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Maurice Béjart comemora 50 anos "de infância" - 27/11/2004 - UOL Míd

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2004/11/27/ult580u1343.jhtm

Le Monde 27/11/2004 Maurice Béjart comemora 50 anos "de

Le Monde

27/11/2004

Maurice Béjart comemora 50 anos "de infância"

Coreógrafo completa 77 anos --50 de carreira-- e fala de projetos

Rosita Boisseau Em Bruxelas, Bélgica

Ele é engraçado, vivo, direto. Até hoje, ele não se cansa de reverenciar a arte à qual ele dedicou a sua vida, a dança, mas, ele sobretudo não se leva a sério. Aos 77 anos, Maurice Béjart continua o mesmo de sempre. Além disso, o popular coreógrafo francês comemora também 50 anos de carreira.

Antes de parar em Lille (norte da França) para uma temporada, foi em Milão, e depois em Bruxelas, a sua cidade de predileção de 1960 até 1987, que ele assoprou nas velas deste aniversário. No Cirque Royal, um bolo e uma iluminação da sala por meio de isqueiros erguidos pela platéia, celebraram o seu novo espetáculo, "L'Art d'être grand-père" (A Arte de ser avô).

Já, em "Lumière" (Luz), criado em junho de 2001 em Lyon, Béjart não hesitava em evocar o tempo, a idade e a sua morte. Aquele que iniciou a sua carreira aos 18 anos "apesar de seu gênio nem um pouco fácil", conforme a expressão do seu amigo, o bailarino Jean Babilée, criou mais de duzentos balés. Champagne!

Le Monde - Para celebrar estes 50 anos de coreografia, o senhor imaginou um presente pouco ordinário. Pela primeira vez, o senhor encarregou os bailarinos de criar os passos do espetáculo, "L'Art d'être grand-père", que o senhor co-assina com eles. Entre o professor e o aluno, será a transmissão do conhecimento uma questão de diálogo?

Maurice Béjart - Foi um prazer egoísta que eu me dei de presente. Mas são os meus bailarinos que me proporcionam tudo. Nesta criação, eu me limitei a implementar as seqüências que eles improvisaram. Eu eliminei, canalizei. Existem certos passos que não se parecem comigo, mas pouco importa.

Quando eles inventam, os meus intérpretes se revelam de maneira tão íntima que o resultado acaba ficando maravilhoso. É preciso deixá-los encontrar a sua dança. Todos se formaram na minha escola, o Atelier Rudra Béjart, em Lausanne (Suíça). Após ter tido relações de pai com os meus dançarinos, eu banco o avô. Com eles, da mesma forma que eles, eu continuo a aprender, a encontrar, a contestar. Quando não estamos de acordo, tanto melhor. Paciência. Eles têm razão e eu estou errado. Eu também.

Le Monde - Desde Mudra, uma escola fundada em 1970 em Bruxelas, e com o ateliê de

criação Rudra, instalado em Lausanne, que formaram numerosos coreógrafos tais como

Anne-Teresa de Keersmaeker, Maguy Marin uma atividade vital para o senhor?

,

o senhor sempre dirigiu uma escola. Será esta

Maurice Béjart - A escola é a minha paixão. É fundamental para um artista confrontar-se permanentemente aos jovens. O Rudra é um modo de vida intelectual e moral, uma maneira de existir em relação ao mundo moderno, onde o dançarino ocupa um espaço social no universo.

Numa época de dissolução dos valores e de permissividade, é importante contar com seres humanos que têm uma real vontade de enfrentar o combate da vida. Hoje, tudo é fácil demais

e a dança continua sendo uma arte de exigência, da mesma forma que o esporte, sem que

isso precise necessariamente transformar-se numa competição, eu acredito que só se alcança

a liberdade em dança perseverando cotidianamente no trabalho. Na escola, a gente os deixa viver, mas a gente os ajuda também a viver.

Le Monde - O bailarino Gil Roman é co-diretor do Béjart Ballet Lausanne desde 1993. O

senhor chega a lhe transmitir algumas diretrizes em relação a esta herança de 200 balés que

o senhor criou?

Maurice Béjart - Os meus balés pertencem aos meus dançarinos e ao público. Que eles

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façam deles o que lhes parecer melhor. Gil dança comigo desde que ele tem 16 anos. Ele interpretou todas minhas peças, das quais algumas lhe foram transmitidas pelos meus bailarinos históricos, que foram Jorge Donn e Paolo Bortoluzzi.

Gil está no coração da minha obra, ele é uma memória viva, e sabe o que é preciso fazer com ela. Eu não sou um pai abusivo, nem possessivo. Aliás, eu não tenho senso algum da propriedade. Os meus direitos de autor vão para a minha fundação, que oferece bolsas para jovens bailarinos. Eu não possuo nada. Isso não é uma vontade de sacrifício. É assim, e pronto.

Le Monde - O senhor sempre evidenciou nos seus espetáculos uma imagem do mundo mestiçada e otimista. Como o senhor está vivendo a situação internacional atual?

Maurice Béjart - Eu estou terrivelmente pessimista, o que não deverá surpreendê-lo. Por onde quer que se olhe, é a catástrofe, o pesadelo que predominam. Isso me deixa com o estômago revirado. Durante a noite, eu acordo e fico pensando nessas coisas até a obsessão. Tudo está indo de mal a pior: a América do Sul é um caos, os Estados Unidos vivem sob um regime próximo do fascismo, o Iraque está em guerra, e até quando? A África se debate em meio a conflitos terríveis. As coisas deixaram de funcionar.

Le Monde - O senhor converteu-se ao Islã no início dos anos 70. O que representa este engajamento, hoje?

Maurice Béjart - Eu não gosto do verbo "converter-se". Conheci um grande número de mestres, que me transmitiram o seu saber. O japonês Deshimaru me ensinou o kendo, o iraniano Ostad Elahi me iniciou ao Islã. Eu pratico os rituais, as orações, eu não bebo álcool. A religião, etimologicamente, significa conectar. Mas ela é hoje o que separa da maneira mais cruel os homens. É terrível.

Le Monde - O senhor tem um apreço particular pela África. O senhor tem raízes negras pelo lado do seu pai, o filósofo Gaston Berger, que nasceu no Senegal. A sua bisavó, Fatou Diagne, era negra. O senhor vem se referindo a eles cada vez mais nos seus balés, assim como à sua infância. Por quais razões?

Maurice Béjart - (Ele tira do bolso uma foto do seu avô). O meu avô foi um franco-atirador senegalês quando ele tinha 19 anos, durante a Primeira Guerra mundial. Ele lutou no front turco. Efetivamente, o meu sangue negro tornou-se cada vez mais importante para mim. As pessoas costumam dizer que à medida que se envelhece, retorna-se para a infância. Eu me recordo melhor da minha juventude do que de certos eventos recentes. O mesmo acontece com os balés. Eu acabo de recriar a montagem, para Gil Roman, de um solo que eu havia apresentado em 1954, com a música "Batterie fugace" (Bateria fugaz), de Pierre Henry. Eu me lembrava perfeitamente de tudo. Em contrapartida, andei me esquecendo de certas peças recentes. Mas é provavelmente porque elas não valem tanto a pena assim. Às vezes, me ocorre de assistir a alguns dos meus balés, me perguntando: 'Quem foi o cretino que fez isso?'.

Le Monde - Os homens e as mulheres são valorizados nos seus espetáculos. O casal também. O amor continua a estar no cerne das suas preocupações?

Maurice Béjart - Com freqüência, as minhas coreografias mostram os homens em grupo. As mulheres, em contrapartida, eu tendo a encená-las sozinhas. Para mim, a mulher é única. Eu veria com bons olhos uma sociedade de homens dirigida por uma mulher. As mulheres possuem um senso prático e psicológico mais forte que os homens. Quanto ao amor, ele é onipresente. O meu próximo espetáculo no Palais des Sports (sala em Paris), "L'Amour, la Danse" (O Amor, a Dança), recompõe, na forma de um grande afresco, trechos dos meus balés sobre o amor.

Le Monde - O senhor colaborou com o compositor Pierre Henry. Agora, o senhor estaria preparando algum novo projeto com ele?

Maurice Béjart - Ele compôs para mim uma música intitulada "Mobile immobile" (Móvel Imóvel), que eu pretendo encenar, seja com a minha companhia em 2005, seja com a da Ópera de Paris em 2006. Brigitte Lefèvre, a diretora da dança, gostaria de que nós organizássemos uma apresentação especial: ela queria apresentar recriações. Mas eu recusei. Eu quero criar.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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