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SAWAIA- impresso

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Pág. 1 As Artimanhas da Exclusão – Análise psicossocial e ética da desigualdade social Introdução: Exclusão ou Inclusão perversa?

- Bader Sawaia O livro busca aprimorar o conceito de exclusão, explicitando as ambigüidades inerentes ao termo por entender que a complexidade e contraditoriedade constituem o processo de exclusão social e sua possível transformação em inclusão social. Visa abordar o tema sob a perspectiva ético-psicossociológica, baseada na dialética exclusão/inclusão, ampliando o conceito de exclusão que passa a ser entendida como descompromisso político com o sofrimento do outro. O binômio exclusão/inclusão gesta subjetividades específicas que determinam e são determinadas por formas diferenciadas de legitimação social e individual e manifestam-se no cotidiano como identidade, sociabilidade, afetividade, consciência e inconsciência. É um processo sutil e dialético, pois só existe em relação à inclusão como parte constitutiva dela e que envolve o homem por inteiro e suas relações com os outros. Primeira Parte Reflexões acerca do conceito de Exclusão 1. Refletindo sobre a noção de exclusão – Mariângela Belfiore Wanderley O texto tem como objetivo apresentar as principais idéias sobre a noção de exclusão social a partir dos anos 90. Atribui-se a René Lenoir a invenção desta noção em 1974 que foca a exclusão como um fenômeno não mais individual mas social. Dentre suas causas destacava o rápido e desordenado processo de urbanização, a inadaptação e uniformização do sistema escolar, o desenraizamento causado pela mobilidade profissional, as desigualdades de renda e de acesso aos serviços. Xiberras, em 1993, coloca que “excluídos são todos aqueles que são rejeitados de nossos mercados materiais ou simbólicos, de nossos valores”. Do ponto de vista da situação global, na década de 80 houve o declínio dos Welfare States iniciando novos tipos de relações entre economia, política e sociedade. No momento em que o neoliberalismo torna-se hegemônico, constata-se uma crise do trabalho e do sujeito, onde camadas da sociedade consideradas aptas ao trabalho e adaptadas à sociedade moderna não encontram lugar no mercado, apontando para um aumento das desigualdades. No caso brasileiro a situação além de ser conjuntural, sob a luz do fenômeno da globalização, tem componentes estruturais. Segundo Aldaíza Spozatti (1996), no Brasil a discriminação é econômica, cultural e política, além de ética e caracteriza-se por exclusão social e não individual (embora atinja as pessoas) pois impossibilita um conjunto significativo da população de poder partilhar o que leva à vivência da privação, da recusa e do abandono e da expulsão, inclusive com violência. Esta situação de privação coletiva, que se entende por exclusão, inclui pobreza, discriminação, não equidade, não acessibilidade e não representação pública. A naturalização do fenômeno da exclusão promove seu reforço e reprodução tanto no nível social como individualmente (isso é assim e não há nada para fazer) implicando numa fragilização dos vínculos sociais. Por outro lado, a estigmatização da pobreza faz os direitos serem transformados em favor das elites dominantes para os beneficiários das políticas públicas, ratificando a exclusão.

Pág. 2 A exclusão contemporânea é diferente das formas anteriores de discriminação e segregação, pois cria globalmente uma massa de indivíduos desnecessários ao processo produtivo. A eles são atribuídos os males da sociedade: despreparo para o emprego e a violência social, por exemplo. Assim, pobreza e exclusão no Brasil são faces da mesma moeda. A consolidação do processo de democratização terá que passar pela desnaturalização do processo de exclusão, verificável através das altas taxas de concentração de renda e da diminuição da ação social do Estado, fruto da política neoliberal, garantindo o exercício da cidadania para todos. 2. Exclusão Social: um problema de 500 anos – Maura Pardini Bicudo Veras O tema da exclusão social no Brasil não é novo, pois desde os tempos coloniais, do Império, das Repúblicas (Velha, Nova e Contemporânea) ele se faz presente. Porém, o processo de globalização vem dando novos contornos para o conceito de marginalidade social. Nas décadas de 60 e 70 a exclusão era vista, por alguns autores, como uma das conseqüências do processo migratório e da desadaptação dos novos habitantes urbanos que ocasionavam mendicância, delinqüência, favelas. Outros colocavam o fenômeno da pobreza urbana como uma cultura diferenciada do restante da sociedade. Outros ainda creditavam às contradições do modo capitalista de produção o enraizamento da pobreza e a exclusão subjacente. As populações marginais aparecem como conseqüência da acumulação capitalista, um exército industrial de reserva singular. Em 1978, a publicação de O mito da marginalidade apontou uma tendência já presente em outros trabalhos da época: a marginalidade como conseqüência de um modelo de desenvolvimento que tem como característica básica a exclusão de vastos setores da população de seu aparato produtivo principal. Na década de 80, utilizando a obra de Milton Santos como expoente, chama-se a atenção para a importância do componente territorial na exclusão. Explicita que não só os habitantes deveriam ter acesso aos bens e serviços indispensáveis, mas que haja uma gestão adequada dos mesmos, assegurando os benefícios para a coletividade. Aponta que o terceiro mundo tem “não cidadãos” porque se afunda na sociedade do consumo, da mercantilização e na monetarização. Em lugar do cidadão surge o consumidor insatisfeito. Portanto o direito à acessibilidade e à mobilidade seriam condições de cidadania. Nos anos 90, um artigo apresentado por Atkinson para a Comissão Européia coloca que o conceito de exclusão social é dinâmico, multidimensional e refere-se tanto a processos quanto a situações conseqüentes dos mesmos. Estabelece a natureza dos mecanismos através dos quais os indivíduos e grupos são excluídos das trocas sociais, das práticas componentes e dos direitos de integração social e de identidade. A exclusão, portanto, vai além do desemprego, englobando os campos da habitação, educação, saúde e acesso a serviços, e portanto à não-cidadania. Segundo Boaventura de Souza Santos, as relações sociais são enfocadas em confronto com a noção de Estado – Estado providência ou Estado Mínimo – e podem ser diferencialistas ou universalistas. Os adeptos desta negam as diferenças e buscam a homogeneização com base no princípio da cidadania e igualdade abstrata de direitos. Para os primeiros, que respeitam as diferenças, houve um movimento de reflexão e passou-se a entender que estar incluído é estar dentro do sistema mesmo que desigualmente. No Brasil deve-se destacar a obra de José de Souza Martins (1997) que faz a crítica à rotulação do termo exclusão que passa a ser explicativo e responsável de tudo e por tudo. Busca contrapor a partir da abordagem da relação política entre sociedade e Estado, centralizada nas contradições que poderiam criar condições de ação eficaz dos dominados. Aponta que as políticas econômicas atuais (neoliberais) acabam por provocar não políticas de exclusão, mas de inclusão precária e marginal, ou seja, incluem pessoas nos processos econômicos, na produção e circulação de bens e serviços estritamente em

Pág. 3 termos daquilo que é conveniente e necessário à mais eficiente e barata reprodução do capital (fenomenologia dos processos sociais excludentes). Estas diminuem o caráter perigoso das classes dominadas que de uma certa forma adequam-se ao funcionamento do sistema em favor dos dominantes. Coloca ainda que a exclusão é estruturante do sistema capitalista, que exclui para poder incluir de uma nova forma. O que acontece hoje é que o hiato entre estes dois momentos está se transformando num modo de vida que permanece. O excluído hoje é aquele que além de estar em situação de carência material é aquele que não é reconhecido como sujeito, pois não se reconhece a si como tal e portanto não atua como tal. O fato de ter acesso à esfera do consumo, principalmente através do consumismo dirigido, constrói um sujeito que imita os ricos (colonização do imaginário), adquirindo mercadorias semelhantes e partilhando das idéias individualistas e competitivas. Só que as oportunidades não são iguais, o valor dos bens é diferente e a ascensão social é bloqueada, caracterizando a sociedade da imitação, da reprodutibilidade e da vulgarização, no lugar da criação e do sonho. Segundo Francisco de Oliveira há que se atentar para a exclusão social como face econômica do neoliberalismo globalizado na América Latina e Brasil e para ela não existe nenhuma política assistencialista, pois as classes dominantes não querem mais integrar. Porém ocorre uma certa sociabilidade da apartação e do confinamento, pois a comunicação mediática substitui a construção da esfera pública. Assim o acompanhamento de questões públicas (guerras, CPIs,etc) transformam-se em espetáculos da mídia ao se declarar vigilante dos interesses populares. Os pobres passam a desconfiar de si próprios, numa culpabilidade popular: caminhando sobre o chão pavimentado pelo preconceito dos pobres contra os pobres, as classes dominantes no Brasil começaram a extravasar uma subjetividade antipública que segrega, popularizando a idéia da “desnecessidade” do público. A proteção estatal se transforma no custo Brasil, onde os direitos e conquistas civilizatórias traduzidos em direitos sociais se transformam em fatores causais da miséria, pobreza, em obstáculo para o desenvolvimento econômico e ausência de cidadania. A autora finaliza registrando a importância de atualizar a discussão e trabalhar no sentido de erradicar os processos sociais excludentes. Segunda Parte Análise Psicossocial e Ética da Exclusão – Categorias Analíticas 1. Os Processos Psicossociais da Exclusão – Denise Jodelet A Psicologia Social, no que se refere à exclusão, tenta compreender de que maneira pessoas ou grupos são objetos de uma distinção, são constituídos como uma categoria a parte. Um dos modos pelo qual ela tenta dar conta das relações sociais é através das dimensões ideais e simbólicas e dos processos psicológicos e cognitivos que articulam os fundamentos materiais destas. O outro considera o espaço de interação entre pessoas e grupos, no seio do qual elas se constróem e funcionam. A questão central da maioria das pesquisas é o que faz com que, em sociedades que cultuam valores democráticos igualitários, as pessoas sejam levadas a aceitar a injustiça, a adotar ou tolerar frente àqueles que não são seus pares ou como eles, práticas de discriminação que os excluem? A propensão para prejudicar o outro encontra respaldo nas explicações causais e na atribuição de responsabilidades das situações nas quais a pessoa se acha vitimizada (cada um tem o que merece). É a desconsideração do outro como pessoa ou quando o laço de solidariedade é rompido que se estabelece uma situação propícia para agredir o outro, fortalecida se a ordem emana de uma posição de poder. Nos anos 50, a teoria da personalidade autoritária, elaborada pela Escola de Frankfurt, associa a ideologia e a personalidade para dar conta das tomadas de posições racistas e

Pág. 4 antidemocráticas, ou seja, associa diferentes grupos de atitudes etnocêntricas a uma estrutura de personalidade. Esta seria modelada por uma educação familiar autoritária que determinaria uma disposição de punir aqueles que vão contra os valores convencionais. A educação determinaria um estilo cognitivo que utilizaria clichês e estereótipos, generalizando-os para todas as pessoas de uma mesma categoria, sem levar em conta as diferenças individuais, e que não se altera com a presença de informações novas e contraditórias. Os modelos psicodinâmicos apresentados ressaltam dois mediadores importantes no processo de exclusão: os estereótipos e os preconceitos. Ambos são processos mentais pelos quais se operam a descrição e o julgamento das pessoas ou de grupos que são caracterizados por pertencer a uma categoria social ou pelo fato de apresentar um ou mais atributos próprios desta categoria. O preconceito é um julgamento positivo ou negativo, formulado a respeito de algo ou pessoa. Comporta uma dimensão cognitiva, afetiva e conativa. Os estereótipos, por sua vez, são esquemas que concernem especificamente os atributos pessoais que caracterizam os membros de um determinado grupo ou categoria social dada. São considerados como a simplificação dos pensamentos do senso comum. A sociedade, através da categorização, está segmentada em classes cujos membros são considerados como equivalentes em razão de características, ações e intenções comuns. Esta estruturação obedece o processo de assimilar elementos semelhantes e contrastar os diferentes. A força da necessidade do pertencimento social faz com que haja o engajamento e a implicação emocional com relação ao grupo ao qual pertencemos. A imagem que temos de nós encontra-se ligada àquela que temos do grupo o que nos faz defender seus valores e, em seguida, excluir aqueles que não estão nele. Há um indicativo que o modo de se relacionar com o grupo depende do status que este goza socialmente. Nos grupos dominantes haveria uma aceitação das particularidades e uma diferenciação das identidades enquanto que os grupos dominados manifestariam uma tendência à homogeneização e à definição da identidade social fundando-se em características atribuídas ao grupo. A partir desta constatação , pesquisas apontam que um status marginalizado, privado de poder, interioriza imagens negativas veiculadas na sociedade e seus membros demonstram sentimentos de insegurança e inferioridade. Os preconceitos e os estereótipos alimentam-se do discurso social para servir às forças de poder na regulação das relações entre grupos que se confrontam em situações sociais e políticas concretas. Os estereótipos de deslegitimação visam excluir moralmente um grupo do campo de normas e de valores aceitáveis, por uma desumanização que autoriza a expressão do desprezo e do medo e justifica as violências e penas que lhe infligimos. A exclusão, portanto, se instaura e se mantém graças a uma construção da alteridade que se faz baseada nas representações sociais que a comunicação social e mediática contribui para difundir. O enfraquecimento e ruptura dos vínculos sociais – Serge Paugam A pobreza reveste-se de um status social desvalorizado e estigmatizado. Conseqüentemente há uma tendência ao isolamento destes sujeitos, pois há uma tentativa de dissimular a inferioridade. Além disso, o sentimento de humilhação impede a construção de um sentimento de pertinência a uma classe social. Além disso, embora todos passem por um processo de desqualificação social – que é caracterizado pelo movimento de expulsão gradativa para fora do mercado de trabalho de camadas cada vez mais numerosas da população, além das experiências vividas na relação com a assistência durante as diferentes fases do processo de dependência dos serviços sociais. A categoria é também muito heterogênea, o que oculta a origem e os efeitos a longo prazo das dificuldades dos indivíduos e de suas famílias.

Pág. 5 A relação entre a população designada como pobre e o resto da sociedade, através do conceito de desqualificação social, pode ser definida por 5 elementos:  Estigmatização dos assistidos: o apelo permanente à assistência social condena a massa de pobres para carreiras específicas, alterando sua identidade, transformando sua identidade e transformando suas relações com os outros num estigma.  Uma vez que a assistência é uma forma de regular o sistema social, há um modo específico de integração desta camada na sociedade, o que não pode ser chamada de exclusão pois ela é parte do sistema. A situação das populações que o conceito de desqualificação social permite analisar sociologicamente resulta não apenas em uma forma de exclusão relativa, mas, sobretudo de relações de interdependência entre as partes constitutivas do conjunto da estrutura social.  Há possibilidade de resistência coletiva, ou individual, por parte dos pobres, quando reagrupados em bairros socialmente desqualificados contra a desaprovação social tentando preservar ou resgatar sua legitimidade cultural e sua inclusão no grupo.  Os modos de resistência ao estigma e de adaptação à assistência variam conforme a fase do processo de desqualificação, o que indica que os pobres não constituem um extrato homogêneo da população.  Três fatores explicam o crescente recurso à assistência: degradação do mercado de trabalho; fragilidade dos vínculos sociais; modos de intervenção do estado junto às populações desfavorecidas. O enfraquecimento dos vínculos sociais, segundo o autor, é proporcional às dificuldades encontradas no mercado de trabalho. Os indivíduos desclassificados socialmente fecham-se em si mesmos desestabilizando suas relações com os outros. A fragilidade destas leva a uma dependência dos serviços sociais, pois estas parecem se encarregar dos problemas dos indivíduos. A esta fase segue-se outra caracterizada pela ruptura dos vínculos sociais: elas saem das malhas da proteção social, por terem acumulado fracassos demais, e deparam-se com situações de alto grau de marginalidade, onde a miséria é sinônimo da dessocialização, e buscam o álcool e drogas. Isolam-se da família, que muitas vezes também adota uma postura de separação deste elemento. Após interiorizarem sua condição marginal procuram satisfazer suas necessidades imediatas. 2. A Doença como Projeto – Teresa Cristina Carreteiro A noção de exclusão social à medida que se generaliza torna-se banalizada e oculta as especificidades de cada situação. Esta definição não dá conta do processo de surgimento das situações. A autora adota então a noção de desfiliação social (R. Castel) que visa analisar as situações colocando em evidência seu caráter dinâmico e dialético. Assim os sujeitos que pertencem a categorias sociais ditas não favorecidas, acabam por desenvolver formas de participação social. A autora retomará a noção de projeto em Sartre e Freud para enfocar esta idéia. Em Sartre, o projeto é o momento no qual a transcendência se reafirma. É o momento de integração entre subjetividade, objetivação e dimensão temporal. É direcionado constantemente para o futuro, é a afirmação do homem pela ação e ao mesmo tempo inclui lembranças da infância e escolhas amadurecidas, sendo simultaneamente “uma bruma de irracionalidade”. A liberdade do projeto se apresenta como a resposta própria de cada sujeito (ação) às interpelações de sua existência. É um dos organizadores desta do qual o ser humano não pode escapar. Na perspectiva psicanalista, o projeto se coloca como sintoma de normalidade, ou seja, para viver-se de um modo normal é necessário fazer-se projetos e para tal é necessário negar a morte (a normalidade necessita de uma negação e da instalação da clivagem do

Pág. 6 ego) E, porque a morte é imprevisível, é uma ameaça real, o projeto deve assegurar uma satisfação que, fora dele, é inacessível e inalcançável. Retomando as duas visões, pode-se dizer que o sujeito humano é criador de projetos, o que o leva a participar de sua cultura, de sua história, de ser sujeito de seu próprio corpo e colaborar na construção da civilização. Porém as escolhas referem-se a sujeitos em situação, incluindo as dimensões sócio-psico-históricas. Empregando as referências psicanalíticas, num projeto marcado por tendências heterônomas, sobressai a reprodução, havendo uma prevalência da pulsão de morte, ataque aos vínculos sociais e um trabalho de destruição e desgaste dos mesmos. Há projetos, contrariamente, onde predomina a autonomia e, portanto a criação. Nestes há uma prevalência da pulsão de vida, a criação de vínculos que proporcionam a união e formação de vínculos originais. O estado, como organismo principal de criação e regulação de mecanismos que visam a integração social, faz com que a participação concreta dos indivíduos na vida coletiva se realize, basicamente, pelo trabalho e pela proteção social. No Brasil há uma articulação muito forte entre estas duas dimensões, pois a maioria dos direitos sociais vincula-se à condição de trabalhador. Quanto mais os sujeitos se distanciam destes eixos mais há a tendência de viver formas de desfiliação social. As pessoas que vivem em meios sociais desfavorecidos permanecem à margem das grandes dimensões institucionais ou se beneficiam muito pouco delas. Há uma projeção para a esfera da subjetividade da inutilidade, que gera sofrimento psíquico e que, por ter raiz social, deve ser considerado sofrimento social. Ele pode ser resultado de três diferentes processos:  Não reconhecimento social que se traduz por uma representação de inutilidade na sociedade de produção;  Receio de perder a condição de trabalhador podendo passar a esta “esfera de inutilidade”;  Práticas de trabalhos que não levam a uma valorização social, mas a um desgaste do corpo. Tais construções podem surgir separadas ou unidas. Mas, o sofrimento não tem lugar institucional reconhecido pela proteção social, a não ser através da doença. Neste sentido há um deslizamento do sofrimento social para o individual, indicando que categorias institucionais ignoram formas de mal-estar que não estejam rotuladas como doença. O corpo doente é um modo de sujeitos que pertencem a categorias com acúmulos de desafiliações sociais mantenham um vínculo com a cidadania.Pode-se dizer que as instituições oferecem “projetos-doença” a estes indivíduos, que podem aceitá-los para ter legitimada a cidadania e certas condições de sobrevida, colocando em ato um projeto de filiação social, que também é gerador de sofrimento na medida em que o faz a partir de sua doença, de seu desfuncionamento. 3. O sofrimento ético-político como categoria de análise da dialética exclusão/inclusão – Bader Sawaia Em nome do princípio da neutralidade científica, muitos conceitos científicos têm culpabilizado o sujeito por sua situação social e legitimado as relações de poder, encarando a afetividade como empecilho para a apreensão do fenômeno social. Ela propõe que se encare a afetividade como positiva, negando a neutralidade das reflexões científicas sobre a desigualdade social, permitindo manter viva a capacidade de indignar-se diante da pobreza. Supera-se assim a concepção de que a preocupação do pobre é unicamente de sobrevivência e que não há justificativa para trabalhar-se a emoção quando se passa fome. A exclusão vista como sofrimento de diferentes qualidades recupera o indivíduo, sem tirar a responsabilidade do Estado. É o indivíduo

Pág. 7 que sofre, mas a gênese deste sofrimento está nas intersubjetividades delineadas socialmente. Autores como Heller, Espinosa e Vigotsky concebem a emoção positivamente como constitutiva do pensamento e da ação e que se constitui e se atualiza com os ingredientes fornecidos pelas diferentes manifestações históricas. Segundo Espinosa, a superstição é condição política que constitui a base de um governo corrupto, sendo o medo e as condições políticas de desigualdade e de dominação as causas que geram, mantém e favorecem a superstição. Apresenta um sistema de idéias onde o psicológico, o social e o político se entrelaçam e se revertem uns nos outros, sendo todos eles fenômenos éticos e da ordem do valor. Para Heller, dor é diferente de sofrimento. Dor é próprio da vida humana, emana do corpo por estar implicado, da capacidade de ser afetado. Sofrimento é a dor mediada pelas injustiças sociais, e que é sentido como dor apenas pelos que sentem. A vergonha e a culpa são apresentadas como sentimentos morais ideologizados com a função de manter a ordem excludente, de forma que a vergonha das pessoas e a exploração social constituem as duas faces de uma mesma questão. Por serem sociais, as emoções são fenômenos históricos, cujo conteúdo está em permanente constituição. Em Vigotsky, o significado é o princípio organizador de desenvolvimento de consciência e é inseparável da palavra, embora não seja equivalente.Coloca que a emoção e o sofrimento não são entidades absolutas do nosso psiquismo, mas significados construídos no cotidiano, que afetam o sistema psicológico pela mediação das intersubjetividades. Os processos psicológicos, as relações exteriores e o organismo biológico se conectam através das mediações semióticas, configurando motivos, que são estados portadores de um valor emocional estável, desencadeadores da ação e do pensamento. O significado assim, penetra na comunicação neurobiológica levando o homem a agir em resposta a uma idéia. O sofrimento ético-político retrata a vivência das questões sociais dominantes em cada época histórica, especialmente a dor que surge da situação social de ser tratado como inferior, subalterno, incapaz, apêndice inútil da sociedade. Ela revela a desigualdade social, e a impossibilidade da maioria apropriar-se da produção material, cultural e social de sua época, de movimentar-se no espaço público e expressar seu desejo e seu afeto. Seu contraponto é a felicidade pública, que não é sinônimo de prazer e alegria. Ela é sentida quando se ultrapassa a prática do individualismo e do corporativismo para abrir-se a humanidade. É a negação da afetividade narcísica de nossa época, de uma política que substitui o justo pelo eficaz e vê a multiplicidade humana como perigo e não como um potencial inexplorado de possibilidades sociais não realizadas. A expressão dialética exclusão/inclusão é no sentido de marcar que ambas não constituem categorias em si, mas que são da mesma substância e formam um par indissociável que se constitui na própria relação. Este conceito-processo, que não indica essencialidade mas movimento, só adquire sentido quando são ouvidos aqueles que estão incluídos pela exclusão dos direitos humanos. A exclusão é, portanto, um processo complexo, configurado nas confluências entre o pensar, sentir e o agir e as determinações sociais mediadas pela raça, classe, idade e gênero, num movimento dialético. O conceito de humanidade entendido como um valor ético universal funciona como um princípio regulador sobre o qual pode-se agir no sentido do desenvolvimento da consciência moral. Segundo Kolberg, este desenvolvimento passa por seis estágios de obediência às normas sociais: pelo medo do castigo, pela reciprocidade concreta, pela reciprocidade ideal, pela reciprocidade mediada pelo sistema, pela orientação legalista de contratos e pelo respeito aos princípios éticos universais. A autora introduz a idéia de afetividade e de potência de ação na análise da exclusão que supera a dicotomia necessidade e ética, ou seja, não é preciso atingir um patamar mais alto de conforto material para pensar e agir eticamente.

Pág. 8 Propõe duas estratégias de enfrentamento da exclusão: a de responsabilidade do poder público e a que cabe a cada um de nós. Unindo estas duas dimensões as políticas públicas se humanizam para responder aos desejos da alma e do corpo, com sabedoria. Assim deve se preocupar com o fortalecimento da legitimidade social de cada um pelo exercício da legitimidade individual, promovendo bons encontros e atuando no presente. O objetivo de cada um é rentabilizar maximamente sua potência, diz Espinosa, ao mesmo tempo que afirma que só o conseguimos quando nos unimos uns aos outros alargando nosso campo de ação. Os benefícios de uma coletividade organizada são relevantes a todos e o coletivo é produto do consentimento e não do pacto ou contrato. Assim, introduzir a afetividade na análise e na prática de enfrentamento da exclusão é colocar a felicidade como critério de definição de cidadania e do cuidado que a sociedade e o Estado têm para com o seu cidadão, sem cair no excesso de negar as determinações estruturais e jurídicas, e enaltecer a estatização individualista, promovendo o enfraquecimento da política e das ações na esfera pública e aprisionando os homens em egos escravizados pela tirania e narcisismo da intimidade. 4. Identidade – uma ideologia separatista? – Bader B. Sawaia A busca da identidade como representação e construção do eu como sujeito único é uma das prioridades da modernidade. Ela é referência de liberdade, felicidade e cidadania e resgata a individualidade como valor central e com ela a multiplicidade e o movimento dos fenômenos para superar a lógica das metanarrativas que sufocam as ciências humanas. Tem o sentido de permanência de um modo de ser para enfrentar esta desconstrução de modelos e de desenraizamento do mundo a partir do desenvolvimento do capitalismo. Segundo, Ianni, identidades locais são recriadas a partir de características como raça, religião, etnia, para se refugiar da globalização homogeneizadora. Por outro lado o individualismo que impera em nossa época pode ser o motivador deste resgate da identidade, alimentando o descompromisso social (cultura do narcisismo ou do mínimo eu). Este individualismo massificador carrega uma contradição: a necessidade de se padronizar para pertencer a um grupo e de ao mesmo tempo se destacar como único. A identidade é, portanto, valor fundamental da modernidade, mas é paradoxal. A explicação para isto pode estar na existência de duas concepções de identidade: a identidade transformadora/multiplicidade (normalidade) e a identidade permanência/unicidade (patologia). A desconsideração da dialética implícita no conceito pode permitir uma fetichização de um dos pólos (identidade volátil – impede relações X Identidade clichê – discrimina pelo investimento excessivo na diferença)com a finalidade de discriminar, excluir e dominar nas relações de poder. Ambas são matérias-primas do preconceito e do fundamentalismo e cujo horizonte é a solidão e a violência. Souza Santos situa a identidade nas relações de poder apresentando-a como categoria política e estratégica nas relações de poder. Para ele a identidade é a síntese de múltiplas identificações em curso e não um conjunto de atributos permanentes. É um processo de construção de um modo de ser e de estar no confronto entre igualdade e diferença, que nega o individualismo e abre espaço para o sujeito ao coletivo. A busca pela identidade quer para negá-la, reforçá-la ou construi-la é parte do confronto do poder na dialética da inclusão/exclusão e sua construção ocorre pela negação dos direitos e pela afirmação de privilégios. Quando se supera este uso político, encara-se a identidade como igualdade e diferença, mantendo-se a tensão entre os dois sentidos implícitos no conceito – permanência e transformação - fugindo da lógica da mesmidade - (pau que nasce torto, morre torto). Ela é a qualidade que permite reconhecer e ser reconhecido pela alteridade sem ser discriminado ou discriminar, garantindo a diversidade e a autonomia como realização bem sucedida do projeto reflexivo do eu, condição de se relacionar com as pessoas de modo igualitário.

Pág. 9 Nesta perspectiva, acolhe a multiplicidade nos encontros afetivos, que geram prazer, alimentados pela diversidade sem temer o estranho, mantendo a possibilidade da política criar formas de solidariedade entre diversos através dos bons encontros. 5. A violência urbana e a exclusão dos jovens – Silvia Leser de Mello A autora aponta a questão do trabalho infantil e de adolescentes como uma violência que persiste desde a época colonial até hoje, e, que reflete a ausência do debate sobre igualdade e justiça dentro das políticas públicas apontando muito mais para discussões a respeito de punições mais drásticas do que pela exigência do cumprimento da lei. As escolas acabam por expulsá-las após anos de repetidos fracassos ficando, desde cedo, excluídas de um dos direitos da cidadania que é a educação. Além disso, a convivência de segmentos ricos e pobres num mesmo espaço físico e simbólico, gera distorções nas percepções que os sujeitos constroem uns dos outros. A experiência é partilhada por todos mas vivida sob condições de extremada diferença; os objetos de desejo sejam eles bens materiais ou poder e prestígio não estão ao alcance de todos, embora sejam universalmente exibidos. A visibilidade e a exposição são signos da cidade e seus habitantes sentem as contradições e os aspectos visíveis da desigualdade. No caso das classes subalternas, a aquisição de identidade é problematizada pelo forte sentido de discriminação, vivido sob forma de humilhação que situa seus integrantes como cidadãos de segunda categoria. O desconhecimento sobre a cidade e seus habitantes engendra percepções que podem estar na origem das imagens carregadas de preconceitos, fixadas pelas mensagens permanentemente estereotipadas da associação da pobreza com a violência, divulgadas pela mídia. Assim o outro na cidade é sempre um desconhecido, não-semelhante, o que implica na não conferência a este dos mesmos atributos de humanidade que encontramos em nós. Reconhece-se o diferente como desigual, e logicamente como inferior. O desconhecimento leva ao medo e, o que temos são acusações contra segmentos sociais que são portadores de características desabonadoras, de traços de caráter indesejáveis, de um potencial de violência que os torna pouco humanos. Os jovens por estarem numa idade de maior demanda, quando não encontram na escola, família e nos bairros as respostas às suas insatisfações vão procurá-las nas ruas, espaço desestruturado com possibilidade de ganho e diversão, mas cheio de perigos. Em 1995, 2137 jovens foram assassinados, o que configura um extermínio. Seu perfil era de pertencer às camadas mais pauperizadas da população e não se encontravam em situação de abandono nem tampouco envolvidos com práticas ilegais. Enquanto a mídia se ocupa em “explicitar”quem são estes jovens usando estereótipos e preconceitos (as vítimas são suspeitas), a maior parte dos autores destes crimes permanece impune. A correlação de responsabilização penal/impunidade é de 1,72% em caso de homicídio de criança e adolescente – é o valor que tem a vida de crianças e adolescentes pobres – que ao não terem o direito de terem suas morte investigada estão mais uma vez excluídos da cidadania. A mensagem que está posta é que existem mortos dignos e indignos. É uma batalha contra os pobres e não contra a violência, como um rito necessário à depuração da sociedade mediado pela mídia. Há dois problemas nesta interlocução: a mídia tem dono, é paga e parte do pressuposto da existência do homem médio e é para este modelo abstrato que todas as mensagens são preparadas, selecionadas, modificadas. Assim os meios de comunicação não se limitam a informar: tomam partido, julgam e condenam, usando códigos estereotipados que só fazem aumentar o medo. E ampliar os estigmas. Trata-se de caracterizar toda uma população como perigosa e indigna de confiança, culpabilizando os pobres pela violência urbana.

Pág. 10 6. Pressupostos psicossociais da exclusão: competitividade e culpabilização – Pedrinho A. Guareschi Para entender a exclusão nos dias de hoje é necessário identificar alguns determinantes históricos bem como analisar as relações dos indivíduos entre si e com a sociedade, numa perspectiva histórico-crítica. As relações hoje não são mais só de exploração e dominação, pois são poucos que podem ser dominados e explorados, pois as pessoas são excluídas ou nem chegam ao mercado de trabalho. Para que esta situação de exclusão se mantenha hegemônica na sociedade alguns aspectos ideológicos são fundamentais: a competitividade e a culpabilização. A competitividade é pressuposto do neoliberalismo hegemônico e condição sine qua non para o progresso e desenvolvimento. É o confronto entre interesses diferentes ou contrários que faz com que as pessoas lutem, trabalhem e se esforcem para conseguir melhorar seu bem estar, sua qualidade de vida e sua ascensão econômica. Percebe-se que a competitividade exige a exclusão de alguns e o privilegiamento de outros, como uma “seleção natural”, estabelecida entre os seres humanos, como única forma de viver. Em decorrência disto, há o agravamento da polarização entre ricos e pobres. Por outro lado, diante das relações de produção, encontramos processos de individualização do trabalho, superexploração dos trabalhadores, exclusão social, e uma integração perversa. Assim, na atual conjuntura, a exclusão acarreta um clima de indiferença anti-solidária e a “fabricação”de uma multidão de seres humanos empobrecidos e descartáveis. Segundo Bourdieu, esta lógica neoliberal que prega a extinção do Estado e o reinado absoluto do mercado fez do bem público um bem privado e da república uma coisa sua. O que está em jogo hoje é a reconquista da democracia contra a tecnocracia, que não quer negociar e sim explicar. „preciso romper com a nova fé na inevitabilidade histórica que professam os teóricos do neoliberalismo., inventando novas formas de trabalho político coletivo. A estratégia da culpabilização tem como uma de suas conseqüências a atribuição do sucesso e do fracasso exclusivamente a pessoas particulares, deixando-se de lado as causalidades histórico-sociais. Há uma individualização do social e um endeusamento do individual, impedindo o sujeito de pedir ou até de pensar em responsabilidade global da humanidade pelas conseqüências das ações coletivas a nível da escala planetária. Um outro ponto levantado pelo autor trata-se da visão sobre o saber popular. Parte da academia acredita que este saber deve ser purificado e substituído pelo saber científico. Outra posição é a de, através da comunicação, transformar as pessoas numa multidão de cientistas. Ambos parecem pressupor que o conhecimento popular é perigoso e errado. Atrás de atitudes como estas esconde-se uma tentativa de exclusão ou supressão de determinado tipo de saber. Segundo Souza Santos, não reconhecer estas formas de conhecimento alternativo, gerado por práticas sociais alternativas, implica em deslegitimar as práticas sociais que as sustentam e, neste sentido, promover a exclusão social. É preciso contra o saber criar saberes e contra os saberes criar contra-saberes. O autor conclui colocando que enquanto estas práticas de exclusão forem hegemônicas e os saberes populares forem impedidos de se legitimarem, dificilmente poderá se falar de uma sociedade verdadeiramente democrática e pluralista tanto política como cultural e economicamente.

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