como foi dito. Fato é. O problema é que a articulação das duas ocorre em um nível muito superficial. do usuário final como se fosse um especialista. acreditando que um dia ele aprenderá a utilizar esse artefato independente da lógica subjacente a seu manuseio. cognição e trabalho informatizado”. você lerá as considerações finais do artigo de Júlia Issy Abrahão. ainda. em geral. no trabalho informatizado Nesta unidade. Talvez porque se trate. que os projetos de interface são relegados aos designers que raramente são portadores de conhecimento sobre a cognição humana em situação. etc. A consequência mais visível deste tipo de procedimento é o custo para o usuário que.U NIDADE 17 Ergonomia e Cognição: Considerações Finais Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição.

Por quê? Seriam tantas as competências solicitadas para incorporar as características dos usuários na concepção dos artefatos que justifiquem. ainda hoje. disponibilizados pelo progresso tecnológico. No meio dessa discussão se encontra o usuário. este é um privilégio reservado a poucos. Para se atingir os objetivos a que o artefato se propõe e nesse processo. uma outra variável complexa media a definição desses dois critérios: o da confiabilidade dos sistemas. No entanto. Trata-se de uma abordagem mediadora entre o sujeito e a tecnologia como forma de assegurar que a lógica que guia a ação do usuário seja contemplada tanto no processo de concepção quanto de reformulação das interfaces em geral. Não bastasse essa dicotomia entre as lógicas. Todos ansiosos para obter sucesso ao operar estes artefatos. Copyright © 2007. aparentemente de resolução simples. a manutenção da lógica de concepção idealizada e voltada para os especialistas? Não é visível que dessa forma se exclui boa parte da população da sensação de bem-estar ao lidar com os artefatos disponibilizados até em quiosques de shoppings centers? A proposta aqui contida é que se indague. conceitos que eles operacionalizam apoiados na criatividade e sob alguma base da percepção humana. ao mesmo tempo em que permite transformar esse conhecimento em elementos de mudança desse contexto. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 95 . O referencial teórico metodológico da Ergonomia foi apresentado como forma de identificar o processo segundo o qual o sujeito constrói suas interpretações do contexto em que se insere. antes de tudo. e que aparentemente deveriam minimizar a carga de trabalho na lida com a vida. é fundamental compreender como o usuário se apropria das informações contidas no ambiente na perspectiva de incorporar essas representações (esquemas) conceitualmente no projeto. cidadão comum e trabalhador.solicitadas a harmonia e a estética. quais as tarefas e a que faixa da população se destina o produto.

as autoras abordam as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meioambiente e a saúde. Copyright © 2007. Atente para os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meioambiente e as condições de trabalho. sem dúvida. para a importância da reflexão a respeito das sociedades industriais contemporâneas e seus impactos sobre a saúde e o meio ambiente nos diversos círculos sociais. convém fazer rápida retrospectiva histórica. Para tanto. a relação entre trabalho.em termos sociais. saúde e meio ambiente em sua dupla dimensão: dentro e fora das plantas industriais. apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. assim como nas unidades a seguir.que envolvem esta temática e que constituíram o próprio tecido sociopolítico de origem dos padrões de produção e consumo prevalecentes hoje na maior parte do planeta. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 96 . É necessário abordar. sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. com o intuito de focalizar elementos cruciais . políticos e econômicos .U NIDADE 18 Industrialização. Bom Estudo! Introdução O atual momento histórico aponta. trabalharemos com o artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização. Nele. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. com consequências para a saúde dos indivíduos. dentro desta temática.

à materialidade desse ambiente com suas instalações/equipamentos/materiais. destaca-se a revolução nas relações existentes entre os homens. se desdobra 'modernamente' no mundo oriental -. entre as atividades humanas e a biosfera. Configuraram-se. temperatura. com duração de muitas horas diárias. passando a constituir a massa de despossuídos e trabalhadores assalariados que se expandiu. quanto à propriedade dos meios de produção e o produto do trabalho as mercadorias.avanços científicos e sua aplicação industrial sob a forma de tecnologia . Em primeiro lugar. dentre outros. das condições objetivas e subjetivas da saúde humana e da sustentabilidade ambiental. traumatismos. isto é. Copyright © 2007.é possível compreender o processo deflagrado de crescente transformação da interação entre a humanidade e o planeta. Os assalariados passaram a enfrentar jornada de trabalho determinada. que trouxeram a potencialização de agentes agressivos preexistentes e de novos. alta concentração de poluentes. ruído. ergonômicos e organizacionais.que se expandiu progressivamente da Inglaterra para o resto do mundo ocidental e. devendo adaptar-se aos ritmos novos de trabalho. A partir da Revolução Industrial . de distintas naturezas . assim. ao longo de séculos. juntamente com as populações expulsas do campo. podem ser destacados elementos marcantes de transformação profunda na vida dos homens entre si e com o meio ambiente e. químicos. no século XX. no mundo do trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 97 . implicando o aumento da densidade de equipamento por metro quadrado e mecanismos de agressão à saúde decorrentes das vibrações. executados sob ritmos cada vez mais velozes e predeterminados. Retrospectivamente e em linhas gerais.físicos. dos meios de produção. observa-se que os produtores artesãos deixaram paulatinamente de ser donos dos instrumentos de trabalho.Tomando-se a Revolução Industrial como marco que revolucionou tanto as relações sociais exercidas entre os homens no desempenho das atividades econômicas e na vida social quanto às bases técnicas das atividades humanas . interativos. novos regimes de trabalho. que foram progressivamente modernizados e utilizados. consequentemente.

dentre outros. às restrições ao trabalho dos menores e mulheres. posteriormente). Segmentos de assalariados foram progressivamente especializados no controle da produção e do trabalho . deve-se destacar o uso de novas fontes de energia. equipamentos e instalações foram-se configurando materialmente cada vez mais potentes e incorporando progressivamente atividades anteriormente realizadas pelos homens. as máquinas. aos adicionais de insalubridade. XIX e XX por contínuas lutas e conquistas sociais quanto aos níveis de salários.. propiciando o delineamento de campos diferenciados da ciência ocidental. A partir de então. borracha. A questão específica do controle passou a constituir objeto de pesquisa.inicialmente. assimétricas e antagônicas.e às tarefas cada vez mais parceladas e fragmentadas. produção de Copyright © 2007. a engenharia (de produção. As sociedades pré-revolução industrial utilizavam basicamente as forças humana e animal. velocidade. Em primeiro lugar. notadamente a 'organização científica do trabalho' e seus desdobramentos no campo da administração e das organizações. no século XX. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 98 .Sob um comando cada vez mais exterior. Simultaneamente.. Alguns elementos foram fundamentais para viabilizar a revolução industrial das bases técnicas do trabalho.como carvão e petróleo -. chegando-se. fibras naturais. . O tecido social das sociedades industriais então emergentes foi urdido com relações conflitantes. a medicina ocupacional e a higiene industrial. tendo que 'adaptar-se' socio-psico-biofisicamente às máquinas . aos limites de duração da jornada de trabalho. ao uso da energia nuclear para fins produtivos e/ou destrutivos. bem como com interesses divergentes no mundo do trabalho. como a psicologia industrial. Assiste-se à expansão da capacidade produtiva. à regulamentação das horas extras. gestos repetitivos. em substituição às antigas e empregadoras lavouras de algodão. com a criação de recursos sintéticos. passaram a empregar o vapor.posturas. com escalas de produção inéditas para a humanidade e. de periculosidade e do trabalho noturno. os capatazes e supervisores. a combustão de recursos renováveis e nãorenováveis . o assalariado foi obrigado a obedecer aos procedimentos de execução impostos. matérias-primas e insumos -. Estes antagonismos manifestaram-se ao longo dos séculos XVIII. com o uso de volumes crescentes de recursos naturais água. por conseguinte.

ainda predominantes nas sociedades industriais. a 'racionalidade econômica'. subordinada à lógica do lucro. este padrão de produção adquiriu forma cada vez mais concentrada e intensiva em capital. em especial a partir da II Guerra Mundial. Copyright © 2007. ricos e pobres. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 99 . Desafios deixados pelo século XX. qual seja. com maior força. tal como na emergência e consolidação de problemas ambientais locais e globais. a notável desenvolvimento tecnológico. Seus desdobramentos no sentido da progressiva automatização . Sob esta lógica assiste-se. no sentido de uma sociedade laboriosa e 'racional'. Nas sociedades ocidentais operou-se velozmente um processo de 'coisificação' dos indivíduos e das relações humanas. desde alguns séculos. cuja expansão e crises traduzem-se hoje na globalização da economia.cerâmica etc. 1995) e a geração de quantidades crescentes de resíduos industriais de maior ou menor grau de risco para a vida humana. Social e economicamente. concepção circulação mercadorias/matérias-primas/informações tanto no mundo industrial quanto nos demais setores da economia. todas o as atividades a socioeconômicas. da acumulação e retorno do capital investido e do domínio da natureza a qualquer preço. apesar das diversas inovações organizacionais. que trouxe crescente mecanização do processo de trabalho.. com a perda da dimensão do indivíduo/subjetividade ou com a instrumentalização da subjetividade. do problema da exclusão social e da diferenciação entre países do Norte e Sul. e a integrando de progressivamente controle. Porto e Gomez.potencializada hoje pela microeletrônica . Vale salientar que a incorporação e aplicação de tais avanços tecnológicos não têm contribuído necessariamente para reverter o predomínio da organização taylorista do trabalho e suas diferenciadas formas de agressão aos indivíduos. quando se deu impulso à indústria química e petroquímica (Freitas. com o uso crescente de novos materiais. no ressurgimento. movida por lógica muito específica e particularizante. conforme assinala Druck (1995).são aplicados em praticamente a produção.

Copyright © 2007. por exemplo. nas 'décadas de ouro'. Paradigmas e sociedades em crise. o peso crescente dos espaços urbano-industriais. Martine (1993). tais como a disponibilidade de recursos naturais renováveis e não-renováveis e dos custos de mão-de-obra. e que hoje se encontram em cheque pela conjunção dos movimentos de globalização da economia. da Ergonomia e da Psicopatologia do Trabalho . mantendo e recriando perspectivas distintas de conservar ou transformar tais sociedades e seus alicerces.construíram e se moveram nos marcos de um mundo laboral taylorista-fordista. e as possibilidades de impactos sobre a saúde e o meio ambiente são imensas e até imprevisíveis. semelhantes reconfigurações do espaço se deram pari passu à consolidação dos Estados-Nação ao longo de séculos.com seus padrões de produção e consumo .em crise.além da Economia Política e da Sociologia do Trabalho e. isto é do espaço geográfico e socioeconômico intrafronteiras geopolíticas de cada país. Pesquisas e proposições de ação e reação na dimensão do controle social ou das buscas de libertação humana. Sachs (1994). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 100 . nos níveis micro e macro das sociedades industriais nascentes e em consolidação. emergiram e encontram-se. a vertiginosa transformação de populações rurais em urbanas. O salto é gigantesco. conforme indicam vários autores. entre 1950 e 1970. tão bem caracterizadas por Hobsbawn (1996). todavia sendo previsível a insustentabilidade de semelhante forma civilizatória se mantidos os atuais padrões de produção e consumo. como. hoje. os maiores avanços ocorreram nos países-berço da industrialização. As sociedades industriais contemporâneas redefiniram radicalmente o uso do espaço. na dos países centrais. os quais tiveram papel decisivo na regulamentação da vida urbana. Hobsbawn (1996). O surgimento das cidades. os campos científicos acima mencionados . Voltados para os desafios e embates destas formas históricas de civilização edificadas nos últimos três séculos.Em termos de conquistas sociais ancoradas no mundo do trabalho. Os fluxos de investimentos foram guiados por fatores de alocação. mais recentemente. em particular. assim como esta forma de civilização . de reestruturação produtiva e pelas respostas neoliberais à crise da economia mundial.

a queda do bloco soviético . a desterritorialização e surgimento de Estados-anões e a expansão do poder das organizações econômicas . Mais recentemente. na medida em que.ambientais e sociais . février 1998).que venham a ser feitas aos investimentos. investimentos produtivos movem-se no planeta em busca de espaços com regulamentações menos restritivas. visando à preservação ambiental e as gerações futuras. Carro-chefe destas mudanças. Assim. 1996. favorecendo a transferência de tecnologia e de riscos entre países centrais e periféricos a partir da década de 1970 (para maiores detalhes. No plano material e econômico. mediante o Acordo Multilateral sobre Investimento .regulamentação do trabalho . acrescentam-se outras.. ver Castleman. 1993.e instituições financeiras internacionais marcam as décadas mais recentes. grandes organizações econômicas articularam-se no intuito de neutralizar as regulamentações dos Estados-Nação em seus territórios e até penalizá-los pelas restrições . as desregulamentações sociais. visíveis a partir dos anos 1980.OCDE . 1990. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 101 . os países centrais avançaram historicamente em conquistas sociais .Atualmente deve-se acrescentar a 'vantajosa' atratividade dos países/sociedades permissivas em termos de direitos trabalhistas e ambientais. Às tentativas de fugir a tais restrições feitas por parte das empresas multinacionais que possuem poder econômico e político crescente no mundo em globalização. Thébaud-Mony. o descolamento progressivo das esferas financeiras e produtivas.empresas cada vez mais transnacionalizadas . 1995) ou de espaços que permitam o dumping social e o dumping ambiental.possível limite político e concorrente para as sociedades capitalistas -. em especial. Nesse sentido. a redefinição do papel do Estado. as crises econômicas. Freitas et al. Franco. de desregulamentação da vida social nos países que viveram o Estado de Bem-Estar Social. o momento atual Copyright © 2007.(Le Monde Diplomatique. a "globalização deve ser compreendida como um movimento de caráter estrutural do capitalismo. que vem sendo negociado desde 1995 no âmbito da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico .e restrições legais.AMI -.

Vários estudos estão demonstrando que semelhantes formas de gestão do trabalho têm degradando as condições de sua realização e. É a realização destas tendências até as últimas consequências. o 'emprego' sem garantias ou direitos . são capazes de destruir economias inteiras de um dia para o outro. para além das multinacionais. sendo denominado.no limite máximo . 1997:16). tem resultado em fenômeno novo historicamente. o crescimento econômico se dá sem o crescimento do emprego. cada vez mais a lógica financeira . por Sachs (1994). Tais movimentos têm resultado na destruição de empregos com direitos trabalhistas e na consolidação do trabalho precário. isto é. que saem e entram de um país para o outro. qualitativas e quantitativas.apoiada nas inovações tecnológicas da informática e das telecomunicações . a "terceiro mundialização" dos países centrais.e na crescente legalização do trabalho temporário..sem férias.desenvolve e realiza .se sobrepõe à lógica produtiva. a exemplo da volatilidade dos capitais fictícios/improdutivos aplicados nos mercados financeiros. transitando de um lado do mundo para outro. por Copyright © 2007. Este fenômeno temse dado tanto nos países periféricos quanto nos centrais. por sua vez. O movimento da globalização. Vive-se o tempo dos empreendimentos e empresas transnacionais. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 102 . através das redes informatizadas de telecomunicações" (Druck e Franco. com maior intensidade. no início deste século. Há um super dimensionamento da esfera financeira da economia. quando ocorria anteriormente. auxiliado por uma dispersão de pequenos capitais. Verifica-se um processo crescente e intenso de concentração e centralização de grandes capitais. o que não mais vem ocorrendo como padrão predominante. sem auxílio doença.) As transformações em curso. que se torna cada vez mais prioritária nos investimentos do capital. (. .as principais tendências presentes no sistema desde os seus primórdios e. que é o descolamento entre crescimento econômico e emprego. acarretando graves consequências no plano do emprego e da produção. sem previdência etc. em conjunto com a reestruturação produtiva em curso e a adoção de políticas neoliberais de ajuste da economia por inúmeros países. Ou seja. A OIT refere um desemprego de 30% no mundo. Nesta medida. A destruição de empregos.. sem descanso semanal. era em geral compensada pela criação de empregos em outros setores da economia.

consequência. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 103 .desemprego. cultura e educação . assistência médico-social.seja pela via da execução do trabalho precário. com acúmulo de funções. potencializado seus impactos sobre a saúde. Estes ocorrem seja pela via da exclusão social no sentido estrito . maior exposição aos riscos. submissão às condições inseguras de trabalho por fragilização das ações de resistência coletiva e/ou individual dos sujeitos sociais. Copyright © 2007. acesso a bens. maior intensidade e/ou extensão da jornada. subemprego.

seu patamar tecnocientífico . Passet. Beaud e Bouguerra.seus padrões de produção e consumo. destruição da camada de ozônio. Neste momento. sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. Trata-se daquele em que a ação das sociedades contemporâneas . 1993. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998. continuaremos trabalhando com o artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização. apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. Sachs. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 104 . Como foi explicitado. Os principais problemas ambientais globais surgidos em virtude das poluições químicas emissões de gás carbônico e de milhares de outros poluentes.U NIDADE 19 Industrialização. Nesta parte. 1995. 1982. Copyright © 2007. dentre outros (Capra. Martine. mesclando-se a problemas locais e globais. Atente para os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meio-ambiente e as condições de trabalho.é capaz de interferir profundamente nos mecanismos reguladores da biosfera. as autoras trabalham com a historicidade dos riscos industriais e do meio-ambiente. ações locais também podem ser globais. Os níveis micro e macro interagem.que têm agravado o problema da exclusão social nos diversos países acontecem em momento muito específico da história da humanidade em sua relação com a biosfera. com consequências para a saúde dos indivíduos. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. A historicidade dos riscos industriais e do meio ambiente Essas mudanças . acúmulo de lixo tóxico .que resultam em alterações no efeito estufa. chuvas ácidas. 1994. as autoras abordam as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meio-ambiente e a saúde.

da fauna e da flora. em particular a partir da década de 1970. Freitas. quanto as próprias condições históricas da existência humana: seus espaços de moradia e de trabalho. meio ambiente e saúde das populações. tendo-se em mente que "atualmente menos de 1/4 da população mundial consome 80% dos bens e mercadorias produzidos pelo homem" (Martine. 1993. Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 105 . é preciso considerar como desafios não apenas a crescente exclusão social. social e científico consiste na construção histórica de sociedades com desenvolvimento sócioambiental. O desafio político. Franco. De modo simplificado. Por conseguinte. Druck e Franco. flora. Diante deste quadro. que muda com as feições das diferentes formas civilizatórias. mares. dos solos. fauna. Franco e Afonso.1993) decorrem dos padrões de industrialização vigentes. Em primeiro lugar. seus fluxos migratórios. A sucessão de acidentes de vastas proporções. Equidade social e inserção humana consciente no meio ambiente. como o petroquímico. 1995. estabeleceu-se estreita relação entre o ambiente intra e extrafabril nos espaços urbano-industriais das sociedades atuais. cada vez mais profundamente. Porto e Gomez. podem-se destacar alguns dos traços essenciais desta trajetória. tanto o estado das águas. 1982. terras. Maimon (1995) elabora uma análise do fenômeno: "Estimativas recentes indicam que apenas 12% dos estabelecimentos industriais dos países desenvolvidos. mas também a geração de escassez/penúria social pela destruição ambiental dos atuais padrões civilizatórios. que são hoje as duas faces da mesma moeda.1993). 1997). concentrando 20% do valor adicionado. áreas residenciais (Capra. o químico e o nuclear. 1997. Os padrões de produção e consumo gestados ao longo dos últimos séculos passaram a redefinir. do ar. as situações de saúde e morte. é histórica a relação entre riscos industriais. são responsáveis por 2/3 do total da poluição industrial". É uma realidade paradoxal e contrastante. assim como o esgotamento de recursos não-renováveis. Nas sociedades industriais contemporâneas tal relação e historicidade mostram-se particularmente fortes e perceptíveis quando são focalizados ramos industriais poluentes em demasia. sobretudo nos países avançados.rios. e casos exuberantes de poluição crônica (Love Canal/EUA) demonstram que são virtuais e quiméricos os muros e limites entre as plantas industriais de setores poluentes e seu entorno . ar.

Ademais. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 106 . “Por meio desta mobilidade. agressões muitas vezes de caráter cumulativo e combinado. por sua vez. Além do alcance ampliado. no qual as contradições do padrão de desenvolvimento presente interferem diretamente tanto na morbimortalidade atual quanto na de futuras gerações. são sociedades de industrialização avançada ou não. não se limitando. são muitas as formas de disseminação de efluentes líquidos. às localidades ou às fronteiras geopolíticas dos países de origem. seja por meio das emissões previstas das plantas e/ou fugitivas. o local e o global se interconectam e a potencialidade de degradações socioambientais ultrapassa os locais de ocorrência de acidentes/contaminações. Constituem o terreno propício à transferência de tecnologias e de riscos entre países marcados por expressivas desigualdades econômico-sociopolítico-culturais. que se aprofundam no atual processo de globalização. do seu raio de ação. diferenciadas e marcadas por defasagens entre as estruturas institucionais e o preparo dos Estados-Nações e populações para lidarem com os problemas causados pelas opções adotadas quanto ao crescimento econômico e sua complexidade. portanto. Copyright © 2007. "seja por meio de dutovias e diversos meios de transportes e armazenamento de produtos. teratogênicos e carcinógenos a médio e em longo prazo. há intensa mobilidade dos riscos. vastas extensões de terras.Nesse caminho há expansão progressiva do alcance dos riscos.” Em consequência. inéditos problemas para os mecanismos de regulação da biosfera. As defasagens evidenciam-se pela carência generalizada de informações e pela fragilidade de culturas de segurança industrial e ambientalista no campo da produção e do consumo. assiste-se historicamente à ampliação das populações potencialmente expostas aos riscos que trazem. isto é. As chuvas ácidas e as alterações do efeito estufa são claros exemplos. Os efeitos agressivos para os organismos humanos podem deflagrar processos mutagênicos. sólidos e gasosos. Trata-se de momento peculiar. ar e águas são percorridas e integradas como áreas de impactos sócio-ambientais e de riscos em todo o planeta.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil .depende da existência e atuação de sujeitos sociais com 107 Copyright © 2007. deve-se considerar que foram colocados em marcha. importa considerar que a redefinição dos padrões de produção e consumo . Pojuca/Brasil. no âmbito do movimento mundial de reestruturação produtiva. Assim. tais como Brasil. 1995).Um dos indicadores desse processo de transferência de riscos entre povos consiste na participação crescente dos países em desenvolvimento. contradições e alternativas de solução. 1995. por acidente industrial . Nos países periféricos são mais acentuadas as defasagens entre os riscos das plantas industriais e as estruturas e cultura existentes para gerenciá-los. Seveso/Itália. a sucessão de acidentes industriais ocorridos em vários pontos do planeta evidencia "um dos sinais de esgotamento e insustentabilidade deste paradigma de industrialização em relação à vida humana". Porto e Gomez.tem resultado. no que diz respeito à produção de acidentes de trabalho industrial de grande porte a partir da década de 1970. acontecimentos desta natureza inauguram fase inédita na trajetória do mundo industrial e na evolução dos seus riscos potenciais. ocultando os seus problemas. na precarização das condições de trabalho. por um lado. acidentabilidade e sustentabilidade. San Juan de Ixhuatepec/México. nas últimas décadas. práticas de gestão desta natureza têm projetado um manto de invisibilidade política e social sobre o mundo real do trabalho. Por outro lado. na fragilização das ações coletivas e de resistência individual. México e Índia. diluindo e fragmentando os sujeitos sociais. Sem dúvida. a adoção de práticas de gestão 'modernas' tal como a terceirização disseminada e extensiva mesmo à operação e manutenção de setores industriais de alto risco .Bophal/Índia. Por todos esses aspectos e pela complexidade dos desafios criados. dentre outros -. Freitas. Seja através da contaminação crônica e lenta (Love Canal/EUA) seja aguda. a partir da década de 1970 (Maimon. em condições de segurança industriais mais vulneráveis e em sujeição aos agravos à saúde. envolvendo contaminações químicas e radiações em detrimento dos países integrantes da OCDE. pelo menos em alguns contextos.no sentido de um desenvolvimento sustentável com equidade social . Subjacente a essa trajetória. os mecanismos de precarização do trabalho. Vila Socó/Brasil.

seja a política de exclusão e apartação social que tem prevalecido. no qual se encontram padrões de gestão/organização do trabalho e da produção inovadores . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 108 .destacando-se a terceirização -. nos países nucleares e periféricos. relacionadas à precarização do trabalho.visibilidade social. tecnologias de base microeletrônica desconhecidas até então. com espaço urbano-industrial localizado no município de Camaçari. Nesse sentido. Copyright © 2007. RMS/BA. faz-se um recorte. do emprego e à circularidade do mercado de trabalho segmentado/urbano precário.com a transferência de riscos para os trabalhadores terceirizados . focalizando apenas a mobilidade dos riscos industriais e alguns indicadores da acidentabilidade neste espaço urbano-industrial e de sua relação com as modernas práticas de gestão do trabalho . não podendo advir das leis cegas de mercado nem de formulações pseudocientíficas que justifiquem seja a política de degradação do meio ambiente . até então. um dos casos emblemáticos no Brasil de hoje é o complexo industrial químico e petroquímico da Região Metropolitana de Salvador.com base em diferentes fontes de pesquisa. nova política de relações entre sindicatos e o patronato e questões sócio-ambientais da maior importância e atualidade.que gera mais escassez social a médio e longo prazo. Na impossibilidade de abordar todos esses aspectos no escopo deste artigo. sobretudo nos países periféricos .

uma vez que.são potencialmente múltiplas. envolvendo os elementos inanimados e animados do mundo material. por meio dela. sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. As vítimas desses acidentes . em locais compreendidos em um raio de muitos quilômetros de distância. ou mesmo em trânsito. tornando-se áreas de impactos socioambientais e de riscos de degradação decorrentes de acidentes ou poluição crônica.ocorridos na produção. Como explicitado. com consequências para a saúde dos indivíduos. produtos e resíduos . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 109 . as autoras abordam as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meio-ambiente e a saúde. Atente para os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meio-ambiente e as condições de trabalho. as populações potencialmente expostas incluem os trabalhadores atuantes nos próprios sítios industriais e os cidadãos moradores. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998. Ademais. muito além dos muros e limites das plantas industriais. No caso considerado. A mobilidade dos riscos entre as dimensões intra e extrafabril É importante focalizar a questão da mobilidade dos riscos industriais. continuaremos trabalharemos com o artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização. ar e água podem ser atingidas. vastas extensões de terra. insumos. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. seus efeitos não se esgotam necessariamente no tempo de Copyright © 2007.U NIDADE 20 Industrialização. no armazenamento ou transporte de matérias-primas.

atingindo ciclos de vida dos indivíduos e alcançando gerações futuras. em particular. no período compreendido entre 1983 e 1993. intensivo em tecnologia de ponta. Os registros oficiais de acidentes de trabalho não contemplam esse lado dos acidentes: sua mobilidade e alcance socioambiental.ocorrência do acidente.o universo recortado restringiu-se às unidades industriais situadas na Região Metropolitana de Salvador . pela poluição industrial crônica dos efluentes industriais sólidos.RMS. iniciado na segunda metade da década de 1970. Convém salientar que o complexo industrial químico e petroquímico foi implantado sem adequada estrutura e programa de controle ambiental. no Pólo Petroquímico de Camaçari. No caso dos acidentes ocorridos nas plantas . líquidos.e solos usados para moradias e atividades econômicas. que concentra de modo predominante as indústrias de produtos químicos básicos e intermediários na Bahia. A RMS apresenta ainda extensa faixa litorânea e a Baía de Todos os Santos. Copyright © 2007.importantes fornecedores de água para as populações e para atividades socioeconômicas . sobre ou sob a superfície.acidentes de trabalho típicos . Consiste em empreendimento integrado. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 110 . sociais e culturais. mas podem romper as barreiras do tempo presente. época propícia para destacar aspectos que se delineiam a partir da década de 1980. Entrecortando este espaço encontram-se rodovias. cumulativa. linhas férreas e uma rede de dutovias que transportam intensivamente produtos químicos e petroquímicos. onde estão localizados os portos de Salvador e Aratu. gradual e predominante. Foi possível a aproximação a tais dimensões pelo levantamento dos acidentes industriais noticiados em jornais diários da imprensa local. no armazenamento ou transporte dos materiais processados/a processar. O período de 1983/1993 é de maturação desse complexo de indústrias. incluindo os ramos industriais de bens intermediários altamente poluentes – químico. gasosos e pela poluição urbana. Focalizar a mobilidade em território da RMS/Bahia pressupõe esclarecer que a superfície desta região metropolitana é composta por muitos rios . Esses espaços do mundo inanimado e animado têm sido atingidos de forma aguda pelos acidentes industriais e. de forma lenta.que aconteceram na produção. petroquímico e metalúrgico .

Em primeiro lugar, o envelhecimento das maiores plantas industriais, suas instalações e equipamentos, aumentando as necessidades de manutenção preventiva e corretiva adequadas e de gestão eficaz da segurança industrial. Em segundo lugar, inaugura-se um período de intensas campanhas de marketing das empresas em torno dos programas de qualidade total e a adoção simultânea de formas de flexibilização do trabalho, que implicaram a demissão de quadros qualificados e antigos das empresas e o avanço indiscriminado e generalizada da terceirização - inclusive e justamente, nas áreas de manutenção, produção, laboratório e serviços médicos dentre outras, pari passu ao envelhecimento das maiores plantas industriais. Ao final deste período, pode-se observar ainda a fragilidade em termos de segurança industrial, prevenção e controle dos impactos socioambientais, embora possam ter ocorrido avanços nesse sentido. Tanto local quanto nacional e internacionalmente, o mundo empresarial apropriou-se das questões ambientais, passando a adotar postura propositiva e menos passiva, abandonando a negação dos problemas gerados. Atualizou seus modelos de gestão - incorporando e subordinando os desafios do desenvolvimento sustentável à lógica de mercado -, ocupando crescente espaço na mídia e em projetos de preservação ecológica na tentativa de legitimar-se perante clientes e consumidores. Também no complexo industrial da RMS, as empresas têm divulgado amplamente a adoção de programas de qualidade e de atuação responsável para as comunidades e o meio ambiente, e têm buscado obter certificados ISO. Contudo, as práticas de gestão do trabalho, com sistemáticas demissões e terceirização de atividades essenciais, são contraditórias com uma proposta de desenvolvimento sustentável social e ambientalmente. O recurso indiscriminado à terceirização precisa ser revisto sob a perspectiva de suas consequências para as condições de segurança industrial e ambiental, da precarização das condições de trabalho, da geração de mais exclusão social e, potencialmente, da degradação e violência social. Ademais, a terceirização tem funcionado como mecanismo que isenta as empresas das responsabilidades quanto a inúmeros acidentes industriais, suas vítimas e danos socioambientais, conferindo-lhes invisibilidade social e política.

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Assim, não causa admiração o fato de que os acidentes de trabalho sejam frequentes nessas plantas industriais - a média anual de acidentes para 37 destas empresas é de 2.474 acidentes/ano entre 1988 e 1992, sendo 2.070 acidentes típicos/ano -, do mesmo modo que não surpreende que esteja ocorrendo transferência de riscos para os trabalhadores terceirizados. Em 1988, mais de 50% dos acidentados em quinze dessas empresas eram trabalhadores empregados, passando em 1992 a representar 35% e os terceirizados nada menos que 65% dos acidentados, conforme registros fornecidos pelas empresas. Também não causa espanto o fato de que a resultante dos acidentes industriais noticiados na imprensa apresente tendência à elevação constante a partir de 1987. A conjunção de tais fatos e processos aponta para a fragilização das condições de segurança industrial, até então, nesses ramos e revela o caráter superficial e tangencial dos programas de qualidade total e de atuação responsável no que concerne ao cotidiano do mundo real da produção de bens intermediários e dos riscos industriais na RMS. Os acidentes que foram noticiados pela imprensa, em razão da repercussão que tiveram por causa das vítimas humanas ou danos causados e extensão socioambiental do fenômeno, tiveram lugar tanto nas plantas industriais quanto nas vias de transporte de cargas industriais - dutovias, rodovias, ferrovias e mar. Metodologicamente foram classificados e agrupados, conforme a característica predominante da ocorrência, em explosão; incêndio;

vazamento/escapamento; tombamento de carga; outros problemas no processo de trabalho; acidente de trajeto - envolvendo passageiros/trabalhadores dos sítios industriais poluentes da RMS e risco ambiental sem referência, vazamento, escapamento, tombamento de carga, incêndio ou explosão durante/após o acidente. Foram levantados 139 acidentes, dentre os quais houve 114 ocorrências envolvendo explosões, incêndios, vazamentos e/ou tombamentos de carga, no período entre 1983 e 1993. Apresentaram leve redução em 1993, mantendo-se, porém em patamar superior ao do início do período. Além desses, foram levantadas 195 denúncias de contaminação ou risco de contaminação ambiental de provável origem industrial.

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Em relação às vítimas humanas - trabalhadores das empresas, empregados e terceirizados, e cidadãos residentes próximos aos sítios ou às rotas de transporte de cargas - pode-se considerar, inicialmente, o universo das que foram quantificadas. Observa-se a média de 37,9 vítimas/ano, sendo 14,36 mortes/ano e a média de 23,5 feridos ou contaminados/ano por acidentes industriais de grande porte noticiados no período de 1983/93. Foram quantificadas 417 vítimas, sendo 158 mortos e 259 feridos ou com problemas de saúde por contaminação. Além dessas, há inúmeras referências imprecisas a pessoas queimadas, contaminadas e intoxicadas por poluentes químicos, feridas ou mortas nos acidentes noticiados. É preciso considerar também outro universo de vítimas, que corresponde ao daquelas pessoas que foram submetidas a situações de pânico, medo e desespero nesses acidentes e que não foram quantificadas: trabalhadores nas próprias plantas industriais e as populações vizinhas que vivenciaram a mobilidade dos riscos, dos acidentes e de suas consequências. Assim, em todo o período - exceto no ano de 1984 -,ocorreram acidentes envolvendo situações de pânico e medo entre moradores de certos bairros e sedes de municípios da RMS, em especial de Camaçari, Dias D'Ávila e Candeias, em alguns dos quais determinados moradores apresentaram francos sintomas de contaminação decorrente de

vazamento/escapamento de substâncias químicas. O estudo dos acidentes ocorridos no período permite constatar a insegurança no transporte de cargas perigosas, uma tênue articulação entre empresas contratantes e terceiras em relação ao controle e prevenção de riscos, a fragilidade e/ou ausência de cultura de segurança industrial por parte tanto das empresas quanto do Estado, a falta de ação integrada e racional entre empresas e instituições do Estado, a falta de orientação das populações sujeitas a tais riscos, a ausência ou a falta de condições adequadas à evacuação ou isolamento da área, bem como dificuldades de assistência médica. Inúmeros acidentes ilustram tal situação, dentre os quais se destaca um grave acidente ocorrido em Pojuca/RMS, em 1983, devido ao descarrilhamento, tombamento e vazamento, seguido de explosões e incêndio, de vagões-tanque que transportavam gasolina e óleo
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"o céu vermelho" e as tentativas desesperadas de fuga. causando forte poluição atmosférica no bairro de Nova Dias D'Ávila. busca individual de proteção com artifícios improvisados. ferroviária ou marítima quanto acidentes nas plantas próximas às sedes de municípios. Em alguns dos acidentes ocorridos nas plantas industriais com impactos extramuros. assim como o reconhecimento da legitimidade dos interesses de trabalhadores e cidadãos. 1997).diesel originários da refinaria de Mataripe/RMS. e o medo de contrair doenças têm peso significativo para certos segmentos populacionais (Borges e Franco.via rodoviária. a maioria de crianças e adolescentes. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 114 . os relatos e a memória de residentes são contundentes: explosões. permanecendo ainda muito frágil o reconhecimento de tais questões como problema social e de saúde pública. Franco e Kato. na sede do município de Dias D'Ávila. registro considerado subenumerado por familiares e sobreviventes da tragédia. Em 1993. Os extremos do período 1983-1993 estão assinalados por acidentes que traduzem os mesmos problemas de desinformação e desassistência das populações nas áreas de influência. que é das mais importantes opções econômicas do estado da Bahia. reflexo de uma realidade sob o fogo cruzado de interesses divergentes dos atores sociais envolvidos. A percepção dos riscos desse tipo de indústria.exceto a produção de mortes tão numerosas tanto naqueles envolvendo transporte de carga . Como todos os demais acidentes noticiados sucederam-se um 'jogo de empurra' quanto às responsabilidades. A população entrou em pânico. muitos apresentando sinais e sintomas de contaminação e vivenciando as dificuldades de assistência médica sem a presença da empresa responsável ou das autoridades públicas no local. outro grande acidente ocorreu no parque de Copyright © 2007. 1997. Oficialmente. Em 1983. Via de regra. fortes trepidações e ruído. foram 100 feridos e 99 mortos. abandono de casas. As lições dessa tragédia não foram devidamente assimiladas e muitos dos seus aspectos se repetiram em outros acidentes industriais . populações fogem e funcionários são evacuados. houve vazamento de amônia em planta industrial no Pólo.

em função da recorrência de certo número de empresas contratantes e terceiras envolvidas nos acidentes. fugindo às normas de segurança e padrões de transporte de carga perigosa (ácido sulfúrico. Inúmeros casos permitem constatar precárias condições de segurança do transporte realizado pelas terceiras. atingindo ecossistemas frágeis e de importância. A autoridade pública. 13 em ferrovias e 10 em dutovias. desta vez presente. Copyright © 2007. Em vários acidentes ocorre o tombamento de carga perigosa com vazamentos que atingem rios. gasolina etc. A rigor. Os funcionários em regime administrativo foram evacuados. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 115 .esferas e tanques de nafta. embora sofra oscilações. TDI. Houve explosões seguidas de incêndio. com a formação de extensas manchas litorâneas. pânico de trabalhadores e das populações de Camaçari e Dias D'Ávila. debelado após 15h de seu início. deve-se questionar a terceirização como forma de gestão.. 22 acidentes no mar. na Copene. benzeno etc. os acidentes industriais que envolvem o transporte de cargas químicas com derramamentos/vazamentos na RMS apresentam tendência crescente entre 1983 e 1993. Foram sistematizados 53 acidentes com cargas perigosas em rodovias. Assim. traduz-se em resultante nitidamente ascendente. tendo sido referido forte ruído. empresa que responde por 40% da produção de petroquímicos básicos no país. além de abandono de casas pelas famílias.). nos quais se constata transporte de carga perigosa sendo realizado em condições irregulares. mantendo-se em níveis superiores aos do início do período considerado. admitiu a necessidade de elaborar um plano de evacuação e de ativar a unidade de Queimados e Toxicologia do Hospital Geral de Camaçari. como os mangues. dinâmica que. causando a morte de peixes e outras espécies. esta é uma questão de gestão industrial. São também frequentes os acidentes envolvendo o vazamento e o derramamento de derivados de petróleo na Baía de Todos os Santos e no Litoral Norte/Atlântico da RMS. de gestão da segurança industrial das empresas e de organização do trabalho. Considerados em conjunto.

assim como a atuação e preparo do Estado para lidar com os mesmos. sob o ponto de vista qualitativo. Na verdade. conforme reportagem publicada em 1993. Antes de dar continuidades aos seus estudos é fundamental que você acesse sua SALA DE AULA e faça a Atividade 2 no “link” ATIVIDADES. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 116 . 50 mil toneladas de produtos químicos e petroquímicos por mês para diversos estados brasileiros. Copyright © 2007. as quais conduzem. tendem a agravar e potencializar os riscos existentes. em média. seus riscos e as políticas de gestão das empresas . expressando enorme distância entre o patamar tecnológico.Centro de Recursos Ambientais . as formas de gestão vigentes. em particular a terceirização indiscriminada. o estudo desses acidentes. realizando. em média.São contratadas cerca de 30 empresas de transportes de cargas pelas empresas do Pólo Petroquímico de Camaçari. Em termos espaciais. permitiu levantar aspectos de interesse quanto a esta realidade industrial. Em suma."em média. há concentração dos acidentes na região metropolitana e uma progressiva rarefação. Segundo o Diretor Adjunto do CRA . dois acidentes com cargas perigosas acontecem mensalmente". quatro mil viagens/mês. embora tenham também ocorrido em distâncias de até 600 km das fontes de produção industrial.da produção e do trabalho -.

Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meio-ambiente e as condições de trabalho. antes de tudo. não favorece o equacionamento desses problemas nem maior controle sobre os mesmos. na verdade. a profunda fragilidade do tecido social local receptor desse tipo de empreendimento industrial. Tal fragilidade. com questionável exercício da cidadania. com consequências para a saúde dos indivíduos. este empreendimento foi implantado em lapso de tempo historicamente muito rápido. leremos as conclusões do artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização. com base em um mercado de trabalho muito limitado e marcado por relações sociais e políticas autoritárias e assimétricas. sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. negação ou omissão de informações para a sociedade. Como explicitado. Copyright © 2007. Políticas de gestão do trabalho que acentuem a exclusão e a apartação social. não contribuirão. seguramente. as autoras abordaram as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meio-ambiente e a saúde. Considerações finais Semelhante cenário reflete. apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade.U NIDADE 21 Industrialização. Altamente poluente e com riscos incontestáveis para a saúde humana. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 117 . nem os problemas dos riscos ambientais e de suas consequências para a saúde pública. para superar essa fragilidade social. que se pautem na supressão. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998.

As forças geradas pela economia tecnocientífica são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente. As próprias estruturas das sociedades humanas. ou pelo menos é razoável supor. Ademais. tanto externamente quanto internamente. que dominou os dois ou três últimos séculos. desenraizado e transformado pelo titânico processo econômico e tecnocientífico do desenvolvimento do capitalismo. A fragmentação do conhecimento científico não contribui para abordagens consequentes do problema. não favorecerão alternativas consistentes de desenvolvimento socioambiental sustentável. incluindo mesmo algumas das fundações sociais da 118 Copyright © 2007. a médio e longo prazo. porém em retrocesso histórico e predatórias. Sociedades com expressivo desenvolvimento tecnocientífico. as fundações materiais da vida humana. em um mundo globalizado no qual se movem e agem com facilidade as grandes organizações econômicas. sociais e culturais nos enfoques ‘técnicos’ relativo aos problemas de saúde e meio ambiente (Porto e Freitas. Sabemos. De fundamental importância é a incorporação dos aspectos políticos. e há sinais. O futuro não pode ser uma continuação do passado. que ele não pode prosseguir ad infinitum. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . por trás da opaca nuvem de nossa ignorância e da incerteza de resultados detalhados. no intuito de compreendê-los e possibilitar a construção de alternativas para sua superação. de que chegamos a um ponto de crise histórica. da mesma forma que sua inerente conexão com a questão da equidade social. urge que os principais problemas ambientais sejam reconhecidos em suas origens nas sociedades contemporâneas. Sabemos que. Vivemos num mundo conquistado. que se direcionam para moverse no terreno das relações sociais de trabalho flexíveis sim. Tecidos sociais fragilizados. as forças históricas que moldaram o século continuam a operar. com sujeitos sociais imprecisos e sem identidade.O momento histórico-social das sociedades contemporâneas é preocupante e deve servir de estímulo à busca de sua compreensão e de alternativas. 1997). colocam imensos desafios. ou seja.

Copyright © 2007. uma coisa é clara. ATIVIDADES OPTATIVAS: 2. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base. etc. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível.se os leitores partilham da tese deste livro . Disserte como o processo de industrialização pode impactar sobre o meio-ambiente e acarretar em riscos à saúde. como da população envolvida. Nosso mundo corre o risco de explosão e de implosão. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto e . Tem de mudar. estão na iminência de ser destruídas pela erosão do que herdamos do passado humano. Discuta como as tecnologias apropriadas (que levam em consideração os riscos ambientais. econômicos. a alternativa para uma mudança da sociedade é a escuridão. E o preço do fracasso. tanto dos trabalhadores envolvidos.). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 119 . (Hobsbawn. ou seja. 1996:562). vamos fracassar. culturais.por quê. Contudo. Não sabemos para onde estamos indo. podem favorecer as organizações. sociais. não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. EXERCÍCIOS DISSERTATIVOS: 2.economia capitalista.

” Sua pesquisa revelou efeitos mais prejudiciais do trabalho noturno sobre as mulheres. “Em que pesem as questões de gênero e diferenças quanto ao cotidiano. Copyright © 2007. revelando a “profunda interrelação entre o trabalho profissional e a vida doméstica como geradoras de impactos à saúde. O texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. Bom Estudo! Introdução A análise das relações de gênero associadas ao trabalho noturno é uma demanda atual. no Brasil). o que ressalta o caráter essencial das relações de gênero na compreensão da realidade vivida pelos que trabalham em horários não usuais”. permeando diversos aspectos da vida. o trabalho noturno será nosso tema de investigação. o lazer. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 120 .U NIDADE 22 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Entre as unidades 22 e 26. como a saúde. Segundo a autora. onde o turno noturno era restrito aos homens até recentemente (1988. esses padrões do sono se articularam com as expectativas que recaem sobre os gêneros. apresentam bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”. já que o aumento da força de trabalho feminina inclui um contingente que trabalha à noite em indústrias. particularmente as que têm filhos. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001. a inversão de horários é sentida de forma intensa por homens e mulheres. os estudos e as relações amorosas.

1981). 1997). irritabilidade. no que concerne aos ritmos sociais e biológicos. mas outros ritmos biológicos (o de temperatura. mas se sente alerta: na realidade. A Cronobiologia estuda os ritmos biológicos . de forma que o trabalho noturno implica alterações não só na vida social. Quando uma pessoa trabalha à noite. contribuindo para prejudicar o sono diurno. o trabalho à noite está associado a um cotidiano essencialmente diferente do adotado pela comunidade em geral.mudanças em variáveis fisiológicas ou comportamentais que se repetem regularmente. segundo o qual as funções orgânicas diferem entre o dia e a noite. mas também no organismo. dos quais os de 24 horas (denominados circadianos) são os mais estudados. pouco se conhece das especificidades da população feminina que trabalha à noite em espaços industriais. ela passa a dormir de dia. essencial à condição de saúde (Marques & Menna-Barreto. Nesse sentido. Suas consequências incluem a insônia. sensação de "ressaca" e mau funcionamento do aparelho digestivo. Pesquisas na área revelam um encadeamento interno entre os ritmos. Esta organização temporal compõe-se de ritmos de diversas frequências. como a alternância entre a vigília e o sono ou o ciclo menstrual. esclarecendo os mecanismos subjacentes a algumas dificuldades por que passam os trabalhadores e acrescentando. o que leva à chamada dessincronização interna. As refeições com a família. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Isso se manifesta quando a pessoa tenta dormir de dia. com isso. mais uma faceta às complexas relações entre trabalho e qualidade de vida. O presente estudo parte do conceito de tempo biológico. por exemplo) não se modificam instantaneamente. os estabelecimentos comerciais e o nível de ruídos seguem os horários "normais" da sociedade. São ainda observados efeitos à 121 Copyright © 2007.Assim. Os problemas decorrentes desta inversão são estudados pela Cronobiologia. área do saber que trata da organização temporal biológica. que levam em longo prazo a doenças relacionadas ao sistema gastrointestinal e nervoso. sonolência de dia. ela precisa repousar no momento em que seu corpo se prepara para a vigília (Minors & Waterhouse.

1990).pode ser difícil para as mulheres em função da dupla jornada. Nachreiner. 1995. Para elas. como mostram dados populacionais e estudos de caso (Lee. e não a características biológicas (Härma. na medida em que eles envolvem diferentes fatores de risco à saúde (Aquino.segurança do trabalho e à qualidade de vida dos (as) trabalhadores (as) e suas famílias (Fischer. 1997).de forma a acomodar o sono e as demais atividades do dia . 1996). Messing. O reconhecimento das diferenças (e desigualdades) entre homens e mulheres quanto ao dia-a-dia demanda abordagens que dêem conta da especificidade da situação feminina quanto à saúde (Garduño. Ao analisar as condições de trabalho como fonte de impacto à saúde. O questionamento sobre o próprio conceito de "trabalho" pela sociologia de cunho feminista contribui para esta discussão quando se recusa a limitá-lo ao trabalho remunerado. 1998). enquanto apenas o trabalho profissional tende a afetar a saúde nos trabalhadores do sexo masculino (Hall et al. A reorganização da vida cotidiana . Sorensen & Verbrugge. 1999). há que se usar novo instrumental de análise que leve em conta os papéis socialmente atribuídos a homens e mulheres.papel que tem se alterado pouco apesar da crescente participação feminina na força de trabalho (Bruschini.. 1997. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . propondo uma definição ampla que inclua o trabalho doméstico (Kergoat. 1987). já que ele permite às mulheres lidar com as demandas duais dos trabalhos profissionais e domésticos (Brown. Assim. 1992. deve-se reconhecer o papel das mulheres como responsáveis pelas atribuições domésticas . a escolha do turno está associada à conciliação do trabalho à noite com o cuidado dos filhos de dia. Quando realizados sob condições adversas. 1996). 122 Copyright © 2007. 1989). as diferenças entre homens e mulheres quanto ao lidar (do inglês coping) com o trabalho noturno têm sido atribuídas a fatores culturais. ganha novos contornos quando se trata do trabalho noturno. 1985). Walker. A relação saúde-trabalho. Neste sentido. 1982). 1990. ambos os trabalhos (doméstico e profissional) afetam a saúde física e mental das mulheres. cujos efeitos de gênero têm sido pouco explorados (Brito.

A pesquisa aqui descrita é parte de uma investigação maior realizada em etapas. 4) a complementação do estudo quantitativo do sono. Kergoat. 1997. afetando de forma significativa o bem-estar físico e mental (Akerstedt. além de considerar sua relação com o processo de trabalho. com base no uso de equipamento portátil e 123 Copyright © 2007. Este estudo baseia-se em dois eixos identificados na literatura sobre o impacto do trabalho noturno à saúde: a privação do sono como questão central entre os que trabalham à noite.é essencial na análise da privação de sono. ser sujeitos à influência de gênero. Aliamos o estudo quantitativo dos horários de sono às informações provenientes de uma metodologia qualitativa que buscasse apreender o significado que os(as) trabalhadores(as) atribuem ao sono e aos trabalhos profissional e doméstico. portanto. 1989). 3) a análise qualitativa das falas relativas à inversão de horários. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . quais sejam: 1) a caracterização do grupo quanto às variáveis sócio-demográficas e relativas ao trabalho profissional. particularmente os aspectos relacionados à divisão sexual do trabalho (Garduño. 1996) e a escassez de estudos que abordem a fala de trabalhadores (as) e suas vivências em relação ao "desafio temporal" decorrente de um ritmo de vida que contraria princípios biológicos e de convivência social. o impacto do trabalho noturno sob a ótica de gênero envolve a realidade de homens e mulheres fora do trabalho. podendo. se a abordagem cronobiológica do sono eminentemente quantitativa . A idéia que norteia a pesquisa é a de que.Neste contexto. 2) o estudo cronobiológico do sono. que dependem do cotidiano de cada um. por outro lado ela não dá conta dos fatores subjacentes à maior ou menor possibilidade de dormir. trazendo à tona suas vivências e práticas em relação à inversão de horários.

a escolha do turno está associada à conciliação do trabalho à noite com o cuidado dos filhos de dia. cujos efeitos de gênero têm sido pouco explorados (Brito. Este artigo refere-se às etapas 1 a 3. 1999). incluindo a descrição dos ambientes físico e organizacional da fábrica. Copyright © 2007. já que ele permite às mulheres lidar com as demandas duais dos trabalhos profissional e doméstico (Brown. 1999). Questão para ser discutida: Discuta essa relação em termos da construção das identidades de gênero e como isso pode acarretar em problemas para a saúde da mulher. Fórum 2 – Trabalho noturno A relação saúde-trabalho. como mostram dados populacionais e estudos de caso (Lee. tendo por objetivos analisar quantitativamente o sono de trabalhadores e trabalhadoras e apreender suas percepções sobre o trabalho noturno. 1982). Messing. dos postos de trabalho e das tarefas domésticas realizadas por homens e mulheres. 1985). sob o enfoque das relações de gênero.. Walker. 1997.5) a análise dos trabalhos profissional e doméstico. ganha novos contornos quando se trata do trabalho noturno. Para elas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 124 . 1992. Os resultados gerais dessas etapas foram apresentados na forma de relatório (Rotenberg et al.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 125 . a análise das entrevistas refere-se a dez pessoas (cinco homens e cinco mulheres) selecionadas segundo critérios descritos no respectivo item. A metodologia é explicada pela autora. A seguir. Copyright © 2007. Nos setores da produção que têm atividade noturna. a jornada de trabalho é de 22 às 6h de segunda à sexta-feira. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. xampus e similares.U NIDADE 23 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Nesta unidade continuaremos lendo o texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. apresentaremos o estudo de caso feito pela autora no setor de plásticos no Rio de Janeiro. devido a demissões e ao remanejamento de pessoal. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”. Estudo de Caso O trabalho de campo foi realizado em uma fábrica do setor de plásticos no Rio de Janeiro. com folgas nos fins de semana. Os dados sócio-demográficos e o estudo quantitativo do sono (etapas 1 e 2) referem-se ao conjunto de 46 pessoas (30 mulheres e 16 homens) que participaram de ambas as etapas. Os procedimentos de coleta e tratamento dos dados são apresentados a seguir. porém nem todas as pessoas participaram de toda a pesquisa. que produz embalagens para colônias. O estudo incluiu todos os trabalhadores do turno da noite (60 pessoas).

O roteiro abordava ainda as percepções sobre o sono. vantagens. 2000a). Knauth et al. M. Analisamos o sono diurno ocorrido entre noites consecutivas de trabalho com base no número de episódios de sono por dia. mantivemos dois contatos semanais com os (as) trabalhadores (as).  Etapa 2: a cronobiologia do ciclo vigília-sono Utilizamos folhas de registro nas quais os (as) trabalhadores (as) assinalavam os horários de sono. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 126 . Fischer. a fadiga e a saúde. (b) entre as mulheres que têm e que não têm filhos de até dez anos e (c) entre os homens que têm e que não têm filhos nesta faixa etária. principalmente na organização das atividades. trabalho e tempo livre (F. 2000b)... Adotamos uma metodologia qualitativa baseada em entrevistas semiestruturadas. acompanhando os registros e esclarecendo as dúvidas. assim como suas mudanças a partir do trabalho noturno. abordando aspectos gerais do trabalho noturno. o tempo de trabalho noturno e a ocorrência de outra ocupação. no dia-a-dia dos entrevistados. O estudo cronobiológico do sono visou complementar dados preliminares (Rotenberg et al. Utilizamos o teste U de Mann-Whitney. adotando o nível de significância de 5% (Zar. na duração do primeiro sono do dia e na duração total do sono por dia. Comparamos estes parâmetros (a) entre as amostras masculina e feminina. 1983) por sete semanas consecutivas. 1996).  Etapa 3: a análise das entrevistas .. desvantagens e seus efeitos no cotidiano. Para selecionar o grupo de dez pessoas (cinco homens e cinco mulheres) cujas entrevistas foram analisadas. que se baseia em estudo anterior (Rotenberg et al. contemplamos a diversidade observada quanto à situação conjugal e à Copyright © 2007. comunicação pessoal. Etapa 1: dados sóciodemográficos e relativos ao trabalho profissional Aplicamos um formulário que incluía dados relativos às variáveis sóciodemográficas e à atividade desenvolvida na fábrica. Neste período. Também inquirimos sobre as atribuições e relações de gênero dentro e fora da fábrica.

dentre os quais dois tinham filhos de até dez anos. A maioria das pessoas tinha filhos. A partir da construção de familiaridade com os textos.presença de crianças em casa. mecânicos. 33% e 27%. ao passo que 50% dos homens tinham filhos nesta faixa etária. com valor médio de 33 anos. a idade variou entre 24 e 47 anos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . com exceção das solteiras. A amostra masculina incluía supervisores. selecionando as falas mais ilustrativas para compor um "mosaico" de significados. sexual. sendo a única exceção referente a uma delas. 60% das mulheres tinham filhos de até dez anos. seguida dos solteiros (19%). hábitos. Com estes recortes. elaboramos dois recortes gerais que agruparam os trechos que abordavam (1) o sono. incluindo união livre (75%). com valor médio de 36 anos. duas eram solteiras.  Etapa 1: perfil sócio-demográfico e relativo à atividade profissional A amostra feminina incluiu trabalhadoras com idade entre 20 e 47 anos. duas casadas e uma separada. A distribuição foi mais homogênea entre as mulheres. social e familiar. incluindo os horários de sono. com ênfase nas experiências de dormir de dia. seus impactos na vida afetiva. trabalhamos com as entrevistas como um conjunto. As falas foram analisadas a partir da transcrição integral e literal das fitas gravadas nas entrevistas. controladores de qualidade e profissionais que fazem o transporte da matéria-prima. A situação conjugal diferiu bastante entre homens e mulheres: a amostra masculina era composta prioritariamente de homens casados. respectivamente. com valores percentuais de 40%. queixas e alternativas adotadas e (2) as Relações de Gênero. O grupo era composto de dois homens solteiros e três casados (incluindo união livre). reunindo relatos sobre as diferenças entre homens e mulheres no trabalho doméstico. O tempo de trabalho noturno diferiu 127 Copyright © 2007. As mulheres trabalhavam na linha de produção como embaladeiras ou operadoras de máquina. sendo um trabalhador separado (6%). encadeados na forma de um texto que procurou seguir as argumentações em suas próprias lógicas e ambivalências. todas tinham filhos naquela faixa etária. Entre os trabalhadores. que atuava no controle de qualidade. Quanto às mulheres. que elegemos como fatores relevantes na compreensão do cotidiano.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . nos homens e mulheres. com medianas de 5. as medianas de 5. respectivamente. ora duas vezes por dia. Apenas dois trabalhadores tinham outra ocupação regular. as que têm filhos dormem mais vezes por dia (U = 50. fizemos comparações adicionais relativas exclusivamente às pessoas que trabalhavam à noite há pelo menos um ano. A maioria dos homens (69%) trabalhava à noite há mais de um ano. Considerando as diferenças entre as duas amostras quanto ao tempo de trabalho noturno. ao voltar da fábrica. p = 0. 049). Quanto às trabalhadoras. p = 0. Nenhum efeito significativo da presença de crianças sobre o sono foi observado na amostra masculina. duas vezes. Algumas pessoas dormiam regularmente uma vez por dia. p = 0.053).6 horas. sendo o horário de início do sono anterior às 10 horas em 90% das mulheres e em 81% dos homens. de manhã.0 horas. As amostras masculinas e femininas diferiram apenas em relação à duração do primeiro sono (U = 154.  Etapa 2: análise cronobiológica do sono diurno O grupo estudado apresentou diferentes padrões quanto ao número de episódios e à duração do sono. quando comparadas aos homens. respectivamente. indicam que as mulheres tendem a dormir menos de manhã.015). outras.2 horas. Tais comparações confirmam a menor duração do sono matutino entre as mulheres (U = 24. quando comparadas às que não os têm. A maioria das pessoas costumava dormir de manhã.4 e de 4. enquanto um terceiro grupo dormia ora uma vez. os resultados apontam. ressaltando-se que 50% delas atuavam neste turno há menos de seis meses.8 e 7. 128 Copyright © 2007. neste caso um resultado próximo ao limite da significância. que constituem um grupo de 11 homens e nove mulheres.075). ainda. com medianas de 7. ao passo que um percentual semelhante de mulheres (70%) trabalhava à noite há menos de um ano. p = 0. para uma redução da duração total do sono por dia entre as trabalhadoras. ambos atuando como zeladores de prédio três dias por semana. havendo uma tendência entre elas à redução do sono matutino (U = 66.0.025). respectivamente.0.bastante entre os dois grupos.5.5.5 e de 4. quando comparadas aos colegas do sexo masculino (U = 20. p = 0.

Como ficam o sono e a vigília Ao longo dos relatos. assim como as relações amorosas (os nomes abaixo são fictícios). o cotidiano. mas também o "desencontro" em relação aos horários da família e da comunidade em geral. o lazer. a autora trabalha com a subjetividade dos trabalhadores para elucidar as consequências desse tipo de trabalho sobre a saúde operária. que envolve não só a vigília noturna e o sono diurno. a menção ao sono e à vigília permite depreender uma sequência de temas que vão desde a descrição desses estados e da interferência de fatores sociais e ambientais sobre eles. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 129 . Copyright © 2007. A fala dos trabalhadores e trabalhadoras Homens e mulheres compartilham a percepção de que o trabalho noturno implica grandes mudanças em suas vidas. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. como a saúde. explicado na unidade anterior. A partir do estudo de caso. os estudos. até as análises explicativas sobre as consequências de se experimentar repetidamente a inversão de horários. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”.U NIDADE 24 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Nesta unidade continuaremos lendo o texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. A necessidade de se manter em vigília à noite e de repousar de dia permeia vários aspectos da vida.

) Então. Os ruídos geralmente envolvem a presença de crianças em casa ou na vizinhança. o calor e o ruído são os mais frequentemente referidos. Independentemente da fonte de ruído. se comparada ao efeito do calor: "Tem só a claridade do dia. aquilo dali parece que fica dentro da minha cabeça. é só um cômodo e dividido. ainda mais no período da noite. vai atrapalhar. o seu organismo está pedindo sono e você está fazendo ao contrário do que ele está pedindo" (Elvira). aparece através da constatação recorrente de que o sono diurno é qualitativamente inferior ao noturno: "Você dorme porque tem que dormir. até os compromissos socialmente definidos que condicionam o dia-adia... se tiver calor." (Sabrina). não descansa não" (Américo). o espaço físico reduzido favorece ainda mais a concentração dos ruídos e até a propagação dos odores: "É apertado. este é muitas vezes percebido como dotado da capacidade de penetrar a cabeça. aí (. aí ai meu Deus do céu" (Laura). mas descansar o corpo. eu acho que a noite não foi feita para você trabalhar. Às vezes eu acordo sufocado (. Dormir à noite parece fazer parte da ordem natural das coisas. às vezes. Copyright © 2007. (.... (. abrangendo desde o ambiente físico onde o sono se realiza.. como neste caso: "Porque o ser humano cansa né..) tem que estar um tempo fresquinho.. você está cansada. você tem que dormir. Já a claridade parece afetar menos o sono. minha esposa está fazendo uma fritura.. mais enfaticamente." (Pedro)... Por sua vez.. seja. A alteração desta ordem é percebida pelo corpo ou pela mente.. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 130 ..... cobrando o sono: "Quer dizer.. perturbando sobremaneira o sono: "Se eu ouvir uma pessoa conversando assim. né. o cheiro da gordura..) o cheiro vai ao nariz..... do óleo quente vai lá ao meu nariz e eu acordo. Diversos fatores contribuem para o dormir mal de dia.A expressão "a noite foi feita para dormir" está presente explicita ou implicitamente em diversas falas. mas a minha esposa fecha a janela. A percepção de que o corpo sabe que horas são e que a troca do dia pela noite não é inócua. Entre as condições ambientais que prejudicam o sono. seja pedindo para dormir. tem sono. que se comunica com a pessoa... aparecendo juntos. aí pronto..) Que prejudica mesmo é calor" (Pedro).

. fazer sua obrigação" (Marina). Mas também ouvimos falas que. dentro e fora do trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 131 . tanto como um agravante da sobrecarga feminina. nem a claridade.. comprometendo gravemente seu tempo para dormir: "A gente chega em casa (. as demandas do dia-a-dia são de suma importância no que concerne à possibilidade de dormir e aparecem como o maior divisor de águas entre homens e mulheres. em tom de reclamação. nas relações de gênero. é que eu não consigo dormir. por sua vez. no cotidiano de cada um. Assim. ele já tem comida pronta. Tais aspectos se articulam. e fica meio complicado. Tal sobrecarga para as mulheres ocorreria em função da atribuição dos trabalhos domésticos como uma característica essencialmente feminina que. principalmente no que diz respeito à divisão de trabalhos domésticos e responsabilidades familiares. O dia-a-dia fora da fábrica Diversos aspectos interferem na qualidade e na quantidade do sono de um trabalhador do turno noturno.A dificuldade em dormir de dia parece surpreender uma das trabalhadoras. Copyright © 2007. Desta forma. portanto. o preparo das refeições.) tem que dividir o descanso com as tarefas domésticas entendeu. porque você fica assim meio desequilibrada: ou você descansa ou você cuida das tarefas. ao perceber que não é o barulho das crianças. se articula com uma prerrogativa masculina que facilitaria a ausência dos homens nestas mesmas atividades. ou você cuida dos filhos entendeu?" (Elvira). apontam a prerrogativa dos homens de não adesão aos trabalhos da casa. quanto como uma vantagem que permite a eles dormir mais e. Os cuidados com a limpeza e a arrumação da casa. se adaptar mais facilmente ao trabalho: "Porque o homem já tem uma vantagem. nem a claridade que prejudicam o seu sono: "Não é nem o barulho. a atenção às crianças frequentemente foram mencionados por homens e mulheres como atribuições que sobrecarregam especialmente a trabalhadora. pudemos ouvir das mulheres falas muito claras sobre este caráter de "obrigatoriedade" dos cuidados domésticos: "Você tem que chegar em casa. mesmo" (Elvira).

A gente tem que fazer. ressalta o "desencontro" em relação aos horários de funcionamento dos estabelecimentos: "Você fica na rua. os homens confirmam que em sua rotina diária a prioridade é dormir.. a disponibilidade de tempo para dormir varia em função do maior ou menor comprometimento com outras atividades..." (Marina).. ali.. Dormem porque precisam se preparar para o turno noturno. e o tempo que sobra pra gente dormir é pouco. deitei.) Chego em casa. não. Por sua vez.) só se acabar um gás. "Não levanto para nada (. eu tenho que ir no banco. aí eu levanto para trocar o botijão" (Américo). tô dormindo" (João). Copyright © 2007. aí. mas para eles as tarefas domésticas parecem não afetar o sono. né?" (Marina).. mas. porque podem se entregar mais livremente à satisfação desta necessidade: "Em casa eu não faço quase nada. que também reduz o tempo para dormir. Entre as donas-de-casa. tomo café. entendeu? Trabalho só mais é aqui mesmo. os horários de sono são claramente determinados pelas "brechas" entre uma atribuição doméstica e outra. (.roupa lavada. pô. o banco abre 10 horas. A menção à necessidade de resolver assuntos de dia. a ser de forma eventual: "Fazer as coisas em casa e depois ir dormir... se a gente não fazer quem vai fazer?" (Marina).. também. Também entre os homens. você sai daqui 6 horas..... tudo certinho.. Já perde tempo de você tá dormindo em casa. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 132 .

. sinto aquele tremor assim. que o meu coração vai sair pela boca (.. (. no mínimo. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”... a autora continua trabalhando com a subjetividade dos trabalhadores para elucidar as consequências desse tipo de trabalho sobre a saúde operária.) eu vou vendo que está passando a hora e eu não consigo dormir.. se não dormir. não trabalha. Vou até no médico pra ver se o médico passa um remédio pra mim. "A saúde tô é normal..... Nesta parte. A necessidade imperiosa de dormir por vezes se mescla com a necessidade também imperiosa de realizar as tarefas domésticas. você tem que dormir. ah.) Se eu não dormir. A saúde física e mental Para os que trabalham à noite.) eu me sinto nervosa" (Elvira).. porque. Ao menos quatro horas. cinco horas. eu vou me ferrar depois" (Marina). publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho...) Você trabalhando de dia você não sente a hora. às vezes dá uma sensação de taquicardia. Copyright © 2007.. fico nervosa. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 133 . só que a gente tem que dormir um pouco. A obrigação é dormir. entendeu? (. em especial a saúde física e mental dos indivíduos. dormir está intimamente relacionado às condições de saúde: "Quando vai chegando a tarde (.." (João). quero levantar e o caso é que você não pode levantar. gerando grande tensão: "Engordei mais.. estou mais estressada. então eu já começo a me tremer...) Você tá ali deitado. mas quando você esta em casa de dia você sente que a hora tá passando e você não tem nada. (.U NIDADE 25 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Nesta unidade continuaremos lendo o texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono.

..) tipo a bateria está...... apavorante! (.) ocê toma café à noite e toma café de dia...) Eu não sei se é porque eu. mas é um sono terrível. a trepidação de tudo durante o dia. é hora de almoço..) o corpo reage de uma forma sabe.. vai mexer. qualquer movimento do dia está te abalando (. tem pessoas que aparentam que eu tenho 60 entendeu? (. é como se você tivesse a possibilidade de morrer ali (. você sente uma fraqueza.. Eu tenho 44.) porque você cortou o sono e você fica meia aérea" (Marina). Hora de almoço é tudo descontrolado.. lá pelo meio dia.) aquela coisa gostosa. Neste relato.) Porque você. não tem. aí eu tenho que abrir o portão" (Nelson). (. (. Pedro se refere a expressões como "nervos trabalhando" e "mundo de abalo".." (João).... dá muito nervoso. E eu não.) Você estar com aparência de acabado..) você trabalhou à noite. 45 anos.) Não dorme. (. por quê? Sua carne. chega alguém para te chamar (.. aquele silêncio. descarregando (. "Quando você começa a pegar no sono.... As mudanças de hábitos associadas ao trabalho noturno envolvem também a alimentação: "Mudou porque. eu estou acordado agora e vou estar dormindo mais tarde.. articulando sua agressividade com os problemas decorrentes do horário de trabalho... porque eu fumo. trabalhar à noite e trabalhar de dia é. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil .) você tem que atender a pessoa e deitar urgente entendeu.. os nervos estão trabalhando entendeu? Nós vivemos em mundo de abalo (. como o excesso de café e cigarro: "Mudou. eu tomo café de dia. Algumas falas enfatizam o impacto à saúde e ao bem-estar através de uma percepção quase visceral das relações entre o corpo e a mente..) Tenho mais controle mais não......) Porque você acorda assustada.. tipo uma febre.. que seriam mediados através de maus hábitos adquiridos no trabalho noturno. (.. de noite está dormindo.) Um pouco agressivo. você percebe o sono chegando. Já quando acorda. mas a consciência da gente está trabalhando. na maneira de comida mudou... de noite..) Eu peguei envelhecimento precoce.. (.. você vai deitar assim.. vem alguém te acordar. sei lá... quem trabalha de dia só toma o café de dia.) aí o seu corpo vai começando a murchar entendeu? (... não tem aquele descanso espiritual (. tomo café direto né? (. seu organismo está cansando entendeu? (.) Às vezes chega a Light lá...Esta tensão também se expressa na contundência de algumas falas que descrevem situações em que é preciso interromper o sono: "Eu deito um pouquinho e acordo lá pras 11 horas.. chegou de manhã. a 134 Copyright © 2007. é uma coisa muito forte (.

eu não agüentei ver a 'Praça é Nossa'. porque esse serviço à noite descontrola um pouco a gente. A menção ao "nervoso” associado ao desânimo também é atribuída à mudança de rotina: "No começo.. O desânimo e o cansaço também prejudicam os estudos: "Eu tenho que ver curso. de cigarro. o corpo sente né? (.. aí só.... sabe. então eu passo praticamente a minha vida toda dormindo tendo sono normal. mal ou bem você tem estudo. sábado..... porque minha mãe fala: 'você não pode viver o tempo todo enfiada o tempo todo dentro da fábrica. quer dizer. aí (. aí não sei se é o nervoso também. (. às vezes eu estou tão sem pique para nada. mesmo sem querer você dorme" (Clarice). A necessidade de dormir também adentra o fim de semana..) Aí.) Ficam 5 dias atrasados. que dá vontade de chegar. aí larga no sábado (. quer dizer... Ó.. Aí aquilo também pode causar abalo de nervo né? E se eu fumo um maço de noite. quinta e sexta. você sabe ler e escrever.) fora o serviço. mudo.)." (Sabrina). minha vida mudou completamente.noite toda e uma boa parte do dia... são o quê? São segunda.) O sono bate... tem que acabar o estudo. (. na parte de sistema nervoso (. quarta..... mas à medida que foram passando os dias. eu já vou passar a fumar dois" (Pedro). eu conseguia dormir bem sabe... Copyright © 2007.... eu não tenho ânimo mais para nada" (Elvira). prejudicando o lazer: "Porque são muitos sonos atrasados. nunca tive insônia.) de repente eu quebro essa rotina.. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 135 .. Não adianta. porque você não faz curso disso.. deitar e dormir...' eu falo: mãe. e domingo eu não vi o 'Topa Tudo Por Dinheiro'. o curso daquilo.. terça.. fico a noite inteira acordada..

"Lidar" com o trabalho noturno mobiliza os trabalhadores e trabalhadoras em várias esferas da vida. o horário de trabalho) os acompanhasse de perto. como se a demanda do trabalho (no caso. mas sim do fato de este ser realizado à noite.U NIDADE 26 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero A discussão e considerações do estudo de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. que só voltam no dia seguinte: "No caso é o Copyright © 2007. mesmo fora da fábrica. o que é diferente das pessoas que trabalham de dia. Além disso. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 136 . independente do processo de trabalho em si. a autora demonstra como o trabalho em turno pode significar sofrimento físico e mental. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”. que se refere à desvantagem de voltar para o trabalho no mesmo dia em que sai do trabalho. Nele. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. uma mobilização que se expressa na preocupação permanente em dormir e descansar tanto durante a semana quanto no domingo. daí a necessidade de se entender a estrutura e dinâmica social e não apenas estudar o trabalho do ponto de vista puramente técnico como se costuma fazer. Discussão Os resultados revelam uma dimensão do trabalho que aparentemente independe do processo de trabalho em si. esse tipo de arranjo impacta de forma diferenciada entre homens e mulheres. são apresentados nesta unidade. A ligação diuturna com o trabalho é particularmente evidente na fala de Clarice.

hoje já é quinta. De fato. mediando ou traduzindo condições de vida que podem eventualmente levar ao desencadeamento de perturbações. Esta estrutura temporal do trabalho. associando a interrupção do sono à sensação de febre e à imagem de uma bateria descarregando.. vizinhos ou carros) aparece não só como o fator que mais prejudica o sono. e voltar na mesma quinta 10 horas da noite. a gente vem quarta 10 horas da noite. através de efeitos diretamente ligados à privação do sono .. aí já pulou para quinta (. ontem foi quarta né? Eu vim para cá 10 horas da noite.como o desânimo. de forma que o tempo de folga é muitas vezes dedicado a reparar o cansaço da semana.. Sob vários aspectos. remetendo-nos a estudos sociológicos que revelam efeitos danosos do trabalho em turnos sobre o tempo e a qualidade da convivência com a família (Volger et al.e aspectos essencialmente psíquicos .. No âmbito familiar. é relativamente comum em indústrias que não requerem sistemas contínuos de trabalho. por preservar o fim de semana livre.como o descontrole e a agressividade. o cansaço e a sonolência acumulados levam a pessoa a vivenciar o sono "como um entrave que limita o prazer e a liberdade nas horas do não trabalho".. por outro lado. o conjunto de relatos reflete uma Copyright © 2007. O desencontro de horários se destaca na fala de um trabalhador que se refere à necessidade de atender ao funcionário da Light (que trabalha de dia). o corpo mostra que ele sabe que horas são. vamos sair hoje 6 horas. A inversão de horários é sentida de forma intensa por homens e mulheres.) quer dizer. quem trabalhou de 6 às 2 (14h).quê? É meia noite e 15. ele implica uma sequência de noites de trabalho. a gente não. como um código cultural amplo... que envolve um turno fixo (somente à noite) com folgas nos fins de semana. o ruído (de crianças. São falas marcadas pela menção ao "nervoso" que atuaria. eventos corporais físicos . Ao descrever o cotidiano.. 1988). a obesidade e o envelhecimento precoce . seja pagando o preço de desrespeitar este saber. de 2 às 10 (14 às 22h). Como comenta Seligman-Silva (1994:222). se comparado a turnos contínuos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 137 . como propõe Duarte (1998).como o tremor. esse desencontro afeta o relacionamento com o cônjuge. trabalha na quinta.." (Clarice). Se este esquema é vantajoso. mas também como parte inevitável de uma sociedade diurna. seja cobrando o sono e o repouso de noite. a fraqueza e a insônia.

já que implica menor disponibilidade de tempo para outras atividades. seja em relação ao que as pessoas sentem como dificuldade no trabalho noturno. enquanto muitas operárias haviam recém-ingressado neste turno. (1993). Tais comparações revelaram menor duração total do sono por dia entre as mulheres. Se a angústia e tensão de "ver o tempo passar e não conseguir dormir" por vezes está associada à incapacidade de pegar no sono de dia. 1990). incluindo o dormir. embora haja uma carga partilhada por homens e mulheres.dão lugar à experiência tão feminina de realizar o trabalho doméstico. o envolvimento delas com as atribuições domésticas dá uma qualidade diferente ao cotidiano fora da fábrica. Neste contexto. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 138 . ao que fazem para lidar com elas ou a como interpretam a maior ou menor capacidade de se adaptar ao trabalho. em sua maioria. elas decorrem da necessidade de conciliar o tempo de sono com as tarefas em casa. Ao tratar deste ponto. como se depreende das comparações estatísticas entre as amostras masculinas e femininas. Copyright © 2007. Em resumo. As diferentes expectativas que recaem sobre os gêneros se articularam com os padrões quantitativos do sono diurno.profunda noção de que o organismo. o trabalho noturno demanda uma reformulação geral de hábitos. deve-se considerar que os homens. É neste momento que a carga e a mobilização em relação ao trabalho . confirmando os dados de Dekker & Tepas (1990) e Oginska et al. particularmente quando se leva em conta o papel central do sono para as pessoas que trabalham à noite (Robson & Wedderburn. em outros casos.que envolvem um sofrimento comum a homens e mulheres . Em que pesem as diferenças quanto ao cotidiano e ao meio familiar. o estudo do sono em grupos mais homogêneos (com mais de um ano de trabalho noturno) se mostra adequado. E é a partir deste trabalho que as diferenças de gênero se manifestam de forma mais vívida. estavam minimamente adaptados ao trabalho noturno. a mente e a sociedade têm os seus horários de funcionamento e que estes não são compatíveis com os de quem trabalha à noite.

1979). O estudo cronobiológico revelou diferenças intra-amostra.. segundo a qual os métodos qualitativos e quantitativos devem ser vistos como complementares.. as diferentes etapas da pesquisa implicam resultados de natureza diversa que. como a duração e o número de episódios de sono por dia. Neste estudo. quando comparadas às colegas que não os têm. entre objetividade e subjetividade não se reduz a um continuum. o que está em consonância com a técnica de triangulação. nenhuma diferença significativa foi observada entre os homens com e sem filhos. à saúde. Como o horário em que uma pessoa efetivamente dorme reflete não somente suas preferências e aspectos fisiológicos. ao uso do tempo e à divisão dos trabalhos remunerados e domésticos. Utilizamos este recurso por considerar que as disciplinas por si só não dariam conta da realidade a ser interpretado.O cotidiano essencialmente voltado para a casa e os filhos se manifestou no ciclo vigíliasono. ela não pode ser pensada como oposição contraditória". como previa o planejamento da pesquisa em etapas complementares. podendo ser entendido em seus significados mais subjetivos através das entrevistas. se a relação entre o quantitativo e o qualitativo. como mostram alguns resultados discutidos a seguir. Assim. e não como campos rivais (Jick. ao serem usados de forma colaborativa. a dormir menos de manhã e a dormir mais vezes por dia. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 139 . Tal complementaridade e seu papel na compreensão da realidade social são discutidos por Minayo & Sanchez (1993:247). o estudo busca a integração (e não a comparação ou o confronto) entre disciplinas como forma de apreender as complexas vivências que homens e mulheres enfrentam nos seus cotidianos em relação ao sono. Para além do uso combinado de métodos das Ciências Sociais e da Biologia. que envolvem conteúdos tão diferenciados. sugerindo que o debate trate das possibilidades e limites de cada abordagem em função da questão investigada. a análise das falas e o estudo cronobiológico do sono. puderam ser tratados em conjunto como forma de melhor interpretar a realidade. nas trabalhadoras com filhos. Os autores enfatizam a natureza diferenciada desses enfoques. Observamos uma tendência. revelam o caráter complementar que buscamos construir. segundo os quais ". mas também a influência das condições domésticas testamos a associação entre os horários de sono e a presença de crianças pequenas. Cabe Copyright © 2007.

1997). Assim. o que não se aplica à amostra masculina. o número de episódios de sono/dia não se mostra associado nem à presença de filhos. ou seja. 1989). 2000b). como a interrupção do sono para preparar as refeições (Gadbois. a influência dos filhos no sono é em geral relacionada às atividades de cuidado. à presença ou não de filhos. maior número de queixas relacionadas ao sono e à fadiga entre as trabalhadoras com filhos. decorrentes do ambiente externo (Minors & Waterhouse. quando comparadas às demais (Rotenberg et al. as diferenças na amostra feminina são mais facilmente atribuídas ao seu papel no cuidado dos filhos. 1987). Se as diferenças entre os homens (dormir uma vez ou duas vezes por dia) podem ser atribuídas a diferenças individuais quanto às características fisiológicas do sono.etapa 1). ainda. revelou que as diferenças na amostra feminina podem ser atribuídas. nem à duração do sono matutino. Já a análise destes dados à luz das informações sóciodemográficas (no caso. (2000a). como discutido por Rotenberg et al. a menor duração do sono em trabalhadores com filhos tem sido atribuída ao ruído das crianças (Anderson & Bremer. ao menos em parte. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 140 . dividir o sono (geralmente um matutino e outro vespertino) está associado à presença de filhos pequenos e a curta duração do sono matutino. embora a Cronobiologia considere os ritmos biológicos como fruto da interação entre fatores endógenos e exógenos. Esses resultados encontram respaldo nos depoimentos aqui estudados. Entre as mulheres. já que tanto as mulheres quanto os homens consideram que o trabalho doméstico interfere sobremaneira nos horários de sono. a presença de filhos de até dez anos . precisando Copyright © 2007.. Os resultados reproduzem dados relativos a outro grupo de operárias do turno noturno. embora não haja diferença significativa entre as amostras quanto a esta variável. que mencionam dormir entre uma atividade e outra. Esta forma de "distribuir" o sono se coaduna com a fala de algumas delas. os dados cronobiológicos por si só não permitem avaliar em que medida o sono é influenciado por cada uma dessas fontes. A associação entre o sono e a presença de crianças evidencia o caráter social subjacente às diferenças entre homens e mulheres.notar que. já entre os homens. (2000). 1981) ou para levar ou buscar as crianças na escola (Rotenberg. A divisão do sono em dois episódios parece ter um caráter diferente nas amostras masculina e feminina. enquanto entre as mulheres. no qual constatamos. como propõem Moreno et al.

mas para inspirar ações que visem à conciliação do trabalho profissional e doméstico ou. não restringindo a análise aos danos e à vitimização destas pessoas. No percurso da pesquisa. o que é mais desejável. Os resultados revelaram a profunda interrelação entre as atividades profissionais e a vida doméstica como geradoras de impactos à saúde. levar ou buscar os filhos na escola. Esta interpretação demanda a integração entre os resultados das três etapas da pesquisa. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . procurando articular abordagens quantitativas e qualitativas. a maior equidade entre homens e mulheres na divisão do trabalho doméstico que possa minimamente corresponder ao movimento de saída das mulheres para o trabalho público. quais sejam. A análise das falas se restringiu às vivências na troca do dia pela noite. Ao mesmo tempo. o artigo aborda uma parte da pesquisa. utilizamos diversas técnicas. O desvendamento das vivências de homens e mulheres no exercício do trabalho noturno. aliados às informações demográficas e ao material obtido nas entrevistas.interromper o sono matutino para fazer o almoço. permitiu revelar as regularidades presentes entre o grupo de trabalhadoras. quando comparadas aos trabalhadores. Duas vertentes profundamente imbricadas a essas vivências. as estratégias de organização do cotidiano e os fatores aos quais os/as trabalhadores/as atribuem a (im) possibilidade de adaptação ao trabalho merecerão outro espaço de discussão por sua relevância na abordagem do trabalho noturno. as relações de gênero no trabalho e sua associação com a saúde. Dada a necessária limitação de espaço. A análise do impacto do trabalho noturno sob a ótica de gênero não deve usada como argumento para restringir a participação das mulheres no trabalho noturno (Bué & RouxRossi. os resultados trouxeram à tona diferenças no interior da população masculina e feminina. sem negar a singularidade de cada indivíduo. assim como os dados ergonômicos serão tratados em outra publicação. já que ela decorre dos dados cronobiológicos. ressaltando o caráter essencial das relações de gênero na compreensão da realidade vivida 141 Copyright © 2007. 1993). Essas questões contrapõem os problemas enfrentados por trabalhadores/as a aspectos compensatórios e alternativos para lidar com o trabalho noturno. Como já mencionado.

pelos que trabalham em horários não usuais. Quando a realização da jornada diurna compete com a premência de sono, é de se esperar que a vida como um todo sofra uma perda de qualidade, acirrando os impactos das diferenças homem-mulher.

ATIVIDADES OPTATIVAS: 3. Discuta como o trabalho noturno pode afetar diferentemente homens e mulheres.

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Privatização, Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho, em que pese o processo de privatização e reestruturação, têm afetado as condições de trabalho Nas últimas unidades deste módulo tentaremos demonstrar como as mudanças no mundo do trabalho, em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva, têm afetado as condições de trabalho. Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização, reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo. No artigo, publicado em 2002 no caderno de psicologia social do trabalho, a autora realiza um estudo de caso com trabalhadores do setor elétrico. Rosemeire identifica as mudanças introduzidas na base técnica, na divisão e na organização do trabalho e os impactos gerados para a saúde e a segurança dos trabalhadores. Como ela mesma diz, “nas empresas de geração de energia, destacam-se o ruído, o trabalho noturno e em turnos e a utilização de produtos químicos nas atividades de manutenção dos equipamentos como as principais cargas geradoras de desgaste. Nas empresas de distribuição de energia, destacam-se o trabalho noturno e em turnos, os movimentos e esforços repetitivos como fontes de desgaste. Em ambos os tipos de empresa, são também expressivas as cargas laborais de natureza psíquica geradas pela intensificação do ritmo das atividades, pela consciência do aumento da insalubridade, periculosidade e penosidade do trabalho e pelo clima de instabilidade organizacional provocado pela privatização.” Atente para os principais impactos na saúde física e mental dos trabalhadores desse ramo e bom estudo!
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Introdução Na década de 1990, o setor elétrico brasileiro passou por grandes mudanças e foi o alvo de inúmeras discussões polêmicas, desde o anúncio e a concretização do processo de privatização das empresas distribuidoras e geradoras de energia, passando pela ameaça e a ocorrência de blecautes de grandes e pequenas proporções, até o advento de uma política de racionamento do uso de energia elétrica em determinadas regiões do país, que ficou popularmente conhecida como “apagão” (Benjamin, 2001; Bernini, 1992; Fischer, Teixeira & Heber, 1998; Folha de São Paulo, 2001a, 2001b). Este artigo é fruto de uma pesquisa exploratória, realizada conjuntamente com o SINERGIA/PRÓ-CUT, Sindicato dos Energéticos do Estado de São Paulo, e aborda um aspecto da questão que não tem sido debatido pela sociedade mais ampla: os impactos negativos do processo de privatização e reestruturação das empresas geradoras e distribuidoras de energia elétrica para quem trabalha no setor. Este tipo de trabalho não está a salvo das transformações estruturais que vêm ocorrendo no mundo produtivo (Antunes, 1998; Teixeira & Oliveira, 1998; Túmolo, 1997; 2001) e nem tampouco das reformas que se processam no Estado brasileiro (Teixeira & Oliveira, 1998; Pereira, s. d.; Biondi, 1999) e, em decorrência delas, tem assumido características particulares, o que torna o seu estudo necessário e desafiador. No contexto das reformas de inspiração neoliberal, levadas a cabo pelo Estado brasileiro desde meados da década de 1980 e intensificadas na década de 1990, o setor está sendo privatizado e reestrutura-se, procurando incorporar um conjunto de inovações técnicas e organizacionais para se tornar mais eficiente e competitivo. A reestruturação tem sido sustentada pela necessidade de incrementar a produtividade, de aprimorar a qualidade e de reduzir os custos de produção, para tornar as empresas ainda não privatizadas mais atraentes aos olhos dos investidores. As empresas já privatizadas intensificam o ritmo das mudanças, esforçando-se para tornarem-se ainda mais aptas a enfrentar as regras de uma economia regulada, principalmente, pelo mercado.

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entre outras. enfoca-se a relação entre objetos de trabalho/matéria-prima. Quanto às relações de trabalho. por um lado. com o objetivo de identificar as mudanças recentes que estão sendo introduzidas na base técnica e na gestão do trabalho. Copyright © 2007. as fontes geradoras de cargas laborais e o padrão de desgaste e de adoecimento manifestado pelos trabalhadores. à organização do trabalho em turnos e à implantação dos programas para obtenção de certificados de qualidade. as inovações tendem a agravar os riscos e intensificar os conflitos existentes no cotidiano da produção. Partindo do entendimento de que a saúde-doença é um processo socialmente condicionado e relacionado. O estado de saúde referido pelos trabalhadores e a sua percepção de sinais e de sintomas de doenças foram confrontados com os dados epidemiológicos disponíveis. a intensificação do ritmo das atividades dos que permanecem nas empresas.No entanto. realizou-se um estudo exploratório sobre a organização do processo de produção de energia nas usinas hidroelétricas e do processo de trabalho dos eletricistas da rede de distribuição (eletricista de distribuição). 1989). tendo como pano de fundo a problemática da privatização e da reestruturação produtiva em curso no setor. a análise focaliza a organização do trabalho e a rotina da jornada dos trabalhadores. o aumento da insalubridade. apresentam-se alguns elementos para discutir a política de gestão dos trabalhadores. especialmente no que diz respeito ao treinamento. para os trabalhadores. da periculosidade e da penosidade nos ambientes de trabalho. equipamentos e instrumentos de trabalho e os tipos de atividades realizadas. No que se refere às condições de trabalho. a privatização tem ocasionado consequências sociais negativas. ao trabalho e ao conjunto das condições de vida (Laurell & Noriega. de saúde. o agravamento da situação consome energia. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 145 . o aumento da frequência e da gravidade dos acidentes. procurando-se caracterizar o ambiente de trabalho. No estado de São Paulo. Para melhor compreender o significado dessas consequências. as fontes geradoras e os tipos de cargas laborais e seus impactos para os trabalhadores. o que mais gera e destacando-se. o desemprego e. por outro. sobretudo.

A escolha justifica-se pela importância estratégica que ocupa este posto de trabalho no conjunto das atividades desenvolvidas pelo setor. 1989). o posto de trabalho do eletricista de distribuição foi objeto de escolha intencional (Thiollent. Nas concessionárias de energia. O desenho metodológico da pesquisa fundamentou-se. Campinas e Limeira. A partir das observações e contatos preliminares realizados nas usinas e concessionárias. O campo empírico foi constituído pelos municípios de Ilha Solteira. Nas usinas hidroelétricas. observar o ambiente e a rotina de trabalho de operadores do sistema e trabalhadores das equipes de manutenção. de entrevistas semiestruturadas e de grupos de discussão com os trabalhadores e sindicalistas (Minayo. e identificar áreas e elementos de risco. como não havia indicação de postos de trabalho considerados críticos no que se refere à ocorrência de acidentes e doenças. basicamente. Copyright © 2007. foram organizados grupos de discussão com trabalhadores e sindicalistas na sede das delegacias sindicais. 1997). Porto Primavera. Thiollent. 1997) para a realização das observações e para o estabelecimento de contatos preliminares com os trabalhadores. sendo elevado o número de denúncias que chegavam ao sindicato sobre a ocorrência de acidentes e doenças. onde se localizam as mais importantes empresas de geração e distribuição de energia elétrica do estado de São Paulo e do país. nas informações preliminares fornecidas pelos dirigentes sindicais.Os dados foram obtidos através de análise documental. da realização de observações no ambiente de trabalho. Além disso. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 146 . 1999. Tais grupos reuniam entre cinco e dez trabalhadores que ocupavam o mesmo posto para discutir a organização do processo de trabalho e todas as informações obtidas passavam pelo crivo do procedimento de validação consensual (Laurell & Noriega. neste posto desenvolve-se atividade de grande risco para o trabalhador e para a população em geral. o processo da pesquisa consistiu na realização de visitas em cada empresa para conhecer o fluxo produtivo da energia. mas que nem sempre eram oficialmente notificadas pelas empresas.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 147 . encontram-se relatórios. É importante enfatizar que. Copyright © 2007. Entre os documentos analisados. 1988). que. revistas. boletins. pautas de reivindicações e panfletos produzidos pelo sindicato de trabalhadores. pelas empresas e agentes de saúde e segurança no trabalho. embora a análise aqui realizada particularize as consequências de um determinado modo de organizar e realizar o processo de trabalho para a saúde e a segurança dos trabalhadores. juntamente com a análise documental. foi utilizado para obter informações complementares. cuja essência continua sendo a necessidade de ampliação da taxa de lucro através do desenvolvimento e do acirramento da competitividade empresarial e da intensificação do controle sobre o processo de trabalho.As observações e a discussão realizada pelos diferentes grupos de trabalhadores orientaram a elaboração de um roteiro para a realização de entrevistas individuais semiestruturadas (Minayo. elas somente poderão ser compreendidas tendo como marco referencial a progressiva consolidação do padrão de produção e acumulação capitalista emergente no âmbito mundial a partir dos anos de 1970. acordos coletivos de trabalho.

O processo de produção da energia é composto. a autora trata do ambiente de trabalho dos eletricitários. pela existência de ruído em níveis acima do permitido. reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo. Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização. onde se encontra instalado o maquinário das turbinas. continuaremos demonstrando como as mudanças no mundo do trabalho. vibração e calor constantes (até 43 graus nas proximidades das máquinas) provocados pelo funcionamento ininterrupto das UGs.U NIDADE 28 Privatização. Estão localizadas num amplo local denominado sala de máquinas e são circundadas por inúmeras galerias que dão acesso ao seu interior. A seguir. que controlam o funcionamento do sistema e produzem a energia. Os ambientes onde se desenvolvem essas atividades são caracterizados. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 148 . em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva. basicamente. O trabalho e o ambiente de trabalho dos eletricitários Uma usina hidroelétrica é responsável por gerar. por dois tipos distintos de atividades: 1) as de manutenção. As UGs são grandes equipamentos montados dentro da barragem que represa o rio. propriamente dita. em que pese o processo de privatização e reestruturação. que preparam as unidades geradoras de energia (UG) e o conjunto de estruturas e equipamentos para que a produção se realize de modo ótimo e seguro e 2) as de operação. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho. a casa de máquinas. têm afetado as condições de trabalho Na unidade 28. A sala onde se localizam os radiadores e trocadores de calor. têm afetado as condições de trabalho. principalmente. Copyright © 2007. transformar e transmitir energia elétrica.

por um lado. ao reduzir a necessidade de manutenção. O posto de trabalho mais ameaçado pela automação é o do operador de UG. eles também tinham consciência das consequências negativas do uso dessa tecnologia porque. tais como gatos selvagens. mas. escorpiões e outros). morcegos e até mesmo animais que habitam as florestas que margeiam as barragens. o poço da UG e a galeria de filtros são citados pelos trabalhadores como sendo os lugares mais insalubres e perigosos. onde é comum a presença de animais peçonhentos (cobras. ela contribui para reduzir postos de trabalho (apenas um homem pode realizar o trabalho de quatro ou cinco). úmidos e quentes. significa praticidade. lugares sombrios. Há ainda as galerias que se localizam do lado externo da represa. porque as leituras dos parâmetros operacionais dos equipamentos podem ser feitas através de tradutores digitais e os dados que informam sobre como eles estão operando podem ser transmitidos para o comando central através de fibras óticas. porque aumenta o desempenho dos equipamentos e diminui os custos de produção. há em curso um processo de digitalização da base técnica. a substituição programada dos equipamentos de tecnologia analógica/eletrônica pelos de tecnologia digital utilizados para o controle do processo produtivo. Nas usinas hidroelétricas. rapidez e um aumento da segurança do sistema. A existência de correntes elétricas de alta tensão e campos eletromagnéticos tornam a subestação um dos locais mais insalubres e perigosos porque é onde os trabalhadores ficam ainda mais expostos aos choques elétricos e à indução. Os operadores reconheciam que a digitalização representa a obtenção de ganhos de produtividade. Como ponderou um operador: Copyright © 2007. ainda. por outro lado. A energia de alta tensão produzida pelas UGs passa por transformações de voltagem no local chamado de subestação até ser distribuída para os usuários (residenciais e/ou industriais) através das torres de transmissão e linhas de distribuição. grandes lagartos.o poço de drenagem. o poço da turbina. não contribui para qualificar quem as opera. ou seja. No entanto. dado que as informações são obtidas em tempo real. E. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 149 . gambás e tamanduás. abelhas.

É melhor para o sistema.. A digitalização e o consequente desemprego eram vistos pelos operadores como tendências inexoráveis. aumentando/diminuindo a sua carga de produção. No entanto.. o que é fundamental para garantir a segurança. que se aceleravam com a privatização e o acirramento da concorrência entre as empresas do setor elétrico. Copyright © 2007. colocar/retirar a máquina do sistema.] não é sentar e apertar botão e controlar as máquinas. Não há dispositivos para amenizar os efeitos da vibração e são insuficientes aqueles que regulam a temperatura ambiente. em termos da diminuição dos níveis de ruído. mas estão sempre presentes e atingem indistintamente os trabalhadores.. Independente se for trabalhar na usina ou fora. mas para a gente é mais complicado porque dá um defeitinho lá e a gente não tem noção nenhuma [da causa do defeito]. os operadores realizam a leitura dos equipamentos. para verificar a normalidade do funcionamento. O operador somente atua quando há necessidade de desligar um equipamento ou quando uma ocorrência resulta em manutenção na UG. Nos postos de trabalho. [. não tem mais jeito. É aproveitar que o barco está andando e remar junto. porque são provocadas pelo funcionamento constante das UGs. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 150 .] quem não aprender [a operar os equipamentos digitais] vai ficar no meio do caminho.] a tendência é reduzir o número de emprego. As máquinas funcionam automaticamente. com ou sem parada da produção de energia.. sozinhas. Não dá nem coragem de pôr a mão lá porque ele registra tudo [. periodicamente. A gente tem que fazer mesmo é só supervisão. no interior das usinas hidroelétricas nem toda a tecnologia digital implantada tem sido capaz de contribuir para sanear os ambientes de trabalho. da regulação da temperatura ambiente e da diminuição da vibração... Eles explicaram o que significa ser operador de uma usina hidroelétrica: [. Os protetores auriculares não são utilizados pelos trabalhadores porque são incômodos e ainda dificultam a comunicação por rádio ou telefone. não tem volta. Esses elementos de risco variam de intensidade nos diferentes postos de trabalho.

e utilizados inúmeros instrumentais do tipo martelos. não é possível trabalhar com segurança. é um lugar muito quente. pois as atividades devem ser desenvolvidas em sintonia máxima. alicates hidráulicos e chaves de todos os tipos. sem as quais. benzina.Essa atividade de controle do processo requer atenção. elétrica ou eletrônica. que podem estar ou não em funcionamento. Você trabalha dentro dela. calçar [as bobinas] com fibra de vidro. Ali são manuseados produtos químicos . Os eletricistas de manutenção são subdivididos em equipes. mas tem a vantagem de ser ao ar livre. vêm aqueles farelos em cima da gente. Acho que ali seria um dos piores na própria manutenção das UGs.o trabalho de manutenção na] subestação é pesado. [.acetona. numa posição muito ruim e essa parte que você tem limpar às vezes com thiner. o próprio funcionamento das máquinas provoca uma situação ambiental que prejudica a capacidade sensorial dos trabalhadores. entre outras . Na manutenção não há postos de trabalho fixos.. com as bobinas da máquina e tem que mexer com fibra de vidro. na medida em que você bate nela. Cada equipe tem um líder e pode ter ainda suas subdivisões. olfato e tato. com atenção redobrada. Os elementos de risco acentuam-se nas atividades de manutenção corretivas e/ou programadas realizadas no interior das UGs. concentração e o desenvolvimento de habilidades sensoriais importantes como audição. principalmente a auditiva. visão. Dependendo do problema ou situação. thinner. cada qual conferindo o que o outro faz antes de tomar qualquer decisão em relação à continuidade do trabalho. Já nas máquinas é um serviço que te deixa em posição muito ruim. desde a fossa séptica até a comporta. Copyright © 2007. às vezes. várias equipes de manutenção podem ser acionadas para trabalharem juntas ou isoladas. Mas. óleo. solventes para limpeza. Você vai mexer. de acordo com as suas especializações em mecânica. paradoxalmente. graxa. pois as atividades são desenvolvidas em todo o território da usina. é um lugar muito quente. que auxiliam na detecção de irregularidades e. Isso implica num sério problema de segurança individual e coletiva.. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 151 . com querosene e ainda tem o problema da fibra de vidro que. querosene.

. associada à digitalização dos equipamentos. ainda. na verdade. nos sistemas de informática e de telecomunicações.Essa preocupação era menor nas equipes de manutenção eletrônica. direta e/ou através de empreiteiras. por exemplo) estavam perdendo seus postos de trabalho. Enquanto tiver equipamento para substituir eles vão precisar da gente. É que muitos se aposentaram e a contratação. constituem um combinado de sistemas mecânicos. diminuiu muito depois do início das privatizações. cuja manutenção não prescinde dos conhecimentos de outras áreas. Assim como entre os operadores. cujos trabalhadores pareciam estar confiantes em que nem mesmo a privatização poderia ameaçar a manutenção dos seus postos de trabalho. ameaçava extinguir os seus postos de trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 152 . seria melhor ainda se eles colocassem a gente a par dessa tecnologia.] depois de dois anos de privatizar. Porém. elétricos e eletrônicos.Os trabalhadores ressentiam-se do fato de que está diminuindo o número de pessoas nas equipes de manutenção. Eles ressentiam-se também de estarem perdendo o conhecimento e o controle sobre as operações essenciais do processo produtivo e. o processo de geração de energia digitalizado foge ao controle dos trabalhadores. Mas. de nós [. depois de tudo isso instalado. entre os trabalhadores da manutenção o clima era apreensivo porque a privatização. preocupavam-se com o fato de que as outras áreas (mecânica e elétrica. Tem equipamento ali que já faz uns quatro anos que está instalado e a gente não conhece nem 10%. eles mencionaram a ocorrência de uma certa resistência entre os trabalhadores da manutenção em adaptarem-se Copyright © 2007. A preocupação explicitada na fala acima é pertinente e mostra que existe uma certa consciência de que os equipamentos não são totalmente digitais. aí já não vão mais precisar da gente. Ocorre que a digitalização tende a fazer crescer a demanda de manutenção nos equipamentos eletrônicos. mas. porque passa a ocorrer através da transmissão eletrônica de dados e informações que não estão disponíveis e acessíveis a todos.. Por isso mesmo. o que poderia comprometer ainda mais a segurança do conjunto da produção. Eu acho que é excelente [a tecnologia].

que se manifesta. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 153 . nas concessionárias de energia. por exemplo. em vias de ser superada. esta divisão do trabalho entre operação e manutenção está. pois. ainda. Ocorre que. limpeza e ensaio na proteção demoravam de duas a três semanas.] nós fazíamos menos coisas. teoricamente. na recusa da utilização de novos métodos de trabalho. mesmo depois de privatizadas. montar e ajustar mecanismos. Manutenção. Isso significa que o mesmo trabalhador será responsável pelos dois tipos de atividade.. Hoje nós fazemos muito mais em menos tempo e com menos pessoas. Entretanto. Enquanto nas usinas hidroelétricas os trabalhadores atribuíam as mudanças a uma preparação das empresas para a privatização. as mudanças continuaram acontecendo. E. Pode-se considerar que esta é uma mudança estrutural no trabalho desenvolvido nas empresas de geração de energia. Hoje faz em um dia e meio porque não tem mais que desmontar . para que isso aconteça. é necessário que ele esteja tecnicamente preparado para compreender as mudanças.à digitalização. Mas. atualmente. É que algumas atividades de manutenção tendem a mudar substancialmente. ou seja. pois o trabalhador. num tempo maior com o mesmo número de pessoas. elimina-se a separação entre manutenção e operação preparando os trabalhadores para o exercício das duas atividades. há uma tendência para se introduzir nas usinas hidroelétricas o conceito de “homem de produção”. especialmente no posto de trabalho do eletricista de distribuição. É exatamente com relação a esse ponto que os trabalhadores queixavam-se de não estarem sendo informados das mudanças e nem sequer estavam sendo treinados para utilizar os novos equipamentos. além de o maquinário eletrônico ser mais durável e seguro.. lembravam que os postos de trabalho estavam diminuindo e as atividades caracterizando-se pelo exercício da polivalência: [. porque é feita a partir da substituição e não do reparo das peças. porque se trata de uma transformação radical na lógica de funcionamento do sistema de máquinas. passa a ter um entendimento mais amplo do processo produtivo. Copyright © 2007. a natureza da manutenção é diferente. com a incorporação crescente dos equipamentos de tecnologia digital. A mudança pode até ser positiva.

ora em bairros periféricos. É um trabalho insalubre. principalmente. realizando os diferentes tipos de atividades de manutenção preventiva e/ou corretiva no sistema elétrico.800 volts) que podem estar energizadas (linha viva) ou não (linha morta). ora em bairros elegantes e diferenciados pela existência de infraestrutura e de urbanismo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 154 . tanto pelas características do objeto sobre o qual ele se aplica quanto porque se realizam na rua.O trabalhador deste posto opera em redes de alta tensão (11. de segurança. tendo em vista garantir o fornecimento de energia à população usuária. as fronteiras das cidades marcadas pela existência de favelas caracterizadas pela falta de saneamento básico e. perigoso e penoso.900 ou 13. Copyright © 2007.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 155 . Ameaça a gente tem todo o dia. têm afetado as condições de trabalho. Por exemplo. os trabalhadores ainda respondem judicialmente por esses acidentes.responsáveis pelas atividades de ligação. segundo as estatísticas realizadas por uma concessionária. desligamento e retirada de medidores de consumo das residências . Frequentemente. de drogas Copyright © 2007. Em certas situações. 11.. Além de correr risco de vida. A seguir. em que pese o processo de privatização e reestruturação. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho. a autora trata dos riscos de trabalho. os denominados eletricistas do comercial . [.7% dos acidentes registrados em Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) foram acidentes de trânsito.têm que enfrentar a ira do cidadão cuja energia elétrica foi cortada por falta de pagamento. inclusive já houve ocasião de um coitado de um eletricista apanhar de um cara aí. reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo. você vai trocar uma lâmpada num lugar onde é “boca de fumo”. Riscos de trabalho No que se refere aos perigos da rua. Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização. em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva. a segurança e a vida do eletricista depende do seu estado emocional. continuaremos demonstrando como as mudanças no mundo do trabalho. da sua capacidade de dialogar e acalmar os usuários que os ameaçam com cães e até com armas.] nós temos que ir em favelas onde os caras vivem trocando tiros direto. em 1998. têm afetado as condições de trabalho Na unidade 29.U NIDADE 29 Privatização.. ou seja.

que as atividades dos eletricistas de distribuição são realizadas em campo aberto. por exemplo. Destaca-se. São pessoas frias. não estão preocupados com nada. devido a uma suposta condição de liberdade que ele oferece. [. Antigamente não. aumentando ainda mais a exposição aos riscos de acidentes e assaltos. Esses alicates são apontados pelos trabalhadores 156 Copyright © 2007. eles quebram a lâmpada para ficarem à vontade. porque se você for retrucar qualquer coisa vai apanhar ou morrer. 50 vezes. ainda. os alicates hidráulicos. eles distribuíam o serviço e você saía para a rua em equipes. Hoje já tem mais. você tinha seu setor. Para eles tanto faz viver ou morrer. aproximadamente.e para eles não é importante ficar no claro. que pesam. Já houve caso de ter que sair correndo. por exemplo. apesar dos riscos. elas não medem para fazer qualquer coisa. instrumentos e equipamentos de trabalho especiais. Uma pessoa que não esteja bem de cabeça e espírito vai peitar e é onde vai acontecer o pior. é mais livre.] eles querem bater na gente e aí você tem que se acalmar.. oito a dez metros do chão e utilizando-se meios. Deram até tiro na caminhonete. cinco quilos e são manuseados &– abre/fecha com os braços levantados na altura do tórax &– em média. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Do jeito que a coisa está. e lá você era o seu chefe. desde as menores e mais leves até as mais pesadas e difíceis de manusear. À noite. eles estão mais em cima. mesmo que o controle tenha se intensificado com a privatização: Eu acho que é mais livre trabalhar na rua. Você tem que ter bastante equilíbrio e pedir muito a Deus para você ir e se sair bem. Em geral. Geralmente. Contudo.. havia quem preferisse o trabalho na rua. Não tem assim uma chefia imediata pegando no pé. a sua base. Essas pessoas. em dupla. aproximadamente. portanto sujeitas às intempéries e à radiação solar. normalmente. As ferramentas são de inúmeros tipos. a sua cabeça era o seu método. as operações na rede elétrica são realizadas em alturas de. as condições de iluminação são precárias e os consertos são feitos à luz de lanternas.

um eletricista de distribuição comentou: No começo da privatização foi um tumulto e começou a faltar tudo. O eletricista de distribuição realiza um conjunto de diferentes operações como a expansão de linhas. o que dificulta os movimentos do corpo e intensifica o esforço repetitivo no manuseio das ferramentas. por um lado. os consertos. por outro lado. dores musculares e tonturas e provocar acidentes fatais.como os principais responsáveis por provocar as lesões osteomusculares (LER/DORT). o que pode levar o eletricista a sentir câimbras. É necessário realizar estudos específicos para melhor esclarecer a relação entre a piora da qualidade dos EPIs e o aumento de queixas de LER/DORT. Destaca-se também que se. Em uma empresa. entre os quais se destacam as luvas de algodão. Tem muita coisa que antes pegava no almoxarifado e hoje a própria equipe quando precisa tem que comprar na praça para poder fazer um serviço bem feito e seguro. aproximadamente. a colocação e a troca de postes. causa um desconforto térmico muito grande. Parece evidente que o esforço empresarial para baratear os custos de produção utilizando equipamentos e materiais de pior qualidade está trazendo consequências diretas para a saúde dos trabalhadores. é unânime entre os entrevistados a opinião de que o seu uso. mas. Segundo os trabalhadores. Sobre a oferta de materiais e ferramentas. 55% mais baixo. as trocas e as regulagens em geral. associado à exposição ao sol. de borracha e de raspa de couro (vestidas nesta ordem e em sobreposição) e os mangotes de borracha. em compensação. Merecem destaque especial os equipamentos de proteção individual (EPI) utilizados para proteger os trabalhadores das correntes energizadas. os mangotes. a 157 Copyright © 2007. porque o trabalho é realizado em alturas elevadas e operando linhas energizadas. o custo é de. A transpiração excessiva pode provocar a perda de sais minerais importantes para o bom funcionamento do organismo. o EPI é mais pesado e menos flexível. doenças cada vez mais comuns entre os eletricistas. é certo que esses EPIs são indispensáveis para a realização do trabalho com segurança. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . antes importados. estavam sendo substituídos pelos de fabricação nacional.

alguém pode ficar ocioso e distrair-se. A segunda sequência diz respeito à preparação dos trabalhadores. por equipes compostas por dois ou três trabalhadores. sobretudo os membros superiores. capacidade de concentração e de trabalhar em equipe. entre outras. Para garantir um mínimo de segurança. a noção de trabalho coletivo são importantes para a segurança desses trabalhadores. em geral. Cada operação é uma sequência de atividades logicamente articuladas. Essas atividades são desenvolvidas. intensifica-se o ritmo do trabalho. a realização das atividades requer conhecimento técnico. de sintonizar-se com os companheiros no processo de tomada de decisão. O trabalho de cada um. preparar e sinalizar o local com os cones e as fitas de isolamento fosforescentes. a dos outros companheiros de equipe e a de todos os usuários da rede de energia elétrica. capacidade de obediência rigorosa aos passos de uma determinada sequência de tarefas. porque a atividade requer das duplas e das equipes uma grande sincronia na execução dos movimentos e passos. de solidariedade e de estabelecimento de vínculos entre as duplas. avaliar as condições de realização do serviço. Os trabalhadores explicaram que equipes maiores ou menores podem tornar o trabalho ainda mais perigoso. que deve ser segura e firmemente incorporada porque disso depende a própria segurança de cada trabalhador. que ocupam todo o corpo do trabalhador. exige uma sequência de movimentos repetitivos. Os plantonistas realizam consertos e manutenção na rede em situações de emergência. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 158 . Quando as equipes são maiores. o sentimento de pertencimento. A organização do trabalho em equipes é um fator de agregação. A cooperação. quando elas são menores. e isso pode determinar supressões de etapas importantes dos procedimentos de preparação do campo e de manuseio da rede energizada. e pode provocar acidentes. finos ou não. geralmente. que vestem e ajustam seus EPIs. nas atitudes e nos comportamentos relativos ao trabalho.ligação/desligamento de energia nos prédios. apanham as ferramentas que deverão utilizar na operação colocando-as ao seu Copyright © 2007. A primeira sequência de procedimentos é a de reconhecer a área. a colocação e a retirada de medidores de energia. treinamento de habilidades.

A terceira sequência refere-se à preparação do campo de trabalho. A ajuda do companheiro é importante para alertar sobre os passos esquecidos na realização da tarefa. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 159 . monitora as condições do tráfego na rua. vigiam o caminhão. os transeuntes. porque ocorre a perda da capacidade de concentração e do equilíbrio emocional. onde a temperatura elevada pode provocar graves queimaduras ou mesmo levar à morte instantânea. reparo ou qualquer outro procedimento. Copyright © 2007. o trânsito de veículos e de pedestres. Este por sua vez. as árvores. Um dos eletricistas opera enquanto o outro acompanha atentamente a sequência de procedimentos realizada e auxilia fornecendo material. sempre atentos às necessidades de material e de equipamentos de segurança e. para cima e para baixo. ainda.alcance. vigiam a rua. É a sequência mais importante porque diz respeito ao isolamento das correntes de modo a evitar a formação dos campos energizados denominados de arcos (regiões delimitadas entre os fios de alta tensão). quando um eletricista trabalha sozinho. eles também devem vigiar um raio mais restrito onde se encontra a rede de fios. o companheiro na outra caçamba. Em um raio mais amplo. das condições do ambiente que favorecem a condução da energia (chuva. aumenta a probabilidade de ocorrência de acidentes. comunicando-se com o terceiro que está no chão. com atenção para não haver esquecimento ou falha na preparação. Esse é um ritual que deve ser feito passo a passo. para dentro da caçamba do guindaste que os eleva na altura certa dos postes. as ferramentas e os materiais para não serem vítimas de furto e. por exemplo) e também das condições do próprio organismo do trabalhador. propriamente dito. equipamentos. A comunicação entre os trabalhadores é feita também através de olhares. ainda. o tempo anunciando a possibilidade de chuva. monitora o trabalho dos que estão em cima. ao mesmo tempo. o trânsito. A atenção e a concentração requeridas para executar as operações são. ritmos e movimentos sincronizados. Ao mesmo tempo em que os eletricistas visualizam e atentam para um determinado ponto da linha de transmissão de energia que está sendo alvo de manutenção. olhando para os lados. dependendo do tipo da corrente. focalizadas e difusas. É consenso entre os trabalhadores que. Alguns afirmaram que o hábito de beber e fumar pode prejudicar a atividade.

ser eletricista de linha viva é o desejo de muitos. além de eletricista. plantão e manutenção. Por um lado. Eles consideravam que o trabalho é penoso. à noite ou em escala de revezamento. A polivalência era percebida. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 160 . Mas muitos se queixaram de que. Você tem que fazer tudo: iluminação. em cada mudança. o trabalhador poderia ser também o motorista do veículo utilizado para o transporte da equipe. Os trabalhadores explicaram: Hoje na empresa a filosofia é uma só: é você não ter. instalação de medidor. As equipes revezam-se nas tarefas todos os meses realizando operações na linha viva. Copyright © 2007. por exemplo. uma certa rotação nas atividades é importante para esses trabalhadores. uma especialidade. porque não é possível controlar todas as condições e cargas nele presentes. corte. ainda. ou seja.Apesar da periculosidade. dores e insônia estão relacionados à polivalência. leva-se um tempo de readaptação da sequência de procedimentos da tarefa e corre-se um risco maior de sofrer acidentes por esquecimento. nós fazemos tudo também. pois permite que eles mantenham a noção da totalidade do sistema de energia elétrica. no sentido atribuído por Sato (1993). por exemplo. e que o surgimento de doenças como estresse. porque o salário é maior e o trabalho não é realizado em dias de chuva. em relação a uma mesma atividade quando.

do setor de telefonia móvel. aumento das exigências de qualificação profissional e intensificação do ritmo de trabalho. É o caso.Fórum 3 – Privatização e condições de trabalho Sabe-se que o processo de privatizações trouxe um incremento em benefícios tecnológicos e melhora dos serviços prestados. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 161 . por exemplo. houve eliminação de postos de trabalho nos setores privatizados. Questão para ser discutida: Em que medida tais melhorias servem para legitimar os impactos negativos do processo e até que ponto todo esse processo pode ser favorável à sociedade como um todo? Copyright © 2007. Por outro lado.

por exemplo. as principais queixas relacionadas à saúde eram de nervosismo e de insônia. a autora trata do ‘modos operatório’ no setor transformado pelo processo de privatização. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 162 . Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização. continuaremos demonstrando como as mudanças no mundo do trabalho. o estudo permitiu identificar as cargas de trabalho existentes no processo de geração de energia e no processo de trabalho dos eletricistas de distribuição. A privatização e o desgaste dos trabalhadores Mesmo tendo sido de natureza qualitativa e exploratória. reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo. têm afetado as condições de trabalho. em que pese o processo de privatização e reestruturação. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho. Entre os operadores. Pode-se afirmar que o perfil de adoecimento dos trabalhadores possui especificidades relacionadas ao modo de organizar e realizar o trabalho. Mas. uma falha dele pode provocar um blecaute no Brasil. complexidade e responsabilidade social que representa. Esse operador aqui. Copyright © 2007. a empresa não dá esse valor. Um blecaute é sempre uma situação inédita e assustadora pela emergência. A seguir. em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva. provocadas pela tensão gerada no trabalho. têm afetado as condições de trabalho Na unidade 30.U NIDADE 30 Privatização. ele não tem esse valor.

já não há mais condições objetivas para desenvolver a atividade conforme as instruções recebidas em treinamento e a experiência adquirida ao longo dos anos de trabalho. às cargas de natureza física. os trabalhadores estavam expostos. além de ser uma questão de segurança. mas a responsabilidade pelos eventos imprevistos e sinistros continua sendo. os desabafos com os amigos e com a esposa. pois as atenções voltam-se para o responsável. foram especialmente formados para trabalhar de tal modo e levados a introjetar uma noção de responsabilidade que hoje já não se aplica nas situações de trabalho. problemas respiratórios provocados pelos choques térmicos. LER/DORT. ser infalível. As principais doenças referidas foram hipertensão. Todos nós somos humanos e podemos errar. Nas equipes de manutenção. fisiológicas e mecânicas. Quer dizer. estresse. principalmente. principalmente os mais antigos. Percebeu-se que os trabalhadores. química. atribuída aos trabalhadores. dormências e dores nas pernas 163 Copyright © 2007. geralmente. atualmente. é também uma questão de honra. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Essa é.De repente você vê na televisão blecaute não sei onde por falha humana. Mas o alívio dessa tensão permanente nem sempre é conseguido através de alternativas saudáveis. sem dúvida. Cada uma das irregularidades ocorridas na rotina da jornada de trabalho deve ser objeto de justificativa e de explicação detalhada das suas causas. os jogos de computador. além das cargas psíquicas. devido às mudanças ocorridas na base técnica e na gestão empresarial. Entre as principais causas de acidentes referidas estavam as quedas que provocam cortes e entorses. deixar aí meio mundo no escuro por causa de uma falha. para esses homens. A pescaria. Quando o relatório aponta que se trata de falha humana. uma das mais importantes fontes de sofrimento psíquico para os eletricitários. só não podemos errar ali dentro. o clima de tensão na equipe se acentua. a internet e a prática da fofoca (entre os trabalhadores de uma mesma equipe) foram opções de lazer e de relaxamento mais citadas. a cachaça. Parece que.

Queixava também de dores nos ombros e braços. As manifestações das cargas do tipo psíquico traduziram-se em queixas de problemas gastrointestinais. problemas de adaptação social e familiar. entre outras questões. dores no fundo do olho. da queda brusca no padrão de vida que levou as famílias a mudarem para as periferias das cidades. tensão nervosa. dificilmente o trabalhador terá a condição emocional necessária para enfrentar as situações perigosas que podem ocorrer. eles alegaram que as esposas e os filhos reclamam das ausências provocadas pela realização do trabalho noturno e nos finais de semana. entre outros. ansiedade. além de provocar um aumento das queixas de LER/DORT. à consciência da periculosidade. Quem trabalhava na linha viva queixava-se do mal-estar provocado pelo excesso de transpiração. as dores eram causadas pelas mudanças bruscas de temperatura. Nas concessionárias. transtornos do apetite e do sono. Para uns. gota. devidas ao uso de ferramentas. o ritmo de trabalho intensificado nos últimos tempos. problemas gástricos. dores de cabeça e nas articulações. Esse é mais um indicador da importância de aprofundar a investigação sobre as condições de reprodução social dessas famílias. Nessas condições. também aumentou o número de queixas relacionadas ao estresse e à fadiga crônica. provavelmente.provocadas pela vibração. a intensificação do ritmo do trabalho. por exemplo. ou seja. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . as “friagens” recebidas ao retirar os EPIs do corpo. ansiedade generalizada. instrumentos e EPIs como alegam as empresas). mas as queixas eram muito frequentes e. Acrescente-se ainda o prolongamento das jornadas. outros as atribuíam aos tipos de EPIs associados ao uso de ferramentas pesadas. entre outras características do modo de organizar e realizar o trabalho 164 Copyright © 2007. “friagem”. ao medo do desemprego que a privatização pode gerar. que podem estar estreitamente associados à realização do trabalho noturno e em turnos. Não foi possível obter dados sobre a incidência de casos de LER/DORT. hipocondria. lombalgias. que fica exposto às correntes de ar com a roupa molhada de suor. instrumentos e EPIs inadequados (e não ao uso inadequado de ferramentas. Por exemplo. durante os atendimentos de emergência ou no trato com os usuários enfurecidos pela possibilidade de corte de fornecimento de energia.

apareciam como alternativas. devido à rigidez hierárquica característica dessas empresas. principalmente os membros inferiores e superiores. No entanto. refletida nas dificuldades de socializar o conhecimento sobre as inovações que estão sendo introduzidas no processo produtivo. Quanto aos acidentes. às vezes. por um lado. Observei que as reuniões que tratavam de assuntos relacionados à saúde e à segurança são frequentes e envolvem mais de 100 trabalhadores. os acidentes acontecem justamente por excesso de 165 Copyright © 2007. especialmente os eletricitários. a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) é atuante. Em uma das usinas. o seu funcionamento é burocrático. Isso porque. No entanto. elas não passavam da realização de palestras sobre temas variados. Ao se cronificarem. as LER/DORT incapacitam as pessoas para quase todos os tipos de trabalho. sendo fundamental que adquira autoconfiança. o eletricista é especialmente treinado para lidar com o perigo. A preocupação com a aposentadoria era muito evidente e poderia estar relacionada com a iminência das privatizações. quando as demissões voluntárias e/ou aposentadorias. que demorou mais de um ano e foi feito por uma comissão formada por engenheiro de segurança e técnicos de diferentes áreas. por outro. o número aumenta quando um eletricista deixa de trabalhar na linha viva e passa para a linha morta. sobre segurança e prevenção de acidentes e até sobre o uso dos benefícios assistenciais oferecidos pelas empresas. entre outros) até motivação para o trabalho. a elaboração do mapa de risco (previsto na Norma Regulamentadora nº 9) foi um processo participativo. não garantiria a saúde e a segurança desses trabalhadores. que também contribuem para aumentar a incidência desse tipo de doença. se. certamente. principalmente os relacionados à aposentadoria. desde os que diziam respeito à saúde (obesidade. hipertensão. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . segundo os entrevistados.no setor. em alguns casos. relações interpessoais etc. Melhorar as condições de oferta dos EPIs. mas poderia significar um certo avanço na prevenção dessas doenças. Para os trabalhadores entrevistados. na linha viva. cuja atividade não prescinde do uso adequado do corpo. Um importante problema apontado foi a falta de comunicação entre essas formas de organização no local de trabalho e os trabalhadores.

.1%). os entrevistados reconheciam que a situação já havia sido muito pior. o número de acidentes ocorridos com os trabalhadores contratados pelas empreiteiras foi maior do que o número de acidentes que envolveram diretamente os contratados. queda com diferença de nível e origem elétrica (11. mas não foi possível ter acesso ao número total de empregados contratados.5%) não resultaram em afastamento do trabalho. Com relação às empreiteiras.2%).3%) foram acidentes típicos. a maneira de trabalhar não coincide com a nossa”. seguido dos do tipo impacto sofrido (23. os eletricistas comentaram simplesmente que “. e apenas 6. entre outros significativos.. outras vezes. No entanto. No mesmo ano.5% do total. para analisar o significado desses dados.7%) foram de trajeto e 106 (88. o eletricista de distribuição é o trabalhador que mais se acidenta no setor. Os acidentes com afastamento representaram 37. Do total de 120 acidentes registrados em 1998. com ou sem afastamento do trabalho.3%). a subcontratação significa re-trabalho e aumento do risco de acidentes porque. animais peçonhentos).autoconfiança. cães. principalmente Copyright © 2007. eles acontecem porque o trabalhador dispensa os procedimentos básicos de segurança pelo fato de estar trabalhando na linha morta. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 166 . e os tipos predominantes foram impactos contra (13. os trabalhadores contratados pelas empreiteiras não estão qualificados para o exercício das atividades. Os depoimentos coletados junto ao departamento jurídico do SINERGIA revelaram que os trabalhadores contratados pelas empreiteiras demandavam muitas ações trabalhistas contra as empresas. 93. O tipo de acidente sem afastamento predominante é o ataque de ser vivo (abelhas. que representou 33%. Isso quer dizer que. Dos 204 acidentes ocorridos com os trabalhadores indiretamente contratados.6% referiam-se à área de distribuição e operação. pois estava em curso um certo processo de adaptação. Segundo o boletim de informe mensal sobre a ocorrência de acidentes do trabalho produzido por uma concessionária. 14 (11. para os eletricistas. geralmente. 75 (62. direta e indiretamente.4% à área administrativa e financeira.

Desenvolve-se também um sentimento persecutório. denunciar excesso de horas na jornada e não-pagamento de horas extras. Apesar do medo do desemprego. por um lado. uma espécie de compulsão para repetir procedimentos de verificação para evitar o risco de esquecimento daqueles que comprometem a segurança. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 167 . Aparentemente. Apesar das muitas especificidades que podem ser apontadas quanto ao trabalho e à situação dos trabalhadores das usinas hidroelétricas e das concessionárias de energia. Ou uma negação total da existência dos riscos. há uma questão que é comum para ambos: o medo em relação aos perigos da atividade e à privatização do setor. Se. Foi possível perceber vários tipos de reações quando o assunto é a privatização e a reestruturação: a apreensão quanto ao desfecho dos leilões das usinas hidroelétricas. a obediência às regras e comandos superiores. ressarcimento de gastos com treinamento. principalmente. A responsabilidade e a pressão sobre esses trabalhadores são de tal ordem que se desenvolve. esses são sentimentos e comportamentos importantes para garantir a sobrevivência dos trabalhadores nas situações de trabalho. por outro lado. Todos concordaram que a comunicação entre os membros da equipe. Uns afirmaram que o perigo e os acidentes não existem. o medo da revenda das empresas Copyright © 2007. uma prepotência e uma certeza cega de que o perigo nunca irá ameaçá-los. outros já se deram conta de que não têm tanta autonomia para analisar e decidir sobre a realização do trabalho em situação perigosa. as opiniões sobre os riscos estavam divididas e muito revelavam sobre os mecanismos de defesa psicológica que são desenvolvidos para enfrentar e conviver com os perigos. o mesmo não pode ser dito quanto aos outros aspectos da vida por onde eles se estendem interferindo nas relações pessoais. o reconhecimento dos próprios limites são algumas das armas mais poderosas para evitar os infortúnios. nem todos estavam plenamente satisfeitos com as atuais circunstâncias que envolvem o trabalho neste setor.para requerer enquadramento de função. pois é importante acreditar que os perigos estão em todos os lugares e em todos os momentos.

o sentimento amargo de ter investido num projeto de trabalho e de vida e de ser impotente para impedir que tudo se acabasse em nada. as suas condições de saúde já estão longe de serem as melhores. que adoeceram com as ameaças de desestabilização e com o clima competitivo e instável existente pré e pós-privatização. Muitos estão vivendo experiências de desemprego e privação através dos familiares. este estudo.. Os trabalhadores diretamente contratados reconheciam que a situação dos indiretamente contratados era muito pior e que. mas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 168 . do conhecimento dos velhos porque o que vai garantir isso aí é essa transferência de conhecimento.] Isso é fruto dessa expectativa. ainda. estão numa faixa etária próxima ou acima de 40 anos e. Eu vejo essa preocupação. desse momento que nós estamos passando. Agora se os velhos começam a reter essas informações. amigos e companheiros de trabalho que enfartaram. apontou algumas direções para o aprofundamento desta problemática. abordando os seguintes aspectos: Análise das relações e condições de realização do trabalho dos que são contratados pelas empreiteiras. que se apresentava obscuro porque no país há um desemprego crescente e generalizado.. vizinhos. para outros as incertezas incomodavam porque não era possível fazer planos para o futuro. Porque tem algumas pessoas novas e eles precisam da experiência. O depoimento de um técnico de manutenção é ilustrativo do significado negativo do clima organizacional individualista e competitivo existente: As pessoas hoje estão preocupadas em querer saber aquilo que o outro faz.distribuidoras e das anunciadas falências das corporações que assumiram o controle das empresas. É que esses trabalhadores possuem uma especialização profissional muito bem definida. em termos organizativos. além de ter contribuído para melhor compreender a precarização das relações e condições de trabalho dos eletricitários. decorrentes das mudanças recentes implantadas no setor no contexto da privatização. esta é uma questão Copyright © 2007. Finalmente. não querem ensinar para o outro o que ele faz. os novos não vão saber [. Para alguns a privatização era inexorável e a cada dia aumentava a frustração.

especialmente a questão de treinamento e desenvolvimento organizacional no contexto da busca dos certificados de qualidade. Isso é fundamental para subsidiar o desenvolvimento de uma política sindical de saúde e segurança que contemple a assistência à saúde. mas também toda a sociedade. A medição das cargas de trabalho existentes nos ambientes de trabalho e a avaliação ergonômica das ferramentas e dos equipamentos de proteção individual (principalmente as luvas e os mangotes. esta é uma questão de saúde e de segurança que não envolve somente esses trabalhadores. a análise dos processos de trabalho e a vigilância ambiental em saúde. Copyright © 2007. lazer. principalmente nas áreas da saúde.muito importante porque. os alicates e ferramentas pesadas). a velocidade com que ele vem se transformando e a sua importância social. neste momento. a orientação trabalhista e a formação política dos trabalhadores. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 169 . mais fraco se torna o poder de negociação da categoria. quanto mais precária é a situação dos trabalhadores das empreiteiras. educação. Estudo da política de recursos humanos. Estudos específicos sobre os dois tipos de carga de trabalho mais significativas neste momento: as fisiológicas e as psíquicas. Dada a complexidade da organização do setor. mais do que em qualquer outro. acesso aos bens e equipamentos de consumo coletivo. Porque. Estudo das condições de reprodução dos trabalhadores e suas famílias. a avaliação dos impactos da privatização e reestruturação empresarial para os trabalhadores deve tornar-se um processo rotineiro dentro do sindicato. dada a posição importante e estratégica que ainda assume o setor na matriz energética nacional. envolvendo aspectos relacionados à moradia. com ou sem “apagão”.

ATIVIDADE DE TRABALHO: 1. Antes de dar início à sua Prova Online é fundamental que você acesse sua SALA DE AULA e faça a Atividade 3 no “link” ATIVIDADES. Procure fazer pesquisa bibliográfica. e faça entrevistas com alguns funcionários sempre perguntando “o que mudou” nas condições de trabalho após o processo de privatização. Obs. Copyright © 2007. encontre dados na internet. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 170 . Escolha um ramo industrial que tenha sido privatizado e pesquise como a privatização afetou as condições de trabalho e a saúde dos seus funcionários.

à realização de um conjunto de operações sem interferência imediata do homem. Copyright © 2007. especialmente quando usada na agricultura. desde a extração e manuseio da matéria-prima até a distribuição do produto.G LOSSÁRIO ABSENTEÍSMO Ausência dos trabalhadores no processo de trabalho. ciência dos alimentos e medicina. ao longo das quais os diversos insumos sofrem algum tipo de transformação. ANTROPOLOGIA Estudo dos valores simbólicos de uma determinada cultura ou grupo social. AUTOMAÇÃO Diz respeito à substituição ou apoio ao esforço mental do homem para a realização de uma determinada série de operações. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 171 . está relacionada. até a constituição de um produto final (bem ou serviço) e sua colocação no mercado. CADEIA PRODUTIVA É um conjunto de etapas consecutivas. realizadas por diversas unidades interligadas como uma corrente. portanto. portanto. seja por falta ou atraso devido a algum motivo interveniente. de uma sucessão de operações (ou de estágios técnicos de produção e de distribuição) integradas. ALIENAÇÃO Perda da compreensão de seu status e papel dentro da organização. Trata-se. BIOTECNOLOGIA É tecnologia baseada na biologia.

unificando toda legislação trabalhista então existente no Brasil. Além dos países da América Latina e Caribe fazem parte da CEPAL. Seu objetivo principal é a regulamentação das relações individuais e coletivas do trabalho. CEPALINA Referente à CEPAL CÍRCULO DE CONTROLE DE QUALIDADE (CCQ) É um conjunto de colaboradores que voluntariamente realizam reuniões regularmente em busca da qualidade em suas organizações. Unido e Estados Unidos da América. Portugal.CEPAL Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe foi criada em 1948 pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas com o objetivo de incentivar a cooperação econômica entre os seus membros. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Espanha. CLT – CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO Foi criada através do Decreto-Lei nº 5. que envolve atenção. memória. percepção. O movimento no Japão era coordenado pela União Japonesa de Cientistas e Engenheiros.452. Ela é uma das cinco comissões econômicas da Organização das Nações Unidas (ONU) e possui 43 estados e oito territórios não independentes como membros. imaginação. Japão. Países Baixos. nela previstas. pensamento e linguagem CONTEXTO 172 Copyright © 2007. raciocínio. Os círculos de qualidade iniciaram no Japão em 1962 (Kaoru Ishikawa é considerado o criador dos Círculos de Qualidade) como um novo método para melhorar a qualidade. de 1 de maio de 1943 e sancionada pelo então presidente Getúlio Vargas. juízo. COGNIÇÃO É o ato ou processo de conhecer. França. o Canadá.

CORPORAÇÃO (do latim corporis e actio. e neste sentido é sinônimo de agremiação. corpo e ação). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 173 . associação ou ainda empresa. DORT Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho. Uma organização dessa natureza caracteriza-se por ser gerida de forma democrática e participativa. Através da cooperação. O fim maior é o homem. Num sentido mais estrito é uma pessoa jurídica (diferente de pessoa física) que possui direitos similares a uma pessoa física. empresa onde os trabalhadores são ao mesmo tempo sócios. COOPERATIVA Representa a união entre pessoas voltadas para um mesmo objetivo. DIREITO Estudo do aparato jurídico e legislativo. É um grupo heterogêneo de distúrbios funcionais e/ou orgânicos. mas encontram-se muitas vezes organizações em que estas tarefas são efetuadas por todos os membros em conjunto. busca-se satisfazer as necessidades humanas e resolver os problemas comuns. Induzidos por fadiga neuro-muscular devido ao trabalho Copyright © 2007. de forma direta ou indireta. buscando a consecução de objetivos em comum. uma só pessoa. Num sentido amplo é um grupo de pessoas submetidas às mesmas regras ou estatutos. influencia a sua atuação e o seu desempenho. mas sem se confundir com a natureza desta última. ou seja. é um grupo de pessoas que agem como se fossem um só corpo. COORDENAÇÃO Desenvolvimento de atividades de forma coordenada e controlada para atingir determinados resultados. Este controle é geralmente efetuado por um líder. não o lucro.Ambiente externo da organização que. de acordo com aquilo que pretendem seus associados.

No mais. Historicamente. sem emitir notas fiscais. Henry Ford (1863-1947). a esse método produtivo industrial. existem vários tipos de economia informal ex: vendedores ambulantes que trazem suas mercadorias contrabandeadas para vender nos grandes centros. secundário ou terciário sem conhecimento do governo (o governo não consegue arrecadar impostos e não são recolhidos os encargos sociais dos trabalhadores da informalidade) FORDISMO Dando prosseguimento à teoria de Taylor. desenvolveu seu procedimento industrial baseado na linha de montagem para gerar uma grande produção que deveria ser consumida em massa.realizado numa postura fixa (trabalho estático) ou com movimentos repetitivos. Ainda que gênero seja usado como sinônimo de sexo. Os países desenvolvidos aderiram totalmente. que foi extremamente importante para consolidação da supremacia norteamericana no século XX. É tudo que é produzido pelo setor primário. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 174 . principalmente dos membros superiores. ou parcialmente. ECONOMIA Estudo das relações de troca e de produção ECONOMIA INFORMAL Envolve as atividades que estão à margem da formalidade. nas ciências sociais refere-se às diferenças sociais. DOWNSIZING Enxugamento no quadro de funcionários. dono de uma indústria automobilística (pioneiro). GÊNERO Refere-se às diferenças entre homens e mulheres. sem contribuir com impostos ao governo. conhecidas nas ciências biológicas como papel de gênero. sem empregados registrados. sem firma registrada. o feminismo posicionou os papéis Copyright © 2007.

A palavra é derivada dos termos latins novus (novo) e innovatio (algo criado novo) e se refere a uma idéia. culturais e políticos. Hoje. pois a comunicação no mundo globalizado permite tal expansão. Pessoas cuja identidade de gênero difere do gênero designado de acordo com o sexo são normalmente identificadas como transexuais ou transgêneros. social. política. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . expandir seu negócio até então restrito ao seu mercado de atuação para mercados distantes e emergentes. INDÚSTRIA É toda atividade humana que. sem necessariamente um investimento alto de capital financeiro. comercializados. 175 Copyright © 2007. gerando a fase da expansão capitalista. independente de qualquer base biológica. levando em consideração aspectos econômicos. cultural. É um fenômeno gerado pela necessidade da dinâmica do capitalismo de formar uma aldeia global que permita maiores mercados para os países centrais (ditos desenvolvidos) cujos mercados internos já estão saturados. INOVAÇÃO Significa novidade ou renovação. a palavra inovação é mais usada no contexto de idéias e invenções assim como a exploração econômica relacionada. GLOBALIZAÇÃO É um dos processos de aprofundamento da integração econômica. com o barateamento dos meios de transporte e comunicação dos países do mundo no final do século XX e início do século XXI. a atividade industrial pode ser artesanal. através do trabalho. ou não.de gênero como construídos socialmente. método ou objeto que é criado e que pouco se parece com padrões anteriores. manufatureira ou fabril. onde é possível realizar transações financeiras. Com isso. O processo de Globalização diz respeito à forma como os países interagem e aproximam pessoas. ou seja. sociais. que em seguida podem ser. obtém-se como consequência o aumento acirrado da concorrência. porém. transforma matéria-prima em outros produtos. interliga o mundo. De acordo com a tecnologia empregada na produção e a quantidade de capital necessária. sendo que inovação é invenção que chega ao mercado.

pois um simples erro pode levar a sérios problemas na utilização dos locais. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 176 . sendo uns mais vantajosos que outros (Tompkins. encontrando assim o melhor planejamento de layout. JUST-IN-TIME / KANBAN Sistema de organização da produção orientado para fabricar determinado produto apenas na quantidade e no momento exatos. o movimento. O layout pode ser simplesmente o arranjar ou o rearranjar das várias máquinas ou equipamentos até se obter a disposição mais agradável. Existem vários tipos de layouts e cada um deles se adequa a determinadas características. o serviço. 1). p. Pois. p. Para evitar tudo isto é necessário realizar um estudo. 1996. com processos finais “pedindo” componentes para os processos anteriores. a maquinaria o Homem. 1955. os custos relativos ao planejamento de um layout são inferiores aos custos relativos ao rearranjo de um layout defeituoso (Muther. A inovação tecnológica abrange os tipos inovação de processo e inovação de produto. 27). numa grande indústria este procedimento não é tão simples. pois estes fatores podem influenciar negativamente o planejamento do layout (Muther. LAYOUT “A configuração de instalação” estabelece a relação física entre as várias atividades. a construção e a mudança. No entanto. 290). p.INOVAÇÃO TECNOLÓGICA É um termo usado para diferenciar inovações. A expressão inglesa pode ser traduzida por “na hora certa”. LER Lesão por esforço repetitivo. No planejamento do layout é necessário ter em conta todos os fatores (os materiais. causada primariamente pelo próprio uso das Copyright © 2007. paredes e até mesmo edifícios e consequentemente causar custos altíssimos no rearranjo. a espera. com queixa de grande incapacidade funcional. Representa uma síndrome de dor nos membros superiores. A produção é puxada por vendas e internamente o mesmo ocorre. 1978. pode originar a demolição de estruturas.

aço.extremidades superiores em tarefas que envolvem movimentos repetitivos ou posturas forçadas. como empresas de mineração. A partir da década de 1970. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . laboratórios 177 Copyright © 2007. alumínio. OLIGOPÓLIO (do grego oligos. alemães e norte-americanos voltada para a adaptação dos princípios do liberalismo clássico às exigências de um Estado regulador e assistencialista. vender) é uma forma evoluída de monopólio. passou a significar a doutrina econômica que defende a absoluta liberdade de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia. É nesse segundo sentido que o termo é mais usado hoje em dia. ou um conjunto de ganchos ligados a um mecanismo de tração integrado a um conjunto único que lhe transmite um movimento regular ao longo do tempo. ou em cima da superfície da esteira. montadoras de veículos. por sua vez. LINHA DE MONTAGEM Mecanismo de transferência. sofrendo a intervenção dos trabalhadores (que. embalado. A cada um desses ganchos. cimentos. poucos + polens. se encontram distribuídos uniformemente em cada ponto dessas seções) até que possa ser então. retirado dessa linha. os objetos de trabalho são atados e assim transferidos para praticamente todas as seções de trabalho em que se divide o setor de produção. OBJETIVOS Metas ou resultados pretendidos. testado. uma esteira. significou a doutrina proposta por economistas franceses. e levado ao estoque de produtos acabados. que pode ser um trilho. porém distintos: Na primeira metade do século XX. no qual um grupo de empresas promove o domínio de determinada oferta de produtos e/ou serviços. NEOLIBERALISMO É um termo que foi usado em duas épocas diferentes com dois significados semelhantes. só devendo esta ocorrer em setores imprescindíveis e ainda assim num grau mínimo (minarquia).

sendo mínima a intervenção de cada um na produção como um todo. mídia. e nos quais já estão presentes. OUTSOURCING (em inglês. mão-de-obra terceirizada. "Out" significa "fora" e "source" ou "sourcing" significa fonte) designa a ação que existe por parte de uma organização em obter mão-de-obra de fora da empresa. ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO Diz respeito aos métodos. POLÍTICA Estudo das relações de poder (estrutura política. O Oligopólio que tem a maior Participação no PIB Em termos de Receita Operacional. partidos.farmacêuticos.). Esses postos de trabalho são geralmente numerosos. conteúdos do trabalho e relações entre os ocupantes de cargos em um determinado sistema de produção. as ferramentas e as matérias-primas que serão utilizadas por eles na tarefa estritamente determinada que tenham para cumprir. Copyright © 2007. na forma de pequenos estoques e com mecanismos que permitam seu mais fácil acesso aos trabalhadores. diz respeito ao conjunto formado pelo arranjo físico e tipo dos equipamentos. ou seja. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 178 . etc. POSTO DE TRABALHO Os trabalhadores são uniformemente dispostos lado a lado. ocupados por um trabalhador cada e ordenados de forma linear e. Está fortemente ligado a idéia de subcontratação de serviços. aviação. pelos fluxos de materiais e pela organização do trabalho que compõem um sistema de produção. a cada trecho por onde passa o objeto de trabalho trazido pelo mecanismo de transferência. os instrumentos. comunicação e bancos. ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO De forma geral.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 179 . continuou como sócio minoritário. Ao mesmo tempo. RECURSOS Os meios disponíveis à organização necessários à realização das suas atividades. SINDICALISMO É o movimento social de associação de trabalhadores assalariados para a proteção dos seus interesses. eles possuem apenas a venda de sua força de trabalho para sobreviverem. isso é. No Brasil. através do BNDES. o processo de desestatização consistiu principalmente em tornar o Estado um sócio minoritário. destituídos dos meios de produção.para o setor privado.PROLETARIADO É a classe social dentro do Capitalismo que trabalha com os instrumentos de outra pessoa. Copyright © 2007. os recursos materiais e tecnológicos. pois grande parte das empresas já eram de capital aberto e negociadas em bolsa de valores e o Estado Brasileiro. Incluemse: os recursos humanos. REENGENHARIA Reestruturação tecnológica e estrutural de uma empresa. os recursos financeiros. QUALIFICAÇÃO É a preparação do indivíduo através de uma formação profissional ou técnica para que ele ou ela possa aprimorar suas habilidades para executar funções específicas demandadas pelo mercado de trabalho. geralmente por meio de leilões públicos. é também uma doutrina política segundo a qual os trabalhadores agrupados em sindicatos devem ter um papel ativo na condução da sociedade. etc. PRIVATIZAÇÃO Ou desestatização é o processo de venda de uma empresa ou instituição do setor público que integra o patrimônio do Estado .

No taylorismo. ou seja. etc. mas aos métodos de trabalho e gerenciamento. sendo premiados aqueles que se sobressaem. isso provoca a exploração do proletário que tem que se “desdobrar” para cumprir o tempo cronometrados. o trabalhador é monitorado segundo o tempo de produção. cada indivíduo deve cumprir sua tarefa no menor tempo possível. de tal forma que a sociedade. relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos. TAYLORISMO O Taylorismo é uma teoria criada pelo engenheiro Americano Frederick W. O engenheiro constatou que os trabalhadores deveriam ser organizados de forma hierarquizada e sistematizada. cada trabalhador desenvolveria uma atividade específica no sistema produtivo da indústria (especialização do trabalho). culturais e ambientais da sociedade humana. e ao mesmo tempo preservar a biodiversidade e os ecossistemas naturais. Não se relaciona somente aos equipamentos. planejando e agindo de forma a atingir pró-eficiência na manutenção indefinida desses ideais. interações.SOCIOLOGIA Estudo das instituições. SUSTENTABILIDADE É um conceito sistêmico. Taylor (18561915) que a desenvolveu a partir da observação dos trabalhadores nas indústrias. grupos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 180 . Propõe-se a ser um meio de configurar a civilização e atividade humanas. as diversas formas de se fabricar uma coisa ou prestar um serviço. sociais. Copyright © 2007. Resumidamente. TECNOLOGIA Conjunto de conhecimentos registrados e disponíveis para a fabricação de determinado produto. os seus membros e as suas economias possam preencher as suas necessidades e expressar o seu maior potencial no presente.

Com o surgimento da Indústria. recebendo um salário ruim. fazendo sempre o mesmo serviço. TRABALHO PROLETÁRIO Surge com a Revolução Industrial. adquirindo uma projeção global. Assim. elaborado por Taiichi Ohno e que foi caracterizado como filosofia orgânica da produção industrial (modelo japonês). como Karl Marx dizia.TOYOTISMO É um modo de organização da produção capitalista originário do Japão. Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 181 . O toyotismo foi criado na fábrica da Toyota no Japão após a Segunda Guerra Mundial. o proletário passa a ser um empregado. este modo de organização produtiva. o proletário perde sua liberdade. resultante da conjuntura desfavorável do país. se alienando em sua produção. e cujo resultado de seu trabalho vai para a burguesia.

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