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Introdução ao Budismo

1.Índice 1

2. Aviso 2

3.1 Budismo 2

1.Índice

3.2 Contexto Histórico: Reacção contra o formalismo excessivo do Brâmanismo 3

3.3 Vida do Buda 3

3.4 Duas correntes principais na actualidade – Theravada e Mahāyāna 4

3.5 Tripla jóia 4

4. Quatro Nobres Verdades 5

4.1 A Primeira Nobre Verdade – Sofrimento – Dukkha 5

4.2 A Segunda Nobre Verdade – A aparição do sofrimento – Samudaya 5

4.3 A Terceira Nobre Verdade – A cessação do sofrimento – Nirodha 5

4.4 A Quarta Nobre Verdade – O caminho – Magga 6

4.5 Três Práticas 6

5 Natureza do mundo e dos seres 6

5.1 Tudo está em permanente mudança 7

5.2 Anattā ou doutrina da não-alma 7

5.3 Śūnyatā ou vazio 7

5.4 Objectos Compostos 7

5.5 Três marcas da existência 7

5.6 Cinco skandhas ou agregados que compõem os seres 7

5.7 Quatro alimentos 8

5.8 Seis órgãos sensoriais 8

5.9 Karma 8

5.11 Sasāra 9

5.12 Seis Reinos Samsáricos e um modelo psicopatológico por eles formado. 9

5.13 Natureza do Buda 10

5.14 Terra Pura ou Campo Búdico 10

5.15 Frutos Kármicos 10

5.16 Descrição da realidade como fractal 10

5.17 Pensamento e pensador 11

5.18 Ego 11

5.19 Duas formas de verdade 11

5.20 Três níveis de verdade 11

5.21 Identidade universal - Tathātā 11

5.22 Meios hábeis (Upāya) 12

5.23 Zen 12

5.24 Kōans 12

6. Ética (sīla) 13

6.1 Cinco Virtudes ou Pañca-Sīlani 13

6.2 Compromisso com a verdade 13

6.3 Formar as suas próprias opiniões 13

6.4 Não aceitar uma verdade única – parábola da jangada 13

6.5

Especulações metafísicas inúteis 14

6.6 Confianças 14

6.7 Natureza igualitária da condição humana 15

6.8 Mettā ou compaixão 15

6.9 Ahisā ou não-violência 15

6.10 Três Aflições ou Kleśās 15

6.11 Cinco impedimentos (Pañca Nīvaraṇāni) 15

6.12 Sete factores de Iluminação (Satta Bojjhagā) 16

6.13 Dez deveres do Rei 16

7. Meditação ou bhāvanā 17

7.1 Samādhi 17

7.2 Vipassanā 17

7.3 Ānāpānasati 17

7.4 Tonglen 18

7.5 Oito Libertações 18

8. Bhūmis e pāramitās 18

8.1 Dez bhūmis ou estádios do boddhisattva 18

8.2 Dez aperfeiçoamentos ou pāramitās 19

8.3 Prajñāpāramitā ou aperfeiçoamento do conhecimento 19

9.Guia de pronúncia 20 10.Bibliografia 22 11.Índice Remissivo 23

2. Aviso

Como em qualquer religião antiga, há elementos filosóficos e folclóricos misturados nas narrativas budistas. É difícil separar estes dois elementos, mas tentou-se dar maior preponderância ao ensemble da filosofia budista, retirando conceitos igualmente de fontes Theravada e Mahāyāna.

3.1 Budismo

do sânscrito “Buddh” significando “desperto, iluminado, pensador”.

O Budismo é hoje praticado por cerca de 500 milhões de pessoas. É uma religião ou um sistema filosófico que busca, acima de tudo, a verdade tal como ela é, através da destruição de várias ilusões nefastas, e o desenvolvimento do potencial de sabedoria, independência, desprendimento, liberdade e compaixão existente dentro de cada ser, através do reconhecimento de que a realidade não tem propósito intrínseco e de que somos portanto, na nossa capacidade de agentes, os maiores responsáveis pela nossa própria libertação. Penso que se pode dar a metáfora do budista como um computador que se programa a si próprio, tendo como objectivo aperfeiçoar o seu conhecimento e pôr-se ao serviço de todos os seres. Os textos e termos budistas derivam das línguas sânscrito, pāḷi, e das línguas vernaculares dos países budistas, principalmente Mahāyāna. Deu-se preferência neste trabalho aos termos sânscritos nos conceitos mais ligados ao Mahāyāna, e ao pāḷi nos ensinamentos mais ligados ao Theravada.

Os Ocidentais muitas vezes consideram o Budismo como uma doutrina nihilista, afirmação de que os Orientais geralmente se ressentem, mas que talvez tenha a sua verdade, veja-se as doutrinas de anattā e śūnyatā, ou então consideram-na como uma doutrina pessimista, pela sua tónica no sofrimento inerente à condição dos seres vivos. Pelo contrário, a alegria é um dos sete factores de iluminação que devem ser cultivados. Os budistas afirmam que o budismo, na sua natureza, não é nem optimista nem pessimista, mas sim realista.

3.2 Contexto Histórico: Reacção contra o formalismo excessivo do Brâmanismo

As raízes do Budismo encontram-se no pensamento religioso da antiga Índia durante a segunda metade do primeiro milénio antes de Cristo. Nessa altura desenvolveu-se uma reacção contra o Brâmanismo Védico. Formaram-se numerosos grupos ascéticos, cujos membros eram conhecidos como śramaas, que quebraram a tradição brâmanica e rejeitavam a autoridade dos Vedas.

As suas principais críticas eram:

1. O formalismo excessivo dos brâmanes, que punham importância suprema na correcta pronunciação de fórmulas religiosas e mágicas contidas nos Vedas.

2. O rígido sistema de castas, e o desprezo das castas mais altas pelas castas mais baixas.

3. O sacrifício de animais e por vezes de humanos nos ritos religiosos.

Foi neste contexto que surgiram, mais ou menos ao mesmo tempo, as doutrinas do Budismo e do Jainismo (diz-se que Buda e Mahāvīra chegaram a encontrar-se). Mais tarde, o Hinduísmo viria a conhecer uma renascença, passando a incorporar muitos conceitos provenientes destes dois movimentos heréticos.

Também nesta altura e no contexto dos śramaas que se escreveram os Upaniads, que viriam a ser adicionados aos Vedas.

3.3 Vida do Buda

1. Tradicionalmente, aponta-se o período da sua vida como estando compreendido entre 563 e 483 antes de Cristo.

2. Nasceu em Lumbinī no que hoje é o Nepal.

3. Os seus pais eram Śuddhodana, líder do clã Śākya, e rei de Kapilavastu, e a sua mulher Māyādevī.

4. Chamaram-lhe Siddhārtha (“o que alcança o seu objectivo”) enquanto que o nome da família era Gautama. Ficou conhecido como Śākyamuni (“o sábio dos Śākyas”).

5. Ao nascer, o sábio Asita previu que ele seria um grande sábio ou um grande rei.

6. O pai tentou protegê-lo do conhecimento do sofrimento e da morte.

7. Aos 16 anos, casa-se com Yasodharā e tem o filho Rāhula.

8. Aos 29 anos, sai do palácio para conhecer os seus futuros súbditos, e vê um cadáver à beira da estrada. Conta-se que o seu cocheiro Chandaka lhe contou pela primeira vez que os seres tinham doenças e morriam, o que o impressionou bastante, e o faz decidir abandonar o palácio do seu pai e procurar a libertação do sofrimento através de práticas ascéticas com vários mestres.

9. Tendo apreendido a doutrina de cada um dos mestres, e não ficando satisfeito,

tornava-se discípulo de outro.

10. Chegou a um estado de ascetismo em que só comia uma noz por dia, originando uma fraqueza extrema. Um dia desfaleceu num rio enquanto tomava banho. Uma rapariga pobre chamada Sujata salvou-o e deu-lhe comida.

11. Siddhārtha percebeu então que o caminho da libertação estava no meio dos dois extremos da busca de prazer e do ascetismo e auto-mortificação, e que ambos deviam ser evitados. É o chamado caminho do meio ou caminho óctuplo, que constitui a quarta nobre verdade.

12. Aos 35 anos, sentou-se 49 dias em meditação debaixo de uma árvore ficus religiosa e atingiu o estado de iluminação (nirvāṇa), ganhando conhecimento sobre as causas do sofrimento. De início, estava relutante em partilhar a sua sabedoria com outras pessoas, vendo que era uma verdade difícil de contemplar e que as pessoas teriam dificuldades em segui-lo, mas conta-se que o Brâmane Sahampati o convenceu da necessidade de espalhar esse conhecimento pelo mundo.

13. Dedica-se então à pregação, principalmente nas regiões do noroeste da Índia chamadas Magadha e Kosala. À sua pregação dá-se o nome de “Pôr em movimento a roda do ensinamento (Dhárma)”.

3.4 Duas correntes principais na actualidade – Theravada e Mahāyāna

1. O Theravada significa “Escola dos Antigos” e representa um budismo primordial. É practicado no Sri Lanka e Sudeste Asiático (Cambodja, Laos, Myanmar, Tailândia). O ideal moral do Theravada é o estado de arhat (sânscrito) ou arahant (pāḷi), alguém que consegue extinguir todas as suas pulsões negativas.

2. O Mahāyāna significa “Grande Veículo” e representa uma evolução posterior do budismo. É practicado na China, Japão, Vietname, Coreia, Singapura, Nepal, Tibete, Butão, Mongólia, e zonas da Rússia. Dentro do Mahāyāna há numerosas escolas, algumas extintas e outras remanescentes, incluindo-se o Zen e o Vajrayāna, ou “Veículo de Diamante”, praticado no Tibete. As sūtras Mahāyāna e os mestres antigos desta escola dão, de forma algo ofensiva, ao Theravada o nome de Hīnayāna, ou “Pequeno Veículo”, porque supostamente os praticantes do Hīnayāna não pensam na libertação dos outros seres, o que não corresponde à verdade porque no Theravada também há essa preocupação. Por sua vez, os adeptos do Vajrayāna, vêm-no como superior ao Mahāyāna. O ideal moral do Mahāyāna é o estado de boddhisattva, um ser que se devota e constrói os meios hábeis para libertar todos os seres do seu sofrimento, sem excepções ou preconceitos.

3.5 Tripla jóia

Ao tornarem-se formalmente budistas, os aspirantes refugiam-se no Buda, no Dhárma ou ensinamento, e no Sagha ou comunidade.

Devemos aqui clarificar o conceito de dhárma (sânscrito) ou damma (pāḷi). Pode significar lei ou ensinamento, referindo-se aos ensinamentos do Buda; pode significar objectos abstractos ou mentais; ou pode referir-se a todo e qualquer objecto físico ou abstracto. O Dhárma está organizado em textos chamados sūtras (sânscrito) ou suttas (pāḷi), de tamanho muito variável, havendo textos diferentes nas várias tradições budistas.

4. Quatro Nobres Verdades

São uma sistematização dos ensinamentos principais do Budismo, e versam sobre a dor, o seu aparecimento, cessação, e o “caminho do meio” que leva à libertação dos seres. As Quatro Nobres Verdades foram expostas no primeiro discurso do Buda, “A Roda da Lei” ou Dhamma-Cakkappavattana-Sutta.

4.1 A Primeira Nobre Verdade – Sofrimento – Dukkha

Todos os seres vivos nascem, sofrem, e morrem, são impermanentes, sujeitos a mudanças, imperfeitos, conflituosos, e vazios. Todas estas noções são abarcadas pelo termo dukkha, que significa mais precisamente “dor” ou “sofrimento”, literalmente “difícil”, opondo-se ao termo sukkha, “prazer” ou “deleite”, literalmente “fácil”. O budismo reconhece vários prazeres que se podem obter, tais como o da vida em família, da vida solitária, os prazeres dos sentidos, da renúncia, dos vínculos e da exterminação dos vínculos. No entanto todos estes prazeres, por se alterarem e acabarem, são também considerados dukkha. Segundo o budismo o sofrimento nasce do próprio indivíduo que o sofre.

4.2 A Segunda Nobre Verdade – A aparição do sofrimento – Samudaya

O dukkha é causado pelo desejo (tahā), que produz a re-existência e o devir contínuos. O tahā é definido como uma avidez apaixonada que encontra novos prazeres tanto aqui como ali. Há três desejos principais: o desejo do prazer dos sentidos, o desejo da existência ou do devir, e o desejo da não-existência ou da auto-aniquilação. Toda o vínculo a prazeres, riquezas, pensamentos, e seres é tahā e produz sofrimento (dukkha). O mundo é considerado tahādaso, escravo do desejo.

4.3 A Terceira Nobre Verdade – A cessação do sofrimento – Nirodha

Segundo o Buda, existe uma libertação do sofrimento (dukkha), da sua continuidade, denominada nirvāṇa. Esta libertação, tal como o dukkha, nasce do próprio indivíduo. Nirvāṇa é muitas vezes considerado como sinónimo de Verdade e Realidade Últimas, tratando-se portanto de entrar na realidade e vê-la o mais possível tal e qual ela é. Para eliminar o dukkha e realizar o nirvāṇa, é necessário eliminar o desejo (tahā), que está na sua origem. Neste processo o indivíduo deve desligar-se de todos os vínculos, procurar o caminho do meio entre o prazer e a auto-mortificação, e verificar que não existe realmente nenhuma entidade que seja eterna e imutável (doutrina da anattā), não existindo portanto qualquer alma ou princípio metafísico em nenhum ser. O nirvāṇa, por ser difícil de explicar em termos positivos, é muitas vezes referido sobre formas linguísticas negativas, tais como tahākkaya (“extinção do desejo”), asamkhata (não-composto, incondicionado), viraga (ausência de desejo), nirodha (cessação) e finalmente nirvāṇa (extinção). Não se deve, no entanto, considerar o nirvāṇa como estando oposto à vida normal, ou como sendo um nível transcendente ou superior à vida normal, mas antes como sendo um aprofundamento da vida normal. Por vezes considera-se que o nirvāṇa é a própria natureza do espaço, enquanto objecto que não faz discriminações, e que o corpo real do Buda não é mais do que o próprio espaço. Sustenta-se muitas vezes que o nirvāṇa, ou a realidade última das coisas, não pode ser adequadamente expressa por nenhuma palavra ou frase. No seu livro Mūlamadhyamakakārikā, o autor clássico Nāgārjuna sustenta que nirvāṇa é indiferenciável

do sasāra, o ciclo de existências dos seres.

4.4 A Quarta Nobre Verdade – O caminho – Magga

O caminho que leva ao nirvāṇa e portanto à extinção do sofrimento (dukkha) é designado de “caminho do meio”, evitando os dois extremos nefastos da busca de prazer e da auto- mortificação. É também chamado de Nobre Caminho Óctuplo, por ter 8 preceitos:

Compreensão justa

Pensamento justo

Palavras justas

Acção justa

Meios de existência justos

Esforço justo

Atenção justa

Concentração justa

A prática destes 8 preceitos, por nenhuma ordem particular, leva ao fortalecimento das três práticas, aos quais estão associados : sīla (conduta ética), samādhi (disciplina mental) e prajñā (sabedoria).

4.5 Três Práticas

Os 8 preceitos do Nobre Caminho Óctuplo dividem-se nas três práticas da seguinte forma:

prajñā (sabedoria):

Compreensão justa

Pensamento justo

sīla (conduta ética)

Palavras justas

Acção justa

Meios de existência justos

samādhi (meditação ou disciplina mental)

Esforço justo

Atenção justa

Concentração justa

5 Natureza do mundo e dos seres

Nas secções seguintes explora-se a descrição budista da natureza do mundo e dos seres.

5.1 Tudo está em permanente mudança

Segundo o Budismo, tudo está em permanente mudança (anicca), não existindo nada de eterno em nenhum objecto. Assim, não há soluções universais. Compete às pessoas escolher o melhor caminho de acordo com a situação específica e o seu contexto (ver meios hábeis), e perceberem que nada garante a estabilidade de um processo. Uma minoria de Budistas levam esta ideia mais à frente e afirmam que o universo é continuamente criado, extinto e recriado, em cada ksana, a unidade de tempo mais pequena que se possa imaginar.

5.2 Anattā ou doutrina da não-alma

A doutrina budista do anattā (pāḷi) ou anātman (sânscrito), forma negativa do termo ātman

(alma) nega a existência de atributos ou elementos eternos, absolutos, ou imutáveis em todo

e qualquer ser ou conceito conhecido. Nega portanto as ideias clássicas de alma, Deus, ou a existência de seres incondicionados. Se levarmos às últimas consequências esta ideia, vemos que ela nega o nirvāṇa enquanto estado incondicionado ou transcendente.

5.3 Śūnyatā ou vazio

Śūnyatā significa, em sânscrito, zero ou vazio. Esta doutrina defende que os seres e objectos físicos, mentais, e abstractos têm as mesmas características não-discriminatórias do espaço vazio, aceitando qualquer objecto ou caminho que lhes seja imposto, sem propósito original, sem essência, natureza intrínseca, criador, ou finalidade, estando para além da perfeita percepção, conceptualização ou comunicação dos seres, em virtude de serem produzidas por múltiplas causas inter-relacionadas pelas leis da causa e efeito. A doutrina de Śūnyatā foi muito desenvolvida por Nāgārjuna e pela escola Mādhyamaka.

Na filosofia do vazio, defende-se que afirmar que as coisas têm propósitos intrínsecos é, não só um erro fundamental, mas a base de toda uma série de ilusões, vínculos e preconceitos nefastos sobre as coisas.

5.4 Objectos Compostos

Os objectos compostos de elementos são condicionados, e não possuem existência discreta separada. Geralmente afirma-se que todos os objectos são compostos excepto o espaço e o nirvāṇa. No “Sūtra Diamante”, afirma-se que “todos os objectos compostos são como sonhos, fantasmas, gotas de orvalho, ou raios de tempestade”.

5.5 Três marcas da existência

Todos os seres e objectos compostos:

1. São impermanentes. (anicca)

2. São sofredores. (dukkha)

3. Não possuem identidade ou finalidade intrínsecas. (anattā)

5.6 Cinco skandhas ou agregados que compõem os seres

Aquilo que denominamos “ser” é no budismo considerado como sendo constituído por uma combinação de energias físicas e mentais em permanente mutação, agrupadas tradicionalmente em cinco agregados ou skandhas, que são todos vazios, sem finalidade ou existência intrínseca.

1. Agregado da matéria

2. Agregado das sensações

3. Agregado das percepções

4. Agregado das formações mentais

5. Agregado da consciência

No “Sūtra Coração” defende-se que todos os skandhas são vazios, e que o vazio é o mesmo que a forma, e a forma o mesmo que vazio.

5.7 Quatro alimentos

São quatro alimentos necessários à existência e continuação dos seres:

1. Nutrientes materiais

2. Contacto dos seis órgãos sensoriais (incluindo a mente) com a realidade.

3. Consciência.

4. Volição mental ou vontade

5.8 Seis órgãos sensoriais

1. Visão

2. Audição

3. Olfacto

4. Gosto

5. Tacto

6. Órgão Mental (que entra em contacto com as ideias – não num sentido platónico)

5.9 Karma

Significa literalmente “acção”. Considera-se também como karma, qualquer vontade, desejo, ou acção volitiva. No fundo o karma é uma versão da lei da causa e efeito e da interdependência dos fenómenos. Vários autores apontam o karma como uma causa eficiente para o nosso auto-aperfeiçoamento. Se não pudéssemos agir, não haveria sentido em seguir o caminho budista ou outro caminho. O karma condiciona o futuro, dando origem aos frutos kármicos.

5.10 Origem co-dependente, Produção condicionada ou Pratītyasamutpāda

É a doutrina de que os seres e objectos têm múltiplas condições que os originam e sustentam, devendo sempre ser considerados como parte de um todo. Por exemplo, a comida que alimenta um animal foi produzida por uma planta, que utilizou o dióxido de carbono produzido por outros animais, cujos excrementos adubaram outras plantas, num ciclo ad infinitum. Noutro exemplo, a mesa em que nos apoiamos foi feita por um carpinteiro,

e transportada num camião, construído por outros operários numa zona diferente do globo. A

interdependência de todos os objectos é também conhecida como A Rede de Indra na Sūtra Avatasaka. Nesta sūtra, Indra possui uma rede de jóias em que cada uma reflecte todas as

outras. Esta visão de interdependência, que se coaduna perfeitamente com as modernas concepções da ecologia, é também muito popularizada por Tich Nhat Hanh.

Um tipo especial de origem co-dependente é conhecida como As Doze Ligações (em inglês The Twelve Links, em sânscrito Nidānas). É o nome que se dá ao ciclo que produz o sofrimento, tendo origem na ignorância.

1. Pela ignorância são condicionadas as acções volitivas ou formações kármicas.

2. Pelas acções volitivas ou formações kármicas é condicionada a consciência.

3. Pela consciência são condicionados os fenómenos mentais e psíquicos.

4. Pelos fenómenos mentais e psíquicos são condicionados os seis órgãos sensoriais (os cinco tradicionais do ocidente mais a mente).

5. Pelos seis órgãos sensoriais é condicionado o contacto (entre o mundo exterior e o ser individual).

6. Pelo contacto é condicionada a sensação.

7. Pela sensação é condicionado o desejo.

8. Pelo desejo é condicionada a apreensão.

9. Pela apreensão é condicionado o processo do devir.

10. Pelo processo do devir é condicionado o nascimento.

11. Pelo nascimento são condicionadas a decrepitude, a morte, as lamentações, as penas, o sofrimento em geral.

5.11 Sasāra

É o ciclo de vida e de morte dos seres, ou talvez poderíamos afirmar o ciclo de vida e de

morte dos agentes mutuamente dependentes, acarretando sofrimento. Como já se disse, Nāgārjuna equacionou nirvāṇa com sasāra, verdade última com verdade convencional,

libertação com sofrimento cíclico, afirmando que são indissociáveis.

5.12 Seis Reinos Samsáricos e um modelo psicopatológico por eles formado.

No Budismo, tradicionalmente, aponta-se para seis classes de seres sujeitos ao sasāra. Todas estas classes, mesmo os deuses, não são eternas, não têm essência intrínseca, e estão sujeitos à lei do karma ou lei da causa e efeito. Estas seis classes formam também um modelo psicológico usado na definição de vários problemas mentais. Aplicando o princípio de fluidez subjacente a todo o pensamento Budista, num dado momento “encarnamos” numa classe de seres e sofremos o problema mental associado, no outro momento, podemos encarnar noutra classe completamente diferente e sofrer um problema mental diferente. Os seis reinos samsáricos e as maleitas associadas são:

Devas, ou deuses, que sofrem de orgulho

Asuras, ou semi-deuses, que sofrem de inveja

Humanos, que sofrem de desejo

Animais, que sofrem de “estupidez brutalmente honesta”

Preta, ou fantasmas esfomeados, que sofrem de avareza ou cobiça

Residentes do Inferno, que sofrem de ódio

(Nota: este modelo psicológico é proposto no livro “Le mythe de la Liberté” de Chögyam Trungpa)

5.13 Natureza do Buda

A ideia de “natureza do Buda” (tathāgatagarbha), que não é aceite por todos os Budistas, é

de que em qualquer ser, existe uma semente de iluminação, escondida e indestrutível, não criada, que dá a todos os seres a possibilidade de se iluminarem, percebendo que a realidade não tem propósito nem cria discriminações, entrando assim no “corpo de Buda”, a realidade tal como ela é.

5.14 Terra Pura ou Campo Búdico

No budismo e no hinduísmo, as metáforas agrícolas são abundantes, e a vida é muitas vezes vista como um campo – um objecto que aceita tudo o que é plantado, tudo o que existe, sem distinções entre ervas daninhas nocivas ou belas árvores. Compete às criaturas plantar sementes (bīja) de bondade, em si próprias e nos outros, que venham a crescer no futuro e a dar frutos.

Outro nome para estas sementes é saskāra – as formações latentes no subconsciente resultantes das acções. Segundo a escola Vijñānavāda estas sementes (bīja) ficam acumuladas na “consciência-armazém” ou “consciência ālaya” (ālayavijñāna).

Como parte da sua prática, os seres avançados criam por processos volitivos subtis “terras puras” em que todas as criaturas possam ser lideradas ao nirvāṇa. Os budas plantam sementes de bondade que conduzem à libertação de todos os seres, sem discriminação. O Buda Amitābha está particularmente associado a esta prática. No “Sūtra Diamante” é dito que não produzir um campo búdico agradável é na realidade produzir um campo búdico agradável, e que o Buda não se preocupa com estas emanações, porque elas são naturais como o próprio espaço.

5.15 Frutos Kármicos

Os seres que desfrutem dos frutos kármicos (os resultados das acções passadas) não se devem agarrar ao prazer que estes lhes dão. Esta noção é paralela à doutrina hindu da acção sem desejo, exposta no Bhagavad Gītā.

5.16 Descrição da realidade como fractal

A Avatasaka Sūtra refere que todo o universo está contido num átomo e que num átomo

estão contidas todas as terras do universo. No entanto, tendo em conta o conceito de anattā, estas manifestações são consideradas como fantasmas ou miragens, o que não acarreta em

si algo de negativo, mas simplesmente a afirmação de que não possuem realidade intrínseca

e eterna. Os Budas projectam sem esforço nem cansaço, num único instante, formações conducentes à libertação dos seres em todas as terras do universo. A realidade também é comparada às ondas de um oceano: os acontecimentos individuais não podem ser separados do conjunto dos outros acontecimentos.

5.17 Pensamento e pensador

Para os budistas, a vida não se move, é movimento. Há pensamento, mas não há pensador. De forma geral, pode-se afirmar que há acções mas que não há agente discreto.

5.18 Ego

O Buda descreve o ego (a falsa noção da existência de uma identidade intrínseca) como “solitário, errando ao longe, e envolto em ignorância”.

5.19 Duas formas de verdade

Esta doutrina considera que existe uma verdade convencional e relativa (samvtisatya) e simultaneamente uma verdade absoluta e objectiva (paramārthasatya). Śāntideva dá uma boa definição das duas verdades no seu livro Bodhicaryāvatāra, IX:2 : “É aceite que há estas duas verdades: a convencional e a absoluta. A realidade está para além do alcance do intelecto. À verdade produzida pelo intelecto dá-se o nome de convencional.” Esta ideia, a de existir ou não uma realidade absoluta ontologicamente diferente da realidade contingente experimentada pelos seres, e as suas diferentes interpretações, originou grandes divisões entre escolas budistas. A escola Sarvāstivāda, por exemplo, defendia que do pondo de vista do noumena as coisas existiam no passado, presente, e futuro, mas que do ponto de vista dos phenomena as coisas só existem no momento presente. A escola Mādhyamaka, a que pertencia o sábio Nāgārjuna, defendia que não se podia afirmar peremptoriamente a existência ou não-existência dos fenómenos, e que estes eram “vazios” (śūnyatā), sem identidade intrínseca aparte das condições que os originaram. Entrar na realidade absoluta, para Nāgārjuna, é então simplesmente reconhecer que a realidade convencional é meramente convencional e vazia em si própria. A escola Vijñānavāda, por outro lado, defende que a mente existe por si própria, exterior a causas e condições, e que é o seu propósito mais elevado observar os seus próprios pensamentos, e que no acto da percepção há três coisas a actuar, a realidade em si mesma, e duas manifestações desta realidade, sujeito e objecto, que são unos e indissociáveis. A identificação entre sujeito, objecto e realidade em si mesma revela a “identidade” ou tathata da realidade. A escola Vijñānavāda também é conhecida por Yogācāra ou Cittamātra (apenas-consciência).

5.20 Três níveis de verdade

A verdade imaginária ou construída pela mente, a verdade relativa da interdependência de todos os objectos, e a verdade objectiva, que é o vazio da verdade imaginária e da verdade relativa.

5.21 Identidade universal - Tathātā

Essencial para a escola Zen, tathātā representa a completa identificação da realidade como

igual a si própria, indiferenciada e sem discriminações a priori, e do sujeito e do objecto como partes de uma unidade indivisível. Em inglês designa-se geralmente como thusness. Tathāgata é um epíteto do Buda frequentemente usado e que significa “aquele que vê a realidade tal como ela é”.

Na Lakāvatāra Sūtra, equaciona-se śūnyatā (vazio) com tathātā, insistindo que, quando o mundo é visto como vazio, é alcançada a sua identidade.

5.22 Meios hábeis (Upāya)

O mestre deve escolher os meios mais adequados ao propósito específico em vista, nomeadamente, a libertação do aluno individual. Regra geral, não se devem usar os mesmos meios em duas situações distintas, ou para provocar a libertação de duas criaturas diferentes, já que todas as situações e criaturas são diferentes. De modo geral, pode-se expandir este princípio e declarar que todas as situações dependem do seu contexto, de onde não podem ser retiradas, assim, a pessoa sábia usará meios diferentes e adequados à situação particular. Os meios hábeis podem ser vistos como dependentes do cultivo da atenção (satipaṭṭhāna), porque se estivermos atentos às diversas situações que nos oferece

o mundo, escolheremos com mais facilidade os meios mais hábeis.

Os Budas são vistos como apoiando metafisicamente a libertação de todas as criaturas, através de meios hábeis criteriosamente escolhidos de acordo com as capacidades e propensões de cada criatura. No entanto considera-se que estes meios não são realmente diferenciados, mas sim manifestações diferentes de um mesmo veículo, tal como o Sol ilumina todas as criaturas diferentes sem ter várias naturezas ao mesmo tempo.

5.23 Zen

Zen é uma palavra japonesa que deriva do sânscrito dhyāna (ou prática meditativa, o último elemento do Nobre Caminho Óctuplo) e que designa um tipo de budismo Mahāyāna, que põe

a tónica na experimentação directa da realidade, por um processo de transmissão directa de

conhecimento, desprezando a erudição por si só, com o objectivo de apreender a identidade universal ou tathātā, no uso de mudanças drásticas no meio envolvente para despertar os alunos, e no uso dos meios hábeis, conduzindo a uma libertação imediata (satori). O mestre

Bodhidharma, que introduziu o Zen na China, descreve o Zen desta forma:

“Uma transmissão especial fora das escrituras, que não se baseia em palavras ou letras, apontando directamente ao coração da realidade, possibilitando-nos ver a nossa própria natureza e despertarmos.”

“O Zen foi transmitido directamente pelo Buda e não tem nada a ver com as doutrinas e escrituras que estão agora a estudar”.

5.24 Kōans

Na tradição Zen, os kōans são afirmações paradoxais ou que aparentemente não têm sentido, usadas habilmente pelos mestres para confrontar os estudantes e que produzem um efeito individual em quem as ouve, podendo levar ao nirvāṇa ou ao seu sinónimo japonês,

satori, que é instantâneo e não gradual.

Um conhecido exemplo de um kōan é: “Qual é o som de apenas uma mão a bater?”

6. Ética (sīla)

As secções seguintes expõem a ética budista.

6.1 Cinco Virtudes ou Pañca-Sīlani

Em sânscrito, sīla é uma virtude ou um preceito moral. Estes cinco preceitos constituem a base da ética budista.

1. Não matar

2. Não roubar

3. Não adoptar conduta sexual imprópria

4. Não mentir ou cometer perjúrio

5. Não consumir álcool ou outros intoxicantes

6.2 Compromisso com a verdade

O homem tem um compromisso com a verdade, que é a única coisa que o pode salvar, pois toda a libertação vem “de dentro” e não “de fora” (do reino dos deuses). O Buda defende que na vida nada está escondido ou é conhecido apenas em meios esotéricos. Defende também que uma pessoa forçar-se a crer nalguma coisa é algo altamente negativo, pois a verdade deve vir naturalmente, por si só. Na hora da sua morte, exortou os seus discípulos a avançarem com qualquer dúvida que tivessem sobre os seus ensinamentos, mas estes mantiveram o silêncio.

Como se considera que as palavras não podem descrever adequadamente a realidade última, considera-se também que os homens não se devem apegar ou sobrevalorizar os rótulos dados às coisas e aos fenómenos, considerando que só os tolos se apegam às palavras. Há no Budismo uma forte corrente que desvaloriza a erudição por si só, assim como a fé cega, defendendo-se que o contacto directo, da realidade relativa e não- intelectual, é fundamental para uma correcta apreciação da própria realidade.

6.3 Formar as suas próprias opiniões

O homem, como único ser racional e comunicativo, é considerado a criatura mais elevada, com capacidade de se aproximar da verdade com mais facilidade que as outras. O Buda exortou as pessoas a fazerem de si próprias o seu próprio refúgio, e a não procurarem refúgio para além de si próprias. Os homens devem buscar a verdade em várias fontes, e escolher por si próprios aquilo em que acreditam, formando livremente as suas opiniões em busca da verdade mais elevada.

6.4 Não aceitar uma verdade única – parábola da jangada

Uma vez, um grupo de brâmanes veio ter com o Buda, perguntando-lhe a sua opinião sobre

a suposta “verdade absoluta” contida nos antigos escritos védicos. Este respondeu-lhes que não era conveniente para alguém que protege a verdade, chegar à conclusão de que “Aqui está a verdade e tudo o resto é falso”. Estar ligado a uma coisa e desprezar outras, é considerado pelos sábios como um vínculo. Disse depois que o ensinamento é semelhante a uma jangada, feita para atravessar o rio, descartando-se depois na outra margem, ao invés de carregá-la às costas quando o rio já foi atravessado. Ou seja, o conhecimento é relativo a situações específicas e não universal. Na análise desta parábola também se pode considerar que o respeito pelas opiniões variadas e contingentes das pessoas, fortalecem a verdade geral. Esta parábola está contida na Alagaddūpama Sutta.

6.5 Especulações metafísicas inúteis

O Buda criticava fortemente a especulação inútil sobre assuntos metafísicos ou que não podem ser conhecidos, que apenas criavam problemas imaginários. Considerava estas ocupações como “deserto de opiniões”, “selva de opiniões”, e “vínculo de opiniões”. Conta-se que um dos seus discípulos, Mālunkyāputta, colocou ao Buda dez questões clássicas sobre problemas metafísicos, reclamando uma resposta:

“Senhor, há problemas inexplicados, deixados de parte por si. Estes são:

1. O universo é eterno, ou

2. Não é eterno

3. O universo é finito, ou

4. É infinito

5. A alma é o mesmo que o corpo, ou

6. A alma é uma coisa e o corpo outra

7. O Buda existe depois da morte, ou

8. Não existe depois da morte, ou

9. Existe e não existe depois da morte, ou

10. É não-existente e não não-existente depois da morte”

O Buda respondeu-lhe que nunca lhe tinha prometido resposta a estas questões e que se alguém esperasse uma resposta a elas poderia morrer sem ouvir a resposta do Buda. Depois contou-lhe a parábola de um homem envenenado por uma flecha, que chamou um cirurgião, mas disse que não deixava retirar a flecha antes de saber informações sobre quem o tinha ferido: qual a sua casta, nome, família, porte, e morada, e que tipo de arco, corda, pluma, e ponta de flecha foram utilizados. O Buda disse: “Mālunkyāputta, este homem morreria antes de saber estas coisas”. Depois explicou que não se pronunciou sobre as questões apresentadas por não serem essenciais à vida santa, não conduzindo ao desprendimento, à cessação dos vínculos, e à tranquilidade, remetendo-o para as Quatro Nobres Verdade, que eram úteis para alcançar estes objectivos.

6.6 Confianças

Para compreender o Budismo (ou a verdade em geral), diz-se que há os seguintes princípios:

confiança no ensinamento e não na pessoa; confiança no significado e não no significado literal; confiança no ensinamento total e não no ensinamento parcial; confiança no conhecimento, e não na consciência discriminatória (contingente).

6.7 Natureza igualitária da condição humana

Nas sūtras “O que é um pária?” (Vasala-Sutta) e “O que é um brâmane?” (último capítulo do Dhammapada), o Buda defende que as ocupações e posições dos homens são definidas não pela casta ou família em que nasceram, mas apenas pelos resultados das suas acções.

6.8 Mettā ou compaixão

Mettā (pāḷi) ou Maitrī (sânscrito) significa compaixão ou bondade benevolente. Exposta na Mettā-Sutta (Sutta-Nipata, I, 8), defende que deve ser um objectivo de todos os homens sábios e amantes da verdade. Os homens devem ser aplicados, perfeitamente rectos, dóceis, humildes, contentes, e facilmente satisfeitos. Depois deseja a felicidade, alegria e segurança, a todos os seres vivos, sejam eles fracos ou fortes, grandes ou pequenos, curtos ou compridos, visíveis ou invisíveis, próximos ou distantes, nascidos ou a nascer. Pede depois que ninguém engane ou despreze outro, nem lhe deseje mal.

“Tal como uma mãe que põe em risco a sua vida para proteger e vigiar a sua única criança, assim devemos com um espírito sem limites acarinhar todas as coisas vivas, amar o mundo na sua totalidade, sem limites, com uma bondade benevolente e infinita.”

6.9 Ahisā ou não-violência

Literalmente significa não-violência. É talvez mais especificamente um preceito Jain, mas é respeitado pelas várias religiões indianas. Compreende o esforço de não agredir qualquer ser vivo. No Séc. XX, Mohandas Gandhi utilizou esta técnica eficazmente para libertar a Índia do jugo colonial britânico.

6.10 Três Aflições ou Kleśās

Estas três aflições (em inglês por vezes traduzido por defilements) são consideradas impeditivas a um bom estado mental:

Ódio

Desejo

Ilusão

(o ódio é considerado particularmente grave)

6.11 Cinco impedimentos (Pañca Nīvaraṇāni)

São cinco impedimentos a toda a compreensão clara e a todo o progresso. Estar mergulhado neles é como não conseguir mais ver o que é bom ou mau, verdadeiro ou falso. São eles:

1. O desejo sensual

2. A má vontade, ódio, ou cólera

3. O torpor

4. A excitação e os remorsos

5.

As dúvidas cépticas

6.12 Sete factores de Iluminação (Satta Bojjhagā)

Considera-se que os seres devem desenvolver os seguintes sete factores, por conduzirem à sua iluminação:

1. Atenção (sati) – estar consciente e atento a todos os actos e a todos os movimentos físicos e mentais.

2. Investigação da doutrina (dhamma-vicaya) – estudar e debater os problemas religiosos, éticos e filosóficos, e podemos acrescentar também os problemas científicos e artísticos.

3. Energia (viriya) – trabalhar determinadamente para alcançar os objectivos pessoais.

4. Alegria (pīti) – qualidade que se opõe absolutamente a uma atitude pessimista, sombria, ou melancólica.

5. Tranquilidade (passaddhi) - física e mental. Não devemos retesarmo-nos física ou psicologicamente.

6. Concentração (samādhi) – desenvolver a concentração mental, a fixação unificadora do espírito, podendo alcançar elevados estados místicos.

7. Equanimidade (upekkha) – poder fazer face, calmamente, e sem perturbações, a todas as vicissitudes da vida.

6.13 Dez deveres do Rei

1. Generosidade, liberalidade (dāna )

2. Carácter moral elevado (sīla)

3. Sacrificar o bem pessoal pelo bem do povo (pariccāga)

4. Honestidade e integridade (ājjava)

5. Amabilidade (maddava)

6. Austeridade (tapa)

7. Ausência de ódio (akkodha)

8. Não-violência (avihimsa)

9. Paciência e tolerância (khanti)

10. Não-obstrução à vontade popular (avirodha)

O exemplo perfeito da ética do rei ou dirigente budista é o reinado do imperador Aśoka (304- 232 antes de Cristo), que após sangrentas batalhas, arrependeu-se de empreender a guerra, e declarou a liberdade religiosa no seu vasto império, através dos “Éditos da Rocha”, que se

encontram preservados. Nestes documentos lê-se que os homens devem honrar de igual forma a sua religião e a religião dos outros homens.

7. Meditação ou bhāvanā

Bhāvanā significa cultura (mental) ou desenvolvimento (da mente). Não é um estado transcendental, que procura uma nova realidade ou o desenvolvimento de poderes paranormais, pelo contrário, procura aprofundar a experiência banal do dia-a-dia. Procura simplesmente “viver o momento”, estando completamente atento, de preferência de forma não-intelectual, às mudanças que ocorrem na realidade, ao aparecimento ou cessação de novas qualidades da realidade. Visa desembaraçar o espírito das suas impurezas, tais como os desejos sensuais, o ódio, a má vontade, a indolência, a agitação, as dúvidas; e cultivar qualidades benéficas tais como a concentração, a atenção, a inteligência, a vontade, a energia, a faculdade de analisar, a confiança, a alegria, e a calma. À medida que a meditação é cultivada, ela vai surgindo mais facilmente, e as pessoas vão ficando cada vez mais atentas às mais ínfimas mudanças da realidade.

As várias meditações incluem:

7.1 Samādhi

Samādhi, ou concentração mental, que existia antes do Buda, na tradição yógica do hinduísmo.

7.2 Vipassanā

Vipassanā, que significa “visão”, e que se baseia na atenção. Na Satipaṭṭhāna-Sutta, ou “discurso sobre o estabelecimento da atenção”, o Buda expõe os fundamentos desta técnica. Os budistas recitam muitas vezes esta sūtra ao pé de um moribundo, para que este possa purificar os seus últimos pensamentos. O praticante deve ficar atento ao corpo (kaya), sensações (vedana), à mente (citta), e aos sujeitos morais e intelectuais (dhamma). O praticante deve estar consciente de tudo o que acontece, de tudo o que muda, nos três primeiros sujeitos de meditação, ou seja se estiver numa determinada posição ou ocorrer um movimento, no seu corpo ou no corpo da realidade, se sentir uma sensação ou um pensamento novo, deve estar consciente desses factos. Mas não tente fazer tudo ao mesmo tempo, nem se irrite se falhar, continue calmamente como anteriormente. Na meditação sobre os dhamma, incluem-se conversas, aulas e palestras e em geral qualquer discussão sobre o conhecimento humano, nos seus vários campos, e poderá meditar também sobre listas de qualidades como os Cinco Impedimentos ou os Sete Factores de Iluminação. Para aceder a listas de qualidades budistas, veja o site

http://www.urbanDhárma.org/uDhárma7/numbers.html.

7.3 Ānāpānasati

Ānāpānasati, “atenção à respiração”, é uma das meditações vipassanā mais populares e praticadas. Para esta meditação apenas, é prescrita uma posição especial. Sentando-se de pernas cruzadas e costas direitas, com a atenção em alerta, irá respirar normalmente, mas o

seu espírito deverá concentrar-se sobre a inspiração e a expiração. Deve tornar-se consciente de que movimento está a fazer. Se a respiração for rápida ou lenta, forte ou fraca, deve tornar-se consciente também disso. Deve tornar-se consciente de todos os momentos em que o ritmo ou a força da respiração mude.

7.4 Tonglen

Tonglen é uma meditação usada no budismo tibetano e baseia-se em “pormo-nos na pele de outra pessoa”. Separamos as coisas em boas e más, e imaginamos que sobre nós recaiem todas as coisas más que afligem outros seres, mas que pelo poder que temos de sermos pessoas boas, essas coisas voltam a sair de nós, mas agora boas, purificadas, somando-se ao bem geral. Podemos também practicar com nós próprios, dividindo-nos em dois eus, um mau e sofredor e um eu bom e poderoso. O eu poderoso limpa o mal do eu sofredor.

7.5 Oito Libertações

1. Contemplação da forma exterior mantendo imagens internas de forma (observação de “formas impuras”, como cadáveres, para impedir o aparecimento de desejos físicos e eliminar o vínculo ao corpo).

2. Contemplação da forma exterior sem imagens internas de forma (observar formas impuras externas mesmo depois do vínculo ao corpo desaparecer para fortalecer o desprendimento)

3. Realização física da libertação pura (observação da forma pura, consistindo apenas de luz e cor, enquanto se está num estado de profunda alegria)

4. Absorção da mente no infinito do espaço

5. Absorção da mente no infinito da consciência

6. Absorção no vazio

7. Nem percepção nem não-percepção

8. Cessação de sensação e de percepção

8. Bhūmis e pāramitās

São estádios do desenvolvimento dos seres em direcção à libertação.

8.1 Dez bhūmis ou estádios do boddhisattva

Bhūmi significa em sânscrito “terra” ou “chão” e designa, na corrente Mahāyāna, os estádios pelos quais os boddhisattvas progridem em direcção à iluminação. Estão ligados às dez pāramitās do mesmo número.

1. paramudita – muito alegre

2. vimala – imaculado

3. prabhakari – luminoso

4. archishmati – radioso

5. sudurjaya – difícil de conquistar

6. abhimukhi – face a face

7. duramgama – que vai longe

8. achala – imutável

9.

sadhumati – possuindo um bom intelecto

10. dharmamegha – nuvem do ensinamento

8.2 Dez aperfeiçoamentos ou pāramitās

Pāramitā quer dizer, literalmente “chegar à outra margem”, ou “atravessar totalmente”. O mais importante destes aperfeiçoamentos é a prajñāpāramitā (aperfeiçoamento do conhecimento), objecto de uma série de sūtras na tradição Mahāyāna. Há várias listas de pāramitās. A que se segue é da Theravada:

1. Dāna pāramitā (generosidade)

2. Sīla pāramitā (virtude)

3. Nekkhamma pāramitā (renunciação)

4. Paññā pāramitā (sabedoria)

5. Viriya pāramitā (energia)

6. Khanti pāramitā (paciência)

7. Sacca pāramitā (verdade)

8. Adhitthana pāramitā (resolução)

9. Mettā pāramitā (compaixão)

10. Upekka pāramitā (equanimidade)

E

a seguinte a do Mahāyāna:

1. Dāna pāramitā (generosidade)

2. Śīla pāramitā (disciplina)

3. Kṣānti pāramitā (paciência)

4. Vīrya pāramitā (esforço)

5. Dhyāna pāramitā (meditação)

6. Prajñā pāramitā (conhecimento)

A

lista do Vajrayāna acrescenta aos seis anteriores os quatro seguintes:

7. Upāya pāramitā (meios hábeis)

8. Praidhāna pāramitā (visão)

9. Bala pāramitā (potência)

10. āna pāramitā (sabedoria)

8.3 Prajñāpāramitā ou aperfeiçoamento do conhecimento

O

prajñāpāramitā defende a teoria de que se deve tentar fazer actos virtuosos (ajudar todas

as criaturas) sem discriminação. Ao fazê-lo, o boddhisattva não deve olhar a sinais “ilusórios”

ou impermanentes como a existência de um ser, pessoas, seres vivos, ou tempo de vida. Afirma-se também que, onde quer que haja sinais a serem apreendidos, há a possibilidade de se criar mais ilusões (“Sūtra Diamante”).

No aspecto lógico, também se afirma que qualquer objecto define positivamente a si próprio, mas também define negativamente o resto do universo, e o resto do universo define negativamente o objecto em causa. Assim se prova que, também no aspecto lógico, os

objectos não podem ser separados do contexto ou do universo em que se encontram. (origem co-dependente)

9.Guia de pronúncia

(Retirado de Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha) 21

(Retirado de Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha)

10.Bibliografia

Como introdução recomenda-se:

Walpola Rahula, L'enseignement du Bouddha, Paris, Éditions du Seuil, 1978, ISBN

2-02-004799-3

Sūtras:

Thich Nhat Hanh, The Diamond that Cuts Through Illusion, Berkeley, Parallax Press, 2010, ISBN 978-1-935209-44-7

Thich Nhat Hanh, The Heart of Understanding, Berkeley, Parallax Press, 2009, ISBN

978-1-888375-92-3

F. Max Muller, The Dhammapada and the Sutta-Nipata , Forgotten Books, 2007, ISBN 978-1-60506-110-8

Burton Watson, The Vimalakirti Sūtra, New York, Columbia University Press, 1997, ISBN 978-0-231-10657-3

Gene Reeves, The Lotus Sūtra, Boston, Wisdom Publications, 2008, ISBN 0-86171-

571-3

Thomas Cleary, The Flower Ornament Scripture: A Translation of the Avatasaka Sūtra, Boston, Shambhala Publications, 1993, ISBN 978-0-87773-940-1

Comentários vários:

Śāntideva, The Bodhicaryāvatāra, tradução de Kate Crosby e Andrew Skilton, Oxford, Oxford University Press, 2008, ISBN 978-0-19-954043-3

Jay L. Garfield, The Fundamental Wisdom of the Middle Way: Nāgārjuna’s Mūlamadhyamakakārikā, New York, Oxford University Press, 1995, ISBN: 978-0-19-

509336-0

Raimundo Cintra, O Lótus e a Cruz, São Paulo, Edições Paulinas, 1981

Zen:

Shunryu Suzuki, Zen Mind, Beginner's Mind, Boston, Shambhala Publications, 2011, ISBN 978-1-59030-849-3

Thich Nhat Hanh, Zen Keys, Garden City, Doubleday & Company, 2005, ISBN 0-385-

47561-6

Red Pine, The Zen Teaching of BodhiDhárma, New York, North Point Press, 1989, ISBN 978-0-86547-399-7

John Blofeld, The Zen Teaching of Huang Po, New York, Grove Press, ISBN 978-0-

8021-5092-9

Meditação Vipassanā:

Analayo, Satipaṭṭhāna: The Direct Path to Realization, Cambridge, Windhorse Publications, 2010, ISBN 9781 899579 54 9

Vajrayāna:

Garma C.C. Chang – The Hundred Thousand Songs of Milarepa, Boston, Shambhala Publications, 1999, ISBN 978-1-57062-476-6

Chögyam Trungpa, Le mythe de la liberté, Paris, Éditions du Seuil, 1979, ISBN 2-02-

005146-x

Dalai Lama e Jean-Claude Carriére, A Força do Budismo, Lisboa, Difusão Cultural, 1995, ISBN 972-709-245-4

Fabrice Midal, Mitos e Deuses Tibetanos, Lisboa, Temas e Debates, 2002, ISBN972-

759-393-3

Na internet:

www.wikipedia.org

11.Índice Remissivo

A Rede de Indra

9

Mettā

15,

19

agentes

2, 9

Mūlamadhyamakakārikā

5,

22

ālayavijñāna

10

Nāgārjuna

5, 7, 9, 11, 22

Ānāpānasati

17

Nidānas

9

anattā

3, 5, 7, 10

nirvāṇa

4,

5, 6, 7, 9, 10, 12

anicca

7

Nobre Caminho Óctuplo

6,

12

Aśoka

16

objectos compostos

7

Avatasaka

9, 10, 22

Pañca Nīvaraṇāni 15

Bhagavad Gītā

10

paramārthasatya

11

bhāvanā

17

Pāramitā 19

Bhūmi

18

prajñā

6

bīja

10

prajñāpāramitā

19

boddhisattva

4, 18, 19

Pratītyasamutpāda

8

Bodhicaryāvatāra

11, 22

Quatro Nobres Verdades 5

Brâmanismo

3

Rāhula

3

Buda

3,

4, 5, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 17

Śākyamuni

3

Budismo

1, 2, 3, 5, 7, 9, 13, 14, 23

samādhi 6,

16

Chandaka

3

sasāra

6,

9

Cittamātra

11

saskāra

10

Dhárma

4

samvtisatya

11

dukkha

5, 6, 7

Sagha

4

ego

11

Śāntideva

11,

22

fractal

10

Sarvāstivāda

11

Frutos Kármicos

10

satipaṭṭhāna 12

Hīnayāna

4

Satta Bojjhagā

16

interdependência

8, 9, 11

Seis Reinos Samsáricos

9

Karma

8

ser 2, 3, 4, 5, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15,

Kleśās

15

19, 20

 

Mādhyamaka

7, 11

Siddhārtha 3,

4

Mahāyāna

2, 4, 12, 18, 19

sīla

6,

13, 16

Māyādevī

3

skandhas

7,

8

meios hábeis

4, 7, 12, 19

śramaas

3

Śuddhodana

3

Tripla jóia

4

śūnyatā

3, 11, 12

Upāya

12,

19

Śūnyatā

7

Vajrayāna

4,

19, 22

Sūtra Coração

8

vazio

7, 8, 11, 12, 18

Sūtra Diamante

7, 10, 19

Vedas

3

tahā

5

Vijñānavāda

10,

11

tathāgatagarbha

10

Vipassanā

17,

22

Terra Pura

10

Yasodharā

3

Theravada

2, 4, 19

Zen

4,

11, 12, 22

Tonglen

18

5ª revisão – 23-10-2011